UNIVERSIDADE DO ALGARVE APONTAMENTOS DE BIOFÍSICA Curso de Radiologia - Escola Superior de Saúde de Faro 2006/2007 – 1º Semestre Docente: Carla Silva DEPARTAMENTO DE FÍSICA DA FACULDADE DE CIÊNCIAS E TECNOLOGIA INTRODUÇÃO A disciplina de Biofísica do curso de Radiologia tem como principal objectivo aplicar ao corpo humano algumas das noções já adquiridas na disciplina de Física Aplicada e abordar algumas novas matérias como a Termodinâmica, a Acústica e a Óptica na mesma perspectiva de compreensão do comportamento dos sistemas biológicos. A leitura destes apontamentos permitirá uma primeira abordagem aos temas discutidos nas aulas, abrindo perspectivas para explorações mais aprofundadas de cada um deles. I COMPLEMENTOS DE MECÂNICA O domínio da Mecânica foi o primeiro da Física a ser aplicado, com êxito, à compreensão do funcionamento dos sistemas vivos, revelando-se particularmente eficaz na descrição dos mecanismos do movimento. O desenvolvimento desta área tem tido particular interesse na recuperação de doentes com dificuldades motoras, no desempenho dos atletas e na construção de próteses e dispositivos de apoio à locomoção humana. 1. Corpos em equilíbrio Como já foi discutido em outras disciplinas, nomeadamente na de Física Aplicada, o estado de movimento de um corpo depende das forças que actuam sobre ele. É do conhecimento geral que, se a um corpo não está aplicada nenhuma força, este se mantém em repouso ou com um movimento rectilíneo e velocidade constante. No entanto, no nosso quotidiano, é impossível afirmar que um corpo não está sujeito a forças, uma vez que, basta que possua massa para que seja actuado pela força gravítica1. Nesta perspectiva, uma das condições para que um corpo esteja em equilíbrio é que a soma de todas as forças, Fi , aplicadas sobre ele, seja nula (equação 1). Realce-se que o somatório considerado representa uma soma de vectores, uma vez que a força é uma grandeza vectorial, ou seja, é caracterizada não apenas por um valor e uma unidade, mas também por uma direcção, um sentido e um ponto de aplicação. Fi 0 . equação 1 i Se a condição descrita pela equação 1 é necessária para que um corpo esteja em equilíbrio, não é menos verdade que não é suficiente. De facto, o ponto de aplicação das forças é um aspecto importante a ter em conta quando se estuda o equilíbrio dos corpos. Se atendermos a que o peso de um corpo tem o seu ponto de aplicação no seu centro de massa, sabemos da nossa experiência diária que este tem que se encontrar alinhado com a base de sustentação do corpo, para que o corpo se mantenha em equilíbrio. Enquanto que os corpos na situação das figuras 1 a) e b) se encontram estáveis (o seu centro de massa encontra-se sobre a base de sustentação), um corpo na situação da figura 1 c) encontra-se instável (uma vez que desenhando uma linha vertical que passe pelo seu centro de massa, esta se encontra fora da base de sustentação). 1 Embora em rigor a força gravítica e o peso de um objecto não sejam exactamente a mesma força (na verdade o peso é a resultante da soma da força gravítica com uma força de inércia que corresponde ao facto de todos os corpos à superfície da Terra não se encontrarem num referencial de inércia), neste texto os dois conceitos irão ser utilizados com o mesmo significado, desprezando-se desse modo a força de inércia aplicada nos corpos devido à rotação da Terra. 1 Figura 1 - Os objectos a) e b) encontram-se em equilíbrio, embora o objecto b) abandone o estado de repouso mais facilmente, uma vez que a sua base de sustentação é menor do que a do objecto a). O objecto c) encontra-se em desequilíbrio, visto que a vertical que passa pelo seu centro de massa cruza o solo num ponto fora da sua base de sustentação. (Adap. de P. Davidovits, 2001). A grandeza que permite quantificar a estabilidade de um corpo no que respeita ao ponto de aplicação das forças a que este está sujeito, ou, dito de uma outra forma, fornece a maior ou menor tendência para que essas forças lhe confiram um movimento de rotação, é o momento da força. O momento da força é também uma grandeza vectorial e o seu módulo