CMYK CORREIO BRAZILIENSE • Brasília, sexta-feira, 12 de setembro de 2014 • Opinião • 11 Marketing político, remédio amargo » FRANCISCO VIANA Jornalista, é mestre em filosofia política ( PUC-SP) uem vai vencer a corrida presidencial só se saberá quando as urnas se abrirem, mas o grande perdedor da eleição é conhecido: o marketing político. Não que vá desaparecer, pois é parte do jogo democrático, mas, como forma ilusória de persuasão, deixará de ser preponderante. As surpresas nas pesquisas da campanha demonstram. Nada do que foi previsto vem acontecendo. Pelo contrário, com o desastre aéreo que matou Eduardo Campos, emergiu um país diferente, para o qual o marketing político sempre virou as costas, embora seja o país real. O espelho da persuasão foi, assim, invertido. Na Grécia Antiga, a persuasão era vista como uma deusa sedutora que encantava os homens, fosse no que a sua arte contém de falso, de verdadeiro ou fosse capaz de promover a paz. Foi, sem dúvida, o embrião do marketing político graças à procura dos representantes da sociedade, à época, de imagem positiva, mesmo que nada nela existisse de concreto. O marketing político, no Brasil, teve o condão de romper o lugar-comum do discurso tradicional, inovando na linguagem e na forma de seduzir o eleitor. Contudo, sempre careceu de conteúdo efetivo. Esteve sempre mais para a ficção do que para a realidade. Em lugar de apresentar candidatos na forma de pessoas que erram e acertam, que têm dificuldades e graves impasses a resolver, optou por candidatos de fantasia, vivendo num país de fantasia. Anulou-se a espontaneidade, abriram-se as cortinas para o lado falso da persuasão. O fenômeno, a rigor, começou no Estado Novo, com a propaganda e a censura varguista, e ganhou papel hegemônico na democratização que se seguiu à Constituição de 1988. A palavra de ordem era criar um mundo artificial, sem conexão com a vida das pessoas, isto é, com a política, a habilidade de antecipar o futuro, de trazer felicidade para o cidadão. Em torno do marketing político vicejam inúmeras lendas. Por exemplo: seus profissionais são pagos a peso de ouro, fazem pesquisas para que os candidatos falem o que a sociedade quer ouvir (não o que os candidatos vão fazer), desenvolvem o mito de plataformas eleitorais perfeitas, apresentadas por pessoas que tudo sabem, nunca erram. Há, também, outras questões mais obscuras, tal como o caixa 2, cuja caixa-preta, mais Q dia menos dia, será aberta. Erram na teoria e também na prática. O que dizia a teoria? Que a sociedade iria caminhar continuamente para o desenvolvimento e as massas eram controláveis, manipuláveis, facilmente iludidas pelo poder na televisão. Nada disso aconteceu. As mídias sociais, com imenso poder de desmistificação, entraram em cena, e o marketing político não percebeu. Ficou onde sempre esteve, estagnado no tempo de faz de conta. Entre a Constituição e os dias atuais, houve fenômeno ainda mais dinâmico. A liberdade de expressão educou o cidadão. E ele, como diria Gilles Deleuze, aprendeu a diferenciar o que é repetição da realidade. Isto é, foi iludido uma, duas vezes. Na terceira, trocou a ilusão pela indignação. Repetir, ensina Deleuze, nada mais significa que esconder o rosto em máscaras. A letra da repetição é o simulacro. Onde há liberdade, não há simulacro que resista. Evidência de tal realidade foram as manifestações de mais de um ano atrás, a perda de prestígio dos políticos e a falta de força persuasiva da propaganda pela televisão. Também passouse a questionar a origem dos financiamentos das campanhas, e a legislação eleitoral, a cada eleição, torna-se mais severa. Comunicação passou a ser o que a sociedade entende, não mais o que o marketing político deseja impor. O marketing político nada disso viu. O tempo passou e ele ficou na janela olhando a vida mudar, passar, se recriar. Faltou, portanto, a mediação dos fatos concretos para revelar qualidade, não simplesmente criá-la. Assim, a tarefa do marketing político moderno foi se desvirtuando, perdendo substância. Em larga medida, não se pode culpar apenas os profissionais. Os candidatos nunca deixaram de ter consciência da realidade em que estavam envolvidos. Fosse diferente, teriam reagido, criticado o marketing, fazendo-o mudar. Agora, tudo está acontecendo por imposição da realidade. É a velha lição