Assentamentos e profissionais da extensão rural: um estudo em torno dos referenciais das políticas de desenvolvimento rural Paulo Eduardo Moruzzi Marques * Neide Aparecida Beraldo ** 1. Introdução No quadro de reconstrução das expectativas em torno da implantação e desenvolvimento dos assentamentos rurais, este trabalho tem por objetivo propor uma discussão sobre as perspectivas que orientam um grupo de profissionais cuja posição de mediação entre assentados e poderes públicos os torna central para examinar os desafios da reforma agrária: os técnicos vinculados às instituições da assistência técnica e extensão rural (ATER). Paralelamente, esta reflexão tem como vocação contribuir com o debate sobre os processos de transformações institucionais em torno da emergência da idéia de fortalecimento da agricultura familiar, cujo reconhecimento recente de um papel relevante fornece e reforça argumentos para a incorporação de novos referenciais com vistas ao desenvolvimento rural. Com efeito, trata-se de uma reflexão em torno da crise de legitimação dos serviços públicos de extensão rural no Brasil. No contexto de quase duas décadas marcadas por reajustamentos sob princípios neoliberais, a ATER passa pelo desafio de sua reconstrução. O debate atual parece exigir a distinção entre o serviço estatal e aquele público, visto o engajamento, de mais de duas décadas, de organizações não governamentais voltadas ao desenvolvimento rural no apoio aos agricultores marginalizados do processo de modernização conservadora da agricultura. Vale insistir que estes esforços modernizadores contaram com o importante suporte do sistema estatal de extensão rural. Em meio a estes debates em torno dos serviços de extensão rural, os sentidos conferidos pelos extensionistas a temas selecionados como eixos dos debates sobre novos referenciais das políticas públicas de desenvolvimento rural (segurança alimentar, sustentabilidade e desenvolvimento territorial) são efetivamente diversos e refletem indeterminações destes campos de disputa e de produção de idéias. Em todo caso, convém mencionar que os três temas em pauta aparecem freqüentemente nos argumentos favoráveis a uma reforma agrária massiva e com qualidade, constituindo inclusive em marcos da convocação do Fórum Mundial sobre a Reforma Agrária, realizado em Valença na Espanha no final de 2004. A questão que orientou esta investigação se refere, portanto, à percepção dos técnicos atuando em assentamentos rurais e ligados aos serviços de extensão rural e assistência técnica diante da emergência de novos temas vinculados à temática do desenvolvimento rural. Tomando em consideração que os referenciais em torno das políticas públicas de desenvolvimento rural se encontram em recomposição, procura-se * Professor colaborador convidado do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PGDR/UFRGS), graças ao apoio fornecido pelo ProDoc da CAPES. ** Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PGDR/UFRGS). discutir as diferentes interpretações diante dos eixos temáticos mencionados, em torno dos quais se concebem novos princípios de ação pública. 2. Um desenho sobre os referenciais dos profissionais da extensão rural Implantada no Brasil a partir da década de 50, a extensão rural se orientou pela idéia de que a difusão da tecnologia poderia promover a melhoria das condições de vida da população rural. Tratava-se da importação do modelo clássico norte-americano 1 , no qual o progresso técnico era visto como único meio de promoção do desenvolvimento. Nesta ótica, a modernização seria um fator de mudança social, independente das estruturas sociais, políticas e econômicas existentes (FIGUEIREDO, 1984). Posteriormente, as organizações públicas de assistência técnica e extensão rural (ATER) ocuparam um lugar importante na implementação dos Planos Nacionais de Desenvolvimento Econômico. Ao longo da década de 80, a crise da dívida, e o início de uma denúncia quanto ao excessivo papel do Estado, repercutiu no modelo de sustentação da agricultura e também dos serviços de assistência técnica e extensão rural. No início da década de 90, as orientações políticas do governo Collor de Mello aceleraram o desmonte do sistema nacional de extensão rural. Desde então, a prática extensionista e as instituições da ATER enfrentam o desafio de sua reconstrução, política e socialmente legitimada. O desmoronamento do sistema nacional implicou em trajetórias institucionais bastante heterogêneas dos serviços de extensão rural nos estados e municípios. De toda maneira, o “novo modelo de extensão rural”, apesar das grandes incertezas sobre o futuro da ATER e de suas missões institucionais, parece fundar-se na idéia da promoção de um desenvolvimento rural com equidade, o que significa privilegiar os grupos sociais marginalizados até aqui do processo de modernização da agricultura. Este trabalho parte, portanto, da idéia segundo a qual os referenciais hegemônicos em torno das políticas agrícolas e de desenvolvimento rural estão em xeque desde os meados dos anos 80, o que implica na ebulição do debate em torno de novas referências para a concepção das intervenções públicas. Os marcos utilizados aqui no que se refere aos referenciais das políticas públicas se apóiam nos trabalhos de Pierre Mueller (1995 e 2003). Segundo o autor, este conceito associa-se à representação do lugar e do papel de um setor numa sociedade e numa época determinadas. Nesta linha, o processo de formulação de uma política pública constitui um mecanismo de fabricação de imagens e valores, como o que ocorre em torno da definição do agricultor familiar e dos objetivos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar. Em grandes linhas, o referencial pode ser pensado de forma