O MOVIMENTO COMO LUGAR DE MEMÓRIA E FORMAÇÃO
Ravena Araujo Paiva1
[email protected]
Franscisca Gárdina dos Santos Lima2
IFMA- [email protected]
Resumo: O enfrentamento de trabalhadores e trabalhadoras rurais se constituiu na década de 1980 em um
mecanismo que possibilitou o acesso a terra por parte de inúmeras comunidades na região do Médio Mearim
Maranhense. Essa década foi marcada por intensos conflitos envolvendo latifundiários e trabalhadores daquela
região. Nesse cenário de luta os trabalhadores forjavam estratégias cotidianas de resistência que se configuravam
como um modo singular de luta que possibilitou em muitos casos a conquista da terra. Ao passo que construíam
essas estratégias construíam a si próprios, sendo esse momento também o da configuração de novas trajetórias
sociais, politicas e ideológicas corroboradas pela ação de trabalhadores e trabalhadoras na iminente necessidade
da construção de um espaço mais digno de vida. Essas conquistas possibilitaram a organização politica no pósconflito, insinuando uma relação entre passado e presente que embasa a luta atual. Isto posto, o presente trabalho
pretende discutir como as estratégias construídas naquele momento foram significativas para a organização
politica dos trabalhadores e em que medida aquele momento é ferramenta de luta no que diz respeito á
legitimidade e fortalecimento da identidade do grupo, ou seja, como esses sujeitos se apropriam da memória da
luta pela terra, e quais as implicações deste trabalho na luta empreendida hoje dentro do movimento social,
compreendendo a memória como uma estratégia de resistência contemporânea.
Palavras-chaves: memória, luta pela terra, organização politica.
A gente não mora em área de reforma agrária, a gente mora em área de
resistência. Expressões como essa são recorrentes nas falas de trabalhadores e trabalhadoras
que passaram por o processo de luta pela terra na região do Médio Mearim maranhense,
sobretudo, os que hoje se encontram engajados politicamente em movimentos tais como a
Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão (ASSEMA) e em
cooperativas de pequenos produtores. Estes relatos demarcam uma forma de conceber a luta
pela terra e a uma reflexão acerca da consciência dos processos mais amplos em que estão
envoltos, insinuando um posicionamento politico e ideológico impulsionado pelo conflito.
O conflito da luta pela terra foi um momento da configuração de novas
trajetórias sociais, politicas e ideológicas corroboradas pela ação de trabalhadores e
trabalhadoras na iminente necessidade da construção de um espaço mais digno de vida. A
partir desse momento os trabalhadores definem estratégias de resistência, redefinem
1
Graduanda do Curso de Licenciatura Interdisciplinar em Ciências Humanas da Universidade Federal do
Maranhão, Campus III, Bacabal – MA.
2
Graduanda do Curso Licenciatura em Educação do Campo, com habilitação em Ciências Agrárias, no Instituto
Federal do Maranhão, Campus Maracanã, São Luis – MA.
percepções e constroem outras. Porém a conquista da terra não implica necessariamente
reforma agrária e outros objetivos começaram a ser delineados, a concretização de outros
direitos começaram a ser vistos como indispensáveis para a construção desse espaço digno de
vida, assim no pós- conflito a luta ganha nova dimensão, mas não desaparece.
Os espaços construídos durante o conflito ganham legitimidade, a consciência
politica se fortalece e a memória do conflito torna-se assim elemento imprescindível na
manutenção de espaços conquistados e na configuração de outros, na sociabilidade dos mais
jovens e na construção da agenda politica de luta, afinal as contradições sociais que os
empurraram para o conflito pela terra são as mesmas que não permitem que cesse a luta.
Destarte, a memória tece o acontecimento mais do que como uma “lembrança” dolorida do
passado, mas como significante da dureza dos enfrentamentos que perpassam a constituição
de novos espaços sociais, que comumente são rememorados como símbolo da luta. Este
trabalho, portanto, procura refletir sobre a importância da luta pela terra na construção e
fortalecimento de identidades politicas e na eminente participação da memória, ou por que
não dizer do trabalho operado com a memória, no processo de luta pelo fortalecimento de
espaços construídos e na configuração de outros.
