13
INTRODUÇÃO
O passado traz consigo um índice misterioso que o impele à
redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi
respirado antes? Não existem nas vozes que escutamos ecos de vozes
que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que
elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro
secreto, marcado entre as gerações precedentes e a nossa.
Walter Benjamim
Meus ouvidos durante a graduação pareciam teimar em ouvir somente o som das
vozes que eu rotineiramente escutava, mas às vezes em uma aula ou outra, de vez em quando,
em uma conversa com os amigos mais próximos, eu escutava os tais ecos Benjaminianos, que
passavam sempre muito rápidos, nem mesmo chegavam a se repetir, comecei então a tentar
treinar meus ouvidos para escutar os ecos do passado, ecos que eu nem sabia sobre o que
falavam, ou se realmente existiam, e cada vez que tentava escutá-los melhor, as vozes que eu
escutava – e recusava-me a ouvi-las – começavam a aumentar, e não somente aumentavam
como insistiam na mesma tonalidade, eram vozes de uma nota só, com uma só possibilidade
de serem ouvidas, com um único método para serem faladas, e com uma única forma de
serem analisadas.
Mas eu estava obstinado, queria conseguir chegar ao mistério da redenção do
passado, não só chegar a ele, mas escutá-lo, escutá-lo sem muita pressa, escutá-lo sem muitas
perguntas prontas, escutá-lo sem muitas expectativas fechadas, eu queria ao menos escutá-lo,
escutar dentro dele aqueles ecos. Nessa vontade, resolvi partir para o encontro secreto,
marcado entre a minha geração e as passadas, e eu consegui isso ensurdecendo e apenas
sentindo, sentindo aquele som dos ecos que vinham em uma aula ou outra, daqueles
professores, entre uma conversa e outra com aqueles amigos, que assim como eu, pareciam
também querer escutar aqueles ecos, talvez não os mesmos, mas eles também sabiam que
havia ecos em segredo, e que quem os descobrisse poderia, quem sabe, sentir a alegria de têlos escutado e compartilhado o som de algo não “novo”, mas algo velho, esquecido, algo que
ficara apagado em meio à irradiação de tantas luzes que vinham da direção do “novo”, algo
que até então estava sufocado por outras vozes.
Se com este som, que escutei em silêncio e no isolamento dos demais, consegui
produzir uma fala outra, tão diferente quanto a misteriosa fala que eu ouvi, não sei. Não posso
ter certeza se produzi uma fala ao nível da fala que ouvi, porém já me foi muito especial ter
conseguido ouvir aquele som.
14
Mesmo com muitas dificuldades de encontrar fontes, e com a dificuldade cruel do
trabalho pioneiro, isolado das produções acadêmicas mais próximas, foi possível uma escrita
simples, que conseguiu revelar a existência de uma imagem operária no Piauí da Primeira
República.
Os jornais operários do Piauí tentaram formar uma cultura operária. Cultura essa aqui
demonstrasse variada e bastante atravessada por diversas influencias do mundo daquele
momento. As vezes, a imprensa operária, e também a não operária, demonstravam o desejo de
ter uma relação pedagógica com os operários e operárias. Todavia, essa não era a única
intenção nem tampouco funcionalidade daqueles jornais.
Esses jornais também foram imprescindíveis naquele período por denunciarem
atrocidades contra os trabalhadores, levantarem bandeiras políticas e de ideologias sociais,
realizarem um rodízio ideológico com outros jornais operários do Brasil e, até mesmo,
propagar por suas páginas os desejos e os sofrimentos dos operários piauienses daquele
período.
Havia algo que, pela propaganda da imprensa, poderia vir a ser considerado um
Movimento Operário organizado, na sociedade do Piauí da Primeira República, o que refletia
um aspecto de militância do perfil da imprensa operária.
Também eram divulgadas as condições de vida desses trabalhadores, que chegavam à
população da época através daqueles jornais. Estas e muitas outras questões são problemáticas
que serão abordadas aqui, possíveis pela documentação disponível afirmando a problemática
central; o tipo de relação social entre a imprensa operária e os operários do Piauí da Primeira
República.
Que tipo de relação política, social, cultural e ideologia era essa, entre operários e
jornais? Como essa relação poderia configurar, talvez, uma cultura de classe ou uma cultura
associativa?
Existiram Operários no Piauí?
No que concerne às questões subjetivas, este trabalho traz uma tentativa de
materialização de uma opção historiográfica pelos temas voltados à História Social do
Trabalho e suas implicações na sociedade. Ao longo de minha formação no curso de História
da Universidade Federal do Piauí, atraí-me pela Historia Social do Trabalho, por de alguma
forma poder revelar aspectos problemáticos do mundo atual. O trabalho está imbricado em
todas as relações sociais e constitui um campo vasto de investigação historiográfica, que pode
nos informar muito a respeito de problemáticas ligadas à nossa própria existência, à nossa
condição social, à nossa saúde, além de todas as demais questões ligadas ao trabalho. E é
15
justamente com o estudo dos trabalhadores, de seus meios de propaganda, e, de organização
ou não, que posso realizar uma interferência na tentativa de buscar a perspectiva histórica dos
esquecidos, os operários do Piauí da Primeira República.
Do ponto de vista social, pode-se entender esta pesquisa interligada a um conjunto de
pesquisas contemporâneas que tentam trazer, na dimensão da história, a contribuição do local
de ação, vivência e participação dos trabalhadores na construção da nossa contemporaneidade.
Do ponto de vista acadêmico, o trabalho tem uma justificativa basilar, referente a não
existência de um estudo no campo da historiografia Piauiense sobre a questão operária no
Piauí da Primeira República.
Pelas páginas dessa monografia será demonstrado que havia toda uma configuração
operária, além de uma discussão dessa questão nos meios operários e nos meios políticos
daquele momento. Assim, essa investigação tem por justificativa fulcral colocar nas páginas
da história uma pequena parte das experiências ainda não conhecidas até então, vivenciadas
pelos operários e operárias piauienses.
Neste trabalho, tentei narrar como historicamente processavam-se as relações sociais,
políticas, ideológicas, e culturais entre o operariado e a imprensa da primeira república
Piauiense.
E conceituar ao longo da narrativa o que era definido como “operários” pela
imprensa no Piauí, percebendo a diversidade decorrente dos tipos de imprensa, e analisando
as discussões sobre as vivências, as formas de trabalho dos operários apresentadas pela
imprensa. Tudo isso através da análise de anúncios dos operários, das entidades
representativas, anúncios sobre os operários, artigos e crônicas diversas, tratando desta
temática.
Tentando assim trazer a dimensão da participação social que os operários tiveram na
Primeira República, tendo em vista as exaltações à questão do trabalho em muitos jornais, por
muitos intelectuais e políticos do período. Mas perceber também qual a importância e o
significado da questão “trabalho” para aqueles vários jornais, com suas várias visões
diferentes, além de entender de que forma esse trabalho incidia, realmente, sobre a vida dos
trabalhadores.
Pela disponibilidade das fontes, este trabalho se estende no recorte temporal de 1902
até 1929, optei pela análise temporal cronológica devido a algumas ausências de fontes em
certos períodos, como por exemplo, a década de 1910, o que tentei compensar com um
diálogo com as fontes em uma perspectiva de narrativa temporal crescente. Desta forma foi
16
possível entender o contexto do período, relacioná-lo a outras leituras e abstrair algumas
modificações dentro da ideia de imprensa operária, de operários e de organização dos
trabalhadores.
Assim, essa monografia se divide em dois capítulos, o primeiro refere-se a uma
análise da historiografia operária brasileira da Primeira República, no que tange
especificamente aos estudos da imprensa operária. A segunda parte desse capítulo trata de
uma pequena explanação sobre a configuração operária do Piauí da Primeira República, a
princípio pensei em não escrever sobre isto, pois ainda faltam muitas análises documentais, de
outras fontes, para se chegar a um panorama da configuração operária no Piauí. Porém
julguei necessário explicitar o pouco que consegui disponibilizar, visando a uma melhor
compreensão do segundo capítulo.
O segundo capítulo, refere-se à preocupação central da monografia, que é a analisar
os jornais operários; O Operário, Operário, e o O Artista, extraindo-lhes suas informações
problemáticas e suas relações com o operariado e com outros jornais. Na parte final do
capítulo segundo, há ainda uma breve explanação referente à relação entre os jornais não
operários e os operários no final da década de vinte.
17
CAPÍTULO I: HISTORIOGRAFIA E OPERARIADO
Depois de compreender a lógica interna do processo
histórico, o Partido ''educa'' os trabalhadores, que
serão o instrumento consciente da realização do fim da
história.
Slavoj Zizek
Existe uma proposição com pouca margem de incerteza entre os pesquisadores da
história do operariado brasileiro, de que esta história começou a ser narrada pelos próprios
operários, como formas de memórias ou exaltações da militância sindical, partidária, ou
mesmo por intelectuais simpatizantes, como no caso do Piauí.1. Deve-se atentar que, pelas
temporalidades da primeira república, a problemática do operariado ainda não penetrava com
significativas repercussões no meio intelectual, no sentido de produções historiográficas ou,
até mesmo, com certa preocupação descritiva em relatar as experiências dos trabalhadores.
Talvez na década de 1960 comecem a surgir com mais ênfase trabalhos acadêmicos
ou, na maioria das vezes, não acadêmicos relacionados à questão dos operários, como
exemplo desse período têm-se os trabalhos de Simão Aziz, e José Albertino Rodrigues 2.
Embora cabível reconhecer o esforço e os resultados dos autores desse período em tentar
trazer para a discussão acadêmica o operariado, há certas limitações em seus trabalhos,
relacionados, quase sempre, a formas teleológicas de interpretação, e ausência forte de
empiria .
É perceptível, ainda, a presença de interpretações via modelos teóricos de análises, a
linha de pensamento dos grandes centros industriais locais como exclusivos espaços de
atuação dos operários, a estreita análise empírica das diversas correntes do operariado, os
estudos centralizados no operário do sindicato, organizado em alguma associação quase
sempre; “o anarquista imigrante”. Essas perspectivas dificultavam um compreender mais
amplo das vivências e experiências dos trabalhadores e suas formas de organização. Unindo
esse fator a uma espécie de inexpressividade, ou até mesmo timidez do uso da imprensa
enquanto fonte histórica ou até mesmo objeto em si de estudo historiográfico. Os estudos do
anarquismo pareciam sobrepor e subjugar as variadas correntes e formas de experienciar o
1
Ver QUEIROZ, Teresinha de Jesus Mesquita. Os literatos e a república: Clodoaldo Freitas, Higino
Cunha e as tiranias do tempo. Teresina, EDUFPI, 2011.
2
SIMÃO, Aziz. Sindicato e Estado: suas relações na formação do proletariado de São Paulo. São
Paulo: Dominus, 1966. ; RODRIGUES, José Albertino. Sindicato e desenvolvimento no Brasil. São
Paulo: Difusão Européia, 1968.
18
tempo daqueles operários, pois como foi entendido pelos pesquisadores;
Os aspectos marcantes do período são dados pelos anarquistas, que
construíram o grupo mais ativo e aguerrido, conduzindo o movimento
operário com determinação e bravura, justamente numa época em que a
violência policial foi das mais fortes.3
Nessa afirmação é possível identificar a força excludente, como já mencionada, que
os estudos sobre o operariado anarquista remetiam a essa historiografia, refletindo um pouco
mais a frente, o autor menciona que “Os postulados anarquistas vêm claramente expostos no
jornal”4 , aqui então é que percebi uma mudança no que tange ao olhar sobre o que poderia
significar o passado enquanto produção de operários e sobre os operários – enfatizando a
importância que os jornais operários viriam a ter no período da Primeira República. Embora
não seja esse o objetivo central de Rodrigues, o autor provavelmente alerta para esta
configuração de estudos voltados para a área.
Na década de 1970 os estudos do trabalho vão ganhar novas forças e tendências,
principalmente com a influência dos brasilianistas. Obras importantes como as de Michael
Hall e Paulo S. Pinheiro5 deram uma nova configuração ao tom das análises, por trazerem
uma pesquisa documental maior, com a disponibilização de documentos e, dentro dessa
documentação, muitas matérias de jornais. Tal inovação trouxe para o campo da história do
trabalho um olhar empírico bastante raro até então, encontrado de forma inicial somente,
como afirma Cláudio Batalha6, no trabalho de Aziz Simão7. Os brasilianistas somando uma
nova concepção metodológico-teórica, que possibilitasse um volume documental maior na
investigação, trouxeram importantes documentos da classe operária que eram até então
desconhecidos pelo meio acadêmico, como por exemplo, o arquivo de Edgar Leuenroth, que
estava sob a posse de seus familiares.
Nesse período surge também um importante trabalho para a historiografia do
trabalho, é o livro de Boris Fausto8. O autor, muito próximo à tendência dos brasilianistas – a
3
RODRIGUES, José Albertino. Sindicato e desenvolvimento no Brasil. São Paulo: Difusão Européia,
1968, p.10.
4
RODRIGUES, José Albertino, 1968, p.10.
5
PINHEIRO, P. Sérgio; HALL, Michael. A Classe Operária no Brasil. vol. 1, São Paulo: Alfa
Omega,1981.
6
BATALHA, Cláudio. A historiografia da classe operária no Brasil: trajetória e tendências .in:
FREITAS, Marcos Cezar de.Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo, Contexto, 2000.
7
SIMÃO, Aziz, 1966.
8
FAUSTO, Boris. Trabalho urbano e conflito social. São Paulo: Difel. 1977.
19
saber, a de alargar o campo de estudo, unindo uma tendência empírica historiográfica a
influências das sínteses sociológicas do período – traz uma história dos operários que integra
o movimento operário brasileiro a uma dinâmica internacional e a uma discussão de classe
mais global. Embora ainda enfatize os grandes centros urbanos e principalmente os
anarquistas, o referido autor trouxe contribuições interessantes ao pensar a imprensa operária
como “um instrumento” de classe que:
Mais importantes talvez do que frágil sindicato, o jornal constitui um dos
principais centros organizatórios anarquistas e de difusão da propaganda.
Veículo de expressão escrita, transforma-se também com freqüência em
veículo oral, ao ser lido em voz alta para os trabalhadores analfabetos.
Quando consegue manter certa continuidade ao longo dos anos, espelha as
condições do movimento social.9
Esses tipos de análises, embora fossem de certa maneira inovadoras por trazerem a
importância social da imprensa operária, até como forma de denúncia das condições de vida
dos trabalhadores, ainda deixavam margem para excluir determinados tipos de operários. O
privilégio dos operários do eixo Rio- São Paulo, a preferência nos estudos de caso pela
movimentação operária das minorias organizadas e anarquistas, terminava por deixar
encobertos outros fazeres sociais dos trabalhadores, fazendo com que a complexidade da
classe operária brasileira no período fosse menosprezada, entretanto é necessário reconhecer
as dificuldades inerentes ao estudo de tais temas e o mérito daqueles que se propunham a
fazê-lo, já que durante aquele momento histórico estas temáticas eram entendidas como de
esquerda, e isso no período autoritário brasileiro de 1970.
Outro trabalho muito interessante do período é a obra de Edgard Carone10, que está
praticamente em sua totalidade voltada às problemáticas da imprensa operária, o autor salienta
variados jornais operários espalhados pelo Brasil, quebrando a concentração dos estudos
voltados aos grandes centros urbanos. Embora de grande contribuição para a historiografia do
operariado brasileiro, Carone pouco analisa qualitativamente suas fontes, está mais
preocupado
em
apresentá-las,
faltando-lhe,
pois,
análise
documental
apurada
e
contextualizada.
A década de 1980 é uma década de boas-novas para o estudo do movimento operário
no Brasil, devido às influências de uma certa literatura estrangeira11. Na década de oitenta,
9
FAUSTO, Boris, 1977, p.91.
CARONE, Edgar. Movimento operário no Brasil, 1877-1944. 2. ed.. São Paulo : Difel, 1984.
11
E. P. Thompson , Georges Hauput , Eric. J. Hobsbawm , Cornelius Castoriadis.
10
20
com as traduções no Brasil houve maior apreensão de autores como Eric Hobsbawm, E. P.
Thompson, Georges Hauput, Cornelius Catoriadis. A união dessa conjuntura com o
revisionismo marxista, em contraponto com as prerrogativas Stalinistas, acarretou também o
início de uma discussão sobre as fontes históricas e metodologias. Devido a soma destas
circunstancias há uma atenção maior ao estudo de operários comuns, suas condições de vida,
de gênero, sua cultura. Neste momento troca-se o sentido de “movimento operário”
sindicalizado, “atuante politicamente” e passa-se para o estudo da classe, no sentido
Thompsoniano12. No Brasil, com essa recepção de novos paradigmas unidos à busca por
novas fontes, a imprensa e também o mutualismo, começam a se fazer preocupação central e
não mais secundária – historiadores como Francisco Foot Hardman13, ainda na década de
oitenta procuram enveredar pelos estudos mutuais e de imprensa, no que concerne a
importância organizativa dos trabalhadores. Assim como ele, faz-se necessário mencionar
Maria Auxiliadora Guzzo de Decca14, que propõe uma visão para fora das fábricas, lança o
olhar sobre os pontos ainda não tão bem percebidos da experiência dos trabalhadores, o que
contribuiu muito para o alargar dos estudos do trabalho, trazendo novas questões, novas
abordagens, novos temas e atores sociais. Foram trabalhos como os de Maria de Decca que
possibilitaram conhecer o cotidiano das fábricas, e o uso de uma espécie de fonte quase não
utilizada na reconstrução da vida cotidiana dos trabalhadores, a imprensa operária, visando
também construir uma narrativa acerca das vivências dos operários brasileiros. Guzzo de
Decca foi talvez a primeira a compreender que a imprensa operária poderia revelar aspectos
da cultura operária, da organização, das lutas contra os patrões e do próprio cotidiano. Através
da imprensa operária a autora revela em sua pesquisa o cotidiano dos trabalhadores –
considero o trabalho de Guzzo de Decca como o mais completo metodologicamente, até hoje,
referente à relação imprensa e operariado. Seu trabalho me serviu de profunda inspiração.
É importante destacar aqui também o trabalho clássico de Ângela Maria de Castro
15
Gomes , que consegue entender a instrumentalização da mídia enquanto uma ferramenta
poderosa sobre o trabalhador. Gomes estuda a invenção de um trabalhismo através de uma
propaganda do estado que tentava moldar, uniformizar, o que deveria ser o trabalhador.
Apesar de esse trabalho sair do recorte proposto nesta escrita é pertinente que seja lembrado,
12
THOMPSON, E.P. A formação da classe operária inglesa. I : A árvore da liberdade. Rio de Janeiro:
paz e Terra, 1987.
13
HARDMAN, Francisco Foot; LEONARDI, Victor. História da Indústria e do Trabalho no Brasil:
das origens aos anos 20. São Paulo: Ática, 1991.
14
DECCA, Maria Auxiliadora Guzzo de. A vida fora das fábricas; Cotidiano operário em São
Paulo1920- 1934. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
15
GOMES, Ângela. A invenção do trabalhismo. São Paulo: Vértice, 1988.
21
pois visa uma perspectiva de mídia, ao tempo que para além de um meio de comunicação
operário, ver a relação entre uma mídia não especificamente operária, o rádio e o operariado,
noção de fontes de documentação midiáticas não operárias, tão bem estudada no período pós30, e ainda não muito bem entendida na primeira república.
Talvez um trabalho na década de 1980 que não tenha especificamente se proposto a
pesquisar imprensa operária, mas que trouxe na dimensão histórica o impacto de uma
imprensa não operária sobre os trabalhadores da primeira república, fora a obra de Sydney
Chalhoub16, que problematizou as versões conferidas a acontecimentos – como acusações de
crimes e julgamentos processuais aos trabalhadores – e a forma como a visão da imprensa
incidia os fatos para a sociedade da época.
Ainda na década de 1980, surge o trabalho clássico de Maria Nazareth Ferreira17, que
provavelmente é pioneiro no tema a que se propõe, pois foge ao panorama do eixo Rio-São
Paulo, trazendo dados empíricos de uma produção hemerográfica nacional. Seu trabalho traz
grandes contribuições para o pensar da imprensa operária como fonte e objeto de estudo. Para
Ferreira, a imprensa operária tem:
Seu valor é inegável sob o ponto de vista histórico, pela quantidade e
qualidade das informações que revela ao pesquisador. Qualidade por que
todos os problemas internos à classe, fraquezas, lutas internas, tudo o que
acontecia no meio operário era motivo de debates e informações que
ganhavam as páginas dessa imprensa; quantidade, devido ao grande número
de revistas publicado, cobrindo todas as regiões do Brasil, onde se
destacavam a questão social e as condições de organização da classe
trabalhadora.18
No trabalho de Ferreira é perceptível uma maior preocupação no tratamento da
imprensa operária, com uma maior pesquisa empírica e um rebuscamento no que tange ao
pensar uma importância sócio-política e cultural maior para a problemática da imprensa
relacionada ao operariado. É necessário um diálogo mais apurado com o trabalho de Maria
Nazareth Ferreira por sua preocupação ter sido exclusivamente a imprensa operária. Logo de
início é necessário ressaltar alguns pontos; 1) O trabalho de Maria Nazareth Ferreira trouxe
uma volumosa materialidade empírica, pois reconfigurou a experiência do estudo da imprensa
operária, já que trouxe uma imagem até então inexistente da quantidade jornais operários. 2)
16
CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim: O cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da
belle époque São Paulo: Brasiliense, 1986.
17
FERREIRA, Maria Nazareth. Imprensa Operária no Brasil.São Paulo: Ática, 1988.
18
FERREIRA, Maria Nazareth, 1988, p.13-14.
22
Quanto a narrativa de Ferreira, é construída com a preocupação de dar uma noção da
historicidade e conceituação da imprensa operária. 3) A obra é fortemente transpassada por
uma influência dos paradigmas leninistas, principalmente pelos ideais do PCB da época, de
como este via a funcionalidade e a forma como deveria funcionar a imprensa operária, que no
trabalho de Ferreira acaba por se confundir com a imprensa de esquerda (embora seja
ressaltada a complexidade existente dentro das várias correntes da classe), que visava a
unidade da imprensa e sua função de porta-voz da revolução, assim cumpria-se “o papel” do
jornal e também dos trabalhadores. 4) O estudo de Maria Nazareth Ferreira é divido por
etapas.
Embora a própria autora esclareça que ainda não existe um trabalho referente a um
mapeamento completo de toda a imprensa operária brasileira, seu esforço em trazer parte
significativa desse levantamento deve ser reconhecido. Embora suas análises sejam sínteses e,
mais precisamente, concentradas em sua narrativa no eixo Centro-Sul, Ferreira chega a citar
um Jornal de cunho operário com circulação no Piauí, trata-se de O Artista, jornal que será
analisado em outro capítulo.
No que tange a sua narrativa Ferreira traz dados importantes, como as informações de
surgimento da imprensa operária no Brasil. Menciona Recife como cidade pioneira, em 1847,
e alude à criação de jornais brasileiros com influência dos imigrantes, que fundaram aqui
jornais publicados em suas línguas de origem. Segundo a autora era possível verificar a
circulação jornais Italianos, Alemães, Espanhóis, Portugueses, entre outros.
O trabalho de Ferreira demonstra os acontecimentos e transformações da imprensa
operária no Brasil, sempre citando e fazendo referência ao que o intelectual da Revolução
Russa tinha como função para a imprensa operária, talvez por isso haja no trabalho uma
exaltação da figura do trabalhador tipógrafo, pois este era o operário intelectualizado, muitas
vezes responsável pela matéria, pela veiculação e pela divulgação aos demais amigos da
classe. É necessário lembrar, ainda, o nível absurdo de analfabetismo nos meios populares da
dita “República das Letras”.
A divisão do trabalho de Ferreira em etapas é característica de uma sociologia crítica,
dita de inspiração marxista, que via nos processos complexos do operariado brasileiro uma
progressão etapista, e por isso é comum em muitos trabalhos notar-se um enfoque maior, de
maior vibração de 1922 pra frente, pois o que nos indica Ferreira – e não somente ela – é que
com a criação do PCB é demonstrado o ápice de uma tal “maturidade” da classe operária.
Ferreira divide sua pesquisa em 3 partes; a imprensa Anarco-sindicalista, do império até 22,
de 1922 até o golpe de 64, e de 64 em diante. Divisão essa que não se sustenta empiricamente.
23
Na década de 1990, com todas essas influências anteriores, surgem os trabalhos de
Francisco Foot Hardman – em uma obra em parceria com Victor Leonardi – que há algum
tempo já vinha estudando história dos operários no Brasil. Os autores chamam a atenção para
o aparecimento dos primeiros jornais operários que sugiram por volta de 1860, e enfatizam
que: “Eram pequenos jornais, de tiragem reduzida e de vida geralmente efêmera. Porém não
se pode negligenciar o papel desempenhado por essa imprensa operária no processo de
formação do proletariado como classe.”19
Esta afirmativa alarga ainda mais os estudos do operariado, trazendo para a discussão
diferenciados tipos de operários, com mais diversificadas formas de atuação política, como
por exemplo, as associações mutualistas e de diferentes localidades do Brasil, que, até então,
pouco tinham sido estudadas, saindo um pouco dos estudos que foram historicamente mais
concentrados nos anarquistas, com este tipo de montagem historiográfica, esses autores
trouxeram pertinentes e interessantes contribuições. É válido também destacar que a década
de 1990 também está recheada de estudos que, embora não diretamente tratem da questão do
operariado, conferem a ela sustentabilidade, tratam de temas que permeiam esta questão e
perpassam pelo tema da imprensa no período da Primeira República. Como exemplo, temos
os trabalhos de Teresinha Queiroz20, Maria Mafalda de Araújo21 e Antônio José Medeiros22.