global e setorial, sem esquecer as relações entre global/setorial. O referencial global permite ordenar e hierarquizar as diferentes representações setoriais, sendo constituído de valores, crenças e normas de uma sociedade. De fato, o referencial global agrega diferentes visões de mundo, 1 A extensão rural surge em 1914 nos Estados Unidos procurando responder à transformação mercantil e capitalista da agricultura. Sua finalidade era permitir à população rural americana ausente dos colégios agrícolas, o acesso a conhecimentos úteis e práticos relacionados à agricultura, pecuária e economia doméstica. Tratava-se em última instância da adoção de novos hábitos e atitudes frente ao desenvolvimento de suas atividades produtivas (BERGAMASCO, 1983). o que permite concebê-lo como campo de conflitos. Os processos de ajustes das últimas décadas se associam à emergência vigorosa de um novo referencial global, fundado sobre uma visão de sociedade organizada em torno de princípios liberais. Nesta ótica, o Estado, enquanto lugar de construção de compromissos sociais, é particularmente contestado. Neste trabalho, a agricultura e o rural constituem o domínio de análise do referencial setorial. Como no caso global, este referencial, enquanto construção social, encontra-se em meio a conflitos de representação sobre classificações e papéis do setor. Neste quadro conflituoso, a defesa de novos parâmetros para a elaboração de políticas públicas voltadas ao mundo rural pressupõe a elaboração de novas formas de ação pública, o que é indissolúvel da construção da identidade social do ator coletivo alvo das novas intervenções. Com efeito, a marginalização da agricultura familiar tornou-se, desde o início dos anos 90, o problema emergente a partir do qual se concebem medidas em vista do fortalecimento da categoria em construção. Portanto, as disputas sobre o referencial em torno da agricultura e do rural incorporam progressivamente a complexa operação de definição do lugar e de construção da identidade dos agricultores familiares, assim como dos assentados 2 , na sociedade brasileira. Em outra ocasião, o exame das concepções concorrentes em torno das políticas orientadas para a agricultura familiar permitiu discutir a estruturação de um campo de disputas no qual distintos sentidos são conferidos às diferentes intervenções prescritas. Entre as concepções em jogo, a primazia reside naquelas focadas nos objetivos econômicos do fortalecimento da agricultura familiar. Porém, a irrupção deste debate lança luzes para diversas outras questões associadas ao papel dos agricultores familiares (MORUZZI MARQUES, 2005). No presente trabalho, procura-se discutir a transformação das hierarquias normativas do referencial que orienta a elaboração das políticas destinadas ao campo, examinando as repercussões que o debate provoca em formulações apresentadas por técnicos da extensão rural. Nesta linha, convém destacar a propagação da idéia segundo a qual a constituição do agente de um desenvolvimento rural, fundado no objetivo de revigoramento da agricultura familiar, requer a incorporação de outros conhecimentos além dos agronômicos, como os antropológicos e sociólogos. Nesta perspectiva multidisciplinar, o agricultor deixa, portanto, de ser visto como unicamente um agente econômico, tornando a elaboração de projetos com vistas ao desenvolvimento rural mais permeável aos aspectos sócio-ambientais. Mas vale ainda mencionar aqui Delma Pessanha Neves (2004) quando se refere aos segmentos específicos de agrônomos que passam a se atribuir o papel de construtores de referências em vista da constituição e do reconhecimento da categoria sócio-econômica dos agricultores familiares. Este grupo profissional aposta que a valorização da agricultura familiar torna-se possível se contar com o apoio sistemático da assistência técnica, conduzindo à proposta de aliança entre agricultores e técnicos com vistas a alterar o quadro institucional no qual se concebe e implanta as políticas públicas para a agricultura e o rural. Porém, a autora observa com justas razões que os profissionais da extensão rural foram 2 As recentes publicações sobre os impactos regionais dos assentamentos rurais passam a constituir uma nova consistente referência no campo de debate sobre a reforma agrária. Fruto de pesquisas sobre um tema sempre efervescente no universo das discussões sobre as políticas públicas, tais estudos sobre os assentamentos salientam aspectos pouco considerados até então, como o reagrupamento das famílias, a reorganização do território, o acesso a um conjunto de bens, a produção destinada à alimentação da família, a participação e o poder político (Medeiros e Leite, 2004). formados para um tipo de inserção, fundada no modelo de modernização conservadora da agricultura. Assim, a autora insiste sobre a grande complexidade dos processos de constituição de um novo perfil profissional. Seja como for, é oportuno destacar dois dos eixos em torno dos quais se reorienta a redefinição do papel do extensionista rural, em vista da constituição de um agente do desenvolvimento econômico e social: uma definição holística do agricultor, vinda da abordagem multidisciplinar (representada em grande medida pela escolha da unidade de intervenção, o sistema de produção) e uma perspectiva participativa, propiciada pela adoção de metodologias de construção de saber coletivo. Pressupondo rupturas com modos de pensar, esta concepção de extensão rural aposta na capacidade do profissional da extensão rural em se transformar num mediador, mediador que não conta com a passividade dos mediados. Com efeito, o termo mediador empregado aqui procura ressaltar o jogo de alianças a partir do qual agricultores e assentados tornam-se capazes