UM ESTUDO SOBRE ALUNOS INSERIDOS NO PROGRAMA DE ACELERAÇÃO DA
APRENDIZAGEM
Camila Lira Kanashiro Duarte1
RESUMO
Este artigo se propõe a mostrar um pouco da realidade das Classes de Aceleração, de uma escola pública de
Ensino Fundamental do Distrito Federal, onde a trajetória escolar dos alunos foi acompanhada por meio da
análise documental e alguns resultados serão mostrados na seqüência do trabalho. Os resultados da pesquisa nos
mostram que na maioria dos casos, os alunos não conseguiram alcançar os objetivos do Programa de Aceleração
de Aprendizagem. De acordo com os resultados do estudo, o Programa não teve o sucesso esperado e
consequentemente os alunos não conseguiram corrigir o fluxo escolar conseguindo assim, agravar o problema da
distorção idade-série.
Palavras-chave: aceleração da aprendizagem; distorção idade-série; fluxo escolar; reprovação.
1. INTRODUÇÃO
Repetência, evasão escolar, indisciplina, falta de proficiência por parte dos professores e
alunos, distorção idade-série enfim, todos esses problemas nos levam ao fracasso escolar.
Atualmente a educação brasileira apresenta todas essas maselas. Diante de um quadro de
grandes dificuldades, os profissionais de educação buscam soluções para os diversos
problemas. Nesse processo, o aluno é bastante prejudicado e por vezes, impossibilitado de dar
continuidade nos estudos, o que dificulta a inserção no mundo moderno que privilegia
competências e habilidades em vários segmentos.
A repetência e a evasão escolar, desde algumas décadas atrás, foram problemas que
enfeitaram o cenário educacional. Na década de 1930, os dados referentes à repetência e
evasão escolar, mostravam altos índices e com o passar dos anos a situação não teve muitas
mudanças. Até hoje esses problemas fazem parte da nossa realidade, sendo que, são
considerados um dos principais problemas da educação nacional e uma das conseqüências que
podemos apontar é a distorção idade-série.
Diante do problema, o Ministério da Educação (MEC), em 1997, prega que o Programa de
Aceleração da Aprendizagem, de certa forma, é uma ação emergencial que visa corrigir a
distorção do fluxo escolar, proporcionando assim aos sistemas públicos de ensino municipal e
estadual, as mais diversas condições para combater o fracasso escolar e consequentemente os
aluno que apresentam a distorção idade-série, podem aproveitar essa “ajuda”, de forma que
possam superar as dificuldades relacionadas com o processo de ensino-aprendizagem.
De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (1998) temos que
“Uma das conseqüências mais graves decorrentes das elevadas taxas
de repetência manifesta-se, nitidamente, na acentuada defasagem
idade/série. Sem dúvida, este é um dos problemas mais graves do
quadro educacional do país. Mais de 60% dos alunos do Ensino
1
Licencianda em Matemática pela Universidade Católica de Brasília.
[email protected]
Fundamental têm idade superior à faixa etária correspondente a cada
série, e na região Nordeste chega a 80%”.
As tabelas 1 e 2 apresentam alguns dados sobre a situação da educação nacional de acordo
com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – INEP.
Tabela 1: Alguns indicadores de eficiência e rendimento escolar no Brasil. Dependência
administrativa (pública); Localização (urbana) 2.
Série
Ano
Taxa de Reprovação
Taxa Distorção
idade-série
Taxa de Repetência
5a
6a
7a
2000
2001
2002
2000
2001
2002
2000
2001
2002
12,2% 13,3% 14,6% 10,3% 10,5% 12,2% 8,5% 8,7%
10%
52,5% 51,8% 48,8% 50,2% 47,1% 46,3% 52,1% 48,4% 46,3%
24,8%
24%
-
17,6% 16,5%
-
17,1% 16,3%
-
Tabela 2: Alguns indicadores de eficiência e rendimento escolar no Distrito Federal.
Dependência administrativa (publica); Localização (urbana) 3.
