O ESTADO DA ARTE: PESQUISAS SOBRE A CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA FRENTE ÀS DEMANDAS DAS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO Greiton Toledo de Azevedo1 Jose Pedro Machado Ribeiro2 RESUMO O presente trabalho traz uma síntese integrativa do conhecimento sobre a construção da identidade do professor de matemática frente às demandas lançadas pelas Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), com base na análise de periódicos, dissertações e teses defendidas nos programas de Pós-Graduação em Educação do país, de 2012-2014, além de artigos publicados no XI Encontro Nacional de Educação Matemática (ENEM, 2013), que está ligado, de forma orgânica, à própria história da Sociedade Brasileira de Educação Matemática – SBEM. Nessa perspectiva, pois, este estudo, de cunho bibliográfico, alicerçado nos pressupostos do Estado da Arte, a partir de um mapeamento dos trabalhos coletados e analisados, apresenta, em forma de inferência, a produção científica sobre a identidade do professor de matemática que vem sendo discutida nesses três últimos anos, percorrendo o universo de atuação dos seus sujeitos e aspectos da formação e de seu processo de profissionalização docente frente às tecnologias. Palavras-Chave: Identidade docente de matemática; Construção identitária docente; Professor de matemática e tecnologia. 1 Graduado em matemática e especialista em Educação Matemática pelo Instituto de Matemática e Estatística IME/UFG. Mestrando do Programada de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Matemática PPGECM/UFG E-mail: [email protected]. 2 Doutor em Educação Matemática pela Universidade de São Paulo (USP). Professor do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade Federal de Goiás - IME/UFG. 1|Página INTRODUÇÃO O que é identidade docente? A identidade é ou está sendo? É algo casual, construído ou está em constante movimento tempo-espacial? São questões não tão simples, nem sequer diretas de serem respondidas, pelo fato de envolverem, em sua estrutura, correntes teóricas e filosóficas. Porém, essas mesmas questões, e tantas outras, nos levam a perceber que, por um lado, a identidade docente pode ser percebida em duas principais ordens. Na primeira, pode ser vista como um processo construído ao longo do tempo; portanto, unificada e estável. Por outro lado, porém, é percebida como um processo de constante identificação, diferenciação e simultaneidade temporal e espacial; logo, não estática. É também, conforme Gatti (1996), fruto de interações sociais complexas nas sociedades contemporâneas e expressão sociopsicológica, que interage nas ações dos seres humanos, em um dado momento histórico. A construção da identidade do professor, que se sustenta em um movimento contínuo, pode ser empreendida como um processo pleno e denso dialético. Não é a soma justaposta do resultado cumulativo de experiências do professor. É, na verdade, um vir a ser constante e permanentemente. A identidade docente se estabelece, tendo como pano de fundo o processo histórico e político-ideológico, conforme Ciampa (2001), em uma dimensão plural. Isso porque, ela é um processo de simbiose psicológica, que se assenta numa perspectiva múltipla, profunda e complexa. Afinal, por exemplo, o filho e o professor, são identidades diferentes de um mesmo indivíduo, que era filho, mas torna-se professor em determinado momento da vida, não deixando de ser filho, porém, assumindo características e posições distintas. Nessa perspectiva, pois, a identidade não é mais do que o resultado simultaneamente estável e provisório, individual e coletivo, subjetivo e objetivo, biográfico e estrutural, dos diversos processos de socialização que, em conjunto, constroem os indivíduos. (DUBAR, 1997, p. 105). Ela também se constitui, direta ou indiretamente, pelas construções sociais e de linguagem, relativa a uma determinada época histórica, a um determinado cenário sociopolítico, cultural e tecnológico. Não estanque a essa situação, em uma dimensão mais particular, porém não menos importante, a identidade do professor, de matemática, pode ser empreendida nesse mesmo movimento, em um processo de construção identitária, que se