ASSOCIAÇÃO DOS CONSULTORES LEGISLATIVOS E DE ORÇAMENTO E FISCALIZAÇÃO FINANCEIRA DA CÂMARA DOS DEPUTADOS Cadernos ASLEGIS ISSN 1677-9010 / www.aslegis.org.br BORGES Alberto Pinheiro de Queiroz Filho Cadernos Aslegis, v.11, n.32 , p. 125-133, set/dez 2007 http://bd.camara.leg.br Borges Alberto Pinheiro de Queiroz Filho* Sem me dar conta de quais seriam suas verdadeiras e últimas pretensões, concordei em participar daquele jogo de espelhos no qual se escrevia o texto em que eu, ele, Jorge Luís Borges e os leitores nos mirávamos como imagens uns dos outros sem qualquer esperança de encontrar um centro possível. * Consultor da Área de Redação Parlamentar. 125 Cadernos ASLEGIS Nº 32 - setembro/dezembro de 2007 Resumo Naturalmente perturbado pelo inusitado acontecimento, percorri em alguns segundos a biblioteca fantástica de Borges e visualizei o horror de quem tudo vê e compreende com exatidão, a frustração de não poder retocar as obras todas em sua perfeita imobilidade e acabamento divinos, o sofrimento de reconhecer em cada minúsculo evento do cosmos a repetição irrefreável do mesmo movimento circular que faz todas as sombras serem iguais ao que representam cada vez que o sol cumpre o mandato de estar no lugar que lhe cabe, e não outro, na dança recíproca dos astros que reconhecem na negação que lhe impõem seus parceiros a razão de ser da gravidade que a tudo ama e a tudo perdoa. Compreendi que devia recusar a biblioteca proposta por Borges porque essa seria a única maneira de torná-la real. Não devia continuar a anotar suas instruções para organizar os livros ou mesmo a referência cruzada entre os autores que justificaria a participação em um ou outro dos círculos concêntricos, nos quais se repetiria, a cada volta, a mesma idéia, a mesma pergunta, a mesma escritura. Palavras-chaves Borges Realismo fantástico Primeira República - Aleph 126 Borges BORGES Quem no mundo das palavras se depara com Borges pensa logo no escritor portenho que, depois de ter visto, no Aleph, todos os lugares da Terra sob todos os pontos de vista possíveis, morreu cego, entre livros reais, cercado de bibliotecas imaginárias. Mas o Borges que eu conheci não era cego e parecia ver o mundo sob apenas dois pontos de vista. Enquanto caminhava pelos corredores da Câmara, folheando seus livros de areia, murmurava orações inaudíveis em busca de absolvição pelo pecado de ter compreendido mais do que devia sobre o eterno retorno que nutre o discurso dos místicos e atormenta a lógica dos filósofos. Quando o conheci, pensei que mancasse da perna direita, condição que se adaptaria muito bem à idéia que eu começava a formar acerca de sua personalidade distorcida. Não porque com isso ele confirmasse a tese de que a arte é fruto de uma deformação da personalidade não me pareceu que fosse artista -, mas porque a hipótese de uma enfermidade de base genética ou causada por estilhaços metálicos ajudaria a compor o quadro em que ele protagonizaria a cena de um sacrifício redentor. Qual seria se não essa a explicação para um comportamento tão enigmático? Mas ele não mancava. A impressão era causada pela inclinação exagerada do corpo alto e magro no caminhar ritmado, que vez por outra produzia um pequeno, mas perceptível movimento de elevação do ombro, tal qual o de uma roda que, ao girar, encontrasse um ressalto sobre o eixo. Borges me foi apresentado rapidamente num encontro fortuito no corredor formado pelos tapumes colocados pelos reformadores da biblioteca. Eu descia para consultar o acervo e ele subia para tomar ar na superfície, depois de horas submerso entre as páginas das obras raras em que realizava sua pesquisa iconográfica. A figura que de longe era só estranha de perto causava o mesmo incômodo de uma imagem desfocalizada. A impressão de que seus contornos estavam borrados vinha em parte dos olhos ampliados pelas lentes muito grossas de seus óculos redondos e em parte do desalinho das roupas parecia colocar nas casas erradas os botões da camisa torta. 