UNIVERSIDADE COMUNITÁRIA REGIONAL DE CHAPECÓ – UNOCHAPECÓ CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS CURSO DE PSICOLOGIA Scheila Girelli “FORMAR PARA MELHOR SERVIR” – UM ESTUDO SOBRE O DESENVOLVIMENTO DA POLÍTICA NACIONAL DE EDUCAÇÃO PERMANENTE EM SAÚDE NO MUNICÍPIO DE CHAPECÓ (SC) Chapecó – SC, 2007. SCHEILA GIRELLI “FORMAR PARA MELHOR SERVIR” – UM ESTUDO SOBRE O DESENVOLVIMENTO DA POLÍTICA NACIONAL DE EDUCAÇÃO PERMANENTE EM SAÚDE NO MUNICÍPIO DE CHAPECÓ (SC) Trabalho de Conclusão de Curso apresentado á Universidade Comunitária Regional de Chapecó – UNOCHAPECÓ como requisito parcial á obtenção do grau de formação de psicólogo. Orientador: Ms. Celso Francisco Tondin Chapecó – SC, nov. 2007 “FORMAR PARA MELHOR SERVIR” – UM ESTUDO SOBRE O DESENVOLVIMENTO DA POLÍTICA NACIONAL DE EDUCAÇÃO PERMANENTE EM SAÚDE NO MUNICÍPIO DE CHAPECÓ (SC) Resumo A formação e desenvolvimento dos profissionais da saúde têm se configurado em grande preocupação não somente para os que atuam na área, mas também para todos os atores sociais interessados na plena consolidação do Sistema Único de Saúde. Nesse sentido, a pesquisa teve como objetivo analisar a formação em serviço oferecida aos profissionais do SUS, do município de Chapecó (SC), e quais os sentidos construídos por eles em relação a sua formação. Para tanto, a pesquisa qualitativa se configurou como método escolhido. O estudo deu-se primeiramente por um levantamento bibliográfico (incluindo publicações relacionadas à Política Nacional de Educação Permanente em Saúde). Para fim de coleta de dados, utilizou-se a análise documental, conversas informais, entrevistas semi-estruturadas, com 9 gestores e aplicação de 118 questionários, envolvendo 14 categorias profissionais, que atuam nas Unidades Básicas de Saúde. Como amostra da pesquisa, das 24 Unidades do município, foram selecionadas 10, contemplando alguns critérios: localização geográfica, número de usuários, número de categorias profissionais que atuam na Unidade e complexidade do atendimento. Dentre as principais considerações advindas da pesquisa salienta-se que a Política Nacional de Educação Permanente, embora tendo pretensão de ser o eixo estruturante da atenção em saúde, no que tange à formação e desenvolvimento, tem tido pouca repercussão, mostrando alguns déficits em sua capacidade operacional. Quanto às atividades educativas oferecidas pelo poder público, constatou-se que não existem programas e projetos específicos que atendam as demandas de formação. O que existem são cursos, treinamentos, capacitações que, desenvolvidos por cada coordenação, de forma individual, envolvem profissionais da mesma categoria (uniprofissional), e objetivam, principalmente, reciclar conhecimentos técnicos, voltados a práticas curativas. As defasagens, tanto na implementação, estruturação e funcionamento do Pólo Regional, considerado segmento fundamental para a articulação entre a gestão, atenção e controle social, também contribuíram para as dificuldades no desenvolvimento da Educação Permanente. Por outro lado, critica-se o Estado que, enquanto responsável pela promoção da saúde, tem se colocado, no ponto de vista dos profissionais, distante de seu compromisso – o de ser o condutor político do processo de municipalização. Desse modo, constatou-se que o modelo de Educação Continuada ainda permanece nos modos de ensinar e fazer em saúde. Diante deste contexto, torna-se imperativa não somente a reflexão sobre as práticas em saúde, mas também uma discussão sobre o conceito de saúde e o processo de formação. Ou seja, é preciso dialogar, de forma circular, sobre os sentidos construídos em torno das práticas em saúde, para que a aprendizagem se torne significativa e, conseqüentemente, eficaz nos serviços prestados. Acredita-se que a Educação Permanente em Saúde pode não ser suficiente, mas é, sem dúvida, necessária à formação e desenvolvimento humano. À medida que assume seu caráter mediador, a educação em saúde pode se contrapor às práticas assistencialistas, autoritárias, alienantes e reprodutoras. Mas, necessita também que todos os atores envolvidos se instrumentalizem, para que o profissional tenha o controle do seu processo de trabalho e para que a população assuma mais o controle do processo de gestão de suas vidas. Palavras-chave: Educação Permanente. SUS. Formação em saúde. “Formar para melhor servir” – Um estudo sobre o desenvolvimento da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde no município de Chapecó (SC) Scheila Girelli ______________________________________________ Celso Francisco Tondin – Professor Orientador ______________________________________________ Nédio Luiz Conci – Banca examinadora ______________________________________________ Marinez Amabile Antoniolli - Banca Examinadora INTRODUÇÃO O SUS – Sistema Único de Saúde tem assumido um papel ativo na reorientação das estratégias e modos de cuidar, tratar e acompanhar a saúde individual e coletiva e tem sido capaz de provocar importantes repercussões nas estratégias e modos de ensinar e aprender. No entanto, o conhecimento resultante desse processo é construído, muitas vezes, de forma desarticulada ou fragmentada e corresponde a orientações conceituais heterogêneas, o que acaba limitando a capacidade de produzir impacto sobre as instituições, no sentido de promover mudanças nas práticas dominantes no sistema de saúde. Esse fato vem repercutir diretamente na qualidade dos serviços que é prestada ao cidadão. Dentro destes parâmetros a formação e desenvolvimento de profissionais de saúde têm se configurado em grande preocupação, não somente para os profissionais que atuam na saúde, mas também para todos os atores sociais interessados na plena consolidação do Sistema. Nesse sentido, ao problematizar “Qual a formação em serviço1 oferecida aos profissionais e quais os sentidos construídos por eles em relação a sua formação?”, a pesquisa pretende conhecer o cotidiano de trabalho destes profissionais, procurando compreender como eles constroem os sentidos em relação a sua formação, a qual está, ou deveria estar, voltada para a consolidação dos princípios de SUS. Buscar o cotidiano de trabalho destes sujeitos é entender as ações que se dão nos espaços de vivência, onde eles reconhecem e experienciam suas necessidades e potencialidades, as quais devem despertar e viabilizar o crescimento de competências e habilidades, tanto a nível individual, como coletivo. Embora esta temática seja emergente no atual contexto da saúde pública, não tem chegado a contento às instituições de ensino superior como fomentadora de discussões e 1 Formação em Serviço: termo utilizado para designar a formação e desenvolvimento dos profissionais que atuam no SUS, considerando inovações no processo de trabalho, não só pela qualificação técnica, mas também pedagógica, gerencial, humanística ética e política. Esta formação/educação permanente pode dar-se por meio da criação de espaços de reflexão, por intermédio de cursos de aperfeiçoamento/especialização, conferência, estratégia-educativa (núcleos de saúde, educação à distância, tele-educação), assessoramento documental, etc. reflexões, que venham a contribuir para a formação de profissionais competentes e comprometidos com a responsabilidade social. Paralelo a esta questão, este trabalho justifica sua relevância a nível acadêmico, uma vez que convida as instituições de ensino à responsabilidade de engajar-se nos processos organizativos e políticos, garantindo, não somente a objetividade da ciência, mas, principalmente, a força mobilizadora para mudança. Além disso, pesquisa colocará em pauta as bases conceituais e também os modelos que orientam as práticas assistenciais na saúde. Assim, enquanto contribuição social, poderá ser utilizada como embasamento para a avaliação crítica dos atuais programas e projetos de formação em serviço oferecidos pelo poder público, defendendo a formulação de novas propostas que dêem conta da complexidade desta problemática. Para tanto, dedico-me a apresentar, na primeira parte deste trabalho, os pressupostos teóricos que embasam a pesquisa. Nesta, apresento uma síntese dos principais avanços e desafios do desenvolvimento da política de Recursos Humanos no SUS, abordando juntamente com os aspectos históricos as bases conceituais que orientam a criação e desenvolvimento da prática assistencial no Brasil. Posteriormente, dar-se-á ênfase às principais contribuições da Educação Permanente, enquanto nova estratégia de formação e desenvolvimento em saúde e, por último, às diferentes concepções teóricas e filosóficas que orientam a construção do conceito de saúde, bem como suas implicações para as práticas psicológicas. Na segunda parte, tratarei de pontuar os procedimentos metodológicos, descrevendo as técnicas e a amostra que caracterizam a coleta de dados da pesquisa. A apresentação e discussão dos dados constituirão a terceira parte do trabalho, quando busco articular os pressupostos teóricos estudados com achados da pesquisa. O objetivo é problematizar, em forma de análise, a política de formação e desenvolvimento de RH, oferecidas pelo município, bem como os sentidos construídos pelos servidores sobre a mesma, a partir da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde. Para finalizar, apresento as considerações finais, as quais não pretendem concluir a discussão, mas dar ênfase á aspectos relevantes do estudo, de modo a fomentar novos. A todos uma boa leitura! 1 TEMA “Formar para melhor servir” – Um estudo sobre o desenvolvimento da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde, no Município de Chapecó (SC). 2 PROBLEMA Qual a formação em serviço oferecida aos profissionais do SUS, do Município de Chapecó(SC), e quais os sentidos construídos por eles em relação a sua formação? 3 OBJETIVOS 3.1 Objetivo geral Analisar a formação em serviço oferecida aos profissionais do SUS e os sentidos construídos por eles em relação a sua formação. 3.2 Objetivos específicos Verificar quais profissionais participam dos projetos e programas de formação em serviço, promovidos pelo poder público; Compreender os sentidos construídos pelos profissionais do SUS a respeito da formação em serviço oferecida pelo poder público; Relacionar os referidos sentidos ao cotidiano de trabalho dos profissionais e ás necessidades dos cidadãos, a partir da visão dos trabalhadores; Comparar os projetos e programas de formação em serviço oferecidos pelo poder público de Chapecó (SC) com a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde do SUS; Apontar as possíveis contribuições do psicólogo na gestão do trabalho e educação em saúde no SUS. 4 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Para analisar a realidade é imprescindível a compreensão de seus diversos momentos, dos seus referenciais filosóficos e da relação destes referenciais com os diferentes projetos políticos criados pela sociedade. Acredito que conhecer o processo histórico é fundamental para poder avaliar processo como um todo, bem como, poder compreender os limites e possibilidades relativas à reestruturação do sistema e dos serviços de saúde, de acordo com as necessidades da população. É nesse sentido, que o presente capítulo apresenta uma síntese dos principais avanços e desafios de desenvolvimento da política em saúde pública, abordando juntamente com os aspectos históricos, as bases conceituais que orientam a criação e desenvolvimento da prática assistencial no Brasil. Assim, num primeiro momento, dar-se-á ênfase ás políticas de Recursos Humanos ligados à formação, buscando apontar suas principais contribuições, enquanto área de desenvolvimento humano, o que possibilitará posteriormente, melhor compreender seu atual papel e importância junto ao serviço público. Num segundo momento, serão apontadas as principais contribuições da Educação Permanente, enquanto nova estratégia de formação e desenvolvimento para o SUS. Para tanto, serão pontuados aspectos relevantes, desde a sua estruturação e implementação, trazendo alguns marcos conceituais que fazem referência às estratégias adotadas pelo Ministério da Saúde (MS), para assegurar a transformação e a organização dos serviços e dos processos formativos em trabalho articulado no sistema de saúde. Por último, destaca-se, a partir de diferentes concepções teóricas e filosóficas, a construção do conceito de saúde e suas implicações para as práticas psicológicas. 4.1 Política de Recursos Humanos – aspectos históricos As modificações decorrentes do intenso processo de mudança experimentado pelo sistema nacional de saúde, principalmente nos últimos anos, incidiram fortemente em diferentes áreas. Dentre elas, faz-se pertinente destacar a área de Recursos Humanos (RH), mais especificamente as Políticas de RH voltadas à formação dos profissionais em saúde, as quais apresentaram-se, no decorrer do tempo, em diferentes conjunturas. De acordo com Machado (2006), até meados da década de 70, há um incentivo à formação profissional, especialmente em nível superior, com a expansão de empregos para médicos e enfermeiros/as com o financiamento público e incentivo à hospitalização/especialização. Já na década de 80, tem-se um aumento significativo da participação do setor público na oferta de serviços ambulatoriais e hospitalares, o que passou a exigir um aumento da formação do pessoal técnico e sua incorporação nas equipes de saúde. Mais adiante, com a realização da I Conferência Nacional de Recursos Humanos em Saúde, em 1986, estas propostas são mais bem sistematizadas e desdobram-se em grandes temas: valorização do profissional, preparação de recursos humanos e compromisso social – nova ética para os trabalhadores de saúde. A partir de 1987, este campo é caracterizado pelas mudanças estruturais rumo à Reforma Sanitária marcadas, especialmente, pelo processo de descentralização da assistência e, conseqüentemente, dos recursos humanos que integram os serviços. Inicia-se aí o processo que culminaria na reversão do quadro de pessoal ora concentrado na esfera federal ora na municipal. “Toda a política de RH passa a girar em torno da proposta da Reforma Sanitária – não só os aspectos gerenciais, mas também os financeiros, na perspectiva de atender as demandas que impunham tal reforma” (MACHADO, 2006, p. 23). O movimento pela Reforma Sanitária Brasileira insistia que era preciso reformular o sistema de saúde para torná-lo mais eficaz e disponível a toda a população. Para Paim (1992, p. 31), "o projeto da Reforma Sanitária foi gerado na luta contra o autoritarismo e pela ampliação dos direitos sociais". Dele participaram profissionais da saúde, lideranças políticas, sindicais e populares, dando ao SUS o privilégio de ser uma conquista alcançada pela sociedade brasileira, que os parlamentares da Assembléia Constituinte transformaram em lei. O SUS então é criado com o propósito de alterar esta condição de desigualdade na assistência à saúde da população, universalizando o acesso ao atendimento, ou seja, tornando obrigatório o atendimento público e gratuito a qualquer pessoa (LACERDA, 1998). Diante desta proposta assume, baseado na Constituição de 1988, suas diretrizes: descentralização, atendimento integral, participação da comunidade. De forma complementar e tão importante quanto às outras, aparecem alguns princípios que devem ser observados na operacionalização destas diretrizes: a universalidade do acesso aos serviços em todos os níveis de assistência; a igualdade da assistência à saúde; a eqüidade na distribuição de recursos; a resolutividade dos serviços (LACERDA, 1998). Após longo debate constitucional, o SUS torna-se uma realidade. No entanto, para Machado (2006), com o passar do tempo e com o avanço do processo de implementação do SUS, a realidade que se apresenta para a área de RH remete a mais um momento distinto. Este se refere a toda a década de 90 (governo Collor e Fernando Henrique Cardoso), caracterizada pela adoção dos preceitos neoliberais em detrimento aos da Reforma Sanitária. “Isso transformou a questão de RH, ao longo da década, em um enorme problema para a Reforma Sanitária, invertendo toda a lógica preconizada no processo da Reforma, de serem os trabalhadores (recursos humanos) peças-chave para a consolidação do SUS”. (MACHADO, 2006, p. 23). Fato de grande relevância neste período foi a elaboração da Norma Operacional Básica em Recursos Humanos (NOB – RH), que define princípios e diretrizes para a área e que teve como objetivo principal a “discussão da centralidade do trabalho, do trabalhador, da valorização profissional e da regulação da relações de trabalho em saúde” (id., ibid., p. 23). No entanto, o mesmo autor aponta que o marco das discussões que materializaram o processo de construção da democracia deu-se com a realização da 8ª Conferência Nacional de Saúde, na qual foram discutidas e sistematizadas ações para a área, fundamentais, inclusive, para a Reforma Sanitária. Entre as propostas cabe destacar: composição multiprofissional das equipes, considerando as necessidades de cada região, compromissos dos servidores com os usuários, formação dos profissionais da saúde integrada ao sistema de saúde regionalizado e hierarquizado, capacitação e reciclagem permanente, inclusão no currículo ensino em saúde do conhecimento das práticas alternativas, incorporação dos agentes populares de saúde, para trabalhar em educação para a saúde e cuidados primários (MACHADO, 2006). De acordo com Ramos, Verdi e Kleba (1999), a 8ª Conferência Nacional de Saúde foi um fórum decisivo, principalmente por “ter representado a aliança, dos setores profissionais progressistas com os movimentos populares, em torno dos princípios básicos do projeto” (id., ibid., p. 20). Contudo, para Machado (2006), poucos resultados foram alcançados, uma vez que a política que imperou neste período foi a “antipolítica de Recursos Humanos, priorizando a privatização por meio da terceirização de serviços, da flexibilização das relações e do laissez-faire2 na abertura de novos cursos na área da Saúde” (MACHADO, 2006, p. 23). 2 Permissividade, permitir, não pôr resistência, deixar fazer. De acordo com Campos et al. (2006), entre os desafios derivados das reformas e da consolidação do Sistema Único de Saúde, no Brasil, destacam-se dois cenários: o trabalho e a formação profissional. Segundo o autor, no cenário do trabalho, o incentivo à qualidade e a produtividade, a relevância do trabalho em equipe e a gestão orientada para o reconhecimento dos direitos dos cidadãos torna visível a importância de “[...] conceber, implementar e institucionalizar alternativas de educação permanente tanto para a formação de profissionais quanto para o seu aprimoramento em serviço [...]” (p. 39). Por outro lado, no cenário da formação educacional, destaca-se a necessidade crescente de adequar os antigos currículos às mudanças sociais, aos novos perfis epidemiológicos e às demandas dos serviços. Esse aspecto pressupõe profissionais preparados para atender às necessidades de saúde da população. A partir disso, surge então a necessidade de criar novos modelos de atenção, de enfatizar o trabalho loco-regional, com equipes multiprofissionais e de empreender ações eficazes de vigilância e prevenção, o que torna inquestionável a necessidade de repensar os conteúdos, objetivos e formatos educacionais historicamente predominantes. Tal visão tem como base a leitura crítica dos diversos programas e iniciativas existentes de capacitação e formação de recursos humanos na Saúde. De acordo com esta leitura, estas atividades de formação, por se realizarem, muitas vezes, de forma desarticulada ou fragmentada e corresponderem a orientações conceituais heterogêneas, tiveram limitada capacidade de produzir impacto sobre as instituições formadoras, no sentido de promover mudanças nas práticas dominantes do sistema de saúde, já que se não se conseguiu desafiar os atores para problematização de suas próprias práticas e do trabalho em equipe (BRASIL, 2004). Nesse mesmo sentido, Mancia, Cabral e Koerich (2004), ao problematizarem a educação permanente no contexto da saúde, afirmam que a crítica da prática de formação pouco relacionada ao contexto do trabalho evidencia-se com os Programas de Educação Continuada, caracterizados como treinamentos voltados à reciclagem do conhecimento. Nas palavras de Motta apud Mancia, Cabral e Koerich (2004), A Educação Continuada parte de uma lista de demandas individuais por treinamento, resultantes da avaliação de cada um sobre o que lhe falta ou deseja conhecer e que, muito freqüentemente, orienta as iniciativas de capacitação [...] Em outras palavras, a atualização é útil, mas não necessariamente tem o potencial de transformar as práticas nos serviços (MOTTA apud MANCIA, CABRAL E KOERICH, 2004, p. 606). A partir destas colocações, a Educação Continuada caracteriza-se pelo desenvolvimento de atividades de ensino após a graduação (atualização), possuindo uma duração definida e utilizando metodologias tradicionais. Ao comparar as duas modalidades de educação no trabalho - Continuada e Permanente, é possível identificar que não são conceitos opostos, mas que conferem especificidades ao processo de ensino aprendizagem. No entanto, sua terminologia vem sendo, há muito tempo, utilizada com significados similares. Com o objetivo de elucidar estes conceitos, Mancia, Cabral e Koerich (2004), pontuam as principais diferenças, considerando alguns aspectos-chave: Aspectos Educação Continuada (EC) Educação Permanente (EP) Público-Alvo Uniprofissional Inserção no mercado de Prática Autônoma Multiprofissional Prática Institucionalizada trabalho Enfoque Temas de especialidades Problemas de saúde Objetivo principal Atualização técnico-científica Transformação das práticas técnicas e sociais Periodicidade Esporádica Contínua Metodologia Pedagogia da transmissão Pedagogia centrada nas resoluções de problemas Resultados Apropriação Mudança Considerando os objetivos deste trabalho, os tópicos a seguir tratarão de abordar, mais especificamente, a Política de Educação Permanente, a qual é apresentada pelo Ministério da Saúde como uma estratégia de reestruturação dos serviços, a partir da análise dos determinantes sociais e econômicos e, sobretudo, de valores e conceitos dos profissionais. Para tanto, cabe inicialmente compreender o papel da educação na construção deste novo modelo, no qual ensinar e aprender fazem parte de um mesmo processo, onde os papéis de educador e educando se articulam, numa relação complementar. 4.2 Educação como eixo estruturante do processo de trabalho na saúde Ao buscar conhecer e analisar a formação dos profissionais que atuam no SUS, a partir de seu cotidiano, parte-se do pressuposto de que saúde e educação estão estreitamente imbricadas com o processo de trabalho. De acordo com o referencial de Heller (1987), a idéia de trabalho pode ser levada tanto como uma atividade necessária para a reprodução do particular em torno do qual se organizam outras atividades cotidianas e relações interpessoais e também como uma objetivação, na medida em que o homem particular exterioriza-se como sujeito social através de seu trabalho, desenvolvendo suas capacidades humanas. Segundo Freire (1996), a educação funciona como um elo na libertação dos homens, possibilitando-lhes a construção da autonomia coletiva, não como uma alavanca que transforma a realidade por si mesma, mas constitui-se num instrumento de ação crítica e criativa. Nesse sentido, entende-se que os profissionais da saúde comprometem-se com a libertação na medida em que buscam, juntamente como os outros indivíduos, refletir a situação vigente e experimentar ações alternativas que sirvam de resposta às necessidades percebidas. “Educação exige uma co-participação no ato de compreender a significação do significado, pois ela é comunicação, diálogo, na medida em que não é transferência de saber” (FREIRE, 1996, p, 47). Em consonância com Freire, Kleba (1999) alerta que é preciso que todos assumam a condição de aprendizes, buscando compreender as tramas do poder que dominam as relações existentes, das quais o serviço de saúde é referência. A unidade básica de saúde pode ser este espaço de educação, onde os indivíduos descubram-se com o poder e com a força para reagir. Poder de pensar, de querer, de conhecer, de resistir, de criticar, de lutar, de intervir, de criar e transformar. É necessário que os homens assumam sua condição de sujeitos na criação e na construção de sua libertação. Saúde e educação têm um ponto comum nessa possibilidade: aprender a SER [...] (KLEBA, 1999, p. 132). Freire, em uma de suas grandes obras “Pedagogia da Autonomia”, defende a idéia de que aprender não é engolir conhecimentos alheios, mas perceber a própria situação de vida como problema e a solução deste problema através da reflexão e ação. Ensinar é então não emitir respostas prontas, mas formular perguntas, provocando o aprendiz para a autodeterminação. A partir disso, o autor acredita que o dever ético do educador é assumindo frente aos educandos seu sonho ou utopia, respeitar as diferenças de opinião, de idéias, de posição, o que define como “respeito á autonomia do ser educando” (FREIRE, 1996, p. 59). Neste processo, o diálogo é imprescindível, pois, sem diálogo não há comunicação e sem comunicação não pode haver formação real. Assim, o diálogo deve ser proposto como convite à participação, favorecimento e instrumentalização. O diálogo implica aprender o saber do outro, dispondo o próprio saber. Nesta troca deve haver o respeito pelo saber do outro, pois a busca conjunta enriquece o entendimento e amplia o potencial de ação na efetivação da cidadania. Buscar conjuntamente significa participação e envolvimento de todos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) defende que as pessoas além de terem o direito à igualdade na assistência e no acesso ás informações, também podem e devem participar neste processo. Participar implica definir, reconhecer e formular suas necessidades, analisando-as de forma crítica e construtiva, tanto de forma individual como coletiva. Nesse sentido, a participação efetiva implica responsabilizar-se na construção do novo, buscando superar as relações de dominação e alienação, e não apenas reivindicar o acesso já constituído. Nesse mesmo sentido, a educação libertadora proposta por Freire tem como estratégia e como meta à mobilização, organização e capacitação de pessoas para o exercício do poder, que vai se conquistando no processo reflexão-ação. O saber é então sistematizado com um saber-fazer, como uma compreensão experimentada. Para Freire (1987), a prática educativa é a chave da transformação, o elemento fundamental no processo de resgate da liberdade, pois, desenvolve experiências estimuladoras da decisão de responsabilidade, e se constitui enquanto exercício constante em favor da produção e do desenvolvimento da autonomia. Buscando articular estes pressupostos teóricos com as práticas em saúde, Kleba (1999) afirma: [...] a participação social na conformação do SUS pode se constituir num processo de empoderamento, no qual os indivíduos, grupos, instituições e estruturas sociais transformam e são transformados numa relação dinâmica e interdependente. Neste processo os sujeitos têm seu poder de apreensão, reflexão e intervenção sobre a realidade, fortalecidos através de seu engajamento, comprometimento e coresponsabilização de vida e de saúde, compreendendo limites e possibilidades inerentes ao processo, aprendendo a utilizar novas formas de intervenção que garantam resultados mais positivos (KLEBA, 1999, p. 263). Ao destacar a responsabilização dos sujeitos como parte no processo de fortalecimento da política de educação em saúde objetiva-se, por um lado, que cada profissional se sinta responsável em prestar o melhor atendimento possível e, por outro, os cidadãos tornem-se protagonistas no processo de cuidado, abandonando as atitudes passivas com relação a sua própria saúde. Nesse sentido, acredita-se que, a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde, enquanto social e histórica, deva ser essencialmente mediadora na relação entre as classes, na relação entre os projetos políticos, na relação com o saber, poder, com as diferentes ideologias. Assim, para uma melhor compreensão, torna-se necessário aprofundar este conceito, bem como o novo papel que assume junto ao Sistema de Único de Saúde. 