GESTÃO E ORGANIZAÇÃO DE FEIRAS DE MATEMÁTICA NO ESTADO DA BAHIA Alayde Ferreira dos Santos,(1) (1) Professora Auxiliar da Universidade do Estado da Bahia – UNEB - Departamento de Educação – Campus VII – Senhor do Bonfim, Rodovia Lomanto Junior, BR 407 – KM 127 – Senhor do Bonfim – Bahia – CEP 48970-000, e-mail: [email protected]. RESUMO A presente reflexão objetiva apresentar, alguns aspectos relevantes para a Gestão e Organização de Feiras de Matemática. Utilizou-se a experiência do desenvolvimento da proposta no Estado da Bahia e o fato das feiras serem baseadas no dinamismo de novas formas de fazer o ensino de matemática. A elaboração de um projeto para realização de uma feira requer de quem a organiza senso de equipe, empenho e muita disposição para atingir aquilo que se deseja. Nessa reflexão será abordado o que é necessário ser feito, definindo-se o que é uma feira, apresentando as etapas a serem seguidas na sua organização e execução e apresentando os maiores entraves. Esta reflexão se destina a todos os interessados em iniciar com o processo de realização das feiras, diretamente, como dirigentes educacionais, professores e alunos, e indiretamente, o público em geral que gostem de visitar e prestigiar uma feira quando de sua realização. Palavras-chave: feira de matemática, gestão, organização INTRODUÇÃO A matemática desenvolvida em sala de aula deve contribuir para que o aluno participe do processo de produção do conhecimento e dele usufrua, incentivando-o a adaptar-se a novas situações, a reconhecer suas habilidades lógico-matemáticas e a empregá-las em situações-problema. É fundamental que a matemática seja apresentada ao aluno como ciência aberta, dinâmica e principalmente fácil de ser entendida e aprendida. Assim, as Feiras de Matemática se apresentam como uma forma de dar oportunidade a professores e alunos divulgarem a Matemática, uma vez que é um evento de natureza didático-científica com propósito de transformar as atividades escolares em laboratórios de aprendizagem científica, com a participação da comunidade, mostrando uma Matemática de forma não elitizada. A execução desse projeto, especificamente na área de matemática, afinado com os principais objetivos da Educação Matemática, valoriza o trabalho de investigação motivando o professor e seus alunos a pesquisarem em matemática, o que é fundamental para a educação voltada para a formação de sujeitos autônomos e capazes de construírem seu próprio conhecimento. Mas, para a organização e gestão de uma Feira de Matemática é 1 necessário antes, seguir alguns caminhos, construir propostas e definir, de forma prática e organizada o que realmente vai ser feito. Serão apresentadas as principais etapas e caminhos ao se organizar uma Feira, seja ela escolar, municipal, regional ou estadual, utilizando-se a experiência do estado da Bahia dando informações aos que estão iniciando a dinâmica de organização e principalmente querendo apaixonar-se por esta atividade, seja como orientador de trabalhos em sala, seja como organizador da feira ou como avaliador. Será feito um breve apanhado do que é necessário para a organização e gestão de uma feira, definindo-a, apresentando as etapas a serem seguidas, apresentando os maiores entraves e dificuldades. FAZENDO A ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DE UMA FEIRA A realização de Feiras de Matemática oferece à comunidade docente a oportunidade de propiciar um ensino com abordagens alternativas, além de contextualização e socialização da matemática, através da orientação de atividades de pesquisa e de aprendizagem para a qualidade do trabalho pedagógico, realizado na Educação Básica e no Ensino Superior. As Feiras de Matemática são um destaque à construção, reconstrução e socialização dos conhecimentos científicos, produzidos por alunos e professores, socializados à comunidade no cenário da educação, oferecendo à comunidade docente de matemática a oportunidade de propiciar um ensino com abordagens alternativas, além de contextualização e socialização da matemática, através da orientação de atividades de pesquisa e de aprendizagem para a qualidade do trabalho pedagógico, em educação matemática realizado nas escolas. Para ABREU (1996) Feira de Matemática é entendida como uma extensão do trabalho realizado em sala de aula pelo coletivo dos alunos e professores e não como