AS FAVELAS DE SÃO PAULO E GRANDE SÃO PAULO NA VISÃO DOS JORNAIS
FOLHA E ESTADÃO (1987 – 2007)
Carlos Eduardo Xavier e Rosana Maria Pires Barbato Schwartz
PIVIC Mackenzie / MackPesquisa
RESUMO
A pesquisa percorreu os jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo, durante o
período de 1987 a 2007, identificando notícias sobre as favelas de São Paulo e Grande São
Paulo. Para tal, as 837 notícias identificadas foram classificadas como acontecimentos
positivos (políticas públicas voltadas para a população local), acontecimentos negativos
(calamidades) e textos de opinião (artigos e editoriais), buscando entender os critérios de
noticiabilidade. Tendo o jornalista como formador de opinião, observou-se a contribuição das
publicações jornalísticas desse período para a população “favelada”, historicamente
considerada à margem da sociedade e desclassificada nas relações de poder segundo a
produção positivista do século XIX. Constatou-se que a noticiabilidade estava relacionada,
principalmente, com as calamidades vivenciadas por essa população e, também, que as
políticas habitacionais foram executadas de forma diferente em cada gestão governamental,
ora favorecendo o desfavelamento, ora a urbanização e a habitação popular, o que
demonstrou uma falta de planejamento em longo prazo para a questão da habitação. Das
notícias elencadas, destacou-se o deslizamento de toneladas de terra na Favela Nova
República, em 1989, durante a gestão da prefeita de São Paulo, Luíza Erundina do PT.
Embora os jornais Folha e Estadão terem evidenciado as catástrofes, ajudaram a dar
visibilidade e desconstruir a imagem higienista sobre s habitantes das favelas.
PALAVRAS-CHAVE
Noticiabilidade; Favelas; Poder Público;
ABSTRACT
This research examined the newspapers Folha de São Paulo and O Estado de São Paulo,
during the period between 1987 and 2007, identifying news about shantytown in São Paulo
megalopolis. Thus, 837 news were identified and assorted as positive events (public politics
toward local community), negative events (disasters) or opinion texts (reports and editorials),
looking for understand news criteria. Taking the journalist as an opinion leader, it beheld the
contribution of journalist publications to shantytown´s community, which is a community
historically considered apart from the society and disqualified on power relations, according
with positivism production during 19th century. It was verified that the news criteria was
mostly related to calamities in that communities. In addition, politics of dwelling were
executed in different ways during each government, occasionally stimulating the elimination
of slums, otherwise motivating urbanization and communal housing, which demonstrate the
absence of a long term planning to housing and urban development. Amongst news studied,
highlighted a heavy avalanche, tones of earth and rocks fallen above a shantytown Nova
República, in 1989, during the PT government of Luíza Erundina in São Paulo. Although
newspapers Folha de São Paulo and O Estado de São Paulo highlighted disasters, they help
to give visibility to poor neighborhood problems and to deconstruct hygienist image about
shantytown´s community.
KEY-WORDS
News criteria; Slums; Government;
INTRODUÇÃO
Todos os dias as páginas dos jornais são recheadas de acontecimentos que, de um modo,
passaram por alguns critérios de noticiabilidade. Alguém teve que decidir o que era e o que
não era notícia. Essa decisão possui, além das bases financeiras e empresariais, uma base
teórica e ideológica nas entrelinhas das noticias. No jornalismo, vários autores estudaram
esses critérios, subjetividades e objetividades no intuito de desvelar os “porquês” do
privilegiamento de alguns acontecimentos cotidianos em detrimento de outros.
Para identificar alguns desses critérios e os discursos que dominam, esta pesquisa
percorreu duas décadas, de 1987 a 2007, nos jornais Folha de São Paulo (Folha) e Estado
de São Paulo (Estadão), com a temática “favelas”. Tema pertinente, por tratar de
populações historicamente consideradas à “margem” da sociedade, desclassificadas nas
relações de poder e consideradas como “classes perigosas” pela produção científica do
século XIX. Esses grupos sociais quando destacados pela grande imprensa aparecem de
diferentes formas e os “porquês” da noticiabilidade também. Geralmente aparecem
retratadas, na cidade de São Paulo, em momentos de crise do controle social, tragédias
climáticas, manifestações violentas, para salientar problemas de natureza de higiene,
limpezas de córregos e rios, e ocupações desordenadas do espaço público. Essa
constatação causou inquietações a ponto de merecer um aprofundamento acadêmico por
meio de pesquisa de iniciação científica.
Nesse sentido, essas questões do “modo” e em quais momentos as populações “faveladas”
se tornam motivo de notícia, foram os norteadores do problema da pesquisa. O
questionamento central, uma vez constatado e comprovado pelos documentos/fonte, as
matérias dos jornais da grande imprensa, passou-se a problematizar o que é noticiabilidade
e em torno de quais discursos ela se constrói. Após levantamento bibliográfico e das fontes,
percebe-se que em sua maioria os assuntos giram sempre em torno das “calamidades” que
ocorrem na vida cotidiana das pessoas que moram nessa modalidade de habitação, as
favelas, e praticamente nunca pela falta de políticas públicas de moradia na cidade, que
cresce desordenadamente desde o século XIX.
