UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA - UEFS. DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA MESTRADO EM HISTÓRIA MIRANICE MOREIRA DA SILVA ENTRE MÁSCARAS E SERPENTINAS: Por uma história dos festejos carnavalescos feirenses (1891-1939) Feira de Santana 2013 UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA – UEFS. DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA. PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA MESTRADO EM HISTÓRIA. MIRANICE MOREIRA DA SILVA ENTRE MÁSCARAS E SERPENTINAS: Por uma história dos festejos carnavalescos feirenses (1891-1939) Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado em História Cultura e Poder da Universidade estadual de Feira de Santana-Ba para a obtenção do título de Mestre em História. Área de concentração História Cultural. Orientador: Prof. César Nascimento Leite. Feira de Santana 2013 Dr. Rinaldo MIRANICE MOREIRA DA SILVA ENTRE MÁSCARAS E SERPENTINAS: Por uma história dos festejos carnavalescos feirenses (1891-1939) A banca examinadora considera essa dissertação adequada para a obtenção do título de Mestre em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana Aprovado em: Banca examinadora ___________________________________ Prof. Dr. Rinaldo Cesar Nascimento Leite (Orientador) UEFS ____________________________________ Prof. Dr. Milton Araújo Moura. UFBA ________________________________________ Profª. Drª. Ana Maria Carvalho dos Santos Oliveira. UEFS Ficha Catalográfica – Biblioteca Central Julieta Carteado S581e Silva, Miranice Moreira da Entre máscaras e serpentinas: por uma história dos festejos carnavalescos feirenses (1891-1939) / Miranice Moreira da Silva. – Feira de Santana, 2013. 134 f. Orientador: Rinaldo César Nascimento Leite. Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Feira de Santana, Programa de Pós-Graduação em História, Cultura e Poder, 2013. 1. Carnaval – Feira de Santana. 2. Festas populares. I. Leite, Rinaldo César Nascimento, orient. II. Universidade Estadual de Feira de Santana. III. Título. CDU: 394.25(814.22) Aos meus amores eternos: Olímpio, Joana e Cleonice. Obrigada por tudo. AGRADECIMENTOS Bom, após todas as “sofrências” da pesquisa, dúvidas e medo, chega o momento de apresentar resultados. Terminei minha dissertação, fiz da melhor forma que pude e hoje sinto orgulho de minha produção, com suas qualidades e lacunas. Mas ninguém caminha sozinho, e em minha caminhada encontrei pessoas que a tornaram leve, agradável e feliz. Então comecemos os trabalhos, a feliz tarefa de agradecer, feliz, mas também traiçoeira, pois posso cometer a terrível deselegância de não citar alguém importante. Contudo há de convir que as atividades cerebrais de um mestrando no final de uma dissertação não é lá algo excepcional, então acredito que estarei perdoada. Esse trabalho se quer teria começado sem o apoio e a crença de que ele era possível do meu orientador Rinaldo Leite, que desde o período da graduação me incentivou rumo à pesquisa. Rinaldo, muito obrigado por toda a dedicação, cuidado e respeito com que sempre tratou o meu trabalho, mais que um orientador tornou-se um amigo, para mim você é um exemplo profissional e pessoal. Sou grata a Ione Sousa pelas conversas divertidas e bastante proveitosas. Muito obrigada pelas sugestões valiosíssimas. Foi um prazer tê-la como professora e amiga. Agradeço a UFES, a instituição onde dei meus primeiros passos como historiadora. Encontrei professores, que sem sombra de dúvidas, serão referências por toda a minha caminhada. Além dos professores, os funcionários sempre estiveram dispostos a contribuir com a realização desse trabalho, em especial todos do Mestrado em História, Cultura e Poder. Não posso deixar de citar os funcionários do Museu Casa do Sertão, sempre muito gentis e prestativos. Sou grata também a professora Ana Maria e ao professor Milton Moura, por suas leituras atentas e contribuições para esta pesquisa. E como não citar Diana, que sempre me ajudou quando precisei. Agradeço a turma 2011 do Mestrado em História Cultura e Poder. As discussões em sala foram sempre muito proveitosas, em especial com Anselmo com suas dicas e sugestões e nossos diálogos, uma bela surpresa. E a Karine Costa, minha querida amiga de todas as horas. O que dizer amiga das nossas prosas, sempre muito boas? Começamos juntas nessa caminhada do mestrado, amizade que começou no apagar das luzes da graduação e foi se fortalecendo com o tempo. Obrigada, Kari, por tudo, por dividir comigo o peso da caminhada e as alegrias. Agradeço por ter amigos acima de tudo, eles estiveram sempre ao meu lado para me ouvir e incentivar nos momentos difíceis: Greice e Jaciara, vocês são muito importantes, adoro vocês. Daniele, Luciel e Eric, que desde sempre foram incríveis, amigos em todos os sentidos. Sem vocês não teria sido tão legal e feliz. Aline Aguiar, que sempre me incentivou na minha pesquisa. Aos meus amigos do trabalho, que além do incentivo, tiveram a flexibilidade em me ajudar, em especial as “batutinhas friends” que tornaram as minhas manhãs mais leves e divertidas, obrigada. E a minha família, razão do meu viver, meu eterno amor. Meu pai e minha mãe, Olímpio e Joana, mais que pais, meus amigos queridos de todas as horas. Obrigada por existirem na minha vida e serem meus pilares. E minha irmã, Cleonice. Acho que a melhor frase que nos resume é: “amizade nossa é coisa tão grande que não sei nem falar, só sei sentir”. Amo vocês demais. Por último e não menos importante a Deus, que trouxe para minha vida essas pessoas incríveis. RESUMO SILVA, Miranice Moreira da. Entre máscaras e serpentinas: por uma história dos festejos carnavalescos feirense. 1891-1939. Dissertação (Mestrado). Departamento de Ciências Humanas e Filosofia. Universidade Estadual de Feira Santana, Feira de Santana-Ba, 2013. Os festejos carnavalescos da cidade de Feira de Santana-Ba, entre os anos de 1891 e 1939, são o foco desse estudo. Trata-se de um trabalho que segue pelo campo da história cultural e busca compreender as práticas e os significados múltiplos que esse cenário festivo apresenta. É identificada na cidade a existência do entrudo, do carnaval e da micareta. Este trabalho considera tais denominações fazem parte de uma festa, que são os folguedos carnavalescos, pois do ponto de vista prático apresentam elementos similares. Entretanto, quando tratamos do aspecto dos significados, eles assumem caracteres diferentes, sobretudo entre as disputas de representação entre o entrudo e o carnaval. Ao longo do trabalho busca-se entender os conceitos de festa e festas carnavalescas, sob a perspectiva histórica e antropológica; descrevem-se as práticas, como e quando ocorriam as festas carnavalescas na cidade; analisase como eram significadas as práticas carnavalescas. Percebe-se nessa etapa o caráter educativo da festa, de como a festa é apropriado como um espaço difusor dos ideais de civilidade. As principais fontes utilizadas foram os jornais, Folha do Norte, Folha da Feira, O Progresso e O Arlequim. Além dos jornais, recorreu-se ao livro 31 anos de Micareta de Helder Alencar, que faz uma espécie de almanaque festivo, e também a Revista Panorama da Bahia, que fez um número comemorativo de 50 anos de folia, na qual foi construído um retrospecto das festividades carnavalescas. Palavras Chaves: Festas – Festas carnavalescas – Feira de Santana. ABSTRACT SILVA, Miranice Moreira da. Entre máscaras e serpentinas: por uma história dos festejos carnavalescos feirense. 1891-1939. Dissertação (Mestrado). Departamento de Ciências Humanas e Filosofia. Universidade Estadual de Feira Santana, Feira de Santana-Ba, 2013. The carnival celebrations in the city of Feira de Santana-BA, between the years 1891 and 1939, are the focus of this study this is a work that follows the field of cultural history, seeks to understand the practices and the multiple meanings that this scenario festive presents. It identified the existence of the town entrudo, carnival and micareta. This paper considers such designations are part of a party that is the carnival amusements, for the practical point of view have similar elements. However, when dealing with the aspect of meaning, they assume different characters, especially between representation disputes between the entrudo and the carnival. Throughout the work seeks to understand the concepts of party and carnival celebrations, in the historical and anthropological perspective, describes the practice as and when occurred the carnival celebrations in the city, looks like they were meant practices carnival. It can be seen at this stage of the educational character party, as the party is an appropriate space diffusing the ideals of civility. The main sources used are newspapers, Folha do Norte, Folha da Feira, O Progresso and O Arlequim. In addition to newspapers, resorts to the book 31 years Micareta Helder Alencar, which makes a sort of almanac festive, and also the magazine Panorama da Bahia, which has a number commemorating 50 years of micareta, which makes it a retrospect the festivities carnival. Keys - Words: Parties - Parties Carnival - Feira de Santana. SUMÁRIO INTRODUÇÃO___________________________________________________________10 Capítulo 1: O que é esse carnaval?___________________________________________ 22 1.1. A festa como um objeto histórico ________________________________________ 23 1.2. O carnaval é mutável __________________________________________________ 27 1.3. Festas carnavalescas ___________________________________________________ 30 1.4. As concepções de festas carnavalescas ____________________________________ 33 1.5. O mito da evolução carnavalesca _________________________________________43 Capítulo 2: Os carnavais da cidade ___________________________________________47 2.1. Os carnavais feirenses ___________________________________________________48 2.2. A organização dos folguedos _____________________________________________ 51 2.3. O carnaval dos anos trinta e a suposta “crise” carnavalesca ______________________ 62 2.4. Micareta: outro carnaval (?) _______________________________________________72 Capítulo 3: Carnaval e micareta: a construção dos significados festivos__________________________________________________________________ 83 3.1. Disputas ideológicas no cenário brasileiro __________________________________ 84 3.2. A construção de significados dos festejos carnavalescos em Feira de Santana______ 88 3.3. Muito além de uma sobreposição ao entrudo_________________________________ 99 3.4. A “criação” da micareta_________________________________________________ 102 3.5. Carnavais: festa da pluralidade _________________________________________ 106 3.6. Os múltiplos significados: trabalho e lazer __________________________________ 115 Considerações finais ______________________________________________________119 Bibliografias_____________________________________________________________123 Fontes__________________________________________________________________128 Anexos _________________________________________________________________130 INTRODUÇÃO A temática do carnaval apareceu entre os historiadores nas últimas décadas do século XX dentro da corrente historiográfica da nova História Cultural, movimento este que trouxe novos objetos à pesquisa histórica. Essa inquietação teve como um ponto decisivo a Escola do Annales, originada na França em 1929.1 A partir dessa crise de paradigmas, novos problemas surgiram. A História Cultural nasceu um pouco depois, como um contraponto a uma das vertentes da Escola dos Annales, que é a História das Mentalidades. Para Chartier, um dos percussores da vertente Histórica Cultural, as mentalidades contemplavam aspectos do cotidiano, do âmbito cultural e social, porém caiu na mesma armadilha do universalismo, que era tratá-los de forma reducionista, ou seja, deixava escapar as especificidades das relações humanas2. As discussões sobre os novos problemas ganharam espaço e fomentaram o diálogo historiográfico. Ciro Flamarion foi um dos autores que buscou compreender esse movimento, emitindo sua opinião acerca dessa abordagem. Ao opinar sobre as representações, o autor fez um panorama sobre o pensamento de Chartier e sobre a construção do seu pensamento histórico. Flamarion3 afirmou que Chartier posicionou-se teoricamente a partir da crítica feita a Clifford Geertz4, quando afirmou que as formas simbólicas ao serem organizadas e apropriadas ocultavam as diferenças. E Chartier, ao aproximar a sua interpretação de Bourdier, especificamente quanto à discussão de habitus, fortaleceu seus ideais. Para Chartier, o habitus seria o fator que é determinado pelas relações sociais e que ao mesmo tempo determina as percepções sociais. Antes dessas inovações históricas, a discussão festiva era bastante explorada pelos antropólogos. Com o advento da Nova História Cultural, os historiadores ligados a essa abordagem passaram a observar os festejos enquanto uma possibilidade para pensar o 1 Esse movimento teve como idealizadores Lucien Febvre, Marc Bloch, Fernanda Braudeu, Georde Buby, Jacques Le Goff e Emmanuel Le Roy Ladurie. Este último produziu um dos maiores clássicos sobre o carnaval. O carnaval de Romanes. A revista foi uma inovação no pensamento histórico, que propunha: “Em primeiro lugar, a substituição da história tradicional narrativa de acontecimentos por uma história-problema. Em segundo lugar, a história de todas as atividades humanas e não apensa história política”. BURKE, Peter. A Escola doa Annales (1929-1989): a Revolução Francesa da historiografia. São Paulo: UNESP, 1997. P. 11-12. 2 CHARTIER, Roger. A História Cultural entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, Portugal. Difel. 1990. Esse texto de Chartier é justamente uma tentativa de buscar respostas para a insatisfação coma frente da história cultural desenvolvida na França nas décadas de 60 e 70. 3 CARDOSO, Ciro Flamarion. Uma opinião sobre as representações sociais. In: CARDOSO, Ciro Famarion; VAINFAS, Ronaldo. (0rg.). Domínios da História: teoria e metodologia. Rio de Janeiro. Campus, 1997. P. 14. 4 Cf. Burke, a marca deixada pela antropologia através dos trabalhos de Geertz foi importante para a chamada nova história cultural. BURKE, Peter. O que é história cultural? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.2005 11 cotidiano e as práticas de determinada sociedade. Isso deve ser pensado sem perder de vista os conflitos sociais envolvidos nas formas de brincar. Sobre esse aspecto, a história cultural possibilita pensar a história sob outros ângulos. Trouxe à discussão sujeitos antes não contemplados pelo estudo da História. Além disso, fez emanar novas abordagens históricas; permitiu pensar a construção dos significados da cidade e de que forma esses sujeitos a ocupam, quais as interpretações eles imprimem nesse espaço, que é constantemente construído e re-significado.5 Essa óptica cultural retoma a ideia dos sujeitos e as suas práticas culturais, porém isso não significa um abandono dos aspectos econômicos e sociais. Durante muito tempo, erroneamente a História Cultural foi associada ao abandono das estruturas e de um relativismo extremo. Sobre essas críticas, Flamarion6 afirmou que na verdade Chartier teria se tornado tão reducionista quanto o que ele havia criticado, pois teria priorizado as relações culturais como fatores determinantes das sociedades. O que ocorre é justamente o contrário, no estudo das práticas culturais as estruturas são levadas em consideração para contextualizar o objeto de estudo.7 A proposta da História Cultural é voltar o olhar para as especificidades estruturais do loco da sua pesquisa8. Durante um longo período esta temática foi vista como uma perspectiva irrelevante. Contudo os aspetos do cotidiano apresentam questões políticas, econômicas e sociais, não existe ruptura entre esses universos, eles estão imbricados, misturados de tal forma que a sua separação é inviável. E quando tal prática separatista é efetuada, limita o âmbito histórico e as possibilidades do objeto de estudo. Por este motivo, é pertinente uma leitura das “pequenas estruturas”, pequenas no sentido da busca das especificidades, pois as generalizações na História Cultural correm o mesmo risco de qualquer análise histórica, que é o da homogeneização, que recai na antihistória. Isso porque se percebermos as estruturas culturais como uma massa uniforme, perdese o sentido da pesquisa, a busca pelo peculiar, pois ao construir uma história contemplaríamos todas as outras e a pesquisa teria um fim pronto e determinado, restando 5 Sobre festas, ver PRIORE, Mary Del. Festa e utopias no Brasil colonial. São Paulo: Brasiliense, 2000. A historiadora, logo na introdução, faz uma espécie de defesa da temática, apontando para as possibilidades festivas ao afirmar que se trata de: “Expressão teatral de uma organização social, a festa é também fato político, religioso ou simbólico” p. 10. Afirma ainda que seja uma temática que além da pura descrição dos festejos, obriga o historiador sobre as abordagens metodológicas para esta análise. 6 FLAMARION, op.cit. 7 CHARTIER, Roger. A História Cultural entre práticas e representações. Nesse trabalho Chartier faz a seguinte caracterização dos estudos de história cultural: “A História Cultural, tais como a entenderam, tem por principal objeto identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler” p. 17. 8 Idem, p.17 12 apenas a pura reprodução. Contudo, a história, antes de qualquer coisa, é movimento. Não se pode perder de vista que as práticas culturais são resultado de ações humanas, de sujeitos localizados em um tempo e um espaço historicamente construído. E as ações humanas mudam, se repetem, são significadas re-significadas dentro de um contexto que é próprio de cada realidade. A partir de uma observação, Chartier afirmou a partir da percepção das peculiaridades podem ser compreendidas as relações entre sistemas de crença, valores culturais e representações, pois a realidade é descontinua e heterogênea9. Isso não significa que as micro realidades sejam recortado de contextos “maiores”, e que entre elas não existam relações. Pelo contrário, através desses “close-ups” pode-se pensar essa relação entre as estruturas “menores” e “maiores”. As festas são características das comunidades, porém o formato e a dinâmica que ela assume é própria de cada lugar. Embora estabeleça ligações com outras, mesmo que tratem da mesma festa, os seus significados e suas re-significações são únicos.10 A crítica à História Cultural e principalmente ao modelo de representações consistiu no fato de que haveria apenas uma inversão da pirâmide. Segundo os críticos, a História Cultural não teria proposto nada de novo, e sim uma substituição dos fatores econômicos em prol dos culturais11. Porém essa crítica tornou-se frágil ao passo que os estudos culturais indicavam para a busca das especificidades. Não foi proposta pelos estudiosos culturais uma hierarquia, e sim uma análise que possibilitou pensar nas relações e em práticas do cotidiano, bem como a negação de modelos prontos. Todavia não significa que as especificidades neguem uma totalidade, há uma ligação entre essas estruturas. Sob esta perspectiva, o presente trabalho analisa as origens das festas carnavalescas em Feira de Santana-Ba, no período entre 1891 e 1939. O termo festejos carnavalescos12 é mais adequado nesse trabalho, pois dentro desse recorte temporal foram identificadas práticas denominadas de entrudo, carnaval e micareta. A partir da análise desse recorte, objetiva-se 9 CHARTIER, Roger. A História Cultural entre práticas e representações GINZBURG, C. Olhos de Madeira: Nove Reflexões sobre a Distância. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. No capítulo que trata de representação faz uma ressalva sobre isso que o fato de existirem semelhanças entre as culturas não permite associá-lo de forma indiscriminada, e tratá-las dessa forma é retirar delas o caráter histórico. p.87. 11 As críticas feitas ao método da história cultural partiram, sobretudo, da escola marxista, afirmando que as leituras eram subjetivas e que faltava algo que ligasse ao real, uma relação econômica ou social. Além disso, o marxismo tradicional, ortodoxo, acusava os historiadores da história cultural de superestimar a homogeneidade cultural. Sobre esse debate ver BURKE, O que é história cultural. 12 BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna: Europa 1500-1800; tradução Denis Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Para Burke, festas carnavalescas enfatizam os termos da renovação, comilança, sexo violência ou inversão. Isso no contexto europeu dos séculos XVI ao XVII. Em Feira de Santana optei por está denominação, pois elas, o entrudo, o carnaval e a micareta, apresentam práticas semelhantes que as permeiam, claro que sendo re-significadas, a partir de suas relações. 10 13 perceber de que forma as re-significações carnavalescas ocorreram e como ocorre a sobreposição ao entrudo e os conflitos envolvidos na construção da festa. Nesse contexto esse trabalho analisa as vivências carnavalescas em Feira de Santana. Mesmo identificando práticas associadas ao entrudo, os jornais não apontaram para a sua caracterização. Essa modalidade festiva apareceu de forma atrelada ao carnaval, usada para caracterizá-lo e diferenciá-lo da prática carnavalesca mais antiga. Algumas explicações quanto ao uso das nomenclaturas são importantes: quanto estiver fazendo referência à manifestação carnavalesca de forma geral, farei uso do termo festas carnavalescas ou folguedos carnavalescos. O termo carnaval será utilizado para denominar o que era identificado como civilizado. Entrudo fará referência às práticas que antecedem ao carnaval civilizado. A nomenclatura micareta será utilizada para fazer referência aos festejos que ocorriam após o período da quaresma. Além desses termos, serão utilizadas as separações entre práticas carnavalescas, usadas para denominar os festejos carnavalescos independente da temporalidade, e o período carnavalesco que designará os festejos que ocorriam no momento que antecediam a quaresma. O carnaval apareceu na cidade de forma mais expressiva em 1891, “sobrepondo” o entrudo, prática originalmente portuguesa. Posteriormente, o carnaval passou a coexistir com a micareta em 193713. Apesar de ser forte a ideia de uma sequência festiva e, mais que isso, a concepção de ruptura, é importante compreender entrudo, carnaval e micareta como um tipo de festividades similares, dentro de uma condição geral que são as festa carnavalescas. Essa concepção de diferenciá-la é em grande parte muito mais uma questão de designar significados do que uma mudança substancial da estrutura da festa. Em uma mudança de entrudo para o carnaval existe uma modificação de representação; mas no que diz respeito à alteração do carnaval para a micareta, não ocorreu mudanças substanciais na estrutura. Ela continuou com os mesmos elementos, porém em uma data diferenciada. Logo, essas manifestações não representam festas individuais e distintas. Maria Clementina Cunha14 afirma que, durante a maior parte do século XIX, entrudo e carnaval significavam o mesmo conjunto de brincadeiras e a diferenciação de significado só apareceu no fim do século XIX, com o advento das idéias civilizadoras e modernista no Brasil. 13 ALENCAR, Hélder. 31 anos de Micareta. Feira de Santana-Ba UEFS, 1968 também afirma que em Feira de Santana existiam esporadicamente festejos do tipo carnavalescos após a quaresma, a páschoela, ou páscoa carnavalesca. 14 CUNHA, Maria Clementina Pereira. Ecos da Folia: uma história social do carnaval Carioca entre 1880 e 1920. São Paulo: Companhia das Letras. 2001. 14 A festa carnavalesca em Feira de Santana também sofreu o impacto da necessidade de modernizar-se, sendo caracterizado pela substituição do “bárbaro” entrudo pelo “civilizado” carnaval. O ideal de civilidade e modernidade não se restringiu apenas aos elementos modernizadores de higienização, limpeza das ruas e das construções modernas de infraestrutura, também tinha como projeto atuar no comportamento e nas práticas cotidianas. O objetivo era educar as pessoas em um molde considerado mais adequando, que em palavras do período, significava civilizar.15 Segundo as fontes, sobretudo o Folha do Norte, existia uma necessidade em relacionar a cidade à imagem de civilizada, com expressões do tipo: “a Feira, (...) já é uma cidade adestrada e que muito merecidamente goza dos forros de civilidade” 16 . Frases como estas perpassavam as notícias sobre os festejos feirenses, o que indica que os projetos de civilidade atuaram também no âmbito das festas. Dessa forma os sujeitos que compunham os festejos carnavalescos estavam imbuídos de intencionalidades, para além de tais momentos festivos. Isso pode ser verificado com reportagens de primeira página que associavam o entrudo às práticas denominadas bárbaras e o carnaval à civilidade e a modernidade. Feira de Santana apresentou na prática do entrudo uma peculiaridade, pois na maioria dos estudos sobre o tema o entrudo teria perdido a sua vigência ainda no século XIX. Segundo Louzada,17o entrudo passou a ser proibido pelas forças polícias na capital do Império, Rio de Janeiro, em 1854 e a partir de então passou a ser visto como incivilizado e inapropriado. Em Feira de Santana, o entrudo foi citado pelos jornais enquanto uma prática que ameaçava a modernidade feirense até o fim da década de 1920. Essa peculiaridade apresentou-se como um contraponto a um dos projetos e significados construídos sobre os festejos. A escolha do recorte inicial de um festejo é bastante complexa, pois mesmo que os historiadores encontrem indícios materiais não podem afirmar que antes daquele momento não existiam os festejos. Há dois autores que citaram esse marco inicial na cidade de Feira de 15 LEITE, Rinaldo Nascimento. E a Bahia civiliza-se... Ideais de civilização e cenas de anticivilidade em um contexto de modernização Urbana – Salvador (1912-1916) dissertação de mestrado. Salvador. UFBA, 1996. O autor atenta para essa amplitude dos ideais de civilidade e modernidade “Eis, em síntese, as aspirações das elites com referência à civilização e modernização: 1) atitudes racionalizadas moralizadas e cultas dos indivíduos; 2) adoção de padrões culturais europeus; 3) reformas que permitissem a implantação de uma nova estética e a introdução de modernas tecnologias, tais como a abertura de avenidas e o alargamento de ruas”. P.13. No caso de Feira de Santana, os dois primeiros itens são pertinentes ao tratar das práticas. Porém o terceiro aparece como um pano de fundo, pois a escolha dos espaços estava atrelada a esses ideais. As festas ocorridas em locais fechados, as sedes das filarmônicas, eram classificados como adequadas e civilizadas, enquanto os cortejos perpassavam por ruas largas da cidade a Rua da Direita, atual Conselheiro Franco. 16 Folha do Norte, Feira de Santana, Janeiro de 1910, nº 20, ANO II. 17 LOUZADA, Wilson (org.) Antologia de Carnaval. Cruzeiro, 1945. p, 11. 15 Santana. Helder Alencar18 determinou que em 1891 que havia carnaval nesta cidade, isso fundamentado em uma publicação do Jornal O Município. Servindo como um contraponto a essa discussão, Reginilde Santa Barbara afirma que “O carnaval feirense teve início em 1924, sendo celebrada como a festa da civilização que fazia frente ao entrudo, prática que já havia algum tempo, estava em desuso na cidade” 19 . Tem-se, então duas datações diferentes em estudos anteriores. Nesse caso o que causou a discordância foi a nomenclatura empregada, ambos utilizaram a palavra carnaval, mas com sentidos diferentes, Santa Barbara identificou 1924, como o surgimento do carnaval dito civilizado, enquanto Alencar o empregou em um sentido mais amplo. Por esse motivo ambos apontam para datas diferentes. No trabalho com as fontes foi possível detectar e catalogar as práticas carnavalescas nos jornais a partir de 1901, então a princípio seria seguro afirmar essa data. Entretanto em uma matéria exibida em 1939 surge um forte indício de que o marco de 1891 seria também coerente. Podemos alcançar estrondoso sucesso, porque há vastos exemplos na Bahia e nesta cidade mesma. Após o período áureo dos carnavaes bahianos – 1887 à 1889, triênio em que os “Fantoches” e a “Cruz Vermelha se mostraram inexcedíveis em sumptuosidade, em primores de arte, em expressão cultural (...) foi isso em 1890 e os “Fantoches” exibiram um cortejo magnificente. No anno seguinte, porém, este victorioso clube teve que engendrar uma deliciosa sarrabullhada, em que o luxo se enrodilhava como cômico, com os arranjaram, em 1892, um tuti frut enfronhando-se em dominós branco, de morim, orlando de rubro [...] Um ano depois surgia a “Embaixada chinesa”. (...) também entre nós as Jardineiras nos últimos bandos de máscaras, não foram menos aplaudidos do que o cordão Veteranos da Feira o tem sido.20 A reportagem como um todo tratou de uma justificativa para a permanência do carnaval durante o período carnavalesco – espaço de tempo que antecede a quaresma. Durante essa reportagem fez uma digressão para citar os carnavais anteriores. Ao fazer isso, trouxe um quadro geral da Bahia, nesse caso Salvador, afirmou a existência dos festejos dos anos de 1887 a 1892. Logo no início do fragmento, disse que a exemplos da Bahia, ou seja, Salvador, 18 Cf. ALENCAR, Hélder. Op.cit. O trabalho de Helder Alencar é utilizado neste trabalho não enquanto uma referência bibliográfica, mas como uma fonte, pois mesmo sem representar um documento do período estudado, o autor faz um levantamento dos elementos carnavalescos desde a chamada prática do Entrudo. 19 SANTA BARBARA, Reginilde Rodrigues. O caminho da Autonomia na conquista da dignidade: sociabilidade e conflitos entre lavadeiras em Feira de Santana (1929-1964). Dissertação de mestrado UFBA. Janeiro/2007. p. 16. 20 Folha do Norte, Feira de Santana, 4 de fevereiro de 1939, Ano XXX. Nº 1543 16 esta cidade (Feira de Santana) havia estrondosos carnavais nesse período. Mais adiante, ao elencar os anos áureos do carnaval da “Bahia”, falou “também entre nós as jardineiras” dando a entender que nos anos citados havia nesta cidade os festejos, exemplificando com a participação das Jardineiras. Esse indício aponta para a existência de carnaval em Feira de Santana na última década do século XIX. Aliados ao fragmento do Jornal O comercial, apresentado por Alencar e os dados da pesquisa é possível afirmar a existência de manifestações carnavalescas em 1891 na cidade de Feira de Santana. O recorte final foi estabelecido como 1939, por entender, através da leitura das fontes, que é neste ano que a micareta deixa de ter a sua existência atrelada ao festejo de fevereiro, pois entre 1937 e 1939, a micareta tinha a sua existência vinculada ao fracasso do carnaval. Seria um festejo complementar a este, que não teria conseguido satisfazer aos anseios festivos. O termo satisfazer foi amplamente utilizado no jornal Folha do Norte para justificar a existência da micareta. A partir da década de 1930 noticiava-se uma insatisfação com o carnaval, sentimento que foi atribuído aos participantes da festa. Porém como os jornais que circulavam na cidade nesse período não tinham o espaço do leitor, não foi possível verificar de onde partia essa insatisfação. Portanto essas questões serão discutidas com maior profundidade no segundo capítulo. A escolha desse marco, 1939, não indica o fim do carnaval. Esse término foi sinalizado por Aldo Silva em 1944: “ De 1944 em diante, somente a micareta tem espaço na imprensa, somente ela realiza-se na cidade, contando com o apoio do comércio e gerando oportunidade de negócios” 21 . O autor baseia-se no fim das fontes sobre o carnaval para estabelecer o seu recorte. Porém assim como é ariscado determinar o nascimento de manifestações culturais, também é perigoso determinar o fim. Identifica-se o ano de 1939, como determinante para a substituição de datas festivas mediante o crescimento da autonomia da micareta em relação ao carnaval. O fato de identificar o ano de 1891 como um marco para analisar os festejos carnavalescos não descarta a possibilidade de que muito antes disso, essa vivência carnavalesca não estivesse presente na cidade. As práticas denominadas carnavalescas apareceram em estudos, como o trabalho de Emanuell Le Roy Ladurie22 que afirma sobre a sua existência em períodos mais remotos. As vivências carnavalescas nas sociedades são bastante antigas. E não existe nenhum indício que descarte a possibilidade de em Feira de 21 SILVA, Aldo José Moraes. De terra sã a berço da Micareta: estratégias constitutivas da identidade social em Feira de Santana. Revista de História Regional. 104-133, Inverno, 2008. 22 LE ROY LADURIE, Emmanuel. O carnaval de Romans: da candelária à quarta-feira de cinzas, 1579-1580. São Paulo: Companhia das letras, 2002. 17 Santana ter sido diferente, ou seja, não podemos descartar a possibilidade de que as manifestações carnavalescas tenham sido bem mais antigas do que esse marco de 1891. A referência sobre essas práticas carnavalescas em 1891 aparece na fonte reproduzida por Alencar23 do jornal O Município, em um levantamento feito pela Folha do Norte em 1939 no jornal. Voltam a aparecer notícias sobre o carnaval no jornal O Progresso em 1901 de forma tímida e com pequenas notas. Essa escassez de notícias é justificada porque os jornais que circulavam nesse período na cidade eram de pequeno porte, formado por quatro laudas, logo as informações que seriam publicadas passava por um crivo de relevância, não eram como os jornais de hoje, em que são divididos em diversos cadernos. Tudo de relevante deveria caber naquele pequeno espaço; e nas primeiras décadas do século XX, o que prevalecia nesses folhetins eram os aspectos políticos. Voltando a trajetória festiva, segundo as fontes, o carnaval começou a declinar nos anos 1930, quando lhe foi atribuída um contexto de “crise”. Em 1937, como uma tentativa de resolver a “crise”, foi criada, por sujeitos do grupo Folha do Norte, a micareta, para complementar o carnaval, que não teria conseguido suprir os anseios da “sociedade feirense”. A partir de 1939, a micareta passou a representar os festejos carnavalescos na cidade, tendo um maior destaque dentro dos meios de comunicação que o carnaval. Dessa forma, esse recorte é essencial para entender de que forma se estabelecem as práticas carnavalescas em Feira de Santana-BA e de que forma as relações que estão para além dos festejos interferem nessa construção. Para essa investigação, as fontes impressas fundamentam a pesquisa, apesar de atualmente serem fontes bastante utilizadas, são instrumentos de leitura relativamente novos. Os jornais utilizados foram: Folha do Norte, Folha da Feira, O Município, O Progresso. Nesse sentido, Clóvis Ramaiana24 apresenta um panorama dos jornais feirenses, localizandoos quanto ao espaço ocupado nas relações de projetos políticos; o que é pertinente, pois os jornais não noticiam apenas, eles constroem significados.25 Além desses periódicos, foi utilizada a publicação O Arlequim (1939), que circulava apenas no período da micareta. Esse folhetim tinha circulação gratuita e contava como diretor 23 ALENCAR, Alencar. Op.cit. O L I V E I R A , C l ó v i s F r e d e r i c o R . M . De Empório a Princesa do Sertão: utopias civilizadoras em Feira de Santana (1893-1937). Dissertação de Mestrado. UFBA. 2000. 