BRÁULIO SILVA CHAVES O INSTITUTO EZEQUIEL DIAS E A CONSTRUÇÃO DA CIÊNCIA EM UM “HORIZONTE” DA MODERNIDADE (1907-1936) Dissertação de Mestrado apresentada junto ao Programa de Pós-Graduação em História, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal de Minas Gerais. Linha de Pesquisa: Ciência e Cultura na História. Orientadora: Profa. Dra. Betânia Gonçalves Figueiredo Belo Horizonte 2007 2 BRÁULIO SILVA CHAVES O INSTITUTO EZEQUIEL DIAS E A CONSTRUÇÃO DA CIÊNCIA EM UM “HORIZONTE” DA MODERNIDADE (1907-1936) Dissertação de Mestrado apresentada junto ao Programa de Pós-Graduação em História, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal de Minas Gerais. Linha de Pesquisa: Ciência e Cultura na História. BANCA EXAMINADORA: ____________________________________________________ Orientadora: Profa. Dra. Betânia Gonçalves Figueiredo – UFMG ____________________________________________________ Prof. Dr. Gilberto Hochman – COC/FIOCRUZ ____________________________________________________ Profa. Dra. Rita de Cássia Marques – UFMG Outubro de 2007. 3 Agradecimentos É chegado o momento final de um trabalho e, com certeza, as páginas que aqui se seguem dizem do nosso percurso acadêmico durante algum tempo, mas pouco falam dos caminhos tortuosos até chegar aqui. Mas, se o caminho é árduo, não nos faltam momentos e pessoas que foram importantes em torná-lo menos complicado de ser vencido, a cada dia de pesquisa e intenso trabalho. Começo por agradecer à Profa. Betânia Gonçalves Figueiredo, orientadora e pessoa que acreditou no meu trabalho. Sua leitura e sua observação foram-me fundamentais. Ela soube deixar-me voar até onde fosse producente, mas teve a sensibilidade de nos instantes necessários enraizar meu trabalho pelos enlaces de uma História da Ciência que nos fornece inúmeras alternativas, embora precisemos de um olhar sensível que nos aponte os melhores caminhos, diante dos inúmeros possíveis e, muitas vezes, perigosos. Agradeço também aos professores Anny Jackeline Torres Silveira e Bernardo Jefferson de Oliveira, membros da banca de qualificação, que forneceram uma leitura importante e contribuições vitais para o andamento da pesquisa. À Profa. Rita de Cássia Marques, figura importante para qualquer pesquisador da História das Ciências pelas terras de Minas. Aos colegas da Pós-Graduação em História da UFMG: Silvia, com seus comentários edificantes em nossas conversas; Ana Carolina, com quem tive o prazer de compartilhar inúmeras discussões teóricas e empíricas na história das ciências da saúde, além do prazer em ministrar com ela uma disciplina na graduação; Valéria, a amiga e 4 ouvinte ocular dos momentos mais difíceis; Huener, o amigo prestativo com quem pude contar em diversos instantes de aflição teórica e prática. Ao grupo Scientia e ao Progama de Pós-Graduação em História da UFMG, com meu agradecimento especial aos professores Regina Horta Duarte, com quem cursei a disciplina Ciência e Sociedade na Primeira República, e ao Professor Mauro Lúcio Leitão Condé, com quem cursei a disciplina História e Historiografia das Ciências. À funcionária Norma, Secretária da Pós-Graduação em História da UFMG, pela forma sempre gentil e pela presteza nas várias vezes em que solicitei os seus serviços. Aos alunos e professores da Escola Estadual Nossa Senhora Aparecida, onde lecionei e pude aprender muitas lições sobre a vida. Boa parte desse trabalho foi feita paralelamente ao de professor. A experiência vivenciada foi, e continua a ser, das mais desafiadoras, não apenas por conta de todos os problemas por que passa a educação em nosso país, mas também pela rotina diária de uma escola: o exercício constante de tolerância e de superação de mim mesmo como educador. Meus alunos e colegas de profissão foram vitais para que eu jamais perdesse de vista meu papel na produção e difusão do conhecimento, em um contexto de desigualdades, como o brasileiro. À Nayara, amiga e ouvinte das satisfações e agruras de ser professor. À Cássia, amiga fiel e constante, pela tarefa difícil que foi o seu apoio incondicional em todos os momentos; a capacidade de tornar a convivência em um aprendizado é para poucos. A todos que estiveram envolvidos de alguma forma neste trabalho, o meu obrigado. 5 Resumo O trabalho analisa a história do Instituto Ezequiel Dias, fundado em 1907, até a sua estadualização, em 1936. Tal momento foi fundamental para que se pudesse pensar o processo regional de aceitação do paradigma microbiológico em Belo Horizonte/Minas Gerais. Através do percurso histórico da instituição foi possível verificar o processo de composição do campo médico na recente capital de Minas. A trajetória do Instituto também representou uma constante luta dos médicos em tecer suas redes e conseguir credibilidade junto a amplos setores sociais, para que assim pudessem se tornar sujeitos privilegiados nos assuntos de saúde na capital e no Estado. A história do Instituto Ezequiel Dias envolveu-se na tessitura desta rede complexa e extensa de homens de ciência comprometidos com a legitimação de seu ofício, do campo do qual faziam parte e, principalmente, da sua Instituição. Nosso estudo discute a estratégia desses médicos em concentrar sua representação pública nas atividades ligadas ao serviço antipeçonhento. Sugere-se que essa foi uma escolha histórica e cultural, pois tais médicos perceberam a relevância dessa questão de saúde relativa a amplos setores, tendo em vista os grandes índices de acidentes com cobras e escorpiões. O governo Estadual, os fazendeiros, como representantes de setores econômicos decisivos, a própria população em geral, atingida pelos temíveis peçonhentos, na capital e no interior, todos podiam tornar-se interessados no assunto pelos serviços do Instituto. Mas esta não teria sido a única estratégia desenvolvida. Como forma de dotá-los de credibilidade científica ainda maior e, por conseqüência, a própria instituição em que se encontravam, tais médicos optaram, de uma forma bastante peculiar, por inserir outras discussões nas atividades do serviço antipeçonhento. Atrás de cobras e escorpiões, foram feitas inúmeras viagens pelo interior de Minas, as quais se relacionavam a um projeto no interior da Primeira República, que reivindicava a inclusão dos territórios escondidos, afastados e abandonados no progresso civilizatório através da ciência. Os médicos se inseriam, através de suas atividades, numa discussão que pretendia um projeto de construção de uma nação que deveria ser saneada para sua própria efetividade. Paralelamente, ligaram-se, também, a outro processo regional que pretendia o progresso econômico de Minas Gerais. Tais questões possibilitaram a percepção de que cobras, escorpiões e micróbios foram levados ao laboratório para além de dotar o Instituto Ezequiel Dias de credibilidade científica, construir a nação brasileira saneada e efetivar o projeto de desenvolvimento econômico de Minas Gerais. Palavras-chave: História das Ciências; Instituições Médico-científicas; Belo Horizonte; Minas Gerais. 6 Abstract The present work analyses the history of “Instituto Ezequiel Dias”, created in 1907, until its being transferred to state administration, in 1936. Such moment was very important to think about the regional process of microbiology paradigm acceptation in Belo Horizonte/Minas Gerais. Through the historical trajectory of that Institute it was possible to verify the composition of the medical field in the new capital of Minas. The Institute’s trajectory also represented a continuous medical struggle to establish its network and to reach credibility towards broader social sectors, so that physicians could make themselves privileged actors in charge of health issues in the capital as well as the whole state. The history of Instituto Ezequiel Dias was part of the complex and wide network of men of science committed to professional legislation, to the medical field they were part of and, mainly, to their Institute. Our study discusses the strategy of these physicians to concentrate their public representation in activities related to anti-animal poisoning. It is suggested that this was a historical and cultural choice, because such physicians were aware of the relevance of this health issue to wide social sectors, being aware of higher rates of accidents with snakes and scorpions. State government, farmers as representatives of decisive economical sectors, population in general, both from the capital and the countryside, who were affected by the dreadful poisoning animals, all of them might be made interested in the services of the Institute. However, that was not the only strategy developed. As a way of endowing themselves and, as a result, their own Institute with even greater credibility, such physicians, peculiarly, decided to insert others issues in the activities of anti-animal poisoning service. Several expeditions were made throughout Minas in search of snakes and scorpions, which was linked to the greater “Primeira República” project in which the inclusion of some hidden, distant and abandoned lands were demanded to be included into the civilizing progress by means of science. Through their activities, the physicians were included in a discussion that planned the building of a nation that should be sanitized to be effective. At the same time, they were also connected to other regional process that aimed economical progress of Minas Gerais. Such questions permitted perceiving that snakes, scorpions and microbes were took to the laboratory in order to built a Brazilian nation sanitized and to carry out the economical project of Minas Gerais, beyond to give to the Institute Ezequiel Dias scientific credibility. Key-words: history of science, medical-scientific institutions, Belo Horizonte; Minas Gerais. 7 Sumário Introdução Capítulo 1 – Enfrentamentos teóricos na história das instituições médico-científicas I – Um panorama historiográfico II – A contribuição de Fleck e Latour para a derrubada dos muros Institucionais Capítulo II – Belo Horizonte: Um espaço para a ciência I – As instituições científicas no contexto das transformações da Microbiologia II – A saúde e a cidade moderna III – Ezequiel Dias e a fundação do Instituto V – Percurso histórico do Instituto Ezequiel Dias V – A criação do Posto Antiofídico em 1918 VI – O Instituto Ezequiel Dias e o campo médico VII – Octavio Magalhães na direção do Instituto VII . 1 – Dinâmica e funcionamento do Instituto na gestão de Octavio Magalhães: a inserção na saúde pública VIII – O processo de estadualização Capítulo 3 – Escorpiões, cobras e micróbios: os híbridos e as redes científicas do Instituto Ezequiel Dias I – A aliança entre o Instituto Ezequiel Dias e as “classes conservadoras”: a ciência e o projeto de substância econômica para Minas Gerais I. 1 – A Sociedade Mineira de Agricultura: mais um ponto de afluxo de uma grande rede II – As Bandeiras da Ciência: nação e saúde na atuação do serviço antipeçonhento do Instituto Ezequiel Dias II.1 – O Brasil desvelado pelos sertões II. 2 – Da Rua da Bahia aos rincões de Minas Conclusão Fontes Bibliografia 8 16 18 24 41 43 50 56 61 67 75 88 97 101 108 115 121 138 141 146 160 163 168 8 Introdução Belo Horizonte nasce das linhas geometricamente traçadas por Aarão Reis e sua comissão construtora. Germinava a idéia de uma cidade racionalizada, matematizada, nenhum detalhes podendo escapar: a cidade deveria ser planejada para que os ideais de progresso, harmonia e ordem fossem concretizados. A nova capital era, antes de tudo, um marco, uma ruptura. Era o momento de celebrar o novo! Era necessário um espaço que personificasse um instante, que legitimasse o advento da República. O antigo e o rural eram arcaicos, a face da degenerescência de uma época que deveria ser esquecida. O novo é cosmopolita, a tônica do momento é o urbano. Nesse contexto, havia mais um item que não poderia ficar de fora: a ciência. Num momento em que discursos oficiais tornam imbricadas as concepções de ciência e civilização, a cidade, para que fosse verdadeiramente moderna, precisava estar também em sintonia com uma idéia de ciência proclamada e difundida. A fundação do Instituto Ezequiel Dias constitui, dentro desse universo mental, um empreendimento simbólico. A nova urbe tornara-se um locus privilegiado da filial da “casa da ciência”, o Instituto Oswaldo Cruz. O objetivo geral desta dissertação é realizar um estudo da história do Instituto Ezequiel Dias, entre 1907-1936, como um momento de legitimação do paradigma microbiológico e inserção do campo médico belo-horizontino em projetos que pretendiam uma nação brasileira saneada, bem como o desenvolvimento econômico de Minas Gerais, tendo como eixo a implementação das atividades do Serviço Antipeçonhento. Tal serviço se transformou em uma importante instância para que fossem discutidos muitos assuntos, como a construção da nação na Primeira República e, 9 paralelamente, um projeto de desenvolvimento de Minas Gerais. Assim, os médicos operavam com uma discussão geral, que percorria um debate público empreendido por eles, e, regionalmente, inseriam-se numa grande rede que interligava políticos, forças produtivas e “homens de sciencia”, para que o Estado pudesse se desenvolver. Isso significa dizer que, além de contribuir para a legitimação de novos modelos científicos, o crescimento de uma instituição médico-científica, e a credibilidade da atividade médica, escorpiões, cobras e micróbios falaram de muitas outras questões. Uma investigação da trajetória histórica do Instituto Ezequiel Dias 1 leva-nos a 03 de agosto de 1907. A partir do momento inicial trilha-se um caminho que dará a esta instituição um papel fundamental na construção da idéia de ciência, na recente capital de Minas. O processo de cristalização de suas atividades revela-nos um espaço que conseguiu extrapolar seus objetivos iniciais e foi muito além do mero produtor de soros e vacinas, tendo promovido uma sensível ampliação e variação de suas atividades científicas. Hoje, se há uma palavra que possa simbolizar as atividades da FUNED2 – Fundação Ezequiel Dias –, ela é “diversificação”. Em várias áreas da atuação esta se constitui em uma das mais importantes instituições biomédicas do país: produz medicamentos voltados aos programas de saúde do Estado e do Governo Federal, para a prevenção e controle de doenças como a AIDS e a hanseníase, por exemplo; trabalha em áreas de pesquisa, ensino e extensão, no que se refere à formação dos profissionais de saúde; desenvolve importantes atividades de pesquisa e aplicação de novas 1 A data oficial em que a filial passa a se chamar “Instituto Ezequiel Dias” é 18 de abril de 1923, em homenagem ao médico fundador que morrera no ano anterior, como se verá a seguir. Porém, ao longo dos dois primeiros capítulos, optou-se, muitas vezes, por chamá-lo assim, em vez de Filial, já que essa denominação traz a carga de um enraizamento histórico e da própria autonomia reivindicada desde muito cedo. 2 O Instituto foi transformado, em 1970, em Fundação Ezequiel Dias, com a incorporação da Escola de Saúde Pública de Minas Gerais (Aleixo, 2001). 10 tecnologias; por último, mantém o Instituto Octavio de Magalhães, responsável pela parte laboratorial, com serviços de microbiologia, sorologia, metabolismo, análises realizadas em água, alimentos, medicamentos, bebidas e material biológico, dando suporte aos departamentos de vigilância epidemiológica e sanitária das esferas municipal, estadual e federal3. Esta rápida síntese das atividades da FUNED pode tornar-se um ponto de partida para que possamos dar-lhe novo sentido no que se refere ao seu papel na ciência, entendido de forma processual e historicamente construído. Apesar da importância e da variedade das atividades, a instituição permanece ainda conhecida como o “instituto das cobras”, denominação difundida logo nas primeiras décadas de funcionamento da antiga filial. É curioso pensar que, em detrimento de uma ampliada atuação no setor público de saúde brasileiro e na sua relevância científica e social, a instituição ficou “imortalizada”, no imaginário das pessoas, pelo serviço relacionado aos animais peçonhentos. A história institucional é um eixo interessante para que possamos perceber o processo, cheio de conflitos e tensões, de constituição da idéia de ciência. Ser uma instituição ligada a Manguinhos significava muito nesse período, a saber, era participar da afirmação de um paradigma que seria capaz de transformar decisivamente a idéia de medicina experimental, do universo teórico ao prático: a microbiologia. Para que possamos compreender a história do pensamento científico no século XX, em Minas Gerais, torna-se crucial considerar o Instituto Ezequiel Dias como um pólo irradiador de ciência. Daquela que se fazia intramuros, nas discussões médicas semanais empreendidas pelo próprio Ezequiel, no experimentalismo, etc. e em outra, que se via nas campanhas de vacinação de homens e animais, nas campanhas educativas 3 Ver o seguinte sítio: http://www.funed.mg.gov.br/. 11 com vistas à profilaxia das doenças, nos congressos, nas relações com a Faculdade de Medicina, com a Fundação Rockefeller, etc. A opção quanto ao recorte (1907-1936) refere-se à própria trajetória histórica do Instituto Ezequiel Dias. A análise será feita do período de fundação da filial de Manguinhos em Belo Horizonte, em 1907, que abrange a ascensão e solidificação de suas atividades, até 1936, que é uma data simbólica, momento em que o governo do Estado de Minas Gerais passa a assumir a instituição. A partir da estadualização nota-se uma sensível mudança nos paradigmas do Instituto, que sofre uma considerável queda de suas produções científicas. Para a história institucional proposta aqui, a forma com que as fontes foram consideradas foi de suma importância. Os relatórios e arquivos institucionais tendem a fornecer uma ampla configuração das atividades da filial. É preciso perceber os “homens de sciencia” como representação – na imbricação da idéia que tecem de seu ofício com aquela imaginada pela cidade. Os documentos oficiais – cartas, ofícios, relatório de despesas – também podem dar a dimensão do papel do Estado para as atividades institucionais e, de certa forma, podem elucidar questões referentes à relação entre o poder público e a ciência, no contexto mineiro. A inserção do Instituto Ezequiel Dias no ambiente científico nacional e internacional é de vital importância. Os inúmeros artigos publicados pelos médicos da filial podem contribuir para o estudo não só do desenvolvimento do Serviço Antipeçonhento, mas, também, do seu envolvimento e de sua aceitação no campo da produção científica. 12 Por último, os relatos memorialistas, num jogo dinâmico com a documentação oficial, dão a tônica de uma instituição na condição de espaço de complexas tramas, que, de tão fortes, derrubaram os muros e fizeram do científico e do social uma coisa só. Assim, o presente trabalho articula sua análise a partir da idéia geral de que a aceitação internacional do paradigma microbiológico estaria envolvida em complexos processos regionais de legitimação e incorporação das práticas científicas transformadas pela Revolução Pasteur, o que implicaria numa grande variação nas trajetórias de criação e reorganização das instituições médico-científicas. Desta forma, procura-se caminhar pelos seguintes eixos: 1) O Instituto Ezequiel Dias teria tido um papel fundamental no processo de legitimação do paradigma microbiológico em Belo Horizonte/Minas Gerais, por sua atuação na saúde pública, suas relações interinstitucionais, suas atividades de ensino, pesquisa e extensão, o que o transformaria em um pólo disseminador da idéia de ciência, ultrapassando as fronteiras de Minas. A ênfase na implementação e na solidificação do escorpionismo e do ofidismo teria tornado o Instituto Ezequiel Dias um centro de referência no assunto. Apesar do fomento e da importância de outras atividades, tal ênfase poderia ter significado uma das estratégias de legitimação de um novo modelo científico que se aproximava da população na urgência do acidente com animal peçonhento; num jogo em que o discurso médico-científico aliava à difusão de novas práticas a tentativa de soterramento dos tratamentos da medicina popular, buscando incorporar novas terapêuticas e intervenções medicamentosas. 2) A importância adquirida pelo Serviço Antipeçonhento teria possibilitado a aquisição de um “lucro simbólico”, que tornaria o Instituto Ezequiel Dias capaz de extrapolar as diretrizes de uma idéia que se poderia ter de ciência aplicada. Desta forma, 13 proporcionaria aos “homens de sciencia” pluralizar suas atividades nos mais diferentes campos da medicina experimental, formar as suas redes científicas e, através delas, buscar a legitimação da sua profissão e do Instituto de que faziam parte. 3) O Serviço Antipeçonhento, pelas redes científicas que foi capaz de compor, foi um importante elo que juntava os médicos aos diversos projetos que transcorriam na Primeira República. Poderiam reivindicar, a partir destas redes, o crescimento e ampliação da estrutura física da filial, desempenhar papel determinante no ensino acadêmico, atuando, de forma decisiva, nas ações públicas referentes à saúde, numa empreitada para o Saneamento de Minas e do Brasil para além de sua inserção no jogo político mineiro. Procurou-se estreitar os limites entre o urbano e o rural, na aliança a um projeto de desenvolvimento econômico para o Estado. Com o objetivo de desenvolver as idéias acima, a dissertação foi organizada da seguinte forma. No primeiro capítulo procura-se um aprofundamento historiográfico e teórico referente à História das Ciências e, mais especificamente, das Ciências da Saúde dentro da produção relativa às instituições médico-científicas. Consideramos ser imprescindível um olhar em perspectiva relativo à bibliografia sobre o tema, referenciais que ganham em relevância na medida em que se pode pensar a inserção do presente trabalho dentro deste campo de pesquisa e da contribuição para tais estudos. Além de um panorama historiográfico procura-se repensar alguns referenciais teóricos que pudessem ser importantes para um diálogo com o trabalho empírico. É bom salientar que as questões teóricas são, ao nosso olhar, intrínsecas a toda pesquisa. A escolha por uma análise mais aprofundada nos trabalhos de Fleck e Latour, em 14 detrimento de outros autores importantes para os “estudos na ciência”, não foi por acaso. Procurou-se demonstrar através dessa escolha deliberada a tentativa de colocar também em discussão a idéia de ciência que se quer discutir, eixo que consideramos que deva persistir no campo da História das Ciências. A aliança dos dois autores em questão tende a deixar explícito que se trabalha com uma idéia de ciência como uma construção contínua, realizada por sujeitos interconectados a partir da tessitura de um complexo contexto histórico e cultural, contingente, singular, carregado de especificidades. O entrecruzamento teórico e empírico acabou por garantir a percepção de que a história do Instituto Ezequiel Dias caminhava para além de seus muros na antiga e simbólica Rua da Bahia. No segundo capítulo procuramos reconstituir a história do Instituto Ezequiel Dias. O percurso histórico é importante para as indagações naturais de uma história institucional: as razões de sua vinda, sua estrutura, como se desenvolveu ao longo do tempo. Foi analisada a forma com que a Instituição interagiu com o contexto de Belo Horizonte e Minas Gerais. Neste ponto, considerou-se importante examinar qual era o tratamento da saúde e de que forma o Instituto Ezequiel Dias constituiu parte dessa realidade histórica. Sobretudo, foi preciso perceber as mudanças que a vinda da Instituição provocou, bem como seus arranjos interinstitucionais e sua inserção no campo médico em Belo Horizonte. Coube ao Instituto Ezequiel Dias um importante papel agregador e articulador, do ponto de vista institucional, dos processos de autonomização do campo médico e das idéias científicas em Belo Horizonte/Minas Gerais. Na terceira parte apresentamos um desdobramento das reflexões anteriores, sejam elas teóricas, sejam relativas à própria história do Instituto e suas transformações ao longo do tempo. O Instituto Ezequiel Dias abre uma verdadeira “cruzada” contra as 15 cobras e escorpiões no território mineiro, mas, de forma muito interessante, a empreitada foi bem mais além. As inúmeras viagens científicas pelo interior de Minas geraram seus frutos – relatórios, cartas, relatos memorialistas, artigos científicos –, mostrando que o Serviço ultrapassou o objetivo da caçada aos peçonhentos. A partir da grande visibilidade que o Instituto ganhou com este tipo de trabalho, houve a possibilidade de investir em variados setores, colocando o Instituto em sintonia com as discussões que agitavam a pauta política da Primeira República: o saneamento do Brasil, pensado a partir da incorporação do sertão e tendo a ciência como uma de suas principais aliadas; paralelamente, o desenvolvimento de Minas Gerais, que, para se concretizar, também arrolou a ciência como um de seus pilares. 16 Capítulo 1 – Enfrentamentos teóricos na história das instituições médico-científicas A instituição é um elo importante para que possamos perceber qual idéia de ciência está sendo colocada em uso – suas implicações, seus aliados, suas controvérsias. E os arquivos institucionais são referenciais decisivos na cadeia confusa e tortuosa da construção dos fatos científicos. Dessa forma, as instituições podem nos levar muito além da história de homens num lugar isolado, fora da sociedade, desconectados do mundo e imersos em seu ofício solitário. Decididamente, de acordo com o olhar, as fontes documentais nos proporcionam vôos muito mais altos. Numa perspectiva multidimensional tornam-se um locus privilegiado para que possamos perceber as dinâmicas no interior da ciência e de sua luta incessante na busca e legitimação dos fatos científicos. Mais que isso, tornam-se espaços importantes para que a história possa tentar discutir o funcionamento da prática científica, muito diferente da visão idealizada de homens que entram em seus “templos da ciência”. Como veremos adiante, a historiografia apresentou diferentes posturas quanto ao tratamento da história das instituições médico-científicas no Brasil, principalmente daquelas criadas ou reformuladas no contexto das transformações decorrentes do advento da Revolução Pasteur. O final do século XIX e o início do XX são, neste 17 sentido, muito importantes para estas análises, pois trata-se de um período que concentra a criação de vários institutos sob as matizes das novidades da microbiologia. As diferentes posturas mostram, por outro lado, que alguns problemas persistem ao longo do tempo relativamente a esta historiografia: a dicotomia ciência pura/ciência aplicada, o papel dos grandes homens de ciência no sucesso dessas instituições, o governo como única agência de fomento desses espaços, as instituições e os dilemas do capitalismo, sua natureza emergencial, a apropriação de modelos de instituições congêneres no exterior, entre outros. Na tentativa de contribuir para o campo e, de alguma forma, suscitar novos problemas e sugerir respostas para os que foram descritos, é que se considera importante colocar em discussão enfrentamentos teóricos que possam nos fornecer novas alternativas de análise. É dessa maneira que se pretende discutir de que forma as posturas teóricas de Ludwik Fleck (1896-1961) e de Bruno Latour (1947- ) podem ser aliadas na tentativa de um novo olhar sobre as instituições. Cabe ressaltar que o presente objetivo não é o de promover uma comparação entre Fleck e Latour, apesar de em vários momentos as aproximações e afastamentos ficarem muito evidentes. Numa intenção mais modesta, pretende-se realizar, entre as perspectivas teóricas dos dois autores, uma aliança de efetividade histórica, que se coloca diante de um objeto específico: a história de uma instituição – o Instituto Ezequiel Dias –, tendo como eixo as atividades de seu Serviço Antipeçonhento. E isto quer dizer que o dois autores cumprem um papel importante como usinas de força para o trabalho empírico e são vitais para se pensar os inúmeros problemas suscitados pelas fontes. 18 I – Um panorama historiográfico No que diz respeito a um olhar em perspectiva sobre a história das instituições científicas, o livro As Ciências no Brasil pode ser considerado uma referência inicial. Ele foi publicado na década de 1950, com organização de Fernando Azevedo, que, na introdução, deixa claro o viés da elaboração da obra: a criação das universidades como o verdadeiro marco para a formação de um conhecimento autônomo. Os institutos do final do XIX e início do XX estão presos a uma idéia de ciência aplicada, “utilitarista”, e mesmo Manguinhos, sob a auréola do “grande” Oswaldo Cruz, não foge a esta interpretação segundo a qual “as criações de novos institutos, alguns dos quais vieram com o tempo a adquirir grande projeção no estrangeiro não obedeciam, também elas, a nenhum plano geral uma nova política de cultura: eram ou por elas se procuravam resposta a desafios postos por problemas urgentes” (Azevedo, 1994:38). Com novas discussões a respeito de uma idéia de ciência, mas ainda numa perspectiva similar a de Azevedo, é que se apresenta a obra de Schwartzman A Formação da Comunidade Científica no Brasil. Tendo vindo a lume no final da década de 70, esse livro compartilha a idéia de um conhecimento independente, como ponto decisivo, ao passo que a sociedade apenas interferiria em assuntos referentes à utilidade prática da ciência. Quando se trata das instituições prevalece a noção de um “sentido pragmático e imediatista em que os assuntos de pesquisa eram entendidos no Brasil” (Schwartzman, 1979:107). O autor enfatiza a importação de paradigmas no contexto intelectual brasileiro da Primeira República, pois “é da França e da Alemanha que chegam, muitas vezes com atraso e distorcidos, os modelos intelectuais e institucionais que são adotados no Brasil” (Schwartzman, 1979:86). 19 Em meados da década de 70 surge Gênese e Evolução da ciência brasileira: Oswaldo Cruz e a política de investigação científica e médica, de Nancy Stepan. Como o título denota, Manguinhos é analisado como um marco no que se refere à fundação de uma medicina experimental no Brasil4. Há uma constante preocupação com o contexto de formação da ciência num país em desenvolvimento e das implicações sociopolíticas de um “desenvolvimento dependente”, no desafio da importação de modelos: “Em certo sentido a história do Instituto de Soroterapia e do Instituto Butantã de São Paulo, entre 1900 e 1903, pode ser considerada como um prolongamento da tradição colonial descrita por Basalla no período da medicina científica e experimental. Ambas as instituições eram coloniais em seu apoio sobre técnicas e tradições científicas desenvolvidas no estrangeiro. Em 1903, nenhuma das duas tinha capacidade de realizar pesquisas originais ou mesmo ciência aplicada em larga escala” (Stepan, 1976: 82). Fica evidente na obra uma detida discussão em torno do binômio ciência pura/ciência aplicada e do sucesso do Instituto Oswaldo Cruz a fim de justificar-se a superação dessa dicotomia, pois o instituto envolvia ambos setores. A autora considera que a bem sucedida trajetória do Instituto Oswaldo Cruz foi “em parte foi conseqüência da criação de um sistema interligado, envolvendo ciência básica e aplicada, treinamento e emprego de cientistas, produção e consumo de conhecimentos científicos dentro do Brasil” (Stepan, 1976:148). A década de 70 é decisiva para a construção da história da medicina como um campo de produção de conhecimento, tendo em vista novos problemas e novas abordagens teóricas. É inegável a influência dos estudos de Foucault, num conjunto de 4 Sobre a ampliação do conceito de medicina experimental e a reabilitação da medicina imperial, bem como sua importância no que se refere à produção científica, consideramos dois textos importantes: EDLER, Flavio Coelho. O debate em torno da medicina experimental no segundo reinado. História, Ciências, Saúde – Manguinhos. Vol. III (2): (284-299), jul-out 1996. DANTES, Maria Amélia M. Introdução: Uma história Institucional das ciências no Brasil. IN: Dantes, Maria Amélia M. (org) Espaços da ciência no Brasil: 1800-1930. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2001. 20 trabalhos que tentava situar a “medicalização” do Estado brasileiro. Na linha foucauldiana é que se insere o livro de Luz, Mediciana e ordem política brasileira: políticas e instituições de saúde (1850-1930), no início da década de 80. A autora segue um modelo em que a criação das instituições do final do XIX e início do XX representaria uma nova etapa do Estado, de afirmação e hegemonia da ordem capitalista. Segundo Luz, “A criação de todas essas instituições que acabamos de mencionar já é, em parte, uma tentativa de estabelecer a nova ordem sanitária. Embora tivessem como finalidade precípua o controle das epidemias, através da produção de soros e vacinas, supunham a existência permanente de pesquisa, isto é, de produção de conhecimentos básicos na área biomédica. A ciência é, como afirmamos na introdução deste trabalho, uma das bases da ordem capitalista. Sem a produção de novos conhecimentos, nem as forças produtivas, e conseqüentemente a estrutura econômica, nem o Estado, e a superestrutura que o sustenta, podem se solidificar” (Luz, 1982:196). (grifo meu) A análise da autora circunscreve-se num modelo que, em última instância, constrói e se impõe de forma exterior à própria ciência. Os discursos médicos tendem a perder, nessa perspectiva, suas nuances, os complexos e retorcidos processos de sua elaboração e legitimação, já que cumprem um papel previamente definido. As modificações dentro do próprio “fazer histórico” imprimiram uma marca indelével no campo dos estudos históricos a respeito das ciências. Espaços, tempos e objetos pluralizam-se. O olhar do historiador se volta para aquilo que não era tão explícito, oficial, dito, declarado. Novas abordagens acompanharam as transformações da própria historiografia. Inserida num contexto de novos desafios, e a partir da contribuição das pesquisas produzidas na Casa de Oswaldo Cruz, surge a obra coordenada por Benchimol, Manguinhos do sonho à vida: a ciência na Belle Époque. Nela analisam-se o 21 surgimento e a consolidação do Instituto. A obra enfatiza as peculiaridades do universo sociocultural brasileiro e suas implicações na acomodação dos novos modelos. Num recuo aos tempos iniciais tentou-se compreender o que fez de Manguinhos “uma instituição sui generis no contexto da República Velha” (Benchimol, 1990:21). Na investigação fica clara a importância da figura de Oswaldo Cruz, além da estrutura organizacional autônoma que aliava produção, pesquisa, ensino, pessoal e suas mudanças ao longo do tempo. A arquitetura do Instituto é também revisitada na ótica de sua monumentalidade, do seu significado simbólico para a época. Benchimol e Teixeira, em Cobras, Lagartos e Outros Bichos: uma história comparada dos institutos Oswaldo Cruz e Buntantan, investem no estudo comparativo dos projetos institucionais no interior da transformação pasteurina. Pretendem aliar com a obra “as determinações de conjuntura e estrutura com a dimensão das ações individuais, seja a dos pesquisadores que entretinham as horas cotidianas de trabalho, sejam as dos dirigentes que conceberam e implementaram estratégias institucionais com os objetivos, prioridades e interesses do bloco oligárquico hegemônico” (Benchimol e Teixeira, 1993: 15) É importante pensar como dois espaços de origens comuns caminharam em trajetórias bem diferentes, que começam em áreas de excelência, como a protozoologia em Manguinhos e o ofidismo no Butantan, passando pelas relações com o poder público, o enfrentamento das crises, etc. Diante dessa postura metodológica foi possível aos autores perceber as disputas, as vaidades em jogo, o papel ideológico e simbólico dos “mitos” da ciência. Neste sentido, ganham espaço assuntos poucas vezes discutidos na historiografia institucional precedente: os meandros que envolviam os concursos, o caráter centralizador e personalista dos primeiros tempos de Manguinhos, a 22 “desconstrução” da Doença de Chagas na década de 20, num constante elo entre as estruturas institucionais e as posturas políticas no interior da própria República. A bibliografia analisada coloca-nos de frente com os diferentes caminhos da história das instituições científicas. Além dos inúmeros problemas suscitados, ela pode se transformar numa importante ferramenta para que possamos buscar qual olhar será dado à história do Instituto Ezequiel Dias. Na tarefa de reconstruir essa história considerou-se importante a definição de um eixo para a pesquisa, dada a necessidade imposta pela vasta documentação. Optou-se, diante de algumas possibilidades, não por acaso, em pensar-se esta instituição, como já foi dito, a partir das atividades do serviço antipeçonhento que, sem dúvida, notabilizou a instituição. A escolha nos proporcionou o encontro com os documentos institucionais (ofícios, cartas, balanços contábeis, etc.), artigos científicos e relatos memorialistas – os mais diretos neste tipo de pesquisa – e, também, com relatos de expedições científicas5, inúmeras ações nos mais variados campos que objetivavam a divulgação da ciência, em um emaranhado de atividades que começavam a ampliar as noções da prática científica. Isso, porque o serviço não se limitava a uma “guerra” travada na capital e no interior contra cobras e escorpiões, pois, de forma peculiar, foi muito mais além. Instaurou-se uma luta que pretendia sanear e higienizar o território mineiro e que tentava, sobretudo, transformar as práticas médicas, do menor detalhe cotidiano até as grandes campanhas, sob a égide das mudanças da microbiologia. Assim, a pesquisa empírica aliou-se a um diálogo crítico com a historiografia que acabou por suscitar novos problemas: - a superação da dicotomia ciência pura/ciência aplicada; 5 No ano de 1918 foi inaugurado no Instituto um posto que pretendia realizar uma campanha contra os acidentes com animais peçonhentos por todo o território mineiro. 