IV ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA - ANPUH-BA HISTÓRIA: SUJEITOS, SABERES E PRÁTICAS. 29 de Julho a 1° de Agosto de 2008. Vitória da Conquista - BA. JOSÉ SILVEIRA E SUAS MEMÓRIAS: ESCRITA DE SI, HISTÓRIA DO IBIT Maria Elisa Lemos Nunes da Silva Professora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) Doutoranda em História pela Universi dade Federal da Pernambuco (UFPE) E-mail: [email protected] Palavras-chave: José Silveira. Memórias. Tuberculose. IBIT. Em 21 de fevereiro de 1937, foi criado na Bahia o Instituto Brasileiro para Investigação da Tuberculose (IBIT). Nesse momento, o médico José Silveira, seu idealizador, proferiu discurso em que ressaltava as finalidades fundamentalmente científicas da instituição. Sua principal razão de ser era a pesquisa da tuberculose. O IBIT surgiu como uma entidade privada. O que Silveira (1978, p. 20) dizia trazer de novo era “uma atitude mental diversa”, afinal, existiam, em alguns estados hospitais e centros de assistência médica e amparo social aos tuberculosos. No entanto, a pesquisa científica nos domínios da tisiologia era realizada nos curtos intervalos permitidos entre uma e outra atividade, sem a continuidade necessária. Era preciso, segundo afirmava, “investigar, procurar o fato novo” que desse independência cultural e científica . Isso evidenciava seu caráter pioneiro, pois não havia n ada semelhante em qualquer um dos estados da federação. Sua cerimônia de criação ocorreu no Ambulatório Augusto Viana da Faculdade de Medicina da Bahia onde já funcionava um serviço de tisiologia organizado por Silveira e onde funcionaria o recém criado I nstituto. Nessa ocasião, a tuberculose era um dos maiores problemas médicos e sociais da Bahia. Ela matava mais do que todas as outras doenças transmissíveis juntas (NUNES, 1949). Portanto, a criação do IBIT era propagandeada por José Silveira como um aco ntecimento de fundamental importância, pois essa Instituição direcionar -se-ia ao combate da doença de maior incidência e mortalidade do período, bem como desenvolveria a investigação científica, instrumento que faltava no armamento antituberculose do país. Quem estiver em Salvador e passar pelo bairro da Federação , encontrará ainda hoje , do lado do Cemitério do Campo Santo, o IBIT funcionando no mesmo local em que foi instalado em 1946, no momento da inauguração da sua sede própria. Os propósi tos da instituição foram ampliados para além da tuberculose , passando a abranger as demais doenças do tórax. E a sigla IBIT passou a corresponder a Instituto Brasileiro para Investigação do 2 Tórax. Mas o nome José Silveira continua remetendo quase que imediatamente à luta contra a tuberculose e ao IBIT. A trajetória desse médico nascido na cidade de Santo Amaro, no recôncavo baiano, em 1904 e que se mudou para Salvador em 1921 para cursar a Faculdade de Medicina, ficou registrada não só na sua ampla publicação em revistas médicas, principalmente na r evista Arquivos do IBIT, criada no mesmo ano em que foi fundada a instituição, como também na sua produção memorial ista. Escreveu quinze livros de 1975 a 1994, talvez esperando mesmo que sua vida despertasse interesse póstumo . Acompanhar o José Silveira que foi se revelando na s suas memórias é o que pretendo fazer neste artigo. Na impossibilidade de aprofundar os diversos aspectos desse sujeito social múltiplo, direciono a atenção à presença do IBIT n os seus escritos. Segundo Schmidt (1997, p. 11), o resgate de trajetórias individuais pode iluminar questões e/ou contextos mais amplos. Silveira pode ser considerado um d esses personagens que, ao serem observados historicamente, parecem dizer tanto mais de seu tempo como de si mesmos. O estudo de trajetórias é o espaço de articulação entre o singular e o plural, entre o individual e o coletivo. E nesse sentido, é possível observar aspectos da história da tuberculose na Bahia Para Gomes (2004, p. 13), “As práticas de escrita de si podem evidenciar, assim, com muita clareza, como uma trajetória individual tem um percurso