Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 O Abolicionismo como movimento social1 Angela Alonso Por quê voltar a assunto tão estudado? Essa é decerto a primeira pergunta que passa na cabeça de quem já viu anos e quilos de livros sobre abolição da escravidão no Brasil, especialmente a enxurrada típica das efemérides, a de 1988. O que motivou a enxurrada motiva também minha gota: a centralidade do fenômeno na história brasileira e a falta de explicação, a despeito de tantas, que o recubra em sua inteireza e complexidade. Sendo a escravidão estruturante da vida social, política, econômica e cultural brasileira por quase quatro séculos, seu desmonte foi operação complexa, que envolveu mudanças nas estruturas econômicas, na hierarquia social, na sensibilidade média, nas maneiras de pensar e na lógica dos conflitos políticos. Nenhum trabalho ainda tratou de tudo isso ao mesmo tempo de modo adequado – operação virtualmente impossível. A decisão dos estudiosos tem sido eleger ângulos. Operação intelectualmente legítima, que, contudo, redundou na sobrecarga sucessiva em três vértices explicativos, as lideranças parlamentares, as razões econômicas, a agency dos escravos2. Meu trabalho, escorado em conceitos da sociologia política, visa lançar luz nova sobre a velha história apresentando o abolicionismo como movimento social. 1. Explicações sobre o abolicionismo no Brasil O abolicionismo brasileiro tem sido, grosso modo, objeto de três gêneros de explicações. 1.1. Lideranças parlamentares e/ou elites nacionais A primeira linhagem se origina nas narrativas dos próprios atores e dá grande atenção a eles. São memórias, discursos nas efemérides, retrospectos na imprensa e etc, dos próprios ativistas que sobreviveram até ou além do 13 de maio, e que deram um recorte dos “fatos” e “atores” principais do abolicionismo, bem como a datação do fenômeno. Nabuco, em Minha Formação, Patrocínio, em vários artigos (por exemplo 1 2 Este texto visa ser a introdução de livro ainda processo. Para classificação alternativa desta bibliografia, veja-se Needell, 2010. 1 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 Cidade do Rio, 5/5/1889), e abolicionistas coadjuvantes na campanha, Evaristo de Moraes (1929) e Duque Estrada (1918), embora reconhecendo predecessores, elegeram 1879 como ano inaugural do “movimento abolicionista” brasileiro. Isso porque 1879 é o ano de estréia de Nabuco no Parlamento e de engate de Patrocínio na direção da Gazeta da Tarde, de onde fez a propaganda abolicionista. De fato, o engajamento de muitos outros ativistas é dessa hora ou posterior. São do ano seguinte a fundação das duas associações cariocas mais importantes: a Associação Central Emancipadora e a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, dominadas respectivamente por Patrocínio e Nabuco. E a Confederação Abolicionista, que as unifica, é de 1883. Então o fim dos anos 1870 tem relevância. Contudo, esta datação foi adotada por intérpretes posteriores como dado da natureza, estabelecendo um corte abrupto com tudo o que houve antes de 1879. Adotar este recorte tem dois inconvenientes. Um é ficar refém das narrativas dos atores, mais especificamente do ponto de vista dos que dentre eles escreveram a respeito da própria ação – ignorando ativistas que não produziram memórias ou histórias e/ou foram expurgados nas de terceiros. Outro problema é marcar o início do processo de mobilização no momento em que estes ativistas-narradores começaram seu ativismo. Manifestações coletivas contra a escravidão começaram a aparecer muito antes de Nabuco e Patrocínio. E sua origem tem menos a ver com disposições psicológicas – a paixão pela causa, como romanticamente se narra - dos atores, e mais com mudanças no ambiente sociopolítico. A mobilização antiescravista apareceu em ondas, mais ou menos em compasso com iniciativas tomadas no âmbito das instituições políticas. Sua origem, tímida, está nos debates em torno da lei Eusébio de Queirós, abolindo o tráfico ultramarino de escravos em 1850, e seu crescimento acontece no contexto dos debates em torno da lei do Ventre Livre. Olhando da perspectiva da formação de associações antiescravistas, o fenômeno é muito anterior a 1879 e põe sob suspeição a descrição tão repetida de Nabuco, que narra o ex ante como marasmo de “céu sem nuvens”. Nabuco e Patrocínio datam de 1879 sua entrada em combate, mas mesmo essa informação não é de todo precisa. Patrocínio adentrou na lida antes do que sua memória alcança, mais ou menos em 1877. Nabuco (1897-9:849) admite movimento prévio a si, 2 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 quando, diz que em 1879 “é quando recomeça o movimento abolicionista.”3 Ele próprio se socializara antes no assunto, vendo o pai, senador, participar das negociações do Ventre Livre, momento em que se mobilizaram outros ativistas de suma importância para a campanha toda, caso de André Rebouças e Luiz Gama. E há uma dúzia de nomes hoje empoeirados, mas já engatados no combate à escravidão quando Nabuco e Patrocínio eram meninos de colégio. O próprio Nabuco alertou os pósteros para o caráter seletivo da reconstrução do abolicionismo pelos abolicionistas: “Quem fará dentre os contemporâneos essa história com imparcialidade, justeza e penetração, sem deixar entrar nela a paixão política, o preço sectário, a fascinação ou sujeição pessoal? Ninguém, decerto, o que quer dizer que haverá no futuro diversas histórias.” (Nabuco, 1900:245-246). Apesar deste aviso, muitos tomaram suas memórias como guia na reconstrução do movimento abolicionista brasileiro, sem desconto da parcialidade (a narrativa a partir de um ponto de vista) e do anacronismo (as experiências passadas reconstruídas do prisma das posições e interesses presentes). Esse diapasão do memorialismo, a movimentação abolicionista contada apenas a partir de memórias e narrativas de ativistas, que ressalta motivações e ações de lideranças institucionais excepcionais – sobretudo Nabuco dominou as explicações até mais ou menos os anos 50. Este tipo de abordagem, de que, além de Nabuco, Evaristo de Moraes (1924) e Duque Estrada (1919) são exemplos acabados e influentes, provê registros factuais ricos, mas são também operações de heroicização de certos personagens, enquanto outros dormem na sombra. Sobretudo, atribuem causalidade aos grandes homens, sem considerar as circunstâncias políticas e estruturais que tornaram possível sua ação. Por conta da saliência de Nabuco no processo parlamentar como na ação de rua, sua figura estrutura essas narrativas. Fio condutor mesmo de trabalhos que buscam a imparcialidade na documentação copiosa. O melhor e até hoje mais completo estudo sobre a abolição no Brasil é o livro de Robert Conrad (1975), que se afasta da narrativa dos feitos dos grandes líderes em favor de uma visada mais abrangente de atores e eventos. O trabalho, contudo, está eivado das teses de Nabuco, a começar pela principal, E, em 1879, falava de retorno, não de nascimento do movimento: “Caída a situação liberal pelo ato de 16 de julho durante muito tempo parecia que o movimento emancipador, que o movimento abolicionista, a que o ministério de 3 de Agosto tinha dado um tão poderoso auxílio (...) tinha se retraído (...).” (Anais da Câmara dos Deputados, 22 de março de 1879, grifo meu). 3 3 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 a de que o abolicionismo teria sido fenômeno mais do Norte do que do Sul, por conta da relevância econômica da escravidão mais para as províncias cafeeiras ascendentes que para as decadentes do açúcar. O foco em Nabuco, citado incontáveis vezes no livro, levou Conrad a se concentrar na política institucional. Embora documente a existência de mobilizações extraparlamentares, seu foco explicativo está nas elites políticas e no modo como processaram a escravidão nas instituições políticas. O peso da interpretação produzida por Nabuco nos anos 1890 teve outra consequência. Militante monarquista nesta hora, Nabuco reconstruiu o processo abolicionista dando sobrepeso à ação do poder moderador e da família imperial que o próprio Nabuco, no curso da mobilização, jamais lhes atribuiu. Este ângulo, que está em Um Estadista do Império, arroga a pequeno conjunto de atores, uma facção da elite imperial e sobretudo ao Imperador, a capacidade que os governantes sempre almejam, mas nunca chegam a alcançar: a de controlar forças sociais em conflito e definir os rumos do processo. Assim se exagera a coerência do processo político, que é sempre acidentado e nunca em linha reta, porque resulta do confronto entre grupos e forças sociais - e não da vontade, habilidade, projeto ou empenho de apenas uma delas. Em versão mais matizada, o foco na dinâmica parlamentar e na proeminência da Coroa na condução do processo político transparece nos trabalhos de José Murilo de Carvalho (1988, 1980, 2007) e Needell (2006; 2011), que, embora, registrem a mobilização fora das instituições políticas, se concentram em analisar a dinâmica dentro delas4. 