54 Guenther Bernert e a rainha da Suécia No ano do meu nascimento 1941, o exército alemão (Wermach) juntamente com a força aérea (Luftwaffe) deu inicio à campanha da Rússia. Com quinze anos juntamente com um primo chamado Ernane Tomaz fomos ao Clube Alemão do Picanço conhecido na época como Tibagi Clube. O clube Alemão hoje existente é feito de alvenaria de tijolos e concreto armado e situase a algumas quadras do club original da Alameda Yayá. Tinha ouvido também que muito antes do clube Alemão da Alameda Yayá havia outro clube mais antigo que o meu pai havia freqüentado. Tratava-se de um galpão grande, feito em alvenaria e que ficava nos fundos da rua Dona Tecla. O Clube dos Alemães estava situado no Picanço tendo acesso a Alameda Yayá numa área com aproximadamente 30mil metros quadrados cheia de arvores bem altas, talvez resquícios das antigas florestas de Guarulhos. Logo na entrada do portão estava uma construção em madeira enorme num estilo alemão com telhado bastante inclinado. A construção estava a cerca de 1,5m acima do solo, havendo uma escada para subir. Na época o clube já parecia velho. Dentro havia um balcão de bar semelhante aos usados na Europa, coisa que não existia em Guarulhos na época. Junto ao bar estava escrito em alemão e que traduzido para o português significa mais ou menos isto: no céu não tem cerveja então vamos bebê-la aqui. Lá conheci um alemão chamado Guenther Bernert , homem de estatura média, sempre numa atitude e posição de respeito. Ficava quieto tomando a sua cerveja ou chope e pouco conversava. Cumprimentava a todos, mas quase não conversava com ninguém. Tinha impressão que era um engenheiro, um técnico de alto nível, mas o mesmo não falava a respeito. Conheci a sua filha Anne Marie que estava sempre conosco nos bailes aos domingos ou quando fazíamos visitas aos outros clubes alemães localizados em São Paulo. Mais tarde o Guenther Bernert entrou no Rotary Club Guarulhos Vila Galvão e recebeu o troféu Paul Harris em março de 1983. Um dia ele trouxe uma fotografia tirada na época em que comecei a freqüentar o clube alemão. Fora tirado de dentro do clube com as moças e os moços sentados e de pé. Dava para se ver as janelas abertas e as árvores existentes ao fundo. Tratava-se de uma tarde de domingo ensolarada. Na fotografia aparecia numa mesa várias moças e em lado estava o Guenther Bernert . O Guenther me mostrou uma moça e disse-me se tratar da Sílvia, rainha da Suécia. Soube depois que ela morava na capital de São Paulo e estudava na escola alemã denominada Colégio Porto Seguro. Aos domingos, de vez em quando, vinha visitar uns parentes no Picanço em Guarulhos e ia aos bailinhos no Tibagi Clube. O Guenther me disse que neste dia eu estava lá, mas não sai na fotografia. Realmente me lembrei dos amigos e amigas que estavam na fotografia. Mais tarde li em um jornal que realmente a rainha da Suécia era brasileira. No rotary club Guarulhos Jardim Vila Galvão eu e o Bruno, gerente da antiga indústria Febernati, que ficava na rodovia Dutra perto do Estádio Fioravanti Iervolino. Fizemos amizade com o Guenther e íamos uma vez por mês tomar cerveja e jogar bolão no Tibagi Clube que já era o clube novo. O bolão é um jogo parecido com o boliche. O Guenther jogava bem, mas nós só íamos tomar cerveja e comer comida alemã. Varias vezes, íamos primeiramente a casa do Guenther, batíamos um papo e tomávamos uma cerveja. Sua casa parecia uma casa de boneca e ficava próxima ao clube e na rua 24 de outubro no Picanço perto do atual Anel Viário. Um dia o Guenther se dirigiu a sua biblioteca, pois, via-se que lia muito, e nos mostrou um livro grosso escrito em alemão. Folheou as páginas até encontrar uma fotografia. Lá estava o Guenther Bernert de uniforme militar junto ao famoso General Heinz Guderian (1888-1954), o pai do Blitzkrieg (guerra relâmpago) que comandava as divisões de tanques da Alemanha e que tanto trabalho deram aos Europeus. Foi o que me parece o criador das panzer divizione que atacaram e derrotaram os franceses passando por trás da linha Maginot. Desde criança aprendi o que era a linha Maginot. Os franceses com medo da Alemanha fizeram uma fortaleza fixa inexpugnável, invencível, com trens subterrâneos e 1 grandes canhões apontados para a Alemanha. Minha mãe contava que os franceses dançavam em Paris e não sabiam que os alemães muito espertos entraram pela Bélgica e atacaram a linha Maginot por trás e os canhões não podiam atingi-los. Parece piada, mas isto realmente aconteceu. Conversei uma vez com um libanês de Guarulhos que estudava na Inglaterra e em visita na Alemanha na época, cumprimentou