Parque Estadual de Vila Velha e Buraco do Padre, em Ponta Grossa/PR: Turismo, Gestão em Áreas Naturais e o envolvimento da Comunidade. GONÇALVES, Andréa Fermino1 LUDKA, Vanessa Maria2 MEDEIROS, Dyego R. M.3 O turismo é uma atividade social que se apropria de bens culturais e naturais como atrativos e recursos de destinos. Características diferenciadas destes legados podem torná-los atrativos, incentivando o deslocamento humano. Áreas de lazer e/ou entretenimento da comunidade local podem despertar o interesse de diferentes núcleos, gerando fluxo turístico, tornando-os atrativos locais ou, ainda, recursos para visitação de turistas que já se encontram no destino. Áreas naturais podem, ainda, caracterizar-se como espaço de educação ambiental, observação de fauna e flora ou simples espaço de circulação em ar livre, procurado pela pureza de ar, paisagem natural e fuga do ambiente urbano. O presente trabalho analisou dois espaços naturais do município de Ponta Grossa, Paraná, que estão sendo apropriados pela atividade turística, caracterizando-se como atrativos para a atividade, o Parque Estadual de Vila Velha e o Buraco do Padre. Também, relacionar seus sistemas de gestão, observando a visitação e conservação desses espaços naturais. Para tanto, realizou-se pesquisa bibliográfica sobre meio ambiente, gestão de espaços naturais, a atividade turística e comunidades locais, bem como bibliografia referente aos espaços pesquisados. Para atingir os objetivos propostos, também foram realizadas visitas no Parque Estadual de Vila Velha e Buraco do Padre. Com características comuns de fauna, flora e formação geológica (furnas), o Buraco do Padre apresenta visitação descontrolada, uma vez que caracteriza-se por ser uma propriedade particular, onde não há Plano de Manejo, diferentemente do Parque Estadual de Vila Velha, que segue as condições impostas a uma Unidade de Conservação e possui infraestrutura para visitação turística. 1 Bacharel em Turismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Especialista em Planejamento e Gestão pela Universidade Federal do Paraná, Mestranda em Geografia na linha Território, Cultura e Representação (Bolsista Reuni/UFPR). [email protected] 2 Bacharel em Turismo pela UNIUV, Licenciada em Geografia pela FAFIUV, Especialista em Turismo: Planejamento e Gestão pela FAFIUV e em Geografia: Gestão Ambiental e Biodiversidade pela FAFIUV, Mestranda em Geografia, na linha Dinâmica da Paisagem (Bolsista Reuni/UFPR). [email protected] 3 Especialista em Análise Ambiental, Mestrando do programa de Pós Graduação em Geografia (bolsista REUNI) - UFPR – Brasil. [email protected] Parque Estadual de Vila Velha e Buraco do Padre, em Ponta Grossa/PR: Turismo, Gestão em Áreas Naturais e o envolvimento da Comunidade. Introdução O turismo é uma atividade que teve seu desenvolvimento acelerado na segunda metade do século XX. As leis trabalhistas, que deram ao homem momentos de férias e descanso semanal, bem como os processos de urbanização, redemocratização e globalização, fez com que o turismo se organizasse como um produto natural e/ou cultural que veio a preencher os momentos de lazer do homem moderno. O desenvolvimento dos meios de transporte tornaram o deslocamento humano mais rápido e confortável, ao mesmo tempo em que os veículos de comunicação diminuíram distâncias, causando interesse por culturas e lugares diferentes e facilidade de compra do produto turístico. A urbanização também fez com que o turismo se tornasse uma opção de lazer contemplativo ou participativo no sentido de descansar em horas livres e repor as energias. Neste sentido, o homem urbano retorna ao campo, não mais para estabelecer moradia e meios de sobrevivência, mas agora para estar em meio natural, onde há a fuga à correria das cidades e afastamento dos espaços de poluição visual, sonora e do ar. Além da contemplação que o ecoturismo oferece, ainda é possível desfrutar de esportes em ares naturais, sempre prezando pela responsabilidade com o meio no qual se insere. A preservação e utilização responsável do meio ambiente é um direito garantido pela Constituição Federal, em seu artigo 