Natália Alves Barbieri
Trabalho com velhos – Algumas reflexões iniciais
Este trabalho tem o intuito de refletir sobre as relações transferenciais que acontecem
com o profissional da saúde no contato com idosos. A diferenciação entre os conceitos
de velhice e envelhecimento se torna necessária na formulação de uma clínica do
envelhecimento, clínica marcada pelo entendimento do idoso como um sujeito que
vivencia a finitude de maneira particular.
> Palavras-chave: Velhice, envelhecimento, clínica, psicanálise
pulsional > revista de psicanálise >
ano XVI, n. 173, setembro/2003
artigos > p. 18-24
This article consists of a refection on transferential relations that have arisen in health
personnel in contact with elderly persons. The concepts of old age and aging must be
differentiated when performing clinical work specialized in aging. This type of clinical
work is characterized by an understanding of elderly persons as subjects who see the
end of their lives in a particular way.
> Key-words: Old age, aging, clinic, psychoanalysis
>18
Só o velho saberia contar o que é a velhice, se ele soubesse,
Carlos Drummond de Andrade
Este trabalho tem como intuito refletir
sobre algumas relações que acontecem
com o profissional da saúde no contato
com velhos. Irei esboçar algumas idéias
que se relacionam com o tema da velhice e com o processo de envelhecimento,
enfocando a relação transferencial do
profissional com o seu cliente idoso.
Para trilhar este caminho me faço muitas
perguntas, perguntas estas que nem sempre têm respostas claras, no entanto, são
importantes que sejam formuladas para
que possam ser respondidas num futuro
próximo.
Há atualmente, uma crescente preocupação em voltar o olhar para questões refe-
*> Trabalho realizado a partir das discussões do grupo de Interlocução “Psicanálise e Envelhecimento”
para apresentação do III Encontro Latino-americano dos Estados Gerais de Psicanálise, realizado em Buenos Aires- Argentina, entre os dias 22 e 24 de novembro de 2002.
A última década assistiu a transformação da
velhice em um tema privilegiado, quando se
pensa nos desafios enfrentados pela sociedade brasileira contemporânea. Hoje, no debate
sobre políticas públicas, nas interpelações dos
políticos em momentos eleitorais e até mesmo
na definição de novos mercados de consumo
e novas formas de lazer, “o idoso” é um ator
que não está mais ausente do conjunto de discursos produzidos. (p. 11)
Como iniciar uma fala sobre a velhice
sendo jovem? Como falar sobre velhice
numa sociedade voltada para a juventude? Quando comecei a me interessar e
estudar os assuntos do envelhecimento e
velhice, muitos me questionavam o que
podia interessar a uma jovem um tema
que se relacionava com a morte, com a
perda da vitalidade. Escutei, não sem certa surpresa, coisas do tipo: “Trabalhar
com velhos é fácil, não precisa fazer
nada, é só esperar eles morrerem”; “Você
tão jovem e estudando a velhice? Vai estudar outra coisa mais próxima da sua
idade”; “É perda de tempo”. Beauvoir
(1990) relata algo muito parecido na introdução de seu trabalho:
Quando eu digo que trabalho num ensaio sobre a velhice, quase sempre as pessoas exclamam: Que idéia!... Mas você não é velha!... Que
tema triste... (p. 8)
Muitos autores que escrevem sobre esta
temática se sentiram na necessidade de
compartilhar com os seus leitores o processo que se deu desde a descoberta pessoal do por quê trabalhar com o envelhecimento até os duros comentários ouvidos
pelas pessoas ao redor. Mascaro (1997),
na introdução de seu livro comenta:
Quando comecei a pesquisar, estudar e refletir sobre o significado da velhice. (...) enfrentei
uma certa angústia e alguma dificuldade. Embora eu já estivesse situada na meia-idade, pela
primeira vez me deparei objetivamente diante de
meu próprio envelhecimento e comecei a imaginar como seria um dia a minha velhice. (p. 7)
Comentários, aqui transcritos literalmente, dizem sobretudo como a velhice é encarada, ou melhor, como é temida. Inclusive estas frases poderiam ser pensadas
como alerta da fragilidade que permeia o
tema, como se a velhice fosse uma caixa
de Pandora, onde muitos segredos e coisas que não gostamos (ou não podemos)
ver estivessem guardados.
