KLEYTON KAMOGAWA
NOTÍCIAS DE BRASILEIROS NO JAPÃO:
OS DEKASSEGUIS NA MÍDIA IMPRESSA
Londrina
2008
KLEYTON KAMOGAWA
NOTÍCIAS DE BRASILEIROS NO JAPÃO:
OS DEKASSEGUIS NA MÍDIA IMPRESSA
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado ao Departamento de
Geociências
da
Universidade
Estadual de Londrina
Orientadora: Profª. Dra. Alice Yatiyo Asari
Londrina
2008
KLEYTON KAMOGAWA
NOTÍCIAS DE BRASILEIROS NO JAPÃO:
OS DEKASSEGUIS NA MÍDIA IMPRESSA
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado ao Departamento de
Geociências
da
Universidade
Estadual de Londrina
COMISSÃO EXAMINADORA
____________________________________
Profª. Dra. Alice Yatiyo Asari
Universidade Estadual de Londrina
____________________________________
Profª. Dra. Ruth Youko Tsukamoto
Universidade Estadual de Londrina
____________________________________
Profª. Dra. Estela Okabayashi Fuzii
Universidade Estadual de Londrina
Londrina, _____de ___________de _____.
AGRADECIMENTOS
Aos familiares, pelo apoio e incentivo para a conclusão do curso de Geografia.
À Prof.Dra. Alice Yatiyo Asari, pelas valiosas orientações, amizade, paciência e
dedicação, tanto para a conclusão deste trabalho, quanto na Iniciação Científica.
À Prof. Dra. Ruth Youko Tsukamoto e Estela Okabayashi Fuzii pelo aceite na
comissão examinadora.
Aos amigos(as) do curso: Ana Paula, Andrea, André Quinelato, Daniel Lania, Diogo,
Iris, Kelly, Mariana, Silvia, Tatiana, Viviane, pelo apoio e companheirismo em todos
os momentos.
Aos amigos(as): Alan Leonardo, Edson, Emerson, Fernando, Flávia, Herminia, Lilian,
Luciana Vieira, Luis Guilherme, Michelle, Milena, Vander.
Aos professores(as) do Departamento de Geociências, pelos ensinamentos durante
a graduação.
Aos entrevistados, pela disposição, atenção e paciência para responder aos
questionários.
A todos que, direta ou indiretamente, viabilizaram este trabalho, meus sinceros
agradecimentos.
“Torne-se uma pessoa capaz
de suportar todos os reveses
da vida, aceitando-os com um
sorriso”.
(Mokiti Okada – 25/01/1949)
KAMOGAWA, Kleyton. Notícias de brasileiros no Japão: os dekasseguis na mídia
impressa. 2008. 70f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação de Geografia) –
Universidade Estadual de Londrina. Londrina, 2008.
RESUMO
A migração de brasileiros rumo ao Japão iniciou-se no fim da década de 1980 e
início de 1990 devido à crise econômica que o Brasil enfrentava e o Japão
necessitar de mão-de-obra no seu setor produtivo.
No entanto, foi a partir da promulgação de Lei de Imigração Japonesa, no dia 1º de
junho de 1990, que houve a intensificação da migração, pois os filhos, netos de
imigrantes e seus cônjuges poderiam trabalhar no Japão por alguns anos, acumular
dinheiro e retornar. Estes são os chamados dekasseguis.
Os dekasseguis exercem atividades que exigem pouca ou nenhuma qualificação,
realizando tarefas que são desprezadas pelos japoneses, pois estes almejam cargos
na diretoria ou gerência nas fábricas. São esses dekasseguis, objeto de noticiários
na mídia impressa, que foram analisados no trabalho em foco.
Para isso, foram pesquisadas as notícias publicadas em jornais impressos,
destinados à comunidade nipo-brasileira, sobre os dekasseguis, verificando o tema
da notícia, o local dos acontecimentos, enfim, a imagem dos brasileiros no Japão.
O maior número de notícias, sobre brasileiros no Japão, está relacionada aos
crimes, como furtos e roubos, seguido pelas comemorações e festas. A quantidade
de alguns tipos de notícia, como crimes graves e com morte e acidentes de trânsito,
também são significativos.
Além disso, foram aplicados questionários para os dekasseguis vinculados à Aliança
Cultural Brasil-Japão do Norte do Paraná a fim de conhecer os motivos da
emigração, os objetivos, as dificuldades enfrentadas, entre outros, e se conseguiram
concretizar seus planos.
Palavras-Chave: migração, dekasseguis, trabalho, mídia impressa.
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 – Idade dos entrevistados
49
Gráfico 2 – Motivo da viagem
50
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 - Tipos de visto e status de permanência
14
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Inconstância no emprego
13
Figura 2 - Sistema de solicitação de atendimento proveniente
do Japão
19
Figura 3 - Crimes e Delitos cometidos por Brasileiros
21
Figura 4 - Festas, Hábitos e Comemorações Brasileiras
24
Figura 5 - Acidentes de Trânsito
26
Figura 6 - Tipo e Mercado de Trabalho dos Dekasseguis
27
Figura 7 - Escolas, Creches, Faculdades Brasileiras
30
Figura 8 - Problemas com Empreiteira
31
Figura 9 - Carteira de Motorista e Leis de Trânsito
32
Figura 10 - Brasileiros vítima de crimes, delitos, agressões
33
Figura 11 - Atividade comercial de brasileiros
34
Figura 12 - Acidentes de Trabalho
35
Figura 13 - Mendigos Brasileiros
36
Figura 14 – Discriminação
37
Figura 15 - Centro de Atendimento/Agência de emprego
para brasileiros
38
Figura 16 - Maus Tratos
39
Figura 17 - Bancos/Igrejas/Novelas/Programa de Rádio
para brasileiros
40
Figura 18 – Outros
41
LISTA DE MAPAS
Mapa 1 – Número de brasileiros no Japão
06
Mapa 2 – Crimes cometidos por brasileiros (2002)
23
Mapa 3 – Escolas brasileiras x Número de brasileiros no Japão
29
Mapa 4 – Número de notícias de brasileiros
42
Mapa 5 – Regiões do Japão
43
Mapa 6 – Anúncios de emprego do Jornal Nippo-Brasil
47
Mapa 6 – Municípios onde foram realizadas as entrevistas
48
Mapa 7 – Províncias de destino dos entrevistados
53
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 – Número de brasileiros e taxa de crescimento anual
(1985-2007)
05
Tabela 2 - Registro de estrangeiros em províncias onde a maioria
dos brasileiros reside
08
Tabela 3 - Entrada de brasileiros no Japão por status de permanência
(1995-2004)
15
Tabela 4 - Notícias encontradas nos jornais
20
Tabela 5 - Crimes cometidos por estrangeiros
22
Tabela 6 - Data dos jornais pesquisados
44
Tabela 7 - Anúncios de emprego pesquisados
45
Tabela 8 - Período de permanência no Japão
50
Tabela 9 - Número de viagens ao Japão
51
Tabela 10 - Empregos dos entrevistados
51
Tabela 11 – Discriminação
52
Tabela 12 - Dificuldades encontradas
54
Tabela 13 - Conseguiu concretizar seus planos?
55
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
01
1 - BRASILEIROS NO JAPÃO: OS DEKASSEGUIS E O
MERCADO DE TRABALHO
03
2 - A MIDIA IMPRESSA E OS BRASILEIROS NO JAPÃO
20
2.1 Crimes e Delitos cometidos por Brasileiros
21
2.2 Festas, Hábitos e Comemorações Brasileiras
24
2.3 Crimes graves e com morte
25
2.4 Acidentes de Trânsito
25
2.5 Tipo e Mercado de Trabalho dos Dekasseguis
26
2.6 Escolas, Creches, Faculdades Brasileiras
28
2.7 Problemas com Empreiteira
30
2.8 Carteira de Motorista e Leis de Trânsito
31
2.9 Brasileiros vítima de crimes, delitos, agressões
32
2.10 Atividade comercial de brasileiros
33
2.11 Acidentes de Trabalho
34
2.12 Mendigos Brasileiros
35
2.13 Discriminação
36
2.14 Centro de Atendimento/Agência de emprego para brasileiros
37
2.15 Maus Tratos
38
2.16 Suicídio
39
2.17 Bancos/Igrejas/Novelas/Programa de Rádio para brasileiros
39
2.18 Outros
40
2.19 Total de Notícias
41
3 - OS ANÚNCIOS DE EMPREGO NO JORNAL NIPPO-BRASIL
44
4 - OS DEKASSEGUIS DO NORTE DO PARANÁ
48
5 - CONCLUSÃO
56
6 - BIBLIOGRAFIA
58
ANEXOS
63
Anexo A - Acidente resultante da mudança de emprego
64
Anexo B - Destinação do lixo
65
Anexo C - Obtenção da carteira de motorista
66
Anexo D - Dekassegui vítima de furto
67
Anexo E - Canal de televisão em português
68
Anexo F - Igreja para brasileiros
69
Anexo G - Discriminação entre brasileiros
70
1
1 INTRODUÇÃO
O Brasil, na década de 1980, enfrentava uma grave crise econômica e
estagnação, sendo esta década chamada de “década perdida”. Muitos brasileiros,
descontentes com a situação, começaram a emigrar para outros países, como os
Estados Unidos, Japão e países da Europa, buscando melhores condições
financeiras.
Os brasileiros que partiram rumo ao Japão, os dekasseguis, termo que
significa sair de seu país de origem para trabalhar em outro, buscavam trabalhar por
curto período, acumular certa quantia de dinheiro e retornar ao Brasil.
Em meados da década de 1980 este movimento ainda se mostrava tímido,
pois havia dificuldades para se conseguir autorização de desembarque e trabalho no
Japão. Porém, a partir de 1990, com a promulgação da Lei de Imigração Japonesa,
este movimento de brasileiros rumo ao Japão aumentou drasticamente, sendo cada
vez maior o número de brasileiros que partem em busca de melhores condições de
vida.
Com isso, tem-se como objetivo compreender o processo migratório dos
descendentes de japoneses rumo ao Japão, identificando as motivações e
perspectivas que levaram estes à emigrar, sobretudo na década de 1990, após a
promulgação da Lei de Imigração do Japão e analisar a situação atual deste
processo.
Além disso, investigar, nos jornais impressos destinados à comunidade
japonesa, os anúncios de oferta de emprego, verificando os tipos de trabalho,
salário, província, entre outros, e os tipos de reportagens e notícias que são
publicados sobre os brasileiros no Japão.
Neste trabalho será discutido, no primeiro capítulo, o fenômeno dekassegui,
as motivações que levam os brasileiros a migrarem para trabalhar, as dificuldades
enfrentadas, a criação de novas territorialidades pelos brasileiros no Japão, os tipos
de visto existentes, os trabalhos exercidos pelos dekasseguis, as províncias onde
estes se encontram em maior número, os tipos de seguros ao trabalhador, como os
de saúde e desemprego, além da contribuição com a previdência.
No segundo capítulo serão apresentadas as notícias sobre os brasileiros no
Japão que foram divulgadas na mídia impressa, no período de 1990 a 2007, nos
jornais destinados à comunidade japonesa, classificando-as em categorias e o
2
número total de notícias, sendo possível analisar e observar em quais tipos de
notícia é freqüente a aparição dos brasileiros e a sua imagem no Japão.
