Luís Aires-Barros MAIS UMA LEITURA DE JORGE BORGES DE MACEDO ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA FICHA TÉCNICA TITULO MAIS UMA LEITURA DE JORGE BORGES DE MACEDO AUTOR LUIS AIRES-BARROS EDITOR ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA CONCEPÇÃO GRÁFICA SUSANA MARQUES ANTÓNIO SANTOS TEIXEIRA ISBN 978-972-623-247-6 ORGANIZAÇÃO Academia das Ciências de Lisboa R. Academia das Ciências, 19 1249-122 LISBOA Telefone: 213219730 Correio Eletrónico: [email protected] Internet: www.acad-ciencias.pt Copyright © Academia das Ciências de Lisboa (ACL), 2015 Proibida a reprodução, no todo ou em parte, por qualquer meio, sem autorização do Editor MAIS UMA LEITURA DE JORGE BORGES DE MACEDO Luís Aires-Barros Melhor do que dizer que o mundo existe, é dizer que o mundo ocorre. Na realidade não há nada nele que não se mova. Tudo o que parece ser estático e repetitivo, são estruturas transientes. Então admitiremos uma estrutura dupla para o decurso do tempo: uma estrutura reversível, ciclicamente repetitiva, que garante a duração e uma estrutura irreversível, progressiva, semelhante à seta, que é responsável pela mudança. Esta dualidade do conceito fundamental da civilização, como é o tempo, tem de ser bem sentida quando pretendemos olhar a História da Civilização e abordar o enfoque com que a olha um espírito multipolar como o de Borges de Macedo em que a diversidade dos temas que trata, sempre com profundidade e originalidade, envolvem a História como domínio que encara a globalidade da experiência humana no passado, nunca esquecendo a visão prospectiva e as incidências nas vidas económicas, sociais, políticas, tecnológicas, científicas, filosóficas, artísticas e mesmo religiosas dos homens e das nações. Para quem como eu se abeira das Ciências Históricas, desde sempre, pela prática das Ciências da Terra, essencialmente envolventes e subjacentes concomitantemente à História da Humanidade, o grande mistério, num domínio em que tudo é mutável e instável, é o tempo e o seu fluir. Mais do que o espaço onde o teatro humano transcorre, o tempo é a noção fundamental que mede a duração de tudo o que é mutável. Sinto pois necessidade em explicitar os dois tipos de tempo em que nos movimentamos a várias escalas. O tempo reversível garante a estabilidade dos sistemas em cada nível, seja ele físico (a sucessão dos dias e noites), biológico (as batidas do coração e a sua frequência que garantem a vida) ou sociopolítico (a produção cíclica dos bens agrícolas função dos climas das estações do ano). Esta visão do tempo está ligada à durabilidade. Tem uma Historia, mas a sua consideração estreita levará a que a História só poderá avançar, no sentido de quebrar um ciclo para passar para outro, por meio de um catastrofismo ocorrente, de vez enquando, por meio das guerras, revoluções ou grandes pandemias e catástrofes. O tempo também supõe mudança. Praticamente avaliamo-lo pelo movimento cíclico dos astros. Todavia ele (o tempo) existiria, mesmo que não houvesse astros, bastava a existência de um ser mutável. Este é, por excelência, o Homem. Há outro tipo de tempo em que os acontecimentos não podem ser repetidos, em que as estruturas se formam e se destroem. O nascimento e a morte não podem ser repetidos. A irreversibilidade dos processos físicos está estabelecida pela Segunda Lei da Termodinâmica. A vida, por definição, está longe do equilíbrio termodinâmico: ocorre em uma escala de tempo irreversível, é uma estrutura dissipativa. Tudo acontece de modo a respeitar a seta do tempo. Na realidade nenhum dos dois tempos descritos: o reversível e o irreversível ocorrem separadamente. Todo o processo cíclico está sujeito a pequenas perturbações que podem originar o colapso do sistema. Enquanto que o movimento cíclico ou de oscilação sinusoidal é governado pelo número irracional π = 3,141592...; as transições caóticas são governadas pelo número de