que se altera ao longo do tempo, que decorre por sucessão” . Silveira foi professor, pesquisador e médico. Sua opção inicial foi pela área de radiologia, interes se gerado ainda enquanto estudante , quando trabalhava no Gabinete Médico de Eletricidade e Luz, do médico Prado Valladares, ao qual se refere como seu “grande mestre”. Formou-se em medicina, em 1927, tendo defendido tese de doutoramento em 1928, intitulada Radiologia da Aorta Descendente , laureada com o prêmio Alfredo Britto por ter sido a melhor tese da sua turma. Sua opção pela tisiologia ocorreu mais tarde, em viagem que realizou à Alemanha, após sua formatura, buscando aprofundar os conhecimentos sobre radiologia. Entrou em contato com instituições que se dedicavam ao combate à tuberculose, identificando a distância que havia entre aquele país e a luta antituberculose na sua terra natal. Retornando ao Brasil , criou no Ambulatório Augusto Viana da Faculd ade de Medicina da Bahia um Serviço de Tisiologia , passando a atender os pacientes portadores de tuberculose . 3 Relatou sua atuação profissional como um sacerdócio . A “paixão pela tuberculose foi gerada pela grandeza do problema”. 1 Sua primeira intervenção publica em prol da luta anti tuberculose ocorreu em 1935, no Primeiro Congresso Regional de Medicina da Bahia, ocasião em que apresentou um Plano de Combate à Tuberculose, no qual indicava os elementos que deveriam existir para a criação no estado de um “a rmamento” de combate a essa doença. Nesse plano, considerava como fundamental a participação do governo do estado. Silveira justificou a criação do IBIT como conseqüência da recusa do governo em assumir a proposta por ele apresentada. Partiu , então, para a fundação de uma estrutura ainda mais diferenciada, inexistente no país: um instituto não só de rotina para a aplicação de métodos já conhecidos, mas com o propósito audacioso de inovar e criar, de investigar cientificamente os problemas da tuberculose. Começou aí a história do Instituto Brasileiro para a Investigação da Tuberculose, tantas vezes narrada, criada e interpretada nos seus livros de memórias. O primeiro deles Imagens da Minha Devoção foi dedicado aos amigos e a Ivone, “esposa querida ”, homenageada em toda a sua obra. Pede perdão por “tê-la queimado na chama ardente e torturante de um ideal inatingível” (SILVEIRA, 1975, p. 3). Ivone foi presença constante ao seu lado no IBIT, desenvolvendo atividades assistenciais para os pacientes e seus fam iliares. No que chama de “Explicação” diz: “Aos setenta anos, atingindo uma idade que nunca pensei alcançar, volto -me para o tempo decorrido, à procura de alguma coisa que pudesse fixar, na minha difusa e apagada existência”. Silveira (1975, p. 5) observou nas lembranças “a presença do amigo”. Daí ter escolhido, com a chegada da velhice , reunir o que escreveu e dispersamente publicou sobre alguns dos seus maiores amigos “arrebatados pela força inexorável da morte”. Imagens da Minha Devoção inicia uma forma de produção memorialista , voltada para a evocação de pessoas importantes na sua vida, seguida por duas outras publicações: Pérolas e Diamantes de 1984 e Paradigmas publicado em 1989. Assim, tratou de homenagear parentes, amigos, colegas e políticos. Aliás, em relação a esses últimos , Silveira não tomava uma posição definida. Elogiava os governos e os políticos que deram importância à luta contra a tuberculose e que ajudaram a consolidação do “seu” instituto. Foram esses políticos que acabaram sendo lembrados nas suas memórias. Vale ressaltar que nesses livros , entre os 1 Entrevista realizada com José Silveira, em 1990, pelas pesquisadoras Tânia Dias Fernandes e Dilene Raimundo do Nascimento, através do projeto Memória da Tuberculose. Fita 1, lado A. 4 homenageados, a presença marcante era mesmo de médicos, especialmente os que se dedicaram à tisiologia e ao IBIT. Silveira começou a escrever suas memórias num determinado momento da sua vi da, quando já estava aposentado da Cátedra de Tisiologia da Faculdade de Medicina da Bahia , depois de ter