de formular demandas graças à interligação de mundos diferenciados por saberes especializados (NEVES, 1998). A partir desta discussão em torno de referenciais, este trabalho propõe discutir três temas selecionados de debates, temas que permitam refletir sobre os projetos de desenvolvimento em confronto na sociedade. Trata-se, então, de realçar os diferentes sentidos conferidos aos termos segurança alimentar, sustentabilidade e desenvolvimento territorial, examinado como estas significações repercutem nas percepções dos técnicos da extensão rural. A obtenção de elementos para esta reflexão ocorreu durante um evento de capacitação realizado em Porto Alegre, em novembro de 2004, no qual estiveram presentes técnicos da extensão rural responsáveis pela assistência técnica e social aos assentamentos de diferentes regiões do Rio Grande do Sul. Os profissionais em questão são vinculados à EMATER/RS e à COOPETC (Cooperativa de Prestação de Serviços Técnicos Ltda), representada na capacitação por dois profissionais, uma nutricionista e um agrônomo. Tal atividade foi realizada graças a um acordo de cooperação entre o Programa de PósGraduação em Desenvolvimento Rural (PGDR/UFRGS) e a EMATER/RS, cujo objetivo consiste em aportar conhecimentos produzidos nas ciências sociais para extensionistas engajados em trabalhos junto aos assentados de projetos de reforma agrária. Nesta ocasião, os participantes foram convidados a formular individualmente seus pontos de vistas sobre a segurança alimentar, a sustentabilidade e o desenvolvimento territorial. 3. Segurança alimentar Inscrito no quadro das missões da EMATER\RS, o termo “segurança alimentar” se refere, aqui, à “garantia do direito de todos ao acesso a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente e de modo permanente, com base em práticas saudáveis e sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais e nem o sistema alimentar futuro”. Estas linhas são muito próximas ao documento do governo brasileiro defendido na Cúpula Mundial da Alimentação, em Roma 1996. Convém assinalar que esta concepção de segurança alimentar evolui bastante daquela concebida de maneira pioneira no âmbito da política agrícola comum (PAC). A PAC visava, sobretudo, assegurar auto-suficiência européia em termos de oferta alimentar em função da modernização agrícola de um modelo idealizado de produção familiar. O nível médio de renda e, portanto, o acesso ao alimento não se constituiu num problema central de segurança alimentar. A PAC foi implementada em paralelo à construção do Estado de Bem-Estar Social, a dimensão da eqüidade em relação ao acesso ao alimento não estando presente no cerne do debate sobre a segurança alimentar européia. Desta forma, a noção aparece associada à forte intervenção pública em vista da garantia da oferta de alimentos e, também, da manutenção da renda dos agricultores. Tais políticas agroalimentares foram fundamentais para o desenvolvimento europeu, que foi sustentado pela formação de um mercado de massas, no qual a elevação do poder de compra dos salários foi, com a incorporação de parte dos ganhos de produtividade, fortemente influenciada pela disponibilidade de alimentos a preços baixos. Ao mesmo tempo em que se assegurou a auto-suficiência alimentar européia, desenvolveu-se meios para a exportação de excedentes, cujos volumes crescentes vão contribuir para o fim do amplo consenso em torno da PAC. Oportuno, finalmente, mencionar que o sentido atual da noção segurança alimentar na Europa se refere, sobretudo, aos riscos alimenatres e às políticas preventivas associadas ao problema. No Brasil, enfatiza-se, por sua vez, os problemas de acesso aos alimentos por insuficiência de renda, a eqüidade constituindo, portanto, um predicado essencial da segurança alimentar. 3 Porém, existem muitas controvérsias em relação à forma de alcançar o objetivo de garantir a todos o acesso ao alimento. Pode-se afirmar que a idéia de privilegiar o aumento da produção e diminuir os preços dos alimentos no mercado possui um peso considerável no debate. 4 Aliás, esta concepção constituiu um pressuposto importante da disseminação dos serviços de extensão rural. Ou seja, tratava-se de difundir tecnologias com vistas ao aumento da produtividade, o que permitiria a promoção da melhoria das condições de vida da população rural. A formação dos profissionais no campo agrário – sejam agrônomos, técnicos agrícola ou veterinários – esteve em sintonia com este projeto. Por outro lado, vale lembrar que o tema “segurança alimentar” foi debatido e propagado, no início nos anos 90, pela campanha da Ação da Cidadania, associando o problema da fome à democracia e ao acesso à cidadania. Em alguma medida, este debate tem prosseguimento em torno do “Fome Zero”, principal programa social do governo federal nos dias de hoje. Considerando-se estas controvérsias, observa-se que os profissionais da extensão rural associam, em grande parte dos casos, a segurança alimentar com a disponibilidade de alimentos para toda a população. É uma questão aberta em que medida esta disponibilidade se limita à oferta do alimento no mercado a preços baixos, existindo efetivamente aqui uma certa ambigüidade. Em todo caso, nossos interlocutores mencionam, na maioria das vezes, tratar-se de uma questão não só de quantidade, mas também de qualidade, tanto no que se refere à sanidade quanto à sustentação, ao longo do tempo, da produção alimentar. Três formulações restringiram a segurança alimentar apenas à qualidade do alimento, como no exemplo a seguir: “segurança alimentar nada mais é do que a produção, a conservação e o consumo de alimentos... [mantendo] a qualidade até o consumidor [final] que, por sua vez, 3 É por essa razão que Renato Maluf (2000) insiste sobre os diferentes sentidos associados à segurança alimentar nos países em desenvolvimento em relação aos países desenvolvidos. 