UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS
ROSANA DOS SANTOS SILVA
EU PROJETO, TU PROJETAS, NÓS PROJETAMOS:
ETNOGRAFANDO AS TRAMAS SOCIAIS DE UM PROJETO DE
HABITAÇÃO POPULAR EM SALVADOR
Salvador
2011
ROSANA DOS SANTOS SILVA
EU PROJETO, TU PROJETAS, NÓS PROJETAMOS:
ETNOGRAFANDO AS TRAMAS SOCIAIS DE UM PROJETO DE
HABITAÇÃO POPULAR EM SALVADOR
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação
em Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências
Humanas da Universidade Federal da Bahia, como
requisito parcial obrigatório para obtenção do grau de
Mestre em Ciências Sociais.
Orientadora: Profª. Dra. Elena Calvo Gonzalez.
Salvador
2011
Aos
mestres de uma vida Gey Espinheira e Tânia Cordeiro e aos mestres de lida Zumira
Barros e Murilo, que em mim fizeram morada.
AGRADECIMENTOS
Quando iniciei este estudo minha associação livre me levou para muitos lugares, para o
encontro de tantas pessoas. Com algumas o tempo foi breve... Breve porque o meu
desejo era que elas pudessem ter chegado junto comigo até o final deste caminho,
sinuoso, inquietante como uma pesquisa deve ser. Mas, as palavras de cada delas ficou,
se presentificou nos momentos de inspiração, de dúvida, de descobertas... Nestes
momentos percebi o sentido de uma antiga frase de Guimarães Rosa: “As pessoas não
morrem, ficam encantadas”, foi assim com meu mestre Gey Espinheira, foi assim com
minha avó Inez, com Zumira Barros, lembranças imperecíveis, personagens que tanto
me ensinaram e me fizeram sentir as nuances da condição humana.
E entre os encontros inesperados, que sorte a minha em ter no meu caminho Elena
Calvo, com sua dedicada e preciosa orientação. Com seus insights atentos, perspicazes,
compartilhados, que me permitiram viver e apreciar esta dissertação em suas minúcias,
que não me tiraram o prazer de escrevê-la, mesmo estando, por vezes diante de tantas
regras que contornam um trabalho acadêmico. E como todo caminho também tem os
seus atalhos, o meu não seria diferente, só que aqui ele tem nome e sobrenome: Tânia
Cordeiro, aquela que sempre esteve comigo, que me ensinou a trilhar os primeiros
passos neste universo da pesquisa, se tornando então uma referência, uma rosa dos
ventos nos instantes mais inquietantes que marcam a experiência de uma jovem
pesquisadora. Para ela, assim como para Elena e Miriam Rabelo, pelas suas inspirações
e por ter me mostrado a importância de ser tocado pela teoria, dedico meu carinho,
minha gratidão.
No meio do meu caminho também tinha uma ponte, tinha uma ponte no meio do
caminho... É assim que descrevo a minha relação com os moradores de Paraíso Azul e
Recanto Feliz, que como uma ponte me permitiram habitar outros lugares, me ligaram a
novas experiências, que ganhavam cadência no desenrolar do cotidiano. Maria do
Carmo, Marinalva, Seu Murilo, Jorge, Zelito, Milton são nomes que não poderiam estar
ausentes destas linhas, a eles agradeço pelas caminhadas, pelas conversas, pelas
histórias, pelos ensinamentos sobre a vida. E nestes caminhos cruzados me vem a
lembrança, Rita Amália, com quem tive o prazer de dividir minhas descobertas durante
o tempo em que estive no campo e com quem aprendi, cada dia mais, sobre os
contornos do mundo social.
Mas, nem tudo já foi dito aqui sobre este percurso de escrever uma dissertação, porque
existem ainda outros personagens, que nos bastidores fizeram com que este projeto de
vida seguisse livremente. Permaneci com estas pessoas... Preciso que saibam da sua
importância. Meus pais, Antônio e Marinalva, que com olhos orgulhosos desde muito
cedo me ensinaram sobre o amor pelo saber e pelo desejo de aprender. Minhas irmãs
Raquel, Fernanda, meu avô João e minha Tia Cleusa, por compartilharem comigo estes
dois anos intensamente, pelo prazer de estarem próximos. Meus amigos, Alcione, Luiz
Alberto, Jamile, Tatiane, Rafael, Elder e Ivanilde, por tingirem com vivas cores o
desenho deste projeto de vida. Os colegas da turma 2009 e professores do Mestrado de
Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia pela efervescência das discussões,
pela convivência instigante e por me convidarem a mirar o social a partir de diferentes
prismas. Em especial agradeço a Leonardo Moura, porque no final de cada dia a
sensação que fica é que você é o meu lugar aquele que sempre quis estar.
E no mais a vida é “etecetera”...
Vivendo se aprende; mas
o que se aprende, mais, é
só a fazer outras maiores
perguntas.
Guimarães Rosa, 1986
RESUMO
Esta investigação, que se circunscreve no campo da Sociologia Urbana, versa sobre o
modo como os atores sociais, em seus jogos cênicos, se apropriam, reproduzem e
resignificam o que é para eles projetado no desenho institucional de um projeto de
habitação popular. O cenário desta investigação é Paraíso Azul e Recanto Feliz, duas
áreas de Salvador que vem experienciado ações de intervenção urbana alinhadas ao
Programa Viver Melhor do Governo do Estado. Localizadas na zona leste da capital
baiana, Paraíso Azul e Recanto Feliz são porções ocupadas por camadas populares, e
que estão encravadas em um bairro de classe média, o Costa Azul. A ideia desta
investigação é então pensar um caminho alternativo às análises sobre eficácia/eficiência
dos projetos de habitação popular para se colocar na posição de entender o que estes
atores têm a dizer, quais os significados que delineiam sobre esta intervenção e de que
forma se apropriam dos discursos que lhe dão sustentação. Este caminho analítico está
ancorado na premissa de que os atores sociais estão no movimento de interpretação da
vida. A compreensão não lhes é alheia. As categorias analíticas que dão sustentação a
esta investigação são: projeto, fiscalização, tempo-espaço, noções que ganham a cena
nestas duas áreas de Salvador e que aparecem como respostas à questão central que
atravessa este estudo de ponta a ponta: O que os atores sociais fazem com o que está
para eles previsto nos projetos de habitação popular?
Palavras-chave: Sociologia Urbana, habitação, projeto, fiscalização, tempo-espaço
ABSTRACT
This dissertation focuses on the appropriation, reproduction and resignification by social
actors of what is projected for them by a State housing project. The research is based on
ethnographic work in two lower-class communities, Paraíso Azul e Recanto Feliz,
located in the Eastern part of the city, in the midst of a middle-class neighbourhood.
Aiming to present an alternative to the analyses of housing projects that evaluate them
in terms of efficacy/efficiency, this research emphasises the need to look at the ways in
which social actors signify their participation in the project, and how they appropriate
the discourses that justify the project. This analytical endeavour is based on the premise
that social actors are in the movement of interpreting life. The analytical categories that
permeate this dissertation are: project, fiscalization, and time-space, concepts that are
central in this part of Salvador, and that appear as answers to the question that cuts
throughout the whole study: What do social actors do with what is planned for them in
State housing projects?
Keywords: Urban Sociology, housing, project, fiscalization, time-space.
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
CDM - Cooperação para o Desenvolvimento e Moradia Humana.
CONDER – Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado.
FUNPREV – Fundo de Previdência Social do Estado da Bahia.
IAPSEB – Instituto de Assistência e Previdência dos Serviços da Bahia.
PAC – Programa de Aceleração do Crescimento.
PDDU – Plano de Desenvolvimento Urbano.
SEDUR – Secretaria de Desenvolvimento Urbano.
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO
11
2. CAPÍTULO I: DECALANDO PROJETOS: Notas do cotidiano
24
2.1 A disciplina de um morador de apartamento
32
2.2 “Eu quero é meu vilage”
44
3. CAPÍTULO II: FISCALIZAR É TUDO, VAMOS VIVER EM CIMA DESSA
TECLA”: discutindo o papel dos atores sociais no processo de implementação de
um projeto de habitação
52
3.1 A silhueta da vigilância: fiscalizando o próximo
64
3.2 Na contramão da fiscalização
72
4. CAPÍTULO III: EM CONSTRUÇÃO: Experiências de tempo-espaço em áreas
78
de intervenção
4.1 Os caminhos de vida, os mapas e as plantas...
4.2 Em tempos de intervenção...
95
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
105
REFERÊNCIAS
112
11
INTRODUÇÃO
Uma das mais difíceis tarefas quando se intenta narrar um evento é transmitir o
ritmo, o tom e as emoções que estão em jogo no que se está descrevendo. Mas, parece
que esta preocupação chega a posteriori, depois de ouvir, de deixar o ator da cena social
falar sobre sua performance na trama da vida cotidiana. Por vezes nos surpreendemos
como este princípio tão básico a qualquer diálogo, o ouvir, pode trazer novos contornos
ao desenho da pesquisa, chamando para outros horizontes de possibilidade. O campo
etnográfico aqui se revela como um lugar que pode decepcionar, contrariando
expectativas e hipóteses. Não há um mundo pronto esperando para ser descoberto
porque nesta descoberta o mundo também é criado É neste teor de imprevisibilidade
que está a dimensão de aventura da pesquisa.
Esta abertura para as possibilidades vem marcar a construção deste trabalho “Eu
Projeto, Tu Projetas, Nós Projetamos: Etnografando as tramas sociais de um projeto de
habitação popular em Salvador”, que se integra aos estudos sobre habitação. Ele versa
sobre o modo como os atores sociais em seus jogos cênicos se apropriam, resignificam e
reproduzem o que é para eles previsto pelos projetos de habitação popular. O cenário
desta investigação é Paraíso Azul e Recanto Feliz, duas porções da cidade de Salvador,
localizadas no bairro do Costa Azul, zona leste da capital baiana. Quando falamos sobre
habitação, um tema cujos limites são contíguos a diferentes áreas do conhecimento,
podemos tomar como ponto de partida diferentes perspectivas, mirar através da lupa do
Urbanismo ou da Arquitetura. Para efeito deste estudo tomaremos como referência as
questões que tocam à Sociologia, na tentativa de seguir os atores enredados nas suas
tramas sociais. Proponho começar este percurso trazendo uma reflexão metodológica,
que é tecida a partir dos eventos que compartilhei, quando me permiti surpreender pelos
contornos do campo.
Deixar-se surpreender significou então, perceber que a questão com que se inicia
uma investigação pode não ser aquela com que iremos terminar o percurso, até porque o
campo também vai se reconfigurando, abrindo para direções e sentidos não previstos
pelo pesquisador. A rigidez da pesquisa pode nos deixar surdos para estas pistas e
mudanças tornando-a inoperante, então sua função passa a ser confirmar o que o
12
pesquisador já sabe através de suposições apressadas, tirando o que há de mais
importante na pesquisa, que é a possibilidade de se surpreender com o arranjo inusitado
dos eventos, com o sistema de relevância dos atores, com o peso que dão às coisas que
lhes tocam. Isso mostra que não se escutou o que o campo tem a dizer, porque, como
em um diálogo, os atores não confirmam o tempo todo, nem todas as perguntas e
respostas estão no script, há uma certa margem de improviso, um elemento surpresa que
rompe com a linearidade por mais ensaiada que seja a cena.
No desenrolar de um diálogo não se sabe exatamente o que vem em seguida,
embora os atores desenhem com cores vivas suas expectativas na tentativa de controlar
e definir a situação, deve-se ter em conta que estas antecipações estão no campo do
possível, são probabilidades. O diálogo, como observa Gadamer (2002), requer um
movimento, uma fluidez entre o dizer e o deixar dizer e seguir este deslizamento
significa correr o risco, se deixar afetar e se expor as possíveis implicações que podem
aparecer, como argumenta Favret-Saada (2005). Este movimento parece ser uma
condição na pesquisa etnográfica e isso não significa cair em um profundo subjetivismo,
pois a dinâmica do afetar e do ouvir envolve o pesquisador e o engaja no universo em
que se aventura a investigar. Todavia, por vezes em pesquisa assistimos a tendência à
monologização, a falta de disposição para entrar em diálogo, para perceber as possíveis
vantagens que podem chegar quando o pesquisador se abre para ouvir o campo.
Ouvir, neste sentido, se configura em uma atitude de vigilância, que afasta a
imposição de um esquema interpretativo aos eventos, como se estes últimos tivessem
que se adequar, a todo custo, aos seus rígidos limites1. Indo mais além neste ponto,
ouvir significa se distanciar de uma falsa comodidade, de uma certeza que mantém o
pesquisador preso, mas que não está ali por acaso, sua razão de ser é a oferta de uma
certa segurança. Todavia, não se pode perder de vista que a pesquisa é um caminho com
traçados sinuosos, as expectativas que suscita podem desabar como um castelo de cartas
quando colocadas diante das experiências e significados que dão cadência às situações
1
A teoria orienta, oferece um certo tipo de questão, mas para que o pesquisador não tenha dela uma
leitura meramente técnica, ela deve lhe tocar, lhe inquietar, abrindo espaços de diálogo, preparando o
pesquisador para ouvir as possibilidades do campo.
13
sociais, já que os eventos estão em um movimento de órbita complexa, deslizando
constantemente entre vetores temporais.
Seguindo o itinerário proposto por Dilthey (1949), me coloco nesta investigação
a tarefa de compreender o significado dado por estes atores às suas práticas no terreno
do mundo vivido, me furtar a isso equivaleria a deixar escapar, segundo a perspectiva
diltheyana, o que existiria de mais definidor do mundo humano: esta dimensão do
sentido. Este movimento da compreensão do significado faz parte de um processo
hermenêutico entre a parte e o todo, entre uma prática singular e o contexto de
significado mais amplo em que está inserida. Ao mesmo tempo em que o contexto ajuda
a esclarecer a prática, esta por sua vez ilumina também os contornos do contexto. A
parte e o todo se elaboram mutuamente no processo de compreensão, que chega também
no diálogo, quando se abre espaço para ouvir.
A conjugação entre este exercício hermenêutico e o deixar o outro falar
significou aqui revisar o próprio itinerário traçado nesta pesquisa. Esta experiência, de
se surpreender com as respostas que os atores estão dando também foi narrada por outro
autor, Renato Rosaldo (1989), que nas suas investigações sobre os Ilongote somente
conseguiu estabelecer a relação entre ira, caçar cabeças e aflição após deixar que sua
experiência lhe permitisse entender o que os membros deste grupo estavam querendo
dizer sobre esta prática. Durante catorze anos Rosaldo (1989) esteve surdo às
explicações e aos sentidos dados pelos Ilongote, por julgá-las por demais simples e
opacas. As narrativas “lineares” dos Ilongote o fizeram procurar um outro nível
analítico para explicar os motivos da prática de caçar cabeças, sua experiência pessoal
não lhe permitia ainda conceber tais descrições como válidas. Somente após passar por
uma experiência em que se sentiu tomado pela sensação de ira em um momento de
aflição, a perda de sua esposa no próprio campo, a também antropóloga Michelle
Rosaldo, as narrações dos Ilongote fizeram sentido para Rosaldo, que compreendeu que
os homens do grupo “significavam exatamente o que descreviam da ira na aflição como
fonte de seu desejo de cortar cabeças” (1989, p.16).
Como Rosaldo, também me surpreendi com os rumos da pesquisa, com seu
movimento de idas e vindas, com o recorte mais acentuado que vai sendo dado ao
14
estudo após ouvir o que o campo faz ecoar. Sobre esta questão Espinheira vai
acrescentar que: “o pesquisador não é livre, ele depende do que pesquisa, é guiado pelo
seu objeto de estudo que o leva [...] como um personagem de ficção leva o autor a
seguir suas injunções no campo do desconhecido”. (2008, p. 41). A escolha por traçar
este caminho depende das motivações, dos interesses do pesquisador que faz o seu
recorte, seleciona o que em uma Gestalt2 será figura ou fundo. Este procedimento não se
realiza sem antes estar atento às características do objeto de estudo, que exige formas
específicas de olhar e de proceder, e que também oferece pistas, para as quais o
pesquisador não deve fechar os olhos. Decidir o desenho da pesquisa, definindo o que é
necessário ou acessório para explicar o problema que ela propõe, faz parte de um jogo
que marca a própria economia intelectual. Demanda uma sensibilidade técnica, que
advém da experiência, do conhecimento do campo e do método que, como enfatiza
Heidegger, não é um mero instrumento, já que “não apenas propõe o tema como o
impõe e o subordina” (2003, p.137).
Passo a passo no decorrer de cada caminhada no campo, a pesquisa vai
ganhando novos contornos. São as cores, os cheiros, as falas, e o decalque de uma
percepção mais aterrada que parecem preencher os vazios deixados por análises
panorâmicas, que afastam da cena o domínio das práticas e a lei anônima que orienta o
modo como os atores delineiam seu movimento de entrelaçamento com o mundo. A
tentativa de compreender o campo etnográfico chega neste trabalho com a posição de
caminhante de que fala de Certeau (1994), a qual reivindica não apenas o reencontro
com os sentidos, mas, sobretudo com este exercício de aproximação, que outrora fora
colocado a distância para que se pudesse ter uma ascensão de perspectiva, uma mirada
de voyeur que permitisse imaginar como seria o mundo observado de um relance, visto
a partir de um ponto acima da superfície.
O apreço por esta vista panorâmica, que deixa registrado seus rastros na história
da humanidade, tem talvez nas construções panópticas seu principal exemplar. Este
olhar de cima, um olhar de deuses, que articula pontos a distância, sem ser tomado pelo
2
O termo Gestalt, como é aqui utilizado, aparece tal qual assinala a psicologia da Gestalt como uma
organização perceptiva complexa, uma totalidade significativa em que se pode identificar uma figura que
se destaca sobre um fundo.
15
embalo das artes do fazer que se esboçam no seio da vida ordinária. Isto parece gerar a
impressão de conhecimento do todo, além de uma espécie de onipresença que provém
da sensação de descolamento de um mundo pelo qual se encontrava “possuído”. Desejase então, “ser apenas este ponto que vê, eis a ficção do saber”. (de Certeau, 1994, p.
170).
Na contramão desta perspectiva desencarnada, esta pesquisa se aproxima de
teóricos como Michel de Certeau e Tim Ingold, ao aprimorar sua lupa para a lógica das
práticas cotidianas, sentindo falta da carne, do sangue que pulsa dando vida ao campo.
Neste novo itinerário teórico é a “vida microbiana”, como diria de Certeau (1994), que
agora interessa. As asas de cera de Ícaro enfim derretem. É hora de caminhar, de olhar
de perto e sentir os eventos por um outro ângulo, ingressando neste universo em
movimento.
A experiência de pesquisa ancorada nesta perspectiva do caminhante não se
sustenta na demasia do ver e do ser visto, como prevê um modelo escópico. A tentativa
é, ao contrário, tecer uma apreciação do campo mais aterrada, na qual os outros sentidos
também saiam dos bastidores. Ao aterrissar é possível perceber que, como assinala de
Certeau:
Escapando às totalizações imaginárias do olhar, existe uma estranheza do
cotidiano que não vem à superfície, ou cuja superfície é somente um limite
avançado, um limite que se destaca sobre o visível. (Certeau, 1994, p. 172)
De volta ao chão, o pesquisador descobre os caminhos da pesquisa através do
mundo. Não é preciso atravessá-lo, cruzá-lo, não é a vista lá de cima que lhe permite
conhecer, pois conhecemos enquanto caminhamos de um lugar para o outro. A
proposição que vigora aqui é aquela que diz que o mundo se desvenda na variação do
ponto vista, no movimento, na virtualidade que lhe caracteriza, como explana MerleauPonty (1994). A defesa desta percepção ambulatória vem contrariar a ideia corrente que
aponta que é preciso manter um ponto de vista fixo para perceber o mundo. Assumir
esta premissa é tentar romper com a ideia arraigada no pensamento ocidental que
assinala que o lugar do intelecto é no corpo em repouso, como em uma espécie de
atitude contemplativa, e não na locomoção, como se a cognição não fosse também um
processo que se dá no deslocamento.
16
O mundo, como pontua Ingold (2005), se faz e se refaz no movimento, nas idas
e vindas contínuas entre as trilhas formadas em torno do caminhante. Seus traçados,
suas referências e rotas não são criadas a priori como se poderia supor. É o movimento
daquele que caminha, como em um processo de reciprocidade, que contribui para a sua
formação. O pesquisador que lança mão desta percepção ambulatória e que está nesta
circularidade de idas e vindas, é um sujeito encarnado, voltado para o mundo, para os
outros, um ser com, como argumenta Heidegger (1997), que está sempre em uma
relação de co-presença.
Antes de se colocar diante do mundo o “pesquisador- caminhante” tem a ideia de
que participa dele, em uma expressão mais exata: percebe que algo do mundo crepita
em si, como já assinalava a fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty (1994). Ser
pesquisador-caminhante é estabelecer uma relação de habitar com o campo, habitar no
sentido heideggeriano (2002) que indica que só habitamos o lugar onde a vida acontece.
É um modo de estar no e com o mundo, sendo que este último então, não se apresentaria
como um espaço objetivo, onde as coisas estariam reunidas, contidas, antes disso seria
um lugar ao qual pertencemos, habitamos, junto com as coisas. Uma vez que não estão
dadas, as coisas configurariam uma rede, ou uma ponte que nos ligariam a outras coisas
e a outras pessoas, com as quais dividimos a cena em certos contextos de práticas.
Ainda sobre esta relação de habitar Ingold (2006), vai nos dizer que ela significa estar
entrelaçado em redes intensas, que terminam por borrar a rígida separação entre
organismo e ambiente. Indo mais longe nesta questão: habitar significa direcionar para
outros caminhos o fazer da pesquisa etnográfica, fazer com que o pesquisador se
perceba também como um personagem da trama que tenta compreender, como parte do
lugar, que seria o espaço vivido, um campo de prática, como assinala a acepção de
Heidegger.
Justificados os passos do movimento analítico traçado nesta pesquisa, ainda
resta uma indagação: Quais são as outras escolhas metodológicas que definem o seu
contorno? Durante a primeira etapa do trabalho de campo me deparei com um
obstáculo: o questionamento de como poderia participar dos eventos que observava. A
minha experiência enquanto pesquisadora parecia deslizar entre estes dois vetores: a
participação e a observação. Mas, as próprias solicitações que vinham do campo
17
contribuíram para minha tomada de decisão. Como já convivia há mais de três anos
com os atores, que, engajados em seus jogos cênicos, compunham a cena nestas duas
porções da cidade de Salvador, era solicitada de mim uma posição quanto aos
acontecimentos. Buscavam identificar um certo envolvimento, esperavam que
experimentasse por minha própria conta os eventos que apareciam na cena de Paraíso
Azul e Recanto Feliz .
O envolvimento parecia ser a condição estabelecida por estes atores para que
fosse possível ao outro compreender suas narrativas e suas ações, por isso, era preciso
percebê-lo em mim. Ser afetado por algo que afetava os moradores de Paraíso Azul e
Recanto Feliz significava então poder estabelecer um certo tipo de relação mais
complexa que uma simples troca verbal. Esta relação se estendia para a comunicação
involuntária, não intencional. Não se trata aqui de me pôr no lugar dos moradores, nem
de apreender emocionalmente seus afetos, como em uma espécie de fusão com o outro,
mas de ser afetada por algo que lhes afetava. Enquanto estava no campo era difícil não
me deixar afetar pela ansiedade, pelo vai e vem do projeto de requalificação e pelo
desenho de um futuro que a cada reunião parecia escapar cada vez que a obra por algum
motivo era adiada.
Este envolvimento com os moradores, e com as questões que atravessavam seu
cotidiano, foi o passaporte para um universo de acesso restrito, para experiências,
discursos e eventos que dificilmente sairiam de um certo espaço de familiaridade.
Afinal as narrativas não se remetiam apenas às histórias de cada morador, mas a eventos
e avaliações sobre familiares, vizinhos íntimos, desafetos e projetos individuais que iam
na contramão de um projeto coletivo de permanência em Paraíso Azul e Recanto Feliz.
Esses conteúdos eram ditos, por vezes, quase como sussurros, em um tom de segredo.
Mas, para chegar a este universo foi preciso participar das atividades que se
desenvolviam na vida ordinária, das rodas de conversas, compartilhar as celebrações,
que marcavam a passagem dos ritmos do tempo. Todo este cenário me fez refletir sobre
a minha posição no campo e a experiência de uma observação participante.
Em suas investigações sobre a feitiçaria no Bocage francês, Favret-Saada, já
chamava atenção para este “oximoro” que vem configurar o dispositivo metodológico
18
da observação participante. Qual seria o conteúdo empírico desta expressão? Esta
indagação vai ser o eixo analítico que irá conduzir sua análise e também a minha.
Favret-Saada (2005) traz à baila uma discussão que assinala que no trabalho de campo,
os pesquisadores, apesar de enunciarem o discurso da observação participante, ou estão
observando e assumindo uma posição mais passiva, orientando a análise apenas ao que
é empiricamente observável ou estão “participando”, todavia aqui caberia uma ressalva,
pois participar, por vezes em pesquisa, “equivale à tentativa de estar lá, sendo essa
participação o mínimo necessário para que uma observação seja possível. Portanto, o
que contava (...) não era a participação, mas a observação”. (Favret-Saada, 2005 p.156).
A reflexão de Favret-Saada (2005) sobre suas escolhas metodológicas ilumina o
ponto que quero fazer ganhar relevo, na medida em que funciona como uma apropriada
fonte de descrição deste paradoxo que se instaura na construção do caminho analítico de
uma pesquisa de campo:
No começo, não parei de oscilar entre esses dois obstáculos: se eu
“participasse”, o trabalho de campo se tornaria uma aventura pessoal, isto é,
o contrário de um trabalho; mas se tentasse “observar”, quer dizer, manterme à distância, não acharia nada para “observar”. No primeiro caso, meu
projeto de conhecimento estava ameaçado, no segundo, arruinado.
(Favret-
Saada, 2005, p.157)
Este dilema que fica expresso na narrativa da experiência de Favret-Saada
(2005) aponta para duas possibilidades de fazer pesquisa de campo, a primeira que tenta
fazer da participação um instrumento de conhecimento e que assume a pesquisa como
uma trilha sinuosa, que para se aventurar a atravessá-la é preciso ter em conta os riscos
e a possibilidade de se surpreender com seus atalhos e contornos, e a segunda, que se
apega à observação e a segurança que ela oferta, com sua proposta de distanciamento,
que pode tornar a pesquisa inoperante. Assim, como Favret-Saada (2005), me coloquei
nesta investigação na posição de me deixar afetar, de participar dos eventos, mas isso
não significa que renunciei em algum momento ao exercício de tentar compreender as
tramas que eram tecidas no cenário da pesquisa e os sentidos que desenhavam
possibilidades de ação dos atores. Durante todo o estudo mantive a pergunta: Qual o
efeito desta atitude de me deixar afetar? Isso acentua a defesa continua da reflexividade.
19
Este movimento de pôr em questão a minha posição e a reflexão sobre suas implicações
parece ter me lançado na pesquisa e não tê-la embotado.
O próximo passo na descrição do desenho da pesquisa se refere à caracterização
do seu universo e os meios utilizados para obtenção e produção dos dados que irão
compô-la. Em relação ao universo deste estudo, este foi definido do seguinte modo:
Foram priorizados os sujeitos que residem há mais tempo em Paraíso Azul e Recanto
Feliz por acompanharem por um período maior os processos de intervenção que foram
planejados para estas áreas. Não há uma restrição quanto ao sexo, mulheres e homens
participam da pesquisa. Por se tratar de uma pesquisa qualitativa o número de pessoas
entrevistadas é reduzido, o universo da pesquisa foi definido em 20 pessoas de Paraíso
Azul e Recanto Feliz. A obtenção e produção de dados para o desenvolvimento desta
investigação foram realizadas por meio do trabalho etnográfico e de narrativas, que
permitem captar o modo como as experiências se elaboram e se delineiam no cotidiano,
ou seja, como os atores respondem em certos contextos de práticas as situações que
emergem enquanto figura na gestalt. Sob a forma de narrativas os significados forjados
e as experiências adquirem aqui nesta investigação, vida na voz, daqueles que são os
destinatários deste projeto. As narrativas apontam para uma relação entre ator e
contexto, endereçam-se ao tempo e ao espaço, eixos fundamentais para compreensão
dos eventos que se desenrolam com a proposta da segunda etapa.
Permitam-me agora depois desta discussão metodológica apresentar a relação
entre estas premissas e minha experiência no campo. Durante mais de três anos
desenvolvi investigações sobre estas duas porções da cidade denominadas Paraíso Azul
e Recanto Feliz, situadas na zona leste de Salvador, que me renderam, inclusive, o meu
trabalho de conclusão de curso intitulado “Por que o apartamento não é um paraíso?”4.
Para uma parte da cidade, estas eram áreas arriscadas, misteriosas, um lugar de
pobreza e crime. Estavam apenas a alguns passos das zonas de classe média do Costa
Azul e, por vezes, bastava atravessar a rua para chegar ao outro lado da fronteira,
demarcada por muros simbólicos. A proximidade física aqui não parecia diminuir a
4
Ver Por que o apartamento não é um paraíso (2008).
20
sensação de dissonância, que há muito se experimentava, entre Paraíso Azul, Recanto
Feliz e o seu entorno.
Descobri então que para algumas pessoas estas eram áreas invisíveis, não
faziam parte do seu itinerário enquanto caminhantes da cidade. Já para outros, Paraíso
Azul e Recanto Feliz tinham outros significados, eram conhecidas como áreas
problemáticas, ocupadas por pessoas de baixa renda, suas ruas e becos exalavam medo e
o tráfico de drogas era intenso. Vistas sob este ângulo as pessoas destas duas porções da
cidade pareciam perigosas, e o lugar, tomado por um verdadeiro caos social. Havia algo
de estranho nesta descrição, que trazia um conjunto limitado e por vezes impreciso de
informações, mas era preciso olhar mais de perto, ter um conhecimento mais íntimo do
seu cotidiano e participar das atividades que aí se desenrolavam para que o lugar se
revela-se sob outros prismas. As ruas e becos sob a mirada dos moradores pareciam ter
também um clima familiar, as pessoas estabeleciam redes de apoio, discutiam seus
projetos, criavam e negociavam regras. Era possível identificar, ainda hoje, pontos em
Paraíso Azul e Recanto Feliz de acordo com o parentesco ou com a cidade de origem de
seus moradores. O que para os de fora parecia um lugar desorganizado e degradado,
para alguns moradores eram comunidades altamente organizadas.
Para compreender de modo mais detalhado as nuances deste quadro
multifacetado faz-se mister rever a história destas duas áreas da cidade. Com 43 anos de
existência e mais de 980 famílias residentes, a trajetória de Paraíso Azul e Recanto Feliz
começa em 1967 com a chegada de seus primeiros moradores, a família de Dona Edith e
Vicente Ferreira. A ocupação foi consentida pelo Instituto de Assistência e Previdência
dos Servidores da Bahia (IAPSEB), proprietário da área na época, que solicitou-lhes
vigilância sobre o local, para que novos moradores ali não se instalassem. Entretanto, a
partir de 1970, apesar das condições adversas do lugar, no qual não havia luz e a água
tinha que ser trazida de um minadouro conhecido como Pratinha, aos poucos foram
vindo novos moradores.