O trabalho de Queiroz é importante à medida que, entre outras questões, salienta os
debates políticos ideológicos em torno da imprensa brasileira na primeira república, e dentro
desse contexto estão inseridas as questões do trabalho, além de intelectuais preocupados com
essas questões, que demonstravam isto na imprensa, muitas vezes revelando diferenças de
pensamentos e de posicionamentos ideológicos. Mafalda de Araújo, embora não direcione seu
trabalho para a questão operária, o direciona para a questão da pobreza, o que naquele
contexto revela aspectos de vida dos trabalhadores, a magia da sobrevivência naquele período
de forte tentativa de implantação de uma ideologia do trabalho. A obra possui muitos aspectos
interessantes neste quesito, pois confere atenção para a propagação dessa campanha pela
imprensa, ou seja, a obra constata a existência de uma tentativa de implantar uma ideologia do
bom pobre naquela época, além disso, realiza um estudo, ainda que rápido, apontando para a
existência de um mutualismo. Todas essas questões aptas a desenrolar-se como chaves de
19
HARDMAN, Francisco Foot; LEONARDI, Victor. História da Indústria e do Trabalho no Brasil:
das origens aos anos 20. São Paulo: Ática, 1991, p.103.
20
QUEIROZ, 2011.
21
ARAÚJO, Maria Mafalda Baldoino de. Cotidiano e pobreza: a magia da sobrevivência em Teresina.
Teresina: EDUFPI, 2010.
22
MEDEIROS, Antônio José. Movimentos Sociais no Piauí In: SANTANA, R.N.Monteiro de.(Org.).
Piauí: formação- desenvolvimento- perpspectivas. Teresina: Halley, 1995.
24
pesquisas, partindo da problemática da pobreza para a dos operários.
Antônio José Medeiros, ao tratar de movimentos sociais, pincela rapidamente a
questão da movimentação operária na primeira república. Ademais joga chaves de pesquisas
interessantes, como o evidenciar das associações operárias existentes naquele momento no
estado e a afirmativa de que existia uma imprensa operária, a qual afirma, até então, carecer
de um estudo mais específico. Medeiros se refere aos jornais O Artíficie e O Operário de
Teresina, os quais farão parte de meu campo de investigação mais à frente – em especial o
segundo, por estar dentro do recorte temporal proposto.
É também válido valer-me de um capítulo do livro de Pedro Vilarinho Castelo
Branco23 que, tentando dar uma visão das várias formas de vida das mulheres na primeira
República no Piauí, apresenta uma entrevista de uma mulher que trabalhou na fábrica,
conseguindo por este meio um registro sobre as operárias na fábrica de fiação.
Ainda nesse contexto, mas já adentrando de maneira realtiva os anos 2000, existem
os trabalhos da socióloga Ana Maria Bezerra do Nascimento24 que, até onde consegui buscar
informações, foi a pioneira na área dos estudos do operariado no Piauí. Embora não seja da
área da História seu trabalho, enviesando pelas áreas da sociologia e da educação, perpassa as
discussões em torno da imprensa e a educação do operariado, trazendo muitos dados
estatísticos também sobre as associações de operários do Piauí. Pouco citado ou sequer
conhecido, este trabalho traz com bastante empiria dados quantitativos de muita relevância
referentes à classe operária no Piauí, tendo quase sempre o recorte temporal de 1900 até 1937.
Trazendo importantes dados ignorados pelo conhecimento acadêmico, a escrita de
Ana Nascimento é orquestrada por uma narrativa de resgate, que tenta resignificar o passado,
assim, pois, ela entende que:
23
CASTELO BRANCO, Pedro Vilarinho. Mulheres plurais. Teresina: Fundação Cultural
Monsenhor Chaves, 1996.
24
NASCIMENTO, Ana. O caráter e a forma de organização dos trabalhadores em Teresina de 1900 a
1938. In: XXII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 2003, João Pessoa. Anais eletrônicos...
Disponível em <http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S22.046.pdf .>. Acesso
em 06/06/2011.
NASCIMENTO, Ana. Educação na imprensa: O jornal como fonte para a história da educação
operária do Piauí. In: III CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO ESCOLAR
EM PERSPECTIVA HISTÓRICA, 2004, Paraná. Anais eletrônicos... Disponível em
<http://sbhe.org.br/novo/congressos/cbhe3/paginas/cbhe.htm> . Acesso em 06/06/2011.
NASCIMENTO, Ana. A “escola 14 de julho” e a experiência educacional de uma
organização operária em teresina de 1907 a 1944.
In:
GT
EDUCAÇÃO, MOVIMENTOS
SOCIAIS E DIREITOS HUMANOS – UFPI. 2004, Teresina. Anais Eletrônicos... Disponível em
<http://www.ufpi.br/subsiteFiles/ppged/arquivos/files/eventos/evento2004/GT.6/GT6_1_2004.pdf.>
Acesso em 06/06/2011.
25
É certo que esta escolha está marcada pele visão do que é importante e que
merece ser guardado. Ainda assim, qualquer que seja a opção, estaremos
registrando, a partir de nossa escolha, a história que fazemos. Não se trata de
uma interpretação verdadeira ou absoluta, e sim que é uma interpretação
possível. 25
Nessa empreitada Nascimento trouxe importantes dados sobre um panorama mais
geral dos operários no Piauí, como por exemplo, a configuração das Associações de
trabalhadores;
O levantamento realizado com as fontes disponíveis: estatutos, anúncios,
editais, convocações, manifestações, convites, editoriais, artigos da temática
operária ou próxima a elas publicadas nos jornais oficiais e não oficial, nos
permitiu esclarecer que entre 1889 a 1937 foram criadas 44 sociedades de
trabalhadores no Estado do Piauí, sendo 06 de associação profissional; 18
mutualistas e beneficentes e 21 de categoria profissional, que estão
distribuídas por cidades: Teresina – 27. Parnaíba – 10; Floriano 01;
Amarante – 01; Piripiri; - 02; Campo Maior – 01; Barras – 01; Buriti dos
Lopes – 01. Destas, 09 montaram escolas de primeiras letras e
profissionalizantes, sendo 03 em Teresina e 03 em Parnaíba.26
Esse mapa é de extrema importância para o auxílio de uma pesquisa que deseje
substantivar cada associação dessas, estudá-las nos pormenores, seu nome, duração, função,
seus possíveis jornais, e, para além disto, esses dados confirmam a configuração operária
existente no meio norte brasileiro, que será analisada mais à frente, até então desconhecido
tanto pela historiografia local quanto nacional.
Sem dúvidas os trabalhos de Ana Maria Bezerra do Nascimento têm o mérito da
dificuldade de localização e apresentação em mapa de dados referentes aos operários. As
documentações hoje existentes são raras e de difícil acesso, dadas as políticas ineficientes de
armazenamento e preservação de documentação.
Nos anos 2000, trabalhos como os de Claudio Batalha27, e Marcelo Badaró Matos28
trouxeram perspectivas mais abrangentes ainda para o campo temático dos trabalhadores.
Batalha, na obra em questão, traz uma perspectiva globalizante da história do
25
NASCIMENTO, Ana, 2003, p,5.
NASCIMENTO, Ana, 2004, p, 6.
27
BATALHA, Claudio. O movimento operário na Primeira República. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
2000.
28
MATOS, Marcelo Badaró. Trabalhadores e sindicatos no Brasil. São Paulo: Expressão Popular,
2009.
26
26
movimento operário no Brasil, o que é interessante por remontar a uma história mais
diversificada, com operários de várias correntes ideológicas, e das mais distintas
organizações, trazendo a discussão do ecletismo do movimento operário na Primeira
República, e chamando atenção para um importante aspecto da imprensa operária, pois;
Entendendo de modo mais eclético e ampliado as configurações de classe operária no
Brasil, Batalha percebe na imprensa essa mesma diversificação e, por isso, vai buscar
empiricamente a compreensão da importância que a imprensa operária detém na formação da
cultura operária.
O historiador Marcelo Badaró Matos, traz uma maneira interessante de estudar os
operários, mesclando várias fontes, inclusive escritos dos próprios operários, entrecruzando
isso a uma imprensa operária. Desta maneira, remonta possibilidades de entender essa
imprensa operária como uma tentativa de conquista não só dos direitos dos operários e suas
lutas internas, mas também a conquista dos próprios operários para os diferentes grupos e
sindicatos. Matos, com seu estudo dos sindicatos, percebe que a imprensa, para parte destes,
era um meio de agrupar mais associados, revelando assim disputas e divergências no
operariado dentro da imprensa.
Nesse sentido, com tantas formas de abordagens e tendências, vejo que ainda é
preciso empreender um trabalho que consiga entender melhor essa relação entre o operariado
e a imprensa, seus jogos políticos, além de compreender as dinâmicas políticas e sociais do
operariado na Primeira República.
Tendo realizado essa pesquisa de levantamento bibliográfico sobre os rumos e
sentidos em que as pesquisas sobre o operariado no Brasil vêm sendo realizadas, me é
perspicaz atentar para dois aspectos, a saber: de que maneira deve ser enviesada uma pesquisa
que necessita estar atenta a todas essas experiências posteriores, no que concerne
principalmente às metodologias, e, em que contexto essa narrativa irá ser inserida. Em um
diálogo constante com as fontes, e visitando uma vasta produção da historiografia brasileira
sobre a questão operária (história da imprensa e questões regionais), é necessário um estudo
para perceber e equalizar aspectos gerais sobre o assunto do operariado com os estudos locais,
até então um pouco ainda marginalizados, persistindo a ausência de uma levantamento
historiográfico com fôlego de explanar as experiências operárias da Primeira República extra
eixo Centro-Sul. Objetiva-se, assim, perceber o rumo a que estes resultados levam e
revisionar também uma bibliografia sobre Primeira República no Piauí, devendo este, por
questões empíricas, estar interligado a outras localidades, entrelaçando-as e as analisando,
para que alcancem o máximo grau de completude e a conectividade característica de uma
27
temática como a dos trabalhadores, e principalmente naquele período, por uma discussão
internacional sobre os rumos dos trabalhadores.
Assim, faz-se necessário tentar entender qual a cultura dos trabalhadores naquele
período – se é que existia tal configuração de uma cultura trazida pelos jornais – e as noções
dos diferentes costumes operários. Para tanto, é pertinente a utilização da noção de cultura
operária escrita por Claudio Batalha:
Sem dúvida a expressão mais visível da cultura operária nesse período foi a
imprensa operária. Ela foi o principal instrumento de propaganda e debate,
assumindo formas diversas: periódicos de correntes político-ideológicas
(anarquistas, socialistas, comunistas, católicos etc.); jornais sindicais;
publicações destinadas à classe operária em geral.29
Essa noção de cultura operária está relacionada aos conflitos envolvendo a questão
do operariado na imprensa Piauiense. A ela soma-se a, já mencionada, tentativa de conseguir
no campo da linguagem a busca por uma consciência. Assim, essa pesquisa entende que:
A linguagem é tão velha quanto a consciência: a linguagem é a consciência
prática, a consciência real, que existe também para outros homens e que,
portanto, começa a existir também para mim mesmo; e a linguagem nasce,
assim como a consciência, da necessidade, da carência de intercambio com
os demais homens.30
Faz-se então necessário, não só para a imprensa operária, mas para toda a
configuração operária existente no período, pensar a linguagem do jornal enquanto uma
possibilidade, uma tentativa de criação de uma consciência operária. Entende-se, pois, que
havia uma tentativa, por parte da imprensa, de configurar um modelo de operário, uma classe,
um modelo de classe. Atitude que, em meu julgamento, é descabida visto que a formação de
uma classe somente ocorre da seguinte forma: “Uma classe, em sua acepção plena, só vem a
existir no momento histórico em que as classes começam a adquirir consciência de si próprias
como tal”31. Esta ideia de Hobsbawm abre espaços para ampliarmos mais ainda, o campo de
investigação da questão dos trabalhadores e sua identificação ou não enquanto classe,
29
BATALHA, Claudio, 2000, p. 64.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007,
p. 53.
31
HOBSBAWM, Eric J. Mundos do Trabalho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p. 34.
30
28
podendo também (entrecruzada previamente com as fontes encontradas) ser utilizada no
entendimento de que tanto na imprensa operária, como na não operária há disputas pela
formação dessa consciência, encarnadas na forma das letras dos jornais, por isso este conceito
de consciência de classe faz-se pertinente e necessário à investigação de qual consciência de
classe estava presente nas retóricas sobre o trabalhador do período estudado, e quais foram,
nessa perspectiva de consciência de classe, as noções divulgadas sobre o que é trabalho e suas
relações com o capital.
Essas disputas e conceitos são bem demonstrados em um trecho de um artigo
publicado no Jornal O Operário, em 1906;
Dizer que o „Operário‟ é pasquim é desconhecer as leis do país em que
habita e a língua da terra em que nasceu[...]Pois saiba o „Operário‟ Pinto
Machado, que o Governador do Estado é amigo dos operários de sua terra, e
que antes, como depois da criação da „Aliança‟, os operários do Piauí não
são vítimas de perseguição das autoridades judiciais e policiais, sem terem,
aliás, compromisso político ou ligação com o partido governista. [sic]32
Em breve trecho de um artigo publicado no jornal O Operário, é perceptível um
pouco das relações conflituosas citadas acima, pois se trata de um artigo escrito pelos
diretores da “Aliança Federativa dos Obreiros do Piauí”, os quais eram ligados aos redatores
do jornal e queriam responder a críticas de um membro de outra agremiação operária, que
proferiu críticas em um jornal do Ceará fazendo um “artiguete” contra a instituição Piauiense.
Esta por sua vez, responde àquele ao mesmo tempo enfurecida e trazendo uma retórica da
segurança, em que estavam os operários Piauienses devido aos serviços prestados pela
entidade, defendendo o jornal O Operário e sua credibilidade, de não ser apenas um pasquim,
juntamente com a afirmação política de que o governador do Piauí é amigo dos operários.
Nesse trecho é perceptível a disputa ideológica das correntes e concepções de operariado, e
também o interligamento das regiões, pois estes jornais e essas ideias circulavam por regiões
diversas. Essas disputas, quando analisadas através das perguntas certas e com a ajuda da
metodologia escolhida, revelam muitas questões pertinentes, tais como: Até que ponto essas
afirmações podem ser tomadas como a realidade do operariado Piauiense? Quais os jogos de
poder por trás dessa tentativa de proximidade com o governador? Essas e muitas outras
32
ALIANÇA FEDERATIVA DOS OBREIROS DO PIAUÍ. Alijar a carga. O Operário, Teresina, ano
1, n.21, 11 ago. 1906, p.1.
29
questões com uma densa pesquisa empírica e as metodologias inicialmente propostas,
provavelmente podem ser respondidas, revelando assim algumas faces da relação entre os
trabalhadores e os jornais.
Trabalhadores piauienses, que até então carecem de uma historiografia, e mesmo de
uma história.
Não consegui precisar exatamente o número operários e operárias no Piauí da
Primeira República, porém documentações como a imprensa operária, estatutos de
associações operárias, relatos orais, fontes bibliográficas, e até mesmo jornais não operários
da época, dão conta de revelar uma configuração operária existente no Piauí.
Embora seja necessário entender, como já afirmado por Teresinha Queiroz, que o
Piauí naquele momento encontrava-se na periferia do Capitalismo, havia empresas, indústrias,
lojas, empreendimentos, e até mesmo atividades laboriosas liberais.
A maioria dos operários atuava na prestação de serviços, havia muitos ferreiros,
carpinteiros, pedreiros, pintores – mas o trabalho disponível não parava por aí, havia menções
de pequenas oficinas, necessidade de trabalhos gráficos na imprensa, trabalhos de estivadores
(principalmente pela questão da comercialização pelo Rio Parnaíba), operários que
trabalhavam em obras de construção civil pública, e também uma grande parcela de
trabalhadores do comércio, fazendo com que se fundasse no Piauí da primeira República uma
associação de classe trabalhadora do comércio, em 1928 surge a Associação dos Empregados
do Comércio.
Porém, havia, ainda que tímida, uma iniciativa industrial. Tinha-se em Teresina a
Companhia de fiação com espaço para 160 operários e operárias e também fábrica de cigarros
Esperança, que juntamente com outras iniciativas industriais como fábrica de calçados,
fábrica de óleos de produtos vegetais, fábrica de sabão, dentre outras davam também uma
conotação de trabalho industrial. E é justamente nesse contexto que entra em cena o trabalho
das operárias, que pejorativamente eram chamadas de pipiras. Em sua maioria tais mulheres
que trabalhavam fora de casa, e que não eram criadas em outras casas, eram empregadas na
companhia de fiação (esse fato é valido somente para Teresina). Era comum a contratação de
meninas de 7 a 15 anos, que tinham jornadas de trabalho de até 14 horas por dia, a preferência
a mulheres nessas atividades industriais era dada, devido ao pagamento ser menor.
Nesse ponto entramos na questão dos salários dos trabalhadores do período, há
relatos que variam de 300 réis por dia até 1500 réis, ambos praticamente salários de fome
considerando os preços e a condição de vida do período.
Os trabalhadores moravam em choupanas, feitas de madeira, de carnaúba e palha de
30
carnaúba, geralmente afastados do ponto central das cidades, vivendo em condições
insalubres, com abandono total do estado nas questões relacionadas a um manejo de dejetos
humanos, e até mesmo de animais, o que favorecia sempre muitas epidemias, surtos de
doenças que se espalhavam pela população trabalhadora.
A essa pobreza extrema estavam ligadas as condições de vida e de sobrevivência; o
ato de mendigar e a prostituição eram situações comuns entre as famílias pobres dos
trabalhadores, embora seja preciso atentar para a existência de operários mais abastados
socialmente, que gozavam de maior prestígio. Exemplo disso eram os operários tipógrafos,
que por saberem ler e terem um trabalho duro, mas de certa forma intelectual, recebiam um
pouco a mais. Assim acontecia também com alguns operários que eram classificados como
“artistas”. Na Primeira República este termo remetia geralmente a operários funileiros,
pintores, ferreiros habilidosos, que seriam, em uma comparação com os dias atuais, os
torneiros mecânicos, que são operários que tem uma habilidade especial de realizar trabalhos
tidos como mais complexos. A esses artistas da época se juntavam também os atores de teatro,
alguns escritores, e outros intelectuais que se identificavam com a classe trabalhadora.
No Piauí embora falte ainda muitas pesquisas referentes a isso, surgiram muitas
associações operárias, associações estas quase nunca dirigidas pelos próprios operários. O que
se percebe nas falas, nas atitudes, nos sobrenomes é que, na verdade, tratavam-se, na maioria
das vezes, de dirigentes que se identificavam com a condição operária e propunham melhorias
à classe, com uma devida contribuição para cada associação. No Piauí, parecem ter
predominado as associações de caráter mutualista, porém não se tem nenhuma base empírica
para afirmar isso. Para atestar essa informação seria necessária a realização de outra pesquisa,
que analisasse estatutos, livros de atas, jornais operários mantidos por estas associações, entre
outras documentações, para que, só então, fosse possível chegar a esta conclusão.
O que se sabe até aqui, é que essas associações, em sua maioria, cumpriam o papel
de ajudar de forma célere a solucionar problemas imediatos do operariado, como por
exemplo, custeando enterros, comprando remédios, mediando e ajudando com algum
problema com a polícia, ou mesmo realizando tentativas de instrução das classes
trabalhadoras, atitude que fora adotada por diversas organizações operárias daquele período,
como exemplo é possível citar o Centro Proletário, que fundou a escola “14 de Julho” – em
referência à data da queda da bastilha – para educar os filhos de seus associados, lhes
instruindo através de uma educação de cunho socialista.
Consegui nessa pesquisa inventariar algumas associações operárias pelo Piauí todo,
como por exemplo, o próprio Centro Proletário que funcionava em Teresina, a Alliança
31
Federativa dos Obreiros do Piauí que se propunha a ser do estado inteiro, a Harmonia
Therezinense, a Liga Protectora também de Teresina, o Club Humanitário de Teresina, a
Sociedade União Progressita dos Artistas Mecânicos e Liberais de Parnaíba, o Centro
Operário Barrense , a União dos Maquinistas, Centro Operário Campo Maiorense, Artístico
Fubtebol Clube de Parnaíba, a União dos Artistas Parnaibanos, União dos Operários
Estivadores de todo o Piauí, Sindicato Agrícola das Chácaras e Quintais, e Associação dos
Empregados do Comércio.
Todas essas associações demonstram que na época havia uma configuração operária
no Piauí e que existia também uma preocupação política e social com estas classes operárias,
que através dessas organizações demonstravam os conflitos ideológicos e de concepção de
classe. No Piauí havia, nesse sentido, uma verdadeira repulsa a tudo que se parecesse com o
anarquismo.
Quanto à experiência da imprensa operária, tem-se até agora três exemplos de jornais
operários, todos com curta duração – fato característico da época e das condições da imprensa
operária. Além disso, todos eles possuidores de enorme potencial para descrever e trazer para
a história um pouco das problemáticas, das contradições, das condições de vida, e de
organização dos operários Piauienses da Primeira República.
Porém, infelizmente esses jornais apresentam-se incompletos e em péssimas
condições de preservação, o que faz com que o material disponível tenha de ser aproveitado
ao máximo, e que se possível até mesmo 1 dia, um simples dia pelas páginas desses jornais,
possam ter desdobramentos para poder incidir significados, referentes a um momento, uma
concepção, uma ideologia, pelas preciosas páginas destes jornais.
32
CAPÍTULO II: IMPRENSA E OPERARIADO
A citação ritual do teórico da moda não garante a boa
qualidade da pesquisa; as vezes revela apenas um banal
argumento de autoridade, mera técnica de legitimação.
João Kennedy Eugênio
.
“O movimento socialista que se opera agora em todo o universo, é a prova
exuberante de que os humildes, os arrojados auctores da estatua do Progresso, trilhando o
caminho da Verdade do Direito e da Justiça conseguiram se impor ao respeito e admiração de
todas as classes sociais.”33
Na manhã do dia 1º de maio de 1906, o Piauí e com mais riqueza de detalhes
Theresina, amanhecia de um modo muito particular aos outros primeiros de maios já
passados, o operariado e as pipiras acordaram cedo como de costume, o apito da Fábrica de
Fiação, localizada a beira do Rio Parnaíba, apitou o seu primeiro toque às 7 horas da manhã,
baseado nos sinos da Igreja, iniciando uma jornada de cinco toques que iria até a hora do
término dia de trabalho às 21 horas para as mulheres e meninas, operárias da fiação.
Provavelmente os trabalhadores naquela manhã comeram o tradicional “bolo frito”
como café, cozinhado nas panelas de ferro ou de barro, em um fogão também de ferro,
confeccionado por um operário ferreiro habilidoso. E de dentro de suas humildes choupanas,
construídas com madeira da preciosa carnaúba, que lhes fornecia também as folhas do teto,
sentiam o clima agradável de certamente 32 graus, o comum máximo para aquela época na
capital. Antes de saírem, vestiram-se com a roupa modesta de casimira, acessível a todos no
período e, como de costume, alimentaram os animais que criavam pelos quintais, isso porque
quase todos operários e operárias, para ajudar na sobrevivência, tinham galinhas em casa.
Nas ruas dos negros, como eram conhecidas em Theresina as ruas localizadas entre a
Rua Coêlho Rodrigues e a Anísio de Abreu, operários acordavam também por ali, moradia de
famílias de negros, negros estes até então proibidos pelas conveniências sociais de assumirem
cargos públicos, viravam-se como profissionais liberais, operários nos ramos da construção,
ferreiros e carpinteiros.
Na Capital, em Parnaíba, em Amarante, em Campo Maior, momentos matinais quase
sempre eram de preparação para o trabalho, preocupação com o trabalho, preocupação com o
33
Discurso proferido por Zito Baptista no dia 1° de Maio de 1906 no Piauí
33
salário desesperador de 500 réis a 1000 réis por dia. Porém esta não era uma preocupação de
todos naquele dia especial.
Muito diferente dos operários e operárias, havia os membros de famílias importantes,
que caracterizam uma sociedade profundamente desigual e excludente.
As Famílias Cruz, James Clark, Simplício Mendes, Arêa Leão, Domingos Santos, a
família Camilo da Silveira, Tajra, Cadah, Mazzuad, entre outras, provavelmente passaram o
dia 1º de Maio de 1906 de um modo muito diferente dos operários e de suas famílias.
Tratando-se do ponto de vista da experienciação da materialidade das condições de vida.
