IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected] COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected] EIXO: Educação e Arte / n. 16 Agência Financiadora: CAPES Resumo Este trabalho relaciona os campos das Artes Visuais, Literatura e Educação com o intuito de pensar o fazer-pesquisa no campo educacional. Partindo do referencial teórico de Roland Barthes dialoga com o conceito de punctum e a ele aproxima a expressão francesa coup de foudre encontrada na literatura do escritor francês Guy de Maupassant. Tal expressão literalmente traduz-se por golpe de relâmpago, e tem como figura o Amor à primeira vista. Esta expressão opera como imagem de pensamento sendo entendida como algo que faz defasar, que faz perder referências, transformando a rota e também o próprio entorno. Buscamos na linguagem da impressão monotípica alguns elementos para pensar acerca do percurso do pesquisador em seus (des) encontros com os mais diversos materiais de pesquisa. É possível pensar uma pesquisa em educação que não se proponha a falar sobre Arte e Literatura, mas com Arte e Literatura? Não pretendemos responder esta questão, mas colocá-la em movimento através da experimentação escrita e também visual, esta se dá através da impressão monotípica. Retiramos da Gravura a concepção de impressão como forma de expressão no que diz respeito à sua característica de lidar com o acaso que decorre do encontro entre superfícies. O fazer-pesquisa ao qual nos propomos alia-se a acasos e tempos intensivos e tem como material aquilo que encontra ao criar o método de percurso durante o percurso. Palavras-chave: Impressão – Coup de Foudre – Punctum - Educação – Pesquisa Literatura Introdução Barthes (2005) em uma de suas primeiras aulas sobre a escrita do romance discorre sobre a vontade de escrever um romance e sua preparação. No caso, Barthes está a falar da sua vontade de escrever um romance e de como ele pensa a preparação do seu romance. A 2 IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected] COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected] EIXO: Educação e Arte / n. 16 Agência Financiadora: CAPES busca pelo desejo de escrever, para Barthes, se dá através de um “vínculo” com o presente, sendo este, o presente, o material que se deseja. O que nos interessa neste texto é justamente este “amor pelo material” (p. 36), já que nos propomos a falar acerca da Pesquisa em Educação. Ainda neste mesmo curso Barthes vai dizer que o método para a escrita do romance advém do percurso feito ao buscar tal escrita, ou seja, para ele o caminho é a própria realização e o fim do percurso. Então, entendemos que a preparação de uma pesquisa é sua própria realização e seu percurso. Mas, entendemos também, com Barthes, que se deve amar o material, sendo este encontrado no percurso, devendo se fazer presente na escrita da pesquisa em educação. Ainda em Barthes (1984) encontramos uma de suas impressões acerca de uma fotografia de uma paisagem: “diante dessas paisagens de predileção, tudo se passa como se eu estivesse certo de aí ter estado ou de aí dever ir” (p. 65). Para o autor, as fotografias de paisagens devem ser habitáveis, e não visitáveis. Tomamos aqui emprestada tal impressão de Barthes e a transportamos para o pesquisador que busca os materiais em sua pesquisa: devemos nos apaixonar pelos materiais com os quais pretendemos compor nossa pesquisa a ponto de torná-los nossa moradia e não apenas um objeto a ser visitado e observado do lado de fora. Corazza (2004, p.21-25) chama de “Pesquisa en fuite” esta pesquisaexperimentação que tem como estética a escrita da pesquisa como uma criação que desafia os juízos pré-estabelecidos, exigindo a fabricação de conceitos em intercessão com as artes, as ciências e a filosofia. Para isso exige do pesquisador, não que ele venha armado com alguma teoria prévia, mas sim que ele possa ser um experimentador que ajuda a formular novos problemas, que sugere a criação de novos conceitos, que se apaixona no percurso por novas matérias afim de incorporá-las