sido seu primeiro e único catedrático . A tisiologia tinha deixado de ter o prestígio de outrora em função do surgimento dos antibióticos , ocasião em que passou a haver a propaganda de que a tuberculose era uma “doença vencida”. As instituições, voltadas especificamente para o estudo, diagnóstico e tratamento dessa doença , tinham ampliado seu raio de atenção em direção às demais doenças do tórax e os tisiólogos enveredavam principalmente para a área de cardiologia ou pneumologia. Nesse contexto, o criador do IBIT enfatizava que a sua atenção continuava direcionad a a essa instituição, mesmo que ela não fosse mais “um simples instituto de estudo, ensino e investigação da tuberculose”, mas tivesse alargado seu campo de ação. Afinal, para ele nem por isso a tuberculose tinha deixado de preocupá-lo, pois além de continuar dominando o panorama epidemiológico brasileiro , era o grande modelo de todas as doenças. Daí afirmar que seu combate continua va sendo sua “constante, irreversível e incurável obsessão” ( SILVEIRA, 1980, p. 293). Já com mais de setenta anos tinha convicção das armadilhas da velhice, dos percalços e sofrimentos a que toda vida estava sujeita. Tinha plena clareza da proximidade do fim , apesar de continuar gozando de reconhecimento e prestígio na sociedade, pois havia tomado posse na Academia de Letras da Bahia , em 1971 (SILVEIRA, 1978, p. 137-149). Esse peso do tempo em sua vida é mais uma vez atestado em Do Carro de Boi ao Zeppelin, seu segundo livro , publicado em 1976 . Nas suas palavras : mais cedo ou mais tarde – e creio que já vou tardando – desaparecerei no mundo misterioso e na sombra eterna sem deixar claramente expresso o que pensei e senti (SILVEIRA, 1976, p. 7). Ressaltava que não tinha intenção de se tornar escritor. Escreveu seu primeiro livro para falar de pessoas queridas, quase todas de saparecidas, mas a repercussão tinha sido boa. Foi chamado de memorialista. E, como tal, seu compromisso era com a “verdade... nada mais que a verdade ”, definindo-se como um baiano que estudou muito, aprendeu pouco e nunca soube ganhar dinheiro (SILVEIRA, 1988, p. 9). Percebia que estava, mesmo sem quere r, dizendo muito de si mesmo. Veio então a idéia de publicar seu segundo livro como continuidade do primeiro só que voltado para as terras que visitou. Com isso dizia ter conseguido “compor o 2º capítulo das tais Memórias que nunca pretendera escrever” (SILVEIRA, 1976, p. 8). Viajou sempre, ou quase se mpre com objetivos profissionais. Com poucos recursos nunca pode se dedicar ao turismo pura e 5 simplesmente. O “menino humilde do recôncavo baiano” conseguiu conhecer o mundo “em missões dignas e honrosas”. E enfatizava: “nunca me foi dado navegar ou voar... para gozar férias ou fazer turismo nos deliciosos e encantadores rincões da Terra” . Assim, tudo o que narrou guardava a “motivação científica ” e o “ranço da especialização médica” (SILVEIRA, 1976, p. 25). Foi inclusive na segunda viagem que fez à Aleman ha que teve a idéia de fundar o IBIT. Segundo registrou, buscou “criar no deserto alguma coisa superior e útil”. Veio então a maior "obsessão” da sua vida: a criação do Instituto Brasileiro para Investigação da Tuberculose, “fantasia de 1936, evidente e in contestável realidade” que permaneceu (SILVEIRA, 1976, p. 26-27). Em 1977 o IBIT completou quarenta anos. Silveira então publicou A Sombra de Uma Sigla discorrendo sobre a história da instituição . Fazia questão de registrar que , quando criou o IBIT, escapava naqueles tempos a noção exata, só a duras penas alcançada, de que para se conduzir uma pesquisa científica, por mais simples que fosse, se precisaria antes de tudo, de uma estrutura mínima, que iria da qualidade pessoal do investigador, às facilidades materiais mais corriqueiras, num ritmo e numa disciplina ainda não muito familiares a o Brasil e à Bahia. Achava, então, que seria fácil transportar para sua terra natal o que viu no exterior. Muito influenciado por cientistas estrangeiros que não conheciam as deficiências locais, achou que tudo seria