25 SCHWARCZ, Lilian Moritz. Retrato em Branco e Negro: jornais, escravos e cidadãos em São Paulo no final do século XIX. São Paulo: companhia das Letras, 1987. Nesse texto a autora traz uma contribuição metodológica para os historiadores que trabalham com jornais. “tudo (nos jornais) parecia então bastante ‘conhecido’, sendo que, para o leitor mais distante, uma das dificuldades é justamente a de conseguir penetrar por esses valores às vezes silenciosamente compartilhados nessa notícia pretensamente irrelevantes, mas ganha outro colorido quando inserido em todo esse contexto” p. 62. 24 18 o personagem Zé- ri- alto, um personagem que faz alusão ao Zé-Pereira. “Quanto á origem do nome, dizem uns que, em certas localidades de Portugal é o bombo, um instrumento musical, conhecido por Zé-Pereira” 26. Tal personagem tinha como objetivo divulgar, com um mês de antecedência, a programação e as músicas que seriam executadas durante os três dias de festa. Uma característica marcante desse informativo era a presença de inúmeros anúncios das casas comerciais da cidade. Nessas publicações existiam mais anúncios do que notícia, por esse motivo, supõe-se que o dinheiro que financiava essa publicação vinha da publicidade, permitindo a circulação gratuita. Porém, nessa participação comercial há um ponto de controvérsia, pois as fontes também indicam certa resistência dos comerciantes que não contribuíam a contento para a realização dos festejos carnavalescos em fevereiro. É importante pensar os jornais não apenas como instrumento de notícia e sim como sujeitos que constroem as ideias de carnaval; pensá-los também enquanto objeto, pois atuam diretamente no processo de construção dos significados dos festejos carnavalescos. Roger Chartier em, A aventura do livro 27 , atentou para o aspecto da produção dos textos escritos, apontou para a necessidade de compreendê-los em conjunto, interligar os processos da construção textual, analisar qual a intencionalidade e à que público a publicação é direcionada. Como o autor dedicou a sua pesquisa às práticas de leitura, é importante não só pensar a produção dos jornais, mas também a que público ele pretende atingir. No período estudado não encontro a presença desse leitor nos jornais, pois estes em questão não ofereciam um espaço para o leitor expressar sua opinião. Então, a forma de identificar esses posicionamentos e a dimensão dessas leituras será percebida na prática, nas quais os conflitos possibilitaram pensar os divergentes significados. Para essas leituras históricas sobre os festejos carnavalescos feirenses, alguns autores são fundamentais do ponto de vista teórico e metodológico, dentre eles Roger Chartier28. Este pensou a tríade representação, prática e apropriação a partir da qual podemos tornar a festa legível. Além disso, ajuda-nos a pensar a história a contrapelo, pois a historiografia do carnaval costuma contemplar o carnaval das capitais, como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador. Essa perspectiva aponta para contribuir para o estudo do carnaval. Pensar as especificidades das vivências carnavalescas em Feira de Santana, mas articulá-las a uma estrutura e um projeto de remodelação dos costumes e práticas que atendiam ao projeto 26 FAZENDA, Vieira. O Zé-Pereira. In Louzada. Op.cit, p. 41. CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador; conversações com Jean Lebrun. São Paulo: UNESP/IMESP, 1999. 28 CHARTIER, Roger. A História Cultural entre práticas e representações. 27 19 modernizador e civilizado. Segundo Chartier, as práticas identificam e fazem reconhecer grupos. Estas, por sua vez, estão imbuídas de significados e passíveis de leitura. As representações resultam de jogos de interesses dos grupos envolvidos e faz do discurso instrumento para legitimar determinadas práticas. Nesse ponto, ele apresentou uma ressalva metodológica, pois as fontes analisadas pelo historiador não foram construídas longe desses conflitos. Isso ajudou a pensar os jornais enquanto um disseminador de ideais e intencionalidades, por isso é importante contextualizar a fonte e o lugar de onde ela fala. A construção da notícia foi elaborada por pessoas que têm opiniões construídas dentro de um contexto e certamente esses posicionamentos apareceram na notícia, estando carregadas de significados e intencionalidades. Nesse aspecto, Darnton29 apresentou uma contribuição metodológica para o trato com as fontes escritas, principalmente como perceber os modos de escrever, a construção do texto, e o que é descrito. Porém isso vai além da escrita, o historiador deve ter esse cuidado com todo o tipo de fonte que lhe é apresentada. Em um dado momento devemos encará-la como um objeto também, inserido em um contexto de produção. Tendo como fonte principal do trabalho os jornais, essas colocações sobre a confecção e recepção das informações são importantes para não tomar o que diziam os jornais como representantes e porta-vozes do povo e a voz da verdade. O jornal diz uma das versões, não se pode achar que o que eles noticiavam sobre os festejos carnavalescos fossem a opinião de todos os sujeitos que compunham a festa. As contribuições de Darnton e Chartier estão na importância de compreender de que forma um mesmo texto pode repercutir de formas diferentes (aprendidos, manipulados e compreendido). Além destes, Natalie Zemon Davis30 apresenta também contribuições metodológicas. A historiadora norte americana tem na literatura uma de suas principais fonte, pensando através dela, a multiplicidade de significados de práticas culturais, dando ênfase ao estudo das simbologias. Em seu texto “As Mulheres por cima” ela pensou nas inversões simbólicas através das trocas de papéis entre homens e mulheres e os lugares e os limites dessa prática. Ao pensar sobre as festas carnavalescas, percebeu este festejo dentro do contexto de uma Europa moderna em transformação. Ela não desconsiderou esse fator ao refletir os aspectos culturais, pelo contrário, questionou em que medida essa estrutura interfere na construção de significado do seu objeto. 29 DARNTON, Robert. O burguês organiza seu mundo: a cidade como texto In: DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos. 4ª Ed. São Paulo. Graal 1986. 30 DAVIS, Natalie Zemon. Culturas do povo: sociedade e cultura no início da frança moderna. 2ª Ed. São Paulo. Paz e terra, 2001. 20 O carnaval é polissêmico e um dos seus significados é a ideia de inversão social trabalhada por Davis, isso possibilita pensar a festa como um espaço no qual as relações sociais ditam a sua dinâmica e não o contrário. As festas, em específico a carnavalesca, não são algo que está acima dos sujeitos, elas não pairam em um plano superior. A festa só existe a partir da prática dos sujeitos, localizados em um tempo, espaço e contexto social. Mikhail Bakhtin, apesar de estabelecer uma distância dos outros autores no aspecto teórico, ofereceu contribuições para quem pesquisa essa temática. Ele trabalhou sobre os significados do carnaval, os espaços e as nuances dessa vertente cultural. Fez sua reflexão partindo da ideia de que o mundo carnavalesco representa uma segunda vida, ao afirmar que: “ Ele (o carnaval) se situa nas fronteiras entre a arte a vida. Na realidade, é a própria vida apresentada como elementos característicos da apresentação”31. O evento carnavalesco funcionou em sua análise, não como uma ruptura, mas sim como outra perspectiva da vida. Nesse aspecto, contribuiu para pensar a dualidade do mundo, pois nos festejos feirenses foi possível perceber a movimentação dos agentes participantes entre os diversos espaços e momentos, a vida cotidiana estava presente nessa movimentação carnavalesca. Pessoas que ocupavam uma posição na filarmônica como o músico Mané de Emilia, que no cordão das Melindrosas ocupava também o papel de folião e dirigente. Ou no caso dos donos do jornal Folha do Norte, que teciam críticas e noticiavam o carnaval e eram membros da comissão da Filarmônica 25 de Março, em cujas sedes ocorriam os bailes. Significativas também foram as contribuições de Maria Clementina Cunha32 ao apresentar o desenvolvimento da festa carnavalesca no Brasil, suas ideologias e significados. Trabalho semelhante ao que Alexandre Lazzari33 desenvolveu em Porto Alegre, na qual analisou a decadência do carnaval na cidade. Ambos apresentaram uma boa discussão sobre o entrudo. Esses trabalhos são fundamentais para pensar a temática da festa carnavalesca. Com base no aporte teórico e metodológico, e com o objetivo de compreender as vivências carnavalescas em Feira de Santana e seus conflitos, o presente estudo foi dividido em três capítulos. O capítulo 1, “O que é esse tal carnaval?”, tem como finalidade discutir as questões teóricas sobre os festejos carnavalescos. Inicialmente, discutir como a temática sobre festas em geral pode ser tratada e como ela pode ser passível de leitura e as múltiplas possibilidades 31 BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Media e o Renascimento: o contexto de François Rebelais. São Paulo: HUCIREC. Brasília: 1993. p.6. 32 CUNHA, Maria Clementina Pereira. Op.cit. 33 LAZZARI, Alexandre. Coisas para o povo não fazer: carnaval em Porto Alegre (1870-1915). Campinas, SP: Editora da Unicamp/Cecult, 2001. 21 de análise. Em seguida, afunilam-se um pouco mais as discussões, tratando estritamente dos festejos que são considerados como carnavalescos. Aborda-se, ainda as formas como as festas carnavalescas são tratadas, sob a perspectiva histórica e antropológica. Na última parte discutir um aspecto, a ser retomado mais profundamente no terceiro capítulo, que toca na questão de que existiriam, dentro dos festejos carnavalescos, práticas que obedeceriam a uma sucessão festiva: entrudo, carnaval e, no caso de Feira de Santana, micareta. O capítulo 2, “Os carnavais da cidade”, tem o intuito de apresentar um panorama festivo dos carnavais de Feira de Santana. Primeiramente fez-se uma caracterização das práticas carnavalescas da cidade, como e quais elementos podiam ser encontrados nos festejos e a forma como brincavam. Em seguida, discutir como ocorria a organização anual dos carnavais da primeira década do século XX, examinando a frequência com que os festejos ocorriam. Foi dedicada uma seção exclusiva para discutir os anos de 1930, quando os jornais apontavam para uma crise carnavalesca e começou a ser gestada a ideia da micareta. E para finalizar, levantar a problematização sobre a micareta ser outro carnaval ou apenas uma mudança de data. O capítulo 3, “Carnaval e micareta: a construção dos significados festivos,” tem a finalidade de pensar como as práticas carnavalescas foram significadas e como, dentro dos significados construídos, surgiram os conflitos representativos e as diferenças estabelecidas sob o ponto de vista ideológico. A princípio tratar como no cenário brasileiro ocorreram às diferenciações dentro dos festejos carnavalescos. Pensa-se às disputas de representação no contexto festivo de Feira de Santana e quais as estratégias foram utilizadas na construção de representações. Analisar, em seguida, como os carnavais podem adquirir conotações diferentes a partir do lugar e as possibilidades que eles apresentam. Além disso, discute-se o entrudo e como a sua caracterização negativa serviu para fundamentar a carnaval. E por fim é analisado como um mesmo espaço festivo pode ser entendido como um local de trabalho e de disputas, além de espaço do lazer, e o diálogo entre os espaços festivos. Capítulo 1: O que é esse tal carnaval? 23 1.1. A festa como um objeto histórico. A festa carnavalesca, assim como todas as práticas festivas, revela várias facetas da realidade social. Por ser uma produção específica de um tempo e de uma sociedade, sua análise permite observar elementos culturais, sociais e a depender do enfoque, econômico. E nos últimos anos, sobre a luz da Nova História Cultural, tem ganhado cada vez mais espaço no campo histórico. Segundo Mary Del Priore, O tempo da festa tem sido celebrado ao longo da história dos homens como o tempo de utopia. Tempo de fantasia e de liberdade, de ações burlescas e vivazes, a festa se faz no interior de um território lúdico onde se exprimem igualmente as frustrações, revanches e reivindicações de vários grupos que compõem uma sociedade. Mas o tempo da festa eclipsa também o calendário da rotina e do trabalho dos homens, substituindo-o por um feixe de funções. Ora ela é suporte para a criatividade de uma comunidade, ora afirma perenidade das instituições de poder34. Essa conceituação de festa é propícia para iniciar o debate sobre os festejos carnavalescos. A princípio, a festa se caracterizaria como o tempo de utopias, ou seja, o tempo onde o sonho ganharia a possibilidade de realizar-se. Abre-se margem para pensar o tempo da festa como o tempo que difere da vida cotidiana. Porém, seria possível desvincular uma coisa da outra? Uma máxima do pensamento histórico contemporâneo ao trabalhar a festa é compreendê-la dentro de um emaranhado de relações que de ilusórias não têm nada. O irreal da festa acaba se tornando uma falácia, as relações que são construídas desses espaços festivos são frutos dos conflitos e posicionamentos construídos historicamente A ideia de liberdade também ganha força quando o assunto é festejo. Porém, a liberdade é bastante limitada pelos os órgãos públicos, especificamente a força policial, presentes para coibir as práticas indesejáveis. Um exemplo dessa intervenção policial poderá ser apreciado em outro momento, quando o Estado brasileiro passa a combater a prática carnavalesca do entrudo. Nesse espaço lúdico as questões sociais não desaparecem. Seria possível eliminar, pausar a memória histórica dos sujeitos que constroem a festa? A resposta é não, o festejo abala a organização rotineira de uma comunidade. Entretanto, a festa não é algo 34 Del Priore, Mary Lucy. Festas e utopias coloniais. São Paulo: Brasiliense, 2000. p. 9. 24 que paira sobre os humanos e em um determinado período pousa com suas características prontas e acabadas em uma localidade. Nesse contexto, não cabe aos sujeitos históricos a reprodução inalterável da festa, eles agem e constroem o festejo a partir de vivências bastante específicas. Isso não significa dizer que os festejos antigos rompem definitivamente com os contemporâneos, porém a particularidade é algo que deve ser levado em consideração. Outro elemento caracterizador da festa é a ideia de oposição ao cotidiano. É inegável afirmar que o período festivo altera o cotidiano das pessoas, havendo uma organização que é atípica, entretanto não se pode confundir alteração da rotina com inversão do cotidiano. Burke35, ao discutir sobre o carnaval na Idade Moderna, caracterizou esse período como “o mundo de cabeça para baixo”, expressão comumente utilizada para referenciar os festejos que antecediam a Quaresma. Porém Davis36faz uma colocação que parece muito mais coerente: o mundo pode ser posto de cabeça para baixo, mas ele não é endireitado. Quando o camponês, ou o operário vestia-se de rei ou burguês eles continuavam a reproduzir as práticas antigas. Os papeis são invertidos, mas as práticas rotineiras não são esquecidas, elas estão mais presentes do que nunca. A festa era um momento “em que pessoas paravam de trabalhar, comiam, bebiam e consumiam tudo que tinha”.37 O festejo representa um momento de extravagância com características específicas que classificam um evento como festivo ou não: “era uma época de desperdício justamente porque o cotidiano era uma época de cuidadosa economia. Seu caráter de ocasião especial vinha simbolizado nas roupas que o povo usava para dela participar- as melhores”.38 Apesar de atentar para a ideia de que um festejo não se desprende da realidade que está inserida, isso não significa que ela não apresente certas rupturas momentâneas. Os movimentos, as rupturas, que são características de todas as ações humanas, também estão nos festejos, pois não podemos pensar que por serem consideradas tradições, as festas são imutáveis, muito pelo contrário. Um dos exemplos é a dinâmica da cidade que muda, havendo convergência das atenções para os festejos, sobretudo quanto ao comércio. O vestuário foi um dos elementos típicos, em Feira de Santana os festejos carnavalescos movimentavam o comércio da cidade, os reclames indicavam a festa como um motivo para 35 BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna: Europa 1500-1800. DAVIS, Natalie Zemon. Op. cit. 37 DEL PRIORE, Mary Lucy. Op.cit. 38 Idem. p 9. 36 25 investir nas roupas. “Para o carnaval, procurem o atelier de chapéus da Francellina de Mello Lima” 39. Era comum anúncios como esses a medida que os festejos se aproximavam. Essa ideia de movimento e de construção indica que a festa não existe até que os sujeitos pensem, organizem e excutem. Desse modo ganham uma forma especifica a partir das ações desses sujeitos, as escolhas, renúncias, conflitos e concepções da forma e do significado de suas práticas. E por sua vez essas só têm sentido no momento em que estão sendo gestadas e executadas. Os festejos são nada mais do que produções humanas, que estão localizadas em um tempo e um espaço socialmente construído. Del Piore40 enfatiza ainda uma alternância, uma dualidade na qual ou ela é fonte de criatividade ou espaço que indica a perenidade das instituições de poder. Ouso dizer que não há essa alternância; a festa é ao mesmo tempo fonte de criatividade e perenidade das relações sociais. E ainda outras tantas possibilidades. As melhores definições das práticas festivas são: multiplicidade, polissemia e re-significações. Nesse aspecto, Del Priore fez um esclarecimento: Os jogos, as danças e as músicas que as recheiam não só significam descanso, prazeres e alegrias durante a sua realização; eles têm simultaneamente importante função social: permitem às crianças, aos jovens, aos espectadores e atores da festa introjetar valores e normas da vida coletiva, partilhar sentimentos coletivos e conhecimentos comunitários.41 Essa caracterização não pensa os folguedos apenas como descanso e um lazer desprovido de historicidade, mas também um espaço de poder. Essas disputas estão para além das questões partidárias, as relações de poder ocupam todas as relações humanas. Outro elemento pouco discutido é a ideia da educação, “introjetar valores e normas”, através da aparente desordem dos festejos, é um importante momento para demonstrar à população os hábitos adequados dos festejos. Nisso a ideia das festas civilizadas em oposição aos “bárbaros” costumes tem no âmbito festivo um solo fértil para a sua propagação. Entretanto a concepção do permitido é comum entre os estudos sobre o carnaval, na qual os dias de Momo propiciavam uma espécie de alvará, permissão para que o folião fizesse brincadeiras que no cotidiano seriam reprimidas. Contudo não significa que durante os 39 Folha do Norte. Feira de Santana, 3 de fevereiro de 1912. Ano IV Nº 105. DEL PRIORE, Mary Lucy. Op.cit. 41 Ibidem. p.10. 40 26 festejos não houvesse nenhuma repressão. Mas a sua apresentação nos jornais indicava a liberdade necessária à sanidade psicológica dos foliões. Para além da ideia da permissão, na qual a população teria um espaço para enlouquecer e para vestir a fantasia, os festejos são caracterizados como algo que é inclusive saudável à população: O carnaval é uma necessidade para todos os povos cultos. É uma válvula de segurança que dá evasão ao milhar de vexames de toda a casta recalcada por trezentos e sessenta e dois dias no seio da colle, atividades evitando explosões ruidosas, é a compensação permitida para todos os males advindos no decurso de todo um anno”.42 (Sic) Essa percepção apontada pelo jornal Folha do Norte não fugiu a algumas interpretações sobre as idéias do permitido e do necessário. Em Feira de Santana, nas primeiras décadas do século XX, era bastante comum em alguns setores aqui representados pelo jornal. Os termos utilizados, a exemplo de “válvula de segurança” e “evitando explosões”, indicavam outra interpretação ou função dos festejos, nesse caso o carnavalesco, que era o de segurança pública, apontava para uma preocupação em conter as chamadas explosões, que provocariam uma desordem e prejuízos à sociedade. As festividades geralmente costumam ser divididas em categorias, a mais comum é a separação entre as festas sagradas e as profanas, respectivamente, aquelas que são dedicadas aos ritos religiosos, e as pagãs, representadas por todas as outras modalidades festivas que não se aplicam ao primeiro grupo. Contudo isso não significa que essas modalidades não estabeleçam entre si um diálogo. Essa divisão é construída a partir de uma percepção que obviamente não traduz toda a complexidade. O próprio festejo carnavalesco tem a sua determinação temporal limitada por um elemento cristão que é a Quaresma. As festas apresentam um panorama bastante fértil ao pesquisador. Outro exemplo dessa relação entre o profano e o sagrado é o próprio movimento entre essas duas esferas. Pensar esse trânsito entre o sagrado e o profano é romper com barreiras específicas de que os participantes dessas modalidades festivas eram distintos e opostos. Os festejos religiosos, a exemplo da Festa de Santana, padroeira da cidade, tinham até a década de 1980 um momento sagrado da novena e os eventos considerados profano, que era o bando anunciador, a levagem da lenha e as lavagens da igreja. Estes em alguns discursos de padres tinham um caráter 42 Folha do Norte, Feira de Santana, 13 de Janeiro de 1932. Ano XXIII, Nº 1178. 27 carnavalesco.43 E segundo Batista, os grupos que cantavam nessa festa eram os mesmos que estavam nos festejos carnavalescos, bem como os patrocinadores da festa eram os mesmos. 1.2. O carnaval é mutável. O termo mutável se aplica ao carnaval porque ele apresenta conotações diferentes a partir de sua realidade e temporalidade. O carnaval muda de acordo com a sociedade que o produz, como foi dito no tópico anterior. Pensar festas carnavalescas pode conduzir a uma generalização, ou seja, entender que tais manifestações assumem sempre as mesmas características, independente do lugar e do tempo. Como todas as ações humanas, elas são mutáveis. O carnaval identificado por Le Roy Ladourie44 do século XVI não é igual aos contemporâneos. Assim como nos dias atuais, o carnaval carioca difere do carnaval de Salvador, que por sua vez apresenta peculiaridades em relação à micareta em Feira de Santana. Retomar nesse momento os diversos contextos do carnaval ao longo das experiências humanas seria algo impossível, diante de tamanha multiplicidade de significados. Por esse motivo o que será feito nesse momento é uma retomada superficial de como ao longo do tempo as funções45 do carnaval ganharam formas diferentes. As manifestações denominadas como carnavalescas são antigas, a antropóloga Marilene Pinheiro46 as identificou desde a Idade Antiga, especialmente em festas romanas, dedicadas ao deus Dionísio, que na mitologia grega representava a juventude, também é reconhecido como deus do vinho e da festa. A autora afirma que nesse período havia a presença de carros alegóricos com esculturas ligadas a sexualidade, mulheres e homens nus desfilando, bebendo e comendo bastante, o que a fez pensar que esse era um momento de carnavalização. Isso porque no entendimento antropológico quebras no cotidiano, o que sai da rotina, são vistas como ato carnavalesco. E é essa a ideia defendida por tal autora. Ela identificou esse momento como manifestações primárias do carnaval. 43 Cf. BATISTA, Silvania Maria. Conflitos e comunhão da festa da padroeira de Feira de Santana. Feira de Santana: UEFS, 1997. 44 LE ROY, LADURIE, Emmanuel. Op.cit. 45 Cf. LE ROY LADURIE, Emmamnuel. Op. Cit. O carnaval assume funções nas sociedades, que são mutáveis a partir dos interesses do momento. 46 PINHEIRO, Marlene M. Soares. A travessia do avesso: sob o signo do carnaval. São Paulo: ANNABLUME, 1995. 28 Le Roy Ladurie, ao contextualizar a França na Idade Moderna, identificou o carnaval como uma festa de inverno e retomou alguns aspectos da Idade Média: “Formalmente, o carnaval delfinês funcionou muito tempo como festa de fim de ano ou a mudança de ano. O ano no Delfinado, na Idade Média e por sua vez até o século XVI, começava ora em 25 de setembro, ora em 25 de dezembro ou ainda em 25 de março.” 47 Nesse contexto, o carnaval estaria ligado a uma mudança de ciclo. A passagem de ano que o autor fez referência não é a que estamos habituados, que tem fim após 365/366 dia. Essa era um período em que as sociedades européias eram basicamente agrícolas, seus calendários seguiam a lógica da natureza. Então, muito provavelmente, essas datas estariam ligadas as mudanças de estações do ano. No contexto geográfico da Europa, Hemisfério Norte, 25 de setembro marcaria o outono; 25 de dezembro, o inverno; e 25 de março a primavera. O carnaval teria a função de comemorar a fertilidade. Parte, sobretudo, da ideia de transição ou marginalidade, ou seja, as festividades estavam localizadas temporalmente na mudança de ciclos da natureza, o que a antropologia chama de ritos de passagem. Esse significado não levou em consideração o fato que é comumente associado aos festejos carnavalescos, que viria a ser sua relação com a igreja católica. Diversidade que é compreensível, pois o carnaval é historicamente construído, logo não podemos pensá-lo de forma estática. A concepção religiosa foi fruto de um processo que trouxe para esse evento festivo uma funcionalidade que é diferente e que faz todo o sentido para uma realidade específica. E do ponto de vista cristão católico, o carnaval, segundo Le Roy Ladourie48, na realidade que ele estudou: Enterra sua vida de pagão, entrega-se ao último desregramento paganizante, antes de penetrar nos tempos da escassez quadrazimal do catecúmeno, o qual conhecera em fim, na Páscoa, seu renascimento, em relação aos jejuns e as pregações da quaresma, funcionam como um prelúdio lógico, antítese previa49. Essa mudança ocorreu na França a partir do século XVI e serve de exemplo para aprofundar um pouco mais o debate. Trata-se de uma análise de carnaval que apresentou duas concepções: uma cristã e outra não cristã. Entretanto ambas apresentaram como característica 47 LE ROY LADURIE. Op. cit. p.321. Idem, p. 32. 49 Idem. p. 323. 48 29 comum o encerramento de um ciclo e o início de outro. Enquanto em uma tinha a função de despedir-se de uma estação do ano e comemorar o surgimento de uma próxima, a outra, cristã, tinha a função fechar o período dos aspectos mundanos para receber o período da espiritualidade. Essa é apenas uma das múltiplas especificidades encontradas no carnaval. E a pergunta que surge a essa altura é: como funcionava o carnaval na realidade brasileira. Essa influência chegou aqui com a prática de comemorar os dias que antecediam a quaresma. Tal prática era conhecida como entrudo. O carnaval era um termo desconhecido em Portugal no século XV/XVI, apenas na Itália e França o carnaval era conhecido e praticado.50 Esse entrudo, de acordo com Araújo, designaria entrada, princípio da primavera. Portugal nesse sentido também sofrera a cristianização do festejo. Isso porque a prática do entrudo, a princípio era feita em comemoração às mudanças de estações do ano, fim do inverno e entrada da primavera. A cristianização transformou o significado festivo, que passou a sinalizar o “fim” da carnalidade. Foi o significado cristão dessa prática portuguesa que chegou ao Brasil. Isso porque essa modalidade chegou ao país já com o significado ligado à igreja. A característica do entrudo português era identificada como um momento de manifestações de alegria, de uma estrutura barulhenta e excessiva. Os portugueses divertiam-se de maneira singular, desfilando em procissão burlesca que passavam pelas ruas sujas de lama, monstruosas e imundas51. Com essa caracterização de agitação extrema, o entrudo lembra um tipo de manifestação muito difundida pela Europa moderna, o charivari52 (Barulho, tumulto, dor de cabeça). E é esse entrudo português que foi a primeira referência carnavalesca que o Brasil conheceu. Os outros grupos formadores da sociedade brasileira, como africanos e os nativos, com suas experiências musicais, posturas e ideais, somaram suas vivências a essa forma de festejar. Então outra forma de festejar foi configurada, pois não era delas mais o festejo português, trata-se de uma festejo brasileiro. Um elemento brasileiro incorporado ao entrudo foi uma brincadeira com os limões de cheiro que já representava uma forma mais refinada de jogar o entrudo. Havia no Brasil uma diferenciação entre as formas de festejar o entrudo, uma mais “violenta”, com o hábito de atirar objetos como ovos, águas fétidas e pós de pixe, prática que foi bastante combatida no 50 Cf. Araújo, Patrícia Vargas. Folganças populares: festejos de entrudo e carnaval em Minas Gerais no século XIX. São Paulo: Annablume; Belo Horizonte: PPGH/UFMG; Fapemig; FFC, 2008. 51 Ibidem. 52 DAVIS, Natali Zemon. Op.cit. DARNTON, Robert. Op.cit. 30 Rio de Janeiro, Minas Gerais, Porto Alegre53 por ser considerada violenta. O entrudo também abrigava o costume de atirar laranjinhas de cera, com águas de cheiro, que ao serem arremessadas não causavam tantos danos. E partir da década de 1880 foi forjada uma oposição entre o entrudo e o carnaval, importado da cultura veneziana e francesa. Essa oposição, segundo Cunha54, só passou a existir nesse momento, ou seja, antes desse período, carnaval e entrudo não eram percebidos como coisas diferentes, significavam a mesma coisa, festejar os dias de Momo. 1.3. Festas carnavalescas. Ao tratar de festas carnavalescas, o termo carnaval é comumente utilizado para caracterizar os festejos que ocorrem no último fim de semana que antecede o ritual religioso da Quaresma. Este marco religioso é um rito cristão no qual os fiéis passam por um período de uma suposta diminuição dos prazeres da carne em detrimento de uma elevação espiritual. Nesse contexto, o carnaval ficou conhecido por como uma “despedida” dos aspectos mundanos. O carnaval, que com o defluir da moral, transfigurou-se em uma diversão cristã, celebrada antes das sete semanas mestras de abstinência de jejuns, penitencias e recolhimento. É, pois, a desterro preventivo desse período de tristura e meditação em que tantos se comprazem as almas contemplativa (...). Provido do italiano carnavalle, em sua etymologia mais aceitável, significa o adeus à carne, a despedida dos prazeres, às vésperas da quarentena de compunção religiosa55. A prática carnavalesca teve, em Feira de Santana através dos jornais, sua existência associada ao elemento cristão, a ideia do carnavalle; uma referência à carne. Essa conceituação do carnaval pode ser pensada em dois aspectos. O primeiro está associado à alimentação. “Foi a carne que compôs a palavra carnaval. O maciço consumo de carne de 53 CUNHA, Maria Clementina. Op. cit. ARAÚJO, Patrícia Vargas. Op.cit. LAZZARI, Alexandre. Op.cit. CUNHA, Maria Clementina. Op. cit. 55 Folha do Norte, Feira de Santana, 14 de fevereiro de 1931. Ano XXII. Nº 1126. 54 31 porco, de vaca e outras” 56. A comilança anterior ao período de jejum e abstinência da carne. A Quaresma é um período que os fiéis tinham um resguardo maior, quarenta dias sob uma orientação de não dar tanta importância aos prazeres da carne, com uma alimentação restrita, e com dedicação maior às orações. Isso para esperar o momento maior que é o domingo de páscoa. Porém essa concepção não está relacionada apenas ao aspecto alimentar, ela se referencia também ao aspecto sexual, em oposição ao espiritual. O mundano ganhava ênfase antes do recolhimento espiritual, uma despedida dos prazeres do corpo, o carnavalle. Além dos festejos do período carnavalesco, havia também a festa pós-período carnavalesco que era a micareta, um festejo que até os dias atuais ocorre depois da Quaresma. Isso porque os festejos, por consenso, não ultrapassam o início da quaresma. Classificar os folguedos nessas duas etapas é apenas uma das possibilidades de investigação, existem ainda outras concepções que pensam a carnavalização para além da relação com a Quaresma. Essa multiplicidade é explicada porque as manifestações populares têm como principal característica a polissemia e as re-significações, e com as práticas carnavalescas não poderiam ser diferentes. Ao longo da trajetória de cada sociedade, os sujeitos imprimiram na sua forma de brincar sentidos diferentes que dialogaram com o contexto social que está inserido, por isso ao trabalhar festejos carnavalescos os significados mudam de acordo com o momento estudado. Para a compreensão de tal temática alguns aspectos são importantes antes de iniciarmos uma leitura mais cuidadosa sobre os folguedos carnavalescos. A primeira coisa é reconhecer que o carnaval além de uma prática festiva, é também uma significação. São folguedos associados à ideia de civilidade. Em segundo lugar, convencionou-se por muito tempo estabelecer uma linearidade dentro desse âmbito festivo. Essa concepção obedece à seguinte lógica: a primeira experiência carnavalesca foi entrudo, uma herança da colonização portuguesa. Dentro dessa cronologia limitadora, o entrudo teria sido substituído na passagem do século XIX para o século XX. Substituição essa que teria sido fomentada por uma “necessidade” de reformulação dos costumes. Dentro do quadro das representações, o carnaval surgiu com suas plumas e confetes trazendo para o Brasil os ares europeus. Entretanto, as críticas tecidas ao entrudo apareceram muito antes, nos meados do século XIX foi possível verificá-las. 56 BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna: Europa 1500-1800. p.253. 