meninos e meninas potiguares
>> 1
Meninos e Meninas
Potiguares
meninos e meninas potiguares
>> 3
Rio Grande
do Norte
Legenda
de 7 a 14/12/2006 - De Parnamirim a Parelhas
41
de 17 a 19/04/2007 - De Mossoró a Ceará Mirim
Mossoró
No mapa, o número acima do nome do município corresponde
à página com o registro da entrega do Selo UNICEF
CEARÁ
27
Ipanguaçu
29
Rodolfo Fernandes
31
Itaú
37
Olho D’água do Borges
33
Dr. Severiano
35
Riacho da Cruz
39
Lucrécia
Título >>
Meninos e Meninas Potiguares
Projeto Gráfico e Editoração Eletrônica >>
Andrea Araujo
Realização >> FEMURN e UNICEF
(Escritório do Ceará, Rio Grande do
Norte e Piauí)
Infográficos >> Cecília Andrade
Coordenação Editorial >>
Ana Márcia Diógenes (UNICEF)
Impressão >> Expressão Gráfica
Coordenação de textos >>
Oswald Barroso
Apoio Editorial >> Emanuelle Lobo
(UNICEF)
Tiragem >> 1000
Agradecimento >> A todos os
municípios que prepararam
suas festas para receber o Selo
UNICEF com criatividade, afeto
e acolhimento às equipes da
Caravana do Selo UNICEF
Textos >> Oswald Barroso
e Ângela Rodrigues
Fotos >> Evilázio Bezerra
e Felipe Abud
2007
25
Timbaúba dos Batistas
45
Ten. Laurentino Cruz
21
23
Ipueira
São José do Seridó
meninos e meninas potiguares
OCEAN
O
AT
LÂ
NT
IC
O
51
43
Ceará Mirim
Angicos
Natal
17
Bodó
13
Vera Cruz
>> 7
19
Currais Novos
15
11
Santa Cruz
Parnamirim
49
Brejinho
47
Acari
PARAÍBA
Uma caravana
pelos direitos
E
strada, segundo o dicionário Houaiss, tem
dois significados: 1) via de trânsito interligando localidades e 2) caminhos. Se o UNICEF fosse convidado a acrescentar mais um
significado, com certeza a sua equipe seria
unânime: “estrada são caminhos de acesso que nos
permitem desbravar a realidade de cada município,
de cada distrito, e que possibilita um descortinar do
olhar para como se dá, na realidade, a vida de cada
criança e adolescente, em cada lugar”.
Foi em nome desse último significado que o UNICEF escolheu a opção de percorrer quase 10 mil
quilômetros em estradas de asfalto, de calçamento, de piçarra ou terra batida dos estados do Ceará
e Rio Grande do Norte, fazendo o reconhecimento
dos municípios que ganharam o Selo UNICEF Município Aprovado – Edição 2006. Esse reconhecimento poderia acontecer numa grande festa nas
capitais, mas ir a cada um dos municípios possibilitou à equipe que organiza o Projeto Selo UNICEF
conviver, de perto, com o olhar, o rosto, a emoção
e a energia das pessoas que se determinaram a
trabalhar por uma realidade mais saudável para a
infância e adolescência de seu município.
Como crianças e adolescentes não são números
ou estatísticas, o Selo UNICEF tem a missão de fazer com que os indicadores sociais sejam bem entendidos e transformados em ações práticas que
permitam um desenvolvimento mais saudável nos
cerca de 1.500 municípios que compõem o Semi-Árido Brasileiro. A concretude da necessidade, urgente,
de que se promova uma melhor convivência com as
características dessa região, aliada ao fato de que o
município é o lugar primeiro onde as transformações
devem acontecer, faz do Selo UNICEF um dos principais instrumentos de que se vale o Pacto Nacional
Um Mundo para a Criança e do Adolescente do SemiÁrido. Instrumento de capacitação, mobilização e de
mudanças nas prioridades das políticas públicas.
Essas mudanças podem ser analisadas à luz do
resultado que os municípios obtêm nos dois anos de
cada edição do Selo. Por isso, ser um dos municípios
certificados pelo projeto mexe tanto com a emoção,
gera tanta ansiedade. O anúncio, em novembro de
2006, dos municípios ganhadores, mostrou que, no
Ceará, 41 municípios haviam melhorado mais os
seus indicadores sociais da infância e adolescência
do que outros e que, no Rio Grande do Norte, 15
eram os vencedores. A partir desse número, o UNICEF planejou a Caravana – com dois carros customizados em amarelo, com os mamulengos (símbolo do projeto) desenhados neles, e duas equipes de
profissionais se revezando em cada uma delas - que
percorreu os dois estados, de 5 a 14 de dezembro.
Um dos carros percorreu só o Ceará e o outro se
dividiu entre Rio Grande do Norte e Ceará.
Mas, muitos municípios, inconformados com o resultado e cônscios de que haviam evoluído os seus
indicadores, pediram a revisão dos dados. Após verificação e correção dos dados pelas secretarias estaduais de Saúde e Educação, a revisão mostrou que
mais 6 municípios no Rio Grande do Norte e 19 do
Ceará também haviam atingido a pontuação mínima
necessária para a obtenção do Selo UNICEF. Como
a Caravana já havia encerrado os dois roteiros, a solução foi montar uma nova etapa da Caravana, desta
vez com um só carro, customizado em branco com
os mamulengos, para que a entrega do certificado,
do troféu e das instruções fosse igual aos dos municípios antes visitados. O calendário de visitas aconteceu de 9 a 19 de abril, nos dois estados.
Nas duas etapas da Caravana, a emoção foi a
mesma. Em alguns casos, pelo tempo de espera e
de ansiedade, a comoção foi até maior na segunda
etapa. Tanto em uma como na outra foram visitados de dois a três municípios por dia. Sol, calor,
chuva, frio, vento... independente da condição climática, lá estavam eles, as crianças e adolescentes.
E eram na maior parte das vezes, a maioria nas
platéias. Meninos e meninas ocupavam, com sua
beleza e energia, as ruas, praças, árvores e quintais nas cidades para ver a Caravana passar por
seus municípios vencedores.
Foram momentos ímpares de observação da for-
meninos e meninas potiguares
ma com que cada cidade celebra a alegria. As imagens
se revezavam entre Prefeitos, Primeiras Damas, articuladores do Projeto Selo UNICEF, artistas, comunicadores, secretários, técnicos, autoridades, vereadores
e comunidades envolvidos com a conquista e a alegria
de terem obtido resultados positivos para a infância
e adolescência do lugar. As crianças e adolescentes,
juntos, comemoraram o resultado.
Para captar essa magia, o UNICEF convidou
quatro profissionais da comunicação. Ângela Rodrigues, jornalista potiguar, esteve na maioria dos municípios cearenses; Oswald Barroso, jornalista, teatrólogo e escritor cearense, esteve em todos do Rio
Grande do Norte e em alguns do Ceará. Os textos
de cada um dos jornalistas estão identificados pelas
iniciais AR e OB, respectivamente. Já o fotógrafo
Felipe Abud foi à maioria dos municípios do estado
do Rio Grande do Norte e alguns do Ceará; Evilázio
Bezerra, também fotógrafo, ficou responsável por
cobrir quase todo o Ceará e alguns municípios do
Rio Grande do Norte.
Os textos e as imagens registrados por eles podem ser conferidos nesta publicação. Cada texto tem
a data e a hora em que a solenidade aconteceu. Eles
foram agrupados seguindo a ordem cronológica. Mas,
como na primeira etapa da Caravana estávamos com
dois carros saindo para direções diferentes, em alguns dias estivemos em vários municípios ao mesmo
tempo, com equipes diferentes.
Na empreitada, também nos acompanharam
profissionais de filmagem. Daniel Cortez e Anderson
Fernandes, da Cena 7 Produções; e Osvaldo Marinho
Junior e Erica Lima, da AFM Stúdio. No Rio Grande do
Norte, duas técnicas do Governo do Estado, Edivane
Vilar e Ana Xavier, estiveram presentes em vários municípios. As duas vans que singraram as estradas cearenses e potiguares foram pilotadas, com segurança,
por José Ferreira Neto e Oswaldo Alves de Mello.
Para a ficha técnica ficar completa, segue o nome
de todos os que integraram a Caravana, nas suas duas
etapas, em ordem alfabética: Aline Andrade, Ana Márcia Diógenes, Boris Diechtiareff, Emanuelle Lobo, José
Arimatéia, José Rodrigues Otaviano, Luciana Bayer,
Morgana Dantas, Patrício Fuentes ( Coordenador do
Escritório do UNICEF para os estados do Ceará, Rio
Grande do Norte e Piauí), Rui Aguiar, Salete Targino e
Tati Andrade.
Depois de tantos quilômetros rodados e das lembranças de pessoas, festas, sorrisos, discursos, fotos e estradas, a imagem que mais vem às nossas
mentes é a da celebração. Celebração pela vida, pela
convivência, pela certeza de ser possível colher resultados positivos das políticas públicas já no presente,
porque a vida de crianças e adolescentes do SemiÁrido tem pressa. E corre por caminhos que todos
sabem quais são: saúde, educação, proteção e renda
para as famílias da região.
>> 9
PARNAMIRIM
meninos e meninas potiguares
Parada
estudantil
>>> Em 8 de dezembro de 2006, às 15h
arnamirim preparou uma espécie de parada estudantil, ou melhor, fez uma passeata
festiva, com cortejo de rua, inspirada numa
procissão barroca. Na frente, batedores de motocicletas, veículo que parece ser a marca da época,
em todo o interior nordestino. Depois, Seu Osvaldo,
nosso motorista, conduzindo em lugar de honra o
carro amarelo da Caravana do Selo UNICEF e buzinando ao ritmo da banda de música, que acompanhava o cortejo. Na retaguarda, carro de som, um
trenzinho e a bateria.
P
Ali, o Selo UNICEF, que já fora retratado por mamulengos como “cabeção”, banner e outras coisas
mais, virou um boneco grande recortado no papelão, com mãos e pés manipuláveis. As diferentes
alas do cortejo usavam camisas diversas, umas
com as marcas do Selo, outras com as marcas
de outros projetos e movimentos sociais, algumas
com camisas de times de futebol e outras com uniformes profissionais. As bolas coloridas, os fogos e
os apitos davam, ao desfile, a marca infantil e festiva. Aqui, acolá, um destaque, na forma de palhaços
perna-de-pau, de bonecos gigantescos como as
Gotinhas da campanha de vacinação, ou de cartazes, trazendo heróis do Nordeste, como Lampião,
Luís Gonzaga, Patativa do Assaré e Padre Cícero.
A festa surpreendeu o centro comercial da cidade. Uma senhora, com criança de colo, parou na
calçada para ver a banda passar. Dançava. Faixas
foram abertas na trajetória. Uma delas dizia: “Parabéns Parnamirim, O Selo UNICEF é Nosso”. Os
comerciários abandonaram o interior das lojas. As
pessoas postaram-se no meio-fio, para assistir o
cortejo inesperado. Aplaudiram. Muito convencido,
o município já exibia o troféu durante o cortejo. Havia recebido em solenidade na Capital Federal, em
novembro de 2006, quando o nome dos vencedores foi anunciado. O troféu passava de mão em
mão, enquanto se ensaiava um apitaço. Professoras desfilaram com seus filhos recém-nascidos em
carrinhos de bebê. Uma canção de Carla Simone e
David Augusto proclamava: “Parnamirim/Melhor
pra você/Melhor pra mim.”
A passeata chegou ao palanque armado atrás
da igreja. Crianças se espalharam pela praça, caracterizadas com trajes diversos: pastorinhas,
cangaceiros de Lampião, meninada do Programa
de Erradicação do Trabalho Infantil - PETI etc. No
local, barracas com sanduíche e distribuição de picolé. As crianças brincaram e se divertiram com
os palhaços, enquanto, do palanque, as autoridades falavam, tendo ao fundo a Bandeira Brasileira.
Os atletas do time do Parque Industrial estavam
ansiosos para que a solenidade terminasse. Haveria um forrozão, em seguida. Felipe Abud fotografou Louise, Maria de Fátima e Gisele, que tocam
prato na Banda de Música.
