UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ CENTRO DE HUMANIDADES CURSO DE PSICOLOGIA VIVÊNCIA DE RUA E ALCOOLIZAÇÃO: A PRODUÇÃO DE SENTIDO EM (EX) MORADORES DE RUA Autor: Paulo André Sousa Teixeira BANCA EXAMINADORA ___________________________________ Profa. Dra. Veriana de Fátima Rodrigues Colaço (Orientadora) __________________________________ Profa. Dra. Ângela de Alencar Araripe Pinheiro Membro da Banca Examinadora __________________________________ Prof. Dr. César Wagner de Lima Góis Membro da Banca Examinadora __________________________________ Esp. Silvana Garcia de Andrade Lima Membro da Banca Examinadora ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA: Rua Tiradentes, 641, B:H Ap:201 Parque Araxá – 60430-560 Fortaleza – CE TELEFONES: (85) 32231804 – (85) 88845979 EMAIL: [email protected] VIVÊNCIA DE RUA E ALCOOLIZAÇÃO: A PRODUÇÃO DE SENTIDO EM (EX) MORADORES DE RUA RESUMO A temática da drogadição já é tida como antiga, tanto em termos de fenômeno social como em relação ao estudo científico desse comportamento. Entretanto, estamos longe de responder, em definitivo, as perguntas que assolam a sociedade moderna em relação ao uso e, principalmente, ao abuso de drogas: “Por que o sujeito se vale dessas substâncias?” (sejam elas lícitas ou ilícitas); “O que ele busca experimentar, fugir, intensificar, conhecer... ao usá-las?”; “Quais os múltiplos sentidos subjacentes – desde os compartilhados com uma determinada cultura aos produzidos de forma individual – ao comportamento de uso/abuso de certas substâncias entorpecentes?”. Paripasso ao fenômeno do uso/ abuso de drogas, temos uma realidade – que semelhante à drogadição também não é nova – que é a dos moradores de rua. Do encontro da rua com as drogas, o que podemos esperar? Nesse sentido, nossa pesquisa teve por objetivo investigar quais os sentidos que os ex-moradores de rua, da Fraternidade Toca de Assis, construíram em relação ao abuso de álcool no transcorrer de suas histórias de vida. A referida entidade é uma congregação religiosa, vinculada à Igreja Católica. A amostra desta pesquisa é composta por três sujeitos abrigados na Fraternidade Toca de Assis e que residem há mais de um ano na casa. Utilizamos a entrevista semi-estruturada como método de coleta de dados. A partir dos dados colhidos através das entrevistas, os submetemos (os dados) à análise semiótica, segundo a qual o processo de interpretação é concebido com um processo de produção de sentidos. O sentido é o meio e o fim de nossa tarefa de pesquisa. Tomamos por base teórica a Produção de Sentido no Cotidiano por meio das Práticas Discursivas e concepção de Produção de Subjetividade. A partir de nossa incursão empírica na Fraternidade Toca de Assis, pudemos perceber que uma gama de sentidos foram construídos em relação à bebida alcoólica. Aspectos como: masculinidade, família, trabalho e precarização do mundo laboral e acontecimentos veiculados pela mídia estão intimamente ligados à produção da realidade dos moradores de rua e da sua vivência com o álcool. A Psicologia tem a contribuir tanto como ciência – na compreensão das variáveis envolvidas, na problematização da realidade e na desnaturalização dos “óbvios” – como na proposição de uma práxis contextualizada, na capacitação de pessoal e, principalmente, no planejamento de ações interdisciplinares. Palavras-chave: Moradores de Rua, Álcool, Produção de Sentido. UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ CENTRO DE HUMANIDADES DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA PARECER SOBRE MONOGRAFIA Como orientadora da monografia de Curso de Graduação intitulada VIVÊNCIA DE RUA E ALCOOLIZAÇÃO: A PRODUÇÃO DE SENTIDO EM (EX) MORADORES DE RUA do aluno Paulo André Sousa Teixeira, do Curso de Psicologia da UFC, recomendo a sua inscrição para concorrer ao Prêmio Silvia Lane que será concedido pela Associação Brasileira de Ensino de Psicologia – ABEP, considerando a relevância do tema no campo da Psicologia Social e a qualidade do estudo, que obteve a nota 9.3 pela banca examinadora, por ocasião da defesa pública da monografia. Fortaleza, 30 de março de 2007 Veriana de Fátima Rodrigues Colaço Professora Doutora do Departamento de Psicologia da UFC INTRODUÇÃO A temática da drogadição já é tida como antiga, tanto em termos de fenômeno social como em relação ao estudo científico desse comportamento. Entretanto, estamos longe de responder, em definitivo, as perguntas que assolam a sociedade moderna em relação ao uso e, principalmente, o abuso de drogas1: “Por que o sujeito se vale dessas substâncias?” (sejam elas lícitas ou ilícitas); “O que ele busca experimentar, fugir, intensificar, conhecer... ao usá-las?”; “Quais os múltiplos sentidos subjacentes – desde os compartilhados com uma determinada cultura aos produzidos de forma individual – ao comportamento de uso/abuso de certas substâncias entorpecentes?”. Certamente essas e outras questões estão longe do esgotamento. É nesse sentido que visamos, através desta pesquisa, contribuir com avanço na discussão e problematização dos contextos diferenciados que indivíduos se valem no uso de drogas diversas. Paripasso ao fenômeno do uso/abuso de drogas, temos uma realidade – que, semelhante à drogadição, também não é nova – que é a dos moradores de rua. Prenhe de variáveis e multicasual, homens, mulheres, crianças, jovens, adultos habitam as ruas e fazem delas suas moradas. Mais comum – porém não exclusivo - nas grandes capitais, a situação do morador de rua se confronta, diariamente, com o direito à moradia, à dignidade, ao respeito e a tantos outros. Essas pessoas, por não gozarem de lugar fixo para sua habitação, acabam também prescindindo de outros direitos sociais como educação, saúde e lazer - para citar apenas os mais gritantes. A invisibilidade é a marca desta população. Na trama social, são sempre pano de fundo de uma paisagem, como se naturalmente fizessem parte do contexto. Mas não o são. “Vale ressaltar que o estudo referente à temática moderadores de rua é bastante escasso, seja na construção de trabalho acadêmico, pesquisa ou tese, seja na produção bibliográfica [...]”, (ALCÂNTARA, 2004, p. 94) ou ainda: Apesar de se tratar de uma população que cresce diariamente na cidade de São Paulo, poucos trabalhos de Psicologia (até 2002) foram produzidos a respeito do tema (moradores de rua). Em outras áreas do conhecimento a situação não é muito diferente (SERRANO, 2004, p.15). 1 Definiremos, na seqüência, o que entendemos por uso e abuso de entorpecentes. Do encontro da rua com as drogas, o que podemos esperar? Seria também essa uma aproximação lógica e fatalista, como as aproximações que alguns fazem em relação à pobreza e à marginalidade? A rua e a droga permitem o deslocamento espacial – tanto no sentido físico como “a viagem” do efeito de certos entorpecentes – fazendo com que o sujeito transite livremente, mesmo em locais que lhe são, a todo momento, interditados por sua condição socioeconômica e, principalmente, pela sua impossibilidade de consumo. E quem será que vem primeiro? Para estar na rua, a droga se faz necessária ou será a droga que leva o sujeito ao mundo incerto das calçadas e das pontes? Estudos recentes (CAMPOS; FERREIRA; MATTOS, 2004, p.1-2) apontam que há relação, sim, entre os moradores de rua e o alcoolismo. Segundo os autores, [...] o alcoolismo apresenta-se ora como um dos motivos primordiais da rualização, ora como uma conseqüência do ingresso no mundo da rua. Outras vezes, entretanto, surge, simultaneamente, como condição e efeito da situação de rua. Nesse sentido, é esperado que o álcool gere uma maior suscetibilidade a enfermidades, dificuldades no engajamento laboral e outros problemas inerentes. Por outro lado, o álcool também assume, por vezes, o caráter de “anestesia”, principalmente em relação ao sofrimento cotidiano. Prescindir da alcoolização é, por vezes, entrar em contato com uma realidade cruel, quase insuportável. Diante dessa dinâmica – como causa, conseqüência ou os dois eventos simultâneos –, é muito provável que o aspecto da dependência química enraíze ainda mais o sujeito na situação de rua, impossibilitando, muitas vezes, sua saída. Campos e colaboradores ainda acrescentam: [...] as propostas que respondem às necessidades de trabalho e moradia são imprescindíveis para a consecução da saída das ruas, o que a maioria das políticas públicas oferece. Porém, acreditamos que necessariamente também haja a inclusão de medidas que atentem para a questão do alcoolismo, para que os programas voltados a essa população possam ser efetivos (2004, p.2). Pautado em uma realidade concreta de vivência com sujeitos que passaram pela experiência de rualização, nosso interesse surgiu pela inserção, como estagiário, na Fraternidade Toca de Assis. A referida instituição é uma comunidade religiosa, vinculada à Igreja Católica, que trabalha com o acolhimento e cuidado de moradores de rua. Os “irmãos de rua”, como os religiosos os chamam, são todos adultos e homens; escolha esta que, segundo eles, se deve ao maior contingente encontrado nas ruas. O nosso contato com a instituição se deu por intermédio de um estágio em Psicologia Clínica, vinculado à Formação em Psicologia e Psicoterapia FenomenológicoExistencial com o Instituto Reluz, ONG criada para prestar atendimentos diversos à Fraternidade. Uma vez imerso nessa realidade, percebemos – religiosos, estagiários, profissionais e seguindo a fala dos próprios abrigados – que a problemática das drogas, com ênfase acentuada no álcool, permeava grande parte dos conflitos e falas que circulavam na instituição. Fugindo de uma perspectiva higienista ou policialesca, na qual iríamos em busca de uma causa para explicar, ou mesmo de ações para extirpar esse tipo de comportamento, visamos uma abordagem que buscasse a compreensão das multiplicidades de sentidos que estão presentes no fenômeno do abuso de álcool, especificamente. A escolha do álcool nessa pesquisa se deu pela abrangência, facilidade de acesso e recorrência na instituição. No entanto, não queremos dizer, com isso, que o abuso de álcool aparece isoladamente. Segundo nossas observações e incursões gerais, muito pelo contrário. Ao mesmo tempo em que não advogamos a favor da tese determinista de que álcool é “necessariamente” a “porta de entrada” para drogas mais “pesadas”. Pensamentos dessa natureza só corroboram com os simplismos e estereótipos decorrentes deste. Esse tipo de enfoque, no nosso entender, é qualitativamente mais apropriado por alguns motivos: parte da realidade dos próprios sujeitos, conhecedores, por excelência, de suas próprias motivações e de seus desejos; entende que a ação do abuso de álcool, mesmo com sua conotação social tida como autodestrutiva, possui um significado e não pode ser simplesmente extirpado; não descarta a possibilidade, a partir dos conhecimentos produzidos e acumulados no transcorrer da evolução científica, de se fazer uma intervenção curativa e, sobretudo, preventiva. Para tanto, valeremo-nos das contribuições das diversas áreas do conhecimento – Psicologia, Sociologia, Medicina, entre outras – para aprofundar a compreensão das reações fisiológicas, da evolução histórico-social, das repercussões subjetivas do referido fenômeno. Optamos por trabalhar com a situação de abuso de álcool como um objeto de estudo não problemático em si, num sentido pejorativo (apesar de não negarmos que, em certos momentos, se torna realmente um problema, principalmente no âmbito da saúde pública2). Entretanto, Bucher (apud GOMES; RIGOTTO, 2002, p. 96) ainda aponta que “há consenso sobre o aumento acelerado do consumo em decorrência do narcotráfico e da demanda por produtos psicotrópicos”. É quando o álcool sai da esfera exclusiva do indivíduo e passa a interferir na família, na comunidade, no trabalho – e, por sua vez, no sistema econômico – que ele se torna um problema que traz consigo gastos vultosos para o Estado e, por conseqüência tributária, para a sociedade. Como ainda afirma Silva (2000, p. 30) “Não podemos ignorar que há um custo gradativo no tratamento de doenças derivadas do uso de drogas: custo hospitalar, desemprego, produtividade, prostituição e criminalidade”. Visto a complexidade do fenômeno, nossa reflexão sobre ele também não pode reduzir-se a uma explicação reducionista, seja de ordem biológica, social ou psicológica. A esfera da saúde pública – visto a amplitude de disciplinas que a compõem – nos oferece dados de grande relevância no sentido de compreender as repercussões da alcoolização no Brasil nos últimos anos. Quando falamos de doenças da contemporaneidade, os transtornos relacionados ao “abuso de substâncias aparecem lado a lado com os transtornos alimentares e as compulsões por jogo, sexo e compras” (MOREIRA, 2006, p. 3). Só no ano de 1999 foram realizadas 37.754 internações hospitalares, número correspondente a 85% dos problemas decorrentes do uso de drogas psicotrópicas em geral (CEBRID, 2000, apud CAMPOS et al, 2004, p.2). Ademais, ainda para o referido ano, o coordenador do GREA (Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo, Prof. Dr. Arthur Guerra de Andrade (apud CAMPOS et al, 2004, p. 2), afirmou, no encontro “Álcool e suas Repercussões Médico-Sociais”, [...] que o Brasil gasta 7,3% do Produto Interno Bruto (PIB), por ano, para tratar de problemas relacionados ao álcool - desde o tratamento do dependente, até a perda da produtividade por causa da bebida - como a indústria do álcool movimenta somente 3,5% do PIB. 2 “A prevalência do álcool é de 11,2% na população brasileira, e a maior taxa de dependentes está na população cuja faixa etária é a de 12 a 24 anos, sendo 17,1% da população masculina e 5,7% da população feminina” (CEBRID apud CAMPOS, 2004, p. 1380). Além do que “sabe-se que o início do uso de drogas está ocorrendo com pessoas cada vez mais jovens e com substância de teor tóxico mais elevado” (GOMES; RIGOTTO, 2002, p. 96). Diante de dados estarrecedores como estes, é preocupante observarmos o trato sócio-culturalmente legitimado, já que observamos que a problemática não está na pauta de discussões de governos, políticas públicas, nem das articulações da sociedade civil. Podemos, mesmo que superficialmente, pensar nas repercussões negativas que esta problemática traz nos acidentes de trânsito, nos acidentes de trabalhos, na desestruturação familiar, nos gastos com medicamentos e, em último caso, nos volumosos investimentos em clínicas de reabilitação. A publicidade também deve entrar como variável de análise, no sentindo de se constituir uma grande incentivadora do aumento do consumo nos últimos anos3. Refletindo com os dados anteriormente apresentados pelo coordenador do GREA, concluímos que, em termos sociais, o abuso de álcool traz consequências indesejáveis ao bem-estar da população. Remetendo-nos novamente à problemática da alcoolização ligada ao mundo das ruas, é de fácil constatação a representação socialmente compartilhada da pessoa alcoolizada em situação de rua ser apenas “um bêbado qualquer, um desinteressado, um caído, um coitado...”. Tais imagens tendem a desresponsabilizar as autoridades competentes, bem como a sociedade, diante da sua participação na produção (ou omissão em combater) deste fenômeno. A culpabilização exclusiva do “bêbado” apresenta-se como deslocada da realidade sócio-cultural, como se o comportamento não fosse aprendido, permitido, ensinado e, em grande parte, incentivado. É um reducionismo psicológico que deve ser, a todo custo, refutado. Num contexto laboral altamente precário, a questão da falta de trabalho, das condições desfavoráveis, da intensa flexibilização dos contratos, da falta de poder de reivindicação por parte das classes trabalhadoras, são variáveis que também devem ser levadas em consideração. A saída para as ruas não é um evento abrupto. Por vezes, vem acompanhada do desemprego crônico, da dissolução dos laços familiares, do intenso sentimento de culpa e vergonha e, por fim, de uma “fuga” da realidade vivenciada. Em relação ao círculo familiar, estudos afirmam a intrínseca relação entre o alcoolismo e a violência doméstica (NASSER; ESCOREL apud CAMPOS et al, 2004, p. 8), sendo esta realidade um fator primordial de dissolução ou até mesmo de rompimento das relações familiares. Outros dados alarmantes ainda nos lançam para a problematização da relação do álcool com as ruas. Segundo Rosa (apud CAMPOS, 2004, p.8), em relação à população 3 O consumo no Brasil aumentou 74.53% entre os anos de 1970 e 1996 (CARLINI-MARLATT apud CAMPOS et al, 2004, p.3). em situação de rua que faz abuso de álcool, “entre nove que fazem uso de bebida, oito começaram a beber antes da chegada às ruas”, além de acrescentar que “os que estão há pouco tempo na rua sentem a pressão exercida pela bebida; se não aderem, são tratados como diferentes; é preciso falar a mesma linguagem, caso contrário sofrem represálias” (ROSA apud CAMPOS et al, 2004, p.11). Diante destas indicações, não se pode pensar um problema ou outro isoladamente ou desconsiderando o sistema socioeconômico, isso pode ser fonte de superficialidades e/ou conclusões apressadas. À guisa de um esquema para estas relações, Campos (et al) atesta: Fica explícita a influência do álcool na ruptura com os ambientes familiares; na manutenção de trabalhos intermitentes que favoreciam uma maior liberdade para o exercício de sua dependência química; por fim, em situação de rua, todos rendimentos auferidos tinham como destino a re-produção desse círculo vicioso que o levou a esta condição (2004, p.10). Uma vez inseridos na cultura de rua, há também que se atentar para o caráter socializador que o uso de álcool assume. Há uma criação em torno do ato beber, de uma série de ritos, comportamentos socialmente aceitos (e recusados), entre estes os estabelecimentos de horários, legitimação de compadrio e outras nuanças. Porém, como afirma Mattos: [...] ao lado da confraternização, o álcool também é elemento de discórdia, criando uma configuração contraditória nas relações entre estas pessoas: surge com um aspecto de solidariedade, mas gera a violência; ao lado da união, promove a desintegração do relacionamento entre as pessoas, perpassando desde boas conversas e risadas até grandes discussões e brigas até “fatais” (apud CAMPOS et al, 2004, p.11). Vale ressaltar que o interesse desta pesquisa não é constatar nem refutar a interdependência existente entre o álcool e a situação de rua. Para nós, e segundo os estudos realizados, a ligação intrínseca é notória, porém não fatalista. Nosso interesse diz respeito a compreender, a partir da história de vida destes sujeitos, como o álcool foi sendo significado ao longo da vida destes usuários, quais os personagens relevantes, quais os cenários marcantes, os sentimentos etc. Mais especificamente, seria então investigar quais os sentidos que os ex-moradores de rua, da Fraternidade Toca de Assis, construíram em relação ao abuso de álcool no transcorrer de suas histórias de vida. 1) AS VEREDAS DA PESQUISA Diante da complexidade das pesquisas que têm a subjetividade como enfoque, optamos por uma pesquisa eminentemente qualitativa. Tal delimitação dá-se, entre outros fatores, devido ao nosso objeto de estudo – a produção de sentido, a situação de rua, o álcool e a construção da subjetividade – e à nossa concepção de que a pesquisa qualitativa apresenta uma metodologia consoante com nossos propósitos de investigação. Circunscrevemos esta epistemologia de estudo também por corroborar com González Rey (2002), quando este concebe a epistemologia qualitativa como: Um esforço na busca de formas diferentes de produção de conhecimento em psicologia que permitam a criação teórica acerca da realidade plurideterminada, diferenciada, irregular, interativa histórica, que representa a subjetividade humana (p. 29). Ademais, a ruptura com um modelo mecanicista, nos moldes do positivismo, foi uma atitude metodológica frente às limitações que tal modelo apresentava. Extrapolando os objetivos destes, temos que a: Abordagem qualitativa no estudo da subjetividade volta-se para a elucidação, o conhecimento dos complexos processos que constituem a subjetividade e não tem como objetivos a predição, a descrição e o controle. Nenhuma dessas três dimensões, que historicamente estão na base da filosofia dominante na pesquisa psicológica, forma parte do ideal orientado pelo modelo qualitativo de ciência (Ibidem, p. 48). Spink (2000), por sua vez, da mesma forma que González Rey, trata a perspectiva qualitativa não apenas como uma metodologia, mas uma epistemologia. Nesse sentindo, a opção sai da esfera técnica e passa a coadunar com os objetivos da investigação. Entendido então como epistemologia, dentro de uma perspectiva do Construcionismo Social (ver capítulo sobre produção de subjetividades e sentidos), a combinação de estratégias quantitativas e qualitativas deixa de ser uma querela, superando também outras dicotomias, como realismo e idealismo ou indivíduo e sociedade. 