4 Com estes contornos, a idéia da segurança alimentar constitui-se num pilar fundamental da tentativa de articulação organizativa dos segmentos a montante e a jusante da agricultura pela Associação Brasileira de Agribusiness (MORUZZI MARQUES, 1996). deve saber usá-los da melhor forma possível em seu benefício”. Neste pequeno grupo, um dos interlocutores associou a segurança alimentar à produção sem agrotóxicos, resgatando práticas e hábitos alimentares tradicionais. Algumas formulações concebem a segurança alimentar no nível da unidade de produção, evocando possibilidades de produção para a satisfação alimentar da família de forma menos dependente do mercado. Nesta ótica, a qualidade da alimentação também é mencionada em termos, sobretudo, de sua diversidade. O melhor aproveitamento do trabalho familiar é considerado, bem como a redução do custo da manutenção familiar. Mesmo se sua obtenção constitui um desafio, a segurança alimentar é destacada também como base para o sucesso dos assentamentos rurais. Conduzindo esta linha de raciocínio para uma abrangência maior, seis profissionais, entre os vinte e nove extensionistas interrogados, expressaram idéias relacionadas à soberania alimentar, algumas delas empregando o termo explicitamente. Pressupondo rupturas com as orientações políticas e econômicas hegemônicas, prescreve-se o desenvolvimento da “capacidade de um país em produzir e armazenar produtos destinados à alimentação de seu povo, [garantindo] alimentos em quantidade e qualidade sem dependência de terceiros” ou “atividades ou meios que garantam a soberania alimentar, garantam o direito ao alimento e à alimentação”. Em termos de políticas nacionais, significaria “ações que preservem as riquezas e estabeleçam práticas que não permitam que [o país] esteja dependente externamente de produtos para a necessidade alimentar do povo”. Assim, trata-se de “preservar as características locais, proteger e fortalecer a cultura e a autonomia do povo, criar condições a uma economia interna que atenda as necessidades da população, permitindo o desenvolvimento local”. Efetivamente, os modestos resultados alcançados em termos dos objetivos fixados de combate à fome e à subnutrição na Cúpula Mundial da Alimentação de Roma em 1996 provocam a ampliação das contestações contra as “regras do jogo”, fundadas em concepções segundo as quais o comércio internacional constitui um fator chave para a segurança alimentar. De fato, a produção agrícola mundial não cessou de aumentar nos últimos anos, num ritmo próximo ao aumento da população. 5 Todavia, constata-se um grande desequilíbrio em favor dos países ricos e das grandes empresas agro-alimentares nos benefícios advindos do comércio de alimentos. Neste contexto, as vozes críticas – observando o balanço de que entre 1996 e 2002, o número de pessoas subalimentadas apenas diminuiu de 2,5 milhões por ano, dez vezes menos que os objetivos estabelecidos – sustentam a idéia da soberania alimentar, defendendo o reforço da capacidade das populações em produzir seu próprio alimento. 6 5 Segundo Menezes (2001), a atualidade deste tema na agenda internacional se deve provavelmente à inconsistência do modelo de desenvolvimento vigente, que não consegue resolver o problema da fome e da subnutrição do mundo, mesmo apresentando resultados satisfatórios em relação ao aumento da produção agrícola. Neste quadro, permanece o desafio da construção de uma “nova segurança alimentar que extrapola a simples produção de alimentos e que vem ancorada em alguns princípios básicos como a sustentabilidade”. 6 Na última Cúpula Mundial da Alimentação em 2002, a idéia do “direito à alimentação” (inscrita na Declaração Universal dos Direitos dos Homens de 1948) é trazida para um primeiro plano do debate, agora como “direito a uma alimentação adequada”, cujas diferentes interpretações ainda pouco atenuaram os conflitos. Seja como for, tal direito reconhece que cada cidadão deve se alimentar de forma sã e equilibrada, respeitando dimensões éticas e religiosas. De toda evidência, trata-se de um direito que tende a favorecer idéias em torno da soberania alimentar, em contradição com as políticas comerciais liberais, pois supõe subvenção e apoio às produções agrícolas dos países pobres ou a aplicação de um sistema protecionista (Estival, 2003, pp.48-59). Nesta perspectiva, a liberalização comercial conduz à concorrência entre sistemas de produção, cujas vocações não são somente produtivas. Trata-se, então, de considerar e de revalorizar as vocações sociais e ambientais das agriculturas locais. Esta abordagem se associa à multifuncionalidade da agricultura (CARNEIRO e MALUF, 2003), cujos contornos são forjados no âmbito do debate sobre o desenvolvimento sustentável e evidenciam profundas mudanças no que tange o referencial de elaboração das políticas públicas destinadas ao rural. 