Feigenbaum δ = 4,6692019..... A descoberta de Mitchell Feigenbaum, em 1975, do que posteriormente se veio a chamar os números de Feigenbaum (apenas nos referiremos à constante δ atrás 1 mencionada, por oposição a outra notável constante, o π) é fundamental para a previsão dos acontecimentos naturais que exibem comportamento errático. Feigenbaum foi um pioneiro da Ciência do Caos ou seja da matemática dos sistemas dinâmicos erráticos. Com estes dois números universais (π e δ), as relações entre os dois modos de tempo podem ser descritas. Assim caem no domínio do tempo reversível, os sistemas periódicos e cíclicos governados por π = 3,141592... tais como os átomos, os relógios, as galáxias e os planetas, o dia-noite, as estações do ano, as marés, o ritmo cardíaco, até o ciclo menstrual feminino. Já o tempo irreversível dos sistemas evolucionistas é governado pela constante δ = 4,669209...Aqui caem acontecimentos não rotineiros e não previsíveis do nosso viver diário, mas singularidades maiores que marcam esse viver, agora um devir. Referiremos o “big bang”, as manifestações vulcânicas ou os tremores de terra, o nascimentodoença-morte, o envelhecimento, as ideias, os sonhos e as revoluções, o conhecimento, a arte, diremos em uma palavra a História. Doutra maneira podemos dizer que o tempo cíclico é um tempo newtoniano, uniforme que não regista ocorrências notáveis. No extremo tem tendência a ser ahistórico, não o sendo em exclusivo, dadas as singularidades que os ciclos podem conter. Em contrapartida o tempo evolucionista é de tipo fractal, é o tempo requerido para a descrição de novos acontecimentos, das mudanças. Procura responder a tão antigas questões como é saber como acontece o novo! ou como colapsa o velho! Diremos focando-nos mais concretamente na História, mas também na Ciência, que o tempo cíclico, newtoniano responde às questões: como está o mundo organizado? Como funciona ele? Magnas questões, sem dúvida, mas da estática das coisas. Já nos sistemas dinâmicos, evolucionistas procura-se responder à questão: o que são transições? Estamos sempre voltando ao velho Heráclito! Os dois tempos, tão importantes que eles são, um responde à questão do SER, o outro ao problema do TORNAR-SE. É que a vida, dos homens e das nações e das civilizações não pode ser parado no seu trajecto sem a quebra completa da sua estrutura, ou seja sem a morte! Como diz Eduardo Lourenço “o tempo é o estofo do possível e o leito imóvel do não mais possível.” Porquê todas estas considerações? E para quê? Porque o tempo, como o espaço, são a moldura do nosso transcorrer, ou seja: da Historia. É ainda Eduardo Lourenço quem diz o tempo “é a maneira de termos um nome (...)”. Sendo eu um amante da História, mas não vero historiador, embora a Academia Portuguesa da História me acolha benignamente no seu seio, repito, sendo eu um apaixonado pela História e um leitor insaciável de Borges de Macedo, o faço por deleite e prazer de amante. Nesse doce prazer do deleite da leitura das obras deste espírito superior, é patente a sua descrição de uma agregado de gentes, em um território e por territórios além, ao longo dos tempos, quer cíclicos quer evolutivos. Fá-lo com rara maestria: há um espaço, diríamos invariante, onde gente com características peculiares (outro invariante), sofre no tempo os constrangimentos temporais de romper a cronologia da rotina meramente rectangular, peninsular, acostado a Castela e irrompe fractalmente pelo espaço ignoto, num devir, digamos, fantástico. Se nos dermos ao trabalho de compulsar essa obra maior que é a “História Diplomática Portuguesa” de Jorge Borges de Macedo, reparemos no seu subtítulo: 2 “constantes e linhas de força”. Eis o invariante espacial e o tempo cíclico que o caracteriza versus as linhas de força típicas de uma dinâmica evolucionista ligada a uma luta pela sobrevivência no transcorrer da História e à adaptação aos