IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO
REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected]
COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected]
EIXO: Educação e Arte / n. 16
Agência Financiadora: CAPES
Resumo
Este trabalho relaciona os campos das Artes Visuais, Literatura e Educação com o
intuito de pensar o fazer-pesquisa no campo educacional. Partindo do referencial teórico de
Roland Barthes dialoga com o conceito de punctum e a ele aproxima a expressão francesa
coup de foudre encontrada na literatura do escritor francês Guy de Maupassant. Tal
expressão literalmente traduz-se por golpe de relâmpago, e tem como figura o Amor à
primeira vista. Esta expressão opera como imagem de pensamento sendo entendida como
algo que faz defasar, que faz perder referências, transformando a rota e também o próprio
entorno. Buscamos na linguagem da impressão monotípica alguns elementos para pensar
acerca do percurso do pesquisador em seus (des) encontros com os mais diversos materiais
de pesquisa. É possível pensar uma pesquisa em educação que não se proponha a falar
sobre Arte e Literatura, mas com Arte e Literatura? Não pretendemos responder esta
questão, mas colocá-la em movimento através da experimentação escrita e também visual,
esta se dá através da impressão monotípica. Retiramos da Gravura a concepção de
impressão como forma de expressão no que diz respeito à sua característica de lidar com o
acaso que decorre do encontro entre superfícies. O fazer-pesquisa ao qual nos propomos
alia-se a acasos e tempos intensivos e tem como material aquilo que encontra ao criar o
método de percurso durante o percurso.
Palavras-chave: Impressão – Coup de Foudre – Punctum - Educação – Pesquisa Literatura
Introdução
Barthes (2005) em uma de suas primeiras aulas sobre a escrita do romance discorre
sobre a vontade de escrever um romance e sua preparação. No caso, Barthes está a falar da
sua vontade de escrever um romance e de como ele pensa a preparação do seu romance. A
2
IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO
REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected]
COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected]
EIXO: Educação e Arte / n. 16
Agência Financiadora: CAPES
busca pelo desejo de escrever, para Barthes, se dá através de um “vínculo” com o presente,
sendo este, o presente, o material que se deseja. O que nos interessa neste texto é
justamente este “amor pelo material” (p. 36), já que nos propomos a falar acerca da
Pesquisa em Educação. Ainda neste mesmo curso Barthes vai dizer que o método para a
escrita do romance advém do percurso feito ao buscar tal escrita, ou seja, para ele o
caminho é a própria realização e o fim do percurso. Então, entendemos que a preparação de
uma pesquisa é sua própria realização e seu percurso. Mas, entendemos também, com
Barthes, que se deve amar o material, sendo este encontrado no percurso, devendo se fazer
presente na escrita da pesquisa em educação.
Ainda em Barthes (1984) encontramos uma de suas impressões acerca de uma
fotografia de uma paisagem: “diante dessas paisagens de predileção, tudo se passa como se
eu estivesse certo de aí ter estado ou de aí dever ir” (p. 65). Para o autor, as fotografias de
paisagens devem ser habitáveis, e não visitáveis. Tomamos aqui emprestada tal impressão
de Barthes e a transportamos para o pesquisador que busca os materiais em sua pesquisa:
devemos nos apaixonar pelos materiais com os quais pretendemos compor nossa pesquisa a
ponto de torná-los nossa moradia e não apenas um objeto a ser visitado e observado do lado
de fora.
Corazza (2004, p.21-25) chama de “Pesquisa en fuite” esta pesquisaexperimentação que tem como estética a escrita da pesquisa como uma criação que desafia
os juízos pré-estabelecidos, exigindo a fabricação de conceitos em intercessão com as artes,
as ciências e a filosofia. Para isso exige do pesquisador, não que ele venha armado com
alguma teoria prévia, mas sim que ele possa ser um experimentador que ajuda a formular
novos problemas, que sugere a criação de novos conceitos, que se apaixona no percurso por
novas matérias afim de incorporá-las e transformá-las.
