A QUESTÃO DA JUSTIÇA EM PLATÃO I. A PREOCUPAÇÃO COM A JUSTIÇA NA VIDA DE PLATÃO Sócrates, Platão e Aristóteles são tanto o ocidente do oriente e como o oriente do ocidente. Com Sócrates, Platão e Aristóteles clareia de vez o dia histórico do pensamento – o dia do qual nós hoje somos o ocaso. Cessa o lusco-fusco da aurora: o mito já não ressoa; a experiência trágica da vida cessa com as grandes tragédias; o pensamento dos pensadores iniciais, como Heráclito e Parmênides, imerso na admiração da natureza, é submetido ao crivo da crítica. O pensar se torna, então, filosofia: o exercício da racionalidade, que ascende para uma luz sem sombras, a claridade de Apolo. Platão (c.428 – 348 a.C) nasceu de uma rica e aristocrática família ateniense. Sua educação inicial girou em torno da gramática, da ginástica, da pintura e da poesia. Sua iniciação filosófica se deu junto a Sócrates, de quem Platão foi aluno por cerca de 8 anos. O processo e a morte de Sócrates, em 399 a.C., deixariam uma marca profunda na sua alma. Depois da morte de Sócrates, Platão procurou o filósofo Euclides de Mégara. Participou de duas ou três expedições militares. Fez viagens ao sul da Itália, em visita a filósofos pitagóricos. Também foi ao Egito, dialogar com os sacerdotes. Mas as viagens mais importantes de Platão foram a Siracusa, na Sicília. A primeira viagem fez quando tinha 40 anos (em 388 a.C.). Platão se tornara amigo de Dion, cunhado do tirano Dionísio I. Depois de um desentendimento com o tirano, Platão é preso e vendido como escravo. Descoberto casualmente, porém, por um amigo, é resgatado e posto em liberdade. Em seguida, funda uma escola no monte Academos, a Academia. É então que começa a escrever a sua obra principal: a Politéia (República). No ano de 367 morre Dionísio I e Dion convida Platão para educar o príncipe herdeiro Dionísio II. Aceita o convite, mas, novamente, vem a decepção. Dionísio II acusa Dion de querer tomar o poder e o expulsa de Siracusa, o que leva Platão a deixar também a Sicília. No ano 361 o próprio Dionísio II convida Platão a retornar a Siracusa. Depois de muita relutância, Platão aceita o convite. Entretanto, Platão se põe a favor de alguns mercenários, que tinham entrado em conflito com Dionísio II e é por este aprisionado. Graças à amizade e intercessão de alguns filósofos, Platão é libertado e retorna para Atenas. Lá, Platão encontra Dion preparando um exército para lutar contra Dionísio II. Este o convida a participar desta expedição, mas Platão se recusa. 1 Como foi dito, Platão fundou uma escola no monte Academos. Esta escola se chamou Academia. A palavra “escola” vem de “scholé”. Os latinos traduziram essa palavra grega “Scholé” por “Otium”. A idéia de escola sugere que se trate de uma comunidade humana onde todos estejam engajados num modo de se empenhar denominado “ócio”. Na sua compreensão arcaica, originária, “ócio” não designava “não fazer nada”, muito menos preguiça e indolência. “Ócio” designava uma forma de trabalho. Trata-se de um modo de ser e de agir, de uma modalidade de trabalho todo próprio, caracterizado como labor livre, gratuito, assumido cordialmente por causa dele mesmo, querido voluntariamente, como realização da vocação de uma pessoa. O contrário do “ócio” é o “negócio”, ou seja, o trabalho funcionalizado em vista de um resultado, que também é importante, mas que não é o mais nobre e elevado para o ser humano. No ócio, o que está em vista é o ser humano, seu crescimento e seu aperfeiçoamento como ser humano. No negócio, o que está em vista é uma coisa, um produto, um resultado. O ser humano é usado em favor do alcance desse objetivo. Platão escreveu cerca de 34 diálogos. Os diálogos iniciais têm a presença maciça de Sócrates e se dedicam a expressar o seu ensinamento. Já os diálogos da maturidade e da velhice trazem Sócrates como protagonista, mas são mais voltados a apresentar a própria doutrina de Platão. Deixou também algumas cartas. Na Carta VII Platão diz: “Outrora, em minha juventude, experimentei o que experimentam tantos jovens. Tinha o projeto de imediatamente abordar a política tão logo pudesse dispor de mim mesmo” Seu envolvimento com a política, porém, numa época marcada pela prosperidade econômica e, ao mesmo tempo, pela decadência espiritual e pela injustiça, se mostraria ilusória: “Deixei-me levar por ilusões que nada tinham de espantosas em razão de minha juventude. Imaginava que o