No palanque, meninas vestidas com malhas de
bailarinas, cabelos enfeitados com areia colorida,
dançavam xote e xaxado. Uma professora apresentou o número como se fosse dança contemporânea, talvez por causa da malha. São do Grupo
Xote e Xaxado, do Colégio Costa e Silva. Perguntamos às meninas quem foi o dito cujo, mas elas
não souberam responder. Em seguida, ainda no
palanque, uma mulher, ao saxofone, interpretou
“Fascinação”. Crianças muito pequenas fizeram
a coreografia. Elas eram do grupo do movimento de promoção do livro, ligado ao PETI. Havia um
redemoinho de crianças em torno da carrocinha
de picolé, distribuído gratuitamente. No palanque,
o Grupo Flor do Mamulengo interpretou a canção
do mesmo nome, uma espécie de hino que o Selo
UNICEF divulgou entre os movimentos de defesa
da criança e do adolescente. Embaixo, na praça,
o Pastoril Flor do Lírio dançou com suas pastoras
e seu palhaço. A Baianinha dançava e a Cigana do
Egito se exibia para o público. No palanque, os meninos e meninas de Passagem de Areia dançaram
canções natalinas. As autoridades desceram para
colocar o nome do município no carro da Caravana. O Prefeito mostrou-se muito feliz e foi cumprimentado. (OB)
>> 11
vera cruz
meninos e meninas potiguares
Festa íntima e
ecológica
>>> Em 8 de dezembro de 2006, às 17h
idadezinha simples, do interior, tranqüila. Igreja linda, povo bonito, lugar pequeno e pacato.
Nele, tudo é muito limpo e arrumado. Dela,
sabíamos que havia o Boi de Reis, do Mestre Jovelino, no Sítio Santa Cruz; uma Festa do Vaqueiro, em
Ponta de Várzea; a Quadrilha Venha Ver, no Cobé,
e o São Paulo Futebol Clube, na sede do município.
E mais algumas histórias tiradas do Mapeamento
Cultural, como a da maior cobra do mundo, que
apareceu na comunidade de Jacaré. Conta Seu Zé
Dadau, que seu pai, Antônio Maria, trabalhando no
brocado, ouviu aquele barulho: pof, pof, pof. Foi ver,
era uma cobra batendo a pestana: pof, pof, pof.
Chegou mais perto, percebeu que havia um sapo
cururu dentro do olho da cobra. Outra história tem
a ver com o nome do distrito de Cobé, onde existe
uma famosa Paixão de Cristo. Dizem que lá habitavam uns índios, que criavam muita galinha e cabra.
Na hora de colocar nome no distrito, um morador
teve a idéia: por que não Cobé, já que a galinha faz
có e a cabra bé? E ficou.
C
Como sempre fazia, Seu Osvaldo, nosso motorista, deu uma limpeza geral no carro da Caravana
do Selo UNICEF, antes de entrar na cidade. Chegamos ao entardecer. A pracinha já estava toda preparada, como para uma reunião íntima. Um quadrado de cadeiras em torno da mesa, tudo muito
alinhado. O palanque atrás. Fomos ver a Matriz do
Divino Espírito Santo e, num dos altares laterais,
estava Nossa Senhora das Dores, esculpida em
madeira, com sete punhais cravados no peito. Imagem magnífica. Bela igreja.
Na festa, um conjunto infantil de flautas. No globo
terrestre que as crianças levavam, estava escrito:
“O dedo de Deus criou, o homem destruiu”. Depois
vinham as bandeiras. A de Vera Cruz com a frase:
“Deus ilumine esta nação”. A do Rio Grande do Norte e o dizer: “A nossa bandeira amada.” Uma faixa
pedia a Deus: “Põe amor no coração dos que nos
governam.” Cartazes pediam a salvação do boto corde-rosa e diziam que é “tempo de ser feliz”. Fechando
o ritual, um grupo de crianças, com as cores da Bandeira do Brasil, desenvolveu uma coreografia que pedia a salvação do Planeta.
Para sentar à mesa, entre as autoridades, foi
chamada a Prefeita Mirim, Tainá, e o representante dos adolescentes. Tocaram o Hino Nacional e
os ditos adolescentes denunciaram a exploração
do trabalho infantil, encenando a história de um
dono de casa de farinha, que bota as crianças para
ralar mandioca. As facas eram de papelão, mas
as mandiocas eram verdadeiras. Patrício Fuentes,
Coordenador do UNICEF, tudo observou e em seu
discurso disse que “a aparência do município mostra que aqui tem gente cuidando das crianças”.
Atrás da mesa das autoridades, meninos conversavam sobre suas bicicletas e contavam suas façanhas. Na programação constava que os “Lindos
do Forró” iriam se apresentar. Uma menina observou que eles não eram tão lindos assim.
Depois do discurso, Patrício passou às mãos
de Tainá o troféu do Selo, dando início a uma volta olímpica das crianças pela praça. A reprodução
do “Tema da Vitória” (de Ayrton Senna) falhou e
não se ouviu um só barulho. Naquele momento se
viu como a cidade é silenciosa. Quando o Prefeito
ergueu o troféu, todos se levantaram. Como por
magia, o Tema da Vitória resolveu desenganchar.
Todas as crianças se juntaram ao Prefeito, numa
apoteose. Morgana Dantas, responsável pela cultura no escritório do UNICEF, encheu os olhos
de lágrimas. Todas as crianças estavam atentas.
Numa motocicleta, um casal assistiu a tudo. Sentada na garupa, a mulher acariciava o filho que trazia
no colo. Num rasgo de emoção, o Prefeito disse
que em sua vida pública sempre foi apoiado pelas
crianças e pelos adolescentes. Depois, leu um discurso e deixou um pouco de lado as palavras improvisadas. Nele ficou patente a preocupação do
município com a questão ecológica. (OB)
>> 13
santa cruz
meninos e meninas potiguares
Feito um
beijo selinho
>>> Em 8 de dezembro de 2006, às 20h
hegamos pela noite ao Teatro Candinha Bezerra, onde se daria a solenidade. Um grupo
de crianças jogava capoeira na rua asfaltada,
de frente ao teatro. O Prefeito chegou só, desceu
do seu carro e apertou a mão de todos que encontrou. Era o único de paletó no entorno. Meninos brincavam com malabares. Um deles, Afonso,
estava particularmente engraçado. Tinha vocação
para palhaço, mas acabou malabarista. A Orquestra Filarmônica da cidade ficou a postos. Tem a
participação de crianças. Ficamos admirados em
ver instrumentos musicais tão respeitáveis nas
mãos de crianças tão pequenas.
C
Entramos no teatro, moderno e confortável. Os
apresentadores, muito jovens, usavam apenas o
proscênio. Adeilton já estava no palco e Aline veio
do fundo da platéia. Ela tinha apenas 12 anos.
Um locutor narrou, em áudio, a história de Santa Cruz. Em seguida, dançaram grupos de catira
e carimbó, formados por meninos e meninas do
Projeto Cidadão do Amanhã, ao estilo para-folclore. Foram muito aplaudidos. Talisnon Bruno, de
14 anos, participou da apresentação. Chamou o
Selo UNICEF de selinho, como se fosse beijo selinho. Na platéia, uma meninazinha de três anos
dava um efusivo tchau para uma senhora em cadeira de roda. Ela ria, contente. No proscênio, um
menino de 12 anos, Francisco Paulo, com a cabeça enfiada no papel, leu com muita desenvoltura
o Rap do Eleitor.
Enfim, a cortina se abriu e, no palco, surgiu a
mesa das autoridades. Todos ficaram de pé e entraram as bandeiras do Brasil, do Rio Grande do
Norte e de Santa Cruz. Em seguida, um apresentador adulto assumiu o comando. Ele citou as autoridades presentes. Patrício Fuentes, em sua fala,
disse que a lei de proteção aos direitos da criança
e do adolescente deve ser posta para funcionar.
Ele destacou o trabalho em equipe.
No início do ritual de outorga do Selo foi perguntado à platéia como é e o que significa o Selo
UNICEF. No início, havia pouca presença de crian-
ças na platéia. Uma menina, de nome Amanda, foi
convidada a ajudar na entrega do Selo. Amanda
passou o troféu ao palhaço Chupeta. As crianças
fizeram um cortejo pela platéia e Amanda voltou
para sua cadeira, sendo muito cumprimentada pelos vizinhos. O cortejo juntou todas as crianças da
platéia. Quando elas apareceram, viu-se que não
eram poucas.
A cada cidade, o ritual de entrega do Selo era
enriquecido, de modo a conseguir mais participação e emoção. Eram formas de comprometer todos com a defesa da infância e da adolescência. O
Prefeito beijou o troféu depois de levantá-lo bem
alto na frente do palco. A meninada gritou: “Santa
Cruz me faz crescer!” A música subiu e as crianças
desceram do palco. O Prefeito, muito emocionado,
falou da música que tocava. Tem letra do compositor Babau, orgulho do lugar. Descreveu a cidade, e
a época quando começou seu governo. Disse que
foi aprovado por mais de 90% da população, após
5 anos e 8 meses de gestão. A solenidade de entrega do Selo estava sendo transmitida pela Rádio
Santa Cruz. Por isto, a fala do Prefeito era como
para um grande público. Ao final, foi aplaudido de
pé. Uma equipe de crianças muito vivas e comunicativas fechou a solenidade.
Lá fora, um futuro candidato a vereador fez
questão de tirar foto com o troféu, o Prefeito e a
Primeira Dama. Um pequeno repórter, muito esperto, entrevistou Patrício e o Prefeito. Depois, sabendo que o escrivão da caravana era teatrólogo,
o entrevistou sobre teatro. Perguntou por que é
bom fazer teatro e como o teatro começou. Depois, ele mesmo saiu dando suas opiniões sobre o
teatro. Felipe Abud, fotógrafo da Caravana do Selo
UNICEF, virava-se e revirava-se na busca de fotos
em que crianças aparecessem tendo ao fundo o
carro amarelo da Caravana e uma paisagem inconfundível da cidade. (OB)
>> 15
bodó
meninos e meninas potiguares
Entre bodoenses e
bodozeiros
>>> Em 9 de dezembro de 2006, às 10h
idade pequena, arruamento aberto em plena caatinga. Todo mundo estava na porta de
casa para receber a caravana do Selo UNICEF. Paramos em frente ao ginásio de esportes, local da festa. Morgana Dantas abriu a porta do carro e, entusiasmada, distribuiu pirulitos vermelhos
em formato de coração. Uma menina perguntou
por Didi Mocó (personagem de Renato Aragão).
Alguém, brincando, havia anunciado que ele vinha.
No ginásio, o povo recebeu nossa caravana com
aplausos entusiasmados.
C
A quadra de esportes, decorada com cortinados
nas cores da cidade - amarelo, azul e branco - faixas vermelhas e bolas coloridas, acolheu uma gente bem atenta e organizada, apesar do calor. Uma
mesa muito comprida, com toalha branca, acomodou as autoridades. Sua composição era numerosa
e ampla. Dela fazia parte um representante da comunidade quilombola.
O primeiro número foi feito pelo Grupo Bate
Lata, do PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil). Nas latas tocava tudo, desde canções
de Natal - que foram cantadas aos gritos, em estilo
rap, por um menino - até o Hino Nacional, cantado pelo representante dos quilombolas. A platéia
tentou acompanhar, mas sem sucesso. O público
acalmou-se quando o grupo de flautas do Assentamento Jatuarana interpretou “Asa Branca”. Depois,
ficou mais concentrado ainda para ver o Grupo de
Teatro e Dança Roda Viva encenar “A Vida do Sertanejo de Meu Bodó”. Uma bailarina entrou dançando
na ponta do pé e virou cangaceira, quando tocou
“Disparada”, de Geraldo Vandré. Em seguida, entraram outros personagens: o vaqueiro, a matuta, a
indígena e uma roceira peneirando feijão. Ao final,
um dançador de xaxado fez par com a bailarina.