mais variados ambientes quer geográficos (a nossa diáspora) quer sócio-politico-culturais. Mas verdadeiramente chamativos são os títulos dos capítulos do livro. Cito-os: Capitulo I – A pressão da fronteira terrestre (e aqui aparece o essencial do estabelecimento do invariante espacial peninsular). E o autor a dada altura diz: “...a independência (de Portugal) só podia existir quando uma política externa a exprimisse e defendesse. Para tanto, no caso português, tinha de assentar, como assentou, no quadro peninsular, no quadro europeu e dispor de uma concepção operativa acerca das suas próprias fronteiras” (op.cit.p.45). O segundo capítulo trata de “A defesa do equilíbrio” e merece particular citação a explicação que o autor dá à pergunta de David Lopes: que foram os portugueses fazer a Marrocos e porquê em 1415? Fugindo das citações longas, tomarei estas palavras do autor: “Ora a verdade é que não havia razões imediatas, económicas ou religiosas, para a conquista de Ceuta.” e adiante diz: “Na verdade, assim tinha de ser. As razões para a conquista eram outras, visavam o equilíbrio das forças internacionais”. (op.cit.p.79). O que está aqui incluso de um novo tempo, para além da cronologia rotineira de uma vida no espaço invariante tão bem definido por Zurara ao dizer: “Cá nós de uma parte nos cerca o mar e da outra temos muro no reino de Castela”. O gesto singular (deixem-me dizer fractal) da conquista de Ceuta é ponto de partida para mil outras conquistas, perdas e reconquistas. O terceiro capítulo intitula-se “Do equilíbrio ao cerco “ e o quarto “Do cerco ao equilíbrio”. Títulos tão sugestivos! Encontramos no terceiro capítulo judiciosas observações. Assim: “O oceano Indico, visto da Europa, à distância, formava uma zona única (por muito que o ignorassem os seus próprios habitantes) ”. E prossegue: “Os responsáveis portugueses, educados sobre os princípios da estratégia do equilíbrio compensado, praticado durante o século XV e que levou Portugal a criar uma zona atlântica sua, não tiveram dificuldade em se aperceberem de uma complementaridade de tipo semelhante (embora de diferente dimensão) no Oceano Indico” (op.cit.p.117). É particularmente interessante que Borges de Macedo invoque os “princípios da estratégia do equilíbrio compensado”. Penso que a Historia pode ser vista como uma sucessão de situações homeostáticas diferentes. O colapso de uma determinada homeostasia e a sua substituição eventual por uma nova é causado por certos lanços de realimentação positiva. O conceito de hemóstase, tomado da fisiologia, foi generalizado à sociologia. Significa a propriedade característica dos sistemas biológicos de se auto-estabilizarem em relação a flutuações do ambiente em que se encontram através de uma rede integrada de mecanismos de retroalimentação. Deve salientar-se que a condição homeostática não é uma condição de equilíbrio no sentido físico do termo. Com efeito, nesta acepção, equilíbrio significa morte de um sistema biológico. Na realidade, no equilíbrio, por definição, nada pode acontecer. Quando se aplica o conceito de homeostasia aos sistemas sociais é importante assegurar a capacidade da espécie humana (as nações, digamos) para organizar acções direccionadas. Deste modo a homeostasia é a chave do êxito inclusive sociopolítico. Assim, a manutenção (ou não) de determinada ordem social e a sua estabilidade tornaram-se noções inerentes ao conceito de homeostasia aplicada aos fenómenos sociais (l.s.), logo ao transcorrer da História. 