ISSN 2236 3335
Universidade Estadual de Feira de Santana
v. 3 n. 4 janeiro/junho 2012
Graduando
J
Feira de Santana
v. 3
n. 4
p. 1-86
ISSN 2236-3335
jan./jun. 2012
J
Graduando
ENTRE O SER E O SABER
Revista Acadêmica da Graduação em Letras
v..3
n..4
jan./jun. 2012
Institucional
R e i to r
Jos é C a rlos Ba rret o d e Sa ntana
V i ce -R e i t o r
G en iva l C o rrêa d e Sou za
P r ó - R e i t o r d e Gr a d u a çã o
Ru bens Eds on A lv es Pe re ira
P r ó - R e i t o r a d e P es q u is a e P ó s - G r a d u a çã o
M a rlu c e M a ria A ra ú jo A ss is
P r ó - R e i t o r a d e E x t en s ã o
M a ria H e le na d a Ro cha B esnos ik
P r ó - R e i t o r d e A d m i n is t r a çã o e F i n a n ça s
Ros s in e C e rqu e ira da C ruz
D i r e to r a d o D ep a r ta men to d e L e t r a s e A r t es
M áv is D ill Ka ipp e r
Co o r d en a d o r a d o C o le g ia d o d e L e t r a s e A r tes
V a lé ria M a rta R ib e iro S oa re s
V i ce -Co o r d e n a d o r a d o Co l eg i a d o d e L e tr a s e A r tes
Ira n ild es A lm e ida d e O liv e ira
U NDE C\ CO DA E
C h ef e (U NDEC ): O tto V in íc ius A gra F igu e iredo
C oo rd . (C O DA E): V andso n d e O live ira Nasc im en to
D i r e tó r io A ca d êm i co d e L e t r a s e A r tes J o s é J e r ô n imo d e Mo r a is
U E FS/Rev is ta Graduando
A ven ida Tr ansnordest ina , S/ N, Ba irro No vo Hor izonte . Módu lo 2, MT 25b .
C EP 44 036 -9 00 – Fe ira d e Santana – Bah ia – Bras il. Te l.: 316 1 -8 000
Home : http ://www2 .ue fs .br/d la/graduando
E-mail: r e vistagraduando @gma il. com
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ISSN 2236-3335
Expediente
C o mis são Ed ito r i a l
Me. A d ev a ldo P ereira A rag ão
Ma . An d réia Ca ricch io Café Ga llo
Me. Antônio Gabriel Evangelista de Souza
D ra . Ca rla Lu z ia Ca rn eiro Bo rg es
D r a . C e li na Má r c ia d e S ou za Abb ad e
D r. Cid Seixas Fraga Filho
D r. Claud io Cled son N ova es
Me . C l ed so n J os é Po n c e Mo r a is
D r. Ed son D ia s Ferreira
Me. Eds on O liv eira da Silva
E sp . E liza b et e Ba s tos d a Silva
D ra . E lv ya Sh irley R ib eiro P ereira
D r. Fran cisco Ferreira d e L ima
D r . Hu mb e rt o L u iz L i ma d e O l i ve i r a
D ra. Jolanta Rekawek
D ra . J os an e Mo reira d e O liv eira
Me. Ju ra ci Dó rea Fa lcão
Me. Nigel Alan Hunter
Ma . N e l mi ra Mo r e i ra d a S i lva
Me. Ma rcelo B rito d a Silv a
D r a . Ma r i a d a Co n c e i ção R e is T e ix e i ra
D r a . N o r ma Lú c ia F e rna nd e s d e A l me id a
D ra . P a lmira V irg in ia B ah ia H ein e A lv a rez
D ra . R ita d e Cáss ia R ib eiro d e Q u eiroz
D ra . Su an i d e A lmeid a V as con celo s
Ma . Va l é r i a Ma r ta R i be i r o So a r es
C o n se lh o Ed ito r i a l
D aianna Quelle da Silva Santos da Silv a
D an ilo Cerqu eira A lmeid a
Josenilce Rodrigues de Oliveira Barreto
Welling to n Go mes d e J esu s
R ev i são
Me. A d ev a ldo P ereira A rag ão
A line d a Silva Sa nt os
D ay an e Mo r e i ra L e mo s
Ma . Ed na R ib e i r o Ma r qu e s A mo r i m
E sp . É ri ka R a mo s d e L i ma
E sp . Ja n Ca rlo s Dias d e San ta na
D r a . Ma r i an a Fa gu nd es d e Ol i v e i ra
Me. Nigel Alan Hunter
Ma . N orma So eli R eis Men ez es
E sp . Sh irley Cris t in a Gu ed es do s Sa nt os
Ma. Silvania Cápua Carvalho
T á r ci a P ri s c i la L i ma Dó r i a
E sp. Valeria Rios O liv eira A lv es
P r o je to Gr á f i co
C ap a
Conselho E ditorial
D an ilo Cerqu eira A lmeid a
E d i to r aç ão
I m ag em d e C ap a
D an ilo Cerqu eira A lmeid a
R ob ert Mat h eu s Silva B arreto
R ev i s ão F i n a l
W eb D e s i g n
Conselho E ditorial
D an ilo Cerqu eira A lmeid a
I mp r e s s ão
T i r ag em ( Ve r s ão I mp r e s s a )
I mp ren sa Un iv ers itá ria — UE FS
30 0 ex emp la res
Sumário
EDITORIAL
C onselho Editorial ......................................................................................... página 7
EDUCAÇÃO
LE ITURA DE FÁBULAS EM SALA DE AULA
Elma Jane das Virge ns S ilva S antos ........................................................ página 13
LE ITUR A E PR ODUÇÃ O TEXT UAL : IN SER ÇÃO D O TEXTO EM
SALA DE AULA
Débora de Cássia da Silva Ce rqueira ...................................................... página 25
LITERATURA
FA CE S DE UM LIRISMO PL UVIAL: IMA GEN S DE CH UVA EM R UY
E SPINHEIR A FILH O
J acie ne de A nd ra de S ant os ...................................................................... p ágina 39
O FIO DO MISTÉR IO N O CO NTO “TE IA DE ARA NHA” DE MIGUE L
TORGA
Adilson S ilva de Je sus, Adriana Souza S antana ................................... página 55
SÁT IRA VICENT INA : SE ÇÃO A NTICLER ICAL
Bárbara Daiana da Anunciação Nascime nto ............................................ página 67
OJOS IN QUIETOS: UNA M IRA DA CR ÍTICA DE L A POSGUERRA EN
E SPA ÑA DEL SIGL O XX
Arabelle Nogueira Alves ............................................................................ página 79
N ORMA S PARA E NVIO DE ART IGO S E RE SENHA S
J
C onselho Editorial ............................................................ ........................... Página 84
ISSN 2236-3335
Editorial
[ . . . ] O p o n t o d e en co n t r o en t r e co n s c i ê n c i a e r e a l i d a d e , c h am a - s e ― l i n g u a g e m . A c o n s c i ên c i a c o mu n i c a t i v a t r a n s f e r e , o u m a i s c o r r e t am en t e , t r a n s p o r t a , n o
b a l a n ço d a mu d a n ç a h i s t ó r i c a , a q u e l a s u b j e t i v i d a d e
g u a r d ad a , e g o i s t i c a m en t e , d en t r o e p a r a s i m e sm a .
C o m i s s o d i l a t a o e u n o e s p e l h o d o o u t ro . A s u a p a l a v r a a p o n t a p a r a a so l i d a r i ed a d e ; j a m a i s p a r a a v o n t a d e d e d o m ín i o . A c o n s c i ên c i a t r a n s f o r m ad a co n fe r e
s e n t i d o à c o mu n i c a ç ão , p o r q u e s e l e g i t i m a s o c i e t a r i a m en t e . E n e s s e mo v im en t o t e n so c o n f i g u r a o mo d o d e
s e r d a c u l t u r a , a q u i e a g o r a . P o r o n d e c h eg am o s a
s u p e r a r a q u e l e d eb a t e m a n i q u e í s t a e n t r e a p o c a l í p t i c o s
e i n t eg r ad o s . [ 1 ]
Cont i nui da de. Ei s a pa l av ra ess enci a l pa ra a pres ent e ( ! )
edi çã o do nos so peri ódi co de L et ra s . Mesmo que poss amos
compor, com es t e conj unt o de s i na i s grá fi cos , o t ext o que v ocê es t á l endo, a i nda s eri a el e rea l ment e i mport a nt e pa ra o nos s o cont exto? É exa ta ment e ni ss o que a credi ta mos .
A r epres enta çã o de nos s os pensa mentos a tra v és de l et ra s e out ras forma s de i dent i fi ca çã o s empre es t ev e rel a ci onada a o grupo s oci a l do qua l comunga mos experi ênci a s de v i da .
Todos os moment os que v i v emos com o out ro t ra ns formam a
ma nei ra d e v ermos a d i nâmi ca do mundo e de nos sa rea l i da de,
nos qua i s des a fi amos o s er que há em nós pa ra s a ber ma is e
v iv er de ma nei ra a conci l i a r des ej os e neces s i da des no â mbi t o
de noss as as pi ra ções .
Ass i m como o di zer que es t ampa noss a l ogoma rca , entre
o ser e o saber , es t amos cons t ant ement e numa pos i çã o i nt ermedi á ri a na rel a çã o com o( s ) out ro( s ) na bus ca por nov os s a beres . E s a bemos que i s s o nã o é a penas neces s á ri o em a mbi ent es a ca dêmi cos , ma s cons t i t ui a mot iv a ção pa ra a s obrev i v ênci a da nos sa es péci e nos es pa ços onde n os ca be a exi s -
J
t ênci a : ca sa , rua , t ra ba l ho, s a l a de a ul a , mes a de ba r, ôni bus ,
cul t o rel i gi os o e out ras poss i bi l i da des. Sendo uma a çã o em det ermi na da á rea do a mbi ent e a ca dêmi co, a rev i s ta Graduando é,
coerent ement e, ma is um ca ra ct ere no conj unt o que compõe o
s a ber repres ent a do pe l a á rea de L et ra s no uni v ers o a cadêmi co
da Ue fs . Ent ret a nt o, como bem v i v enci am os q ue l eem, s empre
podemos i nt erpor l et ra s em qua ntas l et ra s pudermos pens a r,
fa l a r ou es crev er, fa t o mui t o ma i s pra zeroso qua nt o ma i s i mpercept í v el .
Chegamos a o qua rt o número. Mui t os cont i nua m es crev endo conos co, i números cont i nuam l endo e credi t a ndo noss a rev i s ta de L et ra s . L ê - la , j á s endo nos sa ma i or s a t i s fa çã o, t a mbém é o pa s so i ni ci a l pa ra conhecê - l a . A edi çã o, i mpress a ou
v i rt ua l , é um dos v eí cul os por mei o dos qua is o gra duando em
L et ras da Uefs a pres enta a ca pa ci da de de es crev er a hi s t óri a
da rev i st a e do curs o, dent ro da uni v ers i da de e fora del a . É
preci s o, cont udo, a f i rma rmos que t a l a çã o a pres ent a , a nt es d e
qua l quer neces s i dade d ent ro de obj et i v os ma i s i medi a t os , a l go
própri o do t empo de quem es crev e e de quem l ê.
Es crev er pa ra nós é qua l quer a çã o comum a o própri o
a l ca nce. A Graduando i rá a t é onde a s L et ras es cri t as ou l i da s
( l e i a -s e t a mbém i ns pi ra da s ou i ns pi ra dora s ) a puderem l ev a r.
Expl i ci t a r i ss o t a l v ez ca reça ma i s do que o p oder da pa l av ra ,
requei ra ma i s do que o s a ber, o s er ou o t er ― met as d e
gra nde número de p es soas nos di a s a t ua i s ―, ou m esmo a
j unçã o des s es t rês obj et i v os. O es forço de es t a r s empre ent re
o homem e a l go que es t e j ul ga i mporta nt e no própri o t ra ba l ho
é a ma nei ra de cres cermos ; de es t uda rmos o conheci ment o
exi s t ent e s em dei xa r de a credi t a r na mudança que a cont ece
conos co t odos os di a s, a t es ta ndo, a s s im, nos sa pres ença num
t empo e num es pa ço: “pens o, l ogo exi s t o” ( D es ca rt es ) . O pr es ent e t ext o nos permi t e a cr es centa r uma a s s ert i va a es t e
pens ament o, o que cont ri bui mui t o a o que es t e peri ódi co da s
L et ras pret ende: a gi r enqua nto cont i nua .
O pens a r e o a gi r fa zem pa rt e da Graduando porque es -
J
t a mos cons ta nt ement e entre o ser e o saber , começa ndo e
recomeça ndo, “no mei o do cami nho”, como di z D rummond, na
“t erce i ra ma rgem”, como di z Gui ma rã es Ros a , e s endo um
gra nde exempl o do proces so l i nguí st i co de c umula çã o, como
cons t at a N ormel i o Za nott o. At uamos na v i da uni v ers i tá ri a des s a
forma . Acredi t amos que i s s o dev e a cont ecer a ca da nov o moment o de qua l quer s er huma no, grupo ou es t a bel eci ment o
( i ns t i t uci ona l i za do ou nã o) que pens e a s própri a s a ções, col et i v as , s em es quecer que o ens i no, a pes qui sa e a ext ens ã o formam o di á l ogo ent re o eu e o outro ― como b em l embra o a ut or da epí gra fe no i n í ci o do edi t ori a l , que fez os pri mei ros es t udos em F ei ra de Sa nt a na e hoj e é m embro da Aca demi a B ra s i l ei ra de L et ras .
A rev i s ta t em um gra nde cami nho a percorrer ent re os
s eres e s eus s aberes pa ra v er -s e como i mport a nt e cont ri bui çã o pa ra o que ( con) v iv erá de s eu ma t eria l de es t udo. Tã o
bem di z em Parlendas ( 1 99 5) J os é J erôni mo de Mora i s , epôni mo
do D i ret óri o Aca dêmi co de L et ras e Art es da Ue fs e Profes s or
Eméri t o de noss a uni v ers i da de:
[ . . . ] N ós , porém, nã o queremos a a pa rênci a e o
a pl a us o, e s i m mã os à obra e cons i s t ência . . . [ 2 ]
Cons el ho Edi t ori a l
N OTAS
[1]
P OR T EL L A , E d u a r d o . A c o n s c i ên c i a c o mu n i c a t i v a . I n : _ _ _ _ _ _ . Co n f l u ên c i a s : m an i f e s t a ç õ e s d a c o n s c i ên c i a c o mu n i c a t i v a . R i o d e J a n e i r o : T em p o
B r a s i l e i r o , 1 9 8 3 . p . 1 8 - 1 9 , g r i f o d o a u to r .
[2]
M OR A I S , J o s é J e r ô n i mo d e . P er t r a n s i e n s . I n : _ _ _ _ _ _ . P a r l e n d a s . F e i r a
d e S a n t an a : D u a s M a r g en s , 1 9 9 5 . p . 6 9 . A c i t a ç ã o f o i a t u a l i z a d a d e a c o r d o co m o n o v o a c o r d o o r to g r á f i c o .
J
EDUCAÇÃO
ISSN 2236-3335
LEITURA DE FÁBULAS EM SALA DE AULA
Elma Jane das Virgens Silva Santos
L i c e n c i a t u r a e m L e t r a s V e r n ác u l a s
e l m a l i t e r a @h o tm a i l . c o m
Prof . Dr. Flávio França (Orientador/UEFS)
D ep a r t a m en to d e C i ê n c i a s B i o l ó g i c a s ( D C B I O )
f l a v i o f r a n c a@ h o tm a i l . c o m
Res umo : O bra s i l ei ro médi o nã o l ê ma i s que qua t ro l i v ros a o
a no. Como rev ert er es t e qua dro? A l ei t ura de fá bul a s em s a l a
de a ul a , ent re out ras l ei t ura s , permi t e a expres s ão, rev el a a spect os s oci ocul t ura is e s erv e de exempl o ét i co. A Es col a dev e
a ss egura r uma d i v ers i da de de v i s ões de mundo, pa ra t a nt o a
bi bl i ot eca é i mpres ci ndív el . O obj et i v o é i ncent i v a r a l ei t ura , por
mei o do us o de fá bul as e promov er o us o da b i bl i ot eca da es col a . O pl a nej a mento foi s ubmet i do a os profes s ores da es col a
Irmã Ros a Apa reci da ( D i spensá ri o Sa nt ana ) , e a s a t i v i da des rea l i za da s em t urma s do Ens i no F unda menta l . O l i v ro es col hi do
foi o “A ra pos a e a cegonha ”, de Es opo. Os a l unos fora m es t i mul a dos a cri a rem fra s es rel a ci ona da s com a mo ra l da hi s t óri a .
D epoi s que es col hes s em uma del a s , produzi ri a m i l us t ra ções .
F oram produzi da s 1 1 3 i l us t ra ções , rel a ci ona da s à v i ol ênci a . Após a l ei t ura , na s a l a de a ul a , o l i v ro us a do pa ss ou a s er mui t o
procura do na bi bl i ot eca .
Pa l av ras- chav e: L ei t ura . Fá bula s . B i bl i ot eca . Ét i ca .
Abs t ra ct : In a v era ge, B razi l i a n does not r ea d more t ha n four
books a yea r. How ca n we cha nge t hi s s i tua t i on? Rea di ng of
fa bl es i n cl a ss , a mong ot her rea di ngs , revea l s s oci o - cul t ura l
a s pects a nd ca n be us ed t o foment et hi ca l e xa mpl es . School
mi ght s how a di v ers i t y of worl d v i s i ons , but i n order t o do s o
s chool l i bra ri es a re funda ment a l . The a ct i v i t i es propos ed here
J
Graduando, Feira de Santana, v. 3, n. 4, p. 13-23, jan./jun. 2012
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a re mea nt t o mot i va t e t he r ea di ng o f fa bl es a nd t o promot e
t he us e of s chool l i bra ri es . The pr es ent pl a nni ng wa s s ubmi t t ed
t o t ea chers from Irmã Ros a Apa reci da school ( D i spensá ri o
Sa nta na ) a nd t he a ct i v i t i es were ma de by s t udents of ba s i c
cl a s s es . The chos en book t o work wa s “The F ox a nd t he
St ork” wri t t en by Aes op. St udents were encoura ged t o crea t e
phra s es rel a t ed wi t h t he mora l o f s t ory a nd, t hen, t o ma ke
i l l us t ra t i ons . The s t udent s ma de 1 1 3 i l l us t ra t i ons rel a t ed wi t h t he
v i ol ence. Aft er t hi s a ct i v i t y, we coul d not i ce t ha t t he s t ory of
Aes op wa s one of t he mos t reques t ed books i n t he l i bra ry.
Keywords: Reading. Fables. Library. Ethics.
1 INTRO DU ÇÃO
O pres ent e a rt i go t em por obj et iv o di s cut i r sobre um proj et o de ext ens ão, i nt i t ul a do “Todo dia é di a de l ei t ura : os ens i na ment os a t rav és da s fábul as ”, rea l i za do na Es col a Irmã Rosa
Apa reci da (D i spensá ri o Sa nta na ) , o qua l envol v e l ei t ura e produçã o de fábul as .
O a t o de l er é, a nt es de t udo, um a t o pol í t i co ( F REIRE,
200 1 ) . E, t endo es sa as s ert iv a como pret ext o, pode -s e di zer
que pensa r des sa ma nei ra , em det ermi na dos cont ext os , impl i ca
em fa zer es col has . Cont udo o bras i l ei ro médio nã o l ê ma i s que
qua t ro l iv ros a o a no, e s eu conheci ment o s obre a l i t era t ura
na ci ona l é s ofrí v el ( COZER, 20 12) . Como podemos rev ert er es t e
qua dro?
A l ei t ura de fá bula s na s a la de a ula pos s i bi l i t a a o es tuda nt e express a r- s e e di s cut i r a s pect os soci ocul t ura i s . Ess a
t i pol ogi a t ext ua l nã o só promov e a refl exã o, mas t ambém s erv e
de exempl o pa ra o ens i no ét i co -mora l . A fá bul a é v i st a , há
mui t os anos , como i ns t rumento educa ci ona l , nã o s ó porque s e
t ra t a de um t ext o crí t i co, mas t ambém por exerce r um pa pel
fundament a l pa ra o des env olv i ment o do l ei tor - cri a nça. Promov er um es t udo des s e em sa l a de a ula da rá a o profess or s ub-
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s í di os pa ra proporci ona r a os s eus a l unos o cont a t o com a a rt e
de na rra r. Ao t raba l ha r com es t e gênero, a fá bul a , o medi a dor
v i s l umbra o des env olv i mento da s percepções do aut or no cont a t o com a na rra t i va , j á que el a impl í ci t a ou expl i ci t a ment e, a pres ent a uma a rgument a t iv i dade. Paul o F rei re mui t o cont ri bui u
pa ra ess e pensa ment o de t ra ns forma çã o de r ea l i dades educaci ona i s compl exa s na á rea da a l fabet i za çã o. Suas i deia s v is av am a es t imul a r os educa ndos a compreenderem a rel a çã o de
s eu cont ext o l oca l com o mundo, promov endo a cons ci ent i za çã o pol í t i ca .
Aproxi ma ndo -s e da mesma i deia de Pa ul o F rei re, Ma rcuschi ( 1 9 9 9 , p. 9 6 ) di z que: “a l ei t ura é um a to de i nt era çã o comuni ca t iva que s e des env olv e ent re o l e i t or e o a ut or, com
ba s e no t exto, nã o s e podendo prev er com s egura nça os res ul t a dos . Ass i m, mesmo os t extos ma is s imples podem oferecer
a s compreensões ma is i nes pera das ”. D ess e modo, a s fá bul as
podem a pres enta r múl t i pl as i nt erpret a ções , dependendo, port a nt o, da i nfl uênci a que o cont ext o i rá exercer na i nt erpret a çã o
do t ext o, do a s pect o s oci ocul tura l e dos conheci ment os i ndiv i dua i s a dv i ndos da v i v ência do l ei t or.