Inevitavelmente os patrões, os patrícios capitalistas gozavam de maiores mordomias,
e de modos de vida mais confortáveis.
Seus parentes não necessitavam de serem sócios em entidades protetoras de classe,
não sabiam como era mendigar pela Praça Rio Branco com uma muleta após ter perdido uma
perna no ofício do trabalho; não sabiam o que era a caça e a pesca como um modo de
sobrevivência; suas filhas não estavam submersas na prostituição desde os 12 anos de idade,
que pelos ambientes de praça pública de Parnaíba, próximo ao cais, sabiam o lado degradante
da busca pela sobrevivência; não os circulava também o vício da embriaguez, uma tentativa
de fuga talvez da realidade tão vegetativa.
Entretanto essa mesma parcela, se mostrava atenciosa à classe proletária do Piauí,
naquele dia de celebração, honras não somente aos trabalhadores, mas também, e, talvez
principalmente, ao trabalho. Curiosamente parte dos ricos, dos não-operários, levantavam
bandeiras pelos trabalhadores, bandeiras ditas dos trabalhadores, agradava a alguns patrícios
falar em nome dos trabalhadores. Dentre estes alguns eram filhos de gente importante da elite,
outros eram artistas, escritores, advogados, professores, profissionais autônomos.
Com o estudo da imprensa operária do período vislumbro imagens complexas,
referentes à relação entre a sociedade Piauiense e sua classe laboriosa. Por isso, qualquer
conclusão definitiva que se queria retirar dessa pesquisa – referente a esta condição dos
trabalhadores, a esta imagem dos operários Piauienses da primeira República – é muito
perigosa, por exemplo, conclusões sobre quem eram os defensores da classe, sobre o
pertencimento ou não à classe, ou ainda acerca da existência ou não de uma configuração
classista na voz dos operários ou na tinta de seus defensores.
Porém, um momento muito interessante para acompanhar as discussões operárias,
tentar desvendar caminhos para a compreensão dessa configuração operária, conhecer o meio
dos trabalhadores e os aspectos que constituem algumas imagens operárias, é o dia 1º de
Maio. Esta data foi anteriormente utilizada por diversos pesquisadores, que ao considera-la
34
empiricamente chegaram a conclusões de que nas festas, nas falas, nas matérias dos jornais,
operários ou não, é que se pode abstrair parte significativa da cultura operária do período, e de
qual era o papel ideológico da imprensa do período.
Retornando a narrativa do dia 1º de Maio de 1906, tem-se a imagem do garoto do
jornal correndo pelas ruas anunciando o Jornal O Operário, a sua edição especial, de um dia
igualmente especial. Não afirmo que todos os operários compraram o jornal, muito menos que
o leram, o monstro do analfabetismo34 rondava a classe proletária, entretanto não eram todos
operários e operárias analfabetos, já existiam iniciativas individuais de tentativa de
alfabetização dos trabalhadores35, havia iniciativas de associações de trabalhadores,
principalmente as mutualistas, de oferecer escolas para operários e operárias e para seus filhos
– escolas estas de caráter “socialista”. O próprio estado também alavancava escolas para
aprendizagem de profissões operárias, e nessas escolas os pequenos operários e operárias
conseguiam ter algumas noções de leitura e cálculo. Apesar de identificar tais iniciativas,
neste ponto temporal, minha pesquisa não consegue detectar com precisão detalhes sobre a
quantidade de operários alfabetizados nem de leitores de jornais. Ainda assim, é possível
inferir que essa quantidade não era significativa, isso principalmente através da observação de
uma constante retórica de sofrimento por parte dos jornais, operários ou não, que evidenciava
os entraves para se ter um jornal no Piauí em vista das dificuldades financeiras, de tipografia,
de venda, de leitura.
Se estava difícil para os feitores do Jornal, penso nos trabalhadores; afinal qual não
deveria ser sua dificuldade de comprar um jornal operário que custava 200 réis, em média.
Importa-me neste momento o conteúdo de tal jornal do dia 1º de maio de 1906, os
acontecimentos passados, presentes e futuros a esta data.
“Proletarios de todos os paizes, uni-vos!” [sic] a frase atribuída a Carl Marx pelo
jornal O Operário enigmaticamente sumiu na edição do dia 1º de maio de 1906, nesse dia o
jornal saiu com uma diagramação diferente, uma faixa vertical verde e amarela, que
demonstrava o tom de uma das variáveis da retórica do jornal, em seguida “Ao Operariado
Therezinense/ Felicita Alvaro ª º Mendes/ Em 1º de Maio de 1906” de início o governador faz
sua saudação aos trabalhadores, em seguida um texto intitulado “Primeiro de Maio”, escrito
pela Vossa Excelência Reverendíssima o Bispo Joaquim, o recém chegado Bispo do Piauí,
que escrevera para as operárias e trabalhadores do estado:
34
QUEIROZ, Teresinha de Jesus Mesquita. Os literatos e a república: Clodoaldo Freitas, Higino Cunha e as
tiranias do tempo. Teresina, EDUFPI, 2011.
35
Sobre a escola de aprendizes artífices, Ver: ARAÚJO, Maria Mafalda Baldoino de. Cotidiano e pobreza: a
magia da sobrevivência em Teresina.Teresina: EDUFPI,2010.
35
Sendo nossos filhos em Jesus, como sois, não podemos deixar de nos
associar às vossas alegrias e contentamento com que festejais o 1º de Maio.
As vossas alegrias e contentamentos fundão-se na garantia de vossos direitos
de operários, que não são sinão os meios lícitos que lançais mãos para
manter a vossa vida honesta no meio da Sociedade e ao mesmo tempo para
exercer caridade por entre vossos companheiros de trabalho. Deus abençoa o
trabalho do homem e faz por seus esforços sahir o suor que leva consigo as
impurezas do corpo. E este trabalho abençoado e purificado por Deus é o que
constitue a vossa honra e dignidade diante de Deus. [sic]36
A fala que ligava o trabalhador às questões religiosas, em especial, ao catolicismo,
era muito marcante na imprensa operária do período, essa relação será discutida mais a frente,
quando me deterei a analisar o teor do socialismo via imprensa e de conflitos e aproximações
entre a ideologia socialista e a católica. No presente momento cabe perceber que o porta-voz
máximo da autoridade eclesiástica católica no Piauí dirige-se ao operariado da terra, esse
aspecto somado com a felicitação do atual governador, são demonstrativos da importância dos
trabalhadores, ou talvez do trabalho. Essa confusão é sempre perceptível nas falas do jornal,
uma vez que nelas o trabalhador não aparenta ser um ente autônomo e sim uma mola, uma
ferramenta, que levará a sociedade, através do trabalho, ao progresso. Teria, pois, este
trabalhador um “papel social” a ser cumprido, e qualquer desvio desse papel seria perigoso.
Fica evidente nas letras do Bispo que os direitos dos trabalhadores são o seu trabalho
e a caridade. Direitos estes que os operários pareciam exercer, ainda que um o fosse mais por
obrigação do que por prazer e outro de fato por prazer. Outro aspecto interessante nessa
retórica trata de uma ideologia do trabalho, uma ideologia do trabalho que irá se passar em
praticamente todos os jornais operários do Piauí, em praticamente todas as edições – a Vossa
Excelência Reverendíssima, o bispo coloca o trabalho até mesmo como meio de remissão dos
pecados, como limpeza; ato que constitui, segundo ele, honra e dignidade perante Deus. É
óbvio que o que era colocado pelo bispo como trabalho referia-se a algo bem mais amplo,
como a conservação dos costumes que aqueles que se dedicavam ao trabalho deveriam ter: a
não embriaguez, a honestidade, a honradez, entre muitos outros. De certo é que, em um
período tão cruel para os operários e operárias, a fé desempenhava função indispensável
naqueles contextos de tantas adversidades, que eram demonstradas nas páginas dos jornais.
E o jornal segue anunciando que os operários e artistas estão nos seus direitos em
36 JOAQUIM, Bispo. Primeiro de Maio. O Operário, Teresina, ano1, n. 8, p. 1, mai. 1906.
36
comemorar, festejar “acompanhando o movimento regenerador de sua classe”37.
Esta frase reúne uma porção de significados referentes a uma tentativa forte presente
no meio culto letrado da época, que era direcionar o operariado brasileiro para uma vertente.
Por essa fala e por outras fontes, empiricamente percebi que os operários e operárias não
puderam ser autônomos em sua própria festa38, já que eles deveriam acompanhar e aprender o
que deveria ser a classe e como tal classe deveria se portar no meio social. Porém, esse
movimento, dito dos trabalhadores, não era tão sufocado ideologicamente assim, porque os
operários “as vezes tem dado lugar a excessos lamentáveis”39 mas “também tem sido outras
vezes orientado com prudência e conseguindo vantagens reaes e duradouras. Obedecendo a
lei do progresso na ordem.”40, com essas partes do jornal, percebo as imagens do cenário
político, social e intelectual daquele momento sob a perspectiva dos que demonstravam
interesses na classe dos trabalhadores, e faziam agitações, movimentos políticos para lembrar
da causa social dos trabalhadores. Mas o momento era delicado, as liberdades na nascente
república eram muito tênues, e qualquer tom mais exaltado provocaria resultados drásticos.
Por isso talvez, houvesse essa corrente tentativa dos que militavam pelo operariado de contêlo em seus ânimos.
Segue o Jornal deste dia importante, com mais textos referentes ao trabalho do que
ao trabalhador, mas um desses textos incide sobre a questão dos tão distantes naquele
momento, direitos trabalhistas. Naquele momento havia uma nascente preocupação em todo o
mundo em se discutir uma composição de Lei do Trabalho, rearranjando41 o sistema liberal
capitalista, que até pouco tempo atrás afirmava inaceitável qualquer regulamentação que fosse
parte a parte do patrão/operário, ou capital/ trabalho, por isso discutiam na época que a:
lei do trabalho feito de acordo com as necessidades do corpo e do espirito de
cada um desses desherdados; premiando o esforço; associando o trabalhador
ao capitalista que até hoje tem sido dono exclusivo das riquezas collosaes
adqueridas pelo mourejar dos pequenos. [sic]42
37 O Operário, Teresina, ano1, n. 8, p. 1, 1 mai. 1906.
38 A festa do 1º de Maio de 1906 fora realizada com a ajuda de diversas associações de trabalhadores e da
sociedade civil bem como ajuda do estado, entretanto a organizadora principal foi a Alliança Federativa dos
Obreiros do Piauhy, uma entidade de classe, que provavelmente poderia ter um caráter mutualista.
39 O Operário, Teresina, ano1, n. 8, p. 1, 1 mai. 1906.
40 O Operário, Teresina, ano1, n. 8, p. 1, 1 mai. 1906.
41 Sobre a ideia de rearranjo liberal, e as perspectivas liberais e o operariado na Primeira República Ver:
MUNAKATA, Kazumi. A legislação trabalhista no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1985.
42 Primeiro de Maio. O Operário, Teresina, ano1, n. 8, p. 1, mai. 1906.
37
Neste ponto e em muitos outros, há a tomada de parte que O Operário efetua, ao lado
dos trabalhadores, trabalhadores ordeiros, que respeitam as leis – já para os trabalhadores
europeus, o tom do jornal muda, encarando-os como trabalhadores errantes, precipitados, pois
eram agitadores, gostavam de desordem, e aqui há que se abrir uma explanação para que fique
claro que a questão operária, neste período, é algo internacional. Os temas, as discussões, as
greves e agitações que ocorriam na Europa e nos Estados Unidos circulam, via telégrafo, para
o mundo inteiro, e decorre disso o tom desagradado com os operários Europeus, e como
quaisquer outros operários que se assemelhem a agitações sociais, pois “O 'nihilismo' o
'anarchismo' sanguinario, o 'socialismo' sonhador de uma igualdade impossível, hão abalado
com seos exageros os centros mais cultos do mundo” [sic]43
Com essas matérias o Jornal O Operário, na edição do dia do trabalho, demonstra
um jogo ideológico para o convencimento dos operários, principalmente contra o anarquismo,
o que irá se repetir em muitas outras ocasiões.
O jornal segue com outros textos de glorificação aos trabalhadores, de glorificação
ao trabalho, de amor à pátria e ao trabalho, de amor à ordem. Um tom saudosista com alguns
escapes para a realidade operária de fato. Todavia a recepção daquelas idéias escritas, como
já fora colocado, é uma incerteza neste primeiro momento, pois nem todos aqueles operários e
operárias narrados no começo deste texto saíram pelas ruas da cidade e puderam comprar, ou
mesmo sabiam ler aquele jornal. Além destes, havia ainda aqueles que, sabendo do evento,
não puderam comparecer em razão do cumprimento da jornada de trabalho, uma vez que o
dia 1º só passa a ser feriado nacional em 1924, por uma manobra de apreensão do dia das
classes trabalhadoras por Arthur Bernardes.
No entanto, empiricamente vi que alguns não trabalharam naquele dia, apesar de não
poder afirmar empiricamente que foi feriado no Piauí - é possível explicar o fato utilizando o
registro de um pedido feito por parte da comissão organizadora da festa, para que o comércio
não abrisse suas portas. De concreto, quem mais provavelmente pôde acompanhar a
programação do 1º de maio foram os profissionais liberais, os operários tipógrafos, os
“artistas”, como eram conhecidos os trabalhadores pintores, alfaiates, músicos e artesãos.
Estes sim prestigiaram a programação do dia do trabalho, que foi toda disponibilizada no
Jornal O Operário.
A programação teve início no dia anterior, no qual fora realizada às 7 horas da manhã
43 Primeiro de Maio. O Operário, Teresina, ano1, n. 8, p. 1, 1 mai. 1906.
.
38
uma missa cantada, realizada com o bispo. Somente às 12 horas do dia 1º de maio iniciou-se a
festa do trabalho com a comissão de alfaiates, foram efetivados 21 tiros em frente à casa da
senhora que serviu de deusa das artes, em seguida cantaram o hino nacional. Quando marcou
5 horas da manhã foi realizada uma nova salva de 21 tiros em frente à fábrica de fiação,
ajudando a despertar os moradores trabalhadores da região. Às 6 horas uma nova salva de 21
tiros, dessa vez em frente ao teatro 4 de setembro, ao levantar da bandeira nacional cantou-se
novamente o hino nacional, ao findar a canção do hino seguiu uma quantidade de
trabalhadores e organizadores do evento em cortejo pelas ruas do centro da capital, parando
em frente o palácio do governo. Na segunda parte do evento, os trabalhadores assistiram a
uma sessão magna presidida pelo governador, acompanhado do bispo, com a primeira parte
desta sessão tendo a acomodação definitiva da sociedade Alliança Federativa dos Obreiros do
Piahuy. Na parte seguinte desta sessão magna houve uma conferência socialista, em que falou
o Doutor Hygino Cunha, e em seguida um pequeno leilão de objetos doados pelos associados
da Alliança Federativa dos Obreiros do Piauhy.
Nesta sessão discursou também Zito Baptista, o qual passará mais tarde a integrar o
corpo de redatores do jornal O Operário. Em seu discurso no Teatro 4 de setembro para os
trabalhadores e autoridades presentes, Zito reafirmou que o trabalhador é quem traz o
progresso, combateu a aristocracia e a ociosidade, e proferiu a célebre frase que inicia este
capítulo. Pensamento que parece transpassar por todo o momento sonhado para este dia, o
socialismo cristão, anti-anarquista, que preza sempre pela Verdade, pelo Direito e pela Justiça.
No final da programação ficou a fala sobre o Socialismo, seguida por uma peça
teatral, já à noite, que continha em um de seus atos a encenação de uma greve. Houve ainda,
para a alegria dos trabalhadores, o anúncio, muito bem arranjado politicamente, de que a
partir daquele dia a capital tinha abastecimento encanado de água. Somente em 46 casas.
Nestes momentos finais, cantaram o Hino do Trabalho – sobre o qual discorrerei
mais a frente, evidenciando seus desdobramentos – e finalizou-se o evento com honras, e
méritos, ao grande, forte e cívico; Trabalho.
Uma característica peculiar a esta comemoração foi a maneira como a comissão
organizadora pensou este evento, que visivelmente foi realizado objetivando aglutinar o maior
número de pessoas possível, levando o trabalhador de fato a participar das comemorações. A
realização de peças teatrais operárias, a canção de Hinos e as festas populares imprimiram
uma marca de maior aglutinação e participação de trabalhadores não militantes ao evento, o
que somente a partir das décadas de 1910 e 1920 torna-se comum na cultura associativa de
classe no Brasil de um modo mais geral (Rio de Janeiro, São Paulo e regiões de maior
39
concentração operaria), antes disso nesses lugares mais populosos e com maior número de
trabalhadores, as comemorações do 1º de Maio tinham caráter mais exclusivo, eram
direcionadas para um grupo pequeno, que movimentava quadros ligados a uma cultura
militante. Cabe-me aqui mencionar que baseado nas reflexões de Cláudio Batalha,44
referentes a história operária Brasileira de um modo mais amplo a respeito das questões
anteriormente mencionadas, relacionei e percebi que no Piauí ocorreram já em 1906, o que
“A despeito dos sinais de um começo de uma constituição de uma cultura classista durante os
anos 1920, fugindo do estreito limite da cultura militante minoritária.”. Isso porém não
significa afirmar que em 1906 tinha-se no Piauí a configuração ampla de uma cultura de
classe mais ampliada, em detrimento de uma cultura mais restrita ou militante, como Claudio
Batalha afirma existir no Brasil até meados de 1920. Mas significa que no Piauí houve uma
intenção de popularizar as questões operárias entre os trabalhadores, sair do circulo pequeno
dos militantes para a classe de um modo geral, e é essa intenção, que eu chamo atenção que
fora tida mais cedo aqui pelas associações operárias, pela imprensa operária, e pelos ditos
defensores do proletariado, antes dessa tentativa de constituição de uma cultura classista, que
em outros lugares como já mencionado só ocorrera na década de 1920.
Em outro jornal da capital, o Borboleta, do mesmo dia, veio o Hino do Trabalho45,
além de outras glorificações ao trabalho, e o seu papel cívico, patriótico e moral.
Uma retórica tão uniforme sobre o trabalho naquele dia se repetia por ali também.
Era a retórica da louvação, fora tão louvado que deixou a impressão de que, unicamente ele,
conseguiria acabar com todos os problemas sociais, abarcando desde a relação com o divino
até as coisas mais materiais. Mas o que pude observar até mesmo pelas letras dessa mesma
imprensa saudosista ao trabalho, é que existiam outras vertentes concretas que incidiam
significações sobre o trabalho, como por exemplo, a pobreza e, por isso talvez, houve por
estes jornais uma repetição quase automática das vantagens de trabalhar, da glorificação, da
honra que é trabalhar, havia uma retórica legitimadora da ideologia do trabalho no Piauí, para
compensar justamente a ausência de benefícios mais reais, e menos filosóficos na vida dos
que trabalhavam.
Observei por exemplo, o mesmo jornal Borboleta um ano atrás, tanto havia retórica
legitimadora da ideologia do trabalho, como uma denúncia da miséria existente entre os
trabalhadores do período, pois entendia-se pela imprensa que “trabalhar é a grande escada do
44
BATALHA, Cláudio et al (orgs). Culturas de classe: identidade e diversidade na formação do
operariado.Campinas: Editora da Unicamp, 2005, p.113.
45
Primeiro de Maio. Borboleta,Teresina, ano2, n. 20, p.1, 1 de mai 1906.
40
progresso, portanto, é por este meio que temos de chegar ao ponto culminante de nossa
espinhosa tarefa.”46 Porém, o mesmo trabalho e seus desdobramentos sociais não eram
capazes de resolver outros problemas.
Quantos pobres muitas vezes acarretados de desesperos e cercados de filhos,
sujeitam-se a soffrer o horrível flagello da fome, para que não soffram os
seus adoráveis filhinhos, o que só deles podem padecer. E, se acontece
algum dia não poderem dar o pão quotidiano aos seus, loucos de dor
empenham as mais das vezes a liberdade, para nas suas cabanas reinarem a
paz e a alegria entre seus filhos. Quando extenuados, veem do trabalho,
tornam-se subitamente prazenteiros ao avistarem os symbolos do amor, que
brincam alegremente a porta de suas choupanas. [sic]47
Uma triste condição, condição de ter que ser submetido à fome, talvez aqui esteja a
outra face do progresso do trabalho, a face que não acumula o capital, e sim a que é
explorada. Porém, este tipo de comentário era muito raro para imprensa do período, já que
naquele período a imprensa era “muda”, meio amedrontada no que se referia à questão social,
não podendo muitas vezes externar algo mais impactante, como indicar nomes ou
responsabilidades.
Até aqui procurei narrar alguns fatos, analisar algumas características da imprensa
operária e da imprensa que se remete ao operariado, basicamente me referi ao ano de 1906,
porém este ano não termina aqui, este foi um ano emblemático na história do operariado
brasileiro, em que se deu uma série de acontecimentos que levaram às explanações até aqui.
Neste sentido voltarei no tempo, até talvez, a primeira experiência de imprensa
rotulada como operária no Piauí, que aconteceu em Amarante.
Em 1902, numa pequena, mas economicamente importante cidade, surge o jornal
Operário48, não o Jornal O Operário que citei anteriormente, mas Operário somente, e
diferente do outro que era publicado na capital, este era publicado no interior do estado.
O exemplar de publicação mais antiga a que tive acesso data de 20 de setembro de
1902, e em sua matéria de capa, traz o título “Pelo Povo” onde defende a redução do preço da
carne de boi fresca, além de condenar os que querem um lucro exorbitante.
Era um jornal, como seu subtítulo sugere, de interesses gerais, nos 4 números a que
tive acesso (que vão de 1902 até 1903), raríssimas vezes li as palavras operário ou
46
Borboleta,Teresina, ano, n. 15, p.1, 29 nov 1905.
Borboleta,Teresina, ano, n. 15, p.2, 29 nov 1905.
48
Operário, Amarante, ano1, n. 5, 20 set 1902.
47
41
trabalhadores. Mas as marcas tipográficas simples, as poucas páginas, a divulgação da
Sociedade de Benefício Mútuo Amarantino, algumas ideias de caráter de unidade, e seu
próprio nome, podem classifica-lo como um jornal, de certo modo, operário. Ainda que nele
as questões operarias sejam, como dito, tratadas timidamente, este seria o primeiro jornal
operário até então encontrado no Piauí.
Seus redatores eram Orlando B. Carvalho, Antonio S. Netto e Crownwell B.
Carvalho.
No jornal também pude encontrar algumas poesias, relações de preços de
mercadorias, além de perceber sua intensa ligação com jornais de outros estados e de outras
cidades, o que me fez perceber que no início do século XX a região meio norte brasileira,
estava muito bem integrada entre si e também com o restante do mundo, principalmente com
a Europa para onde iam alguns produtos de exportação Piauiense.
Amarante era uma cidade comercial no início do século XX, tinha a importante
função de fornecer gêneros alimentícios para a capital, destacando-se também por ser uma
importante cidade produtora e exportadora da borracha da maniçoba.
Por estar em região privilegiada, à beira do Rio Parnaíba, a movimentação de seus
produtos tornava-se significativamente mais fácil, tendo em vista que no período era possível
a navegação e, consequentemente, o transporte de produtos pelo Rio Parnaíba. Não me é
difícil imaginar, por exemplo, a imagem de estivadores, lavradores, trabalhadores do
comércio e profissionais liberais naquela cidade, estes até são citados no Operário. O ponto
mais revelador do estudo do jornal Operário de Amarante ocorreu ao deparar-me com a
documentação mais antiga referente a uma sociedade de benefício mútuo49 no Piauí. As
sociedades mutualistas, são hoje um tema desafiador e problemático entre os estudiosos da
história social do trabalho, embora a presente pesquisa não comporte, muito menos seja o
momento apropriado para aprofundar-me nessas discussões, o que se faz necessário neste
momento é entender que a Sociedade de Benefício Mútuo Amarantino traz provavelmente
uma contribuição enorme para a compreensão de uma cartografia do operariado Piauiense.
Logo após o Jornal Operário de Amarante surge, na Capital Teresina, no ano de
1906, o Jornal O Operário, um jornal que como a maioria dos jornais operários do Brasil da
primeira República, teve curta duração, tinha poucas paginas. No entanto, demonstrava
conflitos ideológicos profundos da época, bem como aspectos da vida operária e das
bandeiras de luta dos intelectuais que se colocavam ao lado dos operários.
49
Sociedade de Benefício Mútuo Amarantino. Operário , Amarante, ano 1, n. 10, p.5- 6- 7- 8.
42
Foi muito difícil e tristemente privilegioso ter acesso ao jornal O Operário para
realizar essa pesquisa – primeiro porque hoje todas as suas edições encontram-se lacradas no
Arquivo Público do Piauí – consegui ter acesso a esse jornal conversando com a diretora do
arquivo e lhe convencendo de que era um material raríssimo, e que nenhum historiador tinha
ainda lhe analisado. Aceito o meu pedido, digitalizei-o e “descobri” uma outra primeira
república no Piauí.