um momento de apresentação de trabalhos isolados, realizados por aqueles que se destacam em Matemática, prática adotada em muitos eventos científicos promovidos por Escolas e Universidades. Amplia-se, desta forma, o espaço para a discussão sobre Educação Matemática, sobre compromisso político do professor desta disciplina, que entende que o conhecimento necessário para dominar as técnicas e os métodos exigidos pela sociedade tecnológica, constitui a base fundamental de um nível de saber, não deve pertencer a uma minoria. A primeira ação ao se pensar na feira é entender a sua conceituação, o seu significado e depois partir para a elaboração do projeto de forma geral, da proposta, fazendo um planejamento. Ao planejar uma feira organizamos idéias sobre algo que pretendemos fazer e estabelecemos objetivos e metas, com o propósito de se atingir um determinado resultado. Portanto, tem-se um processo contínuo e dinâmico que consiste em um conjunto de ações intencionais, integradas, coordenadas e orientadas para tornar realidade um objetivo futuro. Segundo VASCONCELLOS (2000) o conceito de planejar fica claro, pois “Planejar é antecipar mentalmente uma ação ou um conjunto de ações a ser realizadas e agir de acordo com o previsto. Planejar não é, pois, apenas algo que se faz antes de agir, mas é também agir em função daquilo que se pensa.” (p.79). Sendo assim para organizar uma Feira de Matemática é necessário ter senso de equipe, organização, empenho e muita disposição para atingir aquilo que se deseja. Após o planejamento, parte-se para elaboração do projeto que é uma ação organizada, ou seja, é o resultado obtido ao se "projetar" no papel tudo o que é necessário para o desenvolvimento de um conjunto de atividades: quais são os objetivos, quais os meios para atingi-los, quais os recursos necessários, onde serão obtidos e como serão avaliados os resultados. No caso do planejamento e organização da feira, segundo Zermiani & Breuckmann (2008) deve-se pensar nas questões Para que? Com quais finalidades? Quais as características dos trabalhos? E como organizar uma feira? Conseguindo respostas a estas questões já é um grande passo para a efetivação do evento. Feito isso, deve-se agora recorrer aos órgãos financiadores para captação de recursos, a exemplo de Secretarias Municipais de Educação, Secretaria Estadual de Educação, Empresas Comerciais, Instituições Privadas, Órgãos de Fomento à Pesquisa, dentre outros. Para ter sucesso nessa busca faz-se necessário ter no projeto o detalhamento do orçamento para material de divulgação, filmagem, locação e montagem dos stands, certificação, coquetel, premiação, sonorização, decoração, material de limpeza e publicação dos anais. A Comissão Organizadora determina uma comissão específica para este item relacionado às finanças, cabendo à mesma a responsabilidade de administrar os recursos, efetuar os pagamentos necessários e fazer, no final do evento, a prestação de contas de tudo que foi feito para a efetivação da feira. A Comissão Central Organizadora é quem faz o planejamento e executa a Feira, não esquecendo que deve haver um vínculo entre o Sistema Escolar e a Comunidade, desde o processo de construção de trabalhos até a organização da Feira. Segundo Sieves, Silva & Bertoldi (2004): Garantir a aprovação da comunidade escolar é um incentivo a desenvolver tal processo, aumentando assim, os laços de relacionamento entre escola e comunidade. Mas para que isto ocorra com sucesso necessita-se de uma considerável gestão organizacional no que tange a parceiros e recursos humanos. (apud ZERMIANI & BREUCKMANN, 2008, p.15) É de fundamental importância esta parceria com a comunidade e o sistema escolar, pois só assim pode-se garantir o sucesso da organização do evento, considerando-se que a feira tem como público-alvo os próprios professores e alunos, os dirigentes educacionais e a comunidade em geral, como visitantes. É do empenho e determinação dos envolvidos que os resultados positivos poderão ser alcançados. E para isso, é feito, aqui no estado da Bahia, pela Comissão Organizadora, encontros com os professores da Educação Básica para o incentivo à elaboração de propostas para futura apresentação nas Feiras, envolvendo as modalidades específicas de trabalhos possíveis de serem feitos. Sobre as modalidades apresentadas nas Feiras, destacamos: Matemática