No terceiro capítulo são analisados os anúncios de emprego no Japão que
foram divulgados no jornal Nippo-Brasil, nos anos de 2000 a 2006, no qual foram
escolhidos dois exemplares por ano, caracterizando o tipo de emprego mais
freqüente, a cidade ou província do emprego.
No quarto capítulo são apresentados os resultados das entrevistas feitas
com dekasseguis do norte do Paraná, identificando os motivos da viagem, a cidade
ou província de destino, o tipo de trabalho exercido, tempo de permanência no
Japão, as dificuldades encontradas, o número de vezes que foi ao Japão, entre
outros.
3
2 BRASILEIROS NO JAPÃO: OS DEKASSEGUIS E O MERCADO DE TRABALHO
A imigração de japoneses para o Brasil, iniciada em 1908, trouxe milhares
de pessoas com a esperança de encontrar melhores condições de vida e fazer
fortuna, pois o Brasil era considerado um país promissor. Desejavam trabalhar por
alguns anos, economizar uma certa quantia e retornar ao país de origem, não
rompendo os laços com o país de origem.
Porém, a grande maioria permaneceu no Brasil, por decisão ou por não ter
condições financeiras, e hoje sua cultura é reconhecida e admirada por muitos
brasileiros. Em meados da década de 1980 e, sobretudo no início da década de
1990, houve inversão no sentido do fluxo migratório, pois o Brasil, que no início do
século
recebeu
grande
contingente
de
imigrantes
japoneses,
torna-se,
posteriormente, um exportador de mão-de-obra para outros países a partir da
intensificação de crises políticas e econômicas. Assim, Kawamura (1999) explica
que:
Nos anos 80, as seqüelas da crise do petróleo; a diminuição dos
investimentos estrangeiros no país; o aumento crescente da dívida externa;
a desvalorização internacional das matérias-primas para exportação; a
elevada inflação e os juros altos; ao lado da rearticulação das forças
políticas civis no país e dos movimentos sociais pelas condições de vida,
por salários melhores, por saúde, educação e contra a discriminação das
mulheres e negros; e outros, de ordem econômica e política, expressaramse na desaceleração da economia interna, nos movimentos sociais, no
desemprego e, a partir de meados da década, nas crescentes migrações de
brasileiros para o exterior. (KAWAMURA, 1999. p.59)
Por esses motivos acentuou-se a emigração de brasileiros rumo aos
Estados Unidos, alguns países da Europa e o Japão, que se encontrava em pleno
desenvolvimento e necessitava cada vez mais de trabalhadores nas fábricas.
BENKO (2002, p.24), explica que “os países ocidentais atravessaram período difícil
nos anos 70 e 80. Muitas regiões industriais outrora prósperas passaram por graves
problemas econômicos, acompanhados de desemprego, que lhes acarretaram a
estagnação e o declínio”.
Devido a isso muitos brasileiros migraram para outros países e os japoneses
e seus descendentes viram, no Japão, a chance de sair da crise e melhorar a
qualidade e condições de vida.
4
A inversão e o aumento no fluxo de brasileiros rumo ao Japão deve-se,
sobretudo, às mudanças na Lei de Imigração do Japão que ocorreu no ano de 1990,
que permitiu a entrada de filhos (nisseis) e netos (sanseis) de imigrantes japoneses
e cônjuges não-nikkeis destes.
A lei de imigração tinha, como um de seus objetivos, diminuir o número de
trabalhadores ilegais, como tailandeses, coreanos, chineses, substituindo estes por
descendentes de japoneses, que se encontram em grande número no Brasil.
Os isseis, que voltavam ao Japão como dekassegui, não encontravam
grandes problemas na adaptação, pois conheciam o modo de vida japonês. Já as
outras gerações (nisseis, sanseis e cônjuges não-nikkeis) encontram muitas
dificuldades, como YOSHIOKA (1995) explica:
Já os nisseis têm um comportamento mais ocidentalizado, têm dificuldade
para ler e falar o japonês, são mais expansivos, a despeito de possuírem a
cultura japonesa pré-Guerra que lhes foi transmitida por seus pais. O sansei
é bem mais ocidentalizado e, com raras exceções, consegue comunicar-se
em japonês. O cônjuge não-nikkei praticamente desconhece a cultura
japonesa. (YOSHIOKA, 1995, p.148)
Os descendentes de imigrantes japoneses, mesmo conhecendo a cultura,
conversando em japonês com seus pais ou avós, mantendo a alimentação e religião,
algumas “regras” de educação, acabam encontrando muitas diferenças, como na
língua, pois algumas palavras que aprenderam com seus pais ou avós já não são
mais utilizadas atualmente, na separação do lixo, no rigor ao respeito às leis
japonesas, entre outros.
Além das dificuldades, os dekasseguis acabam sendo discriminados pelos
japoneses justamente por não conhecerem seu modo de vida. Alguns atos normais
para os brasileiros, como falar alto, cumprimentos calorosos, demonstrar afetividade
em público e o não cumprimento de algumas regras, são motivo para “vistas
grossas” dos japoneses.
Porém, a necessidade de mão-de-obra no Japão e o fato do Brasil estar num
período de recessão, acabou impulsionando a emigração de brasileiros, que
buscavam melhores salários, qualidade de vida e concretização de sonhos, mesmo
sabendo das dificuldades e sofrimentos que enfrentariam.
Na tabela 1 é possível observar o crescimento no número de brasileiros no Japão.
5
TABELA 1: NÚMERO DE BRASILEIROS E
TAXA DE CRESCIMENTO ANUAL (1985-2007)
Ano Nº de Brasileiros Taxa de Crescimento (%)
1985
1.955
------1986
2.135
9.20 %
1987
2.250
5.38 %
1988
4.159
84,80%
1989
14.528
249.31 %
1990
56.429
288.41 %
1991
119.333
111.47 %
1992
147.803
23.85 %
1993
154.650
4.63 %
1994
159.619
3.21 %
1995
176.440
10.53 %
1996
201.795
14.37 %
1997
233.254
15.58 %
1998
222.217
- 4.73 %
1999
224.299
0.93 %
2000
254.394
13.41 %
2001
265.962
4.54 %
2002
268.332
0.89 %
2003
274.700
2.37 %
2004
286.577
4.32 %
2005
302.080
5.41%
2006
312.979
3.60%
2007
316.976
1.27%
Tabela 1: Número de brasileiros no Japão – (1985 a 2007)
Fonte: Ministério da Justiça do Japão
In: www.abdnet.org.br
Nota-se que o ano de 1990 é o que apresenta o maior índice, justamente no
ano em que foi promulgada a nova lei de Imigração Japonesa. Porém, no final dos
anos 90, ocorre uma crise no Japão que faz o índice decrescer ao saldo negativo,
isto é, muitos dekasseguis retornaram ao Brasil neste ano. A população decresceu
de 233.254 em 1997 para 222.217 em 1998, ou seja, 11.037 brasileiros deixaram o
Japão devido à crise.
Os brasileiros concentram-se, sobretudo, nas imediações da província de
Tóquio, conforme mapa 1. A província com maior número de dekasseguis, no ano de
2004, é Aichi, com 63.335 brasileiros, seguido por Shizuoka, com 44.248 brasileiros.
6
Mapa 1: Número de brasileiros no Japão (2004).
7
Segundo OZAKI (2004):
Se falarmos com relação à mão-de-obra nikkei, as regiões que possuem
maior número de brasileiros registrados são Gunma, Nagano, Shizuoka,
Aichi, Mie, Gifu e Shiga, onde estão localizadas as principais fábricas do
setor industrial, e em cujo redor serão instaladas as empreendedoras de
empreiteiras coligadas. Isto é, a mão-de-obra nikkei está intimamente
relacionada com a estrutura empregatícia dessas indústrias. (OZAKI, 2004,
p.59)
Em função disso os brasileiros concentram-se em determinadas localidades
e a tabela 2 mostra as províncias e o número de brasileiros onde se concentra a
população de dekasseguis no período de 1993 a 2004.
8
TABELA 2: REGISTRO DE ESTRANGEIROS EM PROVÍNCIAS ONDE A MAIORIA DOS BRASILEIROS RESIDE
Províncias
1993
1994
1995
1996
1997
1998
1999
2000
2001
2002
2003
2004
Aichi
27.506
27.545
29.787
36.392
42.917
40.873
41.241
47.561
51.546
54.081
57.336
63.335
Shizuoka
21.129
22.571
25.012
28.305
32.202
31.329
31.974
35.959
39.409
41.039
41.489
44.248
Kanagawa
13.829
13.434
13.958
14.386
15.434
13.155
12.184
12.295
13.650
13.794
13.837
13.860
Saitama
9.842
10.160
10.804
11.500
12.226
11.532
11.202
12.831
14.088
13.768
13.932
14.030
Gunma
9.171
8.941
10.305
11.501
13.933
13.138
13.317
15.325
16.239
15.636
15.756
16.455
Gifu
6.436
7.096
8.073
9.829
11.818
11.202
11.619
14.809
14.925
15.138
16.449
17.598
Mie
5.938
6.224
7.086
9.776
12.433
12.903
13.453
15.358
16.737
17.012
17.619
18.157
Nagano
5.081
6.579
9.633
11.197
14.676
14.670
16.357
19.945
17.830
17.537
17.898
17.758
TOTAL
152.657
157.625
174.445
199.799
231.257
220.219
222.300
252.394
263.961
266.330
272.679
284.553
Tabela 2: Nas províncias citadas acima estão, em média, 70% do total de brasileiros no Japão. De 1993 a 2004 houve grande aumento da população brasileira,
duplicando e/ou triplicando o número de pessoas, com exceção da província de Kanagawa, que manteve-se estável durante os anos.
Fonte: (HAYASHI, 2005, p.146)
9
A concentração de brasileiros em determinadas cidades propiciou o
aparecimento de mercados, restaurantes, comércio, serviços, vestuário, produtos
farmacêuticos e perfumaria, destinados aos brasileiros, criando “territórios” onde
predomina a cultura brasileira. Sobre isso, CORRÊA (2002) explica que:
Etimologicamente território deriva do latim terra e torium, significando terra
pertencente a alguém. Pertencente, entretanto, não se vincula
necessariamente à propriedade da terra, mas à sua apropriação. Essa
apropriação, por sua vez, tem duplo significado. De um lado associa-se ao
controle de fato, efetivo, por vezes legitimado, por parte de instituições ou
grupos sobre um dado segmento do espaço. (...) por outro lado, pode
assumir uma dimensão afetiva, derivada das práticas espacializadas por
parte de grupos distintos definidos segundo renda, raça, religião, sexo,
idade ou outros atributos. (CORRÊA, 2002, , p.251)
Cria-se, numa determinada localidade das cidades, atividades comerciais
destinadas aos brasileiros, apropriando-se de determinada área, uma rua ou bairro,
caracterizando esta área pertencente aos brasileiros, da cultura brasileira, enquanto
dimensão afetiva, subjetiva.
HAESBAERT (2004), propõe quatro vertentes sobre a noção de território:
- Política: a mais difundida, onde o território é visto como um espaço
delimitado e controlado, através do qual se exerce um determinado poder,
na maioria das vezes relacionado ao poder político do Estado.
- Cultural: prioriza a dimensão simbólica e mais subjetiva, em que o território
é visto, sobretudo, como o produto da apropriação/valorização simbólica de
um grupo em relação ao seu espaço vivido.