Série
Ano
Taxa de Reprovação
Taxa Distorção
idade-série
Taxa de Repetência
5a
2000
2001
2002
2000
26,1% 23,4% 26,6% 25,9%
40,9% 44,7% 39,1% 44,5%
29,4% 25,5%
-
6a
2001
21%
44%
26,4% 22,7%
7a
2002
2000
2001
2002
23,3% 22,2% 18% 21,7%
41,6% 49,1% 47,1% 41,1%
-
23,3% 20,2%
-
E é diante desta problemática que a última Lei de Diretrizes e Bases da Educação incentiva os
sistemas de ensino a planejar e desenvolver projetos que possam de alguma maneira auxiliar o
educando na sua trajetória escolar, proporcionando assim, uma aceleração dos estudos de
educandos com distorção idade-série.
As condições de vida do educando e de sua família, influenciam no processo de ensino
aprendizagem e podendo assim, o educando apresentar dificuldades que, quando não sanadas,
gera o fracasso escolar. O fracasso escolar está intimamente ligado a esses fatores e as
conseqüências desse fracasso afetam os valores sociais, afetivos e morais do individuo. É
provável que muitos não consigam superar essas conseqüências.
Para Patto (1993) “o fracasso da escola pública elementar é o resultado inevitável de um
sistema educacional congenitamente gerador de obstáculos à realização de seus objetivos”.
Em simples palavras, a forma como o sistema foi organizado é o que impede o sucesso do
processo educacional que visa o desenvolvimento pleno de competências em habilidades
diversas do educando.
Na opinião de Manata (1998), que de certa forma, nos relata um pouco da realidade
educacional brasileira, no que diz a respeito ao fracasso escolar que, “os estudos sobre o
2
Fonte: Brasil. Ministério da Educação. Edudatabrasil. Disponível em: <http://www.edudatabrasil.inep.gov.br/>. Acessado
em 15/03/2005 as 21h34.
3
Fonte: Brasil. Ministério da Educação. Edudatabrasil. Disponível em: < http://www.edudatabrasil.inep.gov.br/>. Acessado
em 15/03/2005 as 22h15.
fracasso escolar têm demonstrado a complexidade de que se reveste esse fenômeno e
conseqüentemente, a dificuldade dos órgãos educacionais para resolver o problema”.
Essa pesquisa se sustenta em dois objetivos: o primeiro diz respeito ao Programa de
Aceleração da Aprendizagem onde os objetivos e funcionamento do Programa foram
verificados. Já o segundo, trata-se da investigação sobre a trajetória de alunos que participam
deste programa de maneira panorâmica.
De acordo com a metodologia utilizada, a pesquisa se baseia em um estudo de caso, onde a
pesquisa apresenta características qualitativas sabendo também que o resultado não pode ser
generalizado, porém, nos dá uma idéia do que pode estar acontecendo com as demais classes
de aceleração e seus alunos.
Para que a investigação da trajetória desses alunos fosse realizada de forma que não
prejudicasse a confiabilidade da pesquisa, foi necessário escolher um intervalo de tempo
razoável que, no caso, foi do ano letivo de 2002 até meados de 2005. Como este trabalho tem
características de um estudo de caso, a unidade-caso foi uma escola pública de Ensino
Fundamental do Distrito Federal, que oferece as seguintes modalidades: no turno matutino e
vespertino existem as classes de aceleração e regular (5a a 8a série); no noturno as classes são
da educação de jovens e adultos (5a a 8a série). O Programa começou a ser implantando em
meados de 2000 e a turma selecionada a contribuir para a pesquisa foi do ano letivo de 2002.
O trabalho tem uma amostra de 38 alunos, todos da mesma Classe de Aceleração, sendo que,
a 5a série foi a escolhida devido ao objetivo da pesquisa que propõe uma investigação durante
o período escolhido do percurso escolar desses alunos. Sabendo que o período de análise dos
alunos compreende aproximadamente três anos, é certo que todos eles têm a probabilidade de
terminarem o Ensino Fundamental ou no mais tardar, estarem cursando a 8a série este ano,
entretanto podem existir aqueles alunos que não tenham conseguido um resultado favorável à
correção da distorção idade-série.
Uma das características principais dessa coleta de informações foi a análise documental. Com
o apoio da secretaria da escola, foi possível obter diversas informações, tendo como fonte de
pesquisa: diários de classe, ficha individual dos alunos, ata de resultados finais de
aproveitamento (AFIN), relatórios bimestrais das classes de aceleração e histórico dos alunos.