Aplicada e/ou Inter-relação com outras disciplinas: a matemática é um recurso para aplicação direta como forma de se obter um resultado concreto dentro de uma atividade, por assunto e por métodos; Matemática Pura: trabalhos sobre conceitos, operações e propriedades da matemática, ênfase no conteúdo matemático; Material Instrucional e/ou jogos didáticos: material que tem como características o uso de propriedades matemáticas. Todos os trabalhos deverão se enquadrar em uma dessas modalidades sob pena de não ter aceitação da Comissão Organizadora. Daí a necessidade de uma atenção maior do professor como orientador, pois é o principal responsável para que a feira aconteça. O professor é “o principal impulsionador da concretização de novas metodologias e estratégias de ação que possibilitem a construção e efetivação de novos conhecimentos” (FLORIANI, 2000, p.20) e o entendimento do mesmo sobre a importância que a matemática tem como ciência, na Feira de Matemática, só reforça a necessidade de sua valorização e o incentivo de novas formas de produção do seu conhecimento. Sendo assim, é de fundamental importância o incentivo pela Comissão Organizadora, para que mais educadores tenham interesse em expor seus trabalhos. Mas, além dos trabalhos para exposição, os organizadores precisam pensar num local adequado para a realização do evento, que atenda aos itens: área da exposição, recepção dos expositores e orientadores, sala para os avaliadores, local para a secretaria, palco para abertura, premiação, sanitários, praça de alimentação. Além disso, a comissão deve se preocupar sobre onde os trabalhos serão expostos. Mas a falta de stands padronizados não deve ser empecilho para a realização da feira porque o mais importante é a socialização dos trabalhos que serão apresentados. Para a realização de cada feira é feito um regimento que deve ser seguido por todos os interessados. Este será o documento que mostrará as regras a serem seguidas pelos partícipes, ou seja, deverá esclarecer e facilitar o planejamento e execução de uma Feira. De acordo com Zermiani (2007): O Regimento de Feiras de Matemática é constituído de 12 capítulos, em que: CAPÍTULO I: Da Conceituação, Finalidade e Programação, CAPÍTULO II: Da Instituição Promotora, Das Parcerias e Da Organização Administrativa, CAPÍTULO III: Das Atribuições, CAPÍTULO IV: Da Certificação, CAPÍTULO V: Das Inscrições, CAPÍTULO VI: Da Pré-Seleção, CAPÍTULO VII: Dos Expositores, CAPÍTULO VIII: Das Unidades Escolares Expositoras, CAPÍTULO IX: Dos responsáveis/acompanhantes, CAPÍTULO X: Da Avaliação, CAPÍTULO XI: Da Premiação, CAPÍTULO XII: Disposições Gerais e Transitórias (P. 66) O regimento deve ser um só, para as feiras escolares, municipais, regionais e estaduais, obedecendo às especificidades de cada uma para sua realização. Este será o documento que irá delimitar a abrangência que cada feira terá. O mais importante é que sejam definidas as normas para que tanto os organizadores, como orientadores e orientados saibam o que precisam seguir e em que se basear. Prontos o projeto e o regimento da feira parte-se agora para os meios de divulgação, o que pode ser feito através de cartazes, folders, banners, faixas, uso dos meios de comunicação, rádio, TV local, carro de som, etc. O importante é divulgar! Precisam ser formadas equipes de marketing para que essa divulgação atinja o máximo possível de localidades, instituições escolares, dirigentes educacionais, professores e interessados. Algo que é muito importante, mas que infelizmente ainda não está sendo feito aqui na Bahia, é uma parceria com o setor de marketing das instituições promotoras do evento para a construção de um link no site da instituição, específico para a Feira pois com certeza facilitaria a divulgação do evento. Os novos desafios do mundo contemporâneo exigem inovações didático pedagógicas que possam contribuir para que a escola cumpra com seus objetivos de ensino e aprendizagem proporcionando um espaço repleto de possibilidades. E as Feiras de Matemática se apresentam como um caminho para que isso aconteça. Mas, apesar dessa característica, em sua execução, os organizadores enfrentam um problema que apesar de muito discutido, ainda não se chegou a uma solução. Trata-se do processo de avaliação dos trabalhos que são expostos nas Feiras. A avaliação da aprendizagem escolar apresenta-se