- Econômica: enfatiza a dimensão espacial das relações econômicas, o
território como fonte de recursos e/ou incorporando no embate entre classes
sociais e na relação capital-trabalho, como produto da divisão “territorial” do
trabalho, por exemplo.
- Naturalista: que se utiliza da noção de território com base nas relações
entre sociedade e natureza, especialmente no que se refere ao
comportamento natural dos homens em relação ao seu ambiente físico.
(HAESBAERT, 2004, p.40)
Assim, o território pode ter sentido concreto, de dominação, de poder,
quanto simbólico, de apropriação e pertencimento, como ocorre nos caso das
atividades comerciais destinados aos brasileiros.
Os dekasseguis acabam freqüentando estes locais para lembrar do Brasil,
para “matar a saudade” das comidas típicas, músicas, danças, festas, entre outros,
pois apesar da distância, ainda sentem-se pertencentes ao seu local de origem, com
seu espaço vivido.
10
Sobre isto, HAESBAERT (2004) afirma que “assim, não é obrigatoriamente
por sair de seu território de origem, mesmo no caso das migrações internacionais,
que os migrantes se tornam, automaticamente, desterritorializados, o mesmo
acontecendo em relação a sua identidade em termos de nacionalidade ou de grupo
étnico”. (HAESBAERT, 2004, p.249)
Não é por estar em outro país que o migrante perde suas raízes, a cultura da
terra natal. Este se desterritorializa, deixando seu país, sua cultura, e se reterritorializa no novo país, adquire novas territorialidades, assimilando a nova cultura,
o novo estilo de vida, os hábitos e cumprindo regras para conviver em harmonia com
a sociedade.
A necessidade de mão-de-obra no Japão decorre, principalmente, pela alta
escolaridade dos japoneses, o que faz com que estes almejem cargos na diretoria,
administração, gerência, entre outros, nas empresas, recusando os serviços braçais,
que requerem pouca ou nenhuma qualificação, geralmente encontrados em
indústrias de eletro-eletrônicos, automobilísticas e de alimentos, como REIS (2001)
coloca:
Assim, a sociedade japonesa, que ostenta elevados índices de educação, já
reflete a tendência universal do mundo pós-industrial de prestigiar os
escalões mais elevados da hierarquia laboral, ainda que em detrimento de
maiores salários em atividades menos nobres. Vasto contingente da
população, ao lançar-se no mercado de trabalho, busca, de preferência,
colocação no setor terciário da economia, privilegiando áreas como
finanças, mercado imobiliário, profissões liberais, setor público e serviços
em geral. (REIS, 2001, p.55)
Ainda segundo Kawamura (1999):
Estudos têm mostrado que os trabalhadores internacionais surgem com a
falta de mão-de-obra em setores dinâmicos de economias avançadas,
devido ao fato de os salários e a natureza do trabalho não serem atraentes
para os trabalhadores locais e de o custo-benefício ser maior quando se
empregam mais trabalhadores estrangeiros do que se investe em
tecnologias. (KAWAMURA, 1999, p. 48)
Assim, os tipos de trabalho exercidos pelos dekasseguis são considerados
pelos japoneses como kitanai (sujo), kitsui (pesado), kiken (perigoso), conhecido
como os 3K’s. Posteriormente, os brasileiros adicionaram mais 2K’s, que são os
trabalhos considerados por estes como kibishii (exigente) e kirai (detestável). Têm-
11
se então os trabalhos 5K’s, exercidos pelos dekasseguis. Segundo KLAGSBRUNN
(1996):
Em todos os casos de emigração, uma das poucas vantagens dos
imigrantes frente aos naturais do país, é que, nos primeiros tempos, quando
predomina a idéia de uma migração temporária, o migrante está disposto a
aceitar qualquer tipo de trabalho, muitas vezes fazendo coisas que não
aceitaria em seu próprio país. (KLAGSBRUNN, 1996, p.39)
Mesmo os dekasseguis que possuem alta escolaridade exercem trabalho de
baixa qualificação, pois no Japão sua formação acadêmica não é levada em conta.
Certamente, esta pessoa, no Brasil, também recusaria trabalhos que exigem pouca
qualificação e são mal-remunerados; porém, no Japão, quando comparados com os
salários pagos no Brasil, estes tipos de trabalho são bem-remunerados e suficientes
para a manutenção própria e de parentes.
Quando há crise na economia ou na empresa, os primeiros a serem
demitidos são os dekasseguis, sendo que muitos, por não contribuírem com o
sistema de seguros oferecidos, ficam sem renda e podem se ver forçados a retornar
ao Brasil. Assim, HARVEY (1989) coloca que “a atual tendência dos mercados de
trabalho é reduzir o número de trabalhadores “centrais” e empregar cada vez mais
uma força de trabalho que entra facilmente e é demitida sem custos quando as
empresas tornam-se deficitárias.
Estão sujeitos ainda à mudança no turno ou período de trabalho em
determinadas semanas, conforme GAUDEMAR (1977) explica:
[...] o operário deve adaptar-se a uma modificação periódica do lugar do seu
tempo de trabalho, no decorrer do dia; uma semana, trabalha de manhã,
outra à tarde, outra ainda à noite, e conseqüentemente deverá conciliar com
esse ritmo a sua vida fora do trabalho. A mobilidade da força de trabalho
surge assim como a sua capacidade, não só de ser utilizada durante um
máximo de tempo, mas além disso em qualquer momento do dia, apenas
segundo as exigências do capital investido, na total indiferença do seu ritmo
individual ou familiar de vida. (GAUDEMAR, 1977, p. 219-220)
Assim, nota-se que o importante é produzir e acumular capital, independente
da vontade e disponibilidade do trabalhador, pois este deve se adaptar e cumprir as
condições do capital. Pode acontecer, nos serviços considerados perigosos, o
dekassegui sofrer acidentes de trabalho, pois pode demorar a adaptar-se ao novo
horário de trabalho e ao ritmo de produção (ver anexo A).
12
O empregado e o empregador têm obrigação de efetuar, mensalmente, os
pagamentos de seguro saúde (kenko hoken), aposentadoria (kosei nenkin hoken) e
seguro desemprego (koyo hoken). Segundo YOSHIOKA (1999, p.29), “estas
contribuições são chamadas de shakai hoken, que totalizam pouco mais de 13% do
salário do trabalhador”.
Ainda segundo o autor, os seguros oferecidos dão direito ao trabalhador à:
•
Kenko Hoken (seguro saúde) – dá direito a assistência médica, mediante
pagamento de 10% do custo do tratamento. Além disso, a partir da quinta
falta por problemas médicos o seguro cobre os vencimentos em 60% da
diária.
•
Kosei Nenkin Hoken (aposentadoria) – o trabalhador que contribuir por mais
de 25 anos, ao atingir 60 ou 65 anos, poderá requerer aposentadoria.
Entretanto, dificilmente os trabalhadores contribuirão por tanto tempo. Daí a
aprovação da lei no dia 9 de novembro de 1994, determinando a restituição
de parte dessa contribuição aos estrangeiros que retornam definitivamente ao
seu país, mediante requerimento apresentado no decorrer de dois anos da
saída do Japão.
•
Koyo Hoken (seguro desemprego) – é o seguro desemprego ao qual tem
direito o trabalhador que tenha contribuído por mais de sete meses. O valor
do benefício é de 60% do salário.
Estes seguros garantem ao dekassegui, caso fique doente e seja demitido,
uma renda mensal para sua manutenção, tendo também o auxílio do governo no
pagamento das despesas do tratamento.
O salário varia de acordo com o tipo de trabalho e o número de horas extras
permitidas na empresa, o que faz muitos mudarem constantemente de emprego,
buscando sempre aqueles que oferecem maiores salários e vantagens, mesmo que
o horário, a jornada de trabalho e o esforço físico sejam grandes. Há casos em que o
dekassegui muda de cidade ou de província em busca de melhores oportunidades.
Sobre isto, GAUDEMAR (1977, p.191) explica que “o dinheiro vem reforçar
esta tendência e assim estimular a mobilidade da força de trabalho. Pouco importa o
emprego, desde que o salário recebido em troca seja satisfatório”.
Porém, segundo Reis (2001, p.99), “a inconstância no emprego, por outro
lado, é apontada como uma característica negativa ao empregado brasileiro”. Ainda
13
segundo a autora (p.101), “a estratégia que os empregadores japoneses
conseguiram até agora desenvolver no sentido de contornar a grande mobilidade do
trabalhador brasileiro foi a instituição de prêmios por estabilidade no emprego”.
Uma notícia do Jornal-Nippo-Brasil mostra esta tendência, em que nos anos
1990 era constante a procura e troca de empregos, e atualmente essa prática deixou
de ser vantajosa e aceita pelos dekasseguis e japoneses, conforme figura 1:
Figura 1: As notícias dos jornais do ano de 1996 e 2003 mostram a mudança no comportamento dos
dekasseguis.
Fonte: Jornal Nippo-Brasil – (02 a 08 de Agosto de 1996) e (03 a 09 de Setembro de 2003).
A maioria dos brasileiros possui visto com validade de dois a três anos, com
possibilidades de renovação. Os nisseis e sanseis têm um prazo de três anos de
estadia legal para trabalhar no país, com possibilidade de prorrogação de sua
permanência.
De acordo com o Manual da Lei de Imigração Japonesa (1993), existem 7
tipos de visto e 27 status de permanência, conforme quadro 1:
14
QUADRO 1: TIPOS DE VISTO E STATUS DE PERMANÊNCIA
TIPOS DE VISTO
STATUS DE PERMANÊNCIA
Diplomático
Diplomático
Oficial
Oficial
Professores
Artistas
Atividades Religiosas
Imprensa
Investimentos e Administração de Empresas
Serviços Jurídicos e Contábeis
Serviços Médicos e Paramédicos
Pesquisadores
Educação
Engenheiros
Especialistas em conhecimentos humanísticos, tecnológicos e
prestação de serviços internacionais
Transferências internas das empresas
Promoções de entretenimento
Trabalho
Serviços técnicos especializados
Atividades Culturais
Estudantes universitários
Estudantes de curso médio
Estagiários
Comum
Permanência de dependentes
Atividades designadas
Residentes em caráter permanente
Cônjuges e filhos de japoneses e outros
Cônjuges e filhos de residentes em caráter permanente
Especial
Residentes por longo período
Visita Temporária
Visita Temporária
Trânsito
Quadro 1: Tipos de visto e status de permanência.
Fonte: Manual da Lei de Imigração Japonesa (1993).
Há casos em que a pessoa entra com o visto de visita temporária, que tem
duração de 90 dias, podendo ser prorrogado, possibilitando que a pessoa trabalhe
como dekassegui. Somente o visto diplomático e o oficial não possuem prazo
determinado; o prazo estabelecido é a conclusão das atividades.
O visto especial é emitido para os nikkeis brasileiros e seus cônjuges; o visto
trabalho é voltado para os prestadores de serviços, profissionais que possuem
conhecimento específicos para trabalhar no Japão; o visto comum é emitido para
estudantes, estagiários, bolsistas, sua família e dependentes; o visto de visita
temporária é emitido para turistas, pessoas que visitam parentes, que permanecem
15
poucos dias no Japão; o visto de trânsito é emitido para quem viaja, via Japão, para
chegar a um terceiro país.