23 - novas formas de lidar com um possível dilema sociedade/ciência; - o complicado processo regional de aceitação e legitimação do paradigma microbiológico em Minas Gerais, numa luta intramuros (no interior do campo científico) e extramuros (na luta empreendida contra a persistência de tratamentos da chamada medicina “popular”, “empírica”); - as alianças, disputas e interesses no interior do campo médico belo-horizontino, em conflito com uma idéia de “comunidade científica” ensimesmada, hermética, racionalmente fechada; - a persistência de um discurso “peculiar nas fontes” – relatórios, relatos memorialistas, ofícios, cartas, etc. – com objetivos múltiplos: da persuasão do leitor; a busca de aliados, nos poderes públicos e na sociedade; e, na contramão, uma tentativa de obscurecimento dessas controvérsias que procurava formatar o discurso e entregá-lo limpo, livre de qualquer ponto que pudesse se opor à idéia de uma ciência racionalmente arquitetada; - a historicidade de um estudo sobre cobras, escorpiões e micróbios, no contexto da história institucional, que persistia em derrubar as dicotomias homem/natureza, sujeito/objeto, humanos/não-humanos; - a emergência de um tempo sedimentado histórica e culturalmente, longe de um fluxo contínuo baseado na lógica descoberta/progresso; - a idéia de instituição propiciadora de inúmeras mediações que fugia da acepção de um simples espaço de atividades rotinizadas. Diante do fato de que tais problemas pululavam ao longo do trabalho empírico, viu-se a necessidade de se buscar novos referenciais que significassem a possibilidade de um passo à frente na pesquisa. É assim que se pretende estabelecer um diálogo com as obras de Fleck e Latour, na tentativa de lidar com tais problemas. Cabe pensar como 24 esses autores nos fornecem possibilidades de interlocuções entre as fontes relacionadas a um determinado objeto e diferentes perspectivas teóricas e metodológicas, num entrecruzamento com debates recentes na história da ciência. II – A contribuição de Fleck e Latour para a derrubada dos muros institucionais Fleck teve uma trajetória, sem dúvida, bastante peculiar no campo acadêmico. Sua obra publicada em 1935, A Gênese e o Desenvolvimento do Fato Científico6(Fleck, 1986), não teve grande repercussão, com circulação restrita ao meio médico. Sua inserção se deu a partir da publicação, em 1962, de A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Kuhn (Kuhn, 2003), e, principalmente, com a tradução inglesa no final da década de 70. As aproximações do texto kuhniano com o trabalho de Fleck tornam-se muito nítidas em vários pontos (Condé, 2005). A “epistemologia comparada” de Fleck começa com um prólogo emblemático, em que o autor delinea seu objetivo de desconstrução de uma “definição tradicional” de fato científico “fixo, permanente, o contraposto da transitoriedade das teorias. É a meta de todas as ciências. A crítica para estabelecê-lo constitui o objeto da teoria da ciência” (Fleck, 1986:43). A força deste fato constituído pela teoria é de tal modo avassaladora, que ficamos passivos diante dele. Para efetivar seu objetivo, Fleck irá tomar como estudo um caso específico: a construção do conceito de sífilis. Nesta empreitada realiza um recuo ao século XV na tentativa de buscar a “evolução”, de implicações psicológicas, culturais e históricas que culminaram no conceito contemporâneo de sífilis, sintetizado na Reação de Wassermann. Veja-se, de início, como Fleck opera de forma interessante com a história! 6 Fazemos aqui uma tradução livre da edição espanhola de 1986. 25 Num momento marcado por fomes, catástrofes e o surgimento de epidemias é que o pensamento sifilidológico começa a tomar forma. Depara-se com tratados médicos que deixam claro que as representações da sífilis tinham estreita ligação com questões histórico-culturais: as explicações bebiam nos conhecimentos astrológicos em voga na época, que postulavam “a conjunção de Saturno e Júpiter na terceira casa de Escorpião”. Cabia lembrar que era sobre o signo de Escorpião que estavam submetidos os órgãos sexuais. Na convivência com essa explicação havia também a religiosa, que garantia um significado pecaminoso a enfermidade (Fleck, 1986:46). Para que possamos entender como Fleck vai estabelecer as mediações entre o passado e o presente, numa perspectiva que privilegia a ciência diante de sua natureza histórico-cultural, é preciso que se tenha em mente dois conceitos que vão percorrer A Gênese e o desenvolvimento do Fato Científico: o estilo de pensamento e o coletivo de pensamento. De forma sintética podemos dizer que o estilo aponta para o modelo, a forma de se perceber o conteúdo científico, que se faz dominante em uma determina sociedade, referindo-se coletivo de pensamento aos atores responsáveis pela sustentação e legitimação desse modo de ver/conhecer, cada um deles como uma espécie de “portador comunitário do estilo de pensamento” e que “não deve ser entendido como um grupo fixo ou uma classe social” (Fleck, 1986:149). Assim, estilo/coletivo vão estabelecer uma dinâmica que se sedimenta em um tempo e espaço específicos, numa interação com múltiplas influências provenientes de vários estratos sociais e, tal como a própria história, compondo-se de eventos, crenças e idéias anteriores. A sobrevivência dos coletivos é garantida pelos experts, ou especialistas (círculo esotérico), mas, também, pelos não especialistas (círculo exotérico). A circulação dos indivíduos dentro do coletivo é dinâmica, pois o coletivo pode ser composto por vários círculos que se inter-relacionam (Fleck, 1986:152). 26 Portanto, Fleck considera que as vertentes explicativas da sífilis estão mergulhadas numa “forte fundamentação psicossociológica e histórica” (Fleck, 1986:48). A ético-mística, nos séculos XV e XVI, mesclava astrologia e religião e dava os contornos estigmatizantes da enfermidade que permaneceriam por muito tempo. Outra, a empírico-terapêutica, com o uso do mercúrio misturava-se aos conhecimentos da medicina humoral, de tradição hipocrática-galênica, que se baseava nos desequilíbrios dos fluidos e nas analogias (sangue vermelho/mercúrio). Por último, no conceito experimental-patológico estabelecia-se um fio contínuo com as interpretações anteriores, pois permanecia o problema do sangue luético. As concepções científicas referem-se, dessa forma, a pontos de vista fossilizados. Ou, dito de outra forma, pertencem ao seu tempo, estão historicizadas. Fleck vai mais adiante e estende esta assertiva às práticas científicas: da mais simples observação cotidiana às grandes teorias, a natureza constitutiva e formativa desse conhecimento é uma construção sociológica. O que se considera como prova em um determinado estilo ou coletivo pode não o ser em outro. Partindo desse pressuposto, podemos dizer que Fleck trilha um caminho que acaba por desfazer velhas oposições: racional/irracional, prova/erro, lógico/ilógico, etc. As regras de procedimento empírico, a exterioridade dos fatos científicos, e, de certo modo, a realidade em que se constitui a prática, escapam de uma visão apriorística das coisas, pois são elementos de construção “sócio-lógica”, psicossocial e não puramente lógica. Para ele há uma diferença entre experimento e experiência, ao apontar que, “enquanto o experimento pode interpretar-se como um simples sistema de pergunta-resposta, a experiência tem que ser concebida como um complexo processo de entretenimento intelectual, baseado em ação recíproca entre o cognoscente, o conhecido e o ‘por-conhecer’ ” (Fleck, 1986:56) (grifo meu) 27 É importante ressaltar que descrever a história de determinado campo de saber não é uma tarefa das mais fáceis. Há uma condicionalidade histórico-cultural que faz emergir um campo, mas que em momentos distintos cruza-se e mistura-se com outras linhas de desenvolvimento. Cada linha tentaria se sobressair numa direção idealizada, ou seja, constituir-se como fato. Para Fleck seria como descrever uma conversa em que cada interlocutor quisesse impor a sua voz. Nessa perspectiva, a formação do campo e a construção de um fato deveriam manter omitida uma grande quantidade de material que culminaria num “esquema mais ou menos artificial [que] ocuparia então o lugar da descrição de uma interação dinâmica e vital” (Fleck, 1986:62). Pode-se concluir que ao final surge um fato duro, sem história, num processo que “higieniza” este mesmo fato, retirando as impurezas – erros e controvérsias, típicos de momentos históricos distintos – de sua construção. Fleck faz um jogo de construção/descontrução/reconstrução do fato científico, em que não há nem erro absoluto nem verdade absoluta, mas um lado do discurso da ciência que a coloca em conflito com sua história e diz que “o passado é muito mais perigoso – ou, melhor dizendo, só é perigoso – quando nossos enlaces com ele se mantêm inconscientes e desconhecidos” (Fleck, 1986:67). O conceito de sífilis depende de sua história. O tempo das ciências se desenrola (ou enrola-se) na prática e para a prática, o que equivale a dizer que “a todo estilo de pensamento o corresponde um efeito prático” (Fleck, 1986:151). Não é o tempo das rupturas, das revoluções (Kuhn, 2003), das grandes descobertas. Caracteriza-se por regularidades históricas, numa primeira época chamada de clássica, em que há plena concordância das postulações e, em um segundo momento, em que as exceções são persistentes, e, em um terceiro, tendem a instaurar o novo, ao superar os fatos regulares (Fleck, 1986:76). Mas o autor ressalta que 28 “sempre fica algo do estilo de pensamento anterior. Em primeiro lugar, estão as pequenas comunidades isoladas que mantêm invariado o velho estilo [...] Em segundo lugar, cada estilo de pensamento contêm vestígios que procedem do desenvolvimento histórico de muitos elementos de outros estilo. Provavelmente se formam muito poucos conceitos novos, isto é, conceitos, sem relação alguma com os estilos de pensamento anteriores. A maior parte das vezes apenas varia a tonalidade, como ocorre com o conceito científico de força, ou com o novo conceito de sífilis que provém do conceito místico” (Fleck, 1986:146) (grifo meu) Fica claro que se trata de um tempo contínuo, por um lado, e descontínuo por outro (pois há avanços e retrocessos, acertos e erros). É lento, sedimentado, fossilizado. E como sendo um artifício conceitual, que objetiva estabelecer esta inter-relação passado/presente, Fleck fala das “proto-idéias” ou “pré-idéias” pelo que conclui, a partir de suas investigações, que “a reação de Wassermann constitui, em sua relação com a sífilis, a expressão moderna e científica de uma ‘proto-idéia’ com séculos de antiguidade que contribui pra a formação do conceito de sífilis” (Fleck, 1986:71). Coube a Fleck uma iniciativa inovadora, atenta para a idéia de que o discurso científico era muito mais plural, tortuoso e multidimensional do que podíamos imaginar. Era o momento de dessacralizar a ciência e retirá-la de “um respeito demasiado grande, próximo da veneração religiosa” (Fleck, 1986:94). Em vista dessa rápida exposição de algumas questões que, ao nosso olhar, são cruciais no texto de Fleck, pretende-se, agora, levantar alguns pontos de algumas obras de Bruno Latour que promovam um entrelaçamento (não dos mais fáceis) dentro da tentativa de lidar com alguns problemas incômodos durante a pesquisa do material documental do antigo Instituto Ezequiel Dias. 29 Diferente da trajetória de Fleck, Latour tem sido um nome bastante discutido por historiadores, filósofos, sociólogos e cientistas (no sentido “tradicional” do termo), na atualidade. Suas obras, algumas de grande sucesso editorial, têm provocado grandes polêmicas e debates acalorados. Foge aos nossos objetivos um levantamento sistemático destas controvérsias, o que não nos impede de dizer que nossos autores – Fleck e Latour – estão suscetíveis a críticas. Porém, no atual momento, pretende-se verificar quais são suas efetivas contribuições para algumas discussões importantes no campo da história das instituições médico-científicas. Até pela vastidão da obra de Latour, considerou-se importante a seleção de algumas que nos dessem a dimensão do pensamento desse autor e também de suas modificações ao longo do tempo, o que encaramos como mudanças que acabaram por levantar pontos muito interessantes para a história institucional. Numa de suas primeiras obras, aquela que podemos considerar como inaugural de suas postulações, A Vida de Laboratório: a produção dos fatos científicos, publicada em 19797 em parceria com Steve Woolgar, pretende-se a sistematização daquilo que os autores chamam de um projeto de uma etnografia das ciências. Baseada em um trabalho de campo do próprio Latour, no Instituto Salk, entre 1975-1977, os autores tentam se diferenciar dos trabalhos de antropologia das ciências anteriores, que estudavam outras práticas, mas que tinham um demasiado respeito pelas ciências (Latour e Woogar, 1997:12). O texto não vai se opor apenas à antropologia, mas também às varias correntes históricas, sociológicas, filosóficas que pretenderam compreender a lógica da atividade científica e malograram, segundo os autores. E este era um problema crucial, uma falha que os autores consideram crucial nesta bibliografia, pois: 7 Publicada em inglês nesse ano. Tivemos acesso à edição brasileira de 1997, que é tradução da edição francesa de 1986. Embora pareça conter modificações em relação ao original inglês, essa edição serve como base para que possamos delinear o início do projeto de estudo das ciências de Latour. 30 “não havia um único livro, nem mesmo um único artigo que descrevesse a prática científica de primeira mão, independentemente do os próprios cientistas pudessem dizer, e que fosse simétrico em suas explicações, redefinindo as noções vagas das ciências humanas” (Latour e Woolgar, 1997: 18) No que se refere especificamente à história, ela era “muito tímida, sobretudo na França, e, na maior parte das vezes, ela não passa de uma roupagem da história das idéias, quiçá da epistemologia” (Latour e Woogar, 1997:21). Há nesta crítica um ponto importante, que percorre as obras de Latour: o de que só seremos capazes de entender prática científica através dela, a partir dela, o que implica dizer que não cabe falar de uma ciência idealizada, ou por tabela, através do que o próprio cientista diz, sendo preciso ir ao laboratório e ver como as coisas acontecem 8. É necessário ponderar que não é preciso ser cientista, um preconceito que deve ser derrubado e “certamente é sobre esse ponto que se deve trabalhar a questão, disciplinar o olhar, manter a distância. Aí está o verdadeiro desafio, e não na aquisição de conhecimento, cuja dificuldade é claramente superestimada” (Latour e Woolgar, 1997:27). Para conseguir ir ao laboratório e ver, considerou-se um caso específico: a construção do TRF(H), o isolamento desta substância, que é um fator de liberação hormonal (Tryrotropin Releasing Factor – Hormone). Contudo, através dos arquivos institucionais e da convivência no laboratório, descobriu-se que esta substância, já considerada pelos cânones como um fato constituído, requereu um amplo processo de construção, cheio de alianças, disputas e controvérsias, durante quase duas décadas, que teve origem no início dos anos 60. 8 Tal perspectiva, se levada às últimas conseqüências, tende a inviabilizar o trabalho histórico. Mas, como veremos adiante, Latour acabou por flexibilizar essa máxima, admitindo outras formas de se chegar aos laboratórios (os de hoje e os de ontem) através de múltiplas fontes, não apenas da pesquisa de campo. 31 A questão é de não fazer do caminho um caminho de mão única. Quando se olha para o TRF(H), sólida não se tem a idéia do que foi exigido para se chegar ali. Foi preciso, então, se aproximar do discurso científico, familiarizar-se com ele e promover a sua desconstrução. Apenas assim seriam esclarecidos conteúdo e contexto, algo que os trabalhos precedentes não realizavam e que faziam parecer água e azeite, numa mistura apenas aparente que não se efetiva na prática científica. Isto implicaria levar às últimas conseqüências o princípio de simetria de David Bloor e do Programa Forte 9: “a noção de simetria implica, para nós, algo mais que para Bloor: cumpre não somente tratar nos mesmos termos os vencedores e os vencidos da história das ciências, mas também tratar igualmente e nos mesmos termos a natureza e a sociedade [...] O trabalho de campo que aqui apresentamos é, por conseguinte, duas vezes simétrico: aplica-se ao verdadeiro e ao falso, esforça por reelaborar a construção da natureza e da sociedade” (Latour e Woolgar, 1997: 23-24) O contato com as fontes fez surgir um laboratório como um espaço dinâmico que tentava construir e legitimar fatos, com atores que operavam com as múltiplas facetas do discurso: escrita, persuasão, controvérsia, discussão. Na terminologia latourniana, um sistema de inscrição literária que visava atribuir sentido às atividades científicas, sendo um espaço de “uma mistura complexa, de crenças, hábitos, tradições orais e práticas” (Latour e Woolgar, 1997: 48-49). Dizer que há uma relação entre o científico e o social não basta! É preciso perceber o processo em que esta interação se 9 De acordo com Palácios: “O Programa Forte da sociologia do conhecimento representa uma das tentativas de formalização desta ruptura com a tradição pretérita da sociologia da ciência e de recuperação dos clássicos da sociologia do conhecimento para a análise da ciência. Neste aspecto, Durkheim e Mannheim são as duas referências mais importantes para a formulação original do programa, apresentado de modo sistemático por David Bloor, em Knowledge and Social Imagery, publicado em 1976”. O autor aponta, ainda, os quatro princípios enunciados por Bloor relativamente à sociologia do conhecimento: princípio da causalidade, da imparcialidade, da simetria e da reflexividade. PALÁCIOS, Manuel. O Programa Forte da Sociologia do Conhecimento e o Princípio da Causalidade. IN: PORTOCARRERO, Vera (org). Filosofia, História e Sociologia das Ciências: abordagens contemporâneas. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1994. 32 dá: e isto implica dizer que o ambiente humano e o material fazem parte da mesma prática e não podem ser vistos em separado. Numa análise dos artigos publicados sobre o TRF(H), entre 1970 e 1976, os autores concluem que, no princípio, ao se falar da substância, o número de citações era muito grande, e só caia em decréscimo à medida que o fato se solidificava. A quantidade de citações não somente representava as controvérsias, mas, também, objetivava trazer aliados para tal tese que ainda não tinha tanta credibilidade. Os enunciados prontos fazem desaparecer esta luta cotidiana dos cientistas e mostram que o fato “perdeu, por definição, qualquer referencial histórico” (Latour e Woolgar, 1997:101-102). Os fatos não podem ser dispostos numa mera sucessão cronológica, sendo preciso explicitar sua construção social10, mostrar como um “fato bruto pode ser sociologicamente construído” (Latour e Woolgar, 1997: 104). Perseguir o caminho dessa construção significava se deparar com uma outra ciência. Era ver a disputa pela descoberta da substância entre laboratórios. Ver o surgimento de alianças que pretendiam eliminar concorrentes. Perceber que mesmo as regras de experimentação não eram tão lógicas assim, quando deixam claro que “os critérios epistemológicos de validade ou falsidade são inseparáveis da noção sociológica da tomada de decisão” (Latour e Woolgar, 1997: 121). Dizer que há um caráter particular na atividade do laboratório, marcado no espaço e no tempo, que se efetiva na prática. Era descrever as confusas conversas, transcritas detalhadamente, entre os cientistas, em que os fatos são construídos e demolidos, num jogo de força e negociação11. Toma forma uma micro-sociologia dos fatos, a partir de micro-processos no interior da ciência. 10 Como se verá a seguir, Latour irá, posteriormente, arrepender-se da expressão construção social. Não teria Latour levado a sério o exemplo de Fleck segundo o qual descrever a construção de um fato era como descrever uma conversa afiada entre interlocutores? 11 33 A ciência tem um momento inicial conturbado, de turbulência – definido como um campo agonístico – que é um momento de luta pelo crédito científico, o que faz o laboratório parecer uma pequena empresa. É preciso ressaltar, como neste instante, que a perspectiva lembra as noções de campo científico propostas por Pierre Bourdieu. Para esse autor, que elabora uma crítica ácida às postulações do clássico de Kuhn (Kuhn, 2003), faltava ao texto12, dentre outros pontos, levantar a questão dos interesses que movem os cientistas e que fazem do campo científico uma luta pelo monopólio da autoridade científica, e dizer que “todas as práticas estão orientadas para a aquisição de autoridade científica (prestígio, reconhecimento, celebridade, etc.). o que chamamos comumente de ‘interesse’ por uma atividade científica [...] tem sempre uma dupla face. O mesmo acontece com as práticas que tendem a satisfação desse interesse” (Bourdieu, 1994:124). Uma busca incessante pelo lucro simbólico, que gera um questionamento dos paradigmas não apenas durante as chamadas revoluções científicas. Apesar dessas e de outras semelhanças com pontos levantados por Bourdieu querer elencá-los foge-nos ao objetivo –, Woolgar e Latour afirmam não acreditar naquilo que chamam de “análises econômicas da ciência”, as quais tendem a ser muito gerais e assimétricas. Para eles, em vez de crédito, um ciclo de credibilidade deixa mais clara a visão em rede e interacionista da ciência que se quer introduzir (a qual envolve reconhecimento, subvenção, dinheiro, equipamentos, dados, argumentos e artigos). Bourdieu não teria explicado o que produz os interesses, nem como técnica e poder social estão inter-relacionados, além de não ter considerado a demanda. Havia caído em explicações tautológicas. Talvez, tal posicionamento de Latour e Woolgar faça parte da tentativa de tornar claro um projeto de etnociência em oposição às perspectivas anteriores, o que acabou por produzir um texto, em certos momentos, angustiante pela 12 O texto de Bourdieu a qual nos referimos é de 1976. Ver a coletânea: BOURDIEU, Pierre. O campo científico. IN: ORTIZ, Renato (org). Pierre Bourdieu: sociologia. São Paulo: Ática, 1994. 34 quantidade de termos cunhados, muitos dos quais similares aos de outros autores (o que não justificaria a acusação de Bourdieu ser tautológico), mas jogados, todos, em vala comum13. Alguns problemas que estavam latentes em Vida de Laboratório vão sendo redefinidos em outras obras de Latour. Em Ciência em Ação14, o autor tenta formalizar uma série de regras e princípios que servirão para aqueles que pretendem estudar a ciência, uma espécie de campo comum de problemas e métodos (e, deste modo, inclui a história). É o percurso que quer novamente compreender como os fatos são construídos, através de “duas ciências”, que se assemelham à figura criada do personagem Jano, que percorre todo o livro, e tem dois rostos (como aquelas imagens de antes e depois): no lado esquerdo de Jano, barbudo, está a ciência construída, e é de lá que saem as máximas produzidas pelo fato bruto; no lado direito, sem barba, a ciência em construção, não acabada e um tanto confusa15. O encontro com a ciência em ação fez Latour se deparar novamente com a construção do fato e da certeza de que ele é uma obra coletiva, e que “uma pessoa sozinha só constrói sonhos, alegações” (Latour, 2000:70). No cotidiano do laboratório a descoberta original deixa de ser individual, pertence a vários e tende a transformar-se em conhecimento tácito. Os artigos científicos, por demais abstratos e aparentemente distantes do mundo, “parecem aborrecidos e sem vida, de um ponto de vista superficial. Se o leitor recompuser os desafios que estes textos enfrentam, eles passarão a ser tão emocionantes quanto um romance” (Latour, 2000: 90). Assim, a retórica científica é tão eficiente, que faz com que o que foi construído pareça que não o foi. 13 Hochman tenta analisar e problematizar as mediações entre Bourdieu, Latour e outros. HOCHMAN, Gilberto: A ciência entre a comunidade e o mercado: leituras de Kuhn, Bourdieu, Latour e Knorr-Cetina. IN: PORTOCARRERO, Vera (org.). Filosofia, História e Sociologia: abordagens contemporâneas. Op. Cit. 14 A primeira edição é inglesa e de 1987. 15 Este artifício de introdução de personagens como o Jano e, depois, como discordante, foi feito também em Vida de Laboratório com a figura d’ o observador. 35 É uma ciência de captação que busca aproximar aliados e controlar opositores. Aqui não há como não nos lembrarmos de como os médicos do Instituto Ezequiel Dias souberam construir um projeto, com o serviço antipeçonhento, que não apenas atendia aos interesses do Estado de Minas Gerais, ao qual não interessavam os altos índices de acidentes com animais e homens (alguns relatórios falam em 1.150 mortes humanas e 12.240 de animais, no território mineiro, apenas no ano de 1924); aos fazendeiros, que tinham interesse na redução dos prejuízos gerados pelos altos índices de picadas e mortes do gado; à população, vítima direta e recorrente, dos peçonhentos; ao próprio instituto, que ganhava crédito entre estes amplos setores e convertia na ampliação da estrutura do instituto e na diversificação das pesquisas em outras áreas. Neste sentido, Latour salienta que “a maneira mais fácil de alistar pessoas na construção de fatos é deixar-se alistar por elas! Ao promovermos o interesse explícito delas, também favorecemos o nosso. A vantagem dessa estratégia da ‘carona’ é que não precisamos de nenhuma outra força para transformar uma alegação em fato; contendor pode então tirar proveito de um outro, muitíssimo mais forte” (Latour, 2000: 181) A estas operações, em que os interesses de outros se transformam nos da ciência, Latour dá o nome de translações. Sua conotação é material e lingüística. Derruba-se, assim, a imagem da ciência isolada, para alguns, pura. Há uma questão pragmática que permeia a ciência. E não há ciência mais ou menos próxima da sociedade. Pode-se dizer até que, tal como algumas pesquisas na física ou matemática de que ouvimos falar, por demais abstratas para nossos olhos, exigiram um amplo leque de mobilizações capazes de proporcionar tal circunstância. Quanto mais esotérica, na verdade, mais exotérica ela é (Latour, 2000:209-210). 36 É, também, em Ciência em Ação que Latour levanta uma questão que será insistentemente repisada em obras posteriores (Latour, 1994; Latour, 2001): a mobilização promovida pelos cientistas não se refere apenas a humanos, mas também aos não-humanos. Esta é uma questão que nasce com a Modernidade e que os pósmodernos não souberam resolver. A civilização que se diz moderna e que separou homem e natureza, sujeito e objeto, na verdade não nasceu. Somos a inconcretude de um sonho, pois o que a prática mostrou foi que houve uma proliferação na cena de atores que não são nem sujeito, nem objeto. O projeto latourniano amplia-se e grita, como a prática deixa claro, Jamais fomos Modernos!16 E, se o discurso forjou uma separação que não se realizou, é preciso que tenhamos uma atitude reformadora. Sermos não-modernos, que é o que deve acontecer, significa não aceitar o falso dilema. Dito de outro modo, é uma redefinição de homem e natureza – uma questão ontológica: “a palavra ‘moderno’ designa dois conjuntos de práticas totalmente diferentes que, para permanecerem eficazes, devem permanecer distintas, mas que recentemente deixam de sê-lo. O primeiro conjunto de práticas cria, por ‘tradução’, misturas entre gêneros de seres completamente novos, híbridos de natureza e cultura. O segundo cria, por ‘purificação’ duas zonas ontológicas inteiramente distintas, a dos humanos, de um lado e a dos não-humanos de outro. Sem o primeiro conjunto, as práticas de purificação seriam vazias e supérfluas. Sem o segundo, o trabalho de tradução seria freado, limitado ou mesmo interditado. O primeiro àquilo que chamamos de redes, o segundo ao que chamarei de crítica” (Latour, 1994:16). E que híbridos são esses? São aqueles vistos a todo instante na prática científica. E isto não requer uma metafísica. Requer uma nova postura que implique dizer que a 16 Em outros textos, Latour aponta que a questão pode ter germinado com os gregos, tal como explicita em sua análise do Górgias. Ver LATOUR, Bruno. A esperança de Pandora: Ensaios sobre a realidade dos estudos científicos. Bauru, SP: EDUSC, 2001. 37 natureza está lá, que sua existência é independente. Mas, quem coloca a natureza para funcionar é o homem. Quem opera com ela e dá sentido a ela é o homem. Foi assim com os átomos de Boyle, com os Micróbios de Pasteur, e, por que não?, com as cobras e escorpiões do Instituto Ezequiel Dias. A partir desse instante, cabe dizer que podemos também ser transformados por ela. É preciso um estudo simétrico que não separe o mundo natural do humano. É preciso promover uma nova “Constituição” moderna que una humanos e nãohumanos. Uma nova noção de tempo que abarque os híbridos e suas ações politemporais. Há uma relação de intercâmbio entre os micróbios e Pasteur (um precisa do outro), como entre os peçonhentos e os médicos do Instituto. Eles foram mobilizados e responderam a todo instante: nas expedições, nos experimentos, nas propagandas, nos artigos. A natureza reformada abdica de uma dicotomia sujeito/objeto, por uma perspectiva interacionista, que reivindica a historicidade das coisas (Latour, 2001: 173). A Modernidade recalcada a que Latour se contrapõe tem um problema de raízes na linguagem, num discurso que não pode se realizar na prática, e os “pós-modernos acreditam que ainda são modernos porque aceitam a divisão total entre o mundo material e a técnica de um lado, os jogos de linguagem dos sujeito falantes de outro. Mas estão enganados, porque os verdadeiros modernos sempre multiplicaram, na surdina, os intermediários a fim de tentar pensar o formidável crescimento dos híbridos ao mesmo tempo em que pensavam sobre a purificação” (Latour, 1994:61) Talvez seja esta a razão de ser tão cara a Latour a formulação de um novo arsenal conceitual, muito inspirado na semiótica, que tenta dar o tom da audácia do projeto. É preciso derrubar o abismo entre as palavras e o mundo. 38 Diante destas questões é preciso ressaltar que se tende neste trabalho a, no mínimo, ponderar as críticas que apontam que Latour seja uma espécie de construtivista e relativista radical, de que para ele tudo é ficção. Críticas com as quais, diga-se de passagem, o próprio autor tenta dialogar (Latour, 2001). Numa outra leitura, as operações realizadas por ele com as categorias sociedade, natureza, realidade, fazemnos crer que o autor quer ressaltar que elas não podem ser utilizadas como único eixo de análise do discurso científico. A sociedade não é uma categoria a priori, pois também está em construção com os fatos científicos. Desta forma, faz-se importante pensar uma história contingente. A sociedade é a todo instante mobilizada pelos cientistas durante as controvérsias e não pode ser usada como um argumento para que se explique um fato duro. Outra questão é a de que pensar a ciência através da sociedade seria uma perspectiva assimétrica, pois sociedade e ciência estariam juntas na prática, não podendo ser separadas. Daí surgem as complicações relativas ao emprego de expressões como construção social da ciência (Latour,2000; Latour, 2001). A idéia de realidade também é um ponto a ser considerado, pois esta é discutida constantemente nos textos do autor. Ele ressalta que está longe de nós “a idéia de que os fatos – ou a realidade – não existem. Neste ponto não somos relativistas. Apenas afirmamos que essa ‘exterioridade’ é conseqüência do trabalho científico e não sua causa” (Latour e Woolgar, 1997:199). A realidade não pode ser usada como julgamento das ciências, pois a prática é também uma luta para tornar esta realidade possível. Dizer que existe um conteúdo ficcional na ciência não é negar a existência da realidade, é ressaltar que ela pode, muitas vezes, ser secretada, sendo mobilizada apenas quando as controvérsias cessaram, e o fato se instituiu. 39 Com a natureza não vai ser diferente. Ela é a causa final da resolução das controvérsias apenas quando estas já se estabilizaram, pois, enquanto durarem, a natureza será simplesmente a conseqüência final delas. Tais concepções não significam que os fatos não existem e que não precisamos da ciência, ou que tudo virou uma grande falácia. Significam que precisamos de um meio termo para que nós, que pretendemos entender a ciência, identifiquemos em que momentos os cientistas lançam mão de tais categorias e o motivo pelo qual o fazem. Tais apontamentos guardam muita semelhança com a perspectiva fleckiana levantada anteriormente. A natureza não é por si só dotada da capacidade de aplicar o carimbo do verdadeiro/falso, racional/irracional, lógico/ilógico. As “mutações” no estilo de pensamento são construídas histórica-culturalmente, e “o que era considerado há muitos anos um fenômeno natural nos parece agora um conjunto de artefatos. Rapidamente não poderemos dizer se a teoria de Koch é correta ou incorreta, pois na confusão da situação atual começariam a surgir conceitos novos, incongruentes com os de Koch” (Fleck, 1986: 72) (grifo meu) Não são apenas as idéias que se adaptam, que se transformam, a percepção do mundo também muda – esta é a natureza gestáltica da produção do conhecimento. Para muitos é difícil aceitar que a transitoriedade não é uma marca apenas dos homens. Nossas formas de ver/conhecer e atribuir significado à natureza também mudam, “somente aquilo que é realidade para a cultura, é realidade para a natureza” (Fleck, 1986:81). O advento do fato é o emblema bem sucedido de um discurso que homogeneíza o estabelecimento de uma estrutura orgânica capaz de excluir o começo do processo, um ponto de inflexão em que “surgem continuamente novas uniões e as antigas se deslocam 40 mutuamente, formando uma malha em flutuação contínua a que se denomina realidade ou verdade” (Fleck, 1986:126). Nossa a tentativa aqui foi a de mostrar como uma aliança entre dois autores importantes no cenário dos estudos das ciências pode nos ajudar a olhar com outros olhos a história das instituições médico-científicas. Longe de uma comparação sistemática e exaustiva entre os dois autores, percebeu-se, contudo, que as similitudes vão além da conclusão de que “contam-se nos dedos de uma das mãos alguns livros excelentes de memórias e de análises, escritos pelos próprios cientistas, como os de Watson (1968) ou de Fleck (1979). Por mais estimulantes que sejam estas obras, elas não podem remediar a ausência de pesquisa, de observação direta, de contradição” (Latour e Woolgar, 1997:19) Há também um outro ponto. Não pode ser esquecido que as lentes que vêem a ciência têm gradações diferentes para estes autores. Uma que se atém ao macro, outra que quer ver o micro. Consideramos que, mesmo assim, a aliança não se inviabiliza. As fontes podem requerer, em momentos distintos, problemas que exigem soluções macro ou micro. Fazer com que ela se efetive e verificar a pertinência das respostas será outra etapa do processo de pesquisa! Por hora, cabe enfrentar este novo momento partindo de uma formatação específica da idéia de ciência. Ela é interativa, articulada, sistêmica. Mas é também sonhada e imaginada. Cheia de desejos. Cabe tentar analisar, como os “homens de sciencia” do Instituto Ezequiel Dias fizeram o discurso tornar secretas questões que a prática, a história e a cultura insistiram em nos fazer enxergar. 41 Capítulo 2 – Belo Horizonte: Um espaço para a ciência A inauguração do Instituto Ezequiel Dias em Belo Horizonte17, cidade fundada em 1897, representava o novo e o moderno para a capital de Minas. É reveladora de um grande empreendimento e de sujeitos que lutaram para fazer a semente da ciência florescer em um espaço privilegiado, o da urbe construída sob égide da Modernidade, de ruas largas, planejada nos ditames científicos da Higiene. Veio como filial do Instituto Oswaldo Cruz, comumente chamada de Manguinhos18. E ser ligada a Manguinhos significava muito neste período. O Instituto Oswaldo Cruz tornara-se um locus importante para a medicina, seja do ponto de vista de novos modelos de organização das instituições médico-científicas, seja do ponto de vista da circulação das idéias no interior da ciência médica: a novidade da vez era a microbiologia. O paradigma microbiológico vem empreender uma verdadeira revolução na prática científica. A partir dele, começa o momento de uma verdadeira caçada aos invisíveis. É a hora de lidar com novas formas de percepção da doença que passam pela etiologia até a pesquisa, que ganha novos contornos experimentais e torna o laboratório um espaço por excelência da atividade científica. Essa percepção culmina, dentre outras 17 A análise, do ponto de vista histórico, da fundação do Instituto filial de Manguinhos em Belo Horizonte, foi feita pela primeira vez por Marques (1997). 18 A denominação de Manguinhos deve-se à localização do Instituto no Rio de Janeiro, na Fazenda de mesmo nome, região de difícil acesso e repleta de mangues. 42 questões, numa nova lógica de organização das instituições biomédicas. As que persistem reformulam-se, e inúmeras vão surgir sob os novos modelos. Nesse contexto de mudanças das idéias, a ameaça da peste bubônica ao Brasil, em 1889, colocou necessidades prementes a serem resolvidas. No caso de uma epidemia era preciso ter institutos, pois a importação do soro era cara, e o tempo de viagem colocava em dúvida a própria eficácia do medicamento. É assim que surge o antigo Instituto Soroterápico no Rio de Janeiro, primeiramente subordinado à municipalidade e, depois, federalizado. Anos mais tarde ganharia o nome do médico-sanitarista Oswaldo Cruz, figura chave desses novos saberes médicos no Brasil. A história de Manguinhos impressiona pela metamorfose dessa instituição. De um limitado laboratório à Instituição de arquitetura imponente e influência científica decisiva no Brasil e internacionalmente. A capacidade de crescimento foi para além da cidade do Rio de Janeiro, e Belo Horizonte tornou-se o palco da fundação da primeira filial do Instituto Oswaldo Cruz19. Os primeiros anos vão ser cruciais para legitimação desse novo espaço institucional no contexto mineiro. A Instituição não vai fazer por menos. Um espaço pequeno, a princípio com poucos funcionários. Mas a vocação para atividades diversificadas já começa a aparecer desde os primeiros tempos. Ezequiel Dias seria o responsável por fazer a semente da ciência florescer por entre as montanhas de Minas. Para tal tarefa teve a contribuição de alguns outros personagens que ajudam na mobilização da ciência no interior de uma Instituição e buscam torná-la peça importante no quadro da saúde no Estado de Minas Gerais. A perspectiva, por agora, é a de traçar a história desse momento inicial que exigiu de diversos atores amplas estratégias e mobilizações que fossem capazes de fazer 19 Ver, para a história de Manguinhos, Benchimol (1990); Benchimol e Teixeira (1993). 43 deles, e da Instituição da qual faziam parte, personagens importantes para legitimação de novas idéias científicas. É o momento de pensar como os espaços institucionais ocupam lugar de destaque na construção dos fatos científicos, diante do novo modelo microbiológico. I – As instituições científicas no contexto das transformações da microbiologia O último quartel do século XIX é decisivo para que os seres microscópicos passem a figurar como atores importantes nas ciências. Se sua existência já era discutida há muito tempo, é com Pasteur20 e sua instituição francesa que se inicia o processo em que eles passam a compor a linha de frente da eterna guerra da medicina contra as doenças. Pasteur foi importante para que um invólucro espaço-temporal fosse construído ao redor dos invisíveis. É uma mudança significativa, pois agora o campo de atuação médica sofre um deslocamento. A arte de curar como espaço privado da relação de proximidade entre médico e paciente sofre uma transformação. O impacto não é apenas o de ver como seres invisíveis vão se tornando visíveis aos olhos através do 20 Pasteur nasceu em Dôle, na França, em 27 de dezembro de 1822. Sua área de formação era a química, e ele tornou-se professor da disciplina na Faculdade de Ciências de Lille. Por volta de 1857 inicia seus estudos a respeito da fermentação láctea. Recebeu prêmios da Sociedade Real de Londres por sua atuação na cristalografia. Em 1865 foi premiado pela Academia Francesa pelos estudos sobre a fermentação. Dedica-se, também, à raiva, à cólera aviária, dentre outros assuntos. Em 1888 é inaugurado o Instituto Pasteur. Morreu aos 70 anos, em 28 de setembro de 1895, numa cidade nas proximidades de Paris. Para a trajetória de Pasteur e seu papel na promoção de uma revolução pasteuriana, ver Benchimol (1990, 1999) e Teixeira (1995). De acordo com Porter, “de modo algum foi Pasteur o inventor da ‘teoria microbiana’ – a de que a doença é causada pela invasão do corpo por microorganismos vivos -, pois ela era veiculada desde longa data. Mas ele foi o primeiro a mostrar, através de demonstrações experimentais convincentes, que determinados micróbios efetivamente causavam determinadas doenças – no gado, nos suínos, nas aves domésticas e, por fim, nos seres humanos” (Porter, 2004: 108). É bom que se diga que, apesar de Pasteur não ter sido quem inventou a teoria microbiana, foi ele quem soube “se servir” de um invólucro espácio-temporal específico do século XIX, para que o micróbio passasse a figurar entre um dos principais inimigos da medicina. Daí se justifica, por exemplo, a afirmação de Latour de que os micróbios não existiam antes de Pasteur (Latour, 2001). 