situa em um contexto específico, no entanto, plural, dinâmico, permeado de fases de rupturas, continuidade e (re) elaborações constantes. A construção da identidade do professor de matemática é, assim como todas as demais, atingida pelos aspectos capitalistas, pois não está dissociada do movimento maior, que é a do social. Por conseguinte, a 'crise' da sociedade não está dissociada da 'crise' 2|Página identitária docente, que está em constante movimento. Essa percepção é fundamental para identificar algumas das suas implicações para os processos formativos que se desenvolvem na construção da identidade, em face da complexidade e dinamicidade da sociedade, do trabalho escolar, das interações cotidianas, do processo histórico-cultural, dos avanços artísticos, científicos e tecnológicos do século XXI. A sociedade é urgente e desafiadora a imersão das tecnologias, especialmente a partir do reconhecimento de que ambas se fazem presentes, constantemente, na construção da identidade humana, em especial, do professor. A sua integração pode ser fator determinante para o desenvolvimento dos indivíduos tanto na dimensão social, cultural e intelectual. O uso das Novas Tecnologias da Informação e Comunicação (NTIC) tem se constituído como um dos instrumentos indispensáveis nas relações cotidianas das pessoas, seria, então, inapropriado negá-las como um dos fatores responsáveis pela construção, em movimento, da identidade do professor (em especial, de matemática) tanto daquele que a utiliza no contexto escolar, quanto daquele que não a explora de forma consubstancial e direta. Nessa mesma perspectiva, pois, este trabalho tem por principal objetivo apresentar as discussões recorrentes dos três últimos anos (2012 a 2014) acerca da construção da identidade do professor (de matemática) frente às demandas lançadas pela sociedade capitalista, enfatizando, os pressupostos advindos pelas Tecnologias da Informação e Comunicação. No intuito de traçar o perfil identitário dos professores de matemática do Brasil mediante ao uso de tecnologias, esta pesquisa, apoiada nos pressupostos do estado da arte, restringiu aos seguintes bancos de dados oficias para coleta: [1] SciELO | Scientific Eletronic Libray Online; [2] Portal Periódico | CAPES; [3] Portal Domínio Público (Teses de dissertações); [4] Biblioteca Digital Brasileira (de Teses e Dissertações); [4] Artigos publicados no XI Encontro Nacional de Educação Matemática (ENEM, 2013), que está ligado, de forma orgânica, à própria história da Sociedade Brasileira de Educação Matemática – SBEM. No entanto, percebeu-se, na maior parte deles, um número pífio de divulgação acerca da presente temática, desse estudo. Algumas plataformas eletrônicas, inclusive, não dispunham de nenhum documento em seus acervos, outros, no entanto, um número tendendo a zero. É importante ressaltar que a busca - pelas informações - se consolidou, essencialmente, pela seguinte expressão: construção da identidade docente do professor de matemática e tecnologias, e suas devidas combinações. Desta forma, assim, pretendeu-se conhecer, a partir da literatura obtida (da coleta), o que tem se discutido sobre o perfil identitário do professor de matemática mediante as implicações das TIC nos três últimos anos. A partir de tais 3|Página elementos obtidos, emergiram as categorias fundamentais de análise que nortearam as reflexões a que se propõe a pesquisa ora delineada. 1 IDENTIDADE DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA: 'UMA METAFORMOSE AMBULANTE' [...] identidade é movimento, é desenvolvimento do concreto. Identidade é metamorfose. É sermos o Um e um Outro, para que cheguemos a ser Um, numa infindável transformação. (Ciampa, 2001) A identidade docente3, segundo Dubar (2005), refere-se a um conjunto de “formas identitárias”, que resultam de uma variedade de processos de socialização dos docentes, nos quais ocorrem transações entre uma “identidade para si” e uma “identidade atribuída ou projetada”. A 'identidade para si', conforme esse mesmo autor, é um processo em que o sujeito atribui a si mesmo, numa tensão entre o real e o ideal, a sua forma de ser e de se portar mediante à sociedade. Já a 'identidade atribuída', por