225: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. Assim sendo, o turismo busca organizar-se não apenas economicamente, mas também ambiental e socioculturalmente, garantindo aos diversos tipos de demanda produto condizente com suas expectativas, ao mesmo tempo em que insere a comunidade receptiva para o seu desenvolvimento e conservação das áreas onde se realiza. O processo de industrialização e o crescimento descontrolado das cidades também trouxe a preocupação com o ambiente, no sentido de preservar áreas naturais com características relevantes, sendo que o turismo aparece como forma de educação para a preservação natural. No Brasil o assunto ganhou mais destaque após a ECO-92, Conferência das Nações Unidas ocorrida no Rio de Janeiro. O setor público passou a se dedicar de maneira mais intensa aos estudos da preservação de áreas verdes e ao turismo como instrumento de educação ambiental. O Instituto Brasileiro de Turismo – EMBRATUR – e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente – IBAMA – elaboraram conceitos, presentes no Manual de Ecoturismo (1994) onde define “um segmento da atividade turística que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista através da interpretação do ambiente, promovendo o bem estar das populações envolvidas”. Outros autores, das mais diversas áreas, estudam o turismo no ambiente natural, dando destaque à preservação dos recursos e à atividade turística planejada. Ruschmann (2002) propõe planejamento e ética, apontando os possíveis impactos do ecoturismo e destaca “imprescindível estimular o desenvolvimento harmonioso e coordenado do turismo, se não houver equilíbrio com o meio ambiente, a atividade turística comprometerá sua própria sobrevivência”. Também a União Internacional para a Conservação da Natureza – IUCN, determina: ecoturismo é um turismo ambientalmente responsável desenvolvido em áreas relativamente não perturbadas, com o objetivo de desfrutar a natureza e cultura local (presente e passada) e que promove a conservação da área. Tem impactos negativos baixos e beneficia socioeconomicamente as populações. (FILGUEIRAS apud UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA, 2003). As discussões e políticas de preservação da natureza criadas durante do século XX vão tomando seus lugares, interferindo na gestão de áreas de interesse natural e dirigindo suas ações, determinando os tipos de espaços e de diretrizes para o manejo dos espaços. Dois tipos de Unidades de Conservação (UC) são definidos: Unidade de Conservação de Proteção Integral (como os Parques Nacionais) e Unidade de Uso Sustentável. A Lei 9.985, de 18 de julho de 2000, instituiu o Sistema de Unidades de Conservação – SNUC, que estabelece critérios e normas para a criação, implantação e gestão de Unidades de Conservação: Espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituído pelo Poder Público, com objetivos de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção (Artigo 2º). Além disso, dá à população o direito de pedir avaliação técnica e criação de Unidades de Conservação, entre elas a Reserva Particular do Patrimônio Natural – RPPN, que é uma área de domínio privado, onde o próprio proprietário é quem toma a iniciativa de pedir o reconhecimento junto ao Poder Público, mediante relevante importância de biodiversidade ou aspecto paisagístico, ou ainda por suas características ambientais que justifiquem ações de recuperação (Decreto Federal nº 1922, de 05 de junho de 1996). Por outro lado, em algumas áreas privadas, a preservação é instituída por lei e fiscalizada por órgãos como o IBAMA, mesmo que contra a vontade de proprietários e, principalmente, agropecuaristas. Para alguns destes proprietários e trabalhadores rurais, o turismo tem sido uma possibilidade de complementação financeira, já que preserva ao mesmo tempo em que permite a venda do produto turístico planejado e responsável. Nas unidades federativas, é comum que haja instituições próprias, como é o caso do Instituto Ambiental do Paraná – IAP, responsável pela gestão e fiscalização de áreas de proteção ambiental no estado. O órgão dirige atualmente o Parque Estadual