4. Sustentabilidade O termo desenvolvimento sustentável tem conhecido um importante esvaziamento de sentidos na medida em que sua menção, no lugar das referências ao crescimento econômico, não tem implicado na promoção de substanciais modificações no modo moderno de produção e consumo (SACHS, 1997). Desta maneira, a crítica às sociedades industriais e aos países desenvolvidos, elaborada no início do movimento ambientalista, tende progressivamente a se minimizar, o que significa uma considerável indeterminação em torno da noção em questão (MOREIRA, 2000, pp. 39-52). A percepção de que os significados conferidos à sustentabilidade são bastante diversos e tendem a perder consistência aparece em poucos agentes do desenvolvimento rural interrogados, mas a eloqüência empregada, nestes casos, é significativa. Assim, depara-se com a idéia de que o termo caiu numa “vala comum, adotado por todos os setores (...)” na medida em “que transmite um aspecto de boa intenção e de bons propósitos” ou trata-se de “um chavão usado por todos e praticado por muito poucos, tendo em vista o amplo número de entendimentos possíveis para o termo”. Neste último depoimento, vale mencionar o exemplo utilizado: os organismos geneticamente modificados. Deste ponto de vista, a publicidade em torno da sustentabilidade da tecnologia transgênica não é digna de confiança. De fato, entre os argumentos em confronto, Gilles-Eric Séralini (2000) observa que os OGMs difundidos até hoje na natureza são, quase na totalidade dos casos, de plantas que produzem ou toleram pesticidas, implicando num considerável aumento nas vendas de herbicida. Além do aumento da poluição por pesticidas, o autor enumera uma longa lista de malefícios ambientais e sociais ligados aos OGMs, o que lhe permite afirmar que tal tecnologia reforça uma agricultura não sustentável. Efetivamente, a polêmica em torno desta nova etapa do apropriacionismo industrial ilustra bem as diversas perspectivas de sustentabilidade em jogo. Para nossos propósitos, a comparação proposta por Olivier Godard (1998) entre duas abordagens sobre o desenvolvimento sustentável nos parece apropriada para a reflexão em torno das percepções de nossos interlocutores. Trata-se das idéias em torno do ecodesenvolvimento diante do lugar da sustentabilidade na economia neoclássica. 7 No primeiro caso, é oportuno lembrar que as primeiras formulações com vistas à sustentabilidade se referiam à construção local de projetos de desenvolvimento. Nesta ótica, o eco-desenvolvimento, termo difundido por Ignacy Sachs (1997) e que precedeu o desenvolvimento sustentável, constitui essencialmente numa ferramenta destinada aos 7 O autor funda sua reflexão sobre a teoria da justificação legítima, proposta por Boltanski e Thévenot (1993). Nesta perspectiva, trata-se de refletir sobre as ordens de justificação acionadas nos campos de debate sobre o desenvolvimento e o meio ambiente. gestores do desenvolvimento em trabalhos de abrangência limitada às zonas rurais isoladas do terceiro mundo. A evolução do debate permitiu o enriquecimento da noção para designar um desenvolvimento endógeno submetido à lógica das necessidades da população, tendo em conta sua dimensão ecológica. Os princípios fundamentais do eco-desenvolvimento são a valorização dos recursos específicos, a satisfação das necessidades fundamentais, a tecnologia apropriada e a participação das populações. A respeito, a recusa de um único padrão de desenvolvimento, vinda de uma visão preocupada com facetas sócio-ambientais, pressupõe maior atenção com as especificidades culturais e ecológicas. Assim, esta concepção prescreve a multiplicação de canais de manifestação aos atores locais. Entre os extensionistas, estas idéias emergem principalmente quando da associação da sustentabilidade com uma autonomia produtiva no nível da unidade de produção ou comunidade rural. Preconiza-se “produzir com autonomia, sem precisar totalmente do meio externo para se manter produtivo” e “usar todos os recursos possíveis para completar os ciclos de produção”, aproveitando “os insumos da propriedade”. Associa-se com um “modo familiar de produzir”, no qual aparece o “auto-sustento em primeiro lugar e a seguir o sustento de sua propriedade”. Alguns dos interlocutores expressam a noção de autonomia em termos mais abrangentes, sugerindo a geração de “auto-suficiência de todas as cadeias para o desenvolvimento” e concebendo “menos dependência [da nação] em relação à alimentação, saúde e educação”. O respeito à diversidade e às especificidades locais é igualmente evocado, mas o material obtido junto aos extensionistas não permite afirmar que a participação das populações nas decisões locais seja uma questão particularmente vinculada à sustentabilidade. Aliás, um dos interlocutores associa, em certa medida, o desenvolvimento não sustentável ao desconhecimento dos assentados “sobre as verdadeiras relações existentes no meio em que vivem”. Evidentemente, esta passagem do discurso deve ser tomada com muita prudência, mas ela permite propor uma reflexão sobre um ponto de vista que julga as populações empobrecidas, os camponeses ou os pobres rurais como grandes agentes de degradação ambiental. Constata-se, então, uma inversão da problemática ambiental, tal qual foi concebida pelos primeiros movimentos e críticas ecológicas, em particular pelo eco-desenvolvimento. Os maiores indutores da degradação ambiental deixam de ser as sociedades e os países ricos, que podem continuar a propagar seu modelo de desenvolvimento sem maiores constrangimentos (RIST, 2001). O foco da crítica ambientalista passa a se dirigir aos pobres por não possuírem as tecnologias adequadas para explorar a natureza e depender do uso intenso dos recursos disponíveis. O chamado círculo vicioso da pobreza (a degradação ambiental realizada pela população pobre agrava sua fragilidade) reinterpreta o problema ambiental ao definir que os pobres exploram os recursos naturais de maneira insustentável.8 Por outro lado, a menção de uma ignorância dos agricultores permite também recordar da relação desigual entre técnicos e agricultores em projetos participativos. O capital simbólico dos primeiros, associado à autoridade conferida às competências técnicoburocráticas, implica freqüentemente na imposição de pontos de vista em detrimento de um diálogo entre diferentes saberes. Nesta linha de raciocínio, o agricultor é habitualmente considerado como incompetente para participar das decisões que lhe dizem respeito (MORUZZI MARQUES, 2004). 