é dado por: L F .d .sen , equação 2 onde: F é o valor da força, d é a distância do ponto de aplicação da força ao ponto de rotação e é o ângulo formado pela força e pelo vector que liga o ponto de aplicação da mesma ao ponto de rotação. Nos diagramas da figura 2 é possível compreender de que forma é que os momentos das forças que estão aplicadas ao corpo (o seu peso, representado pela letra P e a reacção do plano sobre o corpo, representado pela letra R), tendem a impor-lhe um movimento de rotação. Figura 2 - Representação do peso e da reacção do plano sobre o corpo em duas situações distintas: o corpo a) tende a rodar no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, enquanto que o corpo b) tende a rodar no sentido dos ponteiros do relógio. (Adap. de P. Davidovits, 2001). Deste modo, para que um corpo se mantenha em equilíbrio, deve acrescentar-se à equação 1, a condição de, também a soma dos momentos das forças aplicadas ao corpo ser nula (equação 3): L i i 0. equação 3 2 1.1 Equilíbrio do corpo humano Sabe-se que, em média, o centro de massa de um indivíduo se encontra localizado a uma altura de 56% da sua altura máxima contando a partir das solas dos pés. Em pé o centro de massa encontra-se, pois, sob a base de sustentação (ver figura 3 a)). Aliás, compreende-se que a estabilidade de um indivíduo aumente quando afasta as pernas, uma vez que, desta forma, está a aumentar a sua base de sustentação. No entanto, quando os indivíduos se encontram em marcha, a posição do seu centro de massa vai-se alterando, sendo necessário mantê-la no alinhamento dos pés, caso contrário o indivíduo desequilibra-se e cai. O mesmo acontecendo quando outras forças, para além do peso, se encontram aplicadas nos corpos, como o ilustrado nas figuras 3 b) e 3 c). Figura 3 - a) Indivíduo em repouso. O centro de massa encontra-se sobre a sua base de sustentação. b) Indivíduo que transporta uma mala com a mão esquerda. Neste caso, o centro de massa do sistema homem + mala tende a desviar-se para o lado esquerdo, pelo que o indivíduo inclina o corpo ligeiramente para a direita, para que o centro de massa do conjunto continue sobre a base de sustentação. c) Indivíduo sobre o qual se aplica uma força lateral. A força aplicada tende a desequilibrar o indivíduo que reage através de forças internas que se opõem à força aplicada de modo a manter o seu centro de massa sobre a base de sustentação. (Adap. de P. Davidovits, 2001). Em situações em que outras forças se encontram aplicadas ao corpo, os indivíduos tendem a mover-se de forma a reposicionarem o seu centro de massa, como o ilustrado nas alíneas b) e c) da figura 3, evitando a queda. 2. O mecanismo das alavancas Uma alavanca é uma máquina simples formada por uma barra rígida que pode rodar em torno de um ponto fixo, ao qual se chama fulcro. Estas máquinas podem ser utilizadas tanto para içar volumes de um modo bastante eficiente, como para transferir um determinado movimento de um ponto para o outro. Se nos concentrarmos na tarefa de içar um determinado peso, é possível dividir as alavancas em três tipos: classe 1 (aquela em que o fulcro se encontra entre o peso a levantar e a força exercida para o fazer – figura 4 a)), classe 2 (aquela em que o peso se encontra entre o fulcro e a força – figura 4 b)) e a classe 3 (aquela em que a força se encontra entre o fulcro e o peso – figura 4 c)). 3 Figura 4 - Representação das três classes de alavancas, classificadas segundo a localização relativa dos pontos de aplicação das forças envolvidas. (Adap. de P. Davidovits, 2001). Considerando-se que P representa o peso que se pretende içar com o recurso a uma alavanca, que d1 é a distância entre o ponto em que esse peso está aplicado e o fulcro e que d2 é a distância entre o ponto de aplicação da força exterior F e o fulcro, obtém-se a seguinte relação entre as variáveis: F Pd1 . d2 equação 4 Se definirmos amplificação mecânica, m, como o quociente entre a amplitude do peso e a amplitude da força exterior que exercemos sobre a alavanca com o objectivo de içar o peso: m P , F equação 5 então, combinando esta definição