UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS ROSANA DOS SANTOS SILVA EU PROJETO, TU PROJETAS, NÓS PROJETAMOS: ETNOGRAFANDO AS TRAMAS SOCIAIS DE UM PROJETO DE HABITAÇÃO POPULAR EM SALVADOR Salvador 2011 ROSANA DOS SANTOS SILVA EU PROJETO, TU PROJETAS, NÓS PROJETAMOS: ETNOGRAFANDO AS TRAMAS SOCIAIS DE UM PROJETO DE HABITAÇÃO POPULAR EM SALVADOR Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial obrigatório para obtenção do grau de Mestre em Ciências Sociais. Orientadora: Profª. Dra. Elena Calvo Gonzalez. Salvador 2011 Aos mestres de uma vida Gey Espinheira e Tânia Cordeiro e aos mestres de lida Zumira Barros e Murilo, que em mim fizeram morada. AGRADECIMENTOS Quando iniciei este estudo minha associação livre me levou para muitos lugares, para o encontro de tantas pessoas. Com algumas o tempo foi breve... Breve porque o meu desejo era que elas pudessem ter chegado junto comigo até o final deste caminho, sinuoso, inquietante como uma pesquisa deve ser. Mas, as palavras de cada delas ficou, se presentificou nos momentos de inspiração, de dúvida, de descobertas... Nestes momentos percebi o sentido de uma antiga frase de Guimarães Rosa: “As pessoas não morrem, ficam encantadas”, foi assim com meu mestre Gey Espinheira, foi assim com minha avó Inez, com Zumira Barros, lembranças imperecíveis, personagens que tanto me ensinaram e me fizeram sentir as nuances da condição humana. E entre os encontros inesperados, que sorte a minha em ter no meu caminho Elena Calvo, com sua dedicada e preciosa orientação. Com seus insights atentos, perspicazes, compartilhados, que me permitiram viver e apreciar esta dissertação em suas minúcias, que não me tiraram o prazer de escrevê-la, mesmo estando, por vezes diante de tantas regras que contornam um trabalho acadêmico. E como todo caminho também tem os seus atalhos, o meu não seria diferente, só que aqui ele tem nome e sobrenome: Tânia Cordeiro, aquela que sempre esteve comigo, que me ensinou a trilhar os primeiros passos neste universo da pesquisa, se tornando então uma referência, uma rosa dos ventos nos instantes mais inquietantes que marcam a experiência de uma jovem pesquisadora. Para ela, assim como para Elena e Miriam Rabelo, pelas suas inspirações e por ter me mostrado a importância de ser tocado pela teoria, dedico meu carinho, minha gratidão. No meio do meu caminho também tinha uma ponte, tinha uma ponte no meio do caminho... É assim que descrevo a minha relação com os moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz, que como uma ponte me permitiram habitar outros lugares, me ligaram a novas experiências, que ganhavam cadência no desenrolar do cotidiano. Maria do Carmo, Marinalva, Seu Murilo, Jorge, Zelito, Milton são nomes que não poderiam estar ausentes destas linhas, a eles agradeço pelas caminhadas, pelas conversas, pelas histórias, pelos ensinamentos sobre a vida. E nestes caminhos cruzados me vem a lembrança, Rita Amália, com quem tive o prazer de dividir minhas descobertas durante o tempo em que estive no campo e com quem aprendi, cada dia mais, sobre os contornos do mundo social. Mas, nem tudo já foi dito aqui sobre este percurso de escrever uma dissertação, porque existem ainda outros personagens, que nos bastidores fizeram com que este projeto de vida seguisse livremente. Permaneci com estas pessoas... Preciso que saibam da sua importância. Meus pais, Antônio e Marinalva, que com olhos orgulhosos desde muito cedo me ensinaram sobre o amor pelo saber e pelo desejo de aprender. Minhas irmãs Raquel, Fernanda, meu avô João e minha Tia Cleusa, por compartilharem comigo estes dois anos intensamente, pelo prazer de estarem próximos. Meus amigos, Alcione, Luiz Alberto, Jamile, Tatiane, Rafael, Elder e Ivanilde, por tingirem com vivas cores o desenho deste projeto de vida. Os colegas da turma 2009 e professores do Mestrado de Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia pela efervescência das discussões, pela convivência instigante e por me convidarem a mirar o social a partir de diferentes prismas. Em especial agradeço a Leonardo Moura, porque no final de cada dia a sensação que fica é que você é o meu lugar aquele que sempre quis estar. E no mais a vida é “etecetera”... Vivendo se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas. Guimarães Rosa, 1986 RESUMO Esta investigação, que se circunscreve no campo da Sociologia Urbana, versa sobre o modo como os atores sociais, em seus jogos cênicos, se apropriam, reproduzem e resignificam o que é para eles projetado no desenho institucional de um projeto de habitação popular. O cenário desta investigação é Paraíso Azul e Recanto Feliz, duas áreas de Salvador que vem experienciado ações de intervenção urbana alinhadas ao Programa Viver Melhor do Governo do Estado. Localizadas na zona leste da capital baiana, Paraíso Azul e Recanto Feliz são porções ocupadas por camadas populares, e que estão encravadas em um bairro de classe média, o Costa Azul. A ideia desta investigação é então pensar um caminho alternativo às análises sobre eficácia/eficiência dos projetos de habitação popular para se colocar na posição de entender o que estes atores têm a dizer, quais os significados que delineiam sobre esta intervenção e de que forma se apropriam dos discursos que lhe dão sustentação. Este caminho analítico está ancorado na premissa de que os atores sociais estão no movimento de interpretação da vida. A compreensão não lhes é alheia. As categorias analíticas que dão sustentação a esta investigação são: projeto, fiscalização, tempo-espaço, noções que ganham a cena nestas duas áreas de Salvador e que aparecem como respostas à questão central que atravessa este estudo de ponta a ponta: O que os atores sociais fazem com o que está para eles previsto nos projetos de habitação popular? Palavras-chave: Sociologia Urbana, habitação, projeto, fiscalização, tempo-espaço ABSTRACT This dissertation focuses on the appropriation, reproduction and resignification by social actors of what is projected for them by a State housing project. The research is based on ethnographic work in two lower-class communities, Paraíso Azul e Recanto Feliz, located in the Eastern part of the city, in the midst of a middle-class neighbourhood. Aiming to present an alternative to the analyses of housing projects that evaluate them in terms of efficacy/efficiency, this research emphasises the need to look at the ways in which social actors signify their participation in the project, and how they appropriate the discourses that justify the project. This analytical endeavour is based on the premise that social actors are in the movement of interpreting life. The analytical categories that permeate this dissertation are: project, fiscalization, and time-space, concepts that are central in this part of Salvador, and that appear as answers to the question that cuts throughout the whole study: What do social actors do with what is planned for them in State housing projects? Keywords: Urban Sociology, housing, project, fiscalization, time-space. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS CDM - Cooperação para o Desenvolvimento e Moradia Humana. CONDER – Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado. FUNPREV – Fundo de Previdência Social do Estado da Bahia. IAPSEB – Instituto de Assistência e Previdência dos Serviços da Bahia. PAC – Programa de Aceleração do Crescimento. PDDU – Plano de Desenvolvimento Urbano. SEDUR – Secretaria de Desenvolvimento Urbano. SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO 11 2. CAPÍTULO I: DECALANDO PROJETOS: Notas do cotidiano 24 2.1 A disciplina de um morador de apartamento 32 2.2 “Eu quero é meu vilage” 44 3. CAPÍTULO II: FISCALIZAR É TUDO, VAMOS VIVER EM CIMA DESSA TECLA”: discutindo o papel dos atores sociais no processo de implementação de um projeto de habitação 52 3.1 A silhueta da vigilância: fiscalizando o próximo 64 3.2 Na contramão da fiscalização 72 4. CAPÍTULO III: EM CONSTRUÇÃO: Experiências de tempo-espaço em áreas 78 de intervenção 4.1 Os caminhos de vida, os mapas e as plantas... 4.2 Em tempos de intervenção... 95 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 105 REFERÊNCIAS 112 11 INTRODUÇÃO Uma das mais difíceis tarefas quando se intenta narrar um evento é transmitir o ritmo, o tom e as emoções que estão em jogo no que se está descrevendo. Mas, parece que esta preocupação chega a posteriori, depois de ouvir, de deixar o ator da cena social falar sobre sua performance na trama da vida cotidiana. Por vezes nos surpreendemos como este princípio tão básico a qualquer diálogo, o ouvir, pode trazer novos contornos ao desenho da pesquisa, chamando para outros horizontes de possibilidade. O campo etnográfico aqui se revela como um lugar que pode decepcionar, contrariando expectativas e hipóteses. Não há um mundo pronto esperando para ser descoberto porque nesta descoberta o mundo também é criado É neste teor de imprevisibilidade que está a dimensão de aventura da pesquisa. Esta abertura para as possibilidades vem marcar a construção deste trabalho “Eu Projeto, Tu Projetas, Nós Projetamos: Etnografando as tramas sociais de um projeto de habitação popular em Salvador”, que se integra aos estudos sobre habitação. Ele versa sobre o modo como os atores sociais em seus jogos cênicos se apropriam, resignificam e reproduzem o que é para eles previsto pelos projetos de habitação popular. O cenário desta investigação é Paraíso Azul e Recanto Feliz, duas porções da cidade de Salvador, localizadas no bairro do Costa Azul, zona leste da capital baiana. Quando falamos sobre habitação, um tema cujos limites são contíguos a diferentes áreas do conhecimento, podemos tomar como ponto de partida diferentes perspectivas, mirar através da lupa do Urbanismo ou da Arquitetura. Para efeito deste estudo tomaremos como referência as questões que tocam à Sociologia, na tentativa de seguir os atores enredados nas suas tramas sociais. Proponho começar este percurso trazendo uma reflexão metodológica, que é tecida a partir dos eventos que compartilhei, quando me permiti surpreender pelos contornos do campo. Deixar-se surpreender significou então, perceber que a questão com que se inicia uma investigação pode não ser aquela com que iremos terminar o percurso, até porque o campo também vai se reconfigurando, abrindo para direções e sentidos não previstos pelo pesquisador. A rigidez da pesquisa pode nos deixar surdos para estas pistas e mudanças tornando-a inoperante, então sua função passa a ser confirmar o que o 12 pesquisador já sabe através de suposições apressadas, tirando o que há de mais importante na pesquisa, que é a possibilidade de se surpreender com o arranjo inusitado dos eventos, com o sistema de relevância dos atores, com o peso que dão às coisas que lhes tocam. Isso mostra que não se escutou o que o campo tem a dizer, porque, como em um diálogo, os atores não confirmam o tempo todo, nem todas as perguntas e respostas estão no script, há uma certa margem de improviso, um elemento surpresa que rompe com a linearidade por mais ensaiada que seja a cena. No desenrolar de um diálogo não se sabe exatamente o que vem em seguida, embora os atores desenhem com cores vivas suas expectativas na tentativa de controlar e definir a situação, deve-se ter em conta que estas antecipações estão no campo do possível, são probabilidades. O diálogo, como observa Gadamer (2002), requer um movimento, uma fluidez entre o dizer e o deixar dizer e seguir este deslizamento significa correr o risco, se deixar afetar e se expor as possíveis implicações que podem aparecer, como argumenta Favret-Saada (2005). Este movimento parece ser uma condição na pesquisa etnográfica e isso não significa cair em um profundo subjetivismo, pois a dinâmica do afetar e do ouvir envolve o pesquisador e o engaja no universo em que se aventura a investigar. Todavia, por vezes em pesquisa assistimos a tendência à monologização, a falta de disposição para entrar em diálogo, para perceber as possíveis vantagens que podem chegar quando o pesquisador se abre para ouvir o campo. Ouvir, neste sentido, se configura em uma atitude de vigilância, que afasta a imposição de um esquema interpretativo aos eventos, como se estes últimos tivessem que se adequar, a todo custo, aos seus rígidos limites1. Indo mais além neste ponto, ouvir significa se distanciar de uma falsa comodidade, de uma certeza que mantém o pesquisador preso, mas que não está ali por acaso, sua razão de ser é a oferta de uma certa segurança. Todavia, não se pode perder de vista que a pesquisa é um caminho com traçados sinuosos, as expectativas que suscita podem desabar como um castelo de cartas quando colocadas diante das experiências e significados que dão cadência às situações 1 A teoria orienta, oferece um certo tipo de questão, mas para que o pesquisador não tenha dela uma leitura meramente técnica, ela deve lhe tocar, lhe inquietar, abrindo espaços de diálogo, preparando o pesquisador para ouvir as possibilidades do campo. 