8 Sobre este ponto, vale conhecer argumentos de refutação da hipótese de uma relação direta entre degradação ambiental e pobreza (WAQUIL, FINCO E MATTOS, 2004). Voltando à abordagem do eco-desenvolvimento, a perspectiva de satisfação das necessidades fundamentais e de preservação do meio-ambiente não recusa o progresso técnico, porém este aqui deveria passar por lógicas diferentes daquelas da valorização mercantil das técnicas. Deste ponto de vista, a imitação de estilos de vida e de escolhas tecnológicas constitui um dos maiores inconvenientes. Entre nossos interlocutores, a idéia de um desenvolvimento dentro de linhas agroecológicas constitui a principal menção associando especificamente uma mudança de referencial tecnológico à sustentabilidade. De toda forma, a ruptura com a imitação de estilos e escolhas tecnológicas e a contenção do mercado através de um planejamento participativo constituem eixos essenciais das propostas vindas do eco-desenvolvimento. Esta perspectiva contrapõe-se a idéia segundo a qual o mercado gera melhor o problema da raridade ambiental ou da opção tecnológica, proposta pelos economistas neoclássicos cuja visão considera que o desenvolvimento sustentável não pode asfixiar o crescimento, visto como algo intrinsecamente positivo (assim, somente medidas moderadoras e paliativas seriam admitidas). Em nossa investigação, aproximadamente um terço dos interlocutores relaciona a sustentabilidade a um desenvolvimento menos agressivo ao meio-ambiente, pouco permitindo, porém, discernir aqui oposição mais vigorosa às lógicas do crescimento econômico. Deixando muita margem de interpretação, algumas idéias mencionadas pelos extensionistas evocam um desenvolvimento sem destruição, “produzir alimentos, vestuário, produtos industriais sem agredir o meio ambiente e os recursos naturais”, ou “produção sem poluição do meio ambiente”, ou ainda “utilizar princípios que não agridam o meioambiente (...), [empregando] recursos que interagem com a natureza”, “obedecendo as ‘leis’ de preservação da natureza e aproveitamento dos recursos”, “não esgotando ou poluindo”, enfim trata-se de um “desenvolvimento de comunidades (...) sem que os recursos sejam esgotados”. Com alguma evidência, uma concepção relativamente bem incorporada pelos extensionistas se refere à definição de desenvolvimento sustentável como aquele que atende às necessidades das gerações atuais sem comprometer a capacidade das futuras gerações terem suas próprias necessidades atendidas. Presente no Relatório Brundtland preparatório da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Eco 92), esta idéia, que é também permeada de conflitos (ALMEIDA, 1999, pp. 17-26), é formulada pelos extensionistas como “o custo do impacto tem que ser levado em conta, se não as outras gerações é que vão pagar a conta”, ou como preocupação sobre o “comprometimento da produção futura de alimentos”. Nesta perspectiva, prescreve-se a perpetuação e estabilidade do meio rural ao longo do tempo” e compromissos e cuidados “para que haja condições de vida para todos no amanhã”. Mais precisamente sobre os assentamentos, a preocupação com o futuro dos projetos aparece na idéia de que “a viabilidade e o sucesso de um plano de assentamento depende diretamente da sustentabilidade dos sistemas produtivos”. Com efeito, no campo de disputas sobre a reforma agrária, os assentados são muitas vezes acusados de degradação ambiental. Além da discussão sobre uma “inversão do foco da crítica ambiental”, apresentada acima, pode-se propor no âmbito da análise, como o fazem Leonilde Medeiros e Sergio Leite (2004), uma reflexão sobre os critérios de seleção de áreas desapropriadas, sobre a distribuição dos lotes entre os assentados e sobre a natureza da assistência técnica com vistas a evitar uma naturalização da idéia segundo a qual a instalação dos assentamentos implica em danos ambientais. Os autores, aliás, mencionam que a implantação de assentamentos permitiu, por exemplo, a recuperação parcial dos recursos naturais de áreas ocupadas anteriormente por monoculturas de cana de açúcar, graças à dimensão familiar da organização produtiva dos assentados. 5. Desenvolvimento territorial A noção desenvolvimento territorial é ainda pouco discutida e pouco incorporada na reflexão dos extensionistas rurais, a tal ponto que um de nossos informantes afirmou “nunca ter ouvido antes este termo”. Ademais, outros três extensionistas interrogados preferiram nada mencionar a respeito e ainda outros não distinguem o desenvolvimento territorial daquele regional, local ou comunitário. Deste último ponto de vista, trata-se do “desenvolvimento de uma região geográfica” ou “também entendido como desenvolvimento local” ou “desenvolvimento do meio comunitário, seja numa comunidade ou numa região” ou, enfim, “desenvolvimento da região como um todo”. Efetivamente, existe ainda muita margem de incertezas em relação às recentes construções de políticas de desenvolvimento territorial no Brasil. Para os propósitos deste trabalho, toma-se como eixo de reflexão a idéia de que a abordagem territorial se contrapõe às políticas setoriais, particularmente ao padrão de política agrícola que orientou a “modernização conservadora” da agricultura brasileira. O aumento da produção e da produtividade constituiu objetivo quase exclusivo deste padrão. Nesta perspectiva justificada pela busca de uma redução constante do preço do alimento, predominam lógicas nas quais o sistema agro-alimentar requer uma matéria prima agrícola uniforme, com características as mais controláveis possíveis. A eficácia técnica da cadeia de transformação depende de uma diferenciação tardia dos produtos, o que acaba exigindo alimentos com preços baixíssimos e profundamente adaptados à produção industrial. 