Optou-se em problematizar “como” esse assunto foi e, ainda, é tratado por meio da grande
imprensa, por que como futuro jornalista, nota-se que o que a imprensa retrata é
considerada uma “verdade” para grande parcela da sociedade. Bem como, por que é
formadora de opinião. Avaliar o grau de relevância das favelas na mídia é de certa forma
contribuir para desconstrução de estereótipos e arquétipos referentes à seus habitantes e,
ao mesmo tempo, um comprometimento para a formação de novas visões sobre o assunto.
REFERENCIAL TEÓRICO
Existem muitas definições de espaço, talvez a mais conhecida seja aquela geográfica que é
determinada como extensão territorial. Ou ainda como um habitat humano. São diversos
modos de enxergar o local de vivência do homem. O ameríndio tratava a sua ocupação do
espaço diferentemente do homem branco, principalmente no que se refere ao uso do solo.
Para eles, o espaço compõe “dimensões tangíveis que cerceiam o dia a dia e criam
processos simbólicos” (BARRACCO, 1988). É o local de sobrevivência, sociabilidade e
respeito à natureza. Na aldeia, comunidade que ele sobrevivia e ainda vive, é o local onde
precisa satisfazer suas necessidades, criando simbolicamente um valor e um respeito ao
espaço e moradia como sagrados. Esse fato se apresenta de tal forma que “quando se
encontra momentaneamente em trânsito, fora da aldeia, para caça ou outras necessidades,
o ameríndio constrói uma aldeia optativa, mesmo por breve temporada, nos mesmos moldes
da aldeia matriz” (BARRACCO, 1988).
Já para os homens brancos de origem européia no Brasil, após a segunda metade do
século XIX, valorizaram e valorizam, os espaços citadinos, considerados imaginariamente
como modernos e avançados perante o do campo, arcaico e atrasado. Com o processo de
urbanização das cidades, abolição da escravatura e luta pela República, o centro do poder
deslocou-se do campo para a cidade. Aos moldes do modelo europeu e norte-americano, o
Brasil passou a valorizar o que era mais moderno, com vários ritmos e temporalidades
acelerados. Esse espaço, também deve conter a satisfação para todas as necessidades de
seus habitantes, sejam elas o transporte, a alimentação, o trabalho, a educação, a saúde,
como também a moradia.
Entretanto, a ocupação do solo nesses locais se construiu pelas diferenças de classes e
funções sociais. Nos centros, foram construídos os locais de comércio e lazer, expulsando
os populares do local para regiões mais afastadas; cortiços foram derrubados por serem
considerados locais anti-higiênicos pelos discursos médicos da época; vilas operárias, com
os alugueres cada vez mais insuportáveis, obrigaram os proletários a se deslocar para as
chamadas periferias, as quais não foram observadas ou planejadas. Sem políticas públicas
de moradia, surgiram as periferias das periferias, novos cortiços e vazios urbanos onde as
favelas se estabeleceram. O espaço, nesses casos, acaba fugindo da sua definição:
extensão territorial onde o homem vive e convive, onde satisfaz suas necessidades, além de
habitar.
Morar não se limita a ter uma casa, expresso todo um rol de questões que tangenciam sobre
o processo civilizatório brasileiro repleto de ações de exclusão de determinados grupos
étnicos sociais em detrimento de outros, provenientes da escravidão e mestiçagem;
preconceitos de classe, raça/etnia reconstruídos pelos discursos e imaginário social de que
determinados indivíduos são incapazes, indolentes e preguiçosos; e políticas públicas de
inclusão social. As ocupações dos espaços seguiram a lógica dos discursos de poder
sustentados por balizas fixas construídas pelos médicos e higienistas do século XIX, que
determinava o local de moradia de cada indivíduo dentro da cidade de acordo com a sua
função social.
Diante dessas questões, para questionar o problema da habitação, na cidade de São Paulo,
é necessário mudar a visão do que vem a ser uma moradia. Habitação, “está intimamente
ligada ao habitat humano. E esse habitat não se resume a simplesmente um abrigo ou um
teto” (MELLO, 1988). A moradia tem função social e envolve a sobrevivência digna dos
indivíduos que nela habitam. Se habitação inclui o espaço, a localização, a convivência,
então ter apenas uma casa não significa ter alcançado as condições simbólicas para a
manutenção da vida (MELLO, 1988).
Para Vitruvius, seguindo o mesmo raciocínio, a arquitetura ou arte de construir com conforto,
solidez e beleza, vem de encontro com as necessidades humanas. Essa questão, usando
um pensamento vindo da psicanálise, reflete a relação que o homem estabelece com o
ambiente: “o indivíduo projeta na estrutura do espaço a sua própria estrutura” (SÁ, 1988).
Mas, essa relação é de duas vias: a estrutura da casa também reflete a personalidade do
homem ou as suas condições materiais e sua visão da sociedade com relação aos direitos
humanos e fundamentais. Para tanto, as habitações deveriam expressar a beleza
fundamental da vida em comunidade e não a forma estética de suas construções ou da
composição
de
determinados
bairros.