Pens ando ni ss o, dev emos ent ender a Es col a , enquant o
i ns t i t ui çã o de ens i no funda ment a l , como um dos l uga res que
dev em as s egura r a os a l unos o cont a to com i númeras v i s ões
s obre a s coi sas , em s eus di v ersos âmbi t os, pri nci pa l ment e o
s oci a l . N es t e s ent i do, ress a l ta -s e o v a l or da lei t ura na v i da da s
pes s oa s e a necess i da de de ma nt er o há bi to de l ei t ura ent re
cri a nça s e j ov ens , e é a es col a que a ss ume es s e pa pel i mport a nt í ss i mo na forma çã o de l ei t ores compet ent es . D ent ro dess e
mesmo l uga r de conheci ment o, que é a escol a , out ro es pa ço
t orna -s e impres ci ndív el , qua ndo nã o, propí ci o: a bi bl i ot eca .
A i mportâ nci a de uma bi bl i ot eca dent ro da escol a de ens i no bá s i co é bem documenta da , s endo um es pa ço que ca rrega
a res pons abi l i da de de orga ni za r o ma t eri a l bi bl i ográ fi co e nã o
bi bl i ográ fi co dent ro de uma es cola , t orna ndo - o di s poní v el não
s ó pa ra a comuni dade es cola r, ma s t ambém pa ra a popul a çã o
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Graduando, Feira de Santana, v. 3, n. 4, p. 13-23, jan./jun. 2012
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do s eu ent orno ( VIANN A; CALD EIRA, 200 5) . A B i bl i ot eca Es col a r
é um el ement o i ndi spensáv el no proces s o de ens i no a prendi za gem, na forma çã o do educa ndo, dev endo es t a r i nt egra da à es cola (STAVIS et a l . , 200 0/20 01 ) e ao currí cul o
( CON TRERAS, 200 5) ; es pa ço ma rav i l hos o, onde o rea l e o i ma gi ná ri o s e confundem, e a l ei t ura refl exi va das fá bula s t orna - s e
um mecani smo ri co e efi ci ent e pa ra compreender nos sa s rel a ções com out ro e com a v i da .
Segundo Coel ho ( 19 88, p. 44 ) , a l i t era t ura pa ra cri a nça s
s urgi u, ofi ci a lment e, no s écul o XVII, na F ra nça , com As F ábulas
de J ea n de La Font a i ne, que ut i l i zava s ua s fá bul as com o i nt ui t o de del a ta r a s mi s éria s e as i nj ust i ça s de s ua época , s endo,
por i s s o, admi ra do pel as ca ma da s ma is pobres da s oci edade,
com s ua s fábul as s impl es , mas , a o mesmo tempo, repl et as de
s a bedori a e v a l ores mora is . As fá bula s exercem um poder de
a t ra çã o s obre a s cri a nça s , por s erem l ei t uras curt as e di v ert i da s . Al ém di ss o, es sa s na rra t iva s menci ona m v a l ores como:
a mor, honest i da de, prudênci a , j us t i ça , que podem s er t ra ba l hados nos ma i s di v ers os es pa ços es col a res, s endo a bi bl i ot eca
um l oca l fav oráv el pa ra i s so. O proces s o de i nt era çã o t ext o l ei t or na l ei t ura de fá bul a s é obs erva do no modo como o cont ext o soci ocul t ura l e os conheci mentos i ndi v i dua i s i nfl uenci am
na i nt erpret a çã o que o l ei t or fa z da l ei t ura , é o que a fi rma
Ma rcus hi ( 1 999 , p. 9 8) , qua ndo ress a l ta que “os conheci ment os
i ndi v i dua i s a fet am decis i va ment e a compreens ã o, de modo que
o s ent i do nã o res i de no t ext o”. E, mesmo que o t ext o permaneça como o pont o de pa rt i da pa ra s ua compreensã o, el e só
s e t orna rá uma uni da de de s ent i do na i nt era çã o com o l ei t or.
K och e El ia s ( 200 2, p. 1 1 ) defendem que:
O s e n t i d o d e u m t e x t o é c o n s t r u í d o n a i n t e r a ç ão t e x t o
- s u j e i t o s e n ã o a l g o q u e p r e e x i s t a a e s s a i n t e r aç ã o . A
l e i t u r a é , p o i s , u m a a t i v i d a d e i n t e r a t i v a a l t a m en t e co m plexa de produção de sentidos, que se realiza evident e m en t e co m b a s e s n o s e l em en t o s l i n g u í s t i c o s p r e s e n t e s n a s u p e r f í c i e t e x t u a l e n a s u a f o r m a d e o r g a n iz a -
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ç ã o , m a s r eq u e r a mo b i l i z a ç ã o d e u m v a s t o c o n j u n t o
d e s a b er e s n o i n t e r i o r d o ev en t o en u n c i a t i v o .
Exi s t em fábul as el aboradas por mui t os e di ferent es es crit ores . J ea n de La F onta i ne é um dess es fa bul i s t as , cons i derado o pa i da fá bula moderna . Segundo el e, a fá bul a é como uma
pi nt ura , em que podemos encont ra r o noss o própri o ret ra t o, j á
que as i l ust ra ções , pers oni fi ca das , represent a m ma rcas do
comporta ment o huma no. La F onta i ne, como um exí mio fa bul is t a ,
dei xou ma rca s que a l i mentam a nos sa ima gi na çã o, com genia l i da de e uma l i ngua gem ori gi na lment e sut i l , com expres s ões do
pov o e a rca ísmos rura i s, ma s s em j ama is perder a poet i ci dade
i mpl a nta da em s ua s fábul as . O es t i l o de s ua s obras t em res quí ci os do a ut or grego Esopo, o qua l fa lav a da v a i da de, est upi dez e a gress i v ida de huma nas , por mei o dos a ni ma i s . Va l e i ns eri r, nes t e cont ext o, o roma no F edro, que, por s ua v ez, t ambém
a pres ent ou s ua s v ers ões de fá bul as , i ns pi rada s na s de Esopo;
es t á ent re os fa bul is t as ma is conheci dos . Temos , t ambém, na
l i t era t ura bra s i l ei ra , o a utor Mont ei ro L oba t o, que, em s eu l i v ro
F á bul as , a l ém de recont a r as fá bul as de Esopo e L a Font a i ne,
cri t i cou os probl ema s prov eni ent es de uma soci eda de i nj us ta e
t i ra na .
Os obj et i v os do t ra ba l ho de ext ensã o, já real i za do na es col a Irmã Rosa Apa reci da , a qui a pres ent a do fora m: av a l ia r a
percepçã o de fá bula s por a l unos do Ens i no F unda ment a l ; a pres ent a r o a cerv o di s poní v el pa ra os a lunos na bi bl i ot eca da escol a e i ncent i va r o gos t o pel a l ei t ura .
A l ei t ura é um dos mei os pel o qua l s e obt ém conheci ment o das ma i s div ersas á rea s , fa ci l i ta ndo nã o soment e a a rgui çã o,
mas ta mbém a l i nguagem. Pa ra K och e Trav agl i a ( 1 997 , p. 6 1 ) :
“O conheci mento de mundo é v is t o como uma es péci e de di ci oná ri o enci cl opédi co do mundo e da cul t ura a rqui va do na memóri a ”. N o enta nt o, pa ra t ermos ess e conheci ment o, é preci s o
l ei t ura , e, qua nto ma i or a va ri edade, a qua nt i da de e, pri nci pa l ment e, a qua l i da de do que l emos, ma is ampla s erá nos sa s a be-
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dori a . O a t o de l er dev e es t a r pres ent e ao longo de t oda noss a exis t ênci a , pois , des sa ma nei ra , nos sas informa ções s obre
os a ss unt os es t a rã o, cons ta nt ement e, a t ua l i za das . N es t e s ent i do, Pi zani ( 1 99 8, p. 24 ) es cl a rece que:
O aluno se aproxima da lei tura através da própria leit u r a e n ão d e o u tr a m a n e i r a , e , p o r t an t o , é n ec e s sá r i o
f a z ê - l o en f r e n t a r e s s a a t i v i d a d e o f e r e ce n d o - l h e o p o r t u n i d ad e d e i n t e r ag i r c o m t e x t o s s i g n i f i c a t i v o s , c a p a z e s d e d e s p er t a r e s t r a t é g i a s , s e j a n o t i p o d e r e sp o s t a s q u e e l e d á a p er g u n t a s s o b r e o t e x t o , d o s r es u mo s q u e e l e f a z d e s u a s p a r á f r a s e s o u m e smo c o mo
e l e m a n ip u l a o o b j e t o ( t e x t o ) . E s s e s me c an i s m o s s ã o
uti lizados por todo e qualquer sujeito durante o ato
de leitura.
Sendo a ss i m, nota -s e que o profess or, funci ona do como
medi a dor da educa çã o, t em como pa pel i mport a nt e o des envol v i ment o de s eus a l unos e, des sa forma , i rá cri a r oport uni da des
que permi ta m o bom des env olv i mento do proces s o cogni t i vo.
Pa ra K l ei ma n ( 2004 ) es sa s oport uni da des poderã o s er mel hor
des i gnadas na medi da em que o process o sej a mel hor conheci do: um conheciment o dos as pect os env olv idos na compreens ã o e das di v ersas es t ra t égia s que compõem os process os.
Ta l conheci ment o rev el a -s e cruci a l pa ra uma a çã o peda gógi ca
bem i nforma da e funda menta da .
Podemos ent ender, com i ss o, que ess es t eóri cos concorda m com que t ext os coes os e coerent es es t ã o rela ci ona dos
i nt i mament e com o process o de produção e compreens ão de
um t ext o. D epreende - s e, entã o, que, pa ra a produçã o de um
t ext o es cri t o, vá ri os fat ores sã o i mport ant es , porém s eu des envol v iment o s e dá mel hor a pa rt i r dos conheci ment os que o
l ei t or a dqui ri u por mei o da l ei t ura .
O obj et i v o do t ra ba l ho de ext ensã o foi i ncent i v a r a l ei t ura
a t rav és do us o de fá bul as , e des ta forma promov er o uso da
bi bl i ot eca es col a r.
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3 METO DO LOGIA
As a t iv i da des fora m rea l i zadas na Es cola Irmã Ros a Apa reci da ( D i s pensá ri o Sa nt a na ) , em 3 t urma s do 4 º e 5º a nos do
Ens i no F undamenta l I. Ini ci a l ment e, el a borou - s e um pl a no de
a ul a . N essa el a bora çã o, fora m s el eci ona dos l i v ros de fá bul as
depos i ta dos na B i bl i ot eca da es col a ( B ibl i ot eca Es pera nça ) , s endo que a penas um del es foi ut i l i za do pa ra l ei t ura . Pl a nej ou - s e o
t empo de execução da l ei t ura e da produçã o de i l us t ra ções ,
com bas e nes sa l ei t ura , por pa rt e dos a l unos . O pl a nej ament o
foi s ubmet i do à a ná l i s e dos profess ores efet i v os da es cola ,
que opi na ra m s obre a s ua mel hor execução. Os t emas das i l us t ra ções , propos t os pa ra os a l unos , era m di ret ament e rela ci ona dos à s l ei t ura s. N a execuçã o do pl a no, o l iv ro es col hi do
foi a pres enta do ora lment e pa ra a t urma , na pres ença conv idada do profes s or. Em s egui da à l ei t ura , os a l unos foram i ncent iv ados a proferi rem fra s es rel a ci ona das a o ens i nament o expost o na fá bula , t a is como: “Nã o pode ba t er no col ega , nã o pode
s ol t a r pa lav rã o, não pode nega r merenda a o col ega , nã o pode
col oca r a pel i do no col ega ”. Va l e ress a l ta r que t oda s as fra s es
pronunci a da s nã o s ó t iv eram rel a çã o com a mora l da fá bula ,
como ta mbém ma nt iv eram uma i nt errel a çã o com o di a - a- di a
dos a l unos no ambi ent e es cola r e no mei o fa mi l i a r. D i ta s as
fra s es , rea l i zou -s e uma v ota ção, na qua l s eri a es col hi da a pena s uma fra s e pa ra s er es cri ta , produçã o es sa que t eri a que
permea r a mora l da fá bul a l i da : “Tra t e o out ro t a l como des ej a
s er t ra ta do”.
4 RESULTADOS
Houv e uma coi nci dênci a na es col ha da fras e pel a s t urmas
1 e 2: “Nã o pode bat er no col ega ”. O que t eri a mot iva do es sa s
dua s cl as s es a es col her a mesma ora çã o seri a o fa t o de amba s a pres ent a rem um his t óri co mui t o gra nde de bri gas ent re
col ega s , enqua nto que a t urma 3 preferi u a fra s e “N ã o pode
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s ol t a r pa l av rã o”, es col ha que est a ri a rela ci ona da à pres ença
cons t ant e de a gress ões uns a os out ros, por mei o dos pa la v rões.
F oram produzi das 64 i l us t ra ções : 25 na t urma 1 , 25 na
t urma 2 e 24 na turma 3. As i l us t ra ções da t urma 1 mos t ram,
pri nci pa l ment e, cenas de l uta corpora l (6 8%), com expres s ões
de reprova çã o à v i ol ência , cenas que t ambém foram as ma i s
des t a ca das na t urma 2, tot a l i za ndo, port anto, 44%, s endo i mport a nt e a ass oci a ção da Es col a com o La r, reconhecendo as
dua s i ns t i t ui ções como es pa ço do ens i no mora l . N es t e s ent i do,
i ns ere- s e o es t udo com a s fá bul as em sa l a de a ul a, j á que el a s a pres ent am um pa pel formador, a o propor a refl exã o s obre
os di v ers os comportament os e condut a ét i ca dos s eres huma nos .
N o enta nt o, houv e uma di ferença na es col ha da fra s e da
t urma 3, poi s a s i l us t ra ções most ram i magens de a gress ão
v erba l gra t ui ta . Es ta s i l us t ra ções rev el a ra m uma gra nde l i ga ção
com a v i ol ênci a , expres sa pri nci pa lment e por mei o da l ut a corpora l , o que comprova que a mora l anunci a da no t ext o l i do foi
compreendi da pel a t urma , ha j a v i s ta que os des enhos a pres ent a m el ement os que remontam a o ens i na ment o da fá bul a . Pa rt i ndo des s e press upos t o, pode- s e a fi rma r que os a l unos t êm noçã o de que a s prá t i cas des envol v i da s por eles sã o mora lment e
reprová v eis , o que é o obj et iv o úl t imo da fá bul a ofereci da , j á
que es t a condena os ma us t ra t os a os out ros . Va l e ress a l ta r
que, a pós a l ei t ura na sa l a de aul a , o l i v ro us a do pass ou a s er
mui t o procura do na bi bl i ot eca , rev el a ndo a i mportâ nci a dess e
t i po de a t iv i dade no est í mul o à l ei t ura.
5 CO NSIDERA ÇÕES FINA IS
A l ei t ura de fá bul as é de s uma i mport â ncia no âmbi t o da
L i t era tura Infa nt i l , porque nã o s ó pos s i bi l i t a o des env ol v iment o
crí t i co - i nt el ect ua l da cri ança , mas ta mbém proporci ona ma i or
des env ol v iment o da ima gi na çã o i nfant i l , j á que a l i ngua gem ut i l i -
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za da nos t ext os es tá ma i s próxi ma à l i ngua gem do a l uno, fa ci l i t a ndo, port ant o, a compreensã o t ext ua l .
É nest e s ent i do que a s fá bula s podem a pres ent a r múl t ipl a s i nt erpreta ções , pois , dependendo da i nfl uênci a do cont ext o
s oci ocul t ura l e do conheciment o de mundo do l ei t or, a i nt erpret a çã o s erá mul t i fa cet ada . Pensa ndo nis s o, concebe - s e o l iv ro
como font e de pra zer e cul t ura enri queci da , fa zendo com que
os a l unos tornem- s e as s í duos frequent adores da bi bl i ot eca .
Por i s so, a l ei t ura de fá bula s com os a l unos do Ens i no F undament a l I nã o s ó foment a rá a i mport ânci a do a t o de l er e es crev er, mas t ambém i rá ori ent á - l os a reconhecer a s regra s e
confl i t os prov eni ent es da quel as na rra t iva s e a pl i ca r o produt o
― ens i nament o ― da s v erda des e refl exões em s uas v iv ênci a s , j á que a s fá bul a s s ã o um “es t udo s éri o s obre o comport a ment o humano”, a ét i ca e a ci da da ni a .
A propos t a de t raba l ha r com fá bula s nã o s ó foi pra zeros a , como t ambém propi ci ou res ul t a dos pos i t i v os , uma v ez que
os a l unos t iv eram conta t o com t ext os l údi cos, curt os e de fá ci l
compreensã o. Ut i l i za ndo s eu conheci ment o de mundo, s ua baga gem cul t ura l , puderam fa zer i nferênci as acerca da mora l ana l i sa da , t a nto na ora l i da de qua nt o na es cri ta.
O proj et o t ev e um resul t a do fav orá v el no sent i do de que
a propos t a a lmej a da, de propor a refl exã o s obre condut a , comport ament o, pri nci pa lment e no es pa ço es colar e no s ei o fami l i a r, foi ent endi da pel os a l unos , poi s mui t os a t es ta ram que nã o
i a m ma is ment i r pa ra os s eus pa i s nem mesmo ba t er nos s eus
i rmã os . Um profess or que obt ém uma res pos t a t ã o boa ass i m
t ende a fi ca r s a t is fei t o a o t érmi no do s eu t raba l ho. Tra ta -s e de
um s ent i mento de dev er cumpri do, porém não a ca ba do.
R E F E RÊ N C IA S
COEL HO, N el l y Nova es . Panorama histórico da literatura infanto juvenil . Sã o Pa ul o: Quí ron, 19 85.
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Recebi do em 1 8/4/20 1 2.
Aprov a do em 24/9 /201 2.
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ISSN 2236-3335
LEITURA E PRODUÇÃO TEXTUAL: INSERÇÃO
DO T EX TO EM SA LA D E AU LA
Débora de Cássia da Silva Ce rqueira
Licenc iatura e m Le tras Ve rnáculas
[email protected]
Res umo : Sa be- s e que a educa çã o é mot i v o de p reocupa çã o e
di s cuss ões t a nt o em confer ênci a s na ci ona is qua nt o i nt erna ci ona i s , a exempl o da conferênci a de 1 9 90 . A pa rt i r des s as di s cus s ões , i nfere - s e que pa ra a prender é preci s o des env olv er
compet ênci as , ent re el a s a s ha bi l i dades de l ei t ura e es cri t a .
D i a nt e di s s o, a i dei a n es t e a rt i go é bus ca r i dent i fi ca r a forma
como o t ext o é t ra ba l ha do em s a la de a ul a e a na l i sa r que cont ri bui ções a i ns erçã o de t ext os v a ri ados podem t ra zer a o a prendi za do de l í ngua port uguesa no ens i no fundamenta l II. Es t e
t ra ba l ho s e des env olv e a pa rt i r de a ná l i s e de cont eúdo de l i v ros e a rt i gos ci ent í fi cos que env olv em ent rev i s ta s e es t udos
de ca s o. E concl ui - s e que o t ra ba l ho rea l i za do com t ext os em
s a l a de a ula é i nefi ci ent e.
Pa l av ras- chav e: Text o. Es col a . L ei t ura . Es cri ta . Gêneros .
Res umen : Se s a be que l a educa ci ón es mot i vo de preocupa ci ón
y di s cus i ones t a nt o en conferenci a s na ci ona l es cua nt o
i nt erna ci ona l es . A pa rt i r de es as di s cus i ones s e i n fi ere que
pa ra a prender es pre ci s o desa rrol l a r compet ênci a s ent re e l l a s
l a s ha bi l i da des de l ect ura y es cri t a . D el a nt e de es o, l a i dea en
es t e a rt í cul o es bus ca r i dent i fi ca r l a forma c omo el t ext o es
t ra ba ja do en cl a s e y a na l i za r que cont ri buci ones l a i ns erci ón
de t ext os v a ri a dos puedem t ra er a l a a prendi za j e de l engua
port uguesa en el ni v el funda ment a l II. Es t e t ra ba j o s e
des a rrol l a a pa rt i r de a ná l i s i s de cont eni do de l i bros y a rt í cul os
ci ent í fi cos que env uel v en ent rev is t as y es t udi os de ca so. Y
J
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concl uyo que el t ra ba j o rea l i za do con t ext os en cl a s e es
i nef i ca z.
Palabras clave: Texto. Escuela. Lectura. Escrita. Géneros.
1 INTRO DU ÇÃO
Como, na s a ul as de port uguês, a preocupaçã o t em s i do
ens i na r est rut uras gra ma t i ca is , os a l unos t êm a prendi do pouco
de comuni ca çã o e express ã o, e i ss o fi ca ev i dent e nas redações , em que os a l unos s e express am ma l . Os es t uda nt es aca bam por repres ent a r na es cri t a a ma nei ra como el es fa l am.
Os es tuda nt es t êm di fi cul da des de s i nt et i zar a s i dei as de um
t ext o ou enunci a do, porque nã o sã o ha bi t uados a rea l i za r l ei t ura s com s i gni fi ca dos, que a cont ecem qua ndo o a l uno ent ende
e s i nt et i za a s i deia s de um t ext o no momento em que rea l i za a
l ei t ura .