13 sociais, já que os eventos estão em um movimento de órbita complexa, deslizando constantemente entre vetores temporais. Seguindo o itinerário proposto por Dilthey (1949), me coloco nesta investigação a tarefa de compreender o significado dado por estes atores às suas práticas no terreno do mundo vivido, me furtar a isso equivaleria a deixar escapar, segundo a perspectiva diltheyana, o que existiria de mais definidor do mundo humano: esta dimensão do sentido. Este movimento da compreensão do significado faz parte de um processo hermenêutico entre a parte e o todo, entre uma prática singular e o contexto de significado mais amplo em que está inserida. Ao mesmo tempo em que o contexto ajuda a esclarecer a prática, esta por sua vez ilumina também os contornos do contexto. A parte e o todo se elaboram mutuamente no processo de compreensão, que chega também no diálogo, quando se abre espaço para ouvir. A conjugação entre este exercício hermenêutico e o deixar o outro falar significou aqui revisar o próprio itinerário traçado nesta pesquisa. Esta experiência, de se surpreender com as respostas que os atores estão dando também foi narrada por outro autor, Renato Rosaldo (1989), que nas suas investigações sobre os Ilongote somente conseguiu estabelecer a relação entre ira, caçar cabeças e aflição após deixar que sua experiência lhe permitisse entender o que os membros deste grupo estavam querendo dizer sobre esta prática. Durante catorze anos Rosaldo (1989) esteve surdo às explicações e aos sentidos dados pelos Ilongote, por julgá-las por demais simples e opacas. As narrativas “lineares” dos Ilongote o fizeram procurar um outro nível analítico para explicar os motivos da prática de caçar cabeças, sua experiência pessoal não lhe permitia ainda conceber tais descrições como válidas. Somente após passar por uma experiência em que se sentiu tomado pela sensação de ira em um momento de aflição, a perda de sua esposa no próprio campo, a também antropóloga Michelle Rosaldo, as narrações dos Ilongote fizeram sentido para Rosaldo, que compreendeu que os homens do grupo “significavam exatamente o que descreviam da ira na aflição como fonte de seu desejo de cortar cabeças” (1989, p.16). Como Rosaldo, também me surpreendi com os rumos da pesquisa, com seu movimento de idas e vindas, com o recorte mais acentuado que vai sendo dado ao 14 estudo após ouvir o que o campo faz ecoar. Sobre esta questão Espinheira vai acrescentar que: “o pesquisador não é livre, ele depende do que pesquisa, é guiado pelo seu objeto de estudo que o leva [...] como um personagem de ficção leva o autor a seguir suas injunções no campo do desconhecido”. (2008, p. 41). A escolha por traçar este caminho depende das motivações, dos interesses do pesquisador que faz o seu recorte, seleciona o que em uma Gestalt2 será figura ou fundo. Este procedimento não se realiza sem antes estar atento às características do objeto de estudo, que exige formas específicas de olhar e de proceder, e que também oferece pistas, para as quais o pesquisador não deve fechar os olhos. Decidir o desenho da pesquisa, definindo o que é necessário ou acessório para explicar o problema que ela propõe, faz parte de um jogo que marca a própria economia intelectual. Demanda uma sensibilidade técnica, que advém da experiência, do conhecimento do campo e do método que, como enfatiza Heidegger, não é um mero instrumento, já que “não apenas propõe o tema como o impõe e o subordina” (2003, p.137). Passo a passo no decorrer de cada caminhada no campo, a pesquisa vai ganhando novos contornos. São as cores, os cheiros, as falas, e o decalque de uma percepção mais aterrada que parecem preencher os vazios deixados por análises panorâmicas, que afastam da cena o domínio das práticas e a lei anônima que orienta o modo como os atores delineiam seu movimento de entrelaçamento com o mundo. A tentativa de compreender o campo etnográfico chega neste trabalho com a posição de caminhante de que fala de Certeau (1994), a qual reivindica não apenas o reencontro com os sentidos, mas, sobretudo com este exercício de aproximação, que outrora fora colocado a distância para que se pudesse ter uma ascensão de perspectiva, uma mirada de voyeur que permitisse imaginar como seria o mundo observado de um relance, visto a partir de um ponto acima da superfície. O apreço por esta vista panorâmica, que deixa registrado seus rastros na história da humanidade, tem talvez nas construções panópticas seu principal exemplar. Este olhar de cima, um olhar de deuses, que articula pontos a distância, sem ser tomado pelo 2 O termo Gestalt, como é aqui utilizado, aparece tal qual assinala a psicologia da Gestalt como uma organização perceptiva complexa, uma totalidade significativa em que se pode identificar uma figura que se destaca sobre um fundo. 15 embalo das artes do fazer que se esboçam no seio da vida ordinária. Isto parece gerar a impressão de conhecimento do todo, além de uma espécie de onipresença que provém da sensação de descolamento de um mundo pelo qual se encontrava “possuído”. Desejase então, “ser apenas este ponto que vê, eis a ficção do saber”. (de Certeau, 1994, p. 170). Na contramão desta perspectiva desencarnada, esta pesquisa se aproxima de teóricos como Michel de Certeau e Tim Ingold, ao aprimorar sua lupa para a lógica das práticas cotidianas, sentindo falta da carne, do sangue que pulsa dando vida ao campo. Neste novo itinerário teórico é a “vida microbiana”, como diria de Certeau (1994), que agora interessa. As asas de cera de Ícaro enfim derretem. É hora de caminhar, de olhar de perto e sentir os eventos por um outro ângulo, ingressando neste universo em movimento. A experiência de pesquisa ancorada nesta perspectiva do caminhante não se sustenta na demasia do ver e do ser visto, como prevê um modelo escópico. A tentativa é, ao contrário, tecer uma apreciação do campo mais aterrada, na qual os outros sentidos também saiam dos bastidores. Ao aterrissar é possível perceber que, como assinala de Certeau: Escapando às totalizações imaginárias do olhar, existe uma estranheza do cotidiano que não vem à superfície, ou cuja superfície é somente um limite avançado, um limite que se destaca sobre o visível. (Certeau, 1994, p. 172) De volta ao chão, o pesquisador descobre os caminhos da pesquisa através do mundo. Não é preciso atravessá-lo, cruzá-lo, não é a vista lá de cima que lhe permite conhecer, pois conhecemos enquanto caminhamos de um lugar para o outro. A proposição que vigora aqui é aquela que diz que o mundo se desvenda na variação do ponto vista, no movimento, na virtualidade que lhe caracteriza, como explana MerleauPonty (1994). A defesa desta percepção ambulatória vem contrariar a ideia corrente que aponta que é preciso manter um ponto de vista fixo para perceber o mundo. Assumir esta premissa é tentar romper com a ideia arraigada no pensamento ocidental que assinala que o lugar do intelecto é no corpo em repouso, como em uma espécie de atitude contemplativa, e não na locomoção, como se a cognição não fosse também um processo que se dá no deslocamento. 16 O mundo, como pontua Ingold (2005), se faz e se refaz no movimento, nas idas e vindas contínuas entre as trilhas formadas em torno do caminhante. Seus traçados, suas referências e rotas não são criadas a priori como se poderia supor. É o movimento daquele que caminha, como em um processo de reciprocidade, que contribui para a sua formação. O pesquisador que lança mão desta percepção ambulatória e que está nesta circularidade de idas e vindas, é um sujeito encarnado, voltado para o mundo, para os outros, um ser com, como argumenta Heidegger (1997), que está sempre em uma relação de co-presença. Antes de se colocar diante do mundo o “pesquisador- caminhante” tem a ideia de que participa dele, em uma expressão mais exata: percebe que algo do mundo crepita em si, como já assinalava a fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty (1994). Ser pesquisador-caminhante é estabelecer uma relação de habitar com o campo, habitar no sentido heideggeriano (2002) que indica que só habitamos o lugar onde a vida acontece. É um modo de estar no e com o mundo, sendo que este último então, não se apresentaria como um espaço objetivo, onde as coisas estariam reunidas, contidas, antes disso seria um lugar ao qual pertencemos, habitamos, junto com as coisas. Uma vez que não estão dadas, as coisas configurariam uma rede, ou uma ponte que nos ligariam a outras coisas e a outras pessoas, com as quais dividimos a cena em certos contextos de práticas. Ainda sobre esta relação de habitar Ingold (2006), vai nos dizer que ela significa estar entrelaçado em redes intensas, que terminam por borrar a rígida separação entre organismo e ambiente. Indo mais longe nesta questão: habitar significa direcionar para outros caminhos o fazer da pesquisa etnográfica, fazer com que o pesquisador se perceba também como um personagem da trama que tenta compreender, como parte do lugar, que seria o espaço vivido, um campo de prática, como assinala a acepção de Heidegger. Justificados os passos do movimento analítico traçado nesta pesquisa, ainda resta uma indagação: Quais são as outras escolhas metodológicas que definem o seu contorno? Durante a primeira etapa do trabalho de campo me deparei com um obstáculo: o questionamento de como poderia participar dos eventos que observava. A minha experiência enquanto pesquisadora parecia deslizar entre estes dois vetores: a participação e a observação. Mas, as próprias solicitações que vinham do campo 17 contribuíram para minha tomada de decisão. Como já convivia há mais de três anos com os atores, que, engajados em seus jogos cênicos, compunham a cena nestas duas porções da cidade de Salvador, era solicitada de mim uma posição quanto aos acontecimentos. Buscavam identificar um certo envolvimento, esperavam que experimentasse por minha própria conta os eventos que apareciam na cena de Paraíso Azul e Recanto Feliz . O envolvimento parecia ser a condição estabelecida por estes atores para que fosse possível ao outro compreender suas narrativas e suas ações, por isso, era preciso percebê-lo em mim. Ser afetado por algo que afetava os moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz significava então poder estabelecer um certo tipo de relação mais complexa que uma simples troca verbal. Esta relação se estendia para a comunicação involuntária, não intencional. Não se trata aqui de me pôr no lugar dos moradores, nem de apreender emocionalmente seus afetos, como em uma espécie de fusão com o outro, mas de ser afetada por algo que lhes afetava. Enquanto estava no campo era difícil não me deixar afetar pela ansiedade, pelo vai e vem do projeto de requalificação e pelo desenho de um futuro que a cada reunião parecia escapar cada vez que a obra por algum motivo era adiada. Este envolvimento com os moradores, e com as questões que atravessavam seu cotidiano, foi o passaporte para um universo de acesso restrito, para experiências, discursos e eventos que dificilmente sairiam de um certo espaço de familiaridade. Afinal as narrativas não se remetiam apenas às histórias de cada morador, mas a eventos e avaliações sobre familiares, vizinhos íntimos, desafetos e projetos individuais que iam na contramão de um projeto coletivo de permanência em Paraíso Azul e Recanto Feliz. Esses conteúdos eram ditos, por vezes, quase como sussurros, em um tom de segredo. Mas, para chegar a este universo foi preciso participar das atividades que se desenvolviam na vida ordinária, das rodas de conversas, compartilhar as celebrações, que marcavam a passagem dos ritmos do tempo. Todo este cenário me fez refletir sobre a minha posição no campo e a experiência de uma observação participante. Em suas investigações sobre a