3 Deve sublinhar-se que, quando se usa a palavra homeostasis em contexto sociopolítico isso implica que se admite que o sistema social existe em condições de quási equilíbrio em que tem tendência a permanecer mais ou menos por longo período de tempo. Esta permanência resulta da interacção dos vários níveis do sistema numa sucessão reticular de realimentações que contrariem modificações abruptas. Todavia estas modificações abruptas são possíveis se não se realizar um certo número de realimentações, podendo conduzir a uma situação revolucionária. A História parece suportar não só esta perspectiva da evolução sociopolítica como as modificações abruptas, as revoluções. É para mim extremamente importante a visão que Borges de Macedo tem ao invocar os princípios da estratégia do equilíbrio compensado que, creio, poder integrar nesta visão homeostática de fluir da História, num tempo irreversível de acontecimentos fractais, paradireccionados. Aliás, vou servir-me de uma citação longa, mas preciosa na justeza das observações e conclusões, que penso justificar plenamente esta visão homeostática da História. Senão, ouçamos: “O conceito do equilíbrio dos Estados envolve um processo histórico com sentido. Implica a constituição de hegemonias viáveis, potências com recursos dirigidos para a concentração de capacidades de coordenação, hierarquia dos interesses e oportunidades. Isto é, diplomacia. Esta polariza a experiência europeia a cada Estado; é uma das formas da acção política pelas quais essa mesma Europa, além de se constituir, se diversifica. O conceito de equilíbrio tem sido aplicado a diferentes dimensões geográficas. Dentro de uma pequena área, orientou grande parte da Guerra do Peloponeso, tanto do lado dos atenienses como dos espartanos. Já nas Guerras Púnicas, a primazia das Nações foi substituída por uma concepção onde o equilíbrio de forças visava a ocupação das áreas de incidência mais significativas, mas desinteressada da colaboração dos povos que as habitavam. Eram, sobretudo, tropas romanas, ou os quadros púnicos comandantes dos mercenários, quem actuava nos lugares necessários. E depois da vitória, na realidade, Roma não se preocupou – dado o seu plano imperial – em criar potências compensadoras. Pelo contrário, preocupava-se muito mais em eliminar quaisquer potências dessa natureza, substituindo-as.” (op.cit.p.185). E mais adiante prossegue: “Com o império a orientação não se alterou, uma vez que o objectivo era, sobretudo, a integração das populações na Pax Romana e não o seu desenvolvimento autónomo. A procura de apoios regionais voltou, porém, a surgir, logo que essa integração se revelou impossível. E assim, ainda no império e dentro das suas fronteiras, os “povos” começaram, desde cedo, a revelar a sua importância regional, como superior à pressão central, e com possibilidade, portanto, de fomentar o seu próprio desenvolvimento.” (op.cit.p.186). Mas uma vez ultrapassada a visão imperial, impositiva, como que contra-natura, no total centralismo, “quando ao Império Romano sucedeu uma Europa mais extensa, dividida em áreas soberanas, a necessidade de ponderar equilíbrios tornou-se mais característica, no sentido de ir ao encontro e atenuar os efeitos dos confrontos hegemónicos: tinha-se tornado impossível restabelecer uma direcção unitária e centralizada. Carlos Magno concebeu, de algum modo, a unidade europeia e cristã frente ao mundo maometano, mas tratava-se mais de uma afirmação de solidariedade do que de uma organização efectiva e interveniente para o conjunto do território.” (op.cit.p.186) 4 Segue-se depois uma interessantíssima descrição de tipo homeostático na formulação que apresentei, do mundo pós-romano, da Alta Idade-Média no nascimento do mundo proto europeu. Ei-la: “A mútua compensação dos elementos do conjunto começava a exprimir-se através do papel dos povos que ocupavam e eram dotados de “vida” própria. Esta tendência, que já se adivinhava pela divisão do Império Romano em Ocidental e Oriental e pela criação de formas regionais de responsabilidade governativa, fortaleceuse com o feudalismo e o senhorialismo. Assim, a Europa começou por constituir uma das três zonas do mundo ocidental. Ao lado do domínio muçulmano e do domínio bizantino, estava a que praticava, simultaneamente, o governo regional e a