Sabemos que não se pesquisa sobre uma tábula rasa, sobre algo inexistente ou
esvaziado de sentidos. Acerca do próprio fazer e pensar a pesquisa em educação já existe
uma farta população de clichês, de materiais, de percursos feitos. Não se trata aqui de
destruir todos esses clichês, pois isso novamente traria a sensação de se estar situado num
método sem caminho a se percorrer. Trata-se de amar os clichês, sim. Ou como disse
Barthes (2005) “Estar apaixonado é perder a pose e aceitá-lo, portanto, nenhuma pose a
3
IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO
REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected]
COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected]
EIXO: Educação e Arte / n. 16
Agência Financiadora: CAPES
perder” (p. 42). Perder a pose ao se apaixonar por aquilo que se apresenta como matéria,
como percurso, para, só assim, poder caminhar em outras direções. Talvez a questão seja
justamente essa, percorrer pelo já feito buscando brechas e criando novos caminhos que se
mostram inevitavelmente no percurso, no presente.
Propomos aqui, em intercessão com alguns contos da literatura de Guy de
Maupassant, com o conceito de punctum para Barthes (1984) e também com a linguagem
da Gravura (mais especificamente a impressão monotípica) proveniente do campo das
Artes Visuais, pensar a pesquisa em educação enquanto possibilidade de encontros com as
diversas matérias que a atravessam durante o percurso do pesquisador. Também temos
como propósito colocar em movimento este fazer-pesquisa através da experimentação
escrita e também visual, esta se dando através da impressão monotípica1.
Coup de Foudre
A expressão francesa coup de foudre é encontrada na literatura do escritor francês Guy
de Maupassant e literalmente traduz-se por golpe de relâmpago, tendo como figura o Amor
à primeira vista. Esta expressão opera aqui como imagem de pensamento sendo entendida
como algo que faz defasar, que faz perder referências, assim, em alguns contos de Guy de
Maupassant2, o personagem principal ao vivenciar um (des) encontro transforma-se, muda
sua rota, transformando também o próprio entorno. Aquilo que ali tão bem exercia uma
função passa agora ao desalinhamento e daí já não se sabe o que será.
Do francês, Coup: 1. golpe, pancada. 2. Choque emocional 3. gole, trago 4. jogada
Foudre: relâmpago. Coup de foudre: acontecimento desastroso e atemorizante;
manifestação súbita do amor desde o primeiro encontro, ato de se apaixonar.
Coup de foudre: a) raio, faísca b) fig amor à primeira vista.
1
O autores do presente texto conversam com o campo das Artes Visuais através de um estudo teórico mas
também realizando experimentações visuais, neste caso mais especificamente com a Gravura.
2
Os contos de Guy de Maupassant utilizados no presente textos são: “A noite (pesadelo)” (2004); e “Passeio.
In: O abandonado e outros contos” (1997).
4
IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO
REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected]
COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected]
EIXO: Educação e Arte / n. 16
Agência Financiadora: CAPES
Ainda encontramos para Coup, combinado com outras palavras, os seguintes
significados: ça vaut le coup - Vale a pena. Coup de balai - Vassourada. Coup de bec bicada. Coup de brosse - escovada. Coup de chance - golpe de sorte. Coup de corne chifrada. Coup de couteau - facada. Coup de dent - dentada. Coup de pied - pontapé. Coup
de pierre - pedrada. Coup de poignard - punhalada. Coup de poing - soco. Coup de soleil insolação. Coup de tête - cabeçada. Coup sur coup - sem parar. Tenir le coupe – agüentar,
suportar. Coup de foudre - raio, faísca, amor à primeira vista. Relâmpago . Acontecimento
desastroso e atemorizante; manifestação súbita do amor desde o primeiro encontro, ato de
se apaixonar.
Um encontro quase sempre pode ser um golpe. Uma pancada no estômago. Às vezes
deixa o coração na boca. E a torna órgão do não-falar nada. Fato é que se trata de um
apaixonamento. Um encontro pode produzir mudos. Pode também produzir cantaroladores.
Isso, muitas vezes. Outras tantas não. Um encontro às vezes é e de repente já foi.
Relâmpago que só se sabe que existiu por causa do estrondo do trovão. E da luz cegante.
Mas às vezes nem se percebe. Devido à subtaneidade do ato de encontrar. De súbito
arrebata e já era. O encontro foi-se. Um encontro quase sempre é um desencontro. Aquilo
que deixa de ser quem quer que esteja envolvido na situação. É assim que pensamos a
pesquisa, como aquilo que decorre de um (des)encontro e que permite que os envolvidos
transformem-se. A aprendizagem pode ser pensada da mesma maneira, como essa perda de
referências que faz com que se construa novas perspectivas para a matéria com a qual estáse a apaixonar.