Diante de todo esse arsenal de informações, o seguinte esquema foi realizado: sabendo que
cada aluno tem seus respectivos documentos, a coleta de informações foi realizada ano a ano.
Por exemplo: um aluno no ano de 2002 freqüentou a classe de aceleração da 5a série; já no
ano de 2003 o aluno estava na 5a série regular; em 2004, na 5a aceleração; no ano de 2005 o
aluno encontra-se matriculado no EJA. E seguindo assim para o restante dos alunos. A coleta
de informações foi executada somente por uma pessoa, para assim, obter informações seguras
e com olhar único.
2. ACELERAÇÃO DA APRENDIZAGEM
A idéia de se acelerar os estudos iniciou-se na França logo após a Segunda Guerra Mundial,
onde o país modificou o sistema educacional e a aceleração estava presente nesse novo
momento. Mais tarde, em 1986, a Universidade Americana de Stanford desenvolveu um
programa semelhante. A correção de fluxos não é considerada uma idéia nova para a
Educação Pública. Na década de 1980, uma das experiências mais conhecidas foi o Ciclo
Básico de Alfabetização, que na verdade a idéia é parecida com a aceleração da
aprendizagem, porém o Ciclo Básico de Alfabetização se antecipava a aceleração da
aprendizagem, onde o aluno que era matriculado nessas classes tinha a idade adequada para a
série correspondente, não apresentado assim a distorção idade-série. Em simples palavras, o
Ciclo Básico de Alfabetização era uma medida preventiva para evitar, assim, a reprovação. O
Ciclo tinha uma proposta de currículo que organizava num período contínuo as 1a e 2a séries
do ensino de Ensino Fundamental, visando à eliminação da avaliação como meio de
promoção ou de retenção no final da 1a série, procurando assegurar a flexibilidade no
tratamento dos conteúdos curriculares. Mais tarde, no Brasil, a idéia teve algumas mudanças e
em 1997 o Ministério da Educação divulga o Programa de Aceleração da Aprendizagem.
A aceleração da aprendizagem nada mais é do que uma estratégia pedagógica que parte da
idéia de que o nível de maturidade dos alunos permite uma abordagem mais rápida dos
conteúdos para ajudar-lhes a recuperar o tempo perdido. A correção do fluxo escolar é
compreendida como uma questão política, pois a partir dela, surgem políticas educacionais
determinadas como a aceleração de aprendizagem.
A necessidade que se faz presente em nosso contexto educacional de estratégias que
solucionem tais problemas, provoca nos órgãos educacionais a criação de uma medida
emergencial que, na verdade é o Programa de Aceleração da Aprendizagem.
Este Programa tem como principal meta corrigir o fluxo escolar de alunos que apresentem
alguma dificuldade no processo de ensino-aprendizagem, ou seja, alunos com atraso escolar.
No Brasil, esse Programa já foi implantado em vários Estados, sendo que, não é necessário ter
este nome, apenas à idéia principal que é proposta pelo Ministério da Educação.
No caso do Distrito Federal, onde o estudo foi realizado, o Programa foi implantado no ano de
2000 com alunos pertencentes ao primeiro nível e no ano de 2001 começou a atender também
alunos do segundo nível.
Quando o Programa é efetivado na escola, as classes ficam divididas em: regulares e de
aceleração. E essas Classes de Aceleração de Aprendizagem são ordenadas da seguinte forma:
Primeiro nível: compreende as séries iniciais do Ensino Fundamental:
Classes de Aceleração da Aprendizagem/Alfabetização: destinadas aos
alunos de séries iniciais, com o intuito de alfabetizá-los;
Classes de Aceleração da Aprendizagem/Séries iniciais: destinadas aos
alunos com domínio de leitura e escrita, podendo assim, acelerar os
estudos até a 6a série.
Segundo nível: compreende as séries finais do Ensino Fundamental (5a, 6a e 7a).
Podendo acelerar os estudos em até dois anos.
De acordo com o Parecer n.º193/2002 – CEDF do Conselho de Educação do Distrito Federal
temos que, “essas classes são um mecanismo utilizado pela Secretaria de Estado de Educação
destinado a solucionar o grave problema da distorção idade-série existente na educação
brasileira”.