A garotada mostrou o que era possível, um
pouco de cada coisa. A história resumida de Bodó
e seu padroeiro, São Pedro, foi contada pelo apresentador. Um garotinho, filho do Prefeito, dançou
forró, com uma menina muito novinha. A capoeira
foi representada, em exibição, por três crianças.
O menino mais velho se benzeu, antes de dar um
salto mortal. Em seguida, um grupo de adolescen-
tes dançou uma canção sertaneja com coreografia em estilo contemporâneo. Um dos membros
da equipe do UNICEF perguntou: Quem nasce em
Bodó, é bodoense ou bodozeiro? Alguém respondeu: Bodoense no oficial e bodozeiro no popular.
O Prefeito, de aparência tranqüila, disse para a
equipe do UNICEF: “Eu não tenho cara de prefeito”.
Morgana Dantas, indignada, retrucou: “O senhor
tem cara de prefeito sim, porque o prefeito tem
que ter a cara do seu município e o senhor tem a
cara de seu povo”. A cada município, o suspense
era saber o que de novo haveria de ser inventado
para o ritual de entrega do troféu.
Havia espontaneidade e simplicidade no ambiente. O amianto no teto do ginásio fazia o som
reverberar. Muitas mães vieram com seus filhos
de colo. As crianças, dispersas, faziam muito barulho e foram chamadas para o centro do ginásio.
O troféu foi passado a um menino, esse passou a
outro e mais outro. O Prefeito, muito feliz, sentouse no meio da criançada com o troféu no colo.
Passava sinceridade na sua alegria.
Meninos negros, meninas brancas, e vice-versa, crianças de todas as cores. Menina com vestido de criança, babado e bico, manga fofa, o que
não se vê com freqüência. No final, distribuição de
pipoca e lanche para o povo da zona rural, que havia vindo participar da festa. Depois da solenidade
fomos visitar a mina de shelita, uma das fontes
de sustentação da cidade. Na sua entrada, está
escrito: “É andando que se caminha”. Os adolescentes aproveitaram e tiraram mil fotos com os
visitantes. (OB)
>> 17
currais novos
meninos e meninas potiguares
Luz, câmera,
ação!
>>> Em 9 de dezembro de 2006, às 16h
m Currais Novos muitas histórias foram levantadas pelos meninos e meninas durante
o Mapeamento Cultural. Histórias que datam das origens do município, antigas terras do
Coronel Cipriano Lopes Galvão, homem violento
e de muitas posses. Dizem que, certo dia, o dito
coronel, com medo que lhe arrancassem a fortuna, pediu que três dos seus escravos enterrassem no alto de um serrote, cada qual, um uru
de couro cheio de ouro. Eles assim fizeram, mas
depois de feito, o Coronel os matou um a um,
para que o segredo fosse mantido. Falam que
devido a estas mortes, uma cobra foi gerada. Já
outros contam que a história da cobra se deveu
a uma jovem solteira, que escondeu sua gravidez
com medo da censura da comunidade. Quando
começou a sentir as dores do parto, foi até a
beira do açude e lá teve a criança, que acabou
desaparecendo dentro d`água. Por ser pagã, a
recém-nascida virou a dita cobra, que até hoje
aparece no açude.
E
Contou, ainda, uma certa Dolorosa Dolores de
Medeiros, que em Pedra D`Água, lugarejo próximo
dali, um senhor chamado Antônio Mocó, caçador
de onças, curado de cobra, passando certo dia
por uma cova de pagão, encontrou três mulheres,
cada qual com uma trouxa muito grande na cabeça. Admirado com o tamanho das trouxas, Antônio
Mocó perguntou o que traziam. A primeira respondeu que era carestia; a segunda, escândalo e a
terceira, violência. Quando terminaram de falar, as
mulheres desapareceram como por magia.
Dizem, também, que em 1680, na Comunidade
de Areia, hoje Lagoa dos Santos, onde morava o fazendeiro Lulu da Areia, havia uma grande pedra que
soava como sino, usada pelos índios para emitirem
seus sinais. Com a morte do fazendeiro, a propriedade passou para seu empregado, João Lobo. Certo dia, feito alma, Lulu apareceu para Lobo e revelou
a existência de uma botija, escondida na Pedra do
Sino. Recomendava que ele devesse ir à noite. Ele
foi e, com uma grande marreta, partiu a pedra no
meio. Foi a última vez que se ouviu o sino da pedra.
Também não havia botija. Falam que hoje só a metade maior da pedra soa, mas feito uma sineta.
Atualmente, Currais Novos é cidade grande
com um centro bonito, cheio de avenidas largas
e limpas, tendo inclusive um aeroclube, lugar escolhido para acolher a solenidade de entrega do
Selo UNICEF. No salão, improvisado como auditório, os adultos se colocaram de pé nas laterais e
as crianças, ao centro, sentadas em cadeiras, às
centenas. Do palco, enfeitado, uma apresentadora
fazia as vezes de animadora de auditório e perguntava à garotada: “Vocês querem pipoca?”. Quando
queria atenção da meninada, ordenava em vão,
como se comandasse uma filmagem: “Luz, câmera, ação!” O som da gritaria reverberava pelo salão, quando uma cantora local, ao vivo, cantou com
voz e instrumento o Hino Nacional, numa interpretação soberba. Em seguida, dois clows interpretaram uma coreografia para Flor do Mamulengo.
A mesa foi formada. A solenidade foi rápida,
com o troféu fazendo uma volta olímpica no salão.
Os meninos correram literalmente, por entre a
multidão. Ao final, o troféu foi entregue ao Prefeito, que agradeceu a todo mundo. Ao telefone,
uma mulher dizia para alguém: “Aqui está uma
loucura!”. O Prefeito falou como em comício, tal a
algazarra no salão. Chamou as crianças para perto de si e, juntos, saudaram eufóricos a conquista
do Selo. Foguetes.
A apresentadora gritou, pela última vez: “Luz,
câmera, ação!”. Finalmente tudo se aquietou.
Pôde-se ler o que estava escrito no palco: Afeto, Igualdade, Saúde. As autoridades retiraram-se
para a colocação do nome do município no carro
da Caravana do Selo UNICEF. Para as crianças, foi
anunciado o sorteio de bicicletas, distribuição de
pipoca e picolé. Elas vibraram. (OB)
>> 19
SÃO JOSÉ DO SERIDÓ
meninos e meninas potiguares
A
cidade
que passou por mais um teste
>>> Em 9 de dezembro de 2006, às 20h
á, na cidade, uma casa belíssima, cuja fachada imita o desenho de uma harpa e que
abriga a sede da Filarmônica Honório Maciel, criada em 1929. O local escolhido pela Prefeitura para receber o Selo UNICEF foi o salão do
Centro Social de São José do Seridó, uma espécie
de casa paroquial. Na entrada, uma pintura mural
com motivos cristãos, diz bem da religiosidade no
recinto. Chegamos e, no salão, havia uma mesa
grande com flores, alguns meninos e alguns adultos. Carlos Guedes, em seu sax soprano, tocava
Roberto Carlos e, depois, “Amigos para Sempre”,
para uma pequena platéia de crianças muito sossegadas. A música era bela, o ambiente era zen.
Pouca gente. Tudo se preparava como para uma
boa conversa, ou uma reunião íntima.
etc.? O que significam as crianças na janela da
casa? Por que as cores? O que significa o número? Porque as duas janelas? Foram dez perguntas, uma delas para o Prefeito: O que significa o
número 227 no troféu?. Ele acertou em cheio.
Falou que é o artigo da Constituição que assegura
os direitos das crianças e adolescentes.
Formou-se a mesa das autoridades e, entre
elas, estava o padre, representante da pastoral.
Começou a sessão com o articulador, Jacó Libânio, falando sobre números da realidade social de
São José, como a taxa de analfabetismo, uma das
menores do Brasil. Enquanto ele falava, chegaram
os vereadores, todos de paletó. Vinham de uma
outra solenidade. Observamos que havia muitos
pais e mães, com crianças, sentados nas cadeiras.
Uma das mães era a esposa de Carlos, o saxofonista. Enquanto o marido tocava, ela tomava conta
do filho. Mas, quando Carlos se desocupava, ela
dava o filho de colo, ao marido.
Passado o susto, uma menina entregou o troféu ao Prefeito e todos aplaudiram entusiasmados.
Uma servidora ergueu o troféu e desfilou vaidosa,
vestida com a camisa do Mapeamento Cultural.
O coordenador do Mapeamento no município, Joaldo Dantas de Medeiros, confessou que estava
esperando ganhar a certificação para publicar o
livro do Mapeamento com a logomarca do Selo
UNICEF. Seria a oportunidade para registrar todo
o esforço de crianças e adolescentes que fizeram
o levantamento das tradições e costumes.
H
O local da solenidade não estava lotado, mas a
platéia estava muito entusiasmada nas palmas, o
que bem comprovava que a qualidade tem mais
peso do que a quantidade. Uma menina saiu passando o troféu de mão em mão. Foi explicado que
o município ia passar por mais um teste, antes de
receber o troféu. Os presentes, de início, ficaram
surpresos, mas acabaram topando o desafio.
Então, veio uma saraivada de perguntas, que
eles foram respondendo, uma a uma. Por que é
tão importante ganhar este troféu? O que este
reconhecimento pode trazer para vocês? Por que
o troféu é desta forma, uma casa amarela e azul
>> 21
O Prefeito falou sucintamente. Terminada a
solenidade, a conversa correu solta. Acabamos
sabendo que o saxofonista era neto de Felinto Lúcio Dantas, famoso maestro compositor de Carnaúba dos Dantas, autor de músicas sacras. E
que ele havia acabado de lançar mais um CD,
contendo interpretações suas de músicas célebres. Tudo da melhor qualidade. (OB)
ipueira
meninos e meninas potiguares
Hino
do município faz a festa
>>> Em 10 de dezembro de 2006, às 10h
pueira é a terra de José Tomás de Aquino, o
Pirambu, descendente de escravos, filho de mãe
pobre e pai ignorado. Na juventude, foi exímio cozinheiro e empregado de hotel. Como adulto, sua
ocupação principal foi a de carregar água, no lombo de um jumento, para abastecer o motor que
gerava energia para iluminar a cidade. Talvez, por
isto, foi a única figura que mereceu homenagem,
em vida, dos habitantes de Ipueira. Deram à rua
em que ele morava, seu nome, José Tomás de
Aquino. Ele agradeceu a homenagem, mas não ficou satisfeito, preferia ver nas placas o nome Rua
Pirambu. Depois, o abandonaram. Morreu cego
e desprezado pela família, aos 91 anos de idade.
Mas foi o melhor contador de histórias para crianças que o município conheceu.
I
Lugar pequeno, de menos de dois mil habitantes. Devota de Frei Damião e Nossa Senhora do
Perpétuo Socorro, Ipueira foi território dos índios
Pegas, da grande Nação Cariri, dali expulsos para
a instalação de uma enorme fazenda de gado, que
deu o nome da cidade. Hoje, ainda vive de pecuária
e agricultura, mas também de arte e artesanato,
com seus pintores e escultores, suas louceiras de
barro e bordadeiras, sua afinadíssima orquestra
filarmônica e seu carnaval repleto de papangus.
O dirigente municipal é uma mulher, Francisca
Paulina Araújo (mais conhecida por Concessa).
Ipueira é um dos únicos municípios do Rio Grande
do Norte, dirigido por uma prefeita, a ganhar o Selo
UNICEF. Além disto, fomos recebidos pela canção
“Imagine”, de John Lennon, executada pela Banda
Municipal. A festa aconteceu no abrigo da cidade,
lugar de conversas, ao lado do mercado. O ambiente era de ordem e tranqüilidade. A apresentadora
começou suas saudações pelas crianças e adolescentes, que apresentaram um belo número sobre
seus direitos. Algumas disseram o texto, enquanto
outras gesticulavam mostrando a boca, os olhos
e os ouvidos, como uma expressão da luta pelo
direito de ver, ouvir e falar. As crianças falaram
sem microfone e foram ouvidas perfeitamente. O
texto era longo, mas muito bom. Defendia o direito
à liberdade e à convivência familiar e comunitária.