MEMÓRIAS DO CONFLITO: implicações na luta do hoje
A década de 1980 é expressiva no que tange à luta de trabalhadores e
trabalhadoras rurais pelo acesso a terra em nosso país. Foram inúmeros os conflitos
envolvendo estes e latifundiários, com várias desapropriações em função desses conflitos,
uma década onde a violência constituiu um elemento que mediou o processo de conquista
pela terra, o estado do Maranhão não está fora dessa lógica. Os sujeitos envolvidos nesse
processo resistiram às espoliações aos quais foram expostos e construíram cotidianamente a
luta necessária à conquista do que denominam área de resistência, concepção presente nos
discursos de alguns trabalhadores,
A gente não mora em área de reforma agrária, a gente mora em áreas de resistência
porque reforma agrária tinha que ser ampla, sem mortes, sem violência, sem tanta
tortura, tanto massacre, tanto sofrimento (Toinha, 2002 apud ANTUNES,2002,
p.130)
Essa compreensão por parte dos trabalhadores da luta pela terra é corroborada
pela análise do trato com a questão agrária nesse estado. Há no Maranhão um histórico de
concentração fundiária e exclusão social. A década de 80 é expressiva no que diz respeito a
isso, segundo dados da CPT em um levantamento realizado no ano de 1985 um grupo de área
que varia de 1.000 a 10.0000 hectares o que corresponde em termos gerais a uma área total de
mais de cinco milhões de quilômetros restringia-se a um contingente pouco superior a dois
mil proprietários. Na contramão disso ou como consequência mesmo desse processo aviltante
a mesma CPT afirma que de 1985 a 1988 ocorreram nesse estado cerca de 115 conflitos de
luta pela terra. A região do Médio Mearim maranhense concentrou a maioria desses conflitos,
assim comunidades como Pau Santo, Ludovico, São Manuel, Centro do Aguiar, municípios
de Lago do Junco e São José dos Mouras, município de Lima Campos fazem parte desses
números que muitas vezes não evidenciam a dureza do conflito.
Porém, esse processo tortuoso implicou também a configuração de novos papeis
sociais, novas reflexões politicas, organizacionais. A família camponesa sentiu-se
impulsionada a construir uma nova maneira de ver o seu espaço, outra forma de se conceber
frente a esse espaço, a formulação de outros. É inegável o trabalho de mediação politica
impulsionado por entidades como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Sociedade
Maranhense de Direitos Humanos (SMDDH) e a Igreja Católica na reflexão e construção
desses novos papéis sociais, contudo, como diz D. Toinha com o fim do conflito nessas
comunidades esses parceiros foram para outras áreas. Neste momento surge a questão da
reorganização local, premente tendo em vista o reconhecimento da busca de direitos que
precisava ser efetivada no pós-conflito. Surge assim em 1989 a Associação em Áreas de
Assentamento no Estado do Maranhão (ASSEMA) e inúmeras cooperativas
como
mecanismos da organização institucional da luta dos trabalhadores e trabalhadoras oriundos
da luta pela terra.
A questão que se coloca aqui é como os trabalhadores organizados dentro do
movimento social dialogam com o passado que impulsionou essa organização? Como já foi
supracitado, o momento do conflito é o momento de configuração de novas identidades
sociais, do alargamento das discussões, de reflexões e ressignificações. As identidades
forjadas ali são as mesmas que irão dar continuidade á luta; as discussões e os
posicionamentos assumidos no momento do conflito são os que embasarão as proposições
futuras mesmo que com fortuitas reformulações. Assim a relação entre memória do conflito e
luta atual é algo quase que intrínseco, haja vista que as identidades e memórias não são coisas
sobre as quais pensamos, mas são coisas com as quais pensamos (Jelin,1998,p.25). Nesse
sentido, a relação entre memória e identidade é extremamente importante na constituição da
Associação e das cooperativas desses trabalhadores por permitir “mantener um mínimo de
coherencia y continuidade, necessários para el mantenimiento del sentimento de
identidade”(Idem).
Na verdade, como nos diz Maria Alaides, moradora da comunidade Ludovico
que vivenciou o conflito em sua comunidade, existe um antes, um durante e um depois do
conflito. Ela e outros trabalhadores mencionam em entrevistas que o conflito fez enxergar
muitas necessidades, necessidades que não eram discutidas começaram a serem refletidas.
Então, existia um período antes do conflito em que trabalhadores e trabalhadoras viviam em
suas porções de terras produzindo para a subsistência, sem uma organização politica e sem
uma luta efetiva pelos seus direitos, mas onde prevalecia um regime de comunhão, igualdade,
já começava no cacho de coco a distribuição de igualdade; com o conflito emerge a
necessidade de junção de perspectivas, de reflexões acerca da luta iniciada e da conjuntura
social englobante; quando encerra o conflito têm-se um conjunto de reflexões, discussões e
proposições que não podem ser descartadas tendo em vista que o acesso a terra não implica
em reforma agrária como bem reconhecem os trabalhadores envolvidos no processo.