Na tabela 3 visualiza-se o número de entrada de brasileiros no Japão
classificados por status de permanência.
TABELA 3: ENTRADA DE BRASILEIROS NO JAPÃO POR STATUS DE
PERMANÊNCIA (1995-2004)
STATUS
Diplomático
Oficial
Professor
Artista
Atividade
Religiosa
Imprensa
Investidor/
Administrador
Serviços
Médicos
Pesquisador
Educação
Engenheiro
Serviços
Internacionais
Transferência
interna de
empresa
Entretenimento
Serviços
especializados
Atividade
Cultural
Curta
Permanência
Estudante
ensino superior
Estudante
ensino médio
Treinamento
Dependente
Atividade
designada
Cônjuge/filho
de japonês
Cônjuge/filho
de permanente
Residente por
longo período
TOTAL
1995
116
125
7
2
1996
160
160
2
1997
78
112
9
1998
64
146
4
1999
44
68
7
1
2000
52
54
5
2001
88
51
6
1
2002
83
31
4
4
2003
73
35
10
1
2004
69
53
9
5
5
5
13
28
1
28
17
51
37
40
36
2
6
3
2
1
2
2
4
1
3
7
1
1
8
3
2
4
7
2
9
5
1
12
4
8
7
10
26
10
14
1.049
12
905
21
887
22
798
20
27
12
20
27
45.074
3
4
1
6
2
6
1
1
5
3
2
5
23
24
14
19
22
25
755
27
798
5
984
11
769
24
938
21
741
25
8
18
10
11
15
19
12
13
11
7
11
11
6
13
43.827
26.985
19.031
12.145
13.031
9.848
10.627
7.749
9.527
145
157
160
146
125
129
146
139
123
119
37
565
143
54
551
150
49
582
169
44
538
127
40
495
106
48
402
132
44
360
146
44
349
110
50
305
170
41
262
124
11
30
19
12
9
8
11
15
9
23
9.049
9.600
13.945
7.382
9.274
14.544
8.627
6.978
9.909
8.893
3
1
3
3
3
6
9
28
45
65
4.505 23.456 12.543 15.110 29.264 19.103 10.014
60.192 66.539 40.971 38.275 58.577 39.533 33.296
Tabela 3: Brasileiros no Japão por status de permanência.
Fonte: (HAYASHI, 2005, p.143)
21.578
41.101
21.707
41.764
605
57.012
16
É possível observar a mudança no status de permanência, pois o número de
status de curta permanência decresce à partir de 1997, enquanto o status de
residente por longo período aumenta, sobretudo à partir do ano de 1996, que passa
de 605 (1995) para 4.505 (1996). Isto mostra que muitos dekasseguis desejam
permanecer por um longo período no Japão.
A intensificação do fluxo migratório a partir dos anos 1990 provocou o
surgimento de empresas, no Japão e no Brasil, para encaminhamento, treinamento
e apoio aos brasileiros imigrantes. São as chamadas empreiteiras ou brokers, que
são utilizadas pelas indústrias japonesas para contratar o trabalhador com o intuito
de livrar-se de qualquer responsabilidade e cortar gastos.
Sobre os trabalhadores temporários, que exercem funções não-qualificadas,
considerados trabalhadores periféricos, BENKO (2002), descreve que:
Na categoria periférica, distinguem-se três grupos: 1-os trabalhadores
empregados em estabelecimentos de sub-empreiteiros, os trabalhadores
independentes especializados e o pessoal fornecido pelas agências de
trabalho temporário, 2-os empregados da empresa desprovidos de estatuto
e que podem ser contratados e reempregados em virtude das condições
econômicas, os que têm contratos de duração limitada, o turnover elevado
ou ainda postos cujos efetivos podem ser facilmente comprimidos mercê de
uma política de não-substituição. (BENKO, 2002, p.121)
São trabalhadores que podem ser admitidos ou demitidos conforme a
demanda da produção, além de possuírem contratos que beneficiam o empregador;
pois são trabalhadores fornecidos às fábricas pelas empreiteiras ou agências de
emprego, possuem contrato de trabalho limitado e são contratados e demitidos de
acordo com a situação econômica.
Kawamura
(1999,
p.89)
explica
que
“os
empresários
japoneses,
principalmente os agenciadores de trabalhadores, utilizam-se dos jornais em língua
japonesa ou daqueles veículos de comunicação em língua portuguesa voltados para
os japoneses e seus descendentes - moradores do Brasil ou Japão -, para anúncios
de oferta de trabalho no mercado japonês”.
Algumas
dessas
empreiteiras
são
desonestas
com
o
dekassegui,
formulando documentos de difícil entendimento e em língua japonesa, prometendo
excelentes salários, moradia de baixo custo, entre outros. Porém, são procuradas
pelos dekasseguis devido às facilidades oferecidas, como o financiamento das
passagens e cobertura das primeiras despesas.
17
Apesar de haver um tradutor, geralmente um nikkei contratado pela
empreiteira e que domina a língua japonesa, as normas nem sempre ficam claras. O
dekassegui acaba assinando os documentos por estar de acordo com o que o
tradutor diz (que pode ou não omitir informações) ou por não ter outra opção para
viajar ao Japão.
O dekassegui, acreditando nas promessas feitas, somente descobre o que
o acordo não foi cumprido quando desembarca no Japão, vivenciando inúmeras
dificuldades no país desconhecido. Assim, REIS explica que:
A obtenção dos grandes lucros por parte das empreiteiras dá-se também
através da cobrança de preços superfaturados pela passagem aérea e da
sonegação de inscrição do trabalhador nos seguros saúde, apropriando-se
os intermediários das somas recebidas para tal fim das empresas para as
quais fornecem a mão-de-obra. (REIS, 2001, p.136)
Ainda, segundo o Guia para Trabalhador Nikkei,
Há muitos casos de empreiteiras das firmas empregadoras que não tomam
providências para receber os benefícios do Seguro Contra Acidente de
Trabalho, Seguro Saúde, etc. Nesse caso, se a pessoa sofrer algum
acidente durante o trabalho ou ficar doente, estará arriscado a não receber
os tratamentos médicos, benefícios e indenizações adequados. (Guia para
Trabalhador Nikkei, 1996, p.35)
Observa-se que o dekassegui fica sem nenhum suporte em casos de
emergência, restando recorrer a parentes e amigos, quando houver, ou retornar ao
Brasil sem a quantia desejada ou até mesmo com saldo negativo e com problemas
de saúde.
A decisão de ir trabalhar no Japão é, em geral, solitária, e quando há
companhia, geralmente é o cônjuge que o acompanha. Estes trabalhadores partem
rumo ao Japão com inúmeras incertezas e inseguranças, conforme Kawamura
(1999) descreve:
A insegurança em trabalhar no outro lado do mundo, à mercê de
informações superficiais, e muitas vezes manipuladas, sobre o trabalho e as
condições de vida de um lado e, de outro, desconhecendo as mais
elementares condutas em relação a trabalho, moradia, enfim, à vivência
cotidiana em um país com uma cultura muito diferente, é amenizada pelo
apoio de parentes e amigos que, anteriormente, vivenciaram essa
experiência. (KAWAMURA, 1999, p.90)
18
Os relatos de parentes, amigos que vivem ou viveram no Japão, ajudam a
entender e conhecer o cotidiano na sociedade japonesa. Porém, encontram
dificuldades na adaptação com a alimentação, a rigidez e disciplina no trabalho e até
mesmo a coleta de lixo, que possui determinados horários de coleta e recipientes
para os diferentes materiais (ver anexo B).
Além disso, o trabalhador sofre com a solidão, pois como passa a maior
parte do tempo trabalhando, acaba não tendo tempo para conversar com as
pessoas e até mesmo com os familiares que moram junto, pois o horário do trabalho
pode ser diferente.
Muitos são os casos de suicídio de estrangeiros no Japão devido à solidão,
doenças psíquicas, cobranças, humilhação no trabalho, entre outros. Há também
casos de trabalhadores que vão até as casas de jogos gastar a maior parte ou todo
o seu salário tentando amenizar a solidão, ter um pouco de diversão ou passar o
tempo.
Apesar das dificuldades encontradas, o dekassegui persiste e resiste para
alcançar seus objetivos, enfrentando os problemas e buscando amenizar a saudade
do Brasil. Em algumas cidades é possível encontrar estabelecimentos comerciais, de
prestação de serviços, restaurantes, entre outros, destinados especialmente aos
brasileiros, onde são comercializadas diversas mercadorias brasileiras.
O retorno ao Brasil é, provavelmente, ocasião em que pode estar novamente
próximo de familiares e amigos, além de concretizar seus planos com o dinheiro
economizado com muito esforço durante anos. Porém, encontra dificuldades de
readaptação, pois os padrões japoneses são distintos do brasileiro, além do que
necessita conhecer as transformações ocorridas no país e no seu local de origem.
Com a experiência adquirida com o trabalho e vivência no Japão, o
dekassegui pode fazer deste diferencial a oportunidade para obter sucesso em
algum ramo de atividade, inovando processos e adaptando melhorias que já são
utilizadas no Japão.
Sobre isto, HANIU (2004) cita que:
Por exemplo, caso o decasségui queira no futuro, após atingir seus
objetivos financeiros, voltar ao Brasil e empreender um negócio no ramo de
alimentos japoneses, ir trabalhar num “bentoya” pode ser uma experiência
positiva. Somados ao já mencionados aspectos de prestação de serviços
diferenciados japoneses, volta para o Brasil com um ferramental especial
para aqui bem empreender. (HANIU, 2004, p.89)
19
Um exemplo disto consta na notícia do Jornal Paraná Shimbun, na figura 2,
que mostra a introdução, no Brasil, de um sistema de solicitação de atendimento
empregado no Japão, destinado a clientes de restaurantes, bares, casa de jogos,
entre outros. Esse novo sistema, implantado com os conhecimentos adquiridos no
Japão por um ex-dekassegui, visa melhorar e agilizar o atendimento aos clientes,
sendo empregado em diversos estabelecimentos.
Figura 2: Sistema de solicitação de atendimento proveniente do Japão.
Fonte: Jornal Paraná Shimbun (31 de Março a 06 de Abril de 2007)
Além disso, o dekassegui encontra cursos e apoio no Serviço Brasileiro de
Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), nas Associações Nipo-Brasileiras,
onde pode receber orientações para obter sucesso nos negócios e prosperar, tendo
estabilidade financeira e descartando a possibilidade de retorno ao Japão.
20
3 A MIDIA IMPRESSA E OS BRASILEIROS NO JAPÃO
As notícias sobre os brasileiros no Japão foram pesquisadas no Jornal
Nippo-Brasil e Paraná Shimbun no período compreendido entre 1990 e 2007. Na
tabela 4 apresenta-se o tipo e o número de notícias encontradas nos jornais.
Algumas tratam da cultura, de empresas, instituições brasileiras, como as
festas, os bancos, escolas, comércio de produtos brasileiros, que mostram que a
comunidade brasileira está sendo cada vez mais presente e visível no Japão.