Na década seguinte, mais famílias passaram a chegar com maior frequência,
sobretudo aquelas que migravam do interior do estado, trazidas por parentes que já
ocupavam a área, para tentar a vida na cidade. Muitos destes migrantes serviram de mão
21
de obra para os prédios e condomínios fechados do entorno, ocupados por uma classe
média que vem se instalar nesta região da cidade nesta época.
Diante desta intensa ocupação a fiscalização do IAPSEB ganha constância, mas
não consegue impedir por completo o aparecimento de novas ocupações. Em 1987, o
IAPSEB passou então a fazer o cadastramento destes moradores para obter um controle
da ocupação. Mas esta já havia crescido consideravelmente, de forma desordenada, sem
planejamento, como a maioria das áreas da cidade, sendo constituída, inclusive, de
diversas casas de alvenaria. Embora este tipo de construção dificultasse o processo de
expulsão dos moradores, não minimizava as ações que visavam a retirada deste
segmento da população. Nesta época a região de Paraíso Azul e Recanto Feliz era
conhecida como Inferninho, nome atribuído, segundo moradores destas áreas, por
residentes do entorno, da classe média do bairro do Costa Azul. Hoje, os habitantes
destas comunidades ressaltam a importância de não se referir ao lugar como tal, pois,
para eles, a expressão deprecia o espaço físico e estigmatiza seus habitantes5, como
narram estes moradores:
Olha no início é... a gente não... tinha ainda qualificado, colocado nome, era
tanta zuada (risos), era tanta coisa, e aí colocaram o nome de Inferninho na
época, né? Até porque na época.... para o entorno isso aqui se tornou um
inferno, né? E aí saía nos jornais, nas.... eles mesmo, o povo aqui do
entorno, que deram o nome. Aí em troca nós, depois de organizados, né? A
gente colocou o nome, né? Porque isso aqui é um paraíso, aí colocamos o
nome de Paraíso Azul e Recanto Feliz, né? Porque aqui era duas quadra,
dois lote e aí demos nomes bem alegres, bem específico para mostrar pra
eles que nada de inferno, aqui é paraíso mesmo.
Aqui era Inferninho (risos) chamava Inferninho é... aí eu dizia eu não sei
onde é o inferno eu pra mim eu tô no céu porque eu saí do aluguel tô no céu,
construí aqui meu barraco, eu não gostava de quando o pessoal ficava por aí
5
Sobre o engendramento deste processo de estigmatização que tem o espaço como palco Goffman (1988)
acrescenta que o espaço estigmatizado, portador das insígnias da desqualificação social, degrada
simbolicamente seus habitantes, que tem em comum o estigma que lhes é transferido.
22
dizeno que a gente aqui mora em Inferninho, eu não moro em nenhum
Inferno, eu moro é num Paraíso, oh o nome aqui é Paraíso ( a entrevistada
soletra aqui a palavra Paraíso) Azul e Recanto, é Recanto Feliz.
Desde o final da década 906 Paraíso Azul e Recanto Feliz experienciam as ações
e propostas de políticas de urbanização e requalificação das moradias. A história da
intervenção pública, através de programas habitacionais teve início nestas áreas
exatamente em 1999, quando o Governo do Estado, na época sob a gestão de Paulo
Souto, autorizou a Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado (CONDER) a
realizar estudos que permitissem identificar a viabilidade de processos de urbanização e
a implementação de obras de requalificação das moradias através do Programa Viver
Melhor7. Após este estudo foi estabelecido então a definição da área que seria objeto de
intervenção do projeto de urbanização.
Paralelo ao processo de discussões sobre a urbanização da área ocorreu o
acompanhamento do processo licitatório para a formulação do projeto, que teve início
em 2000. No final deste processo foi informado a empresa vencedora, a HISA
Engenharia Ltda, que concluiu e expôs aos moradores de Recanto Feliz e Paraíso Azul o
projeto, em 2001. Após a etapa de conclusão do projeto novos entraves comprometeram
a captação de recursos pela CONDER para o desenvolvimento das obras. O primeiro
deles diz respeito à posição do Fundo de Previdência Social do Estado da Bahia
(FUNPREV) através da Secretaria de Administração, a quem foi passada a propriedade
6
Ainda na década de 90, mais precisamente em 23 de março de 1997 foi criada a Associação de
Moradores Santa Rosa de Lima, que nas suas reuniões de quarta-feira reúne moradores de Paraíso Azul e
Recanto Feliz em sua sede. Uma das justificativas para a constituição da Associação era fortalecer o
projeto de permanência na região. A Associação tem uma diretoria colegiada formada por sete membros e
o Conselho Fiscal constituído por três membros, além de cinco suplentes. A Associação não conta com
quadro de sócios registrados, todos os moradores destas duas áreas são assim considerados. Os meios de
manutenção da Associação são arrecadações provenientes de algumas atividades e eventos que realiza
como: bazar, bingo, rifa, não sendo assim cobrada qualquer contribuição financeira regular dos seus
membros.
7
Este programa, criado na primeira administração do governo de Paulo Souto tendo seus desdobramentos
também na gestão seguinte, teria como objetivo a redução do déficit habitacional através da rrecuperação
de áreas degradadas, insalubres ou consideradas inadequadas para moradia. Além das ações de
requalificação urbana, construções e melhorias habitacionais para famílias remanejadas, o programa
inclui a execução de projetos de infraestrutura (água, esgoto, energia, drenagem, pavimentação,
contenções e obras complementares de urbanização), equipamentos comunitários, serviços urbanos,
regularização fundiária e promoção social.
23
do terreno após a extinção do IAPSEB, e que considerava que o processo de ocupação
podia ser reversível, impondo como uma possível condição de liberação do terreno o
retorno financeiro imediato. A negociação durou 14 meses até que o Governador do
Estado enviasse à Assembleia Legislativa uma mensagem solicitando a autorização da
doação à CONDER da área de Recanto Feliz e Paraíso Azul para fins de urbanização. A
solicitação foi aprovada em sessão extraordinária e publicada no Diário Oficial de 23 de
janeiro de 2003. A partir daí a discussão do projeto passou a girar em torno da captação
de recursos.
O processo licitatório para a execução das obras foi concluído em novembro de
20048, tendo como vencedora a empresa Gráfico Engenharia. Neste mesmo ano todas as
famílias que moravam na região foram cadastradas pela CONDER. O início da obras
em 2005 foi marcado por uma forte resistência por parte de alguns moradores de
condomínios fechados de classe média que circundavam a região, que se posicionavam
contra a permanência dos habitantes de Paraíso Azul e Recanto Feliz na área. O estopim
deste processo foi a ação judicial movida pelos moradores do condomínio Parque das
Dunas contra a obra de urbanização, sob a alegação de que o projeto interferia na área
reservada ao projeto de um Parque Metropolitano “Parque das Dunas”, sendo uma
liminar concedida em 02/06/2005.
Em resposta a esta ação judicial, os moradores de Recanto Feliz e Paraíso Azul
fizeram uma manifestação, interditando o acesso ao Condomínio Parque das Dunas para
denunciar, através dos veículos midiáticos, a discriminação dos autores da ação, que
segundo os moradores, era escamoteada pela defesa de uma suposta questão ambiental.
Ainda no mês de junho as obras são retomadas após a queda da liminar9, sendo
oficialmente entregues, no dia 11 de abril de 2006, as primeiras 240 unidades
habitacionais construídas, apartamentos com dois quartos, sala, cozinha e banheiro. As
construções das segundas unidades, contendo mais 160 unidades, foram concluídas em
8
Apenas as famílias que foram cadastradas pela CONDER poderiam receber as unidades habitacionais
tanto na primeira etapa quanto na segunda.
9
A Associação de Moradores prosseguiu a disputa judicial com os autores do processo dando entrada na
Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município (SUCOM) em uma ação
administrativa de representação contra o Condomínio Parque das Dunas, por este condomínio ter
invadido a área pública. Tal processo permanece sem despacho na Procuradoria do Município.
24
dezembro de 2006, constituídas, em sua maioria, por vilages para uso misto (comercial
e residencial) e para uso exclusivamente residencial. As obras da primeira etapa
prosseguiram até abril de 2007, com a finalização da construção de um Centro
Comercial, de uma área de lazer e de uma das vias de acesso a Recanto Feliz10.
Como apenas uma parte das áreas de Paraíso Azul e Recanto Feliz havia sido
urbanizada e recebido as unidades habitacionais, mais um processo de negociação foi
estabelecido com a CONDER e a Secretaria de Desenvolvimento Urbano (SEDUR)
para o planejamento da segunda etapa do projeto de urbanização. Encaminhou-se então
uma solicitação de recursos ao Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social, que foi
negada. Uma vez negado o recurso, o projeto foi reencaminhado ao Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC–2008) com recursos do Programa Pró-Moradia, em
uma operação de crédito envolvendo projetos que compõe o Falha Geológica II11, sendo
aprovado o recurso para sua execução no final do ano de 2007. Durante este processo de
negociação até a aprovação do recurso da segunda etapa e o consequente início das
obras, a CONDER decretou um “estágio de congelamento”. Neste período novos
barracos não deveriam ser construídos e as casas já construídas deveriam permanecer
com a mesma estrutura, para não causar nenhum tipo de entrave quando fossem
iniciadas as obras. As modificações nas casas só poderiam ser feitas em casos de
ameaça a sua fundação, como rachaduras e destelhamentos causados pelas chuvas, por
exemplo. As obras da segunda etapa previstas no projeto incluíam a construção de Via
de Acesso e Via de Lazer, mais 40 novas unidades residenciais, um pequeno centro
comercial e melhoria habitacional para 400 casas.
O processo licitatório para as obras do projeto da segunda etapa foi concluído
em agosto de 2008, tendo como vencedora a empresa OPF. Todavia a realização da obra
não foi iniciada neste ano porque a ordem de serviço ainda não havia sido expedida e o
10
Finalizadas as obras da primeira etapa, os moradores de Recanto Feliz e Paraíso Azul iniciaram uma
discussão buscando minimizar o valor das prestações das novas unidades residenciais de acordo com a
tipologia e custo de cada uma. O valor das prestações antes todas em torno de 35 reais mensais, passou a
variar deste valor para os apartamentos, a 26 reais para os vilages simples e 29 reais para os vilages
mistos, estabelecendo um prazo de pagamento em dez anos.
11
Projeto voltado à requalificação urbana e a construção de unidades habitacionais dento do Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC) criado pelo Governo Federal em 2007 na gestão do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva.
25
projeto encontrava-se com pendências na Caixa Econômica Federal. A situação com a
Caixa Econômica foi regularizada quase no final de 2009. O projeto foi então
apresentado aos moradores, que teceram seus projetos, os quais traziam um novo tom às
narrativas, que pelo teor das emoções ganhavam nova cadência: “ eu tô aqui ansiosa
(risos), para entrar Natal, Ano Novo com minha casa arrumada (risos) porque a gente
esperou janeiros e janeiros, é muita emoção, né?”, disse então uma moradora.
Apesar das expectativas, no final do ano de 2009 a obra da segunda etapa ainda
não tinha sido iniciada. Desta vez, o problema estava na falta de recursos da CONDER,
que precisava pagar o aluguel dos moradores que teriam que sair de suas casas e
indenizar os moradores que teriam seus comércios demolidos para abrir frentes de obra.
Além disso, a CONDER, juntamente com a organização não-governamental
Cooperação para o Desenvolvimento e Moradia Humana (CDM)12, precisaria montar a
sua equipe e instalar o seu escritório de campo na área, e seria esta mesma equipe que
identificaria qual casa deveria ou não sair e verificar ainda os cadastros13 dos moradores
e as condições de insalubridade das casas. Todo este processo parecia demandar ainda
mais tempo.
No ano de 2010 vários anúncios do início da obra foram feitos. Todo um clima
de preparação foi sendo configurado: o escritório de campo foi inaugurado, algumas
ações de mapeamento das áreas foram feitas, tais como visitas as moradias e aos
comércios, e muitas pessoas saíram de suas casas e foram morar de aluguel para que a
obra pudesse ser encaminhada e as primeiras frentes de obras fossem abertas. Todavia,
ainda hoje o processo de execução está sendo ensaiado, sendo que faltam ainda alguns
passos precisos para que a obra de fato, a construção dos conjuntos habitacionais e dos
vilages e a reforma das casas, seja efetivada. É então este evento, a segunda etapa do
projeto de intervenção de Paraíso Azul e Recanto Feliz que quero compreender de
forma mais acurada nesta pesquisa. São suas tramas que me inquietaram e me fizeram
tecer certos tipos de questões.
12
A ONG CDM fez parte do desenvolvimento e implementação do projeto de requalificação de Paraíso
Azul e Recanto Feliz desde a primeira etapa.
13
Os moradores que vão receber as unidades habitacionais da segunda etapa são aqueles que foram
cadastrados em 2004 pela CONDER. Estar cadastrado é então uma condição para ser “contemplado” pelo
projeto.
26
A proposta de melhoria das casas e da substituição de algumas delas pelos
conjuntos habitacionais e vilages, principais ações que compõem este projeto de
habitação, me levou, a princípio, a estabelecer como eixo de análise a seguinte questão:
Qual a relação entre requalificação da moradia e inserção social, tendo como base
analítica o discurso e as práticas dos moradores dos conjuntos habitacionais de Paraíso
Azul e Recanto Feliz?
Durante um certo tempo persegui a resposta desta pergunta. Conversava com os
moradores, entrevistava-os, observa seus sistemas de práticas e assistia nas quartasfeiras à noite a reunião da Associação de Moradores. Mas, nestas interações que se
esboçavam as pessoas, em algum momento, endereçavam suas narrativas para um
denominador comum: falavam o que fariam com o que havia sido para elas projetado no
desenho institucional deste projeto de requalificação. Expectativas e projetos se
atravessavam e formavam uma espécie de elo com o futuro. Esta lupa aprimorada para o
amanhã era informada pelo passado e pelo presente que, deixavam suas insígnias nas
trajetórias de vida de cada morador, que não só construía seus planos, como também
julgava como válidos ou impróprios os planos alheios que eram traçados na cena de
Paraíso Azul e Recanto Feliz.
As propostas do projeto de requalificação eram então reinterpretadas e pareciam
produzir novas situações a serem introduzidas no repertório destes moradores. As
fofocas e disputas em torno dos seus conteúdos aqueciam o clima nas ruas, nos becos e,
sobretudo, nas reuniões da Associação, em que a tônica principal em pauta era
invariavelmente a requalificação. Este interesse ecoava de modo tão marcante que a
própria estrutura da reunião se modificou em sua função.
Todos os outros informes sobre os cursos (informática, construção civil),
projetos (Projeto Nadar, Pró-Juventude) desenvolvidos por instituições ligadas ao
Estado em parceria com a Associação, além de avisos sobre os eventos da Escola Padre
Confá e sobre o Posto de Saúde Zumira Barros, responsáveis por oferecer assistência a
esta região, eram passados no início da reunião. Deixava-se para o final as notícias
sobre o caminhar das obras. Esta estratégia tinha como objetivo fazer com que os
moradores permanecessem na reunião e fossem obrigados a ouvir as outras questões e
27
temas com os quais a Associação de Moradores se defrontava. Mesmo tendo que se
submeter a esta estrutura pré-fixada, os moradores não o faziam sem esboçar uma certa
resistência. Entre um informe e outro era comum ouvir uma polifonia de discursos em
que eram entoadas frases como: “Eu vim aqui para ouvir sobre moradia popular, sobre
reforma, requalificar as casas, o que eu vou fazer com o meu barraco.”; “A gente quer
saber sobre nossa vida na favela aqui, não é negócio de historinha não, né negócio de
curso não, eu tenho um informe sobre nossa vida, nossa favela... eu quero ganhar o
meu, todo dia é a mesma coisa nessa favela”; “Eu quero saber se vai passar o tempo
todo só falano em curso, eu quero falar de moradia, do negócio do rato me comer, das
barata na minha casa”.
Não só pelos discursos enunciados publicamente essa resistência se delineava, já
que essa dimensão era também experienciada de forma velada, encenada nos rumores
anônimos, na submissão falsa, na ignorância fingida, na sabotagem sutil da não
participação, na evasão daqueles que não se arriscavam em contestar diretamente as
definições formais de poder e as normas ali demarcadas. A noção de formas cotidianas
de resistência usada por James Scott (2002) para narrar as relações de poder entre os
camponeses da Malásia e os proprietários de terra, funciona aqui como uma adequada
fonte de descrição desta prática escorregadia e sorrateira, deste outro estilo de
resistência, cuja segurança, como assinala Scott, “está no seu anonimato” (2002, p.13).
É desta luta silenciosa, mas constante, que requer pouca ou nenhuma organização ou
coordenação formal e que se esquiva a uma confrontação aberta, que lançavam mão os
moradores.
Diante deste quadro que ora se delineava a pergunta inicial com que cheguei ao
campo foi cedendo espaço para uma outra: Como os moradores se apropriam,
reproduzem e resignificam aquilo que foi projetado para eles por este projeto de
habitação? Esta nova questão, que assumiu centralidade na pesquisa me abriu para
outras indagações que passaram a também compor esta investigação: Quais projetos são
esboçados pelos moradores a partir da proposta de requalificação da segunda etapa?
Como estes atores sociais se apropriam dos discursos e práticas que chegam com este
projeto de habitação? Quais repertórios morais são acessados e como os atores os
mobilizam para construção da ordem social nestas áreas de intervenção? Como se
28
configuram as noções de temporalidade e espacialidade tecidas em Paraíso Azul e
Recanto Feliz com a chegada das propostas da requalificação referentes à segunda etapa
do projeto de intervenção?
A ideia desta investigação é então pensar um caminho alternativo às análises
sobre eficácia/eficiência dos projetos de habitação popular para se colocar na posição de
entender o que estes atores têm a dizer, quais os significados que delineiam sobre esta
intervenção e de que forma se apropriam dos discursos que lhe dão sustentação. Este
caminho analítico está ancorado na premissa de que os atores sociais estão no
movimento de interpretação da vida. A compreensão não lhes é alheia, na medida em se
configura em uma condição do nosso ser no mundo, como nos faz lembrar Heidegger
(1997). Isso significa que constroem significados sobre os eventos com que estão
envolvidos, os quais deixam suas marcas inscritas em seus engajamentos práticos com o
mundo.
Abro agora um parêntesis para sinalizar que nem tudo já foi dito com relação à
aventura da pesquisa, vamos então prosseguir com este ponto. Definido o recorte, o
ponto de vista através do qual traçaria o itinerário analítico desta pesquisa: compreender
como os moradores se apropriam, reproduzem e resignificam aquilo que foi projetado
para eles pelo projeto de habitação em questão. Definida também a posição adotada para
efeito desta investigação, a de pesquisador caminhante, passo para uma próxima etapa, a
justificativa do desenho da pesquisa.
A opção por desenvolver este estudo sobre o modo como é esboçada a teia de
significados e as apropriações por aqueles que seriam os seus destinatários do projeto de
urbanização e requalificação urbana em Paraíso Azul e Recanto Feliz, justifica-se pela
sua pretensão de compreender de forma mais acurada um fenômeno que está
circunscrito em uma lacuna nos estudos sobre Sociologia Urbana: a investigação de
projetos de habitação popular em bairros de classe média. Além disso, frente às ainda
recentes discussões sobre o desenvolvimento urbano, o planejamento urbanístico da
cidade e a ocupação territorial, suscitadas pela revisão e a aprovação da Lei Municipal
6586/04 referente ao Plano Diretor de Desenvolvimento (PDDU) em Salvador, abre-se
espaço para focalizar as questões relativas à habitação. Mais especificamente, ao morar
29
previsto nas intervenções estatais e nas políticas de habitação, o morar na cidade que
tem sido “um laboratório no qual a sociedade vivencia os dramas e os desafios da sua
coesão social e experimenta as formas de superar as ameaças à sua manutenção”
(RIBEIRO, 2001, p. 13).
Esta investigação é de caráter exploratório, na medida em que pretende analisar
como este fenômeno se processa não em regiões periféricas da cidade, como os bairros
do Subúrbio Ferroviário, que foram objeto de análise em trabalhos como o de Soares
(2007), Santos (2005), Fernandes (2009), mas em um bairro de classe média
multifacetado, como o Costa Azul, que também é habitado por camadas populares como
os moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz. Traçando um caminho alternativo às
análises sobre a eficácia/ eficiência dos projetos de habitação popular, como as
propostas pelos estudos acima citados, esta pesquisa quer aprimorar sua lupa para
capturar as experiências, os significados, a existência dos atores nas cenas sociais. A
escolha por este caminho ganha fôlego nas considerações tecidas por Wacquant sobre a
sociologia. Para este autor, esta disciplina deveria empreender um esforço para capturar
esta dimensão subjetiva e existencial que se expressa no seio do tecido social “que as
abordagens estabelecidas das ciências do homem colocam tipicamente em surdina...”
(2002, p. 11). O modelo de análise aqui apresentado não pretende testar uma teoria
específica, mas caminhar no sentido de construir novas hipóteses e conceitos que
possam preencher esta lacuna, abrindo espaço para que novos estudos sejam realizados
para aprofundar e traçar outros itinerários possíveis de investigação do fenômeno em
questão.
Uma vez esclarecidas as escolhas metodológicas que orientam este trabalho e
feita a apresentação do campo passemos então, para uma breve exposição da estrutura
desta dissertação. A apreciação do objeto de estudo é sistematizada em três capítulos e
acompanhada por considerações finais. O primeiro deles, “Decalcando Projetos: Notas
do Cotidiano”, está dividido em duas seções. O capítulo propõe uma análise sobre os
efeitos que o projeto de intervenção da segunda etapa, direcionado para ações de
requalificação urbana, suscita nos processos de delineamento de projetos de vida,
tecidos pelos moradores das comunidades de Paraíso Azul e Recanto Feliz, localizadas
no bairro do Costa Azul, zona leste de Salvador. Busca-se compreender de forma mais
30
acurada os mecanismos de antecipação das linhas de ação futuras utilizadas por estes
atores sociais, atentando para os discursos e práticas que se esboçam no espaço social
em questão. Ganha relevo nesta discussão a diferenciação entre o mero fantasiar e a
ação de projetar empreendida pelos atores sociais, que se articula tendo como referência
as dimensões biográfica e temporal. A conjugação das premissas de Schutz sobre
Fantasia e Projeto e o que Bourdieu chama de ethos de classe, que diz respeito à relação
estabelecida pelos atores entre oportunidades objetivas e esperanças subjetivas,
funcionam aqui como chaves explicativas para este fenômeno, que é acessado neste
trabalho a partir da experiência etnográfica e de narrativas. Após esta exposição sobre a
diferença entre projeto e fantasia, é feita uma discussão sobre os projetos que
protagonizaram a cena de Paraíso Azul e Recanto Feliz: o projeto de morar no
apartamento e o de morar no vilage, para depois descrever qual a fundamentação do
processo de escolha empreendido pelos moradores em relação a estas unidades
habitacionais. O intuito é então indagar o trânsito de significados que marcam a leitura
feita pelos moradores deste projeto de requalificação urbana e analisar as expectativas
que ele suscita, as quais se traduzem em novos horizontes de possibilidades e em
estratégias de tomada do futuro. Ao trazer à baila a noção de projeto neste estudo, tentase deslocar o eixo das investigações sobre os projetos de habitação, para uma outra
direção, diferente daquelas em que costumam se situar entre o par eficácia e eficiência.
Este deslocamento chega na tentativa de responder a seguinte indagação: O que os
atores fazem com o que é para eles desenhado por estes projetos? Pensar na categoria
projeto significa aqui compreender como os atores se posicionam e decalcam fluxos de
ações a partir de certos contextos de práticas que se apresentam, ou seja, como
respondem às solicitações do mundo vivido. A partir destes pontos de referência se
discutirá a relação sinuosa que se circunscreve entre projetos de vida e políticas de
requalificação urbana.
O segundo capítulo intitulado “‘Fiscalizar é tudo, vamos viver em cima desta
tecla’: discutindo o papel dos atores sociais no processo de implementação de um
projeto de habitação popular, pretende tecer uma análise sobre o papel dos atores sociais
no processo de implementação de projetos do Estado. Analiso os efeitos que o discurso
de maior entrega do controle tem no desempenho deste papel, que deixa suas pistas
31
impressas nas práticas e nos discursos que se articulam no cotidiano dos atores sociais.
A discussão proposta gira em torno do fenômeno da “fiscalização”, conceito êmico, que
ganha relevo com o processo de requalificação urbana em Paraíso Azul e Recanto Feliz.
Para se chegar ao entendimento deste fenômeno recorreu-se à análise das narrativas e
dos modos de operar que se esboçaram neste espaço social, dados obtidos através da
experiência etnográfica. Na primeira seção “A silhueta da vigilância: fiscalizando o
próximo” a discussão gira em torno da fiscalização que se dá entre os moradores,
esboçando um modelo de vigilância, que em algumas situações pode ser verificável e
em outras, inverificável, como na prática panóptica apresentada por Foucault. Esta
investigação sobre a “fiscalização” abre espaço para a discussão da ideia do
panoptismo, que se refere a um poder que age a partir da vigilância, direcionando as
condutas e disciplinando os corpos, como um grande olho que através de um modo
onipresente de ver molda modos de ser. A intenção então é verificar até que ponto esta
premissa foucaultiana ilumina o fenômeno em questão. Já na segunda seção: “Na
contramão da fiscalização” o que aparece como objeto de atenção são os discursos que
contradizem a prática da fiscalização: os que acentuam o risco de fiscalizar o outro.
Analisar a maneira através da qual a fiscalização se articula no cotidiano dos moradores
de Paraíso Azul e Recanto Feliz permite atentar para as possíveis táticas circunscritas
pelos atores sociais, que se delineiam no universo dos projetos de habitação popular. A
discussão que este capítulo suscita traz ainda à cena a porosidade e a mobilidade da
linha que separa a sociedade civil do Estado. O aprofundamento desta questão estará
baseado nas premissas de autores como Timothy Mitchell.
No terceiro capítulo “Em construção: experiências de tempo-espaço em áreas de
intervenção” lança-se um olhar sobre as noções de temporalidade e espacialidade que
são desenhadas em Paraíso Azul e Recanto Feliz com a chegada da proposta da segunda
etapa do projeto de intervenção. O primeiro eixo de análise, “Os caminhos de vida, os
mapas e as plantas”, diz respeito à apropriação do espaço empreendida pelo Estado e
pelos moradores. De que modo estas áreas são descritas? Como os moradores
constroem o seu caminho de vida? Estes são os questionamentos que irão nortear esta
seção. As ideias de Ingold e de Slavin, sobre as experiências de construção do lugar
pelos atores sociais em seu cotidiano, e as considerações de de Certeau sobre as
distintas formas de mirar o espaço, empreendidas pelo caminhante e pelo voyeur,
32
funcionam como apropriadas fontes de descrição e análise do fenômeno em questão
neste estudo.
A próxima seção que compõe este capítulo, “Em tempos de intervenção...”, gira
em torno das três lógicas temporais que se atravessam nestas duas porções da cidade: o
tempo do projeto de habitação, o tempo de Paraíso Azul e Recanto Feliz (tempo de
moradia) e o tempo de espera. O objetivo é caracterizá-las e identificar em que ponto
elas se tocam e em quais se afastam, a partir da experiência etnográfica e das narrativas
dos moradores destas duas áreas.
Este trabalho então representa o esforço de construção de um ponto de vista, que
não é o único possível para a análise dos fenômenos que compõem esta investigação. Sei
que cada pesquisador poderia começar este estudo de um modo diverso do que ora
apresentei, até porque o próprio ato de narrar, compreender e organizar os eventos, traz
um recorte que vai sendo modelado pelo pesquisador no percurso da pesquisa. Devo
assinalar como é inquietante este exercício de tentar descrever os imponderáveis que se
apresentam nas entrelinhas das experiências. Porém, talvez seja esta uma das funções de
uma pesquisa: fazer com que os momentos perdurem no tempo através do registro das
lembranças.
Não posso negar, ainda, que quando se narra uma experiência vivemos
novamente, talvez de um outro jeito, com os olhos do presente e não do passado, por
isso há sempre uma dimensão de atualização das lembranças, dos itinerários, eles não
permanecem intactos. Esta pesquisa descreve este processo de construção de itinerários,
de descobertas de possibilidades. Narra o meu encontro com outros personagens, os
moradores de Recanto Feliz e Paraíso Azul, não somente as minhas experiências, mas
também as destes atores sociais vão estar impressas nestas páginas. São suas impressões
que quero também assinalar para que possa fazer sentido o caminho analítico aqui
percorrido, que é orientado por algumas noções como projeto, fiscalização, moral,
tempo e espaço. Noções que contornaram a cena destas duas porções da cidade de
Salvador. A discussão aqui proposta não se restringe ao campo da sociologia urbana,
mas toca questões e problemas nas áreas de política, antropologia e urbanismo. Isso
33
sugere uma tentativa de traçar novos diálogos com especialistas de outros campos e
estimular desdobramentos desta pesquisa que iniciei.
Mas, não avancemos muito, por ora, nestas discussões, vamos primeiro aos
eventos, ao ingresso no universo das experiências.
34
CAPÍTULO I
DECALCANDO PROJETOS: NOTAS DO COTIDIANO
O “mundo” dos projetos é essencialmente dinâmico, na medida em que os
atores têm uma biografia, isto é vivem no tempo e na sociedade, ou seja,
sujeitos à ação de outros atores e às mudanças sócio-históricas.
(Velho, 2008)
Era a primeira quarta-feira do mês de outubro, mais um dia de reunião em
Paraíso Azul e Recanto Feliz. Já havia passado uma semana da aprovação do projeto da
segunda etapa pela Caixa Econômica Federal e os comentários sobre a requalificação
ainda aqueciam as ruas e becos, pipocando, aqui e ali. Aqueles que antes não
costumavam ocupar as cadeiras nos dias de reunião, agora caminhavam até a sede da
Associação de Moradores, na tentativa de saber mais sobre o que estava para eles
reservado no projeto. Este movimento trazia às conversas que se desenrolavam entre o
“público cativo” da Associação, aqueles que rotineiramente compareciam as reuniões,
um certo tom de acusação e suspeita. Durante o percurso até a Associação um clima de
ansiedade ia se desenhando, não só para Dona Carmita, Seu Zé e Chiquinha
pernambucana, antigos moradores destas duas porções da cidade. Em certa medida
também me senti tomada de assalto por esta sensação. A aprovação significava uma
ruptura com uma certa lógica temporal que havia ganhado terreno desde a conclusão da
primeira etapa em 2007, o “tempo de espera”14, em função do qual se organizava uma
série de situações ritualizadas que povoavam o cotidiano destas duas áreas. No decorrer
do caminho até a sede a ansiedade abria espaço para fazer vir à cena outras
experiências: alegria, medo, surpresa, tristeza. A notícia da liberação do projeto não
veio acompanhada por um conjunto homogêneo de emoções. Cada emoção
experimentada indicava um diferente modo de projetar o amanhã, que agora era
atravessado pelas propostas de intervenção.