Onde estudiosos afirmam que este problema tem uma ligação direta com a condição social e
econômica do aluno.
Tendo o conhecimento do Regimento Escolar das Escolas da Rede Pública de Ensino do
Distrito Federal que diz nas fls. 72 a 93 dos autos, prevê na art.49 que “os alunos com
defasagem em idade-série podem receber atendimento adequado em classes de aceleração”.
O objetivo geral do Programa de Aceleração da Aprendizagem do Distrito Federal é corrigir o
fluxo escolar dos alunos defasados em idade-série. E de uma forma mais específica, acelerar a
escolarização dos alunos em duas ou até três séries; inserir os alunos, ao final do ano letivo,
na série em que apresentem condições de ter uma continuidade escolar. Sabendo que, este
programa propõe uma melhoria de qualidade no âmbito educacional e conseqüentemente na
vida do indivíduo, sendo que, para a efetivação do Programa é necessária a utilização de
recursos materiais, financeiros e humanos. E para que o Programa tenha os seus objetivos
alcançados, a formação continuada e atualização do professor que participará do Programa de
Aceleração da Aprendizagem, se tornam imprescindível.
Em relação à metodologia utilizada nas Classes de Aceleração ou no Programa, ela tem
características um pouco distintas das Classes Regulares. Pretende-se desenvolver projetos de
trabalho que abordam um tema gerador e de acordo com a necessidade do aluno, os assuntos
mais relevantes serão focados, não deixando de lado a importante ligação entre a vida e
educação desse aluno. O material didático aplicado nas Classes de Aceleração é específico,
constituído por módulos e respeitando assim o ritmo de aprendizagem dos alunos.
A avaliação é vista como um processo de ajuda à efetividade do ensino e da aprendizagem.
Neste Programa, o critério de avaliação é bem mais amplo, dando um enfoque especial para o
desenvolvimento das competências e habilidades, a criatividade e bem como a formação geral
do aluno. E a tarefa atribuída ao professor é de observar e analisar o desenvolvimento do
aluno ao longo do período por meio de atividades realizadas. Essas atividades, na verdade, são
os projetos de trabalho e a cada projeto concluído, o professor terá um resultado do
aproveitamento do aluno e também se os objetivos foram alcançados, caso contrário,
mudanças serão necessárias para corrigir o que está errado. Todo esse processo deve ser
documentado pelo professor bimestralmente por meio de relatórios individuais, dispensando
nota classificatória para a análise total do aluno. Não esquecendo que o apoio de outros
membros da escola, tais como: orientador educacional; coordenador pedagógico e diretor
serão necessários para o desenvolvimento pleno do Programa de Aceleração da
Aprendizagem. Ao final do processo o Conselho de Classe indicará em qual série o aluno
estará apto a cursar no próximo ano.
Para Sousa (1999), “os programas de aceleração têm o propósito de desenvolver ações que
permitam a integração ou reintegração de alunos excluídos da escola, no processo de
escolarização regular.” Ou seja, o aluno é preparado e qualificado para ingressar em uma
Classe regular, onde a distorção idade-série desse aluno foi corrigida e assim ele poderá
continuar a sua trajetória escolar nas Classes regulares. Entretanto para que a continuação da
sua trajetória escolar tenha sucesso é necessário o envolvimento de todos os membros da
escola. O professor da Classe de Aceleração deve ter conhecimento de todo o projeto, assim
como os outros professores que lecionam na escola, pois o sucesso do Programa não está
somente ligado à correção do fluxo escolar no momento em que o aluno está inserido na
Classe de Aceleração, mas também a médio e longo prazo, pois se o problema persistir, é um
sinal de que todo o trabalho diferenciado realizado com aquele aluno foi desperdiçado. É
óbvio que a causa desse fracasso pode estar ligado a outros problemas, que infelizmente neste
estudo não será abordado de forma mais profunda. O fato é que a escola deve estar envolvida
no Programa para obter o sucesso em sua totalidade.
Os estudos realizados por Placco, André e Almeida (1999), relatam um dos problemas
enfrentados pelo não conhecimento do Programa por parte de alguns professores onde o
Programa está sendo desenvolvido. Para esses autores, “o desconhecimento dificulta a
compreensão do aluno egresso e, conseqüentemente, a continuidade do trabalho e ao lado do
grande número de alunos por classe, constitui um dos fatores que criam maiores obstáculos ao
bom desenvolvimento do trabalho”.