TABELA 4: NOTÍCIAS ENCONTRADAS NOS JORNAIS
TIPO DE NOTÍCIA (1990 a 2007)
1 Crimes e Delitos cometidos por brasileiros
2 Festas/Hábitos/Comemorações brasileiras
3 Crimes graves e com morte
4 Acidente de Trânsito
5 Tipo e Mercado de Trabalho dos dekasseguis
6 Escolas/Creches/Faculdades brasileiras
7 Problemas com empreiteiras
8 Carteira de motorista, leis de trânsito
9 Brasileiros vítimas de crimes, delitos, agressões
10 Atividade comercial de brasileiros
11 Acidente de trabalho
12 Mendigos brasileiros
13 Discriminação
14 Centro de Atendimento/Agência de Emprego p/ brasileiros
15 Maus tratos, humilhações
16 Suicídio
17 Bancos brasileiros
18 Igrejas brasileiras
19 Novelas brasileiras
20 Programa de rádio
21 Outros
TOTAL
TOTAL
100
33
30
28
26
22
22
18
18
17
10
8
7
6
6
4
4
4
3
3
13
382
Tabela 4: Tipo e número de noticias sobre os brasileiros encontrados nos jornais
no período de 1990 a 2007
Fonte: Jornal Nippo-Brasil e Paraná-Shimbun
(%)
26,2
8,6
7,8
7,5
6,8
5,7
5,7
4,7
4,7
4,5
2,6
2
1,8
1,6
1,6
1,05
1,05
1,05
0,8
0,8
3,4
100
21
3.1 Crimes e Delitos cometidos por Brasileiros
Na tabela 4 observa-se que os brasileiros destacam-se nas noticias
relacionadas aos crimes e delitos, com 100 noticias, que representa 26,2% do total.
A maioria dos casos envolve menores de 20 anos em roubos e furtos de objetos de
casas, automóveis e estabelecimentos comerciais, geralmente sem violência ou
feridos, porém, devido ao número de ocorrências alto, tem preocupado as
autoridades japonesas, além de “arranhar” a imagem dos brasileiros. Segundo
OGAWA (2004):
As crianças que freqüentam as escolas japonesas e falam a língua
japonesa, têm possibilidades de conseguir emprego, contudo, aquelas que
não freqüentaram a escola e não falam a língua, não conseguem arrumar
emprego e muitos são os casos das que começaram a se envolver em
crimes. (OGAWA, 2004, p.10)
Na notícia do Jornal Nippo-Brasil, nota-se a incidência de jovens, menores
de 20 anos, e que cometem crimes geralmente em grupo, conforme figura 3:
Figura 3: Nas notícias nota-se que a criminalidade envolvendo brasileiros prejudica a imagem destes
no Japão, sendo considerados perigosos tanto pelos próprios brasileiros e japoneses, como também
pela polícia.
Fonte: Jornal NIppo-Brasil – (19 a 31 de Dezembro de 1997); (13 a 19 de Março de 2002)
(04 a 10 de Outubro de 2001).
22
Para que se possa comparar com migrantes de outros países, a tabela 5
apresenta o número de crimes cometidos por estrangeiros no 1º semestre de 2004.
Os brasileiros ocupam o 3º lugar na lista, sendo que os chineses e turcos são os que
mais se sobressaem.
TABELA 5: CRIMES COMETIDOS POR
ESTRANGEIROS
1º SEMESTRE DE 2004
País
Casos
Detidos
China
5.891
2.173
Turquia
5.580
17
Brasil
3.015
511
Coréia do Sul
773
303
Colômbia
370
36
Vietnã
352
252
Peru
229
176
Filipinas
176
169
Rússia
101
98
Outros países latinos
133
79
TOTAL
16.620
3.814
Fonte: Agência Nacional de Polícia. In: Jornal NippoBrasil
(1 a 7 de Setembro de 2004)
Tabela 5: Crimes cometidos por estrangeiros no 1º semestre de 2004
Nota-se que os casos envolvendo chineses, turcos e brasileiros somam
14.486 casos, ou seja, 87,2% dos crimes cometidos; os brasileiros são responsáveis
por 18,1% do total de crimes cometidos por estrangeiros. O mapa 2 mostra o
número de crimes cometidos por brasileiros no ano de 2002, por província.
23
Mapa 2: Crimes cometidos por brasileiros no ano de 2002.
24
Nota-se que a criminalidade encontra-se nas províncias de maior
concentração de brasileiros, conforme mapa 1. A província com maior número de
crimes é Aichi, com 320 crimes, onde também há maior concentração de brasileiros,
seguido por Osaka (161) e Mie (121).
Em alguns casos, como na província de Osaka, o número de crimes não é
proporcional ao número de brasileiros, pois a província de Mie, por exemplo, possui
aproximadamente 13.400 brasileiros a mais que Osaka (dados de 2004) e ocupa a
terceira posição no total de crimes. A província de Osaka possui 4.758 brasileiros e
Mie possui 18.157 brasileiros, apresentando aproximadamente um quarto (1/4) dos
dekasseguis de Mie e com 40 crimes a mais registrados.
3.2 Festas, Hábitos e Comemorações Brasileiras
Sobre a cultura brasileira, as festas, comemorações, religião, foram
encontradas 33 notícias. A principal festa noticiada foi o carnaval no Japão onde,
além dos brasileiros, os japoneses também participam dançando ou assistindo as
apresentações, conforme figura 4:
Figura 4: As festas, como o carnaval, fazem sucesso entre brasileiros e japoneses. Fonte: Jornal
NIppo-Brasil – (09 a 15 de Agosto de 1996); (12 a 18 de Abril de 2006).
25
Há também noticias de comemorações do Dia dos Pais, Natal, Festas Juninas
promovidas por escolas e que são celebrados pelos brasileiros.
3.3 Crimes graves e com morte
Ocupam a terceira posição, com 30 noticias. Nesta categoria enquadram-se
crimes como esfaqueamento, agressões, espancamentos e assassinatos. Os
brasileiros são a maioria que cometem estes crimes, na qual a vítima, na maioria dos
casos também é brasileira.
Os motivos são diversos, mas pode-se citar: briga de casal ou
companheiros, problemas com o empreiteiro e o patrão, desentendimentos entre
colegas de trabalho e de alojamento, com intérprete, entre outros.
3.4 Acidentes de Trânsito
Os acidentes de trânsito envolvendo brasileiros, em que estes são os
principais causadores, preocupam muito o governo japonês. Por desconhecimento
das leis, da sinalização, por excesso de velocidade, a mudança da faixa e posição
de dirigir, que no Japão são do lado direito, pode causar acidentes, pois muitos
brasileiros tem dificuldades em se adaptar ao trânsito japonês. Em algumas cidades,
os acidentes envolvendo brasileiros chegam a 70%, conforme mostra notícia na
figura 5:
26
Figura 5: Os brasileiros preocupam as autoridades japonesas devido ao elevado índice de acidentes.
Fonte: Jornal Nippo-Brasil – (28/10 a 03/11 de 1994); (06/01 a 12/01 de 1995); (09/01 a 15/01 de
2002); .
Conforme a notícia de 2002, os brasileiros estão envolvidos em 70% do total
de acidentes na cidade de Oizumi, na província de Gunma.
A elevada incidência de brasileiros envolvidos em acidentes fez com que as
autoridades adotassem medidas mais rigorosas para a obtenção da carteira de
motorista e há palestras educativas alertando sobre as leis e regras de sinalização.
3.5 Tipo e Mercado de Trabalho dos Dekasseguis
As referências sobre os tipos de trabalho exercidos pelos dekasseguis e o
mercado de trabalho somam 26 notícias. Estas sinalizam como se apresenta a oferta
de empregos no Japão, se ainda é vantajoso mudar constantemente de emprego e
de cidade, os problemas acarretados pelo excesso de trabalho, as profissões
perigosas, entre outros.
27
As profissões consideradas perigosas, ligadas à construção civil, fundição,
onde são fabricadas barras de ferro a temperaturas elevadas, niquelação e
cromagem, em que se utilizam produtos químicos, atraem os dekasseguis pelos
altos salários, porém os riscos e a ocorrência de problemas de saúde e acidentes
também são elevados.
Em alguns tipos de ocupação, o dekassegui pode adoecer, como na noticia
do Jornal Nippo-Brasil do dia 26/04 a 02/05/1996, (figura 6) em que os trabalhadores
que trabalham com solda apresentam maior incidência na intoxicação por mercúrio.
Figura 6: Os trabalhos exercidos pelos dekasseguis podem provocar graves problemas de saúde.
Fonte: Jornal Nippo-Brasil - 26/04 a 02/05 de 1996.
Por estes motivos é necessário que o dekassegui faça o pagamento do
seguro saúde, pois corre sérios riscos de ficar doente e não poder voltar a trabalhar.
Desta forma, o trabalhador estaria amparado para o pagamento do tratamento
médico-hospitalar e receberia o salário no período em que não estiver exercendo as
atividades.
28
3.6 Escolas, Creches, Faculdades Brasileiras
Como muitos filhos de dekasseguis não podem trabalhar devido à idade e,
para não ficarem ociosos durante o dia todo, estes permanecem em creches e
escolas aprendendo a cultura japonesa e brasileira. Porém, estas escolas
destinadas aos brasileiros têm custo alto e nem todos têm condições de pagar,
sendo que alguns voltam ao Brasil para concluir os estudos.
O mapa 3 mostra o número de escolas, por província, homologadas pelo
Ministério da Educação e Cultura brasileiro, no ano de 2005.
29
Mapa 3: Número de escolas homologadas no Japão em 2005.
30
Nota-se no mapa 3 que o número de escolas coincide com o número de
brasileiros no Japão, conforme o mapa 1. As províncias de Aichi e Shizuoka,
seguidas por Gifu, Nagano e Gunma, concentram maior número de escolas
brasileiras no Japão.
Alguns jovens preferem trabalhar, para ajudar nos gastos e poupança, a
estudar, conforme a figura 7 mostra. Para ajudar na renda mensal, os jovens trocam
o estudo pelo trabalho nas fábricas. Entretanto, há outros que abandonam os
estudos, por maus-tratos dos outros alunos, desconhecimento da língua e
dificuldade no aprendizado, e acabam ficando sozinhos, vulneráveis, podendo ficar
acompanhados de pessoas de má índole e formar grupos de jovens para roubar e
furtar.
Figura 7: creches brasileiras e jovens que preferem trabalhar à estudar.
Fonte: Jornal Nippo-Brasil – (22/09 a 28/09 de 1995) ; (28/02 a 06/03 de 1997).
3.7 Problemas com Empreiteira
Os problemas com a empreiteira são diversos, como: não pagamento de
salários, falência da empreiteira, que deixa o dekassegui desempregado e sem
salário, apreensão dos documentos, como o passaporte, cobrança ilegal de taxas,
desvio do dinheiro destinado aos seguros, conforme figura 8:
31
Figura 8: As notícias sobre as empreiteiras mostram o desrespeito destes com os dekasseguis.
Fonte: Jornal Nippo-Brasil – (25/11 a 01/12 de 1994); (06/10 a 12/10 de 1995).
As empreiteiras são utilizadas pelas indústrias japonesas para contratar o
trabalhador com o intuito de livrar-se de qualquer responsabilidade e cortar gastos.
Possuem sede tanto no Japão quanto no Brasil, para encaminhamento, treinamento
e apoio aos brasileiros imigrantes.
Em nenhuma notícia pesquisada, as empreiteiras são elogiadas; o aspecto
negativo noticiado decorre dos problemas citados e por pagamento de indenização
devido a danos causados ao dekassegui, onde houve a apropriação de parte do
salário do mesmo de forma irregular, desviando a quantia destinada ao sistema de
seguros ao empreiteiro.