127 Cadernos ASLEGIS Nº 32 - setembro/dezembro de 2007 - Isso aqui está parecendo um quebra-cabeça eu disse a Carlos Brasileiro, sabendo que ele compraria a provocação. - Sim, mas não esqueça que o pior de todos os labirintos é o deserto ele respondeu, citando Os Dois Reis e os Dois Labirintos, conto do autor homônimo do personagem que nos observava e de quem, eu pensava, erroneamente, ele fosse amigo íntimo. Carlos tornara-se conhecido na Câmara pela publicação em fascículos de um volumoso poema histórico sobre os ciclos de afirmação e negação da identidade nacional. Ao primeiro encontro seguiu-se um segundo, nas mesmas condições, em que Borges apenas acenou com a cabeça, justificando a pressa com o enorme volume de papéis e livros que levava abraçados ao corpo. Achei que a conversa estava encerrada e que os dois literatos, Borges e Carlos, seguiriam cada qual seu curso, fiéis a suas respectivas enciclopédias, mas, como todo verbete que se aperfeiçoa, mantendo-se abertos a encontros esporádicos. Mas estava enganado. Muito antes do que eu pensava, a conversa seria retomada, num plano totalmente inesperado. - Não faz diferença pensarmos se existe ou não o livre arbítrio. De qualquer forma, a História se escreve de trás para frente e todos nós caminhamos sobre nossas próprias pegadas. A tese esdrúxula me foi apresentada por Borges na lanchonete do Anexo IV. Eu estava sentado, tomando um café, e fui surpreendido por sua presença incontornável. Quando me dei conta do que estava acontecendo, a mesa já estava cheia de papéis e ele me observava por trás de suas lentes com um ar inquiridor. Tomou a palavra e a conduziu com leveza pelos meandros de uma crítica sutil à preferência de Carlos pelos liberais ingleses, um misantropo que qualquer dia desses se converteria ao logicismo estéril dos iconoclastas arrependidos. A facilidade com que saltava de um tema a outro para logo em seguida retomar o anterior, submetido à crítica de um novo pensamento, dificultava minha participação na conversa. Não me faltava interesse, apenas não conseguia entrar e ficar no carrossel que girava sem ritmo definido. Ele me tratava com a familiaridade de um autor que reencontra 128 Borges na máquina de escrever o personagem que constrói todos os dias. A certa altura fez uma pausa e afirmou: - Os grandes homens reescrevem o passado. Aliás, a única forma de medir a escritura de um homem é por essa capacidade de reescrever o passado. Fez nova pausa e acrescentou: - O tempo é circular mostrou as palmas das mãos para cima é óbvio... - Ergueu as sobrancelhas, esperando o sinal irrecusável de concordância. Depois de ir até o balcão para pegar um segundo café, começou a discorrer acerca da pesquisa que vinha fazendo sobre homens ilustres da Primeira República. Nomes que ninguém conhecia, mas que deveriam sair das mesas dos especialistas e ganhar vida própria. As alterações no passado naturalmente produziriam modificações na estrutura do presente, já que toda consciência tem uma dinâmica temporal bipolar. E quanto a Jorge Luís Borges? Desse ele não gostava. Considerava o autor de O Imortal previsível e repetitivo. Espelhos, labirintos, sonhos e devaneios, moedas e frases mágicas, tigres, memória e esquecimento nada mais seriam que cifras de uma mesma idéia obsessiva, a busca de um ponto fixo além do qual não fosse possível recuar, no centro do qual todo julgamento moral cessaria, um ponto em que a própria língua se quedaria satisfeita, sem necessidade de voltar-se constantemente sobre si mesma em busca de uma síntese mais sutil e mais perfeita que aquela que a antecedera na corrida frenética do conhecimento transformado em luxúria. Os grandes olhos me fitaram com uma finíssima ponta de ironia: - Acerca do motor imóvel muito já se disse, não é verdade? Para que recolocá-lo em movimento? Permaneci mais algum tempo na mesa, sozinho, fitando a relação com os nomes que Borges pretendia tirar do esquecimento: Saldanha Marinho, Teixeira Mendes, Francisco Glicério. J.J.Seabra, Bernardino de Campos, Alcindo Guanabara, Júlio de Castilho e vários outros, envolvidos por diferentes graus de obscuridade histórica. Coincidência ou não, encabeçava a lista Antônio da Silva Jardim, o republicano radical que, inconformado com os rumos da política, exilou-se na Europa e morreu 129 Cadernos ASLEGIS Nº 32 - setembro/dezembro de 2007 em Nápoles, em 1891, tragado por uma cratera do Vesúvio de que se havia aproximado perigosamente. No dia seguinte fui até a seção de Obras