aristotélica: o remédio da mudança pode ser doce ou amargo. No caso, o remédio amargo torna-se inescapável. Dinheiro é bom, mas não basta » BARBARA RUBIM Coordenadora da campanha de mobilidade urbana do Greenpeace Brasil N evidente: os empreendimentos não saíram da gaveta por falta de projeto e por incapacidade dos estados e municípios de entregar o prometido. Se até o fim do ano passado a porcentagem de recursos efetivamente alocados já era pequena, o cenário para o ano que vem é ainda menos promissor: a partir de abril de 2015, os municípios que tenham mais de 20 mil habitantes só poderão acessar os recursos da União se tiverem elaborado seu Plano de Mobilidade Urbana — um planejamento participativo que desestimule o uso do carro. O problema: como uma cidade que não entrega ou executa o projeto de uma obra conseguirá realizar a complexa tarefa de planejar os deslocamentos que acontecerão em seu território no curto, médio e longo prazo? Nessa equação, a conta está saindo cara, e recai sobre todos os lados: econômico, ambiental e social. Com uma mobilidade mal resolvida, as emissões de gases estufa do setor de transportes aumentam sem freios: foram 143% de crescimento entre 1990 e 2012. Os gastos médios do sistema de saúde brasileiro com tratamentos e outros custos decorrentes de acidentes de trânsito já estão na casa dos R$ 50 bilhões. No Hospital São Paulo, por exemplo, aproximadamente 75% das consultas de emergência têm como causa doenças respiratórias. A estimativa é que, a cada ano, cerca de 2,5% do PIB nacional vai para o ralo, porque o sistema de transporte coletivo não funciona. Os problemas, afinal, são estruturais. CMYK ão dá para negar: mobilidade urbana virou pauta na corrida eleitoral dos presidenciáveis. No entanto, tem faltado energia para falar sobre o assunto. Entre promessas de mais metrô, passe-livre e programas que jogam rios de dinheiro sobre o setor, um dos principais pontos tem ficado fora das discussões: a necessidade de se requalificar o papel do governo federal na mobilidade. Mais que um mero provedor de recursos, o Executivo nacional precisa se envolver com o planejamento estratégico e a capacitação técnica dos municípios e estados. Abrir os cofres é necessário, mas não suficiente. A prova disso está nos números. No ano passado, quando a panela estourou em junho e milhões de pessoas tomaram as ruas do país para gritar suas insatisfações com os serviços públicos, os governantes sentiram a pressão. Na esteira dos protestos, o governo federal anunciou o Pacto Nacional da Mobilidade, destinando mais R$ 50 bilhões para a área. Somado às verbas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a bolada — de R$ 143 bilhões — representou mais recursos ao setor do que o investido nos últimos 10 anos. Parecia que era a hora da virada. Ledo engano. Até o fim de 2013, apenas 10% dos recursos haviam sido usados. Levantamento mais recente feito pela Agência Pública de Jornalismo Investigativo mostra que 75% das obras nem sequer chegaram à fase de licitação. O gargalo, que sempre existiu, fica Portanto, não serão resolvidos num passe de mágica ou num cheque assinado. É preciso acompanhamento, continuidade e estratégia. E o governo federal deve participar de todo esse processo. No lugar do vaivém de picos de investimentos, é necessário que a mobilidade urbana seja reconhecida como direito social. E, como tal, que tenha uma parcela permanente do PIB destinada ao setor. Se depender da vontade do Congresso Nacional, esse assunto — tão caro ao povo — pode ter o mesmo caminho que a Política Nacional de Mobilidade Urbana, levando nada mais nada menos que 17 anos para receber a atenção merecida. Um começo seria o governo federal dotar sua Empresa de Planejamento e Logística (EPL) da competência necessária para auxiliar as cidades e estados a realizarem o planejamento e a execução dos projetos. Está provado que, sozinhos, não vão sair do lugar. Isso ficou evidente quando, nas últimas seleções que o Executivo nacional abriu para receber propostas de mobilidade urbana elaboradas pelos municípios e estados, só houve silêncio. O prazo foi adiado quatro vezes, pois os projetos não ficam prontos. Como se vê, dinheiro é bom, mas não basta. Enquanto não existir maior cooperação dos entes federativos, não haverá solução para desatar o nó da mobilidade