32 Alvarás e editais lançados pela polícia para dar fim ao festejo, até que, em 1854, a polícia por meio de um delegado mais combativo, conseguiu extingui-lo. Mas era época mesmo do entrudo chegar ao fim, pois já começavam a surgir no Brasil os primeiros bailes de forma que as brincadeiras de rua iam sendo substituídas por novos divertimentos, como o Zé-Pereira (Folia ao som de tambores e zabumbas) e Estrondos, espécies de blocos atuais.57 A ideia de sequência festiva é algo que apareceu nas fontes, como algo imediato: fim de uma modalidade, início da outra. Entretanto essas rupturas são bastante questionáveis. Como barrar as práticas de um costume e automaticamente iniciar outro? Será mesmo que eram práticas diferentes? As diferenças atribuídas entre o entrudo, carnaval e micareta são diferenciações que não são perceptíveis quanto às práticas, elas pairam nos significados que lhes são atribuídos, nas reapresentações atribuídas. As práticas carnavalescas são mutáveis, porém essa mutação não ocorre de forma abrupta e sem estabelecer releituras e resignificações. No estudo específico de Feira de Santana, essa cronologia seguiu adiante com a invenção da micareta, oficialmente inaugurada em 1937, que seria um festejo a realizar-se quinze dias após o termino da quaresma. Imediatamente, chega-se a uma conclusão: as práticas carnavalescas, mesmo que não contenham em suas práticas elementos religiosos, mantém uma relação direta com o aspecto cristão católico. A micareta, também uma prática carnavalesca, trouxe um problema histórico que deve ser tratado com bastante atenção, pois essa modalidade provoca uma dúvida quanto a sua classificação representativa, isso porque é considerado um carnaval fora de época, dessa forma seria apenas uma mudança de data. Então qual seria a especificidade? Isso será discutido mais adiante. O importante, nesse momento, é compreender essas manifestações enquanto práticas carnavalescas e não como festas diferentes. Vale ressaltar também que estas práticas não devem ser analisadas dentro da perspectiva da rivalidade. Isso porque dentro do jogo das representações convencionou-se que as práticas festivas estabelecem entre si elementos antagônicos. Entre entrudo e carnaval, por exemplo, a ideia de bárbaro versus civilizado. As disputas e os conflitos não partem unicamente dos simpatizantes do entrudo, do carnaval ou da micareta; os conflitos existem independentes dessas divisões. Em alguns 57 PINHEIRO, Marlene M. Soares. Op.cit. p. 86. 33 momentos inclusive os conflitos entre tais folguedos aparecem, mas eles são muito mais visíveis nas reapresentações que são forjadas, desavenças que também ocorrem na prática, mas não com o mesmo peso. As fontes indicam inclusive a convivência entre tais práticas dentro do cenário brasileiro (entrudo e carnaval) e no âmbito feirense (entrudo, carnaval e micareta). 1.4. As concepções de festas carnavalescas. O termo festas carnavalescas é muito utilizado nesse trabalho, logo conceituá-lo é importante. Apesar de retratar uma realidade da Europa, Peter Burke fez uma denominação de festas carnavalescas, que serve para começar a análise sobre tais interpretações. Ele afirmou que as práticas carnavalescas possuem elementos que as caracterizam: Em primeiro lugar, um desfile, em que provavelmente haverá carro alegórico com pessoas fantasiadas de gigantes, deusas, diabos e assim por diante (...) um segundo elemento recorrente no ritual carnavalesco era algum tipo de competição, as disputas no regime, as corridas de cavalo e as corridas a pé eram muito populares (...) um terceiro elemento recorrente no carnaval era apresentação de algum tipo de peça, geralmente uma farsa. No entanto é difícil traçar uma linha entre uma peça formal e ‘brincadeiras’ informais.58 Nesse conceito não há nada que limite as práticas carnavalescas a uma data específica, não faz referência a um período carnavalesco. A princípio na realidade européia e segundo a visão do autor, bastava que houvesse essas características para que a manifestação fosse classificada enquanto carnavalesca. Porém há uma barreira que não poderia ser ultrapassada, seu limite é a Quaresma: “a estação do carnaval começava em janeiro, ou mesmo em finais de dezembro, sendo que a animação crescia à medida que se aproximava a Quaresma” 59. Os elementos destacados por Burke não podem ser transpostos para a realidade feirense, mas alguns aspectos são pertinentes. O desfile, o cortejo dos grupos que brincam os “dias de Momo” pelas principais ruas da cidade em Feira de Santana, representava uma característica que é pertinente aos festejos carnavalescos em geral. O cortejo “principal” tinha 58 59 BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna: Europa 1500-1800. p. 248. Idem. p. 248. 34 como palco a Rua da Direita, atual Rua Conselheiro Franco. As disputas também davam a tônica dos festejos carnavalescos, sejam disputas entre clubes ou as guerras de serpentinas, bem como o uso de máscaras. Maria Isaura Queiroz discutiu algo permite lembrar o fato de que os festejos não constituem uma homogeneidade. Todavia, a população sempre se mostrou dividida em dois grupos opostos: os carnavalescos e os não carnavalescos. Os primeiros consideram “um dever” comemorar os Dias Gordos, que para eles é a festa mais importante do ano. Os não carnavalescos, por razões variadas, condenam a folia que, segundo eles, toma conta das gentes durante quatro dias, transformando bons pais de famílias em palhaços e permitindo as boas mães de família que tomem ares de meretrizes.60 Esse é um dado relevante, que por vezes pode passar despercebido, o fato de que não estamos tratando de uma unanimidade. Algumas publicações e as próprias manchetes de jornais nos levam a essa falsa ideia, que não traduzem a complexidade. Essa divisão entre carnavalescos e não carnavalescos é importante para romper a ideia de harmonia e aceitação. A explicação para os não-carnavalescos é mais ampla, pois considera a infinidade de motivos que levam ao não aceitar a festa. Entretanto, os carnavalescos também abrigam uma gama de motivos que os colocam nesse grupo; os músicos podem estar ali por divertimento, mas também por uma oportunidade financeira, assim como os outros grupos sociais: comerciantes, políticos, grupos que utilizam o espaço para festejar como um lugar de disputa de memória e aqueles que participam pela diversão. São complexas as relevâncias carnavalescas. Nessas discussões sobre o significado carnavalesco associado ao aspecto religioso, Maria Isaura Queiroz apresentou, a partir de suas memórias de carnavalesca, conforme auto denomina-se, certos questionamentos: Durante quatro dias e quatro noites levávamos esta vida exultante, retomando as atividades normais na Quarta-feira de Cinzas... O cansaço da maratona era facilmente esquecido, estava compensado pelo divertimento do Reinado de Momo. O carnaval não tinha, para nós, nenhuma significação 60 QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Carnaval brasileiro: o vívido e o mito. São Paulo: Brasiliense; 1999. p. 14. 35 religiosa, não conhecíamos o significado da Quarta-feira de Cinzas. O carnaval já havia perdido no país muito do seu significado religioso, que atualmente se extinguiu por completo61. Esse afastamento do significado religioso é prático. A maioria das pessoas que estavam festejando não associava a sua atuação a um elemento religioso, porém essa relação continua, pois o carnaval ainda tem como seu limite temporal a quarta-feira de Cinzas, e as tentativas de transpor esse limite ainda podem causar desconforto nos grupos religiosos. E no período que se detém essa pesquisa, o desconforto por parte dos líderes religiosos com os festejos de momo era muito forte. Micareta, depois de uma semana santa cheia de consolação. A‘mi-carême’ neste ano (1938) atingiu o máximo de intensidade e de vibração. Fizeram carros alegóricos e trouxeram outros da capital. A Rádio Sociedade não faz senão propagar sambas carnavalescos. Aqui, além dos rádios particulares a Casa da Louça por meio de seus alto-falantes retransmite todos estes programas. São os inimigos da igreja os promotores desta festa e o fizeram com a intenção de desviar as esmolas para San’Ana que querem suplantadas.62 Ao que parece a aceitação do carnaval era algo tolerável, pois logo após esse momento, a Quaresma ‘limparia’ os excessos e restabeleceria a ordem. Porém o retorno nos eventos mundanos afrontaria e muito a religiosidade. Estas foram palavras do Padre Almicar que declarou livremente que os organizadores desse evento carnavalesco eram os inimigos da igreja. Segundo Silvania Batista, a filarmônica 25 de Março foi impedida de participar dos festejos de Santana por seu estreito envolvimento com o carnaval fora de época, boicote que também ocorreu em relação a Filarmônica Euterpe feirense. Sobre os festejos carnavalescos, Sebe63 fez uma divisão para pensar o carnaval. Com o objetivo de buscar as origens carnavalescas, procurou na mitologia egípcias explicações. Afirmou que a gênese carnavalesca estava no culto voltado á deusa Ísis, a deusa da natureza, que em festas era homenageada pelos mortais durante as colheitas. Nesse período, ainda antes da era cristã, o tempo da alegria seria o tempo da fecundação, o nascimento do resultado do 61 QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Op.cit. p. 14. Livro do tombo I da Catedral de Santana. (1930-1968). In: BATISTA, Silvania Maria. Op.cit. 63 SEBE, José Carlos. Carnaval, carnavais. São Paulo. Editora ática, 1986. 62 36 trabalho. O tempo da resignação seria o gestar da fecundação, o trabalho árduo do preparar a terra, semear, cuidar do broto até que o fruto, a fecundação ocorresse. As bacanais, lupercais e saturnais poderiam ter sido algumas variações da festa carnavalesca. Suas celebrações implicavam a existência de rituais libertadores das atitudes reprimidas e obrigava a extroversão a permissividade, prevalecendo o tempo dos vícios.64 Sebe, para definir os festejos carnavalescos, utilizou o critério da ruptura com o cotidiano, algo que romperia com a rotina. Apresentou essas manifestações como um antecedente das festividades carnavalescas. Também apareceu em sua hipótese mais uma vez a ideia da liberdade em oposição à repressão e as obrigações do cotidiano “uma vez por ano é lícito endoidecer” 65 . Aliás, a dualidade, a batalha entre os opostos é característica marcante na caracterização sobre os festejos carnavalescos, como: liberdade versus repressão, fome versus comilança, sexo versus abstinência, violência versus calma. Marlene Pinheiro também considerou as festas da antiguidade como gestoras dos festejos carnavalescos: “festas de Baco/dionisíacas de Roma, caracterizadas por cortejos com grandes carros similares a barca navais – carrum navalis - de onde exibiam mulheres nuas, homens também nus cantavam canções obscenas convocando a todos para os prazeres da carne” 66 . O nome utilizado para designar o ritual do festejo é semelhante à nomenclatura contemporânea “carrum navalis,” que lembra bastante a palavra carnaval. Soma-se ai a ideia da carnalidade relacionada à sexualidade. Isso se assemelha ao carnavalle, os prazeres da carne: comilança de carne e sexualidade aflorada. Na linha estabelecida por Pinheiro para pensar as origens carnavalescas relacionadas às transformações sociais, indicou para uma contextualização histórica. Segundo a autora as origens carnavalescas vêem “da mitologia greco-romana, pois já com o nome de Momo, o deus teria migrado para a era cristã, dando origem aos carnavais de Veneza e Turim na Itália” 67 . Essa ideia de migração reflete o crescimento do cristianismo ainda no Império romano. A re-significação leva os festejos pagãos para o cenário cristão: 64 SEBE, José Carlos. Op.cit. p.11 PINHEIRO, Marlene M. Soares. Op.cit. p.14. 66 Idem. p. 63. 67 Idem p.14. 65 37 As festas carnavalescas iniciavam-se a 25 de dezembro, confundindo-se com as comemorações natalinas, o ano novo e a Epifania. A Igreja, então, incluiu o carnaval (festa pagã) no seu calendário católico, determinado que seu término ocorreria dias antes da Páscoa.68 Segundo as crônicas e os autores, esta era uma festa bastante popular, logo seria oportuno que a Igreja católica quisesse ter sobre os festejos algum domínio, mesmo que fosse só para limitar sua atuação, nesse caso antes do período da Quaresma. Com a incorporação ao calendário cristão, não é mais a passagem de uma estação a outra que regula os acontecimentos festivos. Não é mais somente a transformação da natureza, a época das colheitas e das estações que determinam os ritos de uma comunidade; estes agora passam a correr também de acordo com evento histórico e de acordo com um calendário muito bem organizado de rito e festas69. Houve uma tentativa de estabelecer um formato para o festejo, não que isso já não ocorresse, mas era necessária uma normatização que atendesse aos interesses de uma comunidade cristã. Não apenas estabelecer o momento adequado para que os festejos carnavalescos acontecessem, mas retirar dele o significado “pagão”, e atribuir um significado cristão. Porém a mesma antropóloga Marilene Pinheiro70 afirmou que manifestações carnavalescas podem apresentar-se em vários outros momentos, sem a obrigatoriedade de uma data fixa. A autora conseguiu identificá-los em vários momentos, distintos do chamado período carnavalesco. Essa percepção apresentada por Pinheiro justifica-se por acreditar que qualquer rito que saia da normalidade, que quebrasse a ordem poderia ser considerada carnavalização. “aqui se encaixaria perfeitamente o recente movimento dos ‘caras-pintadas’, quando a sociedade brasileira, ou partes dela, saiu às ruas, num ritual carnavalizado, a exigir o impeachment. Nos rostos, as máscaras pintadas” 71. As máscaras e as palavras de ordem, nesta concepção, são linguagens carnavalescas. 68 PINHEIRO, Marlene M. Soares. Op.cit. p.14 ARAÚJO, Patrícia Vargas Lopes de. Op.cit. p. 24 70 . PINHEIRO, Marlene M. Soares. Op.cit. p 63. 71 PINHEIRO, Marlene M. Soares. Op.cit. p 63. 69 38 A autora buscou elementos dentro dos eventos festivos que os identificassem como carnavalescos ou não. Ainda sobre o entendimento de que o movimento dos caras pintadas seria um momento de prática carnavalesca fez a seguinte afirmação: “a certeza de que, por meio de uma ação não violenta, protegido pela ‘brincadeira’ e o disfarce da máscara ritualística, conseguiu inverter a situação do país”.72 Nesse fragmento Pinheiro levou em consideração dois aspectos: as máscaras e o desejo de inversão do país. As máscaras em forma de pintura foram utilizadas por alguns grupos, e ao que parece, não tinham a mesma concepção que encontro nas fontes ao trabalhar os folguedos carnavalescos. Ao invés de disfarçar algo, o objetivo naquele momento do impeachment era enfatizar o nacionalismo e identificar o porquê da luta. Além disso, apontou esse movimento dos caras pintadas como um evento político que esteve disfarçado pela brincadeira, e por uma ação que não violenta. Teria sido esse elemento, caracterizado pela autora como carnavalesco, o responsável pela mudança política? A insatisfação e a ruptura não ocorreram no campo carnavalesco, as máscaras que a autora cita foram instrumentos de protesto que demonstraram a insatisfação com o contexto político, porém não foi a o único elemento nesse processo. A autora entende os eventos carnavalescos como um momento que além de quebrar a ordem, é algo pacífico, brincadeiras e confraternização. E que esta teria sido uma alternativa para inverter a condição política naquele período. Essa prática de mascarar-se se apresenta como elemento de análise dos festejos carnavalescos, tanto para os historiadores quanto para os antropólogos: “o povo usava máscaras, alguns com narigões, ou fantasias completas. Os homens se vestiam de mulher, as mulheres de homens, outros trajes populares eram os de padre, diabos, bobo, homens e animais selvagens” 73. Sobre a importância do disfarce, a antropóloga Pinheiro faz a seguinte inferência: “o rosto é a marca evidente da identidade, é aquilo que de imediato nos diferencia uns dos outros, porque é o retrato do eu. Então, a persona mascarava de simbólico o simbólico” 74. O rosto, segundo a autora, é a primeira máscara, que representa a pessoa, e em um momento de carnavalização, usa outra máscara, essa de cunho provisória facilmente retirada. Por isso usa o termo “mascarar de simbólico o simbólico. A metamorfose é nesse aspecto a palavra chave. O disfarce talvez seja o elemento que dê a sensação de liberdade, pois através disso as pessoas agem sem serem identificadas e sem ter que enfrentar a cobrança moral após os festejos carnavalescos. Porém quanto à possível 72 Idem. p. 19. BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna: Europa 1500-1800. p. 249. 74 PINHEIRO, Marlene M. Soares. Op.cit. p. 30. 73 39 inversão social proporcionada pelo ato de se travestir é algo que suscita dúvida, pois, como foi citada anteriormente, uma mulher ao se vestir de homem, altera o seu comportamento ou reproduz o comportamento masculino? Ao vestirem-se de animais, reproduzem o comportamento animal? E assim por diante. O fato de trocarem os papéis - homens/mulheres, ser humano/ animal – não implica em uma transformação de comportamento. Essa inversão significa que havia uma mudança dos atores, mas o roteiro e os personagens eram os mesmos. Quando a autora afirmou ser um evento não violento, abriu outro ponto de discussão: a violência não é travada apenas em batalhas corporais, existem linguagens que podem muito bem, sem usar a força física, traduzir atos violentos contra quem se dirige. Um exemplo disso é encontrado quando se analisa as músicas dos festejos feirenses. Verdadeiras batalhas sociais eram travadas com um tom debochado e violento, batalhas essas fundamentadas no lugar social de cada grupo. Isso seria uma violência simbólica, ou seja, é uma ação que apesar de não usar a força bruta, o combate físico, causava um desconforto nos grupos criticados. Em certa medida, a visão de Marilene Pinheiro alargou o sentido de festejos carnavalesco. Um exemplo disso pode ser percebido nas comemorações religiosas, nas quais qualquer manifestação que fuja da ordem religiosa é caracterizada como costumes carnavalescos. Silvania Batista75, em seu trabalho sobre a festa de Santana na cidade de Feira de Santana, apresentou um panorama sobre essa teia de relações entre as práticas carnavalescas e festejos religiosos.76 É possível perceber os festejos carnavalescos como um complexo de práticas que ganharam mais força em um período que antecedia a Quaresma, mas que seu conceito não é restrito a isso, muito menos a uma temporalidade. No caso específico deste estudo, o foco é: as práticas carnavalescas que ocorrem no mês de fevereiro/março (entrudo e carnaval) abril/maio (micareta), este fora do período carnavalesco tomando como referência a concepção cristã. Os meses tendem a variar porque a datação da Quaresma é pautada no calendário lunar e não no solar, que é à base do nosso calendário. Os antropólogos costumam localizar as festas enquanto uma quebra do cotidiano, uma inversão social. Maria Laura Viveiro de Castro e Renata de Sá Gonçalves fazem a seguinte consideração: 75 BATISTA, Silvania Maria. Op.cit. Um exemplo dessa carnavalização, para além do que se convencionou chamar de Carnaval em Feira de Santana, é o combate ao Bando Anunciador, como o próprio nome sugere, era um grupo que tinha a função de anunciar os festejos de senhora Santana quinze dias antes do novenário de Santana. Porém tinha ares carnavalescos, com músicas de tom jocoso, debochado e que tocavam muito fortemente a sexualidade. Essa carnavalização estava desarticulada temporalmente dos festejos que ocorriam no mês de fevereiro, ou certos casos, em março, a depender do calendário, contudo as práticas ocorridas naquele caracterizava o enquanto carnavalesco. 76 40 Carnaval é bom para brincar, é bom para fazer, é bom para pensar. Festa civilizatória, cujos rastros dourados buscamos na poeira do tempo. Festa contemporânea sempre desdobrada em interrogáveis multiplicidade. Salve sua majestade o Carnaval, o carnaval! Quando brincamos, colocamos sob sua subversiva égide, que tudo descentra. Se o fossemos, nos engajamos em seu febril vórtice festivo. Para tudo se acabar em cinzas na quarta-feira e logo, quase sorrateiramente, retornar, renovando gradualmente forças até o novo anúncio, em alto e bom som, da incomparável graça do aqui e do agora. Quando pensamos sobre o carnaval, estamos também ao seu serviço, e a mesma absorvente majestade requer que nos curvemos diante de sua surpreendente complexidade77. Essa concepção do carnaval coloca os sujeitos ao seu serviço. Ideia essa que apresenta o festejo enquanto uma anomalia, algo que é estranho ao cotidiano. Talvez nessa concepção se fundamentassem as manchetes dos jornais: “Vai começar o Tríduo de Mômo”, “Mômo vem ai!”. O reinado nunca é dos homens e mulheres que compõem a festa. Ele é de Mômo, o deus da folia e do riso, um ser que paira no imaginário das pessoas. Assim, a loucura e os desmandos são sempre anistiados, pois estes estão a serviço do festejo, e extravasar é normal durante esse período. A ideia da monarquia da folia é realmente bastante forte em Feira de Santana nos primeiros anos do século XX: “Está decretada para mais algumas hora o início do Regime oficial da alegria. Ao poder do eterno deus do riso e da loucura jamais resistiu a gente sadia e moça sem preocupações e sem mágoa.” 78 Em certa medida é pertinente, pois os festejos não aparecem dentro de uma rotina, eles não ocorrem todos os dia, então nessa concepção ocorre sim um rompimento. Contudo não é possível, dentro da perspectiva histórica, conceber os festejos como uma inversão. Natalie Davis79, mesmo trabalhando uma realidade diferente da que abordo, faz uma ressalva sobre essa idéia de inversão. A outra nos diz que um mundo de ponta cabeça pode ser modificado, mas não endireitado, ou seja, por mais que as coisas sejam alteradas, elas ainda seguem uma ordem social e econômica que atravessa a festa. “Pensar a festa como a instauração 77 CAVALCANTI, Maria Laura, GONÇALVES, Renata (org.) Carnaval em múltiplos planos. Rio de Janeiro, Aeroplano, 2009. p. 9. 78 Folha do Norte. Feira de Santana. 6 de fevereiro de 1932. Ano XXIII Nº 1177. 79 DAVIS, Natalie Zemon. Op.cit. 41 unicamente da desordem e de um tempo de ‘tudo avesso’ é deixar de levar em conta o diálogo que se estabelece entre o mundo festivo e a realidade social” 80. Na realidade brasileira em geral, convencionou-se também espacializar os festejos carnavalescos, identificando os locais em que eles ocorriam e ocorrem. Quanto a isso, as afirmações indicam para a ideia de que se trata de uma festa urbana: As atividades carnavalescas foram, desde o início, características das aglomerações urbanas do país: grandes e pequenos proprietários rurais e os próprios sitiantes, isto é, os habitantes dispersos no meio rural, partiam para a vila ou para a sede do município quando queriam divertir-se nos Dias Gordos, a festa não parece ter se realizado em propriedades rurais.81 A limitação geográfica talvez seja facilitada até pela própria disposição do espaço urbano, que permite uma aglomeração e funciona como um ponto de encontro. Wilson Louzada82, em 1945, ampliou um pouco mais as possibilidades, apontadas pela delimitação feita por Maria Isaura Queiroz. Segundo ele, os festejos carnavalescos, por ele identificado como entrudo, eram praticados apenas entre os habitantes dos centros urbanos, e entre as populações sertanejas esses festejos eram menos praticados. Faz uma ressalva de que se o lugar fosse desenvolvido, em suas palavras, adiantado, essas práticas eram possíveis. Para Louzada, os festejos carnavalescos eram característicos dos centros urbanos, mas isso não implicaria a inexistência dessas manifestações fora desse eixo. Esta primeira delimitação prioriza apenas o espaço físico, indicando inclusive a convergência de pessoas tanto do campo quanto da cidade para festeja. Por ser um local que concentra a administração e o sistema de serviços, a cidade oferecia uma facilidade maior de aglutinação de pessoas e a organização do evento. Mas o pensamento de Louzada já aponta outro aspecto: O carnaval, cujas origens se perdem na antiguidade Greco-romana, adquiriu no Brasil uma importância fundamental como expressão máxima de festa popular. Antes do carnaval, só conhecíamos o entrudo, precursor do culto de Momo, que chegou até nós por intermédio dos portugueses, ainda nos tempos coloniais. O entrudo, tal como era praticado no Brasil, parece eu só 80 ARAÚJO, Patrícia Vargas Lopes de. Op.cit. p. 36. QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Op.cit. p. 14. 82 LOUZADA, Wilson. Op.cit. 81 42 chegou a adquirir real popularidade entre os habitantes dos centros urbanos. No interior do país, entre as populações sertanejas ou matutas, esses festejos eram menos conhecidos e praticados, exceto talvez nas regiões próximas das cidades adiantadas. As cheganças, os reisados, os bumba-meu-boi, os festejos de junho, as cavalgadas, o Natal, o dias de reis, e outras espécies de folguedos, monopolizavam com certeza o interesse dos aglomerados humanos das zonas menos povoadas. Imunizando-os contra a influência daquele divertimento popularíssimo nas cidades.83 Essa interpretação indicou não só o espaço físico, mas o comportamento das pessoas como condição de existência para os festejos carnavalescos. Nesse caso o fator que possibilitaria os festejos carnavalescos era o grau de adiantamento da localidade. Esse adiantamento estaria ligado ao grau de urbanização em cidades que não fossem tão “matutas”, e também quanto à densidade populacional. Talvez essa concepção de Louzada sirva para justificar uma preocupação esboçada nos jornais na época em Feira de Santana: “a comissão também, conjuntamente com o governo da cidade estão empenhados em proporcionar ao povo um espetáculo digno dos foros de civilidade dessa maravilhosa cidade” 84. Era como se a presença do festejo indicasse um grau de “desenvolvimento”. Essa era uma preocupação presente nos jornais, o que foi um importante instrumento da formação de significado e das representações, mas isso é tema do último capítulo, quando essa questão será retomada. Os olhares sobre os festejos carnavalescos são diversos também, e Sebe85 faz uma classificação, dividindo os estudiosos do carnaval em dois grupos. Para os pesquisadores continuistas, o carnaval é uma festa antiga, que sempre existiu, mas que com o passar do tempo foi adaptada. Nessa concepção, o carnaval aparece como a comemoração da vida, sendo que o elemento da beleza é fundamental. Os circustancialistas formam o segundo grupo, concebendo o carnaval muito mais pelos valores momentâneos que aparecem na celebração. Isso não implica em um abandono de uma tradição, mas entendem que as especificidades explicam muito melhor que as visões generalistas, uma festa que é renovável. Essa última categoria tem ganhado muito espaço dentre as pesquisa, pois há um entendimento que a ideia da linearidade limita muito o campo de estudo. 83 LOUZADA, Wilson. Op.cit. p. 11. Folha do Norte. Feira de Santana, 4 de março de 1939. Ano XXX, Nº. 1554. 85 SEBE, José Carlos. Op.cit. 84 43 1.5. O mito da evolução carnavalesca. Leonardo Pereira86 fez considerações sobre festejos carnavalescos: não se deve pensar em uma sucessão de representações que não se encontram e não lutam no campo social pelo domínio. Foi citada anteriormente uma perspectiva que coloca os festejos carnavalescos em uma sequência que obedece à lógica do entrudo, carnaval e micareta, está última em algumas cidades. Porém o erro é entendê-las como festas opostas. Os jogos do entrudo, carnaval e micareta enquanto práticas culturais não cabem em uma datação específica, muito menos o estabelecimento de um único significado. A caracterização dos jogos do entrudo é um tema constante dos viajantes estrangeiros, que em seus diários retratam o que mais acham de pitoresco nas sociedades visitadas. Um desses relatos é propício neste momento, aquele dos missionários D.P. Kidder e J.C. Fletcher, que estiveram no Brasil entre 1836 e 1865. Dessas viagens resultou o livro Brazil and the Brasilians. Nesse relato de viagem fizeram a seguinte caracterização: O entrudo, que corresponde ao carnaval na Itália, estende-se por três dias antes da Quaresma e é geralmente considerado pelo povo como uma visível determinação para compensar, por meio de divertimento, longo retiro que irão guardar na Quaresma. O entrudo, entretanto, não é mais celebrado como quando estive pela primeira vez no Rio. Dava-se então uma saturnal do mais líquido aspecto e todas – homens e mulheres e crianças – entregavam-se a êle, com o abandono que constituía o mais forte contraste com a sisudez e a inação habitual dos mesmos. Antes de ser reprimido pela polícia, constituía um notável acontecimento87. Esse fragmento apresentou concepções da prática festiva. Fizeram uma comparação entre o entrudo e o carnaval da Itália. O entrudo corresponderia ao carnaval da Itália, ligação que foi feita em correspondência ao período carnavalesco. A idéia do tempo do permitido, aquele em que as pessoas se entregam aos prazeres mundanos diante dos dias limitados, foi mais uma vez reforçado. Além disso, algo que parece obvio, mas aponta para a característica de movimento histórico, para ideia de que tradição não 86 PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. O carnaval das letras: literatura e folia no Rio de Janeiro do século XIX. 2. Ed. rev. Campinas, SP: Ed. da UNICAMP, 2004 87 D.P. Kidder e J.C. Fletcher (1836-1842/ 1851-1865). Op.cit. 44 é imobilidade, se localiza na citação de que o entrudo não é mais o mesmo de quando estiveram no Brasil pela primeira vez. Em outro trecho descrevem tais práticas: Não era com chuva de confetes que as pessoas se saudavam nos dias do entrudo, mas com chuveiros de laranjinhas e ovos, ou antes, com bolas de cêra feitas com forma de laranja e ovos, cheias d’água (...). Êsse jogo não se limitava às crianças ou às ruas, mas era feito na alta roda, tanto quanto na classe inferior, fora e dentro de casa “88 A prática de jogar objetos contendo água uns nos outros era uma característica que sempre apareceu nas descrições que tratam do entrudo, e embora essa tenha sido uma prática cultural associada aos negros escravizados e sua linhagem, segundo os memorialistas89, esse hábitos considerados bárbaros perpassavam entre as classes. Evidente que há que se fazerem algumas ressalvas, para não cometermos o erro de eliminar as particularidades das práticas entre grupos sociais e econômicos diversos. O entrudo, como foi citado no tópico “O carnaval é mutável”, teve um significado não-cristão e que sofreu com o tempo mudanças em seu significado, passando por um processo de cristianização, com um significado atribuído pela Igreja católica. A concepção de entrudo que chegou ao Brasil foi o de sentido cristão. Segundo Moraes Filho90, o entrudo chegou às terras brasileiras por meio dos navegantes portugueses. Estes viajantes colonizadores teriam colhido no Oriente, especificamente na Índia, muito dos elementos que se transformaram no entrudo português. Essa prática lusitana, assim como afirmam Patrícia Araújo91 e Marlene Pinho92, era diferente das que ocorriam no resto da Europa. Ambas citam o seguinte trecho: Nós portugueses, nunca compreendemos que o entrudo pudesse ser uma festa de espírito como na França de Luiz XV: o nosso Entrudo, o santo Entrudo lisboeta, foi sempre fundamental e caracterizadamente porco. O século XVIII, então, excedeu todos os outros. Foi o século típico do entrudo nacional93. 88 LOUZADA, Wilson. Op.cit. p. 13. MORAES FILHO, Melo. Op.cit 90 Idem. 91 ARAÚJO, Patrícia Vargas Lopes de. Op.cit. 92 PINHEIRO, Marlene M. Soares. Op.cit. 93 DANTAS, Júlio. Gazeta de Notícias, 21/02/1909. Apud: PINHEIRO, Marilene. Op.cit. p. 81. 89 45 Mesmo que o entrudo fosse um brinquedo exclusivo de Portugal, e o carnaval fosse a forma de festejar Momo, ou despedir-se dos aspectos mundanos antes de adentrar o período da Quaresma, as formas de brincar sempre assumiam uma peculiaridade de cada local. No Brasil o entrudo foi identificado como a primeira prática carnavalesca. Desde o período monárquico, havia críticas ao modo de festejar o entrudo, atribuindo lhe o significado de algo que era agressivo e violento. Na passagem da Monarquia para a República, essas tensões foram agravadas, pois além do caráter de violento foi acrescido o elemento da incivilidade. Patrícia Araújo ao estudar os festejos carnavalescos em Minas Gerais, na passagem do século XIX para o XX, apresentou uma contribuição para esta questão: O movimento de “substituição” do entrudo pelo carnaval, este último considerado modelo e padrão de uma festa, deixa vislumbrar as mudanças pelas quais passavam a própria sociedade brasileira, e mineira em particular, da mesma forma que suas ambigüidades e contradições. Sensações de moderno/antigo, novo/velho, mudanças/ permanências, imitação/inovação engolfam os indivíduos e permeiam as experiências sociais de forma e graus variados (...) no tocante à festa, procuravam constituí-la retirando ou negando tudo que fosse considerado impróprio ou “incivilizado”. Em nome de uma sociedade refinada, organizada, moderna, “as pessoas de bom tom” deveriam adotar os novos padrões de conduta e ação tanto para se divertirem como também para o mundo social.94 Tratou-se de um projeto que visava reformar a sociedade, e os festejos não estavam livres desse processo. Contudo os padrões partiam de uma determinação do ideal, daí para as práticas é outra questão. Um projeto não significa a aceitação imediata nem a implantação total e absoluta de algo, principalmente no que diz respeito às práticas culturais. Por esse motivo que a ideia de sucessão festiva com rupturas abruptas não fazem sentido. O movimento histórico é processual e como premissa fundamental apresenta sempre as permanências e rupturas, as fronteiras são móveis e neste caso partem do ponto de vista representativo e não prático. 94 ARAÚJO, Patrícia Vargas Lopes de. Op.cit. p.120. 46 O capítulo que segue adentra pelo universo das práticas e de como a feitura dos festejos acabaram por construir um cenário festivo feirense. Perceber os grupos e de que forma os feirense, das primeiras décadas do século XIX, saldavam momo. Capítulo 2 Os carnavais da Cidade. 