poder constituído governaria a cidade reconduzindo-a dos caminhos da injustiça para os da justiça”. Dentre as grandes desilusões de Platão com a política se encontra a condenação e morte de Sócrates e todas as vicissitudes vividas por ele próprio em Siracusa. “Em vista destas coisas e de outras do mesmo gênero e de não menor importância, fiquei indignado e me afastei das abominações que o governo cometia. (...) Vendo os homens que conduziam a política, quanto mais considerava as leis e os costumes e quanto mais avançava em idade, mais me parecia difícil administrar bem os negócios do Estado. Sem amigos e colaboradores fiéis, isso me parecia impossível. (...) Além do mais, a legislação e a moralidade estavam a tal ponto corrompidas que eu, antes cheio de ardor para trabalhar para o bem público, considerando essa situação e vendo como tudo era mal gerido, acabei por ficar aturdido. Não 2 cessava, contudo, de observar secretamente os sinais possíveis de uma melhora nesses acontecimentos e especialmente no regime político, mas esperava sempre, para agir, o momento oportuno (...) Finalmente compreendi que todos os Estados atuais estão mal governados... Fui então irresistivelmente levado a louvar a verdadeira filosofia e a proclamar que somente à sua luz se pode reconhecer onde está a justiça na vida pública e na vida privada. Portanto, os males não cessarão para os homens antes que a raça dos puros e autênticos filósofos chegue ao poder ou que os chefes das cidades, por uma graça divina, se ponham verdadeiramente a filosofar”. A preocupação de Platão pela justiça constituiu-se, por fim, na questão central de sua principal obra: a Politéia – o diálogo que discute a constituição da cidade justa e o exercício verdadeiro da cidadania. É o que abordaremos a seguir. II. A JUSTIÇA NA CONCEPÇÃO GREGA ANTIGA A justiça tinha sido tema do pensamento grego, tanto no mito, quanto na filosofia dos pensadores iniciais. O mito falava da deusa Dike, a Justiça. Era filha de Zeus, o deus supremo do céu, e de Themis. Esta, por sua vez, era uma titânide, filha de Urano e Gaia (Céu e Terra). Themis é a que põe e institui as leis eternas dos deuses. De fato, o seu nome tem a ver com o verbo títhemi: pôr, colocar. Por isso, ela era a conselheira de Zeus e tinha a autoridade de reunir e dissolver as assembléias dos deuses e dos homens. Themis gerou com Zeus as Moiras, deusas do Destino. É que o nome “Moira” se refere ao verbo medial meiromai: dividir, repartir. “Moira” significa, com efeito, a parte que toca, a porção que é assinalada, reservada e destinada, a cada homem. Daí: destino. No mito, a idéia de Moira (Destino) e a de Nómos (Lei) estão em consonância. Na concepção mítica, com efeito, lei é uma destinação. De fato, o nome Nómos vem do verbo Nemo: distribuir o alimento; dar a cada um o que lhe pertence; destinar a cada um o seu lugar na Terra; habitar de maneira ajustada a Terra; saber administrar o mundo; cuidar da casa; reger os usos e costumes; regular a convivência. Dike é uma moira. É a Justiça. Seu nome traz a raiz indoeuropéia dik- ou deik-, que em grego deu deiknymi, que significa mostrar, e em latim, dicere, que significa dizer. Dike é o lance do destino, que mostra ao homem o que lhe está disposto e destinado. Se o homem segue os ditames da Justiça, sua vida se torna bem integrada, bem articulada. 3 Dike (Justiça) era irmã de Eiréne (paz), de Eunomia (boa ordem), de Tyche (boa sorte) e de Hesychia (serenidade). Suas inimigas eram as filhas da escuridão (Nyx – noite): Éris (a polêmica), a Hybris (a arrogância), a Dysnomia (desordem), a Léthe (a dissimulação) e Amphilogia (ambigüidade da fala). Na concepção grega antiga, a justiça (dike ou dikaiosyne) é justeza, ou seja, articulação bem ajustada com o Todo. A injustiça (adikía) é desajuste, desatino, desarmonia, desintegração. Um dos primeiros fragmentos da história do pensamento grego, de Anaximandro (610545 a.C), diz: “De onde provém o surgir das coisas, de lá também vem o seu desaparecer – à medida que estas fogem, indo dar no mesmo – de acordo com a necessidade; de fato, as coisas rendem justiça e prestam o que é devido umas às outras, de acordo com a ordem do tempo”. Todas as coisas surgem e desaparecem. Surgimento e desaparecimento, nascimento e morte, vêm do mesmo “lugar”, do apeíron - o abismo. É a partir do abismo que as coisas surgem e desaparecem, seguindo os ditames da necessidade, o