com a equação 4, facilmente se verifica que: m d2 , d1 o que implica que, para as alavancas da classe 1 a amplificação mecânica seja maior do que 1, ou seja, para içar um determinado peso é necessário aplicar uma força menor do que esse mesmo peso; para as alavancas da classe 2 a amplificação mecânica possa ser maior ou menor do que 1, dependendo de d2 ser maior ou menor do que d1; e, por fim, nas alavancas da classe 3 a amplificação mecânica seja sempre menor do que 1, o que exige que a força aplicada seja maior do que o peso que se pretende içar. Um ponto interessante para a discussão sobre a utilização de alavancas nos sistemas biológicos é o reconhecimento de que a grande maioria dos membros dos animais pode ser representado por alavancas da classe 3. O que coloca a questão de qual a vantagem de utilizar esta classe, uma vez que, do ponto de vista mecânico, não parece ser vantajosa. Na verdade, se atendermos à figura 5, onde, para além da representação de uma alavanca da classe 1, se encontram indicadas as grandezas: L1 e L2, como sendo as distâncias percorridas pelos pontos de aplicação do peso e da força, respectivamente, e v1 e v2 como sendo as velocidades desses mesmos pontos quando está a ocorrer o movimento, obtemos, através de considerações geométricas: 4 d1 L1 . d 2 L2 Além disso, atendendo à definição de velocidade, observa-se também que: d 1 v1 . d 2 v2 Figura 5 - Relação entre as grandezas L1, L2, v1 e v2 num alavanca de classe 3. (Adap. de P. Davidovits, 2001). Destas últimas relações facilmente se conclui que a relação das amplitudes dos movimentos e a relação das velocidades é inversamente proporcional à amplificação mecânica. O que implica que, em situações para as quais d1 seja maior do que d2 (como é o caso das alavancas de classe 3), a amplitude do movimento do ponto de aplicação do peso é maior do que a do ponto de aplicação da força e, além disso, o movimento nesse ponto é mais rápido, o que pode significar uma enorme vantagem em determinadas situações. 2.1 O braço como exemplo de alavanca A título de exemplo discuta-se a aplicação dos conceitos introduzidos anteriormente ao que se passa quando se eleva um objecto numa mão, através da acção dos músculos do braço. Como se poderá observar da figura 6 esta situação é representável por uma alavanca da classe 3. Figura 6 - Esquemas do que se passa em termos de forças quando um indivíduo iça um peso com umas das mãos, como representado em a). (Adap. de P. Davidovits, 2001). 5 Na figura 6 b) poder-se-á observar as variáveis importantes na discussão deste sistema. Nela encontram-se representados a distância da articulação óssea (que funciona como fulcro) ao ponto de ligação com o músculo (onde está aplicada a força muscular), o comprimento total do antebraço (que dá informação sobre o ponto de aplicação do peso do objecto) e do braço que, conjuntamente com o conhecimento do ângulo entre o braço e o antebraço, permitem a determinação do ângulo θ, representado na figura 6 c). De facto, por considerações trignométricasi é possível mostrar que o ângulo θ tem, nas condições descritas na figura 6, o valor 72.7º. Assim, as incógnitas do problema são: a força realizada pelo músculo, Fm , a força aplicada na articulação, Fa e o ângulo formado pela direcção da força na articulação e o antebraço, . Apliquem-se, então, os conhecimentos apresentados anteriormente, à situação em que o corpo içado tem um peso designado genericamente por P. Antes de mais, a soma das forças terá que ser igual a zero: F i i 0 Fm Fa P 0 . Ou, considerando, separadamente, as componentes segundo x e segundo y: Fm cos Fa cos . Fm sen Fa sen P equação 6 Para além destas equações, é necessário acrescentar a expressão que resulta da soma dos momentos das forças ter, também, que ser nula (equação 3). Atendendo a que, em relação ao fulcro, é possível considerar duas forças com momentos opostos ( Fm , que seria responsável por uma rotação segundo o sentido contrário ao dos ponteiros do relógio e P , que seria responsável por uma rotação no sentido dos ponteiros do relógio) é possível escrever, para que haja equilíbrio: Fm bsen Pdsen 90º Fm 40 P Fm 10.5 P 4 sen 72.6º Pd bsen . As distâncias b e d são as representadas na figura 6 c). Através dos cálculos fica, então, claro que a força muscular realizada pelo bíceps necessária para levantar um objecto na mão é cerca de 10 vezes superior ao peso desse objecto. Retomando as equações 6, podemos, agora, calcular a força aplicada na articulação e a direcção dessa força: 10.5P cos 72.6 º Fa cos 10.5Psen 72.6º Fa sen P 3.14 P Fa cos ... 