1.1) A Produção de Sentido como método Um conceito capital em nossa pesquisa será a noção de sentido. Na concepção de Medrado e Spink “dar sentido ao mundo é uma força poderosa e inevitável na vida em sociedade” (2000, p. 41). O sentido é sempre uma construção social e coletiva, que se dá por meio da interação e das relações, a partir das quais as pessoas compreendem e atuam em seu cotidiano. Não entendemos o sentido como apenas uma produção intraindividual, muito menos uma mera atividade cognitiva. Como prática social, ele é sempre dialógico, visto o movimento dinâmico da linguagem. Esta noção é cerne também do entendimento que o Construcionismo Social traz acerca da apreensão da realidade, já que “é a compreensão de que os termos em que o mundo é compreendido são artefatos sociais, produtos das trocas historicamente situadas entre as pessoas” (GERGEN apud MENEGON e SPINK, 2000, p.76). Com isso, essa perspectiva intenta a descrição dos fenômenos, na qual as pessoas explicam o mundo, incluindo-se nele. Dessa forma, tomamos por base a noção de “práticas discursivas”, já que a linguagem encontra-se em movimento, constantemente. “Podemos definir, assim, práticas discursivas como a linguagem em ação, isto é, as maneiras a partir das quais as pessoas produzem sentidos e se posicionam em relações sociais cotidianas” (MEDRADO e SPINK, 2000, p. 45). A compreensão dos sentidos é sempre um confronto de vários sentidos construídos, não uma produção isolada. Tomaremos por base também as variações temporais que são próprias da produção de sentido. Queremos dizer, com isso, que há vários “tempos”, a citar: um longo, um curto e um vivido. O primeiro marca os conteúdos culturais e a história de uma dada sociedade; o segundo diz respeito aos processos dialógicos, às interações face-a-face; já o terceiro versa sobre as linguagens apreendidas a partir da socialização, são as experiências da pessoa ao longo de sua história (MEDRADO e SPINK, 2000, p.51). Nossa compreensão só estará minimamente qualificada quando levar em conta esses três tempos, articulando-os e considerando suas contradições inerentes. Nesse instante, separações como indivíduo/sociedade, sujeito/objeto, bem como fora e dentro do sujeito não fazem mais sentido. A perspectiva do Construcionismo Social, base epistemológica na compreensão das práticas discursivas, no enfoque de Spink, supera ainda a dicotomia realismo/subjetivismo, representada no pensamento filosófico pelas correntes empiristas e idealistas. As tensões e paradoxos, ao invés de refutados na nossa investigação, fazem parte do processo de pesquisa. A interpretação levou em conta o pesquisador e sua subjetividade, assim como a noção histórica como variável que impulsiona transformações. Ou, como enfatizam Medrado e Spink: Por meio dessa abordagem, buscamos construir um modo de observar os fenômenos sociais que tenha como foco a tensão entre a universalidade e particularidade, entre o consenso e a diversidade, com vistas a produzir uma ferramenta útil para transformações da ordem social. (2000, p. 61). 1.2) Lócus de Pesquisa A pesquisa foi realizada na Fraternidade Toca de Assis4 (Casa Aliança São José), localizada na Avenida João Pessoa, N. 5052, Bairro Damas, na cidade de Fortaleza - CE. O local foi fundado em 2003. Quanto à sua estrutura física, conta com dois andares, três banheiros, seis dormitórios, uma capela, um escritório, uma enfermaria, dois salões, uma cozinha, um alpendre na parte superior, um jardim na parte inferior da casa e uma sala para atendimentos diversos (inclusive psicológico, feito pelos membros do Instituto Reluz, mencionado na Introdução desta monografia). A casa é bastante ampla e agradável. A casa abriga cerca de 60 moradores de rua e conta com aproximadamente dez membros da Fraternidade para prestar assistência aos “irmãos de rua”. A casa é exclusivamente masculina, com exceção de uma cozinheira e de algumas consagradas da comunidade5 que realizam visitas com certa freqüência. A idade dos abrigados varia dos 18 aos 70 anos. Há uma heterogeneidade também quantos às características dos abrigados: existem vários moradores com transtornos mentais, comprometimentos físicos, dependência de álcool (não severa), entre outros. O lugar de origem também é bastante variado: há pessoas que chegam desde o Norte do país até o extremo Sul, com prevalência de pessoas de Fortaleza. 4 5 Para mais informações ver: http://www.tocadeassis.org.br/principal.html#tela02 Nomenclatura referente às religiosas mulheres que não moram na casa, mas a freqüentam. A Toca de Assis tem como principais atividades as tarefas domésticas e os momentos de oração. Este segundo ponto é facultativo aos abrigados. São trabalhos na cozinha, no jardim, arrumação geral da casa e coleta de lixo. Constantemente há algum serviço de pedreiro ou bombeiro hidráulico a ser realizado, atividades estas que mobilizam grande parte da casa. Já houve aulas de EJA (Educação de Jovens e Adultos), ministradas por uma voluntária. Os trabalhos voluntários são constantes, porém, há um problema com a falta de continuidade destes. Entretanto, apesar deste leque de tarefas, algo que marca a instituição é a ociosidade. Logo ao adentrarmos o espaço, nos deparamos com uma série de abrigados deitados pelo chão, jogando baralho/dominó, ou, literalmente, “vendo o tempo passar”. Esta é uma limitação que os membros da casa tentam sanar, mas que por causa das limitações estruturais e de pessoal (e pelo próprio propósito da instituição) ainda há muito que se fazer. O objetivo central da casa é o acolhimento, este entendido como recolhimento e conforto espiritual. Há também atividades externas, as chamadas “pastorais de rua”. 1.3) Sujeitos da Pesquisa A amostra dessa pesquisa foi composta por três sujeitos abrigados na Fraternidade Toca de Assis que residiam há mais de um ano na casa. A seleção dos sujeitos da pesquisa foi feita por conveniência, ou seja, explicitamos os objetivos da pesquisa para os consagrados da casa e membros do Instituto Reluz, e pedimos para que estes nos indicassem possíveis candidatos para as entrevistas. O critério, além do tempo de permanência na casa, foi o abuso de álcool (ver conceito de abuso no referencial teórico que consta no segundo capítulo) no período da coleta de dados ou em período recente, bem como a disponibilidade e aceitação dos indivíduos para a entrevista (ver termo de consentimento no apêndice). Importante esclarecer a razão pela qual utilizamos a expressão (ex) moradores de rua e não apenas moradores de rua. Os sujeitos da nossa pesquisa, como já adiantamos, estão abrigados. No entanto, existe uma variação quanto ao modo como os sujeitos se identificam. Alguns acham que a estadia na Toca de Assis é passageira, identificando-se ainda como morador de rua. Outros, ao contrário, se vêem como ex-moradores de rua. Como esta é uma questão delicada e não é objeto de nosso estudo, preferimos o uso dos parênteses para englobar as duas concepções, respeitando, contudo, esta diferenciação. 1.4) Coleta de dados Entendemos que o instrumento de coleta de dados, bem como toda a metodologia, devem ser escolhidos a partir do próprio objeto de pesquisa. Ou seja, o problema e os objetivos de pesquisa norteiam a escolha de um método e não o contrário. Banister, nesse sentido, comenta que “nenhum modelo de prática ou análise pode ser determinado de antemão, abstraindo-se o tópico e o contexto da investigação particular” (apud PINHEIRO, 2000, p.183). Utilizamos a entrevista semi-estruturada como método de coleta de dados (ver roteiro de entrevista no apêndice). Para o registro das entrevistas, usamos um gravador para guardar a fidelidade das falas dos entrevistados. Relatar experiências relativas ao abuso de álcool geralmente é uma narrativa emocionalmente carregada e, por isso, escolhemos proceder à coleta de dados de forma individual. A escolha da entrevista esteve situada na compreensão de que esta se apresenta como uma abordagem relacional por excelência. Menegom e Spink continuam explicando que [...] a expressão e produção de práticas discursivas aí situadas devem ser compreendidas também como fruto dessa interação, ou seja, os integrantes, incluindo o pesquisador, são pessoas ativas no processo de produção de sentidos (2000, p.85). Como nos situamos na seara das pesquisas qualitativas - ou seja, não temos pretensão de generalizar nossos dados –, acreditamos que aprofundar as histórias de vida6 de três sujeitos é suficiente para levantar dados relevantes para a compreensão do fenômeno. O importante é o acompanhamento do movimento discursivo, compreendendo que é nesse fluxo que o sentindo vai sendo tecido. “Práticas discursivas são diferentes maneiras em que as pessoas, através dos discursos, ativamente produzem realidades psicológicas e sociais” (DAVIES E HARRÉ apud PINHEIRO, 2000, p.186). Ao abordamos a entrevista como prática discursiva estamos, sobretudo, compreendendo-a como uma ação, uma inter-ação. A negociação é a marca deste tipo de relação. Pinheiro aprofunda tal negociação explicando que 6 A história de vida a qual nos referimos não diz respeito a uma metodologia, mas as narrativas que os sujeitos faziam em relação às suas próprias histórias. Numa conversa o locutor posiciona-se e posiciona o outro, ou seja, quando falamos, selecionamos o tom, as figuras, os trechos de histórias, os personagens que correspondem ao posicionamento assumido diante de outro que é posicionado por ele. As posições não são irrevogáveis, mas continuamente negociadas (PINHEIRO, 2000, p.186). Antes das entrevistas propriamente ditas, tivemos um momento de apresentação da proposta de pesquisa e um esclarecimento coletivo com os sujeitos que foram indicados em meados de setembro. Foi um momento importante, principalmente porque se deu em grupo, evitando possíveis fantasias quanto aos objetivos da pesquisa. Explicamos exaustivamente os passos, as motivações e como a experiência de cada um seria fundamental na compreensão das intercessões entre a realidade de rua e o álcool. As entrevistas ocorreram no final de setembro e transcorreram de forma tranqüila, sem grandes contratempos. Tivemos apenas que remarcar uma delas por conta da indisposição de um dos entrevistados. Todas tiveram duração de, aproximadamente, uma hora e aconteceram nas dependências da própria Fraternidade. 1.5) Análise dos dados A partir dos dados colhidos através das entrevistas, realizamos o procedimento de análise semiótica, segundo a qual “[...] o processo de interpretação é concebido, aqui, como um processo de produção de sentidos. O sentido é, portanto, o meio e o fim de nossa tarefa de pesquisa” (LIMA e SPINK, 2000, p. 105). Ou seja, não há separação entre o momento da coleta de dados e o da interpretação destes. A interpretação, assim, faz parte do processo de pesquisa, visto que a objetividade buscada perpassa o âmbito da intersubjetividade. Dessa forma, reconhecemos a possibilidade de produção de novos sentidos influenciados pelas discussões entre os sujeitos entrevistados. Utilizado esse método, efetuamos uma leitura dos conteúdos, buscando captar os sentidos para, só a partir daí, realizar uma classificação dos dados coletados, ou seja, não buscaremos encaixar os dados em uma classificação existente a priori. Mesmo que haja tematizações pré-existentes, advindas da escolha de um determinado referencial teórico, estas não se propõem a servir de enquadre para os dados coletados, uma vez que “há um confronto possível entre sentidos construídos no processo de pesquisa e de interpretação e aqueles decorrentes da familiarização prévia com nosso campo de estudo (nossa revisão bibliográfica) e nossas teorias de base” (ibidem, p. 106). Após o surgimento das categorias – a citar: construção da subjetividade do morador de rua, a realidade da rua e o sentido do álcool -, trabalhamos com mapas de associação de idéias. “Utilizamos categorias para organizar, classificar, e explicar o mundo. Falamos por categorias” (MENEGOM e SPINK, 2000, p.78). Estes correspondem a uma espécie de tabela em que os conteúdos são organizados de acordo com as categorias, sem que se perca a ordem das falas, a fim de preservar o contexto no qual surgiram. O aprofundamento e a análise do material empírico serão temas do último capítulo desta monografia. Na ocasião, faremos as devidas descrições, bem como as problematizações e as relações com a teoria apresentada. 2) A REALIDADE DOS MORADORES DE RUA E SUA VIVÊNCIA COM O ÁLCOOL: CONCEITUANDO Neste capítulo, temos por objetivo discorrer sobre os fenômenos do alcoolismo e dos moradores de rua. Ambos possuem suas especificidades e, nem sempre, estão atrelados um ao outro. É nesse sentindo que discorreremos sobre as repercussões do álcool como substância, numa abordagem biopsicossocial. Na seqüência, trataremos do fenômeno dos moradores de rua – tentando compreender sua antropologia, a partir da dicotomia da experiência entre o público e o privado. 2.1) O álcool em uma perspectiva biopsicossocial Historicamente, o tratamento dispensado às drogas, em geral, centrou atenção particularizada como um fenômeno de base unicamente orgânica. Diante da limitação de tal modelo biomédico, foi necessário compreender como fatores psicológicos, culturais e sociais somariam esforços na compreensão de por que o homem faz uso de certas substâncias entorpecentes, chegando, por vezes, a prejudicar seu próprio modo de vida. Tais prejuízos foram aglomerados em torno das chamadas “teorias da adição”. Nestas, segundo West (apud FORMIGONI; QUADROS, 2006, p. 31), “o indivíduo apresenta prejuízos de saúde, psicológicos e sociais, e tem sua liberdade de escolha violada”. É uma primeira forma, ainda abrangente, de abordar as repercussões negativas do abuso de drogas. Entretanto, não queremos cair em um outro extremo, que seria a recusa de uma abordagem fisiológica. Vale ressaltar que a ação da droga no organismo funciona, prioritariamente, por reforço positivo, visto seus efeitos estimulantes (WISE; BOZARTH apud FORMIGONI; QUADROS, 2006, p.31). O reforço positivo é responsável pelo sustento do hábito por conta de estados agradáveis – em geral, euforia e prazer - ao organismo. Tais efeitos são cruciais no estabelecimento da dependência. A dopamina é o principal neurotransmissor das vias de recompensa cerebral (mesolímbica e mesocortical), atuando, primordialmente, no núcleo accumbens do cérebro. Eis o ciclo do processo de recompensa. Outra característica que aumenta a influência orgânica da droga é seu caráter difuso, ou seja, ela atua em diversas regiões do Sistema Nervoso Central (SNC) (FORMIGONI; QUADROS, 2006, p. 32-33). O estudo de drogas lícitas e ilícitas, por vezes generalizado, acoberta as especificidades de cada substância. Cuidaremos, então, do álcool como produtor de reações psicofisiológicas específicas, bem como inserido em um código cultural também peculiar. Em termos populacionais, os dados apontados por Julião e Niel (2006, p. 135) nos chamam a atenção, uma vez que: O alcoolismo figura entre os dez principais problemas de saúde pública no mundo, sendo a quarta doença mais incapacitante, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde. De acordo com dados do CEBRID (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas) de 2002, o álcool é a substância psicoativa mais utilizada no Brasil, e o seu uso durante a vida variou de 53% na região norte a 71,7% na região sudeste. Com relação à dependência de álcool, a prevalência entre homens é de três a quatro vezes maior que entre mulheres. No tocante aos aspectos culturais, podemos observar que o álcool é uma droga lícita e socialmente aceita, sendo o seu uso considerado aceitável e, por vezes, estimulado. Ademais, vale ressaltar o fácil acesso e baixo custo, aliado à falta de fiscalização quanto à proibição da venda para crianças e adolescentes. Quando nos referimos ao álcool, fica implícito que nossa real intenção é abordar os fenômenos decorrentes da exposição de sujeitos a essa substância. O álcool, em si, é de fácil definição. Do ponto de vista da Química, o álcool consiste em “um composto orgânico em que um átomo de H, de um alcano, é substituído por um grupo hidroxila, OH”7. Desta constatação, verificamos ainda que há uma subdivisão da substância álcool em alguns subprodutos, entre os mais conhecidos temos o metanol e o etanol. Seus principais usos são como reagentes químicos e na para produção de combustíveis diversos. Nosso interesse estará voltado para as reações do etanol. Este é obtido, principalmente, a partir da fermentação dos açúcares de frutas, com destaque para a cana-de-açúcar. O etanol é o álcool encontrado em bebidas, sendo sua concentração variável de 4% a 50%. Esta concentração varia de acordo com a fermentação ou destilação da bebida. Citamos como exemplo a cerveja e a cachaça, respectivamente. Bebidas apenas fermentadas não apresentam um teor alcoólico muito elevado. Já as destiladas, como cachaça e uísque, apresentam alto teor alcoólico. Como já havíamos antecipado, nosso foco central não está na substância em si, mas nos efeitos que esta produz no comportamento humano. 7 http://www.quiprocura.net/alcool.htm (acessado em 25/06/06) Quanto à sua Psicofisiologia, podemos afirmar que o álcool atua como agente depressor no cérebro, na parte do sistema nervoso central (SNC). Quando este afeta o SNC, há uma sensação de euforia por parte do indivíduo (geralmente atrelada ao sentimento de desinibição); efeito que logo se atenua e torna-se depressivo quando o efeito da droga sucumbe. Depois de ingerido, o álcool é absorvido pelas paredes intestinais e vai se metabolizar no fígado (SILVA, 2000, p. 15). Outro enfoque que podemos dar ao nosso estudo é sobre a evolução históricoantropológica do conceito de álcool. Segundo Bessa e Gigliotti (2004, p. 11), O álcool é uma substância que acompanha a humanidade desde seus primórdios e sempre ocupou um local privilegiado em todas as culturas, como elemento fundamental nos rituais religiosos, fonte de água não contaminada ou ainda presença constante nos momentos de comemoração e de confraternização, quando se brinda a todos e a tudo. [...] Através da história, o álcool tem tido múltiplas funções, atuando como veículo de remédios, perfumes e poções mágicas e, principalmente, sendo o componente essencial de bebidas que acompanham os ritos de alimentação dos povos. Faz parte do hábito diário de famílias em todo o mundo, servindo de alimento e de laço de comunhão entre as pessoas. Silva ainda acrescenta: Historicamente, o uso do álcool data de 8000 a.C. quando na idade paleolítica era extraído do mel. Somente nos anos 6400 a.C. é que a cerveja e o vinho começaram a ser feitos. O abuso de álcool, contudo, tem acontecido desde o momento em que ele foi inventado. Em sociedades ocidentais atualmente estas bebidas são consumidas sem controle (2000, p. 15). Nesse sentido histórico, o álcool ocupou significados diversos, desde integrante de confraternizações familiares e selador de acordos entre governos até propulsor de festas orgiásticas e bacanais. Diante dos comportamentos atuais, frutos de exposições exageradas a essa substância, observamos que houve uma mudança considerável na forma da sociedade lidar com ela. O mesmo vinho que outrora simbolizava a comunhão agora divide espaço com a representação do consumo arbitrário desestruturador de famílias. “Gradativamente, o que era pecado foi se tornando crime e, mais recentemente, doença” (MOREIRA; SILVERIA, 2006, p. 4). O que se observou então foi, principalmente na sociedade ocidental, uma passagem do liberalismo exagerado para uma interdição total, isso no que diz respeito às drogas ilícitas. A intolerância é um aspecto em destaque. Ainda no sentido histórico, quanto ao aspecto legal, o consumo de várias substâncias psicoativas foi proibido no Ocidente – inclusive o álcool – mais notadamente nos Estados Unidos, onde passou de 1919 a 1933 por um período de ilegalidade8. Outrora tratados como fármacos, componentes de rituais religiosos e outras conotações, as drogas, nesse período, assumiram novos valores sociais, culturais e morais na sociedade. Segundo Escohotado (apud ARAÚJO; MOREIRA, 2006, p. 9), são “as atitudes sociais que determinam quais as drogas são admissíveis e atribuem qualidades éticas aos produtos químicos”. Paradoxalmente, a proibição nos EUA gera também um aumento exacerbado no consumo. A repressão torna-se um estímulo. Ainda segundo Silveira (apud ARAÚJO; MOREIRA, 2006, p. 12), este foi “o único momento da história onde, em conseqüência da dificuldade de acesso a bebidas alcoólicas, foram registrados casos de uso de álcool injetável”. Porém, o modelo europeu, diante do fato da ineficácia das práticas proibitivas, resolveu adotar novas formas de abordar o problema, incluindo a flexibilização no trato com a temática (MAIEROVITCH, apud ARAÚJO; MOREIRA, 2006, p.14) Acrescentamos ainda a apropriação econômica como fator que determina, sobremaneira, certa droga como lícita ou ilícita. Por sua vez, tal escolha não é, como muitos pensam, pautada em determinações científicos. Basta observamos que o uso do cigarro de nicotina, consumido na mesma proporção ao de maconha, é muito mais prejudicial à saúde do indivíduo. Para fugirmos da querela religiosa ou moral, corroboramos com Araújo e Moreira (2006, p. 9) quando afirmam que: Cabe ao entendimento histórico desmistificar os preconceitos, sejam estes de caráter repressivo ou libertário, por meio de uma análise cronológica e comparativa capaz de abandonar conceitos maniqueístas, em busca de subsídios que permitam a construção de uma nova consciência coletiva. 