resolvido com a criação de um “núcleo de trabalho ”, e com uma “atitude mental diversa” (SILVEIRA, 1977, p. 24). Chegou a acreditar que toda a sua fantasia estav a se transformando em realidade. Em 1946 o IBIT inaugurou sua sede própria, com ambulatório bem freqüentado e laboratórios bem instalados. A biblioteca especializada era a mais bem equipada da América Latina. E os achados publicados na Revista Arquivos da instituição chegaram a ser apreciados e discutidos nos mais idôneos e capacitados centros científicos do mundo. Para ele, “a contribuição do IBIT foi sem dúvida da maior significação ”. Os resultados dos estudos que eram feitos na instituição , esquecidos ou postos em dúvida, por certo tempo, acabaram por se impor, quando “centros internacionais poderosos ”, começaram “a divulgar, como verdades novas ”, teses que há muito tempo eram defendidas e provadas por profissionais do Instituto. Foi o caso do valor do B CG na profilaxia da tuberculose, das vantagens da terapêutica ambulatorial sobre o tratamento hospitalar e da defesa da utilização dos métodos simplificados, com drogas econômicas e de fácil manuseio, no tratamento da tuberculose. Pesquisadores do IBIT foram reconhecidos nacional e internacionalmente. Muitos conseguiram bolsas de estudo para fazer cursos em outros países. Alguns médicos da 6 Alemanha passaram um tempo na Bahia treinando profissionais do instituto. Mas lamentava não se ter podido alcançar aquela densidade científica, aquele volume e ritmo de trabalho, que seriam capazes de dar soluções novas, apurar fatos úteis, vindos do estrangeiro, quando aqui mesmo poderíamos tê -los descoberto, “projetando internacionalmente o país e valorizando melhor os nossos próprios técnicos” (SILVEIRA, 1977, p. 25). E num discurso que ora exaltava os feitos da instituição, ora mostrava pessimismo e desilusão afirmou: a criação do instituto foi “um sonho quixotesco”. Seu caráter “estritamente científico dificultava ainda mais a proposta”. Era mais fácil conseguir a juda para hospitais e dispensários, do que para um instituto de pesquisa, uma vez que os resultados quase nunca eram visualizados de imediato . Infelizmente o IBIT “continuou a ser um Instituo de Província”. Aplaudido e honrado, mesmo por eminentes técnicos e governantes. Mas nunca passou pelo “espírito da Alta Administração do país, torná -lo brasileiro”, dando -lhe recursos econômicos, humano e material, para que se constituísse numa “verdadeira organização nacional”. A Bahia não tinha tanto prestígio. Nem s eu solo estava preparado para receber tão “complexa e transcendente estrutura”. Tanto assim, que ao se falar de Instituto de Pesquisa para a Tuberculose, “só se pensa no Rio de Janeiro” ( SILVEIRA, 1977, p. 78-79). Esse desabafo não parece ter correspondid o à trajetória da instituição, marcada por conquistas e vitórias tantas vezes lembradas por José Silveira na sua produção científica e memorialista. O IBIT, que em 1937 iniciou suas atividades no subsolo do ambulatório Augusto Viana, da Faculdade de Medici na da Bahia, instalou -se numa sede própria em 1946. No final da década de 1950, expandiu seu trabalho em direção à criação de um Hospital do Tórax, depois transformado em Hospital Santo Amaro, sob a centralização da Fundação José Silveira. Essa reflexão pa rece estar ligada à descaracterização da tisiologia enquanto especialidade e aos novos rumos assumidos pela instituição . O próprio título do livro no qual Silveira registrava essas reflexões A Sombra de uma Sigla refletia o seu maior propósito no momento que era justificar a ampliação das ações do instituto em direção às demais doenças do tórax, mas mantendo a sigla IBIT . Talvez o próprio Silveira tivesse dificuldade em aceitar essa mudança, afinal desde a criação da instituição, ele buscou estratégias disc ursivas e práticas que a consolidassem em âmbito estadual e nacional na área de tuberculose, ao tempo em que ia se constituindo como um tisiologista de prestígio. De 1978 a 1992 Silveira escreveu 10 livros, entre eles o que chamou de trilogia autobiográfica, iniciada com Vela Acesa, de 1980, seguida por O Neto de Dona Sinhá de 1985 e concluída com O Alemão do Canela , em 1988. 