9.02 P Fa sen Fa 9.6 P . 70.0º Repare-se, ainda, que nestes cálculos não foi tido em atenção o peso do braço, que, obviamente, em análises mais detalhadas, terá que ser considerado. 6 2.2 As costas como exemplo de alavanca Tal como o movimento do antebraço pode ser analisado aproximando-o ao de uma alavanca, também muitos outros movimentos apoiados nos músculos esqueléticos aceitam a mesma abordagem. Nesta secção considerar-se-á o que se passa em termos de forças aplicadas quando um indivíduo se inclina, como mostra a figura 7. Figura 7 - Esquema do que se passa em termos de forças quando um indivíduo se inclina. (Adap. de P. Davidovits, 2001). Neste caso, considera-se que o fulcro da alavanca se encontra localizado na quinta vértebra lombar. As forças aplicadas são: P1 , peso do tronco que, embora esteja uniformemente distribuído pelas costas, se pode considerar aplicado no centro de massa das mesmas (ponto E), ou seja, aproximadamente a meio; P2 , o peso da cabeça e dos membros anteriores, que está fundamentalmente aplicado no extremo das costas (ponto B); Fm , a força exercida pelo músculo erector espinal, que se encontra ligado à coluna vertebral a cerca de dois terços a partir da região mais posterior (representado pelo ponto D) e F f , a força aplicada sobre o fulcro (ponto A). A partir de medidas médias é possível assumir que, para uma inclinação de 30º da coluna vertebral (ver figura 7 b) ) o ângulo entre o músculo e a coluna vertebral é de 12º. Além disso, para um homem com massa de 70 kg o peso do tronco é tipicamente 320 N e o peso da cabeça e dos braços é de aproximadamente 160 N. Similarmente ao exemplo anterior, comece-se por aplicar a expressão do equilíbrio das forças (equação 1), já subdividida nas suas componentes segundo x e segundo y. Fm sen72º F f cos P1 P2 Fm cos 72º F f sen . equação 7 7 Em seguida, aplique-se a expressão referente aos momentos das forças, considerando d o comprimento das costas: d 2d 1 2 sen60º Fm sen12 º P1sen60º P2 sen60º Fm sen12º 2 3 2 3 . 1 2 160 sen60º 320 sen60º Fm sen12º 277 0.14 Fm Fm 1998N 2 3 P1 dsen60º P2 Retomando as equações 6 e substituindo o valor da força muscular, obtém-se o valor das restantes variáveis: 1998sen72º F f cos 320 160 1998 cos 72º F f sen 1900 F f cos , 1097 F f sen dividindo uma equação por outra é possível encontrar o ângulo : tg 1097 30.0º . 1900 e, por fim, substituindo numa das equações, encontra-se o valor da força exercida no fulcro: F f 2193N . Note-se que estes valores são obtidos apenas quando o indivíduo permanece na posição indicada. Valores superiores para as forças seriam obtidos se o indivíduo estivesse a segurar num peso suplementar. 3. Elasticidade e Compressão Uma parte significativa da Mecânica aplicada ao corpo humano diz respeito ao efeito que as forças têm no movimento do corpo. No entanto, a aplicação de forças não provoca apenas movimentos, mas pode ser responsável por deformações nos tecidos: esticando-os, comprimindo-os, dobrando-os ou torcendo-os. Esta área tem particular interesse uma vez que, se até determinados valores das forças aplicadas, o corpo tem capacidade de regressar ao estado inicial (a esta propriedade dá-se o nome de elasticidade), noutras ocasiões, para valores superiores das forças, a deformação provocada no corpo não é recuperável ou, em casos limites, pode haver ruptura dos tecidos. 