8 “Nos Estados Unidos, este ciclo (em relação ao período de intolerância ao uso de substâncias psicoativas) iniciou com a perseguição ao ópio em forma de fumo na Califórnia na década de 1870, passou pela campanha contra a cocaína e a primeira leia contra ela - o chamado Harrison Act, assinado em 1914 – e culminou na aprovação de um dispositivo legal que proibia a venda, distribuição e consumo de bebidas alcoólicas em todo território americano: o Volstead Act, mais conhecido como Lei Seca, que vigorou de 1919 a 1933”. (ARAÚJO; MOREIRA, 2006, p. 12) Segundo Bessa e Gigliotti (2004), o alcoolismo só começou a ser visto como doença em meados do século XVIII, após a Revolução Industrial, diante do aumento da produção e da comercialização do álcool. Estudiosos como Benjamim Rush e Thomas Trotter começaram a pensar a exposição freqüente ao álcool como um problema que merecia a atenção das autoridades e, principalmente, da medicina da época. Pensado então como doença, o alcoolismo pode ser assim considerado quando o usuário apresenta, basicamente, três características: tolerância, abstinência e perda de controle. Entendemos o conceito de tolerância como [...] a necessidade de doses cada vez maiores de álcool para que exerça o mesmo efeito, ou diminuição do efeito do álcool com as doses anteriormente tomadas; e por síndrome de abstinência um quadro de desconforto físico e/ou psíquico quando da diminuição ou suspensão do consumo etílico (BESSA e GIGLIOTTI, 2004, p.12). Outra diferenciação importante para o nosso estudo diz respeito às noções de uso, abuso e dependência de álcool. O primeiro refere-se à exposição “moderada” às substâncias que contenham etanol. Já o abuso consiste em “padrões de uso patológico e prejuízos nas funções sociais e ocupacionais relacionados ao uso, e para a categoria de dependência, além disso, exigia a presença de tolerância ou de abstinência” (BESSA e GIGLIOTTI, 2004, p. 12). Anteriormente era utilizada a nomenclatura “vício”, que passou a ser substituída por “dependência” pela conotação moralista da primeira (SILVA, 2000, p. 13). “Um dos elementos essenciais na caracterização de uma dependência é a perda de controle de consumo de uma substância” (MOREIRA; SILVEIRA, 2006, p. 4). Entendemos também que a dependência não seja induzida pelo uso agudo, mas sim pelo uso repetido do álcool (FORMIGONI; QUADROS, 2006, p. 33). Vale ressaltar que estamos interessados no estudo do abuso, em detrimento ao uso ou à dependência. Apesar dessas acepções, para alguns autores, como Karam (2003), a definição precisa do que viria a ser o alcoolismo ainda é algo distante. Ao analisar o CID-10 (Classificação Internacional de Doenças), o autor verifica que “apenas o delirium tremens continua sendo a única forma clínica indiscutível de alcoolismo” (KARAM, 2003, p. 469). A Síndrome de Abstinência de Álcool (SAA) é ocasionada quando pacientes de uso prolongado de álcool diminuem a ingestão ou param de beber. Os sinais e sintomas mais comuns são: tremores, taquicardia, hipertensão arterial, náuseas, vômito, ansiedade, agitação psicomotora e alteração do humor (irritabilidade e disforia). Podendo evoluir para um quadro de delirium tremens, cursando com confusão mental, alucinações, idéias deliróides e hipertemia. Convulsões tônico-clônicas generalizadas também podem ocorrer (DI PIETRO, 2006, p. 148). Teremos também que fazer uma distinção conceitual entre alcoolismo e alcoolização. O primeiro se refere ao comportamento de abuso de álcool, já o segundo diz respeito ao ato de alcoolizar algo ou alguém; no nosso entender, aproxima-se do conceito que já apresentamos de uso de álcool. Diante de todos esses conceitos provenientes, em suma, de um referencial biomédico de processo de saúde-doença, é importante atentarmos que a tradição no estudo do alcoolismo é biologizante, reduzindo ao organismo e às suas reações fisiológicas todas as explicações sobre aquele (CAMPOS et al, 2004). Ao contrário de um trato que privilegie a compreensão do processo de alcoolização como causa-conseqüência, entendemos que uma intervenção mais apropriada se dá na compreensão da relação que o sujeito estabelece com a substância. Ou seja, não é o álcool em si que provoca alterações comportamentais indesejáveis9, muito menos o sujeito, que tem distúrbios perturbadores. É do encontro que poderá surgir algum tipo de descompasso. Para Moreira e Silveira (2006, p. 4), o padrão de consumo decorre da interação de vários fatores, entre eles: o tipo de droga utilizada, as características biológicas e psicológicas do usuário (cabe destacar que a dependência também é compreendida a partir destes dois enfoques) e o contexto em que se dá o uso de drogas (característica por demais negligenciada). Ou, nas palavras de Claude Olivenstein (apud LESCHER; LOUREIRO, 2006, p. 22), de que “o fenômeno se organiza a partir de uma tríplice conjunção de fatores: a subjetividade do indivíduo, as características farmacológicas do produto e contexto sociocultural desse encontro”. A conotação relacional pode ser melhor compreendida a partir de dados estatísticos que 9 Vale ressaltar que as propagandas contra substâncias entorpecentes, no geral, enfatizam a idéia de que o álcool, em si, pode provocar algum tipo de comportamento. Há um descompasso gritante entre a realidade midiática apresentada (supostamente generalizada) e o contexto vivenciado no cotidiano. Moreira e Silveira ainda acrescentam: “A exposição destas questões nos meios de comunicação, habitualmente, gera intensa mobilização popular. Mobilização sem orientação gera desespero, e a população fica desorientada diante de tantas informações. Atitudes extremas, originadas do medo, só fazem piorar a situação, minando fatores protetores como a qualidade da comunicação entre pais e filhos e o vínculo com instituições como escola, aumentando o risco para o abuso de substâncias” (2006, p.4). mostram que menos de 10% dos usuários de álcool e maconha vão se tornar dependentes (MOREIRA; SILVEIRA, 2006, p. 6). Silva (2000) aborda o desenvolvimento do alcoolismo através de fases. Na primeira, denominada pré-alcoólica ou fase social, os sintomas ainda estão latentes. Em seguida, temos a fase de tolerância (ver definição supracitada), com doses acentuadas, o indivíduo chega ao terceiro momento, a chamada fase da necessidade. É neste período que a droga serve como “cura” para a ansiedade, a depressão e o tédio. Numa acepção genética, pesquisas apontam que filhos de pais alcoólatras, quando adotados por pais não alcoólatras, terminam bebendo ou com qualquer tipo de dependência química (GOODWIN apud SILVA, 2000, p. 19). Entretanto, não podemos, a partir destes dados, inferir argumentos pseudocientíficos que “condenam” filhos de alcoólatras a se submeterem ao mesmo tipo de comportamento. “Assim como para outras doenças psiquiátricas, a variância genética para o comportamento pode explicar no máximo metade da variância fenotípica, sendo a outra metade atribuída aos fatores ambientais” (FORMIGONI; QUADROS, 2006, p. 35). 2.2) Morador de rua: a problemática do público e do privado Após as devidas contextualizações quanto aos aspectos biopsicossociais do uso/abuso de álcool, nos deteremos em problematizar a realidade dos moradores de rua. Segundo Justo e Nascimento (2000, p.3), “Em nossa pesquisa sobre o fenômeno da errância na sociedade contemporânea, constatamos, preliminarmente, que o uso do álcool é bastante acentuado entre os ‘trecheiros10’". Partiremos das relações entre o público e o privado no cenário da sociedade11 brasileira (discutiremos como entram em choque na realidade dos moradores de rua) para pensarmos tal questão. Os mitos, ritos, significados, sentidos, afetos, impressões sobre o espaço domiciliar contrastados com os do espaço público produzem ricas compreensões. Principalmente quando observamos que as contradições afetivas e comportamentais presentes entre a casa e a rua são experenciadas, por vezes, por um mesmo sujeito. DaMatta (1997, p. 19) acrescenta: 10 Nomenclatura atribuída aos moradores de rua que enfatiza o seu caráter transeunte. Corroboramos com a idéia de DaMatta quando o autor afirma: “A idéia de sociedade que norteia este livro [ensaio], portanto, não é aquela da sociedade como um conjunto de indivíduos, como tudo mais sendo um mero epifenômeno ou ocorrência secundária de seus interesses, ações e motivações. Ao contrário, a sociedade aqui é uma entidade entendida de modo globalizado. Uma realidade que forma um sistema. Um sistema que tem suas próprias leis e normas” (1997, p. 13) 11 Conforme vai surgir repetidamente em todos os ensaios que formam este livro, é possível ‘ler’ o Brasil de um ponto de vista da casa, da rua e do ângulo do outro mundo. E mais: essas possibilidades estão institucionalizadas entre nós. Não se trata de uma mera variação empírica, dessas que ocorrem na Inglaterra, Espanha ou Pasárgada [...]. Leituras pelo ângulo da casa ressaltam a pessoa. São discursos arrematadores de processos ou situações. Neste trabalho, discorreremos sobre as representações vigentes da rua como espaço público; e da casa como espaço privado; das inversões existentes e, sobretudo, das sobreposições, ou seja, quando a casa e a rua coincidem. Tal coincidência pode ser observada na situação dos moradores de rua. Estes sujeitos habitam, em sua maioria, as ruas das grandes capitais brasileiras. Chamamos de ruas as pontes, praças, calçadas, entradas de igrejas e todos os outros locais onde observamos a habitação dessas pessoas. DaMatta, na mesma obra, explicita os meandros da casa em oposição ao espaço da rua. Entretanto, em nenhum momento, atenta para quando estes mundos – no âmbito físico e simbólico – coincidem. Esta reflexão proporá exatamente esta investigação. Deter-nos-emos em três momentos, a citar: a) quando casa e rua são espaços completamente distintos; b) quando a casa e a rua “confundem” seus papéis, ou seja, na ocorrência de inversões simbólicas pontuais; e c) quando a casa e a rua se fundem concretamente, situação que analisaremos a partir da vivência dos moradores de rua. “O segredo de uma interpretação correta do Brasil jaz na possibilidade de estudar aquilo que está ‘entre’ as coisas” (DAMATTA, 1997, p. 25). 2.2.1) A casa e a rua: “cada qual no seu canto” Esta acepção, na qual o espaço domiciliar e o espaço público são tidos como diametralmente opostos, talvez seja a mais corriqueira, até porque é a mais presente no senso-comum. Neste sentido, a casa é o oposto à rua. O que é dito, feito e até pensado em casa não se repete na rua e vice-versa. A noção de papéis sociais cabe bem para entendermos tal significação, já que os roteiros estão previamente escritos, cabendo aos atores apenas sua “interpretação”. Nesse sentindo, está previamente determinado o que deve/pode ser dito e feito dentro de casa e o que pode ser desempenhado (fazendo alusão à nomenclatura teatral) no espaço da rua. A partir da moral, podemos também compreender as diferenças existentes entre a casa e a rua. É comum observarmos que certos temas são próprios do lar, como os demais ficam execrados ao espaço público. Sexo, religião, política e outros assuntos “polêmicos” são dedicados, quase exclusivamente, à rua. A casa é o lugar dos consensos e a rua o espaço dos conflitos. “Sabemos que em casa podemos fazer coisa que são condenadas na rua” (DAMATTA, 1997, p. 20). O enfoque do anonimato pode nos esclarecer também sobre as nuanças existentes entre esses espaços. Na casa todos são chamados pelo nome, possuem uma história, são “personalizados”. Ao contrário, na rua, há um anonimato quase que generalizado. Não há reconhecimento das pessoas como pessoas, no sentido de um contato mais próximo. Na rua, todos são “apenas mais um”. No espaço doméstico, mesmo que alguém não componha determinada família, a categoria de “visita” já o destaca, concedendo-lhe visibilidade. Quanto ao cuidado despendido, podemos encontrar um maior esmero em relação à casa em detrimento ao espaço público. Em geral, preocupamo-nos em demasia com a limpeza, organização e manutenção do domicílio, mas relegamos a segundo plano quando pensamos que também somos responsáveis pelos espaços coletivos. “Limpamos ritualmente a casa e sujamos a rua sem cerimônia ou pejo...” (DAMATTA, 1997, p. 20). Importante concebermos tal representação como uma produção cultural, evitando naturalizações descabidas que partem para análise da sociedade brasileira como se houvesse um “código genético” natural a ser decifrado. Existem também certos códigos/normas que são próprios de cada espaço. Os códigos da casa, por exemplo, são fundados, prioritariamente, na amizade, na lealdade, na pessoa, no compadrio. Já os códigos da rua são baseados em leis universais, num formalismo jurídico-legal, na impessoalidade (como já apontamos). Os conflitos podem ser deflagrados quando esses códigos não são reconhecidos ou, por opção ou omissão, são desrespeitados. A partir daí, o judiciário é acionado, a mídia explicita o equívoco ou, simplesmente, a própria comunidade local trata de penalizar o “infrator”. Não dormimos na rua12, não fazemos amor nas varandas, não comemos com comensais desconhecidos, não ficamos nus em público, não rezamos fora das igrejas etc. Os exemplos, conforme sabe o leitor, são legião. Ora, 12 Interessante perceber que DaMatta exemplifica o “não dormi na rua” como ação incomum; e realmente o é em termos gerais. Entretanto, os dados (ALCÂNTARA, 2004) evidenciam que cada vez mais há uma defasagem do sistema habitacional, ocasionando uma legião de pessoas que tem a rua como sua morada. a festa (do carnaval) promove precisamente os deslocamentos destas atividades dos seus, digamos, “espaços normais”. Isso, então, permite a sensação de um tempo louco, notavelmente lento ou, como ocorre com o nosso carnaval13, uma temporalidade acelerada, vibrante e invertida (DAMATTA, 1997, p.41 e 42, grifo nosso). 2.2.2) Invertendo os papéis: quando casa e rua se “confundem” Entre os extremos de entendermos a rua como espaço simbólico diametralmente diferente da casa e de entendermos a sua sobreposição, temos ainda a ocorrência de situações nas quais pequenas permutas ocorrem, confundindo, temporariamente, o que é próprio da rua em casa e vice-versa. No geral, quando estas trocas ocorrem, alguns conflitos podem ser deflagrados. Em nossos tempos, essas limitações estão cada vez mais tênues. O trabalho realizado em casa é um exemplo categórico. Diante da crescente demanda por trabalhos via internet, perde-se a razão de ter um local de trabalho. A casa, nestes termos, assume a dupla função de lar e de espaço de trabalho. A flexibilização temporal é apontada, com positividade, como uma grande característica deste tipo de relação laboral. Entretanto, não há uma demarcação de tempo também para os afazeres domésticos, o lazer e, acima de tudo, para o ócio. A inversão temporal, não só espacial, marca esse tipo de relação. Podemos compreender também o nepotismo como uma das manifestações em que os “códigos da casa” (agora em termos essencialmente simbólicos) são levados para o espaço público. É cultura da família a preferência pelos seus. O critério é basicamente, além do vínculo sanguíneo, o afeto peculiar despendido para um determinado membro (agregados e pessoas próximas da família também entram neste critério). O problema – e o encaramos com tal – é quando esse tipo de relação extrapola o espaço doméstico e passa a gerir uma determinada parte da esfera pública. Ao invés do mérito, do merecimento, do esforço e do reconhecimento, mede-se, promove-se ou demite-se pelo discernimento se há parentesco com alguém que detenha poder na instituição. Retornando a problemática da casa como espaço físico, podemos afirmar também que a casa possui espaços com significações semelhantes às da rua. São as 13 DaMatta cita o carnaval como uma produção cultural na qual essas inversões de tempo, espaços, papéis sociais, entre outros, apresentam grande visibilidade. Para maior aprofundamento, ver obra do autor sobre o tema: DaMatta, Roberto. Carnavais, malandros e heróis - Para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. varandas, amplas janelas para o exterior, salas de visita, quintais, jardins... Espaços esses que ora assemelham-se ao espaço da rua – ocorrência de festas, mudança na linguagem, menos zelo – e ora são readmitidos à dinâmica doméstica. “Mas, assim como a rua tem espaços de moradia e/ou de ocupação, a casa também tem seus espaços ‘arruados’” (DAMATTA, 1997, p.56). Não observamos, na obra do antropólogo, o desenvolvimento da noção que o espaço público e o privado se encontram intimamente imbricados. Faremos tal discussão no tópico a seguir. 