IV ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA - ANPUH-BA
HISTÓRIA: SUJEITOS, SABERES E PRÁTICAS.
29 de Julho a 1° de Agosto de 2008.
Vitória da Conquista - BA.
JOSÉ SILVEIRA E SUAS MEMÓRIAS: ESCRITA DE SI, HISTÓRIA DO IBIT
Maria Elisa Lemos Nunes da Silva
Professora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB)
Doutoranda em História pela Universi dade Federal da Pernambuco (UFPE)
E-mail: [email protected]
Palavras-chave: José Silveira. Memórias. Tuberculose. IBIT.
Em 21 de fevereiro de 1937, foi criado na Bahia o Instituto Brasileiro para
Investigação da Tuberculose (IBIT). Nesse momento, o médico José Silveira, seu idealizador,
proferiu discurso em que ressaltava as finalidades fundamentalmente científicas da instituição.
Sua principal razão de ser era a pesquisa da tuberculose. O IBIT surgiu como uma entidade
privada.
O que Silveira (1978, p. 20) dizia trazer de novo era “uma atitude mental diversa”,
afinal, existiam, em alguns estados hospitais e centros de assistência médica e amparo social
aos tuberculosos. No entanto, a pesquisa científica nos domínios da tisiologia era realizada
nos curtos intervalos permitidos entre uma e outra atividade, sem a continuidade necessária.
Era preciso, segundo afirmava, “investigar, procurar o fato novo” que desse independência
cultural e científica . Isso evidenciava seu caráter pioneiro, pois não havia n ada semelhante em
qualquer um dos estados da federação.
Sua cerimônia de criação ocorreu no Ambulatório Augusto Viana da Faculdade de
Medicina da Bahia onde já funcionava um serviço de tisiologia organizado por Silveira e onde
funcionaria o recém criado I nstituto.
Nessa ocasião, a tuberculose era um dos maiores problemas médicos e sociais da
Bahia. Ela matava mais do que todas as outras doenças transmissíveis juntas (NUNES, 1949).
Portanto, a criação do IBIT era propagandeada por José Silveira como um aco ntecimento de
fundamental importância, pois essa Instituição direcionar -se-ia ao combate da doença de
maior incidência e mortalidade do período, bem como desenvolveria a investigação científica,
instrumento que faltava no armamento antituberculose do país.
Quem estiver em Salvador e passar pelo bairro da Federação , encontrará ainda hoje ,
do lado do Cemitério do Campo Santo, o IBIT funcionando no mesmo local em que foi
instalado em 1946, no momento da inauguração da sua sede própria. Os propósi tos da
instituição foram ampliados para além da tuberculose , passando a abranger as demais doenças
do tórax. E a sigla IBIT passou a corresponder a Instituto Brasileiro para Investigação do
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Tórax. Mas o nome José Silveira continua remetendo quase que imediatamente à luta contra a
tuberculose e ao IBIT.
A trajetória desse médico nascido na cidade de Santo Amaro, no recôncavo baiano, em
1904 e que se mudou para Salvador em 1921 para cursar a Faculdade de Medicina, ficou
registrada não só na sua ampla publicação em revistas médicas, principalmente na r evista
Arquivos do IBIT, criada no mesmo ano em que foi fundada a instituição, como também na
sua produção memorial ista. Escreveu quinze livros de 1975 a 1994, talvez esperando mesmo
que sua vida despertasse interesse póstumo .
Acompanhar o José Silveira que foi se revelando na s suas memórias é o que pretendo
fazer neste artigo. Na impossibilidade de aprofundar os diversos aspectos desse sujeito social
múltiplo, direciono a atenção à presença do IBIT n os seus escritos.
Segundo Schmidt (1997, p. 11), o resgate de trajetórias individuais pode iluminar
questões e/ou contextos mais amplos. Silveira pode ser considerado um d esses personagens
que, ao serem observados historicamente, parecem dizer tanto mais de seu tempo como de si
mesmos. O estudo de trajetórias é o espaço de articulação entre o singular e o plural, entre o
individual e o coletivo. E nesse sentido, é possível observar aspectos da história da
tuberculose na Bahia
Para Gomes (2004, p. 13), “As práticas de escrita de si podem evidenciar, assim, com
muita clareza, como uma trajetória individual tem um percurso que se altera ao longo do
tempo, que decorre por sucessão” .