1.2. Explicações econômicas Outra linhagem de explicação do movimento abolicionista focaliza não atores, mas estruturas econômicas. O matiz marxista desta linha, popular nos anos 60 e 70, se originou da leitura da escravidão como parte do sistema capitalista e como instituição responsável pela singularização das nações pós-coloniais. A abolição surge como decorrência da dinâmica peculiar do capitalismo brasileiro em seu entrechoque com as tendências do capitalismo mundial. O desabrochar pleno do capitalismo exigiria a mão de 4 Uma variação é a análise do pensamento das elites política e intelectual sobre escravidão/abolição, acerca do que há dois textos já clássicos, o artigo de José Murilo de Carvalho, Escravidão e Razão Nacional e o livro de Celia Azevedo, Onda Negra, Medo Branco: o negro no imaginário das elites. 4 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 obra livre, daí a contradição estrutural capitalismo-escravidão selando a necessidade – igualmente estrutural - da abolição, que se imporia aos agentes. Emilia Viotti (1966) produziu o estudo clássico nessa direção. Quando agentes particulares são assinalados, eles aparecem na chave da consciência-limite. Esse é o caso da persistente referência aos textos de Joaquim Nabuco como descortinadores dos fundamentos estruturais da sociedade escravista brasileira, no trabalho também clássico de Paula Beiguelman (1968), no qual também a contradição econômica se traduz diretamente em luta política. Então mesmo quando trata de agentes, esta perspectiva põe ênfase nos textos que produziram e não em seu ativismo político. Os ativistas abolicionistas são coadjuvante da lógica do capital, que ordena o processo. Aspectos culturais e políticos ganham pouca relevância e o movimento abolicionista em si nem se põe como objeto de investigação. 1.3. A agency dos subalternos Em contraste com a perspectiva anterior, os agentes são o assunto dominante na literatura a partir dos anos 80. Em vez das lideranças parlamentares e nacionais, surgem os “vencidos da história”, os atores do fundo da cena, que ganham proeminência, resgatados na chave do herói anônimo. Estes estudos sobre “grassroots movements”, reagem às interpretações estruturais, focalizando a experiência dos agentes – devendo nisto muito a E. P. Thompson – e conflitos particulares, que denotariam, exemplarmente ou por contraste (por sua excepcionalidade), a agency dos escravos na exploração das brechas da lei e das regras tácitas das relações senhor-escravo (Chalhoub, 1990); sua capacidade de auto-organização política em rebeliões e levantes (Reis, 2003); sua articulação com livres de estratos sociais inferiores, originando uma rede subterrânea de movimentos locais (Machado, 1994, 2006; Silva, 2003); que oporiam a violência da resistência à violência do escravismo (Toplin, 1972) – ou, então, em via paralela, o foco na produção discursiva da desigualdade racial (Azevedo, 1987). Nesses casos, a dinâmica econômica e das instituições políticas some em favor da atenção para costumes, hábitos, crenças, discursos e atitudes de atores tópicos, na clave de uma história cultural. Interessada em desvelar a agency de estratos baixos e/ou dos escravos no processo abolicionista, essa perspectiva ainda deslocou a atenção do governo e do 5 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 parlamento para outro lado do mundo institucional, o judiciário. Esta judicialização do abolicionismo – na qual assoma o olho de Foucault, sucesso nos anos 80, quando esses estudos começaram a afluir - encaminhou análises sobre o modo pelo qual escravos e exescravos (o caso exemplar de Luiz Gama) manejaram as contradições da lei em favor próprio e como meio de contestação da ordem escravocrata (Azevedo, 1999, 2010). Estudos nesta trilha trouxeram novos atores para a conversa sobre a abolição, mas puseram de lado, como os estudos de base marxista que os antecederam, as instituições políticas. Relevantes na explicação são as cenas jurídica, de imprensa, no cotidiano, onde se batem escravos e senhores diretamente, desconsideradas as formas institucionais que estes conflitos podem assumir. 1.4. O abolicionismo como movimento social Os estudos que focalizam instituições políticas e lideranças parlamentares ressaltam o fato incontornável da abolição no Brasil ter ganhado a forma de lei. Foram processos político-institucionais - não revoltas escravas ou mudanças no sistema produtivo - que puseram o ponto final na escravidão. Ignorar isto é supor que conflitos sociais se resolvem sem mediação de estruturas institucionais, que lideranças políticopartidárias seriam meros títeres num teatro de fantoches – determinismo incontáveis vezes criticado. A dinâmica intrainstitucional é vital para compreender o movimento abolicionista. Instituições não vivem no vácuo. A vasta literatura sobre a agency escrava tem o mérito de ter documentado movimentos locais, insurreições, motins e insubordinações mais frequentes, numerosas e perturbadoras da ordem social do que a historiografia tradicional supunha. Contudo, tais rebeliões não produziram revolução escrava, do gênero do que se passou no Haiti. Mobilizações tópicas são o efeito colateral previsível e esperado em qualquer regime escravista, contando, portanto, como um dos riscos do negócio; podem criar problemas momentâneos de gestão, mas raro alcançam a capacidade de alterar a lógica social toda. Isto é, da existência de rebeliões não deriva o corolário de sua influência no desfecho da escravidão no Brasil. Até porque, privilegiando os estudos de caso e escamoteando o processo político-institucional, a literatura não estabeleceu a magnitude do impacto destes levantes no resultado dos processos 6 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 político-institucionais. Restringiu-se a apontar o temor que causaram nas mentes de autoridades e senhores (Azevedo, 1987). A literatura dita “clássica” sobre o abolicionismo, portanto, é especializada, - nas lideranças parlamentares e instituições políticas; nos fatores estruturais ou na agency dos escravos. Repartiu o assunto em campos autônomos, cada um com seu cânon, delimitação do objeto, criando escolas interpretativas autônomas e alternativas, com visões unilaterais do fenômeno. Esta clivagem em nichos estanques – as instituições políticas versus as mobilizações escravas – pôs de lado a relação sociedade/instituições e, assim, deixou de investigar o processo político da abolição, os impactos recíprocos entre mobilizações sociais e instituições políticas. Há estudos sobre a ação parlamentar e extraparlamentar, mas não se estuda a intersecção. A especialização da bibliografia fez com que a ideia do abolicionismo como movimento social se perdesse. O termo, quando aparece, tem sentido frouxo, sinônimo de rebeliões “populares” noção jamais definida – e em estudos de caso acerca de situações atípicas, os conflitos violentos. A ideia de “movimentos sociais abolicionistas” aparece em uso tópico e plural, como faz Machado (1994; 2009), ao referir articulações abolicionistas no interior de São Paulo, como mobilização de base, que prescindiria da mediação de instituições políticas e mesmo de lideranças nacionais. O plural ressalta a singularidade de cada grupo como reações sui generis ao escravismo. A ação política de escala nacional desaparece. Os estudos que tangenciam a concepção do abolicionismo como movimento social são de estrangeiros. Descomprometidos com a filiação a escolas interpretativas locais, têm corte transversal. Conrad (1977), Toplin (1972), Bergstresser (1973), Castilho (2008) e Needell (2010) - trabalhos alicerçados em relatórios de autoridades, jornais, memórias e outras fontes primárias - apontam para uma campanha pela abolição que envolve instituições, manifestações no espaço público e ações confrontacionais. Nenhum deles, contudo, toma o movimento abolicionista por foco. Conrad (1972;19755), que produziu a obra mais abrangente sobre o assunto, partindo do fim do tráfico, focalizando o parlamento e as clivagens regionais, mas também reportando as mobilizações de rua. Toplin (1969,1972), por sua vez, privilegia os 5 A versão original em inglês (1972) e a tradução para o português (1975) não são iguais. O livro foi aggiornado para o público brasileiro, inclusive com novos subitens. 