Monsieur Leras3 teve desencontros esvaziados de encontros que fizeram da sua vida um
coup de foudre, um amor à primeira vista constante com os vazios do dia-a-dia.
“Transcorreram quarenta anos, longos e rápidos, vazios como um dia de tristeza e tais
como as horas de uma noite ruim!” (Maupassant, 1997, p. 16). Uma vida vazia de
encontros tal como o entendemos, mas pleno de encontros intensos e rápidos como uma
3
Monsieur Leras é o personagem do conto “Passeio” de Guy de Maupassant (1997). Ele trabalha num
cômodo escuro como guardador de livros e realiza o mesmo percurso há 40 anos. Até que decide, ao final de
mais um dia de trabalho, dar um passeio pelo entorno da cidade e neste passeio encontra-se em inesperadas
situações até então não vivenciadas por ele.
5
IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO
REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected]
COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected]
EIXO: Educação e Arte / n. 16
Agência Financiadora: CAPES
insônia interminável. Bastou um passeio para que Leras se pusesse a experimentar novas
formas de viver um encontro.
Assim são alguns encontros. Nem bom nem ruins. São. Fato é que um coup de
foudre na vida de qualquer um que seja é um encontro que desencontra referências. Como
um raio que possa cair em uma cabeça, e já era. Desfaz-se, morre-se, perde-se. Um
pontapé. Uma pedrada. Uma punhalada. Um soco. Insolação. Pode ser insolação de lua, ou
da falta dela. Insolação de escuro de medo de desespero. Um encontro desses de
desencontrar pode ser também um gole, ou um trago. Um gole daqueles de intensidade. Um
gole depois de anos sem beber, um gole da abstinência ou também um penúltimo gole antes
da despedida. Um mínimo pleno de tudo que se pretende – um gole e só. É suficiente. Ou
goles inúmeros, incontáveis. Goles afirmados, desejados, planejados. Um tanto mais que
der de tudo o que se quer. Fato é que se trata de se apaixonar para pesquisar e para tornar
possível a escrita da pesquisa. Apaixonar-se como se apaixona por um amor à primeira
vista, em vias de perder-se dele, recriando-o na medida em que percorre por ele.
Um coup de foudre, este amor à primeira vista, é o que faz cegar ou ver coisas, calar
ou tagarelar, ensurdecer ou ouvir vozes, perder o olfato, o tato e o paladar ou sentir cheiros
esquisitos, gostos estranhos e presenças imperceptíveis. Ou tudo isso junto. Faz cegar e ver
coisas, calar e tagarelar, ensurdecer e ouvir vozes, perder o olfato, o tato e o paladar e sentir
cheiros esquisitos, gostos estranhos e presenças imperceptíveis.
Um encontro é um desfazer. Um se perder, um esmaecer. É uma defasagem sendo
esta uma “não coincidência entre dois fatos, processos, fenômenos. Não concordância,
diferença, discrepância” (Aulete, 2007, p.300) e não uma completude. Uma defasagem
ligeira ou não. Violenta, sempre. Porque acaba sempre com algo que ali estava acomodado,
já empoeirado e amortecido. É da ordem da desordem. Não do mero deslocamento. É
mesmo um destroncamento. Onde o corpo perde a forma e as partes mudam de lugar.
Aquilo que ali tão bem exercia uma função passa agora ao desalinhamento e daí já não se
sabe o que será. E nem o que se era ou o que havia sido. Foi assim com Monsieur Leras
que depois de quarenta anos no mesmo deslocamento (casa-trabalho-casa ou trabalho-casatrabalho) foi passear não se sabe porque e acabou por se defasar. E foi assim também com o
6
IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO
REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected]
COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected]
EIXO: Educação e Arte / n. 16
Agência Financiadora: CAPES
Caminhante Noturno4 que saiu apaixonado pela noite para um passeio noturno e perdeu-se
no escuro, engolido por ela própria, a noite escura. Um coup de foudre é violento, mas é
também amoroso. É só pelo amor que um corpo esvazia-se de seus significados: “é o amor,
o amor extremo” (Barthes, 1984, p. 25. É assim, desse jeito,: “Aquilo que amamos com
violência acaba sempre nos matando” (Maupassant, 2004, p. 03). E aquilo que mata é o
que pede mais vida. E mais e mais. Sempre mais.