de Vila Velha, localizado em Ponta Grossa, que foi o primeiro Parque Estadual do Paraná. Também é um dos responsáveis pela delimitação e acordo com instituições públicas e privadas de interesse sobre o Parque dos Campos Gerais, que está em discussão para um acordo na região e posterior aprovação pelo Governo Federal e pela UNESCO para o seu reconhecimento como Geoparque. A região é considerada de interesse geológico e paleontológico, incluindo espaços como o Parque Estadual de Vila Velha, o Parque Estadual do Guartelá (com seu cânion e pinturas rupestres) e o Buraco do Padre, área onde não foi instituído Plano de Manejo, mas que possui formação, fauna e flora de interesse relevante, bem como paisagem exuberante. Os próximos capítulos apresentarão o Buraco do Padre, comparando-o ao Parque Estadual de Vila Velha, ambos em Ponta Grossa, Paraná, tanto no que diz respeito à gestão quanto à visitação. Parque Estadual de Vila Velha Situado no Segundo Planalto Paranaense, a cerca de 20 quilômetros do centro do município de Ponta Grossa, o Parque Estadual de Vila Velha foi criado em 12 de outubro de 1953, pela Lei nº 1.292, e tombado em 1996 pelo Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico do Paraná, sendo o primeiro Parque Estadual do Paraná. Figura 1 – Mapa de localização de Ponta Grossa/ Parque Estadual de Vila Velha Fonte: Melo et al. (2002) Localiza-se na BR-376, com fácil acesso por pista dupla pavimentada e pedagiada. Compreende uma área de aproximadamente 3.803,28 hectares. Após a área ser considerada um Parque Estadual, sua administração já passou por diferentes instituições. Hoje o parque encontrase sob guarda, gestão e responsabilidade do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) e tem seus objetivos voltados para a proteção ambiental. É uma das 63 Unidades de Conservação do Estado do Paraná, caracterizada como Unidade de Proteção Integral. O espaço já foi área de lazer para a população de Ponta Grossa, que desfrutava de churrasqueiras, piscina pública, passeios em tratores e escalada nos arenitos, um dos destaques da visitação pública. O Parque é conhecido por ter sido fundo de mar, apresentando fósseis marinhos. Com o objetivo de aumentar o fluxo de turistas, em 1975, a Paranatur elaborou um Plano Diretor Turístico para Vila Velha, determinando a construção de play-ground, churrasqueiras, teleférico, além da instalação de 256 holofotes que foram instalados nos arenitos, com fixação embutida nas rochas. Duramente criticado por ecologistas, pesquisadores e cientistas, a Paranatur sofreu com uma ação popular que resultou na desativação do que havia sido construído e na remoção dos holofotes. No entanto, o turismo de massa4 acarretou ao longo dos anos, com impactos sobre o frágil ecossistema do Parque, a aceleração no processo de desgaste dos arenitos. A origem dos arenitos remonta o Período Carbonífero, há aproximadamente 340 milhões de anos, quando os fenômenos geológicos depositaram no local um grande volume de areia, decorrente da movimentação tectônica sofrida com a separação do continente Gondwana em porções menores, correspondentes aos continentes atuais, e da seguinte era glacial. As massas de gelo ao se deslocarem desgastavam o solo por onde passavam incorporando toneladas de fragmentos rochosos. Com o degelo, esses materiais foram deixados sobre a superfície e os processos de erosão que esculpiram o Arenito Vila Velha, principalmente o das águas pluviais, aconteceram no Período Quaternário, ou seja, nos últimos 1,8 milhão de anos. (SANTOS, 2007) O Parque Estadual de Vila Velha, após anos de degradação, foi fechado em janeiro de 2002 para um processo de revitalização e reaberto apenas em 2004. Neste período foi instituído um Plano de Manejo para o Parque, que segundo a Lei 9.985, de 18 de julho de 2000, em seu Artigo 2º, consiste no Documento técnico mediante o qual, com fundamentos nos objetivos gerais de uma unidade de conservação, se estabelece seu zoneamento e as normas que devem presidir o uso da área e o manejo dos recursos naturais, inclusive a implantação das estruturas físicas necessárias à gestão da unidade. O processo