A i dei a nest e a rt i go é l eva nt a r ques t i onament os e promov er uma refl exã o a respei t o do es t udo do t ext o em cl a ss e. D es envol v e- s e a qui uma dis cuss ã o s obre o nív el de a prendi za gem adqui ri do na s a t iv i da des de l ei t ura e produçã o t ext ua l na
es col a e a na l i s a - s e em que medi da a i ns erçã o de t ext os na
s a l a de aul a é us ada apenas como um pret ext o pa ra o es tudo
de es t rut ura s gra ma t i ca is . Pa ra es sa di s cus sã o, rea l i za -s e uma
a ná l is e a pa rt i r da l ei t ura de out ros a rt i gos , l i v ros e obs erva çã o em s a la de a ul a .
Es t e a rt i go é orga ni za do em t rês s eções com cons i derações fi na i s, em que s e ev i dencia a pers is t ênci a da di fi cul da de
dos a l unos com rel a çã o à l ei t ura e à express ã o es cri t a a des pei t o de todos os a nos pa ssa dos na es col a. A di fi cul da de de
l ei t ura pode s e expl i ca r pel o fa t o de di fi ci l ment e s e i nt egra r o
es t udo da l í ngua a o est udo da l i t era t ura . Conforme rel a t a Chi a ppi ni ( 1 997 ) , a l i t era t ura não fa z pa rt e da dis ci pl i na comuni caçã o e express ão ou l í ngua portuguesa no Ens i no Funda menta l .
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Por que os profess ores recorrem t a nt o às regra s gramat i ca i s , às nomencl a t ura s e à met a l i ngua gem, des fav orecendo o
ens i no de comuni ca ção e expres sã o? Por que a dis ci pl i na L í ngua Port ugues a não é t ra ba l ha da de forma di nâ mi ca e cria t i va ,
com t ext os div ers os que ev i denci am o us o da l í ngua? No s ent i do de responder a es sa s ques t ões , es tá a rel evâ nci a des t e
a rt i go.
2 A ESCO LA CO MO ESPAÇO DE LEITURA
Por mui t o t empo, o es tudo do t ext o em sa l a de a ul a s erv i u à t ra nsmi ss ã o dos va l ores das cl as s es hegemôni cas . Sa be s e que o es t udo do t ext o s erv e t ant o pa ra a abert ura de s ent i dos quant o pa ra a s ua a nul a çã o, ou s ej a pa ra o a pa gament o
de c ert as refl exões . Os cont eúdos expos tos pel os t ext os é
que rev el am os obj et i vos da educa çã o e que, em i números es t udos rea l i za dos s obre educa çã o, s ã o apont a dos como não
cl a ros , em que nã o s e es peci fi ca os obj et i v os da l ei t ura , por
exempl o, s erv i ndo es ta apenas pa ra a decodifi ca ção de s i gnos .
D ul ce Cas sol Ta gl i ani ( 20 1 1 ) a fi rma em s eu a rt i go “O L iv ro
D i dát i co como Inst rument o Medi a dor no Proces s o de Ens i no Aprendi zagem de L í ngua Portuguesa : a produçã o de t ext os ”,
que o l i v ro di dá t i co é o úni co i nst rument o de l ei t ura ut i l i za do
pel os a l unos t a nto em sa l a de a ul a como no a mbi ent e domés t ico e que no a mbi ent e es col a r es t e nã o é expl ora do qua nt o à
s ua va ri a çã o de gêneros . Ela a fi rma que os a l unos l eem e i nt erpret a m s uperfi ci a l ment e o t ext o.
L í gi a Chi a ppi ni ( 1 9 97, p. 24 ) em s eu a rt i go “Gra má t i ca e
L i t era tura : des encont ros e es pera nças ”, que s e encont ra na
obra O Texto na Sala de Aula ( GERAL D I, 1 99 7 ) rel a ta que “na
es col a , os a l unos nã o l êem l i v rement e, mas res umem, fi cham,
cl a s s i fi cam pers ona gens , rot ula m obras . D e acordo com os rel a t os das es tudi osas ci t a da s, Chia ppi ni ( 19 97) e Ta gl i a ni ( 20 1 1 ) ,
percebemos que a prá t i ca de sa l a de a ul a , no que di z respei t o
a o t ra ba l ho com t ext os nã o cont ri bui pa ra o des env olv iment o
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da cri t i ci da de. O ens i no da dis ci pl i na L í ngua Port uguesa cent ra s e no domí ni o da gra má t i ca , conforme a fi rma Gera l di ( 19 97 , p.
4 5) :
P a r e ce - m e q u e o m a i s c a ó t i co d a a t u a l s i t u a ç ã o d o
e n s i n o d e l í n g u a p o r tu g u e s a e m e s c o l a s d e p r i me i r o
g r a u co n s i s t e p r e c i s a me n te n o en s i n o p a r a a l u n o s q u e
n em s e q u e r d o m i n a m a v a r i e d a d e c u l t a , d e u m a a n á l i s e d e s s a v a r i e d ad e co m e x er c í c i o s c o n t í n u o s d e d e s c r i ç ã o g r am a t i c a l , e s t u d o d e r eg r a s e h i p ó t e s e s d e
a n á l i s e d e p r o b l e m a s q u e m e sm o e sp e c i a l i s t a s n ã o
e s t ã o s e g u r o s d e co m o r e so l v e r .
Ent re as crí t i cas fei t a s a o ens i no t ra di ci ona l nos a nos 80 ,
uma que s e dest a ca va era o us o do t ext o como i ns t rumento
pa ra o t ra tament o de a spect os grama t i ca i s e t a mbém o ens i no
fora de cont ext o da met a l i ngua gem. Sobre es t e úl t i mo a s pect o,
Chi a ppi ni ( 19 97 , p. 17 - 18) menci ona :
O n t em c o mo h o j e , d i f i c i l m en t e c o n s eg u im o s i n t eg r ar o
e s t u d o d a l í n g u a e o e s t u d o d a l i t e r a t u r a . S em p r e a s
a u l a s d e l í n g u a t i v er a m a t en d ê n c i a d e s e co n c en tr a r
n a g r am á t i c a , e s t u d ad a a b s t r a t a m en t e , a t r a v é s d e e x e mp l o s s o l t o s , d e f r a s e s p r é - f a b r i c a d a s s o b m ed i d a
p a r a o s f a t o s g r am a t i c a i s a e x em p l i f i c a r o u a e x e r c i tar .
É i mporta nt e que s ej am col oca dos à di s pos içã o do a l uno
uma v a ri eda de de gêneros t ext ua i s que proporci onem a o a l uno
uma a t i t ude de refl exã o a pa rt i r da s l ei t uras a pres enta das na
es col a , onde s e cri e um a mbi ent e fav oráv el à prá t i ca da l ei t ura
e da es cri t a l iv res. Com es sa mes ma v i são, a fi rma Chi a ppi ni
( 1 9 97 , p. 21 ) .
P a r e ce i mp o r t an t e , s o b r e t u d o n o s p r i m e i r o s a n o s d e
contato com textos, exercitar a le itura e a escri ta,
p a r a q u e a r e f l e x ã o t eó r i c a e h i s t ó r i c a s o b r e e l e s s e
d ê a p a r t i r d e u m a v i v ên c i a e d o p r o c e s s o q u e o s
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g e r a : o t r a b a l h o c r i a t i v o co m a l i n g u ag em , a p r á t i c a d e
e x p r e s s ão l i v r e .
N as déca das de 60 e 70 , s urgem propos t as de reformul a çã o do ens i no de l í ngua port uguesa e, na déca da de 80 , t es es sã o el a bora da s a res pei t o do as s unt o, que a ca ba m por
des enca dea r um es forço no i nt ui to de rever a s prá t i ca s do
ens i no da l í ngua e pa ra um t ra ba l ho com t ext os que fi gurem a
rea l i da de, em v ez de t ext os v ol t a dos pa ra o a prendi zado da
es cri t a . Ao que também dev em s erv i r, ma s nã o de forma descont ext ua l i za da, poi s a l ei t ura t ambém dev e pos s i bi l i t a r o des envol v iment o da compet ência di s curs i va , os PCN s a pontam
es sa compet ênci a como uma da s compet ência s a s erem a l ca nça das pel o a l uno no ambi ent e es cola r. Ta l compet ênci a s e ca ra ct eri za por t orna r o a l uno hábi l em ut i l i za r a l í ngua produzi ndo v a ria dos efei t os de s ent i do e em ut i l i za r o t ext o a dequa ndo
- o às di ferent es s i t ua ções de i nt erl ocuçã o.
Os PCN s ( BRASIL , 1 99 8, p. 23) de t ercei ro e qua rt o ci cl os
do ens i no fundament a l de L í ngua Portuguesa a ponta m:
“At ua lment e, exi gem-s e ní v ei s de l ei t ura e de es cri t a di ferent es
dos que sa t i s fa zem as demandas s oci a is at é há bem pouco
t empo e t udo i ndi ca que es sa exi gência t ende a s er cres cent e”. E o t ra ba l ho que é rea l i za do pel a es cola nã o corres ponde
a es s e ní v el de exi gênci a . D e a cordo com os própri os PCN s
( B RASIL , 1 99 8, p. 25) , “t enta -s e aproxi ma r os t ext os s impl i fi ca ndo- os a os a l unos , no l uga r de a proxi ma r os a l unos a t ext os de
qua l i dade”. Is t o é, fa l ta di s por aos a l unos t ext os que es t ão a l ém dos apres enta dos nos l iv ros di dá t i cos e que l hes permi t am
s e s i t ua rem dent ro do s eu moment o hi s tóri co, a proximando -os
da sua rea l i da de.
Mesmo qua ndo o profes s or propõe que o a l uno l ei a um
l i v ro, que nã o s ej a o l i v ro di dá t i co, es s e profes s or ut i l i za uma
met odol ogia equi v oca da , poi s nã o permi t e que o a l uno fa ça uma l ei t ura l iv re, ma s s ol i ci t a del e res umos e fi cha s de l ei t ura
que t ornam o a t o de l er uma a t iv i da de t ensa e mecâ ni ca . Pa ul o
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F rei re ( 2009 ) em cont a to com v á ri os es tuda nt es rev el ou que
mui t os rel a t a ram s ua s frus t ra ções com rel açã o à l ei t ura , poi s
el es nã o l êem ou es t udam de v erda de os l i v ros . E is s o decorre
de uma concepçã o errônea que os profes s ores t êm do a t o de
l er como o própri o Pa ul o F rei re ( 200 9 , p. 21 ) expl i ci t a , a
“i mport ânci a do a t o de l er [ . . . ] i mpl i ca s empre percepçã o crí t i ca ”.
Se o t ext o s e a pres ent a como um cami nho pa ra a cons t ruçã o de s ent i dos , como a pont a Paul o F rei re ( 200 9 ) e Gera l di
( 1 9 9 5) es tá a í a i mportâ nci a do t raba l ho em s a l a de a ula com
t ext os va ri a dos que pos s i bi l i t em ao a l uno l i da r com a rea l i dade
s oci a l , com os v á ri os s ent i dos a fi xa dos pela s di v ersa s l ei t ura s.
D i a nt e da v i gênci a de novas t ecnol ogia s e da a pa ri çã o de
nov os gêneros com el as , Ma rcus chi ( 200 8, p. 1 9 8) pergunta “s e
a es col a dev erá ama nhã s e ocupa r de como s e produz um e ma i l e out ros gêneros do dis curs o do mundo v i rt ua l ou s e i ss o
nã o é s ua a t ri bui çã o. Pode a es cola cont i nua r ens ina ndo como
s e es crev e ca rt as [ . . . ] ?”. A es col a nã o dev e a mpl ia r s eus obj et i v os e modi fi ca r s ua met odol ogia v is ando a tender à s necess i da des prement es ? N a ci t a çã o que s egue s e a pres enta a rel ev ânci a do t ra ba l ho com div ers os gêneros no ambi ent e es col a r.
B ras i l ( 1 99 8, p. 23) a ponta :
N e s s a p e r s p e c t i v a , é n e ce s s á r i o co n te mp l a r , n a s a t i v i d a d e s d e en s i n o , a d i v e r s i d a d e d e t e x t o s e g ên e r o s ,
e n ã o a p en a s e m f u n ç ã o d e s u a r e l e v â n c i a s o c i a l ,
m a s t a mb ém p e lo f a t o d e q u e t e x t o s p e r t en c en t es a
d i f e r e n t e s g ên e r o s s ã o o r g a n iz a d o s d e d i f e r e n t e s fo r mas.
F i ca ass i m expl í ci t o, que s e fa z necess á ri o o es t udo dos
gêneros no es pa ço es cola r, com o i nt ui to de corres ponder a
uma das expecta t i vas de des envol v iment o da ca pa ci dade comuni ca t iva do a l uno, como bem i ndi ca m os PCNs que a ponta m
pa ra neces s i da des do pres ent e.
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3 A ESCO LA CO MO ESPAÇO DE PRO DU ÇÃ O TEXTUA L
Os PCN s ( 19 98) de t ercei ro e qua rt o ci cl os do ens i no funda ment a l rev el a m que a ca usa do fra cas so es col a r ness e nív el
é a fa l t a de domí ni o da l ei t ura e da es cri t a pel os a l unos . N o 6 º
a no, ess e fenômeno ocorre “por nã o s e cons egui r l eva r os
a l unos a o uso apropri a do de pa drões da l i ngua gem es cri ta ,
condi çã o primordi a l pa ra que cont i nuem a progredi r” ( B RASIL ,
1 9 9 8, p. 1 7 ) . Os mesmos PCNs ( B RASIL, 1 9 98, p. 23) i ndi ca m que
“a uni dade bás i ca do ens i no s ó pode s er o text o” e nã o a gramá t i ca es t uda da de forma des cont extua l i za da . Idei a expl í ci t a a
s egui r em B ra s i l ( 1 99 8, p. 23) :
[ . . . ] n ã o é p o s s í v e l t o m a r co mo u n i d ad e s b á s i c a s d o
p r o c e s so d e en s i n o a s q u e d e co r r em d e u m a an á l i s e
d e e s t r a t o s- l e t r a s / f o n em a s , s í l a b a s , p a l a v r a s , s i n ta g m a s , f r a s e s ― q u e d e s co n t e x t u a l i z a d a s , s ã o n o r m a l m en t e t o m ad a s c o mo e x e mp l o s d e e s t u d o g r am a t i c a l e
p o u co t êm a v e r co m a c o mp e t ên c i a d i s c u r s i v a .
Rodol fo Il a ri ( 1 9 97 ) cons i dera que pa ra os profes s ores é
prováv el que a reda çã o s ej a a prát i ca de sa l a de a ula menos
gra t i fi ca nt e, e que es ta dev e es ta r condi ci ona da à prá t i ca da
l ei t ura pa ra que el a s e t orne efi ci ent e. El e a i nda menci ona out ra s exi gência s pa ra a es cri t a de uma boa reda çã o. Conforme
( ILARI 1 997 , p. 69 -70 ) :
E s s a s i t u a ç ã o é r e l a t i v a m en t e a n t i g a , e t em mo t i v a d o
r e f l e x õ e s p ed a g ó g i c a s q u e c o n d i c i o n am u m a p r á ti c a
e f i c i e n t e d a r ed a ç ã o à s a t i s f a ç ã o d e t r ê s e x i g ên c ia s :
i m p o r t â n c i a d a l e i t u r a d o s “b o n s au t o r e s ” ; o b s e r v aç ã o
p r év i a , p e l o a l u n o , d o s “ f a t o s ” q u e s ã o a s s u n t o d a
r e d a ç ão e c e r t ez a d e q u e o a l u n o e s t e j a e f e t i v am en t e
mo t i v a d o p a r a r ed i g i r .
O a utor a pres ent a res ul ta dos de dua s diss ert a ções de
mes t ra do s obre a express ã o es cri ta e os s eus obj et i vos , em
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s ua obra A L i nguí s t i ca e o Ens i no da L í ngua Portuguesa . N o
pri mei ro t ra ba l ho, “Peda gogia da Expres sã o Es cri t a ”, do profes s or Gi l bert o Sca rt on, concebe -s e a “peda gogi a da express ão
es cri t a como um mei o pa ra s upera r a i ncorreçã o grama t i ca l
da s reda ções es cola res . ” ( IL ARI, 1 997 , p. 7 1 ) . Es t e t ra ba l ho fornece um l ev ant ament o dos erros gra ma t i ca is ma is frequent es ,
dent re os qua i s es tã o os de ort ogra fi a , morfol ogi a e s i nt a xe.
N o s egundo t ra ba l ho, i nt i t ul a do “Ha bi l i da de de Express ão
Es cri t a e N ív el de Es col a ri da de”, a profess ora Ma ri a Reni ra de
Moura L ima exa mi nou reda ções de a l unos de 4 ª a 8ª s éri es do
ens i no funda menta l e 3ª s éri e do s egundo gra u. Aqui , i nt eres sa
o pri mei ro ní v el . A a utora bus ca res pos t as qua nt o ao cumpri ment o do pa pel da es col a no que di z respei t o a o des env olv i ment o da expres sã o es cri ta .
N o s egundo t ra ba l ho, a profess ora chega à concl us ã o de
que os a l unos nã o redi gem bem e que, porta nt o, a es col a nã o
es t á corres pondendo aos obj et i v os rel a ci ona dos a o des env ol v i ment o da express ã o es cri t a e chega a s ugeri r que el ementos
como mot i va ção e experi ênci a de v i da fa çam pa rt e des sa prát i ca .
Sobre os dois t ra ba lhos menci ona dos , é rel at a do por Il a ri
( 1 9 97 , p. 7 2-7 3) que “repres entam a opi ni ão corrent e qua nto
a os obj et iv os da reda ção; t ra ta -s e [ . . . ] de obt er uma express ão
corret a [ . . . ] que depende de a t iv i da des v ari a das : pura ment e
grá fi ca s , grama t i ca i s , de v oca bul á ri o, et c. ”. D ia nt e dos obj et i vos
a pres enta dos pa ra a reda çã o nos t raba l hos menci onados é i mport a nt e cons i dera r o s egui nt e pont o de v i st a do aut or ( ILARI
1 9 97 , p. 7 3 -74 ) :
[ . . . ] e s s a p e d ag o g i a d a r e d a ç ão é i n ad eq u a d a e e s t é r i l ;
r e s u l t a d e u m p r e co n c e i t o , i n f e l i z m en t e g en e r a l i z a d o
e m n o s s a s e s co l a s , e m f a v o r d a g r a m á t i c a e c o n t r a o
ensino da expressão; e contribui destarte para que o
p r e co n c e i t o s e m a n t en h a , c o mo f o n t e d e d e sv i o s .
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N ão pensamos que a gra má t i ca dev e s er ext ermi na da do
ens i no de l í ngua port ugues a , poi s regras devem s er es ta bel eci da s pa ra a boa compreensã o das formas de expres sã o, ma s
a credi t amos que não dev emos nos a t er s oment e a o ens i no de
gra má t i ca na di s ci pl i na l í ngua port ugues a, poi s os us uá ri os da
l í ngua cons eguem fa zer us o del a , mes mo ant es de conhecer
a s s ua s regras e porque out ras ques t ões podem s er t ra t a das
no es t udo da l í ngua , como por exempl o a es col ha do códi go
l i nguí s t i co ma i s a dequa do pa ra as di ferent es s i t ua ções de comuni ca çã o. Como pensa N eto ( 1 99 6 , p. 1 35) a gra má t i ca nã o dev e tol her o a l uno, ma s s erv i r como “recurs o pa ra o a pri mora ment o da s ua express ã o es cri t a e que o ensi no de l í ngua dev e
conduzi r o a l uno a l er e es crev er com compreens ã o e profundi da de”. Ta gl ia ni ( 20 11 , p. 1 39 ) menci ona que no l i v ro di dá t i co
“nã o há um t ra ba l ho v ol ta do pa ra a div ers i da de de gêneros e
s uas v a ri edades de regi s t ros l i nguí st i cos e pouca refl exã o s obre a s i t ua çã o em que produçã o de t ext os dos a l unos ocorrerá . O foco cont i nua na l í ngua pa drã o”.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pa rt i r da s refl exões a pres enta da s a qui , t ivemos o i ntui t o de i dent i fi ca r o que o a prendi zado e o t ra ba l ho com t ext os
em sa l a de a ul a, t ant o em rel a çã o a o nív el de l ei t ura quant o à
produçã o t ext ua l , podem t ra zer a o ens i no de l í ngua port ugues a
no ens i no fundamenta l I I. Ma is es peci fi ca ment e, bus camos a pres ent a r a qui a importâ nci a do t ra ba l ho com a l i ngua gem a
pa rt i r da i ns erçã o de t ext os va ri ados , is s o impl i ca di zer de vá ri os gêneros que fazem pa rt e do mundo do a l uno, como mús i ca s , poes ia produzi da pel os própri os a l unos e gêneros da web,
que j á sã o conheci dos como nov os recurs os s emi ót i cos .
Ao refl et i r s obre as i dei as e os res ul ta dos de a ná l i s es de
profes s ores , de es t udi os os da L i nguí st i ca e da Ci ênci a do Text o, cons ta t amos a i nefi ci ênci a da es col a quant o a o obj et iv o de
des env ol v er nos a l unos a compet ênci a di s curs i va , ou s ej a, de
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mel hora r nos a l unos a ca pa ci da de em l i da r com a l i ngua gem,
t orna ndo - os s uj ei t os há bei s na compreens ão e na const ruçã o
de s i gni fi ca dos por mei o das a t iv i dades de lei t ura e es cri t a . O
ens i no de l í ngua port ugues a cent ra do na gramá t i ca e a fa l t a de
cl a reza dos obj et i v os da es col a cont ri buem pa ra o ba i xo des empenho dos a l unos na s a t iv i da des rel a ciona da s . Embora o
ens i no da l í ngua port uguesa es t eja s e mos t ra ndo i nefi ci ent e,
Chi a ppi ni ( 19 97 ) rev el a que os profess ores t êm bus ca do ca da
v ez ma is i nt egra r o t ext o no t raba l ho com a l i ngua gem.