Infelizmente
os
documentos
revelam
que
planejamento e estética tem recorte de classe.
O Brasil está entre as nações em desenvolvimento mais urbanizadas, devido ao imaginário
social já mencionado, que valoriza as cidades e as pessoas que nela moram muito mais do
que no interior e pela extraordinária velocidade do sistema de habitação empregado devido
à grande demanda por habitação e deslocamentos. O problema está na forma como se deu
e ainda acontece, a distribuição espacial da população urbana e o seu crescimento
(VARESIO, 1988). João Cipriano de Freitas (1988) lembra que fica difícil pensar a realidade
urbana, dissociada da condição humana do morar, uma vez que uma minoria, cada vez
mais crescente “encomenda, sob medida, roupas, sapatos, camisas, vestidos e também
saúde, educação e a habitação” (FREITAS, 1988).
O desenvolvimento histórico do processo de favelização na cidade de São Paulo, aqui
traçado pelas matérias levantadas e problematizadas, levam a um entendimento segundo
aquilo que a mídia impressa decidiu ser mais importante. Muitas vezes essa importância traz
fatos divergentes dos livros e teses sociológicas, históricas, antropológicas e de urbanistas.
Segundo Ermínia Maricato, Maura Verás Pardini, Raquel Rolnik e Nabil Bonduki, o problema
da favelização da cidade gira em torno das questões capital versus trabalho, inclusão social,
políticas públicas de habitação e desconstrução de preconceitos criados pela elite brasileira
desde a colonização. Vários artigos desses estudiosos destacam, como principal fator, o
preconceito e a visão elitista de políticas públicas de habitação como os maiores entraves
para solucionar a questão da moradia popular. O estudo científico “Como a ocupação
desordenada do centro velho de São Paulo influência na qualidade de vida e ambiente das
pessoas?” fala da profusão habitacional após a industrialização e a falta de visão sobre a
necessidade de acomodação para as pessoas que migravam e imigravam para a cidade: “o
desenvolvimento da cidade de São Paulo caracterizou-se, após mais de três séculos de um
ritmo muito lento, por um ápice de crescimento vertiginoso, a partir da explosão da cultura
cafeeira instalada no interior do Estado” (BALLESTEROS et al., 2006). Deslocamentos
constantes de pessoas do interior e de estrangeiros criaram uma cidade gigante, contudo
repleta de problemas de infraestrutura.
Para esta pesquisa, foi necessário entender e estudar as políticas públicas das gestões
entre o período de 1987 a 2007, no intuito de avaliar as notícias pela grande mídia: Jânio
Quadros (1987-1988); Luiza Erundina (1989-1992); Paulo Maluf (1993-1996); Celso Pitta e
Régis de Oliveira (1997-2000); Marta Suplicy (2001-2004); José Serra e Gilberto Kassab
(2005-2007). Observou-se que cada um possuía uma política habitacional diferente, seja de
desfavelamento, urbanização ou habitação popular, todas sem dar continuidade aos
projetos iniciados nas gestões anteriores.
Na gestão de Jânio Quadros, os jornais publicavam essencialmente os conflitos com os
moradores das favelas que não queriam sair de seus barracos, diante da política de
deslocamento dessas populações. Falava-se muito em desfavelamento, mas nada sobre
onde iriam essas pessoas e o porquê de estarem nessa situação. A impressão que os
documentos/jornais deixaram foi, basicamente, que existia uma guerra entre a prefeitura e a
lideranças dos movimentos sociais e de moradia, inclusive, Jânio utilizou, em sua
campanha, uma publicidade que o apontava como o grande vencedor de uma batalha
contra a favela Cidade Jardim, que havia resistido às gestões anteriores.
A gestão de Erundina aparece como aquela que iniciou uma política de habitação popular
inovadora para a cidade, por meio da construção de casas populares construídas pelo
método de mutirões autogestionários. Existiam mutirões por empreitada, mas este
barateava significativamente o valor do imóvel depois de concluído e fornecido à venda pela
CDHU e Caixa Econômica Federal. Não obstante, logo no início de seu governo, um grande
deslizamento de terra sobre a favela Nova República, no dia 24 de outubro de 1989, fez com
que as favelas ganhassem destaque nos jornais, inclusive nos anos sucessivos ao desastre.
As áreas de risco e a não intervenção da prefeitura eram sempre os questionamentos dos
jornais e não os projetos de mutirões. Segundo dados fornecidos pelos movimentos sociais
de moradia, Luiza Erundina, foi a prefeita que mais dialogou com os movimentos sociais.
Porém no ano de 1990, as matérias da grande imprensa destacavam somente os
indicadores do crescimento das favelas em São Paulo, sem problematizar outras questões
pertinentes a esse fato.