14
Explorarei com mais detalhes estas noções de temporalidade que aparecem no cotidiano de Paraíso
Azul e Recanto Feliz no capítulo III, “Em construção: experiências de tempo-espaço em áreas de
intervenção”.
35
Enquanto caminhava com os moradores, perguntando sobre suas expectativas
no que diz respeito ao projeto de requalificação, era comum ouvir frases como estas:
“Eu quero é meu vilage”; “o vilage hoje se for num lugar bom, frente de rua, tudo
direitinho é mais vantage o vilage, eu se tiver oportunidade de pegar um vilage frente
de rua pra mim, eu vou pegar um”; “Eu sempre tive vontade, era uma vontade que eu
tinha de morar ni apartamento, até mesmo pelo local, a altura”; “eu quero morar num
apartamento acho que vai ser muito prazeroso, tá morando no alto assim, vendo todo
mundo assim, eu acho muito bom morar em apartamento...”; “Eu quero ficar aqui no
meu barraco mesmo, porque essa prestação deste negócio de vilage e apartamento
quem é que aguenta?”; “A minha casa não vai derrubar, ela vai ser reformada e eu
vou ficar aqui com meus vizinhos que são tudo maravilhoso e eu quero é ficar aqui
mermo”; “Minha preocupação é meu comércio, eu quero ver como tudo isso vai ficar”.
Estas respostas não vinham isoladas, mas acompanhadas de um quadro motivacional.
Ao responder a pergunta indicava-se uma direção de sentido, na maioria das vezes, se
remetia ao delineamento de uma teia de antecipações dos cursos de ação e de táticas de
tomada do futuro que eram efetuadas em correspondência com um certo leque de
situações que se esboçava.
A premissa que assinala que o ator se posiciona entre possíveis linhas de ação é
a base para se pensar em projeto, categoria que guiará o caminhar deste capítulo, que
versa então sobre este mundo dinâmico dos projetos. As duas seções que o compõem
apresentam de maneira mais aprofundada aqueles que nas narrativas dos moradores
roubaram a cena: os projetos de morar no vilage e no apartamento. Ao trazer à baila esta
noção de projeto se conduz o itinerário investigativo dos estudos sobre os projetos de
habitação popular para uma outra direção, diferente daquela em que costumam se situar,
entre o par eficácia e eficiência. Isso não significa cair em profundo subjetivismo
porque, como acentua Velho (2008), o projeto é decalcado dentro de um campo de
possibilidades, marcado pelas insígnias da cultura e da história. Quando falamos em
projeto não estamos nos referindo a um fenômeno estritamente interno, subjetivo, mas
em uma ação à vista, que é elaborada a partir de uma teia de experiências, de códigos
compartilhados que ganham sentido nas interações. Pensar na categoria projeto significa
aqui compreender como os atores decalcam e elegem fluxos de ações a partir de certos
contextos de práticas que se apresentam, ou seja, como respondem às solicitações do
36
mundo vivido. Vamos prosseguir então com este ponto articulando esta noção à minha
experiência no campo.
As propostas de intervenção da segunda etapa de requalificação de Paraíso Azul
e Recanto Feliz pareciam reconfigurar o campo de possibilidades dos atores,
polarizados por projetos que ora se ajustavam, ora se contrapunham, aos seus projetos
anteriores. Estes projetos anteriores viravam uma espécie de pano de fundo, onde o
passado informava o presente e este escorregava em direção ao futuro. O presente não
aparecia como uma unidade isolada, já que a cada momento era impregnado daquilo que
já se deu e daquilo que ainda ia se dar, aberto aos seus horizontes temporais. Como
assinala Velho (2003), isso demonstra que a ação de projetar tem uma dimensão
temporal e contextual que vai sendo atualizada. Atravessados por esta dinâmica os
projetos se modificavam, por vezes eram substituídos por outros, estavam sempre em
um movimento, que articulava conteúdos sem dissolvê-los, e que guardava uma
intencionalidade.
Projetar não é, então, estar diante de alternativas fechadas, já que o ator não
possui de antemão um conhecimento acabado, com regras e fins explicitamente claros.
No curso deste processo novas experiências são acrescentadas ao seu repertório, outras
situações ganham cores. O ator que iniciou este exercício de imaginação que é o projeto,
assim como este último, já não segue sendo igual a quando começou. Nesta medida,
quando se pensa em projeto não se pode perder de vista a dimensão espontânea da ação.
Sobre esta questão da criatividade da ação Joas (1996) vai nos dizer que nenhuma ação
é totalmente prevista, há sempre um quê de novidade que escapa, um potencial para
transformação. Apesar da nova orientação das linhas de ação que por ora se anunciava
com a intervenção, este processo não se dava de modo aleatório, fantasioso, já que a
configuração dos contextos de práticas impunha seus limites.
Talvez seja preciso neste momento marcar a diferença entre projeto e a mera
fantasia, distinção que farei à luz das premissas de Schutz (1974). Este exercício é
importante porque sinaliza como os atores de Paraíso Azul e Recanto Feliz constroem,
negociam e avaliam sua tomada do futuro. A categoria projeto nesta perspectiva de
Schutz é definida como uma tentativa de antecipação do futuro. Todo projeto se
37
direciona a um propósito e tem seus contornos marcados pela situação biográfica do
ator, de onde decorrem os propósitos práticos a partir dos quais são formulados e
selecionados os projetos; pela situação em que o ator se encontra envolvido e pelo
acervo de conhecimentos que tem a mão. Ainda sobre esta questão Velho acrescenta
que, “por mais esotérico e particular que seja, um projeto tem de se basear em um nível
de racionalidade cotidiana em que expectativas mínimas sejam cumpridas” (2008, p.30).
Já a fantasia não teria este compromisso com um objetivo que está ancorado em um
campo de possibilidades, que tem seus traços demarcados, apesar de sempre trazer
consigo horizontes abertos. Na fantasia, como nos acena Schutz (1974), o ator pode
pensar que se cumpriram todas, algumas ou nenhuma das condições necessárias para
efetuar seu desejo fantasioso. No script da fantasia cabem todas as respostas às
solicitações do mundo vivido, cujos limites parecem frouxos e pouco imperiosos,
“queda a mi arbítrio discernir lo que haya a mi alcance y determinar lo que está a mi
poder. (Schutz, 1974, p. 90).
A relação entre o que se espera, o que se projeta ter e as possibilidades que se
circunscrevem nos contextos de práticas, também parece ser o ponto de Bourdieu
(2001) ao discorrer sobre a ligação que se estabelece entre as expectativas subjetivas e
as oportunidades objetivas, entre habitus e campo. Para Bourdieu (2001), a pleonexia, o
desejo de ter sempre mais de que fala Platão, é uma exceção, já que sempre nos
surpreendemos com o modo como ajustamos nossos desejos e expectativas às
possibilidades coerentes com a posição que ocupamos no campo. Existe então uma
compreensão prática, um senso do jogo trazido na pele, tomando de empréstimo a
expressão de Bourdieu, que permite e organiza nossa experiência.
A configuração desta relação, entre as expectativas e as possibilidades que se
apresentam no cotidiano, ganha nas premissas de Bourdieu (2001) uma maior rigidez no
movimento de análise. Isto porque deixa de lado uma certa noção de indeterminação, de
ralo de possíveis, que aparece, por exemplo, quando Schutz (1974) articula a dimensão
do projeto com uma outra categoria, a de campo de possibilidades, que pressupõem uma
maior margem de manobra para o ator envolvido na ação. A própria noção de projeto já
traz também, logo de saída, esta abertura, este horizonte de indeterminação. Quando
Bourdieu (2001) relaciona o conceito de habitus, que sinaliza uma disposição para agir
38
incorporada, com o de campo, marcado pela disputa que gira em torno do capital e por
uma estrutura de posição, é possível perceber as raízes de tal rigidez. Tentarei então,
esclarecer em que medida isso acontece.
Na base da ideia de campo está a noção de illusio (Bourdieu 1996; 2001) que
assinala um envolvimento do agente nos jogos sociais. Esta noção pressupõe que nos
engajamentos nas situações, não importa o que os agentes pensem que estão fazendo,
nem seu objeto de desejo, o que importa é a verdade que os escapa: a disputa, a lógica
subterrânea do jogo, determinante das práticas sociais, que não lhes é acessível porque
poderia comprometer o seu envolvimento na ação. Bourdieu ao discorrer sobre a
constituição da illusio vai nos dizer que “Os jogos sociais são jogos que se fazem
esquecer como jogos e a illusio é essa relação encantada com um jogo que é o produto
de uma relação de cumplicidade ontológica entre as estruturas mentais e as estruturas
objetivas do espaço social" (Bourdieu 1996, p.140). Haveria aqui um reforço mútuo
entre habitus e situação, ente habitus e campo, o que assinalaria a presença de uma
teoria da reprodução. Os agentes ao desconhecerem os princípios e regras que estão no
campo, o mantém. Bourdieu (1996) parece cair aqui em uma certa visada objetivista.
Haveria então nesta analítica de Bourdieu (1996; 2001) um desprezo ao mundo vivido,
que aparece nesta perspectiva como uma aparência, além disso, na medida em que
Bourdieu (1996; 2001), de certo modo, objetiva o habitus, se distancia das discussões
sobre os modos como o sujeito nas suas experiências mundanas se ajusta, incorpora e
transforma a situação. Esta distância faz com que a noção de projeto seja perdida de
vista neste itinerário analítico, já que pensar em projeto é também pensar em uma
margem relativa de manobra e iniciativa que os sujeitos podem ter, é este movimento
que permite pensar uma teoria da mudança e da criatividade.
Compreender o que conta para os atores, seus sistemas de relevância que se
constroem nos seus engajamentos práticos com o mundo não significa voltar para o
subjetivismo porque este mundo vivido é social. Esta tendência de reduzir a prática ao
que está fora dela, para além da compreensão do mundo vivido pelos atores é também
localizada por Latour (2001) em sua metáfora do salto mortale, que se configura em
uma apropriada fonte de descrição da questão que aqui queremos chamar atenção.
Efetuar o salto mortale seria tentar explicar as práticas, o social, sem procurar mostrar
39
as mediações, sem perseguir os atores. Como alternativa a este modo de mirar o social,
de tratá-lo como coisa, que só poderia ser explicada por um outro fato social, Latour
(2001) propõe que se retorne ao sentido original de social, que seria seguir as
associações, aqui o social aparece como um movimento. A preocupação da investigação
latouriana está em ver como os atores constroem o mundo, uma vez que este último não
estaria dado previamente, por isso faz-se mister então compreender o que é mobilizado
na sua construção. Uma vez explicitados as nuances do movimento analítico sobre o
fenômeno em questão, é hora de voltar aos contornos do campo, trazendo à baila a
relação entre projeto e campo de possibilidades.
Entre os moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz a racionalidade cotidiana,
que Velho (2008) chama atenção, sublinha a ação de projetar com traçados sólidos. Não
se ambiciona ter, na maioria das vezes, o que está distante das solicitações e
possibilidades do mundo vivido. O desejo de ganho é contornado por uma margem
mínima de possibilidade de ganho, e em consequência, o investimento e o esforço
empreendidos para sua obtenção também encontram-se submetidos a esta lógica de
ajustamento dos possíveis. Este efeito fica registrado nas narrativas dos vizinhos, Pedro
e Zeuzito, respectivamente, cujas trajetórias são marcadas pelo envolvimento em
movimentos sociais:
Eu sou muito simples, moradia ideal contanto que tenha uma casinha igual a
vilage, água, luz, bem terminadinha, cerâmica até o teto, nos banheiros, na
cozinha, piso bem arrumadinho, pra mim é um moradia legal, não precisa
melhor, por quê? ... Se eu exigi uma coisa melhor do que isso eu guento
supri ela? Arcar com as consequências das necessidade que precisa
conservar uma casa melhor do que essa? Eu não tenho, então pra que eu vou
exigir uma casa melhor do que essa? Dois quartos, sala, cozinha, banheiro,
bem arrumadinha, cerâmica, bonitinha, cerâmica até no quarto, na sala,
cozinha até em cima, banheirinho, é isso...
(...)Ter seu lar, sua moradia, independente de apartamento, vilage, ou até um
barraco, você ter um espaço seu, acho que é importante, acho que você fica,
vive melhor tendo um espaço, acho que é o sonho de todo ser humano, de
qualquer pessoa é ter uma casa, uma moradia... Não tem que ser um palácio,
40
mas tem que ser um espaço seu, né? Que você pague o seu imposto15 que
você sabe aonde você vai deitar, um endereço, você tem que ter um
endereço, onde eu tô, pra onde eu vou, eu acho que a direção, a direção é a
sua moradia né? E quando é sua mesmo, nossa! É um prazer enorme, é uma
relação de paz, é uma identificação, né? isso é muito importante a moradia,
para qualquer ser humano.
Os projetos destes moradores tendem a estar enredados, ajustados ao campo de
possibilidades que se apresenta nas tramas sociais. Quando Seu Zeuzito, 49 anos um dos
diretores da Associação de Moradores, diz que a casa não tem que ser um palácio,
chama atenção para o fato de como lhe parece fantasiosa esta projeção16. A capacidade
de desejar sem correspondência com uma certa concretude da vida cotidiana vai
perdendo espaço, no decorrer das propostas da segunda etapa, para a preocupação em
responder as novas contingências que emergem como figura na gestalt. Neste jogo
alguns objetivos são avaliados como condizentes com um certo ethos de classe, sendo
então levados a cabo e, outros não. Este potencial para realização vai orientar a
percepção das oportunidades e dos projetos. Mas, ao falar de classe abro um parêntesis
para dizer que esta noção não é aqui entendida como um agir determinado. Como
assinala Merleau-Ponty a classe, assim como a família e a religião “não são fatalidades
15
Este comentário que aparece em relação aos impostos é interessante, pois configura a moradia em
relação direta com o Estado. Explorarei mais esta relação que os moradores estabelecem com o Estado no
capítulo II em que falo da relação Estado/Sociedade Civil.
16
Não apenas esta projeção é avaliada como fantasiosa. Quando estava no campo ouvia com frequência a
ideia de que o pobre não sabia lidar com dinheiro. Por isso pensar em ficar rico, ou ganhar na loteria, era
uma projeção fantasiosa, como argumentava Seu Pedro, 77 anos, aposentado, no dia em que
conversávamos sobre seus projetos de vida: “Porque, me desculpa, isso é uma opinião minha, ainda falo
com ela (a esposa), às vez, com a turma assim: pô que bom ganhar na loto, mas ganhar na loto? Pobre vai
ganhar na loto? Não sabe administrar nem o salário mínimo, fica doido, quando pega, o patrão (risos): oh
Zé você tá ganhando um salário mínimo, a partir do mês que vem você vai ganhar 50 pau a mais, eu fico
doido e já vai pro bar com aquele 50 pau e já não faz parte do salário mínimo, faz parte da cerveja no bar,
entende? Então é a mesma coisa, o cara fica doido, não adianta ele... Oh é incrívi a pessoa que não tem
estudo pode até ser inteligente, mas se não tem o estudo (...)”. Essa noção de justificação das
desigualdades no Brasil em relação ao “ter estudo”, ao saber, é incorporada duplamente, tanto por estas
camadas populares, como nos mostra Seu Pedro, quanto é empregada pelas camadas médias e altas para
justificar o porquê da sua posição, neste último caso através da noção de mérito individual. Ver uma
discussão mais aprofundada sobre estes tema em Jessé de Souza, no seu livro “ A ralé brasileira”.
41
que submetem o indivíduo do exterior, nem tampouco valores que ele ponha do interior.
Elas são modos de coexistência que nos solicitam” (1994, p.487). Nesta perspectiva
merleau-pontyana a classe não estaria fundada nos somas de rendimento ou na posição
que o indivíduo ocupa em relação à dinâmica de produção, a classe é uma experiência
vivida, um modo de ser que nos solicita respostas, ela não existe de antemão de modo
objetivo senão como uma solicitação.
A trajetória dos atores de Paraíso Azul e Recanto Feliz ganha consistência a
partir da elaboração de projetos com objetivos específicos. Em tempos de intervenção a
heterogeneidade entre eles parecia ganhar uma nova camada de cor. Vive-se agora com
os olhos fixos no futuro. A ordem de congelamento da CONDER, que visava impedir
novas construções e conservar estas áreas para desenvolver a segunda etapa do projeto
de requalificação, não manteve na inércia as tramas do cotidiano, muito menos a ação
de projetar. O tempo do projeto de habitação e o tempo da vida17 parecem não funcionar
segundo a mesma lógica. Se o projeto de habitação busca racionalizar a vida, esta
última, como resposta à tentativa de racionalização, mostra como sua dinâmica é mais
complexa.
A viabilidade que os projetos apresentavam dependia do jogo de interações que
era estabelecido com outros projetos individuais e coletivos. Em Paraíso Azul e Recanto
Feliz os projetos construíam itinerários e o seu decalque demarcava o contorno de um
movimento de vida. Durante minhas incursões no campo percebi que estas duas porções
da cidade encontravam-se cindidas pelos projetos. Havia aqueles que queriam receber
os apartamentos dos conjuntos habitacionais; outros preferiam os vilages, e ainda tinha
aqueles que queriam receber apenas a reforma de suas casas; alguns não queriam que a
requalificação chegasse porque achavam que não possuíam condições de pagar as
prestações das unidades habitacionais e, por último, existiam os comerciantes que
queriam proteger os seus comércios, que em parte seriam deslocados para outros pontos
dentro destas áreas. Devo sinalizar que os dois últimos projetos, o dos que não queriam
a requalificação e o dos comerciantes, eram os mais questionados pela maioria dos
moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz.
17
Sobre as noções de temporalidade que são tingidas nas tramas e Paraíso Azul e Recanto Feliz ver
capítulo III “Em construção: experiências de tempo-espaço em áreas de intervenção”.
42
Este capítulo traz à cena então, dois destes projetos que foram sendo decalcados
em Paraíso Azul e Recanto Feliz, o projeto de morar no apartamento e o projeto de
morar no vilage, os quais movimentaram as tramas que se desenrolavam nestas duas
porções da cidade. A seção a seguir versa sobre o projeto de morar no apartamento e as
implicações que esta escolha apresenta. Falar de projeto é também falar de seus autores,
descobri-los e identificá-los. É então, por esse motivo que se faz mister compreendê-los,
encontrar os seus sentidos nas tramas que se desenrolam na vida cotidiana .
1.1 A disciplina do morador de apartamento
Conjuntos habitacionais em Recanto Feliz18
O apartamento dos conjuntos habitacionais era visto como um sinal de prestígio
para uma parte dos moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz. Aqueles que o incluíam
18
Logo nesta primeira imagem já chama atenção os diferentes projetos que são decalcados em Paraíso
Azul e Recanto Feliz. À esquerda da foto, por exemplo, é possível perceber a figura de um cavalo na rua.
O dono do cavalo fez uma espécie de alojamento para o animal na calçada. Depois de um certo tempo no
campo percebi que o número de cavalos vinha aumentando, o que sinaliza um investimento, um esforço
do dono para com a prática de criar estes animais. Ter um cavalo, morar em um apartamento ou em um
vilage são projetos que dividem a cena nestas duas porções da cidade e que acenam para trajetórias de
vida.
43
em seus projetos justificavam sua escolha dizendo que este tipo de moradia “era mais
chique” e demandava uma certa preparação. Dito de outro modo, exigiria modificações
no estilo de vida, o qual deveria estar mais afinado com este projeto de ascensão social.
Era preciso então trabalhar sobre si19 para formar disposições, adotar disciplinas e
gostos que contribuiriam para a formação de um certo tipo de pessoa, treinada para
habitar este novo lugar de moradia. Tomava-se a si próprio como um campo de
transformação. Há aqui uma espécie de prática ascética, ascetismo no sentido que
Foucault (2004) chama atenção, de um exercício de si sobre si mesmo. Todo um campo
de experiências que não existia anteriormente se abre a partir do delineamento deste
projeto moral.
O repertório de um morador de apartamento parecia assinalar uma certa
distinção. Não seria adequado pendurar roupas nas janelas, ouvir som alto, deixar o lixo
na frente de casa, brigar, ou fazer festas ou churrascos. Este sistema de práticas deveria
estar encerrado nos barracos. No decorrer das minhas idas ao campo fui percebendo
como esta frase de Dona Josina, diarista e antiga moradora de Paraíso Azul: “quando a
gente mora no apartamento a gente não é mais favelado, a gente vira ex-favelado”, foi
fazendo sentido. Era preciso então esquecer o modo de operar aprendido e cultivado,
renunciar a si, corrigir-se para “esquecer a miséria e não ter saudade dela”, como
afirmava e repetia Seu Firmino, 48 anos, morador de Paraíso Azul, para os seus
vizinhos em um dos dias em que estive em sua casa. No apartamento um certo tipo de
vigilância parecia ser solicitado do morador, havia uma inquietação em relação aos
excessos. Para algumas pessoas de Paraíso Azul e Recanto Feliz o barraco, e não o
apartamento, era o lugar por excelência dos excessos. Lá, como comentava Dona
Josina: “você pode fazer o que quiser, se quiser ouvir som nas altura ouve, se quiser
deixar sujo deixa, quando chove molha tudo mermo (...), se tiver que amanhecer o dia
fazeno festa amanhece, cada um vive como quer”. Todavia, devo sinalizar que esta
avaliação sobre o barraco gerava, por outro lado, uma certa discordância, por parte de
outros moradores, sobretudo os evangélicos que ainda residiam nos barracos. Para este
19
Este movimento de pensar nas práticas nas quais a subjetividade é construída e não na subjetividade em
si é uma questão foucaultiana. Ver Foucault em a Hermenêutica do Sujeito, 2004 e "A ética do cuidado de
si como prática da liberdade". In: Ditos & Escritos V - Ética, Sexualidade, 2004.
44
grupo o barraco também era um lugar para trabalhar sobre si, para cultivar e
desenvolver hábitos e virtudes.
O conjunto de proibições, que acompanhava o projeto de morar no apartamento,
desenhado em cada dia de visita ao campo, ganhou fôlego na narrativa de Dona
Marilda, 48 anos, uma diarista e vendedora da Avon com quem por vezes percorri
Recanto Feliz. Dona Marilda em uma de nossas longas conversas tentou me explicar
por que não era adequado fazer festas como reveillon, Natal ou aniversário no
apartamento. Seu argumento era que, além do apartamento ser pequeno, os anfitriões
não poderiam ficar com seus convidados até mais tarde por conta do barulho que
incomodaria os vizinhos. A moradora concluiu seu discurso dizendo que: “é por isso
que quem tem apartamento e quer fazer festa tem que alugar um espaço fora”. Esta
ideia vinha acompanhada da proposta de adoção de novos gostos, de um outro modo de
lidar com as coisas. Significava a travessia do barraco para uma nova experiência.
As proibições que eram traçadas em relação ao apartamento impregnavam
formas de viver, desenvolviam-se em práticas e receitas que eram passadas,
aperfeiçoadas e modificadas, atravessando Paraíso Azul e Recanto Feliz de ponta a
ponta. Este movimento em que se efetuavam trocas, comunicações e contribuíam para a
formação de um sujeito moral, acenava para a elaboração de um saber que brotava a
partir da tentativa de dar conta de questões práticas, de problemas que se tornavam
figura quando aparecia na situação o projeto de morar no apartamento.
Em suas investigações sobre o mundo do trabalho na Argélia, sobre a tensa
relação que se estabelecia entre disposições econômicas e capital econômico, Bourdieu
(1979), em uma análise que se inicia no apartamento do proletariado urbano argelino,
também acentua a formação de uma certa ligação entre o apartamento e a formação de
um sujeito moral. O apartamento seria então:
(...) o elemento de um sistema e, a esse título, exige daqueles que devem
ocupá-lo um certo estilo de vida; supõe e admite a adoção de um conjunto de
práticas e de representações (...) ele aparece (...) também como um espaço
estranho que é preciso desbravar, humanizar, isto é, possuir, e que apresenta
resistência. (Bourdieu, 1979, p. 22-23)
45
A proposta do apartamento além de delinear um novo tom de vida, traz consigo
exigências e dificuldades por vezes intransponíveis, as quais pareciam estar ausentes na
moradia atual, tal era o conjunto de táticas empreendidas para superá-las. O
condomínio, a prestação do imóvel, a água, ou a luz20 são algumas das preocupações
que emergem e que fazem parte deste contexto. Além de ter que cumprir com as novas
exigências, para aquele que projetava morar em um apartamento a performance era
fundamental. Era preciso mostrar para os outros personagens que compunham a cena de
Paraíso Azul e Recanto Feliz o quanto os antigos hábitos haviam ficado para trás.
Qualquer deslize girava as peças do motor das fofocas, que se espalhavam com
velocidade, aquecendo o clima das ruas e becos.
O círculo da fofoca parecia ser o tempero da vida cotidiana, sem ele as tramas
perdiam um pouco do seu sabor. Os boatos revelavam as crenças e normas coletivas que
animavam as atividades nestas áreas, havia uma seleção dos eventos que mereciam ser
alvo dos mexericos. Entre os eleitos, alguns eram tingidos com fortes cores enquanto
outros eram mantidos em tom monocromático. Um dos principais ingredientes que fazia
circular o motor da fofoca era qualquer sinal da falta de disposição para manejar o
repertório que chega com o apartamento. Era necessário então se ajustar às regras e
hábitos esperados para se ter a convicção de estar pronto. Pressupõe-se aqui um tipo
ideal de morador para um certo modelo de moradia, como narram respectivamente Seu
Pedro,77 anos, aposentado e Dona Marilda:
(...) nós cansa de falar assim: dependendo da pessoa não adianta dar
apartamento, nem vilage, nem um palacete porque ele sai do barraco se ele
não tiver boa conduta o procedimento vai ser o mesmo lá dentro do
apartamento, não adianta nada... Às vezes sente bem só dentro de um
barraco, nem que for pra ele olhar lá fora e tá vendo um carro, mas ele se
sente bem ali, põe ele dentro de um apartamento ele vai se sentir mal. Uma
por causa do ambiente que ele não tá acostumado, o regime é outro,
entende? E ele tem que cumpri se não ele é repreendido. (...) eu já morei em
apartamento, tem uma certa disciplina, tem um regulamento interno, que
20
Com as propostas da requalificação uma das pautas de discussão que veio a cena foram os chamados
“gatos”, que são ligações clandestinas de água e luz, uma prática frequente na região.
46
tem que funcionar e é obrigado a funcionar e a pessoa que vive igual a nós
vivemo aqui, que cada um fala o que quer, cada um faz o que quer, se der
pra joga o lixo ali, se der pra mim recolher e jogar na lixeira hoje bem, se
não der fica ali, dentro do apartamento não pode acontecer esse tipo de
coisa, isso eu tô começando pelas mínima as coisa do regulamento interno
que tem num prédio. (...) Morador de barraco não tem disciplina pra morar
dentro de apartamento, em prédio.
Você no apartamento você vai ficar com o som ligado até duas horas da
manhã em última altura pra incomodar o vizinho de baixo? Não pode. Você
vai poder botar uma caixa de som no meio da rua? Não pode. É...vai fazer
um churrasco botar uma churrasqueira pra tá poluindo o prédio todo, os
vizinho? Vai trazer meio mundo de carro de reciclagem e garrafa e jogar aí a
toa no chão? Não pode, é apartamento. Vai trazer um bucado de menino pra
ficar subino e desceno, Uhhh (grito), pra ficar incomodando os vizinho?
Não pode. Já na casa, no barraco, nego sobe, nego quebra, nego bate pá pá
pá no meio da noite, nego arrasta panela, nego arrasta, briga, bate por tá lá e
em apartamento a gente tem que ter mais educação. Já chama apartamento,
incomoda, é fechado, incomoda os vizinhos.
Lateral de um conjunto habitacional em Recanto Feliz.
47
Quando ouvia narrativas com este enredo questionava qual seria o eixo que
baseava estas considerações de conteúdo moral que eram constantemente enunciadas.
Identifiquei então, que eram as comparações a fonte destes juízos. As pessoas de
Paraíso Azul e Recanto Feliz ao apontarem as práticas dos moradores de apartamento
que consideravam como um sinal de despreparo e de falta de “espírito de crescimento”,
como expôs uma vez Seu Francisco, 46 anos, antigo morador de Paraíso Azul, em um
dos dias da reunião de quarta-feira, utilizavam, na maioria das vezes, como contraponto
o modelo de moradia da classe média que circundava aquela região.
No decorrer das narrativas as comparações apareciam na seguinte ordem: “Vê se
você vê esse negócio de roupa pendurada na janela nestes prédio aqui dos barão? Não
tem não porque não pode” ou “ Som alto no apartamento não pode, eles tão fazeno
igual como era nos barraco, mas aqui é outra história, veja como é nestes edifício
chique aqui do Costa Azul, eu sei porque já trabalhei lá como diarista”. Este fenômeno
indicava que havia uma troca contínua entre estes cenários sociais que operava no
cotidiano. Seguindo seus rastros chegamos então ao seu ponto de partida: a história de
Paraíso Azul e Recanto Feliz, que se desenvolveram também ao longo dos anos como
comunidades formadas por porteiros, zeladores, vigias, que trabalhavam nos edifícios
do Costa Azul. A chegada dos edifícios ao bairro se configura como um dos fatores de
crescimento destas áreas. O fato dos moradores destas porções servirem de mão de obra
para a classe média do bairro permite este processo de apropriação e resignificação dos
valores e das práticas.
A tentativa de se aproximar dos códigos deste entorno se processava de modo
tão acentuado que é comum encontrar, durante uma caminhada por estas duas áreas,
conjuntos habitacionais que trazem nomes parecidos com os condomínios fechados que
os circundam, por exemplo, Dunas de Alah e Horizonte das Dunas, fazendo referência
ao Condomínio de classe média Parque das Dunas. Os muros simbólicos e espaciais
parecem ter aqui suas fissuras. A aproximação dos modelos das classes populares das
classes médias não ganha relevo apenas na cena da habitação, ela atravessa outros
domínios da vida social. Em sua investigação sobre a classificação social e a gestão da
saúde em hospitais da rede pública do Rio de Janeiro a antropóloga Valéria Corossacz
(2009) descreve como as mulheres das classes populares são atentas e sensíveis às
48
práticas e aos usos do corpo das mulheres das camadas médias. Logo práticas como a
esterilização, parto cesáreo, cirurgias plásticas (como a de redução das mamas) e
ultrassonografia pré-natal passam, no decorrer dos anos, a serem desejadas e a compor o
repertório de mulheres das classes populares.
Fachadas de dois conjuntos habitacionais em Recanto Feliz.
Fachada do Condomínio de classe média Parque das Dunas.