3.1 Distensão e compressão de corpos por acção de uma força Como já se referiu, os corpos possuem a propriedade de, quando sujeitos a forças suficientemente pequenas, sofrerem deformações temporárias, regressando à situação inicial logo que a força cessa. Nesta secção serão abordados alguns conceitos úteis na descrição deste tipo de fenómeno e também o comportamento dos tecidos quando sujeitos a forças de maior intensidade que causam danos permanentes e/ou ruptura. Por simplicidade, iremos apenas referir as deformações associadas à distensão e compressão de corpos, deixando de parte a análise das deformações por dobragem ou torção. 8 Comece-se por definir pressão (que poderá ser de compressão ou de distensão, consoante tenda a diminuir ou aumentar as dimensões do corpo em que está aplicada). A pressão, P, a que um corpo fica sujeito é definida como a força aplicada a esse corpo, F, por unidade de área da secção transversal, A (ver figura 8): P F . A equação 8 Figura 8 - a) b) Deformação provocada num corpo (representado a cinzento) por acção de forças: a) de distensão e b) de compressão. Pode ainda definir-se deformação de um corpo como a razão entre a variação do seu comprimento, Δl, (que, note-se, pode ser no sentido de aumentar ou diminuir a sua dimensão) e o seu comprimento, l: l . l equação 9 Um dado importante no estudo dos efeitos mecânicos provocados num corpo sujeito a pressões quer de compressão, quer de distensão, é a relação existente entre a pressão e a deformação, que é geralmente encontrada experimentalmente e é característica do material em estudo. Na figura 9 a) encontra-se esquematizado esse comportamento num gráfico que representa a pressão em função da deformação, para um material dúctil2. Nesse gráfico, são estabelecidos quatro pontos: até ao ponto A a deformação varia linearmente com a pressão exercida; entre o ponto A e o ponto B o material, embora sofra uma deformação que ainda é reversível, esta deixa de ser linearmente proporcional à pressão; entre o ponto B e o ponto C a deformação cresce muito rapidamente com a pressão e as deformações passam a ser permanentes, embora, geralmente, não degradem de forma significativa o desempenho do material; entre o ponto C e o ponto D, as deformações são já muito significativas e no ponto D (à ordenada do ponto D dá-se o nome de pressão de ruptura) ocorre ruptura do material. Enquanto que nos materiais dúcteis os pontos C e D se encontram afastados, nos materiais quebradiços estes dois pontos encontram-se muito juntos, como é, por exemplo, o tecido ósseo (figura 9 b)). Deve ainda chamar-se a atenção para a existência de fenómenos de fatiga, ou seja, se o ponto C for frequentemente atingido é observável um desvio deste ponto para a esquerda, com o consequente desvio do ponto de ruptura, pelo que o material quebrará mais facilmente, mesmo quando sujeito a pressões de valores pouco elevados. 2 Um material diz-se dúctil quando é maleável, ou seja, quando é facilmente transformado em fio. 9 a) b) Figura 9 - a) Comportamento de um metal dúctil - gráfico da pressão em função da deformação: até A a deformação varia linearmente com a pressão aplicada, entre A e B a deformação ainda é reversível, entre B e C as deformações passam a ser permanentes e no ponto D ocorre ruptura do material. Em b) encontra-se representado um gráfico semelhante, mas referente ao comportamento de tecido ósseo. É de notar que sendo o osso um material quebradiço o ponto D encontra-se praticamente sobreposto ao ponto C. Além disso, atendendo a que os pontos A, B e C correspondem a compressões de igual intensidade às distensões representadas por A, B e C, verifica-se que o osso se comporta de forma muito distinta quando as forças a que é sujeito são de compressão ou de distensão. (Adapt. de Kane e Sternheim, 1988). Pelo facto de a deformação entre a origem dos eixos e o ponto B ser apenas temporária, considera-se que o material tem, nesta gama, um comportamento elástico. Além disso, a análise dos gráficos da figura 9 sugere que até ao ponto A o corpo possa ser caracterizado pelo declive da recta que representa a razão entre a tensão e a deformação, e ao qual se dá o nome de módulo de Young, Y: Y P . equação 10 É de notar também que, para cada material, existem dois módulos de Young, um respeitante às pressões de compressão, outro às pressões de distensão. 