feitiçaria no Bocage francês, Favret-Saada, já chamava atenção para este “oximoro” que vem configurar o dispositivo metodológico 18 da observação participante. Qual seria o conteúdo empírico desta expressão? Esta indagação vai ser o eixo analítico que irá conduzir sua análise e também a minha. Favret-Saada (2005) traz à baila uma discussão que assinala que no trabalho de campo, os pesquisadores, apesar de enunciarem o discurso da observação participante, ou estão observando e assumindo uma posição mais passiva, orientando a análise apenas ao que é empiricamente observável ou estão “participando”, todavia aqui caberia uma ressalva, pois participar, por vezes em pesquisa, “equivale à tentativa de estar lá, sendo essa participação o mínimo necessário para que uma observação seja possível. Portanto, o que contava (...) não era a participação, mas a observação”. (Favret-Saada, 2005 p.156). A reflexão de Favret-Saada (2005) sobre suas escolhas metodológicas ilumina o ponto que quero fazer ganhar relevo, na medida em que funciona como uma apropriada fonte de descrição deste paradoxo que se instaura na construção do caminho analítico de uma pesquisa de campo: No começo, não parei de oscilar entre esses dois obstáculos: se eu “participasse”, o trabalho de campo se tornaria uma aventura pessoal, isto é, o contrário de um trabalho; mas se tentasse “observar”, quer dizer, manterme à distância, não acharia nada para “observar”. No primeiro caso, meu projeto de conhecimento estava ameaçado, no segundo, arruinado. (Favret- Saada, 2005, p.157) Este dilema que fica expresso na narrativa da experiência de Favret-Saada (2005) aponta para duas possibilidades de fazer pesquisa de campo, a primeira que tenta fazer da participação um instrumento de conhecimento e que assume a pesquisa como uma trilha sinuosa, que para se aventurar a atravessá-la é preciso ter em conta os riscos e a possibilidade de se surpreender com seus atalhos e contornos, e a segunda, que se apega à observação e a segurança que ela oferta, com sua proposta de distanciamento, que pode tornar a pesquisa inoperante. Assim, como Favret-Saada (2005), me coloquei nesta investigação na posição de me deixar afetar, de participar dos eventos, mas isso não significa que renunciei em algum momento ao exercício de tentar compreender as tramas que eram tecidas no cenário da pesquisa e os sentidos que desenhavam possibilidades de ação dos atores. Durante todo o estudo mantive a pergunta: Qual o efeito desta atitude de me deixar afetar? Isso acentua a defesa continua da reflexividade. 19 Este movimento de pôr em questão a minha posição e a reflexão sobre suas implicações parece ter me lançado na pesquisa e não tê-la embotado. O próximo passo na descrição do desenho da pesquisa se refere à caracterização do seu universo e os meios utilizados para obtenção e produção dos dados que irão compô-la. Em relação ao universo deste estudo, este foi definido do seguinte modo: Foram priorizados os sujeitos que residem há mais tempo em Paraíso Azul e Recanto Feliz por acompanharem por um período maior os processos de intervenção que foram planejados para estas áreas. Não há uma restrição quanto ao sexo, mulheres e homens participam da pesquisa. Por se tratar de uma pesquisa qualitativa o número de pessoas entrevistadas é reduzido, o universo da pesquisa foi definido em 20 pessoas de Paraíso Azul e Recanto Feliz. A obtenção e produção de dados para o desenvolvimento desta investigação foram realizadas por meio do trabalho etnográfico e de narrativas, que permitem captar o modo como as experiências se elaboram e se delineiam no cotidiano, ou seja, como os atores respondem em certos contextos de práticas as situações que emergem enquanto figura na gestalt. Sob a forma de narrativas os significados forjados e as experiências adquirem aqui nesta investigação, vida na voz, daqueles que são os destinatários deste projeto. As narrativas apontam para uma relação entre ator e contexto, endereçam-se ao tempo e ao espaço, eixos fundamentais para compreensão dos eventos que se desenrolam com a proposta da segunda etapa. Permitam-me agora depois desta discussão metodológica apresentar a relação entre estas premissas e minha experiência no campo. Durante mais de três anos desenvolvi investigações sobre estas duas porções da cidade denominadas Paraíso Azul e Recanto Feliz, situadas na zona leste de Salvador, que me renderam, inclusive, o meu trabalho de conclusão de curso intitulado “Por que o apartamento não é um paraíso?”4. Para uma parte da cidade, estas eram áreas arriscadas, misteriosas, um lugar de pobreza e crime. Estavam apenas a alguns passos das zonas de classe média do Costa Azul e, por vezes, bastava atravessar a rua para chegar ao outro lado da fronteira, demarcada por muros simbólicos. A proximidade física aqui não parecia diminuir a 4 Ver Por que o apartamento não é um paraíso (2008). 20 sensação de dissonância, que há muito se experimentava, entre Paraíso Azul, Recanto Feliz e o seu entorno. Descobri então que para algumas pessoas estas eram áreas invisíveis, não faziam parte do seu itinerário enquanto caminhantes da cidade. Já para outros, Paraíso Azul e Recanto Feliz tinham outros significados, eram conhecidas como áreas problemáticas, ocupadas por pessoas de baixa renda, suas ruas e becos exalavam medo e o tráfico de drogas era intenso. Vistas sob este ângulo as pessoas destas duas porções da cidade pareciam perigosas, e o lugar, tomado por um verdadeiro caos social. Havia algo de estranho nesta descrição, que trazia um conjunto limitado e por vezes impreciso de informações, mas era preciso olhar mais de perto, ter um conhecimento mais íntimo do seu cotidiano e participar das atividades que aí se desenrolavam para que o lugar se revela-se sob outros prismas. As ruas e becos sob a mirada dos moradores pareciam ter também um clima familiar, as pessoas estabeleciam redes de apoio, discutiam seus projetos, criavam e negociavam regras. Era possível identificar, ainda hoje, pontos em Paraíso Azul e Recanto Feliz de acordo com o parentesco ou com a cidade de origem de seus moradores. O que para os de fora parecia um lugar desorganizado e degradado, para alguns moradores eram comunidades altamente organizadas. Para compreender de modo mais detalhado as nuances deste quadro multifacetado faz-se mister rever a história destas duas áreas da cidade. Com 43 anos de existência e mais de 980 famílias residentes, a trajetória de Paraíso Azul e Recanto Feliz começa em 1967 com a chegada de seus primeiros moradores, a família de Dona Edith e Vicente Ferreira. A ocupação foi consentida pelo Instituto de Assistência e Previdência dos Servidores da Bahia (IAPSEB), proprietário da área na época, que solicitou-lhes vigilância sobre o local, para que novos moradores ali não se instalassem. Entretanto, a partir de 1970, apesar das condições adversas do lugar, no qual não havia luz e a água tinha que ser trazida de um minadouro conhecido como Pratinha, aos poucos foram vindo novos moradores. Na década seguinte, mais famílias passaram a chegar com maior frequência, sobretudo aquelas que migravam do interior do estado, trazidas por parentes que já ocupavam a área, para tentar a vida na cidade. Muitos destes migrantes serviram de mão 21 de obra para os prédios e condomínios fechados do entorno, ocupados por uma classe média que vem se instalar nesta região da cidade nesta época. Diante desta intensa ocupação a fiscalização do IAPSEB ganha constância, mas não consegue impedir por completo o aparecimento de novas ocupações. Em 1987, o IAPSEB passou então a fazer o cadastramento destes moradores para obter um controle da ocupação. Mas esta já havia crescido consideravelmente, de forma desordenada, sem planejamento, como a maioria das áreas da cidade, sendo constituída, inclusive, de diversas casas de alvenaria. Embora este tipo de construção dificultasse o processo de expulsão dos moradores, não minimizava as ações que visavam a retirada deste segmento da população. Nesta época a região de Paraíso Azul e Recanto Feliz era conhecida como Inferninho, nome atribuído, segundo moradores destas áreas, por residentes do entorno, da classe média do bairro do Costa Azul. Hoje, os habitantes destas comunidades ressaltam a importância de não se referir ao lugar como tal, pois, para eles, a expressão deprecia o espaço físico e estigmatiza seus habitantes5, como narram estes moradores: Olha no início é... a gente não... tinha ainda qualificado, colocado nome, era tanta zuada (risos), era tanta coisa, e aí colocaram o nome de Inferninho na época, né? Até porque na época.... para o entorno isso aqui se tornou um inferno, né? E aí saía nos jornais, nas.... eles mesmo, o povo aqui do entorno, que deram o nome. Aí em troca nós, depois de organizados, né? A gente colocou o nome, né? Porque isso aqui é um paraíso, aí colocamos o nome de Paraíso Azul e Recanto Feliz, né? Porque aqui era duas quadra, dois lote e aí demos nomes bem alegres, bem específico para mostrar pra eles que nada de inferno, aqui é paraíso mesmo. Aqui era Inferninho (risos) chamava Inferninho é... aí eu dizia eu não sei onde é o inferno eu pra mim eu tô no céu porque eu saí do aluguel tô no céu, construí aqui meu barraco, eu não gostava de quando o pessoal ficava por aí 5 Sobre o engendramento deste processo de estigmatização que tem o espaço como palco Goffman (1988) acrescenta que o espaço estigmatizado, portador das insígnias da desqualificação social, degrada simbolicamente seus habitantes, que tem em comum o estigma que lhes é transferido. 22 dizeno que a gente aqui mora em Inferninho, eu não moro em nenhum Inferno, eu moro é num Paraíso, oh o nome aqui é Paraíso ( a entrevistada soletra aqui a palavra Paraíso) Azul e Recanto, é Recanto Feliz. Desde o final da década 906 Paraíso Azul e Recanto Feliz experienciam as ações e propostas de políticas de urbanização e requalificação das moradias. A história da intervenção pública, através de programas habitacionais teve início nestas áreas exatamente em 1999, quando o Governo do Estado, na época sob a gestão de Paulo Souto, autorizou a Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado (CONDER) a realizar estudos que permitissem identificar a viabilidade de processos de urbanização e a implementação de obras de requalificação das moradias através do Programa Viver Melhor7. Após este estudo foi estabelecido então a definição da área que seria objeto de intervenção do projeto de urbanização. Paralelo ao processo de discussões sobre a urbanização da área ocorreu o acompanhamento do processo licitatório para a formulação do projeto, que teve início em 2000. No final deste processo foi informado a empresa vencedora, a HISA Engenharia Ltda, que concluiu e expôs aos moradores de Recanto Feliz e Paraíso Azul o projeto, em 2001. Após a etapa de conclusão do projeto novos entraves comprometeram a captação de recursos pela CONDER para o desenvolvimento das obras. O primeiro deles diz respeito à posição do Fundo de Previdência Social do Estado da Bahia (FUNPREV) através da Secretaria de Administração, a quem foi passada a propriedade 6 Ainda na década de 90, mais precisamente em 23 de março de 1997 foi criada a Associação de Moradores Santa Rosa de Lima, que nas suas reuniões de quarta-feira reúne moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz em sua sede. Uma das justificativas para a constituição da Associação era fortalecer o projeto de permanência na região. A Associação tem uma diretoria colegiada formada por sete membros e o Conselho Fiscal constituído por três membros, além de cinco suplentes. A Associação não conta com quadro de sócios registrados, todos os moradores destas duas áreas são assim considerados. Os meios de manutenção da Associação são arrecadações provenientes de algumas atividades e eventos que realiza como: bazar, bingo, rifa, não sendo assim cobrada qualquer contribuição financeira regular dos seus membros. 7 Este programa, criado na primeira administração do governo de Paulo Souto tendo seus desdobramentos também na gestão seguinte, teria como objetivo a redução do déficit habitacional através da rrecuperação de áreas degradadas, insalubres ou consideradas inadequadas para moradia. Além das ações de requalificação urbana, construções e melhorias habitacionais para famílias remanejadas, o programa inclui a execução de projetos de infraestrutura (água, esgoto, energia, drenagem, pavimentação, contenções e obras complementares de urbanização), equipamentos comunitários, serviços urbanos, regularização fundiária e promoção social. 