Um coup de foudre, um apaixonamento à primeira vista, pode ser um punctum? Barthes
(1984) diz o seguinte acerca do conceito de punctum:
“O efeito é seguro, mas não é situável, não encontra seu signo, seu nome; é
certeiro e no entanto aterissa em uma zona vaga de mim mesmo; é agudo e
sufocado, grita em silêncio. Curiosa contradição: é um raio que flutua”. (p. 83)
Um punctum enquanto matéria de pesquisa, como um encontro, pode servir para toda
uma vida. Pode também não gerar memórias, não ter importância para aquele que pesquisa.
Mas pode também ser um golpe (um coup). Como um encontro, pode ser um golpe gerado
pelas diferenças postas em jogo no percurso da pesquisa e assim pode fazer criar novas
matérias de pesquisa, novos jeitos de pesquisar, novas formas de escrever.
O Punctum e a Impressão monotípica
O ato do encontro entre duas superfícies, e o que decorre enquanto imagem desse
encontro, podemos entender como impressão. Na gravura, a impressão é a segunda etapa,
quando a matriz, já gravada, é impressa em alguma superfície. Por monotipia entende-se,
segundo Weiss (2003), “mono (único) e tipia (impressão), ou seja, que se obtém de uma
prova única” (p. 19). Aqui, interessa-nos a monotipia enquanto ato de encontro que deixa
como decorrência uma única impressão. Esta impressão, isto que fica deste encontro, pode
4
Caminhante Noturno, nome dado por nós para designar o personagem-narrador do conto “A noite” de Guy
de Maupassant (2004) . Neste conto o Caminhante Noturno caminha pela noite, apaixonado por ela, mas, de
repente, começa a se perder pelas ruas e pelos trajetos tão bem conhecidos por ele e já não encontra mais as
antigas referências que o faziam percorrer com tranqüilidade pelo caminho.
7
IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO
REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected]
COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected]
EIXO: Educação e Arte / n. 16
Agência Financiadora: CAPES
ser sutil, pode ser apenas uma sensação ou então, como já foi dito, pode gerar defasagem e
perda de referências. Importa que é necessário haverem matérias para que haja encontro,
este não surgirá do nada. A linguagem monotípica dá-nos material para pensar o encontro.
Para tanto, experimentamos o fazer-monotípico partindo da chuva, sendo que a impressão
acontecia ao colocarmos o papel5 em contato com a água da chuva. Tal impressão adquiria
diferentes resultados que tinham interferência direta da intensidade da chuva e também do
tempo de contato com o papel. No decorrer do presente texto reproduziremos apenas duas
desta série de impressões.
Impressão de chuva - tempestade
A escolha da chuva enquanto material de pesquisa e experimentação artística se deu por
diversos motivos: um apaixonamento pela matéria como queria Barthes ( e do qual já
falamos anteriormente, um atravessamento durante o percurso da pesquisa por esta matéria,
que não poderíamos explicar com palavras (já que ocorre como um punctum que aprisiona
o olhar), mas também, por uma escolha política pela chuva enquanto elemento da terra.
5
O papel utilizado para as impressões foi preparado com pigmento a base de água para que ao entrar em
contato com a chuva pudesse haver sua dissolução, daí decorrendo a impressão.
8
IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO
REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected]
COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected]
EIXO: Educação e Arte / n. 16
Agência Financiadora: CAPES
Segundo Zordan (2004) trata-se de uma geo-educação, ou seja, de um educar na terra,
educar da terra, educar para a terra, junto a seus devires e seus elementos. A terra é
entendida como o plano heterogêneo onde ser dá o corpo a corpo das forças, e não só o
locus físico onde vivemos. Mais do que um espaço extensivo, a terra é o lugar onde
passamos uma vida, uma paisagem onde encontramos vários tipos de vida. Interessa à geoeducação os mapas e registros dessas intensidades, compondo um espaço que é menos
extensivo e mais da ordem intensiva. Este é o ponto em que a geo-educação aproxima-se
das produções estéticas, encontrando elo naquilo que os currículos chamam de “prática
artística”, embora não se restrinja ao que o francês Gilles Deleuze e Feliz Guattari (1997)
chamam de plano de composição da arte. Mesmo que parta de uma perspectiva que
privilegie as artes e tenha como território a disciplina quase marginal legada ao que os
currículos educacionais chamam de educação artística, a geo-educação extrapola os espaços
escolares. Zordan (2004) ainda afirma que não é possível restringirmos um local ou espaço
específico para a arte – seria uma atividade empobrecida demais. Expropriada, a arte seria
como um delírio sem dono; não possuindo efetivamente nada, mas tendo todas as
possibilidades em aberto. É este campo de possibilidades que faz com que encontremos na
geo-educação elementos filosóficos e estéticos que nos permitem pensar o nosso processo
de pesquisa.
