TRABALHO
Pendurados em fachadas de prédios,
torres de transmissão elétrica e grandes
construções, os operários das alturas
se profissionalizaram. Eles agora
têm equipamentos, formação,
procedimentos e até salários melhores
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DANIEL NUNES GONÇALVES
FOTOS MARIO RODRIGUES
o terraço no 23º andar do Instituto do Câncer, a 112 metros
do chão, um homem observa o
trânsito da Avenida Doutor
Arnaldo. Sobe na mureta, vira-se de costas para a paisagem vertiginosa e pendura-se. Venta e faz frio na tarde
de uma quarta-feira de junho. Suspenso
por uma corda — e preso a outra, paralela,
que entra em ação caso a primeira falhe
—, Mauricio Gomes usa luvas, óculos e
capacete semelhantes aos dos alpinistas.
Contratado para fazer a manutenção da
fachada, ele não é um limpador de vidraças qualquer. Conquista o cume de montanhas há 27 anos, já foi professor de escalada esportiva de mais de 3 000 alunos e
gosta tanto de vãos-livres que ganha di30
nheiro montando circuitos de arvorismo
em festas infantis. “Esse é meu ganha-pão,
mas sempre que posso fujo para a natureza”, diz. Na mesma quarta-feira, ele exercitou sua habilidade fazendo a limpeza
noturna de um frigorífico que funcionava
a 10 graus negativos, suspenso a 40 metros
de altura. “A única iluminação era a da
lanterna do meu capacete”, recorda.
Longe do horizonte dos paulistanos do
andar térreo, Gomes faz parte de um grupo de anônimos que tem mudado o perfil
de quem trabalha nos pontos mais elevados da cidade. Responsáveis pela decoração de edifícios, construção de arranhacéus e instalação de cabos elétricos e torres
de telefonia, os senhores das alturas têm
se profissionalizado nos últimos cinco anos.
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escobri meu amor pela altura escalando
“D
montanhas, aos 22 anos. Cheguei a
topos como os do Pão de Açúcar e do Dedo
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Mais que um limpador
de vidraças
de Deus, no Rio. Dez anos atrás me chamaram
para montar decorações natalinas em locais
de difícil acesso na cidade. Não parei mais.
Trabalhei, por exemplo, na manutenção dos
1 600 metros de dutos de gás que descem
a Serra do Mar e na pintura do topo da Ponte
Estaiada, a 138 metros da Marginal do Rio
Pinheiros. Também faço limpeza de fachadas.
A do Instituto do Câncer (112 metros acima
da Avenida Doutor Arnaldo, foto) levou vinte
dias, com as quatro faces dos 23 andares
sendo lavadas por quatro homens (cada um
ganha 150 reais por dia). Mas minha rotina
é bem variada. No mesmo dia em que limpei
a fachada do hospital, eu me pendurei a
40 metros de altura para fazer a limpeza de um
frigorífico, que fica num galpão gigante. Detalhe:
o termômetro marcava 10 graus negativos
e estava completamente escuro.
Nada de paisagem. A única iluminação
era a lanterna do meu capacete.
”
Mauricio Gomes da Silva,
49 anos, alpinista industrial
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ou um dos treze oficiais que acabam de se formar no Curso de
“S
Salvamento em Altura do Corpo de Bombeiros, o Cesalt. Durante
45 dias, os aspirantes a especialista nesse tipo de resgate aprendem
a sair de situações extremas em grandes desníveis. Tivemos de
simular a busca de vítimas em um teleférico e praticar rapel de mais
de 100 metros na Rodovia dos Imigrantes. Em São Paulo, eu e amigos
como o tenente Sergio Ricardo Vasconcellos (foto acima) usamos a técnica
da tirolesa para descer, suspensos em uma corda, de um prédio de 75 metros
em plena Avenida Paulista. A ideia era preparar-se para ocorrências comuns
como a queda de limpadores de fachadas e de operários da construção civil.