de revitalização primou por mais proteção e menos lazer para os visitantes, restringindo campings, piscina pública, churrasqueiras, escaladas, pichações. A área de visitação 4 Atividade descontrolada, sem planejamento responsável, onde “a localidade recebia um volume de visitantes que ultrapassava a sua capacidade de carga” (WINNIK, 2004), ou seja, um número de visitantes superior ao adequado ao Parque. corresponde a uma pequena parcela de sua extensão, preservando espaços sem a intervenção direta do homem em seus ecossistemas. Com a reabertura do parque, observou-se a demarcação de trilhas de acesso, impedindo a escalada nos arenitos, mas contemplando da trilha, além dos arenitos, as furnas e a Lagoa Dourada, que já foi tema de música para compositores da região. A leitura dos arenitos pelos turistas permeia seus formatos, sendo que a “taça” é um de seus símbolos. Figura 2 - Garrafa Figura 3 - Bota Figura 4 – Taça Fontes: Arquivo dos autores As furnas são como poços de desabamento. Ao todo, o Parque possui seis furnas, sendo duas em estágio terminal, ou seja, quase que totalmente preenchidas por sedimentos, a Lagoa Tarumã e a Lagoa Dourada. Entre as outras quatro, uma tem fundo seco e três atingem o lençol freático. A mais profunda é a Furna 1, com 54 metros até a lâmina d’água e mais 53 até encontrar novamente a rocha. Na década de 1970, a Furna 1 recebeu a instalação de um elevador, que levava os visitantes até a lâmina d’água. Em 2002, quando o Parque foi fechado, o elevador foi desativado e permanece parado na furna, por questão de proteção ao meio ambiente e segurança. Retirar poderia configurar-se como um processo mais degradante. Figura 5 – Placa Furna 1 Fontes: Arquivo dos autores Figura 6 – Elevador Uma das furnas considerada em estágio terminal, a Lagoa Dourada, também faz parte do passeio, com seus 320 metros de diâmetro e profundidade nunca superior a 5 metros. (...) considerada por especialistas uma furna em processo de assoreamento, sendo o nível de suas águas o mesmo das Furnas 1, 2 e 3, já que estão ligadas pelo mesmo lençol freático. O desnível do relevo entre estes atrativos é o que confere à ela o aspecto de uma Lagoa e às Furnas, de profundas crateras verticais (SANTOS, 2007). O processo de revitalização do Parque buscou estimular de forma ordenada a visitação pública, evitando impactos aos ecossistemas presentes. Foram realizadas obras como o portal de entrada, as trilhas, o estacionamento, novas áreas de lazer, o centro de visitantes com sala de projeção, lanchonete, banheiros, além das mudanças administrativas e na logística do passeio. O projeto de reestruturação do parque levou em conta a importância do sítio arqueológico e a questão ambiental. Com o novo formato, o visitante pode percorrer a trilha completa, com 2.600 metros, ou meia trilha, onde é feito um percurso de 1.100 metros, ambos de nível leve. Ao chegar o mesmo assiste a um vídeo histórico e educativo e em seguida vai de ônibus até o primeiro ponto, de onde parte sem o acompanhamento de guia/monitor. A trilha é auto-guiada, com placas que identificam três formações: a garrafa, a bota e a taça. Na pesquisa de Santos (2007), 80% dos visitantes não conseguiram indicar outras formas, pedindo acompanhamento de guia para todo o trajeto. A administração do parque afirma não haver recursos humanos suficientes para tanto. Outro cuidado implantado na revitalização do Parque foi a presença de aceiros, que é uma faixa mais baixa de vegetação, feita para impedir o alastramento do fogo em caso de incêndio no parque. Atualmente há a presença de epífitas nos galhos das árvores, popularmente conhecidas como barba-de-velho ou barba-de-bode, que são indicadores de ar puro, já que esse tipo de vegetação não sobrevive em lugares muito poluídos. Figura 7 – Bosque com “barba-de-bode” Fonte: Arquivo dos autores Percebeu-se que entre os entrevistados, apenas 30% já conheciam o Parque. Dentre os 30%, um terço conheceu o local depois da revitalização, sendo que os demais afirmaram já ter subido nas pedras, alimentado quatis, feito churrasco. Mesmo com todos os benefícios, ainda há relutância de alguns por se sentirem limitados e monitorados demais na visita aos atrativos. Winnik (2004) coloca que “umas das premissas estabelecidas para o desenvolvimento sustentável turístico é a participação comunitária (...)”