e transformá-las. Sabemos que não se pesquisa sobre uma tábula rasa, sobre algo inexistente ou esvaziado de sentidos. Acerca do próprio fazer e pensar a pesquisa em educação já existe uma farta população de clichês, de materiais, de percursos feitos. Não se trata aqui de destruir todos esses clichês, pois isso novamente traria a sensação de se estar situado num método sem caminho a se percorrer. Trata-se de amar os clichês, sim. Ou como disse Barthes (2005) “Estar apaixonado é perder a pose e aceitá-lo, portanto, nenhuma pose a 3 IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected] COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected] EIXO: Educação e Arte / n. 16 Agência Financiadora: CAPES perder” (p. 42). Perder a pose ao se apaixonar por aquilo que se apresenta como matéria, como percurso, para, só assim, poder caminhar em outras direções. Talvez a questão seja justamente essa, percorrer pelo já feito buscando brechas e criando novos caminhos que se mostram inevitavelmente no percurso, no presente. Propomos aqui, em intercessão com alguns contos da literatura de Guy de Maupassant, com o conceito de punctum para Barthes (1984) e também com a linguagem da Gravura (mais especificamente a impressão monotípica) proveniente do campo das Artes Visuais, pensar a pesquisa em educação enquanto possibilidade de encontros com as diversas matérias que a atravessam durante o percurso do pesquisador. Também temos como propósito colocar em movimento este fazer-pesquisa através da experimentação escrita e também visual, esta se dando através da impressão monotípica1. Coup de Foudre A expressão francesa coup de foudre é encontrada na literatura do escritor francês Guy de Maupassant e literalmente traduz-se por golpe de relâmpago, tendo como figura o Amor à primeira vista. Esta expressão opera aqui como imagem de pensamento sendo entendida como algo que faz defasar, que faz perder referências, assim, em alguns contos de Guy de Maupassant2, o personagem principal ao vivenciar um (des) encontro transforma-se, muda sua rota, transformando também o próprio entorno. Aquilo que ali tão bem exercia uma função passa agora ao desalinhamento e daí já não se sabe o que será. Do francês, Coup: 1. golpe, pancada. 2. Choque emocional 3. gole, trago 4. jogada Foudre: relâmpago. Coup de foudre: acontecimento desastroso e atemorizante; manifestação súbita do amor desde o primeiro encontro, ato de se apaixonar. Coup de foudre: a) raio, faísca b) fig amor à primeira vista. 1 O autores do presente texto conversam com o campo das Artes Visuais através de um estudo teórico mas também realizando experimentações visuais, neste caso mais especificamente com a Gravura. 2 Os contos de Guy de Maupassant utilizados no presente textos são: “A noite (pesadelo)” (2004); e “Passeio. In: O abandonado e outros contos” (1997). 4 IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected] COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected] EIXO: Educação e Arte / n. 16 Agência Financiadora: CAPES Ainda encontramos para Coup, combinado com outras palavras, os seguintes significados: ça vaut le coup - Vale a pena. Coup de balai - Vassourada. Coup de bec bicada. Coup de brosse - escovada. Coup de chance - golpe de sorte. Coup de corne chifrada. Coup de couteau - facada. Coup de dent - dentada. Coup de pied - pontapé. Coup de pierre - pedrada. Coup de poignard - punhalada. Coup de poing - soco. Coup de soleil insolação. Coup de tête - cabeçada. Coup sur coup - sem parar. Tenir le coupe – agüentar, suportar. Coup de foudre - raio, faísca, amor à primeira vista. Relâmpago . Acontecimento desastroso e atemorizante; manifestação súbita do amor desde o primeiro encontro, ato de se apaixonar. Um encontro quase sempre pode ser um golpe. Uma pancada no estômago. Às vezes deixa o coração na boca. E a torna órgão do não-falar nada. Fato é que se trata de um apaixonamento. Um encontro pode produzir mudos. Pode também produzir cantaroladores. Isso, muitas vezes. Outras tantas não. Um encontro às vezes é e de