49
Não somente esta troca entre Paraíso Azul, Recanto Feliz e seu entorno, que tem
suas raízes na história destas comunidades, confirma estes juízos morais. A CONDER
também ficará responsável de transmitir, em suas participações nas reuniões da
Associação de Moradores, o novo conjunto de hábitos, o que seria ou não adequado
fazer no interior das novas habitações. A habitação passa a ser então, como já sinaliza
Beguin (1991) em suas considerações sobre as maquinarias do conforto, mais um
domínio da intervenção pública, na medida em que as práticas que aí se desenrolam
passam a ser reguladas, disciplinadas.
Uma vez objeto da ação do Estado o lugar de moradia, sobretudo das classes
populares, é reduzido aos seus dados mais técnicos e a normas de habitabilidade que
desconsideram a dimensão sensível para pôr em relevo a construção de um ideal de
conforto. Todavia, a ideia de conforto não chega sozinha, ela vem acompanhada da
outra face da moeda: a noção de desconforto. Construí-la parece ser uma condição sine
qua non para que o conforto opere como uma “disciplina suave”, para colocar a questão
nos termos de Beguin (1991). Em Paraíso Azul e Recanto Feliz foi preciso dizer o
quanto a antiga casa é desconfortável e insalubre, quanto as práticas que aí se
desenrolavam eram inadequadas, para por fim apontar como estas más condições de
habitação contribuem para a diminuição do capital social e moral dos moradores. Dito
de outro modo, como estes ambientes insalubres se configuravam em um entrave para o
desenvolvimento moral dos moradores.
O atento olhar disciplinador se pulveriza por toda parte, a regulação não
precisava ser apenas feita pelos técnicos do Estado, já que existiam agora outros olhos
treinados para identificar o que fugia ao controle. São os vizinhos dos conjuntos
habitacionais, os transeuntes dos passeios, os moradores dos vilages e do barraco, que
fiscalizavam21 de suas janelas e das lajes as práticas domésticas e avaliavam os projetos
que eram desenhados e enunciados nas conversas. O projeto, como lembra Velho
(2003), está no âmbito da intersubjetividade, pressupõe a existência de um outro com o
qual se negocia a realidade, se configurando então, em um instrumento de comunicação.
21
O tema da fiscalização será aprofundado no capítulo II, “Fiscalizar é tudo, vamos viver em cima desta
tecla”: discutindo o papel dos atores sociais no processo de implementação de um projeto de habitação
popular.
50
É exatamente esta sua face pública o seu eixo de ligação com os dilemas morais. Na teia
social nem todos os projetos são avaliados do mesmo modo ou suscitam as mesmas
emoções, podendo ser definidos como legítimos, ambiciosos, impróprios ou desleais.
Em Paraíso Azul e Recanto Feliz vender ou alugar o imóvel, na maioria das vezes, não é
visto como um projeto legítimo, porque iria de encontro ao histórico de luta destas
comunidades, a uma espécie de projeto coletivo. Um caso que é tido como emblemático
para os moradores e que ilustra esta premissa é narrado a seguir por Seu Zeuzito que
enquanto discorria sobre o evento, assinalava seu descontentamento:
Tem uma menina... ela morava em uma situação muito difícil e fizemos um
sacrifício, a primeira etapa foi só barracos e a segunda etapa são casas
minúscula, e a dela era tão pequenininha que não dava nem pra ela se estirar
toda e a gente se compadeceu com aquela situação, teve várias reuniões para
que ela fosse contemplada e ela não levou nem três meses, vendeu, comprou
um vilage e foi ser secretária no mesmo apartamento no qual ela era dona,
foi trabalhar lá de empregada doméstica no apartamento que era dela, que
foi dela, não é isso... e aí pra gente isso foi muito triste porque, doloroso
porque não é assim... e aí com a comunidade toda, começou a achar um
absurdo, rir, falar que ela tava louca, ela levou só quatro meses e acabou
saindo e procurando outro emprego. Isso pra mim foi, assim o cúmulo do
absurdo, eu acho que não é assim, as pessoas precisam se programar pra
vida, pra tudo, e ela pagou um preço alto porque ela não tava preparada pra
aquele momento, então ela vendeu e depois a própria pessoa pra quem ela
vendeu foi a patroa que ela arrumou, ela continuou trabalhando ali. Quando
eu ouvi aquilo eu não tava acreditando, mas foi realidade, então são tantos
outros, mas esse foi o caso que mais me marcou. Hoje ela mora na
comunidade, né? Num vilage que ela nem terminou, não deu nem piso
ainda e o apartamento dela, então ela vê de longe o que era dela, o sonho,
não sei também se ela tá feliz onde ela tá hoje, né? Não sei...
A decisão de vender gerou para esta moradora uma série de sanções simbólicas
por parte da vizinhança e lhe conferiu o lugar de outsider. Pressupõem-se aqui nesta
narrativa uma espécie de disposições, de estilo, que estariam ausentes nesta mulher, que
51
lhe impediriam de responder de modo adequado aos contornos da nova situação, a
morada no apartamento. Seu sistema de práticas e o estoque de conhecimentos que
trazia a mão, pareciam para Seu Zeuzito, não estarem ajustados com a nova
configuração.
Outros casos também ativavam o motor da fofoca e eram alvo de censura em
Paraíso Azul e Recanto Feliz. Entre os mais relatados estavam o de um homem que
vendeu seu apartamento para comprar um carro, que acabou caindo em uma Lagoa, hoje
aterrada, e que agora dorme nas lajes dos vizinhos e o que foi narrado por Antonio, 26
anos, membro da igreja Assembleia de Deus, no dia em que Dona Marilda me levou na
sua casa:
(...) tem uma outra pessoa que vendeu por conta própria, primeiro porque
ele era viciado e ... aí acabou vendendo o apartamento e...na época achou
que era um dinheirão, né? O pessoal chegou botou o dinheiro assim, ele não
aguentou ver aí vendeu. E aí foi morar em outro bairro, mas só que aquele
dinheiro ele não...não se aprumou com aquele dinheiro. Acabou pegando o
dinheiro e gastando todo assim com negócio de bebida, droga, inclusive
comprou até uma moto véa também e aí do meio pro fim entregou tudo pros
vício, inclusive até a moto também...acabou vendendo também é... pra pagar
é... A dívida que tinha feito. E hoje, às vezes, a gente sempre encontra ele aí
na rua parecendo mesmo um mendigo é... A situação que tá bastante...
Praticamente entregue, não tem uma moradia mais, não tem ... E voltou pra
aquela vida, o dinheiro acabou e aí a gente sempre encontra ele aí pra cima e
pra baixo sem ter um bom local pra morar porque o que tinha não soube
aproveitar e agora tá nessa situação.
Durante as reuniões de quarta-feira estas histórias roubavam a cena, havia
sempre alguma versão inédita a ser contada. Os boatos sobre os resultados destas
vendas corriam Paraíso Azul e Recanto Feliz de ponta a ponta. Todos pareciam ter
opiniões a dar sobre os episódios, e ao descrevê-los o tom era, na maioria das vezes, de
censura e acusação. Este tom rendeu minha atenção de tal modo que nas minhas idas ao
52
campo passei a perguntar mais sobre o que havia acontecido com aqueles que venderam
os apartamentos na primeira etapa do projeto.
O curioso é que as histórias que os moradores narravam eram em grande medida
de pessoas que “não se aprumaram com o dinheiro da venda”: Pessoas que estavam
morando em bairros como Cajazeiras, São Marcos, São Cristovão, espaços que,
segundo os moradores, não gozavam do “prestígio”
22
do Costa Azul, ou pessoas que
haviam perdido todo o dinheiro em jogo, drogas, negócios mal sucedidos e, voltaram
para Paraíso Azul e Recanto Feliz, como eles costumavam dizer, “com as mãos
abanando”. Depois de ouvir tantos casos, perguntei para alguns moradores se eles não
conheciam alguém que vendeu o apartamento e tinha conseguido fazer um bom negócio
com o dinheiro. O silêncio marcou por instantes aquele diálogo, até que foi rompido por
“um sim” pronunciado de modo que se não estivesse ao lado daquele que o emitiu não
conseguiria ouvir. Mesmo assim para ter certeza da resposta decidi perguntar de novo,
dessa vez ouvi um sim que saiu sem titubeios. Esperei então pela narração do episódio e
para minha surpresa não apenas um, mas vários deles foram contados. Havia, por
exemplo, a história de um homem que vendeu, voltou para o interior, comprou lotes de
terra e alguns animais; a de uma mulher que comprou uma casa mais barata em outro
bairro e montou com o resto do dinheiro um negócio, havia ainda o episódio de outra
antiga moradora que também comprou uma casa em outra área da cidade e em cima
construiu um andar para viver da renda do aluguel.
Após ouvir estes casos passei a me questionar por que eles não faziam parte do
conteúdo do circuito das fofocas. Assim como nas descrições de Elias (2000) sobre a
estrutura do círculo de mexericos da Zona II de Winston Parva, as fofocas em Paraíso
Azul e Recanto Feliz eram uma espécie de cimento social, se configuravam em um
instrumento de coesão social e mantinha acessa a chama de projetos coletivos, como o
da permanência no Costa Azul. Aquilo que ameaçava os laços de solidariedade ficava
de fora do seu raio de ação, saia da pauta.
22
Esta relação de hierarquia e classificação dos espaços urbanos também é sinalizada por Velho (1989)
em a Utopia Urbana, em que investiga a importância de morar em Copacabana.
53
Além das fofocas com um tom “elogioso, de apoio”, para usar os termos de Elias
(2000), que ressaltavam a performance de algum morador considerado um exemplo a
ser seguido pelos demais por reafirmar as crenças e normas aceitas coletivamente, o
motor da fofoca era aquecido, sobretudo, por eventos que contrariavam as regras e por
isso eram objeto de censura e acusação. A discussão acalorada, o frenético ritmo com
que estes casos eram contados e o tom usado para tal fazia crescer um sentimento
coletivo. Os moradores pareciam se unir em torno de um certo objetivo: rejeitar, mesmo
que sutilmente, aqueles que desrespeitavam as regras, os desviantes. Isso mostra que
nestas duas porções da cidade de Salvador, assim como para os “aldeões” de Winston
Parva:
As fofocas de modo algum tinham apenas a função de apoiar as pessoas
aprovadas pela opinião dominante e consolidar as relações entre os
moradores. Tinham também a função de excluir pessoas e cortar relações.
Podiam funcionar como um instrumento de rejeição de extrema eficácia.
(Elias, p.125, 2000)
As histórias encenadas pelos outsiders, que escapavam as normas e crenças
aceitas coletivamente traziam à baila ainda uma outra questão: quando projetos
individuais esbarram em projetos coletivos tinha-se a sensação de que os primeiros são
menos merecedores de efetuação do que os segundos. Quando se tratava do projeto
coletivo de permanência no Costa Azul havia pouco espaço para a individualização,
para o esboço de um projeto do morador, que fosse de encontro ao projeto coletivo.
Entretanto, não se pode perder de vista, como adverte Velho (2003), que os projetos
coletivos não são experienciados de modo homogêneo por aqueles que estão envolvidos
pelo seu manto. Sua interpretação é singular, depende de elementos como a trajetória do
ator e dos outros projetos com os quais este projeto coletivo interage no campo de
possibilidades que se esboça. Esta premissa nos leva a pensar que o palco dos projetos
parece ser um cenário de disputa e interação, uma vitrine diversa que a depender do
contexto de prática e da biografia do ator, terá eleita uma de suas peças, um projeto
roubará a cena.
Saindo do universo do apartamento e da análise de suas nuances permitam-me
agora discorrer sobre um outro personagem dos projetos dos moradores de Paraíso Azul
e Recanto Feliz: o vilage.
54
1.2 “Eu quero é meu vilage”
Vilage em Recanto Feliz
Em Paraíso Azul e Recanto Feliz o vilage23 aparecia nas narrativas não somente
como um lugar de moradia. Era mais do que isso, significava a possibilidade de planejar
o futuro da família, de garantir a casa dos filhos, dos netos, permitindo assim uma
continuidade. Ao contrário do apartamento, que não podia ser modificado24 devido à
estrutura da sua construção, que os moradores chamam de parede sobre parede25, o
23
Durante o tempo em que estive no campo percebi que O próprio nome “vilage” já tem um senso
aspiracional também, de se separar da noção de uma simples casa-geminada.
24
A vontade de modificar a moradia transcende uma questão de classe, na medida em que não é um
aspecto específico das camadas populares, senão também uma prática dos segmentos mais abastados da
sociedade. Estes não só alteram o seu território particular, a sua moradia, mas também o espaço público
através da construção de guaritas, muros e áreas sistematicamente gradeadas e cercadas, que ultrapassam
o limite do privado e incidem sobre o público, impedindo assim a livre circulação dos transeuntes nas
ruas, que agora passam a ter donos, alimentando a formação dos guetos voluntários, como nos lembra
Bauman (2003), na busca por uma segurança ameaçada por um inimigo invisível. Ver Bauman (2003) e
Teresa Caldeira (2000).
25
A estrutura do imóvel é de alvenaria de blocos de concreto estruturais. A economia, a resistência dos
blocos e a possibilidade de um revestimento mais uniforme contribuíram para a adoção deste tipo de
55
vilage podia ser ampliado, no seu perímetro havia espaço para fazer o chamado
“puxadinho” e a sua estrutura suportava ainda a construção da laje. O projeto do vilage
parecia acompanhar aqui, de certo modo, o ritmo das famílias que vão ocupá-lo, que
mudam, ampliam-se com a chegada de novos membros, assumem outras funções e
interesses que ficam desenhados nas mudanças que vão sendo efetuadas no lugar de
moradia.
O potencial de ampliação agregava, para os moradores, mais uma vantagem ao
vilage: a possibilidade de se tornar uma nova fonte de renda. Vamos então prosseguir
com este ponto. Por vezes, os moradores comentavam que o objetivo de fazer estas
ampliações, o puxadinho e a construção de um novo andar para o vilage, era ter espaços
para alugar. As casas de aluguel eram vistas como uma fonte de renda segura, já que o
Costa Azul seria, de acordo com os moradores, uma região com uma localização
privilegiada, perto do mar e assistida por equipamentos públicos tais como escolas ou
posto de saúde. Enquanto estava no campo ouvia com frequência relatos sobre
moradores que haviam recebido as unidades da primeira etapa e fechado contrato de
aluguel por valores que giravam em torno de 250 a 450 reais mensais.
A notícia que circulava no moinho das fofocas era que a procura pelos imóveis
era intensa, sobretudo pela classe média. Quando perguntava aos moradores se sabiam
quem eram estas pessoas que alugavam, eles respondiam que tinha enfermeiras,
professores e “até advogados”, como fez questão de pontuar Dona Francisca, 62 anos,
vendedora ambulante, uma antiga moradora de Recanto Feliz. O aluguel, ao contrário
da hipótese que havia criado a princípio, era avaliado por grande parte dos moradores
como um projeto legítimo. Esta nova configuração me instigou a querer compreender o
porquê desta avaliação. Antes de prosseguir com a questão, devo mencionar em que se
baseava minha hipótese anterior. Inicialmente pensava que as pessoas que alugavam
suas unidades, vilages ou apartamentos, saíam de Paraíso Azul e Recanto Feliz, mas o
que os moradores me contavam era que muitos alugavam e iam morar com familiares
(pais, filhos) que também haviam recebido as unidades, ou, então, alugavam outras
construção pelo Governo do Estado. Os blocos estruturais, além de exercerem a função da vedação,
também são destinados à execução de paredes que constituirão a estrutura resistente da edificação,
podendo substituir pilares e vigas de concreto. É exatamente este fator que impossibilita as modificações,
já que elas poderiam comprometer toda a edificação.
56
casas mais baratas nestas áreas. Alugar os imóveis não ia de encontro ao projeto
coletivo de permanência, todavia poderia significar uma tática de tomada do futuro ou
ainda uma tática de subsistência, como fica assinalado nos trechos destas narrativas de
Seu Neto e Dona Marilda, respectivamente:
(...) tem pessoas que aluga, pega, tira 150 de 450 para alugar uma casa para
morar e sobra 250, né? Então 250 reais você já não morre de fome, pelo
menos o feijão com farinha e carne você vai ter, não vai ter é (risos) aquela
comida boa, mordomia tal, entendeu? Mas, de fome você não morre e é isso
aí.
As pessoas aqui alugam porque eles acham melhor alugar porque no aluguel
eles acham que eles ganham mais dinheiro, alugam (...) eles alugam o
apartamento ou o vilage, e volta, como tem um menino aí em cima, ele
alugou o vilage dele e alugou o barraco, alugou o vilage por 200 reais e
alugou um barraco por 100 pra morar o lucro é 100 real, eles aluga (...) aí
bota aquele dinheiro no banco ou bota um ponto de negócio e fica só na
renda todo mês .
No jogo de possibilidades que vem contornar o projeto de morar no vilage, além
do aluguel, também ganha relevo uma outra prática: o comércio doméstico. Ao descer e
subir os sinuosos becos e ruelas de Paraíso Azul e Recanto Feliz é comum encontrar em
diferentes formatos e cores o verbo vende-se nas portas e janelas das casas. Geladinho,
doces, folhas para chá, fósforo, cachaça, condimento, cigarro, cerveja, rifas, produtos da
Avon e da Hermes, são os artigos que aparecem com maior frequência nas vitrines
domésticas. Por vezes, ofertas inusitadas, como a de uma piscina, também entram em
cena. Esta rede de micro-comércios traz um clima de efervescência, direciona um
movimento intenso de idas e vindas, possibilita encontros entre os moradores e
impulsiona uma espécie de economia que transita entre a fronteira do formal e do
informal. A moradia assume então uma multifuncionalidade, é o lugar em que se
trabalha cotidianamente para garantir a sobrevivência. Seus cômodos são adaptados
para acomodar esta nova função, quartos viram depósitos, janelas passam a ser vitrines
e a sala se transforma em porta de entrada dos pequenos comércios.
57
Entre aqueles que tinham ou desejavam ter um comércio doméstico, o vilage
figurava como o cenário mais adequado para acolher esta prática, enquanto que o
apartamento parecia comprometê-la. Isso porque as narrativas dos moradores
endereçavam-se mais uma vez para a estreita relação entre o morar no apartamento e a
proposta de um certo estilo de vida que o acompanhava, no qual parecia não haver
espaço para a dinâmica deste tipo de micro-comércios. Frases como as de Dona
Carmita, 53 anos, dona de um pequeno comércio doméstico: “Como é que os freguês
vão gritar pra chamar a gente no apartamento? Isso incomoda os vizinho, não pode
fazer isso no apartamento...” ou as de Dona Zefa, 49 anos, diarista, uma das muitas
moradoras que sonhavam em montar o seu comércio: “E se nós não morar no térreo
como é que os freguês vai subir? A gente vai ter que ficar subino e desceno, ou então
nós vai ter que jogar a chave pela janela toda hora, aí fica difícil botar um negócio no
apartamento”, sinalizavam que os moradores viam-se privados no apartamento de
operar do modo como faziam em outras moradas, já que este novo lugar exige um outro
tipo de conduta, que não é acessada de modo automático.
Este descompasso entre o saber-fazer não é só uma questão de hábito, mas
significa que os barracos, as casas não requalificadas dizem sobre uma experiência,
estão inscritas naqueles que a ocuparam, assim como todas as outras que a precederam.
pois como nos lembram de Certeau e Giard ”os nossos habitats sucessivos jamais
desaparecem totalmente, nós os deixamos sem deixá-los, pois eles habitam, por sua vez,
invisíveis e presentes nas nossas memórias. Eles viajam conosco” (1996, p. 207). A
tensão entre o antigo repertório e as exigências de um novo estilo de vida, virava um
argumento para aqueles que defendiam os vilages, que parecia não propor um sistema
de práticas tão distinto do que até agora manejavam no lugar de moradia.
Outra peça que vem completar o mosaico da escolha pelo projeto do vilage era a
tendência, pontuada por alguns moradores, de fazer da moradia um refúgio. De Certeau
e Giard, assinalam esta tendência em suas investigações sobre o morar, acentuando que
“morar à parte, fora dos lugares coletivos, é dispor de um lugar protegido, onde a
pressão do corpo social sobre o corpo individual é descartada, onde o plural dos
estímulos é filtrado ou, em todo caso, devia sê-lo, teoricamente” (1996, p. 205).
Seguindo esta perspectiva a moradia singular seria então o lugar onde é possível manter
58
por vezes um certo distanciamento das disputas simbólicas e das negociações que a
morada em lugares coletivos pressupõe. Nele, as decisões, via de regra, estariam a cargo
daquele que mora, que poderia expressar os seus interesses individuais sem encontrar, a
princípio, muitos entraves. A sensação de poder experimentar uma certa independência,
em relação às práticas que se desenrolam na moradia e aos vizinhos, justificava, em um
jogo contínuo de preferências e exclusões, a opção pelo vilage, como fica expresso na
narrativa de Seu Pedro:
Eu dou preferência ao vilage porque eu vou morar independente... E eu sou
muito sistemático, eu não gosto de ver lixo na porta da minha casa, eu gosto
de ter minhas criação, inclusive tá faltando o gato, o gato mataram ele
(risos) e... Eu tenho na mente quando eu receber minha vilage eu vou fazer o
murinho fora, não sei se você já viu, lá onde tem vilage você viu o que os
cara tão fazendo assim na entrada? Uma areazinha, com balaostre, assim
tudo bonitinho, a minha intenção é isso... fazer aquilo pra mim ficar
independente e cercar o quintal do fundo, se tiver, pra o meu cachorro e
viver minha vida independente...porque eu acho que o apartamento a
gente...a postura de convivência dificilmente bater, principalmente na
limpeza, no silêncio e eu tendo minha casinha não...eu e ela (esposa) , eu
tenho 77 e ela 76, nos vamo ficar fazendo o que dentro de apartamento?
Ainda mais se pegar um térreo igual a esse aqui, que toda tarde rola um
grupo26 aí de... entende? Nós não podemos pegar um lá em cima pra evitar
esse barulho, vai ter que pegar um lá em baixo e... aí na minha opinião não
dá certo, eu dou preferência ao vilage.
Em nome do que alguns moradores chamavam de independência, projetavam
construir muros, colocar grades na tentativa de limitar a travessia entre o espaço público
e o espaço privado da moradia. Este movimento de demarcação que entre os moradores
que aguardam pela conclusão da segunda etapa é ainda um projeto, já vinha ganhando
fôlego entre aqueles que já haviam recebido as unidades habitacionais. A cada mês que
caminhava por estas duas áreas me surpreendia com o ritmo das mudanças que se
26
Este morador, Seu Pedro, se refere a um grupo envolvido com atividades ilícitas, ligado ao tráfico de
drogas.
59
iniciavam nos vilages: muros e grades que não estavam previstos na estrutura proposta
pela CONDER, se transformaram em elementos fundamentais na sua composição. Não
quero com isso dizer que estes elementos estão ausentes nas casas e barracos, mas
sinalizar que eles aparecem em uma proporção muito menor neste contexto.
Fachada de um conjunto habitacional em Recanto Feliz já demarcada pelo muro.
Tirando de cena as vantagens que os moradores encontram no projeto do vilage,
encaminharemos agora a análise em outra direção. Nas minhas conversas com os
moradores descobri que, para os que queriam o vilage, este último só guardava uma
desvantagem com relação aos apartamentos dos conjuntos habitacionais: o valor de
venda. Com frequência os apartamentos construídos na primeira etapa eram vendidos
por um preço que poderia chegar até 60 mil dependendo da sua localização. Os mais
valorizados tinham vista para o mar e ficavam de frente para os condomínios fechados
da classe média. Mesmo os moradores que não pensavam em se desfazer do imóvel
quando o recebessem na segunda etapa, especulavam sobre quanto poderia valer se,
algum dia, decidissem vendê-lo, como fica ilustrado na resposta de Seu Neto, 41 anos,
um antigo morador com quem sempre me encontrava nos dias de reunião:
60
Eu penso que eu não vou vender o meu nunca, se um dia o branco, os rico
quiser me tirar daqui ele vai ter que me pagar caro pelo valor de mercado
(...). Então eu... o branco pra me tirar daqui hoje do Costa Azul, eles tem
que me pagar o valor de mercado, que um apartamento desse não vale só 40
mil, porque eu sei que não vale onde hoje nós tamo morando no Costa Azul
onde o metro de terra quadrado custa três mil reais, então, eu não vou pegar
meu apartamento e dá a eles de mão beijada, pra eles me tirarem eles tem
que pagar preço de mercado, né?
Os vilages por sua vez são vendidos, geralmente, por cerca de 15, 20 mil reais,
um valor inferior ao preço dos apartamentos. Os moradores atribuem esta variação a
uma menor procura dos compradores por este tipo de imóvel em Paraíso Azul e Recanto
Feliz e ao tamanho dos vilages da primeira etapa, que têm apenas um quarto, uma sala,
uma cozinha e um banheiro. Apesar do valor de venda ser um ponto a menos para o
vilage no jogo dos projetos, este quesito não lhe tira a sua posição. No mundo dinâmico
dos projetos o vilage ainda é o protagonista para a maioria dos moradores de Paraíso
Azul e Recanto Feliz.
Uma vez analisadas as questões que estão em jogo quando se projeta morar no
apartamento ou no vilage, ainda nos resta uma interrogação: Em meio a este trânsito de
projetos e de experiências, pode o projeto de habitação popular dar conta deste
emaranhado? A racionalidade do planejamento dos projetos de habitação popular, com
suas análises totalizantes, parece não acompanhar o frenético pulsar dos lugares vividos
e afastam da cena o domínio das práticas, os projetos de vida e a lei anônima que orienta
o modo como os atores delineiam seu cotidiano. Neste capítulo ao trazer à baila a noção
de projeto, tentei deslocar o eixo das investigações sobre os projetos de habitação do par
eficácia e eficiência. Este deslocamento chega na tentativa de responder a seguinte
indagação: O que os atores fazem com o que é para eles desenhado pelos projetos de
habitação?27 Projetos com conteúdos específicos: projeto de morar no apartamento e a
ideia de ascensão social, projeto de morar no vilage, como uma forma de garantir o
27
Esta indagação é o eixo norteador que perpassa toda a construção deste trabalho.
61
futuro da família, de gozar de uma certa liberdade. Esta foi uma das respostas possíveis
que pude perceber na medida em que perseguia os atores em suas tramas.
As questões relacionadas aos projetos vinculados aos outros tipos de moradia, o
barraco e a reforma das atuais casas, que não foram incorporadas neste capítulo. Seus
desdobramentos sinalizados no capítulo seguinte, pois estas projeções apareceram no
campo associadas a um fenômeno êmico ao qual que quero chamar atenção. O capítulo
II “Fiscalizar é tudo, vamos viver em cima desta tecla”: discutindo o papel dos atores
sociais no processo de implementação de um projeto de habitação popular também
tentará dar conta da indagação sobre a ação dos atores em relação aos projetos de
habitação popular. Uma nova resposta passa a fazer eco: a fiscalização. Seguirei então
com este ponto tentando compreender os contornos da relação sinuosa que se estabelece
entre sociedade civil e Estado.
62
CAPÍTULO II
“FISCALIZAR É TUDO, VAMOS VIVER EM CIMA DESSA TECLA”: discutindo o
papel dos atores sociais no processo de implementação de um projeto de habitação popular
Nós somos fiscais desta obra, nós como morador, como donos da obra
praticamente, temos que cobrar, ficar de olho, todo mundo aqui tem
experiência desde o barraco que nós construímos, eles são técnicos, mas todo
mundo aqui também sabe. Se a empresa tiver fazeno corpo mole, se a areia
não for de boa qualidade, se os blocos tiverem tortos e o povo da obra não
tiver trabalhando direito é a gente que tá perdeno. E né só fiscalizar a obra
não, quando chegar alguém perto da sua casa, você pergunta logo, quem é
esse aí? Comprou de quem? Ou alguém que não participa, que tem mais de
cem anos que nem vem pra reunião... Você vai deixar passar na sua frente?
Esse é um momento novo, a comunidade tem que chegar junto... A
fiscalização é de todos os moradores, vamos fiscalizar para evitar os erros do
passado.
(Zeuzito, 49 anos, morador de Paraíso Azul)
Barraco é uma expressão que, a primeira vista, parecia ter significados bem
demarcados em Paraíso Azul e Recanto Feliz. Nas rodas de conversas, nos dias de
reunião na Associação de Moradores e no circuito das fofocas esta expressão era usada
tanto para nomear o lugar por excelência dos excessos, da ausência de regras, onde tudo
era permitido, quanto para se referir a mais um lócus onde se trabalhava sobre si para
cultivar hábitos e virtudes28. Quase sempre aparecia também como sinônimo de
pobreza, enquanto que em outras ocasiões, a palavra barraco se referia ao início do
sonho de “ganhar a vida” na capital29.
28
Ver esta discussão no capítulo I “Decalcando projetos: Notas do Cotidiano”, quando é analisada a
relação dos evangélicos com seus barracos.
29
Nas narrativas dos moradores sobre sua chegada à região de Paraíso Azul e Recanto Feliz, ganha relevo
entre os migrantes, este desejo de “ganhar a vida” na capital que fica expresso, por exemplo, neste trecho
da narrativa de Seu Neto, 41 anos, que veio do município de Ribeira do Pombal: (...) quando eu cheguei
em Salvador eu tinha.... cerca de 16 anos de idade... Eu vim trabalhar, né? Buscar uma melhoria pra
vida... a gente morava na roça, né? E... é aquela coisa, trabalho só gera mais, em tempo de inverno,
quando chega época de chuva, que você tem que plantar a roça e não tem trabalho, nem feijão, nem
milho, né? E a saída de gente da roça pra vim pra capital é assim ... buscar alguma melhor pra vida da
gente... Algum conhecimento mais que a gente aprende, de se desenvolver mais (...).
63
Como os significados se constroem no movimento da vida, no vai e vem das
tramas que se desenrolam no cotidiano, ou para usar os termos de Merleau-Ponty, “é na
experiência do mundo que todas as nossas operações lógicas de significação devem
fundar-se (...)” (2006, p.440), a expressão barraco não permaneceu estática na cena
destas duas porções da cidade de Salvador, ganhou uma nova e inusitada acepção: a
fiscalização. Este conceito êmico, a fiscalização, será a lente analítica deste capítulo,
através da qual pretendo tecer uma análise sobre o papel dos atores sociais no processo
de implementação de projetos de habitação, que deixa suas pistas impressas nas práticas
e nas narrativas que se articulam no seu cotidiano. As duas seções que compõem este
capítulo apresentam de maneira mais aprofundada os pontos de contradição que marcam
a prática da fiscalização.