4.3 Implementação da Política Nacional de Educação Permanente A instituição da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS), aprovada pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS), em 4 de setembro de 2003 e aprovada pela Portaria 198/GM/MS, de 13 de fevereiro de 2004, correspondeu a uma tentativa de se criar uma política de educação no âmbito do SUS que não apenas integrasse todas as iniciativas existentes, mas se constituísse, ela própria, o eixo transformador do sistema no que diz respeito à articulação entre educação e saúde. Nesse sentido, constitui-se numa grande iniciativa de mudança nas políticas de recursos humanos e, conseqüentemente, num dos valiosos instrumentos que ajudam a consolidar o SUS. A mudança proposta nas políticas de RH vem acompanhada da criação da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES), dentro do Ministério da Saúde, que passa a tratar especificamente da gestão dos recursos humanos na dimensão do trabalho e da educação na saúde. Para Mancia, Cabral e Koerich (2004), esta Secretaria passa a ser o principal instrumento federal para mobilizar a formação e a educação permanente no setor da saúde e para propor o planejamento e a formulação de políticas de gestão e regulação da força de trabalho atuante nos serviços de saúde. Como eixo estruturante desta Política, o MS criou o Departamento de Gestão e da Regulação do Trabalho em Saúde (DEGERTS). Enquanto estrutura da Secretaria da Gestão do Trabalho e da Educação em Saúde (SGTES), este departamento é responsável pelo incentivo, acompanhamento e elaboração de políticas de gestão e planejamento e regulação do trabalho em saúde, em todo o território nacional. Cabe a esse departamento, também, a negociação do trabalho em saúde junto aos segmentos do governo e dos trabalhadores, no que se refere à gestão, à regulação e à regulamentação do trabalho, visando estruturar uma efetiva política de gestão do trabalho nas esferas federal, estadual e municipal, envolvendo os setores público e privado que compõem o SUS, contribuindo para a melhoria e humanização do atendimento de seus usuários (BRASIL, 2004). Também ligada a SGTES, tem-se o Departamento de Gestão da Educação na Saúde (DEGES). O DEGES é organizado em três coordenações gerais: Ações Estratégicas em Educação na Saúde (educação superior em saúde), Ações Técnicas em Educação na Saúde (educação técnica em saúde) e Ações Populares de Educação em Saúde (educação popular em saúde). A articulação das especificidades destes três campos é feita por meio de alguns eixos fundamentais: relação educação trabalho, mudança nas políticas de formação e nas práticas de saúde, produção e disseminação do conhecimento (BRASIL, 2004). Para Mancia, Cabral e Koerich (2004), a criação de um setor voltado, especificamente à educação e formação de recursos humanos, dentro do MS se deu a partir da constatação de que o padrão de capacitação, desenvolvido pelo modelo de Educação Continuada, era praticado de forma fragmentada, voltando-se apenas para a formação técnica-científica, “[...] utilizando-se da pedagogia da transmissão e memorização de conhecimentos, o que contribui para a reprodução de modelos hegemônicos, ao invés de favorecer mudanças significativas nas práticas [...]” (MANCIA, CABRAL e KOERICH, 2004, p. 608). A partir deste contexto, passa-se a entender que para avançar na consolidação do SUS não basta que os gestores organizem um pacote de cursos ou programas, mas é necessário possibilitar que a formulação da política ocorra mediante espaços que aproximem a gestão descentralizada do SUS, visando o desenvolvimento da atenção integral e o fortalecimento da participação popular, enquanto poder deliberativo. Com vistas ao pleno funcionamento e efetivação da Política de Educação Permanente, o Ministério da Saúde (MS), na Portaria que institui a nova proposta, dispõe em seu artigo 1°, que cabe aos Pólos de Educação Permanente, enquanto instância interinstitucional e locorregional/roda de gestão, constituir-se em um segmento articulador na formulação de políticas voltadas para o desenvolvimento de recursos humanos. Assim, os Pólos são criados com o objetivo de constituir-se em “espaços de planejamento, gerenciamento e apoio, cujo papel é transformar as diretrizes gerais da política de educação em saúde em iniciativas práticas que retratem a realidade local” (BRASIL, 2004, p. 11). Na relação entre ensino e sistema de saúde encontra-se a noção de gestão colegiada (Roda de Gestão), que coloca todos como participantes de uma operação conjunta em que todos usufruem o protagonismo e a produção coletiva (Anexo II, Portaria 198/GMS/MS, p. 3). Isto significa que, dentro do colegiado de gestão, todas as instituições têm o poder igual e que cada parceiro do Pólo deve reorientar as iniciativas de formação e desenvolvimento para que possam integrar a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde. (BRASIL, 2004). Para melhor entender esta proposta, cabe elucidar alguns de seus principais conceitos e pressupostos, os quais colocam a PNEPS como uma nova estratégia para a formação e desenvolvimento para o SUS. 4.4 Educação Permanente como nova estratégia de formação e desenvolvimento para o SUS A Política de Educação Permanente no SUS encontra o desafio de constituir-se como recurso estruturante para o fortalecimento do SUS, colocando-se como uma estratégia mobilizadora de recursos e poderes. Ao colocar em evidência a formação e o desenvolvimento para o SUS, a educação permanente propõe a agregação entre desenvolvimento individual e institucional, entre serviços e gestão setorial, entre atenção e controle social (BRASIL, 2004). Ou seja, é uma proposta que objetiva transformar a organização dos serviços e dos processos formativos, as práticas de saúde e as práticas educativas em trabalho articulado no sistema de saúde. A idéia é usar a educação permanente para melhorar a formação e, conseqüentemente, fortalecer o SUS. A Educação Permanente parte do pressuposto de que a transformação das práticas profissionais deve estar baseada na reflexão crítica sobre as práticas reais dos profissionais em ação na rede de serviços, onde aprender e ensinar se incorporam ao cotidiano das organizações e trabalho. Baseado nesse pressuposto, os processos de formação dos trabalhadores da saúde não podem ser construídos isoladamente em níveis centrais, mas devem tomar como referência às necessidades de saúde das pessoas e das populações, da gestão setorial e do controle social em saúde, envolvendo os diversos segmentos e atores. O objetivo é estruturar as práticas profissionais a partir da problematização do próprio processo de organização do trabalho, a partir de seu cotidiano, considerando os conhecimentos e as experiências que as pessoas já têm, com o intuito final de prestar serviços relevantes e de qualidade (BRASIL, 2004). Ramos (1999) afirma que o processo de trabalho de educação em saúde, concebido como integrante do processo de transformação do cidadão e do homem genérico, deve ter a práxis humana como objeto, ou seja, a articulação da reflexão/ação na vida cotidiana. Cotidiano que é prático, concreto, material, mas também é idéia, sensação, reflexão. Cotidiano que mesmo contraditório e mesmo impondo limites ao homem não pode nunca ser excluído, porque é nele que se realiza o homem através dele pode o homem desenvolver-se enquanto indivíduo genérico (RAMOS, 1999, p. 35). Surge aqui a necessidade de uma melhor conceituação do termo práxis e de como ele emerge no processo de trabalho de educação em saúde. De acordo com Vasquez apud Ramos (1999), práxis é a ação humana ou atividade concreta e transformadora sobre a natureza, sobre os produtos materiais e sobre o próprio homem “como atividade consciente e objetivante, a práxis se diferencia de qualquer atividade prática geral pelo seu caráter simultaneamente objetivo e subjetivo, ou seja, por ser atividade teórico-prática, realização guiada pela consciência [...]” (VASQUEZ apud RAMOS 1999, p. 56). A partir deste referencial teórico percebe-se a importância de estudar mais a práxis cotidiana, os modos de produção de subjetividade, tanto dos profissionais como cidadãos, grupos e comunidades a que se destina o trabalho em saúde, a fim de criar novas estratégias e instrumentos de trabalho, voltados para a construção de práticas educativas orientadas para o compromisso social. 4.5 Produção de subjetividade X construção de práticas educativas Pensar que o sujeito é constituído subjetivamente é a única maneira de representar, na integridade de suas ações, a multiplicidade de sentidos subjetivos que o definem como sujeito social e pessoal. De acordo com González Rey (2004), a categoria sentido permite visualizar a especificidade humana e incorporar um atributo social: o caráter subjetivo dos processos grupais. Com isso, se enfraquece a dicotomia objetivo-subjetivo, a qual está intrinsecamente ligada à dicotomia interno-externo. A subjetividade não se substancializa em atributos universais, mas representa uma produção de sentidos inseparável do contexto e das formas de organização social, tanto dos processos macrossociais como dos microssociais. Ou seja, é entendida como uma qualidade dos sistemas humanos produzidos culturalmente. Gonzàlez Rey (2004) acrescenta ainda, que “a subjetividade não é um sistema racional” (p. 130), pois sua organização e desenvolvimento não estão subordinados à razão humana, embora se expressem nela e por ela sejam influenciados. Na realidade, as posições racionais do ser humano são produções de sentido, na medida que se organizam nas necessidades e interesses dominantes em sua cultura, oriundos de um espaço e tempo na história. Por esta ser uma característica do funcionamento humano, muitas vezes pode ser fonte de conflitos, pois, os valores não são iguais para cada nação, grupo social, família ou pessoa que se situe em culturas diferentes. Em cada cultura há uma produção de sentidos socialmente compartilhada e institucionalizada. Assim, criar um caminho de integração entre os grupos humanos em conflito não é uma tarefa fácil. Requer uma nova produção de sentidos, que só será possível através de grupos de diálogos, que reconhecendo seus valores e crenças, sejam capazes de elaborar novas opções e assim construir novas representações coletivas, de acordo com este novo contexto. Como afirma o autor: A subjetividade como produção de sentido estimula forças de racionalidade que facilitam assumir e compartilhar as produções de sentido em uma cultura. Essas racionalidades adquirem forma em sistemas jurídicos e morais em todo o sistema normativo elaborado pela sociedade e por suas instituições. Por trás desses sistemas normativos, existem sistemas de sentido subjetivo, não só de caráter jurídico, mas também político e ideológico (GONZÁLEZ REY, 2004, p.133). O conhecimento de uma configuração de sentidos e o que ele significa com relação ao sujeito que o produz, tem múltiplas implicações para o conhecimento dos espaços sociais nos quais este sujeito transita. Assim, o sentido subjetivo expressa a condição vital das pessoas. O processo de configuração do sentido subjetivo é um processo histórico, mediato, onde o comportamento é o resultado de uma evolução de elementos diferentes, os quais se constituem na relação com a experiência do sujeito e sua história de vida. Em consonância com o autor acima citado, Ramos (1999) afirma que a análise das práticas educativas em saúde deve ser feita a partir do encontro dos sujeitos no processo de relações interpessoais, onde os profissionais e a população se percebem nas suas marcas pessoais, suas diversidades, suas histórias de vida, seu cotidiano. A partir disso, é que se pode problematizar práticas, construir novos conceitos e planejar conjuntamente ações em saúde que venham referenciar o saber e o fazer coletivo. 4.6 O conceito de Saúde e suas implicações para as práticas psicológicas Durante muito tempo, a saúde foi entendida como ausência de doenças físicas e mentais, sendo garantida, enquanto assistência médica, pelo serviço privado. A Psicologia, enquanto ciência e profissão, também reproduziu em suas práticas uma perspectiva individualizante e patológica, concebendo a saúde estritamente em sua dimensão biológica. De acordo com Traverso-Yépez (2001), o modelo biomédico mostrava-se totalmente funcional para as necessidades do sistema socioeconômico vigente, condicionando uma visão individualista, fragmentada e descontextualizada dos comportamentos humanos relacionados à saúde e à doença. O “Movimento Sanitário” fez com que vários profissionais se unissem, de forma mais organizada e sistematizada, para formular uma proposta de reorientação do sistema, o que, conseqüentemente, implicaria numa mudança acerca do conceito de saúde-doença. A implantação do Sistema Único de Saúde, decorrente da Reforma Sanitária, após ampla discussão e participação popular, veio a acarretar uma série de discussões tanto no âmbito epistemológico quanto no metodológico sobre a saúde pública. Foi nesse contexto que se reconheceu, como profissionais de saúde de nível superior, além dos médicos e enfermeiros, os assistentes sociais, os biólogos, os profissionais de educação física, os farmacêuticos, os fisioterapeutas, os fonoaudiólogos, os veterinários, os nutricionistas, os odontólogos, os terapeutas ocupacionais e os psicólogos. No caso concreto da psicologia, observa-se que a partir deste momento, luta para definir um papel mais amplo na área da intervenção em saúde, voltando-se mais aos problemas vinculados com o desenvolvimento da saúde humana, do que com a doença. Com o desenvolvimento da psicologia da saúde, o trabalho do psicólogo nesta esfera expressou maior ênfase na característica social em suas diferentes formas de intervenção profissional. Nesse sentido, a Psicologia entra na problematização à medida que saúde passa a ser relacionada não só como algo para todos, mas como produção de vida, que pode ser entendida por condições físicas, psicológicas e sociais, ou seja, os aspectos orgânicos, comportamentais e sociais constitutivos da forma de objetivar o ser humano em um ser biopsicossocial (MEDEIROS et al., 2005). De acordo com as proposições do SUS, a saúde passa a ser um direito do cidadão e dever do Estado. De acordo com Medeiros (2005), [...] saúde como uma questão integral; saúde não mais como ausência de doença, mas como uma questão plural; saúde como uma questão coletiva, não pública, à medida que o público remetia a modelos de programas assistencialistas da década de 1960 e 1970; saúde a partir de dados epidemiológicos construídos com a população, e não mais baseada em dados mercadológicos (MEDEIROS et al., 2005, p. 265). O conceito de saúde presente no SUS remete a idéia de bem-estar que implica uma perspectiva regida pela coletividade, fruto do controle social e de uma concepção não individualizada do adoecer. Assim, a saúde passa a ser vista de uma forma mais ampla, como “qualidade de vida”. Qualidade que depende não apenas de questões biológicas, mas também assume o efeito das condições coletivas da existência, resultado do estilo de vida que levamos e das condições sociais, históricas, econômicas e ambientais em que vivemos, trabalhamos, nos relacionamos e pensamos em nosso futuro (BRASIL, 2004). A idéia de conceito de saúde ampliado tira o foco da doença que a pessoa tem para a pessoa que corre o risco de adoecer, para os modos como ela adoece e para a realidade em que ela vive. De acordo com Kleba (2005), “saúde é sinônimo de direito e de dever social” (p. 21). Saúde não é um estado, é um processo, à medida que é entendida como expressão do movimento humano para um projeto de vida, o que implica assumir responsabilidade pela vida. Assim, saúde significa refletir criticamente, ser criativo, inserir-se ativamente nos processos sociais e lutar por objetivos individuais e coletivos.Para Illich apud Kleba (2005, p. 28), A ‘saúde’ expressa tanto o agir ético quanto político. De uma certa forma, a saúde de uma população depende tanto de como a administração política organiza tanto a utilização do meio ambiente quanto a produção das condições que promovem a autoconfiança, a autonomia e a dignidade humana para todos – principalmente os mais fragilizados socialmente. O nível de saúde será, portanto, tanto melhor onde o meio (social e físico) proporcionar às pessoas a capacidade de enfrentar com autonomia e responsabilidade as condições adversas da vida. O nível de saúde será, por outro lado, tanto mais insatisfatório, onde a sobrevivência das pessoas for levada a depender essencialmente de regras decidida por outros. Desse modo, ao estudar o tema saúde enquanto processo, entende-se que os serviços de saúde necessitam não apenas de extensão de cobertura, mas principalmente, de transformação das relações sociais que nele se estabelecem. O desenvolvimento de um sistema de saúde reflete não apenas as conquistas científicas ou a realidade econômica de uma sociedade, mas também a capacidade de organização e pressão e as conquistas de seus grupos organizados. A saúde requer ações integradoras das diferentes políticas públicas e uma participação efetiva dos indivíduos, grupos e organização na decisão, implementação e controle destas políticas. E é dentro destes espaços de discussão, elaboração de estratégias e construção de saberes que o profissional da Psicologia pode e deve inserir-se. (RAMOS, 1999). Traverso-Yépez (2001), defende a idéia de que é necessário superar a visão antropocêntrica e individualista ainda presente no modelo vigente, acreditando que “[...] o agir do profissional de saúde deveria ser forçosamente mais humilde, baseado na escuta, no diálogo e não na imposição de ‘receitas’ [...]” (p. 7). Conscientes de que não existem comportamentos ou ações separadas das relações e valorações que as pessoas fazem de suas condições de existência, este mesmo autor acredita que a partir de um referencial teórico fornecido pela psicologia social crítica, é impossível deixar de considerar, junto com as pessoas implicadas (profissionais incluídos), o universo simbólico que está permeando esses comportamentos e a relevância de que os próprios agentes sociais envolvidos “construam” criticamente suas próprias alternativas. Ou seja, destaca-se a relevância do simbólico relacionado às práticas de saúde, bem como o reconhecimento da necessidade de estabelecer formas horizontais de intercâmbio tanto, entre os membros da equipe de profissionais, como na relação profissional/paciente-usuário do serviço (TRAVERSO-YÉPEZ, 2001, p. 7). Nesse sentido, acredita-se que pensar a atuação da Psicologia implica uma revisão crítica do desenvolvimento dos processos de significação relacionados à saúde-doença, bem como com a formação profissional e a própria estruturação da saúde pública e dos modelos assistenciais implementados ao longo de sua história. Pressupõe ainda uma posição de permanente autocrítica sobre a nossa participação como profissionais nesses processos. 