repente já foi. Relâmpago que só se sabe que existiu por causa do estrondo do trovão. E da luz cegante. Mas às vezes nem se percebe. Devido à subtaneidade do ato de encontrar. De súbito arrebata e já era. O encontro foi-se. Um encontro quase sempre é um desencontro. Aquilo que deixa de ser quem quer que esteja envolvido na situação. É assim que pensamos a pesquisa, como aquilo que decorre de um (des)encontro e que permite que os envolvidos transformem-se. A aprendizagem pode ser pensada da mesma maneira, como essa perda de referências que faz com que se construa novas perspectivas para a matéria com a qual estáse a apaixonar. Monsieur Leras3 teve desencontros esvaziados de encontros que fizeram da sua vida um coup de foudre, um amor à primeira vista constante com os vazios do dia-a-dia. “Transcorreram quarenta anos, longos e rápidos, vazios como um dia de tristeza e tais como as horas de uma noite ruim!” (Maupassant, 1997, p. 16). Uma vida vazia de encontros tal como o entendemos, mas pleno de encontros intensos e rápidos como uma 3 Monsieur Leras é o personagem do conto “Passeio” de Guy de Maupassant (1997). Ele trabalha num cômodo escuro como guardador de livros e realiza o mesmo percurso há 40 anos. Até que decide, ao final de mais um dia de trabalho, dar um passeio pelo entorno da cidade e neste passeio encontra-se em inesperadas situações até então não vivenciadas por ele. 5 IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected] COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected] EIXO: Educação e Arte / n. 16 Agência Financiadora: CAPES insônia interminável. Bastou um passeio para que Leras se pusesse a experimentar novas formas de viver um encontro. Assim são alguns encontros. Nem bom nem ruins. São. Fato é que um coup de foudre na vida de qualquer um que seja é um encontro que desencontra referências. Como um raio que possa cair em uma cabeça, e já era. Desfaz-se, morre-se, perde-se. Um pontapé. Uma pedrada. Uma punhalada. Um soco. Insolação. Pode ser insolação de lua, ou da falta dela. Insolação de escuro de medo de desespero. Um encontro desses de desencontrar pode ser também um gole, ou um trago. Um gole daqueles de intensidade. Um gole depois de anos sem beber, um gole da abstinência ou também um penúltimo gole antes da despedida. Um mínimo pleno de tudo que se pretende – um gole e só. É suficiente. Ou goles inúmeros, incontáveis. Goles afirmados, desejados, planejados. Um tanto mais que der de tudo o que se quer. Fato é que se trata de se apaixonar para pesquisar e para tornar possível a escrita da pesquisa. Apaixonar-se como se apaixona por um amor à primeira vista, em vias de perder-se dele, recriando-o na medida em que percorre por ele. Um coup de foudre, este amor à primeira vista, é o que faz cegar ou ver coisas, calar ou tagarelar, ensurdecer ou ouvir vozes, perder o olfato, o tato e o paladar ou sentir cheiros esquisitos, gostos estranhos e presenças imperceptíveis. Ou tudo isso junto. Faz cegar e ver coisas, calar e tagarelar, ensurdecer e ouvir vozes, perder o olfato, o tato e o paladar e sentir cheiros esquisitos, gostos estranhos e presenças imperceptíveis. Um encontro é um desfazer. Um se perder, um esmaecer. É uma defasagem sendo esta uma “não coincidência entre dois fatos, processos, fenômenos. Não concordância, diferença, discrepância” (Aulete, 2007, p.300) e não uma completude. Uma defasagem ligeira ou não. Violenta, sempre. Porque acaba sempre com algo que ali estava acomodado, já empoeirado e amortecido. É da ordem da desordem. Não do mero deslocamento. É mesmo um destroncamento. Onde o corpo perde a forma e as partes mudam de lugar. Aquilo que ali tão bem exercia uma função passa agora ao desalinhamento e daí já não se sabe o que será. E nem o que se era ou o que havia sido. Foi assim com Monsieur Leras que depois de quarenta anos no mesmo deslocamento (casa-trabalho-casa ou trabalho-casatrabalho) foi passear não se sabe porque e acabou por se defasar. E foi assim também com o 6 IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected] COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected] EIXO: Educação e Arte / n. 16 Agência Financiadora: CAPES Caminhante Noturno4 que saiu apaixonado pela noite para um passeio noturno e perdeu-se no escuro, engolido por ela própria, a noite escura. Um coup de foudre é violento, mas é também amoroso. É só pelo amor que um corpo esvazia-se de seus significados: “é o amor, o amor extremo” (Barthes, 1984, p. 25. É assim, desse jeito,: “Aquilo que amamos com violência acaba sempre nos matando” (Maupassant, 2004, p. 03). E aquilo que mata é o que pede mais vida. E mais e mais. Sempre mais. Um coup de foudre, um apaixonamento à primeira vista, pode ser um punctum? Barthes (1984) diz o seguinte acerca do conceito de punctum: “O efeito é seguro, mas não é situável, não encontra seu signo, seu nome; é certeiro e no entanto aterissa em uma zona vaga de mim mesmo; é agudo e sufocado, grita em silêncio. Curiosa contradição: é um raio que flutua”. (p. 83) Um punctum enquanto matéria de pesquisa, como um encontro, pode servir para toda uma vida. Pode também não gerar memórias, não ter importância para aquele que pesquisa. Mas pode também ser um golpe (um coup). Como um encontro, pode ser um golpe gerado pelas diferenças postas em jogo no percurso da pesquisa e assim pode fazer criar novas matérias de pesquisa, novos jeitos de pesquisar, novas formas de escrever. O Punctum e a Impressão monotípica O ato do encontro entre duas superfícies, e o que decorre enquanto imagem desse encontro, podemos entender como impressão. Na gravura, a impressão é a segunda etapa, quando a matriz, já gravada, é impressa em alguma superfície. Por monotipia entende-se, segundo Weiss (2003), “mono (único) e tipia (impressão), ou seja, que se obtém de uma prova única” (p. 19). Aqui, interessa-nos a monotipia enquanto ato de encontro que deixa como decorrência uma única impressão. Esta impressão, isto que fica deste encontro, pode 4 Caminhante Noturno, nome dado por nós para designar o personagem-narrador do conto “A noite” de Guy de Maupassant (2004) . Neste conto o Caminhante Noturno caminha pela noite, apaixonado por ela, mas, de repente, começa a se perder pelas ruas e pelos trajetos tão bem conhecidos por ele e já não encontra mais as antigas referências que o faziam percorrer com tranqüilidade pelo caminho. 7 IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected] COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected] EIXO: Educação e Arte / n. 16 Agência Financiadora: CAPES ser sutil, pode ser apenas uma sensação ou então, como já foi dito, pode gerar defasagem e perda de referências. Importa que é necessário haverem matérias para que haja encontro, este não surgirá do nada. A linguagem monotípica dá-nos material para pensar o encontro. Para tanto, experimentamos o fazer-monotípico partindo da chuva, sendo que a impressão acontecia ao colocarmos o papel5 em contato com a água da chuva. Tal impressão adquiria diferentes resultados que tinham interferência direta da intensidade da chuva e também do tempo de contato com o papel. No decorrer do presente texto reproduziremos apenas duas desta série de impressões. Impressão de chuva - tempestade A escolha da chuva enquanto material de pesquisa e experimentação artística se deu por diversos motivos: um apaixonamento pela matéria como queria Barthes ( e do qual já falamos anteriormente, um atravessamento durante o percurso da pesquisa por esta matéria, que não poderíamos explicar com palavras (já que ocorre como um punctum que aprisiona o olhar), mas também, por uma escolha política pela chuva enquanto elemento da terra. 5 O papel utilizado para as impressões foi preparado com pigmento a base de água para que ao entrar em contato com a chuva pudesse haver sua dissolução, daí decorrendo a impressão. 