48 2.1. Os carnavais feirenses Helder Alencar assegurou que “são antigas e muito antigas as festas de Momo na feira de Santana. Elas datam de quando o carnaval ainda era uma festa bárbara, denominadas de entrudo” 95 . Alegou que na cidade prevalecia a prática do entrudo, e somente por volta de 1891 as práticas carnavalescas, associadas à ideia de civilizado teriam surgido na cidade. Porém essas delimitações conceituais partem de uma atribuição de significado e representações forjadas e trata-se muito menos de uma ruptura das práticas. Negar as mudanças abruptas a ponto de separar as festas não significa imobilidade. As práticas mudam, pois, como trata de um evento histórico o movimento lhe é inerente Os festejos apareciam separados e noticiados como se fossem categorias diferentes: entrudo, carnaval e micareta. O antagonismo estabelecido entre o entrudo e o carnaval foi algo que transpôs o ambiente festivo, como foi dito anteriormente, era uma disputa de significado. A criação do conflito entre carnaval e entrudo foi algo que esteve para além dos festejos. Ela envolveu a negação de costumes considerados bárbaros como resultado do desejo de reforma comportamental, como um projeto de transformar os hábitos e imprimir um novo modelo social. Porém nesse capítulo trataremos o que foi separado, como uma coisa só: práticas carnavalescas, a ponto de descrevê-las como práticas e não como significados. O primeiro passo é caracterizar as práticas dentro de sua organização. As práticas caracterizadas como o entrudo envolviam a confecção das laranjinhas. Segundo a observação de Morais Filho, ao estabelecer um diálogo entre os festejos do Rio de Janeiro e Salvador, no ano de 1886, a confecção das laranjinhas e limões era algo que movimentava a comunidade muito antes dos folguedos: Coloquemos no passado e descrevamos a folia, segundo os mais velhos. Na Medina social, raro era o chefe de família que, de quinze a vinte dia antes do entrudo, não estivesse atropelado com os pedidos de cera que lhes faziam a senhora, uma filha, etc. Para a confecção dos limões, vários ingredientes tornavam-se preciosos, bem como as essências para aromatizar água, o carmim e o anil para colori-los, tudo isso adicionado de um funilzinho de folha de flandres, por meio do qual enchiam.96 95 96 ALENCAR, Helder. Op.cit. MORAIS FILHO, Melo. Op.cit. p. 132. 49 Morais Filho identificou a movimentação quase um mês antes do evento festivo, com a confecção dos elementos que são essenciais às brincadeiras. O festejo começava antes mesmo das folganças, a preparação da festa era o momento da gestação, o momento em que está sendo pensada, articulada. Essa gestação movimentava os espaços tanto quanto a festa em si. As escravas e as sinhás moças entregavam-se todo o tempo ao fabrico dos limões de cheiro, eram expostos à venda em bandejas, cestinhas, pratos, etc. que as famílias colocavam sobre as janelas de suas casas, sobre bancos e cadeiras das salas térreas, ou em tabuleiros à porta dos sobrados. Sendo confiada a quitanda de algum moleque ou preta velha, que negociava com os compradores.97 A dinâmica econômica também era fomentada, eis mais um dos múltiplos significados da prática do entrudo, mas uma possibilidade analítica que os festejos carnavalescos apresentam. Ao que tudo indica esse fabrico das laranjinhas e limões era uma atividade feminina, tanto em Salvador quanto no Rio de Janeiro. Ainda segundo Moraes Filho, esses festejos traziam consigo durante a prática várias intencionalidades e a constante introdução de novos elementos. No contexto de Minas Gerais os limões e as laranjinhas-de-cheiro eram considerados, dentro do entrudo, uma forma mais comedida de festejar: “no século XIX foram incorporadas à brincadeira os limões-de-cheiro, considerados uma forma mais refinada de jogar. Contudo, o refinamento acabava quando esgotava a provisão de limões.” 98 Mesmo tratando especificamente do entrudo, tal pratica carnavalesca apresentava divisões na forma de seus jogos: um entrudo mais sofisticado que utilizavam os limões-decheiro e as laranjinhas-de-cheiro; e um entrudo que era mais “violento”, no qual usava vermelhão, pó de peixe. Um agressivo e outro adequado. Porém essa inserção de elementos “grosseiros” não foi exclusividade de Minas Gerais, no contexto baiano há indícios de tal prática. 97 98 MORAIS FILHO, Melo. Op.cit. p. 133. ARAÚJO, Patrícia Vargas Lopes. Op.cit. p. 41. 50 A introdução de vermelhão99, dos pós de sapato o de pixe no jogo do entrudo, deram motivos a conflitos, justas reclamações, do mesmo modo que caroços cobertos de cera, com que alguns perversos entendiam divertir-se, ocasionando acidentes100 O trecho a seguir abriu uma discussão quanto uma das utilizações e intencionalidades do entrudo que era considerado adequado: Do brinquedo do entrudo, influentes existem que ainda se lembram das belas pontarias que fizeram dos belos alvos que atingiam dos deliciosos namoros que entabularam naquelas tardes que se foram e de cujo crepúsculo apenas um ou outro raio lhe esclarece a noite sombria da saudade.101 Havia duas formas, identificadas no mesmo período, das práticas. Na primeira, os elementos carnavalescos foram utilizados para um enfrentamento, que gerou reclamações e conflitos. Provavelmente esses caroços disfarçados de cera e os pós de sapato e de pixe eram atirados em algum desafeto. O segundo fragmento já apresenta outro aspecto. O fato de acertar uma laranjinha em um objeto afetivo que poderia propiciar uma aproximação e um possível namoro, que poderia terminar durante os festejos de Momo ou prolonga-se, dando origem a casamentos. O certo era que esse era mais uma forma de estabelecer vínculos. Essa riqueza de detalhes descritos sobre os festejos carnavalescos do final do século XIX não foi encontrado nas fontes referentes a Feira de Santana, principalmente sobre o processo de fabricação tão bem detalhado por Morais Melo. Os jornais desse período não tinham o hábito de noticiar o entrudo, a não ser para criticá-lo e colocar-se a favor da sua extinção. Porém em um dos fragmentos encontrou-se elementos para identificar o jogo do entrudo em Feira de Santana: “Vários entretenimentos do carnaval, cujas festas traduzem o prazer e a alegria constituem o chic das cidades mais cultas, mais civilizadas do mundo, onde a graça e a pilheiria, o belo e o agradável fizeram desaparecer para sempre as grosseiras laranjinhas e a estúpida seringa”102. O jornal identificou o entrudo dessa forma, o que me permitiu afirmar que o entrudo que ocorreu em Feira de 99 Sulfato vermelho de mercúrio pulverizado. In: AMORA, Antônio Soares. Minidicionário Soares Amora da língua português – 19 ed. – São Paulo: Saraiva, 2009, p. 763. 100 MORAIS FILHO, Melo. Op.cit. p. 132. 101 Idem. p. 136. 102 Folha do Norte. Feira de Santana, 29 de Janeiro de 1910. Ano II. Nº 20 51 Santana das primeiras décadas do século XX era similar aos jogos identificados em outros momentos e espaços. Dada a resistência ao jogo do entrudo, perceptível na crítica a essa prática carnavalesca, é provável que o disfarce utilizado para esconder caroços e pedras recobertos de ceras tenha sido utilizado pelos feirenses, mas isso é apenas uma hipótese, as fontes não apontaram para essa complexidade. O hábito de jogar coisas é característico dos festejos, seja atirar laranjinhas e águas (cheirosas ou pútridas) sejam serpentinas ou lança-perfume. Os festejos eram organizados em três dias, iniciavam-se no domingo e terminavam na terça-feira, antes da quarta-feira de cinzas, o que seria a data limite para a realização dos festejos carnavalescos. Durante esses três dias, identificados como gordos, os dias de fartura e extravagância, retomando o que foi discutido no primeiro capítulo, a oposição aos dias de resignação e Quaresma. 2.2. A organização dos folguedos. Apesar de Helder Alencar ter identificado e apresentado um fragmento do jornal O Universo sobre a existência dos clubes carnavalescos em 1891, só encontra-se registros nos arquivos referentes aos festejos carnavalescos em Feira de Santana-Ba a partir de 1901. Essas notícias aparecem de forma tímida, se comparada ao destaque que lhes foi dado no período da década de 1920 e 1930: Carnaval Embora as repetidas pancadas de água que estiveram quase dando fim aos folguedos e as folias carnavalescas nesta cidade, ocorreram tudo muito animado em todos os pontos da mesma. Especialmente entre os foliões clube Filhos da Turquia, exhibindo um “visioso” carro alegórico, com estandarte, seguindo um grande número de mascarados a pé ou a cavalo. Durante os dois dias de folguedo não se deu o menor distúrbio, se bem que se notava muita concorrência de povo. No dia 17 houve espetáculo no theatro Santana, com a assistência do referido clube.103 103 O Progresso. Feira de Santana, 24 de fevereiro de 1901, Ano I, Nº 6º. 52 Segundo esse fragmento, pode-se afirmar que nos festejos carnavalescos feirenses existia a presença, já no começo do século XX, de carros alegóricos como elementos festivos e estandartes. Essa era uma das principais características dos festejos carnavalescos em sua forma civilizada, ou seja, o carnaval enquanto representação de uma forma de brincar era marcada pela presença de carros alegóricos. Era o carnaval para se ver, feito normalmente pela elite que poderia bancar os gastos com os carros. Outro indício era sobre a espacialidade, quando afirma que o festejo foi animado em todos os pontos da cidade. Deve se lembrar que a cidade na passagem do século XIX para o XX não tinha as proporções atuais, mas nos permite deduzir que havia manifestações carnavalescas espalhadas pela cidade e não apenas em um ponto específico. Nesse momento foi identificado apenas um grupo carnavalesco, os Filhos da Turquia, o nome sugestivo, pois faz referência a um elemento oriental. Cabe então uma especulação sobre qual seria a explicação para o nome desse clube. Segundo os dados do IBGE104, na passagem do século XIX para o século XX o Brasil passou a receber um grande contingente de imigrantes árabes: “entre 1871 e 1900 apenas 5400 pessoas tinham aportado no Brasil e 95% dos imigrantes eram árabes” (...) até 1920, mais de 58.000 imigrantes árabes haviam entrado no Brasil, sendo que o estado de São Paulo recebeu 40% deste total “105. O período de imigração árabe para o Brasil de forma mais significativa coincide com o surgimento do grupo que fez referência a essa cultura oriental. Entretanto nos dados do IBGE, o estado da Bahia não apareceu como um dos maiores destinos desses imigrantes, o que não significa que eles não tenham chegado ao solo baiano. Como os jornais costumavam publicar notícias mundiais, as pessoas poderiam tomá-los como referência sem necessariamente ter influência direta de um Turco, para que o Clube Filhos da Turquia tenha existido. Além disso, nesse período o contexto árabe era um motivo carnavalesco, o seu luxo e riqueza eram referências para a confecção das indumentárias. Outra questão é quanto à dinâmica da festa, costumava-se festejar durante três dias: domingo, segunda e terça-feira, porém a fonte cita apenas dois dias de festejo ocorridos nas ruas. O último dia, ao invés da realização do festejo ocorrer no espaço público, ela foi organizado pelo clube os filhos da Turquia, no Teatro Santana. Isso não aponta para uma regra, na qual dois dias dos festejos eram na rua e o último em clubes, trata-se apenas de um exemplo, que demonstra a existência dos festejos tanto em espaços públicos, quanto em locais particulares. 104 105 http://www.ibge.gov.br/brasil500/arabes/razaoemigarabe.html Idem. 53 Echos do Carnaval. Evohé... Evoé... Zig zig Bum! zig bum! Bum... bum... Fomos surpreendidos na última terça-feira gorda com o passeio de um grupo carnavalesco que quebrou a monotonia da nossa terra. Uma verdadeira surpreza, pois tão mysteriosamente foram organizados, que nossa população tão grande fartura de alegria teve. Evohé!... Evohé!... Aos sons de estridulo Zé-Pereira, acompanhado de reco-reco, bombos e tambores, vimos um formidável grupo que trazia letras douradas de seus dous anos de existência, (...) O Grupo Carnavalesco Flor de Arromba compunha um grupo de cincoenta phantasiados z’elhos, diabos, reis, princesas, morcegos, burros, caveiras diabinhos e muitos jagunços armados de espingardas a tira colo, foices no lombo, chuchos, paus, etc.106 Sobre o carnaval de 1910 encontrou-se apenas notícias quanto à terça feira. Mas isso não implica que nos dias anteriores não tenha ocorrido o carnaval. Como foram citados anteriormente, os jornais desse período eram de pequeno porte e especificamente o jornal Folha do Norte tinha uma circulação semanal. Nesse caso, a notícia referente à terça-feira havia ocorrido há quase uma semana, logo o noticiário não era tão detalhado em virtude da divisão em quatro laudas de tudo que havia sido “relevante” ao longo da semana que passara. Por esse motivo existia uma limitação quanto aos detalhes dos festejos. Voltando à análise da fonte, o ato de se fantasiar não seguia uma norma, na qual cada grupo devesse sair às ruas com as mesmas indumentárias. Nesse caso dos festejos das primeiras décadas do século XX em Feira de Santana, não se apontou para a normatização das vestimentas. As fantasias eram as mais diversas possíveis. Sobre o trajeto feito pelo aparentemente único cordão não houve nesse ano uma especificidade sobre as ruas, mas apontou o paço municipal como um ponto de passagem e parada: O espalhafatoso e barulhento Zé-Pereira percorreu as várias ruas da cidade, até que estacionou diante do prédio da Intendência, numa saudação de honra ao poder municipal. Ahi principiavam os cantos e danças característicos. Piruetas e negaças, requebros e contorções davam vida interessante ao cordão carnavalesco, muito bem ensaiado nas evoluções que faziam seus mascarados, de tal modo que, além dos apetrechos que traziam, embocavam vários instrumentos musicais. 106 Folha do Norte. Feira de Santana, 12 de Fevereiro de 1910, Ano II. Nº 22 54 Empenhava o primeiro estandarte um majestoso rei, vermelhaço como um inglês, cabelos cinzentos, bronzeados e galhões de coronel, andar pausado, methodico, a que, com uma gravidade imperialesca, avançou a frente do grupo, cantando com a música do – Nem que chova o que chover107. O cortejo percorria algumas ruas da cidade, porém tinha como ponto de referência o paço municipal, muito embora a festa carnavalesca não fosse uma festa incluída no calendário oficial da prefeitura. Além da reverência ao poder público, o cordão citado tinha uma aparente organização, do ponto de vista do cortejo, na evolução e na cadência do desfile. O uso de máscaras foi outra característica neste momento festivo. O trecho abaixo representou um momento decisivo do festejo, pois era o momento em que um homem fantasiado de rei entoava um cantou que aparentemente iniciava o festejo, funcionando como um rito de passagem. Primeiro ele se apresentou ao poder público e ai então os folguedos tiveram um início formal. O canto entoado pelo majestoso rei foi este: - Eis aqui o grande chefe, Eis o chefe papa-figo Grito, berro dou tabefe, Não do amigo do amigo, Eis aqui a minha gente, Flor da gente de arrelia, Povo pouco mais violento Arromba ferro estropia. -Não há ninguém mais decente, Desde o Sobradinho ao tomba! Viva a flor da nossa gente Viva o grupo Flor do Arromba Na casa branca da serra, Que eu ficava horas inteiras, Nada arranco ha folha guerreira A estas magras algibeiras. Sob o disfarce e a chalaça Eleva-se o meu papel, Mas... Quem nasceu para cachaça Nunca chega a moscatel - Eil-o o mestre, sábio e seriol 107 Folha do Norte. Feira de Santana, 12 de Fevereiro de 1910, Ano II. Nº 22 55 Vem contra mim? Leva surra, Sou a flor. mistério Chamam-me catão coturra Quem nos vê julga trazemos Da aliança a niveta pomba. Jamais! Fartaremos, fartaremos De entregas a “Flor do Arromba” Quem mais valente e bonito, Mais sagaz, mais mordedor? Ali dentro... Tenho dito, Sou até imperador! Nisso só? E no mocinho, Quem me vence, venha ver? Mas emfim, sou um santinho, Só sei trahi e morder Ai, as lutas d’esta vida! Morre quem vive de donho Que é da gloria appetecida? Aos pés a Lyra depoente Seja a vida um riso aberto Para o bem e as illusões, Embora comamos, certo Do município os tostões108 O início da letra mostrou uma espécie de apresentação, isso retifica o que foi dito anteriormente, quando o rei da folia apresentou ao poder público e as suas intenções em nome do seu povo, pois ele era um rei com seus súditos a pedir passagem. A letra expôs também elementos contraditórios, pois é um povo violento que arromba ferro, mas em contrapartida é denominado como um povo decente. A violência nesse caso referiu-se ao ato da alegria e não do fazer mal. É uma música que funcionou como uma espécie de abre alas carnavalescas. Nas duas últimas estrofes estabeleceu um comparativo com a vida ‘real’, na qual ele não é imperador, pois afirmou “ali dentro... tenho dito, sou até imperador!”. A vida, segundo a canção, devia estar aberta ao riso para o bem e as ilusões. Voltando ao trecho que antecedeu a canção, a figura do Zé-Pereira apareceu como um sujeito da festa que funcionava como um espírito festivo, se é que assim pode-se denominar. E nesse momento abre-se um parêntese para afirmar que esse sujeito festivo não aparecia apenas no período carnavalesco. No Folha da Feira ele aparecia como um personagem que 108 Folha do Norte. Feira de Santana, 12 de Fevereiro de 1910, Ano II. Nº 22, 56 assinava a parte humorística do jornal, pequenos textos de humor que também tinham um caráter crítico. Vale ressaltar que isso não implica em uma prática carnavalesca. Mas aponta para a forma de como um elemento carnavalesco pode ser utilizado para além do período carnavalesco. Como já foi mencionado, Zé-Pereira era o nome dado a um bombo que dava o ritmo aos festejos carnavalescos. É uma personificação de instrumento musical carnavalesco. Imagem: Jornal Folha da Feira, de Junho de 1933, ANO V. Nº 246; Segue a transcrição do documento: Humorismo 57 Ao toque da fanfarra Cumpre a policia corrigir uma horda de desocupados, malandros perniciosos os que infestam a cidade, em detrimento ao decoro público. Molequeira desabrida Malcreada, patranheiras, Pschlada, corriqueira, Vive ahi, a solta, ao léo... A polícia me parece, Que s’quece dessa gente, Remitente, estoleada... Uns – de calças arregaçadas. Outros – nus e sem chapéo. Zé- Pereira.109 Dois elementos chamam atenção; a primeira foi a estética. A utilização de um elemento carnavalesco, o Zé-Pereira, que não bastasse o nome ainda está com toda uma indumentária carnavalesca, fantasiado. Entretanto ele está recortado da sua temporalidade, trata-se de uma reportagem do mês de junho quando costumeiramente os trabalhos carnavalescos já teriam sido encerrados. Esse elemento foi prontamente associado ao humor, ao deboche, à crítica. Zé-Pereira não estava preso à temporalidade carnavalesca na percepção dos editores do Jornal Folha da Feira, que tinha como diretor e proprietário Martiniano Carneiro e redator Corrêa Carmo. Ele servia como uma cortina de fumaça para apontar os problemas em um tom de brincadeira, como as feitas no período carnavalesco. A segunda tratou-se do textual, nessa percepção o texto é pensado junto com a imagem. É perceptível uma crítica voltada para o poder da polícia, que aparentemente, não tem cumprido com o que “Zé-Pereira” entende como sendo a sua obrigação, que era defender o decoro público, corrigindo os desordeiros. O texto não fez nenhuma referência aos festejos carnavalescos, mas já serve de previa para despertar um olhar mais cuidadoso para o que será discutido no capítulo a seguir. Isso porque os festejos estavam imbuídos dessas intencionalidades ordeiras, hipótese que foi fortificada com esse fragmento, no qual um elemento carnavalesco foi utilizado para estabelecer crítica à horda de desocupado. Partindo dessa ideia de ordem social, vale lembrar que nem sempre os festejos foram prioridades nas páginas dos jornais feirenses. Por esse motivo, em alguns anos os jornais vistoriados, não foram encontradas informações esse evento festivo. Dentro desse contexto os 109 Folha da Feira. Feira de Santana, 27 de Junho de 1933, Ano V. Nº 246; 58 anos de 1911 a 1914 e o período de 1919 a 1921 foram os casos mais evidentes dessa escassez de notícia. Entretanto, o fato de não ter sido noticiado, não implica automaticamente em uma prova irrefutável para afirmar que não teriam existido os folguedos nesses anos. Não foi encontrado, por hora, nenhum outro documento que aponte para a existência de práticas carnavalescas na cidade nos períodos citados. Contudo nesses anos de silêncios referentes aos folguedos carnavalescos eram corriqueiros os anúncios que faziam referência ao carnaval da capital: Pelo motivo das graves agitações porque, ora passa a Bahia e principalmente sua capital, agitações que vão até enlutando lares, porque a combinação política, no assalto do poder, não pesam crimes e até assassinatos, não mais se effectuará o anunciado passeio de recreio a Sociedade 25 de Março à cidade do Salvador, pelo carnaval deste ano.110 As referidas agitações políticas, das quais a fonte apontou, estavam relacionadas à sucessão do governador do Estado da Bahia. “Em 1911, começaram as especulações em torno do futuro governador baiano. Seabra, aliado desde o início do governo federal, era aventado como um nome forte, mas sofria enorme resistência da situação local de muitos chefes políticos tradicionais, a exemplo de Rui Barbosa.”111 As disputas políticas dominavam o cenário baiano e as tenções foram aprofundadas à medida que as eleições se aproximavam. A proposta de Rui Barbosa em transferir a capital para o interior do estado, Jequié, e o adiantamento das eleições agravaram a situação, segundo Rinaldo Leite. O governo federal posicionou-se ao lado de Seabra e a causa se estendeu pelo ano de 1912: No dia 10 de janeiro de 1912, cumprindo ordens da presidência e do ministro da Guerra, o general Sotero Menezes, responsável pelo comando militar da região, enviou um ultimato ao governador para que cumprisse a ordem judicial e o ameaçou de fazê-lo respeitada a força. Aurélio Viana persistiu em não aceitar a determinação. Assim, a partir das catorze horas do mesmo dia, os canhões instalados nos fortes do mar e do Barbalho iniciaram o Bombardeio do centro de Salvado, dirigindo tiros, principalmente, contra o 110 Folha do Norte. Feira de Santana, 3 de fevereiro de 1912, Ano IV, Nº 105. LEITE, Rinaldo Cesar Nascimento. A Rainha destronada, Discurso das Elites como sobre Grandezas e os infortúnios da Bahia nas Primeiras Décadas da republicana. São Paulo, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2005. p. 319. 111 59 Palácio do Governador e a antiga Câmara Municipal, local de funcionamento da Assembleia legislativa112. Essas foram as agitações pelas quais passavam a Bahia e essas manchetes ocupavam grande parte dos folhetins da época. Entretanto outros anúncios do mesmo ano de 1912 apontaram para a pertinência de um clima carnavalesco: “Para o carnaval, procurem o atelier de Chapéus de Francellina de Mello Lima” 113 . O fato de uma casa comercial investir em um reclame anunciando serviços voltados para o carnaval indicava que havia uma mobilização voltada para o festejo, pelo menos naquele ano de 1912; quanto aos outros períodos, as fontes não permitem fazer tal afirmação. Será que os festejos não aconteceram? Ou eles não foram noticiados devido ao contexto político baiano? O dado do reclame indicou que a segunda é mais plausível, pois não foi encontrado nenhum motivo que impedisse essa realização. As chamadas para os passeios à capital não foram algo pontual do ano de 1912, eles voltaram a aparecer em 1914, primeiro em forma de anúncio: “Carnaval de 1914. Pomposo passeio de recreio da 25 de Março à capital do estado em 22 de fevereiro.” 114 Quando estava mais próximo dos festejos, as chamadas eram intensificada e detalhadas: Passeio à capital. Conforme se vem anunciado, realisa-se nos vindouros dias 21, 22 e 23 o passeio de recreio à capital do Estado, promovido pela Sociedade 25 de Março. Partindo desta cidade às 22 horas de 21 chegarão aos passantes à cidade do Salvador às 8 horas da manhan seguinte, estando-lhes preparados pomposa recepção, promovida pela colônia feirense e pela sociedade Recreio do Bomfim e Muturia dos Musicos do 1º grupo da polícia. Nessa recepção tomarão parte várias corporações orpheicas bem como Recreio do Pilar e Lyra de Appolo e Carlos Gomes Lyra de S. Braz.115 Os indícios apontaram que na década de 1910 já existia um deslocamento de Feira para Salvador, o que representava uma concorrência ao carnaval feirense. 112 LEITE, Rinaldo Cesar Nascimento. A Rainha destronada, Discurso das Elites como sobre Grandezas e os infortúnios da Bahia nas Primeiras Décadas da republicana. p. 320. 113 Folha do Norte. Feira de Santana, 3 de fevereiro de 1912, Ano IV, Nº 105. 114 Folha do Norte. Feira de Santana, 21 de janeiro de 1914, Ano VI, Nº 206. 115 Folha do Norte. Feira de Santana, 14 de fevereiro de 1914. Ano VI, Nº 209. 60 Com o passar do tempo e mediante as acomodações políticas, as notícias sobre os festejos carnavalescos passaram a ter maior freqüência a partir de 1922, porém de forma tímida, com notícias sintéticas, pequenas notas. E essas reportagens não citavam o carnaval de rua, apenas os bailes promovidos pela Filarmônica 25 de Março: O carnaval, o baile da 25. Um grupo de admiradores da 25 de Março realiza um baile à fantasia no palacete da apreciada corporação orfheica. Todos os associados da 25 terão entrada franca nessa festa, que assignaria o carnaval deste anno com uma chic na chronica social feirense116. A fonte permite afirmar que nos festejos carnavalescos existiam bailes a fantasia em espaço privados, no caso específico das filarmônicas, ou seja, os folguedos não estavam limitados ao espaço da rua. E o jornal posicionou-se como se a modalidade de festejo privado representasse a totalidade carnavalesca, o que indica a posição ideológica desse veículo de informação mediante a festividade. Ao que indica as fontes, a participação nesses bailes ocorriam mediante pagamento, exceto, como sinalizou o fragmento, se fosse um sócio da entidade promotora do baile. Em 1923 ainda era tímida a aparição das notícias referentes às folganças carnavalescas, mas uma delas e apresentou um elemento contraditório: Carnaval. Momo passou ao largo. E a cidade viveu os três dias da troca e da folia no ram-mam de uma placidez inalterável Nada, absolutamente nada assignalaria entre nós o Carnaval si não fora o grupo Phantasmas, composto por geniais senhorinhas e que na terça-feira, á tarde, percorreu esfuziante de alegria às ruas da urbe117. O trecho apontou para um desânimo em relação aos dias de carnaval, indicou para uma ausência dos festejos durante o período carnavalesco, que fora salvo pela ação de um grupo. Essas lacunas fazem pensar se a referência de carnaval nesse período era uma prática corriqueira ou uma construção, que tinha como ideal uma festa carnavalesca comum as cidades tidas como urbanizadas. Isso porque os festejos, pelo menos neste ano, segundo a 116 117 Folha do Norte. Feira de Santana, 25 de fevereiro de 1922, Ano XIV, Nº 519. Folha do Norte. Feira de Santana, 17 de fevereiro de 1923, Ano XV, Nº 670 61 fonte, foram idealizados e realizados apenas por um grupo. Logo, o carnaval era realizado, mas não com o empenho que em alguns momentos lhe era atribuído e nem com uma grande efervescência. Durante os anos 1920, as notícias eram pontuais geralmente uma reportagem que apresentavam um resumo dos dias festivos, reportagens mais sucintas: O carnaval entre nós Programa chistoso expressivo correu desde os primeiros dias da semana, celebre e arrebatador por toda a cidade, anunciante entre nós do carnaval, a se realizar em amanhã e terça-feira. Dada a grande animação com que se apresenta e diz de como vão ser festejados os dois dias determinados, parece que iremos assistir em verdade momentos carnavalescos. As tardes dos referidos dias, atos enfeitados, correrão as ruas da cidade. Tais farão ainda álacres cordões de moças phantasiadas e mascaradas de todo gênero. Em repetidas noites ocupando o coreto da aprazível Praça de Sant’Anna, philarmonicas locaes farão brilhantes tocatas, ocasião em que gentis senhorinhas e rapazes phantaziados disputarão animadas batalhas de confetes, lança-perfume e serpentinas.118 Esse fragmento permitiu fazer algumas afirmações: mesmo não especificando as ruas pelas quais passavam o carnaval, tinha um segundo ponto de referência além do paço municipal, que era o coreto da Igreja de Sant’ Anna, que vem a ser a catedral da cidade. As caracterizações das práticas também eram constantemente renovadas, o ato de usar fantasias, usar máscaras e molhar uns aos outros com o lança perfume e as batalhas de confetes. “A frente de suas legiões aguerridas e fartamente municiadas de confetes, serpentinas e perfumadores e lança-perfume, Momo – o eterno deus do Riso e da loucura aproxima-se.”119 O carnaval tinha como prática a guerra das serpentinas, dos confetes e do lança perfume. Comparando à prática do entrudo, encontramos mais semelhanças que divergências. No entrudo a guerra era feita com laranjinhas e pós. A guerra de objetos, molhar uns aos outros era a mesma. Em ambos os casos, o que mudou foram os objetos utilizados. Foi a partir da metade da década de 1920, que os jornais, sobretudo a Folha do Norte, apresentaram uma preocupação maior em anunciar os folguedos não apenas durante o festejo, mas também com certa antecedência, inclusive apresentando uma comissão e certo empenho 118 119 Folha do Norte. Feira de Santana, 21 de fevereiro de 1925, Ano XVII, Nº 776. Folha do Norte. Feira de Santana, 30 de janeiro de 1926, Ano XVIII, Nº 858. 62 em realizar algo melhor. Talvez essa preocupação tenha surgido a partir da percepção de este espaço festivo também era um espaço de disputas políticas, o que justificaria a atenção dada aos festejos: Sabemos que a comissão promotora dos festejos no anno passado indicará para membro do corrente anno aos influentes cavalheiros Srs. Elpidio Raymuno da Nova, negociantes José Olympio da Silva, Alvaro Rubem, Joel Barbosa, Marinosio Mello o que importa dizer que o carnaval de 1926 não será menos brilhante e animado do que o de 1925. Essa é a opinião de toda a população de Feira de Santana.120 A forma como os festejos eram abordados mudaram com a administração de Raul Silva como diretor do jornal Folha do Norte, pois foi dado ao festejo um destaque que permitiu uma análise mais aprofundada e detalhada, começando as reportagens a partir do mês de Janeiro. 2.3. O carnaval dos anos trinta e a suposta “crise” carnavalesca. A partir da década de 1930 os festejos carnavalescos passaram a ser noticiados em um contexto de “crise”. A referida crise, segundo Helder Alencar121, estaria ligada à construção da Rodovia 324, que ligam as cidades de Feira de Santana e Salvador. Porém não seria seguro afirmar que a construção de uma rodovia esvaziaria uma cidade a ponto de não existir o carnaval, pois a criação de infraestruturas para locomoção não garantiria a pronta mobilidade. Essa teoria da “crise” carnavalesca aliada à concorrência com o carnaval de Salvador fomentado pela construção da rodovia, também foi levantado por Aldo Silva, quando afirmou: A abertura da rodovia concluída em 1929 criou a possibilidade, portanto, de os feirenses desfrutarem do carnaval em Salvador. Em 1932 essa prática já se mostrava em franca expansão, com a população preferindo a festa na capital, de modo que Feira de Santana via-se progressivamente esvaziada de seus foliões, fato, aliás, claramente percebido pelos munícipes de então, para os quais o carnaval daquele ano havia sido apenas ‘modesto’.122 120 Folha do Norte. Feira de Santana, 30 de janeiro de 1926, Ano XVIII, Nº 858. ALENCAR, Helder. Op.cit. 122 SILVA, Aldo José Moraes. De terra Sã à berço da micareta: estratégias constitutivas da identidade social em Feira de Santana. p.122. 121 63 O dado sobre a facilidade do trânsito entre Feira de Santana e a capital é inegável, porém esse fator não foi determinante para a chamada “crise” carnavalesca, pois muito antes de 1929, ano de conclusão da rodovia Br. 324, alguns grupos, em especial as filarmônicas, já promoviam passeios à capital durante os festejos carnavalescos. Como já foi citado anteriormente, e retomo neste momento como um caráter demonstrativo, os passeios eram uma prática comum durante o período carnavalesco: Passeio à capital. Conforme se vem anunciado, realisa-se nos vindouros dias 21, 22 e 23 o passeio de recreio à capital do Estado, promovido pela Sociedade 25 de Março. Partindo desta cidade às 22 horas de 21 chegarão os passantes à cidade do Salvador às 8 horas da manhã seguinte, estando-lhes preparados pomposa recepção, promovida pela colônia feirense e pela sociedade Recreio do Bomfim e Muturia dos Musicos do 1º grupo da polícia. Nessa recepção tomarão parte várias corporações orpheicas bem como Recreio do Pilar e Lyra de Appolo e Carlos Gomes Lyra de S. Braz.123 Essa facilidade pode ter colaborado, mas a prática da migração rumo ao carnaval soteropolitano não surgiu por causa da rodovia. Outro ponto a ser pensado, que foi suscitado por Aldo Silva: O êxodo dos foliões, especialmente daqueles tidos como “influentes”, determinou a derrocada do carnaval feirense. As figuras mais abastadas e destacadas preteriam a festa local em favor dos festejos na capital, influenciando assim boa parte da comunidade, que seguia o mesmo caminho.124 O chamado êxodo não era algo que promovia o esvaziamento da cidade, apenas alguns grupos, por sua questão social vantajosa, tinha acesso ao carnaval soteropolitano. A concorrência com o carnaval de Salvador é anterior à construção da rodovia. O que mudou foi a forma como essas alternâncias, entre carnavais mais expressivos e os menos entusiasmados, passavam a ser tratados pelos veículos de informação. 123 Folha do Norte. Feira de Santana, 14 de fevereiro de 1914. Ano VI Nº 209. SILVA, Ala do José Moraes. De terra Sã à berço da micareta: estratégias constitutivas da identidade social em Feira de Santana. p.123. 