Com Paulo Maluf, e o lançamento do Projeto Cingapura, o tema habitação popular começou
a ser visibilizado pela imprensa. Algumas questões foram destacadas no sentido de levar o
leitor a questionamentos como: melhoria nas favelas ou assistencialismo? Segundo os
jornais, nessa gestão os gastos sociais ficaram fora do orçamento da prefeitura, por isso
Paulo Maluf teria interrompido todos os planos e projetos da gestão anterior, não obstante,
para o prolongamento das Av. Faria Lima e Água Espraiada, as verbas existiam. Esse
projeto exigiu a retirada dos moradores de baixa renda do local, adensando a habitação
irregular em outras regiões da cidade, como nos mananciais. O plano dessa gestão era
acabar com as favelas nas regiões próximas aos bairros de classe média e transferir os
moradores para os prédios do Cingapura, alguns construídos nos mesmos locais. Isso ficou
conhecido como “verticalização de favelas”, algo que Erundina já fazia com os mutirões
(BALLESTEROS et al., 2006). Muito embora a desaprovação dos especialistas sobre o
Cingapura, e documentos comprovando que a favela não foi desconstruída, só escondida
atrás dos prédios, pesquisas feitas pelos jornais estudados, apontaram que o paulistano
aprovava o projeto. Durante essa gestão, também foi destacada a quantidade de incêndios
nas habitações irregulares e o descaso com as vítimas. Num dos casos, chegou-se a
ventilar pela mídia, que a prefeitura teria encomendado o incêndio.
Na gestão de Celso Pitta, candidato do prefeito Paulo Maluf, os projetos prosseguiram
seguindo as diretrizes anteriores. Logo, o Cingapura ainda permaneceu nas paginas dos
jornais: matérias apontavam os benefícios, em meio às críticas dos populares e lideranças
dos movimentos. Fato que provocou acirramentos de conflitos e violências nas favelas. Pela
primeira vez, policiais entraram na crescente favela de Heliópolis.
A prefeita Marta Suplicy retorna aos moldes de Luiza Erundina: restabelece o diálogo com
os movimentos sociais e retoma as obras paralisadas nas gestões anteriores. Contudo, a
violência, cada dia mais forte, se torna pauta dos jornais, deslocando as atenções para
questões policiais. Um estudo, feito por Mariana Fix, na USP, mostrou que as condições de
vida dos favelados pioraram após terem sido transferidos, sem planejamento, para outras
regiões da cidade, ou colocados escondidos atrás dos “Cingapuras”. Seu estudo aponta que
a urbanização calculada, projetada e contínua, seria a melhor solução para a problemática
da habitação irregular. Segundo depoimentos das lideranças dos movimentos de moradia,
os moradores das favelas aprenderam que fechar as laterais das marginais com as casas
autoconstruídas, sem nenhuma estrutura, é um meio de chamar atenção para sua
problemática e, assim, chamar a atenção da mídia para conseguir apoio para a criação de
soluções de forma mais rápida.
Nos casos dos incêndios que aconteceram nessa gestão, os barracos queimados voltavam
a ser erguidos no mesmo local, quase que no mesmo dia. As favelas foram se consolidando
no imaginário social como sinônimo de violência. Para desconstruir essas imagens e o
preconceito existente com a população favelada, grupos de jovens, pesquisadores e
repórteres foram morar em favelas, por um tempo, para relatar com precisão a vida dessa
população à margem da sociedade. Paraisópolis e Heliópolis ganharam destaque, contudo,
o foco ainda continuou centrado na grandiosidade e violência desses locais.
No início da gestão de José Serra, o destaque da mídia foi baseado no dado: 20 milhões
para 223 áreas de risco. Porém, durante seu governo as metas estabelecidas por Marta
Suplicy não tiveram continuidade como se observa em todas as gestões independentemente
do partido político. José Serra, e depois Kassab, criaram medidas de deslocamento do
morador da favela, com incentivos para deixar o local, seja para morar noutro espaço na
periferia da cidade, ou para voltar à sua terra natal. Paraisópolis e Heliópolis ganharam
status de violentas mais uma vez, em 2006, devida às ações e ataque do PCC e, em 2007
os jornais recordaram, após 18 anos, a tragédia do deslizamento na favela Nova República
durante a gestão de Erundina em 1989.
Vale lembrar que o histórico ora apresentado, utilizou como fonte as publicações dos jornais
Folha e Estadão entre 1987 e 2007. Por isso, foi possível perceber que esses
acontecimentos foram aqueles que viraram notícia e um acontecimento para virar notícia,
precisa de algumas características que o tornem “noticiável”. As teorias do jornalismo
apresentam diversos fatores que formam os critérios da noticiabilidade.
Como apresenta Nelson Traquina, esses critérios partem de um princípio que é a
expectativa de normalidade, ou a sua fuga. Um fato do cotidiano é só um fato, a partir do
momento em que ele quebra a rotina, a normalidade, torna-se um acontecimento e, se esse
acontecimento possuir uma determinada importância, ele vira notícia.
Jorge Pedro Sousa fala dessa importância através da previsibilidade ou imprevisibilidade do
fato. Nilson Lage aponta alguns fatores para analisar a relevância de um acontecimento: a
proximidade, atualidade, identificação, intensidade, ineditismo e oportunidade. Mas, “na
realidade das empresas de comunicação, esses fatores influem segundo a ordem de
interesses de classe ou grupo dominante” (LAGE, 2001).