Apesa r dos profess ores es ta rem ut i l i za ndo ma is o t ext o
no t ra ba l ho com a l i ngua gem, de a cordo com Ma rcus chi ( 200 8,
p. 209 ) , em sa l a de a ul a “cons i deram -s e apena s os gêneros
com rea l i za çã o l i nguís t i ca ma is forma l e nã o os ma i s pra t i cados
na s a t iv i da des cot i dia nas ”. Ma rcus chi ( 20 08, p. 21 1 ) a i nda rel at a :
O s P C N s n ão n eg a m q u e h a j a m a i s g ên e r o s , m a s e s t e s n ã o s ã o l em b r a d o s . P o r q u e n ão t r a b a l h a r t e l ef o n em a s , c o n v e r s a ç õ e s e s p o n t ân e a s , c o n s u l t a s , d i s c u s s õ e s e t c . , p a r a a f a l a ? P o r q u e n ão a n a l i s a r f o r mu l á r i o s , c a r t a s , b i l h e t e s , d o c u me n to s , r e c e i t a s , b u l a s , a n ú n c io s , [ . . . ] d i á r i o s , a t a d e c o n d o m í n io e a s s i m p o r
diante, para a escrita?
Pa ra B ange ( 1 9 83 a pud KOCH, 2006 , p. 7 5) “fa l a mos at rav és de t ext os ”. Porta nt o fa z - s e necess á rio a ut i l i za çã o dos
di v ers os gêneros e t i pos t ext ua i s no t ra ba l ho com a l i ngua gem.
L i ngua gem pel a qua l os s uj ei t os i nt era gem, a qua l nã o s ó é
t ra ba l ha da na es cola como a cont ece na escol a , es ta que s e
cons t i t ui como espa ço i nt era t iv o. D e a cordo com K och ( 200 5,
p. 26 ) t exto “t ra t a - s e de uma a t i v i da de cons ci ent e, cria t i va ,
que compreende o des envol v iment o de es t ra t égi as , concreta s
de a çã o e a es col ha de mei os a dequa dos à rea l i za çã o de obj et i v os ”. Por es sa ra zã o, a necess i da de do tra ba l ho com gêneros va ri a dos em s a la de a ula , procedi ment o es t e, que não t em
ocorri do.
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Cons i dera ndo a s refl exões aqui t ra zi da s , percebemos que
a a t i v i da de de produçã o t ext ua l na es col a, na ma iori a das v ezes , s erv e s oment e como i ns t rumento de av a l ia çã o e nã o de
a prendi za gem. E s endo, em mui t os cas os , o l i v ro di dá t i co o úni co i ns t rument o de l ei t ura ut i l i za do pel os al unos como j á foi
menci onado, ocorre um empobreci mento do ní v el de l ei t ura rea l i za do pel os a l unos e um des fav oreciment o do des env olv i ment o da ca pa ci da de dos a lunos quant o à a ná l i se crí t i ca .
D ev e- s e poss i bi l i t a r a os a l unos fazerem l ei t ura s div ersas ,
com propos t as de ofi ci nas de l ei t ura e de produçã o t ext ua l na
es col a . D is cuss ões a res pei t o des t e as s unt o dev em s er rea l i za das na s univ ers i da des no i nt ui t o de prepa ra r profes sores de
L í ngua Portuguesa em forma çã o pa ra l i da r com as di fi cul da des
dos es t uda nt es . Concl ui ndo es t e a rt i go, conv encemo - nos da
ext rema importâ nci a da funçã o dos profes s ores enquant o medi a dores ent re o t ext o e a aprendi zagem.
R E F E RÊ N C IA S
I CONGRESSO IN TERNACION AL DAS L IN GUAGENS; V SEMINÁRIO
N ACION AL D O ENSINO D E L ÍNGUA PORTUGUESA; IV SEMINÁRIO
IN TERN ACION AL D O ENSINO D E L ÍN GUA ESTRANGEIRA - ESPAN HOL E INGL ÊS; I SILEN: L IN GUAGEN S E L IN GUAGENS , 1 , 200 2,
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em: < ht tp: //www.s ci el o. br/pdf/rbla /v 1 1 n1 /v 11 n1 a 08. pdf> . Aces so
em: 31 ja n. 20 1 2.
Recebi do em 21 /4/20 1 2.
Aprov a do em 13/9 /20 1 2.
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LITERATURA
ISSN 2236-3335
FA C E S D E U M L I R I S M O P L U V I A L : I M A G E N S
D E C H U VA E M R U Y E S P I N H E I R A F I L H O
Jacie ne de Andrade S antos
Licenc iatura e m Le tras Ve rnáculas
[email protected]
Res umo : Ruy Es pi nhei ra F i l ho é um dos ma is i mporta nt es poet a s ba i anos da a t ua l i da de. Sua poes i a a present a , de um modo
gera l , t emas l i ga dos à ev oca çã o da memória. N es t e a rt i go, s erã o a na l i s adas as i magens de chuv a pres ent es em mui tos de
s eus poema s e a s rela ções s i mból i ca s que ma nt êm com s i t uações própri as da v iv ênci a huma na , a exempl o do a ut orreconheci ment o e da v ol ta a o pas sa do a t rav és da s l embra nças . As
a ná l is es sã o bas ea da s no poema “O ros t o na chuv a ” e em excert os de out ros poemas de “ Poesia reunida e inéditos ”, l iv ro
do mes mo a utor.
Pa l av ras- chav e: Poes i a . Ruy Es pi nhei ra F i l ho. Chuv a .
Rés umé: Ruy Espi nhei ra F i l ho es t l ’ un des poèt es ba hi a na i s l es
pl us i mport a nt s de l a a ct ua l i t é. Sa poés i e prés ent e en genera l
t hèmes l i és à l ’ év oca t i on de l a mémoi re. Da ns cet a rt i cl e, s ont
a na l ys ées l es i ma ges de l a pl ui e prés ents da ns bea ucoup de
s es poèmes et l es rel a t i ons s i mbol i ques qu’ el l es cons erv ent
a v ec l es s i t ua t i ons propes de l ’ exis t ence huma i ne, comme
l ’ a ut o - reconna is sa nce et l e ret our a u pas s é à t rav ers de l es
s ouv erni rs . L es a na l ys es s ont bas ées s ur l e poème “O ros t o
na chuva ” et sur ext ra i t s de l ’ a ut res poèmes de Poesia reunida
e inéditos , un l iv re du même a ut eur.
Mots - cl és : Poés i e. Ruy Es pi nhei ra F i l ho. Pl ui e.
J
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1 INTRO DU ÇÃO
N ão bas t ou a o homem a i nv ençã o da l i ngua gem. F oi preci s o i nv enta r a poes i a. Sempre es capa ndo à rigi dez dos concei t os , a poes ia pode s er rel a ci ona da à noçã o de bel eza . Segundo Roma n Ja kobs on, o “poeta da l i nguí s t i ca ” [ 1 ] , a funçã o poét i ca
di fer enci a -s e da s out ra s funções que el e at ri bui à l i ngua gem
por s er “o enfoque da mensa gem por el a própri a ”. Poes ia s eri a , porta nt o, rei nv ençã o da l i nguagem.
Porém, a o l ongo de s ua ev ol uçã o ent re os pov os , l i nguagem cot i di ana e poes i a encont ra ram o des a fio do i ndi zív el . Como expres sa r aqui l o do qua l pa recemos v er a penas um pa rco
v ul t o, qua l o mundo do Mi t o da Cav erna ? A mi s sã o de t orna r
em pa l av ra concret a o que a cons ci ênci a percebe com a l gum
v aga r e gua rda nos reca nt os profus os da memóri a a ca bou
s endo del ega da à poes i a . Segundo T. S. El l iot ( 1 9 72) , a poes ia
produz doi s efei t os pri nci pa i s : a s ensa ção de pra zer e a des cobert a de nov as forma s de comuni ca r: “há s empre a comunica çã o de a l guma experi ênci a nov a, de a l gum ent endi ment o nov o do fa mi l i a r, ou a expres sã o de a l guma coi s a que s ent imos ,
mas pa ra a qua l não t emos pa l av ra s , que ampl i a nossa cons cient i za çã o ou apura noss a s ens i bi l i da de. ” ( ELLIOT, 1 97 2, p. 32) .
A a rt e poét i ca t ra ba l ha com a v erba l i za çã o de uma rea l ida de a bs t rat ament e v eross í mi l . Segundo Aris t ót el es ( 1 9 59 ) , “o
hi s t ori a dor e o poet a nã o dis t i nguem um do out ro pel o fa t o de
o pri mei ro es crev er em prosa e o s egundo em v ers o. [ . . . ] D i ferem ent re s i porque um es crev eu o que a cont eceu e o out ro
o que poderi a t er a cont eci do”. (ARISTÓTEL ES, 1 9 59 . p. 306 ) . É
cl a ro que a di s t i nçã o nã o s e res ume t ã o s impl es , porém ela é
i mporta nt e a o a bri r cami nhos pa ra a percepçã o de um di ferenci a l de s ubj et iv i da de e cria çã o t ra zi do pela poes i a .
Segundo Oct áv i o Pa z ( 1 96 2) , “há uma ca ract erí s t i ca comum a t odos os poemas , s em a qua l nunca s eri am poes i a : a
pa rt i ci pa çã o. Ca da v ez que o l ei t or rev i v e rea l ment e o poema ,
a t i nge um es ta do que podemos , na v erdade, cha ma r poét i-
J
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co” ( PAZ, 1 96 2, p. 30 ) . Es sa pa rt i ci pa çã o s obre a qua l nos fa l a
Pa z va i a l ém da rel a çã o poema - l ei t or, engl oba ndo a rel a ção do
l ei t or cons i go mesmo, a o compreendermos ser t a mbém a poes i a um cami nho pa ra a des cobert a do própri o “eu”. Qua nt o a
i s s o, i nda gam os v ers os de F errei ra Gul l a r: ca beri a à a rt e poét i ca a ta refa de t raduzi r es s es mundos que s e aproximam e s e
di s t a ncia m dent ro do própri o “eu”? “Tra duzir uma pa rt e / na
out ra pa rt e / ― que é uma ques t ã o / de vi da ou mort e ― /
s erá a rt e?” ( GULL AR, 200 6 , p. 335)
N a t enta t i va de a l ca nça r es s es mundos , o poet a l a nça
mã o de dois recurs os pri nci pa i s na t es s i tura do poema : ri tmo e
i ma gem. O ri tmo s eri a a l go percebi do i nt ui t iva ment e na ha rmoni a ent re os t empos de s ons e pa usas , na regul a çã o do mov i ment o sonoro do t ext o e de s eu enca ixe às pa l av ra s . Pela i ma gem, s egundo Octáv i o Pa z, a s pa lav ras sã o l ev adas a
“t ra ns cenderem a l i ngua gem, enqua nto s i s t ema da do de s i gni fi ca ções hi s t óri ca s ” ( PAZ, 1 96 2, p. 28) . A l i ngua gem poét i ca reabi l i t a a na t ureza ampla das pa l av ras . As s im, a t ra v és das imagens pos t as no poema , torna - s e poss í v el a o l ei t or o v i s lumbra r, mesmo que por s egundos , dos cont ornos de um mundo
com o qua l s e i dent i fi ca , s ej a pel a s ens a çã o de corres pondênci a com s ua rea l i da de, s ej a por des ej os ou memória s . D el i ca dos
e fl ui dos , os el ementos poét i cos t êm por voca çã o a l i berdade
da s ima gens , onde encont ram a a mpl i t ude s emâ nt i ca de que
preci s am:
[ ...] para o poeta l írico não existe uma substância, mas
a p en a s a c i d e n t e s , n ad a q u e p e r d u r e , a p e n a s co i s a s
p a s s a g e i r a s . [ . . . ] U m a p a i s a g em t e m co r e s , l u z e s , a r o m a s , m a s n em c h ão n em t e r r a co mo b a s e . Q u an d o
f a l a m o s n a p o e s i a l í r i c a , p o r e s t a r a z ã o , e m i m ag en s ,
n ã o p o d emo s l e mb r a r a b so l u t a men t e d e p i n tu r a s , m a s
n o m á x i m o d e v i s õ e s q u e s u r g e m e s e d e s f a z em n o v a me n t e , d e s p r eo cu p ad a s c o m a s r e l a ç õ e s d e e s p a ç o
e t e mp o . ( S T A I G ER , 1 9 9 3 , p . 4 5 ) .
J
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As i ma gens l i ga das à memória es t ã o s empre próxi mas a o
poet a . Ca rrega do por el a s , o poema provoca ri a uma s ens i bi l i za çã o das recorda ções do l ei t or, fazendo - o rev er a memória .
St a i ger ( 19 9 3) exempl i fi ca :
A r o m a s , m a i s q u e i m p r e s s õ e s ó p t i c a s , p e r t en c em à
r e c o r d aç ã o . P o d e s e r q u e n ã o co n s e r v em o s u m a r o m a
n a m emó r i a , m a s s e m d ú v i d a o c o n s e r v am o s n a r e c o r d a ç ão . Q u a n d o e l e s e e s p a l h a d e n o v o , u m a co n t e c i m en t o d e h á m u i t o to r n a - s e s u b i t a m en t e p e r c ep t í v e l ; o c o r a ç ão b a t e e f i n a l m en t e a r e c o r d a ç ão i n s ti g a
a m e mó r i a ; p o d emo s d i z e r em q u e c i r c u n s t â n c i a s es t e
a r o m a n o s i n e b r io u o s s e n t i d o s . ( S T A I G E R , 1 9 9 3 , p .
55).
Sus ci ta ndo nos sas recorda ções como s e foss em l embra nça s a romá t i cas , o poet a ba i ano Ruy Es pi nheira F i l ho a pres enta
em s eus poema s um t ra ço comum que t ra nsmi t e memória s,
s a uda de, nos ta l gi a . D ent re a s imagens ut i l i zada s pel o a ut or para t ra duzi r a s fa ces s ob a s qua is s e a pres ent a a memóri a , fi gura de modo express i vo a i ma gem da chuva . N es t e a rt i go,
s egui remos ess es ca mi nhos de chuva , a profunda ndo a dis cuss ã o a cerca dos s i gni fi ca dos da s i ma gens pl uv i a is em Espi nhei ra
F i l ho. Usa ndo como pa ra di gma o poema “O ros t o na chuv a ” [ 2 ] ,
di a l oga remos com excert os de out ros poema s do l i v ro “Poes ia
reuni da e i nédi t os ”.
2 O RO STO NA CHU VA ― ENLA CE DE MEMÓ RIAS E
IDENTIDA DE
A i dei a de um rosto na chuv a e não de uma pessoa na
chuva s e most ra ba s ta nt e s i gni fi ca t i va . É uma i ma gem recorta da , uma v is ã o pa rci a l em mei o a o j ogo ocul t o/a pa rent e fei t o
pel a chuv a . Ao mesmo t empo, “rost o” remete à express ã o de
uma i dent i dade que, no poema , ol ha pa ra o l ei t or. O poema
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pa ss a a t ra nsmi t i r a s ens a çã o i nqui et a nt e de um obs erva dor
do qua l o obs erva do va i t oma ndo cons ci ência .
Pel o fa t o de es t a r na chuva , o ros t o a dqui re a s ca ra ct erí s t i ca s a t ri buí da s a ela : “É uma chuv a l onga, uma / de mui t os
a nos e v i agens / correndo por es t e rost o” (ESPINHEIRA F IL HO,
1 9 9 8, p. 53) . Acres ce -s e a o rost o as própri as fei ções do t empo
e das pes soas que pa ssa ram por el e: “N o ros t o, out ros rost os / ci nt i l am” ( ESPIN HEIRA F IL HO, 19 9 8, p. 53) . D e um ros t o, a
i ma gem ev ol ui pa ra vá ri os , como s e foss e o moment o da des cobert a da mul t i pl i ci da de que ha bi t a o i ndi v íduo a pa rent ement e
coes o e homogêneo. A chuva pa rece fi ca r ma i s fort e.
À medi da que o poema ava nça , ros to e chuv a sã o l eva dos a s e ( con) fundi rem numa s ó ent i da de. A chuv a s e t ra ns muta em es pel ho que rev el a o í nt i mo de uma memóri a tã o es condi da que o própri o suj ei t o nã o s e a rris ca a procurá - la :
“Es s e ros t o na chuva / t e refl et e / com o que a v i nda, / v i da / t e doou e às v ezes i ns crev eu / t ã o fundo que l á nã o
des ces ” ( ESPIN HEIRA F IL HO, 19 9 8, p. 53) .
A chuva col oca da como el ement o refl et i v o ret oma a i magem de ros t o e espel ho. Compa ra ndo t rechos de poemas de
Es pi nhei ra F i l ho ( 19 9 8) ― “ros t os s éri os / que nos enca ram no
es pel ho” ( ESPIN HEIRA F ILHO, 19 9 8, p. 104 ) , “ros t o / que j á nã o
nos fi t a dos es pel hos ” ( ESPIN HEIRA F ILHO, 1 9 9 8, p. 149 ) ― e
recorrendo a out ras refer ênci a s poét i ca s , como em Cecí l i a Mei rel es ( 1 9 9 8) “ – Em que es pel ho fi cou perdi da / a mi nha fa ce?” ( MEIREL ES, 1 96 3, p. 1 1 ) , compreendemos o va l or da imagem
como ident i fi ca çã o, aut orreconheci mento e admi ss ão do i ndiv í duo como pl ura l i da de. O ros t o é t est emunha da pa ss agem do
t empo.
N o cl í ma x dess e reconheci ment o ent re o s er obs erva do e
o ros t o na chuv a, há uma t ot a l i nt egra çã o ent re el es : “Es s e
ros t o / na chuva que ci rcul a / em tuas v ei as ” ( ESPIN HEIRA
F IL HO, 19 9 8, p. 53) . O rost o é uma pa rt e do própri o i ndiv í duo
que, perdi da no t empo, é rememora da at rav és da chuva . Agora
t ra nspos ta pa ra o s eu i nt eri or, é el a quem lhe i mpel e e mot iva
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à v i da . Ou s ej a, as memóri as de s i mesmo prov oca m a es t ra nheza da a ut ocont empl a ção de um s uj ei t o que j á nã o é ma i s o
mesmo, porém a o mesmo t empo s ã o mot ores da v i da , como
i ndi ca o “ci rcul a r na s v ei as ”.
As ma rcas i ndel év eis do pass a do perma necem como um
ros t o i ncômodo s ob a fa ce a pa rent ement e t ra nqui l a do pres ent e: “á s pero cres ce / s ob a pel e s uav e do t eu ros t o” ( ESPIN HEIRA F IL HO, 1 99 8, p. 53) . O pa ra doxo á s pero/s uav e
expres sa o confl i t o ent re a fra gi l i dade do homem di ant e do s eu
pa ss ado ― imut áv el por na t ureza e s empre pres ent e na memóri a –, e a s ereni da de ext eri or que preci sa t er no pres ent e.
N o poema “F uga ” ( ESPINHEIRA F ILHO, 19 98, p. 1 04 ) , encont ramos a mes ma referênci a à perda de uma pa rt e de s i mesmo,
num proces s o prov ocado pel o t empo:
o v en t o q u e s o p r a o t em p o
o cu l t a f u n d o s m i s t é r i o s
― e do que era sorriso
c o mp õ e e s s e s r o s t o s s é r i o s
q u e n o s e n c a r a m d o e sp e l h o
e de outros corpos
e v emo s ,
sob eles, os suaves traços
d e q u em em n ó s j á p e r d em o s
O fa t o de s empre es ta r perdendo uma pa rt e de s i e adqui ri ndo nov os t ra ços cons t i t ui ri a um confl i to de i dent i da de no
s uj ei t o. É poss í v el ser s em i nfl uênci a s ext erna s ? Como pres erv a r uma s upos ta ori gi na l i da de di a nt e do ca rát er fuga z da v i da ?
A v erda de é que, as s im como os s eres huma nos, a poes i a v i v e da cont í nua t ra ns forma çã o e é j us t amente i s so que ga ra nt e
a uni da de de ambos . Oct áv i o Pa z ( 19 6 2) a fi rma que
P a l a v r a s , s o n s , c o r e s e o u t r o s m a t e r i a i s s o f r em u m a
t r a n s mu t a ç ão m a l i n g r e s s a m n o c í r c u l o d a p o e s i a . S e m
d e i x a r e m d e s e r i n s t r u m en t o s d e s i g n i f i c a ç ã o e co mu n i c a ç ã o , c o n v e r t em - s e e m “ o u t r a c o i s a ” . E s s a m u d a n -
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ç a ― a o c o n t r á r i o d o q u e o co r r e n a t é cn i c a ― n ã o
c o n s i s t e e m a b an d o n a r s u a n a t u r ez a o r i g i n a l , m a s e m
voltar a e la. (PAZ, 1962 , p. 26).