124 64 Nisso a Revista Panorama da Bahia ajudou no debate dessa problemática, pois quando a Micareta completou 50 anos de existência foi lançado um número comemorativo que se prestou a fazer um dossiê e nele apareceu o seguinte dado: Folião solitário: Na realidade, Feira de Santana passou a viver grandes festas momescas a partir da criação da Mi-carême. Manoel Fausto dos Santos, exjogador de futebol e desportistas amador conhecido como “Mané de Emília”, com 87 anos de idade, lembra-se perfeitamente que o Carnaval em Feira de Santana começou a existir em 1929. O comerciante Antônio Azevedo, filho de Feira, mas residente no Rio de Janeiro, ficou decepcionado quando resolveu vir passar o Carnaval na terra natal em 29. A festa simplesmente não existia. “Ele então me incentivou a estimular a realização da festa, consultamos vários intelectuais que na época trabalhavam na “Folha do Norte” e o primeiro resultado prático foi a fundação do ‘Clube Carnavalesco as Melindrosas” em 4 de fevereiro de 1929, da qual fui presidente por Vários anos.125 Segundo essa referência, antes mesmo de 1929, os festejos carnavalescos não conseguiam estabelecer em Feira de Santana uma regularidade, talvez isso ajude a entender as lacunas em alguns anos das primeiras décadas do século XX. Nesse ponto a contribuição de Aldo Silva, que é coerente com esse dado e as leituras das fontes que seguem, é a ideia de uma construção da festa. O dado acima diz que a partir de uma comparação com o carnaval carioca, que na ocasião era a capital do país, surgiu uma reformulação dos festejos com o envolvimento de um dos principais jornais da cidade, o Folha do Norte. Esse fator explica o porquê da riqueza dos detalhes do referido jornal ao documentar e divulgar a festa a partir de 1930. Na década de 1930 houve um esforço em renovar, “salvar” as festividades carnavalescas. Nesse contexto surgiu o cordão das Melindrosas como uma injeção de ânimo aos festejos carnavalescos. Segundo o dado da Revista Panorama da Bahia, essa iniciativa não teria sido suficiente. A iniciativa de Antônio Azevedo, apoiada por outros foliões não foi suficiente, entretanto, para fazer com que o carnaval fosse realmente uma festa animada em feira de Santana no período de 29 a 36. “Tanto que em 36 “as melindrosas” foram participar da festa momesca de Muritiba, ocasião em 125 Revista Panorama da Bahia, 20 de abril de 1987, Ano 4, nº 80. p. 12. 65 que aconteceu a primeira desavença no clube, tendo como desfecho a criação de um novo clube carnavalesco: Flor do Carnaval.126 Além de concorrer com o carnaval da capital do Estado, existiam outras localidade que tinha o festejo carnavalesco pré-quaresma, nesse caso ocorreu também uma migração do clube carnavalesco para o recôncavo, a cidade de Muritiba. Dessa forma, o esvaziamento da cidade não ocorria só por causa da construção da BR. 324, tendo como destino apenas Salvador, visto que os grupos carnavalescos tinham outros destinos. A maior atenção dada às décadas que antecedem a criação da micareta apresenta um panorama de como se deram os festejos. O primeiro dado é que o evento festivo passou a ser noticiado, como já foi dito, com quinze dias de antecedência e não mais em uma nota de véspera. “O Carnaval avisinha-se: mãos à ombro foliões. Falta apenas uma quinzena para que Momo – o eterno e sempre almejado deus do riso e do prazer - surja, dominador, na urbe feirense, instituindo seu ephemero, mas salutarissimo reinado” 127 . As notas sobre o festejo cresciam gradativamente à medida que este se aproximava e existia um apelo, uma espécie de justificativa para valorizar o momento: Todas as classes deveriam, aliás, empenhar-se pelo esplendor do Tríduo da Folia em seu próprio interesse, porque eles iriam aproveitar a circulação do dinheiro que se retrai e até sonega pesar de ser evidente a necessidade da contribuição geral. O commercio, os profissionais da volante, os artistas de varias espécies, confeccionadores de vestes e artigos apropriados, além de outros têm compensações vantajosas do que por ventura, venham a depender em auxílio às grandes festas locais. A verdade desse assertivo é irrefutável.128 Uma justificativa que atentou para os benefícios econômicos que os comerciantes poderiam ter caso houvesse um empenho para que a festa ocorresse, seria então um bom negócio investir nas festas locais, pois isso só traria benefícios. E as justificativas seguiram para além do caráter econômico, perpassando como foi citado no capítulo anterior, por uma questão social e segundo a fonte “psycologica”: 126 Revista Panorama da Bahia, 20 de abril de 1987, Ano 4, nº 80. p. 12. Folha do Norte. Feira de Santana, 31 de Janeiro de 1931, Ano XXII, Nº 1124. 128 Folha do Norte. Feira de Santana, 7 de Fevereiro de 1931, Ano XXI, Nº 1125. 127 66 O carnaval é uma festa civilizadora e necessária até do ponto de vista psycologico, ‘pois é uma grande válvula de segurança aberta para a expansão do prazer franco a que a vida atctual, a mais torturante (...) de todas as epidemias as que menos receio e terrores inspiram é provocar alegria é isto é o carnaval129. Após a vasta propaganda realizada sobre os festejos carnavalescos, com convites à participarem da festa desde a sua organização, com justificativas econômicas e sociais, o carnaval de 1931 foi realizado na segunda quinzena do mês de fevereiro e um balanço foi feito pelo jornal Folha do Norte sobre o festejo: Os brilhos e os delírios de carnaval, nesta urbe notadamente na terça-feira gorda, excederam as previsões optimstas dos próprios momocratas. A comissão organizadora e executiva do tríduo da alegria está de parabéns pelo êxito de seu louvável emprehendimento resultante de esforços titânicos a supprir a deficiência de numerários. Porque, em verdade (seja nos permitido a franqueza ao registrarmos os eventos álacres da quadra em que as verdades podem e devem ser ditas) ela não foi auxiliada como merecia.130 Os festejos foram realizados, mesmo apresentando um saldo positivo no qual se afirma que as expectativas dos otimistas foram superadas, ao final do balanço deixou transparecer que não alcançou o esperado. Talvez essa insatisfação com o fato de não ter tido o apoio desejado, tenha desencadeado a ideia da crise. E isso passou a ser cada vez mais freqüente. Apesar dos anos da década de 1930 serem caracterizados como uma crise carnavalesca, os mesmo veículos informativos apontaram para uma sequência festiva, inclusive foram os anos que se encontrou uma quantidade maior de reportagens sobre o período carnavalesco. E à medida que os anos avançavam a ideia da crise ganhava mais força, chegando a anunciar prematuramente a redução do brilho do festejo daquele ano. Carnaval Está decretada para mais algumas horas o início do regime oficial da alegria. Ao poder do eterno deus do riso e da loucura jamais resistiu a gente sadia e moça sem preocupações sem mágoas. 129 130 Folha do Norte. Feira de Santana, 14 de fevereiro de 1931, Ano XXII, Nº 1126. Folha do Norte. Feira de Santana, 21 de fevereiro de 1931, Ano XXII, Nº 1127. 67 A crise absorvente reduzirá de muito os trilhos e animação do transcorrido triende. Será modesto o tríduo do prazer em 1932. Sob o controle de comissão esforçada, cujas actuação dedicada foi o seu tempo encarado como prodigiosa pelo muito que realizaram, pelo êxito extraordinário de quando empreenderam, o carnaval implantou-se victorioso na Feira, com a sua característica de festa typica essencialmente popular.131 As dificuldades em realizar os festejos poderiam muito bem diminuir o brilho da festa, segundo a versão do jornal, mas não a impediu de ser realizada. Um questionamento é pertinente, seria essa a opinião de todos, será que o brilho deixou de ser intenso para todos ou era essa impressão de um grupo? Não se pode em momento algum perder a dimensão de que a imprensa foi um veículo de ideais e que não representava a totalidade muito menos uma unanimidade. Dado importante para os folguedos feirenses ocorreu em 1932, quando o trajeto do cortejo carnavalesco foi delimitado com maior rigidez: Este ano a autoridade policial alterou o percurso, o tornando obrigatório, segundo edital publicado, mas em verdade, da maneira porque elle virá a ser cumprido, não satisfará ao público eu sua generalidade, aprovará tão somente aos comodistas que, por ventura residam nas ruas senhor dos passos e Barão de Cotegipe.132 A mudança do trajeto apontou para uma organização que limitou os espaços do festejo, garantindo um controle maior. Isso porque quem organizou e decretou a mudança foi a força policial, órgão que era responsável por manter e cumprir a ordem e as condutas “adequadas”. Voltando ao aspecto de que a crise não teria sido algo que interrompesse com os festejos, o próprio jornal no ano seguinte acabava corroborando para essa ideia de que a crise era para alguns e não comprometia a todos a ponto de impedir a realização do festejo: “o período é de penúria, de crise de tudo, elle não impediu, porém que a alma popular se entregasse às expansões mais vivas e inebriantes, celebrando a festa oficial da Alegria.” 133 Os festejos por mais tradicional que possam parecer, sempre estão em constante transformação, seja na mudança de um cortejo ou na introdução de novos elementos e 131 Folha do Norte. Feira de Santana, 6 de fevereiro de 1932, Ano XXIII, Nº 1177. Folha do Norte. Feira de Santana, 6 de fevereiro de 1932, Ano XXIII, Nº 1177 133 Folha do Norte. Feira de Santana, 4 de março de 1933, Ano XXIV, Nº 1233. 132 68 comportamentos. Em uma reportagem, essas mudanças ficam um pouco mais perceptíveis do ponto de vista das práticas. Apresentem-se, foliões! Mais uma quinzena a decorrer e implanta-se nesta urbe o regime momocratico. O eterno deus risonho renuncia jamais o seu pomposo reinado e seus adeptos são incontáveis em todos os centros cultos. São, muitos muitíssimos os citadinos que anseiam pelo tríduo da folia, em que renovarão as batalhas incruentas a confetes, serpentinas, perfumadores, ou melhor, lança perfumes. Essas rodas elegantes de mocelinhas jovens e rapazes discutem-se a adaptação de figurinos carnavalescos para os dias 11 e 13 de fevereiro próximo, nos quais além dos corsos e passeatas vespertinas, affectara-se-ão bailes a fantasia em várias partes. (...) Haverá surpresa. Dizem-nos que projetam um bloco dos camisas... Ah! O ledor tem interesse em saber qual o motiz? Com franqueza; ignoramos. 134 A adequação das vestimentas carnavalescas deu o tom de mudanças. Por questões climáticas, as vestimentas daqui deveriam ser adaptadas para um conforto maior. O corso citado na fonte já era algo corriqueiro nos festejos carnavalescos, uma espécie de carro alegórico, em menores proporções do que estamos habituados a ver, mais que era sempre decorado com brilho e com alguns personagens em destaque. Permaneceram também os jogos: guerras de objetos e o costume de molhar uns ao outros. Nesse caso específico o uso da serpentina e do lança-perfume. Nesta mesma reportagem apareceram os interesses do jornal, enquanto não apenas um noticiador, mas uma empresa voltada para o mercado e o lucro. Após toda a propaganda em torno do festejo, finaliza desta forma: Aliada uma notícia agradável. A secção de papelaria da Folha do Norte está devidamente apparelhada para fornecer a todos os momophilos a preços convidativos, máscaras, cabeleiras, barbas, toda espécie de disfarces, ornamentos de vários materiais divertidíssimos feito em summa. Uma complexidade admirável de artefactos carnavalescos que incomparável indústria allemã tem inventado e produzido vale a pena verificar o tempo passa veloz.135 134 135 Folha do Norte. Feira de Santana, 27 de janeiro de 1934, Ano XXV, Nº 1280. Folha do Norte. Feira de Santana, 27 de janeiro de 1934, Ano XXV, Nº 1280. 69 O interesse em divulgar os festejos carnavalescos era algo que trazia benefícios ao grupo Folha do Norte, pois aliado à divulgação dos festejos estavam também a divulgação e a propaganda de lojas dos patrocinadores da cidade, como fornecedoras dos elementos indumentários necessários ao ato de brincar os dias de Momo. A micareta teve como ano de criação 1937, porém há notícias sobre esse festejo em datas anteriores e em locais diferentes de Feira de Santana: Passou breve, fugaz como todas as coisas que proporcionam prazer, o tríduo da Folia. Os folguedos dos primeiros dias de reinado de Momo único decorreram algo frio, pesas da elevada temperatura ambiente. Fizeram-se notadas inconveniências e falhas. O movimento comercial da tardinha e da noite de sábado afiguraram-se a muitas pessoas promissor de extraordinária animação affluencia de foliões a Avenida da Alegria, (denominação dada por experimentando carnavalescos às ruas Conselho Franco e dos Remedios, onde a circulação avulta em dias de carnaval) o que, no entanto, não ocorreu (...). Os momophilos feirenses querem ressarcir-se da relativa frieza do carnaval citadino e da quarentena nesta de abstinência, promovendo festa álacre em sábado de aleluia e domingo de Páschoa.136 Nesse trecho indica a organização de uma festa posterior ao carnaval, com um complemento ao carnaval. Tratou também das falhas que impediram a realização de um festejo satisfatório, isso na percepção do jornal. E alguns grupos carnavalescos já estavam a organizar o novo festejo. Estes aparecem como informativos. O novo e já promissor Bloco dos Farristas realizará festas campestres inclusive a queima de um Judas na Praça da Matriz, que fica próximo a sua sede fará passeata pelas principais artérias da urbe. Somos informados de que o já festejado Bloco dos Duvidosos também empreenderá attraente diversões nos dois dias mencionado. Mais um cordão: Cogita-se da organização de um novo bloco ou cordão que pretende estrear nas próximas festas da Páschoa, vulgarmente chamado de Mi-carême, no qual figurarão 30 senhorinhas e outros tantos rapazes de nossa sociedade.137 136 137 Folha do Norte. Feira de Santana, 17 de fevereiro de 1934, Ano XXV, Nº 1281. Folha do Norte. Feira de Santana, 17 de fevereiro de 1934, Ano XXV, Nº 1281. 70 Os dois primeiros anúncios não seriam o suficiente para definir que essa seria uma prévia da micareta, pois a queima de Judas é algo comum do sábado de Páscoa, porém por estar aliada ao carnaval, é como uma espécie de ação para desencadear outro momento carnavalesco que permite fazer tal afirmação. Hipótese esta que é fortificada com o último anúncio, que é a criação de um novo bloco especialmente para a Mi-carême, um clube aparentemente feminino, as Melindrosas. Ainda sobre a “crise”, há uma contradição sobre esse suposto fracasso do carnaval de 1934. O jornal Folha da Feira faz o seguinte balanço Carnaval e carnavalescos O tríduo carnavalesco deste anno foi festejado pelos foliões inveterados. Domingo, segunda e terça-feira os carnavalescos vieram à rua num completo pandemônio. Deram notas alegres: Os duvidosos, as Melindrosas, Doutro Planeta e outros grupos esfusiantes. As Philarmônicas 25 e Euterpe abriram os seus salões para a realização de bailes e phantasias. Inúmeras caretas encheram a urbe de graça e humor. Vários automóveis enfeitados deslisaram pelas ruas da cidade. Apezar dos pezares o carnaval não foi tão friamente como se antecipava. Várias pessoas adeptas da folia carnavalesca preparavam-se para tomar a frente dos festejos a Momo do próximo ano de 1935.138 Os dois jornais noticiaram o mesmo evento no mesmo período, e os dois apresentam percepções que em alguns momentos chegaram a ser opostas: enquanto o Folha do Norte apontou um fracasso absoluto, um esvaziamento de alegria, o Folha da Feira afirma que foi bastante animado, com as ruas cheias de pessoas e a presença de vários automóveis enfeitados. Nesse ponto voltamos a questão que abre esse tópico; que carnaval que está em crise? Vê-se aqui são duas concepções do momento festivo que nos permite não negar que as crises tivessem ocorrido, mas problematizá-la e pensar que não estamos tratando de homogeneidade. O panorama festivo dos anos seguinte, no jornal Folha do Norte do ano de 1935, seguiu a mesma lógica de abordar um carnaval em crise cada vez mais acentuada 138 Folha da Feira. Feira de Santana, 19 de Fevereiro de 1934, Ano 1934, Nº 281. 71 Moderníssimo e sem o enthusiasmo crescente da multidão folga, decorreu o carnaval nesta cidade. Pode-se afirmar que foi o mais fraco dos Tríduos de Folia A bem dizem nem mesmo foi um tríduo, porque no período de tempo decorrido das vinte e duas horas de domingo gordo até as dezesseis horas do ultimo dia de Momo o que ocorreu foi um hiato desconcordante do regime momocrático.139 Porém mesmo com o “esvaziamento” provavelmente os grupos que permaneciam na cidade promoviam os festejos carnavalescos: Tivemos informações de que certo número de pessoas interessadas pela folia carnavalescas nesta cidade tomou a peito a tarefa de promover meios no sentido de que o rei Momo não passe esquecido entre nós. Domingo, portanto teremos a cidade vibrar com ruas cheias de graça e encanto, vivendo momentos de verdadeiros delírios. Na segunda e na terçafeira, não menos será a animação dos foliões de toda a espécie carnavalesca, o que nos faz esperar muitas surpresas durante o desejo do tríduo da alegria.140 Essa reportagem retomou um momento anterior aos festejos daquele ano, porém verificou-se que uma denominada crise do carnaval não significava o desinteresse geral para com os festejos antecedentes a Quaresma. Segundo a fonte, existiam pessoas organizadas para permanecer na cidade durante a festa e promover os folguedos carnavalescos. O Jornal Folha da Feira quando tratava do mesmo período do apresentado pelo Jornal Folha do Norte, apresenta uma versão um pouco mais branda sobre a suposta “crise”, indicava para uma organização que prometia animação. A Feira amanheceu hotem com a Rua Direita toda enfeitada de bandeirolas e inúmeras máscaras percorreram a cidade, em grupos isolados, destacando-se, pela manhã, um cordão muito bem organizado, composto de gentis senhorinhas que entoaram harmoniosas canções, despertando a gente, como para um alvará de anos.141 139 Folha do Norte. Feira de Santana, 9 de Março de 1935, Ano XXVI, Nº 1338. Folha da Feira. Feira de Santana, 25 de fevereiro de 1935, Ano VII, Nº 333 141 Folha da Feira. Feira de Santana, 4 de março de 1935. Ano VII, Nº 344. 140 72 Ao analisar as duas reportagens que trataram do mesmo momento festivo, pareceu que eram duas cidades diferentes e na verdade eram. As concepções dos grupos jornalísticos eram diferentes e isso interferiu na forma de ler a cidade, e nesse caso específico o momento festivo. Enquanto o Jornal Folha do Norte apontou para o não acontecimento dos festejos em alguns momentos dos três dias alegando um esvaziamento da cidade, o Jornal Folha da Feira firmou que havia foliões e que estes saíam às ruas. Por esse motivo é que afirmar uma crise carnavalesca é algo muito perigoso, muito provavelmente poderia ocorrer uma crise econômica ou de outro caráter na cidade e como os festejos são produções de um contexto social havia a alternância entre carnavais mais pomposos, por assim dizer, e os festejos mais simples. 2.4. Micareta: outro carnaval (?) Muito embora tenha sido convencionado dizer que a micareta teria surgido no ano de 1937, devido as fortes chuvas que teriam interrompido o bom andamento do carnaval daquele ano, é plenamente possível afirmar que se trata de um mito fundador. Isso porque antes mesmo disso a prática carnavalesca pós-quaresma já era apontada em anos anteriores. Em 1934, ao apresentar um panorama festivo daquele ano, o Jornal Folha do Norte fez referência a um complemento festivo que ocorreria após a Quaresma, fonte que inclusive já foi citada: “Cogita-se da organização de um novo bloco ou cordão que pretende estrear nas próximas festas da Páschoa, vulgarmente chamado de Mi-carême, no qual figurarão 30 senhorinhas e outros tantos rapazes de nossa sociedade”.142. Inclusive, o documento abaixo aponta para isso: Bahia, 1 de abril de 1935. Illmª. Snr. Presidente da Associação da imprensa. Saudações cordiais. Pelo presente solicitamos de V.S. o seu voto a um dos nomes desta lista, que deverá substituir, de acordo com o concurso público em toda a imprensa, o nome ”Mi-carême”. 142 Folha do Norte, Feira de Santana, 17 de fevereiro de 1934, Ano XXV, Nº 1281 73 Gratos pela presteza da resposta nos firmaram pela diretoria da “Associação de chronistas Carnavalescos” São estes os nomes a que alludiamos. Refolia. Arlisquimada. Micareta. (x)143 Carnavalito Festa outondial. Mascarada. Bicarnaval Precaremes. Brincadeira.144 O concurso ocorrido em 1935 para a substituição do nome da Mi-carême indica, no mínimo, a existência do festejo anterior a essa data, como um segundo carnaval que ocorria após o domingo de páscoa, uma espécie de retomada dos festejos carnavalescos após o período de resignação católica, que é a Quaresma. Corroborando para esse indício de que a micareta não teria surgido em 1937, os jornais noticiavam desde esse ano de 1935 a existência de um festejo carnavalesco pós-quaresma, que a partir dos anos seguintes ganharam mais visibilidade. Para incitamento dos foliões impõe-se a necessidade de que em domingo de páscoa, 21 do mês por vir, realizem passeatas vespertinas e nocturnas os impulsores do passado carnaval, que por razão de haver sido relativamente mais fraco do que os dos annos anteriores carece de um complemento de folia com o que concordam todos os feirenses, sem distinção de sexo, idade, estada social e posição ou situação econômica. Preparem-se todos, pois, para um carnaval Suppietico, denominação que não serve para afigurar mais adequadamente que o impróprio termo francês Micarême, que jamais poderá designar bem o dia festivo que sucede ao fim da quaresma145. A fonte não permite afirmar categoricamente, mas a forma como foi tratado esse festejo carnavalesco realizado após a Quaresma indicou uma familiaridade, como se esse não fosse o primeiro, mas algo que era possível de acontecer com muita tranqüilidade. Outro aspecto que se tornou comum a partir de então foi ler esse folguedo carnavalesco como um 143 O “x” colocado ao lado da palavra micareta indica uma marcação de um voto da enquete aplicada. Essa marcação foi feita à caneta no documento original. 144 Associação dos Chronistas Carnavalescos, 1 de abril de 1935, Bahia. 145 Folha do Norte. Feira de Santana, 16 de Março de 1935, Ano XXVI, Nº 1339. 74 complemento ao carnaval, como se a sua condição de existência fosse o sucesso ou o fracasso carnavalesco de fevereiro. Se o carnaval conseguisse satisfazer não haveria a necessidade de realizar a Mi-carême. No ano de 1937, costumeiramente indicado como o ano da criação da micareta, os festejos carnavalescos foram divididos em dois momentos, o que antecedeu a Quaresma (carnaval) e o que a sucedeu (micareta). Durante o pré-carnaval, a manchete intitulada “o carnaval de 1937” chamava à atenção para o festejo. “Informamos que a velha guarda carnavalesca vai influir junto a Commissão Executiva, o que, em acontecimento, concorrerá para que surjam novidades em penca durante o regime momocrático.”146. A diferença é que nesse momento o festejo pós-quaresma passou a ser noticiado em jornais de outras cidades, talvez a partir desse dado de crescimento da repercussão. A micareta foi este ano o segundo carnaval. Superou todas as festas dessa natureza anteriormente realizada em brilho, arte e beleza. O contágio da alegria ali reinou durante três dias, causando as mais agradáveis impressões aos visitantes. Os bailes e as fantasias excederam todas as expectativas, enquanto os grupos cantavam e álacre, os clubes, as fantafarras e os cordões faziam para eles momentos deleitosos, vivendo momentos de emoção. Enfim, a micareta de Feira de Santana foi uma das maiores festas do gênero que se pode imaginar147. O Folha do Norte apontava que a suposta crise teria ocorrido devido ao êxodo de foliões e com a micareta, segundo essa fonte, ocorria justamente o contrário. Isso porque a cidade passou a ser uma alternativa para aqueles que desejassem prolongar os festejos carnavalescos. Talvez por isso esse momento carnavalesco tenha ganhado maior notoriedade, pois não haveria a concorrência com os outros carnavais. Nesse contexto de “crise”, a micareta passou a ser noticiada de forma mais contundente. O que antes podia ocorrer de forma eventual como uma páscoa carnavalesca ganhou um destaque maior. Essa é uma modalidade de carnaval fora de época que no ano de 1937 passou a ter uma comissão: “Manoel da Costa Ferreira, Adalberto Sampaio, Alvaro Moura, João Matos, Manoel Narciso da Natividade, Gumercindo Almeida, Manoel Fausto dos Santos, Rosalvo França, Arlindo Ferreira e Lindouro Lima.” 148 146 Folha do Norte. Feira de Santana, 9 de janeiro de 1937. Ano XXVII Nº 1434. O tempo. Castro Alves, 10 de abril, 1937. 148 ALENCAR. Helder, op.cit. 147 75 Porém outra fonte indicava nomes diferentes para a comissão de 1937: “organizados por Cl. Heráclito de Carvalho (Prefeito de Feira de Santana) como presidente. Comissão executiva: Oscar Erudilho, Hermógenes Santana, Álvaro Moura Carneiro, Rodolfo Balalai, Pedro Matos e Vitor Santana” 149 . O crucial aqui não é averiguar qual foi a verdadeira, visto que as duas podem ter existido, mas pensar que não havia uma homogeneidade, vários grupos podiam organizar o festejo, não necessariamente estaria sobre o controle de um grupo apenas. E o envolvimento do prefeito da cidade apontou para o envolvimento de políticos em uma modalidade carnavalesca, que passava a receber um “apoio” de grupos privilegiados da cidade. Não se deve perder de vista que esses espaços também serviam e servem de palco de disputas políticas, de construção de uma memória. Nos anos subsequentes a folia pós-quaresma passou a ganhar cada vez maior destaque no Jornal Folha do Norte, e andou atrelada ao “fracasso” do carnaval: Não vacilaremos em chamar segundo carnaval, á grande festa a fantasia que se está organizando para o domingo de Paschoela, a véspera de Quasimodo e dos dois seguintes. Se momo tivesse reinado effetivamente durante o tríduo a que tinha incontestado direito em Fevereiro deste ano. Mi-carême ou meiaquaresma, que só poderá designar com propriedade, a tradicional usança festiva das lavadeiras e estudantes de Paris, não exprime, em absoluto, o verdadeiro gênero das festas projetadas, mesmo porque se não efectúa no tempo marcado pelo calendário. Isto é, o dia em que o período das sete semanas de abstinência, jejuns e penitencias se divide exactamente ao meio e teria transcorrido em o derradeiro domingo de Março ultimo. Mais insustentável ainda é o termo Micareta – hibrido intolerável, metade francez e metade portuguez, e que se pudesse significar algo, seria – meia caraça ou meia máscara. Dahi a razão porque não utilizaremos desses dois vocábulos excusados e inexpressivo.150 (Sic) O caráter condicional da micareta mais uma vez apareceu, pois ela só foi realizada devido ao “fracasso” do carnaval. Tanto que o festejo “complementar” só é anunciando mediante um balanço daquele carnaval. A fonte também indicou para a diferença entre mi-carême ou meia-quaresma e os festejos que ocorriam em Feira de Santana. No cenário feirense, a festa era realizada após o fim da quaresma. E essa reportagem apresentou uma contradição, afirmou que os termos micarême e micareta eram inadequados. Entretanto, nessa mesma edição o jornal lançou mão ao 149 150 Documento lotado no Museu Casa do Sertão localizado na Universidade Estadual de Feira de Santana-Ba. Folha do Norte. Feira de Santana, 16 de abril de 1938, Ano XXIX, Nº 1501 76 mesmo tempo das duas nomenclaturas como títulos de reportagens. Isso apontou para uma divergência interna sobre qual seria a melhor palavra para simbolizar o festejo pós-quaresma. Sobre o conceito de micareta, a fonte indicou que esta teria sido uma mistura de vocábulos em português e francês, uma tentativa de adaptar o termo francês aos hábitos carnavalescos de usar máscaras. Já o conceito de mi-carême veio da França: Aconteciam desde o século XV, quando no meio da Quaresma, populares faziam a queima do Judas e a Serração da Velha, uma celebração grotesca que consistia (ainda hoje) em espantar a morte. A inspiração da micareta está ligada a dramatização de uma velha (símbolo de morte, doença e desgraças) que seriam serradas entre gritos e uivos do público em geral151 A ligação entre mi-carême e os festejos carnavalescos foi estabelecido bem depois e já em território brasileiro, segundo Benoit Gaudin: Nem a serração da velha nem a mi-carême confundiam-se então com o carnaval. Eram festas distintas, festejos diversos, costumes diferentes. Essa situação perdurou até 1914, data e que pela primeira vez, a mi-carême foi comemorada como se fosse um verdadeiro carnaval, ou melhor, um carnaval fora de época. Esta estréia aconteceu em Salvador e foi uma iniciativa do Clube carnavalesco Soteropolitano Fantoches da Euterpe, que obteve a adesão dos dois outros grandes clubes da época. O Clube Cruz Vermelha e os Inocentes em Progresso152. Nessa perspectiva a micareta foi uma reinvenção do carnaval após o período carnavalesco. E mesmo sendo noticiado como Mi-carême em várias reportagens, o que ocorria em Feira de Santana não era um evento de meia-quaresma. Porém Vanicléia Santos apontou para a existência da mi-carême em sua forma original em Jacobina, assim como Feira, interior da Bahia: 151 SANTOS, Vanicléia Silva. Os ritos e os ritmos da micareta no sertão da Bahia. Projeto História. São Paulo, vol. 28. Jun 2004.p. 244. 152 GAUDIN, Benoit. Da mi-carême ao carnabeach: história da(s) micareta(s). Tempo social vol.12. São Paulo, May, 2000. p. 48-49. 77 Quando um dos grupos realizava a malhação e queima do Judas na Praça da Matriz, sede da paróquia desde 1938, o padre se irritava com aqueles festejos, pois o Senhor ainda não havia ressuscitado no sábado de Aleluia. E o povo fazia festa, dançava, ria, comia, conversava gritava. Seria impensável para o povo não haver esta parte complementar153. Os festejos em Jacobina começavam ainda durante a Quaresma, diferente do que ocorria em Feira de Santana. Mas a ideia de complemento é pertinente nos dois casos. No seu trabalho Gaudin, contextualiza a utilização da micareta em Feira de Santana: Para compensar o enfraquecimento do seu carnaval, Feira de Santana adotou a micareta, que já era conhecida... De outros carnavais. Interessante é notar que o fenômeno de adoação da micareta, por cidades do interior baiano, começou desde bastante cedo, já nos anos 1920 e aconteceu em outras cidades além de Feira de Santana: a título de exemplo, Irará pequena cidade do Recôncavo, já tinha seu segundo carnaval no ano de 1927.154 Não é o foco descobrir o local em que a micareta fora criada, e a busca pelas origens não é algo primordial para esta discussão, mas o que a tornou peculiar nesta cidade. O fato da repercussão e a visibilidade dada à micareta e ainda com maior visibilidade que o próprio carnaval deu à cidade o título de percussora do evento. Enquanto em outras cidades a micareta tinha um caráter de segundo carnaval, para os feirenses aos pouco ele estava se tornando o principal evento carnavalesco. Ao contrário do que era noticiado sobre o carnaval, o festejo pós-quaresma esbanjava alegria e era satisfatório: Nas sociedades carnavalescas cresce dia a dia, com a laboriosidade e a azafama da confecção de alegorias, indumentárias, adorno, quanto se torna indispensável para o brilho máximo do cortejo cresce o entusiasmo contagiante dos foliões ardorosos, que não são exclusivamente os moços, mas também a velha guarda carnavalesca, que parodiando aquela em que tanto confiava o espírito guerreiro de Napoleão, afirmava sempre: a velha guarda morre, porém não se rende nunca. A velha guarda feirense pelo que se tem visto, observado e admirado, têm razão de ser, pois, animadíssima, empolgante, encantadora.155 153 SANTOS, Vanicléia Silva. Op. cit. p. 247. Folha do Norte. Feira de Santana, 1928. Apud GAUDIN, Benoit. Op.cit. p.50. 155 Folha do Norte. Feira de Santana, 16 de abril de 1938, ANO XXIX, Nº 1501. 154 78 A fonte apontou, para além do “sucesso” festivo, a participação de sujeitos que brincavam o carnaval em fevereiro. Estes eram apontados como a velha guarda carnavalesca em um trecho que dizia: “a velha guarda morre, porém não se rende nunca”. O fato de ocorrerem dois períodos carnavalescos indica que para um grupo ainda era vantajoso e viável a realização dos festejos antes da Quaresma. Mesmo com a permanência dos festejos carnavalescos em fevereiro, a micareta, a partir de 1937, passou a existir com regularidade. A cidade sob o regime carnavalesco vibrou de alegria intensa. Passaram breve e deleitoso como a coisas muito anheladas o ephemero reino da folia, transferido do tempo apropriado e oportuno, na vigência do verão, em fevereiro deste ano, para depois da Quaresma, tendo tido início em noite da véspera do Domingo de Pachoéla156 ou Quasimodo, com o animadíssimo baile à fantasia no palacete-sede da sociedade veterana da Feira. Decorativas de effeito, à incidência de luz copiosa jorrada de pujantes focos elétricos através de reflectores coloridos, emprestavam aspectos 157 maravilhosos aos elegantes salões. E no ano seguinte, 1939, as notícias sobre o festejo pós-quaresma apareciam assim que os festejos carnavalescos de fevereiro terminavam às vezes na mesma matéria que trazia os informativos sobre o carnaval ou o seu resumo. Neste ano, de 1939, após o fim do festejo foi “modesto”, isso sob a perspectiva do jornal Folha do Norte. Será um carnaval modesto, durante o qual a Avenida da Alegria não ostentará, como outrora, adequadas decorativas de carrancas, palmas e bandeirolas, nem a iluminação pública terá o costumado acréscimo de gambiarras; sem influência, talvez de forasteiros jovilescos predispostos a confraternização como citadinos folgazes no ardoroso culto ao eterno deus do riso: mas cordões, blocos, ranchos, batucadas movimentarão a urbe ao tinir das soalhas de pandeirêtas e adufes, as toalhas dos réco-recos, aos sons rauciosos de cuícas e tambores, a estridência das charandas, os artejos de banjos e violões, acordes, melodicas de vozes feminis, guizalhadas, zabumbeiros, interjeições de prazer ardoroso, evhohés, em plena ebriedade dos sentidos, ebriez de enthusiasmo, de perfumes, de cores, de sons...158(Sic) 156 A partir das leituras das fontes, entende-se que esse termo faz referência ao segundo domingo depois do domingo de páscoa. 157 Folha do Norte. Feira de Santana, 30 de abril de 1938. ANO XXX Nº 1503. 158 Folha do Norte. Feira de Santana, 18 de fevereiro de 1939, ANO XXX, Nº 1545. 