. Sobre o mesmo aspecto, Wearing e Neil (2001) afirmam As parcerias entre o turismo, as agências governamentais e a população local são necessárias, já que as populações locais podem articular preocupações, desejos e necessidades iniciais em relação a qualquer progresso, avaliando, em seus próprios termos, se desejam os benefícios proporcionados pelo turismo. O Plano de Manejo do Parque de Vila Velha previu a inserção de mão-de-obra local, oferecendo aos moradores do entorno (Vila Jamil ou Jardim Novo Vila Velha) um ciclo de palestras e curso voltados para a comunidade, tratando do patrimônio natural e cultural, das lendas, história de formação, cuidados para a preservação, atendimento ao visitante, etc. No entanto, nem todos os interessados pelo curso tiveram possibilidade de ser contratados, já que o número de vagas era limitado. Alguns dos condutores locais ainda desistiram, havendo atualmente o atendimento de estagiários dos cursos superiores e técnico em Turismo, das redes pública e particular de ensino. Buraco do Padre Situado em Fazenda de propriedade do Sr Álvaro Scheffer, também no Segundo Planalto Paranaense, o Buraco do Padre localiza-se a 24 quilômetros do centro de Ponta Grossa, no entorno de preservação do Parque de Vila Velha (VAZ, 2005). O acesso no sentido Ponta Grossa – Distrito Itaiacoca faz-se pela Rodovia PR-513, percorrendo 18 quilômetros por via pavimentada e os demais por estrada de terra, até a entrada. Está inserido na Área de Proteção Ambiental – APA, da Escarpa Devoniana, sítio importante no que se refere à singularidade geológica. Não existe consenso sobre o nome “Buraco do Padre”. De maneira geral, as lendas levam à história de um ou mais religiosos que se dirigiam ao alto do platô para retiros espirituais, já que ali encontravam um local afastado, tranqüilo e favorável à introspecção. Não existem registros a este respeito há mais de 50 anos, o que estima-se o uso relativamente recente do local. O Buraco do Padre é uma furna com cerca de 30 metros de profundidade, grande diversidade de fauna e flora, aspectos geológicos relevantes, marcada pela beleza cênica de sua cachoeira, proveniente de drenagem subterrânea vinculada à furna e fendas, que forma um pequeno lago com fundo e praia arenosos. Melo; Lopes; Boska (2005) definem o local como (...) um local muito atraente e ilustrativo, pela excepcional oportunidade de adentrar a pé, sem grande esforço, numa furna com túneis, fendas e rio subterrâneo associados, com bela exposição dos arenitos da Formação Furnas nas paredes rochosas. E um exemplo aflorante das cavidades subterrâneas encontráveis em profundidade, numa unidade geológica que assume crescente importância como aquífero estrutural em região com acelerada demanda de recursos hídricos. Ademais, as singulares feições do relevo da região formam micro-ecossistemas com muitas espécies endêmicas, ainda por serem devidamente estudadas. Plantas rupestres proliferam nas paredes da furna, túneis e fendas, enquanto andorinhões nidificam nas irregularidades da rocha (...). Os autores ainda explicam a importância de seus sítios arqueológicos: (...) que atestam a passagem de bandos nômades de indígenas pré-históricos caçadores e coletores, que se deslocavam pela região em busca de alimento ou fazendo a travessia entre a costa e o interior. Esses abrigos contêm vestígios líticos (artefatos de pedra), cerâmicos e, sobretudo, pinturas rupestres, cuja idade pode ultrapassar 3.000 anos antes do presente. As pinturas rupestres são encontradas nos paredões rochosos da escarpa acima do Buraco do Padre, e em alguns abrigos naturais próximos, principalmente no local denominado Sumidouro do Rio Quebra-Perna, cerca de 2 km a jusante do Buraco do Padre. São em sua maioria atribuídas à Tradição Planalto, caracterizada por grafismos que representam principalmente animais (cervídeos, aves, peixes, tatus) (...), muito raramente seres humanos, e mais