3.2 Elasticidade dos tecidos biológicos De entre os tecidos biológicos, podemos distinguir os tecidos ósseos e os tecidos moles, os quais têm, como veremos, comportamentos muito distintos no que respeita à sua elasticidade. Ao analisar a composição dos tecidos ósseos verifica-se que estes são maioritariamente constituídos por minerais (70%) e por proteínas (20%), sendo estes dois componentes os principais responsáveis pelas propriedades elásticas dos ossos. É interessante observar que estes dois materiais têm comportamentos muito distintos quando sujeitos a forças de distensão e de compressão. Observe-se o gráfico da figura 10 e a tabela 1, onde está apresentada a dependência da deformação com as pressões de compressão e de distensão, os módulos de Young e as pressões de ruptura dos ossos e das suas componentes mineral e proteica. 10 Módulo de Young (1010 N m-2) Compressão osso compacto componente mineral componente proteica 1.02 0.64 <0.001 Distensão osso compacto componente mineral componente proteica 2.24 1.66 0.02 Tabela 1 - Módulo de Young do tecido ósseo e das suas componentes em separado, quer para forças de compressão, quer de distensão. (Adapt. J.B. Marion e W.F. Hornyak, 1985). tensão Osso compacto Componente mineral Componente proteica deformação Figura 10 - Gráfico qualitativo sobre a dependência da deformação sofrida por tecido ósseo compacto e pelas suas componentes em separado. O lado direito do gráfico corresponde a tensões de distensão, enquanto que no lado esquerdo está representado o comportamento associado a tensões de compressão. (Adapt. J.B. Marion e W.F. Hornyak, 1985). Comece-se por analisar o que se passa ao nível da compressão. Enquanto que a componente proteica praticamente não oferece resistência a forças de compressão (o seu reduzido módulo de Young significa que mesmo para pressões muito pequenas a deformação é muito elevada), a componente mineral oferece maior resistência. Além disso, enquanto que a componente proteica sofre deformações permanentes quando sujeita a pressões muito pequenas, a componente mineral apresenta uma pressão de ruptura mais elevada. O mesmo tipo de comportamento se observa no que respeita a pressões de distensão, sendo, no entanto, notória uma maior resistência à deformação tanto na componente proteica, como na mineral, quando comparada com a resistência oferecida às pressões de compressão. Curioso é verificar-se que as propriedades do osso no que se refere à resistência a forças de compressão e de distensão, vêm notoriamente reforçadas, quando as comparamos com as das suas componentes maioritárias, como se pode comprovar pela análise quer dos seus módulos de Young, quer pelas suas pressões de ruptura. 11 Quanto aos tecidos moles, facilmente se prevê um comportamento muito distinto do observado nos ossos no que concerne à sua elasticidade. Na verdade, na constituição dos tecidos moles encontram-se moléculas extremamente extensíveis, às quais denominamos elastómeros. Estas moléculas são caracterizadas por estabelecerem ligações cruzadas que permitem uma conformação mais compacta quando sujeitas a forças de compressão (ver figura 11 a) ) ou apresentarem-se quase paralelas umas às outras quando lhes são aplicadas forças de distensão (ver figura 11 b) ). Deste modo, os tecidos moles apresentam módulos de Young que são 4 a 5 ordens de grandeza menores do que os dos ossos3 e, enquanto os ossos apenas suportam deformações na ordem de 1% do seu comprimento, os tecidos moles apresentam deformações que podem ser duas a três vezes as suas dimensões, sem atingir o ponto de ruptura. Figura 11 - Representação das moléculas constituintes dos tecidos moles responsáveis pela sua elastecidade: a) quando se encontram comprimidas, b) quando se encontram distendidas. (Adapt. de J.B. Marion e W.F. Hornyak, 1985). Forças impulsivas e ruptura dos tecidos ósseos Como vimos no capítulo anterior, os tecidos biológicos podem ser caracterizados pela sua elasticidade e pela sua tensão de ruptura que depende, simultaneamente, da força e da área sobre a qual a mesma é aplicada. Nesta secção ir-se-á discutir os efeitos de forças que