44 microscópio21, mas, sobretudo, o fato de o potencial aterrorizador na transmissibilidade de doenças também tornar-se claro. As cidades européias que passam, ao longo do Oitocentos, por uma grande explosão demográfica têm uma outra multidão com a qual se preocupar22 – a de micróbios. Foi assim que as políticas de saúde pública passam a ser decisivas, tendo em vista o potencial socializador desse agente transmissor das doenças, dada a sua capacidade de circular e atingir alvos distintos, quadro que se mostra mais aterrador quando começa a ser vislumbrado seu potencial mortífero23. Dessa forma, foi preciso mudar as práticas, e a microbiologia “refundiu a legislação e organização institucional da saúde pública; penetrou nos hospitais, modificando sua arquitetura, redefinindo seus serviços e reordenando os gestos e a indumentário dos cirurgiões”. (Benchimol, 1990: 6) Em 14 de novembro de 1888, o Instituto Pasteur de Paris foi inaugurado. Sua história de atuação no campo científico francês e europeu também impressiona. A estruturara organizacional, que privilegiava certa autonomia em relação ao Estado francês e à Universidade, pode ter contribuído para o seu sucesso vertiginoso. A autonomia administrativa foi facilitadora no processo de arregimentação de aliados para o instituto, os quais vinham de setores privados e até do próprio governo. Tal organização possibilitou um crescimento tripartite: em pesquisa, produção e ensino. No Brasil, uma data marcante para a nova fase da institucionalização é o ano de 1899, com a ameaça da chegada da peste bubônica ao porto de Santos. Antes da chegada da doença no Rio de Janeiro, o poder público solicitou a criação de um 21 De acordo com Porter, dentre outras transformações técnicas que foram importantes para a medicina, já na primeira metade do século XIX, “o microscópio também foi imensamente aperfeiçoado, a partir de aproximadamente 1830, pela correção da distorção, que permitiu rápidos progressos na nova ciência da histologia, ou estudo do microscópico dos tecidos” (Porter, 2004: 104). 22 Para a questão das multidões no século XIX, ver Bresciani (1992). 23 Para maiores detalhes a respeito das mediações entre a microbiologia e a Saúde Pública, ver Rosen (1994). 45 laboratório soroterápico, nos moldes do Butantan. O Barão de Pedro Afonso foi o responsável pelo Instituto Soroterápico Municipal, do qual Oswaldo Cruz seria o técnico. A Fazenda de Manguinhos passou por uma reforma, e em 9 de maio de 1900 o laboratório foi para a esfera federal, mas foi em dezembro 1902 que Oswaldo Cruz assumiu a direção do Instituto. Como foi dito, a microbiologia suscitou novas formas de o poder público encarar as questões de saúde. Em alguns estados brasileiros, as mudanças científicas culminaram na criação de serviços sanitários e de inúmeras instituições sob os auspícios do novo arcabouço. Em 1891 aconteceu a criação do Serviço Sanitário de São Paulo, que foi órgão responsável pela saúde durante 47 anos, tendo substituído a Inspetoria da Província do período Regencial. O serviço compreendia diversas Seções: Laboratório Farmacêutico, Laboratório de Análises Químicas, o Laboratório Bacteriológico, que foi chamado depois de Instituto Bacteriológico, um Instituto Vacinogênico, Desinfectório Geral, a seção Demógrafo-Sanitária, Hospital de Isolamento e o Instituto Butantan (Almeida, 2003: 59). O Instituto Bacteriológico Paulista já denotava esse novo viés da saúde, pelo nome e por ser responsável pela microscopia e microbiologia, quando os assuntos fossem epidemias, endemias e epizootias24. Para dirigi-lo foi chamada uma figura que, em tese, seria capaz de integrar a Instituição ao que havia de mais moderno no campo científico. Indicado por Pasteur, veio Le Dantec, em curta passagem (dezembro de 1892 a abril de 1893), sendo substituído por Adolfo Lutz, que ficou no cargo até 1908. 24 A epidemia é caracterizada por doença infecciosa, de caráter transitório e que atinge grande número de pessoas em uma determinada localidade; as endemias ocorrem em populações e/ou regiões específicas; as epifitias são doenças, de caráter epidêmico que afetam os vegetais; epizootia é a doença que se dissemina com rapidez e apresenta grande número de casos entre os animais. 46 Com o surto de peste bubônica em Santos foi necessária a implantação de um laboratório exclusivo para produção do soro antipestoso. Instalaram-no na Fazenda Butantan, em 1900. Vital Brasil, que havia participado das pesquisas que diagnosticaram a peste no porto santista, foi incumbido de dirigi-lo. Em 23 de fevereiro de 1901, o Instituto desvinculou-se do Bacteriológico e ganhou autonomia, passando a se chamar Instituto Soroterápico do Estado de São Paulo, depois seria o Butantan (Benchimol e Teixeira, 1993). Em Minas, a organização de um serviço sanitário efetiva-se em 1895, com o Decreto lei nº 144, de 23 de julho de 1895. A lei dá o tom da nova lógica organizacional nas terras mineiras, que deveriam ser protegidas da presença dos seres microscópicos: Art. 1º O Serviço Sanitário do Estado, subordinado à Secretaria do Interior, será dirigido: I - Por um conselho de saúde pública, que será o órgão consultivo do governo nas questões referentes à higiene e salubridade. II - Por uma diretoria de higiene encarregada da execução do regulamento sanitário que disporá de um instituto vacinogênico e para análises químicas e de aparelhos de desinfecção. III - Por delegacias de higiene e de vacinação nos municípios, subordinados à Diretoria de Higiene. IV - Por engenheiros, comissários de higiene e desinfetadores contratados pelo governo. § 1º A diretoria de higiene se comporá do seguinte pessoal: a) De um diretor; b) De um subdiretor; c) De um chefe de laboratório; d) De um secretário e) De um auxiliar técnico do chefe de laboratório; f) De dois amanuenses; g) De um porteiro, que também exercerá as funções de contínuo e de três serventes. Deverão ser médicos o diretor, o subdiretor e o secretário; o chefe de laboratório deverá ser profissional de provada competência. (Minas Gerais, 28 de Julho de 1895: pp. 1-2) A atuação da Diretoria de Higiene era ampla. Tinha funções de estudo, profilaxia e ação, que incluíam organização e fiscalização, no que se referia às questões 47 de saúde no Estado: estudo e saneamento; meios de prevenção; organização dos socorros de assistência médica; inspeção de escolas, fábricas, hospitais, hospícios, prisões, etc.; fiscalização dos alimentos, águas minerais; fiscalização da profissão médica; superintendência da polícia sanitária; organização da estatística demográficosanitária; fiscalização de cemitérios e obras públicas. O regulamento de Minas mostra a tentativa de colocar-se, do ponto de vista da ação pública, o Estado de Minas Gerais em consonância com os novos modelos de gerência dos assuntos relativos à salubridade dos espaços. O regulamento de 1895 também contempla a existência de um serviço de profilaxia que estaria incumbido dos “trabalhos de desinfecção na Capital e nos municípios, a remoção de doentes e cadáveres de moléstias contagiosas e o isolamento de removidos” (Idem). Em acréscimo ao que pôde ser verificado, convém dizer que o Serviço Sanitário do Estado não foi organizado automaticamente. Alguns órgãos previstos na lei de 1895 só foram criados anos mais tarde25. O Estado sentiu a necessidade de adequação, mas, sobretudo, houve uma atuação com vistas aos surtos epidêmicos e episódicos. Não se pode falar em uma preocupação sistemática e complexa da noção de saúde nesses momentos iniciais. Prova disso é que algumas regiões de Minas eram objeto específico de possíveis intervenções, como demonstra a Lei 200, de 1896, que “autoriza o governo a mandar estudar as condições que tornam a zona da Mata constantemente vítima de moléstias infectocontagiosas, nomeando uma comissão e médicos e de engenheiros para organizar um plano de defesa sanitária” (Minas Gerais, 23 de setembro de 1896:1). A lei externaliza a postura do Estado para quaisquer obras que se façam necessárias e que 25 A Seção de Estatística da Secretaria do Interior seria criada com o decreto 1421, em 1900 (Minas Gerais, 22 de Outubro de 1900). 48 possam, assim, estabelecer as “boas condições sanitárias daquela zona”. A ação governamental era localizada, tópica. Com o Decreto 1145, de 27 de junho de 1898, é promulgado o Regulamento de Defesa Sanitária e Higiene Profilática a que se referem as leis 144 e 200. Sobre o Regulamento sanitário cabe dizer que tentou pormenorizar o âmbito de atuação do Serviço Sanitário em Minas Gerais: enfatizou os trabalhos de desinfecção na Capital e nos municípios, o isolamento dos doentes, adoção de meios preventivos às moléstias epidêmicas e endêmicas transmissíveis aos homens e animais, além de meios de melhoramento das condições sanitárias de populações agrícolas e industriais, e abordou a incumbência do serviço quanto à indicação de meios necessários para o saneamento das diversas regiões (Minas Gerais, 27 de Junho de 1898: 1). O Regulamento ainda estipula a criação de uma Estação Central de desinfecção na Capital e outras quatro, em Juiz de Fora, São José do Além Paraíba, Cataguases e Pouso Alegre. Além de estipular a existência dos hospitais de isolamento, especificou que um deles deveria ser localizado na Capital do Estado. Para esses, cabe ressaltar que, “além da boa, larga e abundante ventilação, iluminação e abastecimento de água, da fácil disposição de suas paredes, soalhos e tetos para o serviço de desinfecção serão postos em contribuição todos os conhecimentos adquiridos pela higiene moderna, para que satisfaçam os fins a que são destinados” (Minas Gerais, 22 de Outubro de 1900: 2). É importante observar que a lei dá nome a alguns daqueles que seriam considerados os inimigos da saúde. Daí a necessidade do isolamento dos doentes atacados e a estipulação de quais seriam as doenças e seus agentes causadores, algo que mereceria maior atenção das autoridades. De acordo com o Art. 90, “para todos os efeitos serão considerados como moléstias cuja notificação é compulsória as seguintes: 49 febre amarela, difteria, cólera morbus, peste, sarampo, escarlatina e febre tifóide” (Idem). A remoção do doente seria feita quando a casa do mesmo não apresentasse as condições apropriadas. No caso de isolamento domiciliar ou de falecimento, os cuidados seriam rigorosos, apontando-se que “o aposento interditado se conservará de portas e janelas fechadas pelo prazo mínimo de 4 horas para que os germens em suspensão no ar sejam arrastados pela ação da gravidade e pousem sobre as superfícies” (Idem). É interessante a mistura que se faz no campo das idéias entre as concepções miasmáticas e as novas teorias bacteriológicas. Ao que parece, a identificação do agente causador da doença é apontada, mas o arcabouço no qual se tenta entendê-la e eliminála ainda continua emaranhado em concepções anteriores26. A lei pondera que “tudo mais que não se acha consignado no presente regulamento proceder-se-á de acordo com as práticas aconselhadas pela ciência”. Cabe tentar entender como essas práticas científicas estavam inseridas em um processo lento e que sua aceitação e legitimação exigiriam um amplo leque de mobilizações simbólicas, as quais iriam para muito além do texto oficial. A nova cidade também surgiu mergulhada nos pensamentos que misturavam a salubridade dos espaços e a microbiologia. 26 Durante o século XIX houve um intenso debate entre contagionistas e infeccionistas a respeito da compreensão da origem das doenças e, por suposto, acerca de como as autoridades deveriam agir para debelá-las. Por contágio entendia-se a doença a partir de sua capacidade de se comunicar com os indivíduos diretamente, através de objetos ou, mesmo, pelo ar do ambiente em que determinado doente estivesse. A doença se propagava de indivíduo para indivíduo, sem a interferência de fatores atmosféricos ou de qualquer outro que não se referisse ao doente “contaminado”. Já com a tese da infecção, a doença era entendida como decorrência dos ares putrefatos que emanavam dos doentes e infestavam o ambiente com “miasmas mórbidos”. Determinados climas e solos eram vistos como agentes facilitadores da propagação desses maus ares. Chalhoub salienta que, no Brasil, não havia unanimidade em relação a um ou outro paradigma, e algumas doenças, como a cólera e a febre amarela, produziam combinações inusitadas entre as duas concepções (Chalhoub, 1996). 50 II – A saúde e a cidade moderna A imagem de uma Belo Horizonte salubre desempenharia um papel importante dentro dessas operações simbólicas e essas aproximações entre os espaços urbanos e a novidade microbiológica, cumpririam um papel importante no complexo processo de aceitação e cristalização das novas práticas científicas. O antigo Curral Del Rei preenchia amplos requisitos para ser a nova capital de Minas: águas, solo e relevo favoráveis; o clima ameno, a localização geográfica central. Tais características tornariam o novo espaço higiênico e saudável, em sintonia com as novidades científicas e republicanas. Mas houve contestações dessa imagem, em grande medida, por conta do bócio e do cretinismo que assolavam a região. Os apelidos de “Papudópolis” e “Arraial dos Papudos” se espalharam e eram usados de forma jocosa por aqueles que eram contrários à mudança da capital para a região. Para alguns, as causas da doença estavam na água. Outros associavam o bócio ao cretinismo, doença que gera disfunção nos ossos do crânio, além de problemas no desenvolvimento físico e mental. Desde 1893 e do início das discussões a respeito da mudança da capital, relatórios foram produzidos acerca da situação de Belo Horizonte. A incidência da enfermidade era colocada como um sério obstáculo a sua candidatura (Marques e Mitre, 2004). Mesmo com a vitória obtida por sua escolha como a nova capital de Minas, o problema não deixou de ser discutido. Um contemporâneo da época pintava um quadro bem diferente da cidade saudável, higiênica e livre de doenças: “O tipo geral deste povo é doentio. Magros, pouco desempenados, na maioria havendo grande proporção de defeituosos, aleijados e raquíticos. Ora, esta fisionomia quase geral da população de Belo 51 Horizonte desarmoniza completamente com a amenidade do clima, com ar seco e batido quase constantemente pela brisa, com a natureza do solo que é magnífica” (Alfredo Camarate Apud Marques e Mitre, 2004: 187). Até mesmo Oswaldo Cruz esteve em Belo Horizonte em 1901, em uma viagem de estudos. Contudo, não há informação a respeito de nenhum trabalho ou relatório do médico a respeito dessa questão (Idem). A questão do bócio foi objeto de estudo e intenso debate a respeito da sua etiologia. Pesquisas posteriores seriam realizadas por Baeta Vianna 27, preocupado com a enfermidade e, sobretudo, com a degeneração hereditária que ela poderia vir a causar na população, o que poderia, como conseqüência, provocar, ao longo do tempo, uma inferiorização da raça. O próprio Carlos Chagas chegou a afirmar em estudos que o bócio era uma decorrência da tripanossomíase americana, ou seja, seria causado por um parasito (Marques e Mitre, 2004: 190). Com o tempo, essa hipótese foi perdendo terreno devido às novas pesquisas, e, cada vez mais, a tese de inicial de Baeta Vianna relativa à ausência de iodo no organismo humano foi se consolidando no meio médico e nas políticas públicas de prevenção da doença28. No tocante à saúde na capital é importante mencionar algumas mudanças na gestão administrativa do Estado, que atribui um papel ainda maior à nova cidade. Com a criação do Serviço Sanitário, a estrutura organizacional de 1895 passou por uma 27 O medico José Baeta Vianna (1894-1967) graduou-se pela Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, em 1919. Fez especialização nos Estados Unidos e, ao voltar, tornou-se o primeiro professor catedrático de Química Fisiológica do Brasil, atuando na própria Faculdade de Medina de Belo Horizonte. Pode-se dizer que, a partir daí, constituiu um grupo importante para a formação de especialistas, muitos dos quais se espalharam por outras instituições do Brasil. A valorização que ele atribuía ao papel formativo na área pode ser mensurada através da importância que ele deu à biblioteca da Faculdade de Medicina, recriada por ele em 1926 e por ele dirigida, durante muito tempo, até a sua aposentadoria, em 1964. Hoje ela recebe o seu nome. Ver: SANTOS, Tomaz Aroldo da Mota. A história do Departamento de Bioquímica e Imunologia [on line]. Disponível na internet: http://www.icb.ufmg.br/biq/biq/conheca.htm. s/d 28 A iodação do sal, como medida legal, a partir da década de 50 torna-se símbolo da aceitação da explicação da doença como sendo causada pela carência do iodo. 52 sensível mudança a partir de uma nova reforma administrativa em 1898. Houve demissão de pessoal visando à contenção de despesas, e a Diretoria de Higiene estadual foi desativada, sendo suas funções transferidas para a prefeitura da Capital. Quanto aos outros municípios do Estado, as questões de saúde ficariam sob a responsabilidade dos delegados de higiene e vacinação, em cada local. Um nome que não pode deixar de ser lembrado nesse processo é o de Cícero Ferreira (1861–1920). Importante figura dos primórdios da medicina na capital de Minas, desde o período da construção, Ferreira nascera em Bom Sucesso e diplomara-se na Faculdade de Medicina do Rio de janeiro, em 1885. Após a formatura trabalhou como clínico em São Sebastião da Estrela e na sua cidade natal, vindo para Belo Horizonte em 1894 para se integrar ao corpo de funcionários da Comissão Construtora (Salles, 1997). O esculápio é das figuras mais ativas na saúde pública na capital, sua atuação mostrando-se abrangente e decisiva para a profissionalização do campo médico e indo desde a fundação e a participação em entidades de classe, até a criação de hospitais, além de constituir-se em um dos principais articuladores na fundação da Faculdade de Medicina em Belo Horizonte. Ferreira chegou a ser prefeito interino da Capital entre 20 de abril a 10 de maio de 1905, fato simbólico da credibilidade do médico junto à sociedade belo-horizontina. No início de seus trabalhos na Comissão Construtora da Capital era o escriturário da 2ª Seção, designada como Fotografia e Meteorologia. 1895 é também o ano de reorganização da comissão, que passa a ser dirigida pelo Engenheiro Francisco Bicalho. O médico Cícero Ferreira passou, com a mudança, da 3ª Divisão de Serviços Municipais para a 1ª. 53 Um fato importante nos anos em que a cidade seria levantada como capital foi a construção, às pressas, em 1896, de um hospital de isolamento, num barracão de pau-apique e cobertura de zinco, que foi improvisado na região do Calafate. Tal iniciativa se deve ao surgimento de casos de varíola no pessoal responsável pela construção da capital e diante das dificuldades na remoção de doentes até a distante Santa Casa de Misericórdia de Sabará. Como foi dito acima, em 1898, o Decreto 122 vai promover uma reforma com a pretensão de diminuir gastos. Cícero Ferreira vai ser nomeado médico da Prefeitura, lotado na Diretoria de Obras. Como médico da capital, permanece no cargo até 1906, quando pede exoneração. Durante esse período, suas funções na administração pública das questões de saúde serão muito amplas: saneamento das localidades e habitações, com vista às condições sanitárias da população; políticas de prevenção das epidemias e endemias; direção do vacinogênico; inspeção de escolas, fábricas e locais públicos; fiscalização do exercício da profissão médica; superintendência da polícia sanitária; organização da estatística demografo-sanitária; fiscalização de cemitérios e matadouros. A amplitude da atuação devia-se ao fato de terem sido essas as atribuições do antigo cargo de Diretor de Higiene de Minas Gerais (Marques, 1996). As poucas informações sobre o Hospital de Isolamento da capital, em 1896, levam a crer na sua existência efêmera, para atender a uma demanda específica. Notase que era premente a necessidade de uma instituição hospitalar que conseguisse agregar a complexidade dos assuntos de saúde que se desenhavam na nova capital, com uma população potencialmente em crescimento. 54 O perigo da epidemia da varíola em 1896 e as notícias sobre a chegada da Peste no Porto de Santos, em 1899, colocavam as autoridades em alerta sobre o assunto. É nesse contexto que surgem os primeiros movimentos relativos à criação da Santa Casa de Misericórdia em Belo Horizonte. A primeira reunião data do início de 1898, e já na segunda sessão, em 21 de maio de 1899, é organizada uma comissão, para elaborar os estatutos, composta por Cícero Ferreira, Adalberto Ferraz e Francisco Bressane. Em 18 de junho os estatutos foram aprovados, e em 25 de junho de 1899 deu-se a instalação definitiva da Sociedade Humanitária da Capital de Minas, que tinha como objetivo a construção do hospital. A prefeitura doou os terrenos, e a instituição começou a funcionar no dia 7 de setembro de 1899, em barracas de lona. A construção das edificações não tardou, e a pedra fundamental foi assentada em 16 de julho de 1900, quando o local já era nomeado Santa Casa de Misericórdia (Salles, 1997: 40). Em 03 de fevereiro de 1901 foi inaugurada a primeira enfermaria do novo hospital. Nos anos iniciais, a instituição estava com o seguinte corpo clínico: Cícero Ferreira, Olinto Meireles, Salvador Pinto e Benjamin Moss (encarregado da enfermaria militar). O seu primeiro provedor foi Adalberto Ferraz da Luz, engenheiro e prefeito da capital na época, que a dirigiu entre junho de 1899 e março de 190129. Cícero Ferreira também foi um importante interlocutor durante as negociações para a criação de um Instituto de pesquisa na capital de Minas. Era o último período do 29 Em uma análise mais aprofundada da Santa Casa de Misericórdia, Marques (2005) discute os conflitos internos da instituição, seu ideal caritativo e sua trajetória institucional associada a figuras como a de Hugo Werneck. A assistência à saúde da mulher empreendida por Werneck demonstra como a questão do papel do médico e da própria relação médico-paciente na cidade moderna ainda estavam regidos por muitos códigos relacionados à religião, ao pudor, à piedade, ao papel da Igreja como instância mediadora. No caso do nosso trabalho, tal perspectiva tende a nos atentar para o fato de que a microbiologia pretendeu uma ampla modificação discursiva da prática médica, salientando cada vez mais o seu caráter público e coletivo, o que não deixa de também carregar um tom “laicizador” da atividade médica, embora não se possa esquecer de que, no cotidiano, as relações entre o corpo, a doença e a morte ainda eram regidas por muitas permanências da antiga arte de curar. 55 governo do Presidente do Estado Francisco Salles, e múltiplos interesses convergiram para a vinda de uma filial do Instituto Oswaldo Cruz para Belo Horizonte. Segundo Pedro Salles: “na gênese do Instituto está uma sugestão de Cícero Ferreira ao Presidente do Estado, Dr. Francisco Salles, que então se dirigiu ao Governo Federal, propondo uma conjunção de esforços a fim de se organizar aqui uma Filial do Instituto de Manguinhos, colaborando o Executivo mineiro com a sede, e o Governo Federal com o material necessário e pessoal adequado” (Salles, 1967: 193). Questões de ordem prática e de ordem simbólica estavam imiscuídas na vinda do Instituto filial. Primeiro: era interesse do próprio Estado uma instituição que fosse capaz de pesquisar e auxiliar nas questões de saúde pública. A grande extensão territorial colocava a urgência no trato das doenças humanas e também de animais. Outro ponto refere-se ao fato que Oswaldo Cruz vinha acumulando muita credibilidade com sua atuação na saúde na capital federal e tinha o desejo de expandir o seu “jardim de infância da ciência”30 para todo o território nacional. Seu concunhado, Ezequiel Caetano Dias (1880 – 1922), havia se transferido para Belo Horizonte em busca dos ares das montanhas que pudessem ajudar no tratamento da tuberculose. Uma conjunção de fatores práticos somava-se à imagem da cidade moderna, que deveria estar em sintonia com as noções de progresso e civilização, concepções que tinham na ciência, agora intitulada por excelência experimental e laboratorial, um de seus arautos. Era o momento de jogarem-se as sementes da nova ciência em terras mineiras e de colocar-se a capital do Estado em consonância com as transformações que tornavam o momento efervescente para a prática científica. 30 Expressão que Oswaldo Cruz usava com recorrência para se referir a Manguinhos. 56 III - Ezequiel Dias e a fundação do Instituto Ezequiel Dias é dessas figuras singulares na história da medicina. Sempre reverenciado por seus contemporâneos. É daqueles sujeitos que desperta a curiosidade não apenas pelo lado científico, acadêmico, mas também por seus talentos literários, que o faziam um exímio tradutor de Baudelaire nas horas vagas, além de sua figura pessoal, cabelo e roupas que davam em alguns a impressão de um tom aristocrático e que acabaram o tornando, sem dúvida, uma figura particular. Nasceu em Macaé, no Estado do Rio de Janeiro, em 11 de maio de 1880. Filho do professor Caetano Dias e da Dona Elisa Gonçalves Dias. Ezequiel Dias formou-se em Farmácia no ano de 1900, no Rio de Janeiro. Estava também no quarto ano do curso de medicina e já era ajudante do Instituto fundado pelo Dr. Pedro Afonso e, depois, dirigido por Oswaldo Cruz, de quem seria o proclamado discípulo. Ao que parece, a profissão de farmacêutico havia sido escolhida, primeiramente, como ocupação imediata para que o rapaz assim pudesse ajudar a família. Em 1902 formar-se-ia em medicina, com a tese de doutoramento intitulada Hematologia Normal. Ezequiel ali esteve, portanto, desde os primeiros tempos daquilo que Oswaldo Cruz gostava de chamar de “templo da ciência”, naquele tempo um pequeno laboratório, de difícil acesso em uma região de mangues. O primeiro contato de Oswaldo Cruz com Ezequiel Dias não deixa de haver certa peculiaridade. Conta-se que a própria irmã de Dias interveio junto a Alfredo Porto, um colega com quem Oswaldo Cruz mantinha um laboratório particular na cidade do Rio de Janeiro, solicitando-lhe uma colocação para o irmão. O laboratório foi fechado, mas Oswaldo Cruz foi chamado para atuar no antigo Instituto Soroterápico, e, então, 57 decidiu convidar Dias. Durante a entrevista e o primeiro contato do mestre com o futuro discípulo, teria acontecido a seguinte indagação: “- Em que ano está o senhor? - No terceiro. - Tem medo da peste? - Não, Senhor. - Está disposto a trabalhar tantas horas quantas forem necessárias para cumprir as suas obrigações, sem dependência de nenhum horário fixo? - Perfeitamente. - Agora uma última pergunta, à qual ligo muita importância: o senhor conhece alguma cousa de bacteriologia? O Moço teve um momento de dúvida: de um lado, a fascinação que exercia sobre si o inesperado cargo de auxiliar de um verdadeiro cientista, além dos proventos que daí lhe adviriam; de outro lado, a consciência, que o compelia a dizer o a verdade. Optou por esta, deixando-se, porém, cair, interiormente, numa crise de abatimento moral. - Não, senhor. - Pois está muito bem; é esta uma das condições exigidas. Tempos depois, valendo-se da bondosa condescendência do Mestre, o ex-recruta perguntou-lhe curioso: - Lembra-se das condições que o senhor me apresentou, para ser seu ajudante? - Mais ou menos. - Por que é que o senhor fazia questão de um auxiliar sem nenhum conhecimento de microbiologia? - Por uma razão muito simples: porque se você soubesse alguma cousa da matéria, devia ser muito pouco, só servindo pra lhe dar presunção e, portanto lhe dificultar o aprendizado. E eu prefiro certos ignorantes...” (Magalhães, 1957: pp. 128-129) E foi dessa forma que Ezequiel começou a trilhar sua trajetória pelos caminhos da medicina experimental. No início do século, o beribéri era uma doença que despertava a curiosidade quanto a sua etiologia. Muito se especulava, e alguns até diziam de uma origem microbiana31. Tendo em vista as necessidades de uma definição clínica do caso, o Ministro da Justiça nomeou, em janeiro de 1904, uma comissão para estudar a etiologia e a profilaxia do beribéri. Junto com Ezequiel Dias foram nomeados Henrique da Costa 31 Hoje se sabe que o beribéri é provocado pela carência de vitamina B1. 58 Lima, Francisco Fajardo, Pedro de Almeida Magalhães, Carlos Carneiro de Mendonça. Segundo Octavio Magalhães, essa teria sido a primeira comissão fora de Manguinhos. No começo de 1905, nosso médico seria nomeado para uma segunda comissão fora do Rio de Janeiro, como Diretor de Higiene do Laboratório Bacteriológico do Maranhão. A capital São Luiz havia passado por uma devastadora crise de peste bubônica. Na estadia de Ezequiel lá, coube a ele reorganizar os serviços técnicos do laboratório e ampliar sua atuação no Estado do Maranhão. Porém, a tuberculose provocou mudanças na vida de Ezequiel, e chegara a hora de ele vir para Belo Horizonte em busca dos ares da cidade mineira benéficos para o tratamento da tuberculose, como se acreditava. Nesse mesmo ano, 1905, ele chega à capital de Minas, tendo ficado um ano afastado de qualquer atividade científica. Octavio Magalhães conta em seus Ensaios que, mesmo sendo requisitado a poupar-se de atividades, Ezequiel Dias não suportou fazê-lo e, como não podia sair de sua casa, localizada no Bairro da Serra, montou lá mesmo um “pequeno laboratório com microscópio, lâminas, lamínulas, bateria de corantes, para exames ligeiros e diretos. Era um verdadeiro pequeno laboratório de urgência” (Magalhães, 1957: 209). Assim que melhorava, trabalhava na preparação da fundação do Instituto, um anseio que começava a se tornar realidade. O desejo de Oswaldo cruz, somado ao interesse do Estado de Minas Gerais e ao fato de que Ezequiel Dias “voltara do Maranhão, necessitando viver em clima de montanha”, foi fator crucial para uma mobilização que culminou com o aceite do governo central, ainda em 1906. Como mostra o ofício do Ministro da Justiça e Negócios Interiores: “Tendo eu resolvido aceitar a proposta que, em ofício de 16 do corrente, me foi feita pelo Secretário de Finanças do Estado de Minas Gerais, para instalação, na cidade de Belo Horizonte, de um estabelecimento filial do Instituto Soroterápico Federal para 59 estudo das diferentes epizootias, que reinam nos centros pastoris, recomendo-vos providências no sentido de, com a possível brevidade, de ser instalado o dito estabelecimento, para cuja criação o Presidente do Estado supra mencionado oferece a necessária casa, bem como os terrenos precisos para o plantio e forragens. Autorizo-vos, outrossim, a destacardes para o estabelecimento a criar-se um dos médicos assistentes do Instituto Soroterápico Federal”. (Idem: pp. 184-185) O governo de Minas seria responsável pelas acomodações, e Manguinhos, pelo corpo de funcionários e o material. O lugar escolhido, como foi dito, era bem emblemático, no abrigo do poder, numa rua movimentada da capital ainda jovem de Minas Gerais – na Praça da liberdade, com entrada pela Rua da Bahia. Antes mesmo da inauguração inicial, o Instituto já era notícia devido à instalação das luzes do local, cerimônia em que esteve presente, dentre outros, o Presidente do Estado João Pinheiro da Silva e Luiz de Morais Junior, responsável pelas obras de Manguinhos e por seu estilo eclético, agora também incumbido da mais nova filha da “casa da ciência”. O arquiteto fez a adaptação do prédio às condições que propiciassem que ali germinasse um laboratório científico. O jornal Minas Gerais, órgão oficial do Estado, noticiou o acontecimento, e Magalhães transcreve ao leitor em seu relato de memórias: “Realizou-se ontem (27 de julho de 1907), a presença do dr. João Pinheiro da Silva, especialmente convidado pelo Dr. Luís de Morais Junior, engenheiro de obras do Ministério da Indústria, a inauguração da luz desse importante estabelecimento científico, destinado a prestar ao Estado incalculáveis serviços especialmente na produção de linfas vacínicas, contra as diferentes moléstias que são o tormento dos criadores de gados bovinos, cavalar e suíno. Haverá nesse estabelecimento seções especiais para o preparo e conservação do soro antidiftérico e anticarbunculoso. A iluminação ali instalada é produzida pela gasolina, fornecendo uma luz incandescente, de belo aspecto. Os visitantes foram recebidos pelo Dr. Borges da Costa, que ali se 60 achava, representando também o Sr. Ezequiel Dias, médico do estabelecimento” (Magalhães, 1957: 181). Em 3 de agosto de 1907, o Instituto Filial do de Manguinhos seria definitivamente inaugurado com o devido cerimonial: “Reliza-se hoje, ás 4 horas da tarde, com a presença do Exmo. Sr. Dr. João Pinheiro da Silva, presidente do Estado a inauguração oficial desse importante e útil estabelecimento, aqui fundado pelo governo da União sob a direção do distinto médico Sr. Dr. Ezequiel Dias”(Minas Gerais, 3 de agosto de 1907. p. 6). A notícia da fundação do Instituto correu por terras mineiras através do Minas Gerais, com uma minuciosa descrição espacial do Instituto e seus vários ambientes. A entrada principal, onde estaria a fachada, seria voltada para a Rua da Bahia. Por esta entrada estariam instaladas três dependências: gabinete do diretor técnico, a sala de espera e a sala da vacinação. Um salão principal seria “destinado a experiências diversas e inoculação de bezerros”, e, de acordo com a descrição, nesse local se encontraria “um aparelho de contenção dos bezerros, um forno Pasteur, vários maçaricos e uma autoclave, para esterilizações, havendo ainda mesas para estudos em animais mortos e um aparelho para trabalhos de vidros”. Fica claro que o Instituto era um símbolo de uma modernidade científica que se encarnava na microbiologia, sendo a descrição do espaço e dos equipamentos adequados às novas idéias também símbolo de que a instituição já prenunciava ser um espaço de luta pela legitimação de um paradigma. A descrição das faces laterais esquerdas e direitas do salão, em que se encontram “os gabinetes de bacteriologia com estufas de cultura, microscópios e vasilhame 61 apropriado para estes estudos”, dá a tônica da interface agora estabelecida entre o laboratório, a microbiologia e seus artefatos na produção dos fatos científicos. Os estudos da varíola, enfermidade, de surtos antigos na capital, sob a mira dos poderes públicos, teria um espaço específico com “a sala de vacinação contra a varíola, onde existem aparelhos para maceração, distribuição, etc., bem como pias e mesas de cimento, para experiências”. As instalações também contemplavam um espaço específico para a produção de soro contra a raiva. Conta-se, ainda, um gabinete para os meios de cultura que seriam empregados no laboratório do Instituto, além da parte de fora das instalações, onde se encontrariam o pavilhão dos bezerros e as casas de coelhos e cobaias. Ezequiel Dias não esteve presente na inauguração por se encontrar doente e acamado, tendo sido representado por Borges da Costa. IV - Percurso histórico do Instituto Ezequiel Dias A partir do momento em que os diversos interesses se conjugaram na fundação de um instituto em Belo Horizonte, os envolvidos trataram de efetivar a questão. A Filial ganharia status importante no cenário das políticas públicas relativas à saúde. Bem antes da inauguração, a legislação estadual referente à saúde dava espaço para o estreitamento entre o governo Estadual e o Instituto Manguinhos, como pode se verificar através da Lei nº 452, de 9 de outubro de 1906, que, dentre outros assuntos, aborda a relação entre a Instituição e o Estado: “Art. 3º. Fica o governo autorizado a contratar com o Instituo de Manguinhos, ou outro congênere, o fornecimento de vacina e soros de que necessitar a Diretoria de Higiene, bem como a entrar em acordo com as filiais do mesmo Instituto pra estudo 62 bacteriológico de todas as moléstias epidêmicas ou endêmicas que grassarem no território do Estado, devendo fazer parte do acordo o estado de epizootias”. (Minas Gerais, 10 de Outubro de 1906) A lei 452 vinha para reorganizar o serviço sanitário do estado e por ela se via que a relação com Manguinhos era complexa e abrangente, pois implicava no fornecimento de soros e vacinas, além de fazer das enfermidades que viessem a perturbar a ordem salubre do Estado objeto de estudo pelos parâmetros microbiológicos. Com a fundação do Instituto em 1907, a relação com o poder iria estreitar-se cada vez mais, e a Instituição tornar-se-ia, ao longo do tempo, peça chave para as medidas estaduais no campo da saúde. Não podemos deixar de salientar como a visão da atividade médica naquele período era muito ampla. Muitas divisões, que nos parecem hoje nítidas, não se davam naqueles tempos. Veja-se o caso desses nossos médicos, que atuavam no campo da pesquisa e produção de gêneros biomédicos, passando pelo estudo das doenças em plantas (epifitias), as doenças de caráter infectocontagioso e epidêmico em animais (epizootias), sem perder de vista a relação médico-paciente, que não deixara de existir (sendo a atividade clínica ainda muito estimada pelos doutores do início do século), indo até a atividade médica que se faz pública e necessária. Esta que era capaz de investir e gerenciar intervenções no espaço urbano e rural, em um objetivo crescente de sanear os mais diversos e distantes locais. O Instituto, ainda filial, exerceria um papel de intervenção prática na saúde nesses vários campos, sem perder de vista a constante preocupação com a pesquisa. Assumiu um caráter consultivo bastante significativo em relação ao Estado. É preciso dizer que o Instituto foi maleável o suficiente para acompanhar todas as mudanças na relação entre o Estado e os assuntos relativos à saúde. 