Com o tempo me surpreendi ao constatar
que esta fala se originava mais freqüente-
1> A geriatria é “definida como ramo da medicina que se ocupa das doenças dos velhos”; já a gerontologia é uma “especialidade que estuda o processo fisiológico do envelhecimento, incluindo aspectos
biológicos, sociológicos e psicológicos” (Monteiro , 1998, p. 1).
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rentes ao envelhecimento, percebido por
matérias em jornais, revistas, programas
de televisão, cursos específicos para a
“terceira idade” e cursos profissionais.
Esta preocupação se apresenta como
uma dualidade: se por um lado há uma
ansiedade em evitar que os sinais do envelhecimento apareçam, o que se evidencia na grande procura por cirurgias plásticas, nas maratonas de ginástica, nas
“multi” vitaminas, na busca pelo corpo
perfeito; por outro, o aumento da população de velhos e a atuação de profissionais especialistas – os gerontólogos e os
geriatras,1 colocam a velhice como uma
questão importante a ser debatida. Segundo Guita Debert (1999):
>19
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mente no universo acadêmico e profissional do que nas pessoas que considero
fora do universo da saúde. O meio psicanalítico não difere do restante da nossa
sociedade no que diz respeito ao olhar
sobre a velhice. No entanto, os Estados
Gerais, enquanto um espaço de encontro
de diversos assuntos e abordagens pertinentes à psicanálise, permite a possibilidade de uma discussão sobre o envelhecimento que já vem sendo realizada por
alguns profissionais da área.
O trabalho e o pensar sobre a velhice implicam um contato com o próprio processo de envelhecimento por parte do
profissional envolvido. Este contato nem
sempre é explicitado ou trabalhado, por
questões comuns ao sujeito que o evita.
Neste sentido, mostra-se relevante o trabalho com os profissionais que lidam diretamente com velhos e que se deparam
com o envelhecimento do outro e de si
mesmo.
Segundo Goldfarb (1998), observa-se uma
resistência no que concerne à psicanálise com pessoas idosas, e parte desta resistência fica a cargo de questões referentes ao próprio processo de envelhecimento de cada um de nós:
Acreditamos que tal fenômeno seja conseqüência de preconceitos que vão desde a crença de
que qualquer intervenção é inútil, já que os
velhos não seriam modificáveis e estão perto
do fim, até o medo de que os pacientes idosos
morram durante o tratamento, o que sem dúvida mobiliza a própria onipotência; mas é
bastante plausível que ele se deva bem mais à
negação do próprio processo pessoal de envelhecimento do que a diferenças imanentes às
diversas teorias. (p. 18)
Neste caso, será que poderíamos pensar
na existência de uma pré-transferência
que acontece quando o profissional se
depara com o contato com um outro –
idoso? Como se as relações já estivessem
estabelecidas de antemão tendo como
referência uma imagem de velhice a priori? Quais são estas imagens de velhice e
de envelhecimento que possuímos?
Outros aspectos sócio-históricos e culturais podem ser abordados no intuito de
entender melhor em que lugar se encontra a velhice. Segundo Birman (1995), um
destes aspectos refere-se à visão organicista da vida, com sua noção de nascimento, crescimento, reprodução e morte; havendo aqui o conceito de degeneração. A própria psicologia do desenvolvimento tradicional perpassa esta questão,
no sentido que defende a existência de
fases da vida a serem cumpridas.2 Estes
pensamentos valorizam o novo, sobrando ao velho somente o definhar à espera
da morte – sobra-lhe o aspecto negativo.
Na psicanálise identificamos uma vertente oposta. Segundo o psicanalista francês
2> Segundo a antropóloga Guita Grin Debert (1998), “as etnografias mostram que, em todas as sociedades, é possível observar a presença de grades de idades. Mas cada cultura tende a elaborar grades de idades específicas. A pesquisa antropológica demonstra, assim, que a idade não é um dado da natureza, nem
um princípio naturalmente constitutivo de grupos sociais, nem ainda um fator explicativo dos comportamentos humanos. Essa demonstração exige um rompimento com os pressupostos da psicologia do desenvolvimento que concebe o curso da vida como uma seqüência unilinear de etapas evolutivas em que
cada etapa, apesar das particularidades sociais e culturais, seriam estágios pelos quais todos os indivíduos passam e, portanto, teriam caráter universal” (p. 51).