Em outra prova do curso, fizemos evoluções em uma corda que ligava,
por 15 metros, dois edifícios. Difícil era olhar para baixo: a 95 metros
dos meus pés passavam os carros e caminhões na Marginal Pinheiros
(foto ao lado). Mas eu quis virar especialista exatamente por gostar de
desafios. Adoro surfar em ondas grandes e praticar rapel nos fins de semana.
E, no trabalho, já apaguei incêndio no 15º andar de um prédio e salvei uma suicida
que tentava se jogar do 7º piso. Agora, formado, ganhei mais técnica.
”
Tenente Leandro Viana da Hora,
28 anos, bombeiro
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Aventura que pode salvar vidas
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“Há uma exigência maior de formação, de
equipamentos de qualidade e de procedimentos de segurança, especialmente por
parte das grandes empresas”, afirma Gomes. Os populares cordeiros, operários
que ficam atados a balancins e cordas gastas, podem estar com seus dias contados.
É claro que os trabalhadores sem instrução ainda são maioria nas obras pequenas
e médias que mancham os jornais com
acidentes de seu cotidiano. Só a movimentada construção civil paulistana acumulou
nove desastres fatais em 2009 — uma
média maior que o 1,25 óbito mensal dos
últimos cinco anos. O mais recente deles
ocorreu na segunda (6), quando dois homens que limpavam uma caixa-d’água em
Itaquera sem equipamento de segurança
viram ceder um andaime e caíram no poço
vazio com 17 metros de profundidade.
“Custa caro dar treinamento de acesso por
corda e equipamento de primeira linha
para todos os operários que hoje se apoiam
em andaimes ou se penduram em cordas e
balancins rústicos”, admite Antonio Ramalho, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, que representa 300 000 filiados. O Brasil perde
anualmente 5 bilhões de reais com despesas de acidentes de trabalho. “Quem adia
os gastos com prevenção paga o preço das
indenizações”, afirma o auditor fiscal Antonio Pereira, do Ministério do Trabalho.
Segundo o Corpo de Bombeiros de São
Paulo, que mobilizou onze homens no
resgate com helicóptero na caixa-d’água
de Itaquera, quedas assim foram responsáveis por 179 ligações para o número
193 em 2008. Para prestarem socorro a
tanta gente, os bombeiros formam, todos
os anos, especialistas em técnicas verticais. No mês passado, treze oficiais selecionados por aptidão física entre mais de
quarenta candidatos concluíram as sete
semanas do Curso de Salvamento em Altura. Eles enfrentaram provas espetaculares. Na Avenida Paulista, usaram a técnica da tirolesa para percorrer 150 metros
de corda a 75 metros de altura. No
Brooklin, cruzaram 15 metros de um prédio a outro fazendo evoluções em um cabo a 95 metros do asfalto.
Há duas décadas, os próprios bombeiros
não conheciam várias dessas técnicas. O
aprendizado veio com as aulas de montanhistas como Nelson Barretta. Por doze
anos, ele mostrou aos oficiais que manobras comuns em paredões de pedra e gelo
eram possíveis também no ambiente de
concreto. “Foi um movimento mundial: os
escaladores passaram a bancar suas expe33
dições com o pagamento por serviços
prestados na cidade grande”, lembra
Barretta, que teve uma de suas aventuras
registradas em longa-metragem, o nacional Extremo Sul. A substituição de peões
por esportistas de alto nível deu origem ao
termo alpinismo industrial e determinou a
profissionalização do trabalho.