2.2.3) A casa e a rua se fundem: a experiência dos moradores de rua. A miscigenação, a pluralidade cultural, o sincretismo religioso, a enorme extensão territorial, as contradições sócio-políticas entre norte e sul do país; todas essas variáveis nos indicam que qualquer tentativa de explicação da sociedade brasileira pautada em homogeneidades estará fadada ao fracasso. Muito além das polaridades (do “isso ou aquilo”), nossa sociedade é baseada, sobretudo, nas coincidências (no caso, “o isso e aquilo”). O candomblé é a expressão da união entre a umbanda e o catolicismo, a capoeira nasceu de um jogo-luta, a feijoada foi concebida a partir da “mistura dos restos” da casa do senhor de engenho, o caboclo nasce do encontro entre brancos e índios e o morador de rua como a figura representativa da fusão entre espaço público e privado. É claro que tal fusão, muito mais que uma produção eminentemente cultural, tem suas determinações econômicas. Muitos dos moradores de rua (a maioria) desgarraram-se de suas famílias por conta do desemprego, de conflitos intrafamiliares e, sobretudo, por conta da dependência química, em especial o álcool (SERRANO, 2004). Essas características – que permitem o encontro de variáveis aparentemente diferentes - extrapolam ainda nas produções dos símbolos culturais. Os espaços e tempos também se fundem e confundem, gerando novas possibilidades de socialização. É assim que observamos nas arquiteturas (arranha-céus dividem espaços com construções da época do barroco) e, com ênfase acentuada, nas práticas e nos discursos políticos. Os coronelismos e currais eleitorais coexistem com discursos tidos como “progressistas”, como a participação popular e o controle do aparelho público. Retomando a aparente dicotomia entre a casa e a rua, é notório que a situação do morador de rua inverte a noção de um espaço público e um outro privado. Estes se confundem de tal forma que fica difícil estabelecer qualquer delimitação. A dificuldade de compreensão está no âmbito de quem está fora, observando, mas, sobretudo, do ponto de vista de quem vivencia a situação de rua. Como falar em privacidade, limites (físicos ou simbólicos) em espaços como esses? Como pensar a higiene, o lugar de dormir, de comer, de estar e de sair, se todos já estão “fora”? Além do espaço, o tempo é outra categoria fundamental para entendimento dessa imbricação. A rua possui uma lei própria, dotada de códigos de sobrevivência claros e rígidos. Assim, a noite não é só um tempo de descanso, mas também o momento de se proteger, “um olho no gato e o outro no peixe” (SERRANO, 2004, p.30). Por isso, observamos, com tanta freqüência, pessoas que dormem em plena luz do dia. Há uma inversão temporal. A noite representa, além do momento de autoproteção, o instante de receber ajuda (os conhecidos “sopões”), de trabalhar (no caso dos catadores de lixo) e, quiçá, de cometer algum tipo de delito. Um outro tipo de paradoxo que consideramos bastante fértil diz respeito ao caráter de transitoriedade em contraponto ao significado da rua como espaço de morada fixa. Talvez esta seja a maior contradição, tanto em termos de representação como de fato, quando pensamos o que significa uma pessoa habitar um logradouro qualquer. Como já apontamos alhures, o que é próprio da passagem e do itinerante torna-se, na situação do morador de rua, algo permanente. Entretanto, essa permanência alterna-se ainda com a mobilidade, criando uma situação complexa, na qual tipos de pensamentos polares não dão conta de explicar o fenômeno. Além de transitório ou permanente, DaMatta trata dos sentidos vinculados aos espaços públicos também como eternos ou provisórios. “Mas nossos espaços nem sempre são marcados pela eternidade. Há também espaços transitórios e problemáticos que recebem um tratamento muito diferente” (DAMATTA, 1997, p. 45). A igreja, o paço municipal, as praças históricas - entre outras peças arquitetônicas que compõem os cenários das grandes cidades - são entendidas a partir de “representações eternas”, ou seja, há um caráter histórico que os legitimam como peças fundamentais de certo centro urbano. Daí decorrem os movimentos de revitalização, preservação, tombamento e as demais ações que visam conservar a “matriz sócio-cultural” de uma determinada urbe. Esta noção também é questionada a partir da instalação dos moradores de rua. Há uma “provisoriezação14 do eterno”. Aquilo que outrora era de uma esfera quase sagrada agora foi “banalizada”, tornou-se provisório. 14 Considerar o neologismo para fins metodológicos. Em termos das conseqüências dessas diversas sobreposições entre o espaço da casa e o espaço da rua, consideramos que a principal é a invisibilidade – uma vez que não temos claro se alguém está transitando ou morando – e, por conseqüência, a restrição da cidadania. Entendemos o conceito de cidadania muito além de uma mera efetivação dos direitos políticos e sociais e o cumprimento das normas jurídico-sociais. A cidadania, no nosso entender, deve estar pautada também na possibilidade de expressão e participação, deslocando a noção da passividade do sujeito para a necessidade de sua ação (PINHEIRO, 2006). Os moradores de rua, em geral, além de não serem contemplados pelo poder público e pela sociedade com benefícios básicos (como alimentação, saúde, educação e própria moradia) também não se reconhecem como detentores dessas benesses. Vale observar a inexistência de organizações de classe e outras formas de mobilização. Não estamos afirmando que a descrença na exeqüibilidade dos direitos sociais é própria dessa camada da população. Estamos afirmando, sim, que tal realidade se agrava, por questões culturais, educacionais e de outras ordens. Se quisermos aprofundar a temática da rua como espaço socialmente construído de exclusão social, basta nos reportarmos aos vários provérbios e expressões populares que denotam bem tal conotação15. “Quem quer se perder se cria asas” induz pensarmos na rua como lugar de perdição, como se “criar asas”, ou seja, sair de casa fosse indicativo de atos moralmente condenáveis. “Vá para o olho da rua” aponta o espaço extrafamiliar como sendo do castigo e do menosprezo, uma espécie de “inferno na terra”. A rua assume o lugar do tenebroso, que oferece perigo. Já o dito “estou na rua da amargura” é expressivo para demonstrar o caráter pejorativo que a rua assume em certos contextos. Ao contrário, a casa é percebida, também a partir de determinados provérbios, como lugar do acolhimento, da segurança e do conforto. Basta lembrar como nos referimos quando nos sentimentos bem em certo lugar: “estou me sentindo em casa”; ou quando atrelamos ao espaço laboral uma conotação positiva: “este trabalho é minha segunda casa”. Desta forma, questionamo-nos como os moradores de rua se situam nesse emaranhado de sentidos, uma vez que são extirpados de referências imediatas de domicílio. Cabe destacar o imediato, visto que a inexistência de um lugar de morada não retira deles a representação de lar, muito menos a apropriação de certos códigos 15 Fonte: http://www.deproverbio.com/DPbooks/VELLASCO/COLETANEA.html. (Acessado em 19/11/2006). semióticos; no sentindo de que o fato de não possuírem uma residência não os furta de uma representação de domicílio. Podemos ainda falar da apropriação da casa e da rua em termos afetivos. A casa pode ser distinguida como lugar da calmaria, do repouso, da recuperação, da hospitalidade, do carinho e de todos esses adjetivos que circunscrevem a casa como lugar onde as pessoas, no geral, gostam de estar. A rua é o diametralmente oposto. Ela é, sobretudo, o lugar do perigo, principalmente na contemporaneidade em que a violência se tornou pauta permanente dos veículos de comunicação. Por ser um espaço prioritariamente de trânsito, poucos se preocupam em fazer da rua um lugar aprazível, como se vê no âmbito doméstico. Tudo isso revela gritantemente como o espaço público é perigoso e como tudo que o representa é, em princípio, negativo porque tem um ponto de vista autoritário, impositivo, falho, fundado no descaso e na linguagem da lei que, igualando, subordina e explora. O ponto crítico da identidade social no Brasil é, sem dúvida, o isolamento (e a individualização), quando não há nenhuma possibilidade de definir alguém socialmente por meio de sua relação com alguma coisa (seja pessoa, instituição ou até mesmo objeto ou atividade). Nada pior do que não saber responder à tremenda pergunta: ‘Afinal de contas, de quem se trata?’ (DAMATTA, 1997, p. 59). O antropólogo conclui um pensamento já apontando outro de igual relevância. Paripasso à conotação de invisibilidade dos moradores de rua, observamos ainda a significativa situação de anonimato em que essas pessoas se encontram. São sujeitos que, do ponto de vista da identidade, nem são reconhecidos – seja como cidadãos ou até mesmo como pessoa – pela sociedade que os cerca. Esse grau de anonimato chega a tal ponto que muitos não possuem sequer carteira de identidade ou outro documento identificatório (SERRANO, 2004). Em estágios mais acentuados (que não são tão incomuns) esse anonimato pode levar aos quadros de transtornos mentais severos ou outros tipos de debilidades. 2.3) Algumas palavras sobre o morador de rua Antes de referenciarmos o que estamos concebendo por “morador de rua”, faz-se mister localizarmos este fenômeno socialmente. Tal situação, na qual a privação ao direito social à habitação - vide Constituição Federal, Art. 5º (BRASIL, 1996) - é o grande marco, não é exclusiva de países subdesenvolvidos. Cidades com grande acúmulo de capital – como Tóquio, Los Angeles e Paris16 - também enfrentam sérios problemas em relação aos bolsões de pobreza e, por conseguinte, a falta de moradia adequada para suas populações. A situação de extrema desigualdade social – abismo socioeconômico na divisão de renda – gera, por sua vez, uma grave situação de exclusão social. Exclusão esta que perpassa diversos níveis, desde a impossibilidade de acesso a uma variedade de espaços (que, em nosso tempo, estão cada vez mais privatizados), até a não efetivação dos direitos sociais básicos. Apesar de limitada, a bibliografia especializada cita alguns termos comumente utilizados para descrever essa população. São os mendigos, trecheiros, moradores de rua, homens de rua, povo da rua ou população em situação de rua. Cada nomenclatura implica algum enfoque em detrimento de outra ênfase. Por exemplo, “população em situação de rua” enfatiza conotação de transitoriedade destas pessoas em relação à rua, evitando, assim, uma naturalização e atentando para a-historidade deste processo. Já “o mendigo” enfatiza o caráter de pedinte, alguém que mendiga (MATTOS apud SERRANO, 2004, p. 23). Para os efeitos deste ensaio, estaremos nos referindo neste estudo ao morador de rua, não nos interessando o caráter de mendicância em si. O que o caracterizará, para nós, é a vivência de morar na rua, independente do período ou do local específico. É nessa configuração social que surge a pessoa do morador de rua. Extirpado, a princípio, do seu direito à habitação (mas não só!), ele “perambula” por ruas e vielas interessado na sua sobrevivência imediata. Além disso, a invisibilidade é outro aspecto marcante dessa camada da população. Em geral, esses apenas são percebidos quando cometem algum tipo de delito, atrapalham o trânsito ou exalam algum odor que chama a atenção. Ou seja, a percepção é sempre norteada pelo negativo, pelo que falta. Até órgãos oficiais, como o IBGE, não contabilizam nem possuem dados precisos sobre a população que vive nesta situação. Segundo estudos pontuais, como o da professora Maria Cecília Loschiavo dos Santos, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, chama a atenção o crescente número de famílias que vivem na rua. Ademais, cerca de 86% da população é do sexo 16 Informação colhida em matéria do Jornal da USP. Acessado em 06/07/2006. http://www.usp.br/jorusp/arquivo/2004/jusp700/pag0405.htm masculino. Entretanto, apesar de prevalecer um perfil masculino, há uma participação de sujeitos desde a infância até a terceira idade morando nas ruas, independente do sexo. (ALCÂNTARA apud SANTOS, 2004, p.35). Ainda sobre o perfil desta camada populacional: Pesquisas sobre a situação dos moradores de rua da cidade de Chicago, por exemplo, revelam que mais de 70% dos moradores de rua tinham algum transtorno mental identificado, sendo que 16% apresentavam problema com álcool e 12% com drogas. Estudos sobre a morbidade entre essa população mostram que 25% dos homens que vivem em abrigos são esquizofrênicos e 36% preenchem critérios para o abuso de substâncias, sendo que nesta amostra observou-se que 40% apresentavam dano cognitivo (ibid., p.36). De acordo com pesquisa realizada pela CNBB em 1994 (apud ALCÂNTARA, 2004), existem vários motivos que podem levar uma pessoa a “escolher” a rua como sua morada. As razões variam desde migrantes que vinham em busca de emprego e se defrontam com a miséria das grandes capitais, até pessoas que foram expulsas de sua moradia pela carestia dos aluguéis, doentes mentais que perderam suas referências, crianças e adolescentes que fogem da violência doméstica, desemprego estrutural, entre outras. São, em geral, excluídos de múltiplas formas: porque são pobres, porque não têm saúde, porque inspiram medo, porque ‘enfeiam’ a cidade, porque sua moral é considerada ‘duvidosa’... Freqüentemente há quem se queixe porque estão ‘ocupando um lugar público’, mas, na verdade, seu espaço é lugar nenhum. Por isso sofrem violência policial, frio etc.; quando morrem são enterrados como indigentes (CNBB apud ALCÂNTARA, 2004, p. 37). A realidade dos moradores de rua já é marcada, em si, pela penúria e o descaso – seja das autoridades competentes, familiares ou da sociedade como um todo. Além da vivência concreta dessas pessoas, temos ainda uma série de representações pejorativas que legitimam e, por vezes, impedem reflexões e proposições de alternativas para esta população. O olhar dirigido aos moradores de rua mescla a “pena” (aquele sentimento judaico-cristão que pelo simples fato de haver comoção já se está supostamente implicado com uma dada realidade e, por isso, não é necessário ir além), o nojo (o mal- cheiro), o medo (o risco de assalto), o asco, a intolerância, o julgamento (“Como pode um homem tão novo vagabundando no meio da rua?”) e tantos outros. O que há de comum nesses sentimentos é a indiferença, a dessensibilização com outro que, por motivos diversos, está numa situação de extrema vulnerabilidade social. Estudos feitos por Mattos e Ferreira (2004) explicitam as representações sociais que mais comumente circulam em relação aos moradores de rua, quais sejam: “vagabundo, preguiçoso, bêbado, sujo, perigoso, coitado, mendigo” (p.2). Do ponto de vista da identidade, o autor aborda o quanto essas representações pejorativas influenciam negativamente o próprio movimento existencial dos moradores de rua. Muitos destes atributos estão pautados numa concepção individualista, que compreende que a “culpa” pela realidade da rua é exclusiva do sujeito. A “culpabilização” é uma alternativa coerente com o nosso modo de produção capitalista, que credita ao indivíduo todas as responsabilidades por seu possível sucesso ou fracasso. Qualquer situação de dificuldade é “culpa” exclusiva da pessoa, já que ela tem “todas as condições” de garantir seu progresso. A realidade é entendida, nesta perspectiva, como pano de fundo, e não como condição de possibilidade (ou impossibilidade) para o desdobramento de novas conjunturas. O “psicologismo”, aliado à “culpabilização”, são instrumentos eficazes no sentido da responsabilização unívoca do sujeito. A procura de nuanças da personalidade que o tornam “desestruturado”, o estudo dos conteúdos inconscientes e outras investidas “psicológicas” são no intuito de descobrir, no sujeito, as causas de seu desajuste e, por sua vez, da sua condição de rua. As noções de normalidade e desvio são comuns neste tipo de abordagem. Vemos este tipo de pensamento no estudo de Merton (apud JUSTO; NASCIMENTO, 2000, p.4), no qual o autor afirma que compreende a: [...] vida errante como uma estrutura social anômica. [...] a associalização decorre da falta de capacidade do sujeito para competir na sociedade em função de repetidos fracassos no mundo social. Snyder (1954) compreende o alcoolismo como uma conduta desviante e, nesse sentido, nos dizeres do autor, os alcoolistas são pessoas anômicas – desorganizadas, vazias, angustiadas, compulsivamente independentes e que desconhecem toda autoridade. Estruturando melhor as representações com maior recorrência, Mattos e Ferreira (2004) nos apresentam algumas delas. O morador de rua, então, é visto, prioritariamente, como vagabundo, ainda no sentindo da “culpabilização individual” por aquela situação; como louco, pautado no senso comum e em uma histórica intervenção psiquiátrica, sobretudo no período da criação dos grandes manicômios17; como pessoa suja e maltrapilha, o discurso higienista é a tônica deste tipo de representação; como pessoa perigosa, nesta acepção os códigos jurídicos deveriam manter o morador de rua afastado, já que são, a priori, pessoas perigosas e, por fim, baseado no discurso religioso, temos o morador de rua como “coitado”, digno de misericórdia. Nesta última representação, é como se os moradores de rua estivessem pagando por seus pecados, sendo então uma espécie de “estado de regeneração da alma”. Fica evidente que em todas essas representações o caráter de mudança ou questionamento não está presente. O que se tem são imagens que tentam dar sentindo à realidade justificando-as e, por vezes, legitimando-as. Além da imobilidade social causada por estas representações, temos ainda a repercussão nos próprios moradores de rua, uma vez que tais pressupostos são compartilhados. A interiorização dessas vozes impede mudanças, dificultando percepções e atitudes diferentes. Por outro lado, a realidade pregressa dos moradores de rua é bastante reveladora das motivações para a saída de suas casas, bem como para o abuso do álcool. Muitas destas evidências serão melhor trabalhadas no tópico em que analisaremos as histórias de vida pesquisadas. Justo e Nascimento mostram que “o desemprego, a falta de apoio familiar e as desavenças conjugais são os principais motivos que levam os sujeitos a romperem com a vida sedentária” (2000, p.4). Vemos então presentes na compreensão do fenômeno uma variável estrutural e uma familiar, refutando o psicologismo de outrora. Os autores ainda complementam: O fenômeno da errância parece estar associado a um complexo de fatores que modelam o mundo contemporâneo. A globalização, a flexibilização do trabalho, a informatização e automação da produção, a substituição da sociedade industrial pela de serviços, a virtualização da realidade, a dispersão, o individualismo, a aceleração do tempo e a expansão do espaço têm exercido um papel considerável na desterritorialização do sujeito e na sua impulsão para o nomadismo (ibidem, 2000, p.11). 17 Para maior aprofundamento sobre os manicômios e o contexto higienista que ver: FOUCAULT, M. História da Loucura na Idade Clássica, São Paulo: Perspectiva, 1978. Estas pesquisas tendem a enfatizar o abuso de álcool como uma “fuga da realidade”, um mecanismo de defesa às adversidades vividas. Entretanto, encaramos tal perspectiva legitimando uma visão de sujeito passivo, como se o abuso de álcool não fosse, também, uma forma possível de enfretamento de suas questões existenciais. Nem defendemos uma explicação causualista – em que os fatores “negativos” explicam o nomadismo – nem visões de homem que prezam pela vitimização e/ou leitura deslocada da realidade concreta. 3) A LINGUAGEM EM AÇÃO: O MOVIMENTO DA PALAVRA SIGNIFICADA NA CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE 3.1) A construção da subjetividade humana Em nosso estudo, uma das categorias capitais para a compreensão do comportamento de alcoolismo e da situação de rua é a subjetividade18. Isto porque quem faz uso do álcool é um sujeito concreto - situado em uma realidade com igual concretude – com uma vivência impregnada de sentidos e significados complexos. Durante muito tempo a idéia de sujeito estava ligada à noção cartesiana, ou seja, de ordem, integilibilidade e consciência. O sujeito que se postulava era o sujeito racional, próprio de algumas correntes filosóficas da modernidade. A idéia de um sujeito da razão, capaz de dominar o mundo e a si mesmo na produção de verdades universais, constituiu uma representação que se arraigou fortemente na cultura ocidental, mediando diferentes modelos de ciência, política, educação, assim como a produção do senso comum. (GONZÁLEZ REY, 2003, p.221). A postulação de várias correntes psicológicas foi influenciada, direta ou indiretamente, por essa noção do sujeito da razão. Daí o princípio da dicotomia sujeito/objeto, já que um suposto sujeito cognoscente, dotado de razão, poderá ordenar o mundo a partir do seu cogito. A idéia de universalidade, base para essa noção de sujeito, permite a formulação de idéias que são tomadas como verdades, uma vez que derivaram do método dito científico. Para González Rey (2003), estas são erigidas como dogmas e apenas outras idéias, dentro do mesmo sistema, podem refutá-la. A divisão estática do mundo em “bom e mau” também é uma das decorrências desse sistema. Tudo que não advém do sujeito da razão é descartado. 