são aplicadas em períodos muito curtos de tempo e como estes se relacionam com a tensão de ruptura dos tecidos ósseos. Facilmente se aceita que, durante uma colisão, os corpos ficam sujeitos a forças geralmente intensas de muito pequena duração - forças impulsivas. Embora o valor da força em cada instante seja difícil de determinar, facilmente se relaciona o valor médio da força com a variação da quantidade de movimento, através do teorema do impulso4: 3.3 I p Fmed t mv f mvi Fmed mv f mvi t , equação 11 onde: I - impulso da força aplicada ao corpo; Δp - variação do momento linear do corpo; Fmed - força média aplicada ao corpo; Δt - período durante o qual a força está a ser aplicada; m - massa do corpo; vf e vi - velocidades inicial e final do corpo. 3 Os Módulos de Young dos elastómeros são tipicamente na gama entre 105 a 106 N m-2. Repare-se que, embora a abordagem aqui seja unidireccional, ou seja, assume-se que o movimento é realizado apenas numa direcção, esta expressão tem, no seu formato mais geral, carácter vectorial, visto que as grandezas, impulso, momento linear, força e velocidade são grandezas vectoriais. 4 12 Analisando a expressão anterior, facilmente se verifica que, para a mesma variação de quantidade de movimento, a força média aplicada é muito dependente do intervalo de tempo. Por este motivo, os efeitos de uma queda são tão distintos quando a recepção ao solo é feita sobre um material duro (que reduz o intervalo de tempo) ou num material mole (onde o intervalo de tempo de aplicação da força é consideravelmente aumentado). A mesma justificação é válida quando se trata de compreender que os efeitos de uma queda em que o indivíduo flicta as pernas, ao contactar o chão, sejam muito menores do que quando a queda ocorre sobre os membros esticados. A chegada ao chão demora, no primeiro caso, significativamente mais. Para ilustrar estes conceitos analise-se qual a altura máxima a que um indivíduo se pode atirar sem que haja ruptura dos ossos das pernas. Para tanto, será, obviamente, necessário fazer-se algumas aproximações. O tempo estimado de colisão, Δt, de uma queda num chão de cimento, quando o indivíduo cai com as pernas juntas não flectidas é de 10-2 s. Além disso, como já foi referido na secção anterior, a pressão máxima de ruptura dos tecidos ósseos, P, é de 108 N m-2. Se assumirmos ainda que a queda é totalmente suportada nos calcanhares, então a área, A, sobre a qual a força é aplicada, é de aproximadamente 2 cm2. E, por fim, considera-se a massa do indivíduo de 70 kg. Comece-se por recordar que a velocidade, v, de chegada ao solo a partir de uma altura h é dada pela expressão: v 2 gh , equação 12 onde g é a aceleração da gravidade. Como, após a queda, a velocidade final do corpo é nula, a variação do seu momento linear é: p mv m 2 gh , e, portanto: Fmed 2 m 2 gh p PAt 1 . PA h t t m 2g Substituindo valores: 2 108 2 10 4 10 2 1 h 0.416 m 41.6 cm 70 2 9.8 É claro que este valor poderá ser drasticamente alterado se as condições forem outras, pelo que este valor tem apenas carácter indicativo. O tempo da colisão, por exemplo, poderá ser aumentado para 8 vezes se o indivíduo flectir as pernas, o que alterará significativamente o resultado. E mesmo a área de impacto é bastante variável, dependendo do chão e do tipo de queda. 13 i Num triângulo qualquer de lados a, b e c e ângulos α, β e γ, como mostra a figura: c α b β a γ Cumprem-se as relações, conhecidas pela Lei dos Cossenos: a 2 b 2 c 2 2bc cos b 2 c 2 a 2 2ca cos c 2 b 2 a 2 2ba cos Seja a, por exemplo, o comprimento do braço (30 cm), b a distância entre a articulação e o ponto de contacto do músculo (4 cm) e γ o ângulo entre o braço e o antebraço, usando a 3ª relação, obtém-se, c, o comprimento do músculo na posição indicada: c b 2 a 2 2ba cos 4 2 30 2 2 4 30 cos 100º 30.95 cm . Em seguida, com base neste resultado, é possível encontrar o ângulo α, que corresponde ao ângulo θ da figura 6, ou seja, o ângulo formado pelo antebraço e o músculo, através da 1ª relação: b2 c 2 a2 b2 c 2 a2 a b c 2bc cos cos arcos 2bc 2bc 2 2 2 4 2 30.952 30 2 arcos 2 4 30.95 72.7º . 14