9 O papel da agricultura se resume, assim, na oferta massiva e constante de produtos homogêneos e baratos. Esta equação implica em pouca consideração às conseqüências para as populações rurais e tampouco aos impactos em termos ambientais. Em contraposição, o debate em torno da idéia de desenvolvimento territorial tende a conceber significados que reforcem aspectos qualitativos do desenvolvimento. Trata-se, num primeiro plano, de uma perspectiva de valorização das particularidades locais, supondo o reconhecimento das identidades culturais, das dinâmicas coletivas e das aptidões ecológicas em vista de sua conciliação tanto com a produção agrícola, como com o conjunto das atividades locais. 10 Com efeito, esta abordagem pressupõe uma olhar profundamente multidisciplinar, o que é expresso pelos extensionistas através de idéias que consideram como “unidade física de atuação o território, [compreendendo] diferentes campos, sejam eles produtivos, sociológicos e ambientais” ou como o “desenvolvimento de determinada região nos aspectos sociais, ambientais e econômicos”. 9 O estudo de John Wilkinson (2002) é bastante revelador das estratégias das grandes empresas do sistema agro-alimentar, em particular da noção de substituição, evocada aqui. Trata-se da transformação do produto agrícola num insumo com reduzida participação econômica e material no valor do produto alimentar final, cuja autonomia em relação às bases de suprimentos é crescente. 10 Apresentando cenários possíveis para a agricultura e o rural do futuro num horizonte próximo, a obra organizada por Lacombe (2002) nos parece muito instigante para esta reflexão. Na perspectiva adotada, as vocações diversificadas dos territórios tenderiam a implicar num direcionamento de esforços para a emergência e a valorização das especificidades locais. Nesta ordem de idéias, a concepção da “qualidade” dos produtos e serviços repousa na adaptação ecológica, na tipicidade, na diversidade e na originalidade, características associadas deliberadamente aos territórios. Procura-se, assim, valorizar a história, a cultura e também as práticas que respeitem a utilização dos recursos naturais, ancorando-se na idéia de preservar os bens públicos e de promoção da qualidade de vida. Entre nossos informantes, alusões à valorização das especificidades locais aparecem repetidas vezes, como no caso de uma prescrição de respeito às “condições ambientais, culturais e sociais (...) de um território” ou de um desenvolvimento rural “visando à produção, a população, a educação, a saúde, procurando considerar as condições climáticas, solo, etnia”. Trataria-se de considerar “todos os aspectos de uma área com características específicas quanto à geografia, etnia, homogeneidade” e de tomar o “território como base física que reúna alguma característica comum, tal como identidade sociocultural, ambiente físico e não necessariamente os limites geopolíticos”. Homogeneidade e integração são parâmetros da definição de território empregados por Maria de Nazareth Wanderlei (2000, pp. 87-145) e constituem efetivamente facetas igualmente destacadas por nossos interlocutores, como na idéia de um “desenvolvimento de um conjunto de municípios ou região que apresente aspectos de homogeneidade em vários segmentos, (…) [permitindo] o desenvolvimento integrado da região”. As características semelhantes dos territórios implicariam na exploração de “suas potencialidades comuns constituindo o desenvolvimento territorial” e no uso dos “recursos disponíveis em determinadas regiões de forma integrada, indo além dos limites municipais, ou seja aproveitando as regiões homogêneas”. Com efeito, a delimitação municipal da atuação dos conselhos de desenvolvimento rural constitui um objeto de crítica de Ricardo Abramovay (2003, pp. 57100). Para o autor, embora o município seja em princípio uma esfera propícia para os cidadãos poderem controlar a vida pública, ele não constitui uma unidade pertinente para a mobilização de recursos e criação de laços sociais em vista da inovação e do desenvolvimento. As exigências econômicas contemporâneas dos projetos de desenvolvimento implicam em considerar potencialidades e complementaridades presentes num território mais vasto que aquele do município. Esta posição certamente contribuiu para a recente re-formatação do Pronaf-Infraestrutura, agora um instrumento da política de desenvolvimento territorial do Ministério de Desenvolvimento Agrário. A propósito, participação social constitui também um aspecto que pode ser assinalado no que se refere ao desenvolvimento territorial, na medida em que se pode considerar que a efervescência das iniciativas locais favorece a emergência dos traços típicos de um território, reforçando prescrições em favor da participação das populações em todas as etapas de implementação das políticas e ações governamentais. No que se refere às políticas de desenvolvimento territorial, o tema da participação é relativamente bem lembrado por nossos interlocutores. Está presente num planejamento contando com “a participação direta da comunidade em ações de levantamento da realidade, [na] busca de alternativas para os problemas detectados [que sejam] compatíveis com os recursos disponíveis para a solução e, por fim, [num comprometimento em vista da] execução das tarefas na busca dos objetivos de curto, médio e longo prazo”. Nesta mesma linha, o “desenvolvimento deve partir da dimensão local (município), com participação da população de maneira representativa e participativa (conselhos), [devendo] considerar sempre três aspectos: social, econômico e ambiental. A partir do local atingirá a dimensão regional até atingir o território em questão”. Se os