3.8 Carteira de Motorista e Leis de Trânsito
Devido ao elevado número de estrangeiros, sobretudo de brasileiros
envolvidos em acidentes de trânsito, as autoridades japonesas adotaram medidas
mais severas para a concessão da carteira de motorista para estrangeiros, além do
maior rigor nas leis e fiscalização, conforme figura 9:
32
Figura 9: Muitos brasileiros procuram obter a carteira de motorista, mas poucos são aprovados,
conforme notícia do ano de 1996.
Fonte: Jornal Nippo-Brasil – (04/10 a 10/10 de 1996); (05/07 a 11/07 de 2002); (27/08 a 02/09 de
2003)
O aumento na procura pela aquisição da carteira de motorista obrigou as
autoridades a modificar a aquisição e aumentando a fiscalização na obtenção da
carteira de motorista, conforme notícia dos anos de 2002 e 2003.
Além de facilitar na contratação de alguns empregos, (conforme anexo C) o
número elevado de estrangeiros que buscam a carteira de motorista deve-se
também à compra de veículos por estes, pois o preço dos automóveis é acessível
aos dekasseguis e a agilidade e rapidez no transporte da fábrica à moradia e viceversa, não dependendo mais exclusivamente do transporte fornecido pela fábrica.
3.9 Brasileiros vítima de crimes, delitos, agressões
Os brasileiros, que ocupam as primeiras posições no índice de criminalidade,
também são vítimas de roubos, furtos, agressões, dos próprios brasileiros,
estrangeiros e japoneses, conforme figura 10 e anexo D:
33
Figura 10: Os brasileiros também são vitimas de crimes, como furtos e roubos.
Fonte: Jornal Nippo-Brasil (03/05 a 09/05 de 1996)
Alguns dekasseguis têm o hábito de guardar o dinheiro na sua residência, no
alojamento, o que facilita que este seja roubado ou furtado por conhecidos ou por
alguém que saiba do local em que o dinheiro está depositado.
As brigas e agressões ocorrem também entre brasileiros, com o intérprete,
por desentendimentos em relação ao trabalho, alojamento, problemas pessoais.
Por inexistência de bancos com atendimento para brasileiros ou por não
concordarem com as taxas cobradas, estes optam por guardar o dinheiro poupado
na moradia, estando vulneráveis aos furtos.
3.10 Atividade comercial de brasileiros
A concentração de brasileiros em algumas cidades fez surgir lojas,
restaurantes, serviços, mercados, de propriedade de brasileiros, embora haja
também japoneses investindo no comércio para brasileiros.
Alguns dekasseguis, atentos ao sucesso destes estabelecimentos, decidiram
abrir seu próprio comércio, abandonando o trabalho nas fábricas para atender aos
brasileiros. Visto o alto custo para alugar ou comprar um imóvel, muitos optaram por
comercializar os produtos em caminhões, estacionando-os próximos aos conjuntos
34
residenciais onde há grande concentração de brasileiros. Há também a possibilidade
de viajar para outras cidades, aumentando assim as vendas e a renda. A figura 11
mostra o comércio feito nos caminhões e os estabelecimentos destinados aos
brasileiros, embora os japoneses também apreciem a culinária brasileira.
Figura 11: Brasileiros que comercializam produtos em caminhões.
Fonte: Jornal Nippo-Brasil – (15/09 a 21/09 de 1995); (19/07 a 25/07 de 1996); (30/08 a 05/09 de
2006)
3.11 Acidentes de Trabalho
Por exercer trabalhos perigosos, os dekasseguis estão sujeitos a sofrer
muitos tipos de acidentes, seja por problemas no manuseio de equipamentos, como
por desatenção ou cansaço, conforme figura 12:
35
Figura 12: Os trabalhos perigosos pagam os melhores salários para os dekasseguis, mas estes
correm sérios riscos de sofrer acidentes.
Fonte: Jornal Nippo-Brasil – (05/03 a 21/03 de 1996); (04/07 a 10/07 de 1997); (09/08 a 15/08 de
2001)
O empregado e o empregador têm obrigação de efetuar, mensalmente, os
pagamentos de seguro saúde (kenko hoken), aposentadoria (kosei nenkin hoken) e
seguro desemprego (koyo hoken).
O seguro saúde, ignorado pela maioria dos dekasseguis devido ao caráter
temporário do trabalho e por ser descontado do salário, deveria ser pago para evitar
sofrimentos e dificuldades em caso de acidente, pois não receberá ajuda do governo
para o pagamento de despesas e não poderá trabalhar para pagá-los.
3.12 Mendigos Brasileiros
São brasileiros desempregados, por problemas de saúde e idade, que vivem
nas ruas das cidades e recebem apoio de voluntários brasileiros e japoneses. Vivem
debaixo de pontes e correm riscos devido aos terremotos, incêndios e enchentes,
além de ser discriminados e receber reclamações de moradores próximos, o que faz
com que as autoridades tomem providências para retirá-los destes locais, conforme
figura 13:
36
Figura 13: Brasileiros, que por falta de trabalho, não adaptação ao tipo de serviço, acabam nas ruas
por não terem condições pagar uma moradia ou retornar ao Brasil.
Fonte: Jornal-Nippo-Brasil – (13/12 a 19/12 de 1996).
3.13 Discriminação
A discriminação ocorre principalmente entre os próprios brasileiros, pois
vêem os outros como concorrentes no trabalho, que pode fazer mais horas extras,
serem promovidos, entre outros, e no atendimento médico, pois o brasileiro que não
conhece a língua, acaba não conseguindo explicar os sintomas e o médico, sem
saber o que fazer, manda o brasileiro voltar ao seu país para se tratar,
caracterizando discriminação por alguns, conforme figura 14:
37
Figura 14: Problemas com a discriminação.
Fonte: Jornal Nippo-Brasil – (05/06 de 1994); (18/10 a 24/10 de 1996)
A discriminação, o receio dos japoneses, deve-se, segundo a noticia, ao
desconhecimento e desatenção de algumas regras para a convivência na sociedade
japonesa, causando maus entendidos e problemas de convivência; discriminados
pelos japoneses por causar constrangimentos e transtornos.
Segundo a notícia, a acusação de discriminação tem por base um manual
editado pelo governo destinado a orientar o atendimento médico a estrangeiros. Em
um de seus capítulos, traduzido para o português, se lê “é melhor você voltar logo
para o seu país”. O médico poderia dizer esta frase somente em casos de doenças
comuns ao país de origem do paciente e que necessitem de tratamento
especializado. Porém, os pacientes que retornam são pessoas acometidas por
distúrbios mentais, tuberculose, doenças que existem no Japão e que poderiam ser
tratadas no país.
3.14 Centro de Atendimento/Agência de emprego para brasileiros
São locais para tirar dúvidas, propiciar assistência e informações aos
brasileiros sobre o visto, os tipos de seguro, empregos, documentação em geral,
conforme figura 15.
38
Figura 15: Centro de atendimento aos nikkeis.
O objetivo é integrar os nikkeis na cultura japonesa, dando apoio aos
dekasseguis recém-chegados, formar uma biblioteca com livros em português e
promover encontros, palestras, cursos e eventos. Além disso, orientar os nikkeis
para que possam trabalhar de maneira segura no Japão, sem desrespeitar as leis.
Esses serviços são prestados pelo governo japonês e por associações, que se
assemelham às organizações não governamentais.
3.15 Maus Tratos
Os maus tratos, humilhações, conhecido como ijime, ocorrem nas escolas
japonesas e as principais vítimas são os brasileiros, embora os japoneses também
sofram estas agressões. O desconhecimento da língua, costumes e as diferenças
39
físicas são motivos para provocações, brincadeiras e xingamentos, que provocam
depressão e desistência da escola. Além disso, a omissão por parte de diretores,
professores e colegas de sala revolta as vítimas do ijime, conforme a figura 16:
Figura 16: os brasileiros são as principais vítimas do ijime nas escolas japonesas.
Fonte: Jornal Nippo-Brasil – 26/02 a 04/03 de 2003
3.16 Suicídio
As principais causas são a depressão, motivados pelo excesso e
insatisfação no trabalho e pouco contato social, além da saudade de familiares.
Mesmo insatisfeitos com a situação vivida no Japão, muitos não têm condições de
retornar ao Brasil, o que pode gerar distúrbios psicológicos e levar ao uso de drogas,
que, em algumas noticias, foram a causa dos suicídios.
40
3.17 Bancos/Igrejas/Novelas/Programa de Rádio para brasileiros
Na década de 1990 eram poucos os bancos que ofereciam seus serviços
aos brasileiros, e as agências que disponibilizavam os serviços localizavam-se nas
grandes cidades, muitas vezes longe da moradia dos brasileiros, o que inviabilizava
sua procura. Porém, nos últimos anos, nota-se o aumento no número de agências
para brasileiros no Japão, principalmente nas cidades onde há maior concentração
destes, facilitando o envio de dinheiro para os parentes no Brasil, o depósito em
poupança, conforme figura 17:
Figura 17: Várias cidades contam com bancos com serviços destinados aos brasileiros.
Fonte: Jornal Nippo-Brasil – (09/08 a 15/08 de 1996); (29/12/2004 a 12/01/2005)
Apesar disso, os brasileiros continuam enfrentando algumas dificuldades,
como a comunicação e informação sobre os valores cobrados, os procedimentos
para abertura de conta, entre outros.
As igrejas, novelas e programas de rádio destinado aos brasileiros também
estão presentes no Japão, sendo uma opção para o lazer e diversão (ver anexo E e
F). Porém, há alguns brasileiros que comercializaram ilegalmente os capítulos das
novelas, praticando a pirataria.
3.18 Outros
Nesta categoria estão noticias diversas, como de dekasseguis que impedem
crimes, suicídios e acidentes; intérprete de nikkeis detidos, brasileiro com problemas
41
psicológicos; brasileiro desaparecido; brasileiro com problemas na documentação e
desembarque no Japão. Conforme figura 18. Estas somam 13 notícias.
Figura 18: Nos jornais pesquisados aparecem noticias inusitadas, onde os brasileiros salvam japonês
embriagado em rio e prende ladrão japonês.
Fonte: Jornal Nippo-Brasil – (05/08 a 11/08 de 1994); (08/09 a 14/09 de 2004)
São fatos raros de acontecer, sobretudo com brasileiros, que tem a imagem
ofuscada pelos crimes e delitos. Estes fatos noticiados amenizam a imagem dos
brasileiros no Japão.
3.19 Total de Notícias
Pesquisou-se o total de 382 notícias sobre os brasileiros, durante o período
de 1990 e 2007. Em algumas noticias não há como identificar a cidade ou província,
como nas noticias sobre as carteiras de motorista e leis de trânsito e as datas
comemorativas, que abrangem todo o Japão, assim como os problemas com a
empreiteira, o tipo e mercado de trabalho dos brasileiros, a discriminação e os maus
tratos (ijime), que são problemas que ocorrem com muitos brasileiros moradores em
diversas províncias.
Estas notícias, em que não foi possível identificar a província, a localização
dos acontecimentos, somam 89 notícias. Portanto, foram encontradas 293 notícias
em diversas províncias de diferentes regiões do Japão, conforme o mapa 4:
42
Mapa 4: Total de notícias pesquisadas (por província).