Na primeira seção “A silhueta da vigilância: fiscalizando o próximo” a discussão
gira em torno da fiscalização que se dá entre os moradores, esboçando um modelo de
vigilância, que em algumas situações pode ser verificável e em outras, inverificável,
como na prática panóptica apresentado por Foucault. Já na segunda seção: “Na
contramão da fiscalização” o que aparece como objeto de atenção são os discursos que
contradizem a prática da fiscalização: os que acentuam o risco de fiscalizar o outro. A
análise das questões expressas neste capítulo permite compreender de forma mais
acurada não somente o que os atores sociais fazem com o que é para eles projetado no
desenho de um projeto de habitação, como também os contornos porosos e a mobilidade
da relação entre Estado/ sociedade civil. Uma vez apresentados os passos deste
itinerário investigativo, iniciarei então, este percurso mostrando como o conceito de
fiscalização ganha relevo e sentido na vida ordinária destas duas áreas.
Em meados do mês de novembro de 2009, período em que se discutia sobre o
início das obras, uma vez que o projeto de requalificação da segunda etapa já havia sido
aprovado pela Caixa Econômica Federal, o tema que aquecia as discussões nas ruas e
becos era como seria possível abrir frentes de obra sem que os moradores saíssem de
Paraíso Azul e Recanto Feliz. A primeira opção negociada com a CONDER, e a mais
recorrente desde a realização da primeira etapa de requalificação, era procurar casas
para alugar na própria região e, durante o mês seguinte este era o foco da discussão.
Todavia, como narrava Seu Pedro, 77 anos, aposentado, que residia em Paraíso Azul
64
com sua esposa e seu filho desde que havia voltado de São Paulo, a tarefa de encontrar
uma casa para alugar naquelas paragens, ao contrário do que poderia se pensar, não era
simples. Isso porque o inquilino, responsável por pagar o valor do aluguel, não seria Seu
Pedro, Dona Chiquinha Pernambucana, Seu Zé ou qualquer outro morador da região,
mas a CONDER.
Entre os proprietários das casas de aluguel daquelas áreas a CONDER tinha
fama de má pagadora. Este julgamento que havia sido atribuído a este órgão do Estado
aguçou sobremaneira minha curiosidade. Passei então nas minhas visitas ao campo a
indagar como havia sido construído e disseminado este discurso. As narrativas dos
moradores se aproximavam quanto ao assunto, mas uma conversa com Seu Pedro,
morador que teria sua casa demolida para abrir uma das primeiras frentes de obra, me
pareceu esclarecedora. Quando perguntei se a CONDER estava devendo a algum
proprietário no período da primeira etapa, Seu Pedro prontamente negou e explicou
assim:
A Conder pregou para nós uma coisa, para procurar casa de aluguel e
quando nós chegou pra procurar foi tudo diferente (...) Tem gente que tá
dizeno que não tá encontrando casa, mas não tá encontrando é crédito, tem
casa fechada aí e o povo não quer alugar, porque o pessoal que aluga tá
dizeno que a CONDER paga, mas demora de pagar e fica difícil encontrar
casa para alugar nessas condição, nem lá na Boca do Rio o pessoal tá dizeno
que tá achando.
Como Seu Pedro afirmava existiam casas vazias, até apartamentos e vilages da
primeira etapa. Entretanto, não era permitido a CONDER alugá-los, pois havia o
empecilho da Companhia não poder reverter o valor para os seus próprios fundos, uma
vez que estes imóveis ainda não haviam sido quitados pelos moradores que receberam
as unidades habitacionais na etapa anterior. A falta de “crédito” da CONDER perante os
proprietários se configurava então em mais um entrave para o início das obras. Diante
desde enredo mal resolvido entre os proprietários das casas de aluguel e a CONDER, a
Companhia sugeriu aos moradores a construção de barracões na região, como foram
chamadas por grande parte dos moradores, as casas individuais de madeirit constituídas
65
de um vão único e um sanitário, as quais seriam construídas em áreas salteadas para
abrigar as famílias até serem concluídas as etapas das obras.
Quando a proposta do barracão entrou em cena, uma nova peça fez girar os
motores do moinho da fofoca. De um lado existiam moradores como Seu Zeuzito, 49
anos, um dos diretores da Associação de Moradores, que argumentava a favor dos
barracões para poder fiscalizar de perto o caminhar das obras e, do outro lado estavam
moradores como Dona Zezé, aposentada, 62 anos, que tinha medo de ir para o barracão,
pois só em pensar nesta palavra lhe vinha à cabeça recordações que no decorrer da sua
vida se esforçara em esquecer. Esquecer-se do barraco que alagava com a chuva, dos
móveis molhados que se perdiam:
(...) da agonia de ficar tirano aquela água de balde, de bacia, do medo de
ver o meu barraco caí, porque não vou dizer que isso não passava pela
minha cabeça, passava, e como passou (...) E quando caía aquele toró eu
pedia a Deus para deixar meu barraco em pé, porque você sabe, barraco de
madeirit é tudo assim frage. (Dona Zezé se emociona e chora neste
momento). Quando o tempo de chuva acabava minhas mobília, minhas coisa
tava tudo de bolor (...) Todo mundo aqui que tinha barraco viveu tempo
difícil e não era só a chuva não, era rato que vinha dos esgoto e entrava na
nossa casa, era barata pra cima e pra baixo aí e nos conviveno com isso e
tinha que conviver, não tinha jeito a dar, o jeito era seguir em frente e
chamar por Deus (...) Se for contar tudo ninguém acredita. É dias e mais
dias pra contar todas as histórias que teve aqui nesses barraco. Como dize o
povo é ver pra crer, né? Mas, a vida da gente tem tenta coisa, tem umas que
é melhor nem falar, é melhor esquecer, mas aí quando fala nesse negócio de
barracão, barracão, todo dia agora tem essa história de barracão (...)
Barracão, barraco pra mim é tudo a mesma coisa, é tudo barraco e só quem
viveu é que sabe como é (...) E por minha vontade eu não vou pra barracão
nium, daqui eu não saiu, só pro meu vilage porque eu já esperei demais por
isso. São anos e anos de espera, pra ir depois pra barracão, é judiar demais
de nós.
66
Não só Dona Zezé como uma grande parte dos moradores de Paraíso Azul e
Recanto Feliz tinham um repertório vasto de histórias tristes sobre o barraco, as quais
eram contadas, por vezes, em um tom carregado de emoções, como é o caso da narrativa
de Antonio, 26 anos, casado, membro da Assembleia de Deus, hoje o único morador do
seu conjunto habitacional que é remanescente da região de Paraíso Azul e Recanto
Feliz:
A minha casa era um barraquinho de madeira, não tinha quarto, e eu morava
com meus irmãos, então tinha cinco... comigo era seis... e praticamente era
uma área do tamanho dessa sala aqui, pra seis pessoas era totalmente é...
uma área assim pequena pra quantidade de pessoas que tinha e... era um...
barraco que quando chovia molhava muito, inclusive até de baixo é... fluía
água e eu morava próximo a lagoa também, aí pronto quando chovia a água
da lagoa ia toda pra minha casa, inclusive tinha uns vizinhos que passava
também por essa situação e era aquela coisa quando chovia de noite um
acordava o outro pra ajudar a tirar a água de dentro do barraco e hoje... A
cama, por exemplo, eu lembro que uma vez meu pai veio passar alguns dias
aqui e começou a chover, choveu forte mesmo e aí a água da lagoa começou
encher a minha casa... O meu barraco, e meu pai veio do interior achando
que os filhos morava em lugar assim mais ou menos, aí ele deitou na cama,
embaixo tinha assim um bicama, a força da água era tanta que pegou o
bicama e começou a levar, aí meu sobrinho também tava com meu pai e aí
começou a dizer : oh meu avô, oh o barco, o barco tá começando, oh a água
tá levando o barco, aí meu pai se chateou com ele e queria até bater nele ,
mas era sofrida mesmo minha situação no barraco, era triste mesmo...
Quando eu morava lá embaixo, principalmente em tempo de chuva, era
assim um barco mesmo... Meu Deus do Céu era muito sofrimento, era uma
briga entre eu e os ratos quem chegava na cama primeiro, meu cobertor
praticamente era muriçoca, era um sofrimento só, eu sofri muito.
A palavra barracão que agora trazia uma nova conotação, encontrando-se
intimamente associada à fiscalização, não conseguia se desprender, para moradores
como Antonio e Dona Zezé, de sua antiga teia polissêmica. Foi por esse motivo que a
67
ideia do barracão, segundo Seu Zeuzito, “não vingou”. O descontentamento daqueles
que aderiram à proposta do barracão, vencida em votação feita pelos moradores que
vieram à Associação no mês de novembro, ganhou eco em uma das falas de efeito de
Seu Pedro, que finalizou seu discurso assim: “Vocês não acha que é muita falta de
preparo psicológico uma pessoa que morou num barraco, subindo feito morcego, não
poder morar num barracão 6, 9 meses? Gente que morou em barraco de tábua...”.
Logo depois de enunciada, a pergunta de Seu Pedro foi seguida de uma nova indagação,
agora pronunciada por Vinícius, o mais jovem dos diretores da Associação: “Se você
for morar em Paripe ou Periperi, como é que vocês vão fiscalizar? Vai ter que aceitar o
que vier...”.
Fachada da Associação de Moradores Santa Rosa de Lima
Tanto os moradores que defendiam a ideia do barracão quanto os técnicos da
própria CONDER, depois que lançaram esta proposta, pareciam perceber o peso que a
expressão barracão tinha para grande parte dos moradores daquelas áreas. Foram
inúmeras às vezes em que o termo era corrigido, sobretudo nas reuniões da Associação
de Moradores e do Grupo de Apoio (GA)
30
30
. Logo passou a ser quase automática a
O Grupo de Apoio (GA) é uma comissão formada por moradores de Paraíso Azul e Recanto, tirada em
reunião. Todos os moradores que manifestaram seu desejo de participar tornaram-se membros desta
comissão, que se reunia aos sábados na Associação de Moradores, incialmente foram cadastradas no GA
68
substituição da palavra barracão por “casas individuais de madeira” ou “casas
provisórias”. Um dos exemplos mais paradigmáticos desta correção aconteceu no dia 06
de janeiro de 2009 em um encontro do GA. A tônica em pauta era o atraso das obras, e
para aqueles moradores que estavam ali reunidos o principal motivo deste atraso era a
dificuldade de encontrar casas de aluguel na região. Alguns moradores diziam que a
culpa era da CONDER outros falavam que era falta de compreensão dos proprietários
das casas de aluguel, o fato é que no final, esta discussão foi desembocar na ideia do
barracão. Foi aí então, que Seu Zeuzito concluiu: “Pensando nessa demora, nesse
atraso da CONDER houve o projeto das casas de madeirit, do barracão (...) Como é o
nome mesmo? Tem outro nome é (...) Casas provisórias, casas individuais de madeira.”
Esta mudança rendeu minha atenção e comecei a seguir de perto seus encadeamentos,
passei então a me perguntar por que se fazia tão necessária essa troca.
Em uma das quartas-feiras em que estive na reunião, Vinícius, me contou que:
“Quando fala barracão a gente se assusta, lembra do barraco de tábua, daquelas
condições, é por isso que tem que falar em casas individuais, soa melhor para quem
ouve”. Barraco aqui não era uma ideia abstrata, estava ligada a uma experiência
sensível, ao encontro daquelas pessoas com coisas e lugares, com um tipo de moradia. E
neste encontro revestido de cores, cheiros, gestos, sons e emoções os atores estavam no
movimento de compreensão, de interpretação da vida, eram tocados por múltiplos
apelos, por um certo estilo que as coisas e os lugares propõem.
Sobre este ponto, que quero fazer ganhar relevo, da compreensão enquanto uma
experiência sensível, Merleau-Ponty (1994) vai nos dizer que compreendemos uma
coisa, “como compreendemos um comportamento novo, quer dizer, não por uma
operação intelectual de subsunção, mas retomando por nossa conta o modo de
existência que os signos observáveis esboçam diante de nós”. Compreender é
reconhecer corporalmente, é ser afetado. A compreensão é então uma experiência
55 pessoas. No decorrer do caminhar das obras o número de membros foi sendo reduzido e teve
momentos em que o Grupo de Apoio contava com apenas 7 membros efetivos. O objetivo do GA é
discutir questões referentes às obras de requalificação e planejar ações que venham a contribuir neste
processo.
69
sensível. Nesta premissa sensibilidade e entendimento não são camadas sobrepostas e
distintas da experiência. A significação não se desconecta do sensível, ou seja, a
experiência significativa não é independente do seu sentido carnal. Esta experiência
compreensiva não articulada reflexivamente é possível porque, como lembra Heidegger
(1988), antes que as coisas se tornem objeto da reflexão, o ator já compreende, pois está
sempre na compreensão, se movendo neste campo, que se configura em um senso de
contexto que orienta seu engajamento prático.
Apesar da proposta do barracão não ter encontrado fôlego para ir adiante, a
prática da fiscalização achou em Paraíso Azul e Recanto Feliz um terreno fértil. Mas, o
que esta prática mobilizava? E como era desenhada neste contexto? Vamos prosseguir
então com este ponto. Quem fosse a uma das reuniões do Grupo de Apoio ou da
Associação de Moradores logo percebia que fiscalizar, a priori, era estar atento e
sensível ao andamento das obras de requalificação. As atividades que alimentavam esta
prática eram extensas: iam desde observar o uso e a qualidade do material de
construção, a execução do trabalho dos mestres de obra, seus auxiliares e da própria
empreiteira OPF, até conferir, quando fosse o momento, se a metragem das portas das
unidades habitacionais era compatível com o tamanho de alguns móveis que iam
compor a nova casa.
Uma das primeiras frentes de obra da segunda etapa.
70
Fiscalizar, como afirmava Vinícius, em uma de nossas longas conversas,
funcionava como uma espécie de prevenção, uma tentativa de escapar dos erros
cometidos na primeira etapa. Enquanto estive no campo não faltaram exemplos narrados
pelos moradores para reforçar este enredo. Eram portas do fundo dos vilages de 60 cm,
cujo tamanho não permitia a passagem de uma geladeira, desperdício de material e
acabamentos mal feitos. Uma vez em que estive no apartamento de Antônio perguntei
se ele ainda se lembrava do primeiro dia que começou a morar ali. A narrativa de
Antonio da sua chegada ao apartamento é mais um exemplo, que alimentava os motores
do moinho da fofoca sobre os erros cometidos na primeira etapa:
(...) Me lembro bem desse dia... até mesmo porque sai do barquinho pra o
apartamento, apesar que não tava arrumado (...) A gente logo quando
chegou aqui no apartamento não tinha condições de arrumar entrou do jeito
que tava é... só na laje mesmo ... tinha parede que não tava pronta ainda... ou
melhor não tava ...rebocada ainda, aí a gente entrou aqui no apartamento do
jeito que tava, até mesmo para sair do aluguel e pra sair do local que a gente
tava.
Outra frente de obra da segunda etapa.
71
Todo este histórico parecia mover o discurso de que todas as pessoas de Paraíso
Azul e Recanto Feliz precisavam fiscalizar, cada um deveria se sentir responsável pelas
obras e principalmente pelo produto final delas. O que se ouvia nas rodas de conversas
entre vizinhos, nos encontros casuais nas quitandas, nas ruas, na Associação durante as
reunião de quarta-feira, ou nas discussões do GA, era que todos os moradores estavam
habilitados para fiscalizar, pois, como repetia Vinícius, ali a maioria das pessoas
entendia de construção, “porque nós aqui da comunidade já levantamos nossos barraco
uma vez, sem a ajuda de engenheiro ou arquiteto, era só vizinho junto com vizinho,
todo mundo aqui, tem experiência, entende dessas coisa de obra e não vai deixar
passar nada”. Esta fala de Vinícius, funciona como um esboço da noção de hábito,
entendida aqui nos termos de Merleau-Ponty não como uma operação intelectual ou que
envolve um certo automatismo, mas como um saber encarnado, que está no corpo, já
que neste domínio é “o corpo que “compreende”” (2006, p.200).
Pensar o hábito nesta perspectiva nos leva a reorganizar tanto a noção de corpo
como a de compreensão, porque o corpo que está expresso neste modelo não é um corpo
objeto, mas aparece como fundamento de nossa experiência no mundo, muito menos a
compreensão seria um processo de conversão de um dado de sentido a uma ideia que
articulamos, como já nos lembrava também Heidegger31 ao discorrer sobre a
compreensão (1997), o que assinala um ponto de convergência entre as suas premissas e
a de Merleau-Ponty.
O ator compreende o mundo com o corpo, responde as suas solicitações, aos
seus apelos porque é corpo. Há aqui uma re-descrição da experiência humana, a partir
da corporeidade, dimensão encarnada das práticas, da cultura, da história. O hábito não
estaria no corpo objeto ou no pensamento, mas no corpo como mediador do mundo,
como uma forma de ter o mundo. Então para Merleau-Ponty quando nos habituamos a
algo o incorporamos ao nosso ser, ou seja, ele passa a fazer parte da nossa existência.
Isso significa que o hábito “exprime o poder que temos de dilatar nosso ser no mundo
31
Heidegger ao discutir o conceito de compreensão vai assinalar que haveria uma espécie de primazia do
engajamento prático no mundo, pois compreendemos sem precisar articular, sem recorrer a uma operação
intelectual.
72
ou de mudar de existência anexando a nós novos instrumentos” (Merleau-Ponty, 2006
p.199).
Além deste saber-fazer, deste senso de familiaridade, apontados por Vinícius e
Seu Zeuzito que aproximava os moradores das técnicas de construção, a prática da
fiscalização tinha também um outro pilar: a noção de direito. Direito às unidades
habitacionais, ao terreno. Se observássemos a forma como o projeto de requalificação
era vivido no dia-a-dia era possível perceber como a partir dele eram construídas
relações e estabelecidos sistemas de direito e práticas que escapam às fórmulas previstas
pelo próprio Estado. Fiscalizar, por exemplo, não era um critério para o recebimento das
unidades habitacionais, mas em espaços como a Associação de Moradores ou o GA, ir
para as reuniões ou se engajar em práticas como a fiscalização parecia render uma maior
legitimidade para o morador e respaldar um certo sentimento de direito. A resposta de
Vinícius à pergunta de Dona Carmita, 53 anos, dona de um pequeno comércio
doméstico, em uma das reuniões de quarta-feira funcionará aqui como uma apropriada
fonte de descrição desta questão que quero agora trazer à baila. A conversa destes dois
moradores seguiu assim:
- Dona Carmita: E quando começar a obra e o povo de lá da empresa
(empreiteira) perguntar o que a gente tá fazendo ali? Nós fala o quê, pra esse
povo hein?
- Vinícius: A senhora fala que tudo ali é nosso, que vai ser a nossa casa e a
gente não vai deixar passar erro, vai contar bloco por bloco se precisar, eles
estão trabalhando para nós... Somos nós que tamos pagando, o salário deles
é pago com o dinheiro da obra. Eles são nossos funcionários. Quando eles
perguntar o que a senhora tá fazendo ali, fala que a senhora tá no seu direito,
que a senhora é da comunidade. Olha como fica bonito dizer isso! Quem tá
fiscalizando, tá fazendo a sua parte, tá participando. Nós agora somos os
fiscais. Fiscalizar é tudo, vamos viver em cima dessa tecla.
A ideia de direito agia como uma espécie de liga entre os moradores e o projeto
coletivo de permanência, da luta por moradia. Um certo tipo de solidariedade ia sendo
então forjado. O objeto da fiscalização ganhava nitidez, parecia ser não apenas o vilage,
73
o apartamento ou a casa reformada do próprio morador, pois como lembrava seu
Zeuzito:
O que adianta a minha casa tá bonita, a sua, e a do vizinho, ou das outras
pessoas daqui da comunidade não estar? Não valoriza o nosso endereço. Eu
não vou fazer para mim, nem você só para você, agora que nós vamos ficar
no terreno, ser donos desta área, vamos querer tudo direitinho, para
valorizar ainda mais nossa conquista, é por isso que a comunidade, nós aqui,
temos que ficar de oh, de olho, fiscalizando (...)
Moradores, como Seu Zeuzito, qualificavam suas demandas a partir desta ideia
de bem comum, de direito. Mobilizando competências diversas para se ajustar à
situação, engajavam-se em performances na tentativa de negociar e expor um tipo de
justificativa que parecesse conveniente para que a prática da fiscalização ganhasse mais
adeptos. Este cenário de disputa e controvérsias, em que os atores se qualificavam para
a avaliação reportando-se a engajamentos diferentes, na tentativa de se legitimar, me fez
lembrar a teoria de Thévenot cujo objetivo é “poder seguir as mudanças profundas dos
engajamentos dos seres humanos no mundo” (2006, apud Mota, p.228). Seguir para ver
que tipos de justificativas aparecem, quais repertórios morais são mobilizados e como se
processa a atribuição de valor, para saber por que determinadas ações ou coisas são
consideradas em certas situações mais legitimas do que outras.
A relação entre moral e prática parece funcionar como eixo norteador deste
modelo, uma vez que para Thévenot e Boltanski (1999) seria a moral o processo
avaliativo que governa o engajamento prático dos atores sociais no mundo. As
justificativas, as críticas e as denúncias e o modo como elas são performadas pelos
atores passam a ser então, tomadas como objetos de estudo. Este interesse pela
competência crítica dos atores sociais, por esse domínio moral, se sustenta na premissa
de que os indivíduos não são meros agentes resultantes de violências simbólicas
constantes.
Como na perspectiva de Garfinkel, a tentativa aqui deste modelo é de reabilitar
o ator social, de atentar para o seu raciocínio prático nas situações mundanas de ação,
ou seja, admite-se então, que os atores não tem o “juízo dopado” (Garfinkel apud
74
Heritage, 1999, p. 328). A ideia de um agente iludido, “encantado” pela lógica dos
jogos sociais que lhe escaparia, contornado pela illusio, que em certa medida sustenta a
estrutura de posições do campo e uma espécie de reprodução, como aparece na
sociologia crítica de Bourdieu (1996; 2001), cede lugar para defesa de um ator com
competências reflexivas neste modelo proposto por Thévenot e Boltanski (1999). Uma
vez explicitadas as nuances do movimento analítico do fenômeno em questão, é hora de
voltar aos contornos do campo e as facetas da fiscalização, vamos prosseguir então com
este ponto.
Ao mesmo tempo em que fiscalizar parecia em certa medida fortalecer os laços sociais
em torno do projeto coletivo de permanência, existia também nesta prática um ponto de
contradição. Fiscalizar, como pude perceber mais tarde, não se restringia apenas a
observar e tentar controlar o caminhar das obras. Ser fiscal significava também estar
atento e sensível ao outro, ao outro da comunidade. É em torno desta outra face da
fiscalização que será versada a seção a seguir.
1.1 A silhueta da vigilância: Fiscalizando o próximo
As mudanças nas casas no estágio de congelamento.
75
Quando as obras da primeira etapa foram concluídas, e até o período em que
esteve em vigor a negociação da segunda etapa de requalificação, a CONDER decretou
que Paraíso Azul e Recanto Feliz permanecessem em uma espécie de estágio de
congelamento. Neste estágio não deveriam ser construídos novos barracos, ou iniciada
reforma nas casas, exceto casos de ameaça à sua fundação, tais como rachaduras e
destelhamentos causados pelas chuvas. Todavia, a orientação da Companhia é que
mesmo estas modificações deveriam ser notificadas.
No período em que a CONDER retornou a estas áreas, após a aprovação do
projeto da segunda etapa, a cena de Paraíso Azul e Recanto Feliz havia ganhado novos
personagens e um outro cenário, adaptado às demandas que passaram a emergir como
figura. O número de barracos se multiplicou, pessoas chegavam de outros bairros de
Salvador na esperança de também poderem receber os vilages e os apartamentos,
atraídas pela proposta da segunda etapa, enquanto outras saíam, na medida em que
vendiam ou alugavam seus imóveis. As pequenas casas, neste intervalo de tempo,
ampliaram-se, para cima, para trás. Lajes e puxadinhos acompanhavam o movimento da
vida, o casamentos dos filhos, a chegada dos netos e o decalque acentuado de novos
projetos. Este ritmo que embalava o cotidiano destas duas porções da cidade de
Salvador seguia, por vezes, na direção contrária do planejamento da CONDER. A
chegada do engenheiro da obra acentuou este descompasso e movimentou mais uma vez
o circuito da fofoca:
O engenheiro quando visitou a área se assustou, porque continuam fazendo
barraco a cada dia, ele se assustou com o crescimento da área e a obra vai
demorar ainda mais por causa disso...Quando for tirar vai ser um Deus nos
acuda, vem logo a comoção social, diz logo que é pai de família. Mas, vai
fazer o quê? A obra não pode parar, por isso é que a gente tem que
fiscalizar, quem tem terreno tem que ficar de olho e não deixar nem
vizinho, nem ninguém construir. Se tiver alguém construindo do lado
da casa de vocês e prejudicar o projeto, vocês não deixam (grifo meu). É
fácil para uma empreiteira pegar um terreno vazio e construí vários prédios,
mas trabalhar em uma área ocupada é difícil, ainda mais uma ocupação
76
igual a essa aqui. Eles perdem dinheiro, eles não se interessam em pegar
uma obra que fica rolando assim não.
A narrativa acima feita em uma das reuniões de quarta-feira por Sandra,
estudante e diretora da Associação de Moradores, sinalizava que fiscalizar funcionava
como uma espécie de garantia de que a obra não sairia dos trilhos. Todavia, para além
desta questão, a fala de Sandra trazia um diferencial, ela apontava para um outro modo
de fiscalizar: de morador para morador, de vizinho para vizinho, como um palco onde
todos estavam à vista, encenando seu drama e qualquer um que se envolvesse nesta
trama ia ter que se justificar e lidar com a denúncia do outro.
Era um cenário de disputa, onde se podia perceber os “momentos críticos”,
momentos marcados pelo tom da controvérsia. Durante o estágio de congelamento,
vieram à tona muitos casos de pessoas que compraram lajes na região ou adquiriram
casas, mas não receberam de seus antigos proprietários o cadastro32, histórias de
moradores que faziam os cômodos de sua casa parecerem diferentes moradias com o
intuito de receberem mais de uma unidade habitacional para poderem garantir o futuro
da família, casos de gente que havia vendido seu apartamento ou seu vilage e comprado
uma casa na região que estava prevista para receber a requalificação ou que havia
construído seu barraco nestas imediações. A fiscalização era uma via possível para ter
acesso a estes casos e também para trazer à tona as justificativas de cada um destes
moradores em espaços como a Associação e o GA. Estes mesmos moradores que
protagonizavam estas histórias, por sua vez se engajavam nesta disputa na tentativa de
legitimar a sua questão e de pleitear o direito às unidades habitacionais. As histórias
eram apreciadas uma a uma, e a diferença no modo como eram recebidas acenavam
para uma outra diferença, referente à maneira como cada projeto de vida era avaliado. O
final de cada uma destas situações de exposição era quase sempre incerto, dependia não
apenas dos argumentos, mas da sensibilidade que se despertava, da postura, da emoção,
da entonação empregada, da história que cada um tinha construído durante a vida nestas
duas áreas.
32
Ver explicação sobre o cadastro na introdução.
77
Esta cena controversa que se esboçava em Paraíso Azul e Recanto Feliz
guardava uma certa familiaridade com muitas outras que permeiam o cotidiano dos
atores sociais e que ultrapassam o domínio da habitação. A narrativa de Reis (2008)
sobre uma situação de disputa entre dois meninos dispostos a “dar um calote” e um
cobrador em um ônibus de São Paulo, ilustra bem esta presença dos momentos críticos
na vida ordinária. Neste exemplo do ônibus, os atores se envolviam em uma negociação
para fazer valer suas demandas. Os meninos de um lado precisam ter um bom papo e
uma performance convincente para expor uma razão que parecesse legítima, tentando
antecipar a conduta do cobrador. Por outro lado, o cobrador também faria suas
avaliações e exporia suas justificativas. Aqui as avaliações momentâneas, as expertises,
as competências, os gestos e os usos do corpo compunham a performance, que tinha
como objetivo legitimar a ação. Mais uma vez a questão proposta por Thévenot e
Boltanski (1999), sobre a competência crítica dos atores ganha vida e sentido nas tramas
sociais. Esboçados os contornos e os desdobramentos deste itinerário analítico sobre as
situações de disputa e de negociação da realidade, voltemos então à outra face da
fiscalização, aquela que ocorria entre moradores.
O atento olhar disciplinador, que fiscalizava as práticas e avaliava os projetos
que eram pronunciados nas conversas, se pulverizava. Os protagonistas da regulação
não eram apenas os técnicos do Estado, pois haviam agora outros olhos treinados para
identificar o que saía do controle: os moradores, que trabalhavam pela disciplina. Das
lajes, das janelas, pelos transeuntes que passavam pelas ruas e becos de Paraíso Azul e
Recanto Feliz, a vigilância anônima era exercida. Sabia-se quem construía novos
barracos, quem ampliava ou reformava suas moradias, se os moradores que foram
contratados para trabalhar nas obras estavam cumprindo as suas atividades. Em relação
a esta última questão, por exemplo, Seu Valdo, 45 anos, um dos membros do GA, que
reside em Paraíso Azul desde 1982, comentou em uma das reuniões de quarta-feira a
sua versão:
Das pessoas que estão trabalhando na obra eu quero falar um negócio aqui...
Os funcionários da obra tá trabalhano de manhã e de tarde não. Eles tão
trabalhano tudo chapado, trabalhano tudo bêbedo... É... Na hora do almoço
eles bebem e depois volta pro trabalho... Se não tiver nosso apoio vai ser
78
uma obra ruim e olhe que, trabalhano mesmo na obra tem muita gente aqui
da comunidade (...).
A laje, uma modalidade de ampliação e um dos alvos da fiscalização.
Assim como o exemplo citado acima havia sempre um episódio para alimentar o
moinho das fofocas. Era difícil saber onde o enredo começava, quem havia presenciado
a cena, o fato é que os mexericos, na maioria das vezes, desembocavam no mesmo
lugar: nas reuniões da Associação de Moradores ou do GA. Os alvos da fiscalização
eram nítidos: aquilo que fugia ao controle, ao conjunto de regras formais e informais
que definiam os contornos das práticas naquela região. Embora, por vezes, não se
soubesse exatamente quem os observava atentamente, se era visto sem ver. Este efeito
induzia no morador observado a sensação de uma permanente visibilidade, o saber-se
vigiado automatizava o poder.
A princípio, todos os moradores poderiam e eram incitados a fiscalizar. Era
difícil então, perceber quem exercia o controle e quando, o fato é que sempre poderia
sê-lo, já que a vigilância era inverificável. O poder se desinvidualizava e guardava uma
dimensão positiva, tal qual argumentava Foucault (1995), já que o objetivo não seria
impedir o indivíduo de agir, pois a ação parece se configurar em uma condição sine qua
non para este processo, mas conduzir os cursos desta ação. A relação de poder não é a
princípio uma relação que se dá entre indivíduos, em que um age diretamente sobre o
79
outro, mas de ações sobre ações. A tentativa é demarcar o campo de possibilidades de
ação do outro, que é apresentado como um sujeito ativo. Então o poder é
um conjunto de ações sobre ações possíveis; ele opera sobre o campo de
possibilidade onde se inscreve o comportamento dos sujeitos ativos; ele
incita, induz, desvia, facilita ou torna mais difícil, amplia ou limita, torna
mais ou menos provável; no limite ele coage absolutamente, mas é sempre
uma maneira de agir sobre um ou vários sujeitos ativos, e o quanto eles agem
ou são suscetíveis de agir (Foucault, 1995, p. 243).