5 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Toda metodologia nas ciências sociais implica em uma série de pressupostos de ordem teórica que diz respeito à natureza da sociedade – aspecto sociológico-, às facilidades e dificuldades de obter conhecimento desta sociedade – aspecto epistemológico, e às formas de como este conhecimento pode ser adquirido - aspecto metodológico. É a este último aspecto que faço referência. A pesquisa qualitativa se configurou como o método escolhido para análise dos dados. Para Patton apud Alves-Mazzotti e Gewandsznajder (2001) os estudos qualitativos podem descrever a complexidade de determinado problema e a interação das variáveis, compreendendo e classificando os processos dinâmicos vividos por grupos sociais, e assim contribuir no processo de mudança por meio do entendimento das particularidades dos indivíduos. Nesse sentido, buscou-se através da análise das falas dos trabalhadores do SUS, mediante o contato direto e interativo da pesquisadora, conhecê-los melhor e compreender como são construídos os sentidos sobre sua formação, a partir do exercício de seu trabalho, em seu cotidiano. A realização da presente pesquisa deu-se, primeiramente, por um levantamento bibliográfico, em diversas fontes, abrangendo bibliografias já tornadas públicas em relação ao tema de estudo, desde publicações, livros, revistas, monografias, teses, sites, etc. Num segundo momento, para fim de coleta de dados, foi feita análise documental de alguns arquivos/documentos da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) do município de Chapecó (SC), bem como algumas conversas informais junto aos profissionais que atuam no Setor de Recursos Humanos, da SMS, e com a coordenadora do Pólo de Educação Permanente do município. Posterior à análise documental, optou-se em realizar entrevistas, não diretivas, as quais foram gravadas mediante consentimento, e depois transcritas literalmente. As perguntas foram formuladas de acordo com os objetivos do trabalho, e direcionadas à Direção Geral, Secretário e Coordenações (Enfermagem, Medicina, Programa Saúde Família -PSF, Saúde Bucal, Vigilância Sanitária e Epidemiológica, Auditoria e Controle de Avaliação) da Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Além das informações obtidas junto aos gestores da SMS, considerei imprescindível conhecer a realidade junto aos profissionais que atuam nas Unidades Básicas de Saúde. Como amostra da pesquisa, das 24 unidades básicas de saúde do município, foram selecionadas 10, contemplando alguns critérios: localização geográfica (rural, urbano-central e urbanoperiférico), número de usuários, número de categorias profissionais que atuam na unidade e complexidade do atendimento(centro de especialidades (saúde mental infantil e adulta), saúde da família (PSF) e centro integrado de saúde (CI). Junto às UBS, foram aplicados questionários, construídos por uma série de perguntas ordenadas e abertas. A amostra da presente pesquisa contemplou 118, do total de 925 servidores3, considerando 14 categorias profissionais: agente comunitário de saúde (40), enfermeiro (16), médico (10), atendente de consultório dentário (03), auxiliar administrativo (04), auxiliar de serviços internos (01), auxiliar de enfermagem (19), dentista (04), técnico em enfermagem (02), fonoaudiólogo (01), psicólogo (04), psicopedagogo (02), terapeuta ocupacional (02), assistente social (01). Nove (09) questionários não identificaram a categoria profissional. Além dos profissionais que fazem parte do quadro permanente de servidores, foram incluídas na amostra categorias profissionais que abrangem os cargos comissionados e contratos temporários. Sendo orientada pelos objetivos do estudo e as teorias adotadas, os dados coletados foram selecionados e separados por unidades de análise (categorias), considerando a análise do conteúdo como enfoque escolhido. Os recortes utilizados seguiram temáticas, o que levou ao uso de sentenças, frases e parágrafos, como forma de se criar um processo dinâmico centrado ora na mensagem explícita, ora nas significações não aparentes. Para tanto, foram criadas catorze categorias: Organização dos serviços de saúde no município; Conceito de saúde pública; Política Nacional de Educação Permanente em Saúde - PNEPS (estrutura e funcionamento); Programas e projetos desenvolvidos; Atividades de formação (assuntos e práticas abordados); Participação; Planejamento; Recursos e investimentos; Avaliação das atividades; Relação das atividades de formação com as demandas dos usuários; Relação das atividades de formação com a PNEPS; Contribuições do Psicólogo; Limitações, possibilidades, sugestões; Iniciativas. As categorias abarcaram um número variável de temas, segundo um grau de proximidade, e que possibilitaram através de sua análise a apreensão de significados, construir elaborações importantes que atendam aos objetivos desta pesquisa. 3 Dados obtidos junto ao setor de Recursos Humanos, da SMS, do município de Chapecó-SC, no dia 21/11/2006. 6 RESULTADOS E DISCUSSÃO O SUS – Sistema Único de Saúde, consolidou-se como a maior política de inclusão social do país, com o firme propósito de assegurar a cobertura universal e equânime da proteção, promoção e recuperação da saúde das populações. Com a proposta de trabalhar de forma multiprofissional e interdisciplinar, seus princípios fundamentais propõem o rompimento com o conceito clássico de doença, compreendendo a saúde como a expressão do movimento humano para um projeto de vida, o que implica assumir responsabilidade por ela. No entanto, tais princípios têm encontrado limitações para se concretizarem na prática, o que acaba suscitando críticas por não ser um sistema adequado às necessidades da população brasileira. A discussão sobre um modelo ideal para fundamentar a organização da assistência à saúde é antiga, e ainda hoje se faz muito pertinente na conjuntura sócio, política, econômica e cultural em que vivemos. O avanço na descentralização do SUS, as exigências crescentes de produtividade e de qualidade, em um contexto de mercado de trabalho instável e flexível, indica uma série de novas atribuições e responsabilidades aos gestores e a necessidade de formar profissionais qualificados para garantir a qualidade da atenção à saúde. Ao mesmo tempo, os novos enfoques teóricos e de produção tecnológica, no campo da saúde, passaram a exigir novos perfis profissionais. Isso tem tornado cada vez mais generalizada a implantação de modelos de formação e de gestão da força de trabalho, baseados em habilidades e competências profissionais. A necessidade de treinamento e capacitação permanente das equipes básicas e de apoio frente às diferentes demandas que surgem, passou a exigir que a rede de saúde pública buscasse metodologias e tecnologias que favoreçam a formação do profissional sem a interrupção da prestação de serviço ao cidadão. Desse modo, a formação em serviço surge como alternativa metodológica para que as ações sejam implementadas de forma descentralizada, em compatibilidade com as redes físicas disponíveis nos municípios e com aproveitamento do potencial existente no SUS. Nesse sentido, a SMS do município de Chapecó tem desenvolvido atividades de formação que fazem parte de projetos e programas orientados para a formação e desenvolvimento dos profissionais que atuam em sua rede pública de saúde. A seguir, serão apresentados os dados coletados juntos aos profissionais (gestores e servidores das unidades de saúde), que atuam no SUS, onde busco pontuar os principais achados da pesquisa, com vistas a problematizar, em forma de análise, como estes constroem, a partir de seu cotidiano, os sentidos em relação a sua formação. A fim de garantir o anonimato dos entrevistados, serão usadas para identificação as nomenclaturas “gestor”, tanto para os entrevistados do sexo feminino como masculino, acrescidos de símbolos numéricos, como forma de diferenciá-los. 6.1 Programas, projetos e investimentos Formação em Serviço é um termo utilizado, no âmbito da saúde, para designar a formação e desenvolvimento dos profissionais que atuam no SUS, considerando inovações no processo de trabalho, não só pela qualificação técnica, mas também pedagógica, gerencial, humanística ética e política. De acordo com o gestor 4, “a formação em serviço é uma forma de rever e aperfeiçoar a técnica, treinar, reciclar para melhor atender o usuário”. Percebe-se nesta colocação que o conceito de formação remete-se ainda a um modelo baseado na Educação Continuada, tendo como principal finalidade a atualização de conhecimentos específicos, a apropriação de conteúdos, principalmente técnicos. Assim, a transformação das práticas passa a ser mera conseqüência e não objetivo maior para as atividades de formação. Ligados à SMS, dois segmentos são de suma importância para a realização destas atividades: o setor de Recursos Humanos (RH) e o Pólo de Educação Permanente. O setor de Recursos Humanos é responsável dentro da SMS pela execução de ações burocráticas, “funcionando como um suporte entre as coordenações no levantamento de necessidades e desenvolvimento de atividades de capacitação das diversas áreas técnicas e administrativas do serviço de saúde” (gestor 8). Nos últimos anos - 2005 a 2007, período de administração da atual gestão, este setor tem sido protagonista de algumas atividades de formação: Qualidade de atendimento e motivação – direcionado aos auxiliares de enfermagem, administrativo, agentes comunitário de saúde, enfermeiros(as), médicos (as) e coordenações; Liderança – para os coordenadores e gestores. Além destes, outros encaminhamentos vindos das coordenações da SMS passam pelo setor. De maneira geral, percebe-se que dentro do âmbito da saúde, a área de RH tem seu funcionamento mais direcionado para aspectos burocráticos e rotineiros dos serviços – o que o caracteriza como um departamento pessoal, do que ao desenvolvimento humano – voltado à gestão de pessoas. De acordo com o gestor 8, “atualmente o setor de RH não tem atuado efetivamente na elaboração de propostas para a formação, bem como no acompanhamento das atividades que estão sendo desenvolvidas junto à Secretaria. Não se tem uma pessoa responsável e qualificada para isso, o que acaba prejudicando”. Pode-se perceber nesta afirmativa o quanto este setor tem limitada atuação na problematização das relações de trabalho em saúde. A partir da proposta da Política Nacional de Educação Permanente, acredita-se que pensar a formação e desenvolvimento humano não inclui somente trabalhar com o que está dado, mas exige incentivo, planejamento, produção e avaliação destas atividades. Além disso, pensar recursos humanos na dimensão da educação requer ações que favoreçam a articulação intersetorial, através do trabalho multiprofissional e interdisciplinar com vistas a desnaturalizar práticas dominantes. O resultado de tal iniciativa implica uma maior comunicação entre os diversos protagonistas da saúde, dando a importância necessária a ações educativas voltadas à valorização profissional. De acordo com o gestor 2, as verbas do governo federal e estadual são repassadas diretamente para o Fundo Municipal de Saúde. O Ministério da Saúde repassa recursos para todas as ações do setor, para fazer frente ao serviço. O município entra, em contrapartida, com a equipe profissional. “O recurso vem para fazer saúde pública e não como recurso carimbado para determinada ação em específico, por exemplo, as atividades de formação” (gestor 2). Dentro do valor repassado - que é um valor “X”, a secretaria e coordenações podem fazer as ações que acharem pertinentes: investir em formação profissional, pagar profissionais, comprar medicamentos, manter as equipes e suprir despesas que forem necessárias. Ao questionar a avaliação dos recursos oriundos das três esferas governamentais, a grande maioria considera que é insuficiente para atender a demanda existente. De acordo com o gestor 3, a população que busca o serviço público aumentou significativamente, devido às baixas condições financeiras, conseqüência do desemprego. De acordo com a Ementa Constitucional de 29 de 1990, que fala sobre os investimentos em saúde, o município deve investir 15% na Saúde, o Estado 12% e o Ministério 9%. Para o gestor 2, em relação à saúde, há uma grande deficiência no repasse de verbas que cabe ao Estado: “percebe-se que o governo federal faz um bom financiamento do sistema, o município coloca muito além do que deveria. Dessa forma, o dinheiro que vem é insuficiente para planejar ações de formação: na maior parte das vezes cobre o pagamento dos funcionários e despesas de água, luz, telefone, medicamentos, exames, e toda a alta e média complexidade”. Nesse mesmo sentido, o gestor 3, avalia que o Estado deixa a desejar não só no repasse das verbas mas, também, no acompanhamento das equipes: “parece que perdeu o interesse em continuar os projetos de educação permanente. Em alguns casos, as equipes são implantadas e não tem ninguém que acompanhe o desenvolvimento da equipe (gestor 3). O que se coloca em pauta aqui, não diz respeito somente ao montante de recursos, mas a forma como se tem investido tal recurso. Considerado insuficiente pela maioria dos gestores entrevistados, diante das grandes e diversificadas demandas, os investimentos têm sido destinados a ações que vêm suprir emergências, de cunho mais imediatista, consideradas como prioridades pelas UBS. Não se trata de desconsiderar tal preocupação, tendo em vista que dados4 apontam que 80% da população do município tem buscado, junto ao sistema de saúde pública, a solução para suas problemáticas, sendo que estas se voltam, principalmente, a cura de patologias. O que os dados apontam e que merecem um olhar mais atento, é o pouco investimento, tanto em nível financeiro, como de incentivo à valorização humana, a partir da problematização da prática destes profissionais, o que vem repercutir diretamente no sentido que estes atribuem ao exercício de sua profissão. Por outro lado, percebe-se no discurso destes profissionais que o governo do Estado não tem assumido efetivamente seu compromisso, enquanto agência formadora de recursos humanos para a saúde. Sem funcionar como mediador do processo de articulação entre os distintos atores, bem como desempenhar seu papel na aproximação loco-regional, deixa de contribuir para que se produzam práticas inovadoras para o enfrentamento das problemáticas emergentes. 