raramente ainda cenas que sugerem fatos da vida da época. São elaborados principalmente com pigmento vermelho (hematita). (...) O desconhecimento de seu significado pela população local tem feito que sofram depredações acidentais ou mesmo propositais, às vezes destruindo este importante patrimônio (MELO; LOPES; BOSKA, 2005). Mesmo desconhecendo os sítios arqueológicos, o local atrai a atenção de visitantes da cidade de Ponta Grossa e de outras cidades, que chegam à cachoeira para contemplar a paisagem, fotografar, nadar e/ou praticar esportes de aventura. No entanto, o local não é planejado para o desenvolvimento da atividade turística. Irving e Azevedo (2002) apontam A proteção, enriquecimento e melhoria de diversos comportamentos do ambiente humano estão entre as condições fundamentais para o desenvolvimento harmonioso do turismo. Da mesma maneira, o gerenciamento racional do turismo pode contribuir de forma significativa para a proteção e o desenvolvimento do ambiente físico e do patrimônio cultural como também a melhoria da qualidade de vida (...) turismo aproxima as pessoas e cria consciência sobre as diversas formas de vida, tradições e aspirações. Embora muitos aspectos de preservação do patrimônio natural sejam cobrados do Poder Público, uma iniciativa já foi tomada: a área do Buraco do Padre foi decretada Parque Municipal, através da Lei nº 4.832, artigo 1º, inciso III, de 09 de dezembro de 1992. O proprietário da fazenda onde o parque se insere contribui no sentido de manter o acesso e estacionamento em boas condições para os visitantes, mas não há uma fiscalização sobre as atividades praticadas no local. No entanto, a mesma via de acesso ao parque escoa a produção de grãos e madeira. O local apresenta impactos como o corte da vegetação, erosão em alguns pontos da trilha, depredação e desgaste da flora e dos paredões (devido a atividades como o rapel e a escalada), além do lançamento de dejetos em tua a sua extensão. Figura 8 – Cachoeira Figura 9 – Erosão Fontes: Arquivo dos autores A área também é tomada, em grande parte, pelo plantio de pinus (para a indústria madeireira), que junto à prática da agricultura traz problemas como o desmatamento, o assoreamento e a poluição causada por defensivos agrícolas. Figura 10 – Estacionamento Figura 11 – Plantação de pinus Fontes: Arquivo dos autores Como em outras áreas dos Campos Gerais do Paraná, a fauna local apresenta espécies ameaçadas de extinção, como a lontra, a onça pintada, a suçuarana, o tamanduá bandeira, o veado campeiro e o lobo guará, devido à caça predatória. Assim como no Parque de Vila Velha, a flora apresenta a popular barba-de-bode, sinônimo de lugar de ar puro. Em relação ao atendimento aos visitantes, o Buraco do Padre não apresenta qualquer infra-estrutura. A sinalização é precária e traz dados como dias e horários de visitação que não são fiscalizados. O parque não possui portal ou cancela, não havendo controle na entrada dos visitantes. Sem controle de circulação, as trilhas apresentam faixas de erosão. O local não possui lixeiras. O banheiro fica em local impróprio, podendo contaminar a água, além de se encontrar em estado impróprio para o uso. As fontes de água não têm torneiras e não existe lanchonete ou bebedouros próximos para o consumo de água tratada. O estacionamento é determinado por uma cerca, que impede que veículos automotivos adentrem as trilhas. Figura 12 – Placa de sinalização Figura 13 – Banheiro Fontes: Arquivo dos autores Frente à situação encontrada no parque, ainda assim moradores e comerciantes da região afirmam que os finais de semana e feriados “enchem” de visitantes. Um dos motivos talvez seja o fato de que, ao contrário da situação no Parque Estadual de Vila Velha, o visitante não se sente limitado ou monitorado em excesso, pois não há nenhum tipo de controle. Outro fator pode ser a cobrança de ingressos, já que no Buraco do Padre a entrada é liberada. No entanto, Vaz (2005) apresenta pesquisa indicativa de insatisfação dos visitantes, que apontaram para as necessidades mais importantes: 27% dos entrevistados reivindicaram melhores condições de acesso; 19% sugeriram