7 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 confrontos violentos, seja senhor-escravo, seja abolicionistas-polícia, mas deixa de lado a dinâmica parlamentar e supõe um vago apoio ao abolicionismo por parte de “cidadãos” nunca definidos. Ambos têm o mérito de trabalhar com a arena nacional, vinculando ações nas províncias e na Corte, apesar de não o fazerem sistematicamente. Embora nunca tenha tomado o abolicionismo como assunto per si, em vários trabalhos, José Murilo de Carvalho (1980, 1988, 2007) apontou tanto para o papel das instituições na filtragem e processamento do assunto quanto para a existência de mobilizações no espaço público. Do outro lado, um conjunto de autores aponta a existência de mobilização social local expressiva nos anos 1880. Bergstresser (1975) documenta a formação de associações e a organização de eventos de protesto, na Corte, a partir de 1880 – embora não dê razões para esse corte temporal atípico. Os estudos mais recentes de Kittleson (2005), para o Rio Grande do Sul, Celso Castilhos (2008), para Pernambuco, e Graden (2006) e Albuquerque (2009), para a Bahia, evidenciam mobilização abolicionista local mais volumosa, variada e antiga do que a literatura anterior supunha, e com expressivo apoio social - e mesmo militância no - de estratos sociais urbanos alheios ao círculo da aristocracia imperial – que alguns chamam imprecisamente, já que o Brasil era então sociedade estamental, de “classe média” - inclusive de uma gama de mulatos ou negros livres. Em parte porque seu universo empírico é de escala local. Em parte porque deliberadamente privilegiam as ações societárias, nenhum desses analistas deslinda os vínculos entre ação parlamentar e extraparlamentar. Avulsa, a rica fotografia da mobilização local acaba por naturalizar o artifício analítico, cindindo mobilização social e ação institucional. Fronteira inclusive anacrônica, pois que, no oitocentos brasileiro, as instituições políticas viviam ciclotímicas entre ímpetos de autonomização carreados pelo estado e submissão forçosa à hierarquia de status e à dinâmica econômica, lastreadas ambas na escravidão. Política aristocrática e patrimonial. Needell (2010) é único no esforço analítico de considerar conjuntamente cena parlamentar e extraparlamentar, movimento e instituições. Retomando a periodização de Nabuco, aponta 1879 como momento inicial do processo no parlamento, seguido de mobilização no espaço público e iniciativa do poder moderador de nomear governo 8 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 reformista. A falência desta tentativa seria sucedida por radicalização do movimento durante novo governo escravista (Needell, 2010: 238-47). As mudanças de atitude dos atores, contudo, são atribuídas genericamente à “frustração” de expectativas, uma explicação psicológica, e a ação do Imperador. Needell (2006,2010), seguindo Nabuco (1897-1899), dá proeminência explicativa ao poder moderador, motor do processo abolicionista. Tese que claudica ante a política decididamente escravista do gabinete Cotegipe, nomeado e sustentado por D. Pedro, e segunda administração mais longa do Segundo Reinado (1885-1888). Needell ressalta a importância tanto das instituições quanto da mobilização no espaço público, mas seu foco permanece no primeiro campo. Somem, por isso, um ator e uma circunstância cruciais para entender as variações do movimento abolicionista ao longo do processo político: o contramovimento escravista e a experiência dos movimentos abolicionistas anteriores, de que o movimento brasileiro se valeu como um repertório. Assim, a bibliografia, embora fale em “movimento abolicionista”, não toma o fenômeno em si por objeto. Não explica seu processo de formação, nem o que causa variações de estratégia ao longo do tempo. Historiadores preocupados com reconstruções empíricas específicas dão pistas, mas não exploram o fenômeno movimento abolicionista, seu caráter de ator coletivo. 2. Uma abordagem relacional e processual do movimento abolicionista A separação entre mundo societário e instituições políticas é tão artificial quanto entre ação pacífica e violenta, local e nacional. Nada demonstra que sejam reinos empíricos apartados ou formas alternativas de abolicionismo. Tilly, Tarrow e McAdam (2001) argumentam persuasivamente que política institucional e não-institucional, partidos, movimentos sociais e quebras do status quo, como desobediência civil e revoltas, conformam um continuum de formas de “política confrontacional”, que varia em grau de violência e institucionalização, mas não em natureza. Os atores elegem dentre as formas de ação disponíveis as que lhes são mais adequadas, não por opção de princípio, mas por constrição de circunstâncias. Escolhas variam com a estrutura de oportunidades políticas com que se deparam, o espectro de 9 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 alianças com que contam e os adversários que enfrentam. Mesmos agentes podem eleger diferentes estratégias de mobilização, de conciliação ou enfrentamento, dentro ou fora das instituições, organizar partido, mobilização no espaço público das ruas ou incitar desobediência civil e ações violentas e clandestinas, ação local e nacional; alianças internacionais ou provinciais, em diferentes momentos do processo de mobilização. Os abolicionistas recorreram a tudo: o lobby, as ações de liberdade, os projetos de lei no parlamento; as conferências-concerto; a libertação de territórios; o caminho de ferro subterrâneo de roubos de escravos, o recurso à ordem ou à quebra dela. Não pela crença na superioridade de uma tática em si, mas por sua adequação à conjuntura que vivenciavam, abertura ou clausura do sistema político à agenda da abolição, aos recursos e aliados de que dispunham, aos antagonistas que enfrentavam. Os abolicionistas não se clivam em metades estanques, “moderados” versus “radicais”6. Um movimento social é uma rede de interações sociais de alinhavo de pluralidade de indivíduos, eventos, textos, associações, construída no curso de um conflito (Diani, 2003), e em contínuo rearranjo. Como a teia da aranha, as conexões quebram e se refazem facilmente, porque os ativistas, heterogêneos em origem, posição, crenças, brigam entre si, mas calculam que sua força depende da unidade. Longe de ator coletivo orgânico, de voz uníssona e solidez interna, o movimento é conjunto de manifestações repetidas em torno de objetivos, líderes, identidades e bandeiras permanentemente negociados e reelaborados. Não coro, orquestra. O movimento social tal qual o conhecemos, Tilly mostra, surgiu na Inglaterra do século 18, no curso da mobilização contra o tráfico de escravos. Forma de ”popular politics” e “the consequential synthesis of three elements: 1. a sustained, organized public effort making collective claims on target authorities; let us call it a campaign; 2. employment of combinations from among the following forms of political action: creation de specialpurpose associations and coalitions; public meetings; solemn processions; vigils; rallies; Toplin (1972) é dos que trabalha com esta cisão, muito repetida em trabalhos posteriores, entre grupos “moderados” e “radicais”, sem que se explique o que origina a partição. A posição de classe é a explicação implícita na maior parte dos casos. Contudo, a tese de que os menos afortunados seriam os mais radicais já foi posta abaixo pela literatura sobre movimentos sociais (por exemplo, Zald e McCarthy, 1977), que mostra como os sem recurso são incapazes de se organizar e agir. Além disso, a tese tem um contrafactual: Antonio Bento, sempre mencionado como exemplo de radical, era homem de posses. Moderação e radicalismo dizem respeito às conjunturas em vez de a posições de princípio. Estratégias “radicais” são mais frequentes depois de 1885, isto é, depois da falência da estratégia moderada. 