obediência ao papa: a Europa. Mas não há duvida que cada uma dessas zonas passou a ter, no seu interior, além dos seus recursos materiais, a sua perspectiva espiritual e artística, sistema político, condições de defesa, rede de comunicações, recursos para o equilíbrio compensador, de acordo com a natureza geográfica, e a capacidade estratégica para conter invasões ou ataques armados.” (op.cit.187). E é mais explícito ao dizer que “Os feudos, no estatuto jurídico que daí nasceu, eram constituídos, nos casos típicos, quase sempre por áreas com razões locais de unidade, integradas na hierarquia dos poderes, no caminho possível para o Estado.” (op.cit.p.187). E ainda na mesma óptica, mas agora considerando as sequências do 1º de Dezembro de 1640, salienta que “em todas as áreas europeias se verificava a mesma tendência para os equilíbrios regionais, o que pode considerar-se uma forma de estratégia da época. Com efeito, em todas as áreas se verificava a preocupação em ir buscar recursos a outros lugares para se defender dos desequilíbrios específicos a cada um dos conjuntos. Mas era indispensável que os recursos fossem reais, ou seja, susceptíveis de negociação efectiva. Para Portugal, essas condições existiam no Atlântico.” (op.cit.p.195). Poderia continuar a leitura, em voz alta, desta obra fundamental de Borges de Macedo. Isso embora fosse gratificante ao espírito, alongaria demasiado esta exposição. Sei bem que o Prof. Borges de Macedo nos legou uma vastíssima obra derramada por cerca de quatro centenas de títulos. Sei bem que há aí alguns marcos indeléveis como a sua tese de licenciatura datada de 1951, sobre a situação económica no tempo de Pombal, ou a sua tese de doutoramento de 1963 sobre problemas de história da indústria portuguesa no século XVIII. Recordo que o primeiro texto de Borges de Macedo que li foi o de uma conferência proferida em 1966 na Academia Internacional da Cultura Portuguesa sobre “Vias de expressão e da sociedade portuguesa nos séculos XVII e XVIII”. Foi-me particularmente impressionante seguir a interpretação dada para o caminho que fomos seguindo no século maior da Ciência moderna e, depois no século do Anfklärung, dos iluministas. Todo este texto é de grande diversidade epistemológica. Cito “o que interessa é colocar os homens no seu meio social próprio e imediato, descrevê-los no seu campo de acção, não abstracto, mas concretamente definido nos seus estímulos, necessidades, exigências e possibilidades. Importa assim definir quais os problemas próprios que se apresentam à sociedade portuguesa daquele tempo e verificar, se sim ou não, a comunidade nacional foi capaz de encontrar uma solução adequada para todos eles” (op. cit. p. 122). 5 Direi eu, só assim se podem aplicar os princípios da estratégia do equilíbrio compensado e procurar as realimentações homeostáticas ocorrentes no contexto histórico da época, no nosso país. Ao me cingir a uma leitura livre de alguns aspectos da “História Diplomática Portuguesa” tendo como pano de fundo quer os conceitos de tempo cíclico e de tempo evolutivo fundamentais nas Ciências Históricas, na globalidade de todas elas, do Cosmos, ao nosso planeta, à nossa civilização, ao nosso país, quer o conceito de homoestasis cada vez mais impositivo nas interpretações sociopolíticas, quis marcar a homogeneidade do conhecimento dos sistemas geobiossociológicos com base na sua propriedade de se auto-estabilizarem em relação a flutuações do ambiente em que se encontram. Gostaria, ainda, a terminar estas minhas notas sobre personalidade tão multímoda como é a de Borges de Macedo, de discorrer um pouco sobre o seu interessantíssimo estudo “A opinião pública na História e a História na opinião pública”. É um estudo produzido em época de plena maturidade intelectual do seu autor que, na primeira parte refere o papel da opinião pública desde o Egipto antigo e na Bíblia até aos nossos dias. A dada altura, ao comentar a Grécia antiga diz “...podemos interpretar o teatro grego como um debate entre a opinião pública – o Coro – e as situações particulares inevitáveis e necessárias – os personagens, cada um com os seus argumentos. Deste conjunto nasce uma alternativa de posições em que uns se identificam com o corpo colectivo, ou seja a opinião pública que os comenta, e outros resistem, defendendo o direito ao particular...”