outra perspectiva, refere-se, em linhas gerais, os “mandatos” que os outros e a cultura atribuem ao próprio indivíduo. Nesse mesmo movimento, a identidade do professor de matemática é também vista como um processo continuo e inacabado, que se constitui na dimensão identitária de si e para si. A construção da identidade do professor de matemática não se diferencia (e não é diferenciada) dos demais profissionais. É, na verdade, demarcada por situações próprias e específicas, que se assentam na ação constante de sua atuação, interação e formação - em diferentes e múltiplas fases. Essa mesma construção identitária não é, segundo Dubar (2005, p. 330), expressão psicológica de personalidade individual, nem sequer produto de estrutura ou de políticas econômicas impostas de cima, mas, sim, é um movimento social, que implica a interação entre trajetórias (não lineares) individuais e sistemas de emprego, de trabalho e formação. Ainda, o processo identitário docente (em especial, de matemática) não se limita a níveis de estágios de constituição. Pelo contrário, é um processo de mudanças, em conjunto, complexas, ocorrendo durante a integração da vida social, escolar, acadêmica e profissional. A identidade do professor é construída ao longo de sua trajetória como profissional do magistério. No entanto, é no processo de sua formação que são consolidadas as opções e intenções da profissão que o curso se propõe a legitimar (PIMENTA e LIMA, 2011, p. 62). Nesse sentido, a identidade docente do professor de matemática, que demanda conhecimentos 3 As expressões, Identidade docente ou identidade do professor, nessa obra textual, são tratadas como sinônimas. 4|Página e ações específicas, exige (para além de movimentos didáticos genéricos) o domínio de um saber e de uma ação didático-pedagógica que, mesmo sendo específica, se efetiva como elemento base de seu processo identitário. Nesse entendimento, pois, a formação, inicial e continuada do professor de matemática, se complementa, numa relação contínua e dialógica, no processo do ser (e estar sendo) professor e, aliadas as experiências pessoais dentro e fora da escola, compõe a complexidade de sua formação profissional e de sua identidade. Assim, a construção identitária do educador matemático é um processo que ocorre por toda sua vida, ou seja, o professor é um profissional em contínuo, porém inacabado, estado de formação. Além disso, a sociedade capitalista necessita, segundo Moura (1995), de um profissional que possibilite a aprendizagem significativa de conhecimentos matemáticos necessários à formação do homem, que sejam adequados a mudanças crescentes nos meios de produção, nos avanços tecnológicos e científicos, nas relações de trabalho, entre outras. E tudo isso, por conseguinte, acaba influenciando a construção identitária do vir a ser, continuamente, professor de matemática. Segundo esse mesmo autor (idem), a busca de identificação do profissional (do ser ou estar sendo professor de matemática) nos permite caracterizá-lo como um educador que se utiliza da Matemática como instrumento formador, e forma-se, em movimento, como indivíduo pertencente a essa sociedade pós-moderna. Compreender, no limite, as relações da construção identitária do professor de matemática, de quem trabalha com Matemática no campo da docência considerando os desafios tecnológicos estabelecidos no contexto social, conduziu-nos também a pensar sobre o desenvolvimento de pesquisas na área da Educação e da Educação Matemática sobre a temática: construção da identidade do professor de matemática mediante às TIC. De forma que, os objetivos de nosso estudo estivessem alicerçados nos pressupostos do Estado da Arte4 para o desenvolvimento dessa pesquisa. Portanto, é nessa dimensão acadêmica que pensamos em discutir o campo da construção identitária do professor de matemática, a partir do que tem sido produzido especificamente nos três últimos anos, 2012 a 2014. 2 OS ACHADOS DA PESQUISA: LIMITAÇÕES E DESAFIOS Como anunciado anteriormente, faremos uma breve explanação de trabalhos publicados no SciELO | Scientific Eletronic Libray Online; Portal Periódico | CAPES; Portal 4 É um método que possibilita fazer um levantamento, mapeamento e análise do que se produz considerando áreas de conhecimento, períodos cronológicos, espaços, formas e condições de produção (FERREIRA, 2002). 