Nesta analítica que passa a gravitar, o poder para Foucault, mais precisamente
nas suas análises em “Microfísica do poder” (1992) aparece não como uma força
destrutiva que recalca e reprime, é seu lado positivo, produtivo e estratégico que é
assinalado como um modo mais sutil de seu exercício. O reconhecimento desta faceta
propõe necessariamente um repensar das suas especificidades e do seu delineamento e
sinaliza ainda que o poder não se resume a lógica da repressão, da coerção. A força do
poder, como assinala Foucault (1992) estaria na produção de efeitos positivos no nível
do desejo bem como no nível do saber, pois o olhar de vigilância gera também
conhecimento.
Poderia dizer, apressadamente, que Paraíso Azul e Recanto Feliz viraram um
grande panóptico, pela presença de um olhar alerta a toda parte, mas ao contrário da
prática panóptica, discutido por Foucault, o tipo de poder que se exercia aqui não era
apenas inverificável, mas também verificável. O princípio é invertido, ou antes, o
primeiro elemento dá lugar ao seu par oposto. O panóptico como nos acena Foucault “é
uma máquina de dissociar o par ver-ser visto” (1999, p. 225). Essa dissoação garante o
seu principal efeito: a automatização e a desinvidualização do poder. A sujeição se dá a
partir de uma relação fictícia, como explana Foucault (1999), em que não é possível
verificar a vigilância, ou quem exatamente a executa, mas sabe-se que ela está lá,
latente, na sua onipresença. Entretanto, nestas duas porções da cidade de Salvador nem
sempre ignorava-se quem exercia a vigilância, por vezes ela era anunciada, nomeada,
feita face a face, por isso verificável. A luta não era sempre travada contra um inimigo à
distância, por vezes se situava no campo da proximidade.
As visitas dos membros do GA às casas ilustram este modelo de vigilância
verificável. A visita funcionava como uma espécie de levantamento das áreas, as casas
eram medidas por fora, pela lateral, perguntava-se também o número e o nome que
80
constava no cadastro, assim era possível saber se o cadastro havia sido vendido e
quantos dele cada família possuía. Os membros do GA quando narravam nas reuniões
suas visitas insistiam em sinalizar que toda a avaliação dos imóveis era feita desde a
entrada da casa. Recusavam-se a entrar nas casas das pessoas porque esta conduta
parecia dar um tom mais íntimo à visita. A casa era reduzida aos seus dados mais
técnicos. O objetivo que fundamentava esta prática do GA e outas atividades que
vinham compor o fenômeno da fiscalização era, segundo Vinícius:
Conseguir acelerar as obras, a CONDER vem com o projeto, constrói as
unidades, mas não fiscaliza, aí é a nossa vez, a gente fiscaliza... A gente faz
o trabalho da CONDER... Porque são as nossas casas, né? Mas a gente não
fiscaliza só a obra, a gente fiscaliza tudo... A obra, a OPF, a CONDER, o
negócio é ficar de olho, senão a coisa não anda e não sai do jeito que a gente
quer.
A relação que se esboçava na cena de Paraíso Azul e Recanto Feliz, entre a
prática dos moradores que se engajam na fiscalização e a CONDER, se configura em
uma apropriada fonte de descrição da porosidade e da mobilidade da fronteira entre
Estado e sociedade civil. Em seu artigo sobre a discussão em torno das abordagens do
Estado, Mitchell (1991) argumenta que este último não deve ser tratado como um ator
político autônomo, dotado de uma coerência e definido anteriormente como um aparato
separado e independente da sociedade. Nem deve ser tomado como uma abstração em
relação à concretude do resto do mundo social.
Ao invés de naturalizar a distinção entre Estado e sociedade civil, Mitchell
(1991) argumenta, através de um instrumental foucaultiano, que faz-se mister entender
os mecanismos de poder que produzem esta fronteira, resultado de práticas sociais que
se desenrolam no tempo e no espaço, compondo processos históricos. É essa dimensão
do cotidiano, dos processos sociais mundanos que Mitchell quer recuperar na sua
analítica. Vale aqui então reter a conclusão do autor de pensar o Estado através das
práticas e não como uma entidade subjetiva dotada de intenções. Assim como Mitchell
(1991), Julieta Quirós (2009) em sua investigação sobre o fenômeno piqueteiro em
81
Florencio Varela, município sul de Buenos Aires sinaliza uma desconfiança em relação
a uma oposição rígida entre Estado e sociedade.
Em seu trabalho etnográfico Quirós (2009) identifica não apenas o poder de
cooptação das políticas estatais em relação aos movimentos sociais e aos demais
destinatários destas políticas, mas também o seu poder de criação, no que diz respeito à
gestação da mobilização e do engajamento político, assim como a criação de um sistema
de critérios, direitos e valores sui generis que assumem um caráter “político”. Um
exemplo disso seriam as diferentes maneiras de distribuir os benefícios, que apontam
para uma distinta forma de “merecer e fazer merecer- a luta, a necessidade, o favor — e
são, ademais, sistemas diferenciados de obrigações e direitos entre os que, conforme a
ocasião, recebem e dão” (Quirós, 2009, p.141).
Este conjunto de critérios e valores que são decalcados, apropriados,
resignificados nas experiências que se desenrolam no contexto de uma política pública
funcionam como pontos cardeais que movimentam o cotidiano dos atores que compõem
à cena. A relação entre Estado e sociedade aqui é porosa, uma série de práticas, de
códigos e de relações, que vem conformar um horizonte de possibilidades, como mostra
Quirós (2009), são gestados a partir de uma política estatal, que não aparece como algo
acabado, ela se faz e se refaz no movimento da vida, no campo das experiências.
Mas – Voltando a Paraíso Azul e Recanto Feliz e aos contornos da fiscalização –
não apenas os aspectos relacionados à moradia eram observados e viravam alvo da
fiscalização, a conduta dos moradores também se configura em objeto de atenção.
Fiscaliza-se quem participava das reuniões da Associação de Moradores e do GA,
identifica-se os moradores mais assíduos e no final todas estas informações, todo este
conhecimento que se produzia sobre o outro funcionavam como uma espécie de critério
para definir aqueles que seriam considerados os mais merecedores e os menos
merecedores do recebimento das novas unidades habitacionais. Este tipo de julgamento
ganha vida na fala de Seu Zeuzito, que durantes as reuniões de quarta-feira costumava
lembrar que:
Quem tá o tempo todo aqui na Associação lutando não merece mais não?
Quem ficou até agora com a sua moradia do mesmo jeito sem mexer porque
82
respeitou que a área está congelada (...). Tem pessoas que tem anos que não
participa nem das reuniões nem agora do Grupo de Apoio. A obrigação de
cada morador é participar, quem não tem tempo para resolver os problemas,
que não quer largar a novela, quer ter direito a casa? Não quero mais
chororó, ou a comunidade participa ou as pessoas que estão vão decidir.
Vocês que estão aqui estão fazendo pelos que estão vendo a novela em casa
e pela aqueles que ficam só pelas portas. Tá chegando a hora de partir o
bolo e como é que vai comer se não tá aqui, tem que participar, tá na hora da
comunidade acordar.
A fabricação de regras “formais”, que chegavam com o estágio de congelamento
e a informação de um novo sistema de práticas a ser adotado pelos moradores, e de
regras “informais”, estas por sua vez forjadas pelos próprios habitantes da área, que
assumiam o papel de empreendedores morais, conformavam um interessante cenário de
possibilidades de negociação e disputa entre os atores sociais, que ao criarem certas
regras criam também outsiders. Nestas duas porções da cidade de Salvador a
heterogenia e difusa categoria dos outsiders agregava tanto aqueles que burlavam o
estágio de congelamento e os novos moradores que construíam seus barracos na região
quanto aqueles que não participavam das reuniões da Associação de Moradores e do
GA. Para colocar a questão nos termos de Elias (2000) os estabelecidos, expressão que
no contexto de Paraíso Azul e Recanto Feliz era sinônimo de merecedores, eram aqueles
moradores que seguiam as regras formais e informais, as quais marcavam os contornos
que a ordem adquiria nestas áreas.
A esta altura, já é possível dizer que a prática da fiscalização não gozava de uma
unanimidade entre os moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz. No tempo em que
estive no campo pude perceber que havia os discursos que vinham na contramão desta
prática: aqueles que assinalavam o risco de fiscalizar. Este ponto será o eixo norteador
da seção a seguir.
83
1.2 Na contramão da fiscalização
Estávamos no segundo sábado do mês de outubro, dia escolhido para mais um
encontro do Grupo de Apoio no prédio da Associação. Antes do início da reunião um
certo clima de euforia ia sendo desenhado, os comentários brotavam de toda parte e,
deixavam escapar o movimento de preparação das pessoas para a chegada das obras e,
sobretudo, da CONDER. Enquanto Vinícius, um dos diretores da Associação e também
membro do GA não abria a reunião, entre uma conversa e outra ouvia-se frases como
estas: “Vocês acha que ele deve receber a casa?” ou “E quando a CONDER chegar
vamos dizer o que desse caso aí?”. Era em torno destas indagações que a vida ordinária
nestas duas áreas passou a se organizar durante o caminhar das obras.
A preocupação de grande parte dos moradores agora não era mais aquela que
marcou o estágio de congelamento: Quando o projeto sairia do papel? Porque as obras
já davam “sinais de vida” com a chegada dos caminhões com os materiais, que já
começavam a passar pelas ruas de Paraíso Azul e Recanto Feliz e também com o
recrutamento de moradores que tinham experiência no campo da construção civil para
trabalhar nos canteiros que iam sendo formados.
O tempo de espera33 parecia ter ficado para trás, e a pergunta que fazia eco neste
momento era: Como esta obra chegaria? E talvez o ponto que estivesse nela embutido
fosse: Para quem ela chegaria? Uma das respostas encontradas por alguns moradores
destas duas porções da cidade de Salvador para tais questões práticas era a fiscalização,
cujas nuances venho apresentando ao longo deste capítulo. Porém, nem sempre esta
resposta era bem acolhida entre os habitantes destas áreas. Volto então para a cena do
encontro do GA com que iniciei esta seção para circunscrever de modo mais
aprofundado o que venho a chamar de discursos divergentes em relação à prática
fiscalização.
O início do encontro foi marcado pela seguinte frase de Vinícius: “a
comunidade precisa se preparar para receber as obras e a equipe da CONDER, vamos
33
Uma discussão mais aprofundada sobre o tempo de espera aparece no Capítulo III “Em construção:
experiências de tempo-espaço em áreas de intervenção”
84
começar a criar situações para quando a CONDER chegar a gente ter o que falar,
vamos mostrar como nós estamos organizados e como nos estamos querendo...”, foi a
partir deste eixo que a reunião foi conduzida. Ao contrário do que previa Vinícius, as
situações não precisaram ser criadas, a cada momento uma nova história roubava a
cena, por vezes, várias delas se misturavam e eram contadas a um só tempo. Tinha
episódio de morador que, como narrava Dona Carmita “não ia aceitar derrubar o seu
castelo, uma casa de dois, três andar, para ganhar um apartamento ou um vilage só, a
pessoa não vai aceitar perder”; Já Dona Marilda trouxe o caso de moradores como Seu
Valdo, que chegou a receber um apartamento na primeira etapa, mas preferiu por conta
da vizinhança, que ele não pode escolher e do seu desejo de morar em casa que pudesse
ampliar e ter um quintal, voltar para seu barraco de madeirit e esperar por um vilage que
só viria na segunda etapa do projeto.
Outro caso narrado por Dona Marilda foi o de uma pessoa que tinha uma casa
alugada na região, mas que não residia há muito tempo ali em Paraíso Azul. Ao
terminar a história logo surgiu a pergunta: “Vocês que são morador e grupo de apoio
acha que esta pessoa aí tem direito?” Esta questão invariavelmente aparecia ao final da
enunciação de cada caso. Logo que estas interrogações eram lançadas os membros do
GA se esforçavam em dar conta da situação, de trazer uma posição. Quanto a última
história do homem que tinha casa de aluguel, mas que já havia deixado Paraíso Azul
fazia tempo, as respostas à pergunta se ele tinha direito de receber as unidades foram as
seguintes: “Depende da situação dele quando saiu daqui, se ele deixou porque tem uma
mansão em outro lugar, aí não”; Se ele aluga como meio de ganhar a vida, de dar
sustento a sua família então ele tem”. A noção de direito estava intimamente associada
a de projeto, já que a avaliação se dava a partir deste último. Era o conteúdo do projeto
o eixo para a definição do direito, da legitimidade. Depois que as primeiras respostas
foram dados, um posicionamento seguinte fugiu a regra e foi um divisor de águas neste
encontro. Refiro-me aqui ao pronunciamento de Dona Celeste, antiga moradora de
Paraíso Azul:
Nossa obrigação não é dizer quem tem direito ou quem não tem... Porque eu
não vou arriscar minha vida, nem a vida de minha família não, eu não vou
ficar entrando na casa de ninguém, nem fiscalizando quem tá fazendo isso
85
ou aquilo (...). A gente sabe que aqui na comunidade tem gente envolvida
nessas coisa errada, gente que tá no tráfico e não sou eu quem vai dizer
quem vai ter direito ao quê.”
Assim como o termo barraco, que foi alvo da nossa discussão anteriormente, a
expressão risco não era também uma ideia abstrata, uma vez que estava ligada à
experiência destes moradores com certos acontecimentos que vinham ganhando
intensidade durante o período do caminhar das obras. Entre os meses de outubro e
novembro uma onda de disputas relacionadas ao tráfico tingiu com fortes cores o
cotidiano de Paraíso Azul e Recanto Feliz. Havia sempre várias versões sobre o caso,
mas a questão podia ser resumida da seguinte forma: existia uma disputa pelo ponto de
tráfico. Para alguns moradores esta peleia era protagonizada por dois irmãos um que
morava na parte de cima da comunidade e outro que tem sua boca na parte de baixo.
Como disse uma vez Dona Rita, uma baiana de acarajé que tinha 25 anos na região, essa
briga entre irmãos “não é para surpreender não, porque a bíblia já dizia isso, é Caim e
Abel".
Como narrava Dona Rita a disputa, além de oferecer um risco para os moradores
de Paraíso Azul e Recanto, também comprometia sua mobilidade, já que “quem é de
cima não pode descer e quem é de baixo não pode subir". Os integrantes do tráfico de
cada boca estavam impedindo a passagem dos moradores que eram abordados; só
passava quem tinha permissão. Por isso, os moradores tinham que encontrar caminhos
alternativos para conseguir ir ao trabalho, para escola e etc., porque não podiam
atravessar as fronteiras. Moradores como Seu Valdo afirmavam que, este povo do
tráfico, como foi nomeado por ele as pessoas que participavam do tráfico, “eram
garotos”, meninos que carregou no colo, que viu crescer e conta ainda que, uma vez
quando foi barrado lhe disseram assim: “respeito muito você coroa, mas agora você não
pode descer”. Ao narrar este episódio Seu Valdo não conseguiu esconder a sua
expressão de tristeza e prosseguiu dizendo que achava um absurdo está agora "tendo
que obedecer a esses moleque".
86
Em uma das quartas-feiras do mês de novembro em que estive na Associação, a
baiana de acarajé, Dona Rita, quis falar sobre sua experiência em relação a estes
episódios da disputa:
Eu e minha filha a gente não pode parar de trabalhar porque a gente tem
dívida e precisa pagar, mas que no sábado quando deu 7 horas da noite eu
disse a minha filha vambora, arruma o tabuleiro aí, arruma tudo, dá os
acarajé que sobraram aí na rua e vamo pra casa, quem vai arriscar a vida?
(...) Você tá vendo, tá tudo fechado, as casas com as portas e as janelas tudo
trancada e os comércio fechado mais cedo?
Enquanto conversávamos, eu e Dona Rita, uma moradora ainda muito jovem
nos interrompeu e disse: “ali, olha ali, quer ver ali as casas estão tudo fechada? De
pronto Dona Rita lhe advertiu (em um tom mais baixo, quase um sussurro) : "Você é
maluca menina vai fazer o que ali, não tá vendo as coisas como estão aqui e você quer
ficar andano pra cima e pra baixo". O cenário de Paraíso Azul e Recanto Feliz parecia
ter agora uma nova dinâmica: ruas vazias, casas fechadas, algumas até com as luzes
apagadas e os moradores que geralmente ficavam sentados na entrada da Associação
esperando a reunião começar estavam todos no interior do prédio, mais calados, e de
vez em quando um vinha ver, pelo portão fechado, o carro da polícia subir e descer.
Esta mudança passou então a interferir sobremaneira no ritmo das atividades na
Associação.
A sala onde aconteciam as reuniões esvaziou-se, rompendo um certo movimento
que vinha ocorrendo após a notícia do começo da obra. As reuniões, por sua vez,
passaram a ser mais curtas, as discussões mais breves e menos acaloradas, os informes
que ocupavam uma boa parte do tempo quase nem compunham a pauta, chegava-se
logo às notícias sobre as obras. Esta disputa pela liderança do tráfico não apenas
modificou a vida dos moradores desta região, mas também ameaçou a minha
permanência no campo e logo o andamento da pesquisa, porque reuniões foram
desmarcadas, como aconteceu no dia 28 de outubro por conta de um episódio de
assassinato, e entrevistas foram canceladas. Uma outra face de Paraíso Azul e Recanto
Feliz era delineada e este esboço eu ainda não conhecia. Aqui mais uma vez me senti
87
afetada, por algo que também afetava aqueles moradores, e experimentava esta
experiência por minha própria conta. Não era só a angústia do outro que ouvia, mas a
minha angústia de permanecer, que se misturava ao meu desejo de permanecer. As
emoções eram quase sempre ambíguas para mim e para aquelas pessoas.
Embora a prática da fiscalização fosse ganhando o estatuto de projeto para uma
parte dos moradores destas duas áreas, como por exemplo, Seu Pedro, encontrava-se
agora empecilhos. Desejava-se fiscalizar, acredita-se que era preciso fiscalizar, via-se a
possibilidade de concretização deste projeto, porém compreendia-se que aquele não era
o momento mais propício para tal. Fiscalizar significava arriscar a vida e esta, para
muitos moradores, tinha um valor que parecia estar acima do projeto do vilage ou do
projeto do apartamento. A prática da fiscalização neste período passou a depender da
oscilação dos episódios relacionados ao tráfico. Quando a disputa se apaziguava a
fiscalização ganhava terreno, mas a qualquer sinal de uma nova disputa ela passava a
ser praticada muito timidamente.
Uma vez analisadas as questões que estão em jogo na prática da fiscalização, é
preciso retomar os pontos que compuseram este capítulo. A fiscalização aqui aparece
como uma das possibilidades de ação dos atores frente ao desenho de um projeto que
lhes é destinado. Uma possibilidade que não é homogênea e que ao mesmo tempo em
que fortalece os laços sociais também os afrouxa, já que a prática da fiscalização, por
vezes, aprece como um sinônimo de uma vigilância sobre o outro, o outro de Paraíso
Azul e Recanto. Quando se fiscaliza avalia-se os projetos dos atores e tenta-se conduzir
seus cursos de ação. Mas, no cotidiano destas duas porções da cidade de Salvador a
fiscalização tinha também os seus ruídos, as suas divergências, como por exemplo, a
noção de risco, que ganha sentido no tempo e no espaço, nas experiências dos
moradores.
Todavia, a fiscalização como já havia mencionado anteriormente é apenas uma
das respostas possíveis para a indagação central deste estudo: O que os atores fazem
com o que é para eles previsto no desenho institucional de um projeto de habitação
popular? Abre-se espaço então para trazer à cena um outro vetor neste horizonte de
possibilidades: A construção e reconstruções das noções de tempo e espaço. O capítulo
88
III “Em construção: experiências de tempo-espaço em áreas de intervenção” versará
sobre como estas noções são decalcadas em Paraíso Azul e Recanto Feliz com a
chegada da proposta da segunda etapa do projeto de intervenção. Seguiremos agora com
este ponto.
89
CAPÍTULO III
EM CONSTRUÇÃO: Experiências de tempo-espaço em áreas de intervenção
Caminhante, as tuas pegadas
São o caminho e nada mais;
Caminhante não há caminho,
O caminho faz-se ao andar.
Ao andar se faz o caminho (...). 34
(Antonio Machado)
Não houve tempo nenhum em que não fizésseis alguma coisa, pois fazíeis o
próprio tempo.
(Santo Agostinho. Confissões. p.278)
Era a terceira quarta-feira do mês de dezembro de 2009, dia da apresentação da
CONDER do projeto da segunda etapa. Uma das datas mais esperados para uma grande
parte dos moradores destas duas porções da cidade de Salvador. Era o dia de ver a
futura casa, saber como iam ficar as ruas e becos, vasos comunicantes onde circula a
vida, dia de mirar o que estava previsto para sair e o que haveria de permanecer, de
identificar o que seria construído em cada área e, sobretudo, onde estariam localizados
os conjuntos habitacionais e os vilages. Era o dia de ver o futuro, com ares de presente
no cotidiano daqueles moradores.
Ao contrário das outras quartas-feiras do ano, a reunião não estava marcada para
acontecer na Associação de Moradores, mas em uma escola que ficava na região. O
caminho entre a Associação de Moradores e a Escola Municipal Padre Confá parecia
curto, mas a ansiedade que atravessava todos aqueles que comigo se lançavam neste
percurso fazia com que ele se alongasse, se tornasse distante. Distância. Este é o sentido
que usamos para precisar os contornos de um caminho, para percebê-lo no tempo. Mais
do que uma medida, que a princípio, parece gozar de um certo teor de exatidão, a
distância também se relativiza, é sentida, no singular pelo caminhante, que a decalca
pelo seu engajamento corporal, pelas suas emoções. A distância depende então de quem
34
Versos retirados do poema Proverbios y cantares XXIX em Campos de Castilla, escrito pelo poeta
espanhol Antonio Machado.
90
a percebe, de quem a nomeia como tal. É sempre distância de alguma coisa ou para
alguém, o que garante uma intencionalidade nesta relação.
Intencionalidade que se combina com as possibilidades, já que um caminho
parece não ser percorrido do mesmo jeito, cada vez que o trilhamos uma possibilidade
se abre, o sentimos de um modo, um dia mais curto, outro um pouco mais longo, a
percepção muda porque a situação e seus traçados mudam, porque nós, envolvidos pelo
movimento da vida, em certa medida também mudamos e o que antes aparecia como
figura da gestalt, passa a ser seu fundo. Não somente o caminhante se afina às
configurações do caminho, do mundo, pelos usos do seu corpo ele também o
transforma, na medida em que neste engajamento atualiza com seus passos as suas
direções, improvisando, inventando atalhos, fazendo eclodir novas formas de
apropriação, novas maneiras de fazer e trilhar caminhos.
Os passos dados até a escola Padre Confá eram sentidos um a um, em uma
marcha firme e, na chegada, a sensação compartilhada era de que o tempo havia
passado. Nas conversas que ali se desenrolavam logo pude perceber que não era apenas
o tempo daquele percurso que estava em jogo. As pessoas que se encontram ali no pátio
da Escola se remetiam a outras noções de temporalidade: o tempo de espera, o tempo de
moradia, o tempo do projeto de habitação: “Depois de tanta espera acho que agora a
casa sai, com fé em Deus, eu não hei de passar mais tantos anos sem meu vilage, sem
minha casinha”; “Eu mesmo moro aqui desde quando aqui tudo era mato, só mato pra
cima e pra baixo, tinha poucos barracos aqui quando eu cheguei... Faz muito mais de
20 ano que eu tô aqui e vou receber minha casa só agora na segunda etapa, ou, “A
CONDER congelou aqui tudo, congelou que é para nós não mexer, fotografou para nós
não construir e ficar esperando pelo projeto... O dia do projeto sair”. Todos esses
tempos culminavam ali, envolvia visceralmente os moradores, eles eram a matériaprima em torno da qual se organizava o cotidiano, o eixo que fazia a vida ganhar ritmo.
Somado a todas as noções de temporalidade que se faziam sentir em Paraíso Azul e
Recanto Feliz, não poderia esquecer que, antes de ser um trabalho sobre tempo e espaço
este era um trabalho em um tempo e em um espaço. Um trabalho em construção, assim
como o tempo e o espaço em que ele acontecia.
91
Este capítulo se centra então na compreensão destas noções de temporalidade e
também de espacialidade que são desenhadas em Paraíso Azul e Recanto Feliz com as
propostas da segunda etapa do projeto de intervenção. O primeiro eixo a ser abordado se
refere aos diferentes modos de apropriação do espaço empreendidos pelo desenho do
projeto de habitação e pelos moradores. De que modo estas áreas são descritas? Como
os moradores decalcam o seu caminho de vida? Estes são alguns dos questionamentos
que norteiam esta seção. As ideias de Ingold e Slavin, sobre as experiências de
construção do lugar pelos atores sociais e as considerações de de Certeau sobre as
distintas formas de mirar o espaço, empreendidas pelo caminhante e pelo voyeur,
funcionam aqui como apropriadas fontes de descrição e análise do fenômeno em
questão.
O próximo eixo de análise que compõe este capítulo gira em torno das três
lógicas temporais que se atravessam nestas duas porções da cidade: o tempo do projeto
de habitação, o tempo de moradia e o tempo de espera. O intuito então é caracterizá-las
e identificar em que ponto elas se tocam e em quais se afastam, a partir da experiência
etnográfica e das narrativas dos moradores. Mas, uma vez marcados os contornos do
movimento analítico que irá dar seguimento ao capítulo, é hora de voltar aos contornos
do campo.
O tempo havia passado... O tempo de espera, da aprovação da segunda etapa
para aqueles que não tinham recebido os vilages e os apartamentos na etapa anterior.
Para estes que não foram contemplados inicialmente porque tinham casas de alvenaria35,
consideradas pelos técnicos da CONDER como menos insalubres do que os barracos de
madeirit, a espera parecia ainda não ter perdido seu espaço, adquiria uma nova
configuração. A espera agora era pelo “dia da contemplação”, o dia de receber a casa.
Todavia, entre aqueles que aguardavam ansiosos por esta data, existia um entendimento
de que este era um passo mais largo. Como haviam aprendido na experiência da
35
No projeto de requalificação da primeira etapa o critério utilizado para definir o recebimento das
unidades habitacionais eram condições estruturais da moradia, as famílias que moravam em barracos de
madeirit e aquelas que moravam em casas muito pequenas, com sem iluminação ou ventilação foram
contempladas logo na primeira etapa da intervenção. Já as famílias que tinham casas de alvenaria,
construídas com blocos tiveram que esperar pela segunda etapa.
92
primeira etapa, na gramática de um projeto de habitação a contemplação era um estágio
posterior ao da apresentação do projeto.
Grande parte dos moradores que estavam reunidos na Escola Padre Confá
haviam esperado três anos, contados a partir da conclusão das obras da etapa anterior,
para ver como seria a segunda etapa. Afinal como lembrava Dona Marilda em nossas
conversas compridas: “Só tem agora mesmo a segunda etapa, porque não vai ter mais
nem terceira e nem a quarta, é só essa mesmo e pronto, nossa oportunidade é essa aí”.
Durante o tempo em que estive no campo um ponto que se repetia entre aqueles que
tinham traçado tanto o projeto do vilage quanto o do apartamento, era a crença de que a
segunda etapa seria melhor do que a primeira. Deterei minha atenção nesta questão,
para depois dar prosseguimento ao evento da apresentação do projeto da segunda etapa
e sua relação com a espacialidade, tema que será abordado na próxima seção. Porque
antes de compreender as apropriações do espaço feitas tanto pela CONDER como pelos
moradores, faz-se mister atentar para o sentido da segunda etapa no imaginário dos
habitantes de Paraíso Azul e Recanto Feliz. Voltemos então às nuances que marcam o
desenho desta crença “do melhor da segunda etapa”. Aos poucos fui percebendo que o
decalque desta crença parecia ser um dos elementos que sustentava o tempo de espera,
que lhe dava sentido. Todavia, quando ouvia nas rodas de conversas esta noção de
melhor, algumas perguntas ainda pareciam ficar sem respostas, faltavam peças neste
quebra-cabeça: Melhor em quê? O que lhe garantia esta avaliação? Neste dia da
apresentação do projeto Dona Marilda, sempre às voltas com os assuntos da segunda
etapa, em um tom eufórico, me disse:
Nessa segunda etapa vai ter vilage, tão dizeno que vai ter de dois quarto, e
na primeira era quarto e sala... E os probrema que teve aí na primeira etapa
porque o povo não fiscalizou36, deixou tudo à vontade, agora não vai ter
não... Agora vai ser tudo 100%, a gente vai também dizer se quer
apartamento ou vilage, agora vai ser do nosso jeito... Vou ter meu vilage do
36
Ver esta discussão sobre a fiscalização e os erros da primeira etapa no capítulo II “Fiscalizar é tudo,
vamos viver em cima dessa tecla”: discutindo o papel dos atores sociais no processo de implementação de
um projeto de habitação popular.
93
jeito que eu sonho, maior com dois quarto pra meu filho, pra ele tem o
quarto dele também.
Era dessa crença que também falava Seu Valdo, que estava naquela reunião para
ver como seria o vilage nesta fase do projeto. Crença que parece ter sustentado a sua
decisão de ter recusado o apartamento que recebeu na primeira etapa. Abro agora um
parêntese para trazer à cena os contornos desta decisão. A história de Seu Valdo, 45
anos, casado, pai de duas filhas, era conhecida entre os moradores de Paraíso Azul e
Recanto Feliz, sobretudo, porque ele fez o caminho inverso ao que uma parte das
pessoas destas duas áreas projetava fazer: ele saiu de um apartamento em um conjunto
habitacional para o seu antigo barraco de madeirit, de três cômodos, com quarto, sala,
cozinha e com uma pequena área no fundo. Seu Valdo chegou à região, na época que
ainda era chamada de Inferninho, há 23 anos, vindo do interior, um migrante, como
muitos moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz:
Eu tô aqui há 23 anos, aqui no Costa Azul e daqui não consegui sair, estou
aqui esperando minha moradia que é muito importante, entendeu? Aqui no
Costa Azul, não tem um bairro melhor de que o Costa Azul, não existe, só o
Costa Azul mesmo, pra mim, né?... Não os zoto, as outras pessoa, mas pra
mim... Pra mim é ótimo o Costa Azul e pra mim eu só saiu daqui morto, só
debaixo do chão mesmo... O Costa Azul... Eu vim praqui em 82, dar um
passeio na casa do meu irmão, passar um fim de semana... Aí não passei
oito dias, no sábado que eu estava viajando, tava saindo pra ir embora aí
achei um... Um pessoal pediu pra eu fazer uma faxina num condômino... Aí
eu desisti de viajar e fui fazer a faxina pra eles, aí fiz a faxina de manhã até
meio dia... De meio dia pra tarde, ele perguntou: você quer trabalhar
comigo? Aí eu falei: quem diz é o senhor não é eu, eu to aqui pra trabalhar.