Para proximidade, Lage diz que o homem se interessa principalmente pelo que lhe está
próximo. Assim, vira notícia àquilo que geograficamente está ao alcance do público-alvo. Ou
ainda, aquilo que, de algum modo, diz respeito ao leitor; aquilo que o afeta direta ou
indiretamente.
Fernando
Correia
associa
um
acontecimento
nacional
com
essa
característica da noticiabilidade, “a chamada lei da proximidade, uma norma clássica das
redacções que se aplica em diversas acepções” (CORREIA, 2003).
No segundo item apontado por Nilson Lage, a atualidade, “o raciocínio corrente é de que o
homem se interessa principalmente pelos fatos mais próximos no tempo” (LAGE, 2001). Ou
seja, vira notícia àquilo que acontece no momento e não o que já passou. Embora o
passado seja relembrado sempre ou usado para pautar novos assuntos.
O acontecimento deve gerar também, ainda segundo o autor, uma identificação social com o
leitor e deve ter uma intensidade maior, como por exemplo, num acidente, o fato de morrer
uma ou centenas de pessoas. E, por fim, o acontecimento deve ser inédito. Ele classifica os
fatos como inevitável, provável, improvável e extremamente improvável. “Em jornalismo, a
improbabilidade é sempre aferida de uma perspectiva humana” (LAGE, 2001).
Traquina também tem uma classificação, que é ainda mais simples. Para ele, um
acontecimento pode ser excepcional, relevante ou de rotina. O acontecimento excepcional
seria, por exemplo, a queda de um avião, algo totalmente inesperado e que foge totalmente
da expectativa de normalidade. O excepcional são, no geral, as tragédias, os grandes
desastres. Correia aponta uma explicação para o trágico ser mais presente na mídia do que
o não trágico:
“Um dos aspectos mais criticados dos noticiários é a insistência em
que se incluem e destacam as chamadas notícias negativas –
desastres, crimes, catástrofes, atentados, epidemias, etc. Galtung e
Ruge apontam algumas razões para esta preferência. Aquilo que é
positivo é mais difícil de mostrar e leva mais tempo, enquanto o
negativo é mais fácil e rápido [...]; aquilo que é positivo para uns pode
não ser positivo para outros, ao passo que sobre o negativo existe
mais consensualidade; aquilo que é negativo é geralmente mais
inesperado e mais imprevisível” (CORREIA, 2003, p.147).
O acontecimento relevante pode ocorrer por desenvolvimento, continuidade ou ocasional.
Respectivamente: coberturas de grandes eventos (a Copa do Mundo; as eleições); matérias
posteriores aos grandes eventos (o time volta para casa com o troféu; a posse do presidente
eleito); notícias de acidentes que, embora graves, não são excepcionais, seja por causa da
intensidade ou personalidades envolvidas. O acontecimento de rotina envolve as “pautas
frias”, ou seja, notícias que são pré-determinadas e se repetem sempre, como mudança de
horário de verão, férias e festas como o Natal, a Páscoa.
Além desses fatores apresentados por Nilson Lage, “a notícia restringe-se, então, ao
anúncio e à cobertura de fatos que não ultrapassam o interesse do grupo de leitores a que
se destina a publicação” (LAGE, 2006). Mas, existem os fatores financeiros. Correia aponta
ainda outro fator: as pessoas públicas. “Um acontecimento relativo a uma personalidade (do
mundo da política, do desporto, etc.) tem prioridade noticiosa relativamente a um outro
acontecimento, mesmo de maior relevância, ocorrido com alguém desconhecido da opinião
pública” (CORREIA, 2003). E além desses fatores existe a estética e a sincronia com o
produto jornalístico. Para Correia, estar em harmonia com toda a edição também é de
grande importância na avaliação da noticiabilidade, “desde que não se trate de um
acontecimento cuja importância o torne obrigatório” (CORREIA, 2003).
No caso do impresso, as fotos e ilustrações podem representar a importância da notícia em
relação às outras da mesma página, do mesmo caderno ou edição. Isso serve também para
a localização do texto na página. “O facto de uma notícia de jornal ser ou não acompanhada
de uma foto é, em princípio, sinal do maior ou menor grau de importância que lhe é atribuído
pelos responsáveis editoriais” (CORREIA, 2003). Mas, essa não é uma regra geral, pois
pode acontecer que a localização e a inclusão de fotos e ilustrações seja apenas uma
necessidade operacional do diagramador do jornal ou revista para substituir textos, ou
qualquer outra coisa.
MÉTODO
Em um primeiro momento, foi feito um levantamento bibliográfico sobre a temática, um
histórico das reportagens que retrataram o assunto “favela” nos jornais Folha e Estadão, de
1987 a 2007. Para realizar a pesquisa, usou-se também material fornecido pela Secretaria
de Habitação de São Paulo (SEHAB), das lideranças dos movimentos de moradia (MSTC),
e somente após a leitura detalhada desse material iniciou-se a elaboração de resumos
sobre cada reportagem. Diante dos dados obtidos as matérias foram classificadas por
possuir aspectos positivos ou negativos para os acontecimentos que fizeram as favelas virar
notícia.