Os redatores a principio eram Jonathas Baptista e M. Saraiva Lemos, posteriormente
Zito Baptista passou a integrar o corpo de redatores. O jornal avulso custava 200 réis,
enquanto que a assinatura por mês para a capital custava 1000 réis e para o interior 3 meses
de assinatura custavam 4000 mil réis. O jornal se mantinha aberto a contribuições de
intelectuais que tivessem algum assunto referente às classes laboriosas, a artistas interessados
em enaltecer seu trabalho, e a circulares de organizações de trabalhadores, como também
anúncios de outros jornais operários.
Quanto à divulgação, o jornal tinha uma boa circulação não só no Piauí, mas em
Caxias no Maranhão, em regiões do Ceará, e em outros estados brasileiros, como São Paulo e
Rio de Janeiro. O Operário não tinha um espaço físico para seu funcionamento próprio,
coabitando com redações de outros jornais. Outra característica bem marcante de jornais
operários e que pode ser identificada em O Operário é a indefinição de data para o número a
ser publicado. Apesar de a publicação ser semanal, não havia definição de dias na semana
para ser prensado.
Não é tarefa fácil, precisa ou mesmo definitiva, definir ideologicamente o jornal O
Operário, pois durante sua própria trajetória foi se modificando, hora afirmava algo, mais na
frente mudava de posicionamento, de certo o que tentei fazer foi rastrear as imagens de
momento, ideias que o jornal emitia referentes aos trabalhadores e a suas diversas
problemáticas sociais. Constatável é que o jornal era dirigido por intelectuais “socialistas”
reformistas, patrióticos, católicos e democráticos, que tinham uma proximidade grande com
as atividades da Aliança Federativa dos Obreiros do Piauí.
“Obreiros do Piauhy Essa esperançosa associação Alliança Federativa do Piauhy,
elegeu pra representa-la no Congresso Operário do Rio de Janeiro qual installlar-se-á no dia
1º de maio do corrente anno, o invencível companheiro Raymundo de Brito Campos.”50.
Assim diz a primeira folha avulsa do Jornal O Operário que remete a mais antiga encontrada,
data de 3 de fevereiro de 1906. Como já afirmado anteriormente este ano de 1906 foi um ano
50
O Operário, Teresina, 3 fev 1906
43
ímpar para o Operariado nacional, pois pela primeira vez houve um congresso a nível
nacional com eleição de delegados representando vários estados brasileiros.
O congresso operário de 190651 discutiu temas como 1º de maio, jornada de trabalho,
multas impostas aos trabalhadores, trabalho feminino, trabalho de crianças, caráter
organizacional da classe, sindicalismo, trabalho por peça, forma de pagamento dos salários,
acidentes de trabalho, greve dentre muitas outras coisas.
No eixo Rio-São Paulo já existem estudos que avaliam empiricamente a relação das
resoluções aprovadas no congresso e prática das atividades das associações operárias e
mesmo da imprensa operária, entretanto para outras localidades ainda faltam pesquisas para
visualizar a receptividade dessas resoluções. No Piauí, via imprensa, consegui capturar um
pouco de como foram entendidas as resoluções do congresso de 1906 pelo meio defensor da
classe operária do Piauí. Essa receptividade será analisada mais a frente, o que quero agora é
esclarecer uma enigmática história.
Primeiramente, de forma muito misteriosa, o companheiro Raymundo de Britto
Campos, não tem seu nome entre os 52 nomes que constam nas resoluções de constituição do
congresso, que realizou-se não no dia 1º de maio como afirma o jornal, mas nos dias 15, 16,
17, 18, 19 e 20 de abril, na sede do Centro Gallego, na Capital Federal Rio de Janeiro, e nem
mesmo consta a Alliança Federativa dos Obreiros do Piauí. Esse desencontro no
entrecruzamento de fontes levanta algumas possibilidades que logo em seguida desembocam
na receptividade das idéias do congresso no Meio-Norte brasileiro. Ainda na mesma página
avulsa do Jornal, há um informativo, uma circular do Círculo Federativo Socialista dos
Obreiros de Caxias, anunciando a criação dessa nova organização operária e sua vinculação a
União Operária do Engenho de Dentro52, do Rio de Janeiro. Ainda na circular, há a intenção
de “chamar a attenção dos vossos companheiros, para o grande movimento socialista que se
opera em nosso amado Brazil”, fazendo com que os operários que já se encontrem associados,
associem suas sociedades agora ao movimento socialista Fluminense, e que enviem seus
delegados ao congresso socialista de 1906 que ocorrerá no Rio de Janeiro, por idéia segundo a
nota, de Antonio Augusto Pinto Machado, que tem seu nome nas resoluções do Primeiro
51
Resoluções do 1º Congresso Operário Brasileiro APUD PINHEIRO, P. Sérgio; HALL, Michael. A Classe
Operária no Brasil: Documentos 1889-1930. vol. 1, São Paulo: Alfa Omega,1981.
52
Segundo Cláudio Batalha a União Operária do Engenho de Dentro, foi fundada em 14/07/1899, atuou até
1922, teve caráter tanto mutualista quanto sindical, teve diversos sócios trabalhadores de diferentes áreas de
profissão, teve pretensão de construir casas, vilas operárias quando alcançasse 10.000 associados, foi
presidida de por Antonio Augusto Pinto Machado de 1903 até 1909, em 1904 afirmava ter espalhados pelo
Brasil 4.000 associados, conseguiu reduzir a jornada de trabalho para 8 horas da Estrada de Ferro Central do
Brasil, e a partir de 1904 passou a ter caráter mais sindical. Cf. BATALHA, Claudio. Dicionário do
Movimento Operário: Rio de Janeiro do século XIX aos anos 1920. São Paulo: Perseu Abramo, 2009, p.280.
44
Congresso Operário Brasileiro, fora delegado e representou não o Maranhão, mas o estado do
Ceará, pois era filiado à União Operária do Engenho de Dentro enquanto representante do
Centro Artístico Cearense.
Outro aspecto interessante é que o escritor dessa nota, anunciando o surgimento do
Circulo Socialista Federativo dos Obreiros de Caxias, fora Benedicto Saraiva da Cunha, que
era 1º secretario da Assembléia Geral da Sociedade “Centro Proletario”53 e também 1º
secretário da Sociedade “Alliança Federativa dos Obreiros do Piauí”, presidente do Circulo
Federativo Socialista dos Obreiros de Caxias e além disso fora escolhido, segundo
comunicação chegada ao jornal, como representante do Circulo Federativo Socialista dos
Obreiros de Caxias, para representar a associação no Congresso Socialista no Rio de Janeiro.
Nesse ponto, aparece uma questão problemática referente ao congresso, ou aos
congressos, pois o 1º Congresso Operário, não tinha de início nenhuma conotação política
previamente já decidida, e também realizou-se antes do dia 1º de Maio, o que me fez
desconfiar se não houveram na verdade dois congressos na capital federal, um operário de um
modo mais amplo, e o outro socialista. Porém pesquisando a existência de um congresso
socialista no período, não cheguei a encontrar nenhuma referência bibliográfica ou
documental sobre a existência deste, mas ainda na mesma página do jornal, há um informe da
União Operária do Engenho de Dentro, que traz regras para a realização do “congresso
socialista”, como:
a)Só poderão tomar parte do congresso os elementos socialistas, ficando
prohibido os elementos revolucionários; b) Resolverem sobre uma só lei em
todas as associações que se fizerem representar c) Crear uma sede Central no
Rio de Janeiro, que deverá ter o nome de “União Geral dos Trabalhadores no
Brasil”, ou outro que for escolhido d) Escolher se o operário deve ou não ser
político, e qual a política a acceitar; e) Crear um azylo dos invallidos no
trabalho; f) Crear um jornal socialista diário; g) Crear colônias agrícolas
cooperativas, de trabalho e de consumo. [sic]54
Essas regras foram escritas por Antonio Augusto Pinto Machado, que na época que
53
FREIRE JÚNIOR, Leôndidas. Cultura Operária Associativa: o centro proletário piauiense e os
trabalhadores da primeira república no Piauí. In: VI SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA
CULTURAL,
2012,
Teresina.
Anais
Eletrônicos...
Disponível
em
<http://gthistoriacultural.com.br/VIsimposio/anais/Leondidas%20Freire%20S.%20Junior%20&%20A
ntonio%20Melo%20Filho.pdf > Acesso em 23 mar. 2013.
54
PINTO MACHADO, Antonio Augusto. União Operária do Engenho de Dentro. O Operário.
Teresina, 3 fev. 1906.
45
escrevera isso em 1905, era presidente da União Operária do Engenho de Dentro, e suas
idéias podem provavelmente serem percebidas enquanto intenção teresm aprovação no
Congresso Operário de 1906, é possível esta conclusão devido a participação, tanto de
Antonio Augusto Pinto Machado no 1º Congresso Operário no Rio de Janeiro, representando
o Centro Artístico Cearense, como também pela presença da União Operária do Engenho de
Dentro no Congresso, sendo representada por Benjamin Moysés Prins e e José Roberto Vieira
de Mello.
Assim, percebo que havia um claro entendimento na época de que aquele congresso
poderia ditar os rumos do operariado brasileiro, as variadas ramificações políticas disputaram
aquele congresso, para além de poderem prevalecer suas convicções em detrimento de outras,
demonstrarem cada uma o rumo certo, que deveriam seguir os trabalhadores.
Todavia não fora dessa forma que a história desses dois congressos ocorreu. Embora
tenha pesquisado e não encontrado nenhuma bibliografia historiográfica referente a um
possível congresso socialista em 1906, era intenção da União Operária do Engenho de Dentro
realizar um, e essas regras anteriormente citadas, seriam válidas para o congresso que estava
previsto para o 1º de maio de 1906, e que não fora realizado.
Descobri isso através de uma notinha no jornal O Operário .Assim todas as intenções
demonstradas até aqui de ir ao congresso, tanto por parte do Piauí, do Maranhão e do Ceará
não eram para o Congresso Operário de 1906 na sede do Centro Gallego, mas um congresso
socialista que não ocorrera, e que seria realizado em 1906 no Rio de Janeiro também, no
Engenho de Dentro. Contudo como já citado, tanto o Ceará quanto a União Operária do
Engenho de Dentro depois de não efetivarem sua intenção da realização de um congresso
unicamente socialista, participam do 1º Congresso Operário de 1906, o Circulo Federativo
Socialista dos Obreiros de Caxias até envia seu representante, Benedicto Saraiva da Cunha,
que também compunha a Alliança Federativa dos Obreiros do Piauí, mas segunda as
resoluções do congresso, “Além destas sociedades que estavam representadas no Congresso,
há a acrescentar o Círculo Socialista dos Obreiros de Caxias, cujo representante adoeceu em
viagem”55
Cheguei a essa conclusão analisando um trecho do jornal O Operário de 22/04/1906,
que denuncia a postura de Benedicto Saraiva da Cunha, pois segundo os redatores do jornal,
“transcrevemos da „União Operária‟ para conhecimento das sociedades, co-irmãs, a não
55
Resoluções do 1º Congresso Operário Brasileiro apud PINHEIRO, P. Sérgio; HALL, Michael. A
Classe Operária no Brasil: Documentos 1889-1930. vol. 1, São Paulo: Alfa Omega,1981, p.45.
46
reunião do congresso socialista no Engenho de Dentro”56 e ao chegar em Caxias o jornal, o
Sr. Benedicto Saraiva da Cunha que até então era o correspondente do jornal naquela cidade,
“irreflectidamente ocultou o nº5 do „O‟Operario‟” [sic] que continha a explicação da União
Operária do Engenho de Dentro, e fez isso por que não queria “perder o dinheiro que lhes
oferecceram os collegas para represental-os no Congresso Socialista” [sic] . O Jornal termina
a matéria afirmando que Benedicto já se encontra em viagem. Mas se de fato este adoeceu, se
ficou com o dinheiro dos operário pra si, onde foi parar, até aqui não consegui saber.
O que importa é que oficialmente o Piauí não tinha representação do Congresso
Operário de 1906, porém como as próprias resoluções do Congresso indicam, houveram
delegados que foram representar mais de uma delegação. Mas ainda estamos em 22 de abril
de 1906, o Congresso Operário terminou somente a dois dias, ainda não deu tempo de uma
apreensão crítica no Piauí das resoluções de tal congresso, sigo então analisando os outros
conteúdos e problemáticas que saiam pelas páginas do O Operário.
Na edição um pouco atrás, de 18 de março de 1906, é anunciado a lembrança da festa
do º1 de maio do ano passado, isso demonstra que já 1905, rondava pelo Piauí a idéia de
comemoração do primeiro de maio, no mesmo texto aparece a glorificação do trabalhador,
pois os redatores afirmam que;
Conprehendemos e confessamos sem hipocrisias que a blusa modesta do
operário vale mais que o frack cossado dos pelintras da actualidade que a
semelhança dos parasitas, vivem do favor das almas caridosas. E sendo
assim, como affirmamos sem temer a quem quer que seja, 1º de Maio – o dia
dos simples e resignados é a data da justiça! Da justiça, repetimos, porque os
que luctam sem esperar recompensas falsas- devem, ao menos uma vez no
anno, enchugar o suor do rosto para tomar parte no grande banquete da
civilização moderna. [sic]57
O tom da fala remete significativamente ao sentimento de resignação, tema
pertinente na imprensa operária do Piauí, e assinala uma luta moral, uma disputa dos que
honram, trabalhavam, e dos ociosos parasitas, talvez os que viviam as custas de seu prestígio
social, tendo espaços em repartições públicas, que não trabalhavam. E é justamente por não
trabalharem, que são considerados muito inferiores aos operários, pois estes cumpriam seu
papel social, de lutar sem esperar recompensas. Nesse número 3 do jornal aparece também o
56
OBREIROS DE CAXIAS. O Operario, Teresina, ano1, n. 7, p. 1-2, 22 abr. 1906.
O OPERARIO. O Operario, Teresina, ano 1, n. 3, p.1, 18 mar. 1906.
57
47
fato emblemático da chegada do primeiro bispo representante do Piauí, 6 mil trabalhadores
acompanharam do rio Parnaíba até a igreja do amparo a chegada do bispo, o que revela o
quão forte, era o sentimento religioso católico nos meios operários daquele período, e essa
característica influencia de forma sistemática, as ações e organizações tanto dos operários,
quanto da militância pela imprensa. Até mesmo ajuda na compreensão do modelo de
socialismo que se pretendia acreditar naquele momento, pois como nos adverte Eric
Hobsbawm, em seu ultimo livro publicado em vida;
Nada é mais fácil do que ver o Cristo do Sermão da Montanha como „o
primeiro socialista‟ ou comunista, e, embora, na maioria, os primeiros
teóricos socialistas não fossem Cristãos, muitos membros posteriores de
movimentos socialistas consideraram útil essa reflexão. Como tais idéias se
manifestavam numa sucessão de textos- comentários, elaborações ou críticas
a seus predecessores- que faziam parte da educação formal ou informal dos
teóricos sociais, a idéia de uma „sociedade boa‟, e especificamente a de uma
sociedade não baseada na propriedade privada, passou a ser ao menos um
elemento marginal na bagagem intelectual desses teóricos.58
Nem ao menos era cogitada a ideia de fim da propriedade privada pela imprensa
operária piauiense, o que nos ajuda entender essa relação harmoniosa, que existia entre ideais
socialistas e o catolicismo, pois o socialismo aqui, se referia com freqüência a exemplos
Cristãos, como mencionou Hobsbawm, e essas idéias realmente pairavam em torno de uma
outra sociedade, uma sociedade boa, mais justa - pois a utopia do período era a justiça, o
funcionamento das leis, a honra e moralidade, esse era o caráter assumido na Primeira
República piauiense quando se faz alusão ao socialismo, isso também ajuda a entender a
grande alegria com a chegada do bispo, a grande autoridade espiritual do Piauí.
É nessa edição, que é aberto o concurso literário para o Hino do trabalho, que foi
cantado em 1906 no dia 1º de Maio, o concurso fora uma parceria da Alliança Federativa dos
Obreiros do Piahuy, e o jornal O Operário.
No número 4 do jornal, lançado no dia 25 de Março de 1906 ocorre um curioso fato,
trata-se da expulsão do jornal O Operário das oficinas do jornal A Pátria, e mais intrigante
ainda, foi o motivo de tal expulsão:
Mesmo contra a vontade de meia dúzias de aristocratas da actualidade o
58
HOBSBWAM, Eric. Como mudar o mundo: Marx e o Marxismo.São Paulo: Companhia das Letras,
2011, p.29.
48
proletariado ha de vencer sempre. E enquanto contar com o apoio daquelles
que sabem perfeitamente perseguidos e perseguidores, elle estará sempre ao
lado dos homens de bem, trabalhando pelo levantamento moral e entelectual
de sua terra. [sic]59
Primeiramente os editores se reconhecem enquanto parte do proletariado do Piauí, e
assim proferem esta fala de desabafo contra os poucos, mas poderosos, que talvez os
impediram de continuar aonde estavam, mas o motivo da expulsão é o que chama mais
atenção;
Somos meninos, sabemos, porem temos sentimentos... nós não queremos
trocar por qualquer homem... Si a nossa Penna não sabe desenhar longos
artigos litterarios também não se prestará nunca para render elogios baratos a
quem quer que seja... „O Operario‟ é redigido por meninos, porem mesmo
assim, saberá se collocar sempre ao lado dos homens distinctos pelo caracter,
pela intelligencia e pelo trabalho.Não queremos seguir entriga de pessoa
alguma, não queremos conselhos anarchistas, e por isso nos atiraram na
rua... Mas os que nos odeiam podem ficar convictos de que „O Operario‟orgam das classes laboriosas- se não sujeittará aos caprichos de uma meia
dúzia de aristocratas. [sic]60
A identificação dos redatores aparece aqui, na verdade tratavam-se de jovens, jovens
rapazes que pretendiam lutar a seu modo, para o engrandecimento do operariado do Piauí, e
talvez por isso, por sua opções políticas se sentiram desconfortáveis a ter que publicar
matérias para bajular pessoas importantes da época, cuja a procedência não fosse a ideal para
um jornal operário, jornal, que queria estar ao lado de homens inteligente e distintos pelo
caráter. Já no ponto dos conselhos anarquistas, não acredito que tal jornal tenha esse
referencial doutrinário, dado os diversos jornais da época e a forte propaganda anti-anarquista
de todos. Creio que nesse ponto, os redatores do operário usam a palavra anarquista lhe
conferindo um significado ruim, baixo, desprezível, pois a propaganda anti-anarquista no
período era tão forte, que podemos considerar que naquela época essa palavra se tratava de
uma espécie de xingamento moral.
Na edição de número 6, além de informes comuns referentes a atividades, viagens do
Governador Alvaro Mendes, circulares da Alliança Federativa dos Obreiros do Piauí, o jornal
59
60
O OPERÁRIO. O Operario, Teresina, ano 1, n. 4, p.1, 25 mar. 1906.
O OPERARIO. O Operario, Teresina, ano 1, n. 4, p.1. 25 mar. 1906.
49
traz o vencedor do concurso literário para o Hino do Trabalho, que foi cantado no 1º de Maio
daquele ano.
O ganhador fora Totó Rodrigues, e a observação da letra desse hino é muito
importante para revelar qual a intenção do hino que seria cantando pelos trabalhadores, e
como os que julgaram-no o melhor hino, percebiam o dia do trabalho:
O Trabalho é o sol fecundante/ Redoirando o que é terra, o que é mar./É
virtude espalhando bonança/ Na floresta, no campo, no lar./ No levante
surgindo o trabalho,/ Que derrama prazeres a flux, Brota a viva e fugueira
esperança,/ Nos banhando de amor e de luz./ Quando a terra palpita entre
flores/ Do trabalho sentindo o vigor,/ Nossa vida, entre aquelles que
amamos,/ É prazer, é ventura, é amor./ Trabalhai! Diz-nos sempre o
pogresso,/Ao trabalho, contentes, louvai!.../ E a virtude, cantando, repete;
Trabalhai! Trabalhai! Trabalhai!/ No céo claro da paz, o Trabalho/ É quem
muda a fraqueza em valor,/ Faz da terra brotarem prodígios/ E converte a
vingança em amor/ Deste os antros opúcos das feras,/ As alturas, que habita
o condor,/ O Trabalho edifica, engrandece,/ Forma a luz, faz o bem, brota em
flor./ Nobre povo, de pátria tão nobre,/ No calor do Trabalho exultae!../ Que
o trabalho é a vida dos fortes,/ Eia, pois Trabalhai! Trabalhai! [sic]61
Este fora o texto vencendor, que nem ao menos a palavra trabalhador lhe consta,
reforçanda a ideia de uma ideologia do trabalho na Primeira República piauiense, contudo
ficaram em outras colocações alguns outros textos, e que demonstravam a intenção de
explicitar a parte de sofrimento do operariado da terra:
Nossas mãos , nossos pés, nossos braços/ Tão calosas, tão feios, tão nus,/
Não serão como o sol nos espaços-/ Entre sombras, e trevas e luz?/ Ergue a
fronte molhada do orvalho/ Do suor que derramas exausto:/ Si a fortuna te
nega o teu fausto./ Mor fortuna acharás no trabalho. [sic]62
Esse trecho ainda remete a redenção no trabalho, a fortuna que este dará ao trabalhador,
mas pelo menos remete as condições de trabalho, faz menção a complicada condição operária
do período. Quanto ao autor da letra vencedora, era este o responsável pelas publicações do
Jornal do Commércio, que em suas publicações demonstra claramente que não tem nenhuma
aproximação, ou mesmo interesse na causa do trabalhador;
O anarchista Matteo Moran autor do attentado contra as vidas dos reis da
61
62
RODRIGUES, Totó. Hino do Trabalho. O Operario, Teresina, ano 1, n. 6, 8 abr. 1906.
SATURNO. Hino do Trabalho. O Operario, Teresina, ano 1, n. 6, p.2, 8 abr. 1906.
50
Hespanha, no dia do casamentos destes, ao ser capturado pela policia de Sua
Majestade Catholica, cuicidou-se em Harrejon. Dentro da bilia de água que
fazia parte da bagagem do prosclyto da destruição, foi encontrada a chave da
mala de sua propriedade contendo varias bombas explosivas. A policia
verificou que moran, logo em seguida ao crime, raspou os bigodes na
redacção do jornal “La Prense. [sic]63
Nesta ocasião o Jornal do Commércio segue a linha de todos os outros jornais do
período, a ideia fortemente anti-anarquista. Que se seguia em várias publicações do jornal;
“Acusado de profetar um assassinacto contra o imperador da Alemanha, esta em Berlim, o
Anarchista Rosemberg.”64, e esta propaganda anti-anarquista se proferia a exemplos do
mundo inteiro, porém não parava por aí a distancia do Jornal do Commércio e o operariado
da capital, essa distancia era traduzida na defesa das classes patronais;
Não tem nenhum fundamento a noticia que circulou, na ultima semana, de
haver um operário desprendido-se do andaime em que trabalhava na
chaminé da fiação. Quebrando uma perna na queda e morrendo no dia
seguinte. [sic]65
Os acidentes operários eram bastante comuns na época, e o menosprezo, ou até
mesmo a tentativa de esconder tais fatos, era o que queriam os donos de empreendimentos
industriais. E comicamente é o responsável pela edição deste jornal, o autor do hino do
trabalho, que fora cantado pelos trabalhadores no dia 1º de Maio de 1906.
Mas, retomando o O Operário. A edição número 11 traz uma interessante batalha
ideológica para o palco da imprensa operária. Mas uma vez trata-se do combate ao
anarquismo, logo no 1º texto do jornal leram os operários e a sociedade da época;
Há um obstaculo muito sério á tão elevado desiteratum, e este obstáculo é o
espírito de revolta, que infelizmente, na velha Europa, e em muitas das
nações Americanas, vai se infiltrando nas classes, sobre diversas formas
doutrinarias(...) De todos os recantos do mundo civilisado chega-nos a
noticia dessas lutas, onde se patenteiam bem os motivos de sua existencia.
Aqui são as greves, ora parciais, ora geraes que levantam-se altivas em busca
de vitorias meramente problematicas, ali são os comícios em que se
discutem os meios de levar avante a solução do magno problema que
63
NOTÍCIAS. Jornal do Commercio, Teresina, ano 1, n. 1, p.1, 1 jul. 1906.
NOTÍCIAS. Jornal do Commercio, Teresina, ano 1, n. 5, p.1, 29 jul. 1906.
65
NOTÍCIAS. Jornal do Commercio, Teresina, ano 1, n. 3, p.1, 14 jul. 1906.
64
51
preocupa os espíritos. [sic]66
A circulação dessas idéias de greves, de revoltas pela Europa, de um modo geral das
ações mais diretas reflete a enorme influencia que o movimento anarquista deu ao operariado
brasileiro, principalmente nas décadas anteriores a 1920. O anarquismo na Primeira República
brasileira, trouxe idéias de ações ,além das idéias de fim do estado, e uma forte propaganda
anti-clerical67. O anarquismo, tanto influenciava em questões até mesmo de doutrinação,
como também de repulsa. Por exemplo no Piauí, havia um clima de total repulsa a tudo aquilo
que parecesse com o anarquismo.68
E é interessante como nessa edição este primeiro texto, parece preparar o leitor para
o texto principal, que é uma opinião a respeito do 1º Congresso Operário Brasileiro, aquele
citado anteriormente que o Piauí não teve delegados, mas que se repercutiu por aqui as
resoluções tomadas lá.