–Mas você não tava indo embora? – Tava indo embora não, vim a passeio
ver meu irmão, mas meu destino é trabalhar, se você gostar do meu trabalho
prefiro ficar com você. – Ele disse: É tudo bem vá lá segunda-feira.
Segunda-feira eu fui no condômino, cheguei a trabalhar, trabalhei três anos
no condômino, através desse condômino aqui do Costa Azul, ele disse: Oh
vou dispensar, vou levar você pra outro local, aí fui, trabalhei no Polo três
94
anos, aí depois do Polo retornei e contínuo no Costa Azul até hoje... Nesta
casa eu cheguei aqui em 89, é isso mesmo 89... Eu comprei aqui quando
ainda era... Foi mil conto, chamava conto nessa época, é mil reais na
realidade, comprei através do meu irmão, meu irmão morava aqui, aí eu
mesmo comprei e passei a morar aqui, vim com minha mulher e minha
filha, já tinha uma menina, aí vim com ela e tô aqui até hoje esperando
minha moradia.
Quando soube da notícia que havia sido contemplado com o apartamento Seu
Valdo chegou a ir até a CONDER pegar a chave da nova casa e também teve o seu
nome indicado para ser o sindico do condomínio, mas o apartamento não fazia parte do
seu projeto vida e por isso, como narra, logo se sentiu incomodado na nova moradia. O
seu projeto era mais próximo do vilage, já que desejava ter uma casa com um quintal
para receber os amigos, poder ampliá-la para garantir a moradia de suas filhas, pois
inclusive uma delas estava às vésperas de seu casamento, cuja festa estava marcada para
acontecer na Associação de Moradores. Seu Valdo desejava também, sobretudo, gozar
de uma certa autonomia e privacidade que, segundo ele pontua, o apartamento parecia
não lhe oferecer. Além disso, quando um morador se mudava para um apartamento em
um conjunto habitacional não era possível escolher os vizinhos, e este foi um ponto que
pesou na decisão de Seu Valdo:
(...) o pessoal que ficou no condômino, meus vizinho, a maioria dos vizinho
que foi pra lá, não era suficiente como os meus aqui37... Eu achava que não
dava pra morar lá com eles, aí eu peguei e desisti, aí eu perguntei lá na
CONDER : Vê aqui, minha área que eu tô saindo de lá, faz o quê? Aí eles
37
Sobre a vizinhança Seu Valdo concluiu dizendo que: “(...) a vizinhança tem um porém, você veve na
sua casa, você não vai na casa de pessoa nenhuma, eu moro aqui, tem a casa, essa casa pegada aqui é de
minha cunhada, eu sou fui lá na casa de lá, se fui dez vezes foi muito e é parede e meia, então eu penso
que é cada qual em seu lugar , então eu vivia muito incomodado, eu sou dessa maneira eu ...na minha casa
entra conversa tudo bem, mas eu não entro na casa de pessoa nenhuma... O que me incomodava lá porque
eu chegava do trabalho cansado queria descansar não podia descansar por causa da zuada dos vizinhos,
tanto que chegou um vizinho que eu passei a discutir com ele um dia porque eu dentro de casa ouvia a
mulher, a mãe mandar o menino vim pra minha casa pra ele poder descansar... e eu tinha que ficar com o
filho dele adulto, então eu peguei fiquei chateado com isso aí”.
95
disseram: Olha tem um projeto de fazer um vilage, aí eu falei: então eu
prefiro ficar na minha área até vocês me dá minha casa, meu vilage. Eles
disse assim: só na segunda etapa. Aí eu disse: pode passar mil ano, dez ano
eu quero minha casa , meu local. Aí eu peguei a chave devolvi e fiquei no
meu barraco aguardando a segunda etapa e eu espero que a segunda etapa...
Eu acho que vai ser mais ótima, mais melhor que a primeira etapa, vai ser
melhor ainda e eu tô aqui esperando isso, esperando minha moradia, meu
vilage pra eu viver com minha família.
Os vizinhos seriam reforçadores deste sentimento de pertença, de apego a
moradia atual se configurando, inclusive, em uma justificativa para a resistência em
relação ao imóvel recebido. Percebe-se então que a moradia não é avaliada apenas pela
sua estrutura física, mas também pelo seu entorno, pelas pessoas que dela fazem parte e
que vão definindo seus papéis na trama do espaço ao longo do tempo. Mais do que uma
sociabilidade obrigatória à relação de vizinhança pode pressupor também um convívio
eleito entre aqueles que a compõem.
Um vilage ampliado em Recanto Feliz.
Uma vez enunciada os elementos que marcam o sentido da segunda etapa na
cena de Paraíso Azul e Recanto Feliz, voltemos então a uma exposição mais detalhada
do evento da apresentação do projeto da segunda etapa aos moradores destas duas
porções de Salvador. Na seção a seguir o eixo analítico que vai nortear este percurso
gira em torno das noções de espacialidade que aparecem entre alguns moradores e o
desenho do projeto de habitação. Prosseguirei então com este ponto.
96
1.1 Os caminhos de vida, os mapas e as plantas...
Os passos de um caminhante.
Sala cheia, algumas pessoas em pé, na porta, mapas, projetores, moradores que
não costumavam acompanhar rotineiramente as reuniões da Associação de Moradores,
marcavam a noite daquela quarta-feira. A reunião começou com a apresentação da
equipe técnica da CONDER. Durante a exposição do projeto um certo silêncio se fazia
sentir entre os presentes, mas logo o silêncio foi substituído pelos comentários que
vinham das conversas paralelas que logo se pulverizavam de ponta a ponta, pipocando
aqui e ali.
A medida que os mapas, projeções e plantas eram mostrados, um a um com suas
nomenclaturas e descrições: área comercial, via de lazer, área de oferta habitacional,
áreas 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, o murmurinho aumentava: “Onde é isso que eles tão mostano
aí? É perto da casa de quem? De Seu Pedro?”; “Ah deve ser ali no lava jato?”; “Você
tá entendeno este negócio aí que tá nas plantas, esses ponto, parece uns ponto, né?;
“Eu não tô nem exergano direito, tô vendo ali uma parte laranja, acho que eles tão
dizendo que ali vai ser os vilage da gente, desse ser isso mesmo”;“Essa área aí que tá
mostrano, eu penso né, que é ali atrás do GeraPão onde Vânia morava, mas só
perguntando a eles aí da CONDER pra ter certeza”. Era difícil se localizar em meio
àquelas coordenadas inscritas naquelas projeções.
Mesmo estando diante da planta ou do mapa que correspondiam especificamente
à rua que habitavam, muitos moradores não conseguiam se situar, porque os
97
personagens de Paraíso Azul e Recanto Feliz, as histórias experienciadas, os rastros de
vida eram apagadas para dar lugar a legendas e linhas, um código distinto daquele que
grande parte das pessoas destas áreas compartilhava em seu dia-a-dia. Diante das
dúvidas que roubavam a cena na apresentação, alguns diretores da Associação de
Moradores eram convocados, juntamente com a CDM a ocupar a posição de tradutores,
convertiam as informações contidas nas projeções em referências mais próximas aos
moradores. Diziam nomes, narravam episódios, traziam cores ao que parecia ser, a
princípio, monocromático.
As plantas e mapas do projeto que eram apresentados e a própria linguagem
técnica utilizada pela equipe responsável pela parte física, arquitetônica e urbanística do
projeto, pareciam se remeter a lugares distantes, que não faziam parte do itinerário de
caminhante destes moradores. Qualquer traço de familiaridade se perdia naquelas
superfícies planas. Isso porque no domínio das práticas que são tecidas nas tramas do
cotidiano os atores, como argumenta Ingold (2005) não fazem cálculos, nem mensuram
milimetricamente distâncias e posições, e mais do que isso não utilizam mapas ou
plantas, mesmo estes sendo artefatos tão presentes nos modelos teóricos de orientação
no espaço, que se sucederam ao longo da história. É a compreensão ordinária que está
ancorada no corpo, que parece tornar possível a vida cotidiana, que permite que o
caminhante em uma trilha familiar saiba onde está, sem empreender um raciocínio
cartográfico, com suas coordenadas e traçados.
Retrato do cotidiano, o espaço praticado.
98
O corpo caminhante (walking body,), expressão de Slavin (2003) que aparece em
sua investigação sobre a experiência da longa caminhada à Santiago de Compostela,
está disposto ao mundo, compreende de forma prática as suas configurações e ajusta-se,
quando reconhece o ritmo que embala os passos, o qual traz em seu bojo um caráter
dual, na medida em que parece partir não apenas de dentro, já que ao mesmo tempo
cede ao externo, afinando-se aos giros e contornos do mundo. Nesta relação de
inerência que se instaura, o corpo explora o mundo e responde as suas solicitações
mediante a dinâmica do movimento, como acrescenta Slavin (2003). Indo mais além
neste ponto que quero fazer ganhar relevo de Certeau (1994) vai dizer que na caminhada
o ator:
(...) seleciona e fragmenta o espaço percorrido; ele salta ligações e partes
inteiras que omite. Deste ponto de vista, toda caminhada continua saltando,
saltitando, como a criança “num pé só”. Pratica a elipse de lugares
conjuntivos. (Certeau, 1994, p. 181)
A compreensão corporal que se esboça neste domínio, no curso da caminhada,
como é aqui apresentada com base nas premissas de Merleau-Ponty (1999), é aquela
que opera no nível pré-reflexivo, que vigora no campo das práticas e que não está na
ordem da intelecção, da decisão racional. Embora não lancem mão do recurso
cartográfico em seu caminho de vida, os atores não estão desorientados no mundo,
perdidos em universo caótico. Ao contrário, são guiados por um senso de familiaridade,
que permite que saibam onde estão e como chegar a um próximo destino em um
percurso que já lhes seja conhecido. Era exatamente para esta compreensão que as
dúvidas e questões levantadas pelos moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz
pareciam apontar.
É este mesmo senso de familiaridade que de certo modo possibilita o desenrolar
da vida ordinária, como vem pontuar Ingold (2005), pois como seria a vida se a cada
percurso recorrêssemos a um mapa ou mirássemos um lugar por uma planta diferente?
Na tentativa de esboçar, de modo mais claro, as nuances deste senso prático que orienta
o descobrir-caminho, Ingold (2005) traça uma diferenciação entre a prática de caminhar
e a lógica que opera na navegação, sinalizando que:
Quando nos movemos, normalmente não pensamos que, estamos pilotando
nossos corpos de um lado para outro da superfície da terra, do modo pelo
qual o navegador pilota seu navio pelo oceano. Nem temos que pensar dessa
99
maneira para saber, em qualquer momento, onde estamos. (Ingold, 2005,
p.100).
São os cheiros, os sons, a experiência tátil e o próprio treino do corpo
caminhante (walking body) aos traços e às demais características do caminho que o
orientam em seu percurso. Os atores não são navegadores em seu cotidiano, não
deslocam a todo instante racionalmente seus corpos. Os conteúdos, as recordações dos
itinerários traçados não se dissolvem, se sedimentam em um matriz de movimento, que
articula passado, presente e futuro. O seu desenrolar é também o encadeamento de
histórias, a criação de narrativas, que guardam em si lembranças de chegadas e partidas
de jornadas já efetuadas.
Mulheres percorrendo Recanto Feliz.
No dia em que estive na casa de Dona Chiquinha Pernambucana, uma mulher
de 68 anos vinda de Pernambuco, que havia chegado à região há mais de 20 anos e que
muito se ressentia por não ter aprendido a ler e escrever apesar de suas tentativas,
saímos a alguns passos na frente da casa e enquanto caminhávamos, ela me contava e
recontava, em sentidas recordações de outros tempos, como era o lugar em que
atualmente vivia logo quando decidiu construir ali a sua moradia. Era uma história
detalhada, minuciosa, de lembranças imperecíveis, que deslizavam em direção ao
presente:
100
Eu morei primeiro, antes de vir pra aqui, naquela invasão da Pituba, eu
morei lá na invasão da Pituba uns seis anos, aí depois meu marido vendeu lá
porque ele tinha que viajar.... O pai dele morreu mandou ele tomar conta lá
do negócio dele, ele foi, mas quando chegou lá não deu certo, não deu certo,
não tinha trabalho pra ele, ele terminou voltando de novo e quando ele
voltou foi quando ele invadiu aqui, a gente invadiu... E ficamos aqui até
hoje... Quando eu cheguei aqui era só chão, era cheio de mato, era tudo
mato não tinha casa ainda, a gente limpou aí fizemo a casa primeiro de
tábua depois a gente passou a carregar os material pra fazer, porque não
tinha como fazer de bloco, aí fizemos de tábua, depois passamo tempo,
passamo tempo e fizemo ela de bloco, Deus ajudou e a gente fez, fomo
assim construíno, aí tinha umas pessoas já que moravam aqui do lado, mas
tavam fazendo ainda, que no início tinham poucas casa aqui, não tinha tanta
casa como hoje.
Dona Chiquinha Pernambucana conhecia como ela mesma dizia, “cada palmo”
daquele lugar, subia, descia, entrava em um beco saia em outro, orientada pelas suas
histórias, pelas pessoas que com ela convivia há tantos anos, sabia sem titubear qual
casa era de tal morador. Estas eram então, as suas bússolas, os seus pontos cardeais. O
seu corpo a guiava sem esforço pelos lugares estreitos, pelos terrenos íngremes, de
modo que me avisava antecipadamente quando tinha algum buraco, um pedaço mais
escorregadio que começava a ser coberto pelo verde escuro do limo ou quando aparecia
outros tipos de empecilhos no nosso trajeto.
Havia, por exemplo, uma rampa que ficava próxima à casa de Seu Valdo e que
era um ponto de passagem quase obrigatório para quem queria saí das imediações da
casa de Dona Carmita, Dona Maria, Seu Valdo e Dona Chiquinha Pernambucana para
chegar até a Associação de Moradores. Lembro-me que as vezes que tentava subir ou
descer esta rampa, envolvia uma série de recursos para não escorregar, tirava a sandália,
descia descalça ou alguém me ajudava a subir até conseguir me equilibrar. No entanto
tanto Dona Chiquinha Pernambucana, como as crianças e essas outras moradoras cujos
nomes citei acima, subiam e desciam sem dificuldade mesmo em dia de chuva e isso só
101
parecia possível porque tudo ali era para eles tão familiar, afinal diariamente faziam
percursos similares.
O que estava em jogo nessa experiência de Dona Chiquinha Pernambucana de
construir caminhos de vida não parecia ser nem uma resposta automática a estímulos,
nem a interpretação lógica de uma consciência, mas o esboço de um modo de se
relacionar, de ser tocado e de atentar corporalmente para uma situação, para o mundo.
Novas casas apareciam, novos atalhos, trilhas, Paraíso Azul e Recanto Feliz não
permaneciam as mesmas, de tempos em tempos surgiam novas invasões, novos
personagem chegavam, as casas e suas fachadas iam mudando, ganhavam novas
tonalidades, pequenos comércios domésticos tão comuns nestas áreas se ampliavam e
movimentavam os becos, que iam se estreitando com as novas construções. Com a
conclusão das obras da primeira etapa, vinham também os vilages e os conjuntos
habitacionais que se espalhavam por Recanto Feliz, que passou a ter muitas das suas
ruelas e becos substituídas por ruas mais largas, urbanizadas, movimentadas, mas Dona
Chiquinha Pernambucana logo conhecia e compreendia o caminho percorrendo-o no seu
cotidiano, incorporando-o.
O olhar que Dona Chiquinha Pernambucana tinha do lugar era um olhar de
caminhante, do qual fala de Certeau (1994), atento e sensível aos contornos do caminho,
ao domínio das práticas que se sucediam, é um olhar que se encontra possuído pela lei
anônima do lugar, distinto daquele lançado pelos técnicos da CONDER e suas projeções
que articulavam pontos a distâncias, como um olhar de voyeur, destacado, descolado do
embalo das artes do fazer, do som da vida. Um olhar de voyeur, panorâmico, que se
distância para mirar os traçados, que sobrevoa como Ícaro, e que perde de vista os
contornos microbianos do cotidiano.
Caminhar em um contexto familiar como era Paraíso Azul e Recanto Feliz para
Dona Chiquinha Pernambucana, pode ser semelhante, tal qual nos acena como Slavin
(2003), a andar de bicicleta ou a aprender um instrumento musical, já que o resultado,
assim como nestas práticas, é a produção de uma espécie de compreensão corporal que
custará para ser olvidada. Basta sentar em uma bicicleta, após algum tempo sem
praticar, para perceber que o corpo, após algumas tentativas, ainda guarda o
102
encadeamento dos movimentos, o ritmo das pedaladas, a postura propícia para o
equilíbrio ou, sentir novamente as cordas do violão serem dedilhadas para os dedos
encontrarem a posição, o justo afinamento que vem com o toque das notas de uma
música, as quais parecem estar guardadas nas pontas dos dedos. Trata-se, de fato, de um
saber que está no corpo que não se traduz por uma designação objetiva, este nada mais é
do que um saber de familiaridade e não uma relação de automatismo.
Em um exemplo mais exato, basta então experimentar caminhar por um
contexto, onde cada ponto do percurso lhe pareça familiar para, após alguns anos,
retornar e perceber como é possível retraçar seus passos de modo semelhante a como
havia feito anteriormente. Os pés ainda reconhecem a natureza íngreme do terreno, as
suas sinuosidades e retas, que ao fazerem girar o corpo, como em um processo de
ajustamento, tendem a gerar um certo ritmo para os passos que seguem encadeados, ora
mais lentos ora mais rápidos sempre em uma dinâmica aberta, flexível, com o ambiente.
Pode-se dizer que o corpo compreendeu o percurso, a partir do seu engajamento. Isso se
dá porque o caminho é de fato incorporado pelo andarilho, como nos mostra o exemplo
de Dona Chiquinha Pernambucana, e o lugar, por sua vez, é construído na confluência
de trilhas de movimentos que deslizam no tempo, fazendo aqui uma breve referência ao
conceito de lugar proposto por Casey (1996)38 .
A experiência de incorporação do caminho, como explana Ingold (2005), não se
processa porque o caminhante constrói uma representação do mundo, copiando seus
aspectos estruturais em uma espécie de mapa mental de estrutura análoga, formado por
imagens interpretadas logicamente por uma consciência, como quer fazer crer o
discurso cognitivo. Neste discurso, como nos acena Ingold (2005) este mapa ao ser
acessado emite informações sobre a posição que as coisas ocupam no mundo e sobre as
38
Para o filósofo Edward Casey a reflexão sobre o lugar, é central na filosofia e no pensamento
contemporâneo. A discussão que trava em torno desta temática tem suas raízes nas premissas de
Heidegger para quem o lugar é algo que o ocorre no ‘tempo’. Para uma discussão mais aprofundada do
conceito de lugar, ver CASEY, 1996.
103
relações que estabelecem. Apenas quando a estrutura do mundo muda, este mapa seria
atualizado. O ator, então, neste modelo seria um mero receptáculo, um lócus de
armazenamento para estas cópias, não agiria sobre mundo, pois não é percebido como
parte dele, o que assinala uma operação escrita nos termos da rígida dicotomia sujeitoobjeto.
O caminhar na ótica cognitivista então, como argumenta Ingold (2005) não se
configuraria em uma experiência de construção do mundo pelo movimento, porque as
categorias que o definem e organizam a sua percepção estariam dadas a priori,
independentes do estabelecimento de uma relação de inerência. Dentro desta lógica a
relação do ator com o mundo seria, ao contrário do que defende Merleau-Ponty (1999),
mediada por representações. Esta concepção, como nos lembra Ingold (2005), também
está na base dos princípios de orientação formulados pela cartografia moderna, que tem
o mapa como seu principal artefato, para quem o mundo parece ser inanimado, incolor,
indolor, sem texturas, formado apenas por uma ligação mecânica de pontos, uma vez
que se encontra dissociado da vida cotidiana, “como um palco de teatro, do qual todos
os atores misteriosamente desaparecem, o mundo - como é representado no mapa – é
deserto, destituído de vida”. (Ingold, 2005, p. 96). O traço consegue, em um golpe
certeiro, substituir o reino das práticas pelos das coordenadas, da topografia, dos
traçados geográficos.
Os rastros, as narrativas, os personagens são apagados de sua superfície de tal
forma, como no evento da apresentação do projeto da segunda etapa, que é possível que
um caminhante tão familiar a um determinado caminho não o identifique; isso se dá
porque as inscrições do mapa e das plantas do modo como são feitas parecem não lhe
fazer sentido algum. A explicação para este esvaziamento do sentido pode ser
encontrada nas ideias de Merleau-Ponty (1999) que argumenta que sentido é direção,
ele nos aponta para uma sequência. Na perspectiva merleau-pontyana o sentido está
então presente no movimento, não é da ordem da intelecção, da representação, a
experiência de sentido é corporal.
Contrariando
estas
noções
cognitivas
de
representação,
por
demais
intelectualistas, Tim Ingold (2005) concentra-se então, em resgatar um sentido
104
fenomenológico para a experiência de incorporação do caminho pelo andarilho,
acentuando que é o corpo que localiza, que compreende, na medida em que é tocado
pelo ambiente. O corpo caminhante (walking body) é treinado então, para assumir certas
disposições, maneiras de lidar com desafios e problemas que são colocados pelas
situações. O corpo no seu movimento desenvolve um certo estilo para responder aos
apelos do mundo.
Ao falar da relação entre o caminhar e o treino do corpo nos remetemos à ideia
de técnica corporal, para tanto faz-se mister fazer duas ressalvas. A primeira encontra
suas raízes nas premissas de Mauss (2003), que pontua que nenhuma técnica corporal é
essencialmente natural, já que deriva também de um processo de aprendizagem, de
modulação. Tem-se aqui a antiga polarização entre natureza e cultura39. A segunda
ressalva, entretanto, é feita por Ingold em resposta a esta assertiva de Mauss na tentativa
de dissolver esta dicotomia. Para Ingold (2005), nenhuma técnica é mais natural do que
a outra quando se supera esta dicotomia e, se reconhece que toda a técnica é natural e
cultural. Cultura e natureza aqui se tocam, porque nesta acepção a cultura não é vista
como um sistema de representação, mas como uma história de engajamento com o
ambiente. E esta mediação entre elas é feita pelo corpo, pelo deslizar do movimento, em
uma sinergia entre organismo e ambiente.
O corpo que se move na caminhada traz uma dimensão de virtualidade estando
polarizada por projetos motores, o caminho que incorpora ao seu mundo desdobra-se ao
longo do tempo, que não só é passado, nem só presente ou futuro. Estas dimensões de
temporalidade escorregam uma em direção a outra, como explana Ingold (2005). Do
passado fica a memória corporal das jornadas anteriores, do presente o ir e vir de cada
passo que vai aos poucos se firmando em um engajamento contínuo que não cessa e que
se ritmiza, e do futuro, o que fica é a expectativa de chegar ao destino, de saber sobre o
porvir.
No percurso estas dimensões se misturam e se retroalimentam, de modo tão
intenso que para viver o presente da caminhada é preciso pensar o passado de itinerários
anteriores a partir de uma percepção multisensorial e isso é feito via corpo, por outro
39
Que não será objeto de atenção neste estudo.
105
lado é necessário também perceber que um dos sentidos do passado reside nesta
possibilidade de criação, de atualização feita pelo corpo caminhante no presente. Já não
se pode mais separar estes domínios temporais porque eles escapam as tentativas,
deslizam no movimento que continuamente se esboça. Mirando os contornos do
percurso de Dona Chiquinha Pernambucana foi possível perceber esta dimensão de
criação na recriação, a atualização, porque como ela mesma dizia: “A gente não pisa do
mesmo jeito, assim né igual, toda vez que a gente anda”. Com esta expressão Dona
Chiquinha Pernambucana acenava para o fato de que em uma caminhada há sempre
uma dimensão de criatividade que efetuamos com nossos passos. Por isso pode-se dizer
tal qual o poeta Antonio Machado que: “o caminho faz ao andar, ao andar faz-se o
caminho”.
Tempo, corpo, ritmo, sentido, compreensão estas parecem ser as palavras-chave
para empreender uma analítica do caminhar, das construções do lugar, que dê conta de
sua poética, das particularidades que esta experiência de engajamento prático com
mundo, suscita. É hora de descer o ator social, que desde longa data fora colocada em
suspensão em uma atitude de destacamento do mundo, assumindo em relação a ele
apenas uma posição contemplativa, que tem como uma de suas raízes a dúvida
cartesiana, que aponta que apenas o pensamento não seria passível de dúvida, na medida
em que não seria corrompido pelos sentidos, pelo mundo.
De novo no chão, o ator é novamente “possuído” pelo mundo, é hora de
perceber que a condição do ser é ser com o mundo, compreendê-lo em cheiros, gostos,
formas, sons, tonalidades. E a partir de um olhar via corpo se afinar aos contornos dos
caminhos. É a defesa desta percepção aterrada, mundanizada, o ponto de intersecção das
trilhas percorridas por Ingold, Slavin e Certeau, ora apresentadas nesta seção, é este
olhar/ sentir de caminhante que traz de novo o sentido, ou seja, a partir dos passos do
caminhante são tecidos caminhos de vida.
Para o caminhante de de Certeau e Ingold, assim como para o andarilho de
Santiago Compostela de Slavin e os moradores de Recanto Feliz e Paraíso Azul o
espaço é um lugar praticado, onde a vida cotidiana acontece e se desenrola em suas
tramas. Que se faz nas chegadas e partidas dos seus personagens, neste movimento que
106
não cessa e que parece guardar um “que” de novidade, mas que ao mesmo tempo
sedimenta também lembranças imperecíveis. Como nos acrescenta Merleau- Ponty
(2006) não estamos no espaço somos espaço, não precisamos representá-lo a nós
mesmo porque o temos. Este é o ponto que marca com traçados sólidos a diferença entre
este modo de construir e perceber o espaço e a forma como ele aparece no desenho
deste projeto de habitação: estático, sem histórias, silencioso, irreconhecível. Forma
esta, que se materializa nas projeções, mapas e plantas da segunda etapa.
Esboçados os contornos das diferentes apropriações do espaço feitas pelos
moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz e pelo projeto de habitação, a esta altura já é
hora de trazer à cena um outro elemento que também adquiriu novas dinâmicas com as
propostas da segunda etapa: O tempo.
1.2 Em tempos de intervenção...
O fim do mês de dezembro de 2009 se aproximava e com ele vinha a incerteza
de quando as obras definitivamente caminhariam a passos largos. Este clima de
insegurança se asseverava porque para aquelas pessoas que experienciavam as ações de
um projeto de habitação, dezembro, assim como também os períodos de festas ou
feriados, significava o anúncio do prolongamento do tempo de espera pelo “dia da
contemplação”. Como Seu Pedro me dizia: Todo mundo sabe que se entrar Natal, a
obra não anda, aí vai entrar Ano Novo, Carnaval, São João e nós o que é que faz?
Espera mais...”. Os sonhos de Dona Marilda e Dona Chiquinha Pernambucana de
receberem suas casas no Natal mais uma vez não se cumpriam e ficavam para o ano
seguinte.
Apesar de haver uma previsão feita pela CONDER de que as obras começariam
em janeiro de 2010, este discurso não apaziguava os ânimos dos moradores de Paraíso
Azul e Recanto Feliz que tinham como projeto o vilage e o apartamento. Por diversas
vezes em que voltava ao campo ouvia, nas rodas de conversas entre vizinhos ou no
pequeno pátio que ficava na frente do prédio da Associação Moradores antes das
reuniões, frases assim: “Quem é que vai acreditar nisso? Que vai começar em janeiro,
107
eu tenho é muito tempo aqui esperando, uns diz que janeiro, acredita, mas eu nem sei
mais viu, fica difícil até para nós pensar...”; ou, “Isso é data que eles da CONDER
bota pra calar a boca do povo, todo dia diz que vai começar, que é hoje, que é amanhã,
que é na semana que vem e a gente fica nessa, espera e fica tudo a mesma, igual a todo
dia, não muda nada”.
O tom das falas era quase sempre de desconfiança; percebi então que o
descredito da CONDER não se restringia apenas ao tema do aluguel40, ganhava outros
desdobramentos durante a espera pelo “dia da contemplação”. Descredito que
assinalava para o modo como alguns moradores daquela região se relacionavam com
esta instituição pública. E até durante as reuniões da Associação de Moradores, certa
feita escutei de Seu Pedro o seguinte comentário: “A CONDER não trabalha com data
porque as data que eles marca não dá certo”. Estas ideias, que pareciam estar bem
alicerçadas entre alguns moradores destas duas áreas, tinham suas raízes não só na
experiência da primeira etapa, mas também no vai e vem que marcou a etapa que
vivenciavam hoje, a segunda.
Inúmeras foram as vezes em que o início da obra ou a aprovação do projeto
foram anunciados, algumas pessoas criavam expectativas e desenhavam novos projetos,
enquanto outras se preparavam cheias de tristezas para sair das suas casas e para vê-las
sendo derrubadas pelos tratores. As emoções sentidas em relação ao projeto de
intervenção da segunda etapa não eram as mesmas, como já mencionei em um dos
capítulos anteriores41, mas independente destas diferenças esboçava-se ali uma
preparação. Mas, logo que os moradores iniciavam qualquer processo de elaboração
vinha a notícia de que teriam que esperar mais; este era então o tempo do projeto de
habitação. Aos poucos muitos moradores foram resistindo a estas informações e um
deles, Seu Silvano, um morador que era conhecido por polemizar as reuniões em seus
dias de bebedeiras, me disse que estava igual a São Tomé, “só eu vendo pra crê, só
40
Ver capítulo II “Fiscalizar é tudo, vamos viver em cima dessa tecla”: discutindo o papel dos atores
sociais no processo de implementação de um projeto de habitação popular.
41
Ver esta discussão mais aprofundada sobre este ponto no capítulo I “Decalcando projetos de vida:
notas do cotidiano”.
108
quando eu vê aquela poeirada, os trator passano aí pra cima e pra baixo, broco, areia
é que eu acredito”.
O tempo de espera era uma face da mesma moeda do tempo do projeto de
habitação, um não existia sem o outro. Esperava-se pelo projeto, pela sua aprovação,
pelo início das obras, esperava-se em certa medida pelos contornos do projeto, por suas
etapas, por sua burocracia. Mas, o tempo de espera em Paraíso Azul e Recanto Feliz,
como mostrei em um dos capítulos anteriores, não era um tempo estéril; nele os
moradores teciam seus projetos, criavam práticas, regras, decalcavam e organizavam
uma vida, movimentavam seu cotidiano. Os atores sociais não estavam passivos, pois
nestas duas áreas da cidade de Salvador as informações da CONDER chegavam cheias
de ruídos, eram modificadas, apropriadas e re-significadas.
