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Volume 4, Número 4, Ano 4, Julho 2011
Revista Pesquisa em Foco: Educação e Filosofia
ISSN 1983-3946
SOBRE A CENTRALIDADE DO TRABALHO:
da antropologia filosófica à ontologia do ser social
Vinícius Bezerra*
RESUMO
Este artigo trata sobre o papel de centralidade exercido pelo trabalho no processo de produção
e reprodução do ser social. Sob o lastro da compreensão marxiana-lukacsiana acerca do
homem, traça uma linha de transição no pensamento de Marx de uma antropologia filosófica
para uma ontologia do ser social, expressa especialmente nos Manuscritos EconômicoFilosóficos. Discute, por fim, a contradição existente no capitalismo no tocante ao trabalho.
Palavras-chave: Trabalho. Antropologia filosófica. Ontologia. Marx.
ABSTRACT
This paper is about the role of centrability practiced by labor in the production and
reproduction process of the social being. Under Marx and Lukacs comprehesive foundation
towards men, it draws a line in the transition of Marx’s thought from a philosophical
anthropology to an anthology of the social being, expressed specifically in Economic and
Philosophical Manuscripts. It debates, at last, the existing contradiction of capitalism when
referring to labor.
Key words: Labor. Philosophical Anthropology. Ontology. Marx.
O homem é sem sombra de dúvidas o mais evoluído entre os animais. Há entre ele
e os demais profundos contrastes que de antemão já sublinham estas importantes diferenças.
O computador portátil onde redijo este texto é, por exemplo, algo que não podemos encontrar
como resultado da produção e reprodução da vida de abelhas, pássaros ou orangotangos. Não
apenas o computador ou o celular, mas de modo geral a linguagem, a arte, a cultura, a
política, a religião, o amor, além do trabalho, são aspectos da vida humana que nunca
encontraremos nos demais animais. Estes aspectos estão intimamente entrelaçados ao
processo de produção e reprodução do homem enquanto sujeito. Para que o homem manifeste
sua vida como sujeito, precisa primeiramente garantir a sua própria existência física. Ele,
neste aspecto, está atado à sua condição de ser da natureza. Sua condição corpórea, física,
sensível, o torna objetivo. No entanto, o fato de ter de garantir sua vida, isto é, reproduzir-se
*
Professor de Sociologia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IFMA), Campus
Santa Inês.
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biologicamente, elemento indispensável para toda a vida social, não faz com que o homem se
reduza a esta dimensão. Longe disso, a vida humana não somente não se encerra neste
processo como os próprios processos de reprodução biofísica são condicionados pelo caráter
social da vida humana. O homem, portanto, não é simplesmente um ser natural, mas um ser
natural humano. Este ato de garantir a própria vida, um ato que se dá mediante a relação de
transformação da natureza, é o ato fundante de todos os demais, o ato primevo, sem o qual
não é possível a arte, a política ou o quer que seja no plano humano. Este ato é o que Marx
chama atividade vital ou trabalho. É a especificidade deste ato (que é fundante e, por isso, se
alastra pela totalidade da vida humana) que distingue o homem das demais espécies vivas.
Não é a racionalidade, a consciência ou a religião que torna a espécie humana diferenciada
das demais, como alguns ramos do conhecimento insistem em afirmar, mas o trabalho – a
produção da existência dos homens – que torna e tornou ao longo da história possível a
passagem do ser natural para o ser social.
Pode-se distinguir os homens dos animais pela consciência, pela religião ou pelo que
se queira. Mas eles mesmos começam a se distinguir dos animais tão logo começam
a produzir seus meios de vida, passo que é condicionado pela sua organização
corporal. Ao produzir seus meios de vida, os homens produzem, indiretamente, sua
própria vida material (MARX & ENGELS, 2007, p. 87).
Mas o trabalho não consiste na simples transformação da natureza. O homem se
faz no e pelo trabalho, pois transforma a natureza e a si mesmo e, desse modo, transforma o
mundo. O trabalho é a essência humana, daí seu lugar de centralidade. Pertence unicamente
ao homem, pois, diferentemente da atividade vital dos animais, a atividade de trabalho
humana é consciente.
Antes de tudo, o trabalho é um processo entre o homem e a Natureza, um processo
em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo
com a Natureza. Ele mesmo se defronta com a matéria natural como uma força
natural. Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes à sua corporalidade,
braços e pernas, cabeça e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma
útil para a sua própria vida. Ao atuar, por meio desse movimento, sobre a Natureza
externa a ele e ao modificá-lo, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza.