10 6 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 demonstrations; petition drives; statements to and in public media; pamphleteering; call the variable ensemble of performances the social movement repertoire; 3. participants’ concerted public representations de WUNC: worthiness, unity, numbers, e commitment on o part de themselves and/or their constituencies; call them WUNC displays.” (Tilly 2005:308) As manifestações abolicionistas públicas e repetidas no Brasil oitocentista, com a continuidade da mesma campanha ao longo de duas décadas; a criação de associações antiescravistas; a organização de performances - atos e escritos - de protesto e a exibição pública repetida desta rede coordenada e nacional de ativistas, organizações e manifestações no espaço público preenchem o critério. À maneira de seus congêneres anglo-americanos7, os brasileiros usaram variedade de estratégias de mobilização, inclusive propaganda de massas, recrutando grande número de adeptos nas maiores cidades do país. Neste sentido, foi o primeiro movimento social brasileiro. Definir o abolicionismo como movimento social significa abandonar outra diferenciação usual na literatura, entre emancipacionistas, defensores do fim gradual da escravidão, e abolicionistas, os imediatistas8. No mundo anglo-saxão, distinguia clamor pela abolição do tráfico negreiro ou pela emancipação dos escravos; aqui, como toda mobilização aconteceu depois do fim do tráfico, a separação acha pouco sentido. As duas categorias encavalam nas mesmas pessoas: o livro-bíblia do movimento, embora tenha por título O Abolicionismo, de Nabuco traz proposta “emancipacionista”, de fim gradual da escravidão, e “emancipacionistas”, como Dantas, chegaram a propor medidas “radicais”, como acompanhar a abolição com a pequena propriedade. O “rápido” de uns era às vezes mais lento que o etapismo de outros. Os ativistas reconheceram a dificuldade, pois que, disse Nabuco (JC, 18/6/1884), “(...) abolicionista e emancipador Drescher (1980:43) argumenta sobre o abolicionismo anglo-americano: “It had the characteristics of what we think of as a social movement. It attempted to bring public pressure to bear on reluctant or hostile economic interests e agencies of government. At critical moments it used mass propaganda, petitions, public meetings, lawsuits e boycotts, presenting anti-slavery action as a moral e political imperative. Its adherents achieved, at least occasionally, a reputation for fanaticism. Organizationally, it tended to be decentralized in structure e rooted in local communities. It usually aimed at inclusiveness, welcoming participants who were otherwise excluded by sex, religion, race, class or locality, from o ordinary political process.” 8 Por exemplo, Célia Azevedo (2001: 90) apresenta Nabuco como membro de uma vertente moderada do abolicionismo, cuja “mensagem central” seria “fazer a abolição da escravidão dentro da lei, de modo a salvar a grande propriedade agrícola”. Maria Helena Machado (2009:1) fala que “(...), ao contrário do que apontavam as aparências e afirmavam os parlamentares e a burocracia imperial, que correram para assumir as glórias do feito por todos longamente aguardado, o fato social da abolição foi realizado em outra parte, nas esferas menos visíveis da sociedade, (...), no contexto das nascentes militâncias populares e nas franjas da política formalista e excludente do Império.” 11 7 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 são sinônimos, e a diferença entre sinônimos é muito insignificante em política por maior importância que tenha em ideologia.” Um movimento é sempre internamente heterogêneo, como facções e alinhamentos instáveis. Mas ressaltar clivagens9 obscurece a polarização central: entre abolicionistas e escravistas. Os movimentos sociais só existem em conjunturas políticas peculiares (Tilly, 2006; 2008) e tanto sua aparição quanto seus êxitos dependem da relação que estabelecem com o estado, com as demais autoridades sociais investidas de poder político, e com seus antagonistas. Cada movimento social é um lado de um conflito, inintelígivel sem reconstruir autoridades políticas e contramovimentos sociais, instituições e tradição que ele desafia. Estratégias de ação, retóricas de legitimação pública e mesmo identidades coletivas são relacionais no sentido de se definirem por contraste com as escolhas dos antagonistas. Só existem abolicionistas diante de escravistas. De outro lado, o movimento e contramovimento operam no ambiente políticocultural de sua época. Na luta política, se valem do repertório de confronto do tempo, de estratégias e retóricas testadas em experiências similares contemporâneas ou passadas e o fazem contrastivamente, num moto estratégia/contraestratégia. Nesta investigação sobre o abolicionismo brasileiro da ótica da teoria dos movimentos sociais elegi estes dois focos: as relações entre movimento, contramovimento e estado – pois que o fulcro da ação dos dois primeiros é influir no curso da ação do terceiro; e as apropriações e adequações do repertório abolicionista estrangeiro pelo movimento brasileiro. motivações para a mobilização Comparado com o resto do Ocidente, o movimento abolicionista brasileiro é tardio. A escravidão foi sempre tema, mas demorou a virar problema na agenda pública. Isto por razões econômicas - escravidão era bom negócio em si e base de todos os outros rentáveis; políticas - o sistema político se amparava em eleitorado formado por proprietários de escravos; e culturais - a escravidão era um modo de vida, base da 9 A distinção ignora tambem que os grupos mudam, norteadas pelas mudanças de constelação de forças ao longo do processo político. 12 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 hierarquia de prestígio social e estruturadora do habitus da sociedade imperial. O escravismo era aqui forca econômica, organização política e estilo de vida. A opinião generalizada na elite política não era, como nos Estados Unidos, que a escravidão fosse bem em si. Mal menor, momentaneamente útil, desapareceria por si, sem necessidade de intervenção – ou de mobilização. Contudo, a historiografia tem demonstrado a falta de fundamento empírico do argumento: a escravidão foi rentável até o fim e nada indica que a ascensão do capitalismo a eliminasse (Slenes, 2004). Instituição profundamente enraizada, do qual grande parte da sociedade vivia, resistia a desaparecer e tendia a se reproduzir. O que levou um conjunto de indivíduos a se insurgirem contra estado de coisas naturalizado? A emergência do abolicionismo como movimento tem a ver com o novo estilo de vida resultante da mudança cultural, lenta, acelerada com a urbanização e modernização da sociedade brasileira na segunda metade do século XIX, que Gilberto Freyre tão bem descreveu em Sobrados e Mucambos. A concentração de uma nova geração de jovens educados nas cidades e a difusão de novas maneiras de sentir e de pensar pelas artes e pela ciência propiciou uma alteração das sensibilidades. Enquanto no mundo anglo-saxão, a religião fez o trabalho principal de alteração de sensibilidades, ao gerar a repugnância ante à escravidão, aqui, dadas as constrições do catolicismo como religião de estado, portanto salvaguardador do escravismo, o “choque moral” (Jasper, 1997) coube às artes, que fizeram o serviço de sensibilização antiescravista, tornando insustentável, no plano dos sentimentos, uma instituição antes tida e havida por natural. O romantismo alimentou a compaixão pelo sofrimento alheio, parte do ethos cavalheresco da missão de proteger o fraco do despotismo do forte. De outro lado, a difusão das novas ciências sociais e da retórica do progresso a elas associada – a política científica (Alonso, 2002) - ao longo dos anos 1870 e 1880, alimentou a ideia da superioridade de uma sociedade urbano-industrial baseada