Então eu tô falando de um antes que tá tendo efeito num durante que foi criado
associação de mulher, foi criado associação municipal, intermunicipal, regional
interestadual (Dona Maria Alaides)
As memórias do conflito demarcam, sobretudo, um posicionamento ideológico e
politico frente à conjuntura em que se está inserido, toda luta e conquistas da organização
desses trabalhadores levam essa característica. O que está em jogo é uma disputa em que se
inscrevem concepções díspares, são projetos distintos de sociedade, isso demonstra que “a
memória e a identidade são valores disputados em conflitos sociais e intergrupais e,
particularmente em conflitos que opõem grupos políticos diversos” (Pollak,1992 p.05)
A REPRODUÇÃO NO E DO MOVIMENTO
Esses movimentos sociais são locais de memória por excelência, conceito caro
a Nora. Em sua organização interna existem atividades de formação que estão amplamente
galgadas em seus aportes ideológicos; em seminários, oficinas, assembleias anuais e
encontros para avaliação institucional têm-se uma preocupação recorrente em rememorar a
luta mesmo que esta seja vivenciada cotidianamente por esses trabalhadores.
Eu já participei do fórum (...), GEJURU de Esperantinopólis e Lago do Junco e
nenhum desses grupos de juventude a gente percebe a luta do interesse da luta pela
reforma agrária e nós da ASSEMA e eu como mulher tô preocupada qual a
metodologia que a gente vai trabalhar pra sensibilizar a formação de novos sujeitos e
sujeitas pra despertar esse interesse de lutar pela reforma agrária (Maria Alaides)
Talvez essa recorrência diga respeito a uma tentativa de fazer um trabalho de
enquadramento da memória como bem ensinou Pollak. Esse trabalho de enquadramento é
uma tentativa de fortalecer a luta, de não permitir que a nova geração do movimento silencie,
que sejam conhecedores e que valorizem a luta empreendida por seus pais.
Em entrevistas com D.Toinha, Maria Alaides e Dona Dijé percebe-se uma
preocupação com a continuidade da luta, com o papel que deve ser desempenhado pelos
jovens dentro do movimento. Embora elas sejam testemunhas oculares do conflito, da luta, a
transmissão destes parece se constituir numa forma de fazer com que esses jovens incorporem
o sentido da luta, assim D.toinha enfatiza nós vivemos, nós do movimento social, estamos
preocupados hoje com a situação da reprodução, a nossa reprodução ela está ameaçada.
A ASSEMA possui em seu quadro organizativo um programa para trabalhos com
a juventude. Na sua base de atuação existem organizações compostas somente de jovens com
lutas direcionadas, a saber: Associação de Jovens Rurais de lago do Junco e Lago dos
Rodrigues (AJR), a Comissão Intermunicipal da Juventude Camponesa (CIJUC) que abrange
os municípios de Lima Campos, São Luis Gonzaga e Peritoró e o Fórum Municipal da
Juventude de Esperantinópolis (FMJESP) de Esperantinópolis; A ASSEMA discute junto a
essas organizações possibilidades de construção de politicas públicas, formação, geração de
renda e comunicação. Esses jovens são filhos e filhas de quebradeiras de coco babaçu e
trabalhadores rurais que terminam por ocupar os lugares de seus pais em cooperativas e
demais organizações. Assim, o trabalho de acompanhamento e formação crítica da juventude
se constitui também em uma estratégia de resistência e garante a continuação da luta, mesmo
com configurações novas.
Nesse sentido, no seio dessas organizações têm sido forjados outra forma de
conceber algumas politicas públicas, sobretudo a educação, para a formação de um novo
núcleo de lideranças que se gesta. Destarte, como representatividade dessa concepção
encontram-se as Escolas Famílias Agrícolas (EFAs), estas possuem como perspectiva
metodológica e formativa a Pedagogia da Alternância que intercala momentos na escola com
momentos na comunidade, visando uma contextualização dos conteúdos trabalhados. As
EFAs possuem uma coordenação composta por trabalhadores das comunidades rurais que
atendem e norteiam seus trabalhos por princípios da educação do campo, visando formar uma
massa crítica para atuar nas bases, ou seja, nas comunidades rurais em que os jovens residem.
Discussões atinentes ao movimento, como, por exemplo, a história da luta pela terra são
integrantes do currículo. Só a título de exemplo, as duas EFAs situadas no município de Lago
do Junco, sendo uma de Ensino Fundamental e outra de Ensino Médio, levam o nome de dois
trabalhadores assassinados na luta pela terra: Antônio Fontinele e Manuel Monteiro,
respectivamente.