Juntas, as crianças cantaram uma canção de Gonzaguinha que diz: “Prefiro a resposta das crianças:
(a vida) é bonita, é bonita e é bonita.” E mais: “A
vida, sempre desejada, por mais que seja errada”.
Na composição da mesa, um pastor evangélico
representava a comunidade cristã. Ouviu-se o Hino
Nacional numa gravação, mas o Hino do Município foi cantado ao vivo, pelas crianças. Uma das
moradoras que cantava entusiasmada o Hino Nacional e o do Município era Rosana Leão de Souza
Monteiro, que tinha cerca de 30 anos e trazia o
filho nos braços. Disse que nas escolas, todas as
quintas-feiras, as crianças cantam os hinos e sabem de cor. Patrício Fuentes, em sua fala, disse
que só pela cúpula da igreja (muito azul), vista de
longe, já havia gostado da cidade. Em uma faixa, a
Prefeitura reconhecia o papel da comunidade na
premiação. A banda tocou o dobrado “Eterno Herói”. A linha de frente da banda é toda formada por
mulheres. Elas se levantaram e foram aplaudidas
pelo público.
Como sempre, o “Tema da Vitória” foi reproduzido na hora em que o troféu circulou pelo recinto. Crianças passaram a “Casinha do UNICEF”,
como ele é chamado, de mão em mão. Todos
gritaram e aplaudiram. Por fim, o troféu chegou
às mãos da Prefeita Mirim, que se desfez em
lágrimas. Mulheres se abraçaram. Comoção geral. Rui Aguiar disse que, dali para adiante, o município iria poder usar a marca do Selo UNICEF,
“com toda vaidade”. Ele enfatizou a participação
das mães, que deram de mamar, e dos pais, que
levaram os filhos para vacinar.
Concessa, a Prefeita, depois de receber o certificado, falou enfatizando “minha” filarmônica, referindo-se à banda de música. Ao final, foi distribuída salada de frutas para as crianças, enquanto
elas disputavam espaço para ver quem colocava
primeiro o nome no livro de presença da solenidade. (OB)
>> 23
timbaúba dos batistas
meninos e meninas potiguares
Eu quero
é outro rabo pro jumento
>>> Em 10 de dezembro de 2006, às 15h
avíamos visto o prefeito, bem jovem, no dia
anterior, em uma praça de Currais Novos.
Chegamos depois do almoço, lá pelas três da
tarde, debaixo de um solzão. Próximo à entrada da
cidade, perto de onde existe um monumento em
homenagem ao jumento, Patrício Fuentes, encantado com a paisagem agreste do Semi-Árido, teve
a idéia de fazer uma parada, para tirar fotos da
equipe na caatinga. Estávamos lá, posando para a
câmera de Felipe Abud, entre cactus, mandacarus,
juremas secas, pedras e cercas de arame farpado, quando chegou o Prefeito. Foi nos encontrar
no mato, ele e um outro senhor, seu auxiliar. Falounos de um sítio próximo, com inscrições rupestres
e lá fomos nós para conhecer.
H
No caminho, um fato engraçado. Emanuelle
Lobo, consultora de design do Selo UNICEF, loura,
de salto alto, saiu pelas veredas de terra, entre
pedras e garranchos. O tal senhor, assessor do
Prefeito, olhou para trás e viu que Emanuelle havia
estancado numa subida de areia. Muito admirado, voltou-se e disse: “A galega atolou”. Pra que?
Depois, ela desatolou e prosseguiu caminho até o
local dos desenhos feitos nas rochas, por nós devidamente documentados. A história da “galega atolada” pegou e, até o fim da viagem, todos ficaram
brincando com ela.
Na Casa de Cultura da cidade, nos receberam
uma banda de frevo e dois bonecões. Um deles vestido de Papai Noel. Com outro Papai Noel à frente,
o cortejo formou-se à sombra da fachada da Casa
de Cultura. Crianças de chinela de borracha, jovens
dançando frevo, clima de carnaval. Crianças cantaram o Samba lê lê. Povo bonito.
No Centro de Cultura, visitamos o museu em
homenagem a Elino Julião, autor de “Eu não quero pagamento, Nascimento. Eu quero é outro rabo
pro jumento”. Daí, talvez, a estátua em homenagem
ao jumento, na entrada da cidade. Elino, falecido recentemente, foi sanfoneiro, cantor e compositor. É
um dos orgulhos da cidade.
A passeata saiu pela cidade até a Quadra da
Cidadania, onde teria lugar a festa. A decoração
e o cenário pareciam de festa de aniversário de
criança, com bonecos, teatrinho, balões, flores
de plástico, toalha de mesa colorida, e mesa de
bolos, com copos cheios de doce, embrulhados
em papel celofane. Na mesa das autoridades
havia um pastor evangélico homenageando os
religiosos, e um representante das crianças.
Vestido de Papai Noel, o apresentador chamou
um coral de anjos, que entoou canções de roda.
Crianças da Assembléia de Deus interpretaram
uma canção sobre seus direitos. A articuladora
do Selo UNICEF disse para Patrício: “Não adianta
uma cidade bonita com um povo feio”. Morgana
Dantas pôs a cabeça pela janela do palco do teatro de bonecos e entregou o troféu ao menino
Emerson. Ele foi passando adiante, ao som do
“Tema da Vitória”. Pelas mãos de uma menina,
Neise Santos Ferreira, que usava muletas, o troféu chegou às mãos do Prefeito. Cercado pela
meninada, ele exibiu o troféu.
Depois, a orquestra tocou o hino do padroeiro
da cidade, São Severino Mártir. Este hino, contounos uma senhora, foi uma das últimas composições de Elino Julião. Ele passou toda uma noite
em claro, compondo o que era para ele uma dívida
antiga. Pela manhã, muito cedo, apresentou o resultado para as crianças. Disse que aquela canção
era uma coisa que faltava em sua vida, um hino
para o padroeiro da sua cidade.
Em sua fala, o Prefeito tentou chamar a atenção das crianças, que brincavam correndo no ginásio. Disse que o melhor de Timbaúba eram os
timbaubenses. De fato, todos são bonitos: as crianças, os idosos, os jovens, os adultos! Uma menina
pediu a Felipe Abud que tirasse seu retrato com
as amiguinhas, sempre com as amiguinhas. Nem
bem terminou a solenidade, os meninos já estavam na fila dos doces. O Prefeito falou para seus
secretários e prometeu contemplar seus pleitos.
Quando terminou sua fala, a banda de música puxou os Parabéns. (OB)
>> 25
ipanguaçu
meninos e meninas potiguares
Uma canção pelos
direitos
>>> Em 10 de dezembro de 2006, às 20h
omo sempre o carro da Caravana do Selo
UNICEF chegou buzinando. O Prefeito nos recebeu na porta. No final da avenida, o palanque estava armado e as crianças formavam grupos, distribuídos ao longo do percurso. Cada grupo
representava uma manifestação cultural e formava
uma roda. Havia rodas de contação de história, de
capoeira e maculelê, de brincadeiras de roda, de
pastoril, de futebol, de quadrilha, de teatro, de coral
infantil e assim por diante. Cada roda era como um
bloco, preparando-se para entrar na avenida.
C
Enquanto isto, no palco, se sucediam apresentações. Artur e Jéssica, representando as
crianças, comandaram a programação. A Escola
Municipal Francisco Targino Nobre dramatizou a
canção “Choque Ecológico”. Em seguida, a Comunidade de Língua de Vaca apresentou um auto de
Natal. Depois, um grupo de crianças dançou uma
música feita para o UNICEF sobre seus direitos,
composta e cantada por Sumira Silveira Fonseca.
Na seqüência, um boneco cantou um rap.
Embaixo, o Prefeito saiu apresentando à caravana do UNICEF cada uma das rodas de crianças.
Primeiro a roda da infância missionária, cantando
hinos sacros. Depois, o Grupo de Teatro Amador
de Ipanguaçu, que apresentou trechos da peça “O
Pagador de Promessas”. Em seguida, o grupo de
tambores. Notava-se a preocupação em mostrar
tudo o que as crianças fazem em matéria de arte,
no município. Meninos em roda, em torno de uma
palmeira, declamavam poemas. No palanque, o
apresentador tentava apressar o início da solenidade, mas o Prefeito insistia em ouvir os poemas ditos
por cada menino e menina. No início, declamaram
principalmente autores locais. Depois, uma menina
disse a “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias.
Aparecia sempre alguém a mais para declamar. O Prefeito pediu que falassem mais alto, por
causa do barulho. O recital retardava o início da
solenidade, mas os poemas eram muito bons, assim como a performance das crianças. O Prefeito
ouvia com paciência e incentivava que novos meninos apresentassem seus trabalhos. As demais
autoridades esperaram até que todos declamassem. Nervosa, uma menina esqueceu no meio da
fala um poema sobre a mãe. Pediu licença, tomou
o papel e começou a ler. Muitos riram e um gaiato arriscou: “Mostre que sabe ler”.
A Coordenadora de Cultura convidou as autoridades a visitarem a roda de leitura. Finalmente, se
dirigiram ao palco-palanque. A festa estava sendo
coberta pela Rádio Princesa do Norte e pelo jornal
local. O locutor, enfim, tomou a palavra. Gritou, pedindo aplausos para a comissão que havia chegado.
Perguntou: “Cadê os fogos?” E eles estouraram. Entrou uma animadora, que leu um pequeno histórico
do município e os números do seu desenvolvimento.
No palco, as autoridades ficaram de lado e as
crianças ocuparam o centro. Em uma pequena
encenação, adolescentes mostraram a importância do Selo. Em seguida, dublaram uma canção
criada por uma professora. Uma menina ofereceu flores a Patrício Fuentes: “Vamos ofertar estas flores, pra seu coração perfumar”. Ele falou
do que viu, apresentando seu reconhecimento ao
trabalho de todos. O ritual de entrega do troféu foi
conduzido com maestria. Jéssica, Williams e André incorporaram os três bonecos do Selo UNICEF. A imagem do troféu foi projetada num telão.
O Prefeito fez um discurso inflamado. Adolescentes, em traje de gala, cantaram “Noite Feliz”. Depois, cantaram Parabéns e sopraram as velas de
um grande bolo. No palanque e na platéia, todos se
deram as mãos e cantaram juntos. Para terminar,
um educador, Rômulo, cantou à capela “Sonhar
mais um sonho impossível”, lindamente. (OB)
>> 27
RODOLFO FERNANDES
meninos e meninas potiguares
A cidade dos
gatos
>>> Em 11 de dezembro de 2006, às 15h
nome antigo, São José dos Gatos, deveu-se
ao Serrote dos Gatos, ao pé do qual a cidade está levantada, e ao padroeiro do município. E tantos gatos havia no tal serrote, que São
José os adotou, ou melhor, foi por eles adotado.
Nome tão bonito não poderia ser mudado! Mas
nos informaram que Rodolfo Fernandes, sãojosegatense da gema, foi um herói da luta em defesa
de Mossoró, contra Lampião.
O
Estávamos no dia 11 de dezembro de 2006
e o UNICEF completava 60 anos. A meninada
nos recepcionou na rodoviária e, de lá, saímos
numa carreata até o ginásio de esportes da cidade. A orquestra nos recebeu com a “Flor do
Mamulengo”, uma espécie de hino do Selo para
o Semi-Árido. Logo na seqüência, o Grupo de Teatro Arte em Cena, na figura de gatos, contounos a história do município. Meninas trajadas
de gatos maracajás e meninos vestidos como
guerreiros africanos narraram em linguagem de
dança e ginástica acrobática. Depois, o grupo
de flautas doce “Do re mi” tocou “Asa Branca”,
“Paraíba” e canções de Natal. Mal terminava e
já o grupo “Xô Araruna”, com roupa característica, executou o folguedo do mesmo nome, uma
espécie de contradança no estilo das quadrilhas.
Os espetáculos seguiram com a dança dos caboclinhos e a apresentação dos papangus da
Semana Santa.