Silveira foi professor, pesquisador e médico. Sua opção inicial foi pela área de
radiologia, interes se gerado ainda enquanto estudante , quando trabalhava no Gabinete Médico
de Eletricidade e Luz, do médico Prado Valladares, ao qual se refere como seu “grande
mestre”. Formou-se em medicina, em 1927, tendo defendido tese de doutoramento em 1928,
intitulada Radiologia da Aorta Descendente , laureada com o prêmio Alfredo Britto por ter
sido a melhor tese da sua turma. Sua opção pela tisiologia ocorreu mais tarde, em viagem que
realizou à Alemanha, após sua formatura, buscando aprofundar os conhecimentos sobre
radiologia. Entrou em contato com instituições que se dedicavam ao combate à tuberculose,
identificando a distância que havia entre aquele país e a luta antituberculose na sua terra natal.
Retornando ao Brasil , criou no Ambulatório Augusto Viana da Faculd ade de Medicina
da Bahia um Serviço de Tisiologia , passando a atender os pacientes portadores de tuberculose .
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Relatou sua atuação profissional como um sacerdócio . A “paixão pela tuberculose foi gerada
pela grandeza do problema”. 1
Sua primeira intervenção publica em prol da luta anti tuberculose ocorreu em 1935, no
Primeiro Congresso Regional de Medicina da Bahia, ocasião em que apresentou um Plano de
Combate à Tuberculose, no qual indicava os elementos que deveriam existir para a criação no
estado de um “a rmamento” de combate a essa doença. Nesse plano, considerava como
fundamental a participação do governo do estado.
Silveira justificou a criação do IBIT como conseqüência da recusa do governo em
assumir a proposta por ele apresentada. Partiu , então, para a fundação de uma estrutura ainda
mais diferenciada, inexistente no país: um instituto não só de rotina para a aplicação de
métodos já conhecidos, mas com o propósito audacioso de inovar e criar, de investigar
cientificamente os problemas da tuberculose. Começou aí a história do Instituto Brasileiro
para a Investigação da Tuberculose, tantas vezes narrada, criada e interpretada nos seus livros
de memórias.
O primeiro deles Imagens da Minha Devoção foi dedicado aos amigos e a Ivone,
“esposa querida ”, homenageada em toda a sua obra. Pede perdão por “tê-la queimado na
chama ardente e torturante de um ideal inatingível” (SILVEIRA, 1975, p. 3). Ivone foi
presença constante ao seu lado no IBIT, desenvolvendo atividades assistenciais para os
pacientes e seus fam iliares. No que chama de “Explicação” diz: “Aos setenta anos, atingindo
uma idade que nunca pensei alcançar, volto -me para o tempo decorrido, à procura de alguma
coisa que pudesse fixar, na minha difusa e apagada existência”. Silveira (1975, p. 5) observou
nas lembranças “a presença do amigo”. Daí ter escolhido, com a chegada da velhice , reunir o
que escreveu e dispersamente publicou sobre alguns dos seus maiores amigos “arrebatados
pela força inexorável da morte”.
Imagens da Minha Devoção inicia uma forma de produção memorialista , voltada para
a evocação de pessoas importantes na sua vida, seguida por duas outras publicações: Pérolas
e Diamantes de 1984 e Paradigmas publicado em 1989. Assim, tratou de homenagear
parentes, amigos, colegas e políticos. Aliás, em relação a esses últimos , Silveira não tomava
uma posição definida. Elogiava os governos e os políticos que deram importância à luta
contra a tuberculose e que ajudaram a consolidação do “seu” instituto. Foram esses políticos
que acabaram sendo lembrados nas suas memórias. Vale ressaltar que nesses livros , entre os
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Entrevista realizada com José Silveira, em 1990, pelas pesquisadoras Tânia Dias Fernandes e Dilene Raimundo
do Nascimento, através do projeto Memória da Tuberculose. Fita 1, lado A.
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homenageados, a presença marcante era mesmo de médicos, especialmente os que se
dedicaram à tisiologia e ao IBIT.
Silveira começou a escrever suas memórias num determinado momento da sua vi da,
quando já estava aposentado da Cátedra de Tisiologia da Faculdade de Medicina da Bahia ,
depois de ter sido seu primeiro e único catedrático . A tisiologia tinha deixado de ter o
prestígio de outrora em função do surgimento dos antibióticos , ocasião em que passou a haver
a propaganda de que a tuberculose era uma “doença vencida”.