18 Apesar de González Rey (2003) fazer uma distinção entre subjetividade individual e subjetividade social, não entraremos nesta discussão. Uma vez que sendo, a subjetividade construída socialmente, nela se insere as dimensões do singular e do social. No outro extremo, González Rey refere-se a um grupo de autores pósestruturalistas franceses que postulam a morte do sujeito. Deste ponto de vista decorreram também algumas escolas psicológicas, principalmente aquelas que enfatizavam suas contribuições a partir do empirismo e da metafísica (GONZÁLEZ REY, 2003, p.222). Ao contrário do que abordamos, compreendemos o movimento de construção dessa subjetividade como uma interseção permanente entre o indivíduo e seu entorno. Várias foram as dicotomias que nortearam a formação epistêmica da Psicologia como ciência: o “confronto” entre sujeito e sociedade; o privilégio do aspecto intrapsíquico ou do aspecto interpsíquico, para falar apenas dos principais e dos que trouxeram influências mais significativas para a formação do pensamento psicológico. Uma influência significativa foi a ênfase da psicologia em estudar os fenômenos ditos “próprios da psiquê” ou meramente individuais. “A essa concepção dominante se opôs o behaviorismo que ‘tirou’ a psique de dentro e a colocou ‘fora’, no comportamento” (GONZÁLEZ REY, 2003, p.121). Entretanto, não se observava movimentos no sentido da superação desta polarização. Ou se estudava o inconsciente, a personalidade, as emoções (como reações fisiológicas), a motivação; ou se decompunha o comportamento humano, em termos de análise funcional (congruente com o positivismo vigente), para, assim, dar um caráter “científico” à Psicologia. Desta forma, a Psicologia caminhou por grande parte do século XX. Para Molon (2003), teóricos sucessores de Vygotsky perpetuaram as dicotomias que o psicólogo russo tanto refutava. Para ela, a constante ênfase ora no funcionamento intrapsicológico, ora no funcionamento interpsicológico é uma evidência desta cisão. Van der Veer e Valsiner são apontados como os principais representantes que valorizam o intrapsicológico. A noção de “cultura pessoal” é central na crítica de Molon. Esta consiste “não somente ao fenômeno subjetivo internalizado (processo intrapsicológico), mas às imediatas (centrado na pessoa) externalizações destes processos” (VALSINER apud MOLON, 2003, p.51). Enfatizando o aspecto interpsicológico, Molon aponta Wertsch como o maior representante. Os conceitos de “níveis de intersubjetividade” e “definição de situação” são apresentados como aportes da ênfase. Molon esclarece os termos afirmando que: A definição da situação é o modo como se representam ou se definem os objetos e os acontecimentos em uma situação. E os níveis de intersubjetividade estão relacionados às diferentes maneiras de participação, compartilhadas pelos interlocutores em uma definição da situação (2003, p.54). Molon apresenta a pesquisadora da UNICAMP, Luiza Bustamante Smolka, como baloarte da ênfase que integra, de forma dialética, as dimensões intra e interpsicológica. Nesse sentindo, a pesquisadora investe na dimensão semiótica, já que a constituição do sujeito é marcada pelo outro e, sobretudo, pela palavra. A polissemia da palavra está intrinsecamente ligada ao sentido subjetivo. Alteridade e dialogia são moleculares nessa nova compreensão (MOLON, 2003, p.57). Entretanto, o sujeito não é um mero signo, mas tem o que dizer, sentir, agir, pensar. Ele é então construído nas e pelas relações sociais. É uma “multiplicidade na unidade” (MOLON, 2003, p.115). A autora apresenta a teoria sociointeracionista como facilitadora deste pensamento que integra aspectos intra e interpsicológicos da constituição do psiquismo. Noções como interação e mediação se apresentam como basilares. Por interação, compreendemos mais que um encontro face-a-face, mas a possibilidade de contato pela via do simbólico. Estamos afirmando, com isso, que a interação também ocorre materialmente, principalmente por meio dos instrumentos cotidianos dotados de significado. A cultura é o grande cenário propício para a interação É nela que, dialeticamente, o sujeito recebe os códigos, transformando-se, bem como atua no mundo, transformando-o. “A mediação é um processo, não é o ato em que alguma coisa se interpõe; mediação não está entre dois termos que estabelecem relação. É a própria relação” (MOLON, 2003, p.102). A mediação é central para diferenciar os atributos humanos e não humanos por meio das funções psicológicas superiores. O desenvolvimento de uma teoria da subjetividade pautada na relação indivíduo/sociedade permite, pelo menos no âmbito teórico, a superação desta dicotomia. Um aspecto complexo para as representações atuais dominantes no conhecimento psicológico é como articular os processo de subjetivação dos espaços sociais e individuais sem antropomorfizar os espaços sociais e sem reduzir a gênese da subjetivação aos indivíduos (GONZÁLEZ REY, 2003, p.204). A grande dificuldade da ciência psicológica não é postular a dita síntese entre sujeito e objeto ou indivíduo e sociedade, mas criar condições para uma prática - seja esta entendida como intervenção de pesquisa ou práxis profissional - que atrele as diversas variáveis existentes entre esses pólos. Vygotsky foi quem compreendeu, já na velha Rússia soviética, que essas separações estavam impedindo o avanço da Psicologia. Sua vasta produção – em áreas diversas como aprendizagem, personalidade, desenvolvimento, artes, dentre outras – mostrou a necessidade de se criar uma macroteoria que estivesse pautada nas que já existiam, mas avançasse para águas mais profundas. “[...] a intencionalidade de Vygotsky na compreensão do sujeito articulava tanto o projeto de construção de uma nova Psicologia quanto o projeto de construção de uma nova sociedade” (MOLON, 2003, p.63). O ponto central nesse intento vygotskyano foi a superação dessas dicotomias através da dialética. Ao contrário de outros teóricos do seu tempo, que meramente faziam leituras da realidade com nomenclaturas marxistas, o psicólogo russo foi nas raízes dos escritos de Marx e fez uma leitura da psicologia a partir de sua episteme. Na obra de Vygotsky não se encontram as respostas definitivas nem soluções dos dilemas da Psicologia, mas ela rompe com a dicotomia entre o indivíduo e o social e entre o sujeito abstrato e o sujeito empírico, supera a transcendência do eu e a tirania do outro, acabando com a pretensão de tornar os sujeitos homogêneos e uniformes, meros reflexos da realidade social ou mônadas pensantes condutoras da história. (MOLON, 2003, p.121) O psiquismo foi então compreendido como uma síntese de diferentes processos que se influenciam mutuamente. A categoria afeto foi trazida para o centro das discussões que norteavam o comportamento humano, compondo uma unidade com o aspecto cognitivo. Foi uma forma de superar as tendências cognitivistas e comportamentalistas que predominavam na época (GONZÁLEZ REY, 2003, p.189). A construção da subjetividade pressupõe um sujeito formado no amálgama de sua inserção sócio-cultural. Não dá para se falar em indivíduo sem nos remetermos ao seu contexto, muito menos em sociedade sem atentar para sua base constituinte. Como estamos na seara psicológica, faz-se mister que nosso olhar seja do ponto de vista psíquico, sem que este seja compreendido como um epifenômeno do contexto. Estamos de acordo com González Rey, quando este afirma que a subjetividade: [...] é um complexo e plurideterminado sistema, afetado pelo próprio curso da sociedade e das pessoas que a constituem dentro do contínuo movimento das complexas redes de relações que caracterizam o desenvolvimento social (2003, p.IX). A realidade é vivida como sentindo subjetivo e objetivo. Juntamente com outras nuanças que constituem o sujeito - seu raciocínio, suas emoções, sua história, seu discurso – o sentido vai sendo tecido, compondo o entorno e criando condições para que este forme o indivíduo. Dialeticamente, as realidades vão se desintegrando, reintegrando e estruturando-se. Pensar a subjetividade é estar permanentemente atento às outras categorias que a auxiliam. Gênero, posição sócio-econômica, etnia, costumes, configuração familiar, para pensarmos apenas em algumas delas. Isto para ficar claro que, quando conceituamos a subjetividade como uma categoria complexa, estamos nos referindo a essa diversidade de “conceitos auxiliares” que estão subentendidos quando falamos na construção do sujeito. Categorias como tempo e espaço também são fundamentais na compreensão desse movimento de construção da subjetividade. Como ficará mais evidente no próximo capítulo (no qual discutiremos os dados coletados), o espaço no qual o sujeito produz um determinado sentido é fundante para a sua experiência. Compreendo que este espaço também é dotado de sentido. O tempo aqui é entendido não como cronologia uniforme, um ordenamento de fatos, mas como processualidade, como tempo subjetivo, que, por vezes, comporta supressões de fatos, sobreposições, incongruências e fantasias. Há uma ligação estreita entre presente, passado e futuro. “Na subjetividade, qualquer momento da história do sujeito pode aparecer como um elemento de sentido da configuração subjetiva atual de sua experiência” (GONZÁLEZ REY, 2003, p.220). Em relação aos sujeitos que fazem abuso de bebida alcoólica e são (ex) moradores de rua, nosso estudo objetiva acompanhar o movimento histórico que eles trafegaram até chegar ao lugar onde hoje eles se encontram. O apreço pela história de vida como metodologia não é apenas uma convenção científica. É a partir da linguagem presentificada como prática discursiva que os sentidos vão sendo recuperados, lembrados, ressignificados, reconstruídos, confrontados, bem como vividos em toda sua intensidade (trataremos da produção de sentido propriamente dita no próximo tópico). Entre o sujeito e sua linguagem há uma relação intrínseca, já que esta não é apenas uma manifestação simbólica dos discursos que circulam socialmente, mas uma expressão simbólica do sujeito em relação ao seu posicionamento no mundo e na sua participação social. A linguagem também é prenhe de sentidos subjetivos, emoções, afetos, entre outros. “A construção de uma experiência por meio da linguagem e sua articulação com um pensamento próprio é um dos processos que definem o ser sujeito” (GONZÁLEZ REY, 2003, p.236). Vale ressaltar que a categoria emoção é deveras esquecida na maior parte das vezes em que se teoriza sobre a constituição do sujeito. Este parece ser composto apenas de pensamento e linguagem, sendo estudado ou do ponto de vista de suas produções discursivas ou de suas representações mentais. González Rey (2003, p.236) vai nos alertar que pensamento e linguagem se articulam com a emoção a partir da idéia de que é o estado emocional do indivíduo que norteará o que ele pensa ou diz (compreendendo este dizer não apenas como manifestação verbal, mas como qualquer produção simbólica que fale deste sujeito). Ainda em relação à linguagem, esta não se apresenta apenas como manifestação simbólica, mas é também a própria expressão do sujeito. Há uma trama de sentidos subjetivos envolvidos na sua produção. Esta também traduz emoções complexas, ao mesmo tempo em que gera novas emoções. Trataremos melhor das peculiaridades da linguagem no próximo tópico, no qual abordaremos a produção de sentidos e as práticas discursivas. No entanto, antes disso, trataremos do Construcionismo Social como pilar das práticas discursivas e da produção de sentido, enfatizando suas características, as críticas dirigidas e as contradições inerentes. 3.2) O Construcionismo Social como pilar da Produção de Sentido A produção de sentido no cotidiano situa-se no âmbito da Psicologia Social. Como ramo do conhecimento, valemo-nos das práticas discursivas para melhor compreendê-las e aprofundá-las. Temos ainda como filiação epistemológica da produção de sentido o Construcionismo Social. Aprofundaremos, primeiramente, as contribuições deste último para a produção de sentido e para as práticas discursivas para. Em seguida, tratarmos propriamente destes dois conceitos. A perspectiva construcionista, segundo Frezza e Spink (2000, p.23), é resultante de três movimentos: uma reação ao representacionismo, na Filosofia; uma desconstrução da retórica da verdade, na Sociologia do Conhecimento; e uma busca de maior participação e visibilidade dos grupos sociais com menos credibilidade, no âmbito da Política. Como precursores, temos as figuras de Peter Beger e Thomas Luckmann com o lançamento da obra intitulada “A Construção Social da Realidade”, publicada originalmente em 1966. A crítica central apresentada por essa corrente teórica é o descaso com que eram tratados os conhecimentos produzidos no senso comum. A crítica pauta-se também na compreensão intelectualista de ciência “que restringe ao pensamento teórico, pois, nessa dimensão, não se leva em conta o conhecimento que as pessoas têm da realidade, ou seja, o conhecimento do sendo comum” (FREZZA; SPINK, 2000, p.24-25). A importância de centrar nessa dimensão do conhecimento é porque esse é prenhe de significados e constitui a base do tecido social. Como objetivo, em artigo publicado no American Psychologist em 1985, Gergen (apud FREZZA; SPINK, 2000, p.26) defende que: “A investigação sócio-interacionista preocupa-se sobretudo com a explicação dos processos por meio dos quais as pessoas descrevem, explicam ou dão conta do mundo (incluindo a si mesmos) em que vivem”. Ou seja, que sentidos elas produzem para se apropriarem, situarem e agirem no mundo. É nesse aspecto que os conhecimentos tecidos no senso comum ganham status, já que não são apenas meros conhecimentos, mas são formulações importantes na orientação da trama social. No cerne da teoria do conhecimento, temos que o construcionismo compreende que o mundo é interpretado a partir dos seus artefatos sociais. E estes, por suas vez, são produtos de trocas historicamente situadas, realizadas por pessoas concretas. “A realidade não existe independentemente do nosso modo de acessá-la” (MENEGON; SPINK, 2000, p.77). Ibañez vai ao encontro desse enfoque ao afirmar que: Ningún objeto existe como tal en la realidad, no es cierto que el mundo está constituido por un número determinado de objetos que están ahí fuera de una vez por todas y con independencia de nosotros. Lo que tomamos por objetos naturales no son sino obtetivaciones que resultan de nuestras características, de nuestras convenciones y de nuestas prácticas. Esas prácticas de objetivación incluyen, por supuesto el conocimiento, científico o no, las categorias conceptuales que hemos forjado, las convenciones que utilizamos, el lenguaje en lo cual se hace possible la operación de pensar (apud MENEGON e SPINK, 2000, p.78). Ao contrário de se colocar numa postura de um suposto “isolamento científico”, o Construcionismo Social se debruça exatamente sobre aquilo que outrora era rechaçado, que não se via possibilidade de produção e intervenção, no caso do conhecimento do senso comum. Esta forma de posicionar-se diante do conhecimento implica o abandono de uma visão representacionista da realidade, ou seja, conceber a realidade como espelho da natureza. Esta não estaria já pronta, esperando ser “desvendada”, mas agora é concebida como construída, principalmente por meio da linguagem. Percebe-se que é necessária a desconstrução de várias noções arraigadas na cultura. Tanto os conceitos como as formas de intervenção/investigação socialmente cultivados partem da noção de uma realidade estratificada. Historicamente, a dualidade entre sujeito-objeto marcou diversas posturas epistemológicas, a citar: o empirismo, o idealismo e o interacionismo. No dizer de Frezza e Spink: Para o empirismo, o objeto é a determinação última do conhecimento, de modo que o projeto científico consiste em aproximações, cada vez mais precisas, a esse objeto. Já para o idealismo, a possibilidade do conhecimento não se encontra ao lado do objeto, mas sim no sujeito. Trata-se das categorias do entendimento, constitutivas da mente humana, as quais são universais e necessárias para o conhecimento. Por fim, para o interacionismo, conhecimento é produzido na interação entre sujeito e objeto, apresentando, portanto, características de ambos. Essa é, a bem dizer, uma versão fraca do construcionismo (2000, p.28). Para o construcionismo, tanto o sujeito como o objeto são construções sóciohistóricas que devem ser problematizadas e reconstruídas. A noção de realidade também deve ser explicitada. Nesta abordagem teórico-metodológica, concebe-se que apreendemos a realidade a partir de nossas categorias, práticas, linguagens, ou seja, a partir de nossa inserção no mundo. Compreender o pensamento e o conhecimento como fenômenos sociais possibilita ainda a superação de algumas premissas que o construcionismo refuta, como: o internalismo, que centra nos processos cognitivos e reduz a explicação aos processos neurológicos; o essencialismo, que trata a cognição de forma naturalizada; e o universalismo; que tenta canonizar o pensamento científico, em termos de dotá-lo de caráter totalizante (FREZZA; SPINK, 2000, p.31). 3.2.1) Críticas ao Construcionismo Social Mesmo sendo uma teoria que revisa uma série de conceitos e propõe uma nova visão no cerne da epistemologia, principalmente a de cunho qualitativo, o construcionismo não escapa de uma série de críticas, a nosso ver, com bastante fundamento. As críticas foram sendo formuladas em diversos contextos. Atribuímos, principalmente, à história recente da disciplina, que ainda tem muito para avançar. As principais críticas dizem respeito ao caráter relativista e ao reducionismo lingüístico, supostamente realizado pelo construcionismo. Em relação ao relativismo, é como se tudo de reduzisse aos espaços de conversas. Nesse sentido, a retirada de determinados atributos individuais - como o pensamento e a memória – pode dissolver o indivíduo na trama social produzindo concepções, no dizer de González Rey (2003), bizarras. Quanto à segunda crítica, no tocante ao reducionismo lingüístico, não há dúvida de que o aspecto lingüístico adquire um estatuto que anteriormente não se observava. Entretanto, da afirmação que tudo se reduz à linguagem tem-se uma distância considerável. Fazer isso seria separar a linguagem do sujeito que se expressa nela. Frezza e Spink (2000, p.33) apontam Vygotsky como um precursor na perspectiva d tomar a linguagem como central no desenvolvimento cognitivo e, principalmente, trabalhar com ela, em intrínseca relação com o pensamento, numa abordagem social. González Rey (2003) acrescenta, além da crítica em relação ao reducionismo lingüístico e ao relativismo, a questão do Construcionismo Social transmitir uma impressão de superficialidade em sua crítica, uma vez que homogeneíza algumas tendências do pensamento psicológico e apresenta visões epistemológicas bastante diferenciadas. O mesmo autor ainda afirma que certos autores construcionistas19 negam a subjetividade, ou seja, negam a conceituação de um sujeito concreto, visto que as práticas discursivas já dariam conta de pensar o indivíduo do ponto de vista psicológico. A expressão da subjetividade se daria apenas no momento da narrativa. Portanto, o desconhecimento do sujeito, de seu caráter criativo e generativo, leva os autores construcionistas a estudar as formas de linguagem, de suas conversações como um fim em si mesmo, sem ver que essas expressões do sujeito não estão definidas não mais pelo contexto dialógico de sua relação com outros, mas pela sua história, pelos elementos de sentido que se expressam na linguagem, ao que Vygotsky, por exemplo, deu relevância especial (GONZÁLEZ REY, 2003, p.156) Percebemos então que a crítica ao reducionismo lingüístico encontra íntima relação com a ressalva quanto à desconsideração da realidade que contribui na produção de subjetividade. Em relação à nossa pesquisa, é como se considerássemos o problema do alcoolismo e da realidade de rua uma mera construção discursiva, bastando mudá-la para, por sua vez, modificar a realidade. González Rey (2003) ainda destaca que o rechaço à noção de sujeito parece ser uma tentativa equivocada de resposta às produções da ciência psicológica tradicional. Esta, em seu período áureo, enfatizava suas produções pautando-se no sujeito individual, concebendo uma psicologia individualista e essencialista. Agora, por outro lado, o autor coloca como se o construcionismo realizasse um culto ao social via linguagem. Considerando os devidos extremismos da crítica, concebemo-a mais como um alerta do que como uma leitura unívoca da teoria. 3.3) As Práticas Discursivas e a Produção de Sentido no Cotidiano “Como damos sentido ao mundo?”. Este é o questionamento base que desencadeou uma série de estudos, sobretudo na Lingüística, História, Antropologia, Filosofia e, mais recentemente, na Psicologia. A percepção da potência da palavra como sentido, além da sua denotação gramatical, conduziu estudos que indicaram a palavra como variável na construção da realidade. 