8 IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected] COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected] EIXO: Educação e Arte / n. 16 Agência Financiadora: CAPES Segundo Zordan (2004) trata-se de uma geo-educação, ou seja, de um educar na terra, educar da terra, educar para a terra, junto a seus devires e seus elementos. A terra é entendida como o plano heterogêneo onde ser dá o corpo a corpo das forças, e não só o locus físico onde vivemos. Mais do que um espaço extensivo, a terra é o lugar onde passamos uma vida, uma paisagem onde encontramos vários tipos de vida. Interessa à geoeducação os mapas e registros dessas intensidades, compondo um espaço que é menos extensivo e mais da ordem intensiva. Este é o ponto em que a geo-educação aproxima-se das produções estéticas, encontrando elo naquilo que os currículos chamam de “prática artística”, embora não se restrinja ao que o francês Gilles Deleuze e Feliz Guattari (1997) chamam de plano de composição da arte. Mesmo que parta de uma perspectiva que privilegie as artes e tenha como território a disciplina quase marginal legada ao que os currículos educacionais chamam de educação artística, a geo-educação extrapola os espaços escolares. Zordan (2004) ainda afirma que não é possível restringirmos um local ou espaço específico para a arte – seria uma atividade empobrecida demais. Expropriada, a arte seria como um delírio sem dono; não possuindo efetivamente nada, mas tendo todas as possibilidades em aberto. É este campo de possibilidades que faz com que encontremos na geo-educação elementos filosóficos e estéticos que nos permitem pensar o nosso processo de pesquisa. Zordan, neste mesmo texto, ainda vai dizer acerca da terra que “não conhecemos nada da vida, a não ser perscrutando esse vasto corpo e sua imensidão de superfícies” (p. 79). Aqui, entendemos que faz parte do “conhecer a vida” os encontros que fazemos com os diversos materiais com os quais nos deparamos ao percorrer caminhos. E encontrar estes materiais é também uma experiência intensiva onde ferimo-nos e somos feridos e assim desfazemos a paisagem antes formada e passamos a compor com ela uma nova paisagem existencial. Ora, não é isso que vemos acontecer tanto nos processos do fazer-pesquisa quanto nos processos das impressões monotípicas? A palavra impressão aqui, também está a falar de uma forma enunciativa que surge em contrapartida à forma que visa constatar. Barthes (2007, p.12) observa tal prática de enunciar impressões ao invés de constatações em certos atos da cultura japonesa. Esta 9 IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected] COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected] EIXO: Educação e Arte / n. 16 Agência Financiadora: CAPES forma de enunciar interessa-nos porque condiz com este jeito de fazer pesquisa em educação que estamos nos propondo: anotar tais impressões que encontramos nos percursos de pesquisa faz parte do exercício de escrever e inscrever a pesquisa e assim reinventá-la. Punctum é uma palavra existente no latim a qual Barthes (1984) fez uso para desenvolver sua “Nota sobre a Fotografia”6. Segundo ele, esta palavra é usada para designar a ferida, a picada, a marca feita por um instrumento pontudo: “O punctum de uma foto é esse acaso que, nela, me punge (mas também me mortifica, me fere)” (p. 46). Este acaso tão importante para o punctum também nos interessa na técnica monotípica. Sabemos que tal técnica tem como característica a rapidez da impressão e tal rapidez abre espaço para imprevistos na imagem como manchas e borrões, que podem ganhar força de expressão ou não. Para nós, interessa aqui, não o resultado expressivo desse encontro de superfícies, mas sim, esta relação da impressão e seu acaso com o tempo. O ato de imprimir, o punctum que é gerado em um encontro, está falando de um tempo não cronológico e que dificilmente poderá ser marcado enquanto constatação. O tempo que nos interessa não é aquele dos ponteiros, mas sim a vibração dos ponteiros onde os números já não importam mais. É o barulho do tempo, os sinos, o relógio de Barthes (1984). E quando o tic-tac some correm as mãos para abraçar o relógio, tentativa de sentir a vibração. Mas quando as mãos não a sentem, correm os dedos a apalpar a superfície