Por negativos, entenderam-se textos que sempre tratam a favela como um problema social,
mas evidenciando os desastres (como incêndio, deslizamento de terra, violência,
inundações, áreas de risco, confrontos etc.), não focando a falta de políticas públicas. Ou
ainda, questões que falam da remoção dessas famílias e não a ajuda para elas se
deslocarem para um lugar melhor. Os positivos foram as noticias que destacaram as ações
dentro das favelas que mostram a vida dessas pessoas que estão ali por diversos motivos; o
sofrimento dos moradores de habitação irregular; ou eventos que mostram ações sociais e
iniciativas de ONGs, e dos próprios moradores para minimizar os problemas da vida
cotidiana; ou ainda, questões políticas que favorecem essa população, como verba para as
favelas e política de habitação.
Para o estudo, separaram-se artigos, editoriais e opiniões por entrevista, que mostraram os
aspectos tanto positivos (com apresentação de soluções) quanto negativos (que criticavam
ações dos moradores desses locais).
Após este levantamento, foi escolhido um dos acontecimentos, aquele que ficou mais
evidente durante as décadas analisadas, para estudar com maior profundidade. As matérias
selecionadas foram aquelas que se referiam ao deslizamento de terra na favela de Nova
República, no Morumbi, zona sul de São Paulo, em 1989, durante a gestão de Erundina. A
tragédia aconteceu no dia 24 de outubro e foi noticiada pela primeira vez no dia 25 do
mesmo mês. Foram analisadas as reportagens anunciando a tragédia tanto no jornal Folha
quanto no Estadão. A análise não teve intenção de comparar os dois periódicos impressos
de grande circulação na cidade de São Paulo e Grande São Paulo, mas sim, observar os
critérios de noticiabilidade. Como no dia 25 os jornais não trouxeram grandes textos, por
falta de tempo para apuração sobre o deslizamento, também foi feito uma breve análise,
apenas do jornal Folha de São Paulo, do dia 26 de outubro.
Por fim, pode-se tecer comentários e conclusões das análises feitas.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Após a pesquisa dos documentos/fonte e seus resumos, todas as notícias foram
criteriosamente estudadas pelo viés da analise do discurso e noticiabilidade. Foram
trabalhadas, no período de um ano, aproximadamente 850 matérias, organizadas em três
categorias: notícias positivas, notícias negativas e textos de opinião, as quais já foram
explicitadas suas formas de seleção.
Assim, gerou-se uma tabela, na qual os dados não refletem com exatidão o total de matérias
publicadas naquele ano sobre a localidade favela. Podem existir mais matérias num mesmo
ano que não foram encontradas na pesquisa.
Além disso, os números se referem às
edições dos jornais e não ao número de matérias publicadas. Logo, pode ser que numa
mesma edição, mais de uma matéria tenha sido publicada:
Classificação das noticias analisadas – ano 1987 a 2007
ANO
1987
1988
1989
1990
1991
1992
1993
1994
1995
1996
1997
1998
1999
2000
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
1987 a 2007
POSITIVO
03
06
07
01
04
01
00
05
22
33
03
08
07
06
24
16
28
18
08
05
07
212
NEGATIVO
22
33
41
20
13
11
19
08
37
50
21
07
11
40
30
39
54
37
13
13
09
528
ARTIGOS
02
12
14
04
09
04
04
03
11
06
00
03
00
04
01
02
11
03
01
01
02
97
TOTAL
27
51
62
25
26
16
23
16
70
89
24
18
18
50
55
57
93
58
22
19
18
837
Com base nos dados apresentados, pode-se observar que as favelas apareciam nos jornais,
na maioria das vezes, em situações difíceis, em conflitos, ou vista como um problema social.
Foram raras as matérias que tratavam dos moradores como verdadeiros membros de uma
sociedade ou como cidadãos.
Então, dentre as matérias “negativas”, o evento mais marcante para a história das favelas
em São Paulo e Grande São Paulo, segundo o que a pesquisa apontou, foi o deslizamento
de 1989 durante a gestão de Erundina. Este evento não foi destaque pela grandiosidade do
desastre ou pela sua natureza excepcional, mas pela sua continuidade e capacidade de
virar assunto mesmo após 18 anos do ocorrido. Na longa repercussão do deslizamento, os
jornais publicaram que o caso ainda permanecia sem solução e que as vítimas não haviam
recebido a devida reparação financeira que mereciam.
A tragédia aconteceu no fim do primeiro ano da gestão de Luiza Erundina, do PT. Durante
os anos sucessivos de sua gestão, as áreas de risco ficaram em foco nos jornais. Um pouco
foi jogada política dos outros partidos para atacar a gestão petista, único governo que
dialogou com movimento de moradias, segundo as matérias analisadas e estudos
científicos.