19 Vale ressaltar que o construcionismo apresenta uma variedade de divergências internas. Não queremos, contudo, homogeneizar as críticas que estamos tecendo. Anteriormente, as pesquisas em Psicologia Social passavam ao largo desta discussão. As atenções estavam voltadas para os estudos sobre a percepção, as atitudes, a cognição, a interação grupal, entre outros. O ranço da Psicologia Científica ainda ditava os rumos da disciplina. Tudo deveria ser pautado na experimentação - de cunho positivista, obviamente -, na possibilidade de demonstração empírica e na generalização dos resultados. Ainda nesse período, surge a Psicologia Social Experimental como vertente da Psicologia Experimental (FREZZA; SPINK, 2000, p.19). Hegemonicamente, observava-se o movimento que conduzia os psicólogos sociais cada vez mais aos laboratórios, distanciando-se dos primórdios dos inspiradores da disciplina, como George Mead e Kurt Lewin. O estudo das atitudes é um exemplo significativo desse movimento, uma vez que se observava uma progressiva individualização dos conceitos centrais da Psicologia Social. O paradigma dominante em Psicologia Social começou a ser questionado entre os anos cinqüenta e sessenta. Dois questionamentos foram decisivos nesse sentido: a valorização dos comportamentos em situações naturais e o estudo de comportamentos em seu ambiente natural. O ensino da Etologia nos cursos de graduação foi marcante para o redirecionamento das pesquisas (FREZZA; SPINK, 2000, p.20). Ainda na esteira histórica, percebemos o surgimento de importantes reflexões críticas no que diz respeito à naturalização do fenômeno psicológico. Estes ocultavam a perspectiva de que os conceitos e as teorias são produções culturais, bem como conhecimentos socialmente construídos e legitimados. O caráter despolitizado da “velha” Psicologia Social coadunava com a influência do positivismo na formulação da disciplina. Este movimento propiciou o entendimento de que outras categorias seriam importantes na compreensão do fenômeno psicológico. O estudo da produção de sentidos (PS) por meio das práticas discursivas (PD) surgiu nesse contexto20. Outrossim, Quando a questão do sentido não pode mais ser respondida somente no âmbito da língua, da sintaxe, e da semântica; quando a produção do conhecimento começa a ser questionada por desconsiderar, justamente, aquilo que é sua base, o senso comum; quanto a Psicologia Social começa a fazer sua própria crítica quando ao que produz e quanto à despolitização 20 Vale ressaltar que a trajetória histórica que mencionamos da Psicologia Social está longe de ser linear. Queremos dizer, com isso, que o novo e o velho coexistem. Principalmente pela polissemia na qual a Psicologia Social é entendida. daí resultante, tem-se, então a configuração de um contexto propício para as novas buscas: conceitos, métodos, epistemologia, teoria, visão de mundo (FREZZA; SPINK, 2000, p.39). Por sentido, compreendemos uma construção social no plano da interação na qual as pessoas se situam para compreender e se posicionar no mundo. É um conceito que leva em consideração as dinâmicas históricas e as produções culturais. A partir das contribuições de Medrado e Spink, percebemos que “dar sentido ao mundo é uma força poderosa e inevitável na vida em sociedade” (2000, p.41). Essa potência do sentido também é acompanhada por uma pluralidade, por vezes, de caráter “aparentemente” contraditório. Dizemos isto porque a PS está longe de pressupor que os sentidos são produzidos de forma linear, sem contradições. Uma diferenciação capital para o nosso estudo é a relação subjetiva entre o sentido e a significação construída. Esta última é compreendida por sua maior relação com a historicidade social, fazendo com que o sujeito apreenda uma noção que foi apresentada pela cultura e formada no decorrer dos tempos. Dentro dessa construção de significados, os sentidos são múltiplos, uma vez que outras variáveis são fundamentais para sua formação como, por exemplo, o contexto da experiência individual. Por isso, a partir da conceituação de Leontiev (1978), “o sentido pessoal traduz precisamente a relação do sujeito com os fenômenos objetivos conscientizados” (p.98). Cabe ressaltar ainda que a PS não é uma atividade meramente cognitiva, muito menos apenas um atributo intra-individual. Ela, ao contrário, é uma prática social e dialógica, que implica a linguagem e seu movimento inerente. Nesse âmbito, apresentase como um fenômeno sociolingüístico (MEDRADO; SPINK, 2000, p.42). A linguagem, nesse sentido, é solo fértil para práticas sociais. Estas, por sua vez, são substratos na geração de sentidos. A separação que fazemos entre linguagem e práticas sociais é meramente didática, visto que isso ocorre de maneira intricada na realidade cotidiana. Quando nos referimos à linguagem, estamos adotando um conceito pautado nesta em movimento, em uso. A linguagem, além de estar relacionada com as práticas sociais, é por si só uma prática social. Isto é importante para sairmos das teorias que concebem apenas como código de transmissão de informação, enfatizando sua estrutura e reduzido-a às partes que a compõem: semântica, ortografia ou sintaxe. Jobim e Sousa (1995, p.12) se vale de Bakhtin para mostrar que a linguagem é uma categoria complexa e só pode ser analisada considerando este aspecto, visto que ela é um fenômeno sócio-ideológico, dialógico e histórico. A grande crítica do lingüista é exatamente que as demais teorias desconsideram a língua como um acontecimento social. “A palavra é a revelação de um espaço onde os valores fundamentais de uma dada sociedade se explicitam e se confrontam” (Jobim e Sousa, 1995, p.27). Vygotsky, ainda lembrado por Jobim e Sousa (1995, p.12), se preocupava com a elaboração de uma reflexão sócio-psicológica que envolvesse a relação entre pensamento e palavra de forma dinâmica. A linguagem estaria intimamente relacionada com as funções psicológicas superiores e estas, por sua vez, são fundamentais na compreensão da construção da subjetividade. Ressaltamos, finalmente, que tanto Bakhtin como Vygotsky elaboraram uma teoria que coloca a linguagem como ponto de partida na investigação das questões humanas e sociais e também como um desvio que permite que as ciências humanas transitem para fora dos paradigmas cientificistas, priorizando uma abordagem ético-estética da realidade (JOBIM E SOUSA, 1995, p.13). A concepção de linguagem defendida por Bakhtin tem na categoria de interação verbal sua chave analítica. Na base deste conceito, temos a noção de dialogia, ou seja, que a comunicação é um processo ininterrupto. Não há enunciados isolados, mas eles estão na cadeia daqueles que o precederam e os que o sucederão. É o elo de uma cadeia que se forma e transcende o tempo e o espaço presentes. “Para Bakhtin, as relações dialógicas são muito particulares e não podem ser reduzidas às relações que se estabelecem entre réplicas de um diálogo real” (JOBIM E SOUSA, 1995, p.16). São bem mais amplas, heterogêneas e complexas. A percepção da atuação da cultura e da história na formatação lingüística permitiu que a significação passasse de uma categoria monológica para outra dialógica. Na primeira, o sentido era restrito, “dicionarizado”. Para a dialogia, as significações são infinitas, variando de acordo com o contexto histórico, bem como com a situação cotidiana de uso da palavra. Não estamos pretendendo aqui conceber uma linguagem relativista, que tudo pode, dependendo do contexto. Há uma normatização que deve ser observada. Contudo, há também uma nuança que escapa, que foge à rigidez da norma e que se transmuta constantemente. Isto que “escapa” não era contemplado na antiga análise lingüística, como as expressões faciais, os gestos, o tom de voz, o conhecimento mútuo do assunto abordado, entre outros. Numa situação de entrevista – como a nossa pesquisa procedeu – os gestos e emoções de um influenciam na colocação do outro. A mudança de entonação de uma pergunta pode influenciar radicalmente a resposta. É nesse sentido que afirmamos que a compreensão se dá na interação entre o nível verbal e o não-verbal (JOBIM E SOUSA, 1995, p.20). A Produção de Sentido se expressa por meio das Práticas Discursivas. Estas constituem foco de estudo para Psicologia Social, nesta vertente que estamos adotando que propicia as bases do construcionismo. Elas são compreendidas como ações, seleções, escolhas, linguagens, contextos e outras expressões relevantes no contexto social. São veredas privilegiadas de compreensão das produções de sentido. Por definição, podemos afirmar que as Práticas Discursivas constituem a linguagem em ação, a forma objetiva pelas quais as pessoas produzem sentidos e relacionam-se no cotidiano (MEDRADO; SPINK, 2000, p.45). Há uma diferença conceitual entre discurso e práticas discursivas. O primeiro focaliza o habitual, aquilo que é gerado pelos processos de institucionalização. A segunda, enfatizando a mobilidade, preocupa-se com as ressignificações, as rupturas e os demais momentos ativos de uso da linguagem. Há uma maior abertura para a diversidade neste último. Medrado e Spink, ao teorizarem sobre as Práticas Discursivas, concluem que: A compreensão das práticas discursivas deve levar em conta tanto as permanências como, principalmente, as rupturas históricas, pela identificação do velho no novo e vice-versa, o que possibilita a explicitação da dinâmica das transformações históricas e impulsiona sua transformação constante. Por meio dessa abordagem, buscamos construir um modo de observar os fenômenos sociais que tenha como foco a tensão entre a universalidade e a particularidade, entre o consenso e a diversidade, com vistas a produzir uma ferramenta útil para transformações da ordem social (MEDRADO e SPINK, 2000, p.61). Outro aspecto que ganhou uma nova roupagem foi a noção de emocionalidade. Assim como já adiantamos, quando tratamos do seu aspecto central da produção de subjetividade, na PS a emoção também ganha um papel de destaque. Ela também é responsável pela capacidade do sujeito gerar sentido. Não falamos do antigo tratamento despendido às emoções, de cunho meramente fisiológico, como resposta do sujeito às condições sociais. Temos um acréscimo, já que a cultura e os significados que ela produz corroboram para o sujeito produzir uma série de sentidos carregados afetivamente. 4) CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE DE (EX) MORADORES DE RUA E A PRODUÇÃO DE SENTIDO(S) DE ÁLCOOL A partir de nossa incursão empírica na Fraternidade Toca de Assis, pudemos perceber que uma gama de sentidos foram (e são) construídos em relação à bebida alcoólica. Antes de tratarmos da questão propriamente dita do álcool, iremos discorrer sobre como apreendemos, via entrevistas, como esses sujeitos foram construindo suas subjetividades, o percurso de suas histórias de vida; bem como foram significando a realidade de rua, suas trajetórias pelas alamedas da cidade de Fortaleza. Ambos os aspectos são fundamentais na compreensão de como o álcool entrou no cotidiano de cada um, as conseqüências e os conhecimentos produzidos. Vale ressaltar ainda que a separação que fazemos é meramente didática. Na dinâmica da realidade cotidiana é impossível separar cada tópico deste, visto que todos se constituem mutuamente. Compreendemos a realidade de forma complexa, na qual as variáveis que tentamos separar metodologicamente aparecem simultaneamente, de forma imbricada. O mais importante não são as constatações em si (como, por exemplo, a imbricada relação entre o álcool e a rua), mas os desdobramentos, os sentidos que são produzidos. Com isso, saímos de uma perspectiva causalística – que enfatiza os porquês – para uma abordagem que se centra no processo, no como determinada realidade se manifesta. Daí a riqueza na história de cada morador de rua, nas emoções que estão envolvidas, nas narrativas que são, ao mesmo tempo, coletivas e singulares. É nesse sentido que, antes adentramos com as categorias, faremos uma breve descrição de cada entrevistado. Consideramos importante situar quem fala para se compreender o que se fala. Todos possuem algumas características em comum: a vivência de rua e a experiência com o álcool. Contudo, estão longe de ter histórias padronizadas. A riqueza está na alternância da singularidade com a aparente constância (dizemos aparente porque o sentido que cada um constrói sobre uma determinada realidade, como a de rua, é idissiocrático). a) A. L. C., 41 anos, natural da cidade de Sobral, é conhecido pelos moradores da Toca de Assis como “o varredor”, visto que a atividade que desempenha na casa. Morou com os pais no interior até os 15 anos. Nesse período, seus pais faleceram e ele veio para Fortaleza trabalhar como autônomo. Trabalhou como jardineiro, limpador de piscina, camelô no centro da cidade, entre outros “bicos”. A partir do começo da década de 90 ficou desempregado e passou a morar na rua e beber (vale ressaltar que ele não bebia antes de ir para a rua). Entrou na Toca de Assis em 2001. b) J. C. V., 49 anos, natural de Fortaleza, é chamado pelo abrigados como o “J. da lavanderia”, já que este é seu serviço na instituição. Passou grande parte de sua infância em um colégio interno, em Maracanaú. Depois foi concluir os estudos em Sobral. Tem três irmãos por parte de mãe e oito irmãos por parte de pai. Perdeu contato com o pai, mas sabe onde a mãe mora, porém prefere não ir lá. Já foi casado e tem três filhos. Narra uma vivência de mais de 15 anos na rua. Em 2000, operou a perna, fruto de um acidente de carro. Foi tentar atravessar a rua embriagado e o carro o acertou. Depois disso, fez uma cirurgia e foi acolhido na Toca de Assis no começo de 2001. c) A. G. S., 53 anos, natural de Pentecoste. Saiu de sua terra natal para Maranguape, depois Quixeramobim e só depois veio para Fortaleza. Tem três filhos, dois homens e uma mulher. Passou a infância trabalhando na agricultura. Quando adulto, conta que já trabalhou em grandes empresas, como Vicunha, Marquise e outras. Conta um pouco da trajetória de como foi parar na rua: “Vivia bem, tava bem. Os filho tudo estudando. Comecei com um negócio de brincar e tudo. Bebendo, brincando. Rasgando dinheiro. Tinha um capitalzinho na Caixa, no Bradesco, depois eu tirei. Perdi o emprego. A mulher adoeceu. Abri um negócio e o negócio não deu certo. Aí eu fechei. Comecei a brincar demais.”. O chamaremos de “D. Juan” porque é recorrente o saudosismo do tempo em que conquistava várias mulheres. Mora na Toca de Assis desde 2004. Além deste último, usaremos também os demais apelidos para nos referirmos aos sujeitos, tanto como sigilo quanto para identificá-los com alguns atributos que são/foram centrais nos respectivos movimentos de construção da subjetividade. 4.1) A construção da subjetividade em (ex) moradores de rua A construção da subjetividade, como já tratamos no capítulo anterior, é uma temática complexa. A constituição do sujeito humano é perpassada por uma série de vetores psicológicos, sociais, culturais, biológicos, entre outros. Na realidade dos (ex) moradores de rua da Toca de Assis, percebemos três variáveis centrais que eram constantemente citadas: o trabalho, a família e o aspecto de gênero (este último iremos aprofundar nos tópicos seguintes). Aliadas a estas, tínhamos também a presença de acontecimentos que eram veiculados pela mídia, bem como a noção da alteridade como fundamental na construção do eu. Quando questionávamos sobre as histórias de vida de cada um, o saudosismo e a fala afetuosa eram sempre presentes. Foi comum lembrar dos momentos com os pais, a grande quantidade de irmãos e, principalmente, da solidão que sentem hoje por estarem distantes dos entes queridos. Como iremos explorar mais adiante, o álcool, em algumas ocasiões, já fazia parte da rotina das suas respectivas casas. Esses sujeitos tiveram vivências de família, tanto como filhos e também como chefes de casa. Há um preconceito vigente de que moradores de rua não têm nem tiveram uma referência familiar. Pensamento este fruto da naturalização que voga quando pensamos neste público. É como se os moradores de rua, naturalmente, “brotassem da terra”. Tal raciocínio estanque, como podemos notar em termos de políticas específicas para a área, também gera ações limitadas. Inverdade que pudemos comprovar a partir das falas: O que eu me lembro da minha história de vida? Quando eu vivia na casa dos meus pais, né? Meus pais eram vivos que eu morava na companhia deles. Aí era o meu melhor momento de vida. Logo quando eu tinha meus quinze anos. Meus pais ainda eram vivos. Aí, depois que eles faleceram, meus irmãos e minhas irmãs se debandaram. Um pro canto, outro pro outro canto. Hoje a gente não se encontra mais. (Varredor) O trabalho, a partir da Psicologia Histórico-Cultural (LEONTIEV, 1978), é fundante na constituição do homem. O homem, através da atividade, atua no mundo transformando-o e transformando-se. Percebemos esta premissa também nos relatos que coletamos. O trabalho é apresentado como fonte de dignificação, uma espécie de cartão de identificação (sou fulano pedreiro). Interessante que dois de nossos entrevistados eram conhecidos pelas atividades que desempenhavam na casa: o varredor e o J. da lavanderia. Utilizaremos estes atributos para nos referirmos aos entrevistados no decorrer deste capítulo. Isto só reforça nossa idéia de que o trabalho é uma categoria central quando pensamos sobre a constituição do psiquismo e da subjetividade humana. Outra categoria central na construção da subjetividade do morador de rua é presença da alteridade como referência para a definição do eu. A percepção de si é atravessada pela percepção do outro. O que disseram sobre ele (presença da linguagem como constituinte da subjetivação) também o constrói. Uma situação expressiva dessa afirmação foi quando uma senhora, em visita à Toca de Assis, questionou um entrevistado: “se eu era desse meio de rua, porque me achou diferente, e eu disse que não era mesmo não. Todo dia eu tava aqui todo limpinho, todo arrumadinho”. (Dom Juan). Ou seja, ele não deveria ser um morador de rua porque andava limpo. Percebemos que os preconceitos que circulam socialmente não são exclusivos da população em geral em relação aos moradores de rua. Eles próprios compartilham impressões depreciativas sobre suas vivências, falas e imagens. Ademais, o entrevistado nega sua condição de rua a partir da diferença que ele apresenta perante os demais moradores de rua. Além disso, a fala do nosso entrevistado demarca a singularidade – já que ele se recusa à ser massificadamente classificado como mais um morador de rua -, outro aspecto presente quando pensamos a constituição do sujeito. Importante para esta pesquisa como dado de uma realidade não homogênea, produzindo um sentido que preza pela demarcação da diferença, variável que possivelmente seria esquecida em pesquisas quantitativas. O diferente, por vezes, é simplesmente tratado como exceção. O diverso, ao contrário, é prenhe de riqueza. Exatamente o que destoa da norma que aparece como sentido peculiar. A percepção hegemônica em relação aos moradores de rua é aquela do sujeito “magro, sujo, cabeludo, descalço” (Varredor). A cobertura de fatos de grande repercussão pela mídia aparece também como variável recorrente nas narrativas. O Varredor, por exemplo, destaca todos os acontecimentos importantes de sua vida a partir de grandes eventos cobertos pelos jornais impressos e telejornais. O primeiro foi quando ele veio para Fortaleza, em 1982, “foi no ano que caiu aquele avião lá na serra de Aratanha” (referindo-se ao acidente que envolveu Edson Queiroz). Em seguida, remonta ao período em que saiu da Toca de Assis para beber, “no começo de 2001, no anos daquele acontecimento lá nos Estados Unidos” (atentado às Torres Gêmeas). Por último, fala do retorno à instituição, uma data bastante significativa para o entrevistado. “Eu voltei no dia que caiu aquele avião da Gol. Dia 29, numa sexta feira. Foi!”