63 Desde a reforma estipulada em 1906, Lei nº. 452, citada acima, as relações entre o governo estadual e o Instituto estariam assentadas em bases legais. Mas a reorganização propriamente dita apenas ocorreu em 1910, quando os serviços são sistematizados com o decreto 2733, de 11 de Janeiro de 1910. A Diretoria de Higiene Estadual, que havia sido extinta, retorna e passa a ter Zoroastro Rodrigues de Alvarenga como Diretor, Samuel Libânio como Médico-auxiliar e Levy Coelho da Rocha no cargo de Secretário. A Diretoria estaria subordinada à Secretaria do Interior e seria composta por: um laboratório Químico de Análises, Serviço Geral de Desinfecção, Estatística Demógrafo-sanitária e Hospitais de Isolamento. Com a posse de João Pinheiro na presidência do Estado de Minas Gerais, Cícero Ferreira vai ser nomeado para direção da Sessão do Café. Em 1909, como funcionário da Diretoria de Agricultura, Terras e Colonização, vai ter papel decisivo na implantação dessa Diretoria Estadual de Higiene. Em 1910 houve também a inauguração de um outro Hospital de Isolamento, já mais bem estruturado do que aquele da experiência do surto de varíola na época da construção, em 1896. Seria um espaço importante para o tratamento das moléstias infectocontagiosas. Oswaldo Cruz teria dado sugestões ao planejamento, e a construção foi feita propositalmente afastada da cidade, na chamada VII zona suburbana, no bairro Cardoso. Seu primeiro diretor foi Dr. Otávio Machado, que era, na época, delegado de higiene da capital (Salles, 1997: pp. 46-47). O hospital teria também importante atuação quando a epidemia da Gripe Espanhola chegou à capital mineira, em 1918. O Instituto interagia com a sociedade e com as mudanças na saúde no Estado de Minas Gerias e atuava assim com a prestação de serviços ao poder público, mas, também, com particulares. 64 O laboratório do Instituto seguiria os passos da matriz-mãe Manguinhos no que se refere à estratégia de unir prestação de serviços no âmbito da esfera pública e privada. Naquilo que fosse referente aos seres invisíveis, ele seria aquele capaz de dar a palavra de ordem, com profissionais, aparelhamento e pessoal dotado de credibilidade científica suficiente para compor o discurso de consolidação da microbiologia na capital de Minas. Oswaldo Cruz via com bons olhos a consolidação das atividades da sua primeira filial e também se colocava na linha de frente desse diálogo constante com os poderes públicos estaduais mineiros. Alguns fatos confirmam essa tendência de pensamento do sanitarista. Em abril de 1908, ele fez uma 2ª visita a Minas (a primeira, como foi dito, ocorreu em 1900, para o estudo do Bócio). Dessa vez era diferente, pois o sanitarista vinha com um prestígio sem precedentes acumulado na ciência brasileira. Havia sido considerado vitorioso na luta do poder público contra moléstias de caráter epidêmico que assolavam a capital federal – a febre amarela e a varíola. Note-se que não fora uma empreitada fácil. As medidas de Cruz nos dois episódios foram alvo de inúmeras discussões e debates, dentro e fora do campo médico. Episódio símbolo de que as atitudes do sanitarista tiveram que passar por uma intensa luta até a sua aceitação nos eventos de 1904, com a Revolta contra a vacina obrigatória, que havia sido prescrita por Oswaldo Cruz32. Mas o momento de 1908 era distinto desses tempos difíceis, o médico vinha como um homem de ciência prestigiado internacionalmente, havia ganhado medalha de Ouro na Alemanha, em 1907, por seus trabalhos junto às epidemias. Os jornais da época ajudavam a envolver a figura de Oswaldo Cruz numa imagem de sabedoria, de homem 32 Para algumas abordagens da Revolta da Vacina, ver Sevcenko, 1984; Carvalho, 1987. 65 ligado a uma idéia de ciência e modernidade. Como não poderia deixar de ser, em Minas foi aclamado: “Os médicos mineiros, a modo do que já haviam feito os de outros Estados e países, prestaram-lhe uma significativa homenagem, oferecendo-lhe um banquete no Grande Hotel, à sua chega à Capital Mineira. A oração da oferenda foi feita por Cícero Ferreira. Oswaldo viera ver a organização da nova filial, e ao mesmo tempo, visitar o discípulo e amigo. Era a ronda da amizade, em busca dos corações sofredores” (Magalhães, 1957:191). Em carta a Zoroastro Alvarenga, então Diretor de Higiene, trazia ao representante do governo a receptividade em ampliar determinadas atividades do Instituto, com vistas ao atendimento dos interesses do Estado: “1 de Março de 1910 Prezado colega Dr. Zoroastro Alvarenga, De acordo com o que combinamos na entrevista em que tive o prazer de ouvi-lo venho hoje expor-lhe os pensamentos que me ocorrem relativamente às idéias progressistas do Governo de Minas e que teve a gentileza de me referir. Julgo que faríamos obra proveitosa ultizando-nos da Filial para preparo da vacina antivariólica e fornecimento da de peste da manqueira. Outrossim, a Filial se encarregaria dos exames necessários ao diagnóstico das entidades mórbidas e dos assuntos que interessam à higiene em Belo Horizonte. Anexa à Filial ficaria a Fazenda do Leitão na qual seriam feitas as instalações necessárias para uma enfermaria veterinária e posto de observação onde seriam examinados os animais suspeitos provenientes das zonas criadoras do Estado e onde se fariam experiências em grandes métodos profiláticos e terapêuticos, ministrando-se, ali, também, aos criadores as noções necessárias para por si poderem lançar mão desses valiosos recursos profiláticos e terapêuticos. [...]Se tais desiderat (sic) forem concretizados como é seu desejo, o Estado de Minas poder-se-á ufanar de ter sido o primeiro a ter uma instalação científica para auxiliar a indústria pastoril e, estou, certo, colherá, em breve, fabulosos juros do sacrifício que fará com novas instalações. E meu ilustrado colega prestará um inolvidável serviço a seu Estado Natal e terá ainda seu nome ligado à obra verdadeiramente meritória. 66 Com toda simpatia e sempre pronto a auxiliá-lo em tudo e em sua administração já se anuncia promissora de abundantes resultados práticos subscrevo-me, com sincera estima e admiração. Colega mto grato (a) Gonçalves Cruz” (Magalhães, 1957: pp. 192-195). As palavras de Oswaldo Cruz deixam explícitas as aproximações da Instituição com o governo Estadual e vislumbram aquilo que se tornaria o Posto de Observação e Enfermaria Veterinária do Ministério da Agricultura, a ser criado posteriormente, para onde viria o futuro diretor do Instituto, Octavio de Magalhães. Em 1911 ele foi fundado e, como ainda não havia sido construído o prédio próprio, funcionou nas dependências da Filial. Seu primeiro diretor foi Henrique Marques Lisboa, que era, também, “filho espiritual de Manguinhos”. A atenção de Oswaldo Cruz e as iniciativas constantes de Ezequiel Dias junto à Filial eram importantes para tecer a credibilidade dos cientistas e, também, um artifício para que fossem criadas as redes científicas que lhe possibilitassem o contato com amplos setores sociais, que seriam de vital importância, se a instituição quisesse verdadeiramente se expandir e se fazer cada vez mais importante em terras mineiras. A empreitada é clara. Por toda a documentação ficam explícitos os esforços para dar ao Instituto um lugar de destaque no meio médico e na sociedade em Minas. Para uma maior aproximação do Instituto junto ao corpo social seria interessante que fossem abordados assuntos que pudessem facilitar o encontro entre ambos. A capital mineira, desde os tempos de sua construção, com os processos de terraplanagem, estava exposta aos inimigos peçonhentos que proliferavam por várias partes. Apesar de sua áurea moderna, a cidade estava assolada pelo terrível mal que atingia populações e causava o terror: cobras e escorpiões entraram em cena e contribuem para o crescimento do futuro Instituto Ezequiel Dias. 67 V – A criação do Posto Antiofídico em 1918 A questão dos acidentes com animais peçonhentos estava presente à época nos relatos a respeito da capital mineira. Belo Horizonte era um local com altos índices de mordeduras de cobras e picadas de escorpiões. Tal situação ajudava a compor um quadro inusitado que se fazia de tais seres: se constituíam, por um lado, objeto de pânico por parte da população, por outro, eram propiciadores de inúmeras lendas, práticas peculiares relativas aos tratamentos depois das picadas, que traziam à tona mezinhas, soluções mágicas, curandeiros e alguns personagens exóticos que compõem o caldo cultural das primeiras décadas da capital. O Instituto poderia se fazer importante no assunto, pois as questões referentes aos peçonhentos traziam novos métodos de tratamento que, nitidamente, se contrapunham às diversas práticas populares que rondavam a questão. A soroterapia seria agora o tratamento defendido pelos médicos como universal e único capaz de aplacar os perigos no momento da urgência do acidente com o animal peçonhento (Diniz, 1998)33. Portanto, com a constatação de que a cidade era claramente um foco de cobras e escorpiões, seria importante pesquisar o assunto e dar resposta a uma demanda que urgia em amplos setores: na população comum, que sofria ao encontrar os terríveis peçonhentos pela frente; junto aos fazendeiros, que colocavam em pauta um fator econômico relevante, devido ao fato de que era também muito alta a incidência de acidentes com animais (principalmente com o gado); e do próprio poder público, a quem os números vertiginosos de picadas não eram nada agradáveis, para Minas Gerais e para a cidade que se proclamava moderna e salubre. 33 Diniz (1998) faz uma abordagem do processo de aceitação da soroterapia no tratamento de acidentes com animais peçonhentos e a contribuição fundamental das pesquisas de Vital Brazil. 68 Um exemplo de que a questão chamava atenção é o fato de que as negociações para a criação do posto mobilizaram diversos atores da sociedade mineira, entre os quais médicos, gente ligada às letras e setores ligados à economia do estado. A idéia de um serviço do gênero na capital era antiga, mas foram necessários alguns anos até que se efetivasse. Octavio de Magalhães relata que o início das conversas para a criação do posto se deu em meados de 1917, quando o escritor Gustavo Pena encaminhou uma carta à Sociedade Mineira de Agricultura. Como se discutirá no próximo capítulo, a Sociedade Mineira de Agricultura (SMA) foi um importante ponto de apoio para o Instituto. Médicos, cobras, escorpiões e micróbios iriam compor uma importante rede para outros projetos que uniam os interesses no interior do laboratório e para outros, ligados à construção da nação brasileira na Primeira República e ao desenvolvimento econômico do Estado de Minas Gerais. Na construção das redes da ciência, o papel de mobilização desses diferentes grupos foi eficiente, e os preparativos para a criação do posto se agilizaram. Em 27 de outubro de 1917, Vital Brasil, que dirigia a instituição já famosa no que se referia aos assuntos que envolviam os peçonhentos – Instituto Butantan – mandava um orçamento como modelo para a fundação do Posto em Belo Horizonte. No dia 1º de fevereiro de 1918 foi assinado o acordo entre o Governo e a Filial. Por esse acordo, o Estado contribuiria com a manutenção do posto, havendo um outro acordo com o próprio Instituto Butantan: “Acordo entre o Posto Antiofídico de Belo Horizonte e o Instituto Butantan: 1º O Posto colherá o veneno das serpentes que lhe forem enviadas e depois de prepará-lo segundo a técnica do Instituto de Butantan, remetê-lo-á a este estabelecimento, em tubos fechados a lâmpada, cada espécie de veneno separadamente. 2º O Instituto de Butantan cederá uma ampola de qualquer dos soros antipeçonhentos, pelas sguintes qualidades de peçonha: Veneno de Crotalus terrificus ...... 300 Miligramas Veneno de qualquer das Lachesis ...... 500 Miligramas 69 Veneno de qualquer das Elaps ...... 30 Miligramas 3º As serpente raras ou desconhecidas serão conservadas no Posto e enviadas ao Instituo, que depois da competente determinação científica, devolvê-las-á àquele estabelecimento, ficando com as duplicatas e com os tipos das espécies novas. Butantan, 28 de outubro de 1917. (a) Vital Brasil. Diretor do Instituto” (Magalhães, 1957: p. 197-198) A Instituição paulista era renomada devido à produção do soro antiofídico. Para alguns historiadores que se dedicaram à história das instituições médico-científicas, nessa época “o Butantan deixou de ser uma instituição voltada só para a produção de imunizantes, rotina que variava segundo os espasmos epidêmicos locais, para se tornar o mais importante baluarte das novas metas instituídas para a saúde pública” (Benchimol e Teixeira, 1193:105)34. O contrato com o governo do Estado não tinha data limite, mas o contrato com Butantan não aconteceu da mesma forma. No ano de 1919, a instituição paulista passou por uma grave crise, que culminou na saída de Vital Brazil da direção. Há algumas controvérsias a respeito do fato. Alguns relatos informam que, apesar de Arthur Neiva, que dirigia o Serviço Sanitário Paulista desde 1916, ter planos ambiciosos para o Butantan, aconteceram atritos entre as duas figuras renomadas. Certo é que Brazil deixa a instituição em 1919, levando consigo peças importantes do quatro funcional do Butantan, e funda em Niterói, no Rio de Janeiro, um instituto privado – o Instituto Vital Brazil – com o apoio do presidente daquele estado, “dr. Raul de Morais Veiga, que lhe concedeu o terreno e uma subvenção, mediante o compromisso de que fabricasse a 34 Os autores ainda ressaltam que, com a entrada de Arthur Neiva, em 1916, no Serviço Sanitário de São Paulo, havia um plano ambicioso de crescimento do Butantan, que pretendia torná-lo um grande centro produtor de medicamentos, para suprir o mercado nacional e o de outros países da América do Sul, além de adaptá-lo para que tivesse plenas condições de competir com Manguinhos. Para conseguir seu objetivo, Neiva usou toda sua credibilidade e a força de seu discurso a fim de solicitar verbas para a instituição paulista. Em um Relatório da Diretoria do Serviço Sanitário, ele usa a filial em Belo Horizonte para questionar certos privilégios que seriam dados ao Instituto Oswaldo Cruz, que “fundou em Minas uma filial subsidiada com 30 contos e que além disso vende seus produtos e vacinas ao governo do estado” (NEIVA apud Benchimol e Teixeira, 1993: p.115- 116). 70 vacina anti-rábica e realizasse os exames bacteriológicos de que carecia a Inspetoria de Higiene e Saúde Pública” (Benchimol e Texeira,1993: 164). Com a fundação do Instituto Vital Brazil, em Niterói, a Filial belo-horizontina de Manguinhos passa a estabelecer o antigo acordo com o novo Instituto, que vai ter longa duração, até 1936, quando cessa, mas as relações interinstitucionais não terminam, como se verá a seguir. Quanto a isso, é importante que se diga que tais relações institucionais foram importantes, pois em Belo Horizonte o laboratório era pequeno, e o fabrico do soro exigia uma grande complexidade, técnica e estrutural, que não se tinha nos primeiros tempos. O Instituto demorou bastante para conseguir auto-suficiência na produção e remessa de soro. Por um longo período recebia o veneno das cobras enviadas por fazendeiros, gente comum, instituições em Minas Gerais. Depois de recebida, a matériaprima era levada para o Rio de Janeiro, e o Instituto Vital Brazil enviava a remessa correspondente de soro obtido. Ao chegar a Belo Horizonte, os soros eram costumeiramente remetidos aos fornecedores de cobras. Obviamente, ao longo do tempo, a Filial foi aumentando a quantidade de cobras de seu serpentário, o que possibilitava manter uma reserva para as constantes emergências que sempre bateriam às portas do Instituto no decorrer do longo funcionamento do Posto. Como se verá mais adiante, desde seus tempos de Filial, o Instituto desenvolveu inúmeras pesquisas. Logo nas primeiras décadas de existência fica bem claro um ecletismo na pesquisa empreendida por seus técnicos, com trabalhos relacionados à raiva, micologia, epidemias, epizootias, exames bacteriológicos e, principalmente, aos estudos chamados de escorpionismo e ofidismo, que foram o grande chamariz do Instituto. 71 Logo nos primeiros anos, após a criação do posto, é interessante verificar que a atividade foi considerada uma verdadeira “cruzada”, que pretendia eliminar os altos índices de acidentes. Serão feitas inúmeras viagens atrás de cobras e escorpiões. O papel dessas expedições no contexto da Primeira República será analisado no capítulo seguinte. O Posto previa a elaboração de relatórios anuais enviados ao Secretário de Agricultura. Por eles conseguimos mensurar como a atividade foi importante para o Instituto e como ela foi cresceu e se misturou com outros objetivos muito maiores. Uma instituição cresce e consegue se solidificar a partir do momento em que consegue tornar sua rede de aliados cada vez maior e desmobilizar cada vez mais seus concorrentes, como pode ser visto nos momentos de crise da filial. Prova da importância que se dava ao envio de cobras é o fato de que muitas listas de fornecedores de cobras do Instituto foram também publicadas no Minas Gerais, órgão de imprensa oficial que comporia mais um elo junto à cadeia de alianças que o Instituto formava. Apesar de se chamar Posto Antiofídico, ele foi a porta de entrada para os peçonhentos em geral, principalmente os escorpiões, que eram também grandes vilões da saúde em Belo Horizonte. No ano de 1918 começaram os estudos intitulados escorpionismo na Filial. Foi no mesmo ano em que se deu início ao preparo do soro antiescorpiônico. Eurico Vilela era um novo técnico comissionado em Minas e teve papel fundamental nesses primeiros tempos no serviço antipeçonhento. Um ponto que é preciso ressaltar é que 1918 foi mesmo um ano muito importante para o campo médico. Foi um período em que a atividade médica esteve na pauta da política brasileira por uma série de fatores. É nesse ano que tem início o movimento pelo saneamento do Brasil, que pretendia levar a saúde para todos os territórios brasileiros; principalmente para os esquecidos sertões, que os médicos 72 identificavam por um cenário comum e desolador cheio de “idiotas” (atacados pela Doença de Chagas) e opilados (contaminados pelos vermes da Ancilostomose, a “doença do Jeca Tatu”). Foi nesse mesmo ano que houve um grande desafio para a saúde pública e para a própria microbiologia: a Influenza, ou Gripe Espanhola, de 1918, que mostrou de forma feroz e aterradora até onde poderiam ir os invisíveis. A Gripe Espanhola colocou em xeque paradigmas científicos e a própria organização médica. Sobretudo, foi um tapa nas autoridades brasileiras acerca da real eficácia da gestão pública da saúde, a deficitária institucionalização hospitalar e a ausência de um sistema interligado, que não se constituía nem como rede de informação, nem tampouco como atendimento direto e eficaz a quem dele necessitava (Silveira, 2004). A epidemia se alastrou por várias partes do Brasil, e as regiões portuárias tiveram uma situação mais complicada no que tange à disseminação da pandemia35. A Influenza chegou à capital mineira em outubro de 1918, através de passageiros que haviam sido infectados no Rio de Janeiro. As autoridades, no começo, insistiriam na tese de que a moléstia que se apresentava em Belo Horizonte era uma forma benigna da doença. Tal idéia teve de ser revista com a expansão da enfermidade e o quadro lúgubre que se desenhava na pretensa cidade salubre, então a se mostrar impotente quando a pandemia se efetivou, fazendo dezenas de mortos e doentes. Não havia órgãos capazes de fornecer o atendimento que a situação requeria. Conta-se, ainda, a 35 De acordo com Silveira (2004), a imagem da cidade salubre, isenta de doenças, remonta à construção da Capital. Tal imagem, difundida pela imprensa e pelos relatórios, era reforçada pela “ausência das principais moléstias epidêmicas e contagiosas que tanto preocupavam a população e os administradores de outras cidades brasileiras. Os dados estatísticos relativos às moléstias transmissíveis divulgadas pela Diretoria de Higiene para os anos de 1910-20 revelam que doenças como cólera, peste e febre amarela – que tanto depunham contra a salubridade urbana – não tinham impacto na taxa de mortalidade da capital mineira” (Silveira, 2004:136). A força desse discurso salubre era simbolicamente tão forte que provocou um atraso nas ações efetivas, em Belo Horizonte, relativas à contenção da epidemia, o que também se refletiu nas próprias lacunas a respeito da memória da Influenza na capital. 73 deficiência de um corpo clínico significativo que pudesse dar conta do combate à moléstia. A situação foi a tal ponto que a própria Faculdade de Medicina chegou a instalar um hospital provisório. Com o agravamento da situação, em novembro de 1918, Samuel Libânio, que na época era o Diretor de Higiene do Estado, convocou os principais profissionais da saúde na capital de Minas, entre os quais lá compareceu Ezequiel Dias, que junto com seus colegas ajudou nas orientações acerca das atitudes que deveriam ser tomadas pela Diretoria de Higiene (Silveira, 2004). Manguinhos também teve um papel importante na pesquisa da etiologia da Influenza pandêmica de 1918. Octavio de Magalhães trabalhou ativamente na pesquisa, por meio do isolamento do agente etiológico, junto com Aristides Marques da Cunha e Olympio da Fonseca Filho, todos vinculados ao Instituto Oswaldo Cruz. Um evento dessas proporções, como não poderia deixar de ser, produziria efeitos no campo médico, que tendeu a se amalgamar diante da adversidade. Passado o tempo do assombro, seria o momento de elaborar cobranças às autoridades acerca do aparelhamento dos serviços de saúde, os quais mostraram sua precariedade diante da situação. Como foi dito, por esse conjunto de situações, 1918 vai ser um ano chave para o debate do saneamento do Brasil. Nesse contexto, uma instituição que foi capaz de mediar o diálogo entre os médicos e os poderes públicos foi a Fundação Rockefeller. A Divisão Internacional de Saúde da Fundação Rockefeller foi criada em 1913 nos Estados Unidos e tinha objetivo de desenvolver atividades ligadas ao fomento da saúde pública em diversos países, inclusive em sua terra de origem (Campos, 2006: 34). Uma instituição de caráter filantrópico, que teve, entretanto, um papel mediador no 74 incremento dos serviços sanitários em vários territórios, através da pesquisa – com destaque para doenças como a ancilostomose, a malária e a febre amarela – e na educação médica, com fornecimento de bolsas de estudo para o aprimoramento profissional no EUA36. Ao Brasil a Fundação Rockefeller chega em 1916, quando foi enviada ao Rio de Janeiro uma missão por sua International Health Board. A partir daí vai estabelecer inúmeros postos pelo território, o que contribui decisivamente para o projeto de interiorização da saúde e conseqüente saneamento das regiões que se distanciavam do litoral. Um empreendimento que vinha a se aliar com o momento pelo qual passavam o Instituto Oswaldo Cruz e alguns de seus pesquisadores, que enveredavam pelo árduo caminho de levar a ciência aos rincões (Marques, 2004). Em Minas Gerais houve grande investimento da fundação norte-americana, podendo a influência da Rockefeller ser vista com maior ênfase, principalmente a partir da elaboração no Regulamento Sanitário Rural de Minas Gerais de 1918, que se dedicava à profilaxia de doenças consideradas endêmicas ou epidêmicas em Minas Gerais. Algumas, nesse momento, teriam grande destaque, como a malária, a uncinariose (ancilostomose), a doença de Chagas e a lepra, entre outras. A ancilostomose foi um importante objeto de estudo da fundação, e, em países como o Brasil, era uma doença que tipificava a realidade rural brasileira, pois sua transmissão estava ligada às questões de falta de higiene e saneamento dos espaços. Era a doença do Jeca Tatu, que funcionava como um estereótipo desse brasileiro, adoentado e fraco, do interior. Assim, dentro de todo esse contexto em que a saúde passa a figurar na pauta política brasileira, o Serviço antipeçonhento foi decisivo para acumular muito prestígio 36 Eugenio de Souza e Silva foi um dos técnicos do instituto que receberam bolsas da Fundação Rockefeller. 75 para o Instituto. É muito forte a imagem de um lugar que vem trazer alento no momento de pânico oriundo de uma picada de cobra ou escorpião. E o serviço se interligou à dinâmica da ciência no período, inserindo-se de forma bastante peculiar nesse projeto maior de saneamento do Brasil. O serpentário, desde os primeiros tempos do Posto, ajudava a construir um imaginário muito peculiar. Mas não se pode perder da memória o fato de que, mesmo com um espaço limitado e com a constante escassez de recursos, o Instituto foi importante local de pesquisa de diversos assuntos relacionados à saúde. Apesar dos obstáculos, desde os primeiros tempos, havia um laboratório aparelhado e em consonância com as novidades da microbiologia, estando a biblioteca sempre atualizada, algo fundamental para a circulação das idéias científicas e daquilo de mais de recente que estava sendo discutido nos periódicos médicos. VI - O Instituto Ezequiel Dias e o campo médico O ecletismo foi fundamental para que o Instituto também tivesse sua contribuição na profissionalização dos médicos na capital. Fato que se comprovou pela presença de Ezequiel Dias, Octávio de Magalhães e de muitos outros no corpo docente da Faculdade de Medicina. E a relação era bilateral. Da Faculdade também vieram alguns nomes importantes na história do Instituto, pois ali se tinha a liberdade de pesquisa e as condições estruturais que possibilitariam o seu desenvolvimento e, portanto, “foi uma das altas finalidades da Filial: instruir séria, sincera e profundamente os moços da escola honesta e despertar-lhe o amor e mesmo a paixão pelos problemas de biologia pura e aplicada” (Magalhães, 1957: 208). 76 Como disse um desses “moços da escola honesta”, Amílcar Martins, “havia pouca gente e muita coisa pra se fazer” (Martins, 1991). A fundação da Faculdade de Medicina, em 1911, é símbolo de toda essa mobilização do campo médico em Belo Horizonte em torno da necessidade de um espaço acadêmico. A Filial fazia parte dessa grande rede e, como dissemos, manteve um diálogo ativo com a escola desde a sua inauguração. As discussões para a criação de um espaço para o ensino eram antigas, remontando a 1902, com o assunto em pauta numa das associações médicas da época, a Sociedade de Medicina, Cirurgia e Farmácia. Porém, os planos não foram adiante, e o sonho de uma faculdade de Medicina se esvaeceu junto com a própria Sociedade37. Contudo, o associativismo médico foi retomado, e, na sessão de 5 de março de 1911, a Associação Médico-Cirúrgica de Minas Gerais decidiu definitivamente fundar a faculdade. Foi preciso o surgimento de uma outra associação para dar novo ânimo à idéia, de modo que ensino médico tivesse seu espaço privilegiado. Em 1910 foi apresentado um projeto que seria apreciado por uma comissão de estudos constituída por Cornélio Vaz de Melo, Hugo Werneck e Zoroastro Alvarenga, a qual daria início decisivo à fundação da nova instituição38. A faculdade teve seu estatuto aprovado em maio de 1911, o qual contemplava a instituição com a fins de “ensino teórico e prático, das matérias que constituem o curso das Faculdades de Medicina da República” (Minas Gerais, 26 de junho de 1911. p. 6). A primeira diretoria era composta pelos seguintes nomes: Cícero Ferreira (Diretor), cuja importância para a medicina em Belo Horizonte em seu início já 37 De acordo com Pedro Salles, a Sociedade de Medicina, Cirurgia e Farmácia surgiu em outubro de 1899 e teve como primeiro presidente o Dr. Olinto Meireles. Foi extinta após 27 sessões, em 1º de agosto de 1902 (Salles, 1967). 38 A Associação Médico-Cirúrgica de Minas Gerais atuou no período entre 1908 a 1937. Seu primeiro presidente foi Cícero Ferreira, e sua primeira sessão aconteceu na Biblioteca Central, tendo seus locais de reunião variado muito. 77 ressaltamos; Cornélio Vaz de Mello (Vice-Diretor) e João Batista de Freitas (SecretárioTesoureiro). Nesse início os lentes seriam as seguintes figuras, que se misturam à própria história da medicina na capital de Minas: - Anatomia Médico-Cirúrgica, Operção e Aparelhos: Dr. Cornélio Vaz de Melo; - Higiene: Dr. Zoroastro Alvarenga; - Medicina Legal: Cícero Ferreira; - Clínica Cirúrgica: Dr. Eduardo Borges da Costa; - Clínica Médica: Dr. Alfredo Balena; - Clínica Biológica e Obstétrica: Dr. Hugo Werneck; - Moléstias nervosas: Dr. Samuel Libânio; - Clínica pediátrica: Dr. Octávio Machado; - Clínica Dermatológica e Sifiligráfica: Dr. Antônio Aleixo; - Microbiologia: Dr. Ezequiel Dias; - Olhos, garganta, nariz e ouvidos: Dr. Onorato Alves; - Farmacologia: Dr. Olinto Meireles39. Essa situação proporcionou uma relação muito próxima entre a instituição de ensino e a Filial, principalmente com o uso da biblioteca e do laboratório, que abria espaço a várias pesquisas. O Instituto tornar-se-ia passagem obrigatória para os professores e alunos da Faculdade de Medicina. No que se refere às atividades de pesquisa, não podemos nos esquecer de que essa variedade já estava prevista desde o início do Instituto, voltado que era para as epidemias, endemias, epizootias e epifitias. No começo, ao longo do processo de consolidação das atividades da Filial, dedicou-se ao estudo das demandas que surgiam à época. Algumas enfermidades tinham atenção especial. Merecia destaque a varíola por seus vários surtos epidêmicos, inclusive na época da construção da capital, além da forte imagem que ficava após os eventos com a vacinação obrigatória na capital federal. A peste da manqueira40 também havia sido contemplada, como demonstra a carta de Oswaldo Cruz endereçada a Zoroastro Alvarenga em 1910. 39 A lista é dada por Magalhães em seus Ensaios ( Magalhães, 1957: 212). É uma doença que atinge principalmente animais do campo, também chamada de carbúnculo sintomático. É causada por uma bactéria chamada Clostridium septicum e se caracteriza pela erupção de inúmeras feridas por onde sai, geralmente, um líquido avermelhado. Estes tumores aparecem comumente 40 78 O Instituto era responsável pelos exames bacteriológicos do Estado e também fazia exames particulares. As funções de auxílio nas questões de saúde pública eram previstas em lei. Ao longo do tempo, a Filial foi ampliando sua esfera de atuação e trabalhando em exames de toda natureza, na área hidrologia, análise de alimentos, e, posteriormente, a raiva também entrou no rol das enfermidades pelas quais o Instituto se enveredou. Na parte laboratorial, junto com a atuação da Filial, havia o Laboratório de Análises Químicas, que tinha sua criação estipulada desde 1895, data da primeira organização de um Sanitário do Estado, a qual, entretanto, aconteceu somente em 1911, logo após mais uma de várias reformulações41. Cícero Ferreira, atuante médico desde a construção da Capital de Minas, mostrou-se novamente um importante articulador dos assuntos de saúde e conseguiu obter a autorização do Presidente do Estado, Wenceslau Braz, para a construção do laboratório no Estado. O órgão tinha como função fazer análises, bromatológicas, toxicológicas e judiciárias, agronômicas e industriais, conforme fossem pedidas pelo governo do Estado (Diretoria de Higiene, Delegacias de Polícias, Secretaria de Agricultura). Também fazia exames particulares relativos à produção de alimentos, no pescoço, paletas, peitos e flancos, e a vacinação é o método mais eficaz de profilaxia, já que, depois de infectado, o tratamento é difícil, e a morte geralmente, rápida. O Instituto Oswaldo Cruz teve um papel fundamental nos primórdios do desenvolvimento da vacina contra a peste da manqueira. Alcides Godoy foi o cientista responsável pelo desenvolvimento da vacina, em 1906. Tal evento não foi apenas vital para a história da Medicina Veterinária no Brasil, mas também foi, à época, um marco importante para obtenção de recursos para Manguinhos. A patente do medicamento foi registrada em 24 de novembro de 1908, e Godoy transferiu a invenção para o Instituto Oswaldo Cruz. Segundo Benchimol, “esse artifício hábil consolidou a autonomia de Manguinhos, permitindo-lhe gerir esses recursos, que seriam consideráveis, sem ter de se submeter à burocracia do Ministério da Justiça ou às rígidas determinações que presidiam a aplicação das verbas votadas pelo Congresso”, acrescenta ainda que “a famosa verba da manqueira, contabilizada à parte, teve importância vital na sustentação do Instituto Oswaldo Cruz, sobretudo nas conjunturas recessivas do país”. (Benchimol, 1990: p. 39-40). 41 Como foi dito anteriormente, a Lei 452, de 9 de outubro de 1906, reorganiza o serviço sanitário do Estado, mas apenas em 1910 há uma sistematização dos serviços de saúde pública no estado. A data marca, novamente, a criação de uma diretoria de Higiene em nível estadual com Zoroastro Alvarenga, como diretor, e Samuel Libânio, como médico auxiliar. 79 medicamentos, e, ainda, nas suas atuações estava prescrito o auxílio às indústrias da mineração e siderurgia então nascentes. Para a direção do Laboratório, Cícero Ferreira mandou abrir um concurso na Alemanha, país que estava no topo das mais modernas pesquisas no campo da química à época. Dentre mais de 300 candidatos foi escolhido Alfred Schaeffer, um alemão nascido em 1879. Esse químico tinha experiência na direção de um Laboratório Químico e Bacteriológico Experimental da Associação das Fábricas de Laticínios da Alemanha. Veio para Belo Horizonte com a família mais os equipamentos que seriam utilizados no novo cargo. O laboratório foi oficialmente inaugurado em 21 de abril de 1912, sendo composto por oito salas: gabinete do chefe de laboratório e biblioteca (com cerca de 200 volumes), museu, sala de trabalhos especiais, salas de trabalhos gerais, sala de balanças, sala de fornos e de análise elementar, sala óptica e sala de destilação de água e lavagem de vasilhame. O laboratório teve importância decisiva no que dizia respeito aos exames relativos à saúde no Estado, sendo visível, até a década de 1930, sua atividade em vários setores da economia mineira, da agro-indústria à produção de alimentos, passando pelos assuntos de interesse público, como a medicina legal e os medicamentos. Um espaço de suma importância que, junto com o Instituto Ezequiel Dias e o ensino acadêmico na Faculdade de Medicina, torna-se ponto importante de um circuito em que giram idéias e sujeitos mobilizados para consolidar culturalmente a aceitação de novos conceitos e práticas científicas. Prova dessa circulação é que Schaeffer teve boa penetração no meio científico belo-horizontino, tendo sido contratado, a partir de janeiro de 1913, para ensinar 80 Química Analítica na Faculdade de Medicina. Em virtude da estrutura ainda deficitária da Faculdade, ele ministrou aulas onde estava instalado o Laboratório. Com a Primeira Guerra Mundial e rompimento diplomático do Brasil com a Alemanha, em 1917, o Dr. Shaeffer foi exonerado do cargo. Posteriormente voltou, mas não foi para o laboratório nem para a Faculdade de Medicina, tornando-se, em vez disso, líder da criação de um Curso de Química Industrial da Escola de Engenharia, em 1921. Em 1927, o Químico saiu de Minas Gerais e foi trabalhar na fábrica da Merck, no Rio de Janeiro. Foi afastado da empresa durante a Segunda Guerra Mundial, mas continuou ensinando Química no Instituto Militar de Engenharia, na capital federal, onde morreu em 23 de setembro de 195742. O Instituto estava assim integrado a uma grande teia que se construía na capital e que, aos poucos, dava uma maior complexidade aos assuntos de saúde. Algumas doenças eram como pedra no sapato das autoridades mineiras, e, como dissemos, a varíola era uma delas, mas não a única. Outra doença que deu dor de cabeça foi a difteria43, que inclusive se tornou o pivô de uma grave crise na filial pelos idos de 1917. A crise é reveladora de que a ciência também se constrói a partir de inúmeros obstáculos, sujeitos e diversos interesses. Magalhães dedica partes significativas dos seus Ensaios à rememoração do evento, intitulando o episódio como “verdadeira tempestade”. Octavio de Magalhães conta que a questão da difteria era motivo de polêmica na capital de Minas já havia muito tempo. Desde muitos anos a cidade que não queria perder a sua imagem de cidade salubre, livre das doenças, era palco de diversas 42 Para a trajetória do Laboratório de Análises Químicas e do alemão Alfred Schaeffer, ver Naveira (1996). 43 Difteria é uma doença infectocontagiosa causada pelo Corynebacterium diphteriae e por sua toxina e provoca a inflamação, na garganta, nariz e em algumas situações nos brônquios e traquéia, com o surgimento de “falsas membranas”. A doença foi motivo de grande preocupação em vários lugares do mundo até o final do século XIX, quando a vacina foi criada pelo médico alemão Emil von Behring. 