O envelhecimento não é a velhice, como uma
imagem não se reduz a uma etapa. O envelhecimento é um processo irreversível, que se
inscreve no tempo. Começa com o nascimento e acaba na destruição do indivíduo. (...) Os
significados são inseparáveis. (...) Se o envelhe-
Neste sentido é válido dizer que tanto a
velhice quanto o momento em que ela se
dá, não são rígidos, varia de pessoa para
pessoa, de acordo com o momento de vida,
e seus acontecimentos. Para Messy (1992)
“o aparecimento da velhice aconteceria
por ocasião de uma ruptura brutal do
equilíbrio entre perdas e ganhos” (p. 22).
Enquanto vivemos, passamos por uma
sucessão de ganhos e perdas. Nas crianças os ganhos superam as perdas, apesar
destes dois aspectos estarem estritamente ligados: é preciso perder um dente-deleite para que o dente permanente possa
aparecer.
Ao contrário disto, a perda que está ligada à entrada na velhice, não traz aquisições consideradas como benéficas nem
pela pessoa, nem pela sociedade. Ela é
considerada como um dado que marca e
notifica que a presença da finitude está
próxima, e como já foi dito, isto vai se
manifestar de maneira diferente em cada
um de nós.
A percepção da velhice normalmente
acontece de “fora para dentro”, ela vem
de fora, por parte de outra pessoa, de um
espelho ou de alguma situação presente
no cotidiano. Estamos falando que a velhice não é reconhecida pela própria
pessoa de imediato, ela é algo do externo,
tanto que os psicanalistas falam do “susto ao espelho” como um momento de
surpresa e não reconhecimento frente à
própria imagem:
O sujeito que envelhece sabe perfeitamente
que aquela imagem lhe pertence, mas experimenta ante ela uma certa estranheza, um susto, como se a imagem fosse de outro: há uma falta
de reconhecimento como imagem, não como su-
artigos
cimento é o tempo da idade que avança, a velhice é o da idade avançada, entende-se, em direção à morte. (p. 12 e 17)
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Jack Messy (1992), este modo de pensar em
fases rígidas da vida, se opõe ao conceito de que o desejo e a libido estão presentes e ativos em qualquer idade; se há, de
fato, uma mudança corporal, isto não impede que o ser continue sendo desejante
e que haja um funcionamento psíquico.
Nossa história está intimamente ligada à
temporalidade, e esta é uma das questões
centrais da filosofia, não por acaso. É o
tempo, tão difícil de se definir, impossível
de se alcançar, que marca o envelhecimento e que leva o ser em direção à morte. Envelhecemos desde o dia em que fomos concebidos, e o envelhecimento é
um processo que percorre toda a nossa
vida. O inconsciente não tem temporalidade cronológica, ele tem um outro tempo,
que é o tempo da repetição.
Normalmente, só consideramos o envelhecer aos velhos. Tanto a criança quanto o jovem crescem e se desenvolvem, e
quando falamos “Estou envelhecendo”,
falamos de um lugar não querido, de algo
que é ruim e que tentamos controlar,
como quando estamos mais cansados
que usualmente, quando nos esquecemos
de alguma palavra, quando não conseguimos fazer alguma coisa.
Estes aspectos reforçam o costume que
as pessoas têm de colocar no mesmo plano velhice e envelhecimento. Esta confusão de termos, como diz Messy (1992)
“fortalece uma ilusão de salvação em que,
pretensamente, só os velhos envelhecem
... e já que os velhos são os outros...!” (p.