destino. Cada coisa, que vem à luz, surge à medida que ocupa o lugar que lhe é destinado no universo. E cada coisa está relacionada com todas as outras coisas, num ajuste bem articulado. Essa justeza (a Justiça) rege, pois, o relacionamento das coisas no universo: suas correspondências, seu dar e receber. Justiça significa, neste sentido, o que as coisas devem umas às outras, devido ao íntimo pertencimento que as liga. Quem rege, porém, os movimentos de surgimento e desaparecimento, nascimento e morte, segundo os ditames da Justiça, é o tempo. O tempo, de fato, instaura e revela os ditames da Justiça, as determinações da necessidade, as consignações do destino. Ele rege, portanto, tudo quanto acontece, tudo quanto vem à presença e desaparece na ausência, ou seja, tudo que surge do abismo e tudo que retorna ao abismo. Essa compreensão ontológica da justiça será sempre o pano de fundo em que Platão irá pensar a questão de seu significado. De fato, Platão tratará da justiça não simplesmente num horizonte jurídico, nem mesmo num horizonte simplesmente ético, mas, antes de tudo, num horizonte ontológico. 4 III. A QUESTÃO DA JUSTIÇA NO DIÁLOGO “POLITÉIA” (“REPÚBLICA”) Platão dedicou-se à filosofia em meio a um contínuo cuidado e preocupação com a Pólis. Sinal disso é o fato de que a Politéia, que trata da constituição da idéia da Pólis, resultou ser a sua obra mais imponente. A palavra “Pólis” tem relação com o verbo “pélein”: irromper, movimentar-se, tornarse, ser. A Pólis era o espaço de jogo em que irrompia, movimenta-se, acontecia o destino histórico do povo grego. Era o espaço da soberania de um povo. O lugar de relacionamento de homens livres e iguais. Cada polités (cidadão) era convidado a assumir a responsabilidade pelo todo da Pólis (politeúesthai) a partir do seu ofício. Deste modo, todos eram políticos. Por princípio, todos eram interessados na constituição da Pólis (Politéia), não só os governantes, mas toda a assembléia dos cidadãos. O diálogo “Politéia” é a contribuição que Platão deu, como pensador, à tarefa de se responsabilizar pela Pólis. Contribuição que se tornou paradigmática e um referencial para o pensamento político do ocidente. No segundo livro da Politéia, Platão coloca a pergunta decisiva para a vida da Pólis: o que é a justiça e o que é a injustiça. Para colocar melhor esta pergunta e respondê-la ele faz Sócrates dialogar com pessoas que encarnam a compreensão sofística da justiça. Os sofistas compreendem a justiça no nível dos fatos e não no nível da essência ou dos princípios. Confundem realidade e possibilidade, fato e essência. Não são capazes de intuir a essência da justiça. As teses sofísticas sobre a justiça dizem: 1. Justiça é a lei do mais forte. O poder dos que dominam é que decide sobre a constituição do direito e da justiça na Pólis. 2. Justiça é o resultado de um acordo entre os homens. Este acordo estabelece o meio termo entre fazer injustiça sem ser penalizado, que seria a tendência fundamental do egoísmo humano, e sofrer injustiça sem poder se defender ou vingar. Na Pólis, o decisivo não é ser justo, mas parecer justo. O homem que se torna verdadeiramente justo parece injusto diante dos outros homens, podendo até morrer crucificado. Viceversa, o homem que sabe ser injusto sem parecer injusto passa por justo no meio dos outros homens. Entram em cena, então, as opiniões dos irmãos de Platão (Adeímatos e Glaucon). Para eles a justiça deve ser cultivada porque traz honra diante dos homens e merece a recompensa por parte dos deuses. Essa compreensão também se mostra insuficiente, pois ou coloca a justiça na dimensão da aparência (fama) ou faz da justiça um meio e 5 não um fim em si mesmo. A justiça seria buscada não por causa dela mesma, e sim por causa de algum prêmio ou recompensa. Em seguida, a pergunta pela essência da justiça é recolocada nesses termos: O que é a justiça e a injustiça em si mesma e a partir de si mesma; como a justiça e a injustiça se relacionam com a alma humana; como a justiça é o maior bem e a injustiça o maior mal para a alma humana; como, enquanto maior bem, a justiça não é dada por uma valoração extrínseca, mas traz nela própria uma dignidade, que a torna um fim em si mesma; como a justiça deve ser buscada por ela mesma e não em vista de suas conseqüências, quer dizer, em vista de um prêmio ou recompensa, seja da parte dos homens seja da parte dos deuses. Recolocada