5|Página Domínio Público (Teses de dissertações); Biblioteca Digital Brasileira (de Teses e Dissertações), no período de 2013 e 2014, sobre a construção identitária do professor de matemática frente às TIC. Esse levantamento bibliográfico foi realizado entre julho, agosto e setembro de 2015 com as palavras chave “identidade do professor de matemática, e suas respectivas combinações” resultando em um total de 2 trabalhos. Para uma melhor visualização dos trabalhos coletados, descrevemos as informações mais relevantes no Quadro. Quadro 1: Principais informações das produções analisadas Autoria Título do Trabalho Local e ano de publicação Narrativas Multimodais: a SciELO | Scientific SILVA, R. S. R. imagem dos matemáticos em Eletronic Libray performances matemáticas Bolema [online] 2014. Categoria de publicação Artigo Científico (EM PERIÓDICO) Palavras-chave Docência TIC Professor Matemática Tecnologias Digitais digitais Curso de licenciatura em BIERHALZ, C. D. K. Formação de Portal Periódico CAPES matemática a distância: o Programa de Pós- entrelaçar dos fios na (re) Graduação da Faculdade construção do ser professor de Educação da Pontifícia - Professores. Educação TESE UFRS, 2012. a Distância. Identidade. História de vida. FONTE: produção própria, 2015. A temática, conforme Tabela 1, da identidade do professor de matemática aliada às tecnologias é, praticamente, escassa nos principais meios eletrônicos (em especial, dissertações, teses e periódicos) de pesquisa no Brasil. É um assunto pouco explorado, tendo como pano de fundo a construção identitária desse profissional em atuação, no período demarcado. No conjunto de pesquisas realizadas, considerando os filtros, identidade do professor, identidade do professor de matemática e, por fim, de forma sequencial, identidade do professor de matemática frente às demandas lançadas pelas tecnologias, percebeu-se, durante o processo investigativo, um número sórdido de publicação quanto a delimitação do tema. Porém, por outro lado, observou-se, em paralelo, publicações expressivas em relação à construção identitária do professor - de outras áreas do conhecimento. Entre os dois periódicos publicados no SciELO, no período demarcado, nessa pesquisa, só um se referia, diretamente, a temática ora delineada (exatamente, 50%). Já no portal de periódico da CAPES, é evidenciado dez publicações sobre a identidade do professor de matemática, porém, entre elas, apenas um periódico discutia, mais especificamente, sobre a 6|Página identidade docente de matemática frente às tecnologias (equivalentemente, 10% do total de publicações em relação ao tema referido). Por outro lado, porém, o Portal Domínio Público (Teses e dissertações) e a Biblioteca Digital Brasileira (de Teses e Dissertações), durante esse mesmo intervalo, não apresentam, em seu acervo, nenhuma publicação sobre a presente tema. Por constatarmos, logo de início, na coleta de dados, o número pífio de publicações da identidade docente de matemática frente às TIC, decidimos, então, estender a nossa amostra para os trabalhos publicados no XI Encontro Nacional de Educação Matemática (ENEM) por se tratar de um evento que, além de discutir sobre relevantes e emergentes temas ligados à Educação Matemática, se consolida, numa perspectiva orgânica, à própria construção, incluindo a sua origem, da Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM). Buscamos, assim, as publicações com as palavras-chave: “identidade docente, tecnologia, professor de matemática”. Entre os 4 trabalhos encontrados sobre identidade do professor de matemática, fizemos outro recorte com o descritor “identidade e tecnologia”, penas 1 referiase, no limite, a temática: a identidade (não exclusivamente docente) frente às TIC. Quadro 2: XI ENEM | Principais informações das produções analisadas Autoria Título do Trabalho Local e ano de publicação Categoria de publicação Palavras-chave Identidade docente; A constituição da Identidade de LEVY, L. F. ENEM, 2013. Comunicação Oral Professores de Matemática (em (ARTIGO) Formação Inicial) CAVALCANTE, J. SILVA, F. T. SORES, H. L. OLIVEIRA, M. Z. BEZERRA, N. J. SANTOS, A. R. SILVA, R. S. R. GADANIDIS, G. Matemática; Professor de Matemática em formação inicial. Identidade Docente; Identidade Docente e o Pibid: Experiências no Clube de Professor de ENEM, 2013. Comunicação Oral Formação Inicial de (ARTIGO) Professores; Clube de Matemática Matemática; PIBID Identidade docente, A Identidade docente do Professor de matemática a partir ENEM, 2013. Comunicação Oral história da matemática, (ARTIGO) professores de de uma dimensão histórica matemática Sobre Identidade em performances matemáticas ENEM, 2013. Comunicação Oral Tecnologias digitais, (ARTIGO) narrativas digitais FONTE: produção própria, 2015. É possível perceber, diante da tabela 2, um número pífio de publicação no XI ENEM acerca do tema ora delineado. Dentre os 1044 artigos publicados na 11ª edição desse evento (o último realizado, em Curitiba, Paraná), três deles discutiram sobre identidade do professor 7|Página de matemática (o que corresponde a uma razão de 3/1044 - menos de 1% de publicação). O quarto trabalho, por outro lado, fez menção ao uso das Tecnologias da Informação e Comunicação, em especial, aos aparatos digitais, discutindo o processo identitário do discente de matemática (não propriamente dito do professor). 2.1 O QUE DIZEM OS TRABALHOS ENCONTRADOS? Os assuntos, que se destacam na construção da identidade do professor de matemática frente às tecnologias, tendo como pano de fundo as fontes pesquisadas, revelam que a maioria dos estudos se concentra na formação inicial e continuada diante do uso das TIC presencial ou à distância. O curso de licenciatura em matemática também é alvo de discussão, enquanto os fatores externos à escola e universidade é pouco investigado. Os conteúdos emergentes nos estudos sobre a formação inicial e continuada do professor de matemática (valorizando as experiências e a sua formação) são os temas recorrentes entre as obras analisadas. O primeiro trabalho, Curso de licenciatura em matemática a distância: o entrelaçar dos fios na (re) construção do ser professor, de Bierhalz (2012), discute a (re) construção do ser professor, bem como problematiza as identidades docentes que estão sendo (re) criadas em nome de um novo modelo educacional - o curso de formação de professores na modalidade a distância, tendo como pano de fundo as tecnologias. Assim, a autora dialoga sobre uma nova identidade docente frente ao uso dos aparatos tecnológicos, mais especificamente, as EaD (Ensino à distância). A pesquisa confirma que a identidade é " [...] uma construção individual e social marcada por múltiplos fatores que interagem entre si, resultando numa série de representações que os sujeitos fazem de si mesmos e de suas funções, estabelecidas consciente e inconscientemente" (BEERHALZ, 2012, p. 14). A identidade, conforme Bierhalz (2012), perpassa "[...] pelas histórias de vida, condições concretas de trabalho, o imaginário recorrente acerca da profissão, a gênese e desenvolvimento histórico da função docente, os discursos que circulam no mundo social e cultural acerca dos docentes e da escola, todos mediados por tecnologias" (p. 28). A identidade do professor (em especial, aqui, de matemática), tendo como pano de fundo as discussões dessa autora, é empreendida como um processo múltiplo e que se encontra em um continuum processo de formação, constituindo-se pelos elementos não isolados, mas mútuos histórico-socialmente, articulados pelos pressupostos tecnológicos. A tecnologia, que não é negada, mas que é percebida como um fator importante na construção da identidade docente, 8|Página é um vir a ser intenso e permanentemente. Afinal, as TIC, conforme a autora (idem), têm influenciado as ações permanentes diárias dos docentes e projetando novas formas de atuar, rever, criar e, principalmente, constituir-se, em movimento, ao seu ambiente social. Já no segundo trabalho, Narrativas Multimodais: a imagem dos matemáticos em performances matemáticas digitais, de Silva (2014), retrata a imagem, no sentido identitário, do professor de matemática, como algo estereotipada. Essa obra, em especial, oferece meios para a