23 do terreno após a extinção do IAPSEB, e que considerava que o processo de ocupação podia ser reversível, impondo como uma possível condição de liberação do terreno o retorno financeiro imediato. A negociação durou 14 meses até que o Governador do Estado enviasse à Assembleia Legislativa uma mensagem solicitando a autorização da doação à CONDER da área de Recanto Feliz e Paraíso Azul para fins de urbanização. A solicitação foi aprovada em sessão extraordinária e publicada no Diário Oficial de 23 de janeiro de 2003. A partir daí a discussão do projeto passou a girar em torno da captação de recursos. O processo licitatório para a execução das obras foi concluído em novembro de 20048, tendo como vencedora a empresa Gráfico Engenharia. Neste mesmo ano todas as famílias que moravam na região foram cadastradas pela CONDER. O início da obras em 2005 foi marcado por uma forte resistência por parte de alguns moradores de condomínios fechados de classe média que circundavam a região, que se posicionavam contra a permanência dos habitantes de Paraíso Azul e Recanto Feliz na área. O estopim deste processo foi a ação judicial movida pelos moradores do condomínio Parque das Dunas contra a obra de urbanização, sob a alegação de que o projeto interferia na área reservada ao projeto de um Parque Metropolitano “Parque das Dunas”, sendo uma liminar concedida em 02/06/2005. Em resposta a esta ação judicial, os moradores de Recanto Feliz e Paraíso Azul fizeram uma manifestação, interditando o acesso ao Condomínio Parque das Dunas para denunciar, através dos veículos midiáticos, a discriminação dos autores da ação, que segundo os moradores, era escamoteada pela defesa de uma suposta questão ambiental. Ainda no mês de junho as obras são retomadas após a queda da liminar9, sendo oficialmente entregues, no dia 11 de abril de 2006, as primeiras 240 unidades habitacionais construídas, apartamentos com dois quartos, sala, cozinha e banheiro. As construções das segundas unidades, contendo mais 160 unidades, foram concluídas em 8 Apenas as famílias que foram cadastradas pela CONDER poderiam receber as unidades habitacionais tanto na primeira etapa quanto na segunda. 9 A Associação de Moradores prosseguiu a disputa judicial com os autores do processo dando entrada na Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município (SUCOM) em uma ação administrativa de representação contra o Condomínio Parque das Dunas, por este condomínio ter invadido a área pública. Tal processo permanece sem despacho na Procuradoria do Município. 24 dezembro de 2006, constituídas, em sua maioria, por vilages para uso misto (comercial e residencial) e para uso exclusivamente residencial. As obras da primeira etapa prosseguiram até abril de 2007, com a finalização da construção de um Centro Comercial, de uma área de lazer e de uma das vias de acesso a Recanto Feliz10. Como apenas uma parte das áreas de Paraíso Azul e Recanto Feliz havia sido urbanizada e recebido as unidades habitacionais, mais um processo de negociação foi estabelecido com a CONDER e a Secretaria de Desenvolvimento Urbano (SEDUR) para o planejamento da segunda etapa do projeto de urbanização. Encaminhou-se então uma solicitação de recursos ao Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social, que foi negada. Uma vez negado o recurso, o projeto foi reencaminhado ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC–2008) com recursos do Programa Pró-Moradia, em uma operação de crédito envolvendo projetos que compõe o Falha Geológica II11, sendo aprovado o recurso para sua execução no final do ano de 2007. Durante este processo de negociação até a aprovação do recurso da segunda etapa e o consequente início das obras, a CONDER decretou um “estágio de congelamento”. Neste período novos barracos não deveriam ser construídos e as casas já construídas deveriam permanecer com a mesma estrutura, para não causar nenhum tipo de entrave quando fossem iniciadas as obras. As modificações nas casas só poderiam ser feitas em casos de ameaça a sua fundação, como rachaduras e destelhamentos causados pelas chuvas, por exemplo. As obras da segunda etapa previstas no projeto incluíam a construção de Via de Acesso e Via de Lazer, mais 40 novas unidades residenciais, um pequeno centro comercial e melhoria habitacional para 400 casas. O processo licitatório para as obras do projeto da segunda etapa foi concluído em agosto de 2008, tendo como vencedora a empresa OPF. Todavia a realização da obra não foi iniciada neste ano porque a ordem de serviço ainda não havia sido expedida e o 10 Finalizadas as obras da primeira etapa, os moradores de Recanto Feliz e Paraíso Azul iniciaram uma discussão buscando minimizar o valor das prestações das novas unidades residenciais de acordo com a tipologia e custo de cada uma. O valor das prestações antes todas em torno de 35 reais mensais, passou a variar deste valor para os apartamentos, a 26 reais para os vilages simples e 29 reais para os vilages mistos, estabelecendo um prazo de pagamento em dez anos. 11 Projeto voltado à requalificação urbana e a construção de unidades habitacionais dento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) criado pelo Governo Federal em 2007 na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 25 projeto encontrava-se com pendências na Caixa Econômica Federal. A situação com a Caixa Econômica foi regularizada quase no final de 2009. O projeto foi então apresentado aos moradores, que teceram seus projetos, os quais traziam um novo tom às narrativas, que pelo teor das emoções ganhavam nova cadência: “ eu tô aqui ansiosa (risos), para entrar Natal, Ano Novo com minha casa arrumada (risos) porque a gente esperou janeiros e janeiros, é muita emoção, né?”, disse então uma moradora. Apesar das expectativas, no final do ano de 2009 a obra da segunda etapa ainda não tinha sido iniciada. Desta vez, o problema estava na falta de recursos da CONDER, que precisava pagar o aluguel dos moradores que teriam que sair de suas casas e indenizar os moradores que teriam seus comércios demolidos para abrir frentes de obra. Além disso, a CONDER, juntamente com a organização não-governamental Cooperação para o Desenvolvimento e Moradia Humana (CDM)12, precisaria montar a sua equipe e instalar o seu escritório de campo na área, e seria esta mesma equipe que identificaria qual casa deveria ou não sair e verificar ainda os cadastros13 dos moradores e as condições de insalubridade das casas. Todo este processo parecia demandar ainda mais tempo. No ano de 2010 vários anúncios do início da obra foram feitos. Todo um clima de preparação foi sendo configurado: o escritório de campo foi inaugurado, algumas ações de mapeamento das áreas foram feitas, tais como visitas as moradias e aos comércios, e muitas pessoas saíram de suas casas e foram morar de aluguel para que a obra pudesse ser encaminhada e as primeiras frentes de obras fossem abertas. Todavia, ainda hoje o processo de execução está sendo ensaiado, sendo que faltam ainda alguns passos precisos para que a obra de fato, a construção dos conjuntos habitacionais e dos vilages e a reforma das casas, seja efetivada. É então este evento, a segunda etapa do projeto de intervenção de Paraíso Azul e Recanto Feliz que quero compreender de forma mais acurada nesta pesquisa. São suas tramas que me inquietaram e me fizeram tecer certos tipos de questões. 12 A ONG CDM fez parte do desenvolvimento e implementação do projeto de requalificação de Paraíso Azul e Recanto Feliz desde a primeira etapa. 13 Os moradores que vão receber as unidades habitacionais da segunda etapa são aqueles que foram cadastrados em 2004 pela CONDER. Estar cadastrado é então uma condição para ser “contemplado” pelo projeto. 26 A proposta de melhoria das casas e da substituição de algumas delas pelos conjuntos habitacionais e vilages, principais ações que compõem este projeto de habitação, me levou, a princípio, a estabelecer como eixo de análise a seguinte questão: Qual a relação entre requalificação da moradia e inserção social, tendo como base analítica o discurso e as práticas dos moradores dos conjuntos habitacionais de Paraíso Azul e Recanto Feliz? Durante um certo tempo persegui a resposta desta pergunta. Conversava com os moradores, entrevistava-os, observa seus sistemas de práticas e assistia nas quartasfeiras à noite a reunião da Associação de Moradores. Mas, nestas interações que se esboçavam as pessoas, em algum momento, endereçavam suas narrativas para um denominador comum: falavam o que fariam com o que havia sido para elas projetado no desenho institucional deste projeto de requalificação. Expectativas e projetos se atravessavam e formavam uma espécie de elo com o futuro. Esta lupa aprimorada para o amanhã era informada pelo passado e pelo presente que, deixavam suas insígnias nas trajetórias de vida de cada morador, que não só construía seus planos, como também julgava como válidos ou impróprios os planos alheios que eram traçados na cena de Paraíso Azul e Recanto Feliz. As propostas do projeto de requalificação eram então reinterpretadas e pareciam produzir novas situações a serem introduzidas no repertório destes moradores. As fofocas e disputas em torno dos seus conteúdos aqueciam o clima nas ruas, nos becos e, sobretudo, nas reuniões da Associação, em que a tônica principal em pauta era invariavelmente a requalificação. Este interesse ecoava de modo tão marcante que a própria estrutura da reunião se modificou em sua função. Todos os outros informes sobre os cursos (informática, construção civil), projetos (Projeto Nadar, Pró-Juventude) desenvolvidos por instituições ligadas ao Estado em parceria com a Associação, além de avisos sobre os eventos da Escola Padre Confá e sobre o Posto de Saúde Zumira Barros, responsáveis por oferecer assistência a esta região, eram passados no início da reunião. Deixava-se para o final as notícias sobre o caminhar das obras. Esta estratégia tinha como objetivo fazer com que os moradores permanecessem na reunião e fossem obrigados a ouvir as outras questões e 27 temas com os quais a Associação de Moradores se defrontava. Mesmo tendo que se submeter a esta estrutura pré-fixada, os moradores não o faziam sem esboçar uma certa resistência. Entre um informe e outro era comum ouvir uma polifonia de discursos em que eram entoadas frases como: “Eu vim aqui para ouvir sobre moradia popular, sobre reforma, requalificar as casas, o que eu vou fazer com o meu barraco.”; “A gente quer saber sobre nossa vida na favela aqui, não é negócio de historinha não, né negócio de curso não, eu tenho um informe sobre nossa vida, nossa favela... eu quero ganhar o meu, todo dia é a mesma coisa nessa favela”; “Eu quero saber se vai passar o tempo todo só falano em curso, eu quero falar de moradia, do negócio do rato me comer, das barata na minha casa”. Não só pelos discursos enunciados publicamente essa resistência se delineava, já que essa dimensão era também experienciada de forma velada, encenada nos rumores anônimos, na submissão falsa, na ignorância fingida, na sabotagem sutil da não participação, na evasão daqueles que não se arriscavam em contestar diretamente as definições formais de poder e as normas ali demarcadas. A noção de formas cotidianas de resistência usada por James Scott (2002) para narrar as relações de poder entre os camponeses da Malásia e os proprietários de terra, funciona aqui como uma adequada fonte de descrição desta prática escorregadia e sorrateira, deste outro estilo de resistência, cuja segurança, como assinala Scott, “está no seu anonimato” (2002, p.13). É desta luta silenciosa, mas constante, que requer pouca ou nenhuma organização ou coordenação formal e que se esquiva a uma confrontação aberta, que lançavam mão os moradores. Diante deste quadro que ora se delineava a pergunta inicial com que cheguei ao campo foi cedendo espaço para uma outra: Como os moradores se apropriam, reproduzem e resignificam aquilo que foi projetado para eles por este projeto de habitação? Esta nova questão, que assumiu centralidade na pesquisa me abriu para outras indagações que passaram a também compor esta investigação: Quais projetos são esboçados pelos moradores