79 O primeiro elemento a ser analisado é o fato de uma decadência no aspecto decorativo, não haveria a mesma pompa de outros anos, não existiria acréscimo das gambiarras, cedidas pelo governo municipal. Porém um elemento contraditório surge, mesmo com essa perda decorativa, o jornal indica que ocorrerá carnaval e que nele todos os elementos necessários para a sua realização. Nesse caso o caráter modesto pareceu estar muito mais atrelado à decoração do que ao entusiasmo das pessoas. Em 1939, após os festejos carnavalescos, ainda surgia a ideia da micareta como uma festa que só ocorreu porque o carnaval não tinha conseguido o seu objetivo, isso na perspectiva dos editores do Jornal Folha do Norte. Agora mesmo, porque não se sentiu fartamente agraciado pela folia, Zé-povo a desejar por uma segunda quadra de prazer, a qual parece não sonegar em 16, 17 e 18 dia abril provindouro pela paschoéla, pois é para a realização da qual vai agir, desde já uma comissão organizadora, com esse objetivo a qual conta com o valioso apoio do governador desta comuna e com o concurso do comércio progressista.159 A atenção que não foi dada ao carnaval em fevereiro por parte da prefeitura, quando este não complementou a iluminação, pareceu que não é a mesma dada ao carnaval de abril. Nessa edição, o jornal destaca o apoio valioso do prefeito da cidade. Isso porque, além da iluminação, o poder público também era responsável pela segurança. Entretanto, mesmo com os elementos para a realização da festa (cordões, grupos, batucadas e músicos), durante o Domingo gordo “não houve alvorada carnavalesca. A carreatas matinais não se congregaram em bandos como nos anos anteriores.” 160 Na edição seguinte do jornal, em um balanço sobre o carnaval daquele ano, voltou-se a cogitar a realização da Mi-carême em virtude do “fracasso” carnavalesco. O nosso carnaval não conseguiu satisfazer. Ele apenas esboçou o entusiasmo para a Mi-carême e esta sim promete abafos (...) a comissão da Mi-carême, conjuntamente com o governo da cidade, estão empenhados em proporcionar ao povo um espetáculo digno dos forros de civilidade dessa terra maravilhosa161. 159 Folha do Norte. Feira de Santana, 25 de fevereiro de 1939, ANO XXX, Nº 1546. Folha do Norte. Feira de Santana, 25 de fevereiro de 1939, ANO XXX, Nº 1546. 161 Folha do Norte. Feira de Santana, 4 março de 1939, ANO XXX Nº 1547. 160 80 Mediante a importância que passou a ser atribuído aos festejos carnavalescos de abril, o grupo Folha do Norte lançou um folheto denominado de O Arlequim. Esse folhetim tinha como editor chefe Zé-Pereira, um pseudônimo. A organização dos conteúdos seguia a seguinte dinâmica: as laterais de todas as páginas eram ocupadas com reclames das mais diversas áreas. Espremida entre os anúncios duas colunas resumiam a programação festiva, desde os bailes das filarmônicas aos cortejos – incluindo horários e ponto de concentração. Em sua segunda parte, as músicas que seriam executadas e seus respectivos compositores eram apresentados bem como a que agremiação estava vinculada. Pode-se afirmar que a maior parte desse folheto era ocupada por patrocinadores, logo o apoio dos comerciantes era de muita importância. O Jornal Folha do Norte deu a seguinte nota sobre o folheto: O Arlequim Devemos uma boa notícia aos Srs. Negociantes industriais, que devem, o quanto desejarem, divulgar amplamente suas mercadorias e produtos assim aos que se deleitavam com leitura leve. Em comemoração a futuros folguedos carnavalescos de abril vindouro.162 E a micareta foi realizada com o nome de segundo carnaval: Configuram-se os augúrios. A festa de franca alegria de arte e fino gosto de civilização e cultura que a feira celebrou, da noite de 15 a de 18 do passante, constituíram um verdadeiro segundo carnaval, magnífico e concorridíssimo mais do que o primeiro, effectuado em Fevereiro deste ano.163 Nesse ano de 1939 a micareta passou a ganhar autonomia diante dos festejos de fevereiro. Ela não foi apresentada mais enquanto uma festa complementar que estaria condicionada ao carnaval. Indicou pela primeira vez que a micareta ocorreria em 1940, independente do sucesso ou não do carnaval. 162 163 Folha do Norte. Feira de Santana, 25 de Fevereiro de 1939, ANO XXX, Nº 1546. Folha do Norte. Feira de Santana, 22 de abril de 1939, ANO XXX, Nº 1554. 81 Somos informados de que u’a comissão de dirigentes do festejado clube Flor de Carnaval dará início amanhã a sua missão de solicitar das donas de casa, no perímetro urbano, a quota semanal de duzentos réis, que poderá ser aumentada consoante a generosidade doadora, para auxilio da exibição do glorioso grêmio carnavalesco local na Paschoéla de 1940.164 Os festejos de paschoéla dependiam de doações para a sua existência, logo a arrecadação deveria começar o quanto antes, com uma espécie de cota mínima de 200 réis paga por semana. A responsabilidade de pagar a semanada era das mulheres, das donas de casa. O festejo carnavalesco de abril, que depois ficou definitivamente conhecido como micareta, passou a ser vistos como algo importante para a cidade: Na Feira a Micareta culminou. Ocupando-se do magnífico carnaval feirense, editorou À Tarde, da Bahia, em 17 declinante: A micareta em Feira de Santana, cidade líder do Sertão, é transformada num verdadeiro e amplo carnaval. A população nos dias de Momo transfere-se para a capital e faz seus três dias carnavalescos após a semana da Páschoa. Hotem foi o primeiro dia do reinado local. Turistas de todos os recantos das cidades limitrophes e especialmente da capital encheram hotéis e lares. Não havia mais onde hospedar gente.165 Ao contrário do que acontecia durante o carnaval, quando era noticiado que a cidade estava vazia nos festejos pós-quaresma a lotação era garantida inclusive com a presença de pessoas de outras cidades, ou seja, ocorria o movimento inverso. Nesse momento a cidade passou a ser um atrativo para as cidades vizinhas, garantindo, sem concorrências, o sucesso do festejo. É importe ressaltar que a micareta não representou uma oposição ao carnaval, ela não trouxe uma modalidade nova de se festejar, os mesmos sujeitos, grupos que faziam parte do carnaval permaneceram na micareta. A micareta foi re-significação da mi-carême, o qual assim como ocorreu em outras localidades, assumiu uma característica carnavalesca como um segundo carnaval. Em Feira de Santana, além dessa re-significação, cada vez mais representava o principal evento carnavalesco, colocando os festejos de fevereiro em segundo plano. 164 165 Folha do Norte. Feira de Santana, 29 de abril de 1939, ANO XXX, Nº 1555. Folha do Norte. Feira de Santana, 29 de abril de 1939, Ano XXX, Nº 1555. 82 Alencar166 ainda apresentou um dado novo, havia também um grito carnavalesco, quando informou ter havido uma espécie de pré-micareta. Esse evento teria ocorrido em 1937, chamando-se de Festa de Zíngaros. No dicionário167, essa palavra que designa cigano, mas também músico. Não foi a primeira vez que palavras que fazem referência ao universo oriental apareceu na festa. Não foi encontrado nenhum elemento que pudesse comprovar a ligação dos festejos carnavalescos com esse universo oriental, mas como foi citado no, nesse período o Brasil recebeu um grande número de pessoas oriundas do Oriente. Tratava-se de grito carnavalesco organizado apenas por mulheres168. A micareta tinha três comissões: administrativa, de propaganda e a comissão feminina, esta última responsável pela prémicareta. Havia uma divisão sexual das comissões, a presença feminina era algo que só ocorre na Festa dos Zíngaros, que, diga-se de passagem, fazia parte da micareta, pois era uma espécie de comemoração anunciadora deste evento, uma prévia desse festejo. Elas aparecem nos jornais com expressões do tipo “o baile organizado pelo belo sexo”. Ao discutir as práticas carnavalescas, especificamente o carnaval e a micareta, percebe-se que estas são semelhantes, o que as diferenciam é a data: uma ocorria no período carnavalescos e a outra “fora de época”. Contudo há o campo dos significados, que levam em consideração não apenas as práticas, mas a elaboração de sentidos que caracterizam cada uma delas. Foi a partir da oposição ao entrudo, que o carnaval justificava a sua presença. O mesmo jogo de significados e representações tornaram a micareta a protagonista dos festejos carnavalescos na cidade. 166 ALENCAR. Helder. Op.cit. AMORA, Antônio Soares. Minidicionário Soares Amora. 19ªed. São Paulo: Saraiva 2009 168 Segue a lista das mulheres dessa comissão: Jacy Assis, Ceres Figueredo, Eurina Boaventura, Cremilda Sampaio, Mariana Assis, Eunice Alves Boa Ventura, Maria Luisa Motta, Eldira Boaventura, Bernadete Lima Santos. 167 Capítulo 3 Carnaval e micareta: a construção dos significados festivos 84 3.1. Disputas ideológicas no cenário brasileiro. “Entre o entrudo e o carnaval existe uma diferença grande, profunda, considerável. É que o entrudo é nosso e o carnaval, estrangeiro” 169. Durante o período estudado em alguns momentos os jornais fizeram referência ao entrudo. Qual a diferença entre o carnaval e o entrudo? Ambas não eram tratam como festejos carnavalescos? Esse trecho de Moraes Filho parece simples, mas é fértil para começar a discussão. O que diferenciaria o carnaval do entrudo seria muito mais o significado, o que eles representavam do que sua prática; um é nosso o outro é estrangeiro. Mesmo sendo o entrudo oriundo de povos estrangeiros, por volta do século XIX este já não era mais considerado dessa forma, havia adquirido elementos que o tornavam diferente do praticado em Portugal. Entretanto o carnaval trazia consigo práticas e significados estrangeiros, sobretudo costumes europeizados. E essa diferenciação apareceu no texto de Moraes Filho: É certo que o carnaval, como temos, melhor se harmoniza com o progresso moderno; mas não é menos exato que o entrudo, exceção feita das grosserias porquês eram próprias, interessava o maior número de pessoas e esmaltavase de um resto de poesia que se irradiava no lar doméstico. Quanto a desastres e conseqüências funestas, resultado de ambos, parece-nos que nenhum deles apresenta como devedor170. Na ocasião em que Moraes Filho escreveu este artigo, na Bahia do fim do século XIX, a divergência entre carnaval e entrudo não aparecia com tanta evidência. E mais uma vez apontava mais semelhança do que diferenças, quando afirmou que as conseqüências funestas não tão positivas eram resultados tanto do carnaval quanto do entrudo. A ideia do carnaval como um espetáculo perfeito e oposto ao entrudo ainda não tinha atingido o seu auge. Mesmo que no discurso de Moraes Filho entrudo e carnaval já apareciam como festas distintas. 169 170 MORAIS FILHO, Melo. Op.cit. p.129. Idem.p 129. 85 A classificação dos festejos carnavalescos foi o primeiro passo para a diferenciação entre carnaval e entrudo, e a partir de então, foram colocados como opostos. E nisso o Rio de Janeiro passou a ser referência para muitos estudos relacionados a este costume, surgido com o projeto de civilidade dos hábitos que também perpassavam pela normatização carnavalesca. Com base nisso o entrudo passou a ser proibido em 1854. O entrudo, com suas práticas consideradas violentas, foi sempre criticado e alvo de debates. Os motivos das criticas eram os “violentos” costumes de atirar coisas uns nos outros. Porém foi com a chegada da referência carnavalesca da Europa, ditas “civilizadas”, no século XIX, que as críticas ganharam outro elemento, a comparação passou a ser entrudo (bárbaro) e carnaval (civilizado). Isso deu a tônica ao contexto festivo no século XX. E a questão a ser apurada, nesse momento é a construção de significado atribuída a estas manifestações e os instrumentos utilizados nessa representação. Para isso faz-se necessário o entendimento de que as festas sempre estão em movimento, seja em relação às práticas ou aos significados atribuídos a esta. A maioria dos trabalhos sobre o assunto busca as respostas sobre a transição do entrudo para o carnaval. Entretanto mais do que a ideia de mutação, deve se perceber quais os argumentos provocava isso. Como afirma Chartier171, trata-se de uma disputa de representação. E as famosas distinções entre os festejos carnavalescos foram forjadas a partir dos meados do século XIX. Porém os jornais feirenses fizeram referência ao entrudo, nas primeiras décadas do século XX, prática atrelada à barbárie e a incivilidade. E sobre esse discurso tornou-se necessário a existência do carnaval. Sobre isso, Maria Clementina Cunha172 afirmou que até meados do século XIX não existia uma distinção entre a prática do entrudo e do carnaval. A partir dos projetos de civilidade e modernidade, construiu-se esse discurso; apoiado pelos poderes públicos munidos de saberes higienistas e médicos, criadores de um ideal de cidade, promotor da oposição entre o carnaval e o entrudo, respectivamente “civilizado” e “bárbaro”. Acerca de como esse conflito representativo foi visto na Bahia, a historiadora Márcia Barreiros Leite, em seu estudo sobre as formas de lazer das mulheres da elite em Salvador entre os anos de 1890 e 1930, debateu sobre a forma como essas representações de festas carnavalescas eram tratadas: 171 172 CHARTIER, Roger. A História Cultural entre práticas e representações. CUNHA, op.cit. 86 Longe dos jogos do entrudo, que inviabilizaram a participação com segurança do elemento feminino na festa, o carnaval inaugurado oficialmente na penúltima década do século XIX, tinha uma feição civilizadora e disciplinar, que estimulou mais sistematicamente a presença de mulheres e crianças acompanhada por seus familiares, nas brincadeiras173. O foco do trabalho de Márcia Barreiros Leite era sobre as mulheres de elite. Entretanto é pertinente fazer algumas colocações para não cometer equívocos sobre a leitura do entrudo. O festejo carnavalesco denominado de entrudo não era algo específico de uma classe social, não se pode partir da premissa de que o entrudo era de uma classe economicamente baixa e o carnaval de classes abastadas. Moraes Filho, em seu texto sobre o entrudo, deixou transparecer o envolvimento de diversos grupos sociais e também o envolvimento de mulheres no festejo: “Ninguém que trouxe o chapéu alto deixava de tornar-se alvo às pontarias dos rapazes e das moças, que, das janelas ou dos cantos das ruas, disparavam-se os projéteis do entrudo.” 174 A contribuição de Márcia Barreiro Leite é para pensar as diferenças entre entrudo e carnaval, fundadas a partir de disputas ideológicas. Contudo mesmo sendo bastante cuidadosa ao afirmar que havia uma inviabilidade da presença feminina com segurança durante o entrudo. É arriscado fazer esta afirmação, pois, ao que parece, essa insegurança teria sido forjada para justificar a supervalorização do carnaval como algo mais adequado. É pertinente que o discurso elaborado a partir do século XIX tenha recomendado a não participação das famílias no que era denominado de práticas incivilizadas. E nessa construção as elites tiveram um papel importante, que foi destacado por Rachel Soihet, quando fez um estudo sobre o histórico da gênese da diferenciação entre entrudo e carnaval: Paris, com suas avenidas, praças, teatros e cafés entusiasmava a burguesia emergente e a intelectualidade do Rio de Janeiro na Belle époque. Difundiu a cultura ali acumulada, emblemática do progresso e da modernidade era dever dessas elites. Cabia-lhes igualmente, não medir esforços para expurgar os hábitos grosseiros e vulgares, fruto da herança lusa, negra e indígena, símbolo do atraso e do arcaísmo. Os festejos carnavalescos constituíam uma das dimensões desse universo cultural que era preciso transformar. Urgia 173 LEITE, Márcia Maria Barreiros. Educação, cultura e Lazer das mulheres de elite em Salvador 1890-1930. Salvador-Ba, 1997. p. 162. 174 MORAES FILHO. Op.cit. p. 130. 87 eliminar o velho entrudo trazido pelos colonizadores e extremamente popular.175 E na intenção de identificar as elites como parte importante nessa construção representativa dos festejos carnavalescos, Márcia Barreiros Leite ressaltou o contexto baiano nisso tudo: “assumindo um caráter ‘civilizado’ as manifestações momescas vão integrar as elites aos festejos da rua, garantindo segurança aos participantes. As famílias passaram assim a ter sua possibilidade de lazer.” 176 O envolvimento dos grupos de elite foi crucial para a construção de significados que passam a atribuir ao carnaval além do caráter de civilidade, citado por Márcia Barreiros, ideia de que se tratava de algo seguro. Retomar o memento político do país na passagem do século XIX para o século XX talvez possa trazer maior clareza para o entendimento dos aspectos apresentados tanto por Márcia Barreiros quanto por Rachel Soihet. O Brasil passara por um período de transição, quando saíra do regime monárquico para a construção republicana. O movimento estava para além das inovações políticas. O projeto buscava um modelo europeu de civilidade, a normatização urbana e de comportamento. Urbanisticamente falando, as cidades foram reformadas para evitar a propagação popular, aglomerações; foram modificados com avenidas largas177. Isso não foi algo exclusivo da capital do país, em Feira de Santana essa era uma preocupação na década de 1930: As progressistas administrações que têm tutelado a Feira fizeram e fazem-na a cidade apresentar um aspecto encantador, digno dos mais francos elogios. As suas casas são elegantes, numerosos e distintos palacetes ornam as suas ruas e avenidas, dando aparência de uma capital. Os quarteirões bem dispostos formam quadrados retangulares. Dentre as suas principais vias públicas, destaca-se a “Avenida Senhor dos Passos.178 O desejo em organizar as ruas e mantê-las em um padrão perfeito, casas e ruas alinhadas, não foi algo exclusivo da questão urbanística. Construir uma nação republicana 175 SOIHET, Rachel. A subversão pelo riso: estudos sobre o carnaval carioca, da Belle époque ao tempo de Vargas. Uberlândia: EDUFU, 2008, p. 81. 176 LEITE, Márcia Maria Barreiros. Op.cit. p. 162. 177 Cf. CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo. Cia das Letras, 1997. 178 Folha da Feira. Feira de Santana, 19 de junho de 1933. Ano V, Nº 247. 88 perpassava por negar tudo o que vinha anteriormente, pelo menos o que era conveniente, visto que a organização social não foi transformada com a República. O cenário carnavalesco no Brasil também foi alvo dessas reformas. O entrudo, que segundo Moraes Filho, foi trazido ao Brasil pelos colonizadores, deveria ser substituído pelo carnaval, que significaria um rompimento com as heranças coloniais e imperiais. E retornamos a citação que inicia esse capítulo: “é que o entrudo é nosso e o carnaval, estrangeiro179” 3.2. A construção de significado dos festejos carnavalescos em Feira de Santana. Em Feira de Santana o entrudo foi utilizado como um elemento para fortalecer a ideia do carnaval, a partir do antagonismo a bem social que lhe foi atribuído. Áurea Miranda, poetisa feirense do século XIX, início do XX fez um poema que ajudou a pensar as dualidades e antagonismos que identifica na festa. A festa e o mendigo Na festa tudo ri! O miserável Estende a mão e a todos pede esmola Debalde sempre! Seu gemer se envolta. Nas asas do festim para o insondável... Nesse indifferentismo deplorável, Ninguém o tristonho escuta e nem consola; Ele que é puro e ao próximo não dóla. Dos maus expia a lei inexorável... E passa além a festa, a cantoria Das musas populares dos brasões, E dorme o pobre sobre a pedra fria! Entre o rico-ladrão e o pobre-honrado Prefiro o último sem vacilação: - Deus abraça a estes, aqueles acolhe o diabo!180 179 MORAIS FILHO, Melo. 1986. p.129. MIRANDA, Áurea. Fragmentos D’ Alma... Versos da adolescência. Instituto Histórico e Geográfico da Bahia. MCMXVIII. Bahia. 180 89 Apesar de esse não ser um poema que trata especificamente do carnaval, trouxe a inspiração para pensar o jogo das oposições simbólicas. Isso porque a autora trouxe no mesmo texto dois aspectos que ela considerou opostos: a festa e o mendigar. Ela tem um posicionamento religioso e sua crítica é feita a festa em defesa da caridade. Porém ela usou a estratégia da oposição e trouxe à tona a festa para mostrar como ela era um empecilho à caridade, algo que não estaria preocupado com o próximo. Ela usou a festa para depreciá-la. Nessa obra ela caracterizou a festa dentro de um caráter negativo, pois impede a percepção do cuidado com o outro necessitado. A festa, assim como foi apresentado em outras interpretações, estaria em oposição à miséria, pobreza. Entretanto, nessa visão, era a extravagância e as cantorias que simbolizam o negativo, o elemento que desvirtuava. A punição para tal comportamento estava no acolhimento do diabo, mais uma vez a posição entre as ações corretas (sagradas) da caridade, e o riso, cantoria, ações condenáveis (profano). E é esse ponto que serve como analogia para pensar a construção do ideal festivo em Feira de Santana. Os jornais no início do século XX não o caracterizavam pura e simplesmente, o intuito era de fundamentá-lo, para isso lançou-se mão do entrudo, da mesma forma que Áurea Miranda fez com a festa. Entre os documentos analisados há apenas uma reportagem que teve como tema principal o entrudo e quase nada se fala das práticas, a notícia é fundamentada na oposição entre o entrudo e o carnaval. Ao invés de descrevê-lo, a matéria faz uso do entrudo para depreciá-lo e apresentar o carnaval como o adequado. Mas assim como no Brasil, em Feira de Santana essa contradição foi construída de forma lenta, em alguns momentos, esse mesmo entrudo, combatido, era aceito e praticado sem maiores ressalvas. Sobre Feira de Santana, Helder Alencar trouxe pistas de que em 1877 existia a prática carnavalesca denominada como entrudo e não havia em seu relato nenhum indício de que esta fosse combatida, ou que pertencesse a um grupo social específico. Entre 1877 - durante o entrudo feirense – no baile das mascaras do Hotel Globo, o moço Francisco Xavier de Macêdo recebeu uma estocada e, no local denominado Minadouro desancaram a pauladas Martin Levino Diêgo. Como pode se notar a fama do minadouro data de longos anos.181 181 ALENCAR. Helder. Op.cit. 90 Os festejos, carnavalescos eram realizados nesse período também em espaços fechados, como o Hotel Globo, um desses espaços de realizações de bailes de máscaras. A violência aparecia, porém ela não estava servindo nesse momento como um instrumento de depreciação do entrudo. Dentro do próprio baile, os conflitos lá estavam: Xavier de Macêdo sofreu uma estocada, que significa golpe com uma arma branca e pontiaguda, o que viria a ser um punhal. A prática ocupava os diversos lugares e ao que parece não representava nesse momento um problema para o andamento da ordem social feirense. Segundo a fonte, ela existia de forma aceitável. Mas na realidade feirense, também, a diferenciação ideológica começou a surgir de forma tímida e gradativa, no sentido de criar uma oposição entre carnaval e entrudo. Assim como afirmou Pereira182, ao analisar a presença das mulheres no carnaval carioca e a para a preocupação de extinguir o entrudo: “os desfiles pretendiam abolir o entrudo e outras práticas difundidas entre a população desde os tempos coloniais, substituindo-os por formas de diversão que consideravam mais civilizadas” 183 Em Feira de Santana esse processo ocorre de forma mais lenta e algumas práticas do entrudo, que segundo os estudiosos de carnaval teria sido extinto ainda no século XIX, adentra pelo século XX. Em 1910, o jornal Folha do Norte dedicou uma reportagem para fazer uma denúncia da prática do entrudo: Feira, que é já uma cidade adestrada e que muito merecidamente gosa dos foros de civilidade deve abolir por uma vez esta velha, archaica e perniciosa diversão. Substituindo-a pelos vários entretenimentos do carnaval, cujas festas traduzindo o prazer e a alegria constitui hoje o chic das cidades mais cultas, mais civilizadas do mundo, onde a graça e a pilheira, o belo e o agradável fizeram desaparecer para sempre as grosseiras laranjinhas e as estúpidas seringa.184 O entrudo era uma prática carnavalesca comum em muitas regiões do país, Louzada 185 afirmou ser o entrudo uma prática que se limitou aos habitantes dos centros urbanos, e no interior do país essa prática não encontrou espaço. Porém em Feira de Santana, interior da 182 PEREIRA, Cristina. S. Os senhores da alegria: a presença das mulheres nas grandes sociedades carnavalescas cariocas do século XIX. IN: CUNHA. Op.cit. 183 Idem, ibidem, p. 317. 184 Folha do Norte. Feira de Santana, 29 de janeiro de 1910, Ano II, Nº 22. 185 WILSON Louzada. op.cit. 91 Bahia, os jogos do entrudo pareciam estar presentes ainda, pelo menos era o que noticiavam os jornais186, que como na fonte anterior demonstrava interesse em substituí-lo, sob a justificativa de não combinar com a civilidade que a cidade apresentava naquela ocasião. Segundo Moraes Filho, no contexto baiano esta ideia também estava sendo fundamentada: O carnaval, porém, cuja origem é comum a todas as civilizações, da mais bárbara a mais adiantada, nós só tivemos de 1855 prá cá e no Rio de Janeiro, pois em todo este país brincavam-se e ainda se brinca o entrudo, segundo os estilos tradicionais. É certo que o Carnaval, como temos, melhor se harmoniza como progresso moderno, mas não é menos exato que o entrudo, exceção feita das grosserias que lhes eram próprias, interessava a maior número de pessoas e esmaltava-se de um resto de poesia que irradiava no lar doméstico 187. Nesse aspecto não se via no entrudo uma grande ameaça, a não ser por algumas atitudes grosserias, mas nada que fosse comprometer a alegria, muito pelo contrário. Essa análise sobre o entrudo na Bahia ajudou a questionar a ideia de que o carnaval teria se sobreposto o entrudo, que entrou em desuso graças a sua incivilidade. Nesse caso, é justamente o tom debochado que atraía a participação das pessoas. Quando afirmou que o entrudo irradiava “no lar doméstico” para a maioria dos foliões, o entrudo não representava uma grosseria aos seus costumes, pois estas eram executadas em seus lares, além das ruas. “Esse jogo não se limitava as crianças ou ás ruas, mas era feito na alta roda, tanto quanto na classe inferior, fora e dentro de casa.” 188 Em Feira de Santana, segundo Alencar189, o entrudo passou a ser uma prática condenada por um ramo da sociedade. Essa condenação era feita através do jornal, veículo de informação importante na construção de um ideal de festa carnavalesca. O comercial (jornal que circulou na cidade por algum tempo) (...) condenava em 1871, o entrudo feirense, com a seguinte nota ‘o divertimento do entrudo 186 Sobre a presença do entrudo no interior da Bahia ver MARQUES, Edicarla dos Santos. Uma história social dos carnavais de Amargosa: modos de brincar e os “cão”, 1940-1980. Dissertação (Mestrado) UEFS. Feira de Santana-Ba, 2010. 187 MARQUES, Edicarla dos Santos . Op.cit. p. 129-130. 188 LOUZADA, Wilson. Op.cit. p. 13. 189 ALENCAR. Helder. Op.cit. 92 passou nesta vila sem lamentar-se de graça alguma, graças ao desuso em que vai caindo êsse péssimo brinquedo. 190. Segundo essa fonte, há indícios de que o combate ao entrudo foi feito no mínimo a partir de 1871, mas nesse momento ainda não sobre a justificativa de incivilidade, e sim por sua violência. Assim que os ideais de civilidade na cidade de Feira de Santana começaram, ainda no império. Porém ganhou maior vigor na cidade no final do século XIX início do século XX, momento que coincidiu com o advento da República. Isso se explica pelo fato de se negar ainda mais tudo que fizesse lembrar o Brasil colonial e imperial. E ao passo que se avançava para o século XX, esse significado negativo em relação ao entrudo ganhava maior fôlego. Attendendo às muitas reclamações que nos tem sido trazidas ao nosso escriptorio chamamos a atenção das auctoridades competentes para abusivos e prejudicalissimo jogo do entrudo, que extinto quase entre nós, agora pretendem fazer voltar com todas as suas desastradas consequências. Quantas vítimas, quantos prejuízos não têm sido causado por tão extravagante divertimento? (...) Assim, pois confiamos que se não façam medidas repressoras para o caso, igualmente nos dirigiremos aos pais de família, que devem quanto antes ir afastando os seus filhos desses inveterados e prejudiciais costumes191. Apesar de logo no início da transcrição fazer referência a um grande número de reclamações sobre o entrudo, título da reportagem, o jornal não trouxe nenhuma dessas reclamações para exemplificá-los, e muito menos nomearam os grupos insatisfeitos com a prática do entrudo. A notícia centrou-se na apresentação do entrudo como um problema que incomodava muitas pessoas, a ponto de serem feitas denúncias. Entretanto essas denúncias não apareceram nos jornais, foi apenas a palavra do articulista. Isso deixa margem à dúvidas quanto a suposta insatisfação ou, se ela existia, quais eram as suas proporções. A notícia tinha inclusive um caráter apelativo, no qual solicitou que os pais de família afastassem seus filhos de tal prática. Isso indicou que a tomada de atitude para acabar com os jogos do entrudo não deveria ser apenas das autoridades, mas também da sociedade sob forma de abandono de tal modalidade. Outra questão foi a ênfase que se deu ao fato de essa ser uma 190 191 Idem, p.18. Folha do Norte. Feira de Santana, 29 de Janeiro de 1910. Ano II, Nº 20. 93 prática erradicada na cidade. Se assim fosse, esse tipo de problema não aconteceria; logo, a prática do entrudo era recorrente e tal costume não estava extinto. Esse retorno indicou uma resistência da tradição, o modelo do carnaval civilizado encontrava um obstáculo para ser implantado. E a sua implantação perpassava pela negação e depreciação do entrudo. O apelo para a moral familiar passou a ser um instrumento na tentativa de minar a prática do entrudo. Esses costumes poderiam destruir a possibilidade de desenvolvimento. O trecho denotou uma profunda insatisfação, e chegou a ameaçar as autoridades, caso uma providência não fosse tomada. Esses prejuízos provavelmente estavam relacionados ao projeto civilizador. Todo o esforço em remodelar os costumes estaria ameaçado caso o entrudo continuasse a fazer parte dos costumes festivos. E o antônimo desse hábito era o carnaval, “adequado”, “civilizado”. Em Feira de Santana um fragmento retirado do Jornal O comercia, citado por Alencar, disse: “Em 1891 embora ainda persistisse o entrudo, a imprensa falava do Carnaval (...). O Carnaval vencia o Entrudo com seus limões e laranjinhas de cera, com água perfumada ou excremento” 192 . O carnaval surgia como prática carnavalesca ainda envolta no jogo do entrudo, com a persistência dos sujeitos em praticá-lo. Tratava-se de uma disputa, uma guerra simbólica, na qual a civilidade representada pelo carnaval lutava para vencer e livrar a sociedade da barbárie. Não se pode perder de vista que os adeptos do entrudo reagiram a essa imposição, mesmo que isso não aparecesse de forma explícita nas fontes; a dificuldade na extinção da festa apareceu na quantidade de tempo para a implantação do carnaval e na própria fala dos intelectuais da época: “o carnaval vencia o entrudo”, a vitória advinha de uma longa batalha na mudança da mentalidade. Essas práticas foram re-significadas no carnaval e em seguida na micareta. As mudanças de significado estavam na forma como o evento festivo passou a ser percebido e pó isso passaram a ser desiguais, e em alguns momentos, opostos, mas isso não significava que as práticas sejam diferentes, quanto a sua execução. Em 1917, outro aspecto peculiar, percebeu-se uma reportagem que não retratava a realidade feirense, porém bastante significativa para compreender o conflito ideológico a respeito da realidade estudada: Carnaval no Rio... Não é muito alegre para os vagabundos. Amanhã, pleno carnaval, lembram-se disto, com tristeza, os vagabundos cariocas, há esta hora trancafiados pela polícia do Sr. Aurelino Leal segundo narra um despacho da Agência Americana (...). A polícia começou a limpar o Distrito 192 ALENCAR, Helder. Op.cit. 94 Federal, prendendo os vagabundos, desordeiros e gatunos, como elementos perigosos que são durante o carnaval193 Mesmo não se referindo especificamente ao caso de Feira de Santana, essas notícias da capital do país não é sem razão. O texto teve uma conotação provocativa, uma sugestão de qual atitude deveria ser tomada no caso feirense. Essa ideia de desordeiros era algo que fazia parte da construção de significado tanto do carnaval, quanto do entrudo. Se a cidade desejasse livrar-se dos hábitos indesejáveis, ela deveria seguir o exemplo do Distrito federal, com a ação policial a reprimir os “vagabundos”. A apesar dos festejos carnavalescos não serem da responsabilidade da prefeitura, a interferência do poder público era possível, pois a festa teria também um papel educador. O carnaval, mesmo sob um forte discurso de liberdade, deveria seguir uma ordem, como o próprio jornal diz, “servir a uma população adestrada”. A ideia de limpeza que perpassava pelas condutas higienistas apareceu também aqui, como uma forma de limpar a sociedade dos responsáveis pela desordem social. A depreciação do entrudo era fundamental para fazer do carnaval um modelo festivo que educaria a população e a transformaria a cidade em um espaço civilizado em seus hábitos. Matérias simpáticas ao carnaval ganhavam grandes proporções, principalmente nas páginas do Jornal Folha do Norte. O modo como os festejos eram noticiadas nos meios de comunicação era diferenciadas. O jornal Folha da Feira o noticiava, mas de uma forma mais sucinta, diferente da maneira como eram tratados nos editoriais do jornal Folha do Norte, que começava a noticiar sobre os festejos carnavalescos com um mês de antecedência, no mês de janeiro, terminando apenas em março, com um balanço festivo. Em um dos balanços festivos, o jornal trouxe a participação de um dos grupos que compunha o festejo, “Os Duvidosos” e sobre eles emite um juízo de valor, avaliou a participação e apontou o que eles consideram positivos e negativos. À tarde, apesar do brilhantismo dos “Duvidosos” que, pelo louvável esforço de sua diretoria, muito contribuíram para a beleza da festa, apesar da originalidade dos “cablocos” que nos fizeram lembrar o Brasil de hontem, com seus caciques e guerreiros executando danças selvagens 194. 193 194 Folha do Norte. Feira de Santana, 17 de fevereiro de 1917, Ano IX, Nº 362. Folha da Feira. Feira de Santana, 4 de março de 1935, Ano VII, Nº 344. 