Pelo fato das Classes de Aceleração ter bem menos alunos por turma, em média 25 alunos, de
certa forma, essa não é a realidade das Classes regulares, que em media tem 40 alunos. Para o
aluno que passou pela Classe de Aceleração e está apto a ingressar em uma Classe regular, ele
terá que se adaptar a essa nova fase da sua trajetória escolar, sabendo que na Classe de
Aceleração, os alunos tinham um método diferente de aula e a professora tinha um controle
maior da turma e podendo assim dar uma atenção diferenciada para cada aluno. Atualmente, o
professor sente muita dificuldade em trabalhar com aulas mais dinâmicas, e um dos fatores
que ocasiona isso, é o número de alunos por turma, logicamente existem outros fatores.
Portanto, é de suma importância que os professores de Classes de Aceleração e de Classes
Regulares tenham um entrosamento no que diz respeito ao Programa, para que o aluno não
tenha mais tropeços em sua trajetória escolar e assim, o Programa de Aceleração da
Aprendizagem obtenha sucesso.
3. ANÁLISE DOS DADOS
Sabendo que o trabalho tem uma amostra de 38 alunos que no ano de 2002 cursavam a 5a
série, existem várias possibilidades para a trajetória escolar desses alunos. Para que o aluno
seja matriculado em uma classe de aceleração, o pré-requisito principal é a distorção idadesérie. A realidade desta turma investigada preenche as condições necessárias. A idade dos
alunos pertence a um intervalo de 13 anos a 19 anos. A idade média da turma é de 14 anos,
tendo com referência os dados que nos são fornecidos a idade “adequada” para que o aluno
freqüente a 5a série é 11 anos.
No ano de 2002, todos os alunos estavam matriculados na mesma classe de aceleração. A
cada bimestre os professores têm que elaborar um relatório descritivo do aluno, onde:
O rendimento do aluno é qualificado em satisfatório ou insatisfatório, pois nas classes
de aceleração não se trabalha com a avaliação somativa;
O número de faltas é observado;
Elaboram um parágrafo onde descrevem como o aluno está se comportando em sala de
aula, não esquecendo de sugerir intervenções a serem realizadas para sanar os
problemas que o aluno venha enfrentando;
A cada relatório bimestral o responsável pelo aluno assina para ter também um
acompanhamento maior da vida escolar do aluno.
Logo, tendo todas essas informações, vamos expor o resultado do ano letivo de 2002, que
indica o que vai acontecer com cada aluno no ano seguinte.
18%
16%
48%
18%
Figura 1: Resultado de promoção ou retenção em relação ao ano letivo de 2002.
Com essa visualização, é fácil perceber que praticamente a metade da turma ficou retida na 5a
série. Logo temos um forte indício de que no ano letivo de 2002 aconteceram ou deixaram de
acontecer “fatos escolares” para que o aluno pudesse ter um melhor rendimento, para poder
assim prosseguir na sua trajetória escolar. De certa forma, esse resultado nos mostra uma
realidade muito assustadora. Como já foi dito acima, 48% dos alunos ficaram retidos na 5a
série, isso nos leva a vários questionamentos: será que a culpa foi dos alunos? Será que a
culpa foi dos professores? Será que esse resultado foi reflexo de metodologias de ensino
inadequadas?. Sabe-se que todos esses questionamentos poderiam ser respondidos de maneira
eficiente, porém não se encaixa nos objetivos da pesquisa realizada. Portanto, o que podemos
afirmar é que o resultado mostrado não foi positivo, ou seja, o número de alunos reprovados
foi bem maior que o número de alunos que conseguiram a promoção para o ano letivo
seguinte. Continuando a análise dos dados da figura 1 temos que a quantidade de alunos que
pediram transferência foi de sete alunos. Desses sete transferidos, apenas um aluno retornou a
escola no início do ano letivo de 2003, porém em outra modalidade, o EJA (Educação de
Jovens e Adultos). E uma aluna retornou a escola no ano de 2004, também matriculada no
EJA, cursando disciplinas da 7a série. Os demais, por motivos desconhecidos, com base nos
documentos escolares analisados, não voltaram mais a escola.