7 Nas suas palavras, em Vela Acesa se viu a revelar coisas que jamais pensou interessar. O aplauso o levou a contar um pouco mais. Em O Neto de Dona Sinhá , superou a fase das memórias de um menino e estudante de medicina simples e deixou fluir as garras mesmo que de felino domesticado, de “uma fera acuada e perseguida”. O Alemão do Canela foi escolhido como título por ser a forma como os pacientes o chamavam. Talvez por ser alto, louro, assíduo e disciplinado, respeitador dos horários e cumpridor dos acertos. Esse apelido foi assimilado pelos colegas que por “pilhéria” o chamavam fazendo coro com os doentes. Assim, para ele, o livro era “uma homenagem aos caríssimos amigos e aos anônimos enfermos” que atendeu, no longo tempo em que se deu sua formação técnica e se consolidou sua vida profissional ( SILVEIRA, 1988, p. 10). Mas ambos os livros enfatizavam a criação e consolidação do IBIT. Em 1993 Silveira publicou Últimos lampejos: idéias, depoimentos, conceitos e preceitos. Era mais um livro dedicado à esposa Ivone, no qual anunciava que estava encerrando sua “singela e fugaz incursão no mundo literário da Bahia” ( p. 3) Estava, então, com 89 anos, considerando-se na “reta final” ( p. 7). Anunciava que lançava mais um livro composto por “perfis, opiniões, depoimentos, tendências conceitos, preceitos e um arriscado auto-retrato”. Eram, enfim, “singelos conselhos”, escritos para ele mesmo, que assumia o “compromisso de praticá -los” (p. 8). Mas a promessa de encerrar sua produção memorialista não se efetivou, pois um ano depois publicou Uma Doença Esquecida: A História da Tuberculose na Bahia . Esse sim seu último livro de memória s. Silveira vai tentar fazer, como propõe o título , a história da tuberculose na Bahia. São 519 páginas, começando com as primeiras ações contra a tuberculose no estado , desde a criação da Liga Bahiana contra a Tuberculose , em 1900, passando pelas demais instituições como, por exemplo, o Dispensário Ramiro de Azevedo que foi criado em 1919 e a Fundação Anti-Tuberculose Santa Terezinha, de 1936 . Na página 177 o IBIT entre em cena. A partir desse momento é como se a história da tuberculose na Bahia ganhasse uma nova dimen são. O Instituto aparece como um divisor de águas é como se a história da tuberculose na Bahia fosse dividia entre antes e depois do IBIT. Mas Uma Doença Esquecida é um livro que fala principalmente da história profissional de José Silveira. Silveira viveu a tisiologia. Escrevendo sobre si mesmo, numa espécie de ato terapêutico, buscava organizar sua vida, retratando -se de forma coerente e numa permanência estabilidade de si mesmo. A idéia da “Ilusão biográfica” , a qual nos chama atenção Bourdieu (1996). 8 Dizia ter sonhado pouco, nunca tendo pensado em ser mais do que um “médico de aldeia”. Daí homens generosos lhe terem conduzido aos maravilhosos caminhos da ciência. Chegou a funções elevadas, na profissão e na carreira intelectual, obteve a imortalidade das academias e atingiu a cátedra ( SILVEIRA, 1985, p. 270). Afirmava que não acreditando na glória, jamais trabalh ou “com os olhos voltados para ela”; tampouco pens ou que sua vida “pudesse ter qualquer sentido para a posteridade ”. Mas se alguma coisa lhe fosse dado pedir, “apelaria para os amigos, irmãos na fé e no ideal, para que não deixassem estancar nunca as fontes de benemerência e bondade ”, pois, por menores que tenham sido os préstimos do IBIT, “seu aniquilamento tiraria da população enferma e carente da Bahia um dos poucos oásis de atendimento, caridade e amparo ”, sonho pelo qual tanto lutou. E conclui registrando que essa era sem dúvida a sua única aspiração ( SILVEIRA, 1985, p. 271). A obra de Silveira é texto que buscava recuperar a memória, argumentando contra o esquecimento. Era uma forma de eternizar -se, mas acima de tudo era uma forma de buscar a eternização do IBIT. Talvez essa luta contra o esquecimento fosse