no trabalho livre vis-à-vis a forma patriarcal-rural, apoiada no escravismo - bem como a crença na urgência de transitar de um tipo de sociedade a outro por meio de ações políticas imediatas. A política científica ajudou a interpretar o escravismo como fenômeno social, resultado de decisões políticas – não da natureza ou do destino. E, por decorrência, modificável por ação coletiva. Se o romantismo suscitou a compaixão individual pelo que sofre, a política 13 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 científica definiu o sofrimento como injustiça social (Gamson e Meyer 1996). As novas formas de sentir e pensar fomentaram em homens e mulheres livres a disposição de se engajar em ações em favor de terceiros, os escravos, e das quais não seriam beneficiários diretos e cujos ganhos políticos e simbólicos eram incertos, enquanto custos pessoais, profissionais e políticos eram fáceis de aquilatar. Disposição ativada por experiências concretas. Cada um dos líderes da mobilização viveu episódio que acendeu em si, no plano da subjetividade, o sentimento de injustiça. Nabuco, Rebouças, Patrocínio e Luiz Gama adentraram assim o ativismo abolicionista, com a diferença de que o primeiro se mobilizou contra injustiça incidindo na vida alheia, ao passo que nos demais ela se acendeu via experiência pessoal da estigmatização pela cor. Movimento e estado Motivo para agir não é o mesmo que ação (Tilly, 1978). Houve por séculos vítimas da injustiça da escravidão sem que surgisse mobilização coletiva contra ela. Tampouco sua deslegitimação no plano das ideias não se converteu automaticamente em ação contra ela. O fator decisivo para entender a configuração de uma ação coletiva antiescravista é a conjuntura política. Um movimento abolicionista se configura no Brasil a partir de mudanças na estrutura de oportunidades e ameaças políticas, isto é, alterações na balança de poder entre as autoridades - grupos ocupando cargos no estado - e os desafiantes - que se encontram do lado de fora (McAdam, Tarrow, Tilly, 2001). Movimentos surgem tipicamente em momentos em que cisão ou enfraquecimento da coalizão que dirige o regime afeta a interação política entre o estado e a sociedade, ao gerar elites dissidentes e reduzir a capacidade estatal de reprimir protestos, assim propiciando aos desafiantes aliados potenciais e canais para exprimir suas reivindicações no espaço público. Esta teoria do Confronto Político entende o movimento social – emergência e estratégias - a partir de sua relação com as instituições políticas. Variações de oportunidades e ameças políticas, conforme o estado se mostra indiferente, cooperativo ou refratário às suas demandas, encaminham o movimento para canais distintos de 14 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 elocução: manifestações no espaço público, política parlamentar, ações clandestinas. Interpretar o movimento abolicionista nesta direção obriga, então, reconstruir as conjunturas decisivas que abriram ou fecharam as oportunidades políticas para a abolição, ao disponibilizarem aliados e inimigos no interior do próprio status quo escravista. Oportunidades para a emergência de um movimento social pela abolição na escravidão no Brasil se apresentaram ao final dos anos 1860. A elite imperial, coagida por mudanças no cenário externo, a guerra civil norte-americana e o andamento da abolição nas colônias espanholas, entrou a discutir medidas limitadoras do escravismo e se fracionou entre uma ala de modernizadores, outra de refratários. Em 1868, deflagrou-se grave crise política, que levou boa parte do Partido Liberal a protestar contra as regras do sistema político no espaço público e reclamar reformas, incluída a abolição gradual da escravidão. Políticos fazendo política fora das instituições imperiais, em conferências e jornais, funcionou como efeito demonstração da possibilidade de uso do espaço público para vocalizar temas que o sistema político estamental barrava. O Partido Conservador, então no governo, respondeu à crise com medidas modernizadoras, uma delas, o Ventre Livre. A proposta dilacerou a unidade dos Conservadores, embaralhou os Liberais e, embora muito branda, explodiu a coalizão política comandando o Segundo Reinado desde a Conciliação. Dividida, a elite política se enfraqueceu em sua capacidade de resistir a mudanças. Este cenário deu as condições para o surgimento, entre 1868 e 1871, de um primeiro e pequeno ciclo de mobilização abolicionista no espaço público, carreada por membros dissidentes da elite imperial e seus apadrinhados. A postura inicial do estado em relação a estes poucos foi de tolerância10. E pareceu que se dilataria para facilitação em 1878, quando o Partido Liberal, que passara uma década reclamando reformas no espaço público, chegou ao poder. Sua agenda incluía – decerto que não em primeiro lugar - a abolição e a ascensão do partido foi interpretada por uma leva de jovens da geração 1870, em maioria de fora do estamento socialmente 10 As outras duas possíveis, facilitação e repressão (Tilly 1978:106ss), vieram depois. Estes posicionamentos dos governos não dizem respeito a todas as mobilizações, mas ao abolicionismo apenas, pois governos podem bem desenvolver estratégias seletivas, reprimindo certos tipos de movimento, enquanto facilitam a expressão de outros. 15 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 dominante e devidamente nutridos do leite romântico e da política científica, como janela de oportunidade para o protesto político antiescravista. O domínio Liberal no sistema político revelou-se menos benfazejo à abolição que o esperado, mas foi poroso o bastante para levar a questão de volta à agenda parlamentar. Durante os primeiros quatro governos da dominação Liberal (1878-1883), escritos, associações e atos abolicionistas se avolumaram e se disseminaram sem apoio, mas também sem repressão do governo. Neste lassez-passer, a mobilização antiescravista cresceu ao ponto de constituir um movimento nacional, a pressionar, com eventos e escritos, autoridades políticas locais e nacionais. Contramovimento A tolerância virou facilitação em 1884, quando ascendeu à chefatura do governo um emancipacionista, Manuel de Souza Dantas. Deu-se então colaboração entre movimento e governo e um terceiro elemento ganhou força no espaço público: o contramovimento escravocrata. Boa parte da literatura sobre movimentos sociais em geral e sobre o abolicionista brasileiro em particular negligencia esta relação de suma importância entre o movimento e a reação a ele11. A mobilização de um grupo é sempre contra interesses e crenças de outros grupos, neste caso contra todo um modo de vida. Como argumentam Meyer e Staggenborg (1996:1635), quando um movimento social lança ameaças a interesses de elites sociais em condições de reagir surge um “contramovimento”. A relação entre movimento e contramovimento é dialógica, ambos disputam a legitimação pela sociedade e o poder de implementação do estado. Jogam, pois, seu jogo em duas arenas, a das instituições e a do espaço público. O abolicionismo suscitou não só uma resistência social difusa dos escravocratas, cuja atividade se baseava na mão de obra escrava, mas uma reação política organizada, na forma de um contramovimento em favor da manutenção da escravidão, um escravismo. A escravidão sobreviveu tão longamente no Brasil porque era assunto inominável, fora da pauta de deliberação. Quando finalmente alcançou a agenda, a abolição foi obstada pela ação intencional de um contramovimento, que lutou por sua manutenção. 11 Quem chama atenção para o fato, embora não desenvolva o ponto é Bethell (1970), ao dizer que o primeiro movimento social em torno da escravidão no Brasil foi a favor dela, pela manutenção do comércio de africanos. 