Zordan, neste mesmo texto, ainda vai dizer acerca da terra que “não conhecemos nada
da vida, a não ser perscrutando esse vasto corpo e sua imensidão de superfícies” (p. 79).
Aqui, entendemos que faz parte do “conhecer a vida” os encontros que fazemos com os
diversos materiais com os quais nos deparamos ao percorrer caminhos. E encontrar estes
materiais é também uma experiência intensiva onde ferimo-nos e somos feridos e assim
desfazemos a paisagem antes formada e passamos a compor com ela uma nova paisagem
existencial. Ora, não é isso que vemos acontecer tanto nos processos do fazer-pesquisa
quanto nos processos das impressões monotípicas?
A palavra impressão aqui, também está a falar de uma forma enunciativa que surge em
contrapartida à forma que visa constatar. Barthes (2007, p.12) observa tal prática de
enunciar impressões ao invés de constatações em certos atos da cultura japonesa. Esta
9
IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO
REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected]
COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected]
EIXO: Educação e Arte / n. 16
Agência Financiadora: CAPES
forma de enunciar interessa-nos porque condiz com este jeito de fazer pesquisa em
educação que estamos nos propondo: anotar tais impressões que encontramos nos percursos
de pesquisa faz parte do exercício de escrever e inscrever a pesquisa e assim reinventá-la.
Punctum é uma palavra existente no latim a qual Barthes (1984) fez uso para
desenvolver sua “Nota sobre a Fotografia”6. Segundo ele, esta palavra é usada para
designar a ferida, a picada, a marca feita por um instrumento pontudo: “O punctum de uma
foto é esse acaso que, nela, me punge (mas também me mortifica, me fere)” (p. 46).
Este acaso tão importante para o punctum também nos interessa na técnica monotípica.
Sabemos que tal técnica tem como característica a rapidez da impressão e tal rapidez abre
espaço para imprevistos na imagem como manchas e borrões, que podem ganhar força de
expressão ou não. Para nós, interessa aqui, não o resultado expressivo desse encontro de
superfícies, mas sim, esta relação da impressão e seu acaso com o tempo. O ato de
imprimir, o punctum que é gerado em um encontro, está falando de um tempo não
cronológico e que dificilmente poderá ser marcado enquanto constatação. O tempo que nos
interessa não é aquele dos ponteiros, mas sim a vibração dos ponteiros onde os números já
não importam mais. É o barulho do tempo, os sinos, o relógio de Barthes (1984). E quando
o tic-tac some correm as mãos para abraçar o relógio, tentativa de sentir a vibração. Mas
quando as mãos não a sentem, correm os dedos a apalpar a superfície da tampa de vidro do
relógio para sentir mais de perto e com o sentido mais aguçado. Mas quando os dedos não a
sentem, correm as unhas a quebrar o tampo e os dedos correm novamente até onde os
ponteiros jazem silenciosos. Nem um movimento. Ponteiros mortos. Morreu o tempo? O
ensaio, a tentativa, o pequeno passeio sem pretensões maiores... é aí que algo punge. E o
que vai pungir é que dá espaço para a invenção. Assim como a técnica monotípica que nos
interessa é essa onde o mais importante é o percurso, o fazer-pesquisa ao qual nos
propomos alia-se justamente a acasos e tempos intensivos e tem como material isso que
encontra ao criar o método de percurso.
Ao pisar o chão há encontro entre superfícies. Pés e chão. Ambas superfícies são
impressas pelas características da outra. Ambas não saem ilesas. Assim é um punctum
6
“Nota sobre a Fotografia” é o subtítulo do livro “A Câmara Clara” (1984).