6.2 Participação e planejamento De acordo com os gestores entrevistados, todos os envolvidos com a saúde pública, que trabalham diretamente no atendimento às necessidades dos usuários, participam das atividades de formação em serviço oferecidas pelo poder público. No entanto, alguns entrevistados relatam a grande preocupação demonstrada pelo gestor das unidades para que o usuário não fique prejudicado quanto ao número e qualidade nos atendimentos, tendo em vista que as atividades de formação acontecem em horário de trabalho. A estratégia usada para que isso não aconteça é de capacitar gradativamente, sendo que as equipes, na maioria das vezes, são divididas em turmas, para não desfalcar o setor. Nestes casos, o grupo de pessoas que participa tem a incumbência de repassar as informações aos colegas de trabalho, como forma de multiplicar o conhecimento adquirido. Algumas categorias de profissionais costumam fazer encontros nas unidades para o repasse das informações e troca de experiências. De acordo com os dados obtidos através da aplicação de questionário junto aos servidores nas UBS, dos 118 participantes da pesquisa, apenas 11 relatam nunca ter participado das capacitações. Destes, 10 estão ligadas a unidades de atenção especializada (saúde mental e infantil) e 1 a Unidade da Saúde Família. Embora a Proposta da Política Nacional de Educação Permanente tenha como base a articulação intersetorial focada em um trabalho multiprofissional e interdisciplinar, percebe-se nas entrevistas que tais princípios têm encontrado limitações para se concretizarem na prática. Pode-se observar nos relatos que as atividades de formação em serviço dificilmente conseguem envolver diferentes categorias profissionais em uma mesma discussão. Se de um lado a estratégia de capacitar gradativamente tem contribuído para não fragilizar o cuidado à saúde, com um menor número de atendimentos, por outro, por se realizarem, muitas vezes de forma fragmentada e desarticulada, tem pouca capacidade de problematizar as práticas, principalmente o fazer coletivo, o que de fato acaba por corroborar para a fragilidade do cuidado à saúde. Neste mesmo sentido, questiona-se o repasse de informações dos profissionais que participam das atividades aos que não participam, enquanto objetiva a multiplicação do conhecimento. Percebe-se, através destes dados, que o processo de ensinoaprendizagem remete-se, em maior nível, para os pressupostos da Educação Continuada e não Permanente. As atividades de formação voltam-se às categorias uniprofissionais, de acordo com conhecimentos específicos a serem trabalhados. Como vimos no referencial teórico, a educação exige co-participação. Ou seja, pressupõe busca conjunta, troca de experiências, diálogo, como forma de enriquecer a compreensão da realidade e a partir de diferentes pontos de vista, planejar e elaborar propostas que dêem conta das problemáticas emergentes. Outro aspecto que merece relevância dentre os dados pontuados, refere-se a não inclusão dos centros de especialidades (CAPSI e CAPS) nas atividades de formação. Mesmo sendo considerados como políticas especificamente desenhadas para dar respostas a um determinado problema de saúde, ou os problemas de saúde que afligem um certo grupo 4 Dado obtido junto ao gestor 1, em 16/02/2007. populacional, estes centros apontam a necessidade de uma maior e melhor articulação com os demais serviços, tendo em vista que os encaminhamentos geralmente advêm das UBS. A partir disso, entende-se que a integralidade, enquanto objetivo da rede, nunca deve ser realizada totalmente apenas no esforço individual de cada profissional ou instituição, mas sim, na multiprofissionalidade, pelo compromisso dos profissionais. Para desenvolver práticas de atenção integral à saúde, é preciso falar em uma aproximação integral também entre todos os segmentos da rede e, não somente com os sujeitos que cuidam e os sujeitos que são cuidados. O questionário aplicado a diferentes categorias profissionais que atuam nas UBS, apontou na resposta da maioria dos participantes que as atividades de formação são pensadas/planejadas pela Secretaria Municipal de Saúde, especificamente pelas coordenações e direção. Dentre estas afirmações, a maioria relata não ter conhecimento de como são planejadas as atividades: “os diretores entram em contato um com o outro e planejam juntos, depois nos convocam”. Isso se confirma em outras respostas: “Ficamos sabendo com o convite sobre o que é a capacitação”; “já recebemos o cronograma pronto, com as datas e os temas escolhidos”. Constatou-se que apenas 18 participantes, cerca de 15% dos profissionais pesquisados afirmam ter participação no planejamento das atividades de formação. Este é um dado importante a ser considerado. Sendo definida em sua maioria pelos níveis centrais de gestão, as demandas de capacitação emergem de uma lista de necessidades individuais de atualizações. Embora abordem situações/problema do dia-a-dia, percebe-se que as atividades educativas são construídas de maneira desarticulada em relação á gestão, organização do sistema e, principalmente, ao controle social. Esse aspecto remete-se ao modelo de Educação Continuada, no qual o planejamento se dá de forma descendente. Ou seja, a partir de uma leitura geral dos problemas, identificam-se temas e conteúdos a serem trabalhados com os profissionais, geralmente sob o formato de cursos (BRASIL, 2004, p. 13). Neste sentido, desconsidera-se a análise coletiva dos processos de trabalho, a partir dos quais se identificam os nós críticos enfrentados na atenção ou na gestão. Tal aspecto inviabiliza a construção de estratégias contextualizadas que promovam diálogo entre as políticas gerais e a singularidade dos lugares e pessoas, pressuposto básico da Educação Permanente (BRASIL, 2004, p. 13). Falar em planejamento, relacionado ao contexto da saúde remete ao compromisso com a situação vigente, no sentido de conhecer, criticar, intervir para transformar as diretrizes gerais da política em iniciativas práticas. É nesse sentido, que ao analisar a política de governo, se problematiza a participação destes sujeitos, os quais podem e devem inserir-se mais pontualmente nas discussões. Através de um maior envolvimento os profissionais acabam por perceber sua própria situação de vida, ampliando o exercício do poder, o qual vai se configurando no processo de reflexão-ação. E é nesse processo que a participação torna-se um instrumento de emancipação e de auto-realização, pois possibilita aos sujeitos envolvidos a obtenção de informações do todo, o fortalecimento da auto-consciência e o desenvolvimento de habilidades de negociação e intervenção. Tal engajamento é necessário para o desenvolvimento da autonomia do sujeito, bem como, para o processo de auto-gestão do grupo e da instituição. Partindo dos pressupostos da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde entende-se que é a partir dos diferentes pontos de vista que se pode definir o que é preciso ensinar e aprender. Para tanto, torna-se necessário superar a hegemonia do agir isolado, exclusivista e auto-suficiente, conquistando e construindo espaços para o trabalho em equipe. 6.3 “Formar para melhor servir” – qual o sentido atribuído pelo servidor? Ao abordar diferentes temáticas, as atividades de formação em serviço buscam reciclar as diversas áreas, objetivando produzir conhecimento de como agir frente às situações adversas que acontecem em seu dia-a-dia. Assim, “formar para melhor servir” se configurou num dos principais objetivos destes encontros. Contudo, o sentido atribuído a estas atividades muda de profissional para profissional, de acordo com sua construção individual e coletiva. Embora seguindo um mesmo objetivo norteador, baseado numa proposta política, cada um, em sua forma de ser e de agir, expressa um modo singular de perceber e significar os fatos. De acordo com os gestores entrevistados, varia muito como cada profissional encara os convites e convocações para participar das atividades de formação. Afirmam que a maioria encara positivamente, considerando importante não só o momento da informação, da reciclagem, do aperfeiçoamento, do conhecimento, mas também o momento de se encontrar com outros colegas, de mudar um pouco a rotina de trabalho. “Os profissionais acabam se sentindo mais valorizados, pela oportunidade em estar conhecendo coisas novas” (gestor 6). Para o gestor 5, contraditoriamente aos que gostam, existem outros que não têm interesse em estar participando: “acham que são sempre as mesmas coisas, não aprendem nada de novo, vai lá e é só pra constar. Isso é o perfil de cada um, né! Não só como profissionais, mas como ser humano”. Em contrapartida, tem-se ainda a posição do próprio gestor da UBS e a postura do usuário diante da ausência do profissional na Unidade. Em alguns casos, os usuários encaram a saída do profissional como ociosidade de serviço. Essa postura acaba sendo reforçada pelo gestor, que acaba por não permitir que o profissional se ausente do trabalho “para não baixar a quantidade de atendimentos, para não parar o serviço” (gestor 6). Foi possível identificar nas respostas dos questionários, a intrínseca relação entre a participação no planejamento e o posterior envolvimento nas atividades de formação. Percebe-se que quando os temas são elaborados em conjunto com a equipe, de acordo com as demandas da categoria, como conseqüência a atividade tem mais bem alcançado os objetivos a que se propõe, com maior participação e envolvimento dos servidores, o que implica num resultado mais eficaz nas UBS. Partindo desta consideração, entende-se que colocar a não participação na atividade como uma característica da personalidade é anular todas as possibilidades de avaliação do processo de formação, tal como se dá. Pensar o desinteresse como algo próprio do sujeito é afirmá-lo ainda mais na sua passividade e alienação, não só no que se refere ao desenvolvimento profissional, mas também na construção da cidadania. Entendo que mesmo quando o trabalhador se abstém de defender, participar ou manter qualquer posição sobre o seu trabalho, ele também transmite na sua ação uma concepção sobre este trabalho. Pode ser que não tenha sido uma concepção refletida, construída, assumida, mas que possivelmente, foi assimilada a-criticamente e do mesmo modo está sendo reproduzida. De acordo com os referenciais teóricos estudados, cidadania implica participação, requer o sentimento de pertencimento, o desejo de contribuir para o processo de desenvolvimento político e social. Se os funcionários não têm a devida participação nas decisões e planejamento das ações, ou porque não são convidados ou porque não se sentem motivados para isto, não compreendem o significado da cidadania, participando, então de um processo de alienação. Ao questionar quais práticas do cotidiano são abordadas nas atividades de formação, a pesquisa constatou que, em sua maioria, são práticas direcionadas ao diagnóstico, medicação, tratamento e controle dos casos. Para tanto, os temas trabalhados durante os encontros referem-se à formação para o trabalho técnico, especialmente, para intervenções curativas, que visam resolver problemáticas já existentes. Através do cronograma de atividades de formação, desenvolvidas no período de 2005 a 2007, pode-se perceber que pouquíssimas respostas apontaram atividades ligadas às questões de desenvolvimento pessoal, voltadas à própria equipe de trabalho. Além disso, nota-se que, raras vezes foram desenvolvidas capacitações voltadas ao conhecimento e discussão das normas e regulamentos do SUS. A maioria dos gestores entrevistados acredita que a formação que os profissionais recebem atende hoje as necessidades dos usuários. Não só destacam o conhecimento do profissional na área técnica, para melhorar a assistência ao usuário como o crescimento e pessoal do próprio funcionário. De acordo com o gestor 2, o servidor não deve sentir-se apenas um servidor público, mas um servidor do público. “Servidor do público é estar comprometido para com as necessidades, carências e com as dificuldades de cada cidadão, que vai à unidade buscar ajuda, ou que como agente de saúde eu o abordo na sua residência” (gestor 2). Outros gestores, contraditoriamente, afirmam que a formação não é suficiente, pois deveria acontecer diariamente. “Além das atividades programadas deveriam dedicar um tempo para estudo das problemáticas vivenciadas, desenvolver coisas novas, dentro do próprio ambiente de trabalho” (gestor 5). Acrescentam ainda que poderia haver um melhor planejamento e instrumentalização das atividades. Ao perguntar aos servidores, nas UBS, se a formação em serviço lhe dá suporte para atender as diferentes demandas e necessidades dos usuários, 33,9% (40 servidores) afirmaram que sim, justificando que as atividades contemplam questões de interesse dos funcionários, abordando temas relacionados às atividades do dia-a-dia, “[...] as informações recebidas podem ser repassadas com maior segurança ao usuário que procura o atendimento, bem como proporciona uma maior resolutividade em cada unidade”. Nesse sentido, percebe-se que entende que as atividades vêm para qualificar o profissional, aperfeiçoando-o. Por outro lado, 20,33 % (24 servidores) colocam que as atividades são insuficientes, pois, focalizam muito no diagnóstico e no tratamento de patologias. De acordo com um dos participantes, “dissolve o sujeito em partes”. Outra colocação afirma que as atividades acontecem esporadicamente, ou seja, “são poucas, se considerar as diferentes demandas existentes”. Em sua maioria, 45,78 % - 54 respostas, afirmam que a formação lhe dá suporte em parte para atender as diferentes demandas e necessidades dos usuários. Embora coloquem que tem contribuído, estes trabalhadores pontuam que muitas das orientações não conseguem resolver o problema, rotineiramente estão um pouco desfocadas, às