Es sa “v ol t a à ori gem” t em na i ma gem da chuv a a a na l ogi a
perfe i t a pa ra o s i mbol is mo: a chuva , como s e s a be, é um fenômeno nat ura l que repres enta o mov iment o cí c l i co de á gua na
na t ureza , e sua cont í nua t ra ns forma çã o de es t a dos fí s i cos ,
s em que ha j a muda nça na subs tâ nci a. D e modo s emel hant e, a s
memória s ret ornam s empre res s i gni fi ca das , embora o pa ssa do
nã o pos sa s er a l t erado.
Por i s s o, a l i ngua gem poét i ca rompe dema rca ções de
pa ss ado, pres ent e e fut uro. A poes i a t orna -s e s eu própri o refer enci a l de t empo.
O p o e t a l í r i c o n em t o r n a p r e s en t e a l g o p a s s a d o , n e m
t a m b é m o q u e a co n t e c e ag o r a . A mb o s s ã o i g u a l m en t e
p r ó x i m o s d e l e , m a i s p r ó x i mo s q u e q u a l q u e r p r e s en t e .
E l e s e d i l u i a í , q u e r d i z er , e l e “ r e co r d a ” . “ R e co r d a r ”
d ev e s e r o t e r m o p a r a a f a l t a d e d i s t â n c i a e n t r e s u j e i t o e o b j e to , p a r a o u m -n o -o u t ro l í r i c o . ( S T A I GE R ,
1993 , p. 59).
Em Espi nhei ra F i l ho ( 1 99 8) , a chuva s eri a es s e el ement o
di l ui dor do t empo. A á gua que fl ui do céu é a v is ão do t empo
i gua l ment e fl ui do e i ncont roláv el : “Há pouco chov i a / e nã o
chov e ma is ” ( ESPIN HEIRA F IL HO, 1 99 8, p. 1 1 3) . Ca da i nst a nt e é
uma porçã o efêmera de t empo, “s ó a memóri a v iv e, v i v e nos ” ( ESPIN HEIRA F IL HO, 19 9 8, p. 10 5) . A exi st ênci a é t ra ns feri da pa ra o pl a no da memória . Por v iv ermos s empre a i nt ençã o
de um ret orno, é a memóri a que v iv e por nós .
Em ent rev is ta a Rodri go de Souza L eã o, Ruy Es pi nhei ra
F i l ho, ao comenta r sobre o t í t ul o de “poeta da memóri a ” que
l he é a t ri buí do pel os crí t i cos, fa la de s ua relaçã o com o pa ss ado: “F a la ndo de mi m, o que s ei é que a úni ca coi s a que pos s uo é a memóri a . O pres ent e é o que a ca bou de pa ss a r. O fut u-
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ro. . . B em, o fut uro é uma proj eçã o, uma pos s i bi l i dade. Qua ndo
s e rea l i za, não s e rea l i za . Ou s ej a : dei xa de s er fut uro”. Port a nt o, o dest i no de ret orna r pa ra um pa ss a do rea l ou i ma gi ná ri o e o a ns ei o de ev i ta r o fut uro é o que di ri ge nos sos pa ss os : “Pa ra onde v amos é s empre ont em. Como / de onde fugi mos é s empre / a ma nhã ” ( ESPIN HEIRA F IL HO, 1 9 9 8, p. 14 9 ) . Viv er o a ma nhã é a rri s ca r o des conheci do, enqua nto bus ca r o
ont em é t er a l gum t i po de cert eza, é t er a pos s i bi l i da de de refa zer, rev iv er; é t er a v i da ens a i ada .
3 CHUV A: CA TA RSE E ESPIRITUA LIZAÇÃO
O fenômeno da ca ta rs e foi des cri t o por Aris t ót el es como
uma des ca rga de emoções provoca da pel a a pres enta çã o de
um es petá cul o t rá gi co. A ca ta rs e a cont eceri a di a nt e de um
profundo s ent iment o de compa i xã o e t error, que a o fi m da ri a a
s ensa çã o de l i bert a çã o e pa z. A ca ta rs e es t á rel a ci ona da à
puri fi ca çã o i nt erna .
Como l i bera ção de exces sos , a chuv a s eri a a concret i za çã o de uma ca ta rs e, a qua l corrobora a i magem de s er a chuv a o choro da na t ureza : “enqua nto a chuva / chora no ros to
dos muros ” ( ESPINHEIRA F IL HO, 19 9 8, p. 30 4) . A chuva repres ent a o desa ba fo emoci ona l da N a tureza , e es t i mula o mesmo
comporta ment o nos s eres huma nos , ta nto a energi a do
“col oca r pa ra fora ” quant o a s ereni da de a l ca nça da a o fi m do
proces s o.
Água em s i é v i s ta como el ement o de purifi ca ção e de
rena s ciment o. Na Ás i a , el a é s í mbol o de regenera çã o corpora l
e es pi ri t ua l , pureza e v i rt ude. Todos ess es concei t os gi ra m em
t orno da purga çã o v ia ca ta rs e.
Em “O rost o na chuv a ”, percebemos um mov iment o ca tá rt i co do i ndiv í duo obs erv ado pel o “ros t o”: nas pri mei ra s es t rofes , el e s e mant ém dis t ant e da ima gem que o obs erv a , porém,
à medi da que a chuva corre e a l onga o poema , o i ndiv i duo é
l ev a do a aproxi ma r -s e dess a imagem a pont o de reconhecer -
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s e nel a . A ca ta rs e v em ent ã o do conheci ment o sobre s i mes mo e do moment o em que o i ndi v í duo s e des cobre frá gi l , i mperfe i t o.
N o poema “Memóri a da chuv a ” ( ESPINHEIRA F IL HO, 1 99 8,
p. 26 9 ) ocorre ess a des cobert a da própri a fra gi l i da de, fa zendo
a l usã o à i nt erferênci a di v i na no fenômeno pluv i a l . Em cla ra i nt ert ext ua l i dade com a hi s t ória bí bl i ca da Cri a ção, pa ra o
“meni no i ns one” do poema , a pres ença do div i no nã o foi s ufi ci ent e pa ra prot eger s eu “rei no submers o”: “Ta l v ez o Espí ri t o de
D eus pa i rass e / s obre a s nuv ens / mas nã o es t av a lá quando
v ei o a ma nhã / a as nuv ens s e es ga rça ram / e o a zul foi a l aga ndo / o céu”. Afl ora no poema o s ent i ment o de um s er impotente di a nt e do di v i no s er onipotente que nã o o a mpa rou na
defes a de s eu pequeno mundo de s onho.
A chuva i ncorpora va l ores de es pi ri t ua li za çã o, pois
“ca i ndo do céu, el a expri me um fav or dos deus es , es pi ri t ua l e
ma t eria l ” ( CHAVAL IER e GHEERB RAN T, 199 8, p. 235) . Essa i nfl uênci a cel es t e na Terra adqui re a res da ma nifes t a çã o da Gra ça
di v i na e do reconheci ment o de um Ser s obera no, a l ém de s imbol i za r t ambém a fecunda ção da t erra , num a t o promot or de
v i da. N o rela t o bí bl i co do di l úv i o, a a bundâ nci a de á gua t i nha
por obj et iv o l impa r a t erra da ma l da de: “a t erra est av a corrompi da di a nt e da fa ce de D eus ; e encheu -s e a t erra de v i ol ênci a ”.
( Gn 6 , 1 1 ) . Ou s eja , a chuva di l uv i a na é puri fi ca çã o. Um a t o puri fi ca dor que exi gi u a des t rui çã o de quas e a t ot a l i da de da v i da
da t erra .
Ai nda em “Memóri a da chuva ”, a o mesmo tempo em que
s i gni fi ca va a l egri a e bênção pa ra uns ― “E t odos / es tav am
fe l i zes ” ― a chuv a era ta mbém ras t ro de des t rui çã o: “Todos . /
Menos um: / a quel e, / o meni no i ns one, / que perdera s eu
rei no s ubmers o”.
[ . . . ] Mu i t a s v e z e s o s e n t i d o q u e d amo s à c h u v a s e
a p r o x i m a d o s s i g n i f i c a d o s q u e a A r c ád i a ( c o mo a mb i e n t e d e s e j a d o / im a g i n ad o ) t e m p a r a n ó s . S i g n i f i c a d o s
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e s t e s q u e p o d em s e r p a r ad o x a i s . O s c i l a m e n t r e a b e n e s s e d o p o d e r d i v i n o / c e l e s t e d a f e c u n d aç ã o d a t er r a
e a m a l d i ç ã o d o p o d e r d i v i n o / c e l e s t e d a t e mp e s t ad e/
d i l ú v i o / d e s t r u i ç ão . ( O L I V E I R A . 1 9 9 9 , p . 6 3 ) .
N a l i ngua gem ci nemat ográ fi ca , é recurs o frequent e a pres ença da chuv a i ndi ca ndo um det ermi na do es t a do i nt eri or do
pers onagem. Segundo Ma rcel Ma rt i n, “o cenári o ( a pa i s agem) é
es col hi do em funçã o da domi na nt e ps i col ógi ca da a cção, condi ci ona e refl ect e, a o mesmo t empo, o drama das pers ona gens ;
é a paisagem- estado de alma , apreci a da pel os româ nt icos ” ( MARTIN , 200 5. p. 79 ) . A chuva comument e i ndi ca confl i t o,
t ri s t eza ; ou s ej a , a l i a - s e a o cl i ma i mpul s i ona dor de ca ta rs e pres ent e nos fi l mes .
4 CHU VA: MEMÓ RIAS DE A MO R E DO R
“Tra zi as a chuva nos ca bel os ”. Ess a é a i ma gem l í ri ca
que abre a pa rt e III do poema “As s ombra s l umi nos as ” ( ESPINHEIRA F IL HO, 1 99 8, p. 1 17 - 120 ) . A v i s ão des sa i ma gem é um mi st o de s edução e na t ura l i da de que nos a t ra i a um
es t á gi o s uperi or de B el eza . É uma v is ão de s onho e gra ça , v i s ã o de um amor prós pero. Sem propria mente t oca r na pa l av ra
“a mor”, o poema t ra duz uma l embra nça de amor perdi do, compa ra ndo ess a fa l t a a um es ta do de mort e na v i da.
O poema é i ma gem l umi nos a , como nos pa rece s er o a mor, porém a o mesmo t empo “s ombra ” por s er a v oz de uma
l embra nça i ns epa ráv el do s uj ei t o, como uma proj eçã o de s i
mesmo que o i mpel e a uma condi ção l úgubre. A s epa ra çã o do
obj et o do a mor s e a fi gura dol orosa , i nfi ni t a: “Ent re nós uma
rua , um bos que / o i nfi ni t o”. A fa l ta do a mor s ó es t imul a s ua
exi s t ênci a . Uma exi s t ência tã o fort e que v a i a l ém de um obj et o
concret o rel a ci onáv el , e que s e sobrepõe à exi s t ênci a do s uj e i t o, t orna ndo - l he imposs ív el a v i da :
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Est a tarde
de súbito
na chuva
curvei-me sobre mim
sobre
o q u e ch a m av a a mo r e e i s q u e e r a
sua falta
e p o r i s s o me s mo a i n d a m a i s
amor
(...)
esta tarde
na chuva
curvei-me
sobre mim
e me matei.
(ESPINHEIRA FILHO, 1998, p. 168, 169 ).
A ta rde de chuv a é o cená ri o perfei t o pa ra s e t ra zer à
t ona as a ngús t ia s de a mores perdi dos . A chuva recorda s ens ua l i da de, toque des l i za nt e na pel e, aguçament o dos s ent i dos,
mi ra gens , i l usões v i s ua i s em mei o a o refl et i r múl t i pl o da s got as .
Chuv a é bá ls amo pa ra a t erra s eca e s edent a . Seri a também
ca pa z de cura r as feri das da a lma ? Símbol o a o mesmo t empo
de des t rui ção e de v i da , a chuva i ns pi ra no eu - l í ri co o úni co
remédi o pa ra a l i v ia r sua dor de amor: a mort e. Porém, s e a
chuva é um morrer das á gua s cel es t es na terra e t ra z nes sa
mort e a promoçã o de v i da , mort e s ob a chuv a a pont a pa ra um
rena s cer, um pos s ív el fl ores ci ment o.
5 CO NC LUSÃO ― A NO TA Ç ÕES DEPOIS DA CHU VA [3]
As ima gens de chuv a i ncorporadas à poes ia de Ruy Es pi nhei ra F i l ho condens am uma da s gra ndes t emá t i ca s do poeta :
as sensações ligadas à memória e às marcas que o tempo deixa em sua contínua passagem . O ret orno ao pas sa do é uma
forma de es cape à s i ncert ezas do fut uro, s enã o a úni ca forma
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pos s ív el de v i da . O ol ha r pa ra s i mes mo, proporci ona do por
es sa s ima gens pl uv i a is , rea fi rma o a ut oconheci ment o promov i do
pel a a rt e poét i ca e sua ca pa ci da de de refl et i r a cerca do t empo
com a prerroga t iva de s er a t empora l .
D e ga roas a di l úv i os , a chuv a em Es pi nhei ra F i l ho torna s e s í mbolo pa ra v á ri os s ent iment os huma nos . Es ta ndo ta mbém
a poes i a l i ga da à mani fes t a çã o de emoções, é i nev i t áv el que,
a l i a ndo- s e uma à out ra , chuv a e poes i a formem uma uni da de
expres s iv a que a t ra i o l ei t or, col oca ndo -o frent e a um el ement o de s ua v iv ênci a e que na t ura l ment e ca rrega i mport a nt e v al or s i mból i co e met a fóri co. Ou s ej a , s e o s ent i ment o é indi zí v el ,
el e pode t orna r- s e a o menos v is í v el na forma t ra ns l úci da das
got as de chuv a.
REFERÊNCIAS
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STAIGER, Emi l . Conceitos fundamentais da poética . Ri o de Ja nei ro: Tempo Univ ers i t á ri o, 1 99 3. 2. ed.
NOTAS
[1]
R o m a n J a ko b so n f o i a s s i m ch a m ad o p o r H a r o l d o d e C amp o s e m
“ P o e t a d a L i n g u í s t i c a ” , a r t i g o i n c l u so e m : J A K O B S ON , R o m an . L i n g u i s t i c a .
P o e t i c a . C i n em a . S ã o P a u l o : P e r sp e c t i v a , 1 9 7 0 .
[2]
P o em a c o mp l e t o a n e x o .
[3]
P o em a q u e r e su me mu i t o s d o s v a l o r e s s i mb ó l i c o s a t r i b u í d o s à c h u v a
n e s t e a r t i g o e q u e s e e n co n t r a e m an e x o .
Recebi do em 17 /4 /20 12.
Aprov a do em 6 /9/20 1 2.
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ANEXOS
O ROSTO NA CHUVA
E s s e r o s to n a ch u v a
te olha
É uma chuva longa, uma
d e mu i t o s a n o s e v i a g en s
correndo por esse rosto.
D en s a c o m o s an g u e , c h o v e .
N o r o s t o , o u tr o s r o s t o s
cintilam,
g o t a s e s p ar s a s
A s s i m c a s a s , c i d a d e s , n o me s ,
animais,
m a r é s d o p e i t o a b i s mo .
E s s e r o s to n a ch u v a
te reflete
com o que a vinda,
vida,
t e d o o u a à s v ez e s i n s c r ev eu
t ã o f u n d o q u e l á n ão d e s ce s .
E s s e r o s to
na chuva que circula
em tuas veias
t e p u n g e co m m i l i r r e s g a t á v e i s
e
áspero cresce
s o b a p e l e s u av e d o t eu r o s to .
A N O T A Ç Õ E S D EP O I S D A C H U V A
1.
À noite
choveu muito. Agora é
esta garoa
c o mo a q u e en v o l v e u o c a r o s s e l
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o n d e g i r a mo s u m a v ez
e e n q u a n to
s o n h a r e s t a v e r t i g em
em mim.
2.
A c h u v a , n u m c e r to i n s t a n t e , b a t e u m a i s f o r t e
nas telhas
e e n t ã o p e r d i m eu p a i ,
c o m q u em b e b i a e c o n v e r s a v a
n u m a v a r an d a .
Havia
u m r i o e u m s e n t i m en to
de luar.
3,
F i q u e i a c o r d a d o mu i t o t em p o .
J á n ão s o n h av a . O u t a l v e z en t ão
sonhasse.
U m a m u lh e r
R e sp l a n d e c eu
c o mo s e n a d a h o u v e s s e
acontecido.
A chuva agora
s u s s u r r av a
e m m eu s o u v i d o s ,
respirava
e m m eu h á l i t o ,
ressoava
n o co r a ç ão .
E assim,
repleto,
c o mo h á t r i n t a a n o s ,
a d o r me c i .
4.
(Mas na outra noite,
aquela,
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o s o u v i d o s n ão
queriam ouvir ;
o hálito,
um fr io rouco;
nada
e c o av a
n o co i c e d o
c o r a ç ão .
Na outra noite,
a antiga,
a lua
desabou
n u m s i l ê n c i o e s cu r o .
E r a h e d i o n d o v a d e a r s e u c ad á v er v i s c o so .
N em s e i c o mo
a m a n h ec i . )
5.
E agora é esta garoa. As folhas
cintilam
a o v en t o . A t e r r a c h e i r a c o mo u m c o r p o
j o v em , s e m e l h an t e
a o s d eu s e s . T a l v e z eu s e j a
feliz.
J
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ISSN 2236-3335
O FI O DO MI ST ÉRI O NO CON TO “TE IA DE
ARANHA” DE MI GUE L TO R GA [ 1 ]
Adilson Silva de Jesus
Licenc iatura e m Le tras Ve rnáculas
ultrac onse [email protected]
Adriana Souza Santana
Licenc iatura e m Le tras Ve rnáculas
[email protected]
Res umo : Mi guel Torga é um es cri t or português , nas ci do em San
Ma rt i nho de Ant a , Vi l a Rea l . Apres enta uma obra v as ta , repl et a
de s i mbol ogi a bíbl i ca e l i ga da à s ua t erra nat a l . A cri a çã o l i t erá ri a de Torga des t a ca -s e pel o cont eúdo de uma l i t era t ura fei t a de huma ni smo. Es crev eu poes ia s , romances , peça s , ens a i os
e cont os. O pres ent e a rt i go bus ca a pres enta r a l guns a s pect os
da obra de Torga a t rav és da a ná l i s e do conto “Tei a de a ra nha ”
e de ref erênci a s bi bl i ográ fi cas que a na l is am a obra do a utor.
Pa l av ras- Cha v e:Cri a çã o l i t erá ri a. Huma nis mo. Si mbol ogi a .
Abs t ra ct : The purpos e of t hi s pa per i s t o ana l yze s ome l exi a s
t ha t bel ong t o the pha rma cologi ca l voca bula ry pres ent i n t he
a dv ert i s ement s s ect i on of t he newspa per j orna l ‘F ol ha do
N ort e’ i n t he 1 940s , as wel l a s pres ent i ng the l a nguage a s a
l i v i ng uni t , whi ch i s under t he i nfl uence t o l exi ca l i nnova t i ons a l l
t he t i me, bes i des ma ki ng a s ys t ema t i c s urvey of t he l exi con
whi ch i s pa rt of t he rea l i t y of t he medi ci ne a nd pa t hol ogy i n
t he a forement i oned news pa per, checki ng i t s us e i n t he epoch.
K eywords: L exi con. Pha rma cologi ca l vocabul a ry. N ews paper
‘ F ol ha do N ort e’ . D ecade of t he 1 940 .
1 INTRO DU ÇÃO
O es cri t or Mi guel Torga nas ceu em San Ma rt inho da Anta ,
Vi l a Rea l , Port uga l . Tem uma obra l i t erá ri a des t a ca da pel a s i m-
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bol ogi a bí bl i ca rel a ci ona da à própria t erra na ta l , na qua l a cri açã o fundamenta -s e no huma nis mo, ev i dent e em roma nces , peça s , ens a i os e cont os .
Ci d Sei xa s ( 19 9 5) des t a ca o equi l í bri o cons egui do ent re a
di mensã o i ndiv i dua l , ps i col ógi ca de ca da pers onagem de Torga
e a di mens ã o s oci a l . Enfa t i za , t ambém, que Mi guel Torga nã o
foi a pena s a utor de ret ra t os dens os e ps icol ogi ca ment e bem
foca dos de homens e mul heres . Pa ra el e, Torga nã o des ca rnou
s eus pers ona gens do cont ext o s oci a l . El e enfrent ou o probl ema , mas nã o s e l i mi t ou a o fi guri no da moda a t rav és do poder
de s ua na rra t i va , ca pa z de cri a r univ erso fi cci ona l que, mesmo
s em exi gi r do l ei t or nã o pol i t i za do o enga ja mento i nt el ect ua l ,
obri ga o l ei t or a s e compromet er com o dest i no dos pers onagens de s uas hi st óri as .
Iza bel Va z Ponce de L eã o ( 20 07 ) , no l iv ro O essencial
sobre Miguel Torga , enumera a l guns as pect os s obre a obra de
Mi guel Torga . A a utora fa z uma refl exão sobre o corpus const i t uí do por Contos da Montanha ( 1 94 1 ) e Novos Contos da Montanha ( 1 944 ) . Pa ra t a nt o, des t a ca a homogenei da de da obra,
ci t a ndo a l oca l i za çã o es pa ço - t empora l e o grupo soci a l que
prot a goni za os contos . N o que di z res pei t o à s pers ona gens ,
ref l et e s obre o i nt ri nca ment o das rel a ções huma nas que sã o
recorrent es nos confl i t os , sobret udo ent re o i ndiv í duo e a col et i v i da de.
N ess a pers pect i va refl exi v a, o pres ent e a rt igo bus ca a pres ent a r a l guns as pect os da obra de Mi guel Torga a t rav és da
a ná l is e do conto “Tei a de a ra nha ” e de referênci a s bi bl i ográ fi ca s que a na l i s am a obra do a ut or.