Na seqüência temos o ano letivo de 2003, onde já tínhamos perdido alguns alunos e de acordo
com as informações de 2003, mais oito alunos evadiram da escola. Na verdade não se sabe ao
certo se, os alunos que pediram transferência continuam estudando ou se estão conseguindo
obter sucesso na sua trajetória escolar. Porém ainda existem aqueles alunos que por motivos
diversos abandonaram a escola sem dar nenhuma informação. Os outros 24 alunos
matriculados na escola estavam divididos dessa forma: dezenove alunos foram matriculados
em classes regulares; três estavam matriculados em classes de aceleração; e por fim, dois
alunos foram para outra modalidade de ensino, o EJA.
Número de aluno s
Figura 2: Resultado final do ano letivo de 2003.
Mais uma vez podemos observar na figura 2, que a maioria dos alunos permanece na 5a série
do Ensino Fundamental. Esse dado nos mostra ainda que ao final do ano letivo de 2003,
existem alunos que ficaram retidos na 5a série. Pelo gráfico temos nove alunos que não
obtiveram a aprovação na série correspondente. Entretanto, esses nove alunos poderiam estar
perto de finalizar o Ensino Fundamental, caso tivessem tido a promoção e/ou aprovação nos
dois anos letivos passados (2002 e 2003). Vejamos as seguintes possibilidades:
Tabela 3: Possibilidades de trajetórias escolares relativas aos alunos investigados.
Aluno
(a)
(b)
2002
5a
aceleração
5a
aceleração
2003
6a série
2004
7a série
7a série
8a série
Fazendo uma pequena observação dos 38 alunos que a pesquisa apresentava no começo do
trabalho, temos que, ao final do ano de 2003, a pesquisa apresenta 24 alunos matriculados na
escola. Aprofundando um pouco mais sobre esses 14 alunos que não estão mais presentes na
escola podemos notar que quatro deles fizeram o pedido de transferência, o restante, dez
alunos, por motivos desconhecidos e em nenhum de seus respectivos documentos apresentava
informação que comprovasse a freqüência do aluno passaram a não freqüentar mais a escola.
Não muito diferente dos outros anos, temos a seguinte realidade: no ano letivo de 2004, no
período de matrículas o número de alunos evadidos cresceu. Como mostra a figura 3:
Evadidos
Classes Regulares
EJA
Classes de Aceleração
Transferidos
0
3
6
9
12
15
18
Número de alunos
Figura 3: Matrículas referentes ao ano letivo de 2004.
Agora a situação muda de lado. Em de 2003, a maioria dos alunos se encontrava na 5a série.
Em 2004, a maioria dos alunos se encontra evadidos da escola. Lembrando que, dois alunos
que eram considerados evadidos no ano de 2003, retornaram a escola matriculados no EJA.
Até o presente momento, temos um dado alarmante de acordo com a pesquisa realizada: em
relação a nossa amostra inicial, temos aproximadamente 55% de alunos evadidos. Este dado
nos leva a crer que algum tópico na trajetória desses alunos não foi bem estruturado, houve
falhas.
Com a figura seguinte mostramos o resultado final do ano letivo de 2004. Um fator grave que
podemos perceber no gráfico é que ainda existem alunos que não conseguiram corrigir ou ao
menos diminuir a distorção idade-série. Outro fato relevante é que o número de alunos
presentes na 7a série regular é o mesmo dos alunos matriculados no EJA, isso quer nos
mostrar que esses alunos que passam por dificuldades de aprendizagem ou por outro motivo
qualquer, tem no seu histórico escolar muita reprovações e certamente vêem no EJA um
atalho, na tentativa de obter um sucesso maior do que o conseguido em todos esses anos nas
classes regulares e nas classes de aceleração.
EJ
A
6
5
4
3
2
1
0
6ª
Re
gu
la
5ª
r
Ac
el
er
aç
ão
6ª
Ac
el
er
aç
ão
5ª
Re
gu
la
r
7ª
Re
gu
la
r
Número de alunos
É interessante frisar que nenhum aluno conseguiu alcançar a 8a série. Como afirmamos no
começo, o aluno tinha possibilidades de no ano letivo de 2004 estar cursando a 8a série.