vezes, são superficiais, “os temas não aparecem ligados com a realidade da unidade”, “[...] falta relacionar com as demandas do dia-a-dia”. Alguns salientam que as atividades deveriam acontecer com mais freqüência, junto com as diferentes categorias de profissionais: “muitas vezes não sabemos como orientar o paciente pelo fato de que os assuntos que dominamos é estritamente o necessário e apenas o que é de nossa função, o que não nos permite a compreensão do processo como todo”. Outro questionamento foi acerca de novos temas que poderiam ser trabalhados durante as atividades de formação. Assuntos estes que poderiam ser mais bem explorados, discutidos, como também sugestões para novos temas. Em resposta á pergunta “O que você considera relevante abordar nas atividades de formação?”, os profissionais salientaram que as atividades devem contemplar assuntos de interesse dos servidores, os quais venham a repercutir no atendimento, sanando as dúvidas e curiosidades da população, em seus mais diversos níveis de problemáticas e necessidades. De forma geral, os trabalhadores colocam que é preciso ir além do que está dado, buscando novas alternativas conjuntamente, de forma interdisciplinar e multiprofissional, como forma de compartilhar saberes, propiciar trocas de experiências e conhecimentos. Entender o sujeito como todo, não como um ser divisível. Alguns sugerem que a comunidade participe das atividades, como forma de instrumentalizar não só o profissional, mas também a população. Além disso, salientam que a formação não deve contemplar o trabalho só como carreira profissional de cada servidor, mas “formar profissionais comprometidos com o serviço, com responsabilidade social”. Embora muitos temas técnicos tenham sido citados como importantes para novas atividades de formação, os trabalhadores apontam outros dados que merecem destaque. Percebe-se nas respostas uma grande preocupação não só com o usuário que procura o Sistema, como também com o trabalhador que presta este atendimento. Nesse sentido, muitos trouxeram a necessidade de desenvolver atividades que contemplem questões de relacionamento interpessoal, comunicação (como se expressar – saber ouvir, falar, escutar), motivação para o trabalho (como conseguir melhor desempenho). Na fala de um dos trabalhadores, “estudar e discutir estes temas ajudariam a preparar para o enfrentamento de diferentes demandas que aparecem no dia-a-dia”. Foi possível identificar nas respostas dos trabalhadores que muitas das demandas para formação vêm ao encontro das questões individuais e de grupo, referentes à comunicação e inter-relações que ocorrem no ambiente de trabalho. Os profissionais acreditam que, à medida que buscam soluções conjuntas, valorizando as diferentes opiniões, o trabalho em equipe e o companheirismo se fortalecem, o que vem repercutir em aprendizado coletivo. Além disso, percebem que as atividades de formação, quando voltadas para o trabalho conjunto, convidam o servidor a ter um maior comprometimento, bem como propiciam maior valorização pelo seu trabalho, o que gera resultados positivos: “um funcionário valorizado trabalha com mais prazer e potencial”. A partir destas colocações, é que muitos apontaram as possíveis contribuições da Psicologia junto à saúde pública, focalizando, principalmente, as atividades de formação. No que se refere ao trabalho com os servidores, muitas colocações advindas dos questionários afirmam que o profissional da Psicologia poderia participar de forma mais ativa nas atividades de formação, com o intuito de melhorar o relacionamento entre colegas, problematizando e discutindo questões de interesse do grupo: “trabalhar com as diferenças individuais e como isso repercute no grande grupo [...], buscando mais ética e respeito entre si”. “Cuidar de quem cuida”, essa foi uma das frases que tomou destaque durante a pesquisa, a qual mostra a necessidade de uma maior atenção para o servidor como forma de valorizar os sentimentos advindos das situações de trabalho, suas insatisfações, angústias, medos, insegurança. “Ouvir o que cada um pensa”, “dar suporte emocional aos funcionários”, considerando estas colocações, entende-se que a participação da Psicologia deve “voltar-se para áreas mais humanas e não somente técnicas”. Para isso, consideram importante o uso de recursos, como técnicas e instrumentos que estimulem tanto o ambiente de trabalho como o crescimento pessoal. Dentro desta expectativa sugerem como temas: motivação no trabalho, auto-estima e atividades de auto-conhecimento. Além disso, os trabalhadores enfatizam que a participação do psicólogo pode contribuir com conhecimentos desta área que são úteis ao atendimento prestado à comunidade. Ao referir-se ao trabalho com os usuários, alguns profissionais apontam a necessidade de problematizar o atendimento, como se dá no coletivo, “estimular o autocuidado”, dando mais conforto, suporte relativo a cada problema. “Orientar para uma real ação em saúde pública, de caráter mais preventivo do que curativo”. Destacam não somente a abordagem do cidadão que já é acometido de algum tipo de desconforto, mas também seu trabalho voltado à prevenção e extinção de rótulos. Em suma, a maioria dos participantes da pesquisa considera o profissional da Psicologia muito importante no processo de formação e desenvolvimento dos profissionais que atuam no SUS, de modo a atuar efetivamente no processo de gestão do trabalho e educação em saúde. Muitas respostas apontam a necessidade de avaliar os serviços e programas que estão sendo oferecidos, discutindo metas e planejamento das ações. Para isso, consideram imprescindível conhecer as diretrizes e princípios que orientam o SUS, principalmente os que estão voltados à atenção básica. Nesse sentido, o trabalho multiprofissional e interdisciplinar ganha respaldo, tanto como forma de valorizar o profissional que presta atendimento, como de garantir um atendimento humanizado e eficaz ao cidadão que busca os serviços. Transformar a gestão e a formação do trabalho em saúde envolve mudanças nas relações, e principalmente nas pessoas, em ações que acontecem dentro e fora das instituições de saúde. Para tanto, os encontros, enquanto momento privilegiado de discussão e problematização do cotidiano, devem se fazer de modo descentralizado, ascendente e transdisciplinar. Estes aspectos, muito enfatizados dentro da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde, vem reafirmar ainda mais a necessidade de uma análise coletiva do processo de trabalho, possibilitando a construção de estratégias contextualizadas que promovam diálogo entre políticas gerais e a singularidade dos lugares e das pessoas (BRASIL, 2004). 6.4 Avaliação: para que? Para quem? De acordo com os gestores entrevistados, em apenas algumas das atividades de formação são feitas avaliações escritas, por meio de formulários. A maioria afirma não fazer avaliação da formação. “O que existe é uma discussão, mas sem o preenchimento do formulário. Busca-se falar com o servidor, o que ele achou, o que pode melhorar” (gestor 6). Salientam ainda que, a avaliação é feita analisando a partir daquele momento o comportamento do grupo, seus retrocessos e avanços nos resultados, comparando o antes e o depois. Dessa forma, a avaliação considera se a atividade de formação deu conta de atender a necessidade do profissional em sua prática, no dia-a-dia. Estes dados se complementam com as respostas dos servidores que atuam junto às UBS. Interessante observar que do total de questionários aplicados, desconsiderando os que não responderam e as respostas que não condizem com a pergunta, menos da metade, cerca de 46%, tem conhecimento sobre como acontece o processo de avaliação e/ou participa do mesmo. Dos 118 questionários aplicados, 14% dos participantes afirmam não ter conhecimento de como é feita a avaliação, sendo que outros 17% afirmam que não são feitas, “só se tira dúvidas”, “às vezes a equipe técnica pergunta se gostamos ou não da capacitação, só isso!”. Outros 15% dos trabalhadores pontuam que a avaliação é feita pela coordenação da categoria de profissionais envolvida na atividade, gestor da unidade e direção da SMS, ou como afirmam: “os que elaboram as atividades”. Por outro lado, pertencendo a categoria dos profissionais que conhecem e/ou participam das avaliações, do total de 46%, em sua minoria – 9,% dos respondentes, indicam que a avaliação é feita de forma verbal “pelo bate-papo” ou escrita - através de formulários, questionários, no final de cada atividade. Outros 22% dos participantes afirmam que a avaliação é feita nas reuniões semanais de equipe, em forma de conversa, ou ainda, juntamente com as avaliações do desempenho no trabalho, que acontecem periodicamente (mensal ou trimestral), dependendo da categoria profissional. Neste caso, a avaliação conta com a presença da coordenação da categoria profissional envolvida na atividade (por exemplo, PSF) e gestor da unidade. Do total de respostas, 7% apontam que a avaliação é feita de acordo com a produtividade de cada um, quando é discutido se a formação proporcionou otimização dos resultados ou não, na rotina de trabalho. Do total de questionários aplicados, 5% dos participantes não responderam. Além destes, 11% responderam como se a pergunta estivesse referindo-se ao desempenho no trabalho e não em específico às atividades de formação em serviço, como era a proposta. Ao considerar a Proposta da Política Nacional de Educação Permanente para analisar os dados acima mencionados, entende-se que a avaliação e o acompanhamento dos processos de formação e desenvolvimento torna-se imperativa. A avaliação é um dos meios imprescindíveis para determinar qualitativa e quantitativamente, mediante métodos apropriados, o quanto as atividades têm ou não dado os resultados esperados, quais são os avanços e desafios, enfim, que consigam identificar os efeitos das ações desenvolvidas. É fundamental identificar fragilidades e potencialidades que possam orientar tanto a definição de diretrizes políticas, quanto oferecer mecanismos de apoio aos sistemas locais para implementação das políticas com autonomia, de forma a possibilitar o empoderamento das pessoas e grupos. Há necessidade de se desenvolver junto ao envolvidos nas atividades de formação uma avaliação formativa, utilizando-se diferentes técnicas e instrumentos e fazendo com que o profissional aprenda com os seus próprios erros e acertos e desenvolva sua capacidade de reflexão sobre a teoria prática e seu senso de investigação. Nesse sentido, espera-se que o profissional de saúde deixe o exercício subordinado do trabalho e passe a assumir uma prática crítica diante da realidade, colaborando com o combate às exclusões e autoritarismos. 6.5 Saúde Pública: um tema emergente e necessário Aplicando-se o questionamento o que você entende por saúde pública?”, aos diferentes atores da saúde pública – gestores e servidores que atuam nas UBS, foram encontrados resultados e definições interessantes. A maioria dos participantes entende como um sistema que existe para que toda população tenha acesso: “direito de todos e dever do Estado”. Percebe-se que essa colocação vem respaldar os princípios do SUS, principalmente os que dizem respeito à universalidade e a igualdade na assistência. A isso, vem atrelada a humanização dos serviços, com respeito ao usuário, indiferente de raça, religião ou classe social. Ou seja, o atendimento deve ser feito de forma igualitária, considerando-o como um todo e não por patologia existente: “O ser deve ser entendido como biopsicossocial, colocando equilíbrio entre o coletivo e o individual, a partir da dinâmica das relações sociais”. Ter saúde, para alguns, não significa mais apenas não ter doença, como se costumava pensar. A idéia de saúde está associada com o sentir-se bem, sentir-se feliz e com o trocar, compartilhar com o outro, aproximando as condições do bem-estar individual e do bem-estar coletivo. Em algumas respostas, a participação da população aparece como necessária e imprescindível neste processo, envolvendo autonomia e responsabilidade pela qualidade de vida. Salienta-se a importância de fornecer orientações voltadas ao ambiente familiar, por meio da conscientização, principalmente as ações que estejam ligadas á prevenção. Assim, a saúde passa a ser vista não só como direito, mas também como dever da população. “é um processo que permite ao indivíduo e aos grupos assumirem sua própria saúde mediante ações educativas individuais e coletivas”. Nesse sentido, englobam o ser humano de forma integral, questionando e atuando nas formas de se fazer saúde, seja cuidando de sua alimentação, lazer, higiene, com vistas a melhores condições de vida. Além disso, alguns profissionais colocam que o fazer saúde não se destina somente a ações que estão sendo desenvolvidas, mas ampliam as expectativas para projetos e políticas que precisam e devem ser desenvolvidos pela rede. Uma das respostas vem justificar: “saúde envolve desde o estudo do problema, como o planejamento de ações visando a promoção, proteção e recuperação bem como a avaliação destas ações”. Nota-se ainda, que a maioria não percebe a interligação entre as três esferas governamentais, colocando ora numa ora noutra a responsabilidade pelo sucesso ou defasagens do Sistema. Ou seja, ignora-se a possibilidade e limitação do Sistema, sem dar-se conta da importância de um trabalho conjunto e articulado. Diante destas falas, cabe salientar, que é inviável dicotomizar as responsabilidades, tanto para a sustentabilidade como para o próprio desenvolvimento da rede. Sabe-se que as três esferas governamentais – municipal, estadual e federal, devem assumir a responsabilidade sobre a formação, gestão e valorização de recursos humanos, avaliação técnica e financeira e de resultados, bem como o planejamento estratégico, organização e desenvolvimento institucional. Observa-se, ainda várias afirmações em que a saúde é entendida apenas como ausência de doenças: “a rede pública é para quem está doente [...] especialmente para pessoas mais humildes e deve ser usada com somente quando necessário”. Ou ainda focalizam numa ou noutra forma de se fazer saúde: prevenção, cura ou promoção. Ou até mesmo limitam “o fazer” na saúde a um ou outro tipo de serviço prestado: “saúde é consultas, atendimento médico”. No servidor é colocada a responsabilidade pela busca do “completo bem-estar”. Esquece-se desta forma, que saúde não é estado, mas processo. Muitas vezes desconsidera-se o saber do usuário, colocando na unidade, o local onde “estão reunidas pessoas com competência para tratar os males que afligem a população, para curar problemas físicos e mentais”. Como vimos na revisão bibliográfica, o modelo biomédico predominante ainda em nossa sociedade, gera a ilusão ao indivíduo de que ele tem a sua disposição um serviço assistencial com poderes de curá-lo. Dessa forma a instituição assume a responsabilidade por sua saúde, ao mesmo tempo em que inibe a possibilidade de autonomia do sujeito em confronto com a precariedade da vida. Isso acaba resultando numa maior dependência do Estado, dificultando a busca por novas formas de enfrentamento às necessidades de saúde. Acredita-se que quanto mais se oportunizar as pessoas a enfrentar com autonomia e responsabilidade as condições adversas da vida, melhor será o nível de satisfação tanto do usuário que busca o Sistema como o servidor, que presta o atendimento. Ao conhecer qual o entendimento dos profissionais que atuam no SUS, sobre o termo saúde pública, pode-se perceber o quanto devemos avançar na construção social da saúde. Não só em termos de recursos ou estrutura, mas principalmente, na concepção do processo de saúde-doença, bem como nos paradigmas que fundamentam o modelo e a prática assistencial em saúde. É preciso tornar pública a discussão a acerca desta temática. Não se trata de homogeneizar conceitos, mas de se problematizar as práticas produzidas sobre estes discursos, como forma de ampliar as possibilidades de atuação. Assim, as mudanças necessárias devem atingir: a dimensão política, envolvendo diferentes atores sociais; a dimensão ideológica, com a reformulação da concepção de processo saúde-doença, em sua lógica de organização da atenção às necessidades de saúde da população e, ainda, exigir que se produzam conhecimentos e metodologias coerentes com os pressupostos políticos e ideológicos do projeto social de saúde. Em consonância com Kleba (2005), acredito que a construção de um modelo que fundamente a prática integral requer, de todos os sujeitos envolvidos uma maior compreensão das competências do poder local, discutindo as ações e serviços a serem melhorados, ampliados ou organizados. Além disso, a política de saúde deve ser encarada como uma das políticas públicas, cuja responsabilidade de organização e execução é da administração pública, mas cuja decisão é de competência e de responsabilidade de toda a sociedade. 