Nas Palavras do jornalista Medeiros e Albuquerque do jornal A Noticia, apreende-se
como os redatores do O Operário resolveram asbtrair os idéias do Congresso;
Desde o principio um grupo de operários, na sua maior parte italiana vindos
de S. Paulo, impôs-se e predominou. Esse grupo fez passar resoluções
violentas. Suas tendências eram nitidamente Anarchistas. Apezar de tudo é
com sympathia que se deve considerar o trabalho do Congresso, não pelo
que votou, mas pelo que sem votar, elle fez. Não é possível pedir a homens
laboriosos, sem instrucção, sem prática de exprimirem certas idéias que da
primeira vez em uma assembléa, , achem logo o termo justo, phrase própria
para dizerem tudo o que querem e só o querem.[...] No congresso era natural
que os operários vindos de fora e com um pouco mais de pratica dessas
reuniões tivessem grande superioridade sobre seus collegas mais
inexperientes[...] quando os operários voltarem a calma verão que as
resoluções violentas não podem ser a norma corrente de nenhum partido. Por
isso já os protestos começam a apparecer. Em todo o caso o proveito real que
se tirou do Congresso foi facto dos operários abituaram-se a entrar em
accordo a verem-se, a fallarem-se, a trocarem idéias. Mais tarde,
comprehenderão melhor os seus verdadeiros interesses, sentirão que o
problema não pode ser resolvido pelo emprego exclusivo da força que só
66
FREITAS, Clodoaldo. Justo Desideratum. O Operario,Teresina, ano1, n. 11, p.1, 21 mai. 1906.
Como exemplo temos o jornal paulista A Lanterna, que dirigido por Edgard Leuenroth, fez duras
críticas a Igreja Católica.
68
As informações referentes ao anarquismo, Ver: TOLEDO, Edilene. A Trajetória Anarquista no
Brasil da Primeira República. In; FERREIRA, Jorge; REIS, Daniel Aarão (Orgs.). A formação das
tradições 1889-1945. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
67
52
dever utilizada em certos casos extremos.[...]Assim embora pouco fique das
resoluções votadas no Congresso, ficará a tendência a união da classe. [sic]69
O grupo paulista mencionado referia-se ao grupo do anarquista Edgard Leuenroth,
que fizeram-se presentes, e passaram no congresso resoluções que cobravam ações diretas
sobre salários, jornadas de trabalho, entre outras bandeiras de luta. Os historiadores Michael
Hall e Paulo Sérgio Pinheiro70, ao analisarem o 1º Congresso Operário, entendem que este
não fora de tom anarquista, pois nem ao menos se discutiu fim do estado, ou outras questões
filosóficas mais concernentes ao anarquismo, mas que o congresso teve um tom de
sindicalismo revolucionário. O que fez com que muitos que temiam qualquer tipo de ação
direta, rotulassem o Congresso como de cunho anarquista.
Seguindo a opinião referente ao Congresso o jornalista propõe a conciliação de
classes, remete a uma questão social mais ampla, em que o sofrimento não é somente dos
operários mas também de outras classes, por isso:
aspiração do Partido Socialista Allemão, é a de conquistar os trabalhadores
ruraes, incluindo entre elles os pequenos proprietários. Si é a união que faz a
força, a união das classes sacrificadas poderá mais do que uma só. É certo
que os operários são as maiores victimas, mas infelizmente não as únicas.
Bem ao contrario do que se disse, e do que se apllaudiu no Congreso, o
essencial não é a liberdade: é a justiça. Pois se os socialistas pedem que si
regulamente o trabalho, que se regulamente a producção e distribuição das
riquezas, elles não pedem mais liberdade do que agora pedem, ao envez
disso que se restrinja a liberdade de que hoje gosam os exploradores. O que
desejam é o estabelecimento de normas de absoluta justiça, que valem muito
mais do que as declarações em nome da liberdade. [sic]71
Este é um relato opinioso, que vai além do que podemos apreender pelas resoluções
do Congresso, e fica nítida a disputa que houvera no Congresso e agora nas páginas do jornal
entre Socialistas e Anarquistas.
A questão da Liberdade e da Justiça parecem ser o ponto central das divergências,
pois os socialistas não querem a tal liberdade que querem os anarquistas, mas querem através
da justiça, reformar o sistema vigente, e assim acreditam conseguir que a exploração se
69
ALBUQUERQUE, Medeiros e. Ordem do dia. O Operário, Teresina, ano 1, n.11, p.1, 21 mai.
1906.
70
PINHEIRO, P. Sérgio; HALL, Michael,1981.
71
ALBUQUERQUE, Medeiros e. Ordem do dia. O Operário, Teresina, ano 1, n.11, p.2, 21 mai.
1906.
53
encerre. Mas, para além dessas divergências intra-classe, a questão dos operários começa a
atingir o congresso federal, e o jornal O Operário nessa edição acredita que os operários
começam a ganhar importância nos assuntos políticos nacionais.
O jornal embora valorize muito algumas pessoas importantes da terra, as vezes,
raramente, noticia algo, ou abre espaço para um operário de fato, mas nessa edição é aberto
um espaço para noticiar a morte de um operário, e o envio de condolências a sua família.
Mas o enaltecimento do governador continua.
Na verdade é uma edição especial, comemora-se o aniversário do Sr. Governador
Álvaro Mendes, com direito a uma mensagem do Bispo, e também uma opinião do próprio
jornal que afirma que; “Inegavelmente temos atravessado um período um período de paz de
ordem, e de liberdade, em que não se conta perseguidos, mas beneficiados.”72. Demonstrando
quão prestígio aqueles redatores davam ao Governador.
Na edição de número 13, observo como o jornal O Operário era prestigiado entre os
demais jornais operários do Brasil, e como havia uma conexão entre esses jornais, o jornal
traz a notícia de que recebera visitas dos jornais O Trabalho, dos operários do Pará, Jornal do
Commercio de Juiz de Fora, União Operaria do Rio de Janeiro, do Primeiro de Maio e
Correio de Sobral do Ceará, e o Jornal de Caxias.
Outro ponto interessante dessa edição é a história de Jesus em Cafarnaúm73, que ao
narrar a história de Cristo, sempre havia uma coexistência com as atitudes morais que os
operários deveriam seguir.
E ainda dentro do contexto da imprensa operária, é anunciado o novo jornal operário
surgido em Flôres no Maranhão (atual Timon), que tinha o título O Trabalho jornal o qual não
se tem nenhuma informação referente ao seu conteúdo.
O número 14 do O Operário traz também a nótícia do surgimento e um outro jornal
defesa das classes laboriosas74, o jornal era intitulado Aurora Social.
No número 15, pela primeira vez no jornal, uma definição de imprensa, de como
aqueles redatores a viam;
A imprensa é em synthese e em toda extensão da palavra- a grande
educadora dos povos. O jornal, o ousado paladino da Idea que symboliza a
Verdade ensinando a humanidade corruptora a trilha fulgida do dever e do
Trabalho foi o grande legado que ao mundo civilizado trouxe o grande
72
O Operario,Teresina, ano1, n. 1, p.1, 31 jun. 1906.
JESUS EM CAFARNAÚM. O Operario,Teresina, ano1, n. 13, p.2, 06 jun. 1906.
74
O Operario,Teresina, ano1, n. 14, p.2, 09 jun. 1906.
73
54
Gutemberg.[...] A Imprensa é o ágape supremo onde ao lado da idea de Fé,
bebemos o falerno das doutrinas sãs. O jornal- é o campo vasto, onde e trava
o combate brilhante do Bem vencendo o Mal. O Jornalista é o guerreiro
homérico, patenteando dois baluartes- a Força e a Perseverança.75
Uma retórica incisiva, que fornece elemento para indicar aquele jornal como uma
trindade, que reunia o amor, o campo de batalha e os guerreiros, que cabem a esses dizerem a
verdade, e essa verdade deles, ser a responsável pela educação dos povos.
E é nesse contexto que há uma mudança no jornal, entra em cena o escritor Zito
Baptista que mais tarde passará a integrar o corpo redacional do jornal, ele traz um texto
intitulado “Pelo Socialismo I” e não somente esse texto, mas os textos de Zito Baptista, vão
dar uma nova constituição ao Jornal O Operário, o jornal passará a encarnar com mais força,
os ideais Socialistas, e de uma forma muito mais incisiva;
Basta contemplar-se o estado actual da sociedade para chegar-se a convicção
de q‟ a questão do socialismo, remontando séculos de luctas e de guerra,
desde as primeiras épocas da historia da humanidade, está, infelizmente, em
nossos dias sem a sua completa e desejada solução. Por mais que se tenha
evoluído, por mais que se tenha chamado o povo à instituição do socialismoque se funda na igualdade da justiça- ainda não se fez desapparecer do seio
da sociedade o PREDOMINIO, isso é, o inqualificável direito que certa
classe de indivíduos assume sobreoutra dando lhe a sorte q‟ bem aprouve:
ainda vemos a „extrema riqueza de uns, insultar a extrema pobreza de
outros;‟ a abastança e a gloria rindo desdenhosamente da colméia dos
infelizes, dos desherdados da sorte, que vivem a tragar o fel das injustiças
sociaes. A substancia do trabalho do operário ainda não recebeu o premio do
seu legitimo valor. Pelas fabricas, pellas officinas, pellas lavouras, vemos
centenas de homens a trabalhar para um só individuo acumular riquezas, e
elles, d‟ali, como escravos inconscientes, onde esgotaram toda actividade da
vida, onde viram desapparecer os sonhos e as illusões da mocidade, chegam
ordinariamente, ás portas da velhice, sem ter um abrigo para as noites de
desalentos, sem ter um pedaço de pão para mitigar a fome e de seu filho no
dia d‟amanhã... [sic]76
O tipo de socialismo, o ideal que se tinha de transformação, e as necessidades e
sofrimentos do operariado, falam por si na fala de Zito Baptista, o que mostra que a imprensa
operária teve um papel ímpar na denúncia das condições de vida dos trabalhadores. E não
somente isso, mas também no próprio revelar-se para as páginas da história, a possibilidade
75
76
PINTO, Sousa. A imprensa. O Operario,Teresina, ano1, n. 15, p.1, 23 jun. 1906.
BAPTISTA, Zito. Pelo Socialismo I. O Operario,Teresina, ano1, n. 15, p.1, 23 jun 1906.
55
de uma história vista de baixo.
Outro ponto que me chamou atenção, fora a origem dessas idéias socialistas naquela
imprensa, bem como a própria citação de Karl Marx em todas as edições do O Operário;
“Trabalhadores de todos os paizes, uni-vos.” [sic], pela pouca leitura que até agora possuo das
obras de Marx, e de seus comentadores, não consegui fazer correspondência direta do jornal
O Operário, com a obra de Marx em si.
Talvez por aqui respingassem alguns ideais marxistas, referentes a justiça social,
igualdade, mas sempre ligados a própria conduta Cristã, por isso a reflexão de Eric
Hobsbawm, referente a influencia do marxismo de 1880 a 1914, me ajudou a vislumbrar a
origem dessas idéias;
Marx, como Darwin e Freud, pertence àquela pequena classe de pensadores
cujos nomes e idéias se insinuaram, de uma forma ou outra, na cultura geral
do mundo moderno. Essa influência do marxismo na cultura geral começou
a se fazer sentir, em termos muito gerais, no período da Segunda
Internacional.[...] Era forçoso que a enorme expansão dos movimentos
operários e socialistas associados ao nome de Karl Marx nas décadas de
1880 e 1890 propagasse a influência de suas teorias (ou do que se julgava
que fossem suas teorias)77
Assim, entende-se que aqui essa influencia socialista chegou e encontrou um
fermento social, que era a pobreza extrema, a exploração dos trabalhadores, e encontrou
também uma base; a moral Cristã.
A Historiadora Teresinha Queiroz, traz um mapeamento de influencias pertinentes a
intelectualidade da Primeira República no Piauí, o que pode auxiliar na compreensão de outra
possível origem dessas ideias, pois segundo Queiroz, os intelectuais do Piauí que foram para a
escola de bacharéis do Recife, se contagiaram com o pensamento filosófico materialista,
chegando a terem contato com Proudhon e Feuerbach, o que mostra uma circularidade de
ideias muito grande, que ajuda também a explicar, a provável origem essas ideias socialistas
que rondavam pelo Piauí.78
Segue em outro número, na edição 16, que estava próxima do 14 de Julho, data
célebre da Queda da Bastilha, a Continuação do texto sobre Socialismo de Zito Baptista, que
aqui vem em um trecho de citação muito grande, porém necessário dado o tom da fala;
77
78
HOBSBWAM, Eric, 2011, p.197.
Cf. QUEIROZ, 2011, p. 266.
56
Hoje para todas as classes, á excessão da operaria o governo e os homens de
respresentação têm dirigido os seus olhares, enchendo-as de privilégios e de
garantias. [...] O operário trabalha dez horas por dia, durante a vida inteira,
entre amargos e pesados soffrimentos, exposto a gelidez do frio e ao fogo
abrasador do sól, e, no entanto, quando já se sente alquebrado pelos dias da
vida quando perde a victalidade physica, volta ao mísero casebre em extrema
pobreza, indo muitas vezes, mendigar um obulo no outro dia a porta
d‟aquelle que enriqueceu com o suor do seu trabalho. Talvez dirão: _ porque
elle não economisou alguma coisa? Não sabia que tinha de chegar a velhice?
_Ah! E quem pode fazer um peculeo, quem passou a vida, com o peso de
família, ganhando 1$000 ou 1:500 por dia? Não somos dos que pensam que
a fortuna excessiva dos ricos seja distribuída entre os operários de hoje. Mas,
o que entendemos é que tudo deve ter o seu limite e que a sociedade, pondo
um freio a essas grandes acumulações de capital- origem do mal que affecta
a maior parte do organismo humano.[...] A classe superior de tudo se apodera
e de tudo se usufrue, enquanto que a dos operários vive ainda sob o peso do
soffrimento, na injustiça, da usurpação e do despreso.[...] Para o operário
ficou o trabalho árduo, duro e ingrato, para os aristocratas as delícias de uma
existência feliz a sombra dos seus palacetes, entre flores e perfumes, entre
risos e harmonias. Sob o prisma da realidade, diremos em resumo, estes
vivem num paraízo aquelles entre as chammas do inferno. E eis o motivo
porque luctam se debatem os socialistas procurando com a serenidade da
palavra, com a luz do direito e da razão, fazer cessar essa injustiça,
incongruenta á evolução altruística do século que atravessamos.[...] e é bom
que não se continue a abuzar da complascencia de uma classe material e
ignorante, é certo, mas que, já muitas vezes, levada ao desespero de causa,
tem mostrado o seu heroísmo, derribando thronos e preconceitos e
destruindo gerações educadas pra que despontem gerações novas ao calor
das luzes da democracia como attesta a historia das paginas sublimes da
revolução franceza. [sic]79
A fala traz em si a força da organicidade, considero Zito Baptista um verdadeiro
intelectual orgânico no sentido de Gramsci, aqui no Piauí da Primeira República, suas falas
trazem á tona a realidade que massacrava as classes operárias, e que poderia, como está No
fim dessa citação desembocar em alguma movimentação, como exemplo do que já havia
ocorrido diversas pelas páginas da História da Revolução Francesa.
Zito Baptista, também afirma um presságio “E as bases da instiuição actual que nos
deprime já não se abalançando pela picareta do operário, que jurou destruil-a para erguer
79
BAPTISTA, Zito. Pelo Socialismo II. O Operario,Teresina, ano1, n. 16, p.1-2, 05 jul. 1906.
57
então a obra gigantesca da felicidade humana.”[sic]80, prevendo uma destruição dessa
instituição social, ainda não muito bem identificada por Baptista, mas que passionalmente, ele
sente que o operário a jurou derrubar.
Nessa edição, é anunciado que Zito Baptita passa a ser redator do jornal também.
Porém, para contrapor esse tom classista e de revanche,nesta edição veio a notícia de
que um dos redatores do jornal havia se beneficiado por ação do governador, no mesmo jornal
elogios ao 2º aniversário do governo de Alvaro Mendes, e o anuncio de uma lei que fora
sancionada pelo próprio governador, que concedia um ano de licença remunerada com o
salário, para o escrituário da Secretaria da Fazenda, o redator do jornal M.Saraiva de Lemos.
No número 19 é retratada a visita de Affonso Penna ao Piauí, e o jornal O Operário o
festeja, outro aspecto importante nessa edição é a explanação de que o jornal aumentava e que
agora tinha correspondência na cidade de Valença - o jornal tinha uma impressionante saída
para outros lugares além de Teresina.81
Na edição de número 20, um enorme manifesto na capa do Jornal da União Operária
do Engenho de Dentro, artigo de autoria de Pinto Machado, sobre o 1º Congresso operário.
A classe, segundo Pinto Machado estava descontente, “A política thema que foi por
mim apresentado à discussão no Congresso Operario, soffreu alli uma acusação tremenda e
feroz, sendo por fim condemnada.” [sic]82 Pinto Machado segue reclamando da falta de união
dos operários/ protesta contra a selvageria do estado repressor, e aparentemente de forma
contraditória se revolta contra aqueles que julga irresponsáveis, por quererem agitar greves pois segundo ele, o operário não deve querer balburdia, mas desejar o caminho da política, e
finaliza conclamando o lema da União Operária do Engenho de Dentro aos trabalhadores;
União, Paz e Justiça, e chama a todos os trabalhadores a construir a Confederação Geral dos
Trabalhadores do Brazil.
O Operário, e por conseguinte a Alliança Federativa dos Obreiros do Piauí, pareciam
ter um vínculo com a União Operária do Engenho de Dentro, pois sempre a davam espaço
para suas circulares, seus artigos, suas opiniões referentes aos temas pertinentes ao operariado
nacional.
E quanto a divulgação do jornal naquele momento, nessa edição aumenta-se o
número de leitores no interior do Estado, tanto que resolvem baixar a assinatura mensal do
interior de 4 para 3 mil réis.
80
BAPTISTA, Zito. Pelo Socialismo II. O Operario,Teresina, ano1, n. 16, p.2, 05 jul. 1906.
O Operario,Teresina, ano1, n. 19, 27 jul. 1906.
82
PINTO MACHADO, Antonio Augusto. Manifesto a todos os operários do Brasil. O
Operario,Teresina, ano1, n. 20, p.1, 03 ago. 1906.
81
58
Outra informação que ajuda a entendermos os significados e as conseqüências da
miséria entre os trabalhadores do período fora um caso de uma
mulher, que fora
desvirginada, e então deu parte na polícia, e o chefe de polícia ordenou que o homem se
casasse com a mulher, e o homem não tendo dinheiro para pagar ao tabelião para realizar o
casamento, fez a mulher cair em desgraça.
No número 21 do jornal, está sem dúvida a publicação mais polêmica e conflituosa
que houve nas páginas do O Operário, trata-se de uma resposta a críticas realizadas por Pinto
Machado, aquele que outrora tinha espaço e era prestigiado como o presidente da União
Operária do Engenho de Dentro, e teve até textos seus publicados pelo jornal.
Todavia, este publicou no Primeiro de Maio83 um artigo criticando as atitudes da
Alliança Federativa dos Obreiros do Piauí, e afirmando que essa não era mais filial da União
Operária do Engenho de Dentro, dentre as criticas, estavam que a sessão magna do 1º de maio
de 1906 fora presidida pelo governador do Estado, e que houve Quermesse, e também quanto
a presença do Bispo e outras autoridades católicas.
O jornal O Operário publicou uma resposta da Alliança Federativa dos Obreiros do
Piauí, organizadora daquele 1º de Maio, que acusou o “artiguete” de Pinto Machado de
realizar e trazer a desarmonia para a classe operária, e incitar a falta de unidade, o acusaram
falsamente de não-operário, acusaram-no também de mentiroso, e afirmam que a Alliança
Federativa dos Obreiros do Piauí, nunca fora filiada a União Operária do Engenho de Dentro,
que tinham somente um pacto moral e que “é porque nos quisemos deixar a honra (que era
toda sua) de dizer que no Piauhy tinha uma sociedade filial”84 e continuam se justificando em
relação a crítica, a proximidade com o Governador, e com a Igreja Católica;
Pois saiba o „operario‟ Pinto Machado, que o Governador do Estado é amigo
dos operários de sua terra, e que antes, como depois da criação da „Alliança‟
os operários do Piauhuy não são victimas de perseguição das authoridades
judiciais e policiaes, sem terem, aliás, compromisso político governista.
[sic]85
“E a kermesse? Que peccado comettemos por fazermos essa kermesse, que
significava um ensaio exposição de objetos de arte, fabricados por nossos companheiros?”
83
Jornal Operário do Centro Artístico Cearense.
ALIANÇA FEDERATIVA DOS OBREIROS DO PIAUÍ. Alijar a carga. O Operário, Teresina, ano
1, n.21, p.1, 11 ago. 1906.
85
ALIANÇA FEDERATIVA DOS OBREIROS DO PIAUÍ. Alijar a carga. O Operário, Teresina, ano
1, n.21, p.1, 11 ago. 1906.
84
59
[sic]86
O operário e presidente da União Operária do Engenho de Dentro, Pinto Machado,
pareceu estar influenciado pelo modo decidido no 1º Congresso Operário de como
comemorar o primeiro de Maio;
Tema 2 _ Como comemorar o 1º de Maio? „Considerando que o operariado,
agrupando-se em sociedades de resistência, afirma por esse simples fato a
existência de uma luta de classes, que ele não criou, mas que se vê forçado a
aceitar;[...] que portanto não se pode aceitar uma “festa do trabalho”, mas
sim um protesto de oprimidos e explorados; que a origem histórica do 1º de
Maio, que nasceu da reivindicação, pela ação direta, das oito horas de
trabalho, na América do Norte, e do sacrifício das vítimas inocentes de
Chicago, impede que essa data seja mistificada pelas festas favorecidas por
interessados na resignação e imobilidade do proletariado; o 1º Congresso
Operário Brasileiro verbera e reprova indignadamente as palhaçadas feitas
no 1º de Maio com o concurso e complacência dos senhores; incita o
operário a restituir ao 1º de Maio o caráter que lhe compete, de sereno, mas
desassombrado protesto, e de enérgica reivindicação de direitos ofendidos ou
ignorados87
Pinto Machado, fora um dos organizadores do evento, e embora tendo profundas
desavenças com os anarquistas, como já demonstrado aqui, agora ele parecia concordar no
ponto do 1º de Maio, já que os “Os anarquistas viam com desgosto nesse processo um
desvirtuamento do significado original da celebração e atribuíam a culpa aos socialistas.”88.
Embora Pinto Machado fosse confessadamente socialista, parece que as ações
anarquistas o influenciaram naquele Congresso, o que demonstra a importância que teve o 1º
Congresso Operário Brasileiro, ao ponto de mudar a visão política de alguns militantes.
E quanto a questão do governador observada por Pinto Machado, e também
observada certa proximidade nessa monografia, podemos entender que;
Não era incomum, independentemente da coloração ideológica das
sociedades operárias, que conferencistas fossem convidado por ocasião das
celebrações nas sedes das associações; entretanto, quando esse convite era
endereçado a políticos profissionais ou autoridades, isso evidentemente
86
ALIANÇA FEDERATIVA DOS OBREIROS DO PIAUÍ. Alijar a carga. O Operário, Teresina, ano
1, n.21, p.1, 11 ago. 1906.
87
Resoluções do 1º Congresso Operário Brasileiro apud PINHEIRO, P. Sérgio; HALL, Michael,
1981, p.47.
88
BATALHA, Cláudio et al, 2005, p. 110.
60
denotava certas escolhas políticas.89
Temos na historiografia sobre o operariado brasileiro duas vertentes que analisam
certas proximidades de organizações operárias com setores ligados ao governo, e até mesmo
as classes patronais, alguns pensam como exemplos de bajulação ou colaboração. Mas já se
tem leituras que empiricamente, afirmam que essas proximidades “constituem exemplos de
estratégias políticas que buscam comprometer moralmente as autoridades republicanas com
as reivindicações dos trabalhadores.”90. E Sobre o catolicismo;
as semelhanças entre a celebração do 1º de Maio e o catolicismo não se
limitam às imagens evocadas no discurso. A própria organização dos cortejos
do 1º de Maio, tanto no Brasil como em Portugal, reproduz de perto a
estrutura das procissões do século XIX, e de certas festas do catolicismo
popular nos dois países91
Assim no Piauí ficou empiricamente constatado que havia essa proximidade da
imprensa operária e das organizações operárias, com a igreja e o poder estatal.
O último número que se tem referencia do O Operário é o número 22, que traz o
nome do dono do jornal, Alfredo Roberton.
E assim se encerra a experiência desse interessante e revelador jornalzinho operário,
que significou para nós, uma cultura operária através de suas páginas.