da tampa de vidro do relógio para sentir mais de perto e com o sentido mais aguçado. Mas quando os dedos não a sentem, correm as unhas a quebrar o tampo e os dedos correm novamente até onde os ponteiros jazem silenciosos. Nem um movimento. Ponteiros mortos. Morreu o tempo? O ensaio, a tentativa, o pequeno passeio sem pretensões maiores... é aí que algo punge. E o que vai pungir é que dá espaço para a invenção. Assim como a técnica monotípica que nos interessa é essa onde o mais importante é o percurso, o fazer-pesquisa ao qual nos propomos alia-se justamente a acasos e tempos intensivos e tem como material isso que encontra ao criar o método de percurso. Ao pisar o chão há encontro entre superfícies. Pés e chão. Ambas superfícies são impressas pelas características da outra. Ambas não saem ilesas. Assim é um punctum 6 “Nota sobre a Fotografia” é o subtítulo do livro “A Câmara Clara” (1984). 10 IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected] COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected] EIXO: Educação e Arte / n. 16 Agência Financiadora: CAPES encontrado numa imagem, ele defasa o olhar, mas também o olhar defasa a imagem que encontra. Assim pensamos funcionar a matéria a qual se pretende pesquisar ao entrar em contato com o pesquisador. Nada de desmarcar pegadas já feitas. Deixar para o tempo apagá-las com outras formas de pisar o chão ou com sobreposições de pegadas. Fazer uma pesquisa monotípica é também optar pela experimentação e pela não repetição, um tipo só, único e passageiro momento. Fazer esta pesquisa não deixa de ser também uma tentativa de aprisionar tais impressões encontradas no caminho, mas é desta tentativa fracassada que surgem as possibilidade da criação. Assim como um punctum, os encontros ocorridos inapreensíveis e inomináveis7 ferem e se ferem junto ao pesquisador, modificam e se modificam, todos e tudo que está envolvido neste processo deixe de ser o que se era e abre espaço para outras experiências de existência. São feridas necessárias à pesquisa, é assim nas matérias que encontramos na natureza: a ferida do vento e da água por sobre as rochas desfeitas em grãos minúsculos desgarrados, a ferida precipitada das gotas inchadas: a chuva, ferida das nuvens, a ferida fria da água condensada abraçando a terra em gotas de orvalho. Para Barthes (1984) tanto quem faz a imagem (o Operator) quanto quem a olha (o Spectator) não pretende encontrar um punctum. (p. 68). O punctum não é algo a que se busca (por aquele que vê), não é algo que se compõe (por aquele que cria a imagem). Assim, aquilo que punge e que fere talvez não precise ser procurado. Talvez seja da sua natureza pegar o desprevenido num momento de descuido. Indo por este caminho entendemos que faz parte do processo de pesquisa este olhar desprevenido e por vezes distraído. As pré-concepções que costumamos carregar ao adentrar em um percurso, ao se deixar deparar com o inusitado, o imprevisto, o desacomodante, acabam por abrir espaço para a criação de novos sentidos para o fazer-pesquisa. É por isso a distração. Uma distração que pode ser uma espécie de esquecimento. Distração nem tão distraída porque, por vezes, para ser pungido é preciso que se ensaie uma distração. Distração ensaiada que não deixa de ser uma pose. Barthes (1984) diz que ao perceber que seria fotografado passava a buscar uma forma de posar parecendo-se o mais possível com o seu “eu”. Ele diz: 7 “o que posso nomear não pode, na realidade, me ferir”. (BARTHES, 1984, p. 80). 