Ele desenvolve as potências nela adormecidas e sujeita o jogo de suas forças a seu
próprio domínio. Não se trata aqui das primeiras formas instintivas, animais, de
trabalho. O estado em que o trabalhador se apresenta no mercado como vendedor de
sua própria força de trabalho deixou para o fundo dos tempos primitivos o estado em
que o trabalho humano não se desfez ainda de sua primeira condição instintiva.
Pressupomos o trabalho numa forma em que pertence exclusivamente ao homem.
Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha envergonha
mais de um arquiteto humano com a construção dos favos de suas colmeias. Mas o
que distingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o
favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera. No fim do processo de trabalho
obtém-se um resultado que já no início deste existiu na imaginação do trabalhador, e
portanto idealmente. Ele não apenas efetua uma transformação da forma da matéria
natural; realiza, ao mesmo tempo, na matéria natural seu objetivo, que ele sabe que
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determina, como lei, a espécie e o modo de sua atividade e ao qual tem de
subordinar sua vontade (MARX, 1985, p. 149-150).
A essência humana, para Marx, está relacionada à capacidade e disponibilidade
histórica do homem tornar-se social em suas relações concretas, terrenas, mediado pelo
domínio da natureza e pela organização do trabalho. Isto é, a essência humana não é algo que
sempre existiu, e sim o que a existência histórica dos homens efetiva. É importante acentuar a
atividade de trabalho como uma atividade teleológica, pois sem ela – a prévia-ideação no ato
de trabalho – não seria possível a explicitação do ser como ser social. Como afirma György
Lukács (1981, p. 93),
Com o ato da posição teleológica no trabalho, tem lugar o ser social. O processo
histórico da sua explicitação, todavia, implica na importantíssima transformação do
ser-em-si do ser social em ser-para-si e, por conseguinte, implica na superação
tendencial das formas e conteúdos de ser meramente naturais em formas e conteúdos
sociais mais puros, mais especificamente sociais.
O processo histórico de explicitação do ser social consiste no processo de
humanização da natureza e naturalização do homem, isto é, a característica humana se torna
uma natureza para o homem. Ora, o trabalho, como condição de existência da vida humana,
indica que a essência humana é histórica, ou seja, só se explicita no processo de produção
social da existência dos homens por eles mesmos. Longe de tratar abstratamente a essência
humana, como faz hegemonicamente a tradição filosófica, onde nela já estão inscritos todos
os predicados imutáveis do homem (de cada indivíduo), em Marx só se pode falar em
essência humana enraizando-se na vida dos homens reais e ativos, onde o homem precisa
produzir-se como homem, formar-se homem, pois sua humanidade é produzida e aprendida.
Nesse caminho aponta Saviani (2007, p. 154) em correta leitura da perspectiva marxiana:
Podemos, pois, dizer que a essência humana é o trabalho. A essência humana não é,
então, dada ao homem; não é uma dádiva divina ou natural; não é algo que precede a
existência do homem. Ao contrário, a essência humana é produzida pelos próprios
homens. O que o homem é, é-o pelo trabalho. A essência humana é um feito
humano. É um trabalho que se desenvolve, se aprofunda e se complexifica ao longo
do tempo: é um processo histórico.
O ato de trabalho pressupõe, neste passo, um ser de necessidade. Sem
necessidade, ou como em certos momentos históricos – carência –, não há trabalho, não há
impulso para a atividade vital, e é em função da satisfação dessas necessidades que o homem
age pelo trabalho e constrói as mediações para tanto. Tais necessidades, por conta das
mediações (instrumentos e o trabalho para a sua fabricação), não se identificam prontamente
com a atividade de trabalho humana, por isso elas se renovam, se complexificam e se
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ampliam, num movimento infinito. Isso é o que não ocorre com os animais. Este ato, que é o
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primeiro ato histórico, e sua dimensão específica é o significado quando Marx (1978a, p. 41)
diz que a história é o ato de nascimento que se supera.
O primeiro ato histórico é, pois, a produção dos meios para a satisfação dessas
necessidades [comida, bebida, moradia, vestimenta etc, V. B.], a produção da
própria vida material e este é, sem dúvida, um ato histórico, uma condição
fundamental de toda a história, que ainda hoje, assim como há milênios, tem de ser
cumprida diariamente, a cada hora, simplesmente para manter os homens vivos. [...]
O segundo ponto é que a satisfação dessa primeira necessidade, a ação de satisfazêla e o instrumento de satisfação já adquirido conduzem a novas necessidades – e
essa produção de novas necessidades constitui o primeiro ato histórico (MARX &
ENGELS, 2007, p. 33).