As instituições, voltadas
especificamente para o estudo, diagnóstico e tratamento dessa doença , tinham ampliado seu
raio de atenção em direção às demais doenças do tórax e os tisiólogos enveredavam
principalmente para a área de cardiologia ou pneumologia. Nesse contexto, o criador do IBIT
enfatizava que a sua atenção continuava direcionad a a essa instituição, mesmo que ela não
fosse mais “um simples instituto de estudo, ensino e investigação da tuberculose”, mas tivesse
alargado seu campo de ação. Afinal, para ele nem por isso a tuberculose tinha deixado de
preocupá-lo, pois além de continuar dominando o panorama epidemiológico brasileiro , era o
grande modelo de todas as doenças. Daí afirmar que seu combate continua va sendo sua
“constante, irreversível e incurável obsessão” ( SILVEIRA, 1980, p. 293).
Já com mais de setenta anos tinha convicção das armadilhas da velhice, dos percalços
e sofrimentos a que toda vida estava sujeita. Tinha plena clareza da proximidade do fim ,
apesar de continuar gozando de reconhecimento e prestígio na sociedade, pois havia tomado
posse na Academia de Letras da Bahia , em 1971 (SILVEIRA, 1978, p. 137-149).
Esse peso do tempo em sua vida é mais uma vez atestado em Do Carro de Boi ao
Zeppelin, seu segundo livro , publicado em 1976 . Nas suas palavras : mais cedo ou mais tarde –
e creio que já vou tardando – desaparecerei no mundo misterioso e na sombra eterna sem
deixar claramente expresso o que pensei e senti (SILVEIRA, 1976, p. 7).
Ressaltava que não tinha intenção de se tornar escritor. Escreveu seu primeiro livro
para falar de pessoas queridas, quase todas de saparecidas, mas a repercussão tinha sido boa.
Foi chamado de memorialista. E, como tal, seu compromisso era com a “verdade... nada mais
que a verdade ”, definindo-se como um baiano que estudou muito, aprendeu pouco e nunca
soube ganhar dinheiro (SILVEIRA, 1988, p. 9).
Percebia que estava, mesmo sem quere r, dizendo muito de si mesmo. Veio então a
idéia de publicar seu segundo livro como continuidade do primeiro só que voltado para as
terras que visitou. Com isso dizia ter conseguido “compor o 2º capítulo das tais Memórias que
nunca pretendera escrever” (SILVEIRA, 1976, p. 8). Viajou sempre, ou quase se mpre com
objetivos profissionais. Com poucos recursos nunca pode se dedicar ao turismo pura e
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simplesmente. O “menino humilde do recôncavo baiano” conseguiu conhecer o mundo “em
missões dignas e honrosas”. E enfatizava: “nunca me foi dado navegar ou voar... para gozar
férias ou fazer turismo nos deliciosos e encantadores rincões da Terra” . Assim, tudo o que
narrou guardava a “motivação científica ” e o “ranço da especialização médica” (SILVEIRA,
1976, p. 25).
Foi inclusive na segunda viagem que fez à Aleman ha que teve a idéia de fundar o
IBIT. Segundo registrou, buscou “criar no deserto alguma coisa superior e útil”. Veio então a
maior "obsessão” da sua vida: a criação do Instituto Brasileiro para Investigação da
Tuberculose, “fantasia de 1936, evidente e in contestável realidade” que permaneceu
(SILVEIRA, 1976, p. 26-27).
Em 1977 o IBIT completou quarenta anos. Silveira então publicou A Sombra de Uma
Sigla discorrendo sobre a história da instituição . Fazia questão de registrar que , quando criou
o IBIT, escapava naqueles tempos a noção exata, só a duras penas alcançada, de que para se
conduzir uma pesquisa científica, por mais simples que fosse, se precisaria antes de tudo, de
uma estrutura mínima, que iria da qualidade pessoal do investigador, às facilidades materiais
mais corriqueiras, num ritmo e numa disciplina ainda não muito familiares a o Brasil e à
Bahia. Achava, então, que seria fácil transportar para sua terra natal o que viu no exterior.