agravada pelo fato de não ter tido filhos e de ter sido filho único. Não deixaria descendentes que pudessem dar continuidade ao que tinha construído . Contou a história da tuberculose na Bahia através da sua trajetória , inserindo essa história na sua história, num discurso que transitava na fronteira do ficcional e do verídico. Narrou o passado a partir do presente construindo e descrevendo eventos ligados à profissão médica, à tuberculose e ao IBIT. Contou uma versão da história da tuberculose. Contou sua história. E nesse processo em que o passado era narrado a partir do presente como forma de (re)construí-lo sua história de vida funde -se/confunde-se com sua história profissional e essa à história da instituição à qual se dedicou Silveira (1980, p. 223-224) foi “muitos” e múltiplo, como todos nós. Filho, marido, professor, pesquisador , médico tisiólogo. Aliás, chegou a revelar que ser professor da Faculdade de Medicina da Bahia era ter atingido o grau máximo da profissão; dar provas irrecusáveis de inteligência e preparo . Quem conseguisse chegar à cátedra estava feito. “Ao seu alcance ficaria um conceito social elevado ”. Teve também uma rápida passagem pelo serviço de saúde pública estadual em 1947, durante o governo de Otávio Mangabeira, quando foi Diretor do Departamento de Saúde do estado. Com o tempo enveredou ainda por outras at ividades. Fundou a Sociedade Amigos da Cidade; dedicou -se à luta pela preservação e restauração da antiga Faculdade de Medicina do 9 terreiro de Jesus, objeto de atenção do seu décimo livro de memórias , intitulado No Caminho da Redenção: retrato de uma época , publicado em 1988 . Fez parte de diversas associações médicas e foi membro da Academia de Letras da Bahia. Participou ativamente da luta contra o tabagismo. Mas se construiu como uno. Morreu aos 96 anos de idade considerando -se simplesmente um tisiólo go, aquele que criou o IBIT, sua “grande obsessão”, a primeira e única instituição voltada para a pesquisa da tuberculose no Brasil. Referencias BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: FERREIRA, M.; AMADO, J. Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996 . p. 183-191. FERNANDES, Tânia Maria Dias ( Coord.). Memória da tuberculose: acervo de depoimentos. Rio de Janeiro: FIOCRUZ/Fundação Nacional de Saúde, 1993. GOMES, Angela de Castro ( Org.). Escrita de si, escrita da história. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2004. LEAL, Maria das Graças de Andrade. Manuel Querino entre letras e lutas – Bahia 18511923. 2004. Tese (Doutorado em História) – PUC-SP, São Paulo, 2004. NUNES, Fábio de Carvalho. A mortalidade por tuberculose na cidade do Salvador . Salvador: Secretaria de Educação e Saúde, 1949. SCHMIDT, B. Bisso. Construindo biografias – historiadores e jornalistas: aproximações e afastamentos. Estudos Históricos , Rio de Janeiro, v. 10, n. 19, p. 3 -21, 1997. SILVEIRA, José. Imagens da minha devoção. Salvador: Edição do autor, 1975. . Do carro de boi ao zepelim: crônicas de viagem. Bahia, 1976. . A sombra de uma sigla. Salvador: Gráfica Econômico e Administração, 1977 . . A palavra do José. Bahia, Edição do autor, 1978. . Vela acesa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980. . Prado Valadares: idéias, doutrinas e atitudes. Salvador: Centro Editorial e Didático UFBA, 1982. . Pérolas e diamantes. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1984. . O neto de Dona Sinhá . Rio de Janeiro: Philobiblion/INL, 1985. 10 . O Alemão do Canela . Bahia, Edição do autor, 1988a. . No caminho da redenção. Bahia, Edição do autor, 1988b. . Paradigmas: vidas que ensinam, exemp los que engrandecem. Bahia, Edição do autor, 1989. . Colcha de retalhos: idéias, fatos e sugestões. Salvador, Edição do autor, 1990. . Obstinação: aspectos da vida de um hospital: Salvador: Edição do autor, 1992. . Últimos lampejos: idéias, depoimentos, conceitos e preceitos. Bahia, Edição do autor, 1993. . Uma doença esquecida: a história da tuberculose na Bahia. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA, 1994.