16 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 A reação escravista politicamente organizada de fins de 1884, nas instituições e no espaço público, fez soçobrar a aliança movimento-governo e converteu o que era oportunidade em ameaça política. Em inícios de 1885, o Partido Conservador assumiu o governo e adotou, daí até fevereiro de 1888, linha dura ante o movimento: repressão. Ciclos de protesto e estratégias de ação As estratégias adotadas pelos abolicionistas se explicam por estas variações de conjuntura. O movimento teve de agir, provocando ou respondendo ações das outras forças sociais em três frentes: a persuasão da opinião pública e de elites sociais, no espaço público; a tessitura de alianças com setores da elite política dirigindo ou com possibilidade de dirigir o estado, no âmbito das instituições, e o combate ao contramovimento escravista, nas duas frentes anteriores e no plano da vida privada. A balança de poder entre estas forças, nos diferentes momentos do processo político, definiu as estratégias de ação viáveis para o movimento. Como argumentam Gamson e Meyer (1996:283): “Movements often have a range of actors pursuing numerous strategies in both institutional and extrainstitutional venues. (…) Justifications for strategic choices center on definitions of relative opportunity (...).” Deste ângulo da relação com estado e contramovimento, a mobilização abolicionista se dividiu em: a) gênese (1868-1871): surgimento de manifestações antiescravistas no espaço público, sob tolerância do estado; emergência de reação escravocrata; b) expansão (1878 - maio de 1884); interpretação de que o governo liberal levaria adiante reformas abolicionistas fomentou o crescimento e nacionalização da mobilização. O governo, contudo, não tomou medidas facilitadoras e o escravismo se organizou politicamente; c) institucionalização (maio de 1884 a maio de 1885): momento de facilitação, quando governo Liberal emancipacionista se aliou ao movimento e tentou reforma; contramovimento se avolumou e reagiu, no espaço público e nas instituições, derrubando o governo; d) confrontação (agosto de 1885 a fevereiro de 1888): coalizão governo Conservador-contramovimento implementou política repressiva legal e medidas coibitivas extralegais. O movimento respondeu com ações ilegais e clandestinas, como 17 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 fugas de escravos12; e) certificação (fins de 1887 a maio de 1888): acirramento do conflito, com uso de violência de parte a parte, levou elites sociais e instituições até então não mobilizados a buscarem solução de compromisso, sendo decisiva a tomada de posição do exército pró-movimento, que inviabilizou a estratégia repressiva do governo. Os momentos b, c e d compõem ciclos de protesto, no sentido de Tarrow (1983:36): “sequences of escalating collective action that are of greater frequency and intensity than normal, that spread throughout various sectors and regions of society and that involve both new techniques of protest and new forms of organization (…).” Momentos de intenso conflito político, quando rotinas sociais são suspensas, o espaço público da rua é ocupado com demonstrações massivas, e se dá o corpo a corpo com o contramovimento e as autoridades políticas e sociais. Em cada um dos ciclos, variações no equilíbrio de oportunidade e ameaça empurraram o movimento a agir preferencialmente numa arena. Enquanto o estado foi tolerante, o movimento investiu no proselitismo cultural no espaço público de persuasão da opinião pública. Ante estado facilitador, lançou ou apoiou candidaturas ao parlamento, tentando avançar pelas instituições políticas. Quando o estado passou a reprimir, o movimento migrou para a desobediência civil e as ações clandestinas. Primeiro flores, depois votos, por fim, balas. O confronto governo-movimento foi, contudo, desarmado pela intervenção de elites sociais, que produziram solução de compromisso. Estruturas de mobilização, redes de ativismo e mediadores políticos Além da janela de oportunidades, para a ação política coletiva se consubstanciar, os ativistas precisam criar ou se apropriar de estruturas de mobilização, como associações civis e redes de relacionamento, que deêm bases organizacionais para a mobilização. Sem poder contar com instituições religiosas para o apoio logístico, como foi a malha de igrejas Quakers para o abolicionismo inglês e norte-americano, por aqui os ativistas tiveram que não só criar associações e se valer da imprensa, mas recorrer aos teatros como sede de reuniões e veículo de difusão. Este enraizamento no meio artístico deu feições peculiares ao ativismo abolicionista brasileiro, cuja propaganda cresceu laica e cevada em formas e espaços artísticos. Fase que Conrad supõe anárquica - “last chaotic phase of abolitionism.” (Conrad, 1975: 245) – me parece antes um momento de mudança de estratégia. 18 12 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 Secundariamente, cafés, clubes, residências e locais de trabalho dos ativistas funcionaram como pontos de agregação e planejamento da campanha. A sobreposição entre espaço público e privado reforçou um traço saliente nos movimentos sociais, a relevância das relações interpessoais na construção das ligações entre grupos e arenas. Três tipos de redes sociais estruturaram o movimento abolicionista: pessoais (parentesco, compadrio, amizade), profissionais (professor-aluno, estudantis, ocupacionais) e políticas (afiliação a mesmos clubes, partidos, ou seitas - republicanos, positivistas, maçons, etc), que funcionaram tanto sincronicamente como intergerações13. As redes de ativismo se tecem em torno de bandeiras guarda-chuva, propositalmente genéricas, porque os ativistas nela divergem acerca dos detalhes de seu programa. Se estivessem de acordo sobre tudo, os abolicionistas conformariam grupo, não movimento. Há desacordo porque os ativistas são diferentes em estrato social, socialização, estilo de vida, região de origem, carreira, com chances também diferenciais de acesso ao sistema político e a posições de prestígio social. Mas a variedade propicia a divisão de trabalho entre os ativistas, com estilos de ativismo se desenvolvendo conforme nichos preferenciais de atuação - como o método Gama, de uso do judiciário, o Rebouças, de lobby; o Patrocínio, das conferências-públicas, o Nabuco, pelas instituições. Estilos complementares14. Naturalmente um deputado como Nabuco não podia declarar no Parlamento sua vinculação a incitadores de fugas de escravos, sob pena de perder a legitimidade de negociar - o que não significa a inexistência da relação. Redes são policêntricas, com facções e dissidências. Quem impede seu esfacelamento são os brokers, mediadores políticos15, que pertencem a mais de um grupo, ou a mais de uma arena e que podem, assim, transitar entre elas. São conectores, que cosem alianças, põem panos quentes nas divergências, impedem que esgarçamentos desandem em cisões. Geram a coesão interna mínima para a autoapresentação do movimento como ator coletivo. No nosso caso, o operador principal da faina miúda que reproduziu e ampliou o movimento foi André Rebouças. Porque aristocrata, filho de 13 O elo entre gerações permitiu cumulatividade, com o ativismo dos anos 50 e 60 fornecendo bases para o ciclo seguinte. Resumem Gamson e Meyer (1996:289), “Those who engage in the actions that open political opportunity do not attempt to be the main spokespersons; for this, they defer to partners who do not carry the baggage of deviance but can articulate a shared frame on the issue.” A heterogeneidade é uma característica intrínseca dos movimentos sociais, que facilita ganhar adeptos e construir alianças. 15 A literatura de movimentos sociais nomeia de “brokers” os ativistas que funcionam como correias transmissoras entre diferentes partes de um mesmo movimento. 19 14 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 político, podia circular pelas boas famílias e nos bastidores das instituições políticas; porque empresário, podia confabular com homens de negócio; como podia ir aos estudantes, porque era professor; amante da ópera, falava à gente do teatro, à da imprensa; porque negro tinha legitimidade nas franjas da mobilização. Rebouças foi ponto de entrelaçamento entre a mobilização das ruas, os teatros e a imprensa de Patrocínio, e a arena institucional e a relação com os movimentos estrangeiros, onde pontificava Nabuco. O grande articulador do movimento de 1868 a 1888, sempre no centro nervoso da mobilização. Estes três brokers nacionais se lastrearam numa surpreendente quantidade – e diversidade - de homens e mulheres, operando em vários níveis e arenas, e que ultrapassa o milhar de pessoas. 