Entretanto, como mostra o gráfico, nenhum aluno está cursando a 8a série. E em relação aos
alunos que freqüentam o EJA, nenhum deles estava cursando disciplinas da 8a série.
Figura 4: Resultado final do ano letivo de 2004.
Até o presente momento e com base nas informações adquiridas na pesquisa, os alunos não
tiveram um bom resultado após terem passado pela classe de aceleração, quer dizer, a maioria
evadiu da escola e dos que restaram, nem todos conseguiram corrigir o fluxo escolar. Daí,
pode-se ter vários motivos que por acaso tenha auxiliado para que esse problema tenha
acontecido. Observando mais atentamente a figura 4, entende-se que nenhum aluno que
permaneceu na escola ate o fim do ano letivo de 2004, conseguiu concluir o Ensino
Fundamental. Passaram-se aproximadamente três anos, lembrando que todos os alunos
passaram pela classe de aceleração e sendo possível acelerar dois anos, no entanto, nem todos
aproveitaram ou talvez não souberam aproveitar a chance para corrigir o fluxo escolar.
Uma queixa que sempre aparece nos relatórios bimestrais que os professores elaboram sobre
os alunos que freqüentam as classes de aceleração, é em relação às faltas. A grande maioria
dos alunos tem características de infreqüentes e de certa forma isso atrapalha bastante o
desenrolar do aprendizado. Outro ponto comentado pelos professores está ligado ao
comportamento dos alunos que muitas vezes tem atitudes desrespeitosas, indisciplinadas. Não
demonstram um interesse maior em aprender as disciplinas, os professores têm que estar
chamando a atenção a todo o momento.
Tabela 4: Situação dos alunos que estão matriculados na escola em relação ao ano letivo de
2005.
Série
6a Aceleração
7a Regular
8a Regular
EJA
Número de Alunos
1
3
1
8
No ano letivo de 2005 apresentamos apenas 34,2% dos alunos matriculados na escola em que
a pesquisa foi realizada, quer dizer, 57,9% dos alunos evadiram-se da escola, porém não se
tem conhecimento se eles conseguiram concluir o Ensino Fundamental. E temos 7,9% de
alunos transferidos.
Mas os dados que temos na tabela acima, nos mostra uma triste realidade da educação
brasileira. Muitos alunos abandonam as escolas por motivos diversos, não conseguindo assim
ter acesso a melhores oportunidades, devido ao fato de não possuírem qualificação adequada.
Fazendo um resumo sobre os anos letivos de 2003, 2004 e 2005 em relação aos alunos que
por algum motivo tenham desistido da vida escolar, não sabendo o porquê da desistência,
esses alunos são considerados evadidos. De acordo com os respectivos anos letivos acima
citados, temos 12 alunos que se encaixam nessas características. Com essa pequena amostra
temos a seguinte situação: 75% dos alunos já tiveram nesses três anos letivos uma reprovação;
16,6% tiveram duas reprovações e por fim, 8,4% não tiveram nenhuma reprovação. Como a
reprovação faz parte da realidade da maioria dos alunos, talvez ela tenha influenciado a
ocorrência da evasão. Porém, temos outros dados que nos mostram que de acordo com o ano
letivo anterior ao ano da evasão escolar desses alunos, a reprovação esteve presente em 66,7%
dos alunos.
Ao longo da pesquisa podemos notar que alguns alunos trocaram de modalidade de ensino,
sendo a educação de jovens e adultos o mais requisitado. Da amostra inicial temos 13 alunos
que migraram para o EJA durante os anos letivos de 2003, 2004 e 2005. Dos treze alunos,
dois deles estavam matriculados no EJA, porém quando os dados foram levantados não havia
nenhum documento que comprovasse as disciplinas cursadas por esses alunos. Uma síntese
dessas informações está na tabela 5.
Tabela 5: Dados referentes ao intervalo dos anos letivos de 2003 a 2005, em relação aos
alunos que migraram do ensino regular para o EJA.