a questão, chega o momento de buscar a idéia, ou seja, a essência da justiça: o que é a justiça nela mesma e por ela mesma; o que faz a justiça ser justiça. A investigação se dá em dois momentos: 1. A justiça na Pólis; 2. A justiça no indivíduo. A justiça é o maior bem para a alma humana. Como se estrutura, porém, a ordenação dos bens? De início, há aqueles bens que vêm ao encontro das necessidades básicas, corporais, do ser humano (chréia). Depois, há aqueles bens que correspondem às necessidades livres da vida humana (ananke). A Pólis surge porque os homens não são autárquicos, mas dependem uns dos outros, para suprir estas necessidades. “A Pólis nasce, porque cada um de nós não se basta a si próprio. O homem tem tantas necessidades, tantas, que muitos homens são obrigados a viver em conjunto para se ajudarem mutuamente. A essa convivência daremos o nome de Pólis”. A Pólis surge a partir das necessidades humanas. Entretanto, pode acontecer que ela cresça em desmedida, em função não mais das necessidades e sim das cobiças dos homens, tornando-se injusta. A origem de toda a injustiça está, com efeito, na cobiça humana. O risco de a Pólis se perder e se corromper urge dos cidadãos uma contínua vigilância. Todo o cidadão precisa ser um guardião, um vigilante, da Pólis. A cada um está confiado o cuidado (epiméleia) pelo todo da Pólis. Entretanto, este cuidado é exercido por cada um a partir de seu próprio lugar (ethos), de sua própria forma e visão de vida (eidos, bíos), de seu próprio estamento ou status jurídico (genos). Alguns são designados para governar (archontes), outros para serem governados (archómenoi). Entre os que governam, uns exercem plena regência, outros são coadjuvantes. Aqueles que governam são responsáveis pela legislação e pelo 6 julgamento das questões entre os cidadãos. Devem ser os melhores, os mais capazes, sensatos e sábios entre os cidadãos (aristói). Em segundo lugar, há aqueles que devem auxiliar na administração da cidade e zelar pela segurança e pela defesa dos cidadãos todos. Em terceiro lugar, vêm aqueles que devem se responsabilizar pela produção dos bens necessários para a sobrevivência e o conforto de todos os cidadãos: camponeses, artesãos, comerciantes. Todos, entretanto, devem visar continuamente, em tudo, o bem comum, a felicidade (eudaimonia) de todos os cidadãos e da Pólis como um todo. A cidade não pode ser nem rica nem pobre, pois riqueza e pobreza (indigência) corrompem os homens. Da mesma maneira, a cidade não pode ser nem muito pequena nem muito grande. O ideal é que ela consiga ser suficiente para atender às necessidades de todos os cidadãos. Da mesma maneira, a cidade deve ter leis em medida suficiente para regular a vida dos cidadãos: nem carecer de leis, nem ter leis em demasia. Cada estamento (genos) deve ter o seu ethos, isto é, o seu modo de se responsabilizar pelo todo da Pólis. Assim, a cada um corresponde uma determinada areté (excelência, virtude). A virtude desempenha uma importância primordial na concepção da educação grega. A palavra grega para virtude é αρετη (areté)1. Nos primórdios, esta palavra era usada em referência a coisas, seres vivos, seres humanos e deuses. Mais tarde é que veio a se referir predominantemente ao ser humano. Em Homero, ela denota valor2 e excelência3, conotando, ao mesmo tempo, coragem e vigor – tanto de varões, quanto de mulheres. A areté era, antes de tudo, referida ao guerreiro, tanto para ressaltar os 1 É incerta a etimologia de areté. Há alguma hipótese, no entanto. Este nome pode ser correlato do verbo αραρισκω (ararísco): apertar firmemente, encaixar estavelmente, conectar, adaptar, equipar, munir, construir. Pode-se pensar, por exemplo, em uma roda que se encaixa bem no seu eixo, que está bem adaptada ou ajustada a ele, que possui uma conexão firme e segura com ele. Aqui, o encaixe dá o sentido de firmeza e justeza. Por sua vez, a justeza nos dá o sentido primordial de justiça. Nesta direção, justo é aquilo ou aquele que está bem ajustado, que está bem centrado e articulado na conexão do todo da vida mesma. É algo ou alguém, portanto, que possui firmeza e estabilidade e que, por conseguinte, se encontra pronto, munido, preparado para toda e qualquer vicissitude. O verbo ararisco, no entanto, remete à raiz αρι− (ari-), que vigora, por exemplo, no verbo αρεσκω (arésco) e nos adjetivos αρεστος (aréstos) e αριστος (arístos). Arésco significa dar satisfação, satisfazer, contentar, aprazer, ser agradável, conciliar, cativar. Podemos dizer que, aquilo que está bem ajustado agrada, propicia contentamento, dá prazer, satisfaz. Que o contentamento aqui não é nada de frouxo, atesta a expressão aréskei, que significa estar decidido ou estabelecido que (cfr. o latim placet). Numa deliberação e resolução, com efeito, o que apraz e satisfaz é, justamente, aquilo que se evidenciou como o mais justo, o melhor. Nesta mesma linha, o adjetivo aréstos significa agradável, prazeroso, enquanto o adjetivo arístos significa excelente, ótimo, o melhor, o mais nobre e, daí, também, belíssimo, perfeito. 