11 IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected] COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected] EIXO: Educação e Arte / n. 16 Agência Financiadora: CAPES “mas sou “eu” que não coincido jamais com minha imagem; pois é a imagem que é pesada, imóvel, obstinada (por isso a sociedade se apóia nela), e sou “eu” que sou leve, dividido, disperso e que, como um ludião, não fico no lugar, agitando-me em meu frasco” (p. 24). Este ensaio posado não deixa de ser uma imitação de si mesmo e ao se fingir distraído algo punge a superfície, algo se desencontra, a imagem perde o corpo que posa e ganha um corpo novo advindo desse desencontro. A imagem ao invés de constatar passa a enunciar impressões, assim pensamos o percurso do pesquisador em seus (des)encontros com materiais de pesquisa: seremos pungidos, seremos feridos, seremos destruídos, morreremos. Por isso tentamos fingir. Por isso ensaiamo-nos objeto, por isso tentamos desaparecer e assim enganamo-nos. Fazemos um engano do “eu”. E aquele que tentamos ser – o eu mesmo – morre, vai morrendo, e a cada pose, menos eu e mais de menos, menos, menos, menos. Por isso neste jeito de fazer pesquisa optamos por usar as pontas dos pés, as pontas dos dedos, a respiração trancada. Para não afugentar o entorno, para fingir uma distração, para não desfazer as beiradas do caminho, para preparar terreno para alguma coisa qualquer que ainda não se sabe bem o que é. Que pode ser um sopro de brisa ou um furacão. Ou mesmo um entre-termos, um vento imperceptível. Isso ferirá. Já não se pode ser o mesmo de antes. Não se é mais a mesma terra, o mesmo vento, o mesmo antes. O que foi, já era. IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected] COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected] EIXO: Educação e Arte / n. 16 Agência Financiadora: CAPES 12 Impressão de chuva de verão Impressões Finais Não pretendemos aqui esgotar impressões acerca do fazer-pesquisa em educação, já que se optamos pelas intensidades e não extensões, não havendo, assim, a possibilidade de esgotamento dos encontros possíveis. Trata-se de um fazer-pesquisa transpassado pela “qualidade dos instantes e a singularidade de cada perspectiva” (Zordan, 2004, p. 81). Pensar a pesquisa em educação em seus entrecruzamentos com as artes é um tanto deslizante. Isso porque encontramos nas artes a forte marca da criação enquanto eixo principal, sendo que na Educação a criação parece distante e esquecida. Mas, talvez esteja aí a potência desses cruzamentos. Por que nos prendemos apenas em materiais de pesquisa que estão a nos falar daquilo que não funciona na Educação? Por que apenas nos interessamos por problemas que tem como eixo central as cristalizações e repetições educacionais? Aqui não queremos dizer que não seja importante tal encontro. Como já dissemos antes, não nos propomos partir do zero, pois não acreditamos que exista pesquisa feita partindo de uma tábula rasa. 13 IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected] COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected] EIXO: Educação e Arte / n. 16 Agência Financiadora: CAPES Percorrer caminhos já percorridos, encontrar materiais já encontrados, faz parte do fazer-pesquisa se o pensarmos enquanto um ensaio que não pretende ser apenas o rascunho, mas sim, a própria pesquisa. Assim como pensou Barthes (2005) a preparação do romance enquanto a realização do romance, pensamos nós que o fazer-pesquisa quer-se realização da pesquisa. Assim, as experimentações que se fazem necessárias durante um processo de criação de métodos de pesquisa tornam-se parte da pesquisa, sendo, no nosso caso, a escrita e a monotipia sua forma de expressão. Não se trata de com estes elementos responder questões ou chegar a conclusões, mas sim fazer movimentar materiais diversos para com eles compor novas formas ainda não experimentadas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AULETE, Caldas. Dicionário Caldas Aulete da língua portuguesa: Edição de bolso. Rio de Janeiro: Lexikon Editora Digital, 2007. BARTHES, Roland. A câmara clara – nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. Tradução de Júlio Castañon Guimarães. _______________ O império dos signos. São Paulo:WMF Martins Fontes, 2007. Tradução de Leyla Perrone-Mosés. _______________ A preparação do romance I: da vida à obra. São Paulo: Martins Fontes, 2005. Tradução de Leyla Perrone-Mosés. CORAZZA, S. TADEU, T. ZORDAN. P. Linhas de Escrita. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. 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