a partir da proposta de requalificação da segunda etapa? Como estes atores sociais se apropriam dos discursos e práticas que chegam com este projeto de habitação? Quais repertórios morais são acessados e como os atores os mobilizam para construção da ordem social nestas áreas de intervenção? Como se 28 configuram as noções de temporalidade e espacialidade tecidas em Paraíso Azul e Recanto Feliz com a chegada das propostas da requalificação referentes à segunda etapa do projeto de intervenção? A ideia desta investigação é então pensar um caminho alternativo às análises sobre eficácia/eficiência dos projetos de habitação popular para se colocar na posição de entender o que estes atores têm a dizer, quais os significados que delineiam sobre esta intervenção e de que forma se apropriam dos discursos que lhe dão sustentação. Este caminho analítico está ancorado na premissa de que os atores sociais estão no movimento de interpretação da vida. A compreensão não lhes é alheia, na medida em se configura em uma condição do nosso ser no mundo, como nos faz lembrar Heidegger (1997). Isso significa que constroem significados sobre os eventos com que estão envolvidos, os quais deixam suas marcas inscritas em seus engajamentos práticos com o mundo. Abro agora um parêntesis para sinalizar que nem tudo já foi dito com relação à aventura da pesquisa, vamos então prosseguir com este ponto. Definido o recorte, o ponto de vista através do qual traçaria o itinerário analítico desta pesquisa: compreender como os moradores se apropriam, reproduzem e resignificam aquilo que foi projetado para eles pelo projeto de habitação em questão. Definida também a posição adotada para efeito desta investigação, a de pesquisador caminhante, passo para uma próxima etapa, a justificativa do desenho da pesquisa. A opção por desenvolver este estudo sobre o modo como é esboçada a teia de significados e as apropriações por aqueles que seriam os seus destinatários do projeto de urbanização e requalificação urbana em Paraíso Azul e Recanto Feliz, justifica-se pela sua pretensão de compreender de forma mais acurada um fenômeno que está circunscrito em uma lacuna nos estudos sobre Sociologia Urbana: a investigação de projetos de habitação popular em bairros de classe média. Além disso, frente às ainda recentes discussões sobre o desenvolvimento urbano, o planejamento urbanístico da cidade e a ocupação territorial, suscitadas pela revisão e a aprovação da Lei Municipal 6586/04 referente ao Plano Diretor de Desenvolvimento (PDDU) em Salvador, abre-se espaço para focalizar as questões relativas à habitação. Mais especificamente, ao morar 29 previsto nas intervenções estatais e nas políticas de habitação, o morar na cidade que tem sido “um laboratório no qual a sociedade vivencia os dramas e os desafios da sua coesão social e experimenta as formas de superar as ameaças à sua manutenção” (RIBEIRO, 2001, p. 13). Esta investigação é de caráter exploratório, na medida em que pretende analisar como este fenômeno se processa não em regiões periféricas da cidade, como os bairros do Subúrbio Ferroviário, que foram objeto de análise em trabalhos como o de Soares (2007), Santos (2005), Fernandes (2009), mas em um bairro de classe média multifacetado, como o Costa Azul, que também é habitado por camadas populares como os moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz. Traçando um caminho alternativo às análises sobre a eficácia/ eficiência dos projetos de habitação popular, como as propostas pelos estudos acima citados, esta pesquisa quer aprimorar sua lupa para capturar as experiências, os significados, a existência dos atores nas cenas sociais. A escolha por este caminho ganha fôlego nas considerações tecidas por Wacquant sobre a sociologia. Para este autor, esta disciplina deveria empreender um esforço para capturar esta dimensão subjetiva e existencial que se expressa no seio do tecido social “que as abordagens estabelecidas das ciências do homem colocam tipicamente em surdina...” (2002, p. 11). O modelo de análise aqui apresentado não pretende testar uma teoria específica, mas caminhar no sentido de construir novas hipóteses e conceitos que possam preencher esta lacuna, abrindo espaço para que novos estudos sejam realizados para aprofundar e traçar outros itinerários possíveis de investigação do fenômeno em questão. Uma vez esclarecidas as escolhas metodológicas que orientam este trabalho e feita a apresentação do campo passemos então, para uma breve exposição da estrutura desta dissertação. A apreciação do objeto de estudo é sistematizada em três capítulos e acompanhada por considerações finais. O primeiro deles, “Decalcando Projetos: Notas do Cotidiano”, está dividido em duas seções. O capítulo propõe uma análise sobre os efeitos que o projeto de intervenção da segunda etapa, direcionado para ações de requalificação urbana, suscita nos processos de delineamento de projetos de vida, tecidos pelos moradores das comunidades de Paraíso Azul e Recanto Feliz, localizadas no bairro do Costa Azul, zona leste de Salvador. Busca-se compreender de forma mais 30 acurada os mecanismos de antecipação das linhas de ação futuras utilizadas por estes atores sociais, atentando para os discursos e práticas que se esboçam no espaço social em questão. Ganha relevo nesta discussão a diferenciação entre o mero fantasiar e a ação de projetar empreendida pelos atores sociais, que se articula tendo como referência as dimensões biográfica e temporal. A conjugação das premissas de Schutz sobre Fantasia e Projeto e o que Bourdieu chama de ethos de classe, que diz respeito à relação estabelecida pelos atores entre oportunidades objetivas e esperanças subjetivas, funcionam aqui como chaves explicativas para este fenômeno, que é acessado neste trabalho a partir da experiência etnográfica e de narrativas. Após esta exposição sobre a diferença entre projeto e fantasia, é feita uma discussão sobre os projetos que protagonizaram a cena de Paraíso Azul e Recanto Feliz: o projeto de morar no apartamento e o de morar no vilage, para depois descrever qual a fundamentação do processo de escolha empreendido pelos moradores em relação a estas unidades habitacionais. O intuito é então indagar o trânsito de significados que marcam a leitura feita pelos moradores deste projeto de requalificação urbana e analisar as expectativas que ele suscita, as quais se traduzem em novos horizontes de possibilidades e em estratégias de tomada do futuro. Ao trazer à baila a noção de projeto neste estudo, tentase deslocar o eixo das investigações sobre os projetos de habitação, para uma outra direção, diferente daquelas em que costumam se situar entre o par eficácia e eficiência. Este deslocamento chega na tentativa de responder a seguinte indagação: O que os atores fazem com o que é para eles desenhado por estes projetos? Pensar na categoria projeto significa aqui compreender como os atores se posicionam e decalcam fluxos de ações a partir de certos contextos de práticas que se apresentam, ou seja, como respondem às solicitações do mundo vivido. A partir destes pontos de referência se discutirá a relação sinuosa que se circunscreve entre projetos de vida e políticas de requalificação urbana. O segundo capítulo intitulado “‘Fiscalizar é tudo, vamos viver em cima desta tecla’: discutindo o papel dos atores sociais no processo de implementação de um projeto de habitação popular, pretende tecer uma análise sobre o papel dos atores sociais no processo de implementação de projetos do Estado. Analiso os efeitos que o discurso de maior entrega do controle tem no desempenho deste papel, que deixa suas pistas 31 impressas nas práticas e nos discursos que se articulam no cotidiano dos atores sociais. A discussão proposta gira em torno do fenômeno da “fiscalização”, conceito êmico, que ganha relevo com o processo de requalificação urbana em Paraíso Azul e Recanto Feliz. Para se chegar ao entendimento deste fenômeno recorreu-se à análise das narrativas e dos modos de operar que se esboçaram neste espaço social, dados obtidos através da experiência etnográfica. Na primeira seção “A silhueta da vigilância: fiscalizando o próximo” a discussão gira em torno da fiscalização que se dá entre os moradores, esboçando um modelo de vigilância, que em algumas situações pode ser verificável e em outras, inverificável, como na prática panóptica apresentada por Foucault. Esta investigação sobre a “fiscalização” abre espaço para a discussão da ideia do panoptismo, que se refere a um poder que age a partir da vigilância, direcionando as condutas e disciplinando os corpos, como um grande olho que através de um modo onipresente de ver molda modos de ser. A intenção então é verificar até que ponto esta premissa foucaultiana ilumina o fenômeno em questão. Já na segunda seção: “Na contramão da fiscalização” o que aparece como objeto de atenção são os discursos que contradizem a prática da fiscalização: os que acentuam o risco de fiscalizar o outro. Analisar a maneira através da qual a fiscalização se articula no cotidiano dos moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz permite atentar para as possíveis táticas circunscritas pelos atores sociais, que se delineiam no universo dos projetos de habitação popular. A discussão que este capítulo suscita traz ainda à cena a porosidade e a mobilidade da linha que separa a sociedade civil do Estado. O aprofundamento desta questão estará baseado nas premissas de autores como Timothy Mitchell. No terceiro capítulo “Em construção: experiências de tempo-espaço em áreas de intervenção” lança-se um olhar sobre as noções de temporalidade e espacialidade que são desenhadas em Paraíso Azul e Recanto Feliz com a chegada da proposta da segunda etapa do projeto de intervenção. O primeiro eixo de análise, “Os caminhos de vida, os mapas e as plantas”, diz respeito à apropriação do espaço empreendida pelo Estado e pelos moradores. De que modo estas áreas são descritas? Como os moradores constroem o seu caminho de vida? Estes são os questionamentos que irão nortear esta seção. As ideias de Ingold e de Slavin, sobre as experiências de construção do lugar pelos atores sociais em seu cotidiano, e as considerações de de Certeau sobre as distintas formas de mirar o espaço, empreendidas pelo caminhante e pelo voyeur, 32 funcionam como apropriadas fontes de descrição e análise do fenômeno em questão neste estudo. A próxima seção que compõe este capítulo, “Em tempos de intervenção...”, gira em torno das três lógicas temporais que se atravessam nestas duas porções da cidade: o tempo do projeto de habitação, o tempo de Paraíso Azul e Recanto Feliz (tempo de moradia) e o tempo de espera. O objetivo é caracterizá-las e identificar em que ponto elas se tocam e em quais se afastam, a partir da experiência etnográfica e das narrativas dos moradores destas duas áreas. Este trabalho então representa o esforço de construção de um ponto de vista, que não é o único possível para a análise dos fenômenos que compõem esta investigação. Sei que cada pesquisador poderia começar este estudo de um modo diverso do que ora apresentei, até porque o próprio ato de narrar, compreender e organizar os eventos, traz um recorte que vai sendo modelado pelo pesquisador no percurso da pesquisa. Devo assinalar como é inquietante este exercício de tentar descrever os imponderáveis que se apresentam nas entrelinhas das experiências. Porém, talvez seja esta uma das funções de uma pesquisa: fazer com que os momentos perdurem no tempo através do registro das lembranças. Não posso negar, ainda, que quando se narra uma experiência vivemos novamente, talvez de um outro jeito, com os olhos do presente e não do passado, por isso há sempre uma dimensão de atualização das lembranças, dos itinerários, eles não permanecem intactos. Esta pesquisa descreve este processo de construção de itinerários, de descobertas de possibilidades. Narra o meu encontro com outros personagens, os moradores de Recanto Feliz e Paraíso Azul, não somente as minhas experiências, mas também as destes atores sociais vão estar impressas nestas páginas. São suas impressões que quero também assinalar para que possa fazer sentido o caminho analítico aqui percorrido, que é orientado por algumas noções como projeto, fiscalização, moral, tempo e espaço. Noções que contornaram a cena destas duas porções da cidade de Salvador. A discussão aqui proposta não se restringe ao campo da sociologia urbana, mas toca questões e problemas nas áreas de política, antropologia e urbanismo. Isso 33 sugere uma tentativa de traçar novos diálogos com especialistas de outros campos e estimular desdobramentos desta pesquisa que iniciei. Mas, não avancemos muito, por ora, nestas discussões, vamos primeiro aos eventos, ao ingresso no universo das experiências. 