2 O C O N T O “ TE I A DE A RA N H A ”
O cont o “Tei a de Ara nha ”
da mont a nha , de Mi guel Torga
t ora N ova F ront ei ra , no Ri o de
ques t ão s ã o a pres enta dos doi s
pert ence a o l iv ro N ov os cont os
( 1 907 –19 9 5) , publ i ca do pel a edi J a nei ro, em 19 96 . N o cont o em
pers ona gens : Art ur e o t i o. Ar-
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t ur é des cri t o como um ra paz t ra ba l ha dor, zel os o, bom s obri nho e homem hones t o aos ol hos da a l dei a, l i v re, porta nt o, de
qua l quer sus pei ta . N o s egundo pa rágra fo do cont o, o aut or i roni ca ment e des t a ca s ua ca ra ct erí s t i ca de t raba l hador, o ra pa z
l ev a nta um muro no La mei ro da Ri bei ra . A pa rt i r da í , o t i o des a pa rece de repent e, como um encant o, sem dei xa r ras t ros .
Os mora dores s ó percebem s eu sumi ço no di a s egui nt e, pert o
da hora do a l moço. Ini ci a - s e, porta nt o, o mi s t éri o no cont o. O
t i o nã o t i nha ami gos , ma s t ambém não t i nha i ni mi gos que pudes s em j us t i fi ca r s eu s umi ço, di fi cul t ando ent ã o a pos s i bi l i da de
de encont ra r um s us pei t o, ma s l ogo a s egui r o na rrador a pres ent a uma i nforma çã o importa nt e: O t i o col ocou o que t i nha , no
ca s o, s eus bens, no nome do s obri nho.
O mi s t éri o perma nece no decorrer da na rra t iv a e sã o des enca dea das vá ri a s s us pei t as e i nv es t i ga ções . Todos bus cam
es cl a recer o s umi ço e deci fra r o eni gma . Art ur era um homem
honra do no concei t o da a l deia , bom cri s tã o, dedi ca do à fa mí l i a
e pa ra s a lv a r a a lma do t i o ma ndou reza r v int e mi ss as em São
Cri s t ov ão: “[ . . . ] O padre Maurí ci o reconheceu que a pi eda de do
Art ur roça ra pel o exa gero [ . . . ] ” ( TORGA, 1 99 6, p. 1 9 5) . Percebe s e, por mei o de a l gumas express ões, cert a ironi a por pa rt e do
na rra dor, “[ . . . ] e no amor dev ota do do s obri nho, que a memóri a
do B ent o Ca ni ço des bot ou [ . . . ] ” ( TORGA, p. 1 9 5) , pa rece que
pa ra fugi r de s us pei ta s, o s obri nho t oma a l gumas at i t udes pa ra
demons t ra r “amor” pel o t i o e t ambém s ua a ut ocons ci ênci a o
condena .
Out ras mort es a cont ecem, dent re el as , a do Pa dre Ma urí ci o, “[ . . . ] Chega ra t ambém no céu a s ua v ez. E da t ercei ra i ndi ges t ã o do ano, rebent ou. Venceu a dos pepi nos e dos pi ment ões , ma s na dos mel ões o fí ga do nã o pôde ma i s. ” ( TORGA,
1 9 96 , p. 1 96 ) . A mort e do Pa dre pa rece t er s i do premedi ta da ,
porém o cont o não expl i ci t a , mas é percept ív el que foi col ocado a l go na comi da do pa dre.
O pa dre é des cri t o a ss im: “Era um homem bona chei rã o e
a bert o, da boca de que sa i am, de v ez em qua ndo, confi dênci as
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i ndi s cret as que cri ava m pâ ni co no pequeno mundo de s i l ênci o
que pa s t oreav a [ . . . ] ” ( TORGA, 19 96 , p. 1 96 ) . O as sa ss i no prov av el ment e com medo de s er des cobert o, e sa bendo que o pa dre des confi av a de a l guns comportament os es t ranhos s eus,
t ra t ou l ogo de env enená - l o.
Apesa r de l ent o, o t empo va i ba t endo na port a de t odos
em Sã o Cri s tov ã o, ou s ej a, o t empo pa ssa , chega entã o a hora
de Art ur, el e a i nda es tav a lúci do e pa ra se prepa ra r pa ra a
v i a gem, a mort e, como “bom cri s tã o” s e confes sa com o pa dre
L oba t o, o padre deu - l he a bsol v i çã o e ungi u -o.
N o úl t imo pa rá gra fo, o des fecho do cont o é rea l i za do a t ra v és de uma i nt ert ext ua l i da de com a his t óri a do di l úv i o, cont a da na bí bl i a sa grada . O di l úv i o foi env i ado pa ra a ca ba r com
a s i nj us t i ças , com o peca do que es tav a dema is na t erra , s oment e quem est ava na a rca s e sa l v ou. A a rca é o s í mbol o da
pres ença de D eus , D eus é cont ra o pecado e o rev el a . A chuv a v ei o e encheu as águas da Ri bei ra , a corrent eza l ev ou o
muro e mos t rou s ob o a l i cerce o esquel et o bra nco do t i o, que
o s obri nho ent errou na noi t e do cri me. Pa ra que na da fi cas s e
encobert o, D eus des cobri u o ma l fei t o “[ . . . ] o própri o cri a dor,
s e l he qui s des cobri r a s ma l has ca í da s, [ . . . ]” ( TORGA, 199 6 , p.
1 97 ) .
3 A CIDA DE DE SÃ O CRISTÓV Ã O
N o primei ro pa rá gra fo do cont o, o na rra dor a pres enta a
des cri çã o do l uga r onde a cont ece a hi s t ória, a ci da de de Sã o
Cri s t óv ão. Essa ci da de s e encont ra l onge da ci v i l i za çã o e das
a gi t a ções da ci da de grande, é uma ci dade humi l de, pequena ,
pa ra da , em que o t empo anda dev aga r, o cont rá ri o das ci dades gra ndes , em que o t empo é pouco, di a nte de t a nt as coi sa s
que a moderni da de l eva as pes s oas a fazerem.
Cri s t ov ão s i gni fi ca “a quel e que ca rrega Cri s to” [ 2 ] . El e é o
s a nto pa t rono dos v i a ja nt es e é i nvoca do por t odos ant es de
fa zer uma j orna da . D i z a l enda que Sã o Cri st ovã o era um ho-
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mem com mui t a força e que depois da queda da pont e de um
ri o começou a a t rav es sa r as pes soas de uma ma rgem pa ra
out ra em s eu ombro, a t é que um di a um meni no pedi u pa ra a t ra v es sá - lo, a os poucos o ga rot o foi fi ca ndo ca da v ez ma i s
pes a do e o s ant o s e es forçav a a o má xi mo pa ra sa l va r o meni no. Sã o Cris t ov ão di s s e que pa reci a que el e es t av a ca rrega ndo o mundo! E a cri a nça res pondeu: “v ocê ca rrega o cri ador
do mundo nos ombros ! O meni no era J es us ! ” [ 3 ] .
Ass i m como o sa nt o, a ci da de de Sã o Cri s tovã o ca rrega
em s ua t erra os homens com s eus pecados, e Art ur é um de
s eus mora dores , el e l ev a na s cos ta s s eus própri os pecados ,
ca usa do por suas ambi ções . O cont o mos tra a t rav ess i a de
um homem que pa ra chega r onde quer, v ive uma v i da de ga nâ nci a , s em amor, ca paz de ma ta r o t i o pa ra obt er bens . Obs erva -s e, t ambém, um cont ra s t e, pois , de a cordo com a t radi çã o, quem ol ha r a i ma gem de Sã o Cri s tov ã o pas sa o dia s em
qua l quer da no, j á na Ci dade de Sã o Cri s t ovã o a cont ecem vá ri a s t ragédi as , dent re el as a t ragédi a que o cont o “Tei a de Ara nha ” t ra z.
4 O TÍTU LO “TEIA DE A RA NHA”
A a ra nha s e dedi ca à fi a ção e à t ecel agem. O s i gni fi ca do
de s ua t ei a es tá s uj ei t o a i númeras i nt erpreta ções , dent re el as ,
repres ent a a fra gi l i da de de uma rea l i da de de a pa rênci as e enga na ções . N es sa na rra t iva , a t ei a da a ra nha, por s er frá gi l , pode s i gni fi ca r t ambém a derrota de Art ur, ser morta l . O D eus
t ece a rea l i da de, El e é, porta nt o, o Senhor do des t i no do homem com os dra ma s da v i da t erres t re.
A t ei a de a ranha é encont ra da em l uga res a ba ndona dos ,
s em us o e es queci do. Si gni fi ca t ambém a compl exi da de dos
fa t os da na rra t iv a , el es vã o s e ent rel a ça ndo como a t ei a . N a
a l dei a tudo é l ent o, as hora s demoram de pa ss a r, as s im como
é a t ei a da a ra nha , que demora de s er cons truí da .
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O t í t ul o do conto é i nt eres sa nt e, es sa a l dei a l onge da ci v i l i za çã o, nã o t i nha pess oas prepa ra da s pa ra desv enda r as
mort es, ent ão, o corpo fi cou a nos e anos ent erra do, e o crimi nos o pa ss ou s ua v i da i nt ei ra l iv re, s em pa ga r pel o cri me comet i do, pa ss ou a v i da i mpune.
Cheva l i er e Gheerbra nt ( 1 9 99 , p. 72) , a present a m que o
s i mbol is mo do fi o é ess enci a lment e o agent e que l i ga todos os
es t a dos da exi st ênci a ent re s i , e a o s eu pri ncí pi o; l i ga es t e
mundo e o out ro mundo e t odos os s eres , a fi m de a l ca nça r
uma l i ga çã o com o cent ro pri nci pa l . A repres ent a çã o do fi o
t a mbém evoca a o s i mbol i s mo do fi o de Ari a dne, que é o a gent e de l i ga çã o do ret orno à l uz. O des enrola mento do fi o, no
cont o, é rea l i za do a t rav és do t empo, vá ri os fa t os s ão l i ga dos e
o mi s t éri o va i s endo desv enda do.
4 IMA GENS TRÁGICAS NA O BRA DE TO RGA
Todo s í mbol o é port ador de um s ent i do e o text o a na l i s ado a pres enta di v ers as i ma gens, à s qua i s podem s er a t ri buí dos
v á ri os s i gni fi ca dos , a umenta ndo as poss i bi l i dades de i nt erpret ações do conto, t orna ndo - o ma is ri co.
O s i mbol is mo da mont a nha , as soci a ndo a os contos de
Torga pode repres ent a r, dent re out ras , a a l t ura , el a é a l ta ,
v ert i ca l , el eva da , um l uga r ma i s próxi mo a o céu. Vi s t a de ba ixo, do hori zont e, pode repres enta r uma es ca da , a i ncl i na ção a
s e es ca l a r, s endo um mei o de ent ra r em rela çã o com a di v i nda de.
A mort e é um t ema que preva l ece nos contos de Torga ,
em mui t os cont os do l iv ro Novos contos da montanha , a s mort es na a l dei a sã o a nunci adas com o ba t er do s i no. A s i mbol ogi a do s i no es t á l i ga da à percepçã o do s om, a mort e do B ent o
Ca ni ço nã o foi a nunci ada pel o s i no, ta lv ez t enha s i do pel o mi st éri o, o s umi ço do t i o nã o queri a di zer que el e morreu, a comprova çã o de s ua mort e só foi confi rmada no fi na l do cont o.
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Ao l er out ros cont os do a ut or, percebe -se que mui t as
mort es sã o a nunci a da s pel o t oca r do s i no. O som do s i no repercut e o poder do div i no. Ao expa ndi r es se s om, os homens
fa zem uma refl exã o e percebem s uas l i mi t a ções , s ua condi çã o
a qui na t erra , de que es t amos s ó por um t empo e que a mort e
v em pa ra t odos . Simbol i za também o poder do di v i no pa ra obedecermos à s ua l ei , poi s os homens , dev i do a suas ambi ções,
comet em v á ri os peca dos . O s i no evoca a pos i çã o de t udo o
que es tá s us penso ent re o céu e a t erra , es t a bel ecendo uma
comuni ca çã o ent re os dois , mos t ra ndo a pos i çã o de D eus s uperi or a dos homens .
Os cont os de Mi guel Torga apres enta m um a pego a o
ca mpo e envol v em homens e a nima is , nes s e é encont ra da
t a mbém a pres ença de ani ma i s , “[ . . . ] Vi ram - no à noi t i nha i r busca r a j ument a [ . . . ] ”, “[ . . . ] nem pas sos s us pei t os , nem uiv o de
cã o, nem pi o de coruj a . Na da . Ao ca nt a r do ga l o, qua ndo a a ldei a a cordou [ . . . ] ” ( TORGA, 19 96 , p. 1 93 - 194 ) . Os t rês pri mei ros
a ni ma i s e s uas a ções repres entam ima gens trá gi cas e mi st eri os as e o ca nt o do ga l o é usa do pa ra ma rca r que um nov o di a
começa .
Pa ra Chev a l i er e Gheerbra nt n ( 19 99 , p. 293) , “Ai nda em
nos sos dia s a coruj a é a di v inda de da morte e a gua rdiã dos
cemi t éri os ”. A pres ença dess es s ímbol os repres ent a a rel i gi os ida de mos t ra ndo a condi çã o do homem em rel a çã o a D eus . Art ur, a o v er que est á pert o de morrer, cha ma o pa dre pa ra s e
confes s a r e “s a lva r” s ua a l ma , poi s s uas a t i t udes dura nt e a
v i da que l evou o condenam.
4 A INTERTEXTUA LIDA DE NOS CO NTO S DE TO RGA
A t emá t i ca da obra de Torga é mui t o va ri a da. Um dos recurs os ut i l i zados pel o a ut or pa ra cri a r a a tmos fera de sus pens e e mis t éri o que env olv e a ma i oria de s eus cont os é a descri çã o a pura da do l uga r e dos pers onagens , por i s so é i mport a nt e que o l ei t or a t ent e a os múl t i pl os deta l hes .
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N o cont o “Tei a de a ra nha ”, Torga ut i l i za esse recurs o no
i ní ci o do t ext o pa ra ca ra ct eri za r a pas sa gem do t empo e a ci da de: “O t empo em Sã o Cri s t óvã o a nda devaga r. As t erras s ão
ca s ca l ho puro. . . Um a no, a l i , sã o t rezent os e s ess enta e ci nco
di a s bem medi dos . ” ( TORGA, 199 6 , p. 19 3) . Percebe - s e nes t e e
em out ros cont os , o ret ra t o do pov o das ci da des pequenas ,
l onge das a gi ta ções da ci da de gra nde.
A noi t e em que o pers ona gem B ento Ca ni ço s ome é descri t a da s egui nt e ma nei ra : “[ . . . ] Ess a noi t e, embora foss e de
Agos to, foi es cura e compri da [ . . . ] E nel a nem s e ouv i ram gemi dos, nem pas sos s uspei t os , nem uiv o de cã o, nem pi o de
coruj a . ” ( TORGA, 199 6 , p. 194 ) . A ut i l i za çã o des s e recurs o pel o
a ut or demonst ra a i nt enci ona l i da de em cons trui r uma na rra t iv a
que provoque uma fort e t ensã o no l ei t or.
A mi núcia encont rada nos contos de Mi guel Torga , especi a l ment e em “Tei a de Ara nha ”, nos remet e a os cont os da escri t ora L ygia F a gundes Tel l es . N o cont o “Venha v er o pôr - dos ol ”, L ygia F a gundes Tel l es , as s im como Mi guel Torga , recorre
a o recurs o da des cri ção pa ra compor um cená ri o de s us pens e.
N o conto em ques tã o, a a ut ora na rra a hi st óri a de doi s
ex- namora dos , Ri ca rdo e Ra quel , que ma rca m um úl t imo encont ro em um cemi t éri o a bandona do. O ra pa z tent a pa recer a t enci os o, ma s ela o t ra ta com es pert eza . Conduzi da por Ri ca rdo,
Ra quel fa z um pa ss ei o pel o cemi t éri o a t é encont ra r uma ca pel i nha , onde es ta ri a o j azi go da famí l i a do rapa z. Seduzi da pel a
a t mos fera , é l eva da pa ra um ca l abouço, onde é t ra nca fia da por
Ri ca rdo e a bandona da à mort e. No decorrer des sa na rra t iva ,
not am-s e el ement os des cri t iv os res ponsáv ei s pel o s uspens e. O
l oca l onde a hi s tóri a a cont ece j á é ma rca do pel o i dea l de s uspens e mi s t éri o: “[ . . . ] ma t o i nfi l t ra va - s e áv i do pel os ra chões dos
má rmores [ . .. ] ” ( TELLES, 200 2, p. 28) ; o pá ss a ro que a pa rece
como um s i na l : “Um páss a ro rompeu o ci pres t e e s ol t ou um
gri t o. ” ( TELL ES, 20 02, p. 31 ) ; e a des cri çã o fí s i ca dos pers ona gens i ndi cando uma apa rênci a ca rrega da : “[ . .. ] Es tav a s éri o, os
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ol hos dimi nuí dos . Em redor del es , rea pa recera m a s rugazi nhas
a bert as em l eque. ” ( TELL ES, 200 2, p. 34 ) . Ta l s emel hança a pont a pa ra as es peci fi ci da des do gênero cont o. Como a na rrat i v a é ma is condensa da , é necess á ri o que o a utor expl ore os
det a l hes a pa rent ement e s i mpl es e des pret ensi os os .
Ta l as pect o t ambém é percebi do em out ros cont os do a ut or, como por exempl o, no cont o “Cava qui nho”, em que Torga
t a mbém s e ut i l i za da des cri çã o pa ra cri a r a s ensa çã o de suspens e qua ndo a mulher demons t ra preocupaçã o com a demora
do es pos o que fora à v i l a . Trechos como “O nev oei ro [ . . . ] des cera a gora es pess o e mol ha do s ob o pov o.” ( TORGA, 20 1 1 , p.
4 3) e “[ . . . ] o v ent o, que pa reci a o di a bo [ . . . ]” ( TORGA, 20 1 1, p.
4 1 ) t ra nsmi t em a i deia de um a cont eci mento ines pera do, de um
fa t o t errí v el que s e anunci a .
A rel i gi os i da de é t ambém t ema pres ent e nos cont os de
Mi guel Torga , prov a di ss o é que nos cont os “Tei a de a ranha ” e
“A fes t a ”, a rel i gi ã o e a s upers t i ção, o s a gra do e o profa no
pa recem i nt era gi r. D es ta camos a qui o cont o “Tei a de a ranha ”,
que t ra z a importâ nci a da rel i gi ão pa ra a a l dei a , o pa dre como
o i nt erl ocut or ent re D eus e o homem, o medi a dor, o condut or
do homem a t é D eus : “[ . . . ] E, qua ndo v eri fi cou que de ma nei ra
nenhuma podi a va l er a o corpo do t i o, t entou a o menos sa lv a r l he a a l ma [ . . . ] . Vi nt e mis sa s em S. Cri s tóv ão [ . . . ] . ” ( TORGA,
1 9 96 , p. 1 9 5) ; da ext rema unçã o “[ . .. ] foi preci s o entã o prepa rá l o pa ra a v i agem com a ext rema - unção. ” ( TORGA, 1 99 6 , p. 1 97 ) .
O profa no es tá repres enta do no s upos t o env enena mento do
pa dre Maurí ci o e pel o fa t o de B ent o Ca ni ço ter s i do a ssa ss i nado pel o s eu s obri nho “[ . . . ] Honrado homem no concei t o da a ldei a , bom cri s t ão nos a na i s da i grej a , dedi ca do à fa míl i a . ” ( TORGA, 1 99 6, p. 19 5) .
5 CO NSIDERA ÇÕES FINA IS
At rav és da a ná l i s e do cont o “Tei a de a ra nha ” obs ervou s e que Torga a pres enta uma na rrat i va dramá t i ca , pers is t i ndo o
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mi s t éri o e o s uspens e no decorrer do conto, a mort e é el ement o pres ent e na ma i oria , s enã o em t odos os s eus contos . O
a ut or t raz em s eus contos a t ra gédia de gent e como nós ,
most ra ndo as l imi t a ções da condi ção humana . A v i da pa ssa , e
o des t i no que t odos t emos em comum é a mort e, es tamos
condena dos e nã o podemos fugi r del a .
O cont o a na l i s ado apres enta uma gra nde div ers i da de de
s í mbol os que o enri quece, pois o t orna ca da v ez ma i s s ubj et iv o, a umenta ndo a s pos s i bi l i dades de i nt erpret a ções . Os fat os
v ão s e l i ga ndo ent re s i como um fi o, e o mi s t éri o v a i s endo
des v enda do.
N a prá t i ca, a obra de Torga é um conv i t e pa ra um pa ss ei o por um univ ers o l i t erá ri o agrá ri o, rel i gi os o, dramá t i co e a o
mesmo t empo poét i co, repl et o de s i mbol ogi as que conv i dam o
l ei t or a deci frá - l as .
REFERÊNCIAS
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N ota s
[1]
Art i go a pres ent ado, i ni ci a lment e, como ava l ia çã o fi na l da dis ci pl i na L i t era t ura Port uguesa III, na UEF S.
[2]
F ra gment o ret i ra do do s i t e “Ca dê meu Sa nt o”.
[3]
Ibi dem.
Recebi do em 22/4 /20 1 2.
Aprov a do em 23/8/20 12.