43
As províncias onde houve maior número de noticias são também as que
concentram maior número de brasileiros, principalmente nas regiões de Kanto e
Chubu, conforme mapa 5, onde todas as províncias, exceto Ishikawa, apresentaram
noticias de brasileiros. Aichi e Shizuoka representam 42% do total de notícias, que é
de 293, ou seja, as duas províncias concentram 123 notícias.
Mapa 5: Regiões do Japão.
44
4 OS ANÚNCIOS DE EMPREGO NO JORNAL NIPPO-BRASIL
Os anúncios de emprego foram pesquisados no Jornal Nippo-Brasil no
período do ano de 2000 a 2006, sendo analisados dois exemplares por ano; um para
cada semestre, a fim de obter os tipos de emprego, os salários pagos, cidades do
trabalho, oferecidos pelos empregadores.
Com isso, foi possível identificar os principais tipos de emprego e as cidades
onde estes são oferecidos, além das características exigidas para cada tipo de
trabalho, como idade e sexo.
Na tabela 6 estão as datas dos jornais pesquisados:
TABELA 6: DATA DOS JORNAIS PESQUISADOS
DATA DO JORNAL
ANO
1º Semestre
2º Semestre
2000
27/04 a 03/05
26/10 a 01/11
2001
31/05 a 06/06
05/12 a 11/12
2002
08/05 a 14/05
04/12 a 10/12
2003
30/04 a 06/05
24/12 a 07/2004
2004
26/05 a 01/06
08/12 a 14/12
2005
11/05 a 17/05
30/11 a 06/12
2006
03/05 a 09/05
20/12 a 26/12
Tabela 6: Data dos jornais pesquisados.
Foram
escolhidos
os
jornais
dos
meses
de
Maio/Junho
e
Novembro/Dezembro devido à disponibilidade, pois o objetivo foi de selecionar
jornais do mesmo período nos anos de 2000 a 2006.
Feita a coleta de dados, foi possível elaborar tabelas e mapas dos anúncios,
verificando o tipo de trabalho mais freqüente, as províncias e cidades onde há
empregos. Foram encontrados 23 tipos de serviço, que são mostradas na tabela 7:
45
TABELA 7: ANÚNCIOS DE EMPREGO PESQUISADOS
TIPO DE SERVIÇO
TOTAL
(%)
1 Eletrônicos (Celular, Computador, entre outros)
484
26,0
2 Auto-Peças
369
20,0
3 Alimentos (Salgados, Doces, embalagem, entre outros)
325
17,5
4 Torno e Solda
79
4,2
5 Inspeção de Peças
76
4,1
6 Operador de Máquinas - (empilhadeiras)
68
3,6
7 Limpeza (hotéis, motéis, prédios, aviões)
55
2,9
8 Peças de Alumínio
39
2,1
9 Peças Plásticas
39
2,1
10 Metalurgia e Fundição
27
1,4
11 Tradutor e Intérprete
24
1,3
12 Serviço em Escritório
19
1
13 Serviço em Hospital
18
0,9
14 Jogos (Pachinko)
17
0,9
15 Construção Civil
15
0,8
16 Vigia/Segurança
15
0,8
17 Pintura
14
0,8
18 Placas de Parede
13
0,7
19 Prensa
12
0,65
20 Vendedores
12
0,65
21 Peças/Utensílios/Equipamentos de Borracha
11
0,6
22 Frigorífico
11
0,6
23 Lavanderia
11
0,6
105
5,8
1858
100
24 Outros
TOTAL
Tabela 7: Tipos de serviço ofertado nos jornais.
Fonte: Jornal Nippo-Brasil.
Nota-se a discrepância do serviço de eletrônicos, auto-peças e alimentos,
com os demais; somente estes tipos de serviço somam 1.178 anúncios, ou seja,
63,5% do total, enquanto o restante soma 680 anúncios, com 36,5%.
46
Alguns tipos de serviço dependem do sexo, idade, capacidade física, pois
podem ser muito pesados e exigentes para alguns. HATSUSHIKANO (2005), diz
que:
Enfocando um pouco a relação entre o emprego e o perfil do trabalhador,
para os homens, os tipos de emprego no setor de auto-peças, construção
civil e metalurgia exigem mais força, mas pagam melhor. E os ambientes
também não são tão limpos. Para as mulheres, as fábricas de eletrônicos e
alimentos exigem menor esforço físico e serviços de maior precisão e
delicadeza. (HATSUSHIKANO, 2005, p.123)
Há, portanto, vários tipos de serviço para determinado perfil de trabalhador.
Porém, há preferência, na maioria dos serviços, por pessoas com idades entre 18 a
45 anos, aproximadamente, sendo que pessoas acima dessa idade, tanto homens
como mulheres, recorrem aos serviços mais leves e com menores salários, como no
setor de alimentos, na preparação de doces, marmitas, ou acompanhar e cuidar de
idosos e os serviços de limpeza.
Na categoria “outros” estão incluídos 33 anúncios de serviços onde a
quantidade encontrada nos seis anos foi insignificante. São serviços como:
Construção de Navios, Fabricação de Vidro, Acompanhante de Idosos, Linha de
Montagem (Kumitate), Fabricação de Tecidos e Costura, Niquelamento, Reciclagem
de Material de Construção, Bar e Restaurante, Massagista, Operador de CAD –
Gráfica, Professor, Salão de Beleza, Supermercado, Madeireira, Polimento,
Fabricação de Fibra e Lã de Vidro, Fabricação de Isopor, Fabricação de Lentes,
Fabricação de Papel, Caddie (Golfe), Manutenção de Trilhos, Peças de Cerâmica,
Produtos Químicos, Telemarketing, Açougueiro, Analista de Sistemas, Babá,
Fabricação de Isqueiros, Fabricação de Material de Pesca, Fabricação de Tijolos,
Serviço Doméstico, Tubulação de Gás e Utensílios Médicos, que somam 105
anúncios e representam apenas 5,65% do total.
As províncias onde há maior número de anúncios de emprego estão
localizadas no mapa 6:
47
Mapa 6: Número de anúncios de emprego no Jornal NIppo-Brasil (por província).
48
As províncias de Aichi e Shizuoka apresentam maior número de anúncios,
seguido por Mie, Shiga, Gifu, Nagano, Saitama, Chiba e Kanagawa, pois concentram
as principais indústrias e onde o número de brasileiros é representativo. Nota-se
alguns anúncios destinados a províncias da região norte, como Hokkaido, Akita e
Iwate, e sul do Japão, Fukuoka e Saga; as regiões de Tohoku (localizado entre a
região de Hokkaido e Chubu), e Chugoku, Shikoku e Kyushu, ao sul, residem
poucos brasileiros, também são pouco anunciadas como destino para trabalho (ver
mapa 5).
5 OS DEKASSEGUIS DO NORTE DO PARANÁ
O Estado do Paraná possui 72 Associações Nipo-Brasileiras distribuídas em
67 municípios, localizadas principalmente nos municípios do norte do Paraná, sendo
que algumas foram escolhidos para realização das entrevistas, conforme o mapa 7:
Mapa 7: Municípios onde foram realizadas as entrevistas.
49
A pesquisa foi realizada com ex-dekasseguis dos municípios de Assaí,
Carlópolis, Cornélio Procópio, Guapirama, Ibiporã, Marialva, Nova Esperança,
Paranavaí e Rolândia no período de 2007 a 2008.
Foram aplicados 21 questionários, sendo entrevistados 10 homens e 11
mulheres com idades de 18 a 75 anos, conforme o gráfico 1:
18 a 40
(20%)
mais de 65
(30%)
41 a 50
(15%)
51 a 60
(35%)
GRÁFICO 1: IDADE DOS ENTREVISTADOS
FONTE: Pesquisa “in loco”. Associados vinculados
à Aliança Cultural Brasil-Japão do Paraná (2008).
A maior parte dos entrevistados está na faixa dos 51 a 60 anos. São exdekasseguis que partiram ao Japão na década de 1990 e hoje estão aposentados e
cuidando dos bens adquiridos com muito esforço e trabalho.
O principal motivo da viagem foi o financeiro, pois muitos se queixaram da
falta de oportunidades ou o acúmulo de dívidas ou falência de negócios, embora
houvesse aqueles que partiram somente para conhecer ou visitar parentes. Também
há casos que emigraram por motivo financeiro e para conhecer, onde trabalharam
para acumular uma certa quantia para pagar os custos das viagens e passeios e
também para aplicar no Brasil, conforme gráfico 2:
50
CONHECER
(14%)
FINANCEIRO;
(67%)
FINANCEIRO E
CONHECER
(19%)
GRÁFICO 2: MOTIVO DA VIAGEM
Fonte: Pesquisa “in loco”. Associados vinculados à
Aliança Cultural Brasil-Japão do Paraná (2008).
A maioria dos entrevistados permaneceu no Japão por 1 ou 2 anos devido
ao visto, status de permanência, ou acumular a quantia desejada, conforme tabela 8,
mas há aqueles que ficaram por mais de 10 anos, retornando somente para visitar
os parentes que aqui ficaram.
TABELA 8: PERÍODO DE PERMANÊNCIA
NO JAPÃO
ANOS
Nº DE ENTREVISTADOS (%)
1a2
7
34
3a4
3
14
5a6
4
19
7a9
3
14
mais de 10
4
19
21
100,0
TOTAL
Tabela 8: Período de permanência dos entrevistados no Japão.
Fonte: Pesquisa “in loco”. Associados vinculados à Aliança Cultural Brasil-Japão do Paraná (2008).
Quase metade dos entrevistados foi apenas uma vez ao Japão, tanto para
trabalhar e conhecer, mas há um entrevistado que retornou ao Japão por seis vezes,
totalizando 15 anos de permanência no Japão, conforme a tabela 9. Os que
retornaram duas a três vezes tiveram problemas financeiros, como falência do
51
comércio, não concretização dos planos, sendo obrigados a retornar ao Japão para
acumular mais dinheiro e assim retornar e conseguir estabilidade financeira.
TABELA 9: NÚMERO DE VIAGENS AO JAPÃO
Nº DE VEZES Nº DE ENTREVISTADOS (%)
1
9
43
2
5
23
3
6
29
6
1
5
TOTAL
21
100,0
Tabela 9: Número de vezes que os entrevistados foram ao Japão.
Fonte: Pesquisa “in loco”. Associados vinculados à Aliança Cultural Brasil-Japão do Paraná (2008).
Os 21 entrevistados totalizam 43 viagens ao Japão, pois se multiplicando o
número de vezes com o número de entrevistados, tem-se o total de viagens que
estes fizeram, onde percebe-se que estes foram ao Japão de uma a três vezes e
somam 95% dos entrevistados. Apenas um entrevistado retornou seis vezes ao
Japão e os motivos foram diversos, como dívidas do sítio para quitar, pagar a
educação dos filhos, falência do estabelecimento que investiu.
Na primeira ou em pelo menos uma das viagens (para quem foi duas ou
mais vezes), 16 entrevistados utilizaram-se de empreiteiras para conseguir o
trabalho e as passagens, que são financiadas e pagas nos primeiros meses de
trabalho, sendo descontado do salário, e apenas cinco informaram ter ido por conta
própria ou com ajuda de parentes que já residiam no Japão. A principal queixa dos
entrevistados contra as empreiteiras é são os altos valores cobrados nas passagens
e no alojamento, além da falta de compromisso e da propaganda enganosa.