34 CAPÍTULO I DECALCANDO PROJETOS: NOTAS DO COTIDIANO O “mundo” dos projetos é essencialmente dinâmico, na medida em que os atores têm uma biografia, isto é vivem no tempo e na sociedade, ou seja, sujeitos à ação de outros atores e às mudanças sócio-históricas. (Velho, 2008) Era a primeira quarta-feira do mês de outubro, mais um dia de reunião em Paraíso Azul e Recanto Feliz. Já havia passado uma semana da aprovação do projeto da segunda etapa pela Caixa Econômica Federal e os comentários sobre a requalificação ainda aqueciam as ruas e becos, pipocando, aqui e ali. Aqueles que antes não costumavam ocupar as cadeiras nos dias de reunião, agora caminhavam até a sede da Associação de Moradores, na tentativa de saber mais sobre o que estava para eles reservado no projeto. Este movimento trazia às conversas que se desenrolavam entre o “público cativo” da Associação, aqueles que rotineiramente compareciam as reuniões, um certo tom de acusação e suspeita. Durante o percurso até a Associação um clima de ansiedade ia se desenhando, não só para Dona Carmita, Seu Zé e Chiquinha pernambucana, antigos moradores destas duas porções da cidade. Em certa medida também me senti tomada de assalto por esta sensação. A aprovação significava uma ruptura com uma certa lógica temporal que havia ganhado terreno desde a conclusão da primeira etapa em 2007, o “tempo de espera”14, em função do qual se organizava uma série de situações ritualizadas que povoavam o cotidiano destas duas áreas. No decorrer do caminho até a sede a ansiedade abria espaço para fazer vir à cena outras experiências: alegria, medo, surpresa, tristeza. A notícia da liberação do projeto não veio acompanhada por um conjunto homogêneo de emoções. Cada emoção experimentada indicava um diferente modo de projetar o amanhã, que agora era atravessado pelas propostas de intervenção. 14 Explorarei com mais detalhes estas noções de temporalidade que aparecem no cotidiano de Paraíso Azul e Recanto Feliz no capítulo III, “Em construção: experiências de tempo-espaço em áreas de intervenção”. 35 Enquanto caminhava com os moradores, perguntando sobre suas expectativas no que diz respeito ao projeto de requalificação, era comum ouvir frases como estas: “Eu quero é meu vilage”; “o vilage hoje se for num lugar bom, frente de rua, tudo direitinho é mais vantage o vilage, eu se tiver oportunidade de pegar um vilage frente de rua pra mim, eu vou pegar um”; “Eu sempre tive vontade, era uma vontade que eu tinha de morar ni apartamento, até mesmo pelo local, a altura”; “eu quero morar num apartamento acho que vai ser muito prazeroso, tá morando no alto assim, vendo todo mundo assim, eu acho muito bom morar em apartamento...”; “Eu quero ficar aqui no meu barraco mesmo, porque essa prestação deste negócio de vilage e apartamento quem é que aguenta?”; “A minha casa não vai derrubar, ela vai ser reformada e eu vou ficar aqui com meus vizinhos que são tudo maravilhoso e eu quero é ficar aqui mermo”; “Minha preocupação é meu comércio, eu quero ver como tudo isso vai ficar”. Estas respostas não vinham isoladas, mas acompanhadas de um quadro motivacional. Ao responder a pergunta indicava-se uma direção de sentido, na maioria das vezes, se remetia ao delineamento de uma teia de antecipações dos cursos de ação e de táticas de tomada do futuro que eram efetuadas em correspondência com um certo leque de situações que se esboçava. A premissa que assinala que o ator se posiciona entre possíveis linhas de ação é a base para se pensar em projeto, categoria que guiará o caminhar deste capítulo, que versa então sobre este mundo dinâmico dos projetos. As duas seções que o compõem apresentam de maneira mais aprofundada aqueles que nas narrativas dos moradores roubaram a cena: os projetos de morar no vilage e no apartamento. Ao trazer à baila esta noção de projeto se conduz o itinerário investigativo dos estudos sobre os projetos de habitação popular para uma outra direção, diferente daquela em que costumam se situar, entre o par eficácia e eficiência. Isso não significa cair em profundo subjetivismo porque, como acentua Velho (2008), o projeto é decalcado dentro de um campo de possibilidades, marcado pelas insígnias da cultura e da história. Quando falamos em projeto não estamos nos referindo a um fenômeno estritamente interno, subjetivo, mas em uma ação à vista, que é elaborada a partir de uma teia de experiências, de códigos compartilhados que ganham sentido nas interações. Pensar na categoria projeto significa aqui compreender como os atores decalcam e elegem fluxos de ações a partir de certos contextos de práticas que se apresentam, ou seja, como respondem às solicitações do 36 mundo vivido. Vamos prosseguir então com este ponto articulando esta noção à minha experiência no campo. As propostas de intervenção da segunda etapa de requalificação de Paraíso Azul e Recanto Feliz pareciam reconfigurar o campo de possibilidades dos atores, polarizados por projetos que ora se ajustavam, ora se contrapunham, aos seus projetos anteriores. Estes projetos anteriores viravam uma espécie de pano de fundo, onde o passado informava o presente e este escorregava em direção ao futuro. O presente não aparecia como uma unidade isolada, já que a cada momento era impregnado daquilo que já se deu e daquilo que ainda ia se dar, aberto aos seus horizontes temporais. Como assinala Velho (2003), isso demonstra que a ação de projetar tem uma dimensão temporal e contextual que vai sendo atualizada. Atravessados por esta dinâmica os projetos se modificavam, por vezes eram substituídos por outros, estavam sempre em um movimento, que articulava conteúdos sem dissolvê-los, e que guardava uma intencionalidade. Projetar não é, então, estar diante de alternativas fechadas, já que o ator não possui de antemão um conhecimento acabado, com regras e fins explicitamente claros. No curso deste processo novas experiências são acrescentadas ao seu repertório, outras situações ganham cores. O ator que iniciou este exercício de imaginação que é o projeto, assim como este último, já não segue sendo igual a quando começou. Nesta medida, quando se pensa em projeto não se pode perder de vista a dimensão espontânea da ação. Sobre esta questão da criatividade da ação Joas (1996) vai nos dizer que nenhuma ação é totalmente prevista, há sempre um quê de novidade que escapa, um potencial para transformação. Apesar da nova orientação das linhas de ação que por ora se anunciava com a intervenção, este processo não se dava de modo aleatório, fantasioso, já que a configuração dos contextos de práticas impunha seus limites. Talvez seja preciso neste momento marcar a diferença entre projeto e a mera fantasia, distinção que farei à luz das premissas de Schutz (1974). Este exercício é importante porque sinaliza como os atores de Paraíso Azul e Recanto Feliz constroem, negociam e avaliam sua tomada do futuro. A categoria projeto nesta perspectiva de Schutz é definida como uma tentativa de antecipação do futuro. Todo projeto se 37 direciona a um propósito e tem seus contornos marcados pela situação biográfica do ator, de onde decorrem os propósitos práticos a partir dos quais são formulados e selecionados os projetos; pela situação em que o ator se encontra envolvido e pelo acervo de conhecimentos que tem a mão. Ainda sobre esta questão Velho acrescenta que, “por mais esotérico e particular que seja, um projeto tem de se basear em um nível de racionalidade cotidiana em que expectativas mínimas sejam cumpridas” (2008, p.30). Já a fantasia não teria este compromisso com um objetivo que está ancorado em um campo de possibilidades, que tem seus traços demarcados, apesar de sempre trazer consigo horizontes abertos. Na fantasia, como nos acena Schutz (1974), o ator pode pensar que se cumpriram todas, algumas ou nenhuma das condições necessárias para efetuar seu desejo fantasioso. No script da fantasia cabem todas as respostas às solicitações do mundo vivido, cujos limites parecem frouxos e pouco imperiosos, “queda a mi arbítrio discernir lo que haya a mi alcance y determinar lo que está a mi poder. (Schutz, 1974, p. 90). A relação entre o que se espera, o que se projeta ter e as possibilidades que se circunscrevem nos contextos de práticas, também parece ser o ponto de Bourdieu (2001) ao discorrer sobre a ligação que se estabelece entre as expectativas subjetivas e as oportunidades objetivas, entre habitus e campo. Para Bourdieu (2001), a pleonexia, o desejo de ter sempre mais de que fala Platão, é uma exceção, já que sempre nos surpreendemos com o modo como ajustamos nossos desejos e expectativas às possibilidades coerentes com a posição que ocupamos no campo. Existe então uma compreensão prática, um senso do jogo trazido na pele, tomando de empréstimo a expressão de Bourdieu, que permite e organiza nossa experiência. A configuração desta relação, entre as expectativas e as possibilidades que se apresentam no cotidiano, ganha nas premissas de Bourdieu (2001) uma maior rigidez no movimento de análise. Isto porque deixa de lado uma certa noção de indeterminação, de ralo de possíveis, que aparece, por exemplo, quando Schutz (1974) articula a dimensão do projeto com uma outra categoria, a de campo de possibilidades, que pressupõem uma maior margem de manobra para o ator envolvido na ação. A própria noção de projeto já traz também, logo de saída, esta abertura, este horizonte de indeterminação. Quando Bourdieu (2001) relaciona o conceito de habitus, que sinaliza uma disposição para agir 38 incorporada, com o de campo, marcado pela disputa que gira em torno do capital e por uma estrutura de posição, é possível perceber as raízes de tal rigidez. Tentarei então, esclarecer em que medida isso acontece. Na base da ideia de campo está a noção de illusio (Bourdieu 1996; 2001) que assinala um envolvimento do agente nos jogos sociais. Esta noção pressupõe que nos engajamentos nas situações, não importa o que os agentes pensem que estão fazendo, nem seu objeto de desejo, o que importa é a verdade que os escapa: a disputa, a lógica subterrânea do jogo, determinante das práticas sociais, que não lhes é acessível porque poderia comprometer o seu envolvimento na ação. Bourdieu ao discorrer sobre a constituição da illusio vai nos dizer que “Os jogos sociais são jogos que se fazem esquecer como jogos e a illusio é essa relação encantada com um jogo que é o produto de uma relação de cumplicidade ontológica entre as estruturas mentais e as estruturas objetivas do espaço social" (Bourdieu 1996, p.140). Haveria aqui um reforço mútuo entre habitus e situação, ente habitus e campo, o que assinalaria a presença de uma teoria da reprodução. Os agentes ao desconhecerem os princípios e regras que estão no campo, o mantém. Bourdieu (1996) parece cair aqui em uma certa visada objetivista. Haveria então nesta analítica de Bourdieu (1996; 2001) um desprezo ao mundo vivido, que aparece nesta perspectiva como uma aparência, além disso, na medida em que Bourdieu (1996; 2001), de certo modo, objetiva o habitus, se distancia das discussões sobre os modos como o sujeito nas suas experiências mundanas se ajusta, incorpora e transforma a situação. Esta distância faz com que a noção de projeto seja perdida de vista neste itinerário analítico, já que pensar em projeto é também pensar em uma margem relativa de manobra e iniciativa que os sujeitos podem ter, é este movimento que permite pensar uma teoria da mudança e da criatividade. Compreender o que conta para os atores, seus sistemas de relevância que se constroem nos seus engajamentos práticos com o mundo não significa voltar para o subjetivismo porque este mundo vivido é social. Esta tendência de reduzir a prática ao que está fora dela, para além da compreensão do mundo vivido pelos atores é também localizada por Latour (2001) em sua metáfora do salto mortale, que se configura em uma apropriada fonte de descrição da questão que aqui queremos chamar atenção. Efetuar o salto mortale seria tentar explicar as