A decoração do ginásio foi feita com bolas coloridas e grandes telas pintadas, como pano de
fundo para cenas teatrais. Houve distribuição de
pipoca, picolé e algodão doce. Embora tudo acontecesse numa grande quadra de esportes, com o
som reverberando em sua coberta, as crianças
permaneceram surpreendentemente atentas
e silenciosas. Só aqui e acolá, um bebê de colo
abria o berreiro. Lá atrás, um grupo de meninos
fazia barulho, papocando bolas de soprar. Depois,
um menino perguntou por Didi Mocó: “Ele não é
diretor do UNICEF?”.
Chegou, então, o momento do ritual da entrega do troféu. Dessa vez, em alusão à idade do
UNICEF, foram chamadas pessoas com mais de
60 anos. Ao som do “Tema da Vitória”, elas desfilaram com o troféu em torno da quadra. As crianças engrossaram o cortejo e, juntas, subiram ao
palco. Um locutor chamou todo o secretariado do
Prefeito para sentar numa grande mesa, armada
na frente do palco. Atrás, os brincantes da Quadrilha “Alegre do Sertão” se preparavam para encenar uma peça, feito um camarim de teatro.
Após o ritual da entrega do trófeu, do certificado e das instruções para o uso do Selo, teve início
o Auto de São João Batista. A encenação é grandiosa, ao estilo Paixão de Cristo, com os atores
dublando uma trilha sonora gravada. O figurino é
rico, a trilha musical belíssima e as pinturas do cenário da melhor qualidade. O espetáculo foi aberto com uma canção que junta Lampião, Patativa
do Assaré e Padre Cícero. Em seguida, o cenário
mudou e, tendo ao fundo uma tela onde aparece
o rio Jordão, um avô contava uma história à sua
neta. São João apareceu como um loquaz orador,
para surpresa e admiração da menina.
O cenário mudou para a festa em que a cabeça
de São João é oferecida a Salomé. A apresentação
das dançarinas do templo tomou conta do espetáculo. Ninguém se lembrava mais de São João, até
que sua cabeça apareceu oferecida numa bandeja.
Tão bem feita era a tal cabeça, que uma menina
gritou: “Arrancaram a cabeça do Manoel!”. Não
precisa dizer que Manoel era o nome do adolescente que interpretava João Batista.
A peça termina com a menina pedindo a São
João um milagre que cure seu avô. Ao modo dos
grandes espetáculos, o elenco agradeceu os
aplausos da platéia, dançando uma quadrilha. E
como os aplausos foram insistentes, os atores,
junto com a orquestra, puxaram o tal hino informal do Selo UNICEF, a “Flor do Mamulengo”, que
contagia toda a platéia. (OB)
>> 29
itaú
meninos e meninas potiguares
Os encantos
da pedra preta
>>> Em 11 de dezembro de 2006, às 18h
ntes da chegada do homem branco aos
campos de Itaú, reinavam livres os índios
Tapuios, Cariris e Paiacus. Até que Alexandre Martins, com seus exércitos de mamelucos
e caboclos, desalojou-os um a um daqueles domínios. Das últimas a ser preada foi a índia Florinda,
pegada a casco de cavalo, como se dizia, para
deleite do fazendeiro que, seduzido por sua beleza, a fez esposa, levantando junto a Fazenda Angicos, origem do povoado e depois cidade de Itaú.
Daquele modo, foi preservada a cultura indígena,
cujos traços, ainda hoje, permeiam os saberes e
fazeres do povo itauense.
A
Que o digam os seus muitos pajés, curandeiros e rezadeiras, que tudo sabem dos segredos
das ervas e da magia. Dentre os vivos, o mais
antigo é Pedro Lobo, cujos mais de 80 anos de
idade foram dedicados a abrandar o sofrimento
das pessoas. Em suas curas costuma usar uma
faca peixeira, que coloca sobre a dor do padecente, encalçando-a com o polegar direito, enquanto
reza. Usa também um galho para rezar, seja de
ramo verde, manjerioba ou pião. Faz passar dor
de dente, mau-olhado, ventre caído, reumatismo
e ferimentos.
Entre as mulheres, a mais famosa é Joana do
Boi, a rezadeira, que prefere rezar sempre com
um ramo de pião ou quebra-pedra. Para engasgo,
reza para São Braz. Para dor na coluna, para Nossa Senhora. Cobreiro, para Jesus Cristo. Argueiro, para Santa Luzia. E mais, para espinhela caída
e mau-olhado, que provoca o quebrante, mal que
pode aparecer com insônia, vômito, diarréia, dor
de cabeça e moleza no corpo.
Chegamos e fazia um pôr-do-sol lindíssimo.
Crianças brincavam no parque aquático do clube da cidade, enquanto no salão a festa acabava
de ser preparada, com grandes laços de papel
colorido, verde e vermelho. Praticamente todos,
autoridades e crianças, couberam sentados. A
apresentadora deu início ao que parecia uma
aula-espetáculo. Dirigiu a solenidade, como fazen-
do uma demonstração. A Banda de Música, que
fora emprestada para Rodolfo Fernandes e acabara de voltar, caprichou ainda mais em Itaú. Tocou o Hino do Município e depois “Flor do Mamulengo”, uma canção do Fidélis que tem sido como
um hino do Selo UNICEF nos municípios.
A apresentadora retomou sua didática e introduziu o grupo de capoeira e maculelê, depois o
grupo de coco zambê e o de samba de roda. Das
apresentações, participaram mais de 60 crianças e adolescentes. Parecia festa de fim de ano
em pátio de colégio. Jéssica e seu pai tocaram
clarineta e violão. A apresentação culminou com
“Aquarela do Brasil”. Em seguida, Patrício Fuentes falou das sensações que sentiu, vendo o sol
se pôr ao som de canções tão tocantes. Fogos
espocaram. O troféu chegou embrulhado em papel de presente, para ser ofertado à garotada.
Foi feita uma sabatina sobre o significado do
troféu e de cada uma de suas partes, com o auditório. Uma menina, de nome Isaérica, porém, explicou quase tudo sobre o troféu e, ainda mais, o
que pesquisou sobre o UNICEF. Então, foi lançada
outra pergunta: O que tem dentro do troféu? Um
menino respondeu: Um monte de meninos!
Sempre algum membro da Caravana do Selo
UNICEF recebia a missão de entregar o certificado
e o livro de instruções sobre a utilização do Selo.
Daquela vez, Morgana Dantas leu o certificado do
Selo antes de passá-lo à cidade, e Boris Diechtiareff entregou as instruções. Ao final, o Prefeito falou sucintamente. A Prefeitura aproveitou a ocasião para entregar os prêmios do concurso de
monografias sobre a história de Itaú. Ganharam
duas monografias apontadas como muito boas e
que se completam. As da professora Lídia Maria
Neta, “Pelos Caminhos de Itaú – Uma História”,
e a do estudante de geografia, Janilson Ferreira
Freitas, “Itaú – Encantos da Pedra Preta”. (OB)
>> 31
DOUTOR Severiano
meninos e meninas potiguares
A
criança
é o presente do Brasil
>>> Em 11 de dezembro de 2006, às 20h
o Mapeamento Cultural, Dr. Severiano está
registrado como sítio visitado por discos
voadores e onde a terra tremeu nos anos
60. Município rico em manifestações artísticas,
seja em quadrilhas juninas, vaquejadas, dramas,
coroações de Maria, maneiro-pau, artistas plásticos como o pintor Cláudio Cândido de Oliveira e
o menino Vinícius, bonequeiros como Antônio de
Prácio, e mestres de reisado, como Toinho Caboclo, este também sanfoneiro. Aliás, sanfoneiro é o
que não falta em Dr. Severiano, desde os antigos,
como Estevão, Damião Caboclo, Zé Aquino, até o
famoso Geraldo, do Grupo Pisada Nordestina, e
seu filho, o Jackson do Acordeon. Mas Dr. Severiano é, ainda, a terra do comboieiro e rancheiro
Martiniano, do contador de histórias Pedro Arapuá ou Pedro Mentiroso, do Índio João, descobridor de águas, que só as localizava ao amanhecer,
e de Zé Romão, um sujeito que não só viu, como
brigou com lobisomem.
N
Tão importante, assim, mas sem vaidade, Dr.
Severiano fez sua festa como uma acolhida e homenagem ao UNICEF. Festa grande, num grande
ginásio, enfeitado com milhares de bolas coloridas. Logo na entrada da cidade estava alguém a
postos, com foguetes sinalizadores, para anunciar
nossa chegada. No ginásio municipal, nova salva
de fogos, show pirotécnico caprichado. Parecia
festa de abertura de olimpíada. A boneca Emília
e capoeiristas davam cambalhotas e faziam acrobacias, anunciando os prodígios que iríamos presenciar. Ofereceram flores à Caravana do Selo
UNICEF. O ginásio estava cheio. Crianças, mães
e idosos sentados no centro da quadra, adultos e
adolescentes de pé, em volta. Quase todos com
uma fitinha na cabeça, onde estava escrito: “Município Aprovado pelo UNICEF”. A apresentadora
fez a nossa caravana se apresentar, um por um,
e passou a palavra a Patrício Fuentes. Ele disse:
“Se queriam me impressionar, me impressionaram. Basta ver o que eu vi, aqui, para entender
porque vocês ganharam o Selo UNICEF. Que noite
encantadora vocês construíram!”
Sobre a mesa das autoridades, um pequeno
santuário transparente guardava a imagem de
Santa Luzia. Em frente à mesa, um menino desenhou o retrato das autoridades. Na platéia, crianças e adolescentes acompanharam atentamente
a solenidade, animada por uma banda de música,
ou orquestra filarmônica, como chamam no Rio
Grande do Norte. Rui Aguiar se entusiasmou: “É
isso aí que a gente quer. Que beleza, que bonito!”
Depois, chamou Arimatéia de Castro para entregar o certificado, que disse estar adorando a festa. A boneca Emília abriu o cortejo do troféu, ao
som do “Tema da Vitória”. Meninas do grupo de
dança engrossaram o cortejo. Várias dançarinas
choraram. Junto com a Primeira Dama, o Prefeito, de paletó marrom e gravata vermelha, foi aclamado. A filarmônica tocou “Parabéns para você”
em ritmo lento e depois como frevo. “Parabéns
para Dr. Severiano e para o UNICEF”, proclamou
a apresentadora.
Foi destacado o trabalho das mães, pais, prefeitura, agentes de saúde, professores, associações comunitárias e de todo o município, enfim.
Foi citada cada prova pela qual Dr. Severiano
passou e todos os que participaram diretamente,
dançarinos, mapeadores, músicos, produtores de
rádio. À pergunta: “Valeu a pena passar um ano
trabalhando para ganhar um troféu de madeira?”
todos responderam que sim. Liduiana, a Primeira
Dama, tomou a palavra: “Dr. Severiano sabe de
nosso entusiasmo, do nosso esforço em garantir
para as crianças a convivência familiar. A criança
não é o futuro do Brasil, é o presente. Não temos
direito de tirar um dia sequer da vida das crianças”. O Prefeito falou em seguida. Disse do seu
povo sofrido, das crianças típicas do Semi-Árido.
“É esse, Patrício, meu povo!” Depois, contou às
crianças a história do UNICEF. Enquanto isso os
meninos saiam pelo ginásio todo, estourando milhares de bolas, num barulho ensurdecedor. (OB)
>> 33
Riacho da cruz
meninos e meninas potiguares
Os caboclos
potiguaras
>>> Em 12 de dezembro de 2006, às 15h
egundo Zé Caboclo, morador do lugar, a origem da denominação do município se deve
a uma batalha travada entre índios e soldados à beira de um riacho, então conhecido por
Riacho da Forquilha. Como uma cruz foi colocada marcando o local da morte de um soldado na
referida batalha, o sítio ficou sendo chamado de
Riacho da Santa Cruz ou, simplesmente, Riacho
da Cruz. Pois, naquele dito riacho, até ontem freqüentado por lobisomens, foi construído um açude, entre os anos de 1954 a 1958, em torno
do qual se organizou a cidade de pouco menos
de 2.700 habitantes, grande parte dos quais é
de crianças. Açude grande, que mata a sede do
povo inteiro do lugar e faz a alegria da criançada
na época da sangria.