J
Graduando, Feira de Santana, v. 3, n. 4, p. 55-65, jan./jun. 2012
ISSN 2236-3335
SÁTIRA VICENTINA: SEÇÃO ANTICLERICAL
Bárbara Daiana da Anunciação Nascime nto
Licenc iatura e m Le tras c om Inglê s
[email protected] om
Res umo : Em s uas obras sa t í ri cas , porém chei a s de l i çã o de
mora l , Gi l Vi cent e a prov ei t ou -s e do s eu prest í gi o na cort e pa ra
a pres enta r peça s que ri di cul a ri za vam os há bi t os da nobreza e
do cl e ro. É vá l i do res sa l t a r que o a ut or era ca t ól i co, a ss i m como a ma i ori a da s pes soas que v i v iam em Port uga l dura nt e o
s écul o XVI. N o ent a nto, o que Gi l Vi cent e queri a era propor,
pri nci pa l ment e, o res ta bel eci ment o da rel i gi ã o e do cumpri mento
da s s uas norma s , uma v ez que naquel e moment o a Igrej a pas s ava por uma “deca dência ”. L ogo, em s eus t ra ba l hos el e nã o
cri t i ca a i ns t i tui çã o, dogmas ou hi era rqui as da rel i gi ã o, mas s i m,
a quel es que as corrompia m por também a credi t a r no ca t ol i ci smo.
Pa l av ras –chav e: Sá t i ra s oci a l . Cl ero. Obra v i cent i na .
Abs t ra ct : In hi s sa t i ri ca l works , but ful l of mora l l es son, Gi l
Vi cent e t ook a dva nta ge of hi s reput at i on i n court t o pres ent
pl a ys t ha t ri di cul ed t he ha bi ts of t he nobi l i t y a nd cl ergy. It i s
wort h not i ng t ha t the aut hor wa s Ca t hol i c, l i ke mos t peopl e
who l iv ed i n Port uga l duri ng t he s ixt eent h cent ury. Howev er
what Gi l Vi cent e wa nt ed wa s ma i nl y propos e t he res t ora t i on of
rel i gi on a nd of compl i a nce wi t h i t s s ta nda rds , s i nce t ha t t ime
t he church wa s goi ng t hrough a "deca y". Thus , i n hi s works he
cri t i ci zes t he i ns t i t ut i on, dogma or hi era rchi es of rel i gi on,
beca us e he a ls o bel i ev ed i n Ca t hol i ci sm, but ra t her, t hos e who
corrupt ed.
K eywords: Socia l sa t i re. Cl ergy. Gi l Vi cent e’ s work.
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1 INTRO DU ÇÃO
Gi l Vi cent e, pers ona l i da de ma rca nt e dent ro da l i t era t ura
l us i t a na , dra ma t urgo, poeta e es cri t or, cri ou pers onagens que
era m v ersões cômi cas da s oci eda de burgues a da época , pa ra,
des sa forma , exercer uma crí t i ca i ndi ret a . Dent re os vá ri os t i pos res sa l t a dos e ava l i a dos dent ro da obra Vi cent i na , des ta ca s e a qui o t ra tament o da do a o cl ero e a os s eus repres enta nt es .
Os pers ona gens , que eram dot ados de comporta ment os
própri os e de s emel ha nça s fort es com a rea l i da de e com a s
pes s oa s que cos t umavam ass i s t i r a s peças v i cent i nas , s ã o
cha ma dos de t i pos . Es t es s erv i am pa ra repreender a s oci eda de
fa l s a mora l i s ta da a l ta cl a ss e portuguesa .
O i nt ui t o de cens ura r, ou mel hor, ri di cul a ri zar, era a l cança do com l ouvor em mui t as v ezes, o que gera va probl ema s a
Gi l Vi cent e. N o enta nt o, gerava ta mbém a aut ocrí t i ca nos espect a dores e a recri mi na çã o de cert os comport ament os, pri nci pa l ment e, o comportament o dos fra des da época . Ins i st i ndo em
foca r os cl éri gos, a obra v i cent i na é es t rutura da com a crí t i ca
a o cl ero e a os s eus repres enta nt es des v i rtua dos, ga nanci os os
e munda nos .
2 DESENV O LVIMENTO
Sa be- s e que o t ea t ro v i cent i no t ev e s ua origem e es t rut ura eri gi da s dura nt e o fi m da Idade Médi a, época do t ea t ro
rel i gi os o em que s e fa zi am repres ent a ções do Na t a l , da Pá scoa , ent re out ras , com pequenas fa rs as s obre hi s t óri a s de cl éri gos e frei ra s , a l ém de a ut os dura nt e a proci s sã o de Corpus
Chri s t i .
Mei o a ess as t ra di ções , Gi l Vi cent e começa a des pont a r e
fi ca r fa mos o na cort e port ugues a , s endo cons i dera do o cria dor
do t ea t ro de port uguês . D ei xou qua renta e qua t ro obra s que
fora m reorgani za da s, mas a t é hoj e es sa reorga ni za çã o gera
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pol êmi ca porque nã o s e conhece uma v ers ã o a bs ol uta ment e
confi á v el a res pei to dess a s i t ua ção. Sobre a s epa ra çã o das
obra s, encont ra - s e a s egui nt e orga ni za çã o, t ra zi da em mui t os
l i v ros di dá t i cos , s i t es e out ros mei os : Aut os pas t ori s , que sã o
di á l ogos cômi cos de pa s t ores , os qua s i s ão fi gura s bí bl i ca s ;
Aut os de mora l i da de, os qua i s podem s er subdi v i di dos em obra s que fa l am de Cris t o e obra s que dão ens i nament os rel i gi os os ou mora l ; e a úl t ima di v is ão: a fa rs a, que é uma peça cômi ca de um só a t o, com enredo curt o e pouca s pers ona gens,
ext ra í das do cot i di a no.
Segundo Ant ôni o Sa ra i va em História da L iteratura Portuguesa ( 200 1 ) , o t i po obs erv ado que Gi l Vi cent e ma i s i ns i s t i u em
s a t i ri za r foi o cl éri go, e pri nci pa lment e o fra de. Ess e t ema é
forma do por uma cl as s e numerosa e ba s ta nte pres ent e na s oci eda de port ugues a . Acont eci a que mui t os del es s egui am a
ca rrei ra ecl es i á s t i ca s em v oca çã o, pel a neces s i dade ou pel a
v onta de dos pa i s . Era um mei o de s e l iv ra rem das obri ga ções
mi l i t a res e t erem a v i da as s egura da , poi s os conv ent os pos s uía m os s eus própri os bens ma t eri a i s .
Ai nda de a cordo com Sa ra iva ( 200 1 ) , Gi l Vi cent e cens ura
em s ua s obras a des conformi da de ent re os i dea i s e os a tos
dos frades , poi s a o i nv és de v i v erem com pobreza , uma v i da
de humi l da de e de ora çã o, bus cav am, a nt es , os pra zeres da
v i da, bl as femava m, t i nham mul heres e fi l hos , era m espa da chi ns,
a mbi ci onav am honra s e ca rgos , s us pi rav am cont i nuament e por
bi s pados , e bebi am.
Apesa r de s erem fei t as por um a ut or ca t ól ico, as obras
v i cent i nas a ta cavam com força o s eu a l vo pref eri do, o cl ero; o
que nã o quer di zer que Gi l Vi cent e es t iv esse cri t i ca ndo a rel i gi ã o, a i ns t i t ui çã o de um modo gera l , ma s si m, que el e queri a
recr i mi na r a quel es que nã o s egui am as norma s e det urpa vam o
v erdadei ro s ent i do do cat ol i ci s mo.
D ua s da s mui t as obra s em que el e mos t ra o pa pel
“des confi gura do” do fra de na s oci eda de port uguesa s ão: Auto
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da Barca do Inferno ( peça na qua l a sá t i ra s oci a l s obres sa i
ma is do que o i nt ui t o rel i gi os o) e a F arsa de Inês Pereira .
As obras a cima sã o exempl os de peças em que o a ut or
queri a mora l i za r a pla t ei a e, por i s so, i ns eri u cena s dess es frades “nã o mui t o t radi ci ona i s ”. As s im como fazi a com os out ros
t i pos soci a i s , o a ut or i ns eria ca ra ct erí s t i cas/j ei t os nos pers ona gens rel i gi os os e cons t ruí a cena s pa ra que, quem es t iv ess e
a ss i s t i ndo foss e t ocado de cert a forma, fos s e a l ert a do e a t é
fos s e “reca t equis ado”, no s ent i do de s er ori ent a do pa ra o bem.
Em o Auto da barca do Inferno [ 1 ] , o fra de que pert ence
a o grupo s oci a l Cl ero, é cort es ã o, exces s ivo, a l egre, enga nador e de j ei t o s ens ua l ( pecul i a res percebi da s fa ci l ment e durant e a l ei t ura do aut o) , t em ca ra ct erís t i cas própri a s , mas repres ent a nã o s oment e s eu grupo de ori gem como a t odos os fi éi s
ca t ól i cos , por ta mbém fi ngi rem s a nt i da de e i gua l ment e a o fra de
nã o s egui rem os precei t os da rel i gi ã o como s e dev e e com
v erdadei ra ent rega .
Out ro a s pect o enfa t i za do no frade é o des res pei t o da
ca t egori a , j á que era um ”homem de Cri s to” e quebrou os v ot os de cas t i da de, ca nt ava , pra t i cav a es grima e t ocava v i ol a , o
que não era comport ament o permi t i do a os fra des , com exceçã o a penas da quebra dos v ot os , que at é hoj e é um pont o
a cent uado na v i da dos que optam por s egui r es sa ca rrei ra espi ri t ua l .
Es s e pers ona gem ent ra em cena com uma moça pel a
mã o, moça ess a que s e chama F l orença e é com quem o fra de
des cumpre o v ot o de cas t i da de. Ess a cena é engra çada e i gua l ment e rel ev a nt e no es t udo s obre o comportament o dos
fra des , s e el e era um fra de nunca poderi a es t a r a compa nha do
com uma pa rcei ra e mui to menos mos t ra r -s e t ã o des env ol to
em t odas as s ua s ha bi l i da des . N ess e moment o Gi l Vi cent e a prov ei ta pa ra es t ender a crí t i ca a t odo o grupo rel i gi os o.
Como j á foi a cent ua do, o fra de a pres ent a comportament os própri os , el e s a bia da nça r, deci di u demons t ra r as s uas ha-
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bi l i da des de es gri ma perant e o D i a bo (s endo que na quela época
a penas os nobres pra t i cava m esgri ma ) e s e a utoa fi rma como
cort es ã o em s ua pri mei ra res pos ta ao D i a bo ( que era quem o
es t ava es perando pa ra j ul gamento j unt o com um a nj o) : “D eo
gra t i as ! Som cort esã o” [ 2 ] , ou s ej a , a ss ume que frequent av a a
cort e ( o que ent ra em cont ra di çã o com os cos t umes da sua
cl a s s e) . E o “pi or” de t udo, é que o fra de mos t ra orgul ho pel o
s eu pass a do.
D ura nt e o s eu j ul ga mento, que é fei t o pel o di a bo, o fra de
s e ut i l i za de a rgumentos de na t ureza rel i gi os a , pois a credi t av a
que por s er um membro do cl ero já t i nha um a cordo com D eus
e que com cert eza i ri a pa ra o Pa ra ís o; a l ém di s s o, el e di zi a reza r mui t o e que fazi a t udo o que os out ros fra des fazi am.
At é que no mei o da conv ersa com o di a bo, el e a rgumenta
que o s a lmo reza do, bem como, o há bi t o que v es t e o pode
l i v ra r da s cha mas i nferna i s : “E es t e há bi t o nom me
v a l ?” [ 3 ] , “com ta nt o s a lmo reza do?” [ 4 ] .
N o enta nt o, na da muda a deci sã o do di abo e o s i l ênci o
reprova dor do Anj o é a s ent ença fi na l do F rade. As s im, o
mesmo percebe que s ó pel o fa t o del e es tá a compa nha do de
F l orença , é o s ufi ci ent e pa ra expl i ca r porque nunca t erá ent ra da no ba t el do Anj o, ev i t ando que es t e t enha de a rgument a r.
L ogo, a s ua s ent ença é a condena ção pelo fa l so mora l is mo
rel i gi os o.
O obj et i vo de Gi l Vi cent e com a cena do fra de no Aut o
da B a rca é cri t i ca r o es t rat o s ocia l Cl ero, poi s el e a credi t ava
que es t e era i nca pa z de prega r as t rês cois as ma i s importa nt es da s ua ca t egoria , que s ã o: a pa z, a verda de e a f é. E
ma is , cri t i ca a a us ênci a de v oca çã o e a di scordâ nci a ent re os
a t os e os i dea i s , que ev i dencia m um comporta mento hi pócri t a.
N a Farsa de Inês Pereira , a pers ona gem cent ra l , Inês ,
quer s e ca sa r e por i s s o s e apres enta de dua s manei ra s dis t i nt a s. Enquant o é s ol t ei ra , gos ta de s e di v ert i r, é a l egre e
pouco a cos tuma da a os a fa zeres domés t i cos . D epois que s e
ca sa com o Es cudei ro e des cobre quem el e rea l ment e é, s e v ê
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obri ga da a reav a l ia r s eus i dea i s . O res ul ta do da des i l usã o de
Inês é mos t ra do no modo como t ra ta Pero Ma rques , s eu s egundo ma ri do. Sem dúv i da, o comportament o de Inês é a crí t i ca cent ra l da peça , ma s nã o a úni ca .
Em s egundo pla no, porém, nã o de menor relev â ncia dent ro do cont ext o da obra de Gi l Vi cent e, encont ramos o des cas o e o rev el a r do comporta ment o do cl ero, por mei o do pa dre
que t ent a a ga rra r L i anor Va z, e do que prov av elment e s e torna rá ama nt e da j ov em Inês .
L i anor Vaz é uma poss ív el v i zi nha , que também é quem
a pres enta Inês a Pero Ma rques , que ent ra na hi s t óri a cont a ndo
à mã e de Inês que um pa dre a a ga rrou no ca mi nho:
Lianor
J e s u a q u e m e eu en co me n d o !
Q u a n t a co u s a q u e s e f a z !
Mãe
Lianor Vaz, que é isso?
Lianor
Venho eu, mana, amarela?
Mãe
M a i s r u i v a q u e u m a p an e l a .
Lianor
N ã o s e i c o mo t e n h o s i s o !
Jesu! Jesu! que farei?
Não sei se me vá a el-Rei,
Se me vá ao Cardeal .
Mãe
C o mo ? e t a m a n h o é o m a l ?
Lianor
T a m an h o ? eu t o d i r e i :
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V i n h a a g o r a p er e l i
Ó r e d o r d a m in h a v i n h a ,
E h u m c l é r i g o , m an a m i n h a ,
P a r d e o s , l a n ço u m ão d e m i ;
Não me podia valer
D i z q u e h av i a d e s a b e r
S ' e r a e u f êm e a , s e m a c h o .
Mãe
H u i ! s e r i a a l g u m mu ch a ch o ,
Q u e b r i n c a v a p o r p r az e r ?
Lianor
S i , mu ch a ch o so b e j a v a
E r a h u m z o t e t a m an h o u ço !
E u a n d av a n o r e t o u ç o ,
T ã o r o u c a q u e n ão f a l a v a .
Q u a n d o o v i p eg a r co m i g o ,
Q u e m ' a ch e i n a q u e l e p ' r i g o :
– A s s o l v e r e i ! - n ão a s s o l v e r á s !
– T o m a r e i ! - n ã o to m a r á s !
– J e s u ! h o m em , q u ' h a s co n t i g o ?
– I r m ã , eu t e a s s o l v er e i
C o b r ev i a i r o d e B r ag a .
– Q u e b r e v i a i r o , o u q u e p r ag a !
Q u e n ão q u er o : a q u i d ' e l - R e i ! –
Q u a n d o v i u r ev o l t a a v o d a ,
F o i e e s f a r r a p o u - me t o d a
O c a b e ç ão d a c a m i s a .
...
Mãe
V i s t e s v ó s t a m an h o m a l ?
Lianor
Eu m'irei ao Cardeal,
E f a r - l h e - e i a s s i m e su r a ,
E c o n t a r l h e - e i a a v en t u r a
Q u e a ch e i n o m eu o l i v a l .
J
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Mãe
Não estás tu arranhada,
D e t e c a r p i r , n a s q u e i x a d a s?
...
N es ta cena , o a ut or Gi l Vi cent e fa z crí t i ca nova ment e a o
grupo que pert ence o cl éri go que t eri a assedi a do L i a nor Va z.
Apesa r de a persona gem L i a nor a fi rma r t er s i do v iol ent a da por
um cl éri go e de não t er s e defendi do (v a l endo - s e de des cul pas
pa ra is s o) por es t a r com as unha s corta da s , t er t i do um a ces s o de t os s e, out ro de ri s o e por i ss o ca usa r s uspei t a s, uma
v ez que nã o a pres ent ava a s ma rcas de a rra nhões causa das
pel o fl a gel o que dev eria s egui r - s e a o es tupro, Gi l Vi cent e quer
most ra r os ma us comport ament os dos fra des da época , fa zendo ent ender que era , s i m, pos s ív el ess e estupro t er a cont eci do.
O out ro moment o em que o a ut or res sa l t a os comporta ment os errôneos dos fra des da época é no fi na l da fa rs a ,
qua ndo Inês Perei ra j á ca sa da com o s egundo ma ri do, Pero
Ma rques , t em um reencont ro com o Ermi t ão, um fl ert e do pa ss a do de Inês , pers ona gem que hav ia t orna do - s e pa dre.
Pa ra o Ermi tã o, dev i a hav er um ca mi nho a percorrer e,
como os ermi tã es v i v ia m ret i ra dos , a s emel ha nça com a rea l ida de era pres erv a da . Ent ã o, no fi m da fa rsa , fi ca s ubent endi do
que Inês va i a t rás dess e ermi t ã o, e por s e t ra t a r de uma s upos ta j orna da rel i gi os a , o ma ri do pode a companha r Inês s em
des confi a r de s uas rea is i nt enções .
Ass i m como no Auto da Barca do Inferno percebe- s e,
t a mbém em A Farsa de Inês Pereira , o comport ament o desv i rt ua do dos rel i gi osos . Por que o Ermi t ão foi fa l a r com Inês ? Por
que hav ia um i nt eress e com v erda dei ro dupl o s ent i do e que s e
s ubent ende era corres pondi do, mas que nã o dev eri a exi st i r
i ndependent ement e de qua l quer s ent i ment o, j á que Inês es t av a
ca sa da e o ermi tã o t i nha uma ca mi nha da rel i gi os a a cumpri r.
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Segundo Ant ôni o Sa ra iv a (200 1 ) es sa cena foi t ã o rea l i st a ,
que na época foi ret i ra da da fa rsa pel a i nqui s i çã o, pois Gi l Vi cent e s erv i u -s e des sas pers ona gens pa ra cri t i ca r os “ma us ”
pa dres de s ua época , corrompi dos pel os i nt eres s es mat eri a i s e
pel os prazeres munda nos .
Ent ã o, a ss i m como em ta nta s out ra s peças , nes ta s Auto
da Barca do Inferno e A F arsa de Inês Pereira , o a ut or a prov ei t a a t emá t i ca rel i gi os a como pret exto pa ra a crí t i ca de cost umes em s eus t ra ba l hos .
Ta l v ez por s er ca t ól i co, o aut or t enha deci di do foca r nes s e as pect o em s ua obra , por querer corri gir cert os cos t umes
e/ou por s e s ent i r ofendi do enquant o crente da rel i gi ã o, uma
v ez que el e percebi a que a corrupção dos va l ores era fei t a
num di s fa rce ri dí cul o fa ci l ment e desmont a do por quem qui s ess e.
N ão era por menos que o públ i co s e reconheci a nos pers onagens v i cent i nos , uma v ez que os persona gens t i nham cara ct erí s t i cas rea is , comportament os que era m concebi dos de
v erdade por mui ta s pes s oa s e por mui t os fra des . Qua ntos frades e F l orenças nã o foram cri t i ca dos , a pa rt i r de obra s como
Aut os e F a rs as , peças que exi s t i ra m pa ra mos t ra r t ambém que
a s di ss i mula ções pas sam s em s erem ques ti ona da s , ma s não
l es a quem es tá v endo?
É cl a ra a i nt ençã o do a ut or em expor de forma s i mpl es e
s a t í ri ca os grandes v í ci os huma nos , forma es s a, que v ia -s e
nos pers ona gens; o que proporci ona uma amost ra do que era
a soci eda de l is boeta ent re o fi m do s écul o XV e o i ní ci o do
s écul o XVI e da pers ona l i dade refl exi v a que t i nha Gi l Vi cent e.
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Acredi t a ndo no poder de mora l i za çã o do t ea tro pa ra cons egui r a t i ngi r a s pes s oa s, Gi l Vi cent e ut i l i zou - s e de cenas que
most rav am fa t os e s i t ua ções que rev el ava m a degra da çã o dos
cos t umes e a i mora l i dade dos fra des , no i nt ui t o de que a s oci -
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eda de pudess e s e v er como num espel ho e pudess e corri gi r o
s eu erro. As s á t i ra s v i cent i nas que, dent re out ras ca ra ct erí st i ca s eram cont ra o cl ero, a t i ngia m os comport a ment os des v i rtua dos da rel i gi ão com v i ol ência .
O a ut or de obras famosas como o Auto da Barca do Inferno e A Farsa de Inês Pereira , defendeu o i dea l dos bons
cos t umes e exi gi a , a t ra v és do humor e ut i l i za ndo pers ona gens
huma nos , rea is , que a s oci eda de s e reorgani za ss e; pri nci pa l ment e a cla ss e dos cl éri gos .