práticas, o social, sem procurar mostrar 39 as mediações, sem perseguir os atores. Como alternativa a este modo de mirar o social, de tratá-lo como coisa, que só poderia ser explicada por um outro fato social, Latour (2001) propõe que se retorne ao sentido original de social, que seria seguir as associações, aqui o social aparece como um movimento. A preocupação da investigação latouriana está em ver como os atores constroem o mundo, uma vez que este último não estaria dado previamente, por isso faz-se mister então compreender o que é mobilizado na sua construção. Uma vez explicitados as nuances do movimento analítico sobre o fenômeno em questão, é hora de voltar aos contornos do campo, trazendo à baila a relação entre projeto e campo de possibilidades. Entre os moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz a racionalidade cotidiana, que Velho (2008) chama atenção, sublinha a ação de projetar com traçados sólidos. Não se ambiciona ter, na maioria das vezes, o que está distante das solicitações e possibilidades do mundo vivido. O desejo de ganho é contornado por uma margem mínima de possibilidade de ganho, e em consequência, o investimento e o esforço empreendidos para sua obtenção também encontram-se submetidos a esta lógica de ajustamento dos possíveis. Este efeito fica registrado nas narrativas dos vizinhos, Pedro e Zeuzito, respectivamente, cujas trajetórias são marcadas pelo envolvimento em movimentos sociais: Eu sou muito simples, moradia ideal contanto que tenha uma casinha igual a vilage, água, luz, bem terminadinha, cerâmica até o teto, nos banheiros, na cozinha, piso bem arrumadinho, pra mim é um moradia legal, não precisa melhor, por quê? ... Se eu exigi uma coisa melhor do que isso eu guento supri ela? Arcar com as consequências das necessidade que precisa conservar uma casa melhor do que essa? Eu não tenho, então pra que eu vou exigir uma casa melhor do que essa? Dois quartos, sala, cozinha, banheiro, bem arrumadinha, cerâmica, bonitinha, cerâmica até no quarto, na sala, cozinha até em cima, banheirinho, é isso... (...)Ter seu lar, sua moradia, independente de apartamento, vilage, ou até um barraco, você ter um espaço seu, acho que é importante, acho que você fica, vive melhor tendo um espaço, acho que é o sonho de todo ser humano, de qualquer pessoa é ter uma casa, uma moradia... Não tem que ser um palácio, 40 mas tem que ser um espaço seu, né? Que você pague o seu imposto15 que você sabe aonde você vai deitar, um endereço, você tem que ter um endereço, onde eu tô, pra onde eu vou, eu acho que a direção, a direção é a sua moradia né? E quando é sua mesmo, nossa! É um prazer enorme, é uma relação de paz, é uma identificação, né? isso é muito importante a moradia, para qualquer ser humano. Os projetos destes moradores tendem a estar enredados, ajustados ao campo de possibilidades que se apresenta nas tramas sociais. Quando Seu Zeuzito, 49 anos um dos diretores da Associação de Moradores, diz que a casa não tem que ser um palácio, chama atenção para o fato de como lhe parece fantasiosa esta projeção16. A capacidade de desejar sem correspondência com uma certa concretude da vida cotidiana vai perdendo espaço, no decorrer das propostas da segunda etapa, para a preocupação em responder as novas contingências que emergem como figura na gestalt. Neste jogo alguns objetivos são avaliados como condizentes com um certo ethos de classe, sendo então levados a cabo e, outros não. Este potencial para realização vai orientar a percepção das oportunidades e dos projetos. Mas, ao falar de classe abro um parêntesis para dizer que esta noção não é aqui entendida como um agir determinado. Como assinala Merleau-Ponty a classe, assim como a família e a religião “não são fatalidades 15 Este comentário que aparece em relação aos impostos é interessante, pois configura a moradia em relação direta com o Estado. Explorarei mais esta relação que os moradores estabelecem com o Estado no capítulo II em que falo da relação Estado/Sociedade Civil. 16 Não apenas esta projeção é avaliada como fantasiosa. Quando estava no campo ouvia com frequência a ideia de que o pobre não sabia lidar com dinheiro. Por isso pensar em ficar rico, ou ganhar na loteria, era uma projeção fantasiosa, como argumentava Seu Pedro, 77 anos, aposentado, no dia em que conversávamos sobre seus projetos de vida: “Porque, me desculpa, isso é uma opinião minha, ainda falo com ela (a esposa), às vez, com a turma assim: pô que bom ganhar na loto, mas ganhar na loto? Pobre vai ganhar na loto? Não sabe administrar nem o salário mínimo, fica doido, quando pega, o patrão (risos): oh Zé você tá ganhando um salário mínimo, a partir do mês que vem você vai ganhar 50 pau a mais, eu fico doido e já vai pro bar com aquele 50 pau e já não faz parte do salário mínimo, faz parte da cerveja no bar, entende? Então é a mesma coisa, o cara fica doido, não adianta ele... Oh é incrívi a pessoa que não tem estudo pode até ser inteligente, mas se não tem o estudo (...)”. Essa noção de justificação das desigualdades no Brasil em relação ao “ter estudo”, ao saber, é incorporada duplamente, tanto por estas camadas populares, como nos mostra Seu Pedro, quanto é empregada pelas camadas médias e altas para justificar o porquê da sua posição, neste último caso através da noção de mérito individual. Ver uma discussão mais aprofundada sobre estes tema em Jessé de Souza, no seu livro “ A ralé brasileira”. 41 que submetem o indivíduo do exterior, nem tampouco valores que ele ponha do interior. Elas são modos de coexistência que nos solicitam” (1994, p.487). Nesta perspectiva merleau-pontyana a classe não estaria fundada nos somas de rendimento ou na posição que o indivíduo ocupa em relação à dinâmica de produção, a classe é uma experiência vivida, um modo de ser que nos solicita respostas, ela não existe de antemão de modo objetivo senão como uma solicitação. A trajetória dos atores de Paraíso Azul e Recanto Feliz ganha consistência a partir da elaboração de projetos com objetivos específicos. Em tempos de intervenção a heterogeneidade entre eles parecia ganhar uma nova camada de cor. Vive-se agora com os olhos fixos no futuro. A ordem de congelamento da CONDER, que visava impedir novas construções e conservar estas áreas para desenvolver a segunda etapa do projeto de requalificação, não manteve na inércia as tramas do cotidiano, muito menos a ação de projetar. O tempo do projeto de habitação e o tempo da vida17 parecem não funcionar segundo a mesma lógica. Se o projeto de habitação busca racionalizar a vida, esta última, como resposta à tentativa de racionalização, mostra como sua dinâmica é mais complexa. A viabilidade que os projetos apresentavam dependia do jogo de interações que era estabelecido com outros projetos individuais e coletivos. Em Paraíso Azul e Recanto Feliz os projetos construíam itinerários e o seu decalque demarcava o contorno de um movimento de vida. Durante minhas incursões no campo percebi que estas duas porções da cidade encontravam-se cindidas pelos projetos. Havia aqueles que queriam receber os apartamentos dos conjuntos habitacionais; outros preferiam os vilages, e ainda tinha aqueles que queriam receber apenas a reforma de suas casas; alguns não queriam que a requalificação chegasse porque achavam que não possuíam condições de pagar as prestações das unidades habitacionais e, por último, existiam os comerciantes que queriam proteger os seus comércios, que em parte seriam deslocados para outros pontos dentro destas áreas. Devo sinalizar que os dois últimos projetos, o dos que não queriam a requalificação e o dos comerciantes, eram os mais questionados pela maioria dos moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz. 17 Sobre as noções de temporalidade que são tingidas nas tramas e Paraíso Azul e Recanto Feliz ver capítulo III “Em construção: experiências de tempo-espaço em áreas de intervenção”. 42 Este capítulo traz à cena então, dois destes projetos que foram sendo decalcados em Paraíso Azul e Recanto Feliz, o projeto de morar no apartamento e o projeto de morar no vilage, os quais movimentaram as tramas que se desenrolavam nestas duas porções da cidade. A seção a seguir versa sobre o projeto de morar no apartamento e as implicações que esta escolha apresenta. Falar de projeto é também falar de seus autores, descobri-los e identificá-los. É então, por esse motivo que se faz mister compreendê-los, encontrar os seus sentidos nas tramas que se desenrolam na vida cotidiana . 1.1 A disciplina do morador de apartamento Conjuntos habitacionais em Recanto Feliz18 O apartamento dos conjuntos habitacionais era visto como um sinal de prestígio para uma parte dos moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz. Aqueles que o incluíam 18 Logo nesta primeira imagem já chama atenção os diferentes projetos que são decalcados em Paraíso Azul e Recanto Feliz. À esquerda da foto, por exemplo, é possível perceber a figura de um cavalo na rua. O dono do cavalo fez uma espécie de alojamento para o animal na calçada. Depois de um certo tempo no campo percebi que o número de cavalos vinha aumentando, o que sinaliza um investimento, um esforço do dono para com a prática de criar estes animais. Ter um cavalo, morar em um apartamento ou em um vilage são projetos que dividem a cena nestas duas porções da cidade e que acenam para trajetórias de vida. 43 em seus projetos justificavam sua escolha dizendo que este tipo de moradia “era mais chique” e demandava uma certa preparação. Dito de outro modo, exigiria modificações no estilo de vida, o qual deveria estar mais afinado com este projeto de ascensão social. Era preciso então trabalhar sobre si19 para formar disposições, adotar disciplinas e gostos que contribuiriam para a formação de um certo tipo de pessoa, treinada para habitar este novo lugar de moradia. Tomava-se a si próprio como um campo de transformação. Há aqui uma espécie de prática ascética, ascetismo no sentido que Foucault (2004) chama atenção, de um exercício de si sobre si mesmo. Todo um campo de experiências que não existia anteriormente se abre a partir do delineamento deste projeto moral. O repertório de um morador de apartamento parecia assinalar uma certa distinção. Não seria adequado pendurar roupas nas janelas, ouvir som alto, deixar o lixo na frente de casa, brigar, ou fazer festas ou churrascos. Este sistema de práticas deveria estar encerrado nos barracos. No decorrer das minhas idas ao campo fui percebendo como esta frase de Dona Josina, diarista e antiga moradora de Paraíso Azul: “quando a gente mora no apartamento a gente não é mais favelado, a gente vira ex-favelado”, foi fazendo sentido. Era preciso então esquecer o modo de operar aprendido e cultivado, renunciar a si, corrigir-se para “esquecer a miséria e não ter saudade dela”, como afirmava e repetia Seu Firmino, 48 anos, morador de Paraíso Azul, para os seus vizinhos em um dos dias em que estive em sua casa. No apartamento um certo tipo de vigilância parecia ser solicitado do morador, havia uma inquietação em relação aos excessos. Para algumas pessoas de Paraíso Azul e Recanto Feliz o barraco, e não o apartamento, era o lugar por excelência dos excessos. Lá, como comentava Dona Josina: “você pode fazer o que quiser, se quiser ouvir som nas altura ouve, se quiser deixar sujo deixa, quando chove molha tudo mermo (...), se tiver que amanhecer o dia fazeno festa amanhece, cada um vive como quer”. Todavia, devo sinalizar que esta avaliação sobre o barraco gerava, por outro lado, uma certa discordância, por parte de outros moradores, sobretudo os evangélicos que ainda residiam nos barracos. Para este 19 Este movimento de pensar nas práticas nas quais a subjetividade é construída e não na subjetividade em si é uma questão foucaultiana. Ver Foucault em a Hermenêutica do Sujeito, 2004 e "A ética do cuidado de si como prática da liberdade". In: Ditos & Escritos V - Ética, Sexualidade, 2004. 