. O que nos chama a atenção nestas demarcações temporais é como se o entrevistado utilizasse uma referência extra – fora o calendário para a sua localização espaço-temporal. Um auxiliar, já que na rua a precisão do tempo é uma variável bastante fluida. Tal evidência apareceu apenas em uma entrevista, porém a julgamos significativa em termos de explicitação da realidade de rua. 4.2) A experiência de rua dos (ex) moradores de rua da Fraternidade Tocas de Assis Fizemos questão de demarcar no título desta seção que a vivência de rua, a qual estamos nos referindo, não é qualquer uma, mas a experiência concreta e particular dos (ex) moradores de rua daquela instituição religiosa. É evidente que esta guarda semelhanças com as histórias que poderíamos colher em outros locais ou mesmo na rua. No entanto, acreditamos que o contexto influencia, sobremaneira, a forma dos indivíduos se colocaram no presente. Por exemplo, certamente o cenário religioso é uma variável a ser considerada. O fato de eles não mais estarem na rua é outra variável. Percebemos que eles falam de uma “realidade passada”, muito diferente de uma em que eles ainda estivessem vivenciando as agruras da situação de rua. “Eu vivo mais isolado, sozinho, escutando o meu rádio e pronto. Não fico em grupinho onde fica três ou quatro em conversinha não.” (Varredor). A rua, a partir das falas dos entrevistados e da nossa pesquisa bibliográfica, constrói um ethos no qual é necessário aprender a viver “isolado”. Isso repercute diretamente na dinâmica da instituição, dificultando a formação de vínculos mais duradouros, tanto interpessoais quanto no tocante ao espaço21. Na rua, um dos únicos espaços de socialização são as chamadas “rodas de bebida”. Outro aspecto que dificulta uma maior apropriação do espaço por parte dos abrigados é a alta rotatividade dos religiosos. Anualmente, ou antes disso, os irmãos da casa revezam suas moradias nas casas espalhadas pelo País e pelo mundo. É notório que essa fragilidade na construção do sentimento de pertinência por parte dos abrigados corrobora para eventuais saídas e, consequentemente, a ingestão de álcool. Por isso somos favoráveis à idéia de que o sentido de álcool na instituição é peculiar, pois é perpassado por esta realidade, modificando também a forma com a qual o sujeito se relaciona com a bebida alcoólica. A fala a seguir denota o que estamos afirmando: Eu fui pro sítio, aí não passei esse tempo na rua não. Voltei para o Papicu e só depois voltei [a Toca de Assis também possui uma casa masculina nesse bairro]. Me deu vontade de ir pra rua. A gente tem apego com os religiosos, são os benfeitor, os guardiões [coordenadores das casas]. Ai quando começam a ir embora muitos vão por causa disso, por causas dos religiosos (Varredor). 21 Para estudo mais aprofundado sobre a formação de grupos como facilitador de vínculos interpessoais na própria Toca de Assis, consultar: Alcântara, 2004. Uma das formas de acesso à realidade da rua, como já havíamos antecipado no segundo capítulo, é a extrema situação de penúria e o desemprego. O sujeito, por vezes, não tem dinheiro para pagar o aluguel da casa ou, o é mais comum em nossas entrevistas, sente-se profundamente envergonhado por não ter condição de ser o provedor da casa e daí parte “errante” para as ruas. “Ai não achei mais emprego e fui pra rua” (D. Juan). Nesse sentido, é importante atentar para uma variável de gênero que está muito clara neste contexto, já que é supostamente próprio do homem o sustento da casa. Como veremos mais adiante, o próprio ato de beber tem muito a ver com uma forma de afirmação da masculinidade, já que o sujeito fica desinibido para cortejar as mulheres, torna-se mais corajoso, ou seja, sente-se mais viril. Compreendemos que o contexto não é determinante de uma dada realidade, porém é inegável que a conjuntura é variável fundante na construção da subjetividade. Queremos dizer, com isso, que a situação de precarização do mundo laboral deve ser levada em consideração quando analisamos a realidade em estudo. A falta de trabalho é, por vezes, substituída pela situação de rua e, conseqüentemente, pela experimentação etílica. Não estamos afirmando que exista uma relação causualística e necessária entre os dois, mas que, em determinados momentos, isto pode ocorrer e, de fato, acontece. O anonimato é outra característica que acompanha os moradores de rua. Esta característica está intimamente ligada à homogeneização à qual nos referimos anteriormente. O anonimato a que nos referimos vai além da simples falta de referência ao nome, chega ao ponto da profunda despersonalização. Acrescente-se um outro fato que é bastante comum entre a população de rua: a perda dos documentos. J. da Lavanderia é esclarecedor ao afirmar que “o único (documento) que (eu) tinha era a certidão de casamento e eu perdi na rua”. Esta se liga também à impossibilidade de viver a cidadania de forma plena, já que vários espaços, por conta disso, os são negados. O acesso à educação é quase inexistente, a saúde é limitada, sendo a habitação o grande problema. Vale ressaltar que este último ponto, como tentamos descrever no decorrer desta pesquisa, vai além do mero déficit habitacional e abrange problemas de ordem econômica, intrafamiliar, psicológica, dentre outras. Apesar de a rua ser constantemente significada como um local aversivo, há uma vinculação com essa por parte dos moradores de rua. Muitos deles fazem alguns poucos amigos, criam laços afetivos com algum comerciante que os ajuda, demarcam determinado território público como “meu”. Mais uma vez, observamos o paradoxo como parte constituinte da realidade. A liberdade é um atributo positivo altamente valorizado pelos entrevistados. Entretanto, esta não aparece isolada, mas como uma possibilidade de experimentação etílica, já que fica vedado o uso de substância entorpecente, uma vez estando na instituição. A Toca (abreviação comumente utilizada para se referir à fraternidade) é significada com uma considerável carga afetiva. É o lugar de referência que antes eles não tinham. Cada um é chamado pelo nome (ou algum apelido que traz da rua ou é dado pelos os abrigados), tem uma cama, obedece a uma rotina que varia entre as refeições e as orações. Segundo J. da Lavanderia, “A Toca de Assis pra mim é uma família, é a minha casa. Se eu sair daqui, eu procuro o mesmo caminho, a CEART, lá pra aqueles lados da Aldeota”. Nesse contexto, a rua incorpora uma série de atributos, no sentido psicológico. Vários signos são utilizados pelos moradores de rua para descrevê-la. Todos são carregados de metáforas, afetos, exemplos do cotidiano, denotando a multiplicidade de sentidos ali produzidos. Muito do que encontramos nas falas assemelha-se com o anteriormente colhido em nossa pesquisa bibliográfica. Outros sentidos extrapolam a literatura. Por vezes, a rua é significada como um ambiente hostil. “O meio da rua, é o tipo da coisa, ninguém é de ninguém. [...] Tem que saber viver na rua” (J. da Lavanderia). O individualismo também é bastante presente, cada um é responsável exclusivamente por si. Os espaços de convivência grupal, como as famosas “rodas de papudim”, não garantem, em si, a formação de uma coesão grupal. Há um aprendizado de viver só no meio da multidão. Quando falamos que existe uma invisibilidade tomamos esta num sentido bilateral, ou seja, tanto os morados de rua não são reconhecidos em termos das urgências sociais como eles também se camuflam no meio da população. Outra característica da situação de rua é que ela, segundo os entrevistados, é responsável por tornar uma pessoa ruim: A rua não tem muita coisa pra pessoa não. Tem só cara que se envolve no mundo do crime, que não presta, que cai no mundo das drogas, se torna assassino, faz parte de gangue. Tem nada na rua não. Tem aqueles que saem, quando vem é com a cabeça quebrada, é o braço ferido, ponteado. Nunca vem bom. Só chega com algum problema. Quando volta, ou é pela polícia ou por assistente social (J. da Lavanderia). Como já nos deparamos no noticiário, no conhecido caso do índio Pataxó22, em que adolescentes de classe média alta justificaram incendiar o índio porque “pensavam que era apenas um mendigo”, a violência é outra marca da situação de rua. Além da violência psicológica a que estamos todo tempo nos referindo, é presente também a violência física. É comum o morador de rua acordar à ponta pés de policiais, assim como levarem pedradas durante a noite. Consideramos bastante ilustrativa a descrição feita pelo Varredor: Os perigos da rua não tá durante o dia, tá à noite. Eu já vi muitos. Já vi não, já tomei conhecimentos de muitos moradores de rua que foi morto dormindo com pedrada e como paulada. Conheço um que foi tocado fogo, é todo cheio de cicatriz. Na rua se depara muito com isso, com o perigo. A pessoa mesmo, às vezes, bonzinho mesmo, ele ta sabendo que vai dormir na rua, num local assim, e não sabe se acorda com vida. Então é o seguinte, a pessoa boazinha, sem ter tomado álcool, ele não dorme com tranqüilidade. É um olho fechado e outro aberto. Não tem, assim, uma tranqüilidade para dormir, que a pessoa sabe dos perigos que corre. A ociosidade é outra marca do contexto de rua. O alcoolismo está diretamente vinculado com esta peculiaridade, visto que a falta do que fazer possibilita a formação de pequenos grupos, que têm como objetivo a bebida e o jogo. Quando questionado sobre a realidade da rua, J. da Lavanderia afirmou que: Muito é desgosto [...]. Não tem o que fazer. Dos que vivem no meio da rua, muitos não são nem alcoólatras totalmente. É mais por causa da droga, das pedras, crack. E qualquer dois contos é fácil, até um cigarrinho. Mas a maioria da galera que eu vivia no meio é mais alcoólatra. Aparece também uma falta de perspectiva aliada a um pensamento fatalista23. Na rua, “eu num tive futuro nenhum, não tive nem vi futuro em nada” (Varredor). Foi a realidade da Toca de Assis que possibilitou o acesso a uma perspectiva diferente, bem como de ver que ela realmente existe. Com o passar do tempo, o fatalismo vai dando espaço ao projeto de vida. Eles vão percebendo, paulatinamente, que a instituição é um local passageiro e que cabe a eles o salto para a mudança. Podemos afirmar também, a partir das narrativas e da literatura, que há uma relação intrínseca entre o álcool e a rua. Ora um percebido como causa, ora como conseqüência, alternando-se, dependendo do contexto específico. Varredor conta que: “Aprendi tudo na rua: a bebida alcoólica, o cigarro [...] Ela [a rua] oferece todo o tipo 22 Para ver a notícia na íntegra: http://www.sindicato.com.br/artigos/cimi.htm (Acesso em 02/01/2007). 23 Aos seres humanos não resta outra opção senão acatar seu destino, se submeter à sorte que lhe determina. (MARTÍN-BARÓ, 1987, p. 137). de termos de vício, seja lá qual for, da bebida, da droga, de tudo”. Quando estão ociosos, “sempre chega um e ‘vem cá, toma uma aí’. Nesse toma aí, a pessoa não bebe só uma”. Na própria Toca, vários não suportam a situação de ficar sem beber e voltam para a rua. Observamos então que há um vínculo circular de dependência entre o sujeito morador de rua, a bebida alcoólica e a situação de rua. Ambos se retroalimentam mutuamente. “É porque é o seguinte: passou a morar na rua, dá aquela vontade de beber! Não tem nem como ficar sem beber” (Varredor). A rua conduz ao álcool que, por sua vez, dificulta a superação da situação de rua. O sujeito bebe para suportar a realidade e, ao mesmo tempo, se aprisiona nela. O interessante é que os próprios sujeitos reconhecem esta relação. Diferente da vinculação que existe entre a rua e o álcool é a relação entre a rua e as drogas ilícitas, que não é tão evidente assim. “Nunca me envolvi com esse negócio de cheirar cola, usar drogas. Então o que tive como droga na minha vida foi a cachaça”. (J. da Lavanderia). Nossos três entrevistados não eram usuários de drogas ilícitas, ao mesmo tempo em que há o indício da cachaça como droga, numa conotação explicitamente pejorativa. 4.3) Sentido(s) de álcool em (ex) moradores de rua Após termos contextualizado como compreendemos o movimento de constituição da subjetividade dos moradores de rua e de sua realidade, explicitaremos, com maior ênfase, os sentidos produzidos, através das narrativas, sobre a vivência com o álcool. Já antecipamos algumas questões, visto que a realidade é complexa e imbricada. Por ora, focaremos atenção específica no álcool e na sua relação com o cotidiano dos moradores de rua. A produção de sentido no cotidiano é marcada pela pluralidade e pela contradição. Foi este movimento que percebemos em relação às vivências atreladas ao alcoolismo. Como também é perpassado pela cultura, o primeiro sentido de álcool que percebemos foi a noção de brincadeira, de divertimento. A desinibição e a confraternização marcam situações de convivência social. “Dava vontade e cantar” (J. da Lavanderia). “Quando eu tô bebendo, tudo pra mim é divertimento, tudo, seja lá o que for. Às vezes, um negócio que não é, mas quando tô bebendo, é divertimento. Tudo pra mim é alegria, é tudo” (Varredor). Tendo a realidade da rua como cenário (significada constantemente de forma bastante aversiva), compreendemos o quão prazeroso são esses momentos, uma espécie de “oásis no deserto”. Ligado ao sentido anterior, temos a acepção de coragem atribuída ao álcool. “Eu num tinha medo não, tava bebendo” (D. Juan). “Quando eu tou parado, eu tenho vergonha. Mas quando eu tomo uma ou duas, eu não tou nem aí. Passa toda a vergonha” (Varredor). É como se a bebida os dotasse de uma força. Aliado a isso, temos a noção de onipotência, já que eles relatam que embriagados são capazes de tudo: entrar em brigas, correr riscos (como andar de moto embriagado) e entrar em lugares perigosos em horários impróprios. O álcool surge também como possibilidade de encontro. A situação de confraternização é o suficiente para despertar nos sujeitos a vontade de ingerir bebida alcoólica. “Lá pela rua, eu sinto uma vontade. Eu vejo as pessoas tudo bebendo, naquela conversadeira toda, naquela animação. Aí vem a vontade de tomar uma dose” (Varredor). Atrelar os festejos à prática de alcoolização, segundo os relatos das histórias de vida dos entrevistados, é um fato antigo. Todos eles aprenderam a beber em rodas de amigos ou fazendo companhia a algum familiar, sempre em situação de celebração. Não é à toa que agora o contrário ocorra, ou seja, que a situação elicie a vontade de beber. O sentido da desinibição está atrelado intimamente com o sentido da confraternização. O primeiro leva ao segundo. As festas já começam desde cedo e incitam o jovem às experimentações etílicas. “Comecei a beber novo, adolescente. Nas tertúlias, tomava leite de onça, comecei por ai” (J. da Lavanderia). “Não, eu devia ter uns 25 anos. Mas comecei a beber antes. Negócio de aniversário, né? Com uns 19 anos, eu já bebia. Era só com a turminha do bairro mesmo. Comecei a beber novo” (J. da Lavanderia). Reforçamos, mais uma vez, o porquê de nem todos que iniciaram a bebida precocemente tornaram-se alcoólatras. Pesquisas revelam, como explicitamos no segundo capítulo, que apenas 10% da população possuem essa inclinação (MOREIRA; SILVEIRA, 2006, p. 6). O nosso problema, em termos sociais, é que há uma grande exposição da juventude a essas práticas, agravando ainda mais os índices. Na situação de rua, o significado da bebida como possibilidade de encontro se confirma. Varredor nos narra uma situação corriqueira: Por coincidência, tem o um conhecido seu e fala “ei, fulano, vem cá”. Aí pronto. Aí vai lá. Quando você chega nos três, falam, “toma a tua aí”. “Não quero não”. “Toma uma aí, rapaz.” Aí nessa de tanto de insistir, a pessoa acaba aceitando. Aí toma a primeira. Depois que toma a primeira, se engancha na patotinha deles. Aí continua mesmo. Bebe mesmo pra valer. Outro tema recorrente é o sentido do álcool atrelado à doença mental. Há uma idéia socialmente compartilhada que entende o alcoolismo como um transtorno de personalidade e, por isso, passível de internação em instituição psiquiátrica. Escutamos, a partir das narrativas, relatos de situações como estas. Dos três entrevistados, dois passaram por instituições de cunho psiquiátrico. Uma vez inseridos nestes locais, os sujeitos são, como eles contam, massificados (mesmo remédio para todos) e tornam-se meros objetos. É comum a comparação com animais. A comparação com jaulas (quartos) é uma alusão aproximada da realidade de um zoológico. Um entrevistado, J. da Lavanderia, chegou a relatar que cerca de 90% das internações são decorrentes de problemas com a síndrome de abstinência alcoólica (SAA). Nosso pesquisado aponta que há uma inadequação com o tipo de tratamento dispensado, visto que não existem cuidados diferenciais. Como não se sabe ao certo o que fazer ao se observar os sintomas, interna-se arbitrariamente em instituições de saúde mental. Este dado é fundamental, uma vez que aponta o descuido da sociedade e das autoridades com essa população. Além da generalização, o hospital psiquiátrico é tomado como espaço de higienização social. Outro aspecto importante é perceber que o sujeito tem consciência disso, contrariando representações que colocam a população de baixa renda, alcoólatra ou portador de transtorno mental como desconhecedores de sua realidade e passivos na sua existência. A visão de homens que postulamos no terceiro capítulo deste trabalho vai de encontro a tal perspectiva. Um sentido bastante recorrente diz respeito à culpabilização, por parte dos moradores de rua, em relação ao álcool como substância. “A bebida é que traz muita desgraça no mundo. Talvez se não fosse a bebida nada disso teria acontecido. [...] a cachaça me fez andar por cantos que se eu tivesse bom, não teria chegado nem perto” (D. Juan, grifo nosso). A responsabilidade pelo ato é atribuída exclusivamente ao álcool. Talvez este seja o sentido principal que impeça uma real superação, uma vez que a questão basal do tratamento é o reconhecimento de que há uma relação – no caso a do sujeito com o álcool - a ser transformada. Entendemos que há uma diferença entre culpabilizar a bebida e compreender que o comportamento de beber é responsável por algumas situações do cotidiano dos moradores de rua. Essa diferenciação é fundamental porque retira da substância em si a responsabilidade e as conseqüências do ato, e volta atenção para a relação da pessoa com droga (lícita ou não). Esta é uma outra naturalização corriqueira, pautada em estereótipos, tanto da parte dos sujeitos, como da parte das ações voltadas para esta camada da população. Podemos pensar esta situação também como uma forma de alienação. Não há o reconhecimento, por parte do sujeito, de seus limites, as causas e as consequências de seus atos. Indagado sobre como ele percebia a influência do álcool em toda a sua vida – família, trabalho e amigos – um entrevistado (Varredor) disse que não existia nenhuma relação, que a cachaça não atrapalhava em nada. Esta fala entrou em contradição com todo o contexto do que era narrado por ele, uma vez que o álcool foi o grande responsável (segundo ele mesmo, em um outro momento) pela sua saída de uma casa de abrigo para a rua. É comum o abuso da sustância aparecer atrelada a outras vivências como, por exemplo, a conquista de mulheres. Há um ciclo complexo nesse sentido: os locais onde se faz uso de álcool são cheios de mulheres; elas, por sua vez, valoram positivamente quem bebe; é preciso ter coragem para “chegar junto”. Então, faz-se uso de bebida alcoólica. Toda essa realidade concorre para o favorecimento do vício. “Nada me levou pra provar da cerveja. Mas também uma coisa me influenciou. Na época, eu era mais novo, aí eu conheci umas mulher lá” (Varredor). O abuso de álcool foi significado também como fuga da realidade. Chegando a níveis insuportáveis de sofrimento, o sujeito abusava da cachaça, como um tipo de analgésico existencial. “A cachaça pra mim é como um refúgio. Mas fazia era piorar. Não tinha coragem de procurar uma pessoa para dialogar. Ai me afogava no álcool. Aí pra mim tava tudo bem. [...] Só que na rua, qualquer raivazinha a gente vai pegar no álcool” (J. da Lavanderia). A cachaça é a bebida mais consumida e mais popular entre os moradores de rua. Como já alertamos no segundo capítulo, as bebidas destiladas são aquelas que possuem teor alcoólico mais elevado. Com isso, sua ação no comportamento e os prejuízos neuronais são mais incisivos. No contexto da situação de rua, essa escolha não é aleatória: é a bebida mais barata, que se encontra com maior facilidade e traz efeitos de maneira mais ágil. Além disso, é a representação do “macho nordestino”, que suporta a sensação inflamadora que a bebida proporciona, da “dose que desce queimando a garganta”. Mais uma vez, gostaríamos de atentar para esta questão de gênero que, a nosso ver, é um significado fundamental na construção do imaginário que gira em torno do consumo etílico. Em relação ao uso da bebida alcoólica vinculado a algum tipo de droga ilícita, não observamos essa aproximação de forma direta. Isto foi importante porque a significação socialmente compartilhada é a noção de “porta de entrada”, ou seja, que uma droga de menor efeito sedativo leva o sujeito à experimentação de substâncias mais pesadas. Pesquisas realizadas com a maconha negam esse movimento24. Mesmo assim, é interessante