A procura por cursos como o de acesso
por cordas é um bom medidor dessa tendência. Criada dez anos atrás, a primeira
escola dessa área, a Vertical/PRO, já treinou 10 000 alunos, 2 500 só no ano passado. Com a certificação, os especialistas em
altura passam a ter salários valorizados, como no exterior. “Alguns ex-alunos meus ganham 5 000 reais para trabalhar por quinze dias pendurados nas plataformas de petróleo em alto-mar”, conta o
proprietário Marcello Vazzoler, escalador
que chegou a passar oito dias em um paredão e galgou neste ano os 5 895 metros do
Monte Kilimanjaro, na Tanzânia. Com oito anos de experiência em cordas e estruturas metálicas como cordeiro, Girlândio
Francisco da Silva, o Gil, participou de um
curso bancado pela empresa que o contratou para limpar fachadas, a H3. “Meu salá-
rio passou de 700 para mais de 2 000
reais”, diz. “Cheguei a cair de 5 metros de
altura no emprego anterior, e lembro de
colegas que bebiam para conseguir encarar
a altura e pintar prédios.” Além de aprender a reconhecer cordas e mosquetões
distintos, Gil se inspira hoje em companheiros com excelência técnica, como o
escalador Mauricio Gomes.
Apesar da semelhança, os equipamentos
usados nas atividades urbanas verticais
não são mais os mesmos dos esportes, como na década passada. Cintos, trava-quedas e talabartes ganharam versões indus-
Eletricitária voa baixo sobre cabos de alta-tensão
exo com um produto perigoso: a energia elétrica. Vivo amarrada na lateral
“M
externa de um helicóptero para identificar o aquecimento dos cabos
de alta-tensão. Os voos são baixos, a 30 metros do solo, e lentos, a 30 quilômetros
por hora. Chego a 5 metros de linhas energizadas de 88 000 volts — como as da beira
da Represa Billings —, voltagem 400 vezes maior que a dos chuveiros. O risco
é grande. Dois anos atrás, uma aeronave bateu a cauda em um transformador e explodiu.
Gosto de viver no limite até na volta do serviço, acelerando minha moto Suzuki DR 650.
”
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Márcia Queiroz Bonafé,
44 anos, técnica do sistema elétrico de campo
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VEJA SP, 15 DE JULHO, 2009
Ele pilota gruas
de até 120 metros
á seis meses fui promovido de sinaleiro
“H
a operador de grua. Entre os 280 homens
que constroem a nova Estação Luz do metrô, da
Linha 4 – Amarela, só mais dois fazem esse trabalho.
Eu queria trabalhar no alto, até porque o salário é dobrado,
mas tremi muito na primeira vez que subi. Passei pelo
treinamento. Mesmo assim não perdi o medo, o que acho
bom. É perigoso a pessoa ficar autoconfiante a 30 metros
de altura ou mais — e existem gruas de 120 metros!
Quando o vento passa de 42 quilômetros por hora, tenho
de parar tudo e descer rapidinho. Dia desses até carreguei
uma escavadeira de 22 toneladas para o fundo de um
buraco de 38 metros. É ou não muita responsabilidade?
”
Severino Marcos Moura da Silva,
31 anos, operador de grua
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triais, mais robustas e precisas que as leves
peças preferidas pelos montanhistas. “Antes,
tudo era importado, agora há uma dezena de
empresas brasileiras fabricando bons produtos”, afirma o escalador Marcelo Krings, dono
da Soluções para Trabalho em Altura (STA),
companhia para a qual presta serviços Nelson
Barretta. Com contratos que vão de 2 000 reais
a 2 milhões de reais, sua firma, diz ele, cresceu
200% em faturamento nos últimos dois anos.
“Há duas décadas, nem o cinto era usado”,
lembra Márcia Queiroz Bonafé, eletricitária
que hoje é obrigada a utilizar todo o arsenal de
equipamentos possível. Primeira inspetora
aérea a ficar pendurada em um helicóptero da
AES/Eletropaulo, ela voa desde 1990 para
averiguar o possível aquecimento dos cabos de
alta-tensão manejando um aparelho que custa
160 000 dólares, o termovisor. Assim como os
outros oito inspetores do ar e cinquenta eletricistas da empresa habituados às torres de
transmissão, ela ganha um adicional de 30%
pelo risco de sua função. “Adoro viver no limite”, conta Márcia, acostumada a pilotar sua
moto Suzuki DR 650 no caminho para casa.