S
Justamente à beira desse açude, nas dependências do clube da cidade, a Prefeitura organizou a festa. Um pôr-de-sol belíssimo nos recebeu.
Decorado como um arraial junino, o salão do clube estava repleto. Ali, o São João é o principal
carnaval da cidade. Bandeirolas, balões, folhas de
coqueiro, bonecas de pano e quadrilha. Entramos
e o sanfoneiro nos saudou com “Asa Branca”.
Bombons e salgados foram distribuídos para as
crianças. Pelo salão do clube se espalharam os
grupos de folguedos e esportes, com seus trajes
característicos: o frevo, a contradança de araruna, os bichinhos de pelúcia, personagens de
contos de fada, os papangus, aqui chamados Caboclos Potiguaras, Lampião e Maria Bonita com
seus cangaceiros, Branca de Neve com a Madrasta, a Bruxa e os 7 Anões, o grupo de karatê
e as muitas quadrilhas juninas.
Na falta dos CD’s com a trilha sonora prevista
para a cerimônia, um grupo de karatê, representando 150 alunos, fez uma demonstração. Entre os
atletas, destacava-se uma menina. Finalmente, chegaram os CD’s que animariam as apresentações
artísticas. Haviam sido enviados pela Fundação
José Augusto, como uma forma de estimular a formação de grupos nos municípios, particularmente
o dos Caboclos Potiguaras e o da Dança Araruna.
A mesa foi formada e todos cantaram o Hino
Nacional e o Hino do Município. Ficamos admirados, porque as crianças acompanharam sem errar, cantando a letra do Hino Municipal, fato, aliás, recorrente em relação às cidades visitadas no
Rio Grande do Norte. O Hino diz: “Riacho da Cruz,
teu povo é forte!” Em seguida, o Coral de Flautas
tocou “Cidade Maravilhosa” e emendou com canções natalinas. Um grupo de adolescentes, feito
um jogral, contou a história de Riacho da Cruz,
escrita em cordel. Os pontos fortes da cidade são
o artesanato, a culinária e as festas juninas. Em
seguida, as brincadeiras, jogos e folguedos infantis. Um a um se apresentaram, com seus personagens: noivos, príncipes, princesas, reis, rainhas,
piratas, guerreiros, bonecas etc. Depois do karatê, uma menina fez uma demonstração individual
de capoeira e maculelê.
Abriu o desfile um cartaz em que se lia uma
citação de George Marshall: “Os pequenos atos
que se executam são melhores que todos aqueles que se planejam”. As mães do Grupo de Aleitamento Materno, com seus barrigões de grávidas, seguiram atentas a fala de Patrício Fuentes.
Disse ele: “Só no México vi uma tão rica variedade
de manifestações culturais como as encontradas
aqui”. Trajadas em seus personagens, as crianças passavam o troféu de mão em mão e este
acabou nas do Prefeito e da Primeira Dama. Eles
são bem jovens e estavam emocionados.
Cercada por crianças, a Primeira Dama chorou. O Prefeito falou com simplicidade, mas de
forma objetiva. Ele disse estar projetando a construção de um mini-teatro, já que, como ficou demonstrado, Riacho da Cruz é uma cidade da cultura. Depois de “selar” o nome do município no
carro da Caravana do Selo UNICEF, o Prefeito foi
parabenizado por todos. (OB)
>> 35
OLHO D`ÁGUA DO BORGES
meninos e meninas potiguares
Um
troféu
cada vez mais pesado
>>> Em 12 de dezembro de 2006, às 18h
hegamos e um palanque estava sendo montado no paço em frente à Câmara Municipal.
No carro de som tocava um forró bem popular. O município é pequeno, embora tenha 77 anos
de criado. Vive basicamente da pequena agricultura e da pecuária e nove vereadores representam
os quase 4.500 habitantes.
C
Na fachada da Câmara Municipal, uma faixa do
Projeto Agente Jovem anunciava: “Aqui Tem Cidadania”. Alguém nos informou que o palanque, armado defronte à Câmara, serviria para um show
com a banda Axé Tribal, após a solenidade do Selo.
A cerimônia de entrega seria mesmo no salão da
Câmara. No início eram poucas crianças na platéia. Contadas nos dedos, eram cinco na plenária;
o resto era de adultos, numa sala entupida de gente. Formou-se a mesa das autoridades e o Hino
Nacional foi entoado.
A apresentação artística ficou a cargo de um
grupo de moças da igreja de Cristo El-Shaday. Sobre um pequeno espaço demarcado com as bandeiras do Brasil, do Rio Grande do Norte e de Olho
d’Água do Borges, as jovens executaram uma
coreografia, enquanto dublavam um cântico evangélico. Ao final da apresentação, um senhor evangélico gritou empolgado: “Louvado seja o Senhor!”.
Uma jovem do grupo repetiu a frase e disse que
a apresentação não tinha intenções outras senão
louvar ao Senhor, louvar o nome de Jesus.
Alexandra, a articuladora do Selo UNICEF
no município, falou com clareza e verdade. Em
seguida, foi a vez do mobilizador cultural Paulo
Moreira, elegante em seu traje branco, que contrastava com sua pele negra. Falou, ainda, Ana
Regina, coordenadora do Mapeamento Cultural,
feito por cinco jovens. Todos se referiram a um
trabalho intenso.
A esta altura da solenidade, o número de adolescentes na sala da Câmara Municipal, era bem
maior. Rui Aguiar aproveitou para pregar-lhes uma
peça. “Vamos fazer algumas perguntas. É uma
prova final para ver se o troféu vai ficar aqui. Ele só
fica se vocês responderem a todas”. O professor
Escolástico observou tudo minuciosamente. Paulo
Moreira bebeu água e preparou-se para enfrentar
a prova. A pequena Rebeca, antecipando-se às
perguntas, observou que o Troféu do Selo UNICEF
tem as cores da bandeira do Rio Grande do Norte.
Paulo Moreira respondeu que os três bonecos do
Selo, um negro, um branco e um indígena, representam a igualdade na diversidade. Já o Prefeito
disse que a casa representa o lar, a família a que
toda criança tem direito.
A pergunta mais difícil foi deixada para o fim. “O
que significa o número da casa?” As respostas foram muitas e disparatadas, até que a articuladora
do Selo no município respondeu que se refere a
um artigo da Constituição Federal que assegura os
direitos das crianças. “Direito absoluto à cultura e
ao lazer”, completou Paulo Moreira. Em seguida,
ele tomou a palavra e brincou, fazendo também
uma pergunta: “Quem está segurando o troféu?”
Rui Aguiar respondeu que era Keury. “Errou, é Kilsa”, retrucou Paulo Moreira. Aproveitando uma
distração de todos, as duas gêmeas, quase idênticas, haviam trocado os papéis. Keury passara o
troféu para Kilsa, permitindo a Paulo Moreira pregar uma peça no Oficial do UNICEF. Todos riram e
a solenidade continuou.
Morgana Dantas entregou a Paulo Moreira o
certificado e Emanuelle Lobo passou às mãos de
Alexandra o manual de uso da marca. Algumas
adolescentes mostraram o troféu a cada uma das
pessoas da platéia, que o tocaram. Kilsa, finalmente, ofereceu o troféu ao Prefeito. Atendendo a pedidos, ele o beijou. Foi explicado que o troféu é
feito de madeira e que vai ficando cada vez mais
pesado, numa referência ao aumento do trabalho
para realmente melhorar os indicadores sociais. O
Prefeito agradeceu à sua equipe, dizendo que “O
peso que aumentar, seja para 10 quilos ou mais,
vai ser dividido entre a gente”. (OB)
>> 37
LUCRÉCIA
meninos e meninas potiguares
A cidade das
duas santas
>>> Em 12 de dezembro de 2006, às 20h
povoação de Lucrécia teve origem nas cercanias de um açude construído pelo DNOCS
para combater as secas. Razão da existência da cidade, muito do imaginário popular gira em
torno dele. Conta-se que, certa feita, uma moça
solteira grávida, forçada a abortar, jogou o feto em
suas águas. O feto sobreviveu, mas como era de
um pagão teria se transformado num bicho. Aterrorizado, o povo dizia que o bicho do açude só voltaria a ser gente quando Frei Damião o batizasse
e ele mamasse na mãe. Frei Damião morreu sem
batizar o feto.
A
Não se sabe se por isto, quando começaram a
aparecer muitos casos de câncer no lugar, a população desconfiou do açude. Um estudo foi feito e,
com a ajuda da Universidade Católica de Brasília,
foram instalados filtros de carvão, cisternas e poços. Com as sobras da ajuda foi levantado o prédio
do Instituto Laura Vicuña, talvez o mais bonito da
cidade. O instituto trabalha com cursos profissionalizantes e seu nome foi dado pela irmã Débora,
então Reitora da Universidade doadora. Ela doou
os recursos e enviou o nome, justificando que Laura fora uma menina pobre, que morreu aos 13
anos e foi beatificada pela Igreja Católica.
Francisca Costa também virou santa, mas pelas
mãos do povo. Como a outra, era uma moça pobre.
Porém vivia em Lucrécia. Na infância, chegou a pedir
esmolas. Na juventude, apaixonou-se por um rapaz
e casou-se com ele. A sogra, fingindo que gostava
dela, deu-lhe um perfume envenenado. Francisca,
iludida, usou a droga. Atraídas pelo cheiro, muitas
moscas avançaram contra ela, que logo desfaleceu.
Acordou louca com o feitiço. Apedrejada na rua
e vivendo de esmolas, passou a ser chamada de
Francisca Sofredora. Seu túmulo foi o primeiro do
cemitério de Lucrécia. Nele, as pessoas depositam
ex-votos, como pagamento de graças obtidas.
A solenidade de entrega do troféu do Selo UNICEF foi no Instituto Laura Vicuña, num salão muito
amplo, piso de cerâmica, paredes azul e bege. O
ambiente era silencioso, pouco iluminado. Só aos
poucos, o salão foi tomando vida. Primeiro, do lado
de fora, onde uma ótima banda de música tocou
vários dobrados e o Hino Nacional.
O grupo de teatro, porém, era formado exclusivamente por adolescentes, que apresentaram, com exímia interpretação, “O Julgamento
de Joaquina Barreto, a Barretinha”. Trata-se da
história de uma prostituta, vítima da hipocrisia
social. A peça era interessante, bem didática,
com cunho religioso. Ao final, a juíza inocenta a
prostituta, para satisfação do público. Durante a
encenação, uma criança gritou na platéia: “Papai, estou com fome! Todos riram, quebrando a
seriedade do momento”.
O ritual de entrega do Selo começou e o encontro transformou-se em reunião de pais e mestres.
Os adolescentes aumentaram na platéia. Patrício
Fuentes, em sua fala, confessou que sentiu no Prefeito um homem simples em quem se pode acreditar e elogiou o que viu no Estado: limpeza urbana
e boas filarmônicas. Boris Diechtiareff passou o
troféu à Neiva, a menina que fez a juíza na peça.
As crianças e os adolescentes tomaram conta da
sala e do troféu. Neiva antecipou-se à costumeira
pergunta sobre o significado do troféu e respondeu logo de cara. Só errou o número da casa, que
se refere ao artigo da Constituição que assegura
os direitos das crianças e adolescentes.