10
IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO
REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected]
COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected]
EIXO: Educação e Arte / n. 16
Agência Financiadora: CAPES
encontrado numa imagem, ele defasa o olhar, mas também o olhar defasa a imagem que
encontra. Assim pensamos funcionar a matéria a qual se pretende pesquisar ao entrar em
contato com o pesquisador. Nada de desmarcar pegadas já feitas. Deixar para o tempo
apagá-las com outras formas de pisar o chão ou com sobreposições de pegadas. Fazer uma
pesquisa monotípica é também optar pela experimentação e pela não repetição, um tipo só,
único e passageiro momento. Fazer esta pesquisa não deixa de ser também uma tentativa de
aprisionar tais impressões encontradas no caminho, mas é desta tentativa fracassada que
surgem as possibilidade da criação. Assim como um punctum, os encontros ocorridos
inapreensíveis e inomináveis7 ferem e se ferem junto ao pesquisador, modificam e se
modificam, todos e tudo que está envolvido neste processo deixe de ser o que se era e abre
espaço para outras experiências de existência. São feridas necessárias à pesquisa, é assim
nas matérias que encontramos na natureza: a ferida do vento e da água por sobre as rochas
desfeitas em grãos minúsculos desgarrados, a ferida precipitada das gotas inchadas: a
chuva, ferida das nuvens, a ferida fria da água condensada abraçando a terra em gotas de
orvalho.
Para Barthes (1984) tanto quem faz a imagem (o Operator) quanto quem a olha (o
Spectator) não pretende encontrar um punctum. (p. 68). O punctum não é algo a que se
busca (por aquele que vê), não é algo que se compõe (por aquele que cria a imagem).
Assim, aquilo que punge e que fere talvez não precise ser procurado. Talvez seja da sua
natureza pegar o desprevenido num momento de descuido. Indo por este caminho
entendemos que faz parte do processo de pesquisa este olhar desprevenido e por vezes
distraído. As pré-concepções que costumamos carregar ao adentrar em um percurso, ao se
deixar deparar com o inusitado, o imprevisto, o desacomodante, acabam por abrir espaço
para a criação de novos sentidos para o fazer-pesquisa. É por isso a distração. Uma
distração que pode ser uma espécie de esquecimento. Distração nem tão distraída porque,
por vezes, para ser pungido é preciso que se ensaie uma distração. Distração ensaiada que
não deixa de ser uma pose. Barthes (1984) diz que ao perceber que seria fotografado
passava a buscar uma forma de posar parecendo-se o mais possível com o seu “eu”. Ele diz:
7
“o que posso nomear não pode, na realidade, me ferir”. (BARTHES, 1984, p. 80).
11
IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO
REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected]
COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected]
EIXO: Educação e Arte / n. 16
Agência Financiadora: CAPES
“mas sou “eu” que não coincido jamais com minha imagem; pois é a imagem que é pesada,
imóvel, obstinada (por isso a sociedade se apóia nela), e sou “eu” que sou leve, dividido,
disperso e que, como um ludião, não fico no lugar, agitando-me em meu frasco” (p. 24).
Este ensaio posado não deixa de ser uma imitação de si mesmo e ao se fingir distraído algo
punge a superfície, algo se desencontra, a imagem perde o corpo que posa e ganha um
corpo novo advindo desse desencontro.
A imagem ao invés de constatar passa a enunciar impressões, assim pensamos o
percurso do pesquisador em seus (des)encontros com materiais de pesquisa: seremos
pungidos, seremos feridos, seremos destruídos, morreremos. Por isso tentamos fingir. Por
isso ensaiamo-nos objeto, por isso tentamos desaparecer e assim enganamo-nos. Fazemos
um engano do “eu”. E aquele que tentamos ser – o eu mesmo – morre, vai morrendo, e a
cada pose, menos eu e mais de menos, menos, menos, menos. Por isso neste jeito de fazer
pesquisa optamos por usar as pontas dos pés, as pontas dos dedos, a respiração trancada.