mais sinalização; 19% material informativo (já que não existem guias, folders ou centro de visitantes); 16% apontaram para a necessidade de lanchonete; 12% melhoria nos sanitários; 5% atividades de fiscalização e apenas 2% sugeriram educação ambiental. Embora praticantes de esportes em áreas naturais sejam, no geral, pessoas informadas e que respeitam o ambiente onde se inserem, todos as pessoas que adentram o parque deveriam ser instruídas para o que se pode ou não fazer dentro do Buraco do Padre. Escalas, rapel, trekking, entre outros esportes, podem degradar este que se configura como um dos principais atrativos em áreas naturais de Ponta Grossa. Considerações Finais Embora Parque Estadual de Vila Velha e Buraco do Padre se configurem por fauna, flora, formação geológica comuns, a questão do planejamento e manejo de ambas se encontra em situações muito diferentes. Se por um lado a população reclama por ser “vigiada” e por pagar pela entrada no Parque, por outro, este se apresenta como um meio de controle e preservação. Lindberg e Huber Jr (2001) comentam que a fixação de taxas contribui para a conservação do local turístico. Esta cobrança pode ter afastado o pontagrossense, ao mesmo tempo em que atraiu mais turistas para o local, já que um ano depois da reabertura do Parque mais de 95% de uma amostra da população ainda não tinha visitado “Vila Velha” e mais de 76% não sabiam o valor do ingresso. Godoy (2005) comenta que esse desconhecimento do preço “pode, também, configurar-se como um motivo (para a população ainda não ter visitado o local), na medida em que, receosos de um valor superior às possibilidades da família, alguns ponta-grossenses talvez preferissem não correr o risco de ir até o local e comprometer o orçamento familiar”. Enquanto planejadores turísticos apontam para a necessidade de envolver a comunidade na atividade (seja como freqüentador ou trabalhador), por outro lado a limitação de visitantes por meio da cobrança de entrada garante o cumprimento da capacidade de carga e, consequentemente, o controle e preservação do espaço. Jacobs (1997) ressalta que a “necessidade de guardar e proteger amostras significativas dos mais diversos ecossistemas contra a ocupação irracional, tem finalidades ambientais, científicas, culturais, recreativas e mesmo econômicas”, já que a visitação liberada causa a depredação e consequente queda do atrativo para a atividade turística. O Parque de Vila Velha tem facilitado a visitação para escolas, universidades e grupos de pesquisa, com a isenção de taxa em visitas pré-agendadas, além de permitir o pagamento de meia-entrada àqueles de direito (por legislação federal, estadual ou municipal: idosos, estudantes, doadores de sangue, etc) e àqueles que apresentam comprovante de endereço de Ponta Grossa. Essas facilidades mostram que parte daqueles que não visitaram o Parque após a revitalização não o deixaram de fazer por motivo relacionado ao pagamento de entrada, já que o valor de R$ 12,00 por pessoa, com direito a meia-entrada, não deve prejudicar o orçamento de mais de 95% das famílias pontagrossenses. Há que se fazer uma educação ambiental não apenas nos parques e demais áreas de conservação, mas também nas escolas de ensino fundamental para que as pessoas já cresçam educadas para preservar e respeitar limites impostos pela fragilidade de áreas naturais, garantindo a preservação de maneira espontânea e a apreciação dos atrativos também pelas próximas gerações. Referências Bibliográficas GODOY, P.H.F. Um novo olhar sobre a revitalização do Parque Estadual de Vila Velha. Trabalho de Conclusão de Curso em Bacharelado em Turismo, no Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, da Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG. 2005. IRVING, M.A.; AZEVEDO, J. Turismo: o desafio da sustentabilidade. São Paulo: Futura, 2002. LINDBERG, K.; HUBER JUNIOR, R. M. Questões econômicas na gestão do ecoturismo. In: LINDBERG, K.; HAWKINS, D. Ecoturismo: um guia para planejamento e gestão. 3. ed. São Paulo: SENAC, 2001. MELO, M.S.; BOSETTI, E.P.; GODOY,L.C. & PILATTI,F.. 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