Muito influenciado por cientistas estrangeiros que não conheciam as deficiências locais,
achou que tudo seria resolvido com a criação de um “núcleo de trabalho ”, e com uma “atitude
mental diversa” (SILVEIRA, 1977, p. 24). Chegou a acreditar que toda a sua fantasia estav a
se transformando em realidade. Em 1946 o IBIT inaugurou sua sede própria, com ambulatório
bem freqüentado e laboratórios bem instalados. A biblioteca especializada era a mais bem
equipada da América Latina. E os achados publicados na Revista Arquivos da instituição
chegaram a ser apreciados e discutidos nos mais idôneos e capacitados centros científicos do
mundo.
Para ele, “a contribuição do IBIT foi sem dúvida da maior significação ”. Os resultados
dos estudos que eram feitos na instituição , esquecidos ou postos em dúvida, por certo tempo,
acabaram por se impor, quando “centros internacionais poderosos ”, começaram “a divulgar,
como verdades novas ”, teses que há muito tempo eram defendidas e provadas por
profissionais do Instituto. Foi o caso do valor do B CG na profilaxia da tuberculose, das
vantagens da terapêutica ambulatorial sobre o tratamento hospitalar e da defesa da utilização
dos métodos simplificados, com drogas econômicas e de fácil manuseio, no tratamento da
tuberculose. Pesquisadores do IBIT foram reconhecidos nacional e internacionalmente.
Muitos conseguiram bolsas de estudo para fazer cursos em outros países. Alguns médicos da
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Alemanha passaram um tempo na Bahia treinando profissionais do instituto. Mas lamentava
não se ter podido alcançar aquela densidade científica, aquele volume e ritmo de trabalho, que
seriam capazes de dar soluções novas, apurar fatos úteis, vindos do estrangeiro, quando aqui
mesmo poderíamos tê -los descoberto, “projetando internacionalmente o país e valorizando
melhor os nossos próprios técnicos” (SILVEIRA, 1977, p. 25).
E num discurso que ora exaltava os feitos da instituição, ora mostrava pessimismo e
desilusão afirmou: a criação do instituto foi “um sonho quixotesco”. Seu caráter “estritamente
científico dificultava ainda mais a proposta”. Era mais fácil conseguir a juda para hospitais e
dispensários, do que para um instituto de pesquisa, uma vez que os resultados quase nunca
eram visualizados de imediato . Infelizmente o IBIT “continuou a ser um Instituo de
Província”. Aplaudido e honrado, mesmo por eminentes técnicos e governantes. Mas nunca
passou pelo “espírito da Alta Administração do país, torná -lo brasileiro”, dando -lhe recursos
econômicos, humano e material, para que se constituísse numa “verdadeira organização
nacional”. A Bahia não tinha tanto prestígio. Nem s eu solo estava preparado para receber tão
“complexa e transcendente estrutura”. Tanto assim, que ao se falar de Instituto de Pesquisa
para a Tuberculose, “só se pensa no Rio de Janeiro” ( SILVEIRA, 1977, p. 78-79).
Esse desabafo não parece ter correspondid o à trajetória da instituição, marcada por
conquistas e vitórias tantas vezes lembradas por José Silveira na sua produção científica e
memorialista. O IBIT, que em 1937 iniciou suas atividades no subsolo do ambulatório
Augusto Viana, da Faculdade de Medici na da Bahia, instalou -se numa sede própria em 1946.
No final da década de 1950, expandiu seu trabalho em direção à criação de um Hospital do
Tórax, depois transformado em Hospital Santo Amaro, sob a centralização da Fundação José
Silveira. Essa reflexão pa rece estar ligada à descaracterização da tisiologia enquanto
especialidade e aos novos rumos assumidos pela instituição . O próprio título do livro no qual
Silveira registrava essas reflexões A Sombra de uma Sigla refletia o seu maior propósito no
momento que era justificar a ampliação das ações do instituto em direção às demais doenças
do tórax, mas mantendo a sigla IBIT . Talvez o próprio Silveira tivesse dificuldade em aceitar
essa mudança, afinal desde a criação da instituição, ele buscou estratégias disc ursivas e
práticas que a consolidassem em âmbito estadual e nacional na área de tuberculose, ao tempo
em que ia se constituindo como um tisiologista de prestígio.
De 1978 a 1992 Silveira escreveu 10 livros, entre eles o que chamou de trilogia
autobiográfica, iniciada com Vela Acesa, de 1980, seguida por O Neto de Dona Sinhá de 1985
e concluída com O Alemão do Canela , em 1988.