Para não afugentar o entorno, para fingir uma distração, para não desfazer as beiradas do
caminho, para preparar terreno para alguma coisa qualquer que ainda não se sabe bem o
que é. Que pode ser um sopro de brisa ou um furacão. Ou mesmo um entre-termos, um
vento imperceptível. Isso ferirá. Já não se pode ser o mesmo de antes. Não se é mais a
mesma terra, o mesmo vento, o mesmo antes. O que foi, já era.
IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO
REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected]
COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected]
EIXO: Educação e Arte / n. 16
Agência Financiadora: CAPES
12
Impressão de chuva de verão
Impressões Finais
Não pretendemos aqui esgotar impressões acerca do fazer-pesquisa em educação, já que
se optamos pelas intensidades e não extensões, não havendo, assim, a possibilidade de
esgotamento dos encontros possíveis. Trata-se de um fazer-pesquisa transpassado pela
“qualidade dos instantes e a singularidade de cada perspectiva” (Zordan, 2004, p. 81).
Pensar a pesquisa em educação em seus entrecruzamentos com as artes é um tanto
deslizante. Isso porque encontramos nas artes a forte marca da criação enquanto eixo
principal, sendo que na Educação a criação parece distante e esquecida. Mas, talvez esteja
aí a potência desses cruzamentos. Por que nos prendemos apenas em materiais de pesquisa
que estão a nos falar daquilo que não funciona na Educação? Por que apenas nos
interessamos por problemas que tem como eixo central as cristalizações e repetições
educacionais? Aqui não queremos dizer que não seja importante tal encontro. Como já
dissemos antes, não nos propomos partir do zero, pois não acreditamos que exista pesquisa
feita partindo de uma tábula rasa.
13
IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO
REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected]
COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected]
EIXO: Educação e Arte / n. 16
Agência Financiadora: CAPES
Percorrer caminhos já percorridos, encontrar materiais já encontrados, faz parte do
fazer-pesquisa se o pensarmos enquanto um ensaio que não pretende ser apenas o rascunho,
mas sim, a própria pesquisa. Assim como pensou Barthes (2005) a preparação do romance
enquanto a realização do romance, pensamos nós que o fazer-pesquisa quer-se realização
da pesquisa.
Assim, as experimentações que se fazem necessárias durante um processo de
criação de métodos de pesquisa tornam-se parte da pesquisa, sendo, no nosso caso, a escrita
e a monotipia sua forma de expressão. Não se trata de com estes elementos responder
questões ou chegar a conclusões, mas sim fazer movimentar materiais diversos para com
eles compor novas formas ainda não experimentadas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AULETE, Caldas. Dicionário Caldas Aulete da língua portuguesa: Edição de bolso. Rio
de Janeiro: Lexikon Editora Digital, 2007.
BARTHES, Roland. A câmara clara – nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1984. Tradução de Júlio Castañon Guimarães.
_______________ O império dos signos. São Paulo:WMF Martins Fontes, 2007.
Tradução de Leyla Perrone-Mosés.
_______________ A preparação do romance I: da vida à obra. São Paulo: Martins
Fontes, 2005. Tradução de Leyla Perrone-Mosés.
CORAZZA, S. TADEU, T. ZORDAN. P. Linhas de Escrita. Belo Horizonte: Autêntica,
2004.
DELEUZE, G; GUATTARI, F. O que é a filosofia? São Paulo: Editora 34, 1997.
MAUPASSANT, Guy de. A noite (pesadelo). São Paulo: Cosac&Naify, 2004. Trad: José
Bento Ferreira.
MAUPASSANT, Guy. Passeio. In: O abandonado e outros contos. São Paulo: Scrinium,
1997. Tradução de Plínio Augusto Coelho.
14
IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO
REDIN, Mayra Martins – UFRGS – [email protected]
COSTA, Luciano Bedin - UFRGS – [email protected]
EIXO: Educação e Arte / n. 16
Agência Financiadora: CAPES
ZORDAN, Paola. Geo-educação: arte e paisagens virtuais. In: CORAZZA, S. TADEU, T.
ZORDAN, P. Linhas de escrita. Belo Horizonte, Autêntica, 2004. p. 79 – 126.
Referências Eletrônicas
WEISS, Luise. Monotipias: algumas considerações. Cadernos de Gravura, Campinas, n. 2,
p. 19 – 27, novembro, 2003.
Download

IMPRESSÕES SOBRE O FAZER-PESQUISA EM EDUCAÇÃO