17). Ele mesmo continua:
>21
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jeito. (...) Quando um idoso se olha no espelho, o que este lhe devolve é uma imagem ligada a uma deterioração, uma imagem com a qual
ele não se identifica. Não há júbilo nem alegria, há apenas estranheza, e ele pensa: “esse
não sou eu”. Novamente uma discrepância entre a imagem inconsciente do corpo e a imagem
que o espelho lhe devolve. (Goldfarb, 1998, p. 51)
>22
Como diz Carlos Drummond de Andrade:
“Os outros enxergam a velhice que se esconde em nós”.
Se a pessoa não reconhece o velho em si,
o velho do espelho pode se tornar uma
outra pessoa, este outro velho é aquilo
que eu não quero ser. Simone de Beauvoir
relata: “Velho é sempre o outro”. Isto
porque o corpo revela uma velhice não
esperada, que assusta por se apresentar
como uma grande ameaça – sinaliza que
o ser está próximo de deixar de existir.
Há, portanto, uma diferença entre entrar
na velhice e se considerar velho. A velhice é quase um estado onde a pessoa passa
a lidar com as coisas de uma outra maneira como foi descrito acima. Ser velho é uma
experiência muito relativa: para uma
criança de 5 anos, uma pessoa velha é aquela que tem mais de 10 anos de idade. Para
um adolescente, uma pessoa com 30 anos
já é considerada velha. E assim por diante.
Por isto, ao discorrermos sobre estas características, tanto da velhice, quanto do
envelhecimento, percebemos as implicações que estes conceitos têm sobre a nossa prática enquanto profissionais da saúde, e sobre o imaginário social.
Quando produzimos ou atuamos, estamos
refletindo a nossa maneira de pensar; se
não olhamos para isto poderemos estar,
sem querer, atuando no sentido de des-
valorizar o velho, ou subjugando-o, esquecendo que ele é um ser humano com
direito ao exercício de sua cidadania.
Atuações que mantêm o velho numa situação de isolamento, menosprezam suas
capacidades e necessidades, ignoram suas
potencialidades e desejos, ou o consideram
crianças débeis, acontecem freqüentemente, como mostra esta citação de um
romance de Doris Lessing (1983):
Minha mãe não se revolta com a velhice. Mas
não gosta de ser tratada com complacência. Eu
disse para o pessoal do asilo: Ser velho não significa ser retardado. (...) Muitos velhos são assustadores, uma ameaça, não podemos
suportar todos eles, por isso, fingimos que são
crianças boazinhas. No nosso interesse. (p. 82)
Esta citação explicita um aspecto que
acontece com freqüência nas relações
com idosos. Os profissionais que trabalham com este público também estão envelhecendo, de tal forma que também são
tocados, direta ou indiretamente, por este
processo que vai, um dia, levá-los à mesma situação do velho de quem cuidam. É
preciso também desenvolver um trabalho
com estas pessoas, para que não atuem
contra o velho, velho este que é o seu espelho de amanhã.
Clínica do envelhecimento
Podemos dizer que trabalhar com pessoas que estão envelhecendo é a mesma
coisa que trabalhar com velhos?
Se formos considerar tudo o que foi dito
anteriormente, diremos que não. Mas é preciso discorrer um pouco mais. Entre outras coisas que perguntamos no grupo de
discussão “Psicanálise e envelhecimento”:3
3> Grupo de interlocução “Psicanálise e envelhecimento”.
A dificuldade em se lidar com o tempo é
comum às várias idades, mas ela se evidencia de maneira diferente no velho: o
corpo que está diferente escancara esta
relação com o tempo. Em análise, quando se trabalha com velhos, expõe-se para
o profissional a dificuldade deste em lidar
com as suas próprias questões relacionadas ao seu processo de envelhecimento
ou com suas histórias vividas com outros
velhos próximos – avós, professores, amigos. Numa análise é mais comum ver o
analista ter dificuldades em tocar no assunto da finitude e da morte, do que às
vezes, o próprio paciente que está envolvido por estas questões.
O trabalho é árduo para o analista pois
implica colocar-se junto a um sujeito ve-
artigos
O tempo do envelhecimento está ligado à consciência da finitude, que se instaura a partir de
diferentes experiências de proximidade com a
morte durante a vida toda, mas que na velhice adquire a dimensão do iniludível. (Goldfarb,
2002, p. 108)
lho, na possibilidade de se encontrar um
sujeito envelhecido e não apenas um espelho daquilo que poderemos chegar a
ser e que não queremos ver.