desconstrução da imagem negativa do perfil identitário do professor de matemática ao fortalecimento de novas posturas e ações mediantes às mudanças cotidianas, em especial, ao uso das tecnologias. Fomenta, ainda, a construção de imagens alternativas nos cenários educacionais e sociais enfatizando as artes e o uso de aparatos digitais. É um trabalho que não aponta, sistematicamente, as reais implicações das TIC para a construção identitária do professor de matemática. Mas, por outro lado, discute a identidade do professor de matemática como algo que se forma contínuo sócio e profissionalmente. O trabalho desenvolvido, por Silva (2004), aponta também as expressões que, geralmente, são utilizadas para descrever a identidade de um professor de matemática como: nerd, louco, antissocial, intelectual, quatro olhos (uso de lentes corretivas), brega (mal vestido), desastrado, estressado e nervoso, arrogante e sarcástico, dentre outras. São elementos atribuídos, em movimento, ora ou outra, ao próprio perfil identitário docente desse profissional. Estes estereótipos, conforme a autora, sobre os professores de matemática, são reproduzidos pelas mídias, que ainda destacam a imagem na qual a atividade profissional em Matemática é predominantemente masculina. Para Silva (2004), em articulação com outros autores, a utilização das mídias digitais pode contribuir para que a sociedade, em si, desconstrua estereótipos sobre a Matemática e sobre os professores de matemática e construa imagens alternativas. A imagem dos matemáticos pode ser transformada quando a atividade matemática é exercida a partir de uma experiência humana, artística, prazerosa, colaborativa e educacional (SCUCUGLIA; GADANIDIS, 2013 apud SILVA 2014). Nesse mesmo movimento, a imagem da identidade docente de matemática frente às tecnologias pode ser 'melhorada', pois, segundo a autora, é possível explorar possibilidades alternativas com relação ao pensamento 'formado' a partir de recursos midiáticos, como: música, cinema, produção de narrativas digitais e da disseminação de narrativas audiovisuais na Internet. Percebe-se, assim, que esse trabalho não articula, diretamente, as tecnologias para a construção identitária do professor de matemática, mas aponta o uso delas à inversão negativa da imagem desse profissional. 9|Página Os trabalhos publicados, no XI ENEM, no ano de 2013, dialogaram sobre diversos temas recorrentes a construção identitária do professor de matemática, como: formação, historicidade, performances, narrativas e experiências. Porém, as produções, que foram analisadas, não versaram, diretamente, acerca da construção identitária do professor de matemática frente às demandas das tecnologias digitais, que é nosso foco temático. Apesar disso, ao analisar os trabalhos, com mais acuidade, percebemos alguns elementos que podem ser associados ao tema ora delineado. Na obra de Levy (2013), por exemplo, percebe-se que identidade do professor de Matemática, a qual guarda próximo vínculo com a ação de ensinar, não se limita, em termos de sua constituição, a momentos posteriores à habilitação profissional de quem ensina matemática. Mas, por outro lado, se consolida num movimento permanente da sua ação social, percorrendo os diversos elementos que o cerca histórico e socialmente (incluindo, por consequência, os elementos tecnológicos). O professor de Matemática ao tomar conhecimento do contexto histórico em que está inserido, passa a compreender, dar um sentido diferente as suas atividades docentes e construir sua identidade profissional pautado na análise do que ocorre no cenário educacional (BEZERRA e SANTOS, 2013, p. 2). Segundo esses mesmos autores (idem), em sua obra, possibilita-nos refletir sobre a identidade profissional do professor de matemática a partir de estudos antepassados profissionais, apresentando elementos substanciais de cada época e período, demarcado pelo questionamento do ensino, da disciplina, dos elementos (midiáticos ou não) utilizados pelos antecessores profissionais na condução do ensino de matemática. Aqui mais uma vez, o uso das tecnologias também é percebido, de forma breve e superficial, como elemento, em sociedade, à formação identitária