Nas faixas, Lucrécia passou adiante das outras
cidades. Em vez de apenas “crescer”, estava dito:
“Um município que me realiza”. O Prefeito, depois
de dar boa noite a todos, segurou o troféu e constatou que realmente era muito pesado, mesmo
sendo pequeno e de madeira leve. Agradeceu à
Professora Gerusa, articuladora do Selo, no município. Todos queriam tirar fotos com o troféu. A
orquestra tomou conta da festa, tocou parabéns e
instaurou um clima de carnaval. Na despedida, as
meninas gritaram: “UNICEF!”, ao que a nossa equipe respondia: “Lucrécia, Lucrécia, Lucrécia!”. (OB)
>> 39
MOSSORÓ
meninos e meninas potiguares
A força das
mulheres
>>> Em 17 de abril de 2007, às 16h
ossoró, que já foi a capital do algodão, hoje
é a cidade dos grandes espetáculos de
rua. Tomou gosto. Em setembro, realiza
um grande auto a céu aberto, contando episódios
de sua história, num espetáculo que reúne mais
de 2.000 protagonistas. Neste auto em louvor da
liberdade, escrito pelo poeta cantador Crispiniano
Neto, narra seu pioneirismo como a primeira cidade, em todo o Estado, e a segunda no País, a abolir a escravidão, fato acontecido em 1883. Narra,
ainda, o motim histórico de suas mulheres, em
1875, contra as autoridades que queriam enviar
seus maridos para a guerra, e o feito da professora Celina Guimarães Viana, em 1927, que exerceu, pela primeira vez no Brasil, o direito ao voto
feminino. Já a vitória de Mossoró na luta contra o
bando de Lampião, que também é contada como
um episódio no Auto da Liberdade merece uma
encenação particular, em outro grande espetáculo de rua, denominado “Chuva de Bala no País de
Mossoró”. No mês de Junho, quando o espetáculo
acontece, a cidade vira um grande teatro, com o
adro da igreja de São Vicente transformando-se no
palco principal. Tanto num auto, quanto no outro,
participam ativamente crianças e adolescentes.
M
Mossoró também é terra da atriz Tony Silva, que
diverte as crianças com seu teatro, da boneca Maria Espaia Brasa, que reúne em torno de si um bloco
carnavalesco, e, especialmente, de Manoel Andrade de Lima, o Manoel Cachimbinho. Tipo popular da
cidade, Cachimbinho, certo dia, em seu automóvel
imaginário, emparelhou-se com um trem, disputando corrida, para chegar antes dele à ponte sobre o
Rio Mossoró. Nas ruas, por onde passava, pedindo esmolas, Cachimbinho imitava um automóvel.
Era pobre, mas bom pagador. Bom filho, uma vez
comprou uma máquina de costura para sua mãe
e pagou todas as prestações com as esmolas que
recebia. Certo dia, porém, voltando para casa, como
de costume, imitando um carro em alta velocidade,
encontrou sua mãe, D. Joaquina Vicência, sentada
no meio da porta de sua casa. Cachimbinho bem
que buzinou, mas não deu tempo de sua mãe se
levantar e sair da frente. Resultado: foi atropelada.
Mossoró é uma cidade grande, movimentada,
mas onde, por entre os carros, em suas largas
avenidas, às vezes aparece uma carroça. A solenidade de entrega do Selo, porém, foi em um dos
monumentos de sua modernidade, o Teatro Dix Huit
Rosado, para mais de mil pessoas. Quando chegamos, para dar início à segunda etapa da entrega
do Selo UNICEF, passava um documentário sobre
ações da Prefeitura pela infância e meio ambiente,
enquanto as crianças se agitavam na platéia. Nem
um coral infantil, cantando no alfabeto dos surdosmudos, conseguiu prender-lhes a atenção. A citação
e os discursos das autoridades, muito menos. Mas,
quando o apresentador citava o nome de uma escola, logo elas gritavam e aplaudiam. A peça teatral
sobre os cinco elementos cósmicos conseguiu um
bom silêncio. Cada elemento contava vantagem. O
mais importante era a água? Não! Era a terra? Não!
O fogo? Não! O ar? Não! E brigavam. Qual seria, então, o quinto elemento? O que uniria todos: o amor.
Entre as autoridades, dominaram as mulheres:
a Prefeita, a Vice, a Juíza da Vara da Infância, a representante da Governadora, a Secretária de Educação e por aí vai. Na abertura da solenidade de
entrega do Selo, Rui Aguiar falou das cinco provas
pelas quais passou o município: uma vencida pelas
mães, uma vencida pela Prefeita, uma vencida pelas crianças, outra pelos adolescentes e a última
vencida por todos, ou seja, a paciência com que
lutaram pela conquista do Selo. Quando saímos do
teatro, vimos que lá fora acontecia uma outra festa, com dança de Araruna e brincadeira de Boi, assistida pelas crianças e adolescentes que haviam
abandonado o interior do teatro. (OB)
>> 41
angicos
meninos e meninas potiguares
Paulo Freire e a
alfabetização
>>> Em 17 de abril de 2007, às 20h
o Mapeamento Cultural, feito pelas crianças
e adolescentes, consta uns versos escritos
por José Horácio, compositor do lugar. Trata-se do Forró da Goela da Ema, e lá tem, entre
outras coisas: “Ontem nós fomos num vadeio em
Mestre Duca, bem pertinho de Biluca, lá na Goela da Ema. Foi muita gente desta vila de Angicos,
foram pobres, foram ricos como se fosse um cinema. (...) Todos dançavam com a maior alegria,
pois ali ninguém queria a menor alteração. Tinha
biscoito, sequilho, pão e bolacha, groselha, milho e
cachaça e grande admiração. Mais de repente, eu
não sei por qual razão, surgiu uma discussão. Puxaram uma lambedeira, houve pancada com perna
de tamborete, houve bofete, cacete, muita gente
de carreira. (...) parece que o chão se abriu e as
mulheres horrível choque sofreram, pelo mato se
esconderam, mesmo em plena madrugada. Encontrei uma por uma cerca impedida, dizendo, muito
sentida, me solte que eu não fiz nada, enquanto as
noivas, ninguém sabe o sucedido, só se estavam
escondidas, em algum lugar bem feio e o Mestre
Duca dizia, muito sentido, nem que eu me case
cem vezes não invento mais vadeio.”
N
Foi em Angicos que Paulo Freire criou seu método de alfabetização de adultos. A festa foi à noite,
na Escola Mimi Moura, antigo colégio de freiras,
com pátios imensos e longos corredores. Mais
precisamente, num grande auditório coberto por
uma estrutura metálica. Era grande a quantidade
de meninas, carregando nos braços suas bonecas
preferidas. Enquanto esperava a festa, uma menina, muito compenetrada, dançava feito uma bailarina clássica. Só não estava solitária em sua dança,
porque a irmã menorzinha tentava imitar-lhe os
passos, enquanto a mãe, se babando, admirava a
graça das duas. O nome da menina era Ellen Cavalcante de Oliveira e a mãe contou que o sonho dela,
menina, era ser bailarina, mas que, em Angicos,
não havia ainda uma academia de dança clássica.
Mesmo assim, o sonho continuava.
Encontramos Maria Eneide de Araújo Melo,
uma senhora que, quando menina, assistiu às au-
las de Paulo Freire. Ela tinha, então, seis anos. O
pai, agricultor, e a mãe, dona de casa, estudavam
com ele. Quando um deles era obrigado a faltar
à aula, Eneide ia no lugar e anotava tudo. A mãe
virou costureira e o pai, padeiro e comerciante.
Eneide também se alfabetizou e ganhou uma bolsa escolar das mãos do próprio João Goulart,
então Presidente da República, que esteve em
Angicos no encerramento do curso. Trinta anos
após, Paulo Freire e Ana, sua esposa, voltaram a
Angicos e ajudaram Eneide a abrir o Educandário
Paulo Freire, onde ainda hoje ela é professora.
>> 43
Entre os números artísticos apresentados pelas crianças e adolescentes, um musical dançado
e duas peças de teatro. A música e a letra da própria maestrina, Kátia Lígia, tratavam da vida das
crianças com seus brinquedos e brincadeiras.
Já a primeira peça chamava-se “A Saga de Uma
Família Sertaneja”, e contava a história de Angicos, tendo como centro dramático o sonho de
um casal de retirantes com uma filha. A segunda
peça “Não Estão Mortas as Fadas”, também de
autora local, narra um levante de personagens
da literatura infantil contra o desencantamento
do mundo. As duas peças representavam bem o
imaginário popular e o elenco estava afinado.
O Prefeito, que havia ido fazer um parto antes
da solenidade, destacou as ações do município.
Em seguida, Evilázio Bezerra foi até lá fotografar
o recém-nascido, deixando de presente para ele
um dos bonecos do Selo UNICEF. (OB)
TENENTE LAURENTINO CRUZ
meninos e meninas potiguares
A casa do
Selo Unicef
>>> Em 18 de abril de 2007, às 9h
bservando que o jumento, animal dos mais
úteis no trabalho duro do sertão, estava sendo desprezado e abandonado na beira das
estradas, Joarimar Tavares de Medeiros, vereador no município, idealizou uma corrida de jegues.
Assim, em todo mês de julho, Tenente Laurentino
reúne seus babaus, que é outro nome dado aos
jumentos no Nordeste, e parte para a disputa.
É menino, homem e mulher montando os seus
Fofa-chão, Fura-porteira, Mulinga, Relógio atrasaviagem e outros tantos apelidos que sejam, numa
disputa acirrada. A corrida atrai gente dos municípios vizinhos e, de tão importante que foi se
tornando, passou da estrada, onde se realizava,
para o Estádio Governador Tarcisio Maia, com a
presença de milhares de pessoas. Os animais, na
ocasião, enfeitados com flores e berloques, são
alvos de todo carinho da comunidade. Tudo isto
porque se teme que o jumento, que dizem nosso
irmão, seja extinto.
O
A história consta no Mapeamento Cultural que
crianças e adolescentes fizeram no município. Lá,
verifica-se também que o nome Abdon é muito
usado na região. Conhecemos dois, um Abdon
calungueiro e um outro Abdon cantador. O calungueiro era do Sítio Lanchinha e foi lembrado por
Marileide de Paula, que mesmo depois de adulta
nunca se esqueceu do travesso boneco Baltazar,
com quem aprendeu que não se deve meter na
vida alheia. O outro Abdon, o cantador, ainda está
vivo e mora no Sítio Cinco Cantos. Para a adolescente que lhe entrevistou, Abdon improvisou esses versos: “Quem nunca viu Abdon cantar repente/nunca viu moça velha no namoro/Nunca viu
vaqueiro lutar com touro/Nunca viu se enfrentar
homem valente/Nunca viu se matar uma serpente/nunca viu se enfrentar um valentão/Nunca viu
se laçar um barbatão/Nunca viu dois guerreiros
guerreando/Nem nunca viu um corisco arrebentando/As pedreiras da serra do sertão”.
Climazinho bom de serra com céu nublado,
bonito pra chover. Cortejo a pé pela cidade, com
baliza, comissão de frente, pernas-de-pau, grupo
de idosos e quadrilheiros. Toda a cidade nas calçadas, gente espiando da porta de casa, nas esquinas, com agasalhos leves, mães com crianças
de colo e amamentando, olhando pela brecha da
janela. Até chegar ao ginásio poliesportivo onde
se deu a festa. Entrada feito taba de índio e exposição mostrando as raízes potiguares do município. Tinha de tudo, plantas medicinais, louça de
barro, culturas agrícolas nativas, armas de caça
e culinária regional. A atração maior foi um mapa
do Rio Grande do Norte, dividido em regiões, cada
uma desenhada com os grãos de um produto
agrícola típico.
Na programação artística, destaque para as
paródias, a quadrilha, a capoeira e o maculelê. O
maculelê foi apresentado por Mestre Miau, como
“a luta que nos livrou do cativeiro”. Quando entrou
pela capoeira, ele cantou, acompanhado por seu
berimbau: “... no lugar onde poucos têm muito/e
muitos não têm o que comer.../... deixarei para
meu filho/uma coisa de valor/esse berimbau maneiro/que ganhei do meu avô.” Lá pelas tantas,
entrou um dos seus alunos, que o mestre apresentou: “Esse aqui vocês conhecem”. Um menino,
com Síndrome de Down, “lutou” com o mestre,
ganhando o aplauso de todos.