2 Valor, aqui, no sentido de valentia, coragem: a capacidade de valer-se de si, das próprias forças, da própria disposição, e, assim, fazer-se valer, isto é, superando-se a si mesmo, superar determinado obstáculo, vencer determinado adversário ou derrotar certo inimigo. 3 Palavra muito em voga hoje, em que predomina, no mercado, o discurso da “qualidade total”. “Excelência”, entendida a partir da palavra latina – excellentia – fala de elevação e superioridade. O verbo excello (excellere) significa elevar-se acima de, exceder, ultrapassar, sobressair. O particípio passado deste verbo é excelsus, daí, em português, excelso: alto, elevado, grande, nobre, sublime, poderoso. 7 dotes de seu corpo, quanto para deixar sobressair a nobreza de sua alma. Areté pode ser, também, sinônimo de boa fortuna, prosperidade, felicidade, bem-aventurança, e, a partir daí, de distinção, consideração, fama, glória, majestade. A areté brilha, assim, nas gestas gloriosas dos heróis, nas suas façanhas, nos seus atos de valor e coragem, em que reluz a magnanimidade e a nobreza deles4. Para Platão, a virtude é uma paixão (pathos) bem ordenada, uma atitude apropriada (héxis), uma realização, um feito, uma ação da liberdade humana (práxis). Platão atribui a cada forma de vida na Pólis uma areté (virtude) específica. Aqueles que governam devem ter a virtude da sophia (sabedoria). Os guerreiros, a virtude da andréia (coragem). Os trabalhadores, a virtude da sophrosyne (temperança). Os governantes devem se ater à sophia, sabedoria, o que significa que devem ter a visão do todo, a competência na compreensão das coisas (episteme) e a capacidade de bem ponderar nas decisões (eu bouleúesthai). Os defensores da cidade devem ter a virtude da coragem (andréia). Sua coragem, por sua vez, deve estar a serviço da manutenção e da defesa da integridade (sotería) da cidade. Os trabalhadores devem ser providos do entendimento são, isto é, do bom senso, da moderação, da justa medida, da sobriedade e da simplicidade (sophrosyne). Um vez estabelecida a vigência dessa tríplice virtude, convém ressaltar a importância da quarta, que, na verdade é a primeira e a anterior às três, por ser o garante de sua boa articulação e harmonia. Trata-se da virtude da dikaiosyne (justiça). A justiça é a que salva, isto é, garante a integridade e boa articulação das outras três virtudes. Ela é a virtude ética por excelência (areté ethiké). A Pólis só se torna a morada apropriada para o homem caso nela habite e reine a justiça. Como, entretanto, a justiça rege e vigora na vida do indivíduo? Para Platão, indivíduo e Pólis devem se integrar numa correspondência harmoniosa. A cidade não deve suprimir a originalidade, a autonomia, a liberdade do indivíduo. O indivíduo não deve visar apenas o seu bem particular, mas deve visar, sempre, o bem comum, o bem da Pólis. 4 Para quem se preocupa com o tema da educação não deve passar despercebida a necessidade que a criança e o adolescente têm de se mirar nos exemplos e nos feitos de heróis. Parece que o ser humano só pode começar a si constituir a si mesmo, tendo em mira estes exemplos, a começar dos próprios pais e educadores, sim, mas indo além, haurindo do mundo da imaginação as possibilidades de sua própria auto-realização. Na verdade, a imaginação funciona como um fator libertador da evidência destas possibilidades. É que, ao contrário do mundo real, o mundo imaginário não está restrito, mas nele pulsa as possibilidades inesgotáveis da auto-realização e auto-constituição do ser humano. Não à toa o mito, a arte, o romance, a novela, enfim, a ficção têm tanta força no processo de educação do ser humano. 