a forma como a bebida é significada como uma droga: “Então o que tive como droga na minha vida foi a cachaça” (J. da Lavanderia). No momento do uso intensivo da substância, o sintoma mais citado é a “tremedeira e as alucinações” (delirium tremens). Em relação às repercussões a longo prazo, a grande queixa em relação às consequências é uma defasagem considerável na capacidade de memorização e a depressão. Em relação à primeira, D. Juan narra uma situação bastante representativa: E outra, que mais pro final, eu já tava fazendo as coisas e não lembrava mais. O que eu fazia, muitas vezes, eu esquecia. Às vezes, eu chegava em casa, e eu não sabia se no outro dia eu tinha bebido, se eu tinha voltado de bicicleta ou andando. Ia ver se a bicicleta tava dentro de casa e era a mulher que botava pra dentro. Eu sei que eu chegava de bicicleta, não sei como não caía. A seqüela em curto prazo apontada foi a ressaca. Os incômodos fisiológicos são recorrentes. “Agora só que as conseqüências vêm na ressaca, né? Quando eu passo de dez dia no álcool direto, quando eu paro, as consequências vem na ressaca” (Varredor). No entanto, a ressaca é compreendida também como “ressaca moral”, um envergonhamento público por conta de um comportamento que sofre grande sanção social. Interessante que, ao mesmo tempo em que há o estímulo publicitário, o reconhecimento da masculinidade via bebida, a inserção do álcool em uma série de ritos de passagem, ultrapassar o limite é motivo de repúdio social. Nesse sentido, há uma norma a ser seguida, nem a ausência, muitos menos os excessos. O sujeito deve ser padronizado, normatizado. Para melhor explicar a realidade de rua atrelada à experimentação etílica, todos os entrevistados se referiram à noção de “papudim”, esta como a caracterização de um comportamento bem definido. Entendemos também como uma forma de delimitação 24 Para ver matéria completa consultar: http://www.opovo.com.br/opovo/cienciaesaude/654174.html (Acesso em 17/12/06) dos grupos, de reconhecimento de si e do outro. “Bem, para aqueles que bebem, assim, o dia todo e todo dia. Isso tem um nome, né? Na rua, eles são conhecidos mesmo já como papudinho” (Varredor). Este significado encontra aproximação com o que entendemos por dependência, conceito que adiantamos no segundo capítulo deste trabalho. O significado supracitado encontra consonância com a diferença entre uso e abuso de álcool (conceitos que também discutimos no segundo capítulo). Interessante notar que o senso comum também se vale de conceitos, com menos precisão que o conceito científico, mas que, de forma semelhante, ajudam no compartilhamento de uma dada realidade. Estes são saberes qualitativamente diferentes, mas nem por isso um é inferior ao outro. Ambos dão conta de uma mesma realidade, porém com objetivos e métodos distintos. Varredor, ao explicar o porquê de se evitar o “primeiro gole”, faz uma explanação bem esclarecedora da diferença entre uso e abuso: É porque, vou explicar: as pessoas que bebem, esses que bebem só no final de semana, por esporte, esses tudo bem. Eu acho que se controla (uso). Mas as pessoas que passam 10 a 15 dias no álcool, aí, mesmo parando, passando uma temporada sem provar no álcool, assim dois, três, quatro ou cinco meses, sem provar no álcool. Aí, vamos supor que uma pessoa esteja cinco meses sem provar no álcool, aí um dia ele pensa: “É tou um tempo sem beber. Vou tomar só uma ali pra poder esquentar, uma ou duas”. Mas só que a pessoa não fica só numa. De jeito nenhum. Tomou a primeira, pronto. A primeira desce ruim. Desce rasgando e queimando. A segunda desce mais macio (abuso). O ato de beber, em determinadas situações, é colocado como uma necessidade básica, ao lado da alimentação. O trabalho aparece como fonte de renda que sustenta tanto a alimentação básica quanto o álcool. Varredor nos explica com uma situação: Aí passei a trabalhar na minha conta própria. Arrumei um estacionamento para trabalhar. Ali ao lado da escola normal, em frente à igreja do Pequeno Grande. Aí olhava o carro lá para poder me virar e sobreviver. Olhava o carro, lavava um carro. Era assim. Para ganhar alguma coisa. Tanto para o meu alimento, como quando eu quisesse tomar uma, né? No geral, o sentido conclusivo atribuído ao álcool é bastante negativo. Chamamos de sentido conclusivo as adjetivações que tendem à conclusão, a nomear de maneira sucinta e lacônica uma determinada experiência. “Eu sei que o cão da bebida, é o de mais ruim pode existir no mundo. [...] Eu costumo dizer que a cachaça não dá caminho a ninguém não” (D. Juan). Após pensar um pouco sobre o que iria dizer, Varredor afirma categoricamente: “O álcool é, pra mim, uma derrota”. O prejuízo, a perda e sofrimento também são alguns sentidos constantes nos discursos. Os sentidos produzidos sobre o álcool, como pudemos observar, são diversos. Cada um surge de maneira singular, atrelado às histórias de vida, às produções culturais e às práticas cotidianas. Uma vez inseridos nos contexto de rua, onde existe uma maior permissividade para a alcoolização, os sentidos vão sendo, mais uma vez, ressignificados. Concebemos ainda a própria situação de entrevista e de produção escrita desta monografia como momentos de elaboração dessas vivências. Nossas análises também são interpretações parciais, sem pretensões de reproduzir fidedignamente o sentido e o significado das narrativas. Nosso estudo visou a compreensão, entendendo esta de forma localizada e datada. CONSIDERAÇÕES FINAIS De antemão, gostaria de reforçar um clichê acadêmico que considero de suma importância: a substituição de uma suposta “conclusão” para algumas “considerações finais”. A processualidade desta segunda nomenclatura vai ao encontro da proposta deste trabalho. Nesse sentido, há a possibilidade desta produção se desdobrar em outras, em outros momentos, por outros atores. Não tivemos o intuito de dados generalizáveis, mas que estes pudessem contribuir para a compreensão de uma dada realidade. Importante que esta pesquisa, longe de pretender ser um saber canônico, é mais um sentido produzido sobre a realidade dos moradores de rua e sua vivência com o álcool. É um movimento em que a academia também se apropria de uma temática que era anteriormente postergada. Pudemos perceber a riqueza dos dados. Coletamos informações que poderiam subsidiar outras pesquisas, como a relação da família com o morador de rua, o uso de drogas ilícitas na situação de rua (que é uma outra realidade), a influência do gênero no consumo etílico, sempre evitando as causalidades fáceis e aparentemente lógicas. Quando tratamos do álcool no contexto de rua, observamos que a substância predileta é a cachaça. Tal escolha não é aleatória – como já apontamos em nosso trabalho – mas, principalmente, por causa da nossa cultura nordestina, essa eleição é repleta de representações. Desde a época dos cangaceiros, ela foi associada à virilidade e à força, demonstrada na cena em que o sujeito “toma uma, dose e esta desce queimando”. Os demais, apenas reconhecem a força do sujeito. Podemos pensar também numa questão de gênero e observar que não é à toa que mais da metade dos que fazem uso de álcool, a nível nacional, são homens. Pesquisas nesse sentido poderiam ser produzidas, aprofundando melhor essas relações entre masculinidade e álcool. Outro ponto fundamental é a (re)formulação de políticas públicas, já que as existentes não são suficientes e/ou são pensadas de maneira desarticulada. Essencial seria a construção de mais casas de abrigos, a articulação destes com a rede de saúde, o atendimento especializado à população dependente, a possibilidade de reinserção laboral de alto nível e não apenas aquelas que reproduzem a cultura da pobreza. Falta interesse real por parte das autoridades para com esta camada da população. Talvez seja pela impossibilidade de mobilização e pela inexpressividade de votos dos moradores de rua, uma vez que muitos nem título de eleitor possuem. Uma vez proposta alguma ação, é importante atentar, sobretudo, que ao estar na rua o sujeito cria vínculos com o espaço e com as pessoas ao seu derredor. Isto deve ser levado em consideração. Não queremos dizer, com isso, que o espaço da rua é bom, mas que qualquer intervenção, para ser eficiente, tem que ser pensada do ponto de vista do sujeito a quem se dirige a ação. Não atentar para as peculiaridades na formulação de políticas, na maioria das vezes, prescindindo de variáveis centrais, acaba fadando o projeto ao fracasso. Quando do encontro do álcool com o mundo da rua, há a produção de uma realidade ainda mais complexa. Por vezes, desconsideram-se as peculiaridades, principalmente, de quem é portador da Síndrome de Abstinência do Álcool (SAA). A Psicologia tem a contribuir tanto como ciência – na compreensão das variáveis envolvidas, na problematização da realidade e na desnaturalização dos “óbvios” – como na proposição de uma práxis contextualizada, na capacitação de pessoal e, principalmente, no planejamento de ações interdisciplinares. O movimento histórico da saída dos consultórios e de um atendimento eminentemente individualizado para práticas mais amplas está reverberando em termos sociais. Já existe um maior requerimento da Psicologia na ponta de políticas sociais – como os CREAS (Centro Especializado de Referência da Assistência Social). Este movimento só tende a crescer. Percebemos, então, que a realidade de rua é mais que um simples problema de habitação – no sentindo da falta de moradia para todos – mas há também fatores de convivência familiar, do contexto sócio-econômico e, sobretudo, de problemas como o alcoolismo. A Psicologia tem contribuição importante nesse sentindo, principalmente atuando na área de prevenção e promoção, no esclarecimento, na proposição de grupos operativos, na potencialização da família como rede afetiva etc. Ao escutar as narrativas dos moradores em situação de rua, pudemos perceber que são histórias arraigadas de muito sentimento, principalmente de sofrimento. É como se cada morador de rua travasse uma luta diária pela sobrevivência, e o grande troféu seja chegar ao final do dia com sua vida em punho. Quando falamos que o sujeito se forja na imbricada relação entre seus desejos, suas peculiaridades e a trama sóciocultural compreendemos tal premissa nitidamente na fala de cada entrevistado. A realidade certamente seria outra se houvesse mais oportunidades de emprego. O fatalismo dispensado à temática, a partir do momento em que é historicizado, perde o caráter de imutabilidade e começa a entrar em movimento. Outras possibilidades surgem no horizonte. E elas existem, de fato! REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALACÂNTARA, S. C. O grupo vivencial comunitário: uma possível articulação entre a psicologia social comunitária e psicologia fenomenológica existencial. Universidade de Fortaleza, 2004. (Monografia) ARAÚJO, M. R.; MOREIRA, F. G. História das drogas. In: MOREIRA, F. G., SILVEIRA, D. X. da. Panorama Atual de Drogas e Dependências. 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Alcoolismo e abuso de substância psicoativas – tratamento, prevenção e educação. São Paulo: Vetor, 2000. SPINK, M.J.P. (Org) Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano. São Paulo: Cortez, 2000. VYGOTSKY, L. S. (1994). A formação social da mente. 5ª ed. São Paulo: Martins Fontes. APÊNDICE 1 Roteiro de entrevista semi-estruturada 1) História de Vida - Falar livremente sobre sua história de vida - Como chegou até a Toca de Assis - Noções da infância, adolescência e modo de vida 2) Contato com álcool - Como foi o primeiro contato com álcool - O que o levou/motivou a experimentar - Quais as pessoas significativas que ele recorda que faziam uso dessa substância. 3) Uso/abuso de álcool - Quais as situações de uso/abuso - Quais os tipos de bebida mais freqüente - Quais as implicações deste comportamento para a atividade laboral e a vida em geral - Quais as sensações e repercussões 4) Significado/Sentido do álcool - Compreensão acerca do uso/abuso de bebida alcoólica (o que é) - Relação entre álcool e drogas (lícitas ou ilícitas) - Auto-percepção acerca do uso/abuso de álcool APÊNDICE 2 TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO PARA PARTICIPAÇÃO EM PESQUISA Estamos realizando uma pesquisa intitulada “Produção de Sentido(S) de Álcool em ex-Moradores de Rua”, cujo objetivo é estudar quais os sentidos que os exmoradores de rua, da Fraternidade Toca de Assis, construíram em relação ao abuso de álcool no transcorrer de suas histórias de vida. Esta pesquisa trará contribuições importantes para a Psicologia Social. A sua participação será da seguinte forma: o pesquisador fará algumas perguntas através de uma entrevista que será gravada para melhor organizar as informações. É importante ressaltar que seu nome será mantido em sigilo. Com essas informações, gostaria de saber a sua aceitação em participar da pesquisa. É necessário esclarecer que: 1. a sua aceitação/autorização deverá ser de livre e espontânea vontade; 2. que você não ficará exposto a nenhum risco ou problema; 3. a identificação de todos os envolvidos será mantida em segredo; 4. que você poderá desistir de participar a qualquer momento, sem qualquer problema para você; 5. será permitido o acesso às informações sobre procedimentos relacionados à pesquisa ; 6. somente depois de ter entendido o que foi explicado, deverá assinar este documento. Em caso de dúvida, poderá falar com a responsável pela pesquisa, a Profa. Dra. Veriana de Fátima Rodrigues Colaço, Departamento de Psicologia, Av. Universidade, 2762, Benfica, CEP: 60020-180, fone: 40097728. O Comitê de Ética em Pesquisa da UFC encontra-se disponível para reclamações referentes à pesquisa pelo telefone (85) 40098338 Fortaleza, ___de_________de____. ______________________________ Assinatura do sujeito da pesquisa ______________________________ Profa. Dra. Veriana de Fátima Rodrigues Colaço Assinatura da responsável pela pesquisa ______________________________ Assinatura de quem obteve o termo de consentimento ANEXO 1 O Resto Do Mundo Gabriel Pensador Composição: Gabriel O Pensador Eu queria morar numa favela Eu queria morar numa favela Eu queria morar numa favela O meu sonho é morar numa favela Eu me chamo de excluido como alguém me chamou Mas pode me chamar do que quiser seu dotô Eu num tenho nome Eu num tenho identidade Eu num tenho nem certeza se eu sou gente de verdade Eu num tenho nada Mas gostaria de ter Aproveita seu dotô e dá um trocado pra eu comer... Eu gostaria de ter um pingo de orgulho Mas isso é impossivel pra quem come o entulho Misturado com os ratos e com as baratas E com o papel higiênico usado Nas latas de lixo Eu vivo como um bicho ou pior que isso Eu sou o resto O resto do mundo Eu sou mendigo um indigente um indigesto um vagabundo Eu sou... Eu num sou ninguém Eu tô com fome Tenho que me alimentar Eu posso num ter nome mas o estômago tá lá Por isso eu tenho que ser cara-de-pau Ou eu peço dinheiro ou fico aqui passando mal Tenho que me rebaixar a esse ponto porque a necessidade é maiordo que a moral Eu sou sujo eu sou feio eu sou anti-social Eu num posso aparecer na foto do cartão postal Porque pro rico e pro turista eu sou poluição Sei que sou um brasileiro Mas eu não sou cidadão Eu não tenho dignidade ou um teto pra morar E o meu banheiro é a rua E sem papel pra me limpar Honra? Não tenho Eu já nasci sem ela E o meu sonho é morar numa favela Eu queria morar numa favela Eu queria morar numa favela Eu queria morar numa favela O meu sonho é morar numa favela A minha vida é um pesadelo e eu não consigo acordar E eu não tenho perspectivas de sair do lugar A minha sina é suportar viver abaixo do chão E ser um resto solitário esquecido na multidão Eu sou o resto O resto do mundo Eu sou mendigo um indigente um indigesto um vagabundo Eu sou o resto do mundo Eu num sou ninguém Eu num sou nada Eu num sou gente Eu sou o resto do mundo u sou mendigo um indigente um indigesto um vagabundo Eu sou o resto Eu num sou ninguém Frustração É o resumo do meu ser Eu sou filho da miséria e o meu castigo é viver Eu vejo gente nascendo com a vida ganha e eu não tenho umachance Deus! Me diga por quê? Eu sei que a maioria do Brasil é pobre Mas eu num chego a ser pobre eu sou podre! Um fracassado Mas não fui eu que fracassei Porque eu num pude tentar Então que culpa eu terei Quando eu me revoltar quebrar queimar matar Não tenho nada a perder Meu dia vai chegar Será que vai chagar? Mas por enquanto Eu sou o resto O resto do mundo Eu sou mendigo um indigente um indigesto um vagabundo Eu sou o resto do mundo Eu num sou ninguém Eu num sou nada Eu num sou gente Eu sou o resto do mundo u sou mendigo um indigente um indigesto um vagabundo Eu sou o resto Eu num sou ninguém Eu num sou registrado Eu num sou batizado Eu num sou civilizado Eu num sou filho do Senhor Eu num sou computado Eu num sou consultado Eu num sou vacinado Contribuinte eu num sou Eu num sou comemorado Eu num sou considerado Eu num sou empregado Eu num sou consumidor Eu num sou amado Eu num sou respeitado Eu num sou perdoado E também sou pecador Eu num sou representado por ninguém Eu num sou apresentado pra ninguém Eu num sou convidado de ninguém E eu num posso ser visitado por ninguém Além da minha triste sobrevivência eu tento entender a razão daminha existência Por quê que eu nasci? Por quê tô aqui? Um penetra no inferno sem lugar pra fugir Vivo na solidão mas não tenho privacidade E não conheço a sensação de ter um lar de verdade Eu sei que eu não tenho ninguém pra dividir o barraco comigo Mas eu queria morar numa favela amigo Eu queria morar numa favela Eu queria morar numa favela Eu queria morar numa favela O meu sonho é morar numa favela. ANEXO 2 + 1 Dose Gabriel Pensador Composição: Pensador/frejat/rodrigo/guto/peninha/fernando/tiago Mais uma dose É claro que eu tô afim A noite nunca tem fim Por que que agente é assim? Aê! Garçom! Traz aqui pra mim Mais uma dose, "é claro que eu tô afim" Tin tin! Como diz o ditado: "A noite é uma criança", mas eu é que tô sempre mamado É mel na chupeta, pinga na chupeta, cerva na chupeta, vinho na chupeta Uísque na chupeta, mamãe eu quero mamar Dá a chupeta pro neném não chorar! Eu quero álcool! Pode encher a tarça Nem quero saber se é champanhe ou cachaça Passa pra cá! Passa o goró E deixa eu virar num gole só! ... Foi mal, pô Num tô legal Tô com muito sangue no meu álcool Daqui a pouco vou parar num hospital para tomar injeção de glicose E depois vou acabar num caixão com cirrose Mas por enquanto eu quero mais uma dose Mais uma dose É claro que eu tô afim A noite nunca tem fim Porquê que agente é assim? Quando eu tô triste eu bebo pra esquecer Quando eu tô feliz eu bebo pra comemorar Quando eu não tenho motivo pra beber Eu encho a cara de bebida até vomitar "Você pensa que cachaça é água, vacilão? Cachaça não é água não" Não! Nem me fale em água filtrada nem água mineral Que se eu bebo um troço desse eu passo mal Água pra mim só se for aguardente Até pra tomar banho ou escovar os dentes Sem bebida a vida não presta Se tem festa eu sou o chato e se tá chato eu sou a festa Eu num como ninguém, mas eu bebo bem Da número um a número dez, a número cem, a número mil!! "Eu sou da turma do funil!" Bebo até cair mas depois me levanto Abro mais uma e dou um gole pro santo A birita é sagrada: A minha religião A dieta equilibrada: É um copo em cada mão "Uma cervejinha pra abrir o apetite e mais um chopinho acompanhando a refeição Depois a caipirinha pra tomar de sobremesa e só um licorzinho prafazer a digestão E agora? Vamô embora?" - Num fala besteira! Garçom, a saideira! Mais uma dose É claro que eu tô afim A noite nunca tem fim Porque que agente é assim? Ai... Que ressaca! Minha cabeça tá doendo paca Eu não passo de um babaca Corpo podre, mente fraca, que psicose! Ontem entrei no tapa só por causa de uma dose Que onda errada! No fim do mês ainda tenho aquela conta pendurada lá no bar Vou ter que deixar a metade do salário Na olimpíada do copo eu sou o primeiro voluntário Comigo é páreo duro, eu engulo qualquer mistura Quanto eu tô duro serve até cachaça pura Loucura? Não. Doença, cara! Eu nem me lembro como ontem eu cheguei em casa Só sei que eu acordei com uma baranga do meu lado e lembrei que a minha mina já tinha me abandonado Ih! Que dia é hoje? Hoje é segunda! Ah, mas no trabalho eu já levei um pé na bunda E eu continuo me afogando nessa poça de álcool só que a poça tá ficando muito funda!