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Nas suas palavras, em Vela Acesa se viu a revelar coisas que jamais pensou interessar.
O aplauso o levou a contar um pouco mais. Em O Neto de Dona Sinhá , superou a fase das
memórias de um menino e estudante de medicina simples e deixou fluir as garras mesmo que
de felino domesticado, de “uma fera acuada e perseguida”. O Alemão do Canela foi escolhido
como título por ser a forma como os pacientes o chamavam. Talvez por ser alto, louro,
assíduo e disciplinado, respeitador dos horários e cumpridor dos acertos. Esse apelido foi
assimilado pelos colegas que por “pilhéria” o chamavam fazendo coro com os doentes.
Assim, para ele, o livro era “uma homenagem aos caríssimos amigos e aos anônimos
enfermos” que atendeu, no longo tempo em que se deu sua formação técnica e se consolidou
sua vida profissional ( SILVEIRA, 1988, p. 10). Mas ambos os livros enfatizavam a criação e
consolidação do IBIT.
Em 1993 Silveira publicou Últimos lampejos: idéias, depoimentos, conceitos e
preceitos. Era mais um livro dedicado à esposa Ivone, no qual anunciava que estava
encerrando sua “singela e fugaz incursão no mundo literário da Bahia” ( p. 3) Estava, então,
com 89 anos, considerando-se na “reta final” ( p. 7). Anunciava que lançava mais um livro
composto por “perfis, opiniões, depoimentos, tendências conceitos, preceitos e um arriscado
auto-retrato”. Eram, enfim, “singelos conselhos”, escritos para ele mesmo, que assumia o
“compromisso de praticá -los” (p. 8).
Mas a promessa de encerrar sua produção memorialista não se efetivou, pois um ano
depois publicou Uma Doença Esquecida: A História da Tuberculose na Bahia . Esse sim seu
último livro de memória s.
Silveira vai tentar fazer, como propõe o título , a história da tuberculose na Bahia. São
519 páginas, começando com as primeiras ações contra a tuberculose no estado , desde a
criação da Liga Bahiana contra a Tuberculose , em 1900, passando pelas demais instituições
como, por exemplo, o Dispensário Ramiro de Azevedo que foi criado em 1919 e a Fundação
Anti-Tuberculose Santa Terezinha, de 1936 . Na página 177 o IBIT entre em cena. A partir
desse momento é como se a história da tuberculose na Bahia ganhasse uma nova dimen são. O
Instituto aparece como um divisor de águas é como se a história da tuberculose na Bahia fosse
dividia entre antes e depois do IBIT. Mas Uma Doença Esquecida é um livro que fala
principalmente da história profissional de José Silveira.
Silveira viveu a tisiologia. Escrevendo sobre si mesmo, numa espécie de ato
terapêutico, buscava organizar sua vida, retratando -se de forma coerente e numa permanência
estabilidade de si mesmo. A idéia da “Ilusão biográfica” , a qual nos chama atenção Bourdieu
(1996).
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Dizia ter sonhado pouco, nunca tendo pensado em ser mais do que um “médico de
aldeia”. Daí homens generosos lhe terem conduzido aos maravilhosos caminhos da ciência.
Chegou a funções elevadas, na profissão e na carreira intelectual, obteve a imortalidade das
academias e atingiu a cátedra ( SILVEIRA, 1985, p. 270).
Afirmava que não acreditando na glória, jamais trabalh ou “com os olhos voltados para
ela”; tampouco pens ou que sua vida “pudesse ter qualquer sentido para a posteridade ”. Mas
se alguma coisa lhe fosse dado pedir, “apelaria para os amigos, irmãos na fé e no ideal, para
que não deixassem estancar nunca as fontes de benemerência e bondade ”, pois, por menores
que tenham sido os préstimos do IBIT, “seu aniquilamento tiraria da população enferma e
carente da Bahia um dos poucos oásis de atendimento, caridade e amparo ”, sonho pelo qual
tanto lutou. E conclui registrando que essa era sem dúvida a sua única aspiração ( SILVEIRA,
1985, p. 271).
A obra de Silveira é texto que buscava recuperar a memória, argumentando contra o
esquecimento. Era uma forma de eternizar -se, mas acima de tudo era uma forma de buscar a
eternização do IBIT. Talvez essa luta contra o esquecimento fosse agravada pelo fato de não
ter tido filhos e de ter sido filho único. Não deixaria descendentes que pudessem dar
continuidade ao que tinha construído .