Em outro momento dessa história, já nas décadas de 1910 e 1920, os trabalhadores e
trabalhadoras Piauienses que viviam em Parnaíba, cidade litorânea e importante
comercialmente para o Piauí - as condições de vida não eram das melhores. Parnaíba era uma
cidade com uma atividade comercial consideravelmente relevante para o Piauí, para outros
estados, e até mesmo numa perspectiva nacional.
O comércio pelas movimentadas ruas comerciais, as casas inglesas, as lojas de
produtos franceses, o Rio Parnaíba que dava fluxo ao comércio, e até mesmo a exportação de
produtos primários para o exterior, principalmente para a Inglaterra nos ajuda a entender a
década de dez e vinte.
Quanto a atividade industrial, a nível de industrialização brasileira, Parnaíba tinha
89
BATALHA, Cláudio, 2005, p. 111.
BATALHA, Cláudio, 2005, p. 111.
91
BATALHA, Cláudio, 2005, p. 109.
90
61
uma atividade industrial até relevante, chegando mesmo a ter indústria com 100 operários92,
tinha também pequenas oficinas de ferreiros, de artistas mecânicos, e vários empreendimentos
de prestação de serviço de profissionais liberais. Porém a maior fonte de emprego do
operariado provinha das casas comerciais, dos armazéns, que inclusive comercializavam via
embarcações do Rio Parnaíba, o que provavelmente, fazia predominar os trabalhadores
empregados do comércio, e os trabalhadores estivadores.
Operários estivadores carregando uma carga de côco babaçu em 1924 na cidade de Parnaíba 93
Em Parnaíba além das condições miseráveis de vida, que os vinte e tantos mil
trabalhadores e trabalhadoras sofriam com uma vida sacra, a dor e o desespero. As doenças
sexualmente transmissíveis chegavam a mulheres, filhas dos operários pobres, que tinham de
se entregar a prostituição pelas praças, e pelo cais, para conseguirem um dinheiro a mais.
Neste período final da década de 1910, e início da década de 1920, a imprensa tanto
Parnaibana, quanto Piauiense, continuava muito polida. E mesmo assim, a questão social pela
imprensa Parnaibana do período, parecia não ter muita importância no ponto de vista da
recepção do publico leitor, pois “O habito é ler parcamente as folhas políticas, passar uma
92
93
Rosapolis, uma fabrica de óleos e produtos químicos de Parnaíba.
Imagem retirada do Almanack da Parnaíba de 1924.
62
vista nas litterarias, de desprezar como inutteis as que trazem no seu programma a defeza de
qualquer principio, social ou religioso” [sic]94 .
No Piauí foram encontrados dois exemplos de imprensa pasquim, que com
publicações anônimas e satíricas, ousaram ter uma liberdade maior, esses pasquins
denunciavam algumas irregularidades, principalmente fatos políticos.
O primeiro exemplo, aparece já na década de 1910, em 1915 surge em Parnaíba,
“A’Chibata”95 que se definia como um jornal crítico e noticioso, e de uma sociedade
anônima.
Surge também, um interessante pasquim da primeira república Piauiense, que tinha
por nome O Obuz, vinha por intenção de ser um “Orgam Phyrothecnico, funambolesco,
desopilante eqüestre e carnavalesco” [sic] seu redator chefe era “Dr. Zé Pereira”, a redação se
localizava no “meio da rua”, afirmava no pasquim sem identificação alguma que ele sairia
algumas vezes, quanto a sua temporalidade, também ficava no campo do enigmático,
provavelmente que se publicava pela primeira república, porém não posso confirmar o ano,
somente o período, devido ao tom de seus assuntos, que dentre muitos denunciava,
mandonismo local, praticas de coronelismo, corrupção política, privilégios a alguns, e a
miséria de outros. Uma publicação típica de uma pasquim, folhas pequenas, as vezes somente
uma, e um descompromisso total com o pudor de explicitar qualquer fato, ou opinião. Nessa
circunstância O Obuz é hoje um meio para flanarmos mais sobre a vida dos operários, o fazerse desses operários enquanto classe, e também a própria avaliação do resto da imprensa no
período.
Em uma poesia publicada pelo O Obuz com o título de “Caça nickeils”, percebi
análises ausentes em todos os outros jornais dessa pesquisa, pois;
Nesta terra já tão pobre/Onde o recurso é vasqueiro/ Vemos muita gente/
Procurando o vil dinehrio./ E nessa faina apppareceu/ As arapucas subtis/ E
assim os nickeis lhes crescem/ na vazão, pelos funis.../ É de ver a “LloydCaixa”/ Bancando despreendimento.../ Incudindo a gente baixa/ Seu
programma- monumento!/ E “caixa Therezinense”/ do Velho Mello, finado/
Grita brada e convence/ quem tem cofre recheado./ A “Credito”, a mais
antiga,/ a que mais tem iludido,/ As outras não olha, não liga, / Na boa fé
iludida,/ Perdendo sem mais barulho/ o santo cobre perdido. [sic]96
A crítica poesia, remete a algo muito comum e que era bastante anunciado por toda a
94
O MOMENTO. O Artista, Parnaíba, ano1, n.4, p.1, 01 jan. 1920.
A’Chibata, ano 1, n.3, 2 jun 1915
96
CAÇA NICKEILS. O Obuz, ano3, n. 2, p.1.
95
63
imprensa, mesmo parte da imprensa Operária, tratava-se de uma espécie de jogo de azar, o
que nós chamamos hoje de consórcios, porém naquela época o recebimento do bem era mais
duvidoso. Essas empresas faziam arrecadações e haviam sorteios, era praticamente uma
espécie de jogo de azar, ou melhor um investimento de azar, que movido talvez pelo
desespero de não ter o que comer, fazia com que os trabalhadores acreditassem em tais
fórmulas rápidas de conseguir dinheiro.
Outra denúncia no pasquim se referia as condições de vida em Teresina, o
jornalzinho pergunta e responde ironicamente, “Vegeta-se ? Não, Vive-se”97 no
desenvolvimento da pergunta resposta, o pasquim debocha das condições de vida
escancaradas pelas propagandas nos outros jornais, da lama pelas ruas da cidade, das
barbearias de luxo, que poucos podem pagar, dos produtos de beleza das madames e de coisas
que assinalam um forte descompasso social naquele momento. E de forma esperta na mesma
página, o pasquim se refere a Lei da Imprensa;
Pelo Snr. Gordo. Senador das bandas do Sul, foi creado um monstruoso
arganaz, que elle desejava ver convertido em lei contra a imprensa. Como
era natural houve grande repulsa nas tribunas na imprensa e por todos, as
vias por onde se pode protestar; e por isso o monstro foi posto a dormir. Que
somno terá elle? Será o do próprio arganaz que engorda seis mezes no verão
e queda-se a dormir outro tanto, para depois voltar a faina para roer as
alheias searas? Seja como for emquanto elle dormir, o “Obuz” vae sahindo...
de banda e cantando a baratinha. [sic]98
Foi projeto de Adolpho Gordo, lei que foi sancionada em 1923, através do decreto
4.743, fazia parte de uma investida forte no controle do movimento operário, a intenção era
silenciar a imprensa operária, que nos grandes centros urbanos da época, começou a protestar
contra a lei de expulsão dos estrangeiros anarquistas, lei do mesmo Senador Adolpho Gordo.99
Lei da Imprensa, que Ângela Maria de Castro Gomes a percebe dentro de um
contexto maior que naquele momento, “Muito sintomaticamente, estas iniciativas refletem o
clima de intensa agitação operária que vigorava em fins dos anos dez e não deixam de ser
uma indício da maior participação política da população das cidades”100. Participação também
97
O Obuz, ano3, n. 2, p. 2.
O Obuz, ano 3, n. 2, p. 4.
99
Essas informações foram retiradas de KOSSOY, Boris; TUCCI CARNEIRO, Maria Luiza. A
imprensa confiscada pelo DEOPS, 1924-1954. São Paulo: Imprensa Oficial, Ateliê Editorial, Arquivo
do Estado, 2005.
100
GOMES, Ângela M. de Castro. Burguesia e Trabalho: Política e legislação social no Brasil 1917 98
64
protestando contra a falta de habitação na Capital;
A crise de casas em Therezina é um facto. Os senhores só não fazem maiores
devido as leses. Mas a crise existe e não affecta somente os racionaes. Na
ultima epidemia de papeira até os marimbondos foram attingidos pela falta
de habitação. Estas (as casas dos mesmos) passaram ir figurar no rosto de
muita moça bonita, dissolvida em vinagre aromático. Até os insectos
soffrem! [sic]101
Ou até mesmo ridicularizando os privilégios da classe dominante, satirizando com as
regalias prováveis que as famílias ricas dos Sírio-Libaneses tinham no Piauí da Primeira
República, avisando aos leitores que “Esta aberto na agencia do B. Brasil, segundo fomos
informados, um concurso para escriptuários, os candidatos farão o exame das matérias
exigidas pelo regulamento e mais a do idioma árabe afim de poderem os funcionários attender
aos patrícios...” [sic]102
Essa agitação política mais fervorosa é sentida no final da década de dez e início da
de vinte por aqui em dois pontos, que se referem a publicações pela imprensa, o primeiro são
esses jornais anônimos que denunciam tanto questões essenciais para uma vida digna nas
cidades do Piaui, e protestos contra os privilégios de alguns como vimos citado - e outro
sintoma dessa maior agitação é o surgimento de uma outra imprensa operária nesse período.
Uma imprensa que vem dos próprios operários.
Em 15 de Agosto de 1919, surge na cidade de Parnaíba, um jornal de caráter
operário, intitulado O Artista103, esse Jornal não se pode precisar até quando ele durou, até
agora nunca fora analisado pela historiografia, teve sua fundação no interessante ano de 1919,
e tinha características que o diferenciava dos outros jornais operários analisados até aqui.
O Artista foi fundado por operários, tinha diversos redatores, seu diretor gerente
inicial, foi José Bezerra Leite, que era um artista, um operário pintor, xilógrafo e escultor.
O jornal surgiu para ser o órgão de propaganda da Sociedade “União dos Artistas
Mechanicos e Liberaes de Parnayba” [sic].
O jornal operário traz características peculiares as publicações da imprensa operaria
brasileira do período, poucas folhas, colunas com assuntos variados discutindo sempre temas
relacionados a classe proletária, e um ponto interessante são os anúncios do O Artista, seus
1937. Rio de Janeiro: Campus, 1979, p.85.
101
O Obuz, ano3, n. 4, p. 3.
102
O Obuz, ano4, n. 6, p. 4.
103
Tabela de jornais Operários brasileiros, apud FERREIRA, Maria Nazareth de, 1988.
65
classificados eram sempre de empreendimentos, e principalmente serviços de operários e
trabalhadores liberais, como pintores, cabeleireiros, serviços de instalações elétricas, de
vidros, de móveis, médicos, e dentistas - fato curioso o dentista José Neves afirmava em seu
anúncio; “Grátis aos pobres”, demonstrando um compromisso social para com aqueles pobres
desfalecidos de Parnaíba.
O Artista, como grande parte dos jornais operários não tinha dias determinados para
sair, e seu primeiro número fora gratuitamente distribuído aos operários que soubessem ler.
Isso implica na questão da receptividade das idéias do jornal. Se no início da 1º República no
Piauí, o analfabetismo, era algo evidente e dificultava uma expansão e recepção maior da
propaganda operária, neste momento do final da década de dez e início da década de vinte, os
quadros de alfabetização melhoraram um pouco, movidos até pelos interesses políticos locais,
no voto dos operários, mas também movido por iniciativa das próprias organizações operárias
que mantinham escolas para operários, crianças pobres, a um preço razoavelmente baixo.
Assim;
Nós um punhado de humildes operários ainda sob a imorredora impressão
dos horrores da ultima guerra que durante cinco annos devastou a velha e
culta Europa assombrando o resto do universo pensamos e queremos numa
atitude salesiana, agremiar os nossos collegas, das diversas classes operarias
desta sempre nobre e invicta cidade, para que unidos a nós, em sociedade,==
unida e forte, possamos também, num assomodecrentes pela felicidade
humana, commungar no grande, farto e interminável banquete da paz
nascente[sic]104
Estas são as primeiras letras do O Artista ao público leitor, que assinala uma grande
conectividade daqueles operários com as questões da agenda mundial, aliás isso é bem
comum para os jornais operários, assinala também um movimento que estava ocorrendo a
nível nacional e mundial, que se tratava de uma maior preocupação com a questão dos
trabalhadores. Após a 1ª guerra, já nos desdobramentos do Tratado de Versailles, o mundo
passa a se preocupar com a questão operária, com a questão social, cria-se então as
Conferências Internacionais do Trabalho, para assegurar melhorias aos operários do mundo
inteiro, que aquelas alturas já haviam demonstrado ao mundo, o que eram capazes de realizar,
a exemplo trágico para alguns, a Revolução Russa em 1917.
Mas, essa tentativa de organização operária em Parnaíba em torno de um jornal, que
104
MERCURIO. Agosto de 1919. O Artista, Parnaíba, Ano1, n.1, p.1, 15 ago. 1919.
66
era de uma associação, que não parecia tender aos lados dos movimentos revolucionários
esquerdistas, mas apenas as questões da agenda do dia, mas ligadas a dignidade, a uma
tentativa de paz em um contexto mais ampliado, demonstrando como era essa idéia de
unificação dos operários de Parnaíba, fazendo perceber que:
Esta inspiração que nós immodestamente, qualificamos de nobre e genial,
não nos induz, por certo, ao triumpho sonhado, pela delictuosa pratica das
greves, das barricadas e das revanches, contra os capitães e contra as leis:
queremos o nosso engrandecimento pelo aperfeiçoamento moral e
intellectual dos nossos adeptos, pela sua compreensão nítida dos nossos
direitos pela cohesão de princípios, pela unidade de vistas aos santos ideaes
das classes aggremiadas cuja transcendência acceitavel concretisa-se no
necessário arrasamento dessa barreira moral que segrega o operário do
convívio feliz da nação e da sociedade e sobretudo da representação official.
[sic]105
Assim a intenção de criar uma agremiação operária, parecia ser primeiramente o
combate às formas de ações diretas, tidas como anarquistas, e lutar pela auto-emancipação da
classe operária através da elevação intelectual dos operários, mas no final do trecho, parece
que o jornal quis aludir que o operário infelizmente se mantém distante da política, da
representação oficial, esse fato é curioso pois esse jornal é repleto de retóricas anti-política,
porém em algumas idéias mais a frente, essa relação entre operariado e política, começa a
ficar mais visível, e inicia um enigma de qual de fato é a visão do jornal.
O jornal afirma ainda não ser o momento de tratar tais temas políticos devido que
isso “causa desequilíbrios sociaes” [sic]106, mais a frente em outra matéria, é colocado no
jornal um documento da Sociedade União Progressista dos Artistas Mechanicos e Liberares
de Parnahyba, a Base para sua fundação;
1º-- Pugnar sempre pelo aperfeiçoamento moral e instructivo de seus
associados. 2º--Salvaguardar a honra e integridade da família dos artistas e
operários em geral. 3º--Defundir a instrucção pelos menores aprendizes de
artes e offícios, comprehendido em trez ramos do saber: Leitura, Musica e
Dezenhos. 4º--Velar pela estabilidade da União, Progresso, Paz e
Concordiade seus associados. 5º-- Funcionar em prédio próprio e ter um
mobiliário descente. 6º-- Manter uma banda de musica excluzivamente de
105
106
MERCURIO. Agosto de 1919. O Artista, Parnaíba, Ano1, n.1, p.1, 15 ago. 1919.
MERCURIO. Agosto de 1919. O Artista, Parnaíba, Ano1, n.1, p.1, 15 ago 1919.
67
artistas e operários. 7º Estender por todos os meios ao seu alcance a
benefipiencia mútua e funelaria ao sócio que cair na mizeria e no infortúnio
e desdita. 8º Ter um orgam da imprensa para propaganda e defesa da
Sociedade União Progressista e da classe artística em geral. 9º Não tomar
parte directa ou indirectamente nos pleitos eleitoraes nem adotar este ou
aquelle partido político local. 10º Ajudar e proteger ao sócio que precizar de
valimento pecuniário para movimentar uma acção de trabalho que lhe rezulte
lucros e o bem estar, de conformidade a uma lei estatuída para este fim. 11º-A Sociedade União Progressista reger-se-a por uma Constituição Artistica
Social e um regulamento interno. 12º-- Não farão parte da União Progressita,
-- os artistas e operários, entregues ao vicio do jogo de azar e da embriaguez.
13º Sem autorização da Directoria, nenhum sócio da União Progressita
poderá fazer parte de commisões para festas cívicas e religiosas. 14º
Nenhum sócio da União Progressista poderá sahir desta cidade para outra
sem previa licença da Directoria. [sic] 107
Todas essas normas, são facilitadoras na compreensão dos perfis ideológicos do
jornal O Artista, pois como já mencionado este era um órgão de propaganda de tal instituição,
e vários destes temas serão tratados mais a frentes pelo jornal, por hora interessa saber essa
relação curiosa com a política. Anteriormente faz-se críticas a ação direta e indica-se o
caminho da política, e já nas bases de fundação no artigo nono, traz taxativamente a retórica
anti-política.
Isso pode ser interpretado entendendo que o operariado poderia estar politicamente
dividido, ou que uma associação que tendesse a um lado, desagradaria a tantos outros
operários do outro, ou até mesmo pode-se entender aqui uma influencia do anarquismo, ou do
sindicalismo revolucionário, que ambos refutam a ação por vias políticas - entretanto este
argumento não se sustenta se colocado ao lado da fala inicial do jornal contra greves e
barricadas.
Ao que parece o mais provável até agora seja uma tentativa de unificar os operários,
e por tanto deixar de lado as paixões políticas. Mas é em outro trecho do jornal, em um tom
de humor, que consegui chegar a uma conclusão sobre a relação deste jornal operário com a
política da época;
Eis aqui um interessante questionário: Que é política? _ É a sciencia que
ensina a viver do orçamento. _ Que é orçamento? _ É a panela nacional onde
todos desejam metter a colher. _ Como se divide a política? – Divide-se em
107
BASE PARA A FUNDAÇÃO. O Artista, Parnaíba, Ano1, n.1 15 ago 1919, p.1.
68
partidos. _ Pode dizer-me quantos partidos há? – Dois, o dos que estão em
cima e dos que estão em baixo. – Costumam inverter essas funções políticas?
– Sim senhor, por meio de uma troca de papéis que determina uma
revolução. – E então o que succede? – Succede que aqueles que esmagaram
grittam, e os que grittaram esmagam. – Obtêm-se por meio dessa inversão
algum benefício político? – Não, senhor, porque a ordem dos factores não
altera o producto. [sic]108
Esse argumento de desdenho da atividade política, lembra bastante a propaganda
anarquista, e também do sindicalismo revolucionário, entretanto a sociedade que comanda o
jornal, não incita a greves, a ações diretas, não contesta a própria feição do estado enquanto
instituição.
O que se pode observar, é que essa opinião política é um pensamento autônomo,
daqueles que nesse momento, observavam pela sua própria experiência, no que resultava a
política profissional na cidade de Parnaíba e no Piauí. É certo que por isso o jornal tencione
tanto a idéia da unidade entre os operários dentro de uma organização, pois é de dentro desta
sociedade, que eles vislumbram mudanças, e a través da ajuda coorporativa entre os irmãos de
classe que poderão melhorar as condições de vida do operariado. Se acredito que “Uma classe
em sua acepção plena, só vem a existir no momento histórico em que as classes começam a
adquirir consciência de si próprias como tal”109 é notório que essa imprensa operária
parnaibana, através desse periódico operário, passa a tencionar uma configuração classista no
Piauí, uma configuração diferente de outras tentativas de unificação da classe operária em
jornais já analisados, devido a ser um projeto de unificação de formação de classe, que partira
exclusivamente de operários, e que se desejava livre de qualquer interferência política, ou até
mesmo do estado.
A idéia de uma imprensa operária para servir de propaganda para uma sociedade
operária, é nitidamente uma tática110 de organização, método que já circulava pelo mundo.
Porém há que se deixar claro, que sendo essa uma pesquisa pioneira, e que muito
provavelmente ainda existam vários jornais operários no Piauí que nem cheguei a saber de
suas existências, ou até mesmo que a década de 1910 traz um silêncio devido a escassez de
fontes, e a péssima política de preservação arquivística que se tem no estado do Piauí - não é
possível e nem muito menos prudente, afirmar que aqui, no período de início do O Artista é
108
A POLITICA. O Artista, Parnaíba, ano1, n.1, p.3, 15 ago. 1919.
HOBSBAWM, Eric J, 1987, p.34.
110
A palavra “tática” utilizada no sentido leninista do termo. Ver: LENIN, Vladimir. Estratégia e tática.
São Paulo: Editora Anita Garibaldi, 1989.
109
69
que inicia-se o formar-se da Classe Operária do Piauí, mas significa afirmar que esse período,
por comprovações empíricas sugere uma maior autonomia dos trabalhadores, que reflete em
uma tentativa de auto-organização, a primeira via imprensa, encontrada até esta pesquisa.
Esse momento de auto-organização não pode ser entendido, como um momento de
rebelar-se, ou mesmo de um levante operário contra o capital, pelo contrário as afirmativas
em torno da ideologia do trabalho continuam, e chegam pelos próprios trabalhadores, que
afirmam a dimensão moral, cultural, religiosa e de dever que é o trabalho, mesmo o trabalho
sendo quase que escravizador, os salários baixíssimos, e o nível de miséria alarmante, mesmo
assim, o trabalho pelas páginas desse jornal, continua a ser louvado;
O trabalho é tão necessário como a família, socialmente fallando. Sem o
trabalho. Sem o trabalho impossível seria o nosso progresso. Elle é, como
muito bem disse um notável escriptor, a lei que regula a vida. Faltando-nos
elle, faltar-nos o equilíbrio moral e social. O homem que não trabalha, não
tem uma occupação, que vive na occiosidade é um monstro. [sic]111
Talvez por que o trabalho há que se refere aqui, seja o trabalho dos “Artistas”, que
eram trabalhadores, operários, mas que a maioria não tinha que se submeter a um patrão, a ser
um assalariado comum, eram trabalhadores liberais, ganhavam um pouco melhor, tinham uma
condição de vida, uma oportunidade de inclusão social um pouco melhor; “Mas não é só o
trabalho material que é tão productivo, o trabalho intelectual é, não menos, se não mais,
uctil.” [sic]112.
Mas talvez, essa louvação ao trabalho pode ser entendida pela própria impregnação
ideológica que vinha deste o fim da escravidão, em uma retórica legitimadora muito forte de
que o trabalho, trazia o progresso, que ele dignificava, de que ele poderia até mesmo trazer a
salvação espiritual.
De certo é que em todos os jornais pesquisados aqui, operários e não-operários, com
exceção do O Obuz e da A’Chibata , traziam enaltecimentos ao trabalho.
Nessa pesquisa está registrada essas retóricas, porém este tema é por demasiado
complexo, e com certeza carece de uma pesquisa exclusiva para este assunto, para
percebermos como se davam de forma mais pormenorizada essa relação imprensa e ideologia
do trabalho na Primeira República do Piauí.
111
112
O TRABALHO, O Artista, Parnaíba, Ano1, n.1, p.1, 15 ago. 1919.
O TRABALHO, O Artista, Parnaíba, Ano1, n.1, p.1, 15 ago. 1919.
70
Outra característica do jornal, era sua proximidade com a religião, em especial a
católica, havia uma clara ligação e auxílio a Igreja Católica por aquelas páginas, como por
exemplo realizando anúncios organizativos relacionados a comissões de festejos religiosos, o
catolicismo se fazia presente também, em passagens cristãs interpretadas no sentido de
conotar uma afirmação daquilo que a idéia de unidade dos trabalhadores necessitava. Então, é
percebido nesse contexto, que não se tratava de uma tentativa de organização dos
trabalhadores vinda de teorias sociais, ou até mesmo cartilhas socialistas somente, e muito
menos anarquistas comuns a época, mas trava-se de uma influencia das passagens bíblicas
que remetiam a unidade, ao amor ao próximo, a própria Lei de Deus, que ordenava amaremse uns aos outros, e viverem como irmãos. E dessa união, saiam características de proteção
mútua, auxílio aos irmãos operários necessitados que se filiassem a Sociedade União
Progressista dos Artistas Mecânicos e Liberais de Parnaíba, e essa sociedade desenvolvia
ações, que repercutiam em verdadeiras campanhas pelas páginas de sua imprensa. Uma dessa
ações remetia-se ao combate a embriaguez.
Naquele momento, um problema, não só em Parnaíba, mas em todo o Brasil. No 1º
Congresso Operário Brasileiro, saiu a seguinte resolução;
Tema 11- Necessidade de uma ativa propaganda contra o alcoolismo.