como um tema que provoca reflexões constantes na área educacional constituindo-se como fonte inesgotável de angústias entre o coletivo escolar. E nas Feiras, está cada vez mais evidente que esse processo é muito preocupante. Este tema provocou reflexões constantes em todos os Seminários de Avaliação das Feiras de Matemática, constituindo-se em angústias para orientadores, expositores e principalmente a Comissão Organizadora, que, é quem é responsável pela equipe de avaliadores, é quem dá as orientações necessárias para que a avaliação aconteça seguindo os critérios definidos no regimento. Entende-se a prática avaliativa como um desafio que exige, principalmente por parte do professor que avalia nas feiras, verificar se o que está sendo apresentado oportunizou ao aluno construir realmente um conhecimento significativo. Exige o domínio de conhecimentos e técnicas adequadas, em relação ao trabalho que está avaliando e a modalidade que o mesmo está inscrito, além da utilização de critérios claros e objetivos, para fazer escolhas e principalmente, ser justo, agir com ética e profissionalismo. Sem esses itens a avaliação perde o seu significado no momento da apresentação de um trabalho. HOFFMANN (1996) esclarece: “entendo que a avaliação, enquanto relação dialógica vai conceber o conhecimento como apropriação do saber pelo aluno e pelo professor, como ação-reflexão-ação que se passa na sala de aula em direção a um saber aprimorado, enriquecido, carregado de significados, de compreensão.” (p.148). Essas características devem ser observadas pelo avaliador porque para um trabalho chegar à feira, alunos e professores no processo da sala de aula passaram por isso. A avaliação nas Feiras precisa perder o caráter competitivo, pois a consideramos um meio ou recurso para verificar se a aprendizagem ocorreu ou não. Ela está a serviço da prática pedagógica como um mecanismo social que busca superar as contradições existentes na sala de aula, tentando dar autonomia ao aluno. CONSIDERAÇÕES FINAIS As reflexões aqui apresentadas foram feitas com o intuito de auxiliar àqueles que tiverem interesse em iniciar na gestão e organização de Feiras de Matemática, apresentando-lhes um esboço, uma direção, com as etapas e procedimentos necessários. E, também aos que apresentam experiência com este trabalho, considerando que isso oportuniza o aprimoramento e o aperfeiçoamento para solidificar este movimento que só tende a crescer e ampliar o número de pessoas envolvidas no processo. Ao organizar uma feira, seja ela escolar, municipal, regional ou estadual, destaca-se o seu objetivo maior, apresentar o resultado de atividades que nasceram primeiramente no chão da escola, ultrapassando seus muros e indo ao encontro do público visitante, da comunidade como um todo. E, para amenizar a questão da avaliação de trabalhos, sugere-se a realização de cursos de formação antes da efetivação da feira, para os interessados em ser avaliador e a formação de grupos que tenham interesse em estudar este tema. Feito isso, com certeza muitos problemas enfrentados por quem organiza uma feira seria amenizado, pois a avaliação seria feita como uma forma de ver o desempenho dos alunos, como um instrumento a serviço da aprendizagem, da melhoria do ensino do professor e do aprimoramento da escola. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA ABREU, M. A. M. As feiras de Matemática: Compromisso Político Pedagógico do Educador Matemático. Revista de Educação Matemática, Blumenau, n.1, ano 1, p. 18-19, 1996. FLORIANI, J. V. Professor e Pesquisador. 2. Ed. Blumenau: FURB, 2000. HOFFMANN, Jussara Maria Lerch. Avaliação Mediadora. Porto Alegre: Editora Mediação, 1996. SEMINÁRIO DE AVALIAÇÃO DAS FEIRAS CATARINENSES DE MATEMÁTICA, 2001. Anais do II Seminário de Avaliação das Feiras catarinenses de Matemática. Blumenau: Edifurb, 2002. VASCONCELOS, Celso dos S: Planejamento: Projeto de Ensino-Aprendizagem e Projeto Político-Pedagógico. Ladermos Libertad-1. 7º Ed. São Paulo, 2000. ZERMIANI, Vilmar José, (Org.). Feiras de Matemática: Um Programa Científico & Social. Blemenau: Acadêmica, 2004. ___________________________ Feiras de Matemática de Santa Catarina: relevância para a educação. Blumenau: Edifurb, 2003. ___________________________& Organização de uma Feira BREUCKMANN, de Matemática. Henrique João. Gestão e Blumenau: Odorizzi, 2008