81 discussões acerca da questão da difteria. O médico relata que, à época, era prática comum administrar uma anatoxina, consistindo o problema no fato de que, no caso de confirmação de uma epidemia, toda a cidade deveria suspender suas atividades. Para ele, “foi este, realmente, o motivo, somado à ignorância sobre o aspecto clínico e microbiológico da questão que fez desabar, sobre Ezequiel, a tempestade, que quase extinguiu a Filial do Instituto Oswaldo Cruz” (Magalhães, 1957: 221). Magalhães afirma que o diagnóstico da difteria era muito complicado e podia ser confundido com outras moléstias menos graves, como uma simples amidalite. Mas a vacinação em casos de suspeita seria necessária, pois um caso que aparentava ser simples poderia encobrir uma forma grave de difteria. O médico ressalta que houve por parte da Filial a idéia de que, diante da complexidade do diagnóstico e do risco de uma epidemia, seria preciso aplicar o soro como medida preventiva. A difteria poderia até matar, e o diagnóstico rápido, associado à intervenção da vacina, seria o melhor a ser feito, segundo ele. Ele acrescenta, ainda, que a Instituição não poderia arriscar o seu importante papel em questões de saúde e que, diante das condições e do nível dos estudos à época, essa teria sido a medida mais acertada: “Por minha parte, penso que só afirmaria realmente, rigorosamente, cientificamente no estado atual dos nossos acontecimentos, que um bacilo é diftérico, se tivéssemos estudado as propriedades biológicas dele, seu poder toxigênico, fermentativo, morfológico,, etc. Só então eu diria: trata-se do Corynebacterium diphteriae. Isso falsearia a função da Filial, que falharia ao seu papel de ‘laboratório central’, de saúde pública” (Magalhães, 1957: 225). Houve uma quantidade superestimada de diagnósticos positivos de difteria, o que alarmou a capital em 1917, maculando todo um imaginário que se construiu relativamente a uma cidade salubre, higiênica e livre de doenças. Magalhães, mesmo 82 assim, volta a afirmar que o papel do Instituto foi correto, pois, tendo-se em vista a ameaça iminente de uma epidemia, o mais correto seria uma vacinação em massa: “Em higiene pública os diagnósticos para menos são de conseqüências muito mais graves e prejudiciais que os diagnósticos para mais [...] Que acontecerá a um paciente, sem difteria, que tivesse pela nossa técnica, um resultado positivo? Tomaria soro antidiftérico. E depois? Teria urticária, dor nas articulações, talvez um pouco de febre , coisas que passariam, sem maiores cuidados. E o paciente, com difteria que pelo processo ‘técnico crítico’ tivesse um resultado negativo? Poderia ter uma paralisia, morrer, ou o que é mais grave para a coletividade: contaminar a família e os vizinhos. Só isso” (Idem: 228). Mas o assunto dos diagnósticos rendeu bastante. Magalhães afirma que não houve compreensão da questão por parte dos poder público, sendo a atuação do Instituto questionada. A questão ainda foi reveladora, segundo Magalhães, de outros interesses, em meio aos quais ele “soube pessoalmente, por Ezequiel Dias, que havia, oculto, um plano para organizar um Instituto Estadual nos moldes da Filial do Instituto Oswaldo Cruz, a fim de satisfazer a vaidade de um ingênuo cirurgião e a cupidez de um ‘boche’”. Continuando, afirma ter havido uma forte campanha de sabotagem dos exames do Instituto, que se consubstanciou em detração dos exames feitos pela Filial: “Mas, as plantas do novo Instituto já não estavam até terminadas? Há indivíduos que têm volúpia dessas ações. Começou então a campanha, em surdina, contra o Diretor da Filial e os técnicos do Instituto. Afirmava-se que os exames de difteria não tinham o menor vigor, que qualquer exame, mesmo dos mias disparatados matérias, colhidos em qualquer parte, podiam dar resultados positivos. Era preciso trair e, para isto, não faltou a alma dessas víboras, que nascem e vivem nas trevas palpáveis, de que fala a Santa Escritura. Um desses médicos confessou pessoalmente a Ezequiel Dias esse feio crime, embora se penitenciando da miséria daquela ação. 83 Ele freqüentava a hora do café da Filial, apertava a mão do Diretor, sorria, suavemente, revirando o branco dos olhos... Mestre... e dali saia para trazer mais material falsificado para os exames. Veio material de saliva de cão, de linfa contra a vacina antivariólica, de salivas de pessoas sadias, etc. E tinha que ser. Os corynebacterium são espalhadíssimos na natureza e podem ser encontrados naqueles materiais. A ignorância e a maldade fez supor aos seus autores que eles tinham em mãos uma arma esmagadora contra honra científica dos técnicos da filial. Mas como todos os criminosos, eles se esqueceram da ciência, para lhes descobrir o crime e lhes provar a inocência das vítimas” (Idem). Apesar de longa, essa citação foi aqui colocada para exemplificar alguns meandros da ciência que passam muitas vezes despercebidos. Porém, situações como essas são emblemáticas e servem para que se possa pensar acerca de como o Instituto conseguiu superar seus obstáculos ao longo do tempo, bem como a credibilidade acumulada por seus pesquisadores, que poderia ser usada em momentos assim. Diante dos graves desentendimentos entre o Diretor dos Serviços de Higiene do Estado e o Instituto Oswaldo Cruz Filial, Ezequiel Dias chegou a renunciar ao cargo. A crise tornou-se de tal forma aguda, que o próprio Carlos Chagas veio pessoalmente a Belo Horizonte. Era um momento difícil, pois Manguinhos sofrera um forte golpe com o agravamento da doença de Oswaldo Cruz 44. Seguiu-se uma série de conversas. Magalhães conta que, por fim, o Diretor de Higiene do Estado reconheceria a honorabilidade de Ezequiel e a validez dos exames que a filial executava. Chagas também teria reconhecido a dificuldade no diagnóstico de difteria. E, dessa forma, o embate dar-se-ia por terminado. Mais que isso, para que se possa compreender as proporções que a questão tomou, acredita-se que a chave de leitura apresentada por Silveira (2004) a respeito do tratamento da Influenza possa ser aplicada também a esse caso. Sem dúvida, o alarme 44 Oswaldo Cruz faleceu em conseqüência de problemas renais em 11 de fevereiro de 1917. Carlos Chagas assumiria a direção do Instituto Oswaldo Cruz. 84 de uma epidemia era a mácula indesejável que poderia vir a contrariar o imaginário salubre erguido desde a construção da Capital. Casos como o que foi relatado também ajudam a perceber como se realizou o processo de consolidação do Instituto em sua condição de um espaço importante, que se fez, ao longo do tempo, necessário à saúde pública do Estado. Um outro exemplo de que a Filial tecia uma rede forte de interlocuções com amplos setores sociais foi a fundação do Instituto Radium. Desde 1919, a criação de um centro de estudos do câncer estava sendo discutida. Ezequiel Dias retomou, em Belo Horizonte, a prática, que aprendera em Manguinhos, com Oswaldo Cruz, de realizar semanalmente reuniões com os colegas, para que fossem discutidos os mais diversos assuntos, seja acerca do que de mais novo estava nos periódicos, sejam questões práticas da atividade médica. As reuniões tinham até atas a ser aprovadas. Entre os que participavam, Magalhães cita: Borges da Costa, Álvaro de Barrros, Marques Lisboa, Almeida Cunha, entre outros. Na reunião do dia 11 de junho de 1920 foi comunicada a criação do Instituto de Câncer e Radium, que contaria com o apoio do governo do Estado, que, à época, tinha como chefe do executivo Arthur Bernardes. A construção começou rapidamente, com o terreno, doado pela Prefeitura de Belo Horizonte, que ficava nos fundos do Parque Municipal. De acordo com Pedro Salles, “a obra custou ao Estado 550 contos, fora o preço de 25 centigramas de radium, adquiridas nas Usinas da Societé d’Energie et Radio-Chimie de Courbevoie”; sobre a edificação, afirma que “o Instituto Radium confirma o conhecido senso estético de Borges da Costa – um belo estilo arquitetônico, com fachada ornada em de colunas gregas, e uma instalação primorosa” (Salles, 1997: 52). 85 Na notícia de inauguração, em 7 de setembro de 1922, do Instituto, no Minas Gerais há a informação que: “ao ato de inauguração estiveram presentes os Exmos. Srs. Drs. Affonso Penna Junior, representantes dos Srs. Drs. João Luiz Alves e Clodomiro de Oliveira, Dr. Julio Octaviano, acompanhado de sua ajudante de ordem dr. Affonso Vaz de Mello, Dr. Fernando Mello Vianna, Dr. Mairo Brant, Dr. Daniel de Carvalho, Dr. Alfredo de Sá, Dr. Flávio dos Santos, presidente da Câmara, do Senado e do Tribunal da relçaõ, Dr. Carlos Chagas, diretor do Departamento Nacional de Saúde Pública, professores da Faculdade de Medicina desta capital, médicos e grande número de senhorinhas e cavalheiros de nossa sociedade” ( Minas Gerais, 8 de Setembro de 1922). O Instituto seria uma fundação autônoma com subvenções estatais, tornando-se a primeira do tipo em todo o Brasil. A fundação do Instituto Radium45, a partir de discussões coordenadas por Ezequiel Dias, mostrou a capacidade mobilizadora do campo médico em Belo Horizonte, que chegava em posição de destaque e inserção no poder, o que daria um novo tom à atividade que conseguia se fazer indispensável nos assuntos públicos relativos à saúde. O processo de inserção dos médicos na sociedade exigia um leque variado de estratégias, as quais passavam pela criação de Institutos, que mais tarde seriam centros de referência para a disseminação de novas concepções, junto a uma clara aproximação dos assuntos mais pungentes para a sociedade aliada ao ensino médico, que se firmava na capital de Minas desde a fundação da Faculdade de Medicina, em 1911. O futuro Instituto Ezequiel Dias passaria transversalmente pela história das ciências biomédicas em Belo Horizonte e seria peça fundamental nesse processo. 45 Recebeu o nome de Instituto Borges da Costa em homenagem ao seu principal idealizador, e primeiro diretor, em 1950, o qual morrera em 5 de setembro do mesmo ano. Foi incorporado ao patrimônio da UFMG em 1967. Teve seu hospital desativado dez anos depois. No início da década de 80 serviu de moradia universitária provisória, situação que se prolongou até 1998, quando ocorreu a desocupação. Seu prédio, atualmente, é tombado pelo Patrimônio Histórico. 86 Ezequiel Dias conseguiu fazer o pequeno laboratório na Rua da Bahia ir para muito além de seus muros, interagindo efetivamente com o meio científico que se construía na urbe moderna. Chegou sozinho e foi agregando outros importantes nomes nesses primeiros tempos. Eugênio de Souza e Silva foi um dos primeiros a vir para o Instituto, tendo também atuado, a partir de 1926, na cadeira de Histologia da Faculdade de Medicina. Oswaldo de Melo Campos foi outra semente de Manguinhos, tendo posteriormente se voltado para a clínica e o magistério. Aroeira Neves é outro nome que compõe a história dos primórdios da instituição, importante nos estudos relativos à anatomia. Ezequiel Dias, que trouxera a bagagem pesada que unia a fundação do Instituto Oswaldo Cruz e ativa participação nos serviços de saúde no Estado do Maranhão, foi figura importante e aglutinadora desse processo de profissionalização, prestígio e autonomização dos saberes médicos, sob a égide da microbiologia. Veio doente e, em 1922, faleceu, dando lugar àquele que por algumas vezes havia o substituído, a saber, Octavio Magalhães, que teria a difícil tarefa de continuar o trabalho de consolidação das atividades do Instituto e fazê-lo ainda mais importante para a saúde. Não seria tarefa das mais fáceis substituir Ezequiel, figura já encoberta por toda uma imagem mitificada de cientista e arauto da modernização científica. A imagem aristocrática povoou o imaginário, como mostra um “cordão médico” feito por alguns estudantes no carnaval: “ ‘Isequiel Dias’ Tenho a alma cheia de viço E vivendo a investigar, Consegui, mesmo, formar De micróbios um chouriço”. (Magalhães, 1957: 213) 87 O falecimento de Ezequiel Dias aconteceu no dia 22 de outubro de 1922, e a repercussão de sua morte pode ser verificada no jornal oficial da época, que dedica algumas colunas ao seu legado, biografia, homenagens fúnebres, deixando claro o impacto do acontecimento não apenas em relação ao meio médico. Sua imagem estava ligada à própria história do processo de aceitação da microbiologia em terras mineiras. Assim dizia o jornal: “Discípulo predileto de Oswaldo Cruz, o sábio remodelador da Higiene ao Brasil, saneador inesquecível da capital da República e dos nossos portos. Dr. Ezequiel Dias colaborou eficazmente com o fulgurante espírito que, abrindo novos e iluminados caminhos à medicina nacional, pela bacteriologia, de que foi o verdadeiro criador do no país, se imortalizou na gratidão e na lembrança de seus compatriotas [...] Devemo-lhe descobertas da maior relevância, notadamente no campo da soroterapia e no das investigações bacteriológicas” (Minas Gerais, 23 e 24 de outubro de 1922). A figura de Ezequiel é profundamente ligada a de Oswaldo Cruz e, por conseqüência, ao próprio advento da microbiologia no Brasil, numa união entre a história das idéias científicas e suas próprias trajetórias pessoais. Seguiram-se sucessivas homenagens ao médico, considerado uma das primeiras sementes de Manguinhos. Tais biografias cumprem o papel muito importante de amalgamar o campo médico. Rememorar tais trajetórias de vida não apenas torna-se um empreendimento laudatório, mas também cumpre funções simbólicas que acabam desempenhando um papel importante para o campo, assim como na legitimação da atividade no próprio tempo presente46. Chagas fez uma interessante análise da figura de 46 Nara Britto discorre sobre o “poder simbólico” das biografias de Oswaldo Cruz, logo após a sua morte. Para a autora, o campo médico, à época, caracterizava-se por grandes dissensões. A mitificação de Cruz teria cumprido um papel de centralização do campo, primeiramente em torno da figura do sanitarista e, posteriormente, acabando por unir em torno de outros objetivos, como a campanha de saneamento rural do Brasil e sua luta pela interiorização das políticas públicas de saúde, no contexto do final da década de 10 e início da década de 1920 (Britto, 1995). 88 Ezequiel Dias como homem de ciência e articulador de uma discussão pública a respeito da saúde no Brasil: “No Maranhão instalou completo laboratório de pesquisas e orientou, pelos ensinamentos experimentais, os serviços de higiene pública. E em Minas Gerais organizou a Filial de Belo Horizonte, Instituto modelar em que se perpetuam o zelo e as raras aptidões do jovem experimentador, em que se concretizam suas melhores aspirações de ciência. Foi essa a grande oportunidade de trabalho oferecida a EZEQUIEL, que a soube utilizar no esclarecimento de importantes aspectos da nosologia regional, no valioso concurso técnico á administração sanitária do Estado, e em outras iniciativas que muito facilitaram a realização de um vasto programa de aperfeiçoamento médico na capital mineira. Assuntos de excepcional interesse prático foram depressa considerados pelo novo instituto, e não tardou que, em benefícios incalculáveis, se prestigiasse sua atividade técnica” (Chagas, 1922: 2). O trecho é importante, pois resume bem o papel de Ezequiel Dias como um ator da ciência capaz de interpretar e interagir com a realidade histórico-cultural aqui presente e usar dela para fazer valer sua profissão médica junto à sociedade. VII - Octavio Magalhães na direção do Instituto Com a morte de Ezequiel Dias era a vez de entrar em cena um outro personagem. Octavio Magalhães assumiria a direção e tentaria dar continuidade às atividades. Desde muito cedo, iniciaria os primeiros passos rumo àquilo que seria um grande projeto, pelo qual se ambicionava fazer da Filial um grande espaço de excelência da atividade médico-científica nacional. Octavio Magalhães inaugura outro período de muito trabalho, que é, também, de muito sonho e desejo. Magalhães nasceu em 1890, no Rio de Janeiro, e era de uma família de médicos, tendo o seu pai e seu avô na mesma profissão. Entrou para a faculdade de Medicina do Rio de Janeiro com 16 anos. Teve experiência na clínica ao trabalhar na enfermaria de 89 Miguel Couto. No terceiro ano de medicina começou a freqüentar o Instituto Oswaldo Cruz e diplomou-se em medicina em 1911. Em 1912 foi indicado por Oswaldo Cruz para trabalhar no Posto de Observação e Enfermaria Veterinária em Belo Horizonte. Foi aqui que concluiu sua tese de doutoramento, intitulada Cálculo da massa total sanguínea, que foi, posteriormente, apresentada à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, na cadeira de Fisiologia. Logo após sua chegada em Belo Horizonte, Magalhães também foi nomeado para chefiar o Laboratório Central da Santa Casa. Lá chegou a residir provisoriamente e pôde interagir com o campo médico em Belo Horizonte. Estabeleceu seus contatos com Álvaro de Barros, Borges da Costa, Eurico Vilela, Marques Lisboa, Samuel Libânio, Hugo Werneck. As reuniões que se faziam na casa de Ezequiel Dias, em que muitos desses nomes estavam presentes, foram importantes para a circulação de idéias, e para a verificação do estado de diversas instituições da capital mineira, servindo como uma espécie de termômetro da inserção dos médicos. Em 1913 é aceito pela Congregação para assumir a cadeira de Fisiologia na Faculdade de Medicina. Com 23 anos iniciava, assim, a sua vida de professor. Foi convidado em 1920 por Carlos Chagas, à época Diretor do Instituto Oswaldo Cruz, para chefiar o Instituto de Higiene de Pelotas: “Meu Caro Magalhães, Venho consultar-te sobre o seguinte: Na cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul, existe um Instituto fundado pela municipalidade, sob a orientação inicial de Butantan. O atual Prefeito, Dr. Pedro Luis Ozório, desligou o Instituto de Butantan e deseja a nossa orientação, para o que me pediu para indicar um nome que se recomendasse pelo esforço e capacidade. Lembrei-me de Você. Terá toda autonomia técnica, trabalhando conosco. Terá talvez dois auxiliares médicos. Se Você achar o plano exeqüível espero que me escreva com urgência a fim de entrarmos em outras minúcias. Com muita amizade, 90 (a) Carlos Chagas”47. No Rio Grande do Sul permaneceu durante dois anos, e lá tentou promover um plano amplo de saneamento. Um de seus principais alvos foi o tifo, que fazia um número considerável de doentes na cidade. Suas medidas sanitárias também incluíram fechamento de pensões e o isolamento de regiões que poderiam estar infestadas pela peste, medidas que também causavam oposição dos setores atingidos. Tomou também uma série de iniciativas relativas às moléstias de animais, tendo em vista que a pecuária era um importante setor na região. Em 1922 decidiu voltar a Belo Horizonte para assumir novamente suas funções no Posto de Observação e enfermaria Veterinária. Muitos fatores pesaram na escolha de Octávio, que via o avanço da doença de Ezequiel e a necessidade de reassumir seu cargo de docente na Faculdade de Medicina. Ao chegar a Belo Horizonte pôde acompanhar os últimos dias de Ezequiel Dias. Como Magalhães costumava assumir a direção da Filial na ausência de Dias, seu nome era forte para o cargo em definitivo. Mas os entraves burocráticos dificultaram a questão. Ele estava vinculado ao Ministério da Agricultura, em virtude da ligação do Posto de Observação e Enfermaria Veterinária, ao passo que a Filial era parte do Ministério do Interior. Porém, “só em janeiro de 23, três meses depois do falecimento de Ezequiel, Octavio ficou à disposição do Ministro da Agricultura, por ordem do Presidente da República, com destino ao cargo que devia ocupar” (Magalhães, 1976: 67). 47 A carta está transcrita no relato de memórias da esposa de Octavio Magalhães (Magalhães, 1976: 55). 91 Apenas em 23 de novembro de 1926 foi nomeado pelo presidente Washington Luis como assistente do Instituto Oswaldo Cruz do Rio de Janeiro, tendo sido, na mesma data, designado por Carlos Chagas para a direção da Filial (Magalhães, 1957: 247). Interessante é perceber que os dois primeiros diretores vieram com uma experiência relevante na gestão pública dos assuntos de saúde. Sem dúvida, tal vivência seria decisiva para a atuação incisiva da Filial nesse campo. Ao assumir o Instituto, Magalhães logo se preocupou com a “menina dos olhos” da filial – o Posto Antiofídico. Notou um sério déficit entre a quantidade de veneno recebido e a que seria enviada em tubos de soro. Houve uma reformulação do contrato com o Instituto de Niterói, para que fosse reduzida a proporção da quantidade de veneno enviado em relação ao soro que seria recebido. Em 1923, deram-se inicio às expedições científicas e a uma intensa propaganda do serviço antiofídico. A campanha do novo serviço havia se iniciado um ano antes e dava-se por meio de boletins impressos, ou, mesmo, de cartas, remetidos juntamente com as vacinas enviadas aos fazendeiros, como a da peste da manqueira, que a “Secretaria da Agricultura do Estado fornecia, em quantidades avultadas, aos fazendeiros” (Magalhães, 1957: 248). Era preciso tornar a questão antiofídica um assunto de todos e pauta relevante para todo o Estado. A caçadas aos peçonhentos, chamadas de “bandeiras científicas”, forneceu uma enorme quantidade de animais ao Instituto, que logo se incumbiu de criar um museu. A quantidade era tamanha que o instituto pôde incrementar suas relações interinstitucionais e fornecer coleções ao American Museum of Natural History, ao 92 museu da Escola de Odontologia e Farmácia, ao Posto de Higiene de Ubá, à Estação Experimental Agronômica de Santiago de Los Vojos em Cuba. Por essa época começava a se fazer um mapa da distribuição geográfica dos ofídios. O mapa cresceria a partir das viagens e do acréscimo de novas espécies. O mais interessante é que o serviço representava um novo olhar para espaços, terras, municípios antes perdidos e/ou esquecidos pelos poderes públicos. O modo pelo que eles estariam inseridos não deixa de ser peculiar, pois os peçonhentos tornavam-se o símbolo dessa busca de uma Minas que precisava ser colocada em harmonia com os preceitos civilizatórios. Os escorpiões, outros peçonhentos temidos, também continuavam como objeto de estudo. Magalhães, agora diretor, se dedicaria por longo tempo ao estudo dos efeitos fisiológicos da picada por escorpiões. Com os aracnídeos, a questão era bem diferente. O soro era fabricado aqui e vendido, sendo a resposta curativa bastante satisfatória. O Tityus Serralatus era um personagem fácil na capital mineira, o que facilitava a obtenção da matéria-prima para a produção do soro. Mostra disso foi que a intenção de Magalhães consistiria na fabricação industrial do soro, e houve compra em larga escala de escorpiões. As inúmeras propagandas encontradas no Minas Gerais demonstram o empenho no fabrico do soro antiescorpiônico e de sua posterior comercialização. Para se ter uma idéia do vulto que ganhou o serviço, o soro chegou a ser exportado para o México, em outubro de 1927. A união de esforços, que associava a credibilidade dos médicos do instituto à atuação da Filial, fez com que o serviço crescesse em grandes proporções, tornando-se cada vez mais importante. De acordo com Octavio de Magalhães, “nos anos de 1925, 1926, 1927 e 1928, o nosso progresso se acentuou e intensificamos aí a nossa campanha contra os escorpiões e os ofídios. Imprimimos e distribuímos 6000 circulares de 93 propaganda, em um só ano. Os estudos sobre as doenças de animais, plantas e homens, continuaram de maneira precisa” (Magalhães, 1957: 253-254). O percurso científico também teve os seus percalços, e houve médicos que tentaram detratar o soro antiescorpiônico dizendo que ele “era igual a injeção de água do pote”. Mas isso não foi nada que a credibilidade que o Instituto Ezequiel Dias conseguiu ao longo do tempo, construída através de suas redes científicas, não pudesse dar conta de aplacar. Foi dessa forma que o Instituto conseguia facilitar o transporte dos peçonhentos, o que daria o livre trânsito para as caixas sem quaisquer ônus. Uma justificação que se fazia necessária e que Magalhães, logo após falar da detração do Instituto, salienta, é o sentido humanitário das campanhas: “Na sala de espera do Instituto Ezequiel Dias, de aspecto modesto e quase humilde, entrara de espavento uma mulher aflita, chorosa e desesperada, tendo ao colo uma criança mal entrada em meses. Aquela pobre mãe nos mostrava, estendendo os braços e sacudida pelos soluços, quase desfeita em lágrimas, a pobre criancinha imóvel nos seus braços. Um suor viscoso e frio cobria o corpinho da pobre criança, já no limiar de uma agonia lenta e inexorável. A boca e face estavam cobertas de um líquido espumoso e sanguinolento, que atingia, ligeiramente, as roupinhas que lhe cobriam o corpo. O ritmo respiratório e circulatório apenas perceptível, a resolução muscular o estado geral enfim, denotavam um próximo desenlace. Havíamos presenciado, há 11 anos passados, mudos, estarrecidos, impotentes e revoltados uma cena semelhante. Fora justamente esta revolta contra a impotência da medicina, que nos fizera aceitar pressurosos a proposta de Ezequiel Dias de estudar o escorpionismo. Agora, não. Havíamos estudado o assunto, podíamos lutar e as nossas conclusões haviam sido, na prática, uma demonstração eloqüente de que tínhamos acertado. Injetamos na criança 100 doses antitóxica do nosso soro e, ouço a pouco, hora a hora, a criança começou a melhorar. Poucas vezes vimos a ação antitóxica mais rápida, intensa e brilhante. Não sabemos qual alegria maior, se do coração daquela pobre mãe, que chorava e ria de alegria, ao ver salva a filhinha, se a do nosso silêncio do laboratório” (Magalhães, 1957: 255). Tanto a detração do soro antiescorpiônico como o relato do bebê salvo mostram que os sujeitos e seus interesses também estão envolvidos no fazer científico e que 94 havia um discurso que tentava dar maior importância e credibilidade ao Instituto, partindo do pressuposto do bem que a ciência proporcionaria às pessoas. Pedras que se viam no caminho também pela aceitação da soroterapia como forma universal de tratamento. A luta contra a medicina popular foi intensa e as picadas de cobras e escorpiões guardaram episódios peculiares nas páginas da história do Instituto Ezequiel Dias. O mais interessante foi que essa questão foi tratada pela Filial de forma profunda e minuciosa. A todo instante chegavam drogas que compunham um imaginário muito forte a respeito do tratamento, que ainda guardava heranças de uma arte de curar que persistia, por mais que o discurso levasse a questão para o terreno do maravilhoso e, muitas vezes, do descrédito científico. A Filial se dedicava a testar cada produto que chegava e apresentar as contraprovas, que sempre culminavam na ineficácia dos produtos analisados. Tal dedicação pode ser explicada pelo fato de a legitimação das práticas exigir dos atores uma gama variada de estratégias, sendo uma delas a de se utilizar das idéias de ciência e “não ciência” para colocar em descrédito práticas e concepções anteriores, algo que não mais convinha aos novos modelos científicos. A microbiologia seria também importante para uma nova forma de ver o mundo e de inserção do próprio médico no social; e para que isto efetivamente acontecesse seria necessária uma luta para o soterramento das práticas de cura ditas não oficiais/não científicas. Entretanto, o processo não ocorre de uma única vez e, não raro, desenrola-se de forma lenta e com mudanças de implicações culturais muito fortes. Era por isso que ainda permaneciam os tratamentos populares, como a “pedra de chifre de veado”, uma pedra escura e porosa que se colocada no lugar da mordedura, muitos acreditavam, aspiraria o veneno dali. As experiências com essa medicina popular 95 povoaram alguns artigos científicos, relatos memorialistas e a documentação oficial do Instituto, como os relatórios dirigidos ao Secretário de Agricultura de Minas Gerais, em que são numerosas as experiências e o discurso que tenta eliminar tais práticas da população mineira. Havia até um “norueguês-alemão” que manipulava cascavéis e se dizia protegido graças a um talismã de níquel, que, obviamente, seria reproduzido e vendido. Magalhães conta que o dito cujo chegou até a usar nome da Filial para vender os tais amuletos. Dentre os remédios famosos, e que foram colocados à prova, estavam: Carvão antiofídido, Surucuína, Pomada Vilaró, Serpenticida, O Infalível, Escorpiões em conservação no álcool, Giló (sic) com cachaça, amuleto de níquel Haroldo Tinn Kundsen, Específico Plus Ultra, Antiviperino, Urutuína, esponja, anticoral, lenimento de Sloan. Todos passaram pelo crivo da ciência, minuciosa, e, segundo o discurso que se formava, a única capaz de legitimamente indicar o que era falso e o que era verdadeiro. Como não poderia deixar de ser, a oportunidade era única, pois se utilizava da propaganda e dos artifícios dessa mesma medicina popular para colocá-la em desuso frente às modernas concepções científicas. Tal empenho fica claro quando Magalhães diz que “De todas fizemos observação pormenorizada, com experiências do laboratório. Infelizmente, nenhum destes milagrosos produtos tinha realmente ação antitóxica, nem sequer para as doses mortais mínimas dos venenos das cobras e dos escorpiões” (Magalhães, 1957: 256). O Instituto Ezequiel Dias passaria a desempenhar um papel simbólico na cidade. A Instituição representava uma ciência que deveria ser seguida e que se encapsulava como verdade. Foi assim que as portas do Instituto foram abertas, e os limites se 96 estreitaram. As visitas de populares eram diárias, e, por fim, com enorme quantidade de público, tiveram que ser reduzidas às sextas-feiras. Por falta de espaço as pessoas costumavam ficar nos muros do serpentário. Tais questões simbólicas, misturadas a essa luta cotidiana da ciência para legitimar concepções, práticas e fatos científicos, se imbricavam com os fatos que Octavio de Magalhães elencava como as razões do sucesso do posto: um terreno pouco estudado; a organização do posto, com rapidez na entrega do soro, autonomia da seção (em relação ao Estado), a boa estrutura física, de material e pessoal, além do prontoatendimento no caso dos acidentes. O Serviço Antipeçonhento foi, sem dúvida, capaz de trazer muita legitimidade ao Instituto, frente aos diversos setores sociais, e, dessa forma, esse prestígio científico poderia se converter em outros ramos da atividade científica, assunto que será discutido mais detidamente no Capítulo 3. O início da década de 1930 mostra bem o grau de desenvolvimento do Posto e a legitimação que ele tinha conseguido junto à sociedade. A quantidade de cobras enviadas, com o aumento vertiginoso, é demonstração clara disso. 97 Quantidade de cobras enviadas à filial48 Ano Quantidade de cobras enviadas 1918 336 1919 901 1920 1636 1921 1840 1922 1748 1923 1660 1924 1392 1925 1562 1926 1622 1927 1552 1928 1412 1929 1589 1930 1713 1931 3278 1932 4346 1933 5980 1934 6437 1935 8301 VII . 1 Dinâmica e funcionamento do Instituto na gestão de Octavio Magalhães: a inserção na saúde pública No ano de 1932 foi inaugurada uma Seção Anti-rábica, um dos resultados das conversas com a prefeitura de Belo Horizonte. Havia um grave problema, pois o deslocamento do doente teria que ser feito até Juiz de Fora, onde estava o Instituto Pasteur49, que fornecia a vacina. Com a nova Seção, os serviços incluiriam a vacinação de cães e a caça aos morcegos. Paulo Carneiro, que havia feito viagem à Europa e curso sobre raiva no Instituto Pasteur de Paris, foi o nome indicado para assumir o novo “braço” do Instituto. 48 49 Os dados da tabela também foram retirados dos Ensaios (Magalhães, 1957: 275). Apesar do nome, não há ligação com a instituição parisiense. 98 O serviço cresceu muito e foi para os amplos territórios de Minas, com atendimento aos órgãos públicos e particulares. O setor proporcionou uma série de trabalhos sobre o assunto, e a vacinação, cabe ressaltar, era gratuita, exigindo-se apenas o preenchimento de um formulário para acompanhamento do paciente. Entre 1931 e 1935, a Seção chegou a um número expressivo de 2466 pessoas tratadas. Outro demonstrativo da relevância que o Instituto adquiria era o fato de que ele se tornava parada obrigatória para turistas e personalidades internacionais: em 1930, destacam-se as visitas da princesa Elisabeth da Inglaterra e a Missão de Ensino chefiada pelo prof. Simon, de Paris, e do Rei Alberto da Bélgica. Em 1940, já como Instituto Biológico Ezequiel Dias, ficou marcado pela visita do então presidente Getúlio Vargas. A renda advinda do Posto Antiofídico era tanto financeira quanto simbólica, mas o Instituto não deixava de abrir outras frentes. Alguns medicamentos que o Instituto produzia e revendia eram: Sulfato de cobre (tratamento da febre aftosa); Vacina contra o “mal triste das aves” (tifose aviária); Soluto de urotropina (para o epitelcoma contagioso das aves); Vacina contra a pneumoenterite dos bezerros ou “Peste dos Polmões”. O Instituto continuava sua batalha de legitimação e participava de vários fóruns, como a Exposição Pecuária de Belo Horizonte, em 1928, em que as atividades do Instituto tiveram muito destaque. As relações com o Estado se tornavam cada vez mais estreitas pelo Posto Antiofídico e pelos exames microbiológicos, que, também feitos para particulares, se tornariam uma “fonte magnífica de pesquisas e de fornecimento de matéria-prima, para as diferentes seções do Instituto” (Magalhães, 1957:270). 99 Uma enfermidade que seria objeto de estudo por muito tempo, principalmente por Octavio Magalhães, era o tifo exantemático50. Desde 1933 o médico fez uma comunicação sobre a doença, publicando, ainda, uma enorme quantidade de artigos ao longo da sua carreira. Foi também em 1933 que Adolfo Lutz (1855-1940) teve uma importante passagem pelo Instituto. O pesquisador procurava dados sobre a esquitossomose e fez diversas viagens com os técnicos da Filial. A bouba51 foi outra doença que teve estudo solicitado pelo Diretor de Saúde Pública do Estado. Para a tarefa foi chamado Aroeira Neves, que se dedicou ao estudo da enfermidade no norte de Minas Gerais, onde sua incidência era endêmica. A esquistossomose foi uma outra enfermidade muito estudada. Depois da estadualização, com o Instituto Biológico Ezequiel Dias, os estudos aumentariam bastante, seguindo a demanda. Alguns municípios, como Belo Horizonte, solicitavam exames do Instituto para a verificação da existência de “larvas”. Amilcar Vianna Martins, Valdemar Versiani, Lívio Renault e próprio Octávio de Magalhães foram nomes que se dedicaram ao estudo da parasitose. Alguns estudos nas águas também seriam importantes na articulação do Instituto Ezequiel Dias com os poderes públicos. Belo Horizonte e Araxá foram algumas cidades que tiveram suas fontes analisadas pelo laboratório do Instituto, como mostram, inclusive, alguns relatórios da Diretoria de Higiene do Estado52. 50 A febre maculosa, ou tifo exantemático, é uma doença infecciosa causada pela bactéria Rickettsia prowazeckii, transmitida pelo piolho. Sua sintomatologia é caracterizada por febre alta, fraqueza e erupções na pele. (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa) 51 Doença tropical contagiosa causada pelo espiroqueta Treponema pertenue, caracterizada por lesões cutâneas seguidas de erupção granulomatosa generalizada e, por vezes, lesões destrutivas tardias da pele e dos ossos; framboesia, piã. (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa). 52 Tivemos acesso aos relatórios elaborados pelos Diretores de Higiene (em 1917) e, depois, por cuasa da mudança na estrutura organizacional, em 1928, pelos Diretores de Saúde Pública (1927; 1928; 1930 e 1931; 1932). 100 Octávio de Magalhães conta que, na década de 1930, o instituto passou a manter um serviço de policlínica. O médico salienta a baixa estrutura, ao passo que havia a necessidade de manutenção do serviço “para atender os casos de escorpionismo e ofidismo, que começavam a crescer assustadoramente” (Magalhães, 1956: 277). Mesmo assim, a prestação do atendimento sofreu muitas críticas. Magalhães afirma que a policlínica “serviu de arma contra nós”. Outro setor importante foi a Biblioteca do Instituto, que desempenhou um importante papel no processo de profissionalização do campo médico em Belo Horizonte. A Faculdade de Medicina, desde os seus primórdios, tinha algumas limitações estruturais, e a biblioteca da Filial foi pólo importante para que médicos, estudantes e pesquisadores pudessem se colocar em consonância com os mais recentes debates na área. A biblioteca teve um crescimento vertiginoso e foi objeto de bastante estima por parte de seus diretores, desde os tempos de Ezequiel, situação que perdurou com a administração de Magalhães. Em 1922, ela contava com 1022 volumes encadernados, 535 para encadernar, 2522 teses diversas e a assinatura de 77 revistas. Em 1923, com 4079; 1926, com 5128 volumes; em 1933, 10161 volumes; em 1935, antes da estadualização, contava com 10598 volumes. Os recursos para a biblioteca eram parcos, mas, mesmo assim, ela não deixou de crescer, como mostram os progressivos números do acervo. 101 VIII – O processo de estadualização O processo de estadualização é, sem dúvida, um divisor de águas para o Instituto, que via na nova situação uma possibilidade concreta do antigo desejo de expansão. Mas a situação, como não poderia deixar de ser, produziu marcas e exigiu a utilização da credibilidade acumulada por esse homens de ciência, para que o desligamento de Manguinhos pudesse acontecer. A questão das verbas era sempre destaque por sua escassez, seja material, seja, até mesmo, para o pagamento de pessoal. Magalhães chega a afirmar que lançara mão de créditos próprios para garantir o andamento de determinadas funções. A questão orçamentária é tão recorrente, que vinha desde os tempos de Ezequiel, sendo inclusive palco de um desentendimento com o mestre de Manguinhos, Oswaldo Cruz. A Filial se fazia tão importante junto às autoridades mineiras, que conseguiu fomentar o projeto de uma emenda que fazia com que as verbas viessem diretamente para o Instituto sem a mediação de Manguinhos. O problema é que a verba seria retirada da própria matriz, o que não agradou Oswaldo Cruz, que, em atitude radical, suspendeu toda a remessa de material para Belo Horizonte. Magalhães fala que essa foi apenas uma questão interna que seria resolvida sem maiores transtornos. Mas o tema dos recursos seria questão recorrente, pois a filial se via atrofiada em virtude da falta de verbas, algo que abortava qualquer possibilidade de crescimento. Portanto, os relatos de memórias enfatizam a questão das verbas, que, por sua escassez, emperrariam o desejo de fazer crescer a instituição e proliferar ainda mais os estudos. Houve uma forte “campanha” por parte do Instituto Ezequiel Dias com o objetivo de fazer vingar o projeto de estadualização da Filial de Manguinhos. Para 102 Magalhães, essa seria a única forma de crescimento, e a relação com o Estado, solidificada desde a fundação, em 1907, seria mais um ponto a favor da tese. Mas o desligamento foi um processo árduo cheio de negociações e estratégias que deixaria algumas rusgas. Em 1934, vendo o projeto em andamento, Chagas chegou a afirmar em uma carta: “não posso deixar de extremar o meu pesar”. Se, em 3 de agosto de 1907, a filial chegava sombreada pela imagem de Manguinhos, como uma casa de ciência em expansão, a situação agora era outra. A década de 1930 marcou o crescimento dos trabalhos e serviços, que, foi, contudo, acompanhado por uma escassez de recursos e limitações estruturais. A estadualização seria uma aposta, um cálculo que desvincularia a Instituição do peso da credibilidade do Instituto Oswaldo Cruz, mas era, naquele instante, a solução encontrada por esses atores para crescer, ampliar-se, desenvolver-se, segundo os relatos das fontes. A transferência para o Estado seria então uma empreitada institucional e burocrática, mas, também, simbólica. A idéia de um instituto mineiro espalhava-se desde muito tempo na capital de Minas. Em momentos diferentes, sempre vinha à tona. Em cada uma dessas situações em que a idéia de uma instituição estadual retornava, havia uma ameaça constante à parceria entre o Instituto Ezequiel Dias e o governo, que se tornara a principal fonte de proventos com a contratação dos inúmeros serviços. Há o fato de que outros estados tinham suas instituições próprias, ao passo que Minas continuava a depender de verbas federais para a manutenção dos assuntos relativos às enfermidades e sua profilaxia, tendo em vista a centralidade das ações do Instituto. Outra questão importante era relativa à localização do Instituto. A Praça da Liberdade, onde estavam as instalações do Instituto com entrada pela Rua da Bahia, 103 seria motivo para uma forte oposição. Octavio de Magalhães fala da situação de forma jocosa: “Aquela Casa, pelos micróbios que continha, pelas doenças que estudava, era um perigo coletivo no ponto onde se achava. Era mesmo incrível que ela tivesse funcionamento junto ao Palácio do Presidente, entre casas de honradas famílias. O mau cheiro que dali se exala, só ele era capaz de matar um exército. Depois que para ali se mudou o Colégio Isabela Hendrix, as pobres meninas estavam morrendo intoxicadas...” (Magalhães, 1957: 324) Juntamente a essa situação, cabe observar que, a partir da década de 1930, com a Era Vargas, o Instituto Oswaldo Cruz também passa por grandes transformações, em virtude do novo cenário político, econômico e social. Verifica-se um sério estrangulamento financeiro de Manguinhos, devido principalmente à perda da autonomia, fundamental para os recursos, o que tem como reflexo a insatisfação de funcionários e a evasão de pesquisadores (Benchimol, 1990: 69). Não se pode esquecer de que a década de 1930 também marca a mudança do paradigma institucional, em que instituições fundadas com um caráter personalista, em grandes figuras da ciência, passam a perder espaço para as Universidades. Magalhães chegou a afirmar que o desejo de construir um “grande Instituto mineiro” vinha desde 1923, quando assumiu definitivamente a direção. Mas a idéia demorou a tomar forma, e, em meados de 1930, havia um contexto institucional, político e da própria ciência biomédica que pudesse torná-lo realidade. É óbvio, também, que os médicos do instituto haviam acumulado credibilidade suficiente para ser colocada em sua derradeira prova com um empreendimento dessa grandeza, que 104 envolveria amplos interesses. Tal credibilidade seria a única capaz de mostrar a abrangência das redes que o instituto havia formado ao longo de quase três décadas. O resultado disso foi a atuação fundamental da bancada mineira naquilo que seria a Lei nº 164, que passava para os poderes do Estado o Instituto Ezequiel Dias, e, depois, na Lei Estadual sob o nº 163, sancionada em 13 de novembro de 1936. O Instituto passaria a se chamar Instituto Biológico Ezequiel Dias. O regulamento, em seu Art. 1º, estipula que o Instituto Ezequiel Dia, “reorganizado pela lei estadual nº 103, sob a denominação de ‘Instituto Biológico Ezequiel Dias’, constitui, com o seu pessoal e instalações, departamento de serviço diretamente subordinado à Secretaria de Educação e Saúde Pública”. O regulamento se destaca pela manutenção dos antigos serviços e, principalmente, pela inserção do ensino como tarefa do Instituto, ao qual cabia “a organização de cursos de saúde pública e de aperfeiçoamento dos estudos que lhe competem”, além da “colaboração com institutos científicos e de ensino, para melhor preenchimento dos seus diversos encargos e especialmente com a Escola de Veterinária do Estado, nesta capital, à qual abrirá os seus cursos e laboratórios” (Magalhães, 1957: 352-353). Na idealização ficaram claras as grandes influências no Instituto Pasteur de Paris, do Instituto Oswaldo Cruz e do Butantan. Pelas divisões departamentais e complexidades das funções, a grandiosidade do projeto era evidente. Além da Diretoria, haveria os seguintes departamentos: Administrativo, Defesa Humana, Ensino e Divulgação, Microbiologia, Parasitologia, Soroterapia e Vacinoterapia, Anatomia e Fisiologia Patológicas, Química, Defesa Animal, Defesa Vegetal e Microbiologia Aplicada às Indústrias. Para agregar todos estes serviços, seriam construídos pavilhões por onde eles estariam distribuídos. 