8 Boa é aquela ação ou obra em que o homem se coloca com toda a alma (hóle te psyché) e realiza integrado com o todo da Pólis, bem como com o todo da Physis. Entretanto, quais são as potências da alma que precisam ser integradas a fim de que o homem faça uma obra boa com todo o seu vigor, isto é, com todas as suas forças? De início, a alma humana se encontra tensa entre dois contrários: a potência do desejo (epithymia) e a potência da razão ou reflexão (logismós). Esta tensão, entretanto, só não se torna destrutiva, mas criativa, caso estas duas forças contrárias se ajustem em uma terceira potência, que é a do ânimo (thymós). A palavra thymós significava, originariamente, as entranhas, daí: o coração, o centro da força da vida, a coragem, o ânimo. O homem deve saber dedicar-se à sua obra com todo a sua alma, atendo-se, com discernimento (diánoia) a tudo o que é bom, isto é, justo e belo. A aprendizagem do bem é, portanto, a grande aprendizagem (megíston mathema), a que o homem está destinado. “O maior saber é a ‘idéia’ do Bem (agathón), através da qual o que é justo e tudo o mais, que gira em torno disso, torna-se útil (chresimón) e conveniente (ophelimós)”. Em tudo o que é agradável, útil e conveniente, o homem já sempre se deixou guiar pelo vislumbre, isto é, pelo conhecimento prévio da idéia do Bem. O prazer (hedoné) e a sabedoria ética (phrônesis) estão para ela orientados. Como, entretanto, o homem pode chegar a uma visão clarividente do Bem, que é o que faz a justiça ser justiça? IV. O MITO DA CAVERNA Para ilustrar a dinâmica do conhecimento do Bem, Platão insere no diálogo Politéia três alegorias: a do sol, a da linha e a da caverna. Para concluir nossa apresentação, vamos, aqui, elucidar apenas a alegoria da caverna. “Imagine homens vivendo desde sua infância numa morada subterrânea em forma de caverna, cuja entrada, aberta à luz que vem da madrugada, se estende sobre toda a largura da fachada. Estes homens aí se encontram presos em cadeias, de costas para a entrada, olhando para os fundos. 9 Fora da caverna há um fogo aceso sobre uma eminência; entre o fogo e os prisioneiros, uma passarela. Ao longo da passarela, ergue-se um pequeno muro, semelhante aos tabiques que os exibidores de fantoches erigem à frente deles e por cima dos quais mostram as suas maravilhas. Imagine agora que homens, transportando utensílios de toda espécie que ultrapassem a altura do muro, estejam passando na passarela. Entre os portadores uns falam, outros se calam. Os prisioneiros, nessa situação, jamais viram outra coisa senão as sombras, jamais ouviram outra voz senão os ecos que reboam no fundo da caverna. Falarão das sombras como se fossem objetos reais, terão os ecos como vozes verdadeiras. Esses estranhos prisioneiros se assemelham a nós homens. Considere agora o que lhes sobrevirá se forem libertos das cadeias e curados da ignorância. Se um desses prisioneiros se levantar, volver o pescoço, caminhar, erguer os olhos para o lado da luz: tais movimentos o farão sofrer, e a luz, ofuscando-lhe a vista, o impedirá de ver os objetos cuja sombra enxergava há pouco. Ficará muito embaraçado e dirá que as sombras que via há pouco são mais verdadeiras do que os objetos que ora lhe são mostrados. E se este prisioneiro for arrancado à força do lugar onde se encontra e conduzido para fora à luz do sol, ele não ficaria irritado e seus olhos feridos? Deslumbrado pelo brilho, não necessitaria acostumar-se para ver o espetáculo da região superior? Aqui, nesta região superior que é a superfície da terra, veria primeiro o que está nas sombras. À noite poderia contemplar os corpos celestes, fixar a vista na luz dos astros e da lua. Só mais tarde poderia contemplar a luz do sol. Quando isso acontecer, reconheceria que o sol governa todas as coisas visíveis e também aquelas sombras no fundo da caverna. Lembrando-se então de sua primeira morada, da sabedoria que nela se professa, de seus companheiros de cativeiro, alegrar-se-á com sua mudança e lastimará a sorte destes últimos. Não sentirá ciúmes das honras, louvores e distinções que lá se distribuem. Preferirá, como o herói de Homero, ser apenas servente de charrua, a serviço de um pobre lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às suas antigas ilusões e viver como vivia. 