„Considerando que o alcoolismo é um dos vícios mais arraigados do seio das
classes trabalhadoras; e que tem sido um obstáculo para a organização das
mesmas; o Congresso Operário aconselha que seja encetada uma forte
campanha contra o alcoolismo, a qual pode ser, por exemplo, por meio de
conferências, folhetos e cartazes, etc.113
Nos meios operários, era visualizado o grande problema que acarretava em Parnaíba
um enorme número de embriagados, as razões psicológicas que levavam tantos operários a se
entregarem ao vício precisa de um estudo mais especifico, porém o que se pode levantar até o
momento, são as péssimas condições de vida e o sofrimento a um nível muito intenso,
trazendo o álcool talvez um conforto momentâneo, um esquecimento da cruel realidade.
Esta cruel realidade era denunciada pelo O Artista , e feita uma forte campanha
contra a embriaguez, e juntamente com isso a repreensão pedagógica dos operários que se
entregavam ao vício;
113
APUD Sérgio; HALL, Michael, 1981, p.47.
71
Entrai a qualquer hora do dia n‟uma dessa mercearias ou bodegas onde se
ouve o ruído dos copos e gyro das garrafas. No seu desce e esgotamento. Em
voltas deses estabelecimentos que classificamos do mal e do vicio, grupamse vários indivíduos, cuja a consciência a vida inteira pende para a mizeria, e
para a desgraça.Quanto de vós a essa mesma hora, uma esposa e filhinhos
que pedem pão – esse pão que criminosamente gastae com bebidas
alcoólicas. Quantos deixastes em casa um pobre mãe que se definha á falta
dos minguados recursos que ides gastar levianamente na sede insaciável na
embriaguez. [sic]114
Pude perceber que o alcoolismo era algo bastante comum, e que este desembocava
em problemas sociais profundos, pois se o alcoolismo era fruto da extrema pobreza, este
resultava também em pobreza, fazendo assim um círculo de horrores para os operários.
Havia também na época, uma enorme discriminação social para com aqueles que
bebiam, isso foi percebido através das páginas do jornal, pois para aqueles que chegavam a
abandonar até mesmo o trabalho para se entregar de vez ao vício, a “morte todos desejam pois
é um benefício para a collectividade sadia” [sic]115. Porém é necessário o entendimento de que
essa é uma frase de um jornal que tem um objetivo claro, o combate a prática da embriaguez,
portanto não se deve atribuir o tom da generalidade dessa afirmação, não existem outras
fontes que possam afirmar que as pessoas desejavam a morte dos bêbados, nesse sentido, o
jornal aparenta demonstrar o que ele, ou sua organização sentem ao não conseguirem
compreender tal costume, ou melhor ajudar alguns, que nem o trabalho queriam mais.
Abandonar o trabalho naquela época era crime, a legislação social na Primeira
República Brasileira tanto tinha como crime a vadiagem, como a embriaguez.
Na edição de número 2 do O Artista, traz em seu expediente a notícia de que a partir
daquele dia seria distribuído gratuitamente entre os sócios da Sociedade União Progressista
dos Artistas Mecânicos e Liberais de Parnaíba, o jornal, que naquele momento continua
sendo ainda João Bezerra Leite, o diretor gerente do jornal, inclusive será eleito o primeiro
Presidente da Sociedade União Progressista dos Artistas Mecânicos e Liberais de Parnaíba.
O jornal traz como primeira matéria o anuncio, que é afirmado como uma grande
revelação que 50 operários associaram-se a instituição que comanda o jornal, nessa afirmação,
114
115
A EMBRIAGUEZ. O Artista, Parnaíba, ano1, n.1, p.2, 15 ago 1919.
A EMBRIAGUEZ. O Artista, Parnaíba, ano1, n.1, p.2, 15 ago 1919.
72
é vislumbrado que esse ato, repercutia como uma nova fase que passava a classe operária
Parnaibana, uma fase que possivelmente poderia no futuro trazer prosperidades aos
trabalhadores, por isso traziam a retórica da união, do cooperativismo, que seria associada a
um esforço na realização de estudos para identificar os problemas mais recorrentes no meio
do operariado, assim; “A sociedade não só trará a classe a facilidade de poder expor as suas
difficuldades as autoridades estaduaes e federaes de maneira mais official e digna de
procuração como procurara salvaguardal-a de exigências torpes de capitalistas ambiciosos e
grosseiros.”116 [sic]. Nessa afirmação é reforçada a idéia de uma tentativa de auto-organização
dos trabalhadores, e mais que isso, uma proposta não de coalizão com outras classes, mas de
enfrentamento se necessário. Desse texto em diante, ficará bastante claro nos outros, a
tentativa de filiação dos operários de Parnaíba a Sociedade União Progressista dos Artistas
Mecânicos e Liberais de Parnaíba, em outros textos ao serem mencionados problemas dos
trabalhadores, condições de vida, ou condições de trabalho, sempre será mencionada a
solução, e a solução através da imprensa vinha pela unidade, pela coesão, unidade dentro da
associação proposta, pois assim os operários poderiam ser mais fortes, e nessa idéia, termina o
texto citado anteriormente, com a expressão “colleguemo-nos, protejamo-nos!” [sic].
Em uma atitude de reconhecimento de proteção das classes trabalhadoras, o jornal
anuncia a criação de escolas, escolas que a Associação de Artistas Parnaibanos (outra
associação operária) criou, e para oferecer instrução aos operários, e a seus filhos, esse ato é
além de ser divulgado, é verdadeiramente festejado, e parabenizado no sentido de promover a
elevação das classes laboriosas através de uma das recorrentes bandeiras do jornal, a
instrução, e nessa matéria o jornal compara o ato de instruir os pobres com as atitudes de
Cristo, que foi o grande Mestre, o Redentor que ensinou a todos.
Ainda nessa mesma edição, pela primeira vez o jornal, se refere a condição feminina,
em artigo intitulado “A prostituição para a mulher – e a ignorancia para a creança” [sic] onde
de forma ácida o jornal tece uma crítica incisiva sobre os que se aproveitam das condições
dessas pobres mulheres;
fazem a nota chic dos cafés da praça da matriz. A nossa conspiração volta-se
hoje, para essa pobres creaturinhas de doze a quinze annos que como flores
que se estoram, servem de repasto a gana bestial de indivíduos grosseiros e
salteadores da virgindade desprrotegida. Quantas meninas impúberes, ainda
que acossadas pela penúria renunciam a candura de sua inocência,
116
MELIOS. O Artista. O Artista, Parnaíba, ano1, n.2, p.1, 07 set 1919.
73
entregando-se a fúria desses Satyros de seus fragies corpos adolescentes
fazem instrumentos das mais vis abjecções e calcam nos a torpitude de todos
os vícios aviltantes a delicadeza de seu sexo. Todos os dias vemol-as
enchendo as ruas, os beccos, o mercado publico o jardim, fazendo de seu
vicio taboa única de salvação, e já exibem nos gestos, nos rizos, nas faces, o
requinte do desavergonhamento em que foram adestradas pela perversão de
seus degenerados algozes. [sic]117
E continuam nessa vida até que “a mordida da shyphilis que envenena o sangue o
corpo”
118
lhes atinja, fazendo com que terminem a vida sofrendo em um casa de misericórdia.
Por esse trecho percebemos o quão grave era a situação das classes mais miseráveis
no Piauí da Primeira República, isso não era diferente em Teresina por exemplo, onde na
fábrica de fiação, trabalhavam em média 160 pessoas, em sua grande maioria mulheres,
meninas de seus até 9 a 15 anos, que eram alvos fáceis para os chefes, os patrões 119. A
condição operária no Piauí da Primeira República, através das páginas da imprensa, já
conotavam enorme sofrimento, a condição operária feminina então, parecia pelos poucos
registros que se tem, muito pior.
Ao menos para nós da posteridade ficou O’ Artista, para contrapor um pouco e
demonstrar um outro lado da Bélle Époque na Primeira Republica brasileira. Uma época com
prostituição de meninas de 12 anos, não pode de maneira alguma ser bela. Todavia, no final
do trecho citado acima ficou evidente que aquelas meninas com o passar do tempo, e imersas
no ambiente daquela profissão, já adquiriam formas de lhe dar com aquela situação, o que
demonstra que o fazer-se da prostituição, constituía um trabalho na Parnaíba da década de
vinte.
Outro ponto destemido que veio pelas páginas daquele jornal, naquele 7 de setembro
de 1919, fora a respeito do anuncio do 1º de maio próximo. Neste texto já fora discutido as
circunstâncias que rodeavam o primeiro de Maio, mas no O Artista, essas circunstancias são
ressignificadas, e entra então a bandeira de luta histórica na Primeira República pelo
movimento operário, que se trata das 8 horas de trabalho por dia:
117
A PROSTITUIÇÃO PARA A MULHER E A IGNORANCIA PARA A CREANÇA. O Artista,
Parnaíba, ano1, n.2, p.1, 07 set. 1919.
118 118
A PROSTITUIÇÃO PARA A MULHER E A IGNORANCIA PARA A CREANÇA. O Artista,
Parnaíba, ano1, n.2, p.1, 07 set. 1919.
119
Quanto as relações de gênero entre as mulheres da fiação e os patrões, Ver: CASTELO BRANCO,
Pedro Vilarinho. Mulheres plurais. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1996.
74
A União Progressita, vai empregar todos os esforços para a regularização de
8 horas de trabalhos diários para os artistas e operários desta cidade, na
ordem seguinte: - das 7 horas as 10, das 11 as 16 (4 da tarde). O artista
precisa ser mais livre, e ter uma salário mais elevado, mais digno de seu
sacrifício, especialmente, na durezza da epocha de carestias que
atravessamos. [sic]120
Além da luta pela redução da jornada de trabalho, através das páginas do jornal,
faziam militância pelo aumento de salário, o que mostra um início de uma campanha via
imprensa para chamar os operários para não apenas uma festa, mas um movimento social para
o dia 1º de Maio que estava por vir.
Outro aspecto interessante dessa edição fora a publicação da ata de reunião da
Sociedade União Progressista dos Artistas Mecânicos e Liberais de Parnaíba, mostrando um
interesse em compartilhar as ações e as decisões daquela entidade. Ações que começam a
adentrar a questão da instrução, já que para as crianças que queriam ler, escrever e contar, é
noticiado que haverá um professor em uma casa no bairro tucuns, iniciando as aulas aos
interessados, e em seguida é anunciado que o diretor gerente do jornal, e presidente da
sociedade que o dirige, o pintor Bezerra Leite, logo irá ministrar aulas de artes para os garotos
aprendizes que já saibam ler.
Esse parece ser o clima daquele jornal que confunde-se com aquela sociedade, o
clima de cooperação entre os operários.
Essa necessidade de cooperativismo era sempre mencionada, principalmente nas
matérias de capa do jornal, chamando a atenção dos operários para a necessidade de se
agremiarem naquela sociedade, na edição do dia 5 de outubro de 1919 , é afimado que; “só a
União poderá organizar e levar a cabo suas promessas e intenções beneméritas” 121 e “fazer
convergir para um só ponto as energias dispersadas dos nossos operários”122. Em seguida foi
apresentado o exemplo do Tratado de Versailles, que em um de seus desdobramentos, discutiu
leis para regulamentar o trabalho junto com as agremiações operárias da Europa, assim O
Artista, tinha a clara intenção de organizar essa agremiação, que aqui no Piauí, fosse forte o
bastante para negociar e pautar os direitos dos operários com as classes patronais, ou até
mesmo com o estado. E é anunciado que o número de associados a sociedade que guiava o
jornal, continuava a aumentar, e agora contavam com 78 associados. E em seguida anunciam
120
FESTAS. O Artista, Parnaíba, ano1, n.2, p.2, 07 set. 1919.
HELIOS. União progressista. O Artista, Parnaíba, Ano1, n. 3, p.1, 05 out. 1919.
122
HELIOS. União progressista. O Artista, Parnaíba, Ano1, n. 3, p.1, 05 out. 1919.
121
75
que fazem parte da liga contra o analfabetismo, e pedem aos artistas da terra que os ajudem
nessa difícil tarefa que atingia tristemente ainda grande parte dos operários.
Porém o analfabetismo não era o único mal que atingia aqueles operários, a miséria
também, por isso O Artista, traz uma coluna intitulada “Aos humildes” onde denuncia os 20 e
tantos mil pessoas parnaibanas que vivem; “a moreijar, servindo de vis escravas, a uma
dezena de potentados”123. No meio deste texto reclamam dos próprios operários que as vezes
não querem dar uma moeda por aquele jornal, que serve de espaço de denuncia da própria
classe, e seguem dizendo quão valoroso é qualquer apoio aos necessitados, e por final, como
de costume emergem o exemplo de Jesus que ensinou a ajudar os humildes.
Ajuda esta que se traduz na caridade, outro artigo no jornal que se intitula assim, e
nesse artigo mencionam São Paulo, São João e Santo Agostinho, três figuras católicas que
pregavam e incentivavam a caridade e sua necessidade para a alma do Cristão.
Outro ponto inovador no jornal, referente a imprensa operária do Piauí, são os
anúncios, e os pêsames dados a morte de operários e artistas, que chegam nas páginas do
jornal com uma lembrança daquele operário, e com lamentações. O que indica a importância
social que os operários realmente tinham para aquele jornal, é isso que traduz a lembrança na
hora da morte.
E outras demonstrações de interesse nas condições de vida dos operários seguem por
aquelas páginas, por exemplo anunciando a criação de novas escolas, como a escola noturna 7
de março que tinha função de ensinar ofícios de profissão, outras escolas pela parte do dia,
que cobravam o valor mensal de 1000 réis, mais ou menos o que operários homens ganhavam
por dia, o preço era bastante acessível, indicando uma ação social de fato.
O jornal O Artista, também demonstrava uma grande relação com outros jornais,
principalmente jornais Cearenses, que eram anunciados em suas páginas, o jornal era muito
aberto as várias contribuições, principalmente abria espaços para operários, como o caso,
ainda nesta edição, de M. Falcão, trabalhador carpinteiro especialista em construção de
caixões, que anuncia que sua vida inteira construiu caixões a preço baixo devido as condições
financeiras de seus clientes, mas que agora por questões de saúde não poderá mais
confeccioná-los, e pede para a população não procurá-lo para tal atividades.
Na coluna “Para rir”, vem novamente o tema eleições e eleitores, mantendo sua
posição ideológica o jornal debocha das eleições contando uma história satírica de um
operário que foi votar, votou e nem ao menos soube em quem votou, a crítica se baseia no
123
PAN. Aos humildes. O Artista, Parnaíba, ano1, n.3, p.1, 05 out. 1919.
76
voto dos analfabetos, dos operários que eram comumente utilizados como massa eleitoral das
oligarquias do local.
Este numero 3, foi o último número do ano de 1919, e último a ser dirigido pelo
pintor Bezerra Leite, no próximo número, já no ano de 1920, além do diretor gerente não ser
mais o operário Bezerra Leite, teremos um redator chefe no local de diretor gerente, entre
muitas outras modificações que terão o jornal, como os próprios anúncios, que antes eram
exclusivamente de profissionais liberais, e artistas que quisessem oferecer seus trabalhos,
agora o jornal passa a divulgar em seus classificados, anúncios do governo, de outras
empresas, e até mesmo aqueles anúncios de créditos mútuos criticados pelo jornal O Obuz, e
lojas grandes de Parnaíba, sem excluir os profissionais liberais.
Parnayba, 1º de janeiro de 1920, sai agora ás ruas de Parnaíba O Artista, agora
custando o valor fixo de 200 réis, com o Diretor Francisco Ayres que foi possível saber que
era uma funileiro, Gerente J. Mascarenhas, e como Redator Chefe A. L. Pessoa.
Logo de início uma explanação ao público leitor sobre o novo momento do jornal,
que após 3 meses sem uma publicação, vem a público explicando que houve uma modificação
na diretoria da Sociedade União Progressista dos Artistas Mecânicos e Liberais de Parnaíba,
que o momento carecia de mudança entendendo os novos rumos em que se encontrava o
mundo, as explicações referentes a mudança dentro da direção do jornal e da Sociedade, eram
um tanto quanto vazias, ficando nítido somente a divergência entre o modelo que se propunha
agora e o modelo passado. Todavia, por motivo maior talvez de preservar a idéia de unidade
das classes laboriosas de Parnaíba, os detalhes ficaram escondidos;
Exacto é que surge ainda, as vezes, se bem que raramente, leves
dissonâncias, ligeiras divergências, entre os elementos constitutivos da
classe: isso porém comprehende-se atravéz de todas associações que
organisam e máxime nos primeiros dias de sua existencia, quando as
opiniões se contradizem ainda, nu´m debater de idéas que se substituem, que
se remodelam, que se renovam, - tendentes a boa constituição da
sociedade.[sic]124
Exato mesmo, é que o antigo responsável pelo jornal, o pintor Bezerra Leite, fora expulso da
Sociedade Progressista, os motivos não aparecem no jornal, aparecem apontando que ele
descumpriu um dos artigos do estatuto da organização. Não só ele fora expulso, mas uma
parenta sua que ocupava o cargo de professora em uma das escolas da Sociedade Progressista,
124
O MOMENTO. O Artista, Parnaíba, ano1, n.4, p.1, 01 jan. 1920.
77
também saiu de seu cargo.
O jornal a partir desse período apesar de levantar as mesmas bandeiras, daquela base
que fora decidida para a associação, começa a mudar a retórica para com os operários em
alguns pontos no jornal.
Continuam a campanha pelo enaltecimento intelectual, porém afirmam que o jornal
carece de uma linguagem mais culta, mais fina, dando a entender que isso não ocorria
anteriormente, e ao combater o analfabetismo, o faz de uma maneira diferente, não tendo em
mente a tão sonhada unidade operária, mas pelo contrário, dividindo o operariado;
O operário sensato, honesto, que procura distinguir-se como operário no seu
officio, eleva a sua classe, honra a sua palavra, eleva a sua classe, honra a
sua Patria e tem o seu conceito firmado no seio da sociedade em que vive. É
preciso, entretanto que elle possua alguns conhecimentos e esteja a par da
situação econômica de seu paiz, afim de nunca cahir no ridículo de reclamar
melhorias, sem saber as razões que induzem a assim proceder.[sic]125
O operário distinguindo-se dos demais, e aumentando o seu conceito em meio aquela
sociedade, já não pode ser o mesmo operário que lutará por um engrandecimento com
colaboratividade, com coesão e união, a figura deste operário aparenta ser um tanto
individualista. E quanto ao conhecimento da situação econômica do país, muito se pareceu a
anteriormente citada fala, com a do patrão da Voreaux126, da mina de carvão francesa.
E a letras do jornal seguem anunciando sua nova ideologia, criticando a grande
massa de operários que faz reclamação - e afirma que “não sabe, a maioria, a razão por que
age assim.”127, segue ressaltando que é urgente instruir o operário, e que o exemplo das
associações operárias tem trazido inúmeros benefícios, por exemplo na Argentina, mas o
jornal adverte contraditoriamente a sua fala anterior que “Essas associações porém não devem
observar a sentimentos egoístas”128, e termina o assunto com a notícia de um congresso
internacional de trabalhadores ocorrido na Argentina, e festejando a união internacional dos
125
SANTOS, Herculano. A visão de futuro: pela arte pelo ensino II. O Artista, Parnaíba, ano1, n 4,
p.1-2, 01 jan. 1920.
126
Referente a obra Germinal, de Emille Zola, e a idéia de que a classe patronal, quase rotineiramente
ao longo da historia de reivindicações operárias, tendeu a justificar a não melhoria das condições de
salário devido a crises, mas crises que raramente afetavam as industrias, afetavam primeiramente o
bolso do trabalhador.
127
SANTOS, Herculano. A visão de futuro: pela arte pelo ensino II. O Artista, Parnaíba, ano1, n 4,
p.1-2, 01 jan. 1920.
128
SANTOS, Herculano. A visão de futuro: pela arte pelo ensino II. O Artista, Parnaíba, ano1, n 4, p.2,
01 jan. 1920.
78
trabalhadores.
E quanto aos aspectos religiosos, além das relações com o catolicismo, trazendo pois
uma reflexão sobre a humildade de Cristo e o natal, esse número traz ainda uma atividade
caridosa realizada pelo Centro Espírita de Parnaíba, que resultou numa atividade social de
caridade para com velhos, aleijados e crianças pobres.
É assim que se inicia essa nova fase do O Artista.
No número próximo129, o número 4, no dia 18 de julho de 1920, o jornal passa a
custar 100 réis, e o redator chefe muda, passando a ser Thomaz Catunda, e J. Mascarenhas sai
da condição de Gerente, e quem assume tal condição é o ex-redator chefe A. L. Pessoa.
Thomaz Catunda não era um operário, muito menos um artista, na verdade era Secretario da
Estrada de Ferro Central do Piauí, que era um órgão público ligado na época ao Ministério da
Viação e Obras públicas.
O texto inicial do jornal já anuncia a redução de seu tamanho, e de suas publicações,
devido segundo os responsáveis pelo jornal a idéia de que uma associação cuja a base é a
mutualidade, não deve gastar dinheiro com o que não lhe parecer essencial,
contraditoriamente este argumento esbarra nas bases da Sociedade Progressista. De fato é que
há uma demonstração de inviabilidade econômica de publicação do jornal, que segue com
uma ata de reunião da União Progressista, e com matérias de cunho literários, e na segunda
folha um apelo aos operário e artistas da cidade a se filiarem na Sociedade União Progressista
dos Artistas Mecânicos e Liberais de Parnaíba,
Na coluna “Variedades”, a notícia referente a um assassino, que em um momento de
fúria um homem assassinou alguém, então é narrada a prisão, onde a polícia com armas a
mostra, conduz o homem a cadeia, onde o jornal afirma, poderá morrer, entretanto ao finalizar
o causo, vem a reflexão;
E os outros? Os que matam friamente com o veneno da caluminia e roubam
friamente a fortuna do Estado, e sacrificam virgens indefezes e atraiçoam
lares... Escapando a todas as formas de denuncia com o prestigio das
posições elevadas, onde se acham? Nos palácios nas recepções da
aristocracia refinadamente frívola, nas festas chics da elegância
endinheirada. Tal é a organização social de nosso tempo: um monstrengo
vicioso fingindo que toma a serio as regras da moralidade.[sic]130
129
130
O Artista, Parnaíba, Ano1, n.5, 18 jul. 1920.
CARVALHO, Vianna de. Assassino. O Artista, Parnaíba, Ano1, n.5, p.2, 18 jul. 1920
79
Palavras ácidas, pensamentos fortes que remontam a uma característica de liberdade
de voz para aquela imprensa operária, a retórica classista encontra-se bastante presente, o
jornal quis realmente estender sua revolta e denunciar a Parnaíba da época, que apresentava
ser uma cidade de privilegiados e excluídos. Mas não era tão simples assim, dentro da própria
classe alta, haviam pessoas que as vezes eram elogiadas e até mesmo festejadas pelo O
Artista, o que revela que não somente havia um sentido pela imprensa de luta de classes, mas
um sentido de luta moral, moralidade que não por acaso é a ultima palavra do desabafo no
jornal.
Outro fato muito interessante ainda nesta edição é o fato do contato do O Artista,
com um dos maiores jornais operários do Brasil; “É com maior prazer que a União
Pogressista acuza a visita da „Voz do Povo‟ diário de grande formato que se publica no Rio. E
orgam da Federação dos Trabalhadores daquelle estado, e defensor dos direitor do Operariado
Brazileiro.[sic]”131, e em seguida anunciam que logo seria nomeada uma agencia para a venda
de jornais A Voz do Povo em Parnaíba, o que confere o caráter rotativo, e interligado da
imprensa operária do período.
No último parágrafo desta edição, tem-se uma defesa de uma operário parnaibano
filiado a Sociedade Progressista, pelas paginas da imprensa operária, trata-se de um aviso;
“Pedimos ao quitandeiro que mandou escoltar o nosso consocio Benedicto Pereira da Silva,
que quando desejar tal violência communique ao nosso presidente, pois temos leis.” 132. Esta
afirmação deve ser entendida enquanto parte de uma concepção de imprensa operária, de
realmente defesa das classes trabalhadoras, O Artista, nessa característica não difere de outros
jornais operários do Piauí, porém esse citar de nomes, esse conflito direto, traz um significado
diferente a esta ação, dando-lhe uma sentido de coragem e força daquela imprensa.
Do número 5 até o número 11 do jornal O Artista, há um vazio documental, ficando
como último número que se achou até agora, o número 11, que felizmente trata-se do dia 1º de
Maio de 1922.
Que vem com uma edição especial, com as figuras de uma pá de alvenaria, um
serrote, um compasso e um esquadro(que lembram bastante um dos símbolos da maçonaria),
uma caneta(pena), e um livro. Os responsáveis pela edição são, redator-chefe Thomaz
Catunda o funcionário público, como diretor Francisco Ayres o funileiro, e como secretário
gerente o carpinteiro Manoel Falcão.
Logo de inicio o jornal se identifica como o representante das classes trabalhadoras
131
132
O Artista, Parnaíba, Ano1, n.5, p.3, 18 jul. 1920.
AVISO. O Artista, Parnaíba, Ano1, n.5, p.4, 18 jul. 1920.