105 A passagem para o poder estadual foi um momento de grande entusiasmo e expectativas de que sonhos antigos pudessem agora se efetivar. Algumas mudanças e novidades ajudavam a promover certo clima de euforia. Uma inovação foi a criação das Memórias do Instituto Biológico Ezequiel Dias, cujo primeiro número seria publicado em 1937. A intenção da publicação era constituirse um periódico importante para trabalhos originais produzidos em terras mineiras. O ano de 1936 marca, também, o fim do contrato com o Instituto Vital Brasil e a tentativa de auto-suficiência na produção do soro antiofídico. No ano seguinte, Magalhães dava a seguinte informação sobre o assunto: “conseguimos enviar aos fazendeiros, para campanha antiofídica, cerca de 1988 tubos de soros feitos nos nossos laboratórios, com os nossos próprios recursos, devido à colaboração eficiente e dedicada do assistente contratado, Osvino Pena Sobrinho” (Magalhães, 1957: 421). Contudo, houve, entre 1935 e 1939, um sensível decréscimo no envio de cobras venenosas, o que ainda prolongou por certo tempo a relação interinstitucional com o instituto carioca, na exigência de uma complementação de tubos de soro. As novas instalações estavam sendo construídas em um terreno no bairro da Gameleira. O espaço era muito extenso, e as plantas do novo Instituto Biológico mostram como o sonho de Octávio de Magalhães era grande. Talvez por conta disso, ele tenha feito um cálculo superestimado de todos os interesses que estavam envolvidos nessa transferência para o Bairro Gameleira. Para alguns, seriam sonhos que, de tão altos, colocaram um véu nas determinações políticas e pragmáticas que sempre rondam os assuntos de saúde pública. Diante do novo cenário, com o modelo institucional criado por Oswaldo Cruz dando sinais de fraqueza diante das novas posturas políticas e da ascensão das universidades, 106 que passam a se tornar centros de ensino e pesquisa, a partir da década de 1930, o cálculo de Octavio, para sua idéia de ciência, não conseguiu se acomodar nos novos contextos, demandas e interesses dos próprios atores políticos que compunham a cena em Minas Gerais. Fato é que, em 20 de setembro de 1941, Octávio de Magalhães fica sabendo, através do Minas Gerais, da grande reforma promovida por Benedito Valadares. Antônio Valadares Bahia, parente de Benedito assumiria a direção do órgão que mudaria de nome – Instituto Bioquímico do Estado de Minas Gerais. Textualmente está colocada a “necessidade de se transformar o Instituto Biológico Ezequiel Dias em um centro de fabricação de soros e vacinas que satisfaça as necessidades de consumo do estado” (Minas Gerais, 20 de Setembro de 1941:2). Magalhães seria rebaixado a Diretor técnico. Não concordando com o andamento da situação, pede exoneração em 23 de setembro de 194153. Através do percurso histórico do Instituto Ezequiel Dias, como filial de Manguinhos, procuramos explorar a trajetória de uma instituição em determinado contexto. O Instituto teve papel ativo no processo regional de legitimação do paradigma microbiológico: nas suas relações interinstitucionais, nos serviços prestados, na Instituição que simbolicamente representava os novos modelos. Cabe pensar de que forma essa trajetória institucional foi importante para colocar o Instituto em conexão com diversas discussões, projetos e desejos no interior 53 Com o afastamento do Instituto, Octavio de Magalhães se dedicaria a sua carreira na Faculdade de Medicina. Exerceu o magistério durante 47 anos e foi aposentado pela compulsória de 1960. Foi reitor da Universidade Federal de Minas Gerais entre 1949 e 1952 e teve participação ativa na federalização (Magalhães, 1976). 107 da Primeira República, em nível nacional e regional, e de que forma tudo isto era mobilizado no interior do laboratório. 108 Capítulo 3 – Escorpiões, cobras e micróbios: os híbridos e as redes científicas do Instituto Ezequiel Dias No presente capítulo pretende-se fazer uma ordem inversa na história do Instituto Ezequiel Dias. Anteriormente, o percurso histórico da instituição foi enfatizado, assim como suas redes, seu crescimento físico, a complexidade de atuações que se corporificou ao longo do tempo nas relações com o governo e com outras instituições médicas, a credibilidade obtida – esta, capaz de arregimentar aliados e afastar opositores na tarefa imperiosa de tornar o espaço institucional importante para amplos setores, além de legitimar o paradigma microbiológico na cidade moderna. Porém, o trabalho com as fontes mostrou a necessidade de se situar historicamente a trajetória dessa instituição, entre 1907 e 1936, para além de seu espaço físico e suas relações interinstitucionais. Determinados referenciais socioculturais são importantes para enraizar a atuação da Instituição e de alguma forma interligá-la a outros temas importantes que estavam na pauta política do momento. Acredita-se que o 109 crescimento do Instituto é resultado, também, de uma bem elaborada leitura histórica e cultural do contexto regional mineiro e nacional, feita por homens de ciência, encabeçados por Ezequiel Dias e Octavio Magalhães. Dessa forma, seria importante indagar: qual leitura teria sido essa? De que forma ela foi importante para a história da Instituição? Como esse contexto estrutural tornava-se parte integrante e vital da atividade científica e do processo cotidiano de luta pela construção e aceitação dos fatos científicos? Nossa análise pretende evidenciar de que forma tais homens de ciência foram importantes na projeção e na prática de estratégias que, de alguma forma, pretendiam valorizar a Instituição da qual faziam parte, optando por inseri-la em uma discussão a respeito da saúde no período. Portanto, procura-se delinear de que forma a história do Instituto Ezequiel Dias teve como divisor de águas o ano de 1918, com a criação do Posto Antiofídico. Em um primeiro momento, poder-se-ia pensar que a criação desse Posto não seria mais do que natural, já que o problema dos animais peçonhentos era um assunto relevante no contexto da capital de Minas. Entretanto, de forma sui generis, o serviço rompeu as barreiras da caça às temidas cobras e aos aterrorizantes escorpiões. Como um setor estratégico do Instituto, posto que garantia uma grande credibilidade acumulada através das relações com amplos setores (população em geral, setores ligados às forças produtivas mineiras e ao próprio governo estadual), teve também outros propósitos. Além de “fonte” de acumulação de um capital científico, o Posto Antiofídico e depois o Serviço Antipeçonhento, foi capaz de fazer uma interligação peculiar entre o Instituto e a luta pelo saneamento do Brasil, assunto que estava na pauta do campo médico, principalmente a partir do final da década de 1910, e que pretendia garantir um novo lugar para a saúde. Dentro do projeto de nação que se 110 desenhava e que seria colocado em prática, no contexto dos sonhos e desejos de uma intelectualidade da Primeira República, muitos médicos faziam parte, como interlocutores e, principalmente, artífices, de tais projetos de nacionalidade. O Instituto Ezequiel Dias inseriu-se nessa discussão ampla, através do Posto Antiofídico. Como se verá a seguir, as viagens científicas em busca de cobras e escorpiões consubstanciaramse, em muitos momentos, numa ávida discussão a respeito do papel da saúde, da educação, do aprimoramento das redes de transportes para a construção de uma Minas interligada a uma nação que deveria incluir os mais recônditos lugares. A idéia de uma nação saneada fazia parte de uma “ideologia da construção nacional” (Castro Santos, 2003) que pretendia ligar os sertões do Brasil aos grandes centros de decisão nacionais – unir sertão e litoral, romper a fragmentação, constituir um amálgama e, assim, incluir o território perdido no fluxo do progresso civilizatório. Assim, no âmbito nacional, a saúde se tornara pauta das discussões por um conjunto de fatores que fizeram do tema importante para se pensar/repensar a nação. O ano de 1918 pode ser considerado emblemático nesse processo em que a historiografia sobre o tema se resume da seguinte forma: nos textos publicados por Belisario Penna a respeito das viagens científicas, promovidas desde o início da década de 10, no Instituto Oswaldo Cruz; a publicação no jornal O Estado de São Paulo, em 1914, dos Contos Urupês e Velha Praga, de Monteiro Lobato, que traziam à cena o Jeca preguiçoso e degenerado, e sua conseqüente reviravolta com a inserção de Lobato no movimento sanitarista e de seu pedido de desculpas ao Jeca, que, semelhante ao próprio Brasil, “não era assim, estava assim”; o discurso de Miguel Pereira proferido em 1916, mas que repercutia nos anos subseqüentes e proclamava que “O Brasil é um vasto hospital”, precisando ser assim saneado, libertado desse mal que era a doença que assolava os mais distantes lugares e fazia do interior uma profusão de idiotas e opilados; da 111 epidemia de Gripe Espanhola, nesse mesmo ano de 1918, que chegou ao Brasil no segundo semestre, que por sua tragicidade de caráter epopéico, provocaria um questionamento de nossa saúde pública e suas instituições em âmbito nacional e regional (Hochman, 1993; Hochman 1998; Hochman e Lima 1996; Lima e Hochman, 2004). O interessante é que, quando se observa o contexto mineiro da Primeira República, vemos, também, um projeto regional que tentava unir uma Minas fragmentada. Iniciativa que, se, por um lado, está inserida nesse constante repensar das bases republicanas a partir da mudança de 1889, por outro, tem questões muito próprias da situação sociohistórica mineira. Pode-se dizer que o contexto mineiro tem que ser analisado em consonância com todo esse projeto nacional, mas que não se pode perder as nuances históricas que fazem de Minas e suas dessemelhanças econômicas, culturais e até geográficas um caso a parte nesse processo maior da Primeira República brasileira. Nosso objetivo é também dar o tom e a forma da interlocução promovida entre os homens de ciência e a percepção de um projeto regional mineiro de desenvolvimento, que pretendia garantir uma “substância econômica” ao Estado e que se pautava na união pela diversidade de Minas (Faria, 1992). Projeto este assumido não apenas por um setor dominante e hegemônico, mas por um conjunto de setores produtivos representado e legitimado por várias entidades, como a Sociedade Mineira de Agricultura (instituição articuladora da criação do Posto Antiofídico) e que, com outras, sintetizava os interesses de várias “classes conservadoras”54 de executar tal idéia de desenvolvimento do Estado. 54 De acordo com Faria (1992), “Classes conservadoras” é uma nomenclatura de auto-referência bastante usada por esses setores, que se encontravam em uma posição de destaque no espaço público, de gestão administrativa e discussão, e, algumas vezes, de reivindicação, nas diversas esferas da vida mineira. A expressão classes conservadoras é importante, pois é assim que a encontramos na realidade histórica mineira do período. No Minas Gerais é dessa forma que agricultores, comerciantes, industriais, banqueiros e todos aqueles que se ligavam ao mundo da produção se intitulavam. Em um primeiro momento, isso pode passar a idéia de um bloco monolítico, o que não condiz com a verdade. Tendo em vista que, durante o período, elas encontraram até mesmo interlocutores que foram salutares aos seus anseios (como o Estado, a classe política e alguns setores sócias), embora tivesse também seus 112 Tal projeto também necessitava de bases de apoio, das quais uma, não por acaso, era a ciência. Sua efetividade também dependia da derrubada de alguns obstáculos que se tornavam mais evidentes quando se constatava uma pluralidade de Minas, a “um só tempo geográfica, econômica e política”, que nesse instante funcionava como entrave ao desenvolvimento. Diante dessa situação particular mineira, em que não havia um setor produtivo único, mas vários que eram importantes na sinuosidade dos acordes para os assuntos políticos e econômicos, a questão da saúde foi tratada também aqui de forma diferenciada, embora não estivesse ausente do intenso debate que acontece a partir de 1918. O trabalho de Faria (1992) é importante na tarefa espinhosa de tentar delinear as articulações políticas, econômicas e sociais promovidas pelos setores produtivos junto ao Estado de Minas Gerais, para colocar em prática esse projeto de desenvolvimento mineiro. Para o nosso caso, trata-se de algo importante, pois a partir dessas outras questões que estavam sendo debatidas e desses inúmeros interesses que tornavam ciência mais que um apêndice do social, pode-se perceber a historicidade da atividade científica em Minas relativamente ao Instituto Ezequiel Dias. Assim, o que se quer desenvolver é o seguinte raciocínio: se 1918 é um ano chave no Brasil, devido às questões levantadas, ele é também importante para a discussão da atuação do governo do Estado de Minas nos assuntos referentes à saúde. E o Instituto Ezequiel Dias era um elo importante, posto que peça chave, com seus serviços, no ritmo das questões nesse setor e, nesse mesmo ano, com o tão propalado Posto Antiofídico. Na tentativa de escapar de uma perspectiva que possa vir a julgar o papel do Estado de Minas Gerais no período a partir de critérios de eficiência e ineficiência, pretende-se pensar que 1918 inaugura um ínterim simbólico para a questão da saúde, antagonistas (seja logo no início da república com restauradores monarquistas, seja posteriormente, com iniciativas separatistas de setores mineiros). 113 que vai até 1927, com aprovação da chamada “Grande Reforma” do Serviço Sanitário e que amplia e torna mais complexa a idéia de uma Minas saneada em toda a sua pluralidade, nos mais distantes lugares. A complexidade do sistema sanitário pensado em 1927 fez notar o amplo leque de mobilizações empreendidas pelo campo médico durante esse período de quase uma década. E as cobras e escorpiões: como se incluiriam nesse processo intricado de acontecimentos? Vemos, então, dois projetos em curso, que, se não estão diretamente relacionados, se entrecruzam na realidade histórica: um projeto de nação em âmbito nacional; outro, de desenvolvimento de Minas em âmbito regional. E a questão da saúde passaria como feixe transversal entre ambos. Cobras e escorpiões seriam como seres híbridos que transitariam entre um e outro. Em certos momentos flutuariam nesse circuito que pretendia uma nova nação, uma nova Minas Gerais, e, de alguma forma, legitimar uma nova ciência sob os auspícios da microbiologia. Eram como porta-vozes dos médicos que os levaram ao laboratório para transitar por esse grande circuito e, em outros momentos, funcionariam como ponto de afluxo de interesses, ao mesmo tempo esotéricos e exotéricos. Um deles, não menos importante para esses homens de ciência, era tornar o Instituto Ezequiel Dias um lugar de prestígio e importância na Saúde Pública em Minas Gerais. A ciência opera com tempo e espaço contingentes. Mais que isso, os médicos do Instituto fizeram valer a natureza e sociedade como categorias que não estavam dadas. Se amplas questões do ponto de vista macroestrutural estavam sendo elaboradas, foi com essa contingência que esses médicos tiveram que trabalhar e levar para o interior do laboratório os processos árduos de produção e legitimação dos fatos científicos (o micro) com a sociedade em construção (o macro). Não é como partes distintas que se 114 quer promover sua mistura. Se a sociedade é levada a todo instante ao interior do laboratório, ela não é algo que apenas se mistura, mas parte integrante, inextricável, constituinte da própria atividade científica (Fleck, 1986; Latour, 1994, 2000, 2001). Assim, os cientistas, em vez de girar em torno de seus objetos, “faziam girar os objetos em torno deles”, tornando-os capazes de falar e interagir. Rompendo a dicotomia sujeito-objeto, esses não-humanos “são, como venho postulando desde o início, atores cabais em nosso coletivo; compreenderemos, enfim, por que não vivemos numa sociedade que olha para o mundo natural exterior ou num mundo natural que inclui a sociedade como um de seus componentes. Agora que os não-humanos já não se confundem com objetos, talvez seja possível imaginar um coletivo no qual os humanos estejam mesclados com eles.” (Latour, 2001:201) Cobras e escorpiões estão, dessa forma, destituídos da mera atribuição de objetos científicos. Estão mais para o limite de “quase-objetos”, são transformadores: “São reais, bem reais, e nós humanos não os criamos. Mas os coletivos, uma vez que nos ligam uns aos outros, que circulam por nossas mãos e nos definem por sua própria circulação. São discursivos, portanto, narrados, históricos, dotados de sentimento e povoados de actantes com formas autônomas. São instáveis e arriscados, existenciais e portadores de ser.” (Latour, 1994:88) Dessa forma, tentaremos percorrer os meandros dessa interação entre humanos (médicos do Instituto Ezequiel Dias) e não-humanos (cobras, escorpiões), suas relações e a que interesses ela serviu. 115 I - A aliança entre o Instituto Ezequiel Dias e as “classes conservadoras”: a ciência e o projeto de substância econômica para Minas Gerais Uma questão importante, a ser debatida, é o fato que o Posto Antiofídico foi criado por indicação da Sociedade Mineira de Agricultura (SMA), instituição importante e agregadora das forças produtivas no Estado, a qual teve uma atuação decisiva não apenas nos assuntos econômicos, mas também porque suas sessões foram palco de importantes debates a respeito de diversos assuntos, dentre os quais a saúde. Bem interessante é como a idéia foi parar na SMA por meio de uma carta do escritor Gustavo Pena, que havia escrito um artigo intitulado “Uma hora agradável entre cobras e escorpiões”55, após sua passagem pelo Instituto. Magalhães, em seus ensaios, dá o tom das diversas alianças promovidas para que a criação do posto fosse concretizada: “O trabalho de propaganda da idéia, principalmente do Dr. Gustavo Pena, homem de grande projeção na sociedade mineira, foi realmente de muita eficiência. Ezequiel Dias, por outro lado, procurou entrar em entendimento com o governo mineiro e com o Dr. Vital Brazil, ilustre fundador e diretor do Instituto Butantan”. (Magalhães, 1957: 196) O trabalho de construção e solidificação das redes foi bem sucedido. A aproximação com a SMA não poderia ter maior valia. A força dessas relações e a credibilidade que Ezequiel adquiriu para o Instituto podem ser percebidas através da coluna que a SMA tinha no Minas Gerais em que ele reproduz os agradecimentos do microbiologista por fazer valer a idéia da criação do Posto Antiofídico: “O sr. dr. Ezequiel Dias, Diretor da Filial do Instituto ‘Oswaldo Cruz’, instalada nesta Capital, dirigiu ao presidente da Sociedade, sr. dr. Francisco Salles, em data de 26 do mês findo, o seguinte ofício: 55 Infelizmente, apesar de muito “famoso” e citado, o artigo de Gustavo Pena não foi localizado. 116 ‘Comunico a V. Exc. Que os poderes públicos do Estado de Minas Gerais autorizaram o início dos trabalhos da seção antiofídica deste Instituto. Tendo sido a Sociedade Mineira de Agricultura um dos mais fortes elementos propulsores dessa idéia, peço vênia para congratular-mo com V. Exc. e os dignos consórcios, aproveitando ainda o ensejo para solicitar novamente o seu precioso apoio para a execução do nosso programa de serviço. Agradecendo cordialmente a generosa simpatia que essa progressista Sociedade costuma dispensar a este Instituto, aguardo com prazer as suas ordens e apresento a V. Exc. os meus protestos de elevado apreço e consideração’”. (Minas Gerais, 1 de fevereiro de 1918: p. 6) (grifo meu) Pelo ofício de Ezequiel Dias se vê claramente de que forma a SMA foi fundamental para colocar a sua credibilidade à prova e a favor da criação do Posto. Ezequiel, focaliza a importância do apoio da SMA. Ele não se priva de solicitar que assim se continuem os prolongamentos dos trabalhos, preocupando-se em fazer a manutenção constante do seu circuito de apoio, para que funcione bem e continuamente. Para a compreensão da aliança entre os setores reunidos nas chamadas “classes conservadoras” e o Instituto Ezequiel Dias, é vital a percepção de como estavam articulados os setores produtivos em Minas Gerais e de que forma eles buscavam a legitimação junto aos poderes públicos. Diferentemente de São Paulo, onde a representatividade dos interesses de classe eram bem perceptíveis, até pela conformação econômica da região, em Minas isso não se desenrolava dessa forma, pois a articulação entre o mundo da política e o da produção mostrou-se bastante complexa (Faria, 1992). E o que distinguia a situação de Minas? Primeiramente, é importante falar da própria diversificação espacial. Já se dividia em sete regiões (Centro, Norte, Sul, Leste, Oeste, Triângulo Mineiro e Zona da 117 Mata)56, com diversidades econômicas e políticas. Desde o período colonial a geografia tinha sito utilizada para que o território fosse mantido isolado, o que acabou acentuando diferenças regionais que tiveram que ser absorvidas pelo governo e pelo imaginário popular. A questão chegou a tal ponto, que logo no início do período republicano houve uma ameaça de rompimento da unidade de Minas, como a proposta de criação do estado de Minas do Sul, que englobaria as regiões do Sul e da Mata (Faria, 1992: 88). O caminho encontrado para vencer esses obstáculos, construídos historicamente, ligam-se à idéia de que existe uma “Minas pátria”. A solução política forjou uma idéia de um “patriotismo estadual”. Diante da ameaça de desagregação era preciso forjar uma idéia de uma Minas que se unisse pela pluralidade. Um Estado uno, mas diverso. Do ponto de vista econômico, Minas entra na República com uma economia altamente diversificada. Tal situação impedia que um único setor, como, por exemplo, o cafeicultor, dominasse a economia. Ao analisar essa situação, Faria levou às últimas conseqüências a idéia de que “Minas são muitas” e acabou por encontrar uma variedade de forças produtivas e seus interesses, complexidades na relação com o poder e na própria noção do Estado representante de diversos setores. Se, no começo da República, a ameaça da fragmentação foi solucionada lançando-se mão de uma cultura política mineira, forjada a partir de uma unidade na diversidade, posteriormente o problema foi a inexistência de um projeto de desenvolvimento que precisaria ser efetivado. A construção do Estado na forma Republicana precisou encarar tais dessemelhanças do território e fazer delas um fator para a promoção de um amálgama. Quanto ao poder público em Minas, diante do fato da inexistência de um setor apenas, transformou-se, ao longo do tempo, em instância catalisadora de diversos 56 Faria salienta que na Primeira República não havia uma carta fisiográfica do Estado que possa ser utilizada com precisão, pois os limites zonais variavam muito. Esta divisão em 7 regiões era de uso mais corrente na imprensa, documentação oficial e na literatura sobra a época (Faria, 1992:39). 118 interesses econômicos que se viam numa relação “mediatizada por uma espécie de intelligentsia, que se abrigava em entidades como a Sociedade Mineira de Agricultura e Associações Comerciais, para ampliar e legitimar o projeto de desenvolvimento proposto e executado pelo Estado” (Faria, 1992: 11-12). Essas mesmas “classes conservadoras” colocaram em execução um projeto de desenvolvimento que partia do princípio de que Minas deveria se unir a partir da sua diversidade, o que se consubstanciou no privilégio a setores como a agropecuária diversificada. Tal empreendimento estava alicerçado em diversos pontos, como a criação de entidades que fornecessem o arcabouço desse projeto, tal qual a própria SMA relativamente ao ensino agrícola e aos congressos setoriais. Desde os tempos passados, identificavam-se dois blocos no território: a minas barroca, das cidades coloniais sob a égide da economia aurífera; e as gerais do campo, do sertão, dos territórios escondidos. Era preciso agrupar esses blocos, e as tentativas de modernização são provas de tal empreitada materializadas na transferência da Capital para Belo Horizonte, oficializada em 1897, que viria a ser a síntese das Minas e das Gerais, por sua centralidade no território e pela força simbólica que a urbe passaria a adquirir. Os médicos do Instituto não deixaram de fazer a leitura desse turbilhão de desejos. Poderiam fazer a ciência uma aliada importante para a efetivação desses diferentes e complexos projetos para a Minas que se desenhava a partir do advento da República. Neste sentido é que as “bandeiras” da ciência, tão propaladas por Ezequiel Dias e Octávio Magalhães, adquiriram uma força simbólica ainda mais forte pelas montanhas mineiras. Elas eram símbolo de uma ciência que não se fazia apenas misturada ao contexto político mineiro, mas como parte constituinte e que partilhava das vicissitudes impostas pela realidade histórica. 119 Significa dizer que sair da Rua da Bahia para os sertões de Minas era muito mais que buscar cobras e escorpiões. Era uma luta pela incorporação de um território que estava arredio a essa história em movimento, que, por seu lado, se pretendia modernizadora, embora requeresse a transformação desses espaços através do saneamento. Mais que isso, desbravar uma Minas desconhecida era fazer parte de um coro orquestrado por vários sujeitos históricos que solicitavam de amplos setores a colaboração na União de Minas pela diversidade e no desenvolvimento do Estado, que não poderia deixar de contar com a valorosa contribuição da ciência. A partir da constatação do caráter político do ofício científico no seu cotidiano, fica mais claro o apoio do Estado, como um aliado, no crescimento do Instituto Ezequiel Dias. E, como não poderia deixar de ser, cobras e escorpiões também foram portas-vozes desse projeto de desenvolvimento que se concretizava através de alianças culturais, econômicas, políticas e cientificas. Prova dessas alianças é a construção do mapa de distribuição geográfica das cobras recebidas pelo instituto ao longo das décadas de 1920 e 1930 (Ver mapa na página seguinte). As cobras recebidas e coletadas são distribuídas de acordo com a região de proveniência. O objetivo pode parecer óbvio, em um primeiro momento: organizar a distribuição das espécies de cobras pelo território de Minas. A questão é que, frente ao nosso olhar, tal artifício científico não pode ser retirado do processo que transcorria. Minas era um Estado de regiões, com subdivisões e cidades perdidas e não mapeadas. Diante dessa situação, o fato de que, simbolicamente, as cobras substituiriam esses territórios recônditos adquire uma força muito maior do que qualquer ímpeto de organização puramente científica ou burocrática: ganha contornos de um Estado que lutava para se unir e que encontrava obstáculos em sua própria conformação espacial e 120 política. Nesse período em que se pretendia unir, transformar e modernizar, um mapa era muito menos taxionômico do que político e simbólico. É a ciência se fazendo prática e contribuindo para desbravar, mas, também, para solidificar elos, construir redes. Era a busca de uma Minas que se unia de forma bastante peculiar na atividade científica, através dos peçonhentos. Para além de um estado fragmentado, abdicava-se de seus contrastes históricos por uma unidade agora científica: materializada simbolicamente na distribuição dos peçonhentos por essa Minas em construção. Mapa da distribuição geográfica das cobras recebidas pelo Instituto Ezequiel Dias. Fonte: Centro de Memória da Fundação Ezequiel Dias 121 I. 1 - A Sociedade Mineira de Agricultura: mais um ponto de afluxo de uma grande rede No ano de 1909 foi fundada a SMA em Belo Horizonte57. Diante do projeto que se pretendia para o Estado, tornar-se-ia uma instituição vital no associativismo em Minas, e seu caráter agregador ficaria latente ao longo de sua atuação. Diante das conformações históricas, “a entidade se definiu, também, como um lugar social da enunciação do discurso revelador do projeto de desenvolvimento econômico mineiro” (Faria, 1992:124). A SMA caracterizava bem a tônica da forma pela qual se distribuíam os setores produtivos em Minas, abrigando assim as auto-referidas “classes conservadoras”. Apesar de o ruralismo mineiro ter encontrado na SMA uma instância de representação importante, seus quadros refletiam a diversificação, e até profissionais liberais e membros da Igreja Católica, ainda que em menor escala, compunham-na. Apesar de ser uma entidade civil, suas ligações com o poder se faziam presentes e necessárias, na medida em que era preciso dar efetividade aos interesses que lá dentro circulavam. Se não havia uma coincidência automática de interesses, a vinculação não deixava de existir, tendo-se em vista que “O perfil biográfico de mais da metade de seus diretores demonstrou que a entidade abrigava, em seus quadros dirigentes, grupo considerável de políticos – empresários que transitavam com desenvoltura entre as esferas dos setores público e privado. Foi esta ‘intelligentsia’ que mediatizou as relações entre o mundo da produção e o Estado, colaborando decisivamente com este na elaboração do projeto de desenvolvimento”. (Faria, 1992: 135) 57 De acordo com Faria, a SMA seguia também uma tendência do associativismo nacional. Em 1897 foi fundada a Sociedade Nacional de Agricultura. Tal como sua congênere, a SMA pretendia ser suprapartidária, privilegiando a organização civil (Faria, 1992). 122 Contudo, é importante salientar que a participação das autoridades não se restringia aos cargos de direção, pois, junto com representantes da Igreja e autoridades municipais, estabeleciam uma relação simbiótica entre a entidade e o poder estadual. A instituição também procurava seus aliados na tentativa de compor suas redes. Teve relações estreitas com as municipalidades, com comissões específicas para intermediação, a partir de 1916. Dessa forma, ratificava-se, novamente, a idéia de que a Minas modernizada apenas seria erguida através da união do todo fragmentado. Demonstrativo da capacidade arregimentadora da SMA era o fato de que ela tinha espaço cativo no Minas Gerais (órgão de divulgação oficial do Estado). As discussões promovidas dentro da SMA também encontravam eco em revistas ligadas aos setores agrícolas em um Boletim Mensal. Até pela natureza da entidade, a relação com a Secretaria de Agricultura 58 – instância em que foi estabelecido o contrato com o Estado para a criação do Posto Antiofídico em 1918, no Instituto Ezequiel Dias – também era muito forte. Mas Faria salienta que não havia um compromisso tácito de apoio. Houve, também, momentos de denúncia e reivindicações, como a crítica ao insucesso das cooperativas agrícolas que só teriam existido entre 1908 e 1914. Numa nova fase dessas relações, a partir dos fins da de década de 1920, houve uma crítica mais sistemática à atuação do Estado no setor econômico, principalmente a parir do Congresso Agrícola de 1928. A SMA fez uma sistemática campanha em prol do ensino agrícola, pois, segundo alguns de seus membros, era preciso ensinar o sertanejo a cuidar da terra e a produzir. Trabalho e educação eram questões que caminhavam juntas, havendo a insistência relativa à necessidade um ensino que fosse suficientemente prático, 58 Foi criada em 1891 e, em 1901, foi suprimida. Em 1910 seria criada a Secretaria de Agricultura, Indústria, Terras, Viação e Obras Públicas (Faria, 1992: 144). 123 fundamentado na observação in loco, que se distanciasse de um ensino clássico e bacharelesco. Neste sentido, técnica e ciência seriam colocadas em sintonia para modificar o cenário rural mineiro59. A partir dessa análise feita por Faria da SMA, seria importante perceber, no que tange ao presente trabalho, como a ciência passava a exercer novas definições no cotidiano desse trabalhador, sendo responsável por mudar práticas, por salvá-lo da ignorância através da higiene e do saneamento, mudando a casa, transformando o privado, as práticas culturais, incidindo nos corpos. Era precioso fugir do paradigma racial60 que viesse a inviabilizar a recuperação desse homem degradado pelas contingências históricas e culturais. O momento é de cobrar uma ação pública e efetivamente capaz de modificar a inserção desse sujeito nos projetos que saíam do nível discursivo e se transformavam na/pela prática. Cabe salientar como o Instituto Ezequiel Dias e o próprio campo médico em Belo Horizonte tiveram relações muito próximas com a SMA. Ela se constituía em um espaço privilegiado, não apenas por sua condição agregadora de importantes setores econômicos, mas por suas relações com o poder público que não apenas a faziam um braço do Estado, mas também por ser uma entidade capaz de mobilizar diferentes atores e torná-los capazes de pautar reivindicações e mudanças na atuação do governo. 59 Faria, em A política da Gleba, salienta a ciência como item importante das discussões da SMA, mas atrelada à relação com o processo produtivo, até por sua abordagem de “caráter mais econômico”. Consideramos que nosso objetivo aqui é dar uma maior ênfase a essa relação, até pelo trabalho empírico que mostrou as recorrentes aproximações entre a história do Instituto Ezequiel Dias e da SMA. 60 Faria salienta uma tendência dentro da SMA de pensar a questão racial ainda a partir de um paradigma racial ortodoxo, que privilegiava uma depuração étnica através da inserção de imigrantes (mulheres) brancas. No que se refere a esse assunto, tendemos a concordar com De Luca, em análise das oscilações da intelectualidade na Revista do Brasil relativa a novas concepções que assegurariam a nossa redenção através da ciência e, em outros momentos, o retorno de análises que enfatizavam a necessidade da limpeza seja através de políticas imigrantistas e até mesmo eugênicas. Para interpretar tal contradição, a autora utiliza a idéia de um pensamento pendular, que caracterizaria intelligentsia na primeira República e que, consideramos, pode também ser aplicado às variações discursivas no interior da SMA: “A tendência aqui era valorizar o sertanejo, sua adaptação ao meio e criatividade no aproveitamento dos recursos naturais. Porém, tais fronteiras estavam longe de ser rígidas uma vez que os espaços de interseção variavam com as circunstâncias, sendo mais apropriado recorrer à imagem do movimento pendular, com as suas infindáveis oscilações” (De Luca, 1999: 195). 124 Por esse caráter, seria um espaço fundamental para o processo de acumulação de capital científico, vindo a incrementar a discussão que, se por um lado reivindicava mudanças nos assuntos de saúde no Estado e no Brasil, por outro, demonstravam a tentativa do campo médico de buscar autoridade científica suficiente para postular transformações práticas nesses assuntos. As fontes dão bem a tônica de como a questão da saúde foi importante nas sessões da SMA. Em uma delas, pelos idos de março de 1918, com a presença de figuras importantes do meio médico mineiro, como Samuel Libânio e Eurico Villela, houve um intenso debate a respeito da situação sanitária de Minas Gerais. A discussão deixa claro que a SMA pretendia cobrar dos poderes públicos a posição de Minas Gerais na Liga Pró-Saneamento que se organizava nacionalmente. Belisário Penna, crítico contumaz da posição do governo, encaminhou um ofício à entidade: “Em nome da Liga Pró-Saneamento do Brasil, venho felicitar calorosamente à Sociedade Mineira de Agricultura pela iniciativa que tomou de solicitar do governo do Estado providências imediatas em bem da saúde de nossos patrícios, horrivelmente prejudicados por várias endemias, evitáveis todas, e curáveis muitas delas, sendo a causa primordial do pouco desenvolvimento econômico do nosso Estado, apesar dos tremendos sacrifícios realizados para esse fim. A instituição dos medicamentos oficiais para o tratamento da malária e da uncinariose, as duas doenças que mais extensamente prejudicam a população do Estado, é medida de primeira ordem e, por sua natureza urgente, mas insuficiente para libertá-la desses males. [...] A distribuição de medicamentos precisa ser acompanhada de outras providências. O tratamento não consiste apenas em dar aos doentes medicamentos específicos, mas em saber dá-los até a cura completa, e em ensinar-lhes os meios de evitar que se reinfectem”. (Minas Gerais, 8 de Março de 1918: p. 3) (grifo meu) As palavras de Penna demonstram o papel vital da SMA quanto a fazer da saúde uma questão importante para o Estado de Minas Gerais. Processo que não seria tão simples. Penna foi eficaz na sua elaboração discursiva e fez uma leitura eficiente da 125 existência de um processo em curso pelo qual se lutava pelo desenvolvimento econômico do Estado. Sobretudo, fez lembrar que esse projeto não se efetivaria sem mudanças imediatas na saúde pública do território. Para as “classes conservadoras” era o derradeiro dedo na ferida. Dar voz ao sanitarista é a prova de que em Minas elas também tomavam consciência de que seus desejos não se efetivariam sem uma tomada de consciência do papel da saúde como ponto vital do sucesso da meta de substância econômica. A ênfase é reivindicar, frente ao poder público, uma mudança de atitude, e nada melhor do que a SMA, ponto de consonância, de convergências de interesses, entre médicos sanitaristas e as “classes conservadoras”, para ser um fórum privilegiado da discussão do assunto. Na mesma edição do jornal fica evidente que o debate não parou, o que mostra a premência da questão. A resposta aos apelos de Penna foi contundente. Por meio de um ofício, a SMA responde que “Na ordem das providências para a consecução do nosso alto desígnio, nenhuma quer nos parecer mais indicada e oportuna do que a realização, pela palavra e pela imprensa, de uma propaganda prática e bem orientada, que, divulgando a extensão do mal, aponte às populações, os meios de evitá-los. E ninguém melhor do que o preclaro conterrâneo, pelo seu devotamento a essa causa, estaria apontado, para vir, em Minas Gerais, inaugurar, com uma conferencia nesta Capital, essa cruzada benemérita. [...] Assim, desejamos ver iniciada essa oba de previsão e de patriotismo em nossa terra; e para tão nobre escopo, fiamos que não nos negará o estimável concurso de sua inteligência e saber”. (Minas Gerais, 8 de Março de 1918: 4) Veja-se como a credibilidade dos interlocutores é usada de forma bilateral. Se, por um lado, Penna sabia que, se havia um lugar onde seu discurso se faria ouvir, era na SMA, por outro, a entidade sabia que era preciso utilizar do prestígio do sanitarista para trazer credibilidade à discussão do saneamento em Minas. 