do professor de matemática. Na obra, Sobre Identidade em performances matemáticas digitais, de Silva e Gadanidis (2013), a partir da análise de vídeos, nas quais estudantes utilizam as artes para comunicarem suas ideias matemáticas, percebemos alguns elementos que oferecem direcionalidade para um entendimento com relação à construção de identidade (de estudantes ou professores) enquanto objetos matemáticos através do ato dramático e/ou musical. É discutido no trabalho o envolvimento da cognição corporificada na constituição performática de identidades envolvendo pensamento matemático e uso de artefatos. A partir das perspectivas apresentadas pelos autores, em seus textos, percebe-se, no limite, alguns aspectos que têm influenciado, de forma superficial, o processo identitário do professor de matemática mediante às tecnologias. Percebemos também que, os trabalhos que dialogam sobre identidade docente de matemática inerente às TIC, não articulam, mais profundamente, a sua real implicação na construção identitária do professor de matemática. 10 | P á g i n a TECENDO ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Essa pesquisa, de cunho bibliográfico, alicerçada pelos pressupostos do estado da arte, sinalizada pelos principais meios eletrônicos acadêmicos, evidenciou o silêncio quase total em relação a construção identitária do professor de matemática frente as demandas do uso das Tecnologias da Informação e Comunicação, no período demarcado. Permitiu, ainda, verificar que os trabalhos, que focalizam o papel das tecnologias, dos multimeios ou da informática na constituição dos fazeres e saberes constitutivos à formação identitária docente, são pífios. Mais raro ainda os trabalhos que dialogam o papel da escola na construção, em movimento, no modo de agir, intervir e constituir, em permanente movimento, de ser professor. Percebemos, assim, à luz dos trabalhos coletados e analisados, que a construção identitária do professor de matemática frente às demandas tecnológicas é um assunto não recorrente, nem sequer debatido com veemência na área de Educação, em especial de Educação Matemática. Pelo contrário, é um tema que carece, e muito, de uma discussão mais sistemática e consolidada no sentido de desvelar as suas reais implicações na constituição do novo modo de se ver e perceber-se, em movimento, como professor de matemática. É preciso também reconhecer que o 'bombardeio' das Tecnologias da Informação e Comunicação (como, por exemplo: programas computacionais, internet, redes sociais, grupos digitais, cursos à distância, celulares, quadro digitais, vídeo conferências, estudos por canais interativos e virtuais, filmagens, entre outros) tem implicado, diretamente, nas ações diárias dos professores, por consequência, em suas ações pedagógicas, o que caracteriza o novo modo de se perceber como professor no processo, em constante movimento, identitário. Afinal, conforme Duarte (2013) o homem, a sociedade e o trabalho são elementos que se relacionam num movimento constante, inacabado e que, de certa forma, transforma a realidade, o seu meio social e seu processo identitário. Isso porque toda objetivação produz uma nova situação, pois tanto a realidade já não é mais a mesma na intervenção feita pelo homem (enquanto gênero), nem tampouco o indivíduo já não é mais mesmo ao se relacionar, produzir e transformar o seu meio e a sua própria realidade. 11 | P á g i n a REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO BEZERRA, N. J. F. SANTOS, R. A. A Identidade docente de matemática a partir de uma dimensão histórica. Disponível em: <http://sbem.esquiro.kinghost.net/anais/XIENEM/pdf/280 0_736_ID.pdf >. Acesso em: 08 de set. de 2015. BIERHALZ, C. D. K. Curso de licenciatura em matemática a distância: o entrelaçar dos fios na (re) construção do ser professor. Disponível em: <http://hdl.handle.net/10923/2696>. Acesso em 03 de ago. de 2015. CAVALCANTE, J. L. SILVA, F. T. Identidade docente e o Pibid: experiências no clube de matemática. Disponível em: <http://sbem.esquiro.kinghost.net/anais/XIENEM/pdf/453_1737 _ID.pdf> Acesso em: 07 de set. de 2015. CIAMPA, Antônio. Identidade. 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