10 Suponha que nosso homem torne a descer à caverna e vá sentar-se em seu antigo lugar. Nesta passagem súbita da pura luz para a obscuridade não lhe ficariam os olhos como que submersos em trevas? E se, enquanto tivesse a vista confusa – porque bastante tempo se passaria até que os olhos se afizessem de novo à obscuridade – tivesse de dar opinião acerca das sombras, numa discussão com seus companheiros, não provocará riso à própria custa e não dirão eles que, tendo ido para a região superior, voltou com a vista arruinada, de sorte que não vale mesmo a pena subir até lá? E se ele tentasse solta-los e conduzi-los ao alto, não haveriam eles de pegalo e mata-lo?” 5. A estrutura dessa história se articula em quatro momentos. Estes momentos são: 1. A situação do homem na caverna subterrânea. 2. A libertação do homem dentro da caverna. 3. A libertação, propriamente dita, do homem para a luz. 4. O retorno à caverna. O mais importante não é o significado conferido a cada momento, mas o todo das passagens. Cada momento só soa na sua significação própria em relação com os outros momentos e no todo do mito. Os moradores da caverna vêem apenas sombras. Entretanto, eles o ignoram. Não reconhecem as sombras como sombras e nem os ecos como ecos. Eles não são capazes de bem distinguir as coisas no cotidiano da vida. São homens que vivem a existência num dia continuamente escuro. Eles vivem dia após dia, mas não adquirem experiência e nem sabedoria no viver. Vivem somente reagindo aos estímulos, sem reflexão. Estão totalmente entregues ao que lhes é imediatamente dado. Não são livres, nem em relação a si mesmos, nem em relação aos outros. Vivem alienados de si mesmos, dos outros e de tudo. De repente, porém, um desses homens é libertado de suas correntes. Sim, a libertação acontece de repente. Mas ela requer todo um caminho de relacionamento com a verdade. Por enquanto, esta libertação é apenas um estado exterior. Ainda não se transformou em uma atitude. Para quem foi libertado dentro da caverna, a liberdade é 5 Cfr. Rep. VII, 514-517a. Tradução apud Buzzi, Arcângelo. Introdução ao pensar: o ser, o conhecimento, a linguagem. 29ª ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2002, p. 47s. 11 ainda apenas ainda um estar e não propriamente um ser. Por isso, esta libertação é uma libertação imprópria. Mas é já o começo do caminho para a liberdade. A passagem do homem para a luz se dá, de início, com violência. A libertação é violenta, pois o homem prisioneiro estava acostumado à comodidade de sua posição. Habituado ao que sempre lhe fora dado de imediato, sua existência não precisava de nenhuma luta e de nenhum esforço de ultrapassagem, de transcendência de si mesmo. Daí, a resistência do homem: ele não quer sair de sua situação antiga. A subida para a luz se lhe mostra penosa. Por isso, ele se tranca. Ele quer voltar ao seu estado anterior, pois a liberdade o faz sofrer e lhe traz dor. É que libertação requer e exige esforço, luta, combate. Neste momento da libertação, pois, o homem experimenta a força da liberdade como o que o constrange e coage, isto é, como violência. Logo ela, a liberdade, que reina sem se impor, na calma da serenidade. O homem se encontra invertido e pervertido. Ele precisa se converter para a liberdade, a fim de se tornar propriamente humano. Entretanto, por causa dessa perversão, ele teme a liberdade. Ela o faz pôr-se no penoso movimento da ascensão para a luz. Ela o chama de sua perdição no imediato e o convoca para o caminho da experiência da libertação. Ela cambaleia suas opiniões. Embora ele perceba que o que vê a partir da luz da liberdade seja muito mais real e muito mais verdadeiro do que o que ele via na penumbra de sua escravidão, ele se sente sem apoio, sem condições de comparar o que vê agora com o que via antes. Sua tendência é voltar logo para o lugar familiar e habitual de sua posição anterior. A primeira libertação era necessária, mas insuficiente para o homem se tornar de fato livre. Era uma libertação apenas negativa: liberdade de, independência. Nela, a liberdade só pode se dar como um estado, não como um acontecimento pleno, que toma toda a existência do ser humano. Vista em si mesma, ela permanece um fracasso e uma negação. Só no terceiro momento é que a liberdade de fato acontece. Nesta nova libertação, o homem se torna mais humano, isto é, mais livre e mais verdadeiro. Ele desponta na abertura da liberdade. Neste terceiro momento, acontece uma segunda libertação. O algemado livre das algemas é arrastado para fora e puxado para fora da caverna e levado para a luz do dia. Ele é constrangido a passar da sombra para a luz, do encobrimento