O jornal O Estado de São Paulo, logo na capa, trouxe uma foto, ocupando o lugar de três
das seis colunas da página do jornal. A imagem trazia uma pessoa sendo resgatada dos
escombros. Bem ao lado, um texto de apenas uma coluna, aponta a página 17 do jornal, no
caderno “Cidades”. O título “Aterro cai e sepulta 40 barracos” já demonstra que não há tanto
uma preocupação com os moradores da favela, ou que pela falta de apuração não queriam
colocar um número de vítimas. A chamada, que fica na parte inferior da página, disputa
espaço com, principalmente, notícias sobre política, que estão todas na parte superior.
Recorte da capa do jornal Estadão do dia 25/10/1989.
A Folha de São Paulo, na capa, trouxe uma chamada para o deslizamento: uma pequena
coluna sem foto. O título “Terra desliza e mata 15 em favela de SP” demonstra a grandeza
do desastre apontando a intensidade dele. A chamada fica bem ao centro da página. O
destaque do jornal é “Segurança de Collor esmurra petista no Rio”, com três fotos ocupando
espaço de cinco colunas e uma coluna de texto com o dobro do tamanho da chamada para
a tragédia, ou seja, o acontecimento não teve tanto destaque nesse jornal.
Recorte da capa do jornal Folha do dia 25/10/1989. Os dois jornais indicam números em seus títulos. Um dos fatores de noticiabilidade é a
intensidade do acontecimento. Ao indicar esses números, os jornais mostram que o
deslizamento virou notícia, também, devido à intensidade.
Capa dos jornais Estadão e Folha do dia 25/10/1989. Em destaque, as chamadas do desastre.
Na página indicada pelo O Estado de São Paulo, menos da metade do espaço foi destinado
ao assunto. Desde a chamada na capa, tratam da tragédia através dos barracos perdidos
(“mais de 40 barracos”). Na matéria apontam a dificuldade que os bombeiros tiveram, mas,
sobretudo, dos apoios que buscaram e receberam. Dizem ainda que o pessoal do resgate
reclamou do número de curiosos. Um padre e um pastor ajudavam criando equipes de apoio
para os socorristas.
A matéria traz relato de dois moradores: Severino Ribeiro da Costa e Gerusa Fernandes dos
Santos. Esta se machucou ao sair correndo com a filha Aline de quatro anos. Para os dois
relatos, o jornal usou somente um parágrafo. A reportagem aponta que a prefeitura sabia do
risco que a favela corria e, ainda, apresenta um culpado: “um homem conhecido como
jamanta”, responsável pelo aterro clandestino que causou o deslizamento de centenas de
toneladas de terras.
No jornal Folha de São Paulo, todo o espaço, da página indicada, é dedicado à matéria do
deslizamento. Na página também estão presentes duas fotos. Porém, praticamente metade
da página é gasta com publicidades. A matéria indica que cerca de 50 a 80 barracos foram
soterrados (uma grande margem de risco e que ainda não está de acordo com o jornal
concorrente que aponta “40 barracos”).
Neste jornal indicam um número de mortos (“pelo menos 15 pessoas morreram”) e histórias
de alguns moradores: Sirmo Souza Santos, funcionário de uma creche próxima, que
abandonou o trabalho quando soube do acontecido, para salvar cinco sobrinhos entre dois
meses e 15 anos. Ele cavou com as próprias mãos um buraco e achou todos mortos; Adão
Ferreira de Moura, morador do local, que fala de um caminhão que foi soterrado com o
motorista dentro; Olindina Luís do Nascimento fala do estrondo e da correria para salvar a
vida, pois para as coisas materiais, ela não teve tempo; e Luís Henrique Sampaio acusa que
o desastre já era previsto. Na reportagem falam de um vazamento de água nas
proximidades (talvez a causa do deslizamento).
É nítido que, até mesmo pelo curto tempo de apuração, não tenham obtido tanta informação
sobre o desastre e que, por isso, tragam algumas informações desencontradas, para não
dizer erradas, pois após alguns dias constatou-se que o número de mortos foi de 14
pessoas. Mas ficou claro que só houve, em ambos os jornais, um relato do ocorrido sem
maiores aprofundamentos sobre: ocupações do espaço, políticas públicas de moradia,
projetos de segurança e prevenção de acidentes no local. Se a intenção era somente
informar o acontecimento “excepcional”, usando da classificação dos acontecimentos
noticiáveis, os jornais atingiram sua missão; mas se era questionar e gerar um pensamento
de não aceitação para essas situações, falharam.
Página indicada na capa do jornal O Estado de São Paulo.
Página indicada na capa do jornal Folha de São Paulo.
No jornal Folha, o morador foi mais ouvido do que no Estadão. Isso não desmerece um ou
outro jornal, pois em ambos mostrou-se uma preocupação com a população envolvida, algo
que em muitas das reportagens analisadas não aconteceu, uma vez que só mostravam o
lado dos governantes. Porém, no dia 26, dois dias após o deslizamento, observando
somente o jornal Folha de São Paulo, é possível notar a relevância do assunto nas três
páginas (ou duas e meia) destinadas ao assunto.
Páginas do caderno “Cidades”, da Folha, no dia 26/10/1989: quase três páginas para o desastre.
Nessas novas páginas do jornal, após terem tempo para uma melhor apuração, é possível
ler sobre o histórico da favela atingida, a investigação do caso e histórias de personagens.