nos grandes centros urbanos. Devolver aos brasileiros a qualidade de vida que há muito lhes foi tomada pelos congestionamentos precisa ser prioridade do próximo governo. ARI CUNHA DESDE 1960 VISTO, LIDO E OUVIDO [email protected] com Circe Cunha // [email protected] Desastre sistêmico Fernando Henrique Cardoso, comentando os mais novos escândalos produzidos pelo atual governo, reafirma a convicção de muitos de que é chegado o momento de cortar de vez o cordão que une partido e ideologias políticas da máquina pública. Disse o ex-presidente: “Não é um caso, são muitos casos. Não é uma prática, é uma constante. Não é um desvio, é quase que uma regra”. Os bilionários prejuízos que serão repassados para a sociedade pela má gestão do Estado reclamam uma mudança radical e urgente na condução da coisa pública. A perpetuação de práticas e de malfeitos em nome de uma democracia distorcida pode levar, em curto espaço de tempo, a uma exaustão do modelo. Não bastassem o voto obrigatório, o fundo partidário obrigatório, a propaganda obrigatória em rede nacional, a contribuição obrigatória aos sindicatos, os alto níveis dos impostos e tributos de toda ordem, a sociedade ainda é obrigada a assistir quase que diariamente a uma sucessão contínua de escândalos de corrupção e dilapidação do patrimônio público. O pior é que muitos dos implicados no desmonte sistemático do Estado, sem qualquer constrangimento, saem em busca de nova eleição para continuar sua razia sobre o Estado. Aos olhos do mundo, o Brasil se apresenta como um país fantástico e muito rico, tanto que vem sendo dilapidado pela elite dirigente há cinco séculos e mesmo assim ainda sonha em ser uma potência. A frase que foi pronunciada “Se for falar mal de mim, me chama. Sei coisas terríveis a meu respeito!” Riquezas da internet Rodô » Entra governo, sai governo, a Rodoviária não se ajeita. Falta um charme que a torne atraente. Talvez, plantas, verde. O lado bom é que as escadas estão funcionando e a sinalização para quem pega ônibus é bem amigável. Território » Desbravadores que frequentam o piscinão do Lago Norte seguiram as margens e adotaram praias particulares. Entram com o carro mato adentro, estacionam ao pé de uma árvore e ali curtem o pagode, a cervejinha, para a alegria da meninada. Quem será » Pelas 4h da manhã, há sempre um carro preto com iluminação de polícia pela estrada do Paranoá. Ceda a vez » Por falar em estrada, em horários de pico nota-se que a educação no trânsito de Brasília foi para o brejo. Agressividade a toda prova. Sem lei » Pela W3 Norte é possível vislumbrar puxadinho aéreo de quatro andares nos prédios comerciais. Hoje » Tradicional almoço de setembro promovido pela Associação dos Candangos Pioneiros de Brasília. Claudionor Pedro dos Santos convoca os pioneiros para o evento que vai acontecer em 12 de setembro. Homenagens póstumas ao Dr. Ernesto Silva e ao presidente Juscelino, que estaria completando 112 anos. No Previ, horário de almoço. Sem segurança » A maior falta de segurança na cidade pode ser comprovada pelo cercado verde em volta do Palácio do Planalto. Às favas com o Patrimônio da Hhumanidade! O negócio é proteger o patrimônio individual. Concurso no Senado » Serão 27 escolhidos, depois de analisadas as redações “Se eu fosse senador”. O concurso de redação e o Projeto Jovem Senador são sucesso pelo país inteiro. Das capitais aos lugares mais remotos. A participação especial é dos professores de português, que contagiam os alunos do ensino médio com o entusiasmo. Os selecionados virão à capital entre 17 e 21 de novembro. Na prática » Já são 24 projetos em tramitação na Casa, vindos de propostas dos alunos que participam do Jovem Senador. Isso em apenas quatro anos. Curiosidade » Até 21 de julho de 2013, o portal do INPI havia registrado 626.064 acessos de pessoas que buscavam informações sobre patentes. Planejamento » Atenção, líderes do país. O Brasil será o 6º país com a maior população de idosos em 2025. Quem está cuidando disso? História de Brasília Como viram, meu programa de tevê foi ao ar sem patrocinador. Fontes “invisíveis”, de forças superiores, tentaram calar o repórter, no que foram infelizes. Pena que não surjam de frente, e prefiram o caminhar tortuoso das minhocas, desviando das pedras, procurando a lama macia e escorreguenta. (Publicado em 26/7/1961)