2.2. Repertório de confronto e transferência política Perspectiva comparada Embora a literatura atente para o caráter mundial da escravidão, trata o movimento abolicionista brasileiro da cerca para dentro do estado-nação, negligenciando sua interlocução com movimentos abolicionistas prévios no estrangeiro e seu repertório de idéias e formas de ação. As abolições da escravidão no Ocidente compuseram um grande ciclo de mobilização, começando pela Inglaterra no século XVIII, mas se estendendo ainda pela segunda metade do XIX. O fim da escravidão aconteceu apenas em 1851 em Nova Granada (Colômbia); em 1852, no Havaí; em 1853, na Argentina; em 1854, no Peru e na Venezuela; em 1855, na Moldávia. Em 1860 e 1861, sistemas de servidão foram abolidos na Índia e na Rússia, respectivamente; e em 1863 acabou o escravismo nas colônias holandesas. Apenas em 1869, Portugal acabou com a instituição em suas colônias africanas. Durou até 1873 o tráfico em Zanzibar e Madagascar. E já na virada para os anos 1880 é que a escravidão acabou em Gana (1878), na Bulgária (1879) e no Império Otomano (1882) (CF. Drescher, 2010:372ss). O caso brasileiro precisa ser assim entendido como parte desta sequência. Por aqui se conhecia, via livros, viagens, visitas de estrangeiros, a experiência abolicionista estrangeira pregressa e se acompanhava nos jornais o andamento de processos 20 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 abolicionistas coetâneos, ainda em carne viva em duas grandes agrolavouras. A abolição norte-americana só se completou em 1865, pela via sangrenta – como, no começo do século em São Domingos (Haiti) -, culminando em guerra civil. Os brasileiros seguiram ambas os processos intensamente pelos jornais. Apenas em 1862 Cuba aboliu o tráfico negreiro em seu território e os Estados Unidos e a Inglaterra selaram acordo para suprimi-lo definitivamente nas Américas (African Slave Trade Treaty Act). A Espanha aboliu a escravidão em sua colônia de Porto Rico em 1873, mas segurou a instituição em terras cubanas até 1886. Os norte-americanos aboliram mais tarde, em 1866 e, tendo depois comprado o Alasca da Rússia, o fizeram por lá apenas em 1870. Assim, quando a questão entrou na agenda no Brasil em meados dos anos 1860 havia um leque de experiências pregressas e correntes em que se mirar. Tanto o estado brasileiro quanto o nascente movimento abolicionista puderam buscar aí modelos e aliados. Transnacionalismo Alianças políticas e circulação de idéias e estratégias em escala internacional, apregoadas novidades do século XXI, existiam já no XIX. Benedict Anderson (2007) mostra como o anarquismo do final do oitocentos se amparou numa rede global de ativistas. O mesmo vale para o abolicionismo. Europeus e norte-americanos mantinham uma rede antiescravista transnacional ainda atuante no fim do século XIX, com esforços dirigidos sobretudo a West África. Keck and Sikkink (1998:41) frisam as trocas de experiências entre abolicionistas da Inglaterra e Estados Unidos, formando uma “global network of advocacy”. Stamatov (2010) reconstruiu a rede mundial de abolicionistas, incluindo Europa, África e Américas. O movimento abolicionista brasileiro estabeleceu relações tanto com a British and Foreign Anti-Slavery Society (BFASS) (Bethell e Carvalho, 2008; Rocha Penalves, 2008; Alonso, 2007), como com abolicionistas franceses, de Madrid e das colônias espanholas (Alonso, 2010)16. A comunicação tinha ritmo mais lento, por razões tecnológicas, mas não altera a natureza do fenômeno – o vínculo transnacional. Os brasileiros trocavam cartas e/ou conheciam pessoalmente abolicionistas estrangeiros, o que propiciou a circulação de formas de ação e de retórica de um caso a outro. 16 O caso mais próximo do nosso, o de Cuba, tem ganhado atenção, mas na linha das similitudes estruturais ou conjunturais entre os casos (Drescher 1988, 2009; Schmidt-Nowara, 1999; Scott, 1985), não das relações entre eles. 21 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 Keck and Sikkink (1998) argumentam que crucial no ativismo transnacional seriam os “activists beyond borders”, com circulação e vínculos internacionais, capazes de se mobilizar recursos e oportunidades externos para pressionar o estado nacional, num “efeito bumerangue”. Abolicionistas brasileiros usaram a técnica; mobilizando relações com membros da rede abolicionista transnacional para pressionar o governo brasileiro. O principal “broker” entre a arena nacional e internacional foi Joaquim Nabuco, que construiu o respaldo moral internacional para o movimento abolicionista local17. Repertório de práticas, repertório moral O conhecimento da experiência pretérita e os vínculos com a rede transnacional ainda ativa permitiram aos brasileiros se valer de estratégias e retórica abolicionistas previamente testados. As experiências estrangeiras - tópica ausente nos estudos sobre o abolicionismo brasileiro - funcionaram o modelo para a construção do ativismo local. Drescher (1988;2009) agrupou estas experiências em dois gêneros, o “continental”, que tomou a Europa Continental, mais elitista, com lobby e ações parlamentares, e o “angloamericano”, mobilizador, com campanha pública e massiva de proselitismo - manifestações de rua, cerimônias em igrejas, passeatas, “meetings” - para pressionar governo e parlamento. Tais experiências funcionaram como um repertório de confronto para o movimento brasileiro. Charles Tilly (2006: vii). define repertórios de confronto como “(…) the limited, familiar, historically created arrays of claim-making performances that under most circumstances greatly circumscribe the means by which people engage in contentious politics.” O conjunto de performances culturalmente criadas no curso de conflitos, se bem sucedidas no uso, se tornam um script para a ação futura de novos agentes, engajados em novos conflitos. No nosso caso, o conjunto de “performances confrontacionais” que movimentos abolicionistas anteriores similares tinham inventado e testado. Os brasileiros se apropriaram tanto da experiência anglo-americana quanto da cubana ao se organizar, incorporando formas de organização (a criação de associações específicas), estratégias de ação (cerimônias de persuasão da opinião pública e 17 Nabuco estabeleceu relações com abolicionistas ingleses, franceses, norteamericanos, cubanos. E há que se notar também a presença marcante de estrangeiros na campanha, como os portugueses Angelo Agostini. 22 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 organização de “underground railroad” de fugas), espaços de mobilização (ruas e associações civis), e esquemas intelectuais (retóricas de deslegitimação da escravidão). A transposição de repertórios nunca é reprodução automática. Experiências sociais específicas impõem condições, escolhas, negociação e adaptação. A “transferência política”18 encontra limites na tradição nacional e na cultura local, como nos constrangimentos da estrutura de oportunidades políticas e nas performances rivais. Por isso, os agentes lidam com o repertório como os músicos de jazz (Tilly, 2006:35), que encontram conjunto fixo de partituras, mas triam, interpretam, modificam, conforme parceiros, público, antagonistas. Improvisam e, ao adequar a performance a novos propósitos e circunstância, a singularizam. A tradição política brasileira - o conjunto de instituições, valores e práticas sociais de legitimação do status quo - circunscreveu as escolhas dos abolicionistas no interior do repertório de confronto disponível. Enquanto os movimentos abolicionistas britânico e norte-americano se erigiram em meio a tradições protestantes, tanto em termos de legitimação (Davis, 1966, 1984), quanto de organização (Stamatov, 2010), o brasileiro surgiu em país que tinha o catolicismo por religião de estado, a igreja enganchada nas engrenagens escravistas. Isto empurrou os brasileiros para a propaganda secular, mitigando o peso da religião como matriz discursiva e base organizacional. Isto se vê na adoção da performance anglo-americana das cerimônias públicas (Rugemer, 2008), que, à maneira dos cubanos em Madrid, migraram das igrejas para os teatros. Elevando as artes a molde de sua propaganda – com as “conferênciasconcerto” - o movimento acabou por produzir seu próprio estilo de ativismo. O mesmo vale para contramovimento e estado. O Brasil seguiu passo a passo a legislação espanhola, transpondo as mesmas leis – a do ventre livre, a dos sexagenários – logo depois de vê-las em uso em Cuba. A reação escravista se amparou em técnicas usadas alhures, como a Lei do escravo fugitivo norte-americana, repetida aqui quase ipsis literis. Transposição e adaptação foram características do conflito como um todo. 18 Tilly (2005:223-4) identifica seis mecanismos a estruturar as transferências políticas: “inovação tática”, a modificação de uma rotina de interação; a “barganha”, negociação da performance entre manifestantes e autoridades; “difusão negociada”, a decisão de adotar inovação tática de outro grupo, lugar e assunto; “mediação” [brokerage], quando um intermediário conecta dois atores, grupos, lugares antes isolados facilitando a circulação de repertórios; a “certificação/decertificação”, uma autoridade social ou política endossa/condena a performance; e a “adaptação local”, modificação de uma inovação tática produzida alhures via adição de símbolos, rituais, pessoas ou conexões sociais locais. 