95 Nesse trecho, o jornal caracterizou “Os Duvidosos” como um grupo esforçado que lutava para alcançar a civilidade, mas ainda tinha em suas raízes elementos que contradiziam essa prática. A denominação de caboclos é uma denominação dada à miscigenação entre o branco e o indígena. Em outro momento, diz que trazer o caboclo e os tambores fazia referência ao Brasil de “hontem”. Isso deveria ser superado, porque remetia a um período colonial. Nesse documento, a crítica foi direcionada aos “Duvidosos” que, mesmo esforçando-se, ainda estão com elementos atrasados de um país que é o de “hotem”, porém a sua crítica é mais sutil. O Jornal Folha do Norte era mais direto ao combate ao entrudo: “separa-se o joio do trigo, a cicuta do agrião a festa do riso será um benefício para o orgasmo social.” 195 Essa disputa foi travada no plano prático, visto que alguns se mantiveram fiéis ao entrudo, mas foi no campo da ideias que ela foi mais forte. As disputas ocorrem não apenas em relação ao entrudo e carnaval. Os conflitos certamente ocorriam dentro dos adeptos do “civilizado” carnaval e os praticantes do entrudo. Isso porque esses conflitos eram alimentados pelos posicionamentos sociais e por diferentes percepções e interpretações. E a existência de tais conflitos não criou barreiras intransponíveis. Em meio as proibições e críticas, o entrudo, em algumas localidades do Brasil, passou a ter modificações, em uma tentativa de adequar o jogo a um molde mais “civilizado”. Segundo Louzada, ao tratar da proibição do entrudo: “os carnavalescos passaram a usar de outros meios menos grosseiros, e começa-se a empregar, em lugar de violentas, duchas, banhos muito mais delicados, banhos de flores” 196 . Sugeriu-se a substituição de elementos, mas a prática de jogar objetos nos outros era a mesma, contudo apegaram-se nessas pequenas transformações. Como foi caracterizado no segundo capítulo, o entrudo tinha como característica principal o fato de molhar as pessoas com limões de cera ou laranjinhas recheadas de líquido, que poderia ser de qualquer espécie. E foram com base nisso, que, segundo Rachel Soihet, os higienistas pautaram a sua justificativa para fundamentar a proibição: Em 1831, a Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, por intermédio da Junta de Salubridade Geral, dirigiu um apelo ao corpo clínico da capital, pedindo sua colaboração na organização de um mapa demonstrativo das 195 196 Folha do Norte. Feira de Santana, 13 de fevereiro de 1932, Ano XXII, Nº 1178 LOUZADA, Wilson. Op.cit. p. 14. 96 moléstias e mortes causadas direta ou indiretamente pelo entrudo que: “apesar de fazer a delícia de muita gente, era contrário à razão e aos hábitos doces e polidos que devem caracterizar um povo civilizado”.197 O desejo defendido pela Revista Semana de São Paulo, que foi trazida por Soihet - que estava totalmente inserido na teia de relações políticas e foi um eficiente formador de opinião e memória - era um projeto de civilidade para as cidades, que tomavam a realidade européia como o modelo ideal. Porém a sua aplicabilidade em Feira de Santana encontrou entraves que dificultaram a sua execução. Esses entraves não foram algo exclusivo da cidade de Feira de Santana, pois no texto de Rachel Soihet tratou disso ao afirmar que proibições não significavam a aceitação e aplicabilidade imediata198. Assim como o saber médico foi utilizado para justificar o combate ao entrudo no contexto brasileiro, em Feira de Santana ele também foi utilizado, como uma necessidade psicológica, a ideia de válvula de escape. E além da justificativa médica, científica, havia também a social e moral que era discutida e apresentada nos jornais: O carnaval de 1932 na Feira evidenciou muita coisa que se torna precioso divulgar, que sendo festa essencialmente popular, cabe a cada indivíduo empreender o que convenha a seu vizo prazeiroso e a contar com seu próprio esforço para realização do mesmo, que tão só a satisfação do anseio de divertir-se e dentro da orbita do dever moral que incube a cada um cumprir extritamente dever a ser galgado: que a competição no exteriorizar das galas e dotes naturais ou adquiridos não exclui a cordialidade e a confraternização, embora passageira.199 O papel de preservar a moral era também uma atribuição dos foliões e toda e qualquer atitude que indicasse para isso deveria ser valorizada, e foi isso o que aconteceu em 1932. O saber médico serviu para criticar o entrudo, em Feira de Santana ele também serviu para 197 DÓREA, Escragnolle. Entrudo e carnaval. Revista da semana. São Paulo, v.34, nº. 11, 25 de Fevereiro. 1934. Apud: SOIHET, Rachel. Op.cit. p 85. 198 SOIHET. Op. cit. apresenta a participação da imprensa e dos intelectuais na construção dos festejos na primeira metade do século XX: “Também inúmeras são as crônicas de intelectuais condenando o entrudo, para o que se vale de uma série de pretextos, em especial da oposição civilização/selvageria. Esse fato demonstra que não foi fácil terminar com tão consagrada manifestação cultural, pois se forjavam reiteradamente, novas formas de conservá-las. Assim, lançam-se em 1878, as bolas carnavalescas (...) em substituição os antigos limões de cheiro. (...) Um ano depois surgem as bisnagas, igualmente proibidas pela polícia e substituídas por seringas, que lançavam água, vinagre...” SOIHET, Rachel. A subversão pelo riso: estudos sobre o carnaval carioca, da Belle époque ao tempo de Vargas. Uberlândia: EDUFU, 2008. p.86. 199 Folha do Norte. Feira de Santana, 13 de Fevereiro de 1932. Ano XXIII, Nº 1178. 97 justificar a presença do carnaval e a questão moral servia para dar á essa modalidade carnavalesca a ideia de tranquilidade e harmonia. Isso foi um forte elemento da implantação dos ideais de civilidades, que em alguns momentos foi traduzido como questão de ordem e moralidade. A preocupação em aliar Feira de Santana à ideia de civilidade também apareceu em um poema de Áurea Miranda, poetisa feirense do início do final do século XIX e início do XX. Apesar de ter passado muito mais tempo em Salvador do que em Feira de Santana mantivera contanto com a cidade e fez o seguinte poema: A Feira de Santana Salve!Mil vezes salve terra amada, Onde da vida tive a luz primeira! És de alto preço a jóia cobiçada. Pela exótica gente aventureira! Amante do progresso, a gloria alcançada, Irmã da musa excelsa e sobranceira, Trazes na fronte augusta e mérito, A santa aureola da genial obreira Teus campos verdes são ninhos de amores, Teu céu é berço de eternas bonanças, Teu todo infundo graças e primores Quanto o meu peito ufano se orgulhece Por ter nascido nesse mar de esp’ranças __ Por teu provir eu faço ardente prece. Áurea Miranda (1907) 200 Apesar do poema não ter como principal temática a civilidade, mostrou, entre outros elementos, uma busca pelo progresso, que em seu poema já havia sido alcançado. Sob um ponto de vista romântico enfatizou uma cidade que era perfeita, na qual a natureza foi exaltada, a ponto de causar orgulho. Porém colocou a cidade como um lugar de esperança, um local que estar por vir algo melhor. 200 MIRANDA, Áurea. Fragmentos D’ Alma... Versos da adolescência. Instituto Histórico e Geográfico da Bahia. 1907. 98 Esta preocupação com o progresso, como já foi discutida, estava em todos os aspectos. E através dos clubes carnavalescos, inspirados nos carnavais e bailes a fantasia européia, era apresentada a forma mais adequada de festejar e a partir de então, até o comportamento festivo seria moldado. O surgimento de associações como os clubes carnavalescos eram anunciado com destaque de primeira página. Dentre esses clubes carnavalescos estavam “Os Filhos da Turquia”: Communicam-nos que o clube carnavalesco Filhos da Turquia, sociedade recentemente fundada nessa cidade, realiza no domingo do carnaval uma esplendida passeata despertando a população desta cidade com seus ruidosos sons de caixa e bombos. Que Venham os amigos da folia!201 Grupos como os Filhos da Turquia eram considerados “amigos da folia”. Qual seria o argumento para considerá-los amigos da folia? Existiriam os inimigos? Deixo um indício para ser fomentado: “Quantas vítimas, quantos prejuízos não têm sido causado por tão extravagante evento” 202 esse evento extravagante era o jogo do entrudo. Seriam esses os inimigos da festa e da cidade? Eleger um “inimigo” justificava a luta e os esforços para construir um carnaval ideal. E nesse jogo de representações, o entrudo foi fundamental para implantação do carnaval, não porque as suas práticas fortaleceram ao festejo civilizado, mas porque a partir da oposição, criou-se uma espécie de cisão, quem era adepto do carnaval estava quase que automaticamente em oposição ao entrudo. E como os ideais de civilidade já estavam presentes na mentalidade de alguns setores da sociedade, essa foi uma estratégia eficaz. E com o passar do tempo o termo entrudo deixou de aparecer nas reportagens que tratavam dos festejos, passando a ideia de superação, algo que foi naturalmente superado. 3.3. 201 202 Muito além de uma sobreposição ao entrudo. O Progresso. Feira de Santana, 24 de fevereiro de 1901, Ano I. Nº 6. Folha do Norte. Feira de Santana, 29 de janeiro de 1910, Ano II. Nº 20. 99 Passada a fase do entrudo, a cidade começa a viver o período carnavalesco propriamente dito e, em 1891 a imprensa falava em Carnaval, que teve a sua 1ª agremiação fundada em 1924, o Clube Carnavalesco 2 de Julho203 Nesse documento foi identificado o ano de 1891 como um marco para as atividades carnavalescas, porém uma organização formal só foi fundada em 1924204. Então nesse intervalo, cabe a problematização de qual teria sido a atividade carnavalesca realizada. As fontes apontavam, como foi discutido anteriormente, para a existência de agremiações carnavalescas anteriores à 1924, como o exemplo dos “Filhos da Turquia”, então este poderia ser o marco para a suposta sobreposição do entrudo e implementação de um carnaval, este sim nos moldes civilizados. E esses moldes de civilidade estavam para além dos festejos carnavalescos, apareciam em diversos âmbitos de lazer. As reportagens apresentavam notícias sobre as filarmônicas, que eram apresentadas como uma alternativa “civilizadora” de diversão, sobretudo a 25 de Março e a Vitória, as mais antigas da cidade, que além das diversas atividades de lazer, eram também colaboradoras dos festejos carnavalescos. Segundo Aline Santos,205 a Filarmônica 25 de Março, surgiu em 25 de Março de 1868 e esta teria dado origem a Vitória a partir de divergências internas em 1873, organizada pelo Padre Ovídio Alves. E essas primeiras filarmônicas estavam presentes em muitos espaços de lazer, sejam nos religiosos ou profanos. Organizavam passeios, como foi discutido no capítulo anterior, eram vistos como os responsáveis pelos eventos de bom gosto: Com um esplendido espetáculo[...] cômico-dramático dirigido pelo inteligente actor Sr. Avelino Gonçalves, realiza amanhã, o seu benefício a gentil e distinta associação Gremio Protectoras da 25 de Março (...). O espetáculo para qual está havendo um grande prêmio de bilheteria, a apreciada banda musical da 25 de Março, que durante os intervalos, deleitará os espectadores com peças do seu vasto repertório. Como sempre promovidos pelo belo sexo, será uma bonita festa, onde nada faltará: luz, riso, flores e música e sobretudo o chic (...). O governo, que 206 levará certamente uma grande irreverência aos nosso sant’Annas. 203 ALENCAR, Helder, op.cit. P. 21. Esse marco serviu de base para a fundamentação de Reginilde Santa Barbara para Justificar o marco do surgimento do Carnaval nesta cidade. 205 SANTOS, Aline, op.cit. p. 3. 206 Folha do Norte. Feira de Santana, 29 de novembro de 1909. Ano I, Nº 10. 204 100 A Filarmônica Vitória também ocupava esses espaços, e assim como a 25 de Março, era colocada pelos jornais como um elemento de benefício moral e social para a sociedade: Realizaram-se nos dias 30, domingo ultimo de janeiro, e 2 de fevereiro, quarta-feira passada a kermesse que anunciou a estudiosa Philarmônica Victoria. Para esta festa, em beneficio da excelente sociedade, gloria desta terra, nada faltou para abrilhantar. As 7 ¹/² horas da noite, reunidos vários sócios da Victoria, saíram tendo uma maravilhosa banda musical à frente do prédio onde tem a sua sede, a Rua da Direita e em marcha iluminada a fogos (...) percorreram a praça Jovi Pedreira, Rua Barão de Cotegipe, Campo do Gado e travessa do França, saindo na Praça do Remédios (...) No coreto, do espaço a espaço, executava a banda, ora maravilhosa valsa, ora adorados dobrados, ora harmoniosos trechos de opera. (...) A festa terminou a uma hora da manhã, quando a Philarmônica abandonou o coreto (...) o delírio dos applausos, seguidos de quase toda a massa de senhoras, senhoritas, cavalheiros e populares que a ouviam na Praça do Remédios207. Em ambas as notícias sobre os eventos das filarmônicas apareceram o caráter de procissão, na qual as pessoas da sociedade “senhores e senhoras” eram contemplados com espetáculo, bem como os “populares”. E nesse momento os projetos políticos apareciam em todos os espaços, sejam eles partidários ou não. Em um anúncio de um baile pré-carnavalesco realizado pela Filarmônica Vitória, esse projeto para a cidade apareceu de forma mais evidente. “A existência dessas sociedades demonstram eloqüentemente que, em conquista, apesar de longínqua, os seus hábitos trabalham também para a perfeição – moral- social.” 208. As filarmônicas não foram e nem são instituições carnavalescas, elas não foram criadas com esse intuito: “as filarmônicas eram agremiações musicais, compostas geralmente por um regente e mais ou menos 40 músicos, e seu demais familiares, alguns eram ligadas a setores das elites políticas, outras pertencentes a outros setores.” 209 Os componentes mantinham uma relação de associados com estas entidades. Diante de tamanha expressividade atribuída a esses grupos, esses locais também foram apropriados pelos ideais da época como um instrumento formador de opinião e costumes, e atuaram também nos momentos carnavalescos. E os meios de comunicação, especialmente o 207 O Município. Feira de Santana, 7 de fevereiro de 1910, Ano II, Nº 81. PESAVENTO, Sandra Jatahy. Cidades visíveis, cidades sensíveis, cidades imaginária. RBH. Junho de 2007. 209 Folha do Norte. Feira de Santana, 20 de Novembro 1909, Ano I. Nº 12. 208 101 jornal Folha do Norte, entrou em campanha em prol da sua realização, como uma forma de comprovar que, assim como as cidades desenvolvidas, Feira de Santana estava inserida nesse processo. O apelo para que a festa do carnaval ocorresse, e que se sobrepusesse aos hábitos do entrudo passou pelo fim do século XIX, e adentrou o século XX. As notas começavam, em sua maioria, ressaltando a grandiosidade e superioridade da festa da “civilidade” e sua superioridade. E a capital do país cada vez mais se tornou uma referência mais forte. Tornando instituição brasileira, notadamente na capital do país, onde se constituir potente fator de turismo, o carnaval emplacou victorioso em todo o Brasil, tendo logrado nessa urbe progressista um triênio glorioso. Festa de civilização que teve o poder de erradicar costumes nacionais, bárbaros entrudo, apesar de sua existência multisecular no velho mundo e nos paizes colonizados por europeus, o tríduo de Momo- eterno deus do riso e da Satyra – interessa a todos.210 A ideia de vitória do carnaval sobre o entrudo mais uma vez foi utilizada, percebe-se que o entrudo apareceu como um coadjuvante, e como algo superado, mas então porque citálo? É justamente com o propósito de sepultá-lo que ele foi retomado, parece entranho isso, mas era fundamental reafirmar a sobreposição, mais do que esquecê-lo era necessário lembrar-se desse feito e quem foi o responsável por isso, fortificando cada vez mais a ideia do carnaval como absoluto. Porém na prática a aplicabilidade dos significados não encontrava a mesma eficácia. Todavia não obstante o esforço da comissão organizadora, a expectativa dos festejos carnavalescos, a quem ninguém queria renunciar, as contribuições solicitadas até o presente recolhidas não correspondem à expectativa geral, impedindo dest’ arte a positivação de diversos emprehemdimentos projetados (...). Todas as classes deviam, alias, empenhar-se pelo esplendor do tríduo da folia em seu próprio interesse, porque eles iriam aproveitar a circulação do dinheiro que se retraia e até se sonega, apesar de ser evidente a necessidade da contribuição geral211 210 211 Folha do Norte. Feira de Santana, 10 de fevereiro de 1934, Ano XXVI, Nº 1282. Folha do Norte. Feira de Santana, 7 de fevereiro de 1931, Ano XXI, Nº 1125. 102 Nesse trecho o apelo não foi o da civilidade e da modernidade, procurava-se justificar o evento para além da simbologia, precisava-se de um argumento prático. Logo os benefícios econômicos foram apresentados, pois segundo o jornal Folha do Norte seria uma excelente oportunidade comercial para uma cidade que teve origem justamente a partir de uma feira. O espaço festivo passou a ganhar cada vez mais uma conotação educativa, pois através das recomendações e as normas estabelecidas, os comportamentos eram moldados, ou ao menos a tentativa de fazê-los: “o carnaval é do povo, todos têm jus a fantasiar-se, mascarar-se (...) a serpentina e lança perfume e divertir-se, em summa sem attentar contra o direito do próximo.” 212. Esse direito não foi explicitado quanto ao seu sentido, mas ao caracterizá-lo indicava um modelo; o brinquedo não era com laranjinhas e águas fétidas, farinha e ovos, mas sim com serpentina e lança-perfume, elementos característicos dos carnavais de salões, civilizados. 3.4. A “criação” da micareta. A micareta surgiu enquanto uma festa regular em 1937, porém essa modalidade de carnaval fora de época ocorria na cidade muito antes. “A primeira micareta ocorreu na cidade em 1934, realizada pelo cordão ‘os duvidosos’” 213. Porém essa modalidade era feita de forma esporádica, sem o compromisso de apresentarem-se todos os anos. Inicialmente o festejo pósquaresma foi identificado como mi-carême. Essa nomenclatura deixou de ser utilizada, pois ocorriam quinze dias após a quaresma. Algumas páscoas da folia tinham sido levadas a efeito antes de 1937, de apenas um ou dois dias, para marcar o fim da quaresma, mas nunca com intenção de ser transformada numa festa de tamanhas proporções de nome nacional, verdadeiro e autêntico carnaval, muito mais animado (...). Em 1934, por exemplo, realizou-se, de forma pálida e fraca é bem verdade, um baile micaretesco, promovido pelo cordão “Os duvidosos”. O baile, desprovido de muita animação, foi levado a efeito no bairro da Barroquinha, na Praça 2 de Julho. Em 1936, a mocidade feirense fez realizar, no sábado de Aleluia, na Sociedade Filarmônica Vitória, o “baile dos malandros”. Aquêle histórico sábado de aleluia, chamado de Folia Complementar do carnaval, ou 212 213 Folha do Norte. Feira de Santana, 21 de fevereiro de 1932, Ano XXII, Nº 1176. ALENCAR, Alencar. Op.cit. p.25 103 de Segundo Carnaval do ano, era, para praticamente, o embrião da micareta214 A micareta não foi ao que tudo indica uma invenção abrupta, essa prática de “complemento” do carnaval ou comemoração de fim de quaresma era costume corriqueiro em Feira de Santana. Então o foco neste momento é compreender o porquê uma festa secundária, no contexto carnavalesco, ganhou espaço e essa visibilidade em detrimento do “civilizado”. Observar que quanto a esse festejo, a crise não atingia a micareta. Esta modalidade, segundo a fonte, ocorria sem maiores problemas. Esse documento suscita a hipótese de que havia uma diferenciação entre os grupos que praticavam a micareta. O texto relata que dois grupos diferentes realizaram a festa de fim de Quaresma, porém a um foi atribuído o sucesso e a outro o desânimo. E o responsável pelo embrião da micareta não foi o festejo realizado no Bairro da Barroquinha e sim o organizado na Filarmônica Vitória, realizado pela “mocidade feirense”. A páscoa carnavalesca, um festejo carnavalesco realizado ao término do período da Quaresma, realizada em 1934 foi caracterizada como pálida, mas este foi o primeiro baile carnavalesco pós-quaresma, porém não foi reconhecido como embrionário. Descobrir quem inventou a micareta não é o objetivo aqui e sim questionar o porquê das escolhas, os silenciamentos e as ênfases. Isso é fundamental para a construção de uma memória festiva. Talvez a resposta para tal questionamento comece a ser percebida a partir da mudança de postura diante da “crise” carnavalesca e a forma como o “novo” festejo foi caracterizado: “festa essencialmente popular e necessária a todos os povos, ela não exige no entanto, pompas e luxo, requintes de arte, como alguns presumam” 215 . As notícias a partir de 1937 ganharam outro modelo, que parte de uma versão mais simplificada. O chic não era mais o objetivo da festa e a alegria passa a ser o argumento essencial. A idealização da micareta mantinha característica ordeira tão desejada pelos idealistas, mas segundo a fonte, não era uma festa luxuosa, e talvez esse tenha sido o diferencial da micareta, que mantinha o seu caráter educador, mas com uma leveza maior quanto ao rigor dos trajes e indumentária. E também porque dentro do projeto de construção festiva e com o empenho dos articulistas o rejeitado entrudo já teria sido vencido. Se antes o objetivo do carnaval era civilizar através das pompas e luxo, a micareta pregava o “arrebatamento de alegria louca, franca e sã que outrora dominava a cidade nos dias 214 215 ALENCAR, Helder. Op.cit. p. 25. Folha do Norte. Feira de Santana, 25 de fevereiro de 1939, Ano XXX, Nº 1544. 104 de folguedo carnavalesco.” 216 . Era uma proposta que tentava harmonizar elementos da loucura, que caracteriza os festejos carnavalescos, devendo também atentar para a sanidade comportamental. Diante da análise das fontes no contexto da passagem do carnaval para a micareta, apresenta-se a hipótese de que a escolha da mi-carême como festa carnavalesca foi a solução encontrada para superar o “fracasso” do carnaval, como foi discutido no segundo capítulo. O mesmo jornal Folha do Norte, que indicava a necessidade de uma festa “civilizada”, europeizada, passa a construir outra imagem. Nessa representação, o objetivo era buscar elementos que atraíssem os foliões. Essa “nova” modalidade revisitou práticas antes combatidas: “Os caboclos da aldeia, também estão se arrumando... Uma índia já falou em nome do pajé declarando que os caboclinhos estarão na rua, com toda a sua grande tribo, arcos e fichas.”217 As referências mudaram. O índio, pajés, que em outro momento eram vistos como referentes a um país de hontem, a exemplo da crítica feita aos “Duvidosos” passaram, a partir dessa nova reconfiguração, a ser valorizado. E nesse período as concepções sobre a construção social do país mudou. A partir da década de 1930 houve uma tendência maior a valorização nacional, o nacionalismo de Vargas. Porém não se perdeu as ideias civilizadoras, só que na micareta elas foram diluídas, apresentadas com mais sutileza: “A comissão da micarême, conjuntamente e com o governo municipal da cidade, está empenhados em proporcionar ao povo um espetáculo digno dos foros de civilização dessa terra maravilhosa.”218 Os ideias de civilidade apareceram, no entanto não da forma como era feito nos anos de 1891 a 1937. O método de enfrentamento direto e negação de práticas do entrudo não eram tão evidentes quanto antes. Como o carnaval era associado a uma prática civilizadora, tópico discutido no segundo capítulo, esse festejo, que ocorria em fevereiro, não conseguia satisfazer, sendo denominado de “crise carnavalesca”. A apropriação de um costume já existente na cidade teria sido uma alternativa para dar continuidade ao projeto de implantar um festejo carnavalesco que atendesse aos anseios de civilidade. A partir de então passou a ser construído em torno do festejo uma estrutura que a tornou mais evidente que o segundo carnaval. 216 Folha do Norte. Feira de Santana, 25 de fevereiro de 1939, Ano XXX, Nº 1544. Folha do Norte. Feira de Santana, 9 de abril de 1938, Ano XXIX, Nº 1501. 218 Folha do Norte. Feira de Santana, 11 de março de 1939, Ano XXX, nº 1548 217 105 A colossal Mi-carême de 1939. Pascoéla de 1939 O meado do mez próximo assignalará para esta urbe progressista uma breve, porém defectuosa quadra de encantamento para o bem, olhos e ouvidos de ver e de ouvir attenta não só os citadinos, como dos milhares de excussionistas vindos da capital.219 Trata-se de uma matéria de um folhetim criado exclusivamente para cobrir os festejos carnavalescos pós-quaresma, coisa que não ocorria com o carnaval de fevereiro. E ressalta o caráter progressista atribuído a urbe, que avançaria para o “bem”. E outro fator, os festejos conseguiam atrair grupos de outras cidades. A escolha da Micareta para “substituir” o Carnaval não foi nada despretensiosa: “E como esta festa de pascoéla, realizadas esparsamente, foi nascendo a micareta feirense, foi aparecendo o desejo de determinar, de uma vez por todas com a as festas carnavalescas, hoje integrada na alma do povo feirense e na vida da cidade220 É provável que ao mesmo tempo em que ocorria o carnaval, essa modalidade até então esporádica tenha tido a liberdade de mesclar elementos pertencentes ao entrudo e ao carnaval. Sem os rigores de ser classificada como bárbara ou civilizada. A micareta apresentava elementos referentes aos batuques que antes era criticado: “A ruidosa massa humana que de certo vai encher com a sugestão das fantasias, coloridos de vozes dos entusiásticos, de ruídos doidos ás ruas da cidade, já esta compondo a ressonância para os três dias da Mi-carême, fazendo roncar a cuíca, os tambores.” 221 Conseguir estabelecer na cidade um modelo festivo adequado só foi possível quando ocorreu uma mudança de data, saindo do mês de fevereiro para depois da Quaresma. Não ocorre em Feira de Santana uma sobreposição de festas. A oposição entre carnaval e entrudo, inventada nos últimos anos do século XIX foram travadas no campo das idéias e das práticas. O “segundo carnaval”, que em outras localidades era apena um complemento, ganhou em Feira de Santana feições de protagonismo. O ano de 1939 fecha com o seguinte balanço: 219 O Arlequim. Feira de Santana, 15 de abril de 1939, Ano I, Nº 1. ALENCAR, Helder. Op.cit. p. 25. 221 Folha do Norte. Feira de Santana, 4 de março de 1935. Ano XXX Nº 1548. 220 106 Confirmaram-se os nossos augúrios. A festa da franca alegria, da arte e do fino gosto, de civilidade e cultura que a Feira celebrou, dá noite de 15 à 18 do passante, constituíram um verdadeiro segundo carnaval, magnífico e concorridíssimo, mais pomposo e movimentado que o primeiro, effectuado em fevereiro desse ano222 A fonte indicou a existência de dois eventos carnavalescos, o de fevereiro, dentro do período carnavalesco, e o de abril, pós-quaresma. Mas foi nesse momento que a micareta tomou dimensões maiores, tornando-se a referência do carnaval fora de época no Brasil. Mesmo não tendo sido a inventora dessa modalidade carnavalesca, apropriou-se disso e construiu a sua identidade. Nesse contexto a micareta foi uma re-significação do carnaval. Ela, desde 1937 foi ganhando um espaço cada vez maior no cenário festivo da cidade de Feira de Santana e em 1939 passava a ser identificada com um grau de importância maior que o “primeiro carnaval”. 3.5. Carnavais: festa da pluralidade. Carnaval A mascarada passa alegre sacudindo Os guizos do prazer, o pó das amarguras A descuidosa vai cantarolando e rindo Assim alerquiando em gestos e mesuras São manequins da vida, o gozo repartido Numa “revanche” doida as sua desventuras... E nada mais querendo e nada mais sentindo, Que exaltação fugaz de repetidas loucuras. Tristonha humanidade, espelho de “Pierrot” Engana teu martyrio, assim ele enganou Tocando soluçante um velho bandolim. Repete a tua força, extravagante e fina Que neste mundo ingrato, a nossa pobre sina É bem um carnaval esplendido e sem fim. Georgina Erismann. (1933) 223 222 223 Folha do Norte, Feira de Santana, 22 de abril de 1939, Ano XXX, Nº 1554. Poema publicando no Jornal Folha do Norte, Feira de Santana, 25 de fevereiro de 1933, Ano XXIV, Nº 1231. 107 Georgina Erismann era uma poetisa muito conhecida na cidade, tendo composto inclusive o hino à Feira de Santana. Ela costumava publicar seus textos e poesias com frequência nos jornais da cidade. Este seu poema foi publicado às vésperas do carnaval feirense de 1933. Algumas ideias nesse poema suscitaram algumas questões. A primeira dela trouxe a referência de que os festejos retiram da cidade o pó das amarguras. Nessa perspectiva apresentada no poema, havia uma desarticulação e uma quebra da rotina, que significaria uma pausa dos problemas em detrimento de uma alegria que é externa. Outro aspecto legível no poema é o fato de identificar a festa como manequins da “vida o gozo repartido” - ao que parece, essa confraternização, o ato de repartir, deveria ser tomado como um exemplo a ser seguido. Arlequim, com seus gestos de mesura, ou seja, de cortesia significava o exemplo a ser seguido para além do festejo para a vida. O espaço festivo é também um local de apresentação de modelos educativo, na qual os foliões também são espectadores, pois apesar da aparente desventura e extinção da ordem, existem os dias específicos, os locais do cortejo, bailes e tocatas. A ordem e o modelo fazem parte dos festejos carnavalescos e as intencionalidades e os projetos são perfeitamente aplicados nesses momentos. Trouxe ainda a figura do Pierrot, que sofrera por uma desilusão amorosa da sua Colombina. Erismann comparou a tristeza de Pierrot a uma desilusão da humanidade, logo o carnaval seria uma ilusão para distrai os percalços. A tristeza de Pierrot tem seu consolo no toque do seu bandolim, enquanto a humanidade tem no carnaval a revanche dos dias de martírio. Nesse aspecto, a autora acabou corroborando com a ideia difundida de quebra na ordem e de que nesses festejos os conflitos desapareceriam. Isso porque a ideia que prevaleceu sobre os festejos carnavalescos foi de harmonia. Entretanto os conflitos existem em todas as relações, muito embora boa parte dos conflitos existentes nos festejos tenha surgido muito mais por conta das representações atribuídas às práticas. Existiam também as disputas práticas para ver quem fazia o melhor festejo, quais as melhores fantasias e músicas. A perturbadora Avenida de Alegria vae refestar-se de guizalhadas, de acordes melódicos, de casquinadas de riso franco e desartificiosos, de jororos tenuissimos de ether perfumado, de olhares, de ama vios... Insistem para que eu... Não diga!... Mas o chronista é teimoso e, quando quer resolutante ninguém o demove de um propósito. O voto carnavalesco da terra e o maestrino feirense, alliados sempre para o bem das ouças de momophilos, esquivando-se ao concurso de marchas e de sambas dos 108 chronistas carnavalescos da imprensa da capital não renunciaram, porém, a deliciar seus muito atinados patrícios e a bisbilhotice impenitentes do meu próximo descobriu u’a marcha novinha em folha, musica do professor Santo e letra de Aloísio, que está sendo ensaiada a capricho pelas Farristas... Não diga!... É o titulo da nova composição, cuja letra publicaremos na edição vindoura. E quando a musica... Não diga!... Eu tenho fé. Tendo sido publicada em jornais da capital com incorreções a letra do samba do professor Estevam Moura premisso em 1º lugar no concurso de composições (...) para o Carnaval da Bahia, reproduzimos directamente do original a poesia de Carls Ramayana (Pedro Mattos) 224 Os festejos envolviam competições que iam desde a disputa dos sambas ou marchas carnavalescas até as fantasias, alguns cordões faziam mistério quanto à vestimenta justamente para surpreender os foliões e também aos outros blocos, apresentando o que havia de melhor. Grupos fantasiados passarão as principais artérias urbanas, disseminando sons vozes, deliciando ouvidos. As constantes Melindrosas exibirão um figurino de requintado gosto, segundo nos informa um sabetudo impressionante e os duvidosos apresentar-se-ão trajados de... As vestes, não sabemos, mas as obras... Isto sim. Salvo engano, o uniforme será alvi-rubro. É possível que surjam surpresas, mesmo em veículos225 Mesmo assim, as disputas estavam presentes dentro do festejo, seja ela como resultado das representações ou fruto de disputas carnavalescas entre carros e canções. As manchetes dos jornais costumavam imprimir aos festejos, sejam eles denominados como carnaval ou micareta, um caráter de unanimidade, como se estes fossem algo que representasse a cidade com anúncios do tipo: “E a cidade viveu os três dias da troca226 e da folia” 227 . As notícias sobre os festejos carnavalescos seguiam a lógica de apresentar a festa enquanto um elemento pertencente a uma cidade que se apresentava enquanto singular. Essa postura não estava relacionada pura e simplesmente ao ato de anunciar os elementos característicos da festa. Mas também de imprimir um ideal de cidade. 224 Folha do Norte. Feira de Santana, 23 de fevereiro de 1935, Ano XXXVI. Nº 1336 Folha do Norte. Feira de Santana, 23 de fevereiro de 1935, Ano XXXVI. Nº 1336. 226 A pesar de na grafia original a palavra esteja como troca, é possível que tenha erro e a possibilidade é que seja troça, que segundo o dicionário significa zombaria, escárnio, caçoada. In: Amora, op.cit. p. 740, um termo que melhor se adapta a citação. 227 Jornal Folha do Norte. Feira de Santana, 17 de fevereiro de 1923, Ano XV. Nº 670 225 109 As propostas de sociedades civilizadoras, 228 que buscavam as reformas morais, não estavam limitadas apenas às filarmônicas. Os cordões também eram noticiados nos jornais, seguiam os mesmos preceitos e nessas reportagens era evidenciada a contribuição educadora dos festejos pelos grupos que as organizavam. A reportagem com o título A festa oficial da folia está chegando afirmava o seguinte: É porque assim, é todos devemos concorrer para que ele (o carnaval) se realize com o máximo de brilho, testificando o desenvolvimento crescente da grande festa de civilização que veio erradicar o costume grosseiro e bárbaro. Entrudo, relegando a perpétuo esquecimento.229 Existia uma comoção e uma intencionalidade apresentada no jornal em atribuir ao festejo um significado para além do ato puro de simplesmente festejar. Nesse momento era que os conflitos de representação apareciam e surgiam a oposição entre a ideia de bárbaro e civilizado, moderno e atrasado. Disputas que surgiam de idealizações e atribuições de significados das formas de festejar. Executar o carnaval significaria testificar se havia na cidade a civilização. Tal projeto idealizava a normatização de uma prática. Porém homogeneizar práticas é algo improvável, isso porque o festejar é por si só plural, fruto de uma amálgama das cidades. Assim como afirmou Pesavento230 compreender as cidades perpassa por admitir que estas práticas possuem várias linguagens que as representam; um conjugado de elementos que se entrecruzam e ganham significados a partir das relações estabelecidas entre os sujeitos e grupos que compõem as cidades. Partindo da ideia de que a cidade possui vários significados, é possível ampliar as perspectivas de análise e identificar não apenas uma, mas várias cidades, que coexistem e conflitam. Nesse contexto, as multiplicidades festivas, seus vários significados perpassam pela relação dos sujeitos que as constroem, pois estes imprimem nesse processo de construção comemorativa suas experiências e vivências e sua concepção de cidade. 