126 A seguir, transcreve-se a resposta de Samuel Libânio, Diretor de Higiene, prova cabal de que a ruidosa discussão fez eco pelos lados do poder: “Tinha a felicidade de comunicar à sociedade que o governo de Minas cogita de resolver eficazmente o saneamento rural do Estado e que há pouco foi comissionado pelo Exmo. Sr. Delfim Moreira para se entender com o sr. Presidente da República sobre o acordo a se firmar entre a União e o Estado para a execução de tal serviço. Servindo-se ainda da oportunidade, é com alegria que cientificava à casa que, ainda por determinação do Presidente do Estado, ficou resolvido, na conferencia que tivera com o chefe da Rockefeller Fondation, que o início dos trabalhos dessa comissão em Minas tenham lugar ainda no correr deste ano. Terminando apresentava ao digno presidente desta Sociedade, dr. Francisco Sales, as suas vivas felicitações por ter ligado o seu nome a esta patriótica cruzada, que é o saneamento dos sertões mineiros, provando, ainda uma vez, o alto zelo pelo bem coletivo de nosso Estado”. (Minas Gerais, 8 de Março de 1918: 4) A aliança entre a SMA e o campo médico dava seus frutos. A Rockefeller entrava como mais uma instância mediadora da relação entre as elites políticas e o poder público, na árdua tarefa árdua, embora patriótica e cívica, de sanear os sertões mineiros e fazer dos nossos rudes patrícios elementos chaves no projeto de desenvolvimento do Estado61. A solicitação da SMA foi prontamente atendida, e Belisário Penna veio fazer a conferência. Na ata da Sessão é descrita a efusiva recepção ao sanitarista e a seu discurso: “O trabalho do dr. Belisário Penna despertou profunda impressão, tendo o orador, por vezes, interrompido pelos aplausos da assembléia. 61 A centralidade da SMA na questão pode ser verificada posteriormente, quando o problema da ancilostomose, que tanto preocupava a Penna, começava a ser objeto específico das ações governamentais e com o apoio da Rockefeller. Em sessão posterior, a ata transcrita da SMA descreve que: “O sr. dr. Carvalhães de Paiva diz ter a satisfação de antecipar a casa, conforme um telegrama enviado ao ‘Minas Gerais’, a notícia da assinatura do contrato entre o governo do Estado, representado pelo sr. dr. Samuel Libânio, diretor de Higiene, e a Rockefeller Fondation, para combate à ‘uncinariose’”. (Minas Gerais, 25 de Maio de 1918: 4). 127 As suas últimas palavras foram abafadas por uma prolongada salva de palmas e S. Exc. vivamente felicitado”. (Minas Gerais, 3 de Maio de 1918) É bom lembrar que Penna é autor de um livro que fazia uma severa crítica à situação sanitária do estado de Minas Gerais. Mantendo o seu estilo direto e seu discurso enfático, diz que “Minas é, sob o ponto de vista da precariedade de saúde, do definhamento da raça e da pobreza dos seus habitantes, o mais infeliz dos Estados da Federação Brasileira” (Penna, 1918b: 5). O sanitarista não poupa os poderes público, explicitamente atribuindo-lhes a culpa pelo Estado da doença: “É incrível o descaso ou a indiferença dos governos estadual e municipais de Minas pela sorte de seus filhos, e mais inacreditável ainda é esse abandono criminoso depois de conhecidas as doenças, e de científica, prática e proveitosamente estabelecidos o seu tratamento e profilaxia, e de avisados os dirigentes do Estado da atenção, de intensidade e malignidade das moléstias evitáveis que assolam todo o seu território, sacrificando assustadoramente a sua gente e a sua vida econômica”. (Penna, 1918b: 8) Para Belisário havia um contraste claro entre a natureza exuberante de Minas e sua população degenerada pelas doenças. Era tarefa do governo entender que, nessa situação, era inadiável colocar-se em prática um dever humanitário, civilizador e, sobretudo, econômico. Para um estado que pretendia um projeto de desenvolvimento econômico, deviam soar aflitivamente as palavras de Penna segundo as quais “As funestas conseqüências do descaso do governo mineiro, pela saúde pública e da precaríssima situação sanitária da população, manifestavam-se palpáveis e evidentes na sua pobreza, na sua tristeza e retraimento, na derrocada financeira do Estado, cada ano mais acentuada, e à sua miséria econômica, representada por insignificante produção, relativamente ao número de seus habitantes, à riqueza do seu solo, à extensão do 128 seu território, à vastidão dos seus campos de criação, e à exuberância do seu clima”. (Penna, 1918b: 11) Penna ainda salienta que Minas é um lugar onde se havia dado mais importância ao boi e ao porco do que à saúde de sua população. Deveria ser bastante impactante, também, o fato de o médico construir todo esse forte discurso embasado em estatísticas. Segundo ele, os números eram evidentes e deveriam ser divulgados, para que todos enxergassem o descaso do governo. As preocupações, até aquele momento, haviam sido episódicas. Não se preocupou com a educação sanitária, com a profilaxia. Fora isso, havia uma desproporção no gerenciamento do Estado. Isto se via na má arrecadação de impostos, na ausência de uma utilização racional do dinheiro público, entre outras questões. A relação era simples para Penna, pois, enquanto Minas, Estado da doença, era símbolo da ineficiência política, o Rio Grande do Sul, o Estado da saúde, era símbolo da eficiência política. O resultado disso era um Estado doente, muito diferente da situação do sul, que era o exemplo de gestão pública da saúde. É importante perceber como a SMA trouxe para junto de si um ferrenho crítico do governo mineiro e como as classes conservadoras, que de alguma forma também compunham esse governo, tiveram que digerir essa visão de inoperância, para que se tomasse consciência do papel primordial das questões sanitárias. Não poderia ser mais incisiva a forma com que Penna sintetiza a questão: “Vamos insistir numa coisa sabia axiomática, isto é, que a saúde foi, é, e será sempre a principal fonte econômica, o fator primordial da riqueza e do progresso”. (Penna, 1918b: 22). As críticas de Belisário se referem, em última instância, às estruturas da própria República. Por sinal, sua fala reflete a angústia de uma República que ainda não se tinha feito real. Era necessário um modelo de gestão administrativa eficiente, e, por conseqüência, centralizador, que conseguisse resolver esses problemas. A má política gerava a doença generalizada, e, juntas, elas provocavam o atraso e a pobreza. 129 O livro de Belisário sobre a situação da saúde em Minas é símbolo da forma pela qual as idéias circulavam e de como houve um jogo bem elaborado em que aliados e opositores passariam a trocar de lado. Suas posições no circuito científico não seriam estáticas, mas flutuariam com a própria sociedade que se construía nesse processo. Se Belisário Penna poderia ser, à primeira vista, uma figura que causava repúdio dentro de Minas, não foi bem assim que isso se deu. A SMA, instância importante das mediações com o poder público mineiro, não só trouxe Penna para alistá-lo como aliado, como também fez ecoa suas idéias e seu discurso. Ao mesmo tempo, Penna não prescindiu do apoio das “classes conservadoras”, pois sabia que elas eram peças-chave para as mudanças na gestão da saúde que ele reivindicava. Sendo assim, em muitos momentos, ambos passariam a fazer coincidir seus interesses, como ao longo dos anos de 1920, por meio de uma percepção cada vez mais deliberada do “valor da saúde, como elemento imprescindível da riqueza e do progresso” (Penna, 1918b: 112). O problema continuava a conturbar. Sob o título “O problema do saneamento em Minas”, transcreve-se uma entrevista com Samuel Libânio feita pela Gazeta de Notícias: “Para bem informarmos ao público sobre o que se pretende fazer em Minas, dirigimo-nos ao dr. Samuel Libânio, que veio ao Rio firmar com o governo federal o acordo para o combate às endemias que mais perturbam o progresso mineiro” (Minas Gerais, 7 de junho de 1918). Na entrevista, Libânio discorre sobre as quatro endemias que “entorpecem a vida econômica do Estado, e todas as formas de atividade social: a malária, a uncinariose, a doença de chagas e as febres do grupo tífico” (Minas Gerais, 7 de Junho de 1918:3). Também são abordados os métodos para conter as endemias, citando-se, ainda, o apoio da Rockefeller no que se refere, especificamente, à uncinariose (ancilostomose). 130 A forma com que Libânio termina a entrevista é emblemática do alistamento dos aliados para esse grande projeto paralelo de saneamento de Minas e do Brasil: “Todos os que se alistaram agora na rude peleja conhecem as inevitáveis decepções e as amarguras possíveis. Mas aos pessimista responderemos que o governo de Mnas, assim como o da República, entram nessa luta com a alma toda. [...] No Parlamento, os guias mentais são os adeptos mais fervorosos dessa obra de saneamento. E a classe médica, mobilizada para esse fim, vai começar a agir”. (Minas Gerais, 7 de Junho de 1918). A entrevista também enuncia a elaboração de um Regulamento Sanitário Rural do Estado de Minas Gerais, que se publicaria logo depois. O saneamento de Minas começava a dar seu primeiro efeito prático. O Regulamento deixa claro sua tentativa de conhecimento e mapeamento do quadro endêmico mineiro. Seu tom é de reconhecimento, mas também de iniciativa clara de profilaxia e contenção das doenças. De acordo com seu Art. 1º: “Os serviços de profilaxia rural no Estado de Minas Gerais tem por fim: a) a profilaxia específica das doenças endêmicas ou epidêmicas nas zonas rurais do Estado; b) aplicação de medidas de higiene geral, que visam melhorar as condições de habitabilidade nos campos; c) aplicação de medidas possíveis de engenharia sanitária necessárias ao objetivo acima visado; d) a difusão de preceitos higiênicos, individuais e coletivos, aproveitáveis à garantia sanitária dos campos; e) a difusão no Estado dos medicamentos necessários ao combate às grandes endemias” (Minas Gerais, 19 de Junho de 1918: 1). Para o serviço de profilaxia rural houve algumas modificações em relação ao que Samuel Libânio havia dito. Foram consideradas como doenças a serem tratadas a malária, a uncinariose, Doença de Chagas e Lepra. O regulamento prima pelos estudos e por uma série de recomendações aos poderes locais, principalmente no que tange às 131 habitações no caso das três primeiras, redefinindo-se a obrigatoriedade no padrão de edificações públicas e privadas. No item relativo à Doença de Chagas, a lei é taxativa: “nos centros populosos do Estado e nas zonas rurais circunvizinhas deles, é absolutamente proibida a construção nas regiões em que a doença é endêmica”. O art. 31 é ainda mais enfático na coerção e interdição, numa nova noção do que é a saúde e da interdependência entre os indivíduos: “É facultado às autoridades sanitárias fazer demolir, nos centros populosos do Estado as habitações de tino primitivo e infestadas de barbeiro, nas quais sejam impossíveis modificações” (Minas Gerais, 19 de Junho de 1918: 1). O Estado passa a perceber a importância das medidas profiláticas no tratamento dessas endemias. Encarrega-se, além da parte de estudos e elaboração de estatísticas, da distribuição de remédios, como o quinino, para o tratamento da malária. O regulamento dá ênfase ao isolamento dos leprosos e tem contornos de uma polícia sanitária no que se refere à detecção e ao afastamento do doente da sociedade. Contempla algumas outras doenças, além do grupo das quatro endêmicas, são elas: febres do grupo tífico, desinteiras, varíola, tracoma62, raiva, carbúnculo e outras epizootias, verminoses diversas63. O Regulamento de Saneamento Rural de 1918 tem 84 artigos e se dedica a essas doenças, bem como à articulação entre o poder estadual e o municipal, considerado vital para determinadas medidas. É uma lei simbólica de todo um debate, efervescente para o campo da saúde, que estava sendo travado nesse primeiro semestre. Mostra a agilidade do poder público estadual em responder às reivindicações que amplos setores 62 Doença oftálmica de origem bacteriana. É sempre bom lembrar do papel importante do Instituto Ezequiel Dias na elaboração dos exames bacteriológicos e no fornecimento de vacina. No Relatório apresentado ao Presidente do Estado pelo Secretário do Interior José Vieira Marques, é explicitada a parceria: “Tem sido renovado o contrato em virtude do qual o Instituto Oswaldo Cruz (filial) encarregou-se do fornecimento de vacinas e execução de exames bacteriológicos pedidos pela Diretoria de Higiene. Foram distribuídos 60 000 tubos de vacina antivariólica, preparada na Filial Oswaldo Cruz, e 2.343 doses duplas de vacina anti-tífica polivalente” (Minas Gerais, 30 de Junho de 1918: 5). 63 132 proclamavam. Por outro lado, pode ser demonstrativo de que, apesar do tom de obrigação do Estado em determinados quesitos, não havia sido contemplada a designação específica de instituições, comissões e de um sistema sanitário complexo e articulado. Permanece um ar contigencial na lei, o que, entretanto, não impede que a tomemos como um ponto de partida, um referencial importante para a tomada de consciência do governo do estado como gestor de uma saúde pública. Como não poderia deixar de ser, a SMA faz uma sessão solene, em 19 de junho de 1918, com uma conferência de Plácido Barbosa 64, médico “encarregado de dirigir o serviço do saneamento rural do Estado”, intitulada Higiene Rural. J. Castilhos apresentou Barbosa com entusiasmo: “quando milhares de braços depauperados pela uncinariose, pelo impaludismo, forem substituídos por outros vigorosos, no manejo do arado, das máquinas ou da carabina, certamente v. exc. terá a satisfação de ver os frutos da sementes que ora lançou a germinar”. (Minas Gerais, 21 de Junho de 1918: 2) A conferência foi publicada posteriormente bem sintetizando uma série de questões levantadas. Tem um tom de chamamento desses aliados que estavam personificados na SMA naquele momento. Diante de tal característica, o discurso é forte, direto e não deixa de ter um lado provocativo. É demonstrativo de como a autoridade científica reivindicada por esses médicos se faz também no nível discursivo, nos dados estatísticos. O conhecimento é apresentado como instância demarcatória quando o quesito é quem tem credibilidade o suficiente para postular, na saúde publicam, as mudanças e transformações e fazer do rural um espaço específico de 64 Diante da carência de informações biográficas sobre Plácido Barbosa, encontramos referências a seus trabalhos como tisiólogo (estudioso da tísica – nome dado à tuberculose). Chefiou a criação da Inspetoria de Profilaxia da Tuberculose, após a criação do Departamento Nacional de Saúde Pública, em 1920. O que demonstra que sua estadia no cargo em Minas Gerais não foi tão longa. Barbosa também é lembrado pelos organizadores do livro Os serviços de saúde publica no Brasil ... de 1808 a 1907, publicado em 1909 por ordem de Oswaldo Cruz. É autor também de: Um plano de Combate à Tuberculose na Cidade do Rio de Janeiro (publicado pela Besnar Frès, em 1917). Tais obras mostram o vínculo do médico com as questões referentes à gestão pública da saúde no início do século XX. 133 atuação desse setor. Portanto, o seu conteúdo está para além do laboratório, embora incida numa mudança prática e cultural: “Em geral cuida-se muito das cidades, um pouquinho das povoações menores, e abandona-se o campo. Imagina-se que o campo, assim como dá tudo espontaneamente, ou só com o lançar a semente a terra, assim provê a saúde sem os cuidados do homem. Porém, não é assim. Fazendo-o o animal mais perfeito e o mais nobre, cercou-o ao mesmo tempo de uma multidão de inimigos destruidores, visíveis e invisíveis, que se mascaram, se alapardam, vêm à tradição, e de uma vez, ou lentamente, procuram levar a cabo a sua missão nefasta”. (Minas Gerais, 14 de Julho de 1918: 4) Os invisíveis não são apenas inimigos do homem, mas, por conseqüência, são inimigos da “nação” brasileira que se quer formar, da “pátria mineira” que se quer forjar na diversidade, do desenvolvimento de um projeto de substância econômica para Minas Gerais que as “classes conservadoras” pretendem efetivar. O Estado também é percebido em todas as suas virtudes que o tornariam apto a vencer essa batalha contra as doenças, sejam geofísicas, sejam morais: “Senhores, esta nossa terra abençoada de Minas merece todo o esforço de que formos capazes para o seu progresso. Ela tem tudo. A amenidade do clima, a fertilidade do solo, a bondade do homem, a exemplaridade da mulher. A aplicação de princípios modernos de higiene e da cultura humana pode levá-la a maior altura [...] Se for seguida e ampliada a orientação no sentido, do atual governo, chegaremos lá a [ilegível] felizes, fortes e ricos. Esta formosa cidade de Belo Horizonte deve ser para os mineiros um símbolo. Por toda parte por onde se espraia a vista admirada, no ar luminoso e puro, os horizontes se estendem longínquos, ensinando-nos o descortino amplo e ambicioso que devemos ter na vida; distantes, umas menos, outras mais, as montanhas azuis que tapetam com o céu estão nos mostrando as alturas que devemos ir galgando em ciência e ação”. (Minas Gerais, 14 de Julho de 1918: 5) (grifo meu) E se a ciência precisava caminhar com a ação, foi essa a linha de pensamento que se viu nos anos subseqüentes. Na tentativa de trazer a municipalidade para junto da 134 discussão, foi inaugurado o primeiro Posto de Profilaxia Rural em Leopoldina (Minas Gerais, 20 de Agosto de 1918: p. 3). A década de 1920 foi importante na extensão e abrangência dos serviços e na tentativa de fazer o discurso tornar-se ação, como se falou relativamente ao ano de 1918. Podemos dizer que se produziu um ínterim temporal e simbólico em que amplos setores, cada vez mais, tomavam, consciência da importância da saúde pública para Minas Gerais. As “classes conservadoras” foram incisivas e eficientes ao colocar o assunto em discussão, sendo capazes de arregimentar os médicos e dotá-los de autoridade científica para legislar sobre tais assuntos. O governo estadual não se fez de rogado quanto à espreita que lhe foi infligida em 1918. Tratou logo de atender as reivindicações das ditas “classes conservadoras”, provando que a relação era mesmo de mão-dupla, ora de apoio, ora de pedidos. Não apenas uma instância de legitimação. As idéias de que existiu um momento de acomodação de todo o discurso de 1918 e de que, posteriormente, os atores lutaram para pó-la prática também foram sentidas por personagens envolvidos nos acontecimentos à época. Raul de Almeida Magalhães, figura que seria símbolo do novo momento, faz uma conferência intitulada: A nova organização sanitária do Estado. A conferência ganha importância até pela forma pela qual Magalhães recuperou a situação sanitária de Minas, não se abstendo de fazer uma crítica ácida às administrações anteriores. Para ele, “nada, absolutamente nada produziu a lei de 28 de julho de 1895”, que havia criado o Serviço Sanitário no Estado (conforme se discutiu no capítulo anterior). Em 1910 não foi diferente: “Em 1910, já num período em que a higiene pública empolgara todos os espíritos, decretou-se em Minas outra reforma, cristalizada no regulamento, que ainda nos rege, e que grandes frutos teria produzido, se ao diretores do serviço sanitário, ao lado de amplos recursos financeiros houvessem os governos prestado assistência decidida, apoio e solidariedade indispensáveis a todas as realizações”. (Minas Gerais, 14 de dezembro de 1927: 11) 135 Porém, Magalhães assinala um ponto de inflexão no período de 1918 e observa: “Assinalei, propositadamente, o ano de 1918, por que nesse exercício se iniciou o movimento sempre crescente em prol dos nossos grandes problemas sanitários. Marcando-lhe o início, devo recordar, como preito de justiça, que “leaderou” (sic) essa campanha o professor Samuel Libanio, técnico, a quem o esclarecido governo de então foi pedir o primeiro regulamento sobre a profilaxia rural publicado no Brasil e que, mais tarde, serviu de base a outros, que sobre o assunto codificaram entre nós”. (Minas Gerais, 14 de Dezembro de 1927: 11) No presente trabalho, não se pretende realizar nenhum tipo de juízo histórico de valor nem analisar os anos anteriores a 1918 a partir de critérios de eficiência e ineficiência. Acredita-se aqui, por outro lado, ser plausível afirmar que este ano é provocador de uma mudança de postura dos amplos setores envolvidos nas redes científicas. Os dados apresentados por Magalhães no período corroboram a idéia de uma atuação integrada, sistêmica e complexa. Segundo ele, entre 1919 e 1926, “os diferentes postos de Saneamento Rural fizeram 1.217.033 medicações específicas contra as verminoses” (Idem). Outro demonstrativo de que o período foi símbolo de um processo de autonomização do campo médico em Belo Horizonte, que cada vez mais se tornava detentor legitimado dos assuntos referentes à saúde, foi a realização do Segundo Congresso de Higiene em Belo Horizonte, em 1924. Como fenômeno paralelo ao da autonomização dos médicos, prova também a credibilidade que Belo Horizonte/Minas vinha adquirindo na discussão da questão sanitária no Brasil65. 65 Os congressos de Higiene eram promovidos pela Sociedade Brasileira de Higiene, que foi fundada em 1923 e fechada em 1930, sendo reaberta em 1943. De acordo com Madel Luz, a análise dos temas do Segundo Congresso de Higiene de 1924 mostra que “ao mesmo tempo em que ganha terreno a luta pela ‘autonomia dos serviços sanitários’ que tinha em Amaury Medeiros seu principal defensor, a tese de J. P. Fontenelle, que luta pela criação de ‘postos permanentes de higiene municipal’, também é das mais discutidas” (Luz, 1982: 179). 136 Ao final de 1927, precisamente em 31 de dezembro é assinado o novo Regulamento de Saúde Pública, publicado logo em seguida. Sem dúvida o próprio nome do Regulamento que muda o nome de Diretoria de Higiene para Saúde Pública denota que as mobilizações promovidas haviam cumprindo seus objetivos. O governo estadual passa assumir, ao longo 25 páginas e 1 290 (mil duzentos e noventa) artigos, de um complexo regulamento, a gestão pública da saúde em Minas Gerais. (Minas Gerais, 2 e 3 de Janeiro de 1928: p 2-25) Logo em seu Art. 1º aponta que a Diretoria de Saúde Pública estaria subordinada à Secretaria de Segurança e Assistência Pública. A Diretoria de Saúde Pública estaria incumbida dos seguintes e variados assuntos: educação sanitária, organização estatística, estudo epidemiológico, profilaxia geral das doenças, função de polícia sanitária das edificações, fiscalização sanitária da produção, inspeção do trabalho operário, fiscalização da atividade médica e das farmácias, inspeção dos imigrantes, profilaxia das intoxicações por drogas entorpecentes, organização do centro de estudo (lepra, malária e doença de Chagas), inspeção das instâncias hidrominerais e higiene infantil. Muitos desses assuntos já haviam sido tratados nos regulamentos anteriores, a principal diferença agora sendo o fato de que o governo delimitava com mais precisão o seu campo de atuação e dava uma organização mais sistemática ao que passava a ser uma saúde derradeiramente pública, de obrigação e gestão estaduais. Assim, os assuntos são tratados com maior especificidade, e, para tal, a Diretoria foi dividida em uma organização administrativa e outra, técnica. A parceria com os municípios tornou-se mais explícita e, em seu Art. 61, postula-se que “para realização dos serviços de Saúde Pública será o Estado dividido em tantos distritos sanitários quantos forem necessários a juízo do governo”. No caso 137 desses municípios a legislação especifica a necessidade de manutenção de postos, estipulando quantias e coerções para o caso de o subsídio não ser feito. A ênfase na profilaxia e no ensino é bastante clara e, para isso, o tema da descentralização é bastante contemplado através dos Centros de Saúde nos Municípios, que fariam a ligação direta com a população através dos atendimentos diretos, da inspeção, da epidemiologia e da educação e da propaganda sanitárias. Esta última teria papel vital na profilaxia das doenças através de mudanças de práticas culturais. Na seção décima é pormenorizada a profilaxia de uma séria de doenças transmissíveis: peste, tifo, difteria, cólera, lepra, tuberculose, malária, varíola, verminoses, doença de Chagas, bouba, doenças venéreas, filariose. O regulamento também contempla as epizootias que podem atingir os homens. No caso da vigilância, a especificidade chega a abordar vários tipos de alimentos, como pão, sorvete, mel, e a forma pela qual eles seriam tratados. Sobre o leite há uma passagem ainda mais longa, dadas as possibilidades de contaminação do produto. Em relação às edificações incide também uma grande especificidade, como no Art. 900 que estipula que “a largura mínima dos corredores das habitações particulares deverá ser de um metro, a menos que se trate de pequenas passagens de serviço, podendo então a largura ser reduzida a 0,80 m. Nas habitações coletivas, a largura mínima dos corredores será de 1,20 m”. (Minas Gerais, 2 e 3 de Janeiro de 1928: 19) Os sistemas de esgotos, abastecimento de água, águas pluviais e do lixo também foram abordados, e, em alguns casos, a punição relativa às transgressões das regras foi estipulada através de multa. Quanto à nossa análise, de 1918 até 1927, com a chamada Grande Reforma Sanitária, temos um período onde serão promovidas uma série de translações, em que os 138 interesses de uns se transformariam nos interesses de outros, e alguns deles, nos de todos. Também nos dos médicos que lutavam pela legitimação do campo em Belo Horizonte/Minas Gerais, amparados pelas mudanças microbiológicas, que coincidiam com outros, ao forjar um discurso de construção da nacionalidade com base no saneamento do Brasil. Assim, misturavam-se a um projeto muito maior no interior da Primeira República, que era a pauta de uma intelligenstia, também interessada em construir os pilares ideológicos dessa nova nação, e que fazia coincidir os interesses de médicos com os seus. E nos interesses das “classes conservadoras” interessadas em unir uma Minas diversificada e, a partir daí, implantar um projeto de desenvolvimento econômico de Minas, que precisava de aliados na ciência e no campo médico, como forma de dar efetividade prática por meio da ação do governo estadual. E nos dos médicos do Instituto Ezequiel Dias com suas cobras e escorpiões, que faziam transladar todos esses interesses no interior do laboratório e da atividade científica. II - As Bandeiras da Ciência: nação e saúde na atuação do serviço antipeçonhento do Instituto Ezequiel Dias A história dos institutos no contexto da Primeira República, como já foi afirmado, não pode ser entendida sem que se pense nas novidades trazidas pelo advento das explicações de natureza microbiológica. Decretou-se uma verdadeira caçada aos micróbios que operou significativas mudanças no interior da ciência: o laboratório torna-se o seu espaço por excelência, num encontro cotidiano com os invisíveis através das lentes re-significadas do microscópio. Mudanças que, de tão avassaladoras, acabaram por dar um novo sentido à relação homem/sociedade/natureza. 139 No que se refere ao Instituto Ezequiel Dias, inúmeras foram as atividades que o Instituto desenvolveu, logo nas suas primeiras décadas de existência, nos mais diversos campos, com trabalhos relacionados à raiva, micologia, epidemias, epizootias, exames bacteriológicos e, principalmente, dos estudos chamados de escorpionismo e ofidismo. A atuação desse serviço antipeçonhento, inaugurado em 1918, imprimiu uma marca indelével na instituição conhecida até hoje como “instituto das cobras”. A atividade foi considerada uma verdadeira “cruzada”, que pretendia eliminar os altos índices de acidentes. Neste percurso foram feitas viagens, chamadas de “expedições científicas”, pelo interior de Minas. A imagem cotidiana da urbe em efervescência, rodeada de luzes numa profusão de paraísos artificiais, cedia lugar a uma outra: a dos territórios perdidos, das cidades isoladas pelo interior de Minas. Os relatórios do Instituto Ezequiel Dias dirigidos ao secretario de agricultura, como parte do acordo firmado entre a instituição e o governo do Estado para a manutenção do serviço antipeçonhento, e os relatos memorialistas, tal como os Ensaios de Octavio de Magalhães (1957), preencheram uma lacuna importante na pesquisa. Isso, porque não houve um relatório específico das expedições, restando apenas aqueles, citados acima, que tratavam dos serviços gerais e também abordavam as viagens. De início, as expedições tinham a intenção de buscar novas espécies de cobras e escorpiões e divulgar as atividades do Posto Antiofídico. Contudo, acabaram por se transformar numa empreitada que visava transformar as práticas sociais a partir do advento da microbiologia, postular mudanças na saúde pública, sanear e higienizar os mais escondidos e desprezados lugares. É importante dizer que, nesse instante, os médicos da filial acabam por se inserir num contexto muito maior, no interior da Primeira República. Fazem-se representar junto a uma intelectualidade que pretende definir/reinventar o que o Brasil foi, é e deveria ser. 140 Desta forma, pretende-se aqui estabelecer um diálogo com autores que se debruçaram nessa aventura promovida por uma intelligentsia que procurou construir o Brasil através de um jogo de aproximações e afastamentos entre as idéias de sertão/litoral, rural/urbano (Vidal e Souza, 1997; Lima, 1998; De Luca, 1999). A partir de tais análises procura-se, em nossa própria pesquisa, levar às últimas conseqüências as mediações entre história, ciência e cultura. Consideramos que é preciso que se atenha ao discurso científico, que se olhe para aqueles textos que aparentemente não dizem muita coisa aos historiadores, por serem por demais técnicos e abstratos, e que se os entenda no interior das práticas culturais. É preciso observar a forma pela qual esses médicos conseguiram promover translações, que acabaram por fazer dos interesses daquela ciência praticada naquele pequeno laboratório, na Rua da Bahia, nos interesses da cidade, do Estado e da nação, mobilizando micro e macro dentro e fora do Instituto Ezequiel Dias. Depararmo-nos com nosso objeto implicou dizer que cobras e escorpiões foram também levados ao laboratório e misturaram-se a um complexo discurso que pretendia construir a nação. Por último, cabe pensar como o Posto Antiofídico foi um importante setor de articulação estratégica no qual todas essas questões se misturavam: primeiro, da construção da nação e da incorporação dos sertões, a partir de toda uma discussão que pautava a intelectualidade na Primeira República e buscaria no binômio saúde/ciência uma das soluções para a nação; segundo, do projeto mineiro de desenvolvimento e sua ligação com as classes conservadoras, que se concentravam, dentre outras, na Sociedade Mineira de Agricultura, que, por sua vez, foi um importante fórum de discussão dos assuntos referentes à saúde. 141 II. 1 - O Brasil desvelado pelos sertões A nação feita de espaço nas representações que promovem a separação entre o sertão e o litoral é o que interessa a Vidal e Souza (1997), na análise daquilo que chama de uma sociografia em A Pátria Geográfica: sertão e litoral no pensamento social Brasileiro. A autora quer procurar entender o discurso da intelectualidade que detectou um Brasil caracterizado por sua incompletude. Era a nação que não tinha sido. Cabia a este discurso encontrar as saídas, diagnosticar, programar, prescrever as formas de sair do incômodo de tal situação. Nesta tarefa de inventar/reinventar a nação é que as visões sobre uma singularidade brasileira ganham força, formadas através de uma noção de espaço imaginado a partir do binômio sertão/litoral. Na constituição deste pensamento, que para a autora teve grandes similitudes em variados autores, em épocas diferentes, está presente uma idéia da nação que é vista como “idéia-projeto-desejo” (Vidal e Souza, 1997:21). Buscar a brasilidade é tentar encontrar uma narrativa que tente explicá-la. Neste caso, a qualificação do espaço físico e social é privilegiada na análise, pois a “ficção de uma idéia sertão-litoral” é recorrente nesses escritos, com sensíveis regularidades dessa busca incessante pela representação da paisagem brasileira, que se torna interminável no vazio do sertão. A nova postura que assume a existência do desconhecido vem também acompanhada da ação. Não basta conhecer, analisar e propor. É preciso agir. A construção da nação está atrelada a este processo de reconhecimento/conquista. É desbravar a pátria geográfica. Nesta tarefa as bandeiras tornam-se um evento histórico original. Elas são eleitas como a imagem da ação que pretende construir a nação, num jogo em que são re-figurados tempo e espaço, numa reviravolta de seus significados 142 histórico-culturais. Ela assume uma feição trans-histórica – uma metamorfose que culmina no modelo da ação. Na tentativa de percorrer também os discursos e as práticas que tentam dar forma a Um Sertão Chamado Brasil é que Nísia Trindade Lima (1998) elabora uma interessante análise. A autora depara-se com uma imagem de sertão que adquire uma força simbólica, transmuta-se em divisão geográfica. É a imagem do espaço de difícil delimitação. Um sertão que vira, também, sinônimo de fronteira, “representações [que] tornam-se paradigmáticas para se pensar a natureza das sociedades e o tema da identidade nacional” (Lima, 1998:44). Dentro desta perspectiva, as viagens realizadas na Primeira República adquirem um papel fundamental na interpretação do que seria o Brasil, “destacadas como fundamento importante de legitimação de idéias e práticas sociais” (Lima, 1998:56), e de como a noção de território seria colocada através do contraste entre sertão e litoral. As viagens compunham um conhecimento a ser revelado na realidade do País, in loco. Seriam missões de conhecimento/conquista do interior brasileiro. Através destas expedições são agregadas idéias de incorporação, progresso, civilização e conquista. Cabe ressaltar que, apesar de um projeto comum, o discurso não é único: em um pólo, o sertão é identificado como a união entre natureza e barbárie, o litoral, como espaço da civilização; no outro, o sertão é a resistência ao moderno, e o litoral, um sinônimo de falta de autenticidade, antítese da idéia de nação. Apesar dos problemas, o sertão é ainda encarado como uma espécie de alternativa, frente ao bovarismo dos intelectuais durante a Belle Époque brasileira. Configura-se, desta forma, um projeto que torna aproximados eventos como a Missão Rondon (1892-1925), a argumentação euclidiana sobre a incorporação do sertão e as viagens científicas do Instituto Oswaldo Cruz, pois todos eles postulam a 143 necessidade de “redimir e mesmo formar a nação brasileira a partir dos sertões” (Lima, 1998: 69). No caso específico de Manguinhos, as viagens destinavam-se à profilaxia das doenças em áreas de desenvolvimento de atividades econômicas, como a construção de ferrovias, saneamento de portos, da extração da borracha na região amazônica, etc. A nova perspectiva abre uma ampla frente de luta que pretende reivindicar das elites uma nova política de inclusão do sertão, num processo que deveria amalgamar forças e culminaria no fortalecimento do poder central. “O Brasil é um imenso hospital” é a tão citada frase do discurso de Miguel Pereira, proferido em 1916, que se torna uma espécie de lema do movimento sanitarista constituído no final da década de 1910. O movimento tomou força e criou, em fevereiro de 1918, a Liga Pró-Saneamento do Brasil66. Apesar de malograda a sua tentativa de criação de um ministério da saúde, conseguiu, em 1920, que fosse criado o Departamento Nacional de Saúde Pública, dirigido por Carlos Chagas, figura que se notabilizara pela descoberta daquele que, por muitos, era considerado o maior feito da ciência brasileira ocorrido no interior de Minas: a “descoberta” da Doença de Chagas. Foram criados inúmeros postos de profilaxia rural em vários estados, e a campanha acabou saindo dos periódicos médicos para um debate público. Tais ações significavam que “a grande mudança está na atribuição de responsabilidade pela apatia e pelo atraso. Seriam o governo e a doença, e não mais a natureza, a raça ou o próprio indivíduo, os grandes culpados pelo abandono da população à sua própria sorte” (Lima e Hochman, 2004: 499). A percepção de um projeto político também é o que De Luca observa n’ARevista do Brasil: Um diagnóstio para a N(ação), de 1999. Ao analisar a produção do periódico, entre 1916 e 1925, a autora detectou também um discurso da ação para um 66 Para alguns autores, a criação da Liga Pró-Saneamento em 1918 foi um evento simbólico para as redefinições do próprio campo médico, que estava repleto de dissensões e controvérsias, mas que foi capaz de se amalgamar em torno de um objetivo comum (Britto, 1995). 