23 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 Tarrow argumenta que são transponíveis as performances que se estilizam, passando a operar como receita, forma vazia (Tarrow 1998:37–41), como as passeatas. Este caráter modular permite novos usos de acordo com assunto, agente ou situação, caso das passeatas. Conferências-concerto, formação de associações, libertação de territórios e caminhos de ferro subterrâneos foram formas modulares do movimento abolicionista brasileiro, a partir das quais ativistas locais construíram variações adaptadas a realidades provinciais e municipais. Esta combinação de padronização e flexibilidade possibilitou a nacionalização do movimento19. Além do repertório de práticas, os abolicionistas brasileiros se valeram também de esquemas de pensamento e retóricas criadas pelos movimentos anteriores. Ann Swidler (1995; 2001) fala em repertórios culturais, compostos de ações e conhecimento, habilidades e símbolos, que os agentes usam como “caixa de instrumentos” ao organizarem suas estratégias de ação. Steinberg (1995) enfatiza os meios discursivos do repertório que permite articular a “morality of claims and remedies” e a “gramática de motivos” que orienta a mobilização coletiva (Steinberg, 1995:60-1; 74). Halfmann e Young (2010), ao analisar os debates sobre aborto e abolição, apontaram o número exíguo de princípios morais, retóricas de justificação, padrões de sentido e representação pictórica – e podíamos adendar as “estruturas de sentimento” de Raymond Williams (1979) – que os ativistas encontram disponíveis num dado tempo como repertório moral. Os abolicionistas brasileiros colheram no repertório moral do tempo enquadramentos interpretativos (“frames of meaning”), redutores e simplificadores da realidade social, que apresentavam a escravidão como social, econômica, política e moralmente problemática. Frames articulados em retóricas antiescravistas – a do progresso, a do direito, a da compaixão -, que identificam causas para a injustiça e apontavam adversários concretos contra os quais lutar, neste sentido, ajudando a construir as identidades coletivas relacionais de abolicionistas versus escravistas. Os abolicionistas usaram largamente o repertório moral em seu proselitismo por panfletos, discursos, poemas, peças teatrais, romances, músicas, desenhos, formas pelas quais dramatizaram e deslegitimaram a escravidão. Houve extenso uso do que Goffman 19 Tarrow argumenta que este tipo de difusão costuma operar do centro para a periferia. No nosso caso, houve tanto expansão do movimento do centro político, a Corte, em direção às localidades, como difusões regionais e surgimento de focos autônomos de protesto. 24 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 chamou “ação dramatúrgica”, com formas de encenação pública da injustiça da escravidão via ficção, nos teatros, como nas ruas, se valendo de rituais sociais de enorme apelo, os funerais, e mobilizando linguagem e imagens capazes de suscitar o que James Jasper (1997) chamou de “choque moral”. O repertório moral foi crucial para operar a deslegitimação da escravidão e apontar linhas de ação rumo à mudança (Snow & Benford, 2000). *** A abolição já foi contada do ângulo econômico (Viotti, 1966), da dinâmica interregional (Conrad, 1975), da historia das ideias (Azevedo, 1987), da agency dos escravos (Chaloub, 1990), dos movimentos de base (Machado, 1994), da violência (Toplin, 1972) e há várias histórias regionais. Meu foco, em alternativa, é o da mobilização abolicionista no espaço público em seu diálogo com o sistema político ao longo de duas décadas e visa mostrar como processos macropolíticos foram entendidos cognitivamente, avaliados moralmente e sentidos afetivamente em microcontextos de experiência social e na trajetória vivida de alguns ativistas-chave. Tomei a sério a perspectiva relacional também deste ângulo, dando espaço aos escravistas Paulino Soares de Souza, arregimentador da resistência no plano societário e nas instituições, e Barão de Cotegipe, chefe de governo durante a grande reação antiabolicionista de 18858. Na larga frente abolicionista, privilegiei o ativista negro de maior expressividade no espaço público, José do Patrocínio, e o mais importante abolicionista parlamentar, Joaquim Nabuco. Quem tudo alinhava é André Rebouças, que se impôs por eixo narrativo por ser o eixo do movimento. Uma vasta pesquisa de fontes20 ancora uma tese principal, a saber, que a mobilização social em favor da abolição da escravidão no Brasil foi maior, mais 20 Vali-me da imprensa abolicionista nacional (O Abolicionista, de novembro de 1880 a dezembro de 1881; Gazeta da Tarde, de janeiro de 1883 a dezembro de 1886; Cidade do Rio, de outubro de 1887 a maio de 1888, O País, 1887, A Redempção, janeiro de 1887 a maio de 1888), de outros veículos não engajados ( A Semana, 1885-1886, Jornal do Comércio, 1884-5), e, mais assistematicamente, da imprensa estrangeira ( Anglo-Brazilian Times, 1865; The Times, 18671888, The Anti-Slavery Reporter, 1882-1887, The New York Times, 1884-1887, e The Rio News, 1887-1888). Panfletos, manifestos, discursos, obras literárias e peças de teatro de abolicionistas; diários e correspondência de Rebouças (Registro de Correspondência e volumes do seu Diário de 1883-1888) e Nabuco, e, subsidiariamente, correspondência de José do Patrocínio, Rodolfo Dantas, Manuel de Souza Dantas, Rui Barbosa, Barão de Cotegipe, Paulino Soares de Souza e princesa Isabel. Usei também relatórios dos ministros ingleses (1850-1888) e norte-americanos (1862-1888) no Brasil. Materiais esses consultados nos acervos de Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Casa de Rui Barbosa, Biblioteca Nacional, Academia Brasileira de Letras, Fundação Joaquim Nabuco, Museu Imperial, Instituto de Estudos Brasileiros – USP, Biblioteca do Senado Federal, Oliveira Lima Library, Brasiliana USP, Sterling Memorial Library e Lillian Goldman Law 25 Seminário Sociologia, Política, História, PPGS-USP, 10 de abril de 2012 estruturada e duradoura do que usualmente se supõe. Rede nacional de ativistas, organizações e manifestações públicas, mais similar ao padrão anglo-americano do que a literatura internacional reconhece, o abolicionismo brasileiro foi um - grande - movimento social. Referências bibliográficas Albuquerque, Wlamyra R. de. O jogo da dissimulação. Abolição e cidadania negra no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2009 Alonso, Angela. Idéias em Movimento: a geração 1870 na crise do Brasil-Império. São Paulo, Anpocs/Paz e Terra. 2002. Alonso, Angela. Joaquim Nabuco: os salões e as ruas. São Paulo, Companhia das Letras, 2007. Alonso, Angela. O Abolicionista cosmopolita. Joaquim Nabuco e a rede abolicionista transnacional. Novos Estudos Cebrap, 88, 2010. Anais da Câmara dos Deputados, 22 de março de 1879 Anderson, Benedict. Under Three Flags: Anarchism and the Anti-Colonial Imagination. Verso, 2007 Azevedo, Célia (2001), “Quem precisa de são Nabuco?”. Estudos Afro-Asiáticos, vol.23 no.1 Rio de Janeiro Jan/June Azevedo, Célia Maria Marinho. 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