228 Cf. SILVA, Aldo José Moraes. Natureza sã, civilidade e comércio em Feira de Santana: elementos para o estudo da construção da identidade social no interior da Bahia (1833-1927) Dissertação do Mestrado (UFBA) Salvador, 2000. As tendências de civilização nesta cidade tiveram início ainda no período imperial e assim como no restante do país ganhou mais força com a implantação da República e envolveu o projeto modernizador aliado ao discurso higienista e científico. No caso de Feira de Santana, o alinhamento das casas, cuidados com a salubridade e reformas que buscavam a civilização. 229 Folha do Norte. Feira de Santana, 31 de Janeiro de 1931, Ano XXII. Nº 1124 230 PESAVENTO, Sandra. Op.cit. 110 Isso porque essas linguagens são extremamente móveis, ao passo que ao analisá-las deve-se considerar essa mobilidade para não correr o risco de aprisioná-las em modelos que não correspondem às vivências e a complexidade que estão inseridas, pois elas são social e temporalmente construídas; fora de seu contexto elas perdem o sentido. Segundo Pesavento231, existem diversas formas de significar a cidade através da literatura, imagens, músicas, oralidade e a escrita. Destaca-se, a partir dessa contribuição, a festa, um elemento que está inteiramente imbricado nas formas de representar as cidades. A construção dos festejos perpassa pela atuação de sujeitos. Os sujeitos não são pacientes, que apenas sofrem a ação. Trata-se de uma ação reflexiva, na qual estes praticam e sofrem as consequências de tal prática. Nesse sentido, as intencionalidades surgem. Como a cidade é múltipla, em seus significados e integrantes, essa diversidade propicia a pluralidade festiva, pois é infundado dissociar uma coisa da outra. As festas constituem-se como um espaço de comemoração e brincadeiras, além disso, é também um espaço de disputas e conflitos, sejam estes de situações consideradas simples, corriqueiras, ou de disputas políticas. Isso porque a presença política era comum. A música, nesse contexto festivo, tornou-se palco desses conflitos e como uma forma de identificação dos grupos. Na década de 1930 os blocos mais famosos eram: As Melindrosas, Os Filhos do Sol e A Flor do Carnaval, e através das suas marchinhas percebemse o perfil de cada um desses clubes e quais eram os elementos que alimentavam os conflitos da micareta em Feira de Santana. A primeira música232 a ser analisada é de autoria do cordão Flor do Carnaval, que fez referência a participação de clubes externos que participavam da micareta sob o caráter de reforços: Os amantes do Sol Saiam da rua Deixem a Flor Deixem a Flor Que não tem piruá O Cruz Vermelha veio da Bahia por ouvir falar Que a Flor do Carnaval desta vez ia abafar E este ano ainda não vieram nada Para o ano é que a coisa está gozada A Cruz Vermelha veio mesmo? Veio sim sinhô 231 PESAVENTO, Sandra. Op.cit. O que se faz aqui é uma analise de letras de musica e não da musicalidade. Pois não podemos saber que tipo de e entonação era dada em cada nota, o ritmo isso certamente enriqueceria nossa análise. 232 111 Com o sol se ajuntar Veio sim sinhô E quem foi que abafou? 233 Foi a Flor, foi a Flor, foi a Flor. A música carnavalesca foi direcionada aos Filhos do Sol que levantaram esforços na tentativa de vencer outros blocos. Uma questão que se constrói ao longo dessa análise: será que esse era um conflito apenas para ganhar a disputa de uma Micareta? Ou uma disputa de percepções da sociedade e modos de vida que estão além do festejar? Para começar a responder essa pergunta analisa-se o trecho da música que afirma: “aqui não tem piruá”. Os Filhos do Sol, a quem se dirigem essas marchinhas tinha em sua estrutura mulheres de classe média alta de Feira de Santana e estas teriam promovido a vinda de clubes da capital. A Flor do Carnaval, dissidente das Melindrosas, era composta por moças filhas de lavadeiras do Tanque da Nação. Apareceu um elemento de diferenciação de classe entre as mulheres e homens que brincavam micareta em feira de Santana. Além desses elementos sociais, é possível perceber a crítica que se faz aos Filhos do Sol, que lançou mão de elementos externos, tomando os como superiores em uma tentativa de ganhar o carnaval, tendo a “Bahia” 234 como parâmetro de qualidade. Outra letra comemorativa da vitória da Flor do Carnaval apresentou outros elementos a serem problematizados: Não tem Cruz Vermelha Nem verde, nem branca Nossa terra é ideal... Pois quem abafa toda banca É a Flor do Carnaval A Nossa Glória já está alcançada Vencemos com nosso grande esforço Sem igual... A Feira hoje se sente deslumbrada Com a Flor do Carnaval. A letra apresentou um caráter de desabafo, que remeteu em alguns trechos a idéia de valorização da terra, resumiu a sua mensagem em questionar o motivo de se buscar em outras localidades representações carnavalescas se “Nossa Terra é ideal...”. Não caberia, segundo o clube, à Feira de Santana, pois nela existiria um bloco que seria capaz de vencer a disputa 233 Revista Panorama da Bahia. 20 de abril de 1987, Ano 4. N°80. p.13. Durante o século XIX e quase metade do século XX Salvador era chamada de Bahia, inclusive pelos próprios baianos que via a Bahia restrita a Salvador no Máximo se estendia até o recôncavo. 234 112 com apena “nosso grande esforço”. Essa letra possibilita entender que as rivalidades carnavalescas representavam também oposições políticas; enquanto os Filhos do Sol buscavam referências externas, tidas como mais moderna, a Flor do Carnaval defendia a valorização do local. Isso ajuda a compreender o porquê da viagem das Melindrosas à Muritiba ter sido um dos motivos de desavenças internas, que resultou a Flor do Carnaval. Sobre essa cisão, Aloísio Resende compôs uma marchinha para o clube das Melindrosas em resposta a divisão do bloco, intitulada: Gosta de mim quem quer. Você pode me deixar Gosta de mim quem quer Por isso não vou chorar Gosta de mim quem quer Ter amor não se obriga Eu não vou chorar E nem vou me acabar235 Outra composição ainda sobre a rivalidade entre Melindrosas e Flor do Carnaval dizia assim: Pisa na fulô Pisa na fulô Quero ver você pisar... Na pisada do vapor Pisa, pisa, pisa,pisa Eu plantei um pé da Flor Lá no meu quintal, Para dar ao meu amor No dia de Carnaval Pisa na fulô Já mandei ver no Barbalho Porque foi que isto se deu; Depois de tanto trabalho Meu pé de fulo Morreu. Essa rivalidade dos clubes carnavalescos estendida até a música e apresentada nos desfiles, cantadas diversas vezes durante a festa, correspondia ainda à divisão dos foliões, que 235 Revista Panorama da Bahia. 20 de abril de 1987, Ano 4. N°80. p.13 113 não estavam envolvidos diretamente na organização dos festejos antes de apoteose festiva. Os que simpatizavam com as Melindrosas eram avessos aos adeptos dos Filhos do Sol e ressentidos com a Flor do Carnaval. “em algumas ocasiões, a disputa saiu das partituras e no meio da avenida, foi decidida a tapas e puxões de cabelos energicamente trocados pelas garotas”236. O festejo micaretesco não se resumia as renuncias da seriedade. Até que ponto o carnaval e a micareta eram “confets... risos... loucura... (...) serpentinas multicores rasgando o espaço”? Como afirmavam os poetas da época, que apresentavam um caráter romântico, idealizado, e noticiado pelo jornal Folha do Norte, chegando a ser até contraditório ao que nos apresentam as letras musicais. Essas letras apresentavam conflitos que não eram exclusivos ao âmbito da festa e passavam a denunciar posturas de uma estrutura social e os conflitos dessa sociedade que produzia na micareta. Os Filhos do Sol e as Melindrosas além de blocos distintos eram de classes econômicas e sociais opostas; a primeira oriunda de uma localidade onde se concentravam a elite da sociedade feirense, Campo do Gado, onde hoje é o Nordestino. O segundo bloco originário de um dos bairros pobre da cidade onde se concentravam as lavadeiras da cidade237. Esse conflito social estava também presente nas musicas: “Lavadeira, teu sabão tira lodo. Lavadeira, lava a roupa do teu sinhô”238 Esse trecho fez parte de uma das músicas cantadas pelos “Filhos do Sol”, na qual tentam uma desvalorização do Cordão das “Melindrosas”. O termo lavadeira, nessa letra, assumiu um caráter depreciativo; em um propósito de associá-las ao lodo, em oposição ao limpo, que não se envolve com a sujeira. Em resposta as “Melindrosas” respondem: Não sinto frio nem calor Não tenho medo, pois tenho ventilador Vá bater em outra porta Comigo não tem lorota Eu não conto lorota239 236 Revista Panorama da Bahia. 20 de abril de 1987, Ano 4. N°80. p.13 Sobre as lavadeiras do Tanque da Nação ver em Santa Barbara op.cit. 238 Revista Panorama da Bahia. 20 de abril de 1987, Ano 4. N°80. p.13 239 Idem. p.13 237 114 Afirmaram com isso que as lorotas que cantavam não impediram de serem derrotados na micareta, sua “limpeza nobre”, não fazia deles vencedores do carnaval. E em seguida cantavam para os “Filhos do Sol”: Me deixe, me deixe Que eu sou da fontinha Me deixe, me deixe Seu negro sedutor Me deixe, me deixe Seu negro traidor240 Essa letra das “Melindrosas” estabeleceu uma identificação “que eu sou é da fontinha” faz referência à ideia de pertencimento ao bairro Tanque da Nação, no qual existia uma fonte e ao redor da qual se reuniam as lavadeiras. O conflito entre Filhos do Sol e Flor do Carnaval resultou em uma paródia da música lig-lig-lig-lé, cantada pelo cordão Flor do Carnaval para os Filhos do Sol, direcionada especificamente ao Coronel da Guarda Nacional Álvaro Simões: Vai o coroné Na ponta do pé Lig, lig, lig, lig, lig, lig, lé Dançando no Sol Que lindo papé Sinhô Esse negócio de Sol não convém Não vá Fazer o astro Demais se esquentar Isto Parece coisa de candomblé Lig, lig, lig, lé O mais feroz Maneca cala essa boca Deixa de tanto falar Onde foi que já se vil cachorro, sem dormir? Ferroz é urso, pantera, Hiena, tigre, leão Mas, o cão quem foi que disse? Só você meu paspalhão O cachorro, sempre foi Meigo, terno e prazenteiro, Assim nos diz o Fiel.241 240 Revista Panorama da Bahia. 20 de abril de 1987, Ano 4. N°80. p.14 115 Pode-se analisá-la em duas etapas; a primeira foi direcionada ao “coroné” que faz o papel vergonhoso nos “Filhos do Sol”. O segundo ponto foi em relação a Maneca Ferreira, um dos idealizadores da Folha do Norte que propuseram a micareta, um dos porta-vozes dos “Filhos do Sol”. Como sinalizou Santana242, as festas constituem um ponto de encontro entre as mais diversas pessoas e esse encontros nem sempre são harmoniosos. Esses indivíduos ocupam as festas e a significam de forma bastante particular. Essas experiências estão o tempo todo nos espaços das festas. Nesse ambiente festivo ocorrem batalhas e confraternizações, guerras não apenas no sentido momesco de serpentinas e águas cheirosa (carnaval) ou pútrida (entrudo), mas também em relação à forma de pensar uma cidade e um modo de festejar ideal. 3.6. Os múltiplos significados: trabalho e lazer. As apropriações dos espaços e dos significados na festa apontam para uma divisão de tais festejos. Foi possível identificar em Feira de Santana a princípio dois espaços: os locais abertos (rua) e os ambientes fechados (privados). O primeiro era o local onde os desfiles dos clubes carnavalescos ocorriam. O segundo fez referência aos bailes que geralmente eram realizados nas sedes das filarmônicas, que se apresentavam enquanto um local adequado para brincar os dias de Momo. Entretanto essa classificação não significa algo estático que impediria o trânsito dos sujeitos entre esse dois espaços. Ocupantes dos locais abertos, os cordões funcionavam como uma estrutura organizada, porém não tão burocratizada quanto os clubes. Apresentavam um caráter mais popular, se é que assim se pode denominar. Essas “classificações” não permitem criar fronteiras rígidas entre elas, pois as fontes indicaram o trânsito entre esses grupos. Esses “limites” eram bastante frágeis e extremamente móveis. O cordão das “Melindrosas” era um dos exemplos desse movimento. A Revista Panorama da Bahia, ao confeccionar um caderno comemorativo sobre os 50 anos de micareta, deu indícios de um movimento pendular: 241 242 Revista Panorama da Bahia. 20 de abril de 1987, Ano 4. N°80. p.14 SANTANA, Charles D Almeida. Op.cit. 116 A primeira marchinha da Mi-carême, que foi feita para as “Melindrosas” (...) foi composta pelo maestro Estevam Moura, ‘Jazz-band’, que tanto animou os bailes da Mi-carême da “25 de Março”. Segundo ‘Mané de Emília’, as partituras foram extraviadas, inclusive as últimas que se encontravam em poder de ‘ Tuto’, que também é um músico.243 Um artista que tocava em um local também promovia os festejos carnavalescos no formato de baile tinha no carnaval uma fonte de trabalho. Mas o mesmo carnaval que era uma fonte de renda também funcionava como um espaço de lazer quando estes sujeitos estavam no cordão das melindrosas. O espaço da filarmônica abrigava músicos, que tinha nesse local a fonte do trabalho, do cantar e tocar pela sobrevivência. O fato de ser um funcionário ou associado de determinada agremiação não o impediria de circular por outros espaços enquanto folião. Apresenta-se aqui outro significado festivo que não se resume apenas em brincar. A festa também era uma fonte de renda. Mané de Emília foi um exemplo dessa dualidade, assim como “Tuta”244, músico da Filarmônica 25 de Março e fundador do cordão das Melindrosas. Se as relações carnavalescas fossem tão estáticas, o mais lógico seria que eles fizessem parte única e exclusivamente dos cordões carnavalescos, porém eles estão presentes na categoria mais “civilizada” dos bailes realizados nos espaços das filarmônicas. É pertinente a partir de então pensar o movimento pendular; um sujeito pobre que ocupava um dos espaços elitizados da festa e compôs uma música para um grupo composto em sua maioria, por mulheres negras e lavandeiras do bairro pobre do Tanque da Nação. Isso é possível se pensarmos as relações construídas por ele com cada extremo. Eles ocupavam duas funções diferentes dentro dos festejos, a de folião e trabalhador. Entretanto isso não pode ser confundido com a democratização. Sua função era tocar e animar os bailes. A festa simbolizava para ele também uma forma de sobrevivência. No mesmo espaço podem-se identificar duas apropriações da festa, o trabalho e o lazer. Essa relação também foi explorada por Charles D’Almeida Santana quando analisou as apropriações carnavalescas de seus sujeitos migrantes do recôncavo baiano para Salvador entre as décadas de 1960 e 1980. Esse estudo contribui para pensar as multiplicidades de se 243 244 Panorama da Bahia. 50 anos de folia. 1987 p. 13 Idem. p.13 117 pensar os festejos e como eles são construídos na memória das pessoas e, o mais importante, a circulação nos vários espaços festivos No cenário festivo da cidade, as filarmônicas assumiam características diversas e exemplifica a mobilidade de grupos que atuavam em festejos carnavalescos e também em outras atividades. E ao executar esse movimento traziam e levavam grupos, permitindo as trocas de influências. Além disso, a participação de tais grupos era fundamental nos bailes carnavalescos e eventos religiosos, como a Festa de Nossa Senhora Santana, nos desfiles cívicos pelas ruas da cidade, bem como inauguração de obras públicas, além é claro da participação nos eventos cotidianos da cidade.245 Muito embora as filarmônicas não constituíssem instituições carnavalescas, durante os festejos elas assumiam um importante papel nisso. Esse protagonismo era disputado entre os grupos. As filarmônicas tinham fortes influências políticas. As figuras políticas da cidade, como Arnold Silva, eram participantes assíduos, inclusive nas diretorias. Esta característica fazia do espaço festivo um local de disputa de poder partidário. Além das filarmônicas, os cordões também estavam presentes em outros momentos festivos. As Melindrosas, segundo Reginilde Santa Barbara246, apresentavam-se nas festas e quermesse com o objetivo de angariar fundos. O que aparentemente simbolizava apenas lazer funcionava nesse caso, uma forma de manutenção dos cordões. Essa dualidade não era algo que ocorresse apenas internamente. Além da participação de clubes como as Melindrosas, entidade carnavalesca, em festejos diversos da cidade, existia também a migração para festejos de outras cidades. As Melindrosas efetuavam passeios para apresentar-se em outros carnavais: “As melindrosas foram participar da festa momesca de Muritiba.247” É pertinente afirmar que existia uma relação sólida entre os grupos participantes dos festejos carnavalescos e outras localidades, que permitiam um intercâmbio de ideais e influências festivas. E as filarmônicas, durante esse momento festivo assumiam uma posição de destaque. Esse movimento, porém não era só de saída. Os festejos carnavalescos de Feira de Santana também recebiam grupos de outros municípios, sobretudo de Salvador. 245 SANTOS, Aline. Op.cit. p. 4-5. SANTA BARBARA, Reginilde. Op.cit. 247 Panorama da Bahia. 50 anos de folia. 1987. p. 13 246 118 O Dalvaro (aqui pra nós) está tomando a frente da cousa. Disseram-me que irá evidar todos os esforços para trazer os carros da “Cruz vermelha” já arranjou uns 2.000$, mas são preciso 4.000$! Isso Santana intera! Contanto que a Cruz Vermelha venha.248 O sujeito citado era um dos proprietários do jornal Folha do Norte, Dalvaro Silva, irmão de Arnold Silva. Nesse aspecto, o jornal se mostrava mais uma vez atuante na construção da festa. Assim como tinham que pagar para que outros grupos viessem à Feira, era possível que as associações feirenses também recebessem por isso. Talvez isso explique o porquê em pleno período carnavalesco os grupos aceitassem sair da cidade para participar de outros carnavais. Esse movimento certamente trouxe contribuições para que as transformações ocorressem, ações estas que deram o movimento à festa. Após a análise desse movimento, percebe-se uma a relação das festas carnavalescas com outras modalidades. Foi citado anteriormente que tais eventos estabeleciam relações tanto com as festas religiosas locais quanto com carnavais em outras cidades. Este último fomentado pelos passeios promovidos pelas agremiações. As relações carnavalescas não podem ser classificadas como estruturas rígidas, elas são móveis e articula-se com outros setores. Por esse motivo estão associadas com as relações do cotidiano que perduram para além dos dias de Momo. 248 Folha do Norte. Feira de Santana, 16 de abril de 1938, Ano XXIX, nº 1561. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os festejos em geral são uma temática recente para o universo dos historiadores, fruto da ascensão da história cultural que trouxe à luz historiográfica objetos que eram tratados no campo antropológico. Com o acréscimo desse campo do saber, os historiadores puderam ampliar as possibilidades de leituras históricas. Para isso foi conveniente estabelecer diálogo com outras fontes de saber, especificamente a antropologia e trazer maior riqueza as discussões. Voltando especificamente para os festejos carnavalescos, práticas que estiveram presentes desde muito cedo nas experiências humanas, sendo identificadas desde a antiguidade clássica. Essas festividades sofreram mutações e refletiram em suas práticas e sentidos e em cada momento e local assumiram características peculiares. Isso porque as experiências humanas não são vivenciadas da mesma forma em todos os lugares. Cada localidade guarda suas peculiaridades, um contexto que lhe é próprio e que interfere na forma como os grupos festejam. Entretanto, enfatizar as peculiaridades e afirmar que cada lugar abriga um contexto que é particular e único não indica uma desarticulação com contextos maiores. Muito pelo contrário, tudo está interligado, mas o que traz a peculiaridade é a forma como os grupos entendem o contexto e atuam no que é peculiar. A presença dos festejos carnavalescos foi identificada ainda no Brasil colônia, fruto da influência lusa, praticado sob o formato de entrudo. Os estudos no Brasil sobre tais folguedos, muitos citados ao longo do texto, indicam que tinham como características gerais o hábito de molhar as pessoas e sujá-las em um jogo do qual participavam os mais derivados grupos sociais. Aparentemente essa prática encontrou um ambiente propício para a sua realização até meados do século XIX. Até esse momento não é identificado nenhuma associação negativa para com ele. A partir de meados do século XIX, essa relação começou a ganhar outros rumos. Ao que tudo indica esse não foi um movimento isolado, estudos sobre festas carnavalescas no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Porto Alegre, Salvador indicam a transição entre o século XIX e o século XX como um marco decisivo re-significação dos folguedos carnavalescos. A oposição criada entre carnaval e entrudo ganhou força com a entrada no século XX. Naquele momento passou a existir uma divisão entre as festas carnavalescas no Brasil, o entrudo começou a ser associado a tudo que era incivilizado e o carnaval como sinônimo de civilidade e modernidade. Momento este que coincidiu com a mudança política do país, que deixara de ser 120 monárquico e construía-se em republicano. Essa mudança perpassava não apenas pelo aspecto político, criar um novo país significava, além da estrutura política, significava construir uma imagem e conduta que fosse diferente e isso incluía também as formas de lazer e as festividades. Os ideais de civilidade, modernidade progresso deveriam ser aplicados em todas as esferas. Ao analisar o caso de Feira de Santana é possível localizar a tentativa de implantar esse projeto. As fontes jornalísticas, que foram a base desse trabalho, em quase todas as edições faziam referência aos festejos carnavalescos como um sinônimo de avanço e desenvolvimento da urbe. Mas diferente do que aconteceu no restante do país, essa disputa ideológica ganha essa dimensão a partir da primeira década do século XX. Ao passo que enfatizavam a grandiosidade e os benefícios do carnaval, faziam criticas ao entrudo, muitas vezes denominadas práticas bárbaras. O que indica possivelmente a permanência das práticas denominadas como entrudo ainda no século XX nesta cidade. E isso não foi algo específico de Feira de Santana. Na cidade de Amargosa-Ba, segundo Edicarla Marques249 houve a entrudo nas primeiras décadas do século XX. Percebeu-se que na construção do carnaval os jornalistas lançaram mão da depreciação do entrudo, nas primeiras décadas do século XX ele foi citado em oposição ao carnaval e através disso, era evidenciada a importância do festejo “civilizado”. Essa aparição do entrudo para exaltar o carnaval foi desaparecendo dos jornais sobre a justificativa de que este havia sido superado pelos bons hábitos do carnaval. Por isso é seguro afirmar que a utilização do entrudo com este sentido de antagonismo foi fundamental para a construção do sentido do carnaval. Muito provavelmente isso possa ter acontecidos em outras localidades, pois a criação de um projeto festivo e a sua apresentação à sociedade, não garante que este será aceito, sem nenhuma intervenção, e sua aplicabilidade um sucesso. E quando se trata de manifestações culturais, isso é ainda mais impreciso. Rachel Soihet250 foi direto nesse ponto, quando afirma que os foliões cariocas, mediante as proibições policiais do uso das laranjinhas e limões de cera, criavam outros elementos para driblar a vigilância popular e continuar com o jogo do entrudo. Havia diferenças entre as práticas, carnaval e entrudo, mas elas eram bastante simples, mas foram ampliadas no aspecto simbólico. Enquanto os adeptos do entrudo molhavam as pessoas e jogavam pós, no carnaval molhavam com lança-perfume e jogavam confetes e 249 250 MARQUES, Edicarla dos Santos. Op.cit. SOIHET, Rachel, op.cit. p. 86. 121 serpentinas. As práticas eram bastante similares, fantasiar-se, sair às ruas ou aderir clubes eram características presentes de forma geral nos festejos carnavalesco. Porém os seus conflitos foram travados muito mais no campo das ideias e das representações do que na prática. Dividir os festejos carnavalescos em categorias, entrudo, carnaval e micareta, e tratálos dentro de uma linearidade é uma questão ideológica. A cidade de Feira de Santana, para além das dicotomias forjadas entre entrudo e carnaval teria inventado o carnaval fora de época. De acordo com o senso comum, a micareta teria sido criada em 1937 devido às fortes chuvas que impossibilitaram a realização do carnaval naquele ano. Entretanto as fontes indicaram que nesta cidade o hábito, mesmo que esporádico, de realizar um festejo carnavalesco após a quaresma não surgiu em 1937, há indícios de que no mínimo em 1934 essa prática já existia, sobre a nomenclatura de páscoa carnavalesca ou pascoéla carnavalesca. O que acontece é que mediante uma suposta crise carnavalesca, a partir de 1937 esse momento carnavalesco pós-quaresma passou a ser fomentado e visto como uma alternativa ao “fracasso” de fevereiro. Naquele momento, existiam três nomenclaturas: segundo carnaval, seguida mi-carême e por fim micareta, que foi a que se fundamentou e tornou-se a única utilizada. Essas denominações também tinham seus significados políticos, os que defendiam o termo segundo carnaval desejavam primar pela originalidade, que segundo eles não eram contemplada como os termos mi-carême e micareta, ambos estariam ligados a influência francesa, uma visão europeia da festa. Sobre essa “crise”, ressalvas devem ser feitas, pois mesmo que aos noticiários apontassem para o esvaziamento da cidade, o festejo ocorria, embora sem satisfazer as expectativas de alguns. Sobre os motivos que teriam levado a essa crise, a construção da BR324 apareceu como a principal, pois teria facilitado o trânsito entre Feira de Santana e a capital, Salvador. Porém não podemos afirmar que a concorrência tenha sido apenas com Salvador, pois na década de 1930 alguns grupos além de migrarem para capital, transferiamse durante os folguedos para cidades como Muritiba - BA. Além disso, a migração ocorria muito antes da construção da rodovia, pelo menos a parir da segunda década do século XX. Por isso é ariscado determinar a existência de uma crise carnavalesca. Crise para quem, se os festejos perduraram mesmo com a implantação da micareta? E se houvesse uma crise, eleger um elemento apenas é igualmente perigoso. Percebe-se também que os festejos carnavalescos nunca assumem um apenas um significado. Essa temática traz em si a multiplicidade nas formas de festejar, nas formas de interpretar e significá-las. Os espaços da rua (público) e dos salões (privados) são os mais 122 simples. Dentro dos salões a polissemia está presente, ali se encontram os foliões, os organizadores e os músicos e cada um deles estabelece com a festa uma relação diferente. No espaço da rua, essa polissemia ganha proporções ainda maiores, pois é um espaço onde os mais diversos grupos ocupavam as ruas e nesse momento as suas relações e tensões do cotidiano não desaparecem. Os comerciantes os músicos, que no espaço festivo poderia se portar como um profissional em um momento e em outro ser folião. E a divisão desses espaços não implica necessariamente a imobilidade entre esses espaços e grupos. O movimento é outra característica dos festejos carnavalescos, os papeis são mutáveis. Mesmo tendo estabelecido um recorte que buscou abarcar as festividades carnavalescas, o trabalho não tem o objetivo de delimitar nascimentos e mortes, nesse caso do carnaval, visto que a micareta, festa carnavalesca pós-quaresma perdura até os dias atuais e o mesmo não aconteceu com o carnaval. Quando o assunto é manifestações culturais, precisar nascimentos e mortes, a famosa busca pelas origens faz perder de vista a complexidade e o movimento que elas assumem. Por esses motivos, todos os esforços da pesquisa foram para compreender como os sujeitos praticavam e significaram dos festejos carnavalescos. E através dele foi possível identificar que as festividades carnavalescas em Feira de Santana, além de representarem um espaço de lazer e encontros, serviram também como um espaço de disputas sociais, políticas e, sobretudo para a construção de memórias. BIBLIOGRAFIA ALMEIDA, Jaime. Uma teoria da festa. In: ALMEIDA, Luiz Sávio de. CABRAL, Otávio, ARAÚJO, Zezito (orgs). O negro e a construção do carnaval no Nordeste. Maceió: EDUFAL, 1996. ALMEIDA, Luiz Sávio de. Carnaval e carnavais. In: ALMEIDA, Luiz Sávio de. CABRAL, Otávio, ARAÚJO, Zezito (orgs). O negro e a construção do carnaval no Nordeste. Maceió: EDUFAL, 1996. AMORA, Antônio Soares. Minidicionário Soares Amora. 19ªed. São Paulo: Saraiva 2009 ARAÚJO, Patrícia Vargas Lopes de. Folganças populares: festejos de entrudo e carnaval em Minas Gerais no século XIX. 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Ano Carnaval Páscoa Micareta 1891 * * ** 1901 17 -19 de fevereiro. 7 de abril. ** 1909 20 - 23 de fevereiro. 11 de abril. ** 1910 6 - 8 de fevereiro. 27 de março. ** 1912 19 - 20 de fevereiro. 7 de abril. ** 1914 22 – 24 de fevereiro. 12 de abril. ** 1917 18 - 20 de fevereiro. 8 de abril. ** 1921 6 – 8 de fevereiro. 27 de março. ** 1922 26 – 28 de fevereiro. 16 de abril. ** 1923 11 – 13 de fevereiro. 1 de abril. ** 1924 2 – 4 de março 20 de abril. ** 1925 22 – 24 de fevereiro. 12 de abril. ** 1926 14 – 16 de fevereiro. 4 de abril. ** 1930 2 - 4 de março. 20 de abril. ** 1931 15 – 17 de fevereiro. 5 de abril. ** 1932 7 – 9 de fevereiro. 27 de março. ** 1933 26 - 28 de fevereiro. 16 de abril. ** 1934 14 -16 de fevereiro. 1 de abril. ** 1935 3 -5 de março. 21 de abril. ** 1936 23 – 25 de fevereiro. 12 abril. ** 1937 7- 9 de fevereiro. 28 de março. 4 - 6 de abril. 1938 27-1 de março. 17 de abril. 24 – 26 de abril. 1939 20 – 21 de fevereiro. 9 de abril. 15 – 18 abril. 131 Anexo II Memorialistas. Áurea Miradora Nasceu em Feira de Santana, onde seus pais eram radicados e eram professores: Alípio Severiano de Miranda e Amélia Severiano de Miranda, ambos atuavam profissionalmente em escolas de Feira de Santana (Estado da Bahia). Áurea Miranda foi para Salvador, ainda bem jovem para estudar na melhor escola formadora de professores, que era a Escola Normal. Depois de diplomar-se, permaneceu na capital, exercendo o magistério. A maior parte de sua atuação na cena literária da capital deu-se entre 1910 e 1920. Atuou junto a periódicos, principalmente, como militante feminista, incrementando e descrevendo os avanços da luta da mulher pelo voto no Brasil. Um trecho de seu artigo, "A Vitória do Feminismo", mostra sua posição diante do mundo e da condição da mulher.251 Georgina Erismman: Poetisa, declamadora, musicista, compositora, professora, pianista. Natural de Feira de Santana - Bahia, filha de Camilo de Mello Lima e Leolinda Bacelar de Mello Lima. Nascida em 27 de janeiro de 1893. Formada em magistério, foi nomeada professora de música em 1927 para a Escola Normal Rural de Feira de Santana (CUCA). Na Escola Normal, forma um coral composto de alunas, faz lançamento do Hinário, e em 1928, apresenta o Hino à Feira. Georgina Erismann continuou produzindo seus poemas, hinos, canções e crônicas, algumas dessas obras são publicadas em jornais locais e da capital. Algumas obras de sua produção; poemas: Adeus, Adeus Bahia, A Fuga das Andorinhas, Balão, Chuva, Elegia, Exortação, Inquietude, Mestra, Quaresma, Rede, Solicitude, Zabumba, etc. Hinos: A Bandeira (em parceria com Gastão Guimarães), À Feira, Ao Trabalho, Ao Três de Maio (em parceria com Maria Luiza de Souza Alves), Canção Patriótica e Redenção (Para 251 http://www.escritorasbaianas.ufba.br/aurea/biotraj.html 132 Treze de Maio). Suas composições são diversificadas: fox trote, canção, valsas, tango de salão, tango argentino, marcha carnavalesca: Ângelus, Campânula, Cantigas ao Luar, Garota, Mártir, Mestiça, Moreninha, Noiva, Saci Pererê, Sayonara, Seresta, Sombra, Tropeiro, etc.252 Hélder Alencar: Nascido em Feira de Santana, Alencar é formado é jornalista e advogado, atua como procurador jurídico da Universidade Estadual de Feira de Santana e mantém um interesse sobre a pesquisa histórica sobre sua cidade natal. Foi um dos colaboradores da criação do extinto jornal Feira Hoje. Melo Moraes Filho: Melo Morais Filho (Alexandre José de Melo Morais Filho), poeta, cronista e folclorista, nasceu em Salvador (BA), em 23/02/1843 e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), em 01/04/1919. Formou-se em medicina em Bruxelas, Bélgica, e revalidou o diploma no Rio de Janeiro em 1876. Colaborador de jornais e revistas deixou grande bibliografia etnográfica e folclórica. Foi o primeiro tradicionalista do seu tempo. Encabeçando campanha pela valorização de festas, autos e bailes populares, muitos dos quais encenou. Publicou Cancioneiro dos ciganos, Rio de Janeiro, 1885; Ciganos no Brasil, Rio de Janeiro, 1886. Festas populares do Brasil, Rio de Janeiro, 1888, Festas do Natal, Rio de Janeiro, 1895; Cantares brasileiros: cancioneiro fluminense, 2 volumes, Rio de Janeiro, 1900; Festas e tradições populares no Brasil, nova edição, revista e aumentada, Rio de Janeiro, 1901; Serenatas e saraus , 3 volumes, 1901-1902; Histórias e costumes, Rio de Janeiro, 1904; Fatos e memórias, Rio de Janeiro, 1904; Quadros e crônicas, Rio de Janeiro, s.d. 253 252 http://www.feiradesantanna.com.br/georginaerisman.htm 253 http://cifrantiga3.blogspot.com/2006/03/melo-morais-filho.html#ixzz2UPw91OCx 133 Wilson Louzada. Literário brasileiro que concentrou sua produção em poemas publicados entre as décadas de 1940 e 1950 dentre eles: Cancioneiros do amor: poesia portuguesa (1950); Cancioneiro do amor: poesia brasileira (1952); Antologia de Carnaval (1945). Em suas produções aparece sempre como organizador da produção literária de sua época e de mais antigos.