80
daquela cidade, e faz uma explanação sobre a situação econômica mundial, onde já em alguns
países os progressos começam a beneficiar as classes proletárias, enquanto que no Brasil,
segundo o jornal dorme por uma política de interesses e conveniências sociais, assim;
o artista e o operário robustos e sadios, recostados aos pobres do menospreso
e do descaso, assistem de braços crusados o aniquilamento de um povo
trabalhador, e o sombrio crepusculo de uma pátria! Se os grandes dirigentes
do Paiz, pesassem e admirassem o valor e a utilidade dos que trabalham, de
sol a sol, revolvendo a terra, arado em punho e o peito nu, a cada esforço
cantarollando uma balada amarga: e os eu vivem sobre o peso do malho e os
que derramam suores honrados, no ardor fumegante das caldeiras; e os que
empregam toda a sua vida, de mão callejadas e de cabellos brancos, na
extridencia metálica das officinas erguendo altares e construindo thronos, se
os governos pesassem e compensassem o valor da arte e do Trabalho,
seríamos um povo feliz.[sic]133
Nesse trecho é nítido a capacidade que a imprensa operária detinha de externar,
passionalmente os sentimentos capturados daqueles operários e artistas através de suas
experiências cotidianas, que até aquele momento pareciam invisíveis ao poder público. É
interessante como a imprensa operária tem a chance de ainda que se trate de uma voz
relativamente baixa na época, externa naquele 1º de Maio, a vontade, a utopia de sonhar com
a valorização dos trabalhadores.
Naquela edição especial do 1º de Maio, é trago também a exaltação do trabalho,
exaltação bem parecida com as demais nos demais jornais analisados, o engrandecimento
moral e a contribuição para o progresso, a condição religiosa, o bem social e outras feições
ideológicas que caracterizam a insistente propaganda ao trabalho. E contraditoriamente ao que
fora anunciado pelo jornal quando Bezerra Leite ainda era o responsável principal, no 1º de
Maio daquele 1922, não encampou-se uma luta pelas 8 horas diárias, ou até mesmo a trouxe
como uma campanha pela imprensa, mas a censurou, e a rotulou de uma campanha de
“preguiçosos”. O jornal afirma ainda que existem reclamações operárias que afirmam “Querer
o dia de oito horas é querer mais felicidade para si e para os seus”134, e que isso era uma obra
nefasta dos agitadores, que se faziam de amigos dos operários, se aproveitavam de sua boa fé
para lhes convencer com “theorias subversivas, e os arrastando para um ambiente impregnado
133
TRABALHAR. O Artista, Parnaíba, Ano3, n.11, p.1, 01 mai. 1922.
SANTOS. Samuel A. dos. O Trabalho. O Artista, Parnaíba, Ano3, n. 11, p.2, 01 mai. 1922.
134
81
de venenos Moraes”[sic]135 e que esses agitadores tem conseguido esse almejado fim.
Isso demonstra que naquele momento em Parnaíba havia uma configuração operária
que mesmo com a investida de uma organização que ora defendeu as 8 horas, e agora não
defende mais, mesmo assim segue com esses ideais, talvez por isso é importante a
compreensão de que embora a imprensa operária seja algo que parta das camadas militantes
do operariado, que venha das partes organizadas, mesmo em suas ações em seus escritos,
ficam a contrapelo muitas das ações, dos anseios de uma camada que não estava organizada,
ou até mesmo importava-se para todo um aparato mais organizado.
Temos um exemplo disso nessa edição, quando em uma coluna intitulada “Aos
Operarios”, quando um pequeno texto, traz duras críticas ao operário da terra que não
interessa em associar-se, que não se interessa pelo engrandecimento da classe, não quer saber
do socialismo, não se interessa em alfabetizar-se, que somente interessa-lhe a bebida
alcoólica.
Quando o jornal passa para a responsabilidade Thomaz Catunda, que não era
operário, mas um literato, um intelectual funcionário público, parece que o tom das retóricas
aos operários leitores muda radicalmente. Se antes se tem falas de união, de instrução,e, de
coesão como agora ainda as tem, mas antes as falas pareciam correr pela horizontalidade, e no
momento novo, essas falas parecem vir na vertical, como o intelectual que quer moldar a
classe operária, e moldá-la em sua consciência do que deva ser o operário perfeito; aquele que
não reclama, o que não pede redução de carga horária, o que não bebe, o que almeja chegar a
um nivelamento de intelectualidade, aquele que procura adestra-se, civilizar-se dado as
normas da nova configuração.
Porém, mas uma vez contraditoriamente a tudo isso que fora afirmado anteriormente,
é na coluna intitulada “O dia redemptor”[sic], que virá um extenso texto, explicando a história
do 1º de Maio, e é nesse ponto que para muitos historiadores, empiricamente se determina as
visões políticas e as aspirações para a classe operária.
Na Primeira República, as organizações operárias, a imprensa operária que tendia as
correntes mais socialistas, identificavam o 1º de Maio referindo-lhe ao exemplo da França,
dos trabalhadores que remetiam a decisão do Congresso Socialista Internacional ocorrido em
1889 - de em 1890 no dia 1º de Maio que os trabalhadores franceses encamparam uma luta a
favor das 8 horas de trabalho.136. Já o lado dos sindicalistas revolucionários e dos anarquistas,
remetiam sempre a lembrança dos mártires de Chicago, que o historiador Eric Hobsbwam
135
136
SANTOS. Samuel A. dos. O Trabalho. O Artista, Parnaíba, Ano3, n. 11, p.2, 01 mai. 1922.
BATALHA, Cláudio, 2005, p.108.
82
alude que houve um peso significativo desses mártires de Chicago no movimento operário
dos países Latino-Americanos137, que por ocasião fora o a lembrança tida pelo O Artista
naquele dia, e que ao contar o desenrolar dessa história de Chicago, confirmou o que Cláudio
Batalha percebeu que, “a idéia de martírio está indissociavelmente ligada à noção de
redenção”. Redenção essa que era o próprio título do texto, que em sua parte final,
contraditoriamente ao discurso da ideologia do trabalho que inicia o jornal, afirma que o 1º de
Maio em Parnaíba, pela consciência da memória dos mártires de Chicago, é o dia em que os
operários; “Proclamam ser o dia da emancipação do trabalho”. E assim fica a imagem para as
páginas da história do úlimo número encontrado do Jornal O Artista.
Na parte final da década de 1920, não encontrei jornais de cunho operário, mas ao
analisar as retóricas dos jornais não-operários referentes ao operariado, encontrei
características interessantes, que ajudam a entender em um sentido mais amplo a própria
imprensa operária estudada, e também as imagens operárias destes período.
Em 15 de Fevereiro de 1927, no jornal O Piauhy, publicado na capital Teresina, traz
uma interessante demonstração de apoio político de diversas organizações operárias,138 e de
operários correspondentes ao candidato José de Abreu.
O jornal publicara mensagens de apoio político dos operários que vinham de Barras,
Simplício Mendes, Parnaíba e Campo Maior. O título da publicação é “O Operariado
Piauhyense e o actual momento político”139 com o sub-título “O apello do Dr. José de Abreu
repercutiu symphaticamente no seio proletário patrício”[sic]140.
Esse fato trata-se da tentativa do político José de Abreu, demonstrar as operários
Teresinenses, que os demais trabalhadores do Piauí davam o indicativo de voto para Abreu. E
além disso, é demonstrado o prestígio político que nesse momento começava a ter as classes
trabalhadoras do Piauí.
Em outra edição do mesmo jornal141, há um recado de José de Abreu ao operariado
teresinense, o recado referia-se a uma reunião marcada em sua casa, para instruir os operários
da cidade a votarem nele, no próximo pleito. José de Abreu adverte que irá tratar
137
Ver: HOBSBWAM, Eric. A formação das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.
Centro Operário Barrense , União dos Maquinistas, Centro Operário Campo Maiorense, Artístico
Fubtebol Clube.
139
O OPERARIO PIAUHYENSE E O ATUAL MOMENTO POLÍTICO. O Piahuy, Teresina, Ano 60,
n. 37, p.1, 15 fev. 1927.
140
O OPERARIO PIAUHYENSE E O ATUAL MOMENTO POLÍTICO. O Piahuy, Teresina, Ano 60,
n. 37, p.1, 15 fev. 1927.
141
JOSÉ DE ABREU AO OPERARIADO PIAHUYENSE. O Piahuy, Teresina, ano 60, n. 38,18, p.1,
fev.1927.
138
83
exclusivamente de política, e que atenderá os operários das 18 ás 22 horas, pois sabe das
ocupações dos trabalhadores. Se entendermos que somente votava na Primeira República os
alfabetizados, esse período além de significar uma importância política grande do operariado
do Piauí, indica que o nível de instrução aumentou no meio dos trabalhadores, incidindo na
preocupação de políticos que procuravam seus votos.
Essa relação da imprensa não operária com os trabalhadores é marcante não somente
na política, mas também na própria abertura de suas páginas para os recados, estatutos, e até
mesmo opiniões políticas das associações.
No Jornal O Piauhy, no ano de 1929, pelas edições que pesquisei, inventariei os
seguintes temas que apareceram e se relacionam com os operários; Convites do Centro
Proletário para reunião de seus associados, notícias de greves operárias em outras cidades
brasileiras, Estatuto da Alliança Federativa dos Obreiros do Piauí, anúncio da construção da
Casa do Operário em Teresina, anúncios de festas operárias realizadas pelas organizações de
trabalhadores, e até mesmo a notícia das ações do primeiro Sindicato que encontrei
mencionado nas páginas do jornal, tratava-se do Sindicato Agrícola das Chácaras e Quintais,
que chamavam seus associados para ajudar no combate as saúvas e pulgões.
Todos esses temas, vinham em matérias irrelevantes em seu tamanho, exceto a
publicação de estatutos de organizações operárias, o que produz um significado de
importância das classes trabalhadoras naquele período final da Primeira República, e também
na própria afirmação das organizações operárias do Piauí, organizações que parecem até
então, serem de característica mutual, mas ainda é muito cedo para afirmar isso, e esse tema
necessita de uma investigação futura mais detalhada.
Assim os jornais não-Operários do final da década de 1920, informam mais pelos
seus silêncios, do que pelo que anunciam. Deixando a mensagem de que o tema está ainda por
ser pesquisado.
84
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não permeia as minhas intenções, incidir aqui nesta parte um tom de conclusão,
embora seja esse o apontamento correto que se deva seguir, a intenção dessa pesquisa desde o
seu início, não fora dar o tom da conclusão. E mesmo que fosse minha vontade, com o que
consegui até aqui, fica explícito que muitas histórias dos operários da Primeira República
Piauiense ficaram em aberto.
Devido ao problema da pouca disponibilidade das fontes, a não existência de uma
historiografia operária do Piauí para facilitar um possível debate, e também da inexperiência
desse pesquisador iniciante que vos escreve. Pois tenho certeza, que essas fontes necessitam
de mais investigações, mais entrecruzamentos e talvez mais conhecimento do pesquisador que
as opere. Porém, como estou aqui e coube muito felizmente a mim esta documentação, tecerei
alguns comentários em torno dessas fontes e do que elas conseguiram revelar que eu ainda
não tenha mencionado de forma mais separada, ou até mesmo detalhes que julgo importantes,
detalhes que ficaram dessa 1º imagem historiográfica da imprensa operária piauiense.
Os jornais operários e não operários dessa pesquisa, revelaram-se locais de disputas
ideológicas, e de tentativa de imprimir uma realidade, ou desenhar uma já existente. Através
desses jornais, pude notar que as relações entre os operários, entre a camada militante
operária, eram; hora de harmonia, e horas de profundas discordâncias, evidenciando que ali
era um palco, demonstrativo e constitutivo, da cultura operária. Através dessa imprensa
operária, pude vislumbrar; condições de vida dos trabalhadores, miséria, salários, correntes
ideológicas,
aspirações
políticas,
sonhos,
utopias,
revolta,
acomodação,
rebeldia,
consentimento, condição feminina, dentre muitos outros temas que embora fossem escritos
por pessoas, que em alguns casos não pertenceram a classe operária, todavia estavam
dialeticamente ligadas ao operariado.
E foi nesse sentido também um pouco da minha análise, entender que existe uma
dialética do que estava escrito e do que acontecia, pois dentro da retórica da ideologia do
trabalho, havia a possibilidade de entender que nem todos queriam, ou glorificavam o
trabalho, dentro da retórica legitimadora anti-anarquista, pode ser entendido que havia esse
perigo a rondar as ideias dos trabalhadores do período. Mas para além dessa idéia dialética, os
jornais operários me possibilitaram perceber, que ali as letras não eram pensadas para a
dominação, ou já com intenção exclusiva de alinhar ideologicamente os operários – a
linguagem era lançada, isso era um fato, ela formava consciências, consciências que poderiam
ser de absorção ou de recusa, e pelas fontes analisadas, percebo que em momento, os
85
trabalhadores absorviam, como nas festas do 1º de Maio, e em outros momentos não, como na
questão da propaganda anti-alcoolismo. Então essa imprensa operária, ainda que parta de uma
camada mais organizada, e atualmente alguns pesquisadores vêem com perigo esse tipo de
fonte, mas essa imprensa, nos ajuda a perceber a autonomia de que tinham aqueles
trabalhadores, a autonomia necessária para que, embora houvessem tentativas de se formar o
operário ideal, a noção de como deveria ser a classe proletária, aqueles operários através dos
ecos, nos demonstram que tomaram suas próprias decisões no campo da consciência.
E nesse ponto, referente as problemáticas de consciência, há que se atentar para o
fato de que havia um ideal a ser alcançado pela aquela imprensa, que era a honra, a justiça, a
paz, a igualdade, o bom, o correto, é o que a temporalidade permite sonhar, é a periferia do
capitalismo, repleto de desigualdades sociais, misérias e sofrimento, é o que se quer dentro do
sistema liberal da época, se quer a justiça, justiça essa, que no âmbito do desejo, ficou muito
atrelada também ao modelo de justiça divina, da resignação, da humildade. E têm-se que
nessa 1ª imagem da imprensa operária no Piauí, reconhecer a importância social do
catolicismo nesse momento, pois aqueles trabalhadores, organizados ou não, tinham-lhes
como referencia comum, sempre a figura de Cristo, figura romanizada do Messias, figura do
humilde carpinteiro, que não esperou honras, não quis méritos humanos, e sem esperar
recompensas, ao final sentou a direita do Pai.
Essa é a concepção do período, por isso o já discutido socialismo, enquanto algo
bom, algo justo, equilibrado, encontrava espaços dentro do catolicismo dos costumes.
Catolicismo que era responsável não somente por influenciar os sentimentos, dirigir os ideais
dos operários, mas também pela própria organização dos trabalhadores, como o já citado
cortejo do 1º de Maio. Se visualizarmos os papéis das organizações operárias nesse texto,
iremos ver; Caridade, irmandade, instrução, apoio. Todas características muito semelhantes ao
papel histórico de alguns setores do baixo clero católico, que aqui no Piauí ainda
reverberavam. E essa aproximação com os dogmas católicos, que configuravam as
organizações operárias e a imprensa, se mesclavam com influencias de entidades operárias,
atitudes do movimento operário brasileiro de todos os lugares, e de todas as correntes do
Brasil daquele momento, demonstrando que aquela imprensa, tão pequena, tão apertada nas
poucas páginas, tão suada para ser feita, reproduzia um universo de acontecimentos, e
influencias que pairavam pelo mundo afora. Reforçando a conectividade que tinham aqueles
jornais com grandes centros do mundo, e os grandes centros urbanos brasileiros, além da
intrigante ligação do eixo meio-norte brasileiro.
Assim, essa pesquisa mostrou que havia uma configuração operária no Piauí, que
86
havia uma imprensa operária que retratava diversos temas relacionados ao operariado, e que o
estudo da temática não pode ainda, ter um ponto final...
87
REFERÊNCIAS
ARTIGOS, LIVROS E CAPÍTULOS DE LIVROS
ARAÚJO, Maria Mafalda Baldoino de. Cotidiano e pobreza: a magia da sobrevivência em
Teresina. Teresina: EDUFPI, 2010.
BATALHA, Cláudio. A historiografia da classe operária no Brasil: trajetória e tendências. In:
FREITAS, Marcos Cezar de. (Org.). Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo,
Contexto, 2000.
BATALHA, Cláudio et. al. (Org.). Culturas de classe: identidade e diversidade na formação
do operariado. Campinas: Editora da Unicamp, 2005.
BATALHA, Cláudio. Dicionário do Movimento Operário: Rio de Janeiro do século XIX aos
anos 1920. São Paulo: Perseu Abramo, 2009.
BATALHA, Cláudio. Vida associativa: Por uma História Institucional nos estudos do
movimento operário. Anos 90: Porto Alegre, n.8, dezembro de 1997.
BATALHA, Cláudio. O movimento operário na Primeira República. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2000.
BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política - Obras Escolhidas - Vol. I - 8ª Ed. São
Paulo: Brasiliense, 2012.
BERMAN, Marshall. Tudo o que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade. São
Paulo; Companhia das Letras, 1986.
CARONE, Edgar. Movimento operário no Brasil 1877-1944. 2. ed. São Paulo: Difel, 1984.
CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil.
São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
CASTELO BRANCO, Pedro Vilarinho. Mulheres plurais. Teresina: Fundação Cultural
Monsenhor Chaves, 1996.
CASTORIADIS, Cornelius. A Experiência do Movimento Operário. São Paulo: Brasiliense,
1984.
CHAUÍ, Marilena. Apontamentos para uma Crítica da Ação Integralista Brasileira. In:
Ideologia e Mobilização Popular. São Paulo, CEDEC/Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim: O cotidiano dos trabalhadores no Rio de
Janeiro da belle époque São Paulo: Brasiliense, 1986.
DECCA, Maria Auxiliadora Guzzo de. A vida fora das fábricas: Cotidiano operário em São
88
Paulo1920- 1934. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
FAUSTO, Boris. Trabalho urbano e conflito social. São Paulo: Difel. 1977.
FERREIRA, Jorge (Org.). O populismo e sua história: debate e crítica. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2001.
FERREIRA, Maria Nazareth. Imprensa Operária no Brasil.São Paulo: Ática, 1988.
FREIRE JÚNIOR, Leôndidas. Cultura Operária Associativa: o centro proletário piauiense e
os trabalhadores da primeira república no Piauí. In: VI SIMPÓSIO NACIONAL DE
HISTÓRIA CULTURAL, 2012, Teresina. Anais Eletrônicos... Disponível em
<http://gthistoriacultural.com.br/VIsimposio/anais/Leondidas%20Freire%20S.%20Junior%20
&%20Antonio%20Melo%20Filho.pdf > Acesso em 23 mar. 2013.
GAY, Peter. O cultivo do ódio: a experiência burguesa da rainha Vitória a Freud. São Paulo:
Companhia das Letras, 2001.
GOMES, Ângela M. de Castro. A invenção do trabalhismo. São Paulo: Vértice, 1988.
GOMES, Ângela M. de Castro. Burguesia e Trabalho: Política e legislação social no Brasil
1917 - 1937. Rio de Janeiro: Campus, 1979.
GRAMSCI, Antonio.Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1982.
HALL, Michael; PINHEIRO, Paulo S. A classe operária no Brasil documentos 1989-1930: O
movimento operário. São Paulo: Alfa-Ômega, v. 1, 1979.
HARDMAN, Francisco Foot; LEONARDI, Victor. História da Indústria e do Trabalho no
Brasil: das origens aos anos 20. São Paulo: Ática, 1991.
HOBSBWAM, Eric. A formação das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.
HOBSBWAM, Eric.Como mudar o mundo: Marx e o Marxismo.São Paulo: Companhia das
Letras, 2011.
HOBSBAWM, Eric. Mundos do Trabalho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
HOBSBAWM, Eric. Sobre História. São Paulo: Cia. das Letras, 1998.
KOSSOY, Boris; TUCCI CARNEIRO, Maria Luiza. A imprensa confiscada pelo DEOPS
1924-1954. São Paulo: Imprensa Oficial, Ateliê Editorial, Arquivo do Estado, 2005.
MARCUSE, Herbert. Materialismo Histórico e Existência. 2. ed. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro, 1968.
MATOS, Marcelo Badaró. Trabalhadores e sindicatos no Brasil. São Paulo: Expressão
Popular, 2009.
89
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2007.
MEDEIROS, Antônio José. Movimentos Sociais no Piauí. In: SANTANA, R. N. Monteiro de.
(Org.). Piauí: formação, desenvolvimento, perspectivas. Teresina: Halley, 1995.
MUNAKATA, Kazumi. A legislação trabalhista no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1985.
NASCIMENTO, Ana. Educação na imprensa: O jornal como fonte para a história da educação
operária do Piauí. In: III CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO ESCOLAR
EM PERSPECTIVA HISTÓRICA, 2004, Paraná. Anais eletrônicos... Disponível em
<http://sbhe.org.br/novo/congressos/cbhe3/paginas/cbhe.htm>. Acesso em 06 jun. 2011.
NASCIMENTO,
Ana.
A “escola 14 de julho” e a experiência educacional de uma
organização operária em Teresina de 1907 a 1944.
In:
GT
EDUCAÇÃO, MOVIMENTOS
SOCIAIS E DIREITOS HUMANOS – UFPI. 2004, Teresina. Anais Eletrônicos... Disponível em
<http://www.ufpi.br/subsiteFiles/ppged/arquivos/files/eventos/evento2004/GT.6/GT6_1_2004.pdf.>
Acesso em 06 jun. 2011.
NASCIMENTO, Ana. O caráter e a forma de organização dos trabalhadores em Teresina de 1900 a
1938. In: XXII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 2003, João Pessoa. Anais eletrônicos...
Disponível em <http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S22.046.pdf .>. Acesso
em 06 jun. 2011.
PESSOA, Jordânia; MELO, Salânia. (Org.). Percorrendo becos e travessas: feitios e olhares
das Histórias de Caxias. Teresina: EDUFPI, 2010.
PESSOA, Jordânia. Entre a tradição e a modernidade: A belle époque caxiense, práticas
fabris, reordenamento urbano, e padrões culturais no final do século XIX.Dissertação
(Mestrado em História do Brasil) Universidade Federal do Piauí, Teresina, 2007.
POLANYI, Karl. A Grande Transformação: as origens de nossa época. Rio de Janeiro,
Editora Campus, 1980.
QUEIROZ, Teresinha de Jesus Mesquita. Os literatos e a república: Clodoaldo Freitas,
Higino Cunha e as tiranias do tempo. Teresina: EDUFPI, 2011.
RODRIGUES, José Albertino. Sindicato e desenvolvimento no Brasil. São Paulo: Difusão
Européia, 1968.
SANTOS, Gervásio; KRUEL, Kenard. História do Piauí, Teresina: Halley/Zodíaco, 2009.
SCHOPENHAUER, Arthur. A Arte de Escrever. São Paulo: Editora L&PM, 2009.
SCHWARTZMAN, Simon. Pobreza, exclusão social e modernidade: uma introdução ao
mundo contemporâneo. São Paulo: Augurium Editora, 2004.
SCOTT, Joan. Gênero, Uma categoria útil de análise histórica. Recife: SOS Corpo, 1991.
90
SIMÃO, Aziz. Sindicato e Estado: Suas relações na formação do proletariado de São Paulo.
São Paulo: Dominus, 1966.
TAJRA, Jesus Elias; TAJRA FILHO, Jesus Elias. O comércio e a indústria no Piauí. In:
SANTANA, R. N. Monteiro de. (Org.). Piauí: formação, desenvolvimento, perspectivas.
Teresina: Halley, 1995.
THOMPSON, E.P. A formação da classe operária inglesa. I : A árvore da liberdade. Rio de
Janeiro:paz e Terra, 1987.
TOLEDO, Edilene. A Trajetória Anarquista no Brasil da Primeira República. In; FERREIRA,
Jorge; REIS, Daniel Aarão (Orgs.). A formação das tradições 1889-1945. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2007.
VINHAS, Moisés. O Partidão: A luta por um partido de massas 1922-1974, São Paulo:
Editora Hucitec, 1982.
WILLIAMS, Raymond. Marxismo e Literatura. Rio de Janeiro: Zahar Editora, 1979.
ZOLA, Émile. Germinal. Martin Claret, 2009.
91
JORNAIS, REVISTAS E PERIÓDICOS
Jornal A’Chibata (Teresina)
Jornal A Tarde (Teresina)
Jornal Andorinha (Teresina)
Jornal Borboleta (Teresina)
Jornal Cidade Floriano (Floriano)
Jornal Cidade Verde (Teresina)
Jornal Correio de Oeiras (Oeiras)
Jornal do Commércio (Teresina)
Jornal O Artista (Parnaíba)
Jornal O Fanal (Teresina)
Jornal O Jornal (Teresina)
Jornal O Norte(Teresina)
Jornal O Obuz (Teresina)
Jornal O Operário (Teresina)
Jornal O Piauhy (Teresina)
Jornal O Tempo (Parnaíba)
Jornal Operário (Amarante)
Jornal Periperi (Piripiri)
Jornal Polianthéa (Teresina)
92
ANEXOS
93
Anexo I – Jornal O Operário
94
Anexo II – Jornal Operário de Amarante
95
Anexo III – O Artista
96
Download

INTRODUÇÃO Meus ouvidos durante a graduação pareciam teimar