REFERÊNCIAS
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NOTAS
[1]
N o s i t e N o t a P o s i t i v a , V a n e s s a P e r e i r a t r a z o c o n c e i t o d e A u t o s c o mo
p e ç a s t e a t r a i s d e a s s u n to r e l i g i o s o o u p r o f a n o ; s é r i o o u c ô m i co q u e
t i n h a m a f i n a l i d a d e d e d i v e r t i r , d e m o r a l i z a r o u d e d if u n d i r a f é c r i s t ã .
[2]
Ibidem.
[3]
Ibidem.
[4]
I b i d em .
Recebi do em 22/4 /20 1 2.
Aprov a do em 27/8/20 1 2.
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ISSN 2236-3335
OJOS INQU IE TOS : UNA MIRA DA CR Í TI CA DE
L A P O S G U E R R A E N E S PA Ñ A D E L S I G L O X X
Por Arabelle Nogueira Alves
Licenciatura en Letras con Español
e s p a n h o l c l a s e @ y ah o o . c o m . b r
F RAIL E, Meda rdo. Oj os i nqui et os . In: F RAILE, Meda rdo. Cuentos
completos . Ma dri d: Al i a nza , 19 9 1.
El cuent o “Oj os Inqui et os ”, del es cri t or es pa ñol Meda rdo
F ra i l e, refl ej a l a s oci eda d es pa ñol a de posguerra ( 1 939 - 1 970 ) ,
a ún t ra umada por l os efect os noci v os de la Guerra Ci v i l en
Es pa ña y ba j o l os ma ndos de l a di ct a dura ej er ci da por el Genera l F ra nco. El cuent o forma pa rt e de la obra Cuentos Completos , cuyo a ño de publ i ca ci ón es 1 99 1 y remi t e a l a época del
s i gl o XX. N ues t ro obj et i vo en es t e es tudi o es di a gnos t i ca r a l gunos puntos rel eva nt es en di cha hi s t oria en l o que res pect a a
l a s a ct i tudes de l os pers ona j es , repres enta t i v as ca ra ct erí s t i cas
de un t i empo en el que l os ci uda danos es pañol es a caba ron de
v iv enci a r una guerra .
L a his t ori a t ra ta de una pa rej a que v iv e en una ca sa apa rent ement e os cura , en l a que es tá el ma rido, a l go a comoda do, y que pa rece es t a r s i empre a l a espera de que s u muj er
t ome la s deci s i ones en el hoga r. Y l a esposa, a pesa r de ej ercer l os queha ceres domés t i cos , es l a que a ca ba por deci di r l a s
cos as , prá ct i cament e l o res uelv e t odo en casa .
El cuent o cons i s t e en una brev e na rra t iva des a rrol l a da en
s i et e pági nas que t i ene el á ngul o de l a hi s tori a na rra do en t ercera pers ona , en que el na rra dor sól o obs erv a y mues t ra l os
a cont eci mi ent os v iv i dos por l os pers ona j es . El a ut or conduce l a
na rra t iva ba j o mucha s des cri pci ones ; s e descri ben con ri queza
de det a l l es la ca sa , l as ca l l es y l os rui dos . Por es ta r na rra da
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en t ercera pers ona , a l os l ect ores l es pa rece que l a na rra t iv a
es ma neja da des de el punt o de v i s ta femeni no, o s ea , el de l a
es posa .
El re l a t o empi eza con l a pres ent a ci ón del pers ona j e mas cul i no, el cua l en un a mbi ent e os curo s e ha queda do dormi do
a l l eer el peri ódi co en una mecedora , des pués , a pa rece la fi gura de s u muj er i nv i t á ndol e a cena r. Ant es de l a cena , la muj er
“ent ró en el cua rt o” ( p. 1 7 5) y “conect ó l a ra di o” ( p. 17 5) pa ra
es cucha r l a “mus i qui l l a punza nt e, ca l av era , ci ega , mús i ca de
s á ba do, mús i ca de gra ndes programas ” ( p. 1 7 5) . En l a mesa ,
dura nt e l a cena , ha bl an s obre mús i ca y deci den i r a l ci ne a v er
una pel í cul a , el egi da por el l a , que deci de t a mbi én que s i t i enen
t i empo, ant es de l l ega r a l ci ne, t oma rá n a l go en Oms . Ent ra ron
a l Oms , un ambi ent e herv i ent e y “que es ta ba a ni ma do” ( p. 177 ) ,
s e s i rv i eron de a l go y l uego s e di ri gi eron a l ci ne. Mi ent ras es pera ba n el i ni ci o de la pel í cul a , el l a “l e decí a a lguna fras e a
él ” ( p. 1 77 ) , pero “s i n mi ra rl e” ( p. 177 ) nunca , sol o con l a
“fa cul t a d de oí r” ( p. 1 77 ) y mi ent ras t a nto sus oj os mi ra ba n a
s u ent orno.
Si gui endo el ra ci oci ni o a nt eri or, t ra s sa l i r del ci ne, y a l recurri r l os dos el ca mi no ha ci a l a cas a , l a espos a s e ha v uel t o
s i l enci os a , pero a la v ez s e fi j a ba en un mundo que l a l l ena ba .
El l a mi ra ba a l as pers onas a s u a l rededor demost ra ndo a l egrí a ,
fe l i ci da d; as í como es cucha ba deci r a l a gent e “boba das admira bl es ” ( p. 17 9 ) y s ent ía “el s a bor de un mundo” ( p. 1 79 ) a fuera
y, s i empre, con sus “oj os i nqui et os ” ( p. 179 ) . Al l l ega r a ca sa ,
el ma ri do s e met i ó primero pa ra abri r l a puert a y l a muj er con
l a s ens a ci ón de que a ún no ha bía a ca bado el s á bado, “s e cogi ó a l a rej a del port a l ” ( p. 17 9 ) , s i n mov ers e y s us oj os de i nqui et ud i ns i st í a n en ma nt enerl a fi j a a aquel s i t i o, pero “di o l a
v uel t a ” ( p. 1 80 ) y “s i gui ó en s i l enci o” ( p. 1 80 ) a s u ma ri do, que
l a es pera ba s os t eni endo l a puerta de cri s t a l es , y l a muj er met i ó
“una ma no en el bol s o, perpl ej a ” ( p. 180 ) , y bus có a l guna cosa ,
t a l v ez “el peda zo de sá bado que l e fa l ta ba ” ( p. 1 80 ) .
A l o la rgo de l a na rra t i va , nota mos que l os persona j es
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s on i dent i fi ca dos , en mucha s s i t ua ci ones, por s u compos i ci ón
ps i col ógi ca . D es t a camos a un pers ona j e mas cul i no, a l go a pá t ico, que no t i ene a ct i t ud y s e ha hecho un hombre res i gna do
debi do a la s impos i ci ones y repres i ones de un régi men di cta t ori a l , a t a l hombre podría mos i ncl us o deci r que repres enta rí a a l
prot ot i po del hombre de l a pos guerra , pues t o que a nt e el a ut ori t a ri s mo y l a s i mpos i ci ones que ca ra ct eri za n l a fa l t a de democra ci a , preferí a a sumi r una pos t ura de a cepta ci ón y res i gna ci ón pa ra ma nt eners e en el s is t ema . Dura nt e el cuent o, el aut or
s e nos pres enta a un hombre que duerme o bos t eza cas i t odo
el t i empo, es deci r, s i n opi ni ones, s i n punt os de v i s ta . Por ot ra
pa rt e, s u muj er demues t ra t ener más i ni ci a t i v a a nt e l a v i da y
más l i berta d pa ra pensa r en su dest i no, y aunque con una ci ert a i nqui et ud, i nt enta ca mbi a r s u rea l i da d, o a l menos l o a nhela.
As i mismo, s e not a en muchos pasa j es del cuent o, que l a
es posa es que a caba i mponi endo su v ol unt ad en l a cas a : ¿qué
ha cer?, ¿qué v er?, ¿s i cena r o no a ta l hora?, et c. Incl us o, en
el úl t i mo pá rra fo de l a na rra t iv a, en el s i gui ent e t recho:
“met i endo s i n mot iv o una ma no en el bol s o, ofus ca da , perpl ej a ,
como bus ca ndo a l go, una l l av e, l a polv era , el pa ñuel o, el peda zo de sá ba do que l e fa l ta ba . ” ( p. 1 80 ) , s e v e una muj er i nqui et a , s us “oj os i nqui et os ” ( p. 179 ) mi ra n a s u al rededor bus cando
ot ros ri ncones, ot ras sa l i das , s us oj os contempl a n la i l us i ón y
el propi o s ueño de poder cambia r su rea l i da d y qui zá s poder
empeza r ot ra v ez. El sá ba do sugi ere una repres ent a ci ón de la
di v ers i ón, un s a l i r de l a rut i na, y s i queremos i r a ún má s fondo, l a rut ina a quí puede repres enta r es ta os curi da d y l a fa l t a
de es pera nza s ta n s i gni fi ca t i vas de Es pa ña en l a pos guerra , en
que es t a ba n pres ent es muchas s ecuel as de l a guerra , como
probl emas económi cos y el a grav o de l os probl emas s oci a l es .
En l o que res pect a a l t i empo, es pos i bl e deci r que, es t e
en l a na rra t iv a , s e pla nt ea ba j o una i dea de t i empo s i mból i co,
ya ca s i que no v emos a l us i ón a l t i empo cronol ógi co. En el s i gui ent e fra gment o del cuent o: “ - ¿Qué hora es ?/ - ¿Será n
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l a s… ¡Va ya ! Se me ha pa rado el rel oj . ” ( p. 177 ) , nos pa rece que
el a ut or qui ere ha cer una compa ra ci ón ent re e l rel oj pa ra do del
pers ona j e mas cul i no con l a propia Es paña de l a pos guerra , pues nos da a ent ender, como l ect ores , que des pués de v iv i rs e
a una guerra , a l o mej or l os dí as y l as noches a pena s pas aba n, pues t o que la v i da deberí a s er t ris t e y la fa l ta de ca mbi os
y es pera nza s no t ra ns forma ba n el t i empo, ya que l as horas
pa recí a n no t ra ns curri r en l a rut i na de mucha gent e que s obrev iv e a un ambi ent e hos t i l .
D ent ro de es t e cont ext o, ot ros puntos que seña l a n el des a rrol l o del t i empo s imból i co que merece l a pena des ta ca r s on
l a s s egui da s a l us i ones a l dí a de s ába do. El sá ba do en el cuent o s ugi ere que no s ól o qui ere re feri rs e s i mplement e a l dí a de l a
s ema na en el s ent i do cronol ógi co, s i no ta mbi én s e refi era a un
moment o de a l egría , de i l us i ones , de l i berta d; puede s er un
s enci l l o modo de demos t ra r un t enue des eo de dis frut a r, a unque s ea por brev es ra t os , el s a bor de un pa ra í so perdi do, que
s erí a l a Es pa ña a nt eri or a l a Guerra Civ i l . Si nos fi j a mos en el
s i gui ent e t recho del cuent o: “Y l a mel odí a del s á ba do por l os
ri ncones y s ombras de la casa , como humo en boca na da s ubrept i ci a , l a rga , s i l enci os a. ” ( p. 1 7 5) , el s á ba do s erí a , en defi ni t i v a, l a v i ct ori a a l a muert e por enci ma de cua lqui er obs tá cul o, l a
muert e s i mbol i za da pos ibl ement e por l as s ecuel a s de l a guerra
y por l os probl ema s s oci a l es , económi cos , pol í t i cos y por el
mi edo cons t ant e que i mpera ba n en un régi men di ct a t ori a l .
En cuant o a la percepci ón de l a rea l i da d, ést a s e perci be
en el t ext o a t rav és de l os s ent i dos . Podemos perci bi r l os
ca mbi os del dí a a l a noche en es t e cort o fra gment o: “has t a el
pa s i l l o l l ega ba l a l uz bla nda del a t a rdecer” ( p. 1 74 ) . Ademá s , s e
not a la curi os i da d de la muj er ha ci a el ent orno por l a mi ra da de
l a es posa a s u a l rededor y por cas i nunca mi ra r a s u ma ri do,
es t e a cto pos i bl ement e repres enta el des eo de aba ndona r s u
rut i na por a l go mej or. El s ent i do de la v i s i ón puede repres ent a rs e tambi én por “l os oj os inqui et os ” ( p. 179 ) de l a muj er mira ndo la s ca l l es , l os ba res , l as gent es , expres a ndo a l o mej or
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una ci ert a v ol unt a d de cambi a r s u rea l i da d.
El s ent i do de l a a udi ci ón t ambi én es dema s ia dament e expl ora do, el “cerra r de l a puert a, el rui do del a gua en l a ba ñera ,
el t i t i l a r de gota s, l os ca j ones sa l i endo y entra ndo, el a rras t ra r
de una s i l l a unos i ns ta nt es ” ( p. 1 7 5) connotan ci e rt a rut i na , una
v i da pa ra da s i n emoci ones , mórbi da , s i n fel i ci da d, a la que el
a ut or cont ra pone cua ndo nos na rra el moment o en el que l a
muj er es cucha la mel odí a del s á ba do, cuando des cri be el rui do
del ba r, l a sa l i da a la ca l l e. Es t o nos sugi ere l a div ergenci a y
di fer enci a s ent re es os dos mundos, l a rut ina s i n emoci ones
v ers us el mov imi ent o de a l go que i nt errumpe es a rut i na ; y una
pos i bl e denunci a de i nqui et ud y rev uel t a por l os que t ení a n gana s o has ta mi smo l ucha ba n en cont ra l as i mpos i ci ones y la
l i bert a d. En cua nto a l ol fa t o, és t e s e ha explora do en l a hi s t ori a , s obre t odo a la hora de i dent i fi ca r l os ambi ent es , como podemos l eer en el s i gui ent e t recho: “Ol í a a des i nfect a nt e ca mufl a do con un perfume dens o, pa s tos o” ( p. 177 ) .
En s uma , en el cuent o, v emos que el a utor a rt i cul a bi en
l os s ent i dos, el t i empo y l a des cri pci ón de l os persona j es como
ma ni obras de expresa r mej or la rea l i da d, el cont ext o de la his t ori a y sobre t odo l os s ent i mi ent os de una gent e que ha v i v enci a do una guerra y nos ot ros , como l ectores , podemos reconocer en es t a obra un pos ibl e ret ra t o de l a v i da de l os ci uda danos es pa ñol es de es t e moment o del s i gl o XX en Es pa ña .
En es t e s ent i do, a t rav és de i ns i nua ci ones , de des cri pci ones y de l os t i empos s imból i cos , ya comentados a nt eri orment e,
nos s ugi ere de un modo sut i l una fa ls a s ensa ci ón de t ra nqui l i da d y fel i ci da d pres ent e en una rut i na a burrida que, a l o mej or,
ha s i do el prot ot i po de l a época después de l a Guerra Civ i l en
Es pa ña .
Recebi do em 22/3/20 12.
Aprov a do em 28/9/20 1 2.
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N O R M AS P AR A E N V IO DE AR TI G OS E R E S E NH AS
Res enhas e a rt i gos pa ra a preci a ção, el a borados por gra dua ndo(a ) ( s ) em L et ra s da UEFS, dev erã o s er encami nhados a o
cons el ho edi t ori a l por v ia el et rôni ca , a nexa dos a o e -ma i l , pa ra
o endereço rev is t agra dua ndo@gma i l . com . Soment e s erã o a cei t os t ra ba l hos na s á rea s de L i nguí s t i ca , L i t erat ura , Art es e Educa çã o, em forma t o el et rôni co e i nédi tos , ou s ej a , nã o publ i ca dos no forma t o s ol i ci t a do em qua i s quer outros peri ódi cos . As
l í ngua s na s qua i s el es poderã o s er es cri t os s erã o t odas a s
exi s t ent es na gra de curri cul a r do Curs o de Gra dua çã o em L et ra s da UEFS ( Port uguês , Ingl ês , F ra ncês e Es pa nhol ) .
O R IE N TA Ç ÕE S GE R AIS
Os t ra ba l hos , env ia dos à Rev i s ta Gra dua ndo, di gi t a dos em
forma t o Word, dev erã o dev em cont er a s egui nt e forma ta çã o:
1 . F ont e Times N ew Roma n;
2. Ta ma nho 1 2 ( t í tul o, subt í t ul o (s e houv er) , t ópi co e corpo
do t ext o) ; Pa l av ra s es t ra ngei ra s e t í t ul os de obra s dev em
s er es cri t os em i tá l i co;
3. Es pa çament o ent re l i nha s de 1 , 5; ma rgens es querda e
s uperi or de 3 cm, di rei t a e i nferi or de 2 cm;
4 . Ci t a ções com a t é 3 l i nhas dev em a pa recer re ferenci a da s no corpo do t ext o e cont er as pas ;
5. Ci t a ções com ma i s de 3 l i nhas dev erã o ser es cri t a s
s em a s pas e t er recuo de 4 cm da ma rgem es querda ,
a l ém de nã o a pres ent a r recuo na ma rgem di rei t a e t er
es pa ça mento s impl es em rel a çã o ao corpo do t ext o;
5. 1 O t a ma nho da font e da ci t a çã o dev e s er menor que o
corpo do t ext o ( t amanho 10 ) e o es pa çament o ent re a s
l i nha s dev e s er s impl es ;
6 . O número de pági nas com anexos nã o dev e pas sa r de
2 ( doi s ) .
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O R IE N TA Ç ÕE S E S P E C ÍF I C AS
R E S E NH A CR ÍT I C A
Serã o a cei ta s res enhas crí t i ca s com mí nimo de 4 e no
má ximo 7 pá gi nas , i ncl ui ndo referênci a s . A es t rut ura dev e cont er:
1 . Tí t ul o e/ou subt í t ul o;
2. N ome do(s ) a ut or( es ) e brev e currí cul o;
3. Apres enta çã o e av a l ia çã o i ni ci a l do obj et o da res enha ;
4 . D es cri ção e ava l i a çã o de pa rt es do obj et o da res enha ;
5. Recomendação/consideração final sobre o obj eto da resenha;
6 . Referênc i as .
N ome compl et o do aut or na forma di ret a , a nt ecedi do pel a
pa l av ra "Por" e a companhado, no pa rá gra fo s egui nt e, de um
brev e currí cul o, s endo: curs o, i ns t i t ui ção e e - ma i l . Os da dos
a ut ora i s sã o obri ga t óri os pa ra , no má xi mo, 1 ( um) a ut or. Informa ções adi ci ona i s dev em s er es cri t as em nota de roda pé.
A R TI G O
Serã o a cei t os a rt i gos com mí ni mo de 07 e no má ximo 10
pá gi na s , i ncl ui ndo referênci a s . A es t rut ura deve cont er:
1 . Tí t ul o e/ou s ubt í t ul o;
2. Nome do( s ) aut or( es ) e brev e currí cul o;
3. Res umo;
4 . Pa l av ra s- chav e;
5. Int roduçã o;
6 . Corpo do a rt i go;
7 . Concl usã o/cons i dera ções fi na is ;
8. Referênci a s .
N ome do(s ) a ut or( es ) na forma compl eta , a compa nha do( s ) ,
no pa rá gra fo s egui nt e, de um brev e currí cul o, s endo: nome da
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i ns t i t ui çã o, curs o ( ou depa rt ament o, no caso do ori ent a dor) e
e- ma i l . Os da dos a ut ora is s ão obri ga t óri os pa ra , no má ximo, 2
( doi s ) aut or( es ) , 1 ( um) coa ut or e 1 (um) ori ent a dor. Informa ções
a di ci ona is dev em s er es cri t as em nota de roda pé.
Res umo na l í ngua do t ext o dev e a pres enta r, de forma
conci s a , os obj et iv os, a met odol ogi a e os res ul t a dos a l ca nçados , não dev endo ul t ra pa ss a r 1 50 pa lav ras nem cont er ci t a ções . Al ém di ss o, dev erá a pres ent a r o res umo pri nci pa l , es cri t o na l í ngua do a rt i go, e o res umo s ecundá ri o em um i di oma da
própri a es col ha ( Port uguês , Es pa nhol , F ra ncês e i ngl ês ) . Em cas o de o a rt i go s er es cri t o em l í ngua es t ra ngei ra fi ca o a rt i cul i s t a obri ga do a es crev er o res umo s ecundá ri o em L í ngua Port uguesa .
Pa l av ras- chav e como el ement o obri ga tóri o, fi gura ndo l ogo
a ba i xo de ca da res umo ( na l í ngua do a rt i go e es t ra ngei ra ) , cuj o
número de pa l av ras nã o dev e exceder a 5 e nã o s er i nferi or a
3.
O R IE N TA Ç ÕE S F I N A IS
1 . Os pa receri s ta s e rev i s ores poderã o fa zer a l t era ções
nos t ra ba lhos , no s ent i do de mel hora r s ua t ext ua l i da de, s em
a l t era ção de s ent i do e a ut ori a, a proximando -os das ca ra ct erís t i ca s t extua i s referent es a uma publ i ca çã o a ca dêmi ca ;
2. É v et ado o env i o de t ra ba l hos cuj os a ut ores e/ou coa ut ores s ej a m membros do cons el ho edi t ori a l ( a nt eri orment e
denomi na do comi ss ão edi t ori a l ) des t e peri ódi co;
3. O env i o do t raba l ho i mpl i ca a a cei t a çã o de t odas a s
norma s des cri ta s nes t e document o e a conces sã o dos di rei t os
s obre o t exto à Rev is t a Gra dua ndo;
4 . Os ca s os omis s os s erão resol v i dos pel o cons el ho edit ori a l .
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Edição completa - Universidade Estadual de Feira de Santana