atores locais concebem os melhores meios para reforçar as dinâmicas territoriais em vista do desenvolvimento, a intervenção dos poderes públicos centrais não deixa de ser requisitada, a fim de propor, assistir e apoiar iniciativas de modo a favorecer um equilíbrio entre os diferentes territórios. Assim, como o desenvolvimento é dependente de características particulares, “são necessárias políticas de desenvolvimento diferenciadas para cada tipo de região”. Outro ponto salientado pelos extensionistas se refere à idéia de autonomia, cuja presença nos três temas propostos nos parece significativa. A autonomia, tanto em termos de não dependência dos países industrializados quanto em relação à valorização de processos políticos participativos na esfera local constitui, com efeito, uma idéia recorrente na crítica ao modelo produtivista de desenvolvimento (MOREIRA, 2000). Os profissionais interrogados evocam que o desenvolvimento territorial se associa à “autonomia numa região de características próprias culturalmente” e ao processo de “se tornar menos dependente de outras regiões”, além de requerer “políticas desenvolvidas pelas pessoas de comunidades visando sua auto-suficiência”. Por fim, ainda associada ao desenvolvimento territorial, a manifestação de um extensionista de que “o assentamento de uma família em local muito diverso à sua cultura é uma agressão quase tão grande quanto àquela que determina a falta de perspectiva futura, pois é extremamente injusto o sentimento de impotência que nasce em função do desconhecido ou do desconhecimento” permite uma reflexão com duas vertentes. Este discurso sobre as migrações das famílias assentadas pode conduzir à idéia, em primeiro lugar, de uma hostilidade em relação ao assentamento rural de famílias oriundas do meio urbano. Esta é uma idéia muito veiculada especialmente por adversários da reforma agrária, que censuram a ausência de uma origem rural de muitos dos assentados, o que os tornaria inaptos para exercer a atividade agrícola. Sobre este ponto, a reflexão de Jacques Rémy (2004) em torno do profissionalismo dos agricultores nos parece pertinente para a discussão, na medida em que o autor associa o status de “profissional” à aquisição de uma competência específica e não à origem social de um indivíduo. Em segundo lugar, o discurso de nosso interlocutor da extensão rural pode refletir uma preocupação com o fato do Rio Grande do Sul apresentar a maior porcentagem de deslocamento das famílias assentadas entre os estados considerados pela pesquisa sobre os impactos regionais da reforma agrária. De fato, 86% das famílias assentadas nos projetos estudados possuíam residência precedente em municípios gaúchos diferentes daquele onde o assentamento foi instalado (MEDEIROS e LEITE, 2004). A precariedade da infraestrutura e as dificuldades de produção e de comercialização trazem, certamente, muitos transtornos às famílias assentadas. Porém, a pesquisa em questão admite a hipótese segundo a qual o assentamento representa, de toda maneira, uma certa estabilidade na trajetória de migrações das famílias, o que permite relativizar a reticência apresentada acima. Conclusão O fortalecimento da agricultura familiar como idéia reorientadora das políticas de desenvolvimento rural contribui, com vigor, para uma renovação importante e progressiva do debate no Brasil. A transformação dos referenciais destas políticas públicas e sua repercussão no sistema de assistência técnica e extensão rural constituem os eixos em torno dos quais este trabalho foi elaborado. Iluminando a constituição e os conflitos a respeito de temas emergentes no debate do desenvolvimento rural e da reforma agrária, o trabalho destaca as representações dos extensionistas gaúchos atuando em assentamentos rurais sobre a segurança alimentar, a sustentabilidade e o desenvolvimento territorial. No grupo de profissionais considerados, bastante sensível à idéia de incorporação de conhecimentos produzidos no campo das ciências sociais em virtude justamente da atuação junto aos assentados, refletem-se as indeterminações presentes nos campos de debate sobre as noções mencionadas. Apesar de uma vocação contestadora das linhas pelas quais são concebidas as políticas de desenvolvimento rural, estes campos carregam marcas profundas de visões produtivistas/economicistas sobre o desenvolvimento. Em todo caso, a noção de autonomia, que expressa, entre outras idéias, a produção local do alimento em unidades familiares, a proteção da cultura de um povo, uma menor dependência externa, uma melhor exploração dos recursos disponíveis e a valorização das especificidades locais, permite delimitar fronteiras relevantes para a reflexão sobre os conflitos em torno dos referenciais das políticas públicas de desenvolvimento rural. Enfim, convém mencionar que este exercício de investigação se inscreve na perspectiva de reflexão interdisciplinar sobre o desenvolvimento da metade sul do Rio Grande do Sul (ALMEIDA et al., 2004). Neste plano, observa-se, no campo das disputas sobre o pampa gaúcho, uma aparente suspensão do debate que associa a reforma agrária com aspirações de segurança alimentar, sustentabilidade e desenvolvimento territorial em razão de um deslocar dos olhares para os intensos esforços em vista da disseminação de floretas comerciais de eucaliptos sob a regência de grandes empresas do setor de papel e celulose. Bibliografia ABRAMOVAY, Ricardo (2003), O futuro das regiões rurais, Série Estudos Rurais, Porto Alegre, Editora da UFRGS. ALMEIDA, Jalcione (1999), “A problemática do desenvolvimento sustentável”, in Desenvolvimento sustentável: necessidade e/ou possibilidade, Santa Cruz do Sul, EDUNISC, pp. 17-26. 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