Série
5a incompleta
5a completa
6a completa
7a incompleta
8a incompleta
Não fez nada
Nº. de alunos
4
1
2
2
1
1
Mesmo ocorrendo mudanças de modalidade de ensino, os alunos não obtiveram o sucesso
desejado ou esperado pela comunidade educacional, quer dizer, inicialmente esses alunos
passaram pela classe de aceleração no ano letivo de 2002, tendo assim a oportunidade de
corrigir o fluxo escolar e continuando a sua trajetória escolar. No caso desses alunos,
especificamente, observamos que:
Seis alunos não conseguiram obter um resultado positivo no ano de 2002, acarretando
na retenção desses alunos que no ano seguinte (2003) freqüentaram a 5a série
novamente;
Cinco alunos conseguiram diminuir a distorção idade-série, sabendo que a média de
avanço ficou dentro do esperado (1 e/ou 2 anos);
E outros dois alunos foram transferidos.
Seguindo a linha de raciocínio da trajetória dos alunos, na tabela 4 e também com as
informações acima citadas, podemos ver que nem todos conseguiram um resultado positivo.
Porém, dos alunos que não obtiveram um resultado positivo no ano letivo de 2002, nos outros
anos a situação não foi muito diferente. Então é evidente que a passagem pela classe de
aceleração não foi muito proveitosa para o aluno poder recuperar o tempo perdido, não
cabendo a este trabalho discutir ou investigar possíveis causas, entretanto, para um trabalho
futuro, seria uma boa proposta e sem dúvida dando uma seqüência a pesquisa apresentada. No
restante dos alunos, a trajetória se mostra um pouco melhor, mas os resultados ainda não são
suficientes para afirmar que o aluno conseguiu corrigir o seu fluxo escolar.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao fim da pesquisa podemos afirmar que para essa turma investigada que freqüentou a classe
de aceleração ou em alguns casos até mais de uma, o Programa de Aceleração da
Aprendizagem não conseguiu alcançar, em sua plenitude os objetivos propostos, que na
verdade, era corrigir o grande problema da distorção idade-série, dando assim, uma
oportunidade a mais para esses alunos que por motivos diversos tiveram em sua trajetória
escolar resultados de freqüentes reprovações, pois com as informações mostradas ao longo do
trabalho é de fácil percepção que a passagem desses alunos pela classe de aceleração, não
ajudou muito os alunos que apresentavam as dificuldades citadas durante a pesquisa.
No decorrer da pesquisa, a reprovação esteve presente em todos os anos letivos desses alunos,
fazendo assim, parte da realidade da trajetória escolar da turma investigada.
O Programa de Aceleração da Aprendizagem visa corrigir o grande problema da distorção
idade-série. Logo, pelos resultados mostrados na pesquisa, fica nitidamente claro que a classe
de aceleração que os alunos freqüentaram no ano letivo de 2002 só conseguiu resolver 52%
dos casos da turma. Dando continuidade aos resultados da pesquisa, vimos que a passagem
dos alunos pelas classes de aceleração, de modo geral, não tiveram um bom resultado e sendo
assim, a realidade desses alunos nos mostra que o Programa possui falhas e podemos dizer
mais, que a questão da eficiência do programa também fica comprometida, pois se ele é
colocado em ação e não consegue alcançar resultados positivos, é de fácil percepção ver que
algo está errado, que seja na metodologia, no método de avaliação ou até mesmo nas questões
psicológicas, afetivas, emocionais e familiares, enfim, podem-se ter infinitos motivos para tais
problemas.
É certo que a proposta do programa é bem clara, porém, será que tudo o que está previsto na
teoria é colocado em prática? Os professores e outros membros da escola têm preparo
suficiente ou passam por uma preparação para trabalhar com esse tipo de aluno? Os alunos
estão abertos ou até mesmo preparados para essa nova proposta?
De acordo com as informações coletadas, as características desses alunos são bastante
peculiares. Na grande maioria, são alunos difíceis, infrequentes, indisciplinados e
desmotivados diante de tal realidade escolar em que vivenciam, onde a reprovação é fato
evidente na vida escolar desses alunos.
Então será que vale a pena manter um programa desse porte e com essa estrutura? Sabendo de
problemas e ainda assim persistir em prolongar o mal da distorção idade-série. E é de acordo
com o resultado do trabalho finalizado que podemos afirmar que ao final temos uma triste e
desanimadora realidade: que até meados de 2005, nenhum aluno que estava matriculado na
escola conseguiu concluir a 8a série.
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Camila Lira Kanashiro Duarte - Universidade Católica de Brasília