para o desencobrimento, da não-verdade para a verdade. Ele ultrapassa a luz artificial do fogo e conhece a luz natural do sol. Mas, tudo isso, aos poucos. Passo a passo, ele é chamado e provocado para a luz. Para o homem se tornar livre, ele precisa de educação. Ele precisa, na verdade, de se reeducar. Carece de uma re-educação para a luz. O olho de sua mente precisa se acostumar com a luz da verdade. Essa re-educação exige não só uma mudança de 12 direção do olhar, mas uma verdadeira e própria transformação do olhar, do modo de ver as coisas. A re-educação requer paciência. O homem que quer ser livre precisa da paciência de um convalescente e da persistência de um iniciante. Necessita de tempo, isto é, de experiência. A experiência, porém, só se faz, quando o homem aprende com o dia a dia da vida, quer dizer, quando ele se transforma na sua mente e mentalidade. Para que aconteça essa aprendizagem e essa transformação, que conduzem à maturação da própria identidade, é preciso que o homem tenha coragem (areté). No mito da caverna, educação é vir, de fato, a existir. E-ducação é o vir para fora (eksistir), isto é, o despontar na abertura da liberdade da verdade, que é a existência (eksistência). Essa ação, pela qual o homem transcende o imediatamente dado do dia a dia e se põe no espaço de abertura da liberdade, Platão chama de philosophia. Filosofia é filosofar. E filosofar é transcender (-se). No mito da caverna, no terceiro momento e na segunda libertação, liberdade é apegarse, ou seja, é prender-se à claridade da luz da verdade. É compromisso com a luz, isto é, com a verdade, com a realidade. Liberdade é ligar-se, é prender-se, é apegar-se. É ligar-se ao que liberta, à luz da verdade. A ação da luz é deixar a realidade mostrar-se no que ela é. A luz (da verdade) deixa a realidade vir a ser o que ela é. A luz (da verdade) deixa também o homem vir a ser o que ele é: humano. A ação da luz é deixar-ser, é revelar cada coisa naquilo que ela é. Para Platão, a educação para a liberdade é uma aprendizagem, é aprender a ver. O homem livre tem um olhar transparente e, ao mesmo tempo, criativo. Seu olhar não somente reconhece a realidade, mas também intui possibilidades. É um olhar artístico, poético. Tudo isso Platão nos faz ver aludindo ao olhar que mira o sol. Para ele, o sol é a imagem do Bem. A luz e o calor do Bem tendem a se espalhar em toda a realidade, e, no homem, em todo o conhecimento, em toda a verdade, em toda a ação virtuosa. Mirando o sol, o homem sente-se mirado por um olhar de bondade, que perpassa todo o universo. É o olhar gracioso e gratuito do mistério. De vez em quando, o olhar do homem se cruza com esse olhar do mistério. Nesse encontro de olhares, o homem e o mistério se tornam uma só luz, uma só cintilação. É o que testemunha toda a mística na história da humanidade. O mito da caverna, no entanto, não termina no terceiro momento. Há um quarto, que não está ali apenas como um apêndice! A passagem de volta, o retorno ao fundo da caverna faz parte intrinsecamente dessa história. 13 Qual o destino do homem livre dentro da caverna? É ser um libertador. Mas o homem livre e libertador não costuma ser aceito pelos homens não-livres. Foi o que aconteceu com Sócrates, na cidade de Atenas. Sócrates é o exemplo do educador-libertador. Ele entendeu a educação como libertação e a filosofia como anagogia: elevação do humano para a luz. Como educador-filósofo, ele se tornou real companheiro de libertação de outros homens. Sua obra de educador e de pensador, porém, repercutiu mal dentro da “caverna”, isto é, na opinião pública e na elite da cidade. Ela, a cidade, não suportou sua liberdade. Por isso, o condenou à morte. Entretanto, o seu exemplo continuou ressoando pela história, atingindo e mobilizando todos aqueles que, de alguma maneira, estão dispostos e predispostos para o apelo da liberdade que se difunde na luz da verdade. 14 <object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/UQfRdl3GTw4&hl=pt_BR&fs=1&"></param><para m name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/UQfRdl3GTw4&hl=pt_BR&fs=1&" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object> <object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/Lhy44UYK_nc&hl=pt_BR&fs=1&"></param><para m name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/Lhy44UYK_nc&hl=pt_BR&fs=1&" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object> 15