6.6 Pólo de Educação Permanente 6.6.1. Constituição e funcionamento O desenvolvimento do projeto de implantação do Pólo Regional de Educação Permanente em Saúde, no Município de Chapecó (SC), contou com da Universidade do município, da Secretaria Municipal de Saúde e da 4ª Gerência de Saúde do Estado de Santa Catarina. Após discussões feitas com vários segmentos da sociedade, incluindo instituições de ensino, trabalhadores de saúde, estudantes de cursos de áreas da saúde, usuários, gestores municipais e estaduais do SUS, movimentos sociais, foram sistematizadas, em reunião realizada no dia 14 de outubro de 2003, em Chapecó (SC), as propostas iniciais para a formalização do projeto. As discussões seguiram até abril de 2004, quando foi deliberado seu regimento interno e eleitos os membros do Conselho Gestor do Pólo. Dentre as funções do Conselho Gestor do Pólo, cabe destacar: propor, programar, avaliar e aprovar ações relativas à capacitação, formação e educação permanente para o SUS; estimular a criação de áreas de formação de ensino-serviço na rede do SUS, através do intercâmbio entre municípios, gestores e instituições de ensino; aprovar, acompanhar e avaliar projetos de pesquisa, propiciando avaliação e aperfeiçoamento das atividades desenvolvidas e oferecendo suporte para reformulação das ações de saúde. 5 Além do Colegiado Gestor, o Pólo Regional é composto pela Secretaria Executiva, a qual tem a incumbência de analisar e dar parecer sobre os projetos encaminhados para apreciação do Pólo Regional, de modo que estes venham contribuir efetivamente para o 5 Art. 5. Regimento Interno do Pólo Regional de Educação Permanente em Saúde do Oeste de Santa Catarina. Chapecó: 2004. desenvolvimento do SUS, propor métodos didáticos-pedagógicos adequados a cada projeto. Tanto os representantes do Colegiado Gestor como da Secretaria Executiva do Pólo não recebem para exercer a função. O Pólo atua na área de abrangência dos municípios do Oeste, Meio Oeste e Extremo Oeste de Santa Catarina. De acordo com o Projeto de implantação do Pólo, a população de área de abrangência corresponde a aproximadamente 478 mil habitantes. Até a presente data, 47 municípios já formalizaram adesão ao Pólo. De acordo como o Regimento Interno do Pólo Regional (2004, p. 04), a participação dos municípios se dá por adesão, quando se compromete em elaborar e/ou participar de projetos de capacitações nas seguintes modalidades: formação em serviço, educação permanente, capacitação para a gestão do Sistema de saúde, educação popular e profissional. Desde o ano de 2004, nove projetos foram encaminhados ao Pólo Regional de Chapecó para avaliação. Destes, somente quatro foram aprovados6. De acordo com o gestor 9, em primeira instância, os projetos são avaliados pelos membros representantes do Conselho Gestor do Pólo, considerando alguns critérios para aprovação. Dentre eles, cabe destacar: 9O 9 projeto deve ter todos os dados completos; Prioriza-se os professores da rede para ministrarem as atividades de formação; 9As 9 instituições de ensino que assumem o curso devem ter experiência na área; Os monitores (multiprofissionais) devem ser locais, abordando conteúdos interdisciplinares; 9A carga horária do projeto deve atender a diretriz da estratégia de não retirar os profissionais mais de 4 horas por semana das atividades de atenção á saúde. 9Embora siga um cronograma, as atividades devem ser feitas por etapas, sendo imprescindível a cada uma avaliar e reprogramar, se necessário. 9As atividades de formação devem incluir instrumentos de avaliação que informem as variáveis a serem consideradas (dos profissionais a serem capacitados em relação ao curso e dos profissionais que ministram em relação aos profissionais a serem capacitados). 9As atividades de formação devem ser descentralizadas. Se o projeto for aprovado (deve ser por votação até se chegar a um consenso), passa para uma segunda etapa, quando é encaminhado para a coordenação estadual - Escola de Formação, onde passará pela avaliação técnica e, posteriormente, enviado para Câmara Técnica, onde existe uma mesa de negociação, entre os Secretários Municipais de Saúde e 6 Resolução 008 do Conselho de Estado de Saúde, 2004. Secretaria de Estado de Saúde. Uma vez aprovado, então vai para o MS, sendo liberado então o recurso financeiro que irá viabilizar a efetivação do projeto nos municípios. De acordo com o gestor 2, o objetivo do Pólo é sempre aprovar os cursos onde há um maior número de pessoas, em nível de região envolvidas. “Quando esses recursos vêm não é só para um dos municípios, mas para todos os envolvidos, sempre em nível regional, trabalhando em grande escala”. Os projetos a serem aprovados devem contemplar ações intersetoriais que promovam a atenção integral e humanizada ao usuário, de acordo com as necessidades locorregionais. Enquanto espaço de discussão, o Pólo parte da idéia de possibilitar a articulação e socialização das políticas de Educação Permanente entre os diversos segmentos envolvidos, atingindo as instituições formadoras, rede privada, filantrópica e conveniada. A formação oferecida, além de assegurar a atualização profissional, deve buscar a sistematização e difusão do conhecimento produzido no sistema de saúde. “Com isso, espera-se abrir campo propício para a transformação das práticas e processos de trabalho, contribuindo, ao mesmo tempo, para a reorganização dos currículos dos cursos da área de saúde e áreas afins”.7 No caso específico do Pólo de Chapecó (SC), as atividades de formação devem considerar alguns eixos temáticos: Treinamento introdutório, Desenvolvimento de trabalho em equipe, Desenvolvimento gerencial, Formação em saúde, Gestão do SUS e Controle social. 6.6.2 Pólo Regional - uma iniciativa concretizada? Durante a pesquisa foi possível perceber que nem todos os projetos e programas relacionados às atividades de formação dos profissionais que atuam no SUS, no município de Chapecó, passam pelo Pólo de Educação Permanente. Como já citado anteriormente, algumas são realizadas diretamente pela SMS, pela SES ou pelo MS. No entanto, é possível verificar nos dados obtidos com os servidores que não existe efetivamente um programa para educação permanente. O que existe são encontros, capacitações, projetos feitos por cada coordenação para orientar, instrumentalizar, formar os seus profissionais. Ficou claro durante o relato dos 7 Regimento Interno do Pólo Regional de Educação Permanente em Saúde do Oeste de Santa Catarina. Chapecó: 2004, p. 05. entrevistados, que cada coordenação é responsável pela elaboração, desenvolvimento e avaliação – quando feita, das atividades de formação, oferecidas aos profissionais. No que se refere ao Pólo de Educação Permanente no município, pode-se perceber que alguns gestores entrevistados desconhecem sua existência. Outros, afirmam que conhecem sua estrutura, mas não tem acompanhado o desenvolvimento de suas atividades. A partir destas colocações pode-se afirmar que o Pólo Regional do Oeste de Santa Catarina encontra ainda muitas limitações para se constituir e se efetivar enquanto segmento favorável ao desenvolvimento da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS) no município. Em relação ao desenvolvimento do Pólo Regional o gestor 8 pontua: “a iniciativa é boa, porém falta uma maior articulação entre os segmentos. O setor de RH – enquanto instância voltada à formação dos profissionais, pode ter grande contribuição neste processo. No entanto, até hoje, nunca recebemos nem convite para participar junto ao Pólo, pouco sabemos do seu funcionamento, quais os municípios que compõe, quem são seus membros [...]”. A maioria dos gestores entrevistados ressaltam a importância de ter um profissional ou equipe responsável, de modo a sistematizar melhor as atividades de formação. Isso se confirma no discurso de um dos gestores, onde o mesmo afirma que a maior dificuldade encontrada hoje é a achar alguém capacitado para dar andamento ao Pólo, o que garantiria maior agilidade no andamento dos projetos, tanto na avaliação dos encaminhamentos como na formulação de novos. De acordo com as leituras realizadas acerca do tema, percebe-se que se há um interesse coletivo para que o Pólo venha a efetivar-se, enquanto instância capaz de pensar e executar a formação dos profissionais, torna-se imperativa uma mudança em relação à postura de expectador-usuário-profissional. Todos os envolvidos, e os que ainda não tomaram esta responsabilidade, e que por assim ser, se mantém alheios ao processo, devem assumir a sua condição de cidadãos, trocando seu papel de público para o papel de ator. Parte-se da idéia que ao invés de condenar o Estado, ou até mesmo os próprios organizadores do Pólo, quando este não atende seus desejos de forma esperada, e reivindicar dele as soluções para todos os problemas sociais e econômicos, estes atores devem se engajar nas discussões locais, como forma de fomentar a articulação micro-regional, regional, estadual e interestadual, buscando assim, o controle social. Por outro lado, o Estado deve sim recuperar seu papel de condutor político do processo de municipalização, aumentando sua capacidade regulatória na coordenação, controle, no acompanhamento e na avaliação do processo, e garantindo o suporte e a cooperação técnica necessária ao desenvolvimento do SUS. Precisa, para tanto, aprimorar os instrumentos de gestão e de participação social, principalmente no que se refere aos canais de comunicação e informação, percebidos como defasados pelos profissionais. A partir do momento que se passa a entendê-lo como um instrumento de promoção e desenvolvimento humano e social, O Estado deixa de ser o condutor e dono do processo e, conseqüentemente, o único responsável pelas limitações atuais. 6.6.3 Novas iniciativas pela efetivação de novos resultados Considerando as atuais defasagens, tanto na implementação, estruturação e desenvolvimento do Pólo Regional de Educação Permanente, o MS tem buscado novas alternativas. Considerando, as decisões da Reunião da CIT (Comissão Intergestores Tripartite) do dia 21 de junho de 2007, instituiu a Portaria GM/MS nº 1.996 , de 20 de agosto de 2007, que dispõe sobre as diretrizes para a implementação da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde e dá outras providências. Tal portaria vem definir novas diretrizes e estratégias para a implementação da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde adequando-a as diretrizes operacionais e ao regulamento do Pacto pela Saúde. Em seu Art. 2°., afirma que a condução regional da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde se dará por meio dos Colegiados de Gestão Regional, com a participação das Comissões Permanentes de Integração Ensino-Serviço (CIES). Assim como os Pólos, as Comissões Permanentes de Integração Ensino-Serviço (CIES) são instâncias intersetoriais e interinstitucionais permanentes que participam da formulação, condução e desenvolvimento da Política de Educação Permanente em Saúde. O Colegiado de Gestão Regional deverá coordenar a estruturação/reestruturação das Comissões de Integração Ensino-Serviço. O Plano de Ação Regional para a Educação Permanente em Saúde (PAREPS) servirá de norteador para as atividades das Comissões de Integração Ensino-Serviço na construção e implementação de ações e intervenções na área de educação na saúde em resposta às necessidades do serviço. A atual coordenadora do Pólo do município de Chapecó tem participado de reuniões, em nível estadual, onde está sendo discutida a nova proposta. Ainda não apresentada ao Colegiado do município de Chapecó (SC), espera-se que tal iniciativa venha articular de modo mais eficaz e seguro as relações entre formação, gestão setorial, desenvolvimento institucional e controle social em saúde. Outro passo importante, nesse sentido, é a construção de um grupo de planejamento estratégico, o qual deve dar viabilidade para a criação de um pólo de capacitação de recursos humanos, específico para o município de Chapecó. Além destas iniciativas, foi aprovado, no segundo semestre deste ano o “Projeto de fortalecimento do setor de gestão do trabalho e da educação na saúde da Secretaria Municipal de Chapecó – SC”. Elaborado pelo setor de Recursos Humanos da SMS, sendo o único aprovado pelo Estado8, o projeto coloca a Secretaria Municipal de Saúde no Programa de Qualificação e Estruturação da Gestão do Trabalho e da Educação no SUS (PROGESUS). Este Programa, elaborado pelo Ministério da Saúde, aponta para a importância de preparar os órgãos gestores do sistema de saúde, em todos os níveis, para assumir o exercício das funções de formar, organizar e implementar a política de saúde. Em seu esboço, o Projeto do município inclui o plano de estruturação do RH, o qual traz como principais objetivos a formalização e implementação do setor de gestão do trabalho e da educação em saúde, através da construção de um espaço físico e informatização do setor. Além disso, prevê a locação de equipe específica para a formulação de políticas de recursos humanos dentro da SMS. Outro aspecto de extrema relevância no Projeto refere-se ao plano de qualificação, o qual traz dentre seus objetivos a implementação de processos de capacitação/educação permanente, por meio do fortalecimento de mecanismos de negociação entre gestores e trabalhadores. As iniciativas