Ainda no âmbito da educação há alguns anos a ASSEMA aderiu ao convênio com
o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária-PRONERA visando formar
educadores da reforma agrária, dentro de uma concepção de educação que valorize o meio
rural com suas inúmeras possibilidades. A concepção que permeia esse projeto esta
visceralmente ligada com as reflexões acerca da luta pela terra, da memória da luta pela terra,
nesse sentido (RIBEIRO, 2010, p.63), terra e escola estão indissoluvelmente imbricadas na
constituição do que os movimentos sociais populares identificam, com o sentido da unidade
politica e da historicidade, como camponês.
Esse programa é um convênio entre movimentos sociais, no caso a ASSEMA e o
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), a Universidade Federal do
Maranhão (UFMA) e o Instituto de Colonização e Reforma Agrária (INCRA/MA). De inicio
o projeto destinava-se à educação de jovens e adultos muitos militantes que não tiveram a
oportunidade de estudar foram para a sala de aula concluir o ensino fundamental. Porém,
muitas comunidades de atuação dos movimentos citados não disponibilizavam escola de
ensino médio e muitos jovens precisavam migrar para a cidade em busca dessa politica
pública. Como demanda e luta dos movimentos construiu-se o I Projeto de Formação de
Educadores e Educadoras da Reforma Agrária terminando em 2005 e o segundo projeto
finalizado em 2009.
Acreditando na necessidade da garantia e permanência das
oportunidades educacionais, os movimentos junto a UFMA conseguiram oferecer para mais
de 200 trabalhadores, inicialmente, o curso em nível superior de Pedagogia da Terra. A luta
por educação de qualidade baliza-se em uma concepção de mundo que se caracteriza como
contraponto à perspectiva capitalista, de construção de sujeitos politicamente conscientes.
Esses projetos de educação veiculam concepções de homem e de sociedade,
representam a politica de enfrentamento ao modelo imposto e refletem-se na memória de um
passado de luta que visa à construção de um futuro melhor. Percebe-se assim, que a memória
do e no movimento social constitui-se em contraposição a uma memória oficial, que
representa os anseios de uma minoria, na consolidação de demandas e projetos de mundo. A
memória do conflito é embebida de lembranças dolorosas, mas não é uma memória que
somente insurge em momentos de intensa tensão social, o seu trabalho é cotidiano, é de
conscientização da luta, apresenta-se em cada demanda construída pelo movimento. Talvez
essa seja a forma de ter garantida a reprodução dentro do movimento social.
Quando se afirma que a memória é conflitiva, se está afirmando a existência
de projetos políticos distintos e que representam por isso mesmo interesses divergentes.
Quando uma concepção se hegemoniza as demais perdem espaço, afinal o universal é um
particular que se universaliza, a memória oficial tem esse papel.
Como toda narrativa, estos relatos nacionales son selectivos. Construir um conjunto
de héroes implica opacar la acción de otros. Resaltar ciertos rasgos, especialmente
los errores y malos passos de los que son definidos como héroes y deben aparecer
inmaculados em esa historia (Jelin, 1998,p. 40)
Verifica-se assim que a memória da luta pela terra demarca um delineamento
de lutas futuras, de concepções de mundo. A identidade forjada na iminente necessidade do
acesso a terra possibilita a configuração de outras, o empoderamento de um grupo. Assim a
memória constitui-se em uma estratégia de resistência, que não deve ser encarada somente
como mera reação das demandas do presente são momentos que marcam também por seu
sofrimento, espoliação e violência, são como diz Maria Alaides coisas que a cabeça da gente
fica sem sair nunca daquilo.
A luta era pesada (...) eu vi a policia entrar, eu vi o companheiro descer do carro;
desceu preso e a gente tinha que ir tirar as coisas de dentro de casa, tem que botar no
terreiro porque eles tinham que queimar a casa. (..) queimou todas as casas ( Dona
Dijé)
E nesta luta constante esses homens e mulheres vão tentando conscientizar o
mundo que a sua história é válida, representa seus sonhos, seus anseios, sua ligação com a
terra.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A luta pela terra marcou a vida de muitos homens e mulheres que hoje fazem
parte de organizações de trabalhadores rurais. A questão é que o precário acesso a terra se
constituiu em uma parte do embate, outros enfrentamentos se fizeram necessários, afinal a
reforma agrária é um sonho que alimenta as ações desses sujeitos. O passado não se desfez,
não foi, não pode ser esquecido. Ele alimenta a luta, na verdade se confunde com a luta
presente, numa simbiose que não permiti que o silêncio se instaure entre o povo que ousa lutar
e o movimento ensina: Cantemos com a nossa voz, mesmo rouca; bailemos com nosso corpo,
mesmo trôpego; digamos a nossa palavra, mesmo insegura (Augusto Boal).
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