Além de fazerem cursos específicos, os
eletricitários seguem normas obrigatórias para
evitar acidentes, algo impensável para a maioria dos 3 500 trabalhadores de acesso por corda no Brasil. Para reverterem o quadro, desde
o ano passado representantes de oitenta companhias do ramo — 21 delas paulistas — reúnem-se mensalmente para estudar como devem ser os procedimentos mais seguros para
esse tipo de atividade. “Criamos duas normas
e esperamos que elas se tornem obrigatórias”, diz Erick Lage, da Associação Brasileira de Ensaios Não Destrutivos e Inspeção
(Abendi), instituição certificadora credenciada à Associação Brasileira de Normas Técni36
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cas (ABNT). Por enquanto, grandes empresas adotam regras estrangeiras.
“Com ancoragem em dois ou três pontos, o risco de um acidente grave se reduz
sensivelmente”, afirma o técnico em segurança do trabalho Gustavo Mendes. Com
doze de seus 31 anos dedicados à escalada
e ao resgate em altura, Mendes decidiu
militar pelo tema depois de boas experiências em obras como a da Ponte Estaiada,
podando grandes árvores e desenvolvendo
equipamento industrial para empresas brasileiras. Para ele, falta às companhias seguir a regra de ancorar seus funcionários
em um cabo sempre que estes estiverem a
mais de 2 metros do chão. Isso inclui carregar um caminhão-cegonha ou pintar a
fachada de um sobrado. “Essa primeira
normatização dos trabalhos verticais é
uma pequena mas importante iniciativa
para que os acidentes sejam radicalmente
reduzidos”, diz Rodrigo Ranieri, proprietário da Grade 6, que faz treinamento e
serviços verticais. Com três expedições ao
Everest no currículo, Ranieri conhece bem
as limitações humanas. Ele era o parceiro
38
Da manutenção de ginásios à decoração
natalina de shoppings
uando vai ter jogo da Confederação Brasileira de Voleibol, eu me penduro
“Q
na cobertura do Ginásio do Ibirapuera (foto), 40 metros acima da quadra,
para instalar câmera, tapar goteiras e trocar lâmpadas. Escalo desde os 17 anos.
Subi montanhas com mais de 6 800 metros de altitude, voei de balão por uma
década, participei de resgate em avalanche a 35 graus negativos e viajei oito
vezes à Antártica. Descobri o filão urbano ao atuar como instrutor de atividades
em altura dos bombeiros por doze anos. Crio soluções para instalações em locais de
difícil acesso, da iluminação de um espetáculo à decoração natalina de shoppings.
Não vou ficar rico assim, mas trabalho feliz com o que sei fazer de melhor.
”
Nelson Barretta,
39 anos, alpinista industrial
de Vitor Negrete, o brasileiro que morreu
ao voltar dos 8 850 metros de altitude da
montanha mais alta do planeta, em 2006.
Uma mudança e tanto aconteceu em relação aos procedimentos anteriores às subidas a prédios e estruturas. “Passei por exames físicos, de cabeça e do coração para ser
aprovado como operador de grua”, afirma
o ex-sinaleiro Severino Moura da Silva,
que transporta materiais pesados para dentro do canteiro subterrâneo de obras da
nova Estação Luz do metrô, na Linha 4 –
Amarela. Todos os dias ele tem a pressão e
os batimentos cardíacos medidos. “Se apresentar qualquer alteração, ou até se eu tiver
dormido mal à noite, não me deixam subir”, conta Silva. Para ganhar o salário dobrado, enfrentou a tremedeira no primeiro
dia da nova função. “Já me acostumei, mas
não perdi o medo, o que acho bom. É perigoso a pessoa ficar autoconfiante a 30 metros de altura ou mais.”
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VEJA SP, 15 DE JULHO, 2009
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