mencionadas são de grande valia, considerando o atual contexto em que se encontra a estruturação dos processos formativos no município. No entanto, é preciso ir além. A inserção no trabalho público necessita de uma reflexão urgente, sobretudo na formação acadêmica. Se por um lado, observa-se que muitas vezes o trabalho do psicólogo nas unidades de saúde implica uma performace para a qual não estamos preparados, por outro, é válido lembrar que o próprio saber psicológico deve estar a serviço da promoção da saúde e logo o conceito de saúde precisa ser revisto de maneira urgente. Instituições como a Universidade devem superar seu exercício acadêmico, participando mais ativamente do processo real de crescimento político-organizativo, visando a promoção do desenvolvimento integral. Percebese, nesse sentido, que o aparelho formador tem necessita assumir a responsabilidade de formar profissionais de saúde capazes de lidar e se comprometer com os desafios do SUS. 8 Construir mecanismos que superem o conceito de que o conhecimento prático é simplesmente a aplicação do conhecimento teórico é um aspecto importante a ser considerado na reformulação dos currículos escolares. Assim, o currículo necessita ser estruturado de forma a permitir que o aluno seja parte ativa no processo de aprendizado, estimulando-o à auto-aprendizagem com aspectos significativos da realidade. A discussão sobre a formação precisa adentrar nas Universidades, sendo que a produção científica deve funcionar no mesmo plano ao da ordem social e não imanente a ela. Para isso, será necessário admitir o não saber, como forma de construir novas posturas de trabalho, pelos ideais que permeiam a nossa profissão. É preciso colocar a crítica dentro do espaço de cada formação, que cada profissão construa saberes para uma política de compromisso social. Além disso, que estas novas formas de ler a realidade venham ao encontro de práticas coletivas, propondo interpretações e respostas possíveis ao enfrentamento das necessidades da população e, que visem o bem-estar social, como os princípios do SUS trazem tão bem na sua regulamentação. Dizer que isso bastaria, seria mais uma vez criar um campo ilusório acerca da realidade. É preciso propor novas parcerias, uma rede de convênios de produção de conhecimento, interligando sindicatos, rede pública de serviços, produções locais e sociais, individuais e coletivas. Embora reconhecendo que o município tem muito a caminhar com a política de desenvolvimento humano, todos acreditam que é possível, é importante e necessário que a Política de Educação Permanente se efetive na prática do profissional que atua no SUS. Para isso, ressaltam que além dos profissionais assumirem a responsabilidade que lhes cabe na concretização da proposta, é necessário empenho dos vários atores responsáveis e engajamento de novos, como forma de concretizar propostas tão admiráveis teoricamente, mas que ainda encontram grandes limitações para se efetivarem na prática. CONCLUSÃO Com o propósito de conhecer qual a formação em serviço e os sentidos construídos pelos servidores acerca da mesma é que iniciei este estudo. Tendo como referência alguns pressupostos sobre o tema, ao seu final percebo quão provisórias podem ser as afirmações, as quais são marcadas pela diversidade de interpretações sobre a realidade. A Educação Permanente tem pretensão de ser o eixo estruturante da atenção em saúde. Há elementos produtivos nessa concepção, que nos ajudam a repensar o tema da formação e desenvolvimento humano. No entanto, a partir deste estudo, foi possível perceber que enquanto política de formação e desenvolvimento em saúde, tem tido pouca repercussão, mostrando alguns déficits em sua capacidade operacional. Quanto às atividades educativas oferecidas pelo poder público, constatou-se que não existem programas e projetos específicos que atendam as demandas de formação. O que existem são cursos, treinamentos, capacitações que, desenvolvidos por cada coordenação, separadamente, envolvem profissionais da mesma categoria (uniprofissional), e objetivam, principalmente, reciclar conhecimentos técnicos, voltados a práticas curativas. Desse modo, temas relacionados às questões individuais e grupais, de comunicação e relacionamento interpessoal, presentes no ambiente de trabalho, acabam ficando em segundo plano nas atividades. O planejamento, por sua vez, é feito em níveis centrais, construído de forma desarticulada com a gestão, atenção e controle social, o que faz com que o conhecimento, essencialmente, transmitido encontre dificuldades em proporcionar otimização dos resultados na rede. Constatou-se ainda, que as necessidades de saúde não são carências de um único profissional, mas que, embora expressas individualmente, são geradas na vida cotidiana, nas relações humanas de trabalho. Assim, a formação e desenvolvimento almejados pelos profissionais não incluem somente atualizações técnico-científicas, mas englobam produção de subjetividade. Ou seja, não basta apenas transmitir conhecimentos novos, mas é preciso dialogar sobre os sentidos construídos em torno das práticas em saúde, para que a aprendizagem se torne significativa e, conseqüentemente, eficaz nos serviços prestados. Aspecto de grande relevância na pesquisa remete-se à necessidade urgente de avançar na construção social da saúde, não só em termos de recursos e estrutura, mas, principalmente, na concepção do processo “saúde-doença”. Nesse mesmo sentido, torna-se fundamental problematizar o próprio conceito de “formação”, que o qual deve ser encarado tanto pelos profissionais como pela sociedade, como elemento fundamental para qualificação do exercício profissional e não como ociosidade de trabalho. Por este e outros aspectos, já mencionados na discussão dos resultados da pesquisa, é que acredito que o modelo de Educação Continuada ainda permanece nos modos de ensinar e fazer em saúde. Uma tradição histórica de subordinação da população e dos profissionais, que atuam na área, ao Estado, o qual ainda se organiza de forma vertical, na hierarquização da atenção e gestão dos serviços. Ou seja, educação que não mexa com a gestão do processo de trabalho não pode ser considerada Educação Permanente. No que se refere ao Estado, percebe-se que, enquanto responsável pela promoção da saúde, tem se colocado distante de seu compromisso – o de ser o condutor político do processo de municipalização. Nesse sentido, acredito que deve recuperar seu papel junto a outras instâncias reguladoras, de forma a aumentar sua capacidade regulatória na coordenação, controle, acompanhamento e avaliação. Para tanto, precisa aprimorar os instrumentos de gestão e participação social, principalmente no que se refere aos canais de comunicação, informação e disponibilização de recursos. As defasagens, tanto na implementação, estruturação e funcionamento do Pólo Regional, enquanto instrumento fortalecedor dos princípios do SUS no município, também Constituído para ser articulador na formulação de políticas voltadas para o desenvolvimento de recursos humanos, este segmento tem limitada atuação loco-regional, tanto no que referese ao planejamento, como no gerenciamento e apoio de projetos. Tal contexto nos leva a pensar que é preciso avançar na política de gestão do trabalho e educação em saúde, dispondo esforços no sentido de garantir e aumentar o financiamento de ações. Percebe-se, nesse sentido, que a SMS vem tentando construir novas alternativas de intervenção, com vistas a uma ação de gestão municipal, compatível com os princípios norteadores do SUS. Espera-se que estas iniciativas se desenvolvam no diálogo circular, através da responsabilização dos diferentes segmentos, como pressupõe a PNEPS. Como parte do processo de pensar o real, de elaborar saberes, de criar estratégias de transformação, a Educação Permanente em Saúde pode não ser suficiente, mas é, sem dúvida, necessária. E o campo da saúde é um campo favorável para sua realização. À medida que assume seu caráter mediador, a educação em saúde pode se contrapor às práticas assistencialistas, autoritárias, alienantes e reprodutoras. Para isso, é preciso que todos os atores envolvidos se instrumentalizem, para que o profissional tenha o controle do seu processo de trabalho e para que a população assuma mais o controle do processo de gestão de suas vidas. Cabe destacar que um dos pontos positivos nesta pesquisa refere-se a articulação da teoria com a prática, uma vez que o estudo buscou contemplar diversificadas formas de se conhecer a realidade, considerando a relação entre o que os profissionais pensam com o que fazem. Além disso, por meio desta vivência acadêmica, tive a oportunidade de aprender a lidar como os meandros da organização do Sistema. Situações nem sempre confortáveis, mas que me fizeram refletir acerca das minhas escolhas e posturas, enquanto futura profissional da Psicologia. Cumpre ressaltar os limites que se impuseram na realização do estudo Dentre eles, a pouco material disponível em publicações, o que nos aponta a necessidade de participar de novas pesquisas e estudos na área. Ao findar este trabalho, fico imensamente satisfeita em poder afirmar que consegui alcançar os objetivos a que me propus. Com isso, posso não ter proporcionado grandes mudanças. Porém, acredito ter, no mínimo, provocado algumas inquietações e reflexões acerca das práticas em saúde coletiva, o que me coloca como sujeito comprometido com o social, tanto na posição de acadêmica como cidadã. Embora toda crítica se fundamente na idéia que “poderia ser diferente”, a pesquisa não tratou de julgar as diferentes concepções e atuações como equivocadas ou adequadas, mas percebê-las como produzidas em um momento específico do desenvolvimento do processo do trabalho e educação em saúde. São discursos impregnados de diferentes correntes de pensamento, as quais se reproduzem tanto na construção do saber como na prática dos profissionais. Nesse sentido, o estudo tratou de abordar a problemática em questão de forma ética-política e não como uma discussão moralista, tendo como embasamento uma posição muito clara e favorável aos princípios do SUS. Considerar concluída a discussão que tentei construir neste trabalho poderia desfigurar o caráter dinâmico na formação das idéias que defendi até o momento. Compreendendo a realidade, como instável e sem verdades absolutas, diante da relatividade de interpretações que compõe os fatos. Diante disso, entendo que esta pesquisa apenas revelou-me a necessidade de empreender mais esforços para aprofundar a reflexão e fomentar não só aos psicólogos, mas a todos os segmentos da sociedade à discussão sobre o tema abordado. REFERÊNCIAS ALVES, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar. 23. ed. São Paulo: Cortez, 1989. (Polêmicas do nosso Tempo, I). ALVEZ-MAZZONI, Alda Judith; GEWANDSZNAJDER, Fernando. O método das ciências naturais e sociais: pesquisa quantitativa e qualitativa. São Paulo: Pioneira Thompson Learning, 2001. BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977. BAUER, Martin W.; GASKELL, George. Pesquisa qualitativa com texto, som e imagem. Petrópolis: Vozes, 2002. BRASIL. Ministério da Saúde. Constituição Federal – 1988. In: Gestão Municipal de Saúde: leis, normas e portarias atuais. Rio de Janeiro : Brasil. Ministério da Saúde, 2001. CAMPOS, Francisco Eduardo et al. Os desafios atuais para a educação permanente no SUS. 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Diante do cenário político, econômico, cultural em que vivemos, os profissionais, das mais diversas áreas do conhecimento, são convocados a buscar respostas que atendam as necessidades emergentes. Com o processo de formação não poderia ser diferente: ao futuro profissional torna-se imprescindível um olhar ativo e crítico frente a realidade que se apresenta. A produção acadêmica tem buscado conhecer os modos de construção de subjetividades, a partir de seu cotidiano, nos diferentes espaços que os sujeitos atuam. No entanto, pesquisar exige criatividade para penetrar nos entremeios, não como intruso e detector de um saber, mas como sujeito capaz de, ao conhecer a realidade vislumbrar novas possibilidades ética-estéticas de sentir, pensar e agir nas relações, como vistas a transformação social. Nesse sentido, o interesse em desenvolver a pesquisa partiu não somente do desejo de disseminar o conhecimento acadêmico, mas, emergiu, principalmente, de uma inquietação, enquanto cidadã e usuária, de um Sistema que se mostra com grandes defasagens em sua capacidade operacional de assistência á saúde. A tentativa de articular conceitos como saúde, trabalho e educação, busca superar uma formação que ainda dicotomiza, em pólos, o objetivo/subjetivo, o ensino/aprendizagem, teoria/prática. A partir desta leitura, emanou o desejo de dedicar-me a um “conhecer” pautado não mais por um discurso moralista, mas de uma postura ética-política em favor de novas práticas, pensando os trabalhadores (recursos humanos) com peças-chave para a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS). Parecer O Trabalho de Conclusão de Curso de Psicologia da acadêmica Scheila Girelli objetivou analisar a formação em serviço oferecida aos profissionais do SUS, do município de Chapecó(SC), e quais sentidos construídos por eles em relação a sua formação. Este pesquisa demonstra a capacidade, a sensibilidade e a decisão ético-política da acadêmica de articular a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde com a realidade vivenciada no SUS de Chapecó, trazendo reflexões sustentadas por referenciais críticos dos campos da Saúde e da Psicologia. Dessa forma, o relatório traz uma posição crítica, expressando com clareza de raciocínio uma discussão bastante complexa. Recomendo este trabalho pela relevância do tema, cuja problemática tem sido alvo de debate constante no âmbito das políticas de saúde, qual seja, a formação para uma atenção adequada às necessidades da população como um processo permanente a ser promovido pelo poder público, com participação social. Recomendo também este trabalho pelo rigor metodológico e científico com que se processou a pesquisa, bem como pelos resultados significativos que trouxe para a realidade estudada, de tal forma que eles apresentam elementos importantes para a Secretaria de Saúde, Conselho Municipal de Saúde, Pólo Regional de Educação Permanente e sindicatos dos trabalhadores em saúde, em seu trabalho de implantação e melhoria do SUS. Também considero este texto concretização dos ideais dos movimentos promovidos pelas entidades da Psicologia - especialmente Sistema Conselhos e Associação Brasileira de Ensino de Psicologia - em prol de uma ciência e profissão comprometidas com o direito à saúde da população brasileira. Refiro-me especialmente ao Ano da Saúde promovido em 2006. Assim, pode-se dizer que o presente trabalho está em sintonia com esta importante discussão promovida pela Psicologia brasileira. Dessa forma, recomendo o trabalho “FORMAR PARA MELHOR SERVIR” - UM ESTUDO SOBRE O DESENVOLVIMENTO DA POLÍTICA NACIONAL DE EDUCAÇÃO PERMANENTE EM SAÚDE NO MUNICÍPIO DE CHAPECÓ (SC). Celso Francisco Tondin Orientador