144 Brasil do vir-a-ser. Os intelectuais, novamente, reproduziram nas páginas da revista seu projeto de construção do País. Era através de uma publicação cultural sóbria, que pretendesse unir forma e conteúdo, que a ausência de uma consciência nacional poderia ser suprida. Significaria o pensamento de um grupo que se achava capaz de colocar o Brasil no rumo certo. Foi nela que Monteiro Lobato, que a administrou de 1919 a 1925, demonstrou seu pleno engajamento no movimento pelo saneamento do Brasil. Nas páginas da revista realizou-se uma simbiose entre história e geografia – uma aliança que se realizava entre a necessidade de autodeterminação do Brasil através de seu patrimônio geográfico e da criação de um conjunto de tradições a serem partilhadas. A figura do bandeirante emerge novamente: uma espécie de elo entre a história e geografia, o mito do “dilatador incansável das fronteiras” (De Luca, 1999:86). Por suposto, o Estado de São Paulo também era a terra eleita, um espelho do progresso, tendo destaque especial na revista, na medida em que “a construção da nacionalidade é encarada, desde os seus primórdios, como obra paulista” (De Luca, 1999: 104). Por último, considera-se importante salientar como tais discussões a respeito do sertão/litoral tiveram implicações políticas na Primeira República e como a interligação entre a construção da nação e o saneamento do Brasil trouxe à tona uma visão do período para além de um mero hiato entre o ímpeto centralizador do Império e o período pós-trinta (Hochman, 1998). Na direção contrária, houve um processo de centralização e intervenção estatal bastante compatível com uma visão da oligarquia no período, que forjava uma visão renovadora da nação. Tais mudanças, no interior do período, foram vitais para a uma “consciência da interdependência social”, como “um elemento crucial na constituição de uma coletividade, na percepção da existência de laços com uma comunidade nacional” (Hochman, 1998: 39). Isto quer dizer que houve um momento em que as transformações 145 sociopolíticas do período demandaram uma de tomada de consciência acerca da possibilidade de transmissão das doenças e de seus efeitos sociais e políticos. A situação provocou debates, arranjos institucionais, em um processo que não foi natural, exigindo a compreensão de que, diante da ameaça que se tornava mais aterrorizante com o desenvolvimento da microbiologia (dado o potencial de transmissibilidade dos invisíveis), era preciso uma saúde coletiva, pública e nacional. O diagnóstico que constatava um Brasil doente não afetava apenas os lugares mais escondidos, mas todos. Havia uma interligação entre indivíduos e sociedade que demandava das elites políticas “reestruturar o arranjo federativo vigente para enfrentar de forma eficaz os graves problemas de saúde” (Hochman, 1998: 86). De acordo com Hochman, a relação entre os estados e a saúde se deu a partir da “afirmação da responsabilidade pública para com a saúde, em especial a constatação das doenças infectocontagiosas e na proteção dos sãos, e o início da constituição de uma rede de instituições, regulamentações e profissionais com atribuições coercitivas e poder de polícia, que se dilatará nos anos 20, sob um nova organização da saúde pública de abrangência nacional.” (Hochman, 1998: 111) (grifo meu) Uma constatação de que a iniciativa começava a ser nacional foi a conclusão de Hochman de que, principalmente a partir da década de 20, o legislativo federal passou a ser uma instância decisória importante para os assuntos referentes à saúde. A consciência da interdependência tornou claro que era impossível uma solução individualizada para os males públicos. A partir daí foi preciso barganhar e negociar para unir forças. A criação do DNSP (Departamento Nacional de Saúde Pública), em 1920, é demonstrativa da capacidade de ação de tais mobilizações. A “era do saneamento” tinha como marco importante os anos de 1918/19, uma espécie de ponto de inflexão no processo de conscientização da interdependência, por 146 tudo que esses anos produziram referentes a uma discussão do que seria uma saúde pública, a sua finalidade no contexto brasileiro e a necessidade de também publicar (isto é, de tornar pública) essa discussão. Tendemos a concordar com Hochman, pois as fontes que serão analisadas a seguir mostram claramente a rearticulação das forças produtivas mineiras a partir do final da década de 1910, junto ao poder público, na tentativa de dar uma nova forma às questões referentes à saúde. De certo modo, partimos da idéia que a saúde e as discussões que ela provocou, bem como suas análises pela historiografia, acabaram mostrando uma nova perspectiva analítica com relação ao poder central na Primeira República. Consideramos pertinente a sugestão apresentada por Hochman de que “há indícios suficientes para se afirmar que a reforma da saúde inaugurou um novo ciclo na expansão do poder público” (Hochman, 1998: 194). Nossa passagem por estas análises pretendeu abrir caminho para que pudéssemos perceber que determinados detalhes, no discurso dos cientistas do Instituto Ezequiel Dias, não eram apenas artifícios retóricos, mas estavam incluídos em uma complexa teia que os inseria num projeto de construção nacional e, que, de certa forma, afirmava neste cenário a presença de outros atores. As Minas também poderiam promover as suas bandeiras! II.2 - Da Rua da Bahia aos rincões de Minas Nesta etapa do texto pretendemos colocar os médicos do Instituto Ezequiel Dias em consonância com os projetos de construção da nação e desenvolvimento de Minas e das diversas mobilizações promovidas no plano teórico e prático para sua concretização. Partiremos das representações de sertão/litoral que se misturavam ao projeto de 147 nacionalidade da Primeira República e que foram levantadas por parte da bibliografia analisada anteriormente. No caso dos nossos médicos, o impacto não poderia ser maior67. Como foi abordado no capítulo anterior, outros institutos, criados no mesmo período, foram construídos em lugares que estavam afastados, com o objetivo de evitar qualquer possível contágio – como foi o caso do Instituto Oswaldo Cruz (na antiga fazenda Manguinhos) e do Instituto Butantan (na fazenda Butantan). Diferentemente, a instituição mineira tinha uma localização central na cidade, próxima ao burburinho da população. Situada na Praça da Liberdade, endereço do executivo estadual, sob a “proteção” do poder. As viagens promovidas pelo Instituto têm início a partir da criação de um Posto chamado, inicialmente, de antiofídico68. Firmava-se um contrato entre o Instituto Ezequiel Dias, o governo do estado e o Butantan. Era uma grande chance que chegava ao Instituto para que pudessem ser contornados os graves problemas de verbas. O acordo possibilitava recursos mais altos, que poderiam ser convertidos em melhoramentos das condições das diversificadas atividades no campo da medicina experimental desenvolvidas pelo Instituto. Era, também, um momento singular, em que os médicos poderiam acumular seu capital científico (Bourdieu, 1994), ao aproximar-se de amplos setores. Esta aliança abria a possibilidade deste capital ser convertido em outras formas de capital. Assim, estes médicos poderiam pluralizar suas atividades nos mais diferentes campos da medicina experimental, trazer dividendos para o Instituto, 67 Neste caso desconsideraremos o fato de Belo Horizonte não ser, obviamente, uma cidade litorânea, mas atestamos a pertinência de tal comparação, na medida em que tais categorias – sertão/litoral – foram utilizadas em um sentido metafórico, nos diferentes discursos/projetos da nação, tendo relação com outras dicotomias, como aquela de urbano versus litoral. 68 As viagens, como aquelas de estudos científicos, de forma sistemática e regular intensificam-se em 1923 (Magalhães, 1957: 250). 148 atuar na profissionalização do campo médico69, além de sua inserção no jogo político mineiro e nas ações de saúde pública. Era, sem dúvida, um serviço capaz de arregimentar aliados para a ciência. As viagens em busca de cobras e escorpiões consistiam, também, em uma ampla campanha de vacinação contra inúmeras doenças, como a varíola, além do fato de que inúmeras medidas profiláticas: “Fomos a vários municípios do oeste mineiro, pesquisando moléstias de animais e homens: moléstia de Chagas, escorpionismo, peste dos polmões, febre aftosa,, etc. Era continuação das ‘bandeiras’ modernas, que vários cientistas estrangeiros já tinham feito em nosso país e que Oswaldo Cruz, com tanta clarividência, estabelecera em Manguinhos” (Magalhães, 1957: 250). Em troca das cobras enviadas ao Instituto pelos fornecedores, eram remetidos tubos de soro, para o caso de eventuais acidentes. A remessa dos bichos era, de forma interessante, encarada como um verdadeiro ato patriótico por Ezequiel Dias: “À vista disso, expedimos aos fornecedores uma circular expondo-lhe a situação e o meio mais prático de conjurarmos a crise. Não foi debalde o nosso apelo, visto que recebemos cerca do triplo de cobras, relativamente ao ano anterior. Isto demonstra o grau de cultura cívica dos agricultores mineiros, dos quais será lícito esperar uma cooperação eficiente em qualquer obra de ideais filantrópicos” (RASAMG, 1919: 4). (grifo meu) Fica evidente a idéia de que seria preciso construir uma coletividade a partir do serviço que era prestado. A “cultura cívica” a que se refere Ezequiel Dias demonstra bem a idéia de como o envio de cobras era importante, porém não apenas pela 69 Como já se observou no início, o Instituto Ezequiel Dias foi uma espécie de celeiro para Faculdade de Medicina, em Belo Horizonte. Muitos de seus pesquisadores eram professores na Faculdade, tal como seus diretores Ezequiel e Octavio de Magalhães. 149 manutenção dos soros, mas também por algo mais que ele poderia trazer. Isso quer dizer que era importante pensar como o posto poderia funcionar como um veículo que trouxesse, a reboque, outros assuntos referentes à idéia de saúde que se começava a tecer no âmbito discursivo e que se servia de cobras e escorpiões como interlocutores, seres híbridos capazes de ajudar na efetividade desses interesses e estratégias científicas. O alistamento simbólico dos aliados alcançava uma materialidade no momento em que os relatórios do posto traziam a lista dos fornecedores de cobras ao Instituto. A lista tinha uma carga forte de aproximação de alianças e composição de redes, pois enumerava os nomes de acordo com a quantidade de cobras enviadas (da maior para a menor). Para se ter uma idéia da importância desse alistamento dos aliados, como forma de acumulação de capital científico para o Instituto, basta observar que a lista mensal era divulgada no Minas Gerais, em uma coluna denominada “Instituto Oswaldo Cruz”, que existia unicamente para esse fim70. Para que as alianças pudessem se tornar sólidas, a relação equilibrada entre cobras/tubos de soros era imprescindível, e se daria por meio de uma extensa rede que interligasse cientistas e sociedade. Neste sentido, havia grandes problemas com relação às estradas de ferro, pois “um destes obstáculos está nos meios de transporte – agente demolidor, persistente e desesperado” (RASAMG, 1924:1). A missão está atrelada a estas redes de comunicação que se constituíam em um problema constante, dada à ineficiência das já existentes no período e da necessidade de criação de novas: “Daqui por diante, o desenvolvimento máximo dos nossos trabalhos ficará em grande parte dependente de novas facilidades de transporte, já pelo avançamento de boas vias de penetração, como a Estrada de Ferro Paracatu, o ramal de Montes Claros, o prolongamento de Pirapora a Belém do Pará,, etc., já pelo estabelecimento do tráfego mútuo entre 70 A publicação das listas não foi linear e ininterrupta. Encontramos uma seqüência maior, principalmente, no segundo semestre de 1918. 150 administrações diferentes, como Central do Brasil e CurralinhoDiamantina, Leopoldina e Vitória-Minas, Central e as companhias de Navegação do Rio S. Francisco, etc (RASAMG, 1921: 1) Os meios de transporte consistiam nos veículos que viabilizariam uma missão contra os peçonhentos, dentre outros. Tratava-se de estender fronteiras, de ir além das montanhas de Minas, pois “as referidas vantagens do tráfego mútuo, as quais deverão levar os nossos serviços a vários municípios além de Pirapora, como também a Estados limítrofes, provavelmente a algumas populações baianas (e talvez pernambucanas) ribeirinhas da referida artéria geográfica” (RASAMG, 1921:1-2). Uma nação, uma Minas unida não se faz através da vontade individual; era preciso cobrar investimento na construção de vias de comunicação que fizesse o obstáculo isolacionista imposto pela própria geografia montanhosa de Minas menos difícil de ser ultrapassado. Porém, os obstáculos não poderiam esmorecer tão “nobres objetivos”, bem caracterizados por Dias ao falar dos limites ainda não rompidos pelas campanhas: “Infelizmente, continua fora do nosso alcance a imensa região norte-mineira (talvez a mais cobiçada para semelhantes estudos) que, no entanto, quase toda vive, nesse particular, em pleno obscurantismo, impregnada de lendas e crendices abstrusas. Acreditamos, porém, que, desde o dia em que a tão futurosas terras forem propiciados fáceis meios de transporte, fartos e cabais elementos de ensino primário, assim como a ação benfazeja do saneamento, esses bons patrícios , aliás, inteligentes, terão ingresso na comunhão brasileira de que vivem por bem dizer arredios, e passarão a fruir as vantagens que a ciência lhes faculta. Pois a despeito de tantas dificuldades, que os separam dos centros civilizados, a este Instituto já tem cobras provenientes do Serro, Conceição, Montes Claros, São João Bastista, Paracatu, etc (RASAMG, 1921:2) (grifo meu) 151 Esse trecho mostra a operação discursiva que esses homens de ciência começaram a promover a partir da inauguração do Posto Antiofídico. Os homens e os não-humanos uniram-se a dois projetos: o de buscar as alternativas para se construir a nação brasileira, e, não menos importante, o de transformar Minas, a partir do seu desenvolvimento e união. Para isso era preciso conhecer, desbravar, fazer do sonho a vigília. Apenas dessa forma a população simples e doente do interior, mergulhada na medicina popular, ainda intocada pelas novidades da mudança microbiológica, teria a possibilidade de desfrutar das benesses de se estar na civilização. Transporte, educação e saneamento. Uma tríade importante e que, diga-se de passagem, estava sendo propalada por homens e híbridos. Cobras e escorpiões foram incumbidos, também, de operar em nível discursivo, mas, sobretudo, de torná-lo prático, efetivo e de dar suas dimensões reais. O trecho acima é símbolo dessa tentativa de entender o caráter da modernidade, carregada de um conteúdo auto-destrutivo, inconcreta, pintada feito obra impressionista, em um quadro que, quanto mais se distancia dos centros decisórios e embrenha-se pelo sertão montanhoso e desolador mineiro, evanesce em cores cada vez menos nítidas, em imagens menos delineadas, em sombras de homens e corpos degradados pela doença. Essa gente que se via perdida pelos sertões de Minas não era viciada na raça, como um possível paradigma racial ortodoxo poderia ter reivindicado. São inteligentes, mas vivem distantes da civilização. Plácido Barbosa, na conferência realizada na SMA, afirmou que, muito longe de uma multidão de depauperados na raça, pelo contrário, os minérios seriam a síntese da vitalidade física. Bastava lembrar onde a cidade de Belo Horizonte foi erguida para ratificar tal idéia: “O descuido pelo saneamento das populações é certamente o responsável por uma diminuição da vitalidade e do poder produtor da nossa raça que é impossível deixar de reconhecer. 152 A estofa do brasileiro é esplêndida, tudo ele pode conseguir. Belo Horizonte, que se ergueu no deserto, concretizando um sonho, é uma prova disso”. (Minas Gerais, 14 de Julho de 1918: 4) (grifo meu) Na mesma conferência, atesta, como Dias, que essa gente do interior era inteligente o bastante para compreender as mudanças que deveriam ser feitas através das práticas higiênicas: “O povo, mesmo analfabeto, pode aprender tudo. Ele que aprende as ladainhas intermináveis e até em latim, os responsos, as rezas, as complicadas histórias da carochinha, dos lobisomens e mulas sem-cabeça, ele que aprende abusões e erros que defende firmimente, pode, pelos mesmos processos, aprender a cartilha da higiene. O ponto é saber ensinar-lhe”. (Minas Gerais, 14 de Julho de 1918: 5) A campanha era a forma de livrar nossos patrícios da medicina popular, trazer a verdadeira ciência e propor mudanças. Havia boas chances para esses rudes. Contudo, era preciso um governo forte, legitimamente republicano, livre da “complicada entrosagem burocrática, que irrita a paciência dos homens do campo” (RASAMG, 1920: 2). Corroborava-se, assim, a visão de que o sujeito do interior era, por natureza e condição, uma espécie de ícone daquilo que o Brasil era, mas, também, daquilo que poderia torna-se, até porque não se misturou à sujeira da politicagem manifestada nas autarquias estaduais após 1889. Ele era a personificação da gente prática, do labor, da terra, da produção e do trabalho. Uma espécie de brasilidade genuína não misturada a uma tradição copista e bacherelesca que determinada intelectualidade já via como um fator que obstaculizava a efetiva construção de uma nação brasileira e de uma Minas Gerais desenvolvida. 153 A cada novo relatório, a cada nova viagem as expedições científicas revelavam o sertão mineiro doente, numa profusão de idiotas (Doença de Chagas) e de opilados (vítimas de ancilostomíase): “Também foi apurado, sob a alta orientação do Dr. Carlos Chagas, a grande difusão da Tripanossomíase americana e da Ancilostomose, que fazem daqueles rudes patrícios retardatários, verdadeiros farrapos humanos” (RASAMG, 1923:3). Tais relatórios são, sem dúvida, meios eficazes de realização de uma espécie de jogo do morde/assopra. A missão civilizatória não se fará sem o apoio/subvenção dos poderes públicos. Ao governo cabe garantir o sucesso dessas bandeiras pelos campos de Minas, pois “as viagens, para estudos, tem continuado, apesar de não termos tido melhoria das nossas subvenções. Estas ‘bandeiras’ são de uma utilidade magnífica para nosso objetivo. Foram as seguintes: para São Pedro de Alcântara, Santo Antonio do Monte, Curvelo, Mantiqueira, Pirapora, Marinhos, Ericeira, Cotegipe e Engenheiro Corrrêa” (RASAMG, 1924: 5). A bandeira passa a se tornar recurso eficiente na definição das propostas desses médicos e dessa intelectualidade, que pretendia uma nova nação. Designam, assim, o caráter antropológico de suas viagens e da própria atividade científica naquele contexto. É a recuperação histórica de um evento que contribuía para a identificação da gente doente do País e que não deixava de exaltar as largas fronteiras do Brasil, com toda a sua diversidade, que se constituía em verdadeiro patrimônio geográfico que deveria ser “propagandeado”. A análise feita por De Luca da Revista do Brasil, que, como observamos, era importante veículo de divulgação das idéias da intelectualidade, demonstrou que era recorrente a idéia de que as dimensões territoriais do Brasil seriam produto da ação 154 bandeirante (De Luca, 1999: 98). Porém, para muitos no período, a ação bandeirante havia sido esquecida e precisava ser retomada. E é por esse caminho que se pode entender o porquê de tal interesse pelo bandeirismo. A materialidade dessas novas bandeiras foi demonstrada através de inúmeras missões científicas que adquiriam esse novo estatuto. Junto com micróbios e doenças, os homens também carregavam por essas viagens, promovidas pelo Instituto Oswaldo Cruz, pela missão de Rondon e pela caçadas às cobras e escorpiões, a identificação das gentes perdidas pelo Brasil. E, especialmente, a possibilidade de sua inclusão, alicerçada em um discurso que também unia história/memória, identidade geográfica e possibilidade de redenção pela identificação dos problemas e possíveis e ações futuras71. Em muitos momentos os relatórios apresentam a ciência como o elo capaz de juntar as partes soltas e ignoradas de um vasto território. A campanha contra os peçonhentos adquire uma espécie de função de unir, de promover aquilo que o poder central não conseguia fazer: amalgamar as municipalidades, as estradas, os fazendeiros, toda gente rude e doente que pudesse compor as Minas Gerais: “Mas o Instituto tem papel ativo nessa campanha, com o fim de levar a sua rápida benfazeja aos pontos mais remotos do vasto território mineiro. Com esse intento, distribui circulares, cujo exemplar acompanha este Relatório, aos Presidentes das Câmaras Municipais, a todos párocos, Estradas de Ferro, solicitando remessas de listas de Fazendeiros, Agricultores e pessoas que pudessem enviar cobras” (RASAMG, 1924:10). Minas precisaria ser amplamente conhecida, nos seus mais escondidos espaços: somente assim, unida e reformada por uma ampla campanha sanitária, poderia dar a sua 71 Por outro lado, a autora identificou que essa ênfase na figura do bandeirante também, em muitos momentos, assegurou um papel de destaque a São Paulo e aos paulistas, nas páginas da Revista do Brasil. Contudo, a partir da referência que os médicos do Instituto sempre fazem às “bandeiras científicas” é importante pensar acerca de como o artifício é forte o suficiente para ser utilizado em diferentes contextos. Considera-se também a utilização recorrente do bandeirismo como sintomático da circulação das idéias no interior desse debate, que estava sendo travado pela intelectualidade na Primeira República. 155 contribuição ao espaço/nação que médicos, militares, homens de letras e outros pretendiam identificar/transformar/construir. Começa a ficar claro o papel do Instituto Ezequiel Dias e de sua campanha contra os peçonhentos, que se metamorfoseou numa campanha pela pátria. O movimento é o de querer fazer com que estes relatos se tornassem públicos, por vários meios de divulgação científica: pelos jornais, nas visitações públicas às instalações do Instituto, na distribuição de cartilhas a grandes fazendeiros e pequenos agricultores. A ciência adquiria uma capacidade transformadora: a relação ciência/cultura tornava-se inquebrantável no interior das práticas. É importante destacar como essas questões estavam em relatórios dirigidos ao Secretário de Agricultura e que, teoricamente, deveriam abordar o andamento do Posto, as questões burocráticas. Até mesmo uma possível reclamação quanto às verbas não era de estranhar. Mas, os relatórios transformaram-se, por sua própria natureza e pelo que ansiavam esses médicos, em uma instância mediadora entre a prática científica e suas redes, através de um ponto de referência para o bom funcionamento do circuito: o governo estadual. Os relatórios adquirem um significado antropológico na sua descrição do que se via e do que se pretendia fazer em relação ao homem do interior. Destituem-se de sua frieza e funcionam como a tentativa de estabelecer um diálogo com um setor que seria importante como aliado para muitos objetivos que não se restringiam ao Posto, pretendendo também: dotar o Instituto de credibilidade e fazê-lo crescer; torná-lo importante para saúde pública; difundir a própria noção de uma gestão pública da saúde eficiente; pensar através disso a nação brasileira e o desenvolvimento de Minas Gerais. 156 Para que se tenha idéia da forma com que os escorpiões e cobras foram colocados como interlocutores dessas inúmeras questões, nada mais emblemático que um artigo produzido em 1922 e considerado um dos estudos pioneiros da questão do escorpionismo. Intitulado “A Luta contra os Escorpiões”, foi escrito Ezequiel Dias, Marques Lisboa e Samuel Libânio. Este último, como já foi mencionado, era importante figura da Reforma de 1918 e do Regulamento de Profilaxia Rural. Por mais que o início do artigo pareça óbvio, diante do fato de que propõe arrolar os meios mais eficazes de luta contra os escorpiões, já nos dá algumas pistas de como a discussão do escorpionismo será veículo para ação em outros campos: “Em conformidade com a ecologia dos escorpionídeos existentes no Brasil central, com especialidade no Estado de Minas Gerais, dois deveriam ser os pontos indicados para o combate a esses aracnídeos: 1º - nos campos; 2º - nas habitações humanas; Dada a vasta distribuição geográfica dos referidos artrópodes, não nos parece prática nem oportuna a primeira parte do problema. Mas se a civilização tivesse atingido a tal grau e a riqueza pública a tais proporções que comportassem semelhante campanha de extermínio, seria por aí que havíamos de começar, porque é do seu habitat natural, isto é, da natureza livre, que o escorpião veio e ainda vem para o interior dos nossos domicílios”. (Dias, Libânio, Lisboa, 1922: 5) É importante perceber que, apesar de parecer apenas uma constatação inicialmente – na qual os escorpiões surgem e, como eles, vão rumo às casas –, essa asserção ganha novos contornos durante o texto. Ressalta-se como a questão do escorpionismo abria uma outra chave de discussão, acerca de que campos eram esses e de onde proliferavam esses animais ameaçadores que saíam dalí para povoar as casas. O artigo caminha por indicações técnicas considerando determinadas substâncias no combate aos escorpiões, como clorofórmio, a gasolina, a naftalina, o gás sulfuroso, 157 entre outros. O objetivo era “sondar a resistência dos nossos artrópodes”. As experiências são pormenorizadas, como qualquer artigo científico desse tipo. São inúmeras, e, entre uma e outra, além da eficácia do produto utilizado, analisa-se a facilidade de encontrá-lo no mercado, etc. Nos ensaios preliminares com as substâncias, o resultado obtido era sempre a morte, o que leva os autores a dizer que “desses ligeiros ensaios preliminares devíamos concluir que há meios seguros e rápidos para matar o escorpião”. Mas não era bem assim. Algumas substâncias conseguiam bons efeitos em recintos pequenos, embora não nos grandes. Em vista de alguns resultados negativos, foram promovidas experiências em locais maiores e, por último, expurgos em algumas casas em Belo Horizonte. Estes tiveram o apoio da Diretoria de Higiene, que disponibilizou material e pessoal necessários para as experiências. De acordo com os autores: “originárias dos campos, as espécies dominantes na região central do Estado de Minas Gerais, nomeadamente o Tityus Serralatus, encontram na maioria das residências humanas, até mesmo nas cidades, as condições necessárias à vida: esconderijos profundos, obscuridade, sossego e alimentação”. (Dias, Libânio, Lisboa, 1922: 17) É interessante notar que, momento de postular as medidas para combater e, principalmente, para evitar os escorpiões, a ciência adentra o espaço privado, tentando mudar costumes e práticas. Afirma que “a melhor garantia contra acidentes escorpiônicos está, pois, em construir os prédios de maneira tal que os tornem inabitáveis para semelhantes hóspedes” (Idem). Mas enquanto esse imperativo de ordem arquitetônica e de engenharia sanitária não pode se concretizar, os autores estipulam uma série de normas pertencentes ao Regulamento do Departamento Nacional de Saúde Pública, que postulam sobre os tipos de construção, os materiais, entre outras questões. 158 Tais medidas não deixam de ter um conteúdo de denúncia de uma população, seja do interior, seja da própria zona suburbana da Belo Horizonte planejada, que morava em péssimas edificações, sem as condições mínimas de higiene. Tratava-se, assim, de focos infestados de escorpiões, de doenças, como a Doença de Chagas, de sujeira, epidemias de peste, etc. E, se o perigo em foco era a picada de escorpião, a partir dele era possível repensar o papel das autoridades públicas. Deveriam chegar além do centro belo-horizontino, das ruas largas, da cidade higiênica, e ir até a outra, que estava escondida em seus subúrbios. Uma outra cidade que não tinha sido imaginada pela Comissão Construtora, mas que existia e que era, para muitos, perigosa. Diante disso, foi preciso fazer “um apelo aos poderes público do nosso país, não só aos presidentes e governadores de Estados, como principalmente às Câmaras Municipais, para que estudem e critiquem as idéias aqui apresentadas, submetendo-as ao juízo dos competentes, isto é, dos biólogos, higienistas e engenheiros sanitários. E se, por ventura, elas merecerem tão honrosa sanção, que sejam para logo postas em prática, afim de que milhões de nosso patrícios não continuem a viver em promiscuidade com aracnídeos venenosos, insetos transmissores de moléstias incuráveis, murídeos depositários de bacilos pestíferos, já não falando de outras pragas domésticas que a higiene condena e o asseio repele”. (Dias, Libânio, Lisboa, 1922: 19) (grifo meu) O Posto Antiofídico cresceu, as viagens tornaram-se inúmeras durante a década de 1920 e 1930. A credibilidade do Instituto Ezequiel Dias aumentou, e seu projeto de crescimento e ampliação física estava cada vez mais perto, como se viu, com a estadualização a partir de 1936. A microbiologia solidificava-se como campo de conhecimento autônomo. A importância do tratamento soroterápico para as picadas de cobras e escorpiões já fazia parte do cotidiano das pessoas. Nada disso seria possível 159 sem a construção de sólidas redes científicas que seriam capazes de trazer aliados na concretização desses múltiplos interesses. Redes que foram construídas e que faziam com que os interesses da ciência se transformassem nos interesses de muitos outros atores sociais... A solidez das alianças que foram feitas para a manutenção dessas redes dava a ela um caráter sistêmico, uma lógica circulatória que pretendia controlar os opositores e aproximar os aliados. 160 Conclusão A história institucional pode nos oferecer diversos caminhos para a análise. A historiografia atual deixa claro que as instituições estão longe da visão de uma história exclusivamente laudatória, descritiva. De acordo com o enfoque que se dá, a Instituição desponta como uma instância de inúmeras mediações necessárias aos atores da ciência e aos seus meios, como se vê com a criação de um espaço histórico, político e cultural capaz de dar sustentabilidade as suas ações. No caso do Instituto Ezequiel Dias, as possibilidades eram muito variadas, diante da sua história centenária. Optou-se por encarar as primeiras décadas deste Instituto. Pôde-se, através desse recorte, perceber o espaço social que se encarregou de recebê-lo. Belo Horizonte era a cidade símbolo de uma modernidade projetada e pretendida. A cidade salubre era carente de instituições científicas, e foi assim que a antiga Filial de Manguinhos aqui chegou. Era preciso a incorporação ao cenário que fazia da urbe um símbolo, em que a ciência não poderia estar de fora. E falar de ciência, do novo, do moderno era falar das transformações da microbiologia. Teve, ao longo dessa trajetória, uma atuação decisiva naquilo que poderíamos chamar de um processo regional de aceitação da microbiologia. Foi preciso se adequar e interagir com o espaço para que a legitimação das novas idéias pudesse se efetivar. 161 Sendo assim, Ezequiel Dias, Octavio de Magalhães e muitos outros atores precisaram ajudar a compor diversas redes que deram solidez ao Instituto. A ciência experimental era difundida e substantivada na famosa Rua da Bahia, ecoando pelos vários cantos de Minas através da sucessiva ampliação dos serviços do Instituto Ezequiel Dias. A disseminação desses serviços, a participação no ensino acadêmico, as relações interinstitucionais foram de vital importância para o aumento da credibilidade do Instituto. Os homens de ciência do Instituto Ezequiel Dias, como sujeitos interessados e em vista das necessidades de garantir a sua credibilidade dentro e fora do lugar em que estavam inseridos, aproximaram-se do Serviço Antipeçonhento. Fizeram-no na tentativa de garantir uma autonomia ainda maior do campo médico, além de dar autoridade às novas idéias que exigiam legitimação. A capital, dita moderna, estava assolada por cobras e escorpiões. E não apenas em seu espaço urbano. Os acidentes com animais peçonhentos em Minas eram recorrentes com homens e animais, e a contenção dessa situação interessava a amplos setores. Se a realidade histórica e cultural lhes ofereceu essa situação, foi dela que os médicos se serviram. Mas não bastava se dedicar apenas às mordeduras de cobras e escorpiões. Para se firmar no terreno da saúde em Minas, seria preciso um árduo trabalho desses sujeitos, que foram capazes de se colocar em interação com a natureza. Os objetos não foram apenas estáticos, inertes e a-históricos. Foram também capazes de interagir dentro do processo científico. Mais do que isso, foi preciso que eles assumissem uma posição privilegiada, pois seriam peças fundamentais para que as translações operassem em prol dos interesses diferentes e contraditórios. O Serviço Antipeçonhento teve essa capacidade de propiciar a mobilização do mundo ao redor da ciência. Formou uma rede de alianças que, de tão fortes, 162 transformariam o próprio Instituto. A lista desses aliados foi se tornando cada vez maior na mesma velocidade em que cresciam o Posto e sua campanha contra os peçonhentos. Todos eles eram constantemente arrolados de formas diferentes nesse fluxo em que se processava a atividade científica. Tais alianças apenas se efetivaram a partir do instante em que o serviço foi capaz de atingir critérios da eficiência que seria convertida em credibilidade ao Instituto. Assim, a campanha contra os peçonhentos deveria se tornar visível, se fazer importante: com a distribuição de manuais para a captura de cobras e o conhecimento do problema, a participação em congressos, com artigos em jornais que demonstrassem a importância da questão dos peçonhentos, numa interface com amplos setores. Não por acaso, a criação do Posto Antiofídico se deu por recomendação da Sociedade Mineira de Agricultura, órgão representativo das “classes conservadoras” de Minas, de relações estreitas com o governo do Estado. O interessante é que o Serviço Antipeçonhento promoveu bandeiras científicas pelo interior de Minas e colocou-se em diálogo com dois projetos paralelos: o primeiro, que pretendia tornar efetiva uma nova nação brasileira, incorporando sertão e litoral, campo e cidade, tendo na ciência um elo de efetividade discursiva e prática; o segundo, que transcorria regionalmente e pretendia o desenvolvimento econômico de Minas Gerais, sem renegar também a contribuição da ciência. Assim, podemos dizer que o Instituto foi capaz de unir o micro – nas atividades científicas cotidianas de um laboratório, na produção dos artigos, na rotina – ao macro – em uma ligação a um projeto muito maior de construir uma nova nação –, porém “reformada”, saneada, higienizada e dar substância econômica a Minas Gerais. 163 Fontes 1) Fontes impressas e manuscritas do Centro de Memória da Fundação Ezequiel Dias . Arquivos Institucionais: Receita e despesa, no período de 1907-1936 Correspondências e Ofícios Cartas e Ofícios, de 1928 a 1933 Observações de picadas por escorpiões em Belo Horizonte (organizadas de acordo com os seguintes volumes: I de 1932; II-III de 1933; IV de 1934 e 1935; V de 1935 e 1936) . Relatórios: DIAS, Ezequiel. Relatório da Filial apresentado a Manguinhos em 1919. ___________ . Relatório da Filial apresentado a Manguinhos em 1920. MAGALHÃES, Octavio. Relatórios apresentados ao Secretário de Agricultura de Minas Gerais (serviço antiofídico e antiescorpiônico dos anos de 1922, 1925, 1927, 1928, 1929, 1930, 1931, 1932, 1933, e 1934) ___________ . Relatório annual sobre exames e pesquisas feitas, neste instituto, bem como de tubos de vacinas e sôros fornecidos ao Estado de Minas e particulares durante o anno de 1930 para o Secretário de Educação e Saúde Pública. ___________ . Relatório annual sobre exames e pesquisas feitas, neste instituto, bem como de tubos de vacinas e sôros fornecidos ao Estado de Minas e particulares durante o anno de 1931 para o Secretario de Educação e Saúde Publica. ___________ . Relatório apresentado ao diretor de Saúde Pública em 1933. ___________ . Relatório apresentado ao diretor de Saúde Pública em 1935. ___________ . Relatório Geral de 1938 do Instituto Biológico Ezequiel Dias ao Secretário da Educação e Saúde Pública . ___________ . Relatório Geral de 1939 do Instituto Biológico Ezequiel Dias ao Secretário da Educação e Saúde Pública . 164 2) Relatos memorialistas CHAGAS, Carlos. Ezequiel Dias. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, v.15, n.1, p.1-3. 1922. DIAS, Ezequiel. O Instituto Oswaldo Cruz: Resumo Histórico (1899-1918). Rio de Janeiro: Manguinhos, 1918. MAGALHÃES, Octavio. Ensaios. Belo Horizonte: Oficinas da Faculdade de Direito de Minas Gerais, 1957. MAGALHÃES, Vanda Figueiredo. Octavio de Magalhães: um pouco do que ele foi. Belo Horizonte: Cordel-Artes Visuais, 1976. 3) Entrevista MARTINS, Amilcar Vianna. Amilcar Vianna Martins (depoimento, 1987). Rio de Janeiro: FIOCRUZ/COC, Programa de História Oral, 1991. (dat.) 4) Documentação oficial 4.1. Relatórios ESTADO DE MINAS GERAIS. Relatório Apresentado ao Exmo. Sr. Dr. Américo Ferrerira Lopes, Secretário de Estado dos Negócios do Interior, pelo Dr. Zoroastro R. Alvarenga, Diretor Geral de Higiene. [Exercício de 1916]. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1917. ESTADO DE MINAS GERAIS. Relatório Apresentado ao Exmo. Sr. Dr. Afonso Penna Junior, Secretário de Estado dos Negócios do Interior, pelo Dr. Samuel Libânio, Diretor Geral de Higiene. [Exercício de 1921]. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1922. ESTADO DE MINAS GERAIS. Relatório Apresentado ao Exmo. Sr. Dr. Fernando de Melo Vianna, Secretário do Interior do Estado de Minas Gerais,, pelo Dr. Samuel Libânio, Diretor Geral de Higiene. [Exercício de 1923]. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1924. ESTADO DE MINAS GERAIS. Relatório Apresentado ao Secretário de Segurança e Assistência Pública, pelo Dr. Raul de Almeida Magalhães.. [Exercício de 1927]. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1928. 165 ESTADO DE MINAS GERAIS. Relatório Apresentado ao Secretário de Segurança e Assistência Pública, pelo Dr. Raul de Almeida Magalhães. [Exercício de 1928]. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1929. ESTADO DE MINAS GERAIS. Relatório Apresentado ao Exmo. Sr. Noraldino de Lima, Secretário da Educação e Saúde Pública.. [Exercício de 1930 e 1931]. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1932. 4.2. Jornal Minas Gerais (Imprensa Oficial) 5) Artigos (ofidismo e escorpionismo) BARROS, Evandro da Fonseca. Aspectos anatomopatológicos do sistema nervoso central na intoxicação escorpiônica (Trabalho de cadeira de Fisiologia da Faculdade de Medicina da U. M. G. e do Inst. de Radium e do Insti. Biol. Ezequiel Dias. O Hospital, vol. 12, nº 3, pgs. 424/442, setembro 1937. BARROS, Evandro da Fonseca. Aspectos clínicos da intoxicação escorpiônica (Trabalho do Inst. Biol. Ezequiel Dias). Memórias do Inst. Biológico Ezequiel Dias, tomo II, pgs. 103/287, 1938. BARROS, Evandro da Fonseca. O quaro clínico da intoxicação escorpiônica (Trabalho do Inst. Biol. Ezequiel Dias). O Hospital, setembro 1938. BARROS, Evandro da Fonseca. Contribuição ao conhecimento da hipersensibilidade ao veneno ofídico. Brasil Médico, ano 50... nº 12, pgs. 243/246, 21 de Março de 1936. BARROS, Evandro da Fonseca. Contribuição ao conhecimento pelo veneno dos escorpiões. (Tese de doutoramento) (Trabalho da Cadeira de Fisiologia de Medicina da U. M. G. e do Inst. de Radium e do Inst. Biológico Ezequiel Dias). Memórias do Instituto Biológico Ezequiel Dias, tomo I, 1937. CAMPOS, Oswaldo e LUTZ, Adolfo. Elaps Ezequieli e Rhinostoma bimaculatum, cobras novas do Estado de Minas Gerais. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, tomo XV, págs. 235/239, 1922. CAMPOS, Oswaldo de Mello e LUTZ, Adolfo. Cinco novos escorpiões brasileiros dos Gêneros Tityus e Rhopalurus. A Folha Médica, ano 3, nº 4, págs. 25/26, 28/02/1922. CAMPOS, Oswaldo de Mello e LUTZ, Adolfo. Contribuição ao conhecimento dos escorpiões encontrados no Brasil. Lista das espécies do gênero Tityus C. L. E. Sinonímia, distribuição geográfica e chave sistemática das mesmas (Trabalho do Inst. Oswaldo Cruz, Rio e Belo Horizonte). A Folha Médica, ano 3, nº 10, pgs. 73, 31/05/1922. CAMPOS, Oswaldo de Mello e LUTZ, Adolfo. Contribuição para o conhecimento dos ofídios do Brasil. Descrição de um novo gênero e duas espécies de colibrídeos áglifos. 166 (Trabalho do Inst. Oswaldo Cruz). A Folha Médica, ano 3, nº 13, págs. 97/98, 1/07/1992. CAMPOS, Oswaldo de Mello. Os escorpiões brasileiros. Com as estampas de 12 a 13 (Insti. Ezequiel Dias, Belo Horizonte). Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Tomo XVII, fasc. 2º, págs. 257/301, 1924. CAMPOS, Oswaldo de Mello. Comentários sobre 96 observações de acidentes ofídicos (Inst. 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