Sobre o conhecimento da língua japonesa, 15 entrevistados falavam a
língua, 2 não sabiam e 4 aprenderam no dia-dia, no convívio com os japoneses.
No Japão, os trabalhos exercidos pelos entrevistados constam na tabela 10:
TABELA 10: EMPREGOS DOS
ENTREVISTADOS
TIPO DE TRABALHO
NÚMERO
(%)
Autopeças
9
21
Alimentos
9
21
Eletrônicos
3
7
Construção Civil
2
4,7
Enfermeira
2
4,7
Fábrica de móveis
2
4,7
Fundição
2
4,7
52
Solda
Asilo
Carpintaria
Derivados de Peixe
Eletricista
Empregada
Limpeza em Hotel
Limpeza em Aviões
Loja de Conveniência
Tradutor
Prensa
Manutenção de máquinas
Niquelação
TOTAL
2
1
1
1
1
1
1
1
1
1
1
1
1
43
4,7
2,3
2,3
2,3
2,3
2,3
2,3
2,3
2,3
2,3
2,3
2,3
2,3
100,0
Tabela 10: Tipo de trabalho exercido pelos entrevistados.
Fonte: Pesquisa “in loco”. Associados vinculados à Aliança Cultural Brasil-Japão do Paraná (2008).
Os entrevistados que foram duas ou mais vezes ao Japão trabalharam em
empregos variados, diferentes das ocupações executadas na primeira viagem. Há
entrevistados que foram três vezes e trabalharam, em cada permanência, na fábrica
de alimentos, limpeza em hotel e processamento de derivados de peixe.
Notou-se que os principais serviços realizados são no setor de auto-peças e
alimentos, que somam 42%, e eletrônicos. Os serviços pesados e perigosos, como
construção civil, solda, fundição, também foram procurados pelos entrevistados, pois
os salários são mais atrativos.
Sobre a discriminação, 14 disseram não ter sofrido nenhum tipo de
discriminação na sua permanência, 4 disseram sofrer pouco, 2 somente sofrer pelos
próprios brasileiros e apenas 1 disse sofrer discriminação por não entender a língua,
conforme a tabela 11:
TABELA 11: DISCRIMINAÇÃO
RESPOSTA
Nº DE ENTREVISTADOS (%)
Não
14 65
Pouco
4 20
Somente por Brasileiros
2 10
Sim
1
5
TOTAL
21 100
Tabela 11: sobre a discriminação com os entrevistados.
Fonte: Pesquisa “in loco”. Associados vinculados à Aliança Cultural Brasil-Japão do Paraná (2008).
As províncias onde os entrevistados permaneceram constam no mapa 8:
53
Mapa 8: Províncias de destino dos entrevistados.
Fonte: Pesquisa “in loco”. Associados vinculados à Aliança Cultural Brasil-Japão do Paraná (2008).
54
Como dito anteriormente, o total de viagens feitas pelos entrevistados
somam 43 viagens. Muitos dos que foram duas ou mais vezes, ao retornar ao Japão,
residiam em províncias diferentes e procuravam empregos diferentes, dificilmente
voltando à cidade onde trabalhou na primeira viagem.
As principais províncias onde os entrevistados trabalharam foram Aichi e
Shizuoka, seguido por Gifu, Kanagawa e Chiba, ou seja, a região onde também há
maior concentração de brasileiros e que existe infra-estrutura para atendê-los.
Entre as dificuldades encontradas, mostradas na tabela 12, estão:
TABELA 12: DIFICULDADES ENCONTRADAS
Tipo de Dificuldade
Nº de entrevistados
Saudade e Convivência com brasileiros
5
Excesso de trabalho/rigidez/repetitivo e corrido
5
Saudade
4
Comunicação/Língua
4
Tecnologia
2
Médicos/Doenças
1
Total
21
(%)
24
24
19
19
9,5
4,5
100
Tabela 12: Dificuldades encontradas, no Japão, pelos entrevistados.
Fonte: Pesquisa “in loco”. Associados vinculados à Aliança Cultural Brasil-Japão do Paraná (2008).
As principais dificuldades encontradas são saudades de familiares e a
convivência com outros brasileiros, que, segundo os entrevistados, faziam “fofoca” e
queriam “puxar o tapete” deles, inventando histórias, atrapalhando no trabalho e
“sujando” a imagem deles na fábrica, pois os outros brasileiros não queriam perder
as bonificações e horas extras oferecidas pela fábrica. A notícia do Jornal NippoBrasil do dia 26/08 a 01/09 de 1994 (anexo G), mostra esta situação vivida pelos
entrevistados.
O excesso de trabalho, rigidez, perfeccionismo, repetição, também são
citados pelos entrevistados, pois são trabalhos cansativos e rápidos que podiam
acarretar problemas de saúde.
A
saudade
dos
familiares
e
a
dificuldade
na
comunicação
pelo
desconhecimento da língua atrapalharam na convivência com os japoneses, além de
causar confusão com nomes de ferramentas utilizadas no trabalho. Relatar
problemas de saúde ao médico também foi comentado por um entrevistado, pois
não sabia como explicar o que sentia e qual era o problema. Outro entrevistado
55
relatou que o japonês que aprendeu no Brasil com seus avós, no Japão somente os
idosos entendiam. Além disso, a nova geração não entendia direito seu japonês
devido à introdução de palavras em inglês ao vocabulário japonês.
A tecnologia, os aparelhos, utensílios, também causavam confusão e
dificuldade na adaptação ao novo modo de vida, pois muitos dos equipamentos não
são conhecidos e sabiam como funcionava e qual sua finalidade.
Sobre futuros investimentos em negócios, comércio, serviços, muitos
disseram não investir por ser muito arriscado, podendo perder todas as economias.
Foram 17 os entrevistados que disseram preferir investir em imóveis para locação,
pois consideram seguro e a renda é obtida regularmente; outros utilizaram para o
pagamento da faculdade, em arrendamento de terras, em aquisição de camionetes
para fazer fretes, excluindo a possibilidade de abrir algum estabelecimento
comercial. Somente quatro informaram que investiram no comércio e serviços,
como, por exemplo, na venda de insumos agrícolas, sacolão, oficina mecânica e
mercearia.
A maioria dos entrevistados, cerca de 85%, ficaram satisfeitos após a
estadia no Japão como dekassegui, concretizando os planos estabelecidos,
conforme a tabela 13:
TABELA 13: CONSEGUIU CONCRETIZAR SEUS PLANOS?
RESPOSTA Nº DE ENTREVISTADOS
(%)
Sim
18
85
Parcialmente
3
15
Não
0
0
TOTAL
21
100
Tabela 13: Concretização de planos estabelecidos pelos entrevistados após a viagem ao Japão.
Fonte: Pesquisa “in loco”. Associados vinculados à Aliança Cultural Brasil-Japão do Paraná (2008).
São 18 entrevistados satisfeitos com o resultado do trabalho no Japão,
representando 87%, e apenas 3 que estão parcialmente satisfeitos. Mesmo que
parcialmente, conseguiram adquirir bens, como automóveis, eletro-eletrônicos,
imóveis, propriedades rurais, entre outros.
56
6 CONCLUSÃO
Os dekasseguis partem rumo ao Japão em busca de melhores condições de
vida, de emprego, salário, oportunidades, pois não o encontram no seu país de
origem. Este fluxo aumentou após a Promulgação da Lei de Imigração do Japão, de
1990, que permitiu que isseis, nisseis, sanseis e seus cônjuges entrassem no país
para trabalhar, acumular dinheiro e retornar ao Brasil.
Os tipos de trabalho exercido pelos dekasseguis são considerados kitanai
(sujo), kitsui (pesado), kiken (perigoso), kibishii (exigente) e kirai (detestável), de
baixa qualificação e remuneração, sendo descartados pelos japoneses, pois estes
almejam cargos elevados, como a gerência, direção, e ocupações condizentes com
seu nível escolar e status social.
Geralmente trabalham por dois anos no Japão ou até acumularem a quantia
desejada, e então retornam ao Brasil, com expectativas de aplicar o dinheiro
acumulado com muito esforço, multiplicando-o.
Os anúncios de emprego encontrados nos jornais mostram que o tipo de
trabalho e a localização destes coincidem com as províncias com maior
concentração de brasileiros, pois, em função disto, foram criadas condições para
melhorar a vida dos brasileiros, com a instalação de placas informativas em
português, agências bancárias para remessa de dinheiro para o Brasil,
estabelecimentos comerciais que forneçam alimentos e produtos brasileiros, entre
outros.
Os principais tipos de trabalho anunciados são no setor de autopeças,
alimentos e eletrônicos, embora haja outros, menos freqüente, como para atendente
de telemarketing, empregada doméstica, intérprete, serviço em escritório, serviço em
gráfica, entre outros. Enfim, são trabalhos dispensados pelos japoneses, malremunerados (quando comparados com os salários pagos no Japão), mas
necessários para a economia japonesa.
As reportagens sobre os brasileiros no Japão mostram que os crimes,
delitos, furtos, são as principais manchetes dos jornais destinados à comunidade
japonesa, degradando a imagem dos brasileiros no Japão, que podem sofrer
discriminação e preocupam as autoridades policiais.
Os dekasseguis entrevistados trabalhavam nos empregos que exigem pouco
esforço, como no setor de alimentos, que também foi muito anunciado nos jornais.
57
Estes tinham como destino as províncias onde também há as maiores
concentrações de brasileiros, como Aichi, Shizuoka, Kanagawa, Gifu, embora
tenham se dirigido para províncias onde residem poucos brasileiros.
Nota-se que os empregos anunciados, as notícias e os entrevistados
concentraram-se em algumas províncias, principalmente em Aichi e Shizuoka, pois a
oferta de emprego e as notícias estão ligadas à concentração de brasileiros.
Deste modo, vê-se que a cultura brasileira também está muito presente no
Japão, onde acontecem festas e comemorações nas ruas das principais cidades
japonesas, além da existência de estabelecimentos comerciais destinados aos
brasileiros, mas que também atraem os japoneses, mostrando uma outra imagem
dos brasileiros.
58
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63
ANEXOS
64
ANEXO A: ACIDENTE RESULTANTE DA MUDANÇA DE EMPREGO.
Jornal Nippo-Brasil (21 a 27 de julho de 1995).
65
ANEXO B: DESTINAÇÃO DO LIXO
Jornal Nippo-Brasil (22 a 28 de setembro de 1995)
66
ANEXO C: OBTENÇÃO DA CARTEIRA DE MOTORISTA
Jornal Nippo-Brasil (13 a 19 de setembro de 1996)
67
ANEXO D: DEKASSEGUI VÍTIMA DE FURTO
Jornal Nippo-Brasil (13 a 19 de outubro de 1995)
68
ANEXO E: CANAL DE TELEVISÃO EM PORTUGUÊS
Jornal Nippo-Brasil (07 a 13 de junho de 2004)
69
ANEXO F: IGREJA PARA BRASILEIROS
Jornal Nippo-Brasil (07 a 13 de junho de 1996)
70
ANEXO G: DISCRIMINAÇÃO ENTRE BRASILEIROS
Jornal Nippo-Brasil (26 de agosto a 01 de setembro de 1997)
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