Depois da solenidade de entrega do Selo UNICEF, recebemos a notícia de que na cidade havia
uma casa de vila semelhante à do troféu. Fomos
até lá e nosso fotógrafo, Felipe Abud, registrou
a casinha amarela, de número 227, com uma
porta-janela central, uma menina e dois meninos
aparecendo, como a do troféu. No caso, Tiago,
Andreyna e Luís Fernando, filhos de Edmilson de
Oliveira e Sandra. Pura sorte! Só que a janela, em
vez de ser azul, como a do troféu, era um pouco
acinzentada. Nada é perfeito! (OB)
>> 45
acari
meninos e meninas potiguares
A cidade mais limpa do
Brasil
>>> Em 18 de abril de 2007, às 16h
cari tem suas origens por volta de 1720 e
tornou-se vila 17 anos depois, com a construção de uma capela de Nossa Senhora do
Rosário. Nasceu de uma fazenda de gado e tem
na pecuária, até hoje, sua maior tradição. Entre
as criações do ciclo cultural da pecuária o aboio
é uma das maiores. Quem assegura isto é Zeca
Velho, famoso aboiador, que mora no Sítio Beira
do Rio. Em 2005, ao participar de uma cavalgada,
a primeira de Acari, na Fazenda Carnaubinha, foi
convidado para aboiar para mais de 100 vaqueiros. Cantou, agradando a todos: “No tempo em
que eu era novo/Meu aboio retinia/Em cima daquela serra/E o sertão estremecia/Moça bela levantava/Me abraçava e sorria./Ê ê e e e ô ô ooo
vida de gado!” Ele explica a idéia: “O aboio tranqüiliza o vaqueiro e a rês o acompanha de bom grado.
O vaqueiro guia o gado através do aboio”.
A
As crianças e adolescentes de Acari fizeram
um Mapeamento Cultural notável. Nele, se aprende o que é mangaio (ou mangalho, como está no
dicionário), ou melhor, feira de mangaio, porque lá
tem seu José Jerônimo da Silva, um legítimo vendedor de mangaio. Ele vende de tudo: sela, cangalha, tamborete, panela, pote, fumo, corda, produtos
de couro e de palha, arreios...
Famosa como a cidade mais limpa do Brasil,
outra grande preocupação do povo de Acari é a
natureza. O Grupo Pegadas, liderado pelo professor João Luís, vem fazendo o mapeamento do
ecossistema local, particularmente da fauna e da
flora da caatinga, que se encontram em perigo
de extinção. Também, os artistas, a seu modo,
tomam a natureza por tema. Marilene Meira Silva, a Marilene de Lolô, fez da Fazenda Trincheira,
onde mora, um verdadeiro zoológico de animais
esculpidos nas pedras. Sua obra é formada por
animais, místicos, aquáticos, pré-históricos, figuras lendárias e tudo o mais que sua imaginação
cria. Ela diz que “As crianças vêem os animais
como se fossem reais. Dão asas à imaginação.
Chegam até a conversar com eles”.
No Palácio do Esporte, o cenário estava armado
para a festa, com cartazes que faziam jus à fama
da cidade: “Quem não suja, não precisa limpar”, ou
“Acari, fonte incessante de educação e limpeza”.
Na programação artística, a filarmônica do município executou uma canção de Roberto Carlos:
“Você meu amigo de fé, meu irmão camarada...”
Porém, o momento maior foi a encenação de uma
peça pelo Grupo de Teatro Acauã. Na encenação,
crianças e adolescentes falam sobre seus direitos
e cantam “Para não dizer que não falei de flores”,
de Geraldo Vandré, e a canção do Gonzaguinha
que diz: “Eu fico com a resposta das crianças/É a
vida/Que é bonita e é bonita!”.
>> 47
Durante a projeção de slides institucionais, num
dos lados da quadra, estavam disciplinadamente
sentados em cadeiras, os adolescentes e as adolescentes da Polícia Mirim do município. Dali, só saíram durante as manobras que executaram para
cantar, perfilados e em posição de sentido, o Hino
Nacional. Um menino foi até o Prefeito e gritou:
“Estamos prontos para cantar o Hino, senhor!”.
Em seguida, comandados pelo corneteiro, se posicionam depois de manobras precisas e, para o
orgulho de suas mães, cantaram o Hino Nacional.
Na manhã seguinte, visitamos o açude Gargalheiras e o Museu Histórico de Acari, onde nos
surpreendeu um ferro de engomar queijo, para
que ele, criando uma capa protetora, se conserve
melhor. Destaque, também, foi uma oração para
afugentar cobra: “São Bento, pão quente/Sacramento do altar/Toda cobra do caminho/Arreda
que eu vou passar”. (OB)
brejinho
meninos e meninas potiguares
Homenagem às mães que
amamentam
>>> Em 19 de abril de 2007, às 16h
a seca de 1928, João Garrido, roceiro num
lugar chamado de Papuçu, foi a Juazeiro do
Norte e estando com o Padre Cícero faloulhe da falta d`água em sua localidade, que estava
prejudicando o gado e as gentes. Compadecido, Pe.
Cícero disse-lhe que voltasse e cavasse no baixio
em frente à sua casa, que daria água com abundância. Ele voltou e foi logo o que fez, retornando a
Brejinho. Um ano depois, voltou a Juazeiro do Norte
e, ao se encontrar com ele, Pe. Cícero logo perguntou se a água era boa. João Garrido respondeu
que havia encontrado água sim, mas que a mesma
não era tão boa. Pe. Cícero então aconselhou que
fizesse uma fogueira de São João, pegasse as cinzas e jogasse na cacimba, pois a água ficaria boa
e jamais faltaria. Foi o que fez, tão logo chegou a
Papuçu. A partir dalí jamais faltou água, e da boa,
para os moradores daquele lugar. Mesmo assim, a
água não era encanada. Então, naquele tempo antigo, Albertina Paulino da Silva, mais conhecida como
Dona Eulália, acordava cedo, ia até a bica com um
jumentinho e dois tonéis, enchia-os de água e saía
distribuindo pelas casas, ainda ao raiar do sol. Junto com o líquido, aquela senhora pobre e modesta,
cuja casa não possuía luz elétrica, distribuía sorrisos e alegria com sua jovialidade.
No palanque, a Primeira Dama apresentou-se
grávida de Ana Júlia. Na platéia, uma fila de mulheres com crianças de colo sentadas em cadeiras especialmente colocadas para elas. Ao lado, também
sentada em cadeiras, havia uma fila de grandes
bonecos de pano, representando as personagens
da vida da criança: pais, avós, irmãos, professoras,
tios e tias etc. Perto, uma porção de crianças bem
pequenas vestidas de índio. O cenário era perfeito
para a apresentação da peça sobre aleitamento
materno, que veio em seguida. Os agentes de saúde dançaram uma canção mostrando a importância do leite materno, que é o melhor alimento para
a criança de até seis meses. Depois, entraram um
enfermeiro e um médico, ambos ensinando como
deve ser feito o aleitamento e a sua importância.
Na entrada da cidade, Daniel Cortez, nosso cinegrafista, fez a caravana parar para filmar crianças jogando futebol, com o carro da Caravana do
Selo UNICEF ao fundo. Tinha uma vacaria nas proximidades e, na última hora, entraram novos personagens na cena: um touro raivoso e uma alegre
cadela. Chamaram-nos porque a carreata estava
se iniciando. Na frente, motos; no meio, automóveis, e, atrás, os ônibus. Nas calçadas, mulheres
debulhando feijão e homens soltando fogos. Na
pracinha, o palanque estava armado, como para
um comício. No palanque, o apresentador, vestido
de paletó. Embaixo, a banda de música tocou o
Hino Nacional e depois, um grupo de adolescentes, cheio de garra e vestido de cangaceiro, dançou o xaxado no asfalto, ao som de “Asa Branca”.
Em seguida, a Banda de Música Infanto-Juvenil do
município executou “O Bêbado e a Equilibrista”.
Durante a solenidade de entrega do Selo, o
Prefeito se comprometeu em colocar uma cópia
do certificado em cada escola e posto de saúde.
Como a TV Diário estava fazendo a cobertura da
festa, depois da entrega do troféu o apresentador,
eufórico, anunciou: “A TV Diário chega a toda a
América do Sul e, nesse momento, até no Paraguai se sabe que Brejinho ganhou o Selo!”. O Prefeito, em seu discurso, afirmou que, daquele dia em
diante, quando fosse a Brasília levar os pleitos de
Brejinho, colaria o Selo nos ofícios e até na testa.
Ao final da solenidade, todas as mães com bebês
em amamentação, presentes, foram homenageadas com uma medalha de honra ao mérito. (OB)
N
>> 49
ceará mirim
meninos e meninas potiguares
Cidade de
três etnias
>>> Em 19 de abril de 2007, às 20h
eará Mirim é uma cidade particularmente bonita, situada na Zona da Mata do Rio Grande
do Norte. Tem um patrimônio edificado antigo
e bem conservado, com seus solares de senhores
de engenho onde se faziam saraus. Entre eles, o
solar dos Antunes, sede da Prefeitura Municipal,
e o solar dos Soares, com seus abacaxis de louça
vindos de Porto, onde se recolhia a aristocracia
rural. Tão numerosos, embora menos suntuosos,
aparecem os casarões dos antigos coronéis da
Guarda Nacional. Cabe ainda destacar seus engenhos, com maquinário a vapor trazido da Inglaterra
e a jóia maior, a matriz de Nossa Senhora da Conceição, levantada em 1858, pelos negros escravos. Se estes não tinham suntuosas edificações,
faziam festas e folguedos maravilhosos, como os
Caboclinhos do Mestre Deo, a Festa de Cosme e
Damião, protetores das crianças, comandada pela
mãe de santo Dona Zezita da Silva Oliveira, e os
Congos de Guerra, do distrito de Tabuão, fundado
em 1934, na Fazenda Guanabara.
C
A presença negra na cidade é notável, basta
que se dê um passeio, preferencialmente no sábado, por sua feira livre. Mas se o negro hoje é exibido como um exemplo de riqueza étnica e cultural
da cidade, no passado não era assim. No Mapeamento Cultural feito pelas crianças e adolescentes de Ceará Mirim, está registrada uma história
triste, acontecida no Engenho Timbó, onde havia
uma senhora soberba em espírito e egoísta. Ela
só usava os talheres uma vez, pois tinha nojo das
mãos dos escravos. Entregava suas esmolas pela
janela para que mendigos não chegassem perto de
sua porta, entre outras maldades. Um dia, só porque umas mulheres passaram e acharam bonitas
suas redes que estavam secando, ela mandou os
escravos queimarem todas as redes. Algum tempo depois de sua morte, encontraram seu túmulo
rachado. Diz-se que ela virou uma serpente e que,
se saísse de seu túmulo, a cidade seria destruída
por seu veneno.
A recepção à Caravana do Selo UNICEF em
Ceará Mirim foi em grande estilo. Batedores da
Guarda Municipal a partir da entrada da cidade,
largas avenidas, parada na Prefeitura para visita
ao Gabinete da Prefeita, prédio belíssimo e antigo.
Embaixo, descendentes de escravos, cantando
“Eh Paraná!”, numa roda de capoeira.
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A festa foi no ginásio esportivo da cidade, com
sua quadra rodeada de barracas, mostrando as
diversas áreas de atividades que diziam respeito
às crianças e adolescentes. Abriu as festividades
um cortejo de escolas, que desfilaram ao som do
Hino do Soldado, executado pela Banda de Música Municipal. Pernas-de-pau, bonecões e palhaços
abriam o desfile. Cada torcida puxava por sua escola. Elas vinham garbosas, com suas bandeiras e
brasões. Daniel Cortez meteu-se, com sua câmara,
embaixo de uma bandeira gigante. As professoras
elegantemente vestidas vinham na frente, atrás
os professores. No meio, as crianças. Havia uma
ala de índios janduís, uma de crianças negras e
outra com representação dos barões da cana-deaçúcar. As escolas que desfilaram foram as que
melhor se saíram nos requisitos do Selo UNICEF.
As crianças se divertiam nas arquibancadas,
enquanto na mesa das autoridades acontecia
a entrega do troféu. Apressadas, algumas das
crianças começaram a estourar os balões coloridos da decoração. Um guarda municipal, muito polidamente, evitou a confusão. No centro da
quadra, o troféu foi levantado, seguidamente, por
negros, índios e brancos. Fim de festa. Começou
o estouro dos balões e carnaval, dançado por meninos e meninas em trajes indígenas. (OB)
meninos e meninas potiguares
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Meninos e Meninas Potiguares