Contou a história da tuberculose na Bahia através da sua trajetória , inserindo essa
história na sua história, num discurso que transitava na fronteira do ficcional e do verídico.
Narrou o passado a partir do presente construindo e descrevendo eventos ligados à profissão
médica, à tuberculose e ao IBIT. Contou uma versão da história da tuberculose. Contou sua
história.
E nesse processo em que o passado era narrado a partir do presente como forma de
(re)construí-lo sua história de vida funde -se/confunde-se com sua história profissional e essa à
história da instituição à qual se dedicou
Silveira (1980, p. 223-224) foi “muitos” e múltiplo, como todos nós. Filho, marido,
professor, pesquisador , médico tisiólogo. Aliás, chegou a revelar que ser professor da
Faculdade de Medicina da Bahia era ter atingido o grau máximo da profissão; dar provas
irrecusáveis de inteligência e preparo . Quem conseguisse chegar à cátedra estava feito. “Ao
seu alcance ficaria um conceito social elevado ”.
Teve também uma rápida passagem pelo serviço de saúde pública estadual em 1947,
durante o governo de Otávio Mangabeira, quando foi Diretor do Departamento de Saúde do
estado. Com o tempo enveredou ainda por outras at ividades. Fundou a Sociedade Amigos da
Cidade; dedicou -se à luta pela preservação e restauração da antiga Faculdade de Medicina do
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terreiro de Jesus, objeto de atenção do seu décimo livro de memórias , intitulado No Caminho
da Redenção: retrato de uma época , publicado em 1988 . Fez parte de diversas associações
médicas e foi membro da Academia de Letras da Bahia. Participou ativamente da luta contra
o tabagismo.
Mas se construiu como uno. Morreu aos 96 anos de idade considerando -se
simplesmente um tisiólo go, aquele que criou o IBIT, sua “grande obsessão”, a primeira e
única instituição voltada para a pesquisa da tuberculose no Brasil.
Referencias
BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: FERREIRA, M.; AMADO, J. Usos e abusos da
história oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996 . p. 183-191.
FERNANDES, Tânia Maria Dias ( Coord.). Memória da tuberculose: acervo de depoimentos.
Rio de Janeiro: FIOCRUZ/Fundação Nacional de Saúde, 1993.
GOMES, Angela de Castro ( Org.). Escrita de si, escrita da história. Rio de Janeiro: Editora
da FGV, 2004.
LEAL, Maria das Graças de Andrade. Manuel Querino entre letras e lutas – Bahia 18511923. 2004. Tese (Doutorado em História) – PUC-SP, São Paulo, 2004.
NUNES, Fábio de Carvalho. A mortalidade por tuberculose na cidade do Salvador .
Salvador: Secretaria de Educação e Saúde, 1949.
SCHMIDT, B. Bisso. Construindo biografias – historiadores e jornalistas: aproximações e
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SILVEIRA, José. Imagens da minha devoção. Salvador: Edição do autor, 1975.
. Do carro de boi ao zepelim: crônicas de viagem. Bahia, 1976.
. A sombra de uma sigla. Salvador: Gráfica Econômico e Administração, 1977 .
. A palavra do José. Bahia, Edição do autor, 1978.
. Vela acesa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.
. Prado Valadares: idéias, doutrinas e atitudes. Salvador: Centro Editorial e Didático
UFBA, 1982.
. Pérolas e diamantes. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1984.
. O neto de Dona Sinhá . Rio de Janeiro: Philobiblion/INL, 1985.
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. O Alemão do Canela . Bahia, Edição do autor, 1988a.
. No caminho da redenção. Bahia, Edição do autor, 1988b.
. Paradigmas: vidas que ensinam, exemp los que engrandecem. Bahia, Edição do
autor, 1989.
. Colcha de retalhos: idéias, fatos e sugestões. Salvador, Edição do autor, 1990.
. Obstinação: aspectos da vida de um hospital: Salvador: Edição do autor, 1992.
. Últimos lampejos: idéias, depoimentos, conceitos e preceitos. Bahia, Edição do
autor, 1993.
. Uma doença esquecida: a história da tuberculose na Bahia. Salvador: Centro
Editorial e Didático da UFBA, 1994.
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IV ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA - ANPUH-BA