Neste itinerário é possível tratar o conhecimento do que diz respeito ao ser dos
homens como uma antropologia filosófica, mas daí mesmo já apontando a crítica. Pois à
leitura
antropológica
do
humano
falta
a
devida compreensão
da dialética
de
apropriação/objetivação do homem em sua relação metabólica com a natureza. Assim, o
acento da diferença para com a noção antropológica (especialmente na crítica à antropologia
feuerbachiana) reclama a necessidade de compreensão ontológica, como aquilo que vai buscar
a raiz, o fundamento último do ser. É o que comprova o filósofo francês Henri Lefebvre
(1994, p. 152) ao asseverar:
Seria o homem, como ser de necessidade, para Marx e para o pensamento marxista,
objeto de uma ciência particular que se poderia chamar de antropologia? Sem
dúvida. Os manuscritos de 1844 esboçam essa antropologia e ao mesmo tempo
contêm a sua crítica. A Antropologia (e a de Feuerbach é o exemplo típico) tende a
imergir o homem na natureza ou a separá-lo dela. Ao contrário, o que é preciso
perceber é a relação conflituosa entre o homem e a natureza: unidade (o homem
mais desenvolvido não se separa da natureza) e luta (a atividade humana arranca da
natureza a satisfação das necessidades humanas, transformando-a, devastando-a). O
fundamento do ser humano na natureza pode legitimamente ser tomado por
ontológico.
A mais límpida explicitação do homem na inteireza de seu ser, isto é, pelo
trabalho, corresponde à explicitação de sua humanidade e liberdade, algo que só pode ocorrer
quando o homem está liberado da carência (ou necessidade imediata, física). Esta objetivação
de si mesmo, nestes termos, corresponde à mais fiel efetivação da essência humana, ou seja,
sua realização ontológica. Entretanto, no capitalismo, a essência humana se efetiva
alienadamente, ou melhor, se desefetiva. Em tal circunstância, o homem, através do trabalho,
se desrealiza. A propriedade privada aliena todos os sentidos humanos, reduzido-os ao
sentido do ter, como Marx afirma nos Manuscritos de 1844. A divisão do trabalho parcializa,
aniquila e fragmenta os homens. Se de um lado, o capitalismo universalizou as relações
sociais e deu um impulso nunca visto antes nas forças produtivas, reduziu o homem a menos
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que uma besta de carga, a menos que um animal que nem ultrapassa as carências e adentra no
campo das necessidades.
O tempo é o campo do desenvolvimento humano. O homem que não dispõe de
nenhum tempo livre, cuja vida, afora as interrupções puramente físicas do sono, das
refeições, etc., está toda ela absorvida pelo seu trabalho para o capitalista, é menos
que uma besta de carga. É uma simples máquina, fisicamente destroçada e
espiritualmente animalizada, para produzir riqueza alheia. E, no entanto, toda a
história da moderna indústria demonstra que o capital, se não se lhe põe um freio,
lutará sempre, implacavelmente, e sem contemplações, para conduzir toda a classe
operária a este nível de extrema degradação (MARX, 1978b, p. 92-93).
O trabalho, no capitalismo, continua sendo o motor de toda a vida social. No
entanto, ao invés de humanizar plenamente os homens (como em seu atributo ontológico) ele
os desumaniza. Esta é a contraditória realidade do trabalho na sociedade mercantil. Mas como
se depreende, trata-se tão-somente de uma condição histórica, determinada, por isso,
superável. É justamente nessa perspectiva que Marx reivindica que a efetivação da essência
humana, superando a alienação, coincide com a realização ontológica dos indivíduos. Ou seja,
a emancipação humana não é outra coisa senão a passagem da individualidade em-si
(espontânea e alheia a toda a produção humana) para a individualidade para-si (consciente),
livre e universal a partir da reapropriação dos meios de produção da riqueza social pela classe
revolucionária. Esta etapa societária corresponde àquilo que Marx chamou de comunismo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LEFEBVRE, Henri. A “praxis”: a relação social como processo. In: Foracchi, M. M.;
Martins, J. S. Sociologia e Sociedade: leituras de introdução à Sociologia. Rio de Janeiro:
LTC, 1994.
LUKÁCS, Georg. In: NETTO, José Paulo (org.). Georg Lukács. (Coleção Os Grandes
Cientistas Sociais). São Paulo: Ática, 1981.
MARX & ENGELS. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.
MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos. São Paulo: Abril Cultural, 1978a.
__________. O Capital: crítica da economia política. Livro 1, Vol. I. São Paulo: Nova
Cultural, 1985.
__________. Salário, Preço e Lucro. São Paulo: Abril Cultural, 1978b.
SAVIANI, Dermeval. Trabalho e educação: fundamentos ontológicos e históricos. Revista
Brasileira de Educação, v. 12, p. 152-165, 2007.
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SOBRE A CENTRALIDADE DO TRABALHO: da antropologia