Tem também um “sensacionalismo”: usam a morte de crianças (“Bombeiros acham 8 corpos
de crianças soterradas na favela” e “Resgate começa com corpos de 3 crianças”). O jornal
dessa vez apresenta infográfico do local e alguns dados oficiais. Em uma das retrancas é
possível perceber tudo isso:
Retranca da matéria sobre o desastre. Jornal Folha, dia 26/10/1989.
Nos primeiros dias após o desastre nada se falava sobre políticas públicas de urbanização,
mas com o tempo, inclusive 18 anos após o acontecimento, as reportagens traziam
acusações contra a prefeitura, por má administração e irresponsabilidade. Foi preciso um
exemplo,
como
esse
deslizamento,
para
noticiar
essa
deficiência
nas
gestões
governamentais. E, muitas vezes, as acusações contra a prefeitura nem eram motivadas por
forças sociais, mas sim por partidos da oposição querendo mostrar que o formato daquela
gestão, para os problemas de urbanização, não era eficiente.
CONCLUSÃO
As indagações e questionamentos destacados na pesquisa necessitam maiores
aprofundamentos em outros trabalhos acadêmicos, neste se objetivou destacar apenas o
problema da noticiabilidade, exemplificando com o caso estudado, e questionar a habitação
como um problema social, e a falta de interesse dos jornais em problematizar as políticas
públicas dos locais de moradia em área de risco. Assim, centrou-se a pesquisa nesses
locais e os motivos pelos quais não foram noticiadas as políticas públicas de moradia antes
das tragédias.
Com base na pesquisa feita ficou certo que a noticiabilidade para essa temática, ou
localidade favela, ocorria em torno das “desgraças”, “tragédias” (ou acontecimentos
excepcionais – que fogem da expectativa de normalidade). Os bairros não periféricos, ou os
grandes centros, no geral, também aparecem na mídia nesses casos. Até aí, nenhuma
novidade. O fato é que isso pode reforçar a visão higienista do século XIX sobre essas
populações.
Durante a gestão de Paulo Maluf as noticias foram em número maior, mas o conteúdo delas
passa longe de questionamentos sobre políticas de urbanização. O que mais foi noticiado
nesse período foi a “propagando política” de Maluf propagando o projeto Cingapura,
implantado na sua gestão. Porém, grande parte dessas matérias retratavam os malefícios
desse tipo de habitação. No início, eram noticiados flores, mas depois se verificou que só
escondiam a favela, que a verticalizavam.
Observou-se o grau de relevância das favelas nas mídias impressas de grande circulação
na cidade de São Paulo. No caso da mídia analisada, o público leitor é, de modo geral, a
classe média alta, porém, é um meio massivo, no sentido de quantidade de leitores em
relação aos demais meios impressos da capital paulista. Como as notícias de um jornal
giram em torno de seu público, até mesmo pela lei da proximidade no que se refere à
noticiabilidade, esse assunto, as favelas, não é tanto de interesse do público. É talvez mais
de interesse nacional, não pelas favelas, mas pela diferença social existente no Brasil. Aqui
então o fator é a identificação com o leitor, que de algum modo, deve vivenciar essa
situação social.
Muito embora na maioria das reportagens sobre favelas as situações não eram as melhores,
o jornalismo contribuiu para que seus habitantes tivessem, pelo menos, uma visibilidade.
Esse fato foi e, ainda é, importante para a criação e fortalecimento de políticas sociais e de
movimentos sociais. Bem como a desconstrução da visão higienista produzida pela elite do
século XIX. Todavia, sobre a formação de opinião, o que fica é ainda a sensação de uma
continuidade da formação positivista do século XIX, uma vez que a mídia reforça a visão de
que as “classes perigosas” ficam nas periferias da cidade e só aparecem quando acontece
algum problema com elas.
O assunto favela foi, e ainda hoje é, talvez em menor grau, tratado pela grande mídia de
forma esquecida nos momentos de calma e muito visada nas cenas ditas “negativas”.
Percebeu-se que os jornais se interessam com os moradores das favelas, que eles os
valorizam. Em quase todas as reportagens, especialmente nas que envolviam grandes
catástrofes, os jornais sempre traziam personagens, histórias envolventes e que mostravam
o perfil e o sofrimento que eles passavam, mostrando que eles não queriam estar ali se
pudessem. Os jornais davam voz aos “favelados”. Mas só nesses momentos de crise. Será
que se importam mesmo ou é só uma forma de noticiabilidade por continuidade (usar de um
fato para pautar outros que o seguem)?
Por fim, para compreender toda essa questão da visão de uma mídia qualquer sobre as
populações que vivem nas periferias e favelas, não foi preciso um túnel do tempo para voltar
até 1989 e vivenciar tudo e verificar como se deu a noticiabilidade do deslizamento. Tudo
que foi analisado no caso escolhido para este estudo, agora é possível perceber na
incansável publicação e veiculação dos deslizamentos que aconteceram recentemente,
após as fortes chuvas, no Rio de Janeiro e em Niterói.
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