Raras e consegui dar uma olhada no livro Le Brésil Contemporain, de Pietro Ronelly, de onde meu novo amigo havia feito a seleção de fotografias. Beatriz, a gentil bibliotecária que me atendeu, não respondeu quando perguntei se conhecia Borges. Fiquei em dúvida se ela tinha ou não escutado a pergunta, e não insisti. Chamou minha atenção o fato de as paredes da sala serem muito brancas e de não terem nenhum quadro pendurado, o que me pareceu ser um desperdício num local que guardava tantas imagens valiosas. Fiquei duas semanas sem encontrar Borges. Como não tinha seu telefone, passei a freqüentar a biblioteca no mesmo horário em que havíamos nos encontrado. Não apareceu também na lanchonete e supus que estivesse de férias. Estava curioso para saber qual o destino que ele daria aos nomes que me havia apresentado. Ainda que não tivesse qualquer pretensão de extrapolar os limites técnicos de meu trabalho na revisão de textos, senti vontade de acompanhar o destino daqueles fragmentos de história lançados no curso imprevisível de uma mente tortuosa. Aqui, um parêntesis: quando disse que ele via o mundo sob dois pontos de vista, me referia não às perspectivas intelectuais ou críticas, que, no caso dele, não se restringiam às limitações de um maniqueísmo qualquer. Referia-me às visões do influenciado e do influente, do bom senso e da excentricidade, do politicamente correto e da irreverência extravagante. De acordo com sua conveniência, Borges mostrava um ou outro ponto de vista. Por conta própria, fiz uma pesquisa sobre as circunstâncias em que aqueles homens haviam sido arrebatados pela Roda-da-fortuna, na esperança de identificar um fio condutor para a escolha de Borges. Imaginei que, munido daquelas informações, poderia participar de forma mais ativa nos diálogos em que costumava ser apenas ouvinte com direito a concordar ou dizer sim. Mas fui novamente surpreendido pelo colega que, se não era o autor de A Escritura de Deus, tampouco escondia suas pretensões à 130 Borges imortalidade - se não sua própria, pelo menos daqueles que decidia colocar no panteão dos eleitos que resgataria do esquecimento. Quando cheguei ao corredor formado pelos tapumes de madeira, Borges parecia me aguardar. Tranqüilo, com a camisa torta e os braços estendidos, momentaneamente liberados do peso dos livros, me cumprimentou com um aperto de mão e me chamou para que o acompanhasse escada abaixo, na direção do subsolo. - Você conhece a fábula O Reformador da Natureza? perguntei, como se antecipasse o que estava por vir. Não obtive resposta. Entre as prateleiras, Borges começou a montar seu quebra-cabeça, discorrendo sobre os pontos cardeais de sua futura biblioteca Homero, Newton, Platão e Weber e como arrumaria as estantes dispondo-as em forma de mandalas concêntricas. Depois de falar sobre cada um dos quatro primeiros, começou a caminhar em círculos, de um ponto a outro, explicando, ao longo de cada percurso, as relações possíveis entre eles e os novos pontos que criavam, no mesmo nível ou em órbita inferior, mais próxima do centro. Entre Homero e Platão, colocou Plotino, depois intercalou Giordano Bruno, Mestre Eckart, Upanishads, Jung, I Ching. Entre Newton e Plantão, colocou Aristóteles; entre Newton e Weber, Russel; entre Homero e Weber, Freud. Ele caminhava de uma estante a outra e de vez em quando parava, erguia a cabeça e pronunciava um nome como se cravasse no chão um novo marco na divisão de terras em litígio: Heródoto, Camões, Heidegger, Marx, Kant, Schopenhauer, Shakespeare, Dante, Padre Vieira, etc, etc, etc. Enquanto desenhava aquela genealogia improvável, Borges me envolvia no seu emaranhado de palavras, deixando pouca margem de manobra para que eu escapasse à teia de significados com a qual parecia querer reencontrar o encantamento do mundo. Com uma caneta e um bloco na mão, eu anotava o que ele falava, organizando, a seu pedido, o fluxo de consciência que brotava sem qualquer obstáculo. Sem me dar conta de quais seriam suas verdadeiras e últimas pretensões, concordei em participar daquele jogo de espelhos no qual se 131 Cadernos ASLEGIS Nº 32 - setembro/dezembro de 2007 escrevia o texto em que eu, ele, Jorge Luís Borges e os leitores nos mirávamos como imagens uns dos