20 POLÍTICA & PODER Quinta-feira, 21 de junho de 2012 Jornal de Brasília ELZA FIÚZA/ABR CASO CACHOEIRA Vazamento investigado Ministra explicou que “o juiz deu as razões, disse que se sentia cansado, extenuado, e que gostaria de sair” Protegidos pela PF l Ministra pede proteção para ex e ao novo juiz da Operação Monte Carlo em Goiás corregedora Nacional de Justiça, ministra Eliana Calmon, pedirá à Polícia Federal que mantenha a segurança ao juiz federal Paulo Augusto Moreira Lima – que deixou o comando do processo contra o contraventor Carlinhos Cachoeira após ameaças – e que garanta a segurança do novo juiz do processo, Alderico Rocha Santos. Calmon reuniu-se ontem com Moreira Lima, o ex-corregedor-geral do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, Cândido Ribeiro, e o juiz federal Leão Aparecido Alves, que se declarou suspeito para atuar no caso. Na reunião, Calmon repetiu o relato que Moreira Lima fez em ofício encaminhado à Corregedoria do TRF. O juiz disse que não tinha mais condições de permanecer à frente da investigação especialmente depois que seus pais foram procurados em casa por policiais. "O juiz deu as razões, disse que se sentia cansado, extenuado, e que gostaria de sair. No nosso entendimento, deixá-lo depois que ele disse que está cansado seria um ato de desumanidade", afirmou Eliana A Calmon. O grupo de Cachoeira contava com o apoio de 40 policiais civis, militares e federais. A abordagem dos pais do magistrado por um policial foi vista por ele como uma ameaça velada. Ex-delegado da Polícia Federal, Moreira Lima foi removido, a pedido, da 11ª Vara Federal em Goiás para a 12ª Vara. Antes de deflagrada a Operação Monte Carlo, Moreira Lima já havia pedido o respaldo da Corregedoria Nacional para permanecer no caso. Em conversa reservada, contou à ministra Eliana Calmon que não tinha apoio dos colegas, que as provas que ele colhera estavam sendo desqualificadas e que, para completar, estava sob ameaça. Eliana Calmon deve chamar, nos próximos dias, o novo juiz do caso, Alderico Rocha Santos, para uma conversa. De acordo com ela, a Corregedoria quer garantir que ele tenha independência para atuar no processo. Na reunião, o juiz federal Paulo Moreira Lima confirmou as ameaças veladas que vinha sofrendo e afirmou que não tinha mais condições de permanecer no controle do caso. Mesmo andando com carro blindado, sob vigilância da Polícia Federal e armado, o juiz disse à ministra que as ameaças o impediam de permanecer como juiz do processo. A situação chegou ao limite, conforme o relato, quando policiais foram à casa de seus pais dizendo que queriam conversar sobre o processo. Foi a gota d’água. SAIBA + O desembargador Tourinho Neto, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (Brasília), determinou ontem a soltura de Gleyb Ferreira da Cruz. Ele foi um dos presos durante a Operação Monte Carlo, que investigou as relações Cachoeira. A defesa de Cruz pediu que fosse estendido a ele a decisão liminar que havia soltado o réu José Olímpio de Queiroga Neto. Em sua decisão, Tourinho Neto afirmou que os jogos de azar não constituem crime e sim contravenção. Pé no acelerador O juiz Alderico Rocha Santos, que assumiu o processo contra Carlos Cachoeira e outros réus da Operação Monte Carlo, em Goiás, informou que irá acelerar a tramitação da ação penal durante o mês de julho. O depoimento do contraventor foi marcado para o dia 24 de julho, às 9h. “Este juiz, salvo no mês de julho, não poderá instruir o feito nos meses subsequentes em razão do preenchimento da pauta de audiências nos processos de seus ofícios e de férias regulamentares”, explicou Santos, em nota divulgada pela Justiça Federal em Goiás. Na fase da instrução, o juiz avalia as provas colhidas pela polícia e ouve depoimentos de testemunhas para formar convicção se a denúncia do Ministério Público é procedente. Depois, os réus e o Mi- nistério Público fazem as considerações finais, fase seguida pelo voto do juiz. Alderico Santos informou que a concentração de esforços para concluir a instrução da ação penal ainda no mês de julho não implicará perda de garantias a todos os direitos dos acusados, “já que haverá tempo suficiente para o estudo do processo”. O juiz ainda disse que vê com “muita preocupação" a denúncia do juiz Paulo Moreira Lima, que o antecedeu no caso, de que está sendo vítima de ameaças de policiais goianos ligados a Carlinhos Cachoeira, apontado nas investigações como líder da quadrilha que controla jogos ilegais em Goiás. “O caminho da intimidação e da violência não leva à solução, mas a problemas maiores“, argumentou. O vazamento de informações da Operação Monte Carlo será investigado pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região e pela Polícia Federal. Além das ameaças que sofria por comandar o processo contra o contraventor Carlinhos Cachoeira, o juiz federal Paulo Moreira Lima reclamava da suspeita levantada pelos colegas de que as provas obtidas nas investigações seriam ilegais, de pressão interna e do vazamento de informações da Operação Monte Carlo antes que fosse deflagrada. As suspeitas pelo vazamento pesam sobre a mulher do juiz Leão Aparecido Alves e sobre uma servidora da confiança do magistrado, que é titular da Vara onde Moreira Lima estava. O vazamento foi confirmado pelo magistrado ao CNJ em março. A Polícia Federal detectou o vazamento de informações, comunicou o magistrado e passou a investigar os indícios na tentativa de encontrar o responsável. Ao mesmo tempo em que o vazamento era descoberto, o juiz Leão Aparecido Alves soube que um telefone que estava em seu nome estava sendo monitorado. Por isso, o juiz encaminhou à Corregedoria-Geral do Tribunal Regional Federal da 1ª Região uma representação contra Moreira Lima. No dia seguinte à representação, o corregedor-geral do TRF1, Cândido Ribeiro, foi a Goiânia para ouvir Moreira Lima. Conforme relato feito ao CNJ, Moreira Lima teria ouvido críticas à sua conduta e a afirmação de que deveria abandonar o caso, pois estaria "apaixonado pela causa". RESPALDO Moreira Lima foi então a Brasília para pedir respaldo da corregedora Eliana Calmon. Para solucionar a crise interna, um juiz auxiliar do CNJ foi a Goiânia mediar uma conversa entre Leão Aparecido Alves e Moreira Lima. O embate poderia comprometer a Operação Monte Carlo, que seria deflagrada semanas depois do episódio. As críticas feitas pelo juiz federal do TRF1 Tourinho Neto, no julgamento de habeas corpus a favor de Cachoeira, também incomodaram Moreira Lima. "Não se pode haver a banalização das interceptações, que não podem ser o ponto de partida de uma investigação, sob o risco de grave violação ao Estado de Direito", afirmou Tourinho Neto. Além de tudo isso, Moreira Lima passou a ser ameaçado, o que pesou decisivamente para sua saída do caso. "Minha família, em sua própria residência, foi procurada por policiais que gostariam de conversar a respeito do processo atinente a Operação Monte Carlo, em nítida ameaça velada, visto que mostraram que sabem quem são meus familiares e onde moram", afirmou o juiz ao renunciar à causa.