Hitler e disse que estava na Inglaterra quando os alemães passaram a linha Maginot por trás. Disse que foi algo de impressionante e de admiração geral. Aqueles tanques eram comandados pelo general Guderian. Contei isto para minha filha mais tarde e ela riu de como os franceses colocaram os canhões que só podiam disparar somente para a frente. Os dois estavam em frente aos últimos tanques alemães da época. O Guenther nunca me falou qual o seu posto militar e nem o que significava aquela fotografia. Vários amigos alemães de Guarulhos que freqüentavam o Tibagi Club, nunca ouviram falar sobre o que o Guenther me contara. A minha sogra, filha de alemães e que freqüentava também, quando moça, o Tibagi Club disse que o Guenther era simpático, inteligente, mas nunca comentava nada sobre a guerra e que isto era comum também entre os outros alemães, pois temiam represálias. Uma vez o Guenther me disse: —-Plínio, nasci em Santa Catarina, portanto sou brasileiro. Lutei a favor de São Paulo na revolução constitucionalista de 1932 e perdemos a guerra. Lutei na guerra a favor da Alemanha em 1939 a 1945 e perdemos também. Todas as guerras que lutei eu perdi. Não disse isto pesaroso, mas em tom de brincadeira, com o seu formoso sotaque alemão. Foi o Guenther Bernert que me disse que estavam mais de 80mil soldados brasileiros lutando a favor da Alemanha, mais do que os 23.344 brasileiros lutando contra o eixo (Alemanha, Itália e Japão) na segunda guerra mundial. Nunca vi isto escrito em nenhum lugar, mas sei de muitos amigos e conhecidos que lutaram na Alemanha naquela época e que se diziam descendentes de alemães. O que o Guenther Bernert fazia eu não sei. Eu e o Bruno achávamos que ele devia entregar medalhas da cruz de ferro ou que ele pertencia ao serviço de inteligência da Alemanha, pois esteve em um número enorme de frentes de batalhas, inclusive em Stalingrado. Havia onde hoje é o aeroporto internacional de Guarulhos, quando tudo era mato e campo, um galpão enorme onde ficavam aviões planadores alemães de treinamento. O meu sogro que era alemão, nascido em Leipzig fez curso de pilotagem. Após os treinos faziam festas com chopes e comidas típicas alemãs com bastantes moças e músicas para alegria de todos. Meu sogro disse que todos os filhos de alemães de Guarulhos que foram para a Alemanha antes da guerra e lutaram na Luftwaffe não voltaram. Morreram todos. Graças a seu pai que tinha lutado na primeira guerra mundial e sabia qual seria o resultado, o meu sogro foi proibido de ir para a Alemanha. Uma vez li que anos após o término da guerra, o comandante das forças aéreas alemãs era um brasileiro nascido em Santa Catarina. O Guenther que era rotariano viajou até a África do Sul e foi bem recebido, sendo feito homenagem especial para ele. Trouxe um monte de fotografias e mostrou para todos no Rotary. Mais tarde ele foi para a Alemanha num clube rotário, sentou-se a uma mesa e ninguém conversou com ele. Voltou totalmente magoado e decepcionados com o rotary da Alemanha, justo ele que lutara cinco anos ao lado daquele país. O Guenther morreu com aproximadamente uns 80 anos. A sua esposa continuou a freqüentar o rotary com as outras mulheres dos rotarianos e depois não apareceu mais. Quanto ao que foi realmente o Guenther nunca saberemos, mas era um homem culto, inteligente e integro. Por incrível que pareça conheço um outro Guenther que também é rotariano e que nasceu em Santa Catarina. Dá impressão que todos nasceram em São Bento do Sul, Jaraguá e Pomerode. Contou-me este outro Guenther que estava doente e o médico sugeriu à família que se deveria mudar para a Alemanha para se curar. Foi para a Alemanha, formou-se em engenheiro quando estourou a guerra. Imediatamente foi convocado como oficial devido aos seus estudos de engenharia. Foi mandado a lutar justamente contra os brasileiros. 2 —Não vou lutar contra os meus irmãos brasileiros, ele disse, pois eu sou brasileiro. Assim o Guenther foi para encaminhado para a corte marcial. Estava sentado aguardando para ser julgado quando um major alemão lhe perguntou qual o problema que ele tinha. Contou e o mesmo lhe disse que era da África do Sul e que compreendia o problema do Guenther. Pediu para aguardá-lo. Depois voltou e disse ao Guenther: —Você está doente. —Eu não estou doente ! —Não, você está doente, compreendeu. O Guenther foi para o hospital e o major conseguiu resolver o problema da corte marcial e foi enviado para a frente russa, que era a pior de todos. Contou-me também, que os alemães desenvolveram o avião a jato, mas quem inventou realmente foram os italianos. Este ainda está vivo. 3