outros sem qualquer esperança de encontrar um centro possível. É claro que, mesmo sendo infinitas as imagens nos espelhos, as relações entre os livros e a multiplicação de idéias que produziam, em algum momento Borges teria que pôr um fim a sua empreitada. E ele o fez, sem qualquer constrangimento, lançando mão de um artifício tão simples quanto um jogo de crianças. A partir de certo momento, começou a murmurar nomes incompreensíveis, uma ladainha, uma oração, enquanto percorria a trajetória de uma espiral imaginária, até que os movimentos circulares foram ficando muito pequenos e ele parou, totalmente mudo, com os olhos fixos no chão e as mãos arriadas ao lado do corpo. Ficou assim por um tempo e depois, sem olhar para mim, caminhou na direção da porta e desapareceu entre as estantes. Naturalmente perturbado pelo inusitado acontecimento, percorri em alguns segundos a biblioteca fantástica de Borges e visualizei o horror de quem tudo vê e compreende com exatidão, a frustração de não poder retocar as obras todas em sua perfeita imobilidade e acabamento divinos, o sofrimento de reconhecer em cada minúsculo evento do cosmos a repetição irrefreável do mesmo movimento circular que faz todas as sombras serem iguais ao que representam cada vez que o sol cumpre o mandato de estar no lugar que lhe cabe, e não outro, na dança recíproca dos astros que reconhecem na negação que lhe impõem seus parceiros a razão de ser da gravidade que a tudo ama e a tudo perdoa. Compreendi que devia recusar a biblioteca proposta por Borges porque essa seria a única maneira de torná-la real. Não devia continuar a anotar suas instruções para organizar os livros ou mesmo a referência cruzada entre os autores que justificaria a participação em um ou outro dos círculos concêntricos, nos quais se repetiria, a cada volta, a mesma idéia, a mesma pergunta, a mesma escritura. Os textos que ele havia me passado começavam a fazer sentido demais, precisava me livrar deles. Com esse pensamento obsessivo, desci um nível nas escadas do subsolo e entrei na seção de Obras Raras, onde me deparei com os funcionários ainda de luto pela aposentadoria inesperada de Beatriz. 132 Borges Para minha surpresa, a parede maior exibia uma coleção de quadros com fotografias de personagens ilustres da Primeira República. Ah, então Borges havia conseguido levar adiante seu projeto... Talvez. Mas era curioso que os quadros apresentassem uma marca inconfundível de envelhecimento, que confirmei erguendo dois deles: ao contrário dos contornos amarelecidos, a parte da parede que eles cobriam permaneciam brancas, formando um contraste que indicava terem sido pregados ali há muito tempo. Revi mentalmente meus encontros com Borges centenas de vezes. Não tenho dúvidas de que na minha primeira passagem pela seção de Obras Raras, as paredes estavam brancas. Foi algo que me chamou atenção. Também não sei dizer por que nunca perguntei onde ele trabalhava. Talvez até já esperasse a notícia de que ele não era funcionário da Câmara e que não tinha registro na seção de consulta e empréstimos da biblioteca. Sem dúvida, um dia eu voltaria a encontrar Carlos, o poeta premiado, que embarcara para Portugal envolvido em estudos prolongados sobre literatura comparada. Certamente ele também julgaria imprudentes as associações que me povoavam o espírito. Quando reuni minhas anotações e os textos escritos pelo próprio Borges, percebi a dissonância entre dois pontos de vista concorrentes: o realista e objetivo, amparado em fatos históricos demonstráveis, e o fantástico e idiossincrático, construído na forja da imaginação sem lastro. Reconheci o valor do primeiro e me dispus a contribuir para levar adiante a pesquisa sobre os próceres republicanos. No mais, o que me restou, como resultado concreto de todas aquelas coincidências, foi me ver lançado na estranha situação de ter que apresentar aos leitores os detalhes desta história fantástica, na esperança de que com isso eu pudesse melhor compreender o último texto que me foi entregue por Borges e no qual ele esboçava o projeto de um livro no qual o autor seria escrito pelo personagem. Sempre que revejo o texto, fico com a sensação de que ele não teve escrúpulos em me usar para atingir seu objetivo. 133