. E logo a seguir refere o primeiro grande drama universal ligado aos equívocos da opinião pública: o julgamento e condenação à morte de Sócrates. Ao referir o advento e desenvolvimento do Cristianismo, salienta que ele vem aumentar a “capacidade de julgamento, na medida em que coloca acima de quaisquer dirigentes os princípios da lei natural que eles não podem transgredir”. E ao entrar pela Idade Média adentro diz: ......”a Europa passou a formular-se como uma civilização onde a opinião pública é uma dimensão intrínseca à sua própria vida pública”. Ao referir o aparecimento da imprensa e mais adiante ao Liberalismo com a consideração numérica e imediata da opinião pública, dá bem conta do fenómeno da aceleração da História num tempo evolutivo, fractal que conduz às perguntas: Quem tem razão, o senso comum ou o bom senso? A maioria ou a minoria? Como equilibrar os pareceres e governar? E desenha o pano de fundo da nossa sociedade: “A viabilidade da apresentação de opiniões divergentes, a consideração da sua força numerável obrigam à resposta e à tentativa de neutralização, assim como à necessidade da divergência ter de formular, em termos maioritários, para se manter como alternativa com audiência”. Com o avanço e o uso espectacular dos meios de comunicação social, o problema da opinião pública e da sua contaminação conduz (e conduziu) a que nas sociedades há um poder considerável que, aliás sempre se foi manifestando ao longo da História. O equilíbrio dos poderes nas sociedades tem de contar com o da opinião pública que pode introduzir tensões na homeostasia vigente, impulsionando todo o sistema para além dos limites do controlo homeostático. 6 A visão que aqui expendi, de que a História pode ser vista como uma sucessão de situações homeostáticas diferentes e que o colapso de uma determinada homeostasia e a sua substituição eventual por uma nova, é causado por certos lanços de realimentação positiva, está bem presente em algumas afirmações de Borges de Macedo. E cito esta a terminar. “A História considerada não em sistema mas em experiência, em drama humano pessoal e colectivo, na análise dos triunfos e das derrotas, nas constantes ponderações, caso a caso, conduz a uma opinião pública crítica, vigilante e sacrificada, pelo exercício das características humanas da racionalidade e da criatividade, pelo amor à verdade e à consideração das sequências nacionais em termos de possível, ao alcance do cidadão. Condições essenciais para que possa existir uma opinião pública responsável. A História não vai dizer, como a ideologia sistemática, que o passado é igual ao presente. Vai dizer e diz que, em cada momento do seu passado, as nações e as que se preparam para existir sempre tiveram e têm maneira de resolver os seus problemas porque os consideraram solúveis dentro dos recursos e do todo inabalável da comunidade. A História vai dar as diferentes comunidades como conjuntos humanos que constroem o seu próprio destino dentro das potencialidades variáveis, exemplos de sequências sociais diversas, providas de recursos cujo aproveitamento nunca pode ser geral e é sempre uma realização colectiva”. Termino, com esta citação lapidar do nosso homenageado: “A História de Portugal (...) só pode ser racionalmente entendida se a estudarmos como forma de adaptação de uma comunidade organizada, a determinadas situações nacionais e internacionais para cujo ajustamento teve a capacidade de organizar formas próprias de vida. 7