O tempo do projeto de habitação não era um tempo exterior, mas um tempo
vivido, sentido, que se fazia e se refazia tanto pelo lado da CONDER quanto pelos
moradores. Um exemplo deste ponto que quero fazer ganhar relevo são as invasões e as
pessoas que não tinham como projeto ir morar no apartamento ou nos vilages da
segunda etapa. Com as novas invasões, que iam modificando a paisagem de Paraíso
Azul e Recanto Feliz e a “resistências” destes moradores que não queriam abandonar o
seu barraco, o início das obras e seu desenrolar foram sendo atrasados. Os imprevistos
que surgiam e que apontavam para a dinâmica destas duas áreas faziam com que não só
as pessoas tivessem que se ajustar ao projeto, como também o projeto ao movimento de
vida daquelas pessoas. O projeto se construía de ambos os lados. Isso demostra que o
tempo do projeto de habitação não estava apenas associado à CONDER, mas também
aos moradores, assim como o tempo de espera não era experienciado somente pelos
moradores, como também pela CONDER.
Não quero com isso dizer que o tempo do projeto de habitação também não
contornava a vida dos moradores desta região com certos limites, não exigia deles a
adoção de certas práticas, pois muitos deles deixaram de mudar a sua casa, de construir
novos cômodos, de tornar sua moradia mais próxima das novas configurações que cada
família assumia no decorrer dos anos. Ainda me lembro de Dona Marilda que me
109
contou, em um dos dias em que percorremos Paraíso Azul até depois chegarmos à casa
de Dona Carmita, que se não houvesse o projeto da segunda etapa ela teria:
Batido a laje, porque eu deixei um ponto de laje, bater a laje, aumentar,
ampliar, eu ia fazer em cima os quarto, e... Rebocar, dar o piso, e a casa era
pequena demais, pequena... Aí foi pedido, que na área que eu tava vai passar
uma pista, para não fazer nada aí foi isso... Porque a CONDER, a CONDER
suspendeu as reforma pra ninguém num fazer... Pra gente fazer, pode até
fazer, mas no risco de vim o trator quando entrar a urbanização e derrubar e
você perder seu dinheiro porque a área é congelada, tá congelada pra
ninguém meter a mão, tá congelada, é uma área congelada. E quando a área
foi congelada você não pode construir, se você construir e tiver na área de
risco que vai sair a casa dos vizinho, tá sem ventilação e você tá com 4,5
janela, aí vai derrubar a minha casa pra... Dar melhoria pros vizinhos, aí eu
posso perder o que eu gastei e eles não tem retorno. Se gastar já sabe que vai
perder.
Dona Marilda queria modificar seu barraco porque tinha um sonho de poder
receber seus parentes e amigos, hospedá-los caso se fizesse necessário, convidá-los para
almoçar, tomar um café sem se sentir “acanhada”. Desde que a conheci este era o seu
desejo, poder receber, sobretudo, seus “irmãos da igreja”, sendo que uma boa parte
deles já haviam recebido seus apartamentos ou vilages na primeira etapa do projeto de
intervenção. Dona Marilda morava em uma casa de alvenaria com seu marido e seu
único filho, a moradia era constituída de um quarto e uma sala colada com a cozinha, a
divisão entre os poucos cômodos era feita por uma cortina. E no final da nossa conversa
Dona Marilda concluiu assim:
(...) hoje eu não tenho como receber uma pessoa, porque eu moro num
barraco, não tem nem cômodo direito e não tem como receber ninguém, a
gente recebe porque os irmão ama a gente e a gente ama, eles todo mundo
sabe que a gente não tem, ai não vai desprezar a gente por que, né? (...) mas
naquele barraco a gente fica ate acanhado, é que eles vão almoçam mesmo,
quando tem almoçam eles não olham pra isso não, mas a gente quer uma
110
coisa melhor, né? Quem sabe uma coisa, tipo assim, uma mesa, receber as
pessoa bem né? Como não tem hoje até mesmo no caso que você foi lá você
viu, que não tem nem como botar uma cadeira pra você sentar.
A história de Dona Marilda não era um fato isolado, durante o tempo em que
estive no campo descobri um amplo repertório de casos similares, ou seja, de pessoas
que tinham projetos para sua casa, anteriores à intervenção da segunda etapa. Seu
Valdo, morador cuja história foi narrada na seção anterior, por exemplo, também havia
me dito que se não tivesse esta intervenção tinha:
Um prano de construir, eu mesmo construir por minha conta própria, mas só
que quando eu ia construir, ia tentar construir foi quando veio a primeira
etapa, aí na primeira etapa não pode fazer mais nada tá tudo congelado, tem
que aguardar, terminar a primeira etapa ou a segunda, aí veio a segunda... E
com a segunda ficou ruim de novo para construir. Aí eu não construí, não
botei nada e tô aqui aguardano... Se tá congelada vamo aguardar um dia vai
chegar.
O decalque dos projetos era então não apenas anterior à chegada da segunda
como à primeira etapa, ao tempo do projeto de habitação. Porém, com suas propostas
eles ganharam novas direções e conteúdos. Mas, apesar de reconhecer estes limites que
o tempo do projeto de habitação marcava, devo também assinalar a forma criativa com
que os moradores se apropriavam deles. A vida ordinária não parava porque as obras ou
o projeto estacionava. Os informes que todas as quartas-feiras abriam as reuniões na
Associação de Moradores funcionam aqui como um dos exemplos deste dinamismo que
se fazia sentir no cotidiano.
Os informes se referiam aos eventos da Escola Padre Confá, data da matrícula,
passeio dos alunos, períodos festivos, regras da biblioteca; do Posto de Saúde Zumira
Barros, quando os aparelhos quebravam, informações sobre as consultas; notícias sobre
os cursos que eram anunciados na Associação de Moradores, como os de informática,
de construção civil e de idiomas; episódios que mobilizavam os moradores da região
como aqueles que tangenciavam o tema da violência e a educação de jovens e crianças.
A cada reunião uma temática diversa era incorporada aos informes, que não perdiam o
111
seu teor de novidade. Isso demonstra que a vida dos moradores de Recanto Feliz e
Paraíso Azul não se resumia a experiência do projeto de habitação popular, este era
apenas um aspecto que movimentava as tramas sociais.
Posto de Saúde Zumira Barros.
Fachada da Escola Municipal Padre Confá.
112
Entrelaçados com o tempo do projeto de habitação e o tempo de espera
apareciam também outras noções temporalidades que, enquanto estive no campo,
roubaram a cena nestas duas porções da cidade de Salvador. Um deles foi o tempo de
moradia, o tempo de Paraíso Azul e Recanto Feliz. Este tempo não era apenas uma
passagem cronológica, já que se referia aquilo que as pessoas viveram nestas duas áreas,
ao transcorrer tornava-se parte dos indivíduos, envolvia-os visceralmente. O tempo de
Paraíso Azul e Recanto Feliz não foi um critério decisivo para o recebimento das
unidades habitacionais na primeira etapa, como era, por exemplo, o “Tempo de
Brasília” em Recantos das Emas tal qual mostra Antonádia Borges (2005) em sua
investigação sobre os programas de habitação destinados à população de baixa renda na
região do Distrito Federal. Em Recanto das Emas para receber o benefício do lote pelo
governo as pessoas precisavam dedicar esforço e tempo para reunir provas matérias que
comprovassem que viveram durante mais de cinco anos na capital federal. Este
intervalo de tempo aparecia como uma medida criada pelo governo para mensurar uma
espécie de mérito por parte do morador que seria beneficiado.
Já em Paraíso Azul e Recanto Feliz, o que era objeto de mensuração não era o
tempo, mas as condições de habitabilidade da casa. Avaliava-se, sobretudo, os seus
aspectos físicos: ventilação, iluminação, tamanho, estrutura e material usado para
construção, ou seja, o grau de insalubridade. Mas, apesar de não se configurar em uma
condição sine qua non, em um requisito básico para receber os vilages e os
apartamentos, o tempo de moradia garantia ganhos de outra natureza, ganhos
simbólicos, como por exemplo, o prestígio social e o merecimento. Seguiremos então
agora com este ponto.
Ser morador antigo significava, para algumas pessoas de Paraíso Azul e Recanto
Feliz, ter não somente um amplo leque de informações sobre o lugar, como também
sobre os demais moradores, era assim com Dona Marilda, Dona Carmita, Dona
Chiquinha Pernambucana entre outros. E se este tempo de moradia estivesse associado
ao tempo de participação, ou seja, ao tempo dedicado à participação nas reuniões da
Associação de Moradores, do GA, a luta em torno de um projeto coletivo de
permanência, ele se convertia em sinônimo de mérito para o recebimento das unidades
habitacionais da segunda etapa.
113
Como já havia mencionado anteriormente, o critério utilizado pela CONDER
para fazer a distribuição dos vilages e dos apartamentos não era nem o prestígio, nem o
merecimento, já que todos os moradores que tinham o cadastro feito pela CONDER em
2004 teriam direito as unidades. Porém, durante as reuniões da Associação e do GA era
frequente ouvir comentários deste tipo: “Tem gente aqui que faça chuva ou faça sol tá
aqui participando da nossa luta, pode tá caindo um pé da água, mas vem pras reuniões
e quando chegar a hora de partir o bolo ela vai tá aqui pra comer, porque ela merece,
não merece não?”;” As pessoas que não vem pra reuniões como é que quer ser
lembrada, pra ser lembrada tem que tá presente, fazer como muitas pessoas aqui faz,
dedicar um tempo pra luta, deixar a novela e vim saber sobre a sua casa, sobre a
comunidade”; “Quem é morador antigo aqui e participa sabe da nossa luta, de como
era nossa comunidade e como ela está agora, e quando for receber seu vilage, seu
apartamento vai valorizar muito mais, vai valorizar porque lutou com a gente e quem
sabe como é”
A etnografia de Julieta Quirós (2009) sobre o fenômeno piqueteiro em Florencio
Varela em Bueno Aires, funciona aqui como uma apropriada fonte de descrição desta
questão do tempo dedicado à participação em um projeto coletivo. Assim como em
Paraíso Azul e Recanto Feliz, em Florencio Varela o tempo de participação era
quantificado pelo número de vezes que as pessoas comparecem as mobilizações e as
reuniões, estabelecia-se então, um sistema de relações e obrigações. Só que a relação
entre estes contextos, Florencio Varela e Paraíso Azul e Recanto Feliz, guardava uma
diferença fundamental. No primeiro caso, participar era uma condição para se ter direito
aos planos sociais para desempregados ou planos de emprego traçados pelo governo.
Ingressar no movimento piqueteiro era uma das vias de acesso possíveis ao plano, assim
como através de um político, ou inscrevendo-se nos esquemas de registro da prefeitura.
Em Florencio Varela, como enfatiza Quirós (2009) o plano não era apenas um eixo que
movimentava a vida como também revelava-se como uma linguagem: esperar o plano,
recebê-lo, perdê-lo.
Em um dos momentos da sua etnografia Quirós (2009) descreve que a
contabilização do número de vezes que o indivíduo participação das mobilizações, da
luta dos piqueteiros influenciava não somente no acesso ao plano, mas também a outros
114
benefícios, como a cesta básica. Havia dois tipos de cestas: grandes e pequenas; as
primeiras eram distribuídas para aqueles que compareciam mais vezes as manifestações
e as segundas, para aqueles que tinham um número menor de presença quantificada,
como mostra Quirós (2009) neste trecho da sua etnografia:
Certa vez, no centro do pátio de uma das sedes do MTR42, deparei-me com
três listas de nomes e sobrenomes sobre um quadro, encimadas por um cartaz
que anunciava: "Manifestações pelas cestas: 16/11 - 23/11 - 10/12 - 14/12 20/12". Verifiquei que eram aproximadamente 90 pessoas no total: 50 para a
"cesta grande", 40 para a "cesta pequena". Num primeiro momento, os
números me pareceram enigmáticos, mas depois saberia que as datas se
referiam às manifestações computadas para a cesta do mês: Quem vai a todas
as manifestações - explicou-me um companheiro do movimento - recebe a
cesta grande; de cinco manifestações, quem falta a duas ou mais recebe a
pequena. O tamanho da caixa indica então diferenças no tempo e no esforço
dedicados por cada companheiro à organização. Mais ainda: indica o que
cada um merece em consequência do que deu.
(Quirós, 2009, p.138)
Em Paraíso Azul e Recanto Feliz a mensuração da participação era feita por
outras vias. Havia um livro de presença, que ficava na porta da entrada da sala onde
aconteciam as reuniões ou era passado por um dos diretores da Associação de
Moradores para os moradores assinarem. Todavia, nem todos aqueles que estavam
presentes assinam, sempre tinha alguém que chegava depois ou que não se atentava em
pôr sua assinatura no livro. Talvez porque aquelas assinaturas não lhes garantissem o
acesso a outros benefícios como ocorria no caso de Florencio Varela. Ter seu nome no
livro não assegurava a casa; a certeza desta última estava no cadastro de 2004, feito pela
CONDER.
Como já vimos o livro de assinaturas não era, como pensei a princípio, o método
mais central de quantificar a participação dos moradores. Durantes as minhas idas às
reuniões da Associação e do GA fui aos poucos percebendo que em Paraíso Azul e
Recanto Feliz a mensuração se dava no face a face. Grande parte das pessoas se
conhecia por nomes, e ficava mais fácil saber então quem estava ou não presente. Tanto
assim, que quando um morador que não costumava frequentar a reunião aparecia, uma
vez ou outra na quarta-feira, logo virava alvo do circuito de fofocas entre o público
42
MovimentoTeresa Rodríguez (MTR), uma das organizações piqueteras mais importantes De Florencio
Varela.
115
cativo da Associação, aquecendo o clima da reunião. E para aqueles que conheciam a
dinâmica das reuniões, já era de se esperar que em algum momento frases como estas
fossem então enunciadas: “Tem gente aqui hoje que é a primeira vez que tá vindo vem
pra uma reunião” ou “Tô vendo gente que tem mais de não sei quantos anos que não
vem na Associação”.
Tempo de espera, tempo do projeto de habitação, tempo de moradia, tempo de
participação. Todas estas noções de temporalidades se atravessavam, se tocavam na
vida ordinária dos moradores de Recanto Feliz e Paraíso Azul. Como descrever este
movimento? O caminho entre tantos outros possíveis, traçado nesta pesquisa aponta
para uma questão: O que os atores sociais fazem com aquilo que é para eles desenhado
em um projeto de habitação popular: novas formas de experienciar, de sentir o tempo,
pois a temporalidade é a nossa condição de ser-no-mundo, na medida em que somos
seres temporais, como já nos fazia pensar Heidegger (1997). Porque existir é estar no
tempo. Este último então aparece como uma matriz de sentido, ou para traduzir a
questão nos termos de Merleau-Ponty43 (2006), o tempo estaria no coração da
experiência, na relação de entrelaçamento entre sujeito e mundo. Quando discorremos
sobre as noções de temporalidade que tocam os moradores Paraíso Azul e Recanto
Feliz, estamos apontando para o tempo como um ambiente de vida, das práticas, como
horizonte possível de interpretação e compreensão do ser e não como um dimensão
exterior, restando para o ator apenas a submissão e a passividade.
Este capítulo versou então sobre as diferentes noções não só de temporalidade,
mas também de espacialidade que foram tecidas na cena de Paraíso Azul e Recanto
Feliz, que apontam para distintos modos de responder e atentas às solicitações do
43
Uma diferença marcante entre as premissas de Heidegger e Merlaeu-Ponty em relação à noção de
temporalidade é que para este último o corpo, enquanto corpo vivido, tem uma importância central nesta
discussão. Porque para Merleua-Ponty o corpo é o cerne da constituição do mundo, do ser e da
temporalidade. Já Heidegger em “Ser e Tempo” pouco enuncia sobre o corpo. Este tema só vem ser
discutido com mais profundidade por ele nos Seminários de Zollikon. Todavia, apesar desta diferença no
traçado do caminho analítico a questão com que Heidegger se depara em “Ser e Tempo” e Merleau-Ponty
em “Fenomenologia da Percepção” é a tentativa de superação da velha antinomia entre idealismorealismo. Tanto para um quanto para outro o esboço desta tentativa de superação aparece com a noção de
ser-no-mundo e as implicações ontológicas que ela aponta.
116
mundo vivido. Pensar o tempo e o espaço é pensar então a relação de inerência entre ser
e mundo.
117
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao estudar os contornos de um projeto de intervenção, vemo-nos diante de um
amplo leque de problemas. A questão é saber se todos figuram como igualmente
centrais para compreender o que atribui à intervenção, que ganha terreno em Paraíso
Azul e Recanto Feliz, um caráter específico e um traço de generalidade. Antes de
esboçar uma resposta mais precisa faz-se mister efetuar um espécie de retrospectiva,
retomando alguns pontos que foram mencionados anteriormente nesta investigação
sobre estas duas porções da cidade de Salvador. Por ora vale ressaltar que estas
considerações não pretendem ser apenas uma recapitulação das discussões
desenvolvidas. Serão também, mas espera-se que não sejam somente isso, mas que nos
ofereçam subsídios para pensar uma posição analítica possível em relação aos projetos
de habitação popular.
Paraíso Azul e Recanto Feliz são áreas habitadas por camadas populares, que
estão encravadas no Costa Azul, um bairro de classe média da capital baiana. É
exatamente este aspecto que marca especificamente este trabalho: estudar as tramas
sociais que se desenrolam na implementação de um projeto de habitação popular em
uma bairro de classe média multifacetado, que expressa o paradoxo da proximidade
física e do distanciamento social. Apesar de Paraíso Azul e Recanto Feliz estarem
apenas a alguns passos das zonas de classe média do Costa Azul, isso não diminui a
sensação de dissonância que é experimentada.
Conjuntos habitacionais padronizados, enfileirados, que se diferenciavam pelas
tonalidades; vilages salteados pelo caminho; barracos novos, antigos; pequenas casas de
alvenaria e outras de tamanho maior, que cresciam com as lajes e puxadinhos;
condomínios fechados que se estendem até o limite das ruas; imponentes edifícios, que
no decorrer destes dois anos apareceram cada vez mais, dividem a mesma cena urbana,
esboçando uma configuração complexa. Enquanto estive no campo alguns moradores
chegaram a comparar Paraíso Azul e Recanto Feliz com uma ilha, pelo fato de estarem
cercadas por estas moradias da classe média. Em alguns trechos desta região a rua é a
ponte de ligação, já que nela passam tanto os moradores de Recanto Feliz e Paraíso
Azul quantos os dos condomínios fechados e edifícios de classe média . Mas neste
118
cenário a rua também é o limite, porque ao cortar o terreno, em cada uma de suas
margens, nos situamos em um destes dois polos que ficam frente a frente, para alguns
uma convivência quase que obrigatória, para outros uma permanência53 escolhida.
A localização de Recanto Feliz e Paraíso Azul, marcada pelo que poderíamos
chamar de um capital simbólico elevado, é um aspecto que parece influenciar,
sobremaneira, o desenho tanto do projeto da primeira quanto da segunda etapa de
requalificação. Comparada com diferentes intervenções que atravessam Salvador,
sobretudo aquelas que se desenvolveram em bairros populares, é possível identificar que
nestas duas áreas em questão há uma preocupação estética, com uma certa adequação ao
entorno. A moradia aqui é feita também para ser vista.
Ao cruzar as ruas de Recanto Feliz, por exemplo, não vamos apenas encontrar
conjuntos habitacionais, modalidade habitacional que está presente, por exemplo, em
regiões periféricas da cidade, como fica assinalado na investigação desenvolvida por
Soares (2007) sobre o Subúrbio Ferroviário de Salvador. Em Recanto Feliz, um outro
tipo de habitação vem compor a cena: os vilages. Conjugar estes dois modelos de
moradia não é um fato que possa ser estendido a grande parte dos projetos de habitação
popular que tiveram Salvador como palco. Pode-se perceber então, que a depender da
região aonde o projeto vai se desenrolar os seus traçados mudam assim como as suas
propostas.
Esta preocupação com o ajustamento ao entorno não operava em uma via de
mão única em Paraíso Azul e Recanto Feliz, já que ela aparece tanto na arquitetura das
unidades habitacionais que compõem o projeto, quanto nas práticas dos moradores.
Analisei esta questão no capítulo I 54 em que discuto o exercício de formar disposições,
adotar disciplinas e gostos, por parte daqueles que tinham o projeto de morar no
apartamento, práticas que contribuiriam para a formação de um certo tipo de pessoa,
treinada para habitar este tipo de moradia. A similaridade dos nomes dados aos
53
Vale ressalta mais uma vez que o projeto de permanência não era compartilhado por todos aqueles que
moravam em Paraíso Azul e Recanto Feliz, já que alguns projetos de vida iam exatamente na contramão
deste desejo de permanecer.
54
Ver uma discussão mais aprofundada sobre este tema no capítulo I “Decalcando projetos: Notas do
Cotidiano”.
119
conjuntos habitacionais em relação aos condomínios fechados do entorno também se
configura em mais um exemplo que parece ratificar essa tentativa de aproximação, que
aponta para as trocas contínuas, para um certo trânsito que se efetuava entre estes
cenários sociais. Isso demonstra que os moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz
estavam então atentos e sensíveis às práticas de uma classe média que circundava estas
duas áreas.
A diferença arquitetônica das unidades habitacionais, também engendrava um
movimento de atração de uma classe média interessada no baixo preço de venda e do
aluguel dos vilages e apartamentos, mas, sobretudo, destes últimos. Entretanto, este tipo
de atração não parecia ter como sustentáculo apenas o valor dos imóveis. Os candidatos
à compra se interessam pelo local em que estas unidades estavam construídas. O
endereço agregava valor, se configura em uma vantagem nos processos de negociações
que eram estabelecidos.
Como também foi mencionado anteriormente no capítulo I, uma grande parte
dos apartamentos recebidos na primeira etapa tinham sido vendidos. Alguns, inclusive,
só contavam com um morador oriundo da região de Recanto Feliz e Paraíso Azul, como
era o caso de Antonio, cuja história já foi contada neste trabalho. Antonio recebeu várias
propostas de venda desde que recebeu seu apartamento, como narra neste trecho: “Na
época... oh me ofereceram até 60 mil, já achei até 60 mil aqui... E ...na época logo
quando recebeu aqui o valor que pessoal tava vendendo era 15 mil, 18 mil (..) aí
praticamente aqui, aqui só tem mesmo os barão, comprou todo”.
Como pude perceber durante o período em que estive no campo, as vendas se
davam não só por uma dificuldade que alguns moradores tinham de manter novas
despesas como água, luz, condomínio, já uma parte deles faziam uso do gato de
energia, mas porque as pessoas que moravam em Paraiso Azul e Recanto Feliz tinham
projetos de vida diferentes. Projetos individuais que por vezes não se afinavam com o
projeto coletivo de permanecer na região, em torno do qual se forjava uma espécie de
laço social, uma solidariedade. Voltar para o interior, comprar um carro, comprar uma
casa menor em outro bairro e com o resto do dinheiro montar um comércio, eram alguns
120
deles. Projetos que, por vezes, eram avaliados nas rodas de conversas e nos dias de
quartas-feiras.
Assim como tinha aqueles que queriam vender, existiam outros que não
pensavam em sair do Costa Azul, seja pelas oportunidades de trabalho ou pela sua
localização, pessoas que queriam seus apartamentos, seus vilages ou seus barracos. E
cada vez que se falava sobre moradia as pessoas diziam também de si, porque, como
nos acena de Certeau (1996), morar é narrativizar. O território privado em que a pessoa
habita conta histórias contextualizadas em tempos e espaços que se sucedem como
manifestação da dinamicidade da vida. Este lugar revelaria então, segundo de Certeau
(1996), desde a personalidade de seus ocupantes, as condições sociais e até a
representação do espaço urbano em que está localizado. O morar supõe costumes e
revela, em um jogo contínuo, as preferências e exclusões efetuadas. O tamanho, o
mobiliário, a divisão dos cômodos, tudo nele fala e significa dentro de uma lógica e de
um sistema de práticas particularmente construídos por aquele que mora. Por ser uma
confissão sobre uma maneira íntima de viver, como explana de Certeau (1996), que não
pede permissão para ser dita, a moradia é alvo de categorizações e diferenciações que
enobrecem e estigmatizam, sendo estes atributos transferidos deste bem para os seus
ocupantes.
Quando se discorria então sobre a moradia, cada um argumentava em favor dos
seus projetos e neste contexto de múltiplas possibilidades, era possível perceber o
movimento de vida, as interpretações que os atores teciam sobre o mundo, seus
engajamentos práticos. Foi a partir então deste movimento, deste pulsar do cotidiano,
que foi desenhada a pergunta central, que atravessa de ponta a ponta esta investigação:
O que os atores fazem como o que é para eles projetado no desenho de um projeto de
habitação popular?
Em um horizonte de possíveis tantos outros caminhos analíticos poderiam ter
sido traçados, mas seguir este percurso, aqui delineado, significou deslocar o eixo das
discussões sobre os projetos de habitação popular, para uma outra direção, diferente
daquelas em que costumam se situar entre o par eficácia e eficiência. Mas por que
efetuar tal deslocamento? A resposta desta questão reside no fato de que antes de
121
questionar se um projeto de habitação é eficiente/eficaz faz-se mister elaborar perguntas
anteriores: eficiente/eficaz para quem? Quem são os atores sociais para os quais estes
projetos são construídos? E como eles se apropriam, reproduzem e resignificam o que
está para eles previsto nestes projetos? Pensar este movimento significa perceber o ator
como ativo nestes processos que o circundam.
No caso de Paraíso Azul e Recanto Feliz a partir destas indagações iniciais uma
nova teia de questões foi se configurando enquanto estive no campo: Quais projetos são
esboçados pelos moradores a partir da proposta de requalificação da moradia? Como
estes atores sociais se apropriam dos discursos e práticas que chegam com este projeto
de habitação? Quais repertórios morais são acessados e como os atores os mobilizam
para construção da ordem social nestas áreas de intervenção? Como se configuram as
noções de temporalidade e espacialidade em Paraíso Azul e Recanto Feliz com a
chegada das propostas da requalificação referentes à segunda etapa do projeto de
intervenção? Foram estas perguntas então, que me ajudar a tecer um recorte mais
acentuado nesta investigação, mas elas só se tornaram figura na medida em que me
permitir ouvir aquilo que o campo fazia ecoar, ou seja, quando me permitir surpreender
pelos seus contornos.
Pensar que estes atores, para os quais os projetos de habitação estão previstos,
são ativos, que eles estão no movimento de interpretação da vida, significa, em última
instância, perceber que um projeto de habitação não está dado exatamente a priori, mas
que ela se faz e se refaz no tempo, existe uma margem relativa de manobra, de inciativa,
fissuras latentes em seu desenho. No exemplo de Paraíso Azul e Recanto Feliz foi
possível identificar que há um ajustamento mútuo entre as partes que estão envolvidas
pelo enredo de um projeto de habitação. Tantos os moradores se ajustaram, se
apropriaram e recriaram suas propostas, quanto a CONDER experimentou este
ajustamento, que aponta para a dinamicidade do mundo vivido.
O projeto de habitação era um elemento da vida nestas duas áreas, a tônica de
muitas pautas que moviam o cotidiano, fazendo, por vezes giras as peças da maquinaria
da fofoca, aquecendo o clima nas ruas, nos becos, nas reuniões da Associação de
Moradores ou do Grupo de Apoio. Todavia, aqueles atores sociais estavam também
122
imersos em outras teias que tocavam, por sua vez, outros aspectos do mundo social:
econômicos, históricos, familiares, redes de vizinhança, subjetividades. Como um
emaranhado estes elementos, por vezes, se cruzaram, ganhavam novos conteúdos,
somava-se a eles novas experiências no desenrolar da intervenção em Paraíso Azul e
Recanto Feliz. Com o tempo em que estive no campo foi possível perceber que não
dava para recortar a vida, o tempo, o espaço, para focar apenas no projeto porque este se
inseria em um contexto de significado mais amplo: o cotidiano, que como nos diz de
Certeau é:
[...] aquilo que nos é dado cada dia (ou que nos cabe em partilha), nos
pressiona dia após dia, nos oprime, pois existe uma opressão do presente.
Todo dia, pela manhã, aquilo que assumimos, ao despertar, é o peso da vida,
a dificuldade de viver, ou de viver nesta ou noutra condição, com esta
fadiga, com este desejo. O cotidiano é aquilo que nos prende intimamente, a
partir do interior. É uma história a meio-caminho de nós mesmos, quase em
retirada, às vezes, velada [...] (de Certeau, 1996, p.31).
As tramas do cotidiano guardam então um certo teor de imprevisibilidade, ou
dito de outro modo, guardam um ralo de possíveis, próprio daquilo que não está no
campo da inércia. Prova disso, é que em Paraíso Azul e Recanto Feliz muitos eventos
não previstos no desenho do projeto de habitação ganharam relevo durante o período
desta pesquisa. A prática da fiscalização dos moradores em relação às obras da OPF e
ao trabalho realizado pela CONDER55 se configurou em um exemplo paradigmático
deste ponto que quero aqui chamar atenção, assim como as novas invasões e a
“resistência” de alguns moradores que tinham projetos que iam na contramão da
segunda etapa de intervenção, porque não queriam sair dos seus barracos para que as
obras pudessem ser efetuadas sem mais atrasos. E foi preciso se haver com estas
modificações, tentar traçar novos caminhos, incluir demandas que iam aparecendo no
percurso.
Estar diante de um projeto de habitação não é então, estar frente a alternativas
fechadas. No curso deste processo novas situações ganham cores, há sempre um quê de
novidade que escapa, um potencial para transformação. Reconhecer este pulsar da vida
55
Ver os desdobramentos desta discussão sobre a fiscalização no capítulo II “Fiscalizar é tudo, vamos
viver em cima dessa tecla”: discutindo o papel dos atores sociais no processo de implementação de um
projeto de habitação popular.
123
ordinária, que se atualiza com os fazeres dos atores sociais, abre espaço para se pensar
em uma dimensão de criatividade, de mudança e na multiplicidade de projetos de vida,
de práticas e de noções de temporalidade e espacialidade que podem estar em jogo
quando surge uma proposta de intervenção.
Este trabalho é então, uma contribuição ao esforço de construção de um
posicionamento analítico sobre os projetos de habitação popular. Posição esta que não
perca de vista este movimento dos atores sociais, este pulsar da vida ordinária, indo na
contramão de perspectivas homogeneizantes, que assumem de antemão que o público
para o qual estes projetos estatais são desenhados tem os mesmo interesses, os mesmos
projetos de vida, as mesmas avaliações, perdendo assim qualquer traço de diferenciação
que possa parecer. É em direção a este lugar de movimento, de fazeres, que os estudos
sobre as políticas e projetos habitacionais podem caminhar.
...
Não queria colocar um ponto final nesta discussão, afinal ainda existem muitas
páginas em branco a serem escritas. Por ora ficamos com as reticências, com o desejo
de que outros, que tenham algo a dizer sobre a seara em que esta investigação se arvora,
venham preencher novas linhas e que nos convidem a ingressar outras vezes neste
universo.
124
REFERÊNCIAS
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Janeiro: Zahar, 2003.
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BOLTANSKI, Lüc; THÉVENOT, Laurent. The sociology of critical capacity.
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