Para evitar este temor, tendemos manter
afastados a velhice e o velho. Pude então
perceber, que a maior dificuldade está no
próprio contato com o tema, pois a velhice nos remete à nossa história e ao nosso processo de envelhecimento. Entretanto, a velhice não pode ser resumida a este
aspecto de proximidade com a finitude,
ela é um momento da vida, e não da morte.
Para pensar esta questão trago uma situação que acontece na instituição onde
trabalho. Trabalho numa instituição de
saúde mental composta por uma equipe
de terapeutas – psicanalistas, psiquiatras,
terapeutas ocupacionais entre outros
profissionais, que freqüentemente recebe
pessoas com idade superior a 60 anos,
normalmente com sintomas depressivos,
quadros psicóticos, associados ou não a
um estado inicial de demência.
De início, o interesse da equipe é menor
quando aparece um velho do que um jovem esquizofrênico. Uma parcela grande
da equipe não demonstra interesse especial em assumir o trabalho de tal paciente. Normalmente é sempre a mesma pequena parcela que assume o início do trabalho. No entanto, este distanciamento
inicial observado se reverte para a maior
parte da equipe no decorrer do tratamento. Com o tempo, os terapeutas passam a
conhecer melhor o paciente, e este passa a se sentir mais à vontade na instituição; situação que favorece a criação de
espaços para o estabelecimento das várias transferências institucionais.
Interessante notar que quando se desvela o velho enquanto sujeito – mesmo este
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O velho procura uma análise porque está
com questões referentes à idade avançada ou ele procura análise por suas questões neuróticas de sempre? Ou ambas?
Como ouvir as queixas recorrentes dos
velhos?
Vamos por parte. Délia Catullo Goldfarb
em seus trabalhos sobre o tema vai pensar numa clínica do envelhecimento, uma
clínica que teria algumas particularidades.
Mas o que pode ser considerado enquanto diferencial da clínica da neurose?
Penso que a principal diferença é a vivência da temporalidade. Como foi dito anteriormente, a vivência da temporalidade na
velhice é diferente de quem envelhece
em outras idades.
>23
sujeito psicótico, a velhice deixa de ser
um empecilho de contato, ela passa a fazer parte da condição do sujeito que está
em tratamento.
Penso que o trabalho só se torna possível
quando a transferência se dá com aquela pessoa singular que está envelhecendo.
Escrevendo isto me parece uma idéia
quase que óbvia. Mas ela não é. Trabalhar
com pessoas com idade avançada nos remete a repensar a formação do analista de maneira mais intensa e imprescindível. Ora,
olhar o humano que procura a clínica, é
olhá-lo em suas dimensões humanas mais
abrangentes e suas particularidades mais
dinâmicas. Como nos diz Goldfarb (2002):
pulsional > revista de psicanálise >
ano XVI, n. 173, setembro/2003
artigos
Falamos de um sujeito psíquico em constante
crescimento e evolução, altamente afetado
pela representação de um corpo que se deteriora e pela consciência da finitude. Mas estamos falando de um limite e não de uma
limitação. Limite que será o do corpo biológico que sofre uma involução, mas não daquele
outro, que sabemos capaz de prazer, instrumento de amor e que deverá ser incentivado a
sentir e se sensibilizar com a proximidade dos
outros e a força dos vínculos. (p. 110)
>24
Olhar o sujeito que envelhece em suas
subjetividades, sem somente encarcerá-lo
em estereótipos sociais e em seu corpo
biológico, é possibilitar a ampliação destes limites que Goldfarb esclarece acima.
Para tanto é preciso estar atento aos limites de nossas atuações e às histórias de
nossos “envelhecimentos”. É justamente
neste aspecto que se torna relevante esta
discussão, no intuito de despertar a atenção e possibilitar a ampliação de reflexões e questionamentos, sem, no entanto, ter a pretensão de esgotar os assuntos
envoltos no tema.
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M ASCARO , S.A. O que é velhice? São Paulo:
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Artigo recebido em fevereiro/2003
Aprovado para publicação em agosto/2003
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