44 grupo o barraco também era um lugar para trabalhar sobre si, para cultivar e desenvolver hábitos e virtudes. O conjunto de proibições, que acompanhava o projeto de morar no apartamento, desenhado em cada dia de visita ao campo, ganhou fôlego na narrativa de Dona Marilda, 48 anos, uma diarista e vendedora da Avon com quem por vezes percorri Recanto Feliz. Dona Marilda em uma de nossas longas conversas tentou me explicar por que não era adequado fazer festas como reveillon, Natal ou aniversário no apartamento. Seu argumento era que, além do apartamento ser pequeno, os anfitriões não poderiam ficar com seus convidados até mais tarde por conta do barulho que incomodaria os vizinhos. A moradora concluiu seu discurso dizendo que: “é por isso que quem tem apartamento e quer fazer festa tem que alugar um espaço fora”. Esta ideia vinha acompanhada da proposta de adoção de novos gostos, de um outro modo de lidar com as coisas. Significava a travessia do barraco para uma nova experiência. As proibições que eram traçadas em relação ao apartamento impregnavam formas de viver, desenvolviam-se em práticas e receitas que eram passadas, aperfeiçoadas e modificadas, atravessando Paraíso Azul e Recanto Feliz de ponta a ponta. Este movimento em que se efetuavam trocas, comunicações e contribuíam para a formação de um sujeito moral, acenava para a elaboração de um saber que brotava a partir da tentativa de dar conta de questões práticas, de problemas que se tornavam figura quando aparecia na situação o projeto de morar no apartamento. Em suas investigações sobre o mundo do trabalho na Argélia, sobre a tensa relação que se estabelecia entre disposições econômicas e capital econômico, Bourdieu (1979), em uma análise que se inicia no apartamento do proletariado urbano argelino, também acentua a formação de uma certa ligação entre o apartamento e a formação de um sujeito moral. O apartamento seria então: (...) o elemento de um sistema e, a esse título, exige daqueles que devem ocupá-lo um certo estilo de vida; supõe e admite a adoção de um conjunto de práticas e de representações (...) ele aparece (...) também como um espaço estranho que é preciso desbravar, humanizar, isto é, possuir, e que apresenta resistência. (Bourdieu, 1979, p. 22-23) 45 A proposta do apartamento além de delinear um novo tom de vida, traz consigo exigências e dificuldades por vezes intransponíveis, as quais pareciam estar ausentes na moradia atual, tal era o conjunto de táticas empreendidas para superá-las. O condomínio, a prestação do imóvel, a água, ou a luz20 são algumas das preocupações que emergem e que fazem parte deste contexto. Além de ter que cumprir com as novas exigências, para aquele que projetava morar em um apartamento a performance era fundamental. Era preciso mostrar para os outros personagens que compunham a cena de Paraíso Azul e Recanto Feliz o quanto os antigos hábitos haviam ficado para trás. Qualquer deslize girava as peças do motor das fofocas, que se espalhavam com velocidade, aquecendo o clima das ruas e becos. O círculo da fofoca parecia ser o tempero da vida cotidiana, sem ele as tramas perdiam um pouco do seu sabor. Os boatos revelavam as crenças e normas coletivas que animavam as atividades nestas áreas, havia uma seleção dos eventos que mereciam ser alvo dos mexericos. Entre os eleitos, alguns eram tingidos com fortes cores enquanto outros eram mantidos em tom monocromático. Um dos principais ingredientes que fazia circular o motor da fofoca era qualquer sinal da falta de disposição para manejar o repertório que chega com o apartamento. Era necessário então se ajustar às regras e hábitos esperados para se ter a convicção de estar pronto. Pressupõe-se aqui um tipo ideal de morador para um certo modelo de moradia, como narram respectivamente Seu Pedro,77 anos, aposentado e Dona Marilda: (...) nós cansa de falar assim: dependendo da pessoa não adianta dar apartamento, nem vilage, nem um palacete porque ele sai do barraco se ele não tiver boa conduta o procedimento vai ser o mesmo lá dentro do apartamento, não adianta nada... Às vezes sente bem só dentro de um barraco, nem que for pra ele olhar lá fora e tá vendo um carro, mas ele se sente bem ali, põe ele dentro de um apartamento ele vai se sentir mal. Uma por causa do ambiente que ele não tá acostumado, o regime é outro, entende? E ele tem que cumpri se não ele é repreendido. (...) eu já morei em apartamento, tem uma certa disciplina, tem um regulamento interno, que 20 Com as propostas da requalificação uma das pautas de discussão que veio a cena foram os chamados “gatos”, que são ligações clandestinas de água e luz, uma prática frequente na região. 46 tem que funcionar e é obrigado a funcionar e a pessoa que vive igual a nós vivemo aqui, que cada um fala o que quer, cada um faz o que quer, se der pra joga o lixo ali, se der pra mim recolher e jogar na lixeira hoje bem, se não der fica ali, dentro do apartamento não pode acontecer esse tipo de coisa, isso eu tô começando pelas mínima as coisa do regulamento interno que tem num prédio. (...) Morador de barraco não tem disciplina pra morar dentro de apartamento, em prédio. Você no apartamento você vai ficar com o som ligado até duas horas da manhã em última altura pra incomodar o vizinho de baixo? Não pode. Você vai poder botar uma caixa de som no meio da rua? Não pode. É...vai fazer um churrasco botar uma churrasqueira pra tá poluindo o prédio todo, os vizinho? Vai trazer meio mundo de carro de reciclagem e garrafa e jogar aí a toa no chão? Não pode, é apartamento. Vai trazer um bucado de menino pra ficar subino e desceno, Uhhh (grito), pra ficar incomodando os vizinho? Não pode. Já na casa, no barraco, nego sobe, nego quebra, nego bate pá pá pá no meio da noite, nego arrasta panela, nego arrasta, briga, bate por tá lá e em apartamento a gente tem que ter mais educação. Já chama apartamento, incomoda, é fechado, incomoda os vizinhos. Lateral de um conjunto habitacional em Recanto Feliz. 47 Quando ouvia narrativas com este enredo questionava qual seria o eixo que baseava estas considerações de conteúdo moral que eram constantemente enunciadas. Identifiquei então, que eram as comparações a fonte destes juízos. As pessoas de Paraíso Azul e Recanto Feliz ao apontarem as práticas dos moradores de apartamento que consideravam como um sinal de despreparo e de falta de “espírito de crescimento”, como expôs uma vez Seu Francisco, 46 anos, antigo morador de Paraíso Azul, em um dos dias da reunião de quarta-feira, utilizavam, na maioria das vezes, como contraponto o modelo de moradia da classe média que circundava aquela região. No decorrer das narrativas as comparações apareciam na seguinte ordem: “Vê se você vê esse negócio de roupa pendurada na janela nestes prédio aqui dos barão? Não tem não porque não pode” ou “ Som alto no apartamento não pode, eles tão fazeno igual como era nos barraco, mas aqui é outra história, veja como é nestes edifício chique aqui do Costa Azul, eu sei porque já trabalhei lá como diarista”. Este fenômeno indicava que havia uma troca contínua entre estes cenários sociais que operava no cotidiano. Seguindo seus rastros chegamos então ao seu ponto de partida: a história de Paraíso Azul e Recanto Feliz, que se desenvolveram também ao longo dos anos como comunidades formadas por porteiros, zeladores, vigias, que trabalhavam nos edifícios do Costa Azul. A chegada dos edifícios ao bairro se configura como um dos fatores de crescimento destas áreas. O fato dos moradores destas porções servirem de mão de obra para a classe média do bairro permite este processo de apropriação e resignificação dos valores e das práticas. A tentativa de se aproximar dos códigos deste entorno se processava de modo tão acentuado que é comum encontrar, durante uma caminhada por estas duas áreas, conjuntos habitacionais que trazem nomes parecidos com os condomínios fechados que os circundam, por exemplo, Dunas de Alah e Horizonte das Dunas, fazendo referência ao Condomínio de classe média Parque das Dunas. Os muros simbólicos e espaciais parecem ter aqui suas fissuras. A aproximação dos modelos das classes populares das classes médias não ganha relevo apenas na cena da habitação, ela atravessa outros domínios da vida social. Em sua investigação sobre a classificação social e a gestão da saúde em hospitais da rede pública do Rio de Janeiro a antropóloga Valéria Corossacz (2009) descreve como as mulheres das classes populares são atentas e sensíveis às 48 práticas e aos usos do corpo das mulheres das camadas médias. Logo práticas como a esterilização, parto cesáreo, cirurgias plásticas (como a de redução das mamas) e ultrassonografia pré-natal passam, no decorrer dos anos, a serem desejadas e a compor o repertório de mulheres das classes populares. Fachadas de dois conjuntos habitacionais em Recanto Feliz. Fachada do Condomínio de classe média Parque das Dunas. 49 Não somente esta troca entre Paraíso Azul, Recanto Feliz e seu entorno, que tem suas raízes na história destas comunidades, confirma estes juízos morais. A CONDER também ficará responsável de transmitir, em suas participações nas reuniões da Associação de Moradores, o novo conjunto de hábitos, o que seria ou não adequado fazer no interior das novas habitações. A habitação passa a ser então, como já sinaliza Beguin (1991) em suas considerações sobre as maquinarias do conforto, mais um domínio da intervenção pública, na medida em que as práticas que aí se desenrolam passam a ser reguladas, disciplinadas. Uma vez objeto da ação do Estado o lugar de moradia, sobretudo das classes populares, é reduzido aos seus dados mais técnicos e a normas de habitabilidade que desconsideram a dimensão sensível para pôr em relevo a construção de um ideal de conforto. Todavia, a ideia de conforto não chega sozinha, ela vem acompanhada da outra face da moeda: a noção de desconforto. Construí-la parece ser uma condição sine qua non para que o conforto opere como uma “disciplina suave”, para colocar a questão nos termos de Beguin (1991). Em Paraíso Azul e Recanto Feliz foi preciso dizer o quanto a antiga casa é desconfortável e insalubre, quanto as práticas que aí se desenrolavam eram inadequadas, para por fim apontar como estas más condições de habitação contribuem para a diminuição do capital social e moral dos moradores. Dito de outro modo, como estes ambientes insalubres se configuravam em um entrave para o desenvolvimento moral dos moradores. O atento olhar disciplinador se pulveriza por toda parte, a regulação não precisava ser apenas feita pelos técnicos do Estado, já que existiam agora outros olhos treinados para identificar o que fugia ao controle. São os vizinhos dos conjuntos habitacionais, os transeuntes dos passeios, os moradores dos vilages e do barraco, que fiscalizavam21 de suas janelas e das lajes as práticas domésticas e avaliavam os projetos que eram desenhados e enunciados nas conversas. O projeto, como lembra Velho (2003), está no âmbito da intersubjetividade, pressupõe a existência de um outro com o qual se negocia a realidade, se configurando então, em um instrumento de comunicação. 21 O tema da fiscalização será aprofundado no capítulo II, “Fiscalizar é tudo, vamos viver em cima desta tecla”: discutindo o papel dos atores sociais no processo de implementação de um projeto de habitação popular. 50 É exatamente esta sua face pública o seu eixo de ligação com os dilemas morais. Na teia social nem todos os projetos são avaliados do mesmo modo ou suscitam as mesmas emoções, podendo ser definidos como legítimos, ambiciosos, impróprios ou desleais. Em Paraíso Azul e Recanto Feliz vender ou alugar o imóvel, na maioria das vezes, não é visto como um projeto legítimo, porque iria de encontro ao histórico de luta destas comunidades, a uma espécie de projeto coletivo. Um caso que é tido como emblemático para os moradores e que ilustra esta premissa é narrado a seguir por Seu Zeuzito que enquanto discorria sobre o evento, assinalava seu descontentamento: Tem uma menina... ela morava em uma situação muito difícil e fizemos um sacrifício, a primeira etapa foi só barracos e a segunda etapa são casas minúscula, e a dela era tão pequenininha que não dava nem pra ela se estirar toda e a gente se compadeceu com aquela situação, teve várias reuniões para que ela fosse contemplada e ela não levou nem três meses, vendeu, comprou um vilage e foi ser secretária no mesmo apartamento no qual ela era dona, foi trabalhar lá de empregada doméstica no apartamento que era dela, que foi dela, não é isso... e aí pra gente isso foi muito triste porque, doloroso porque não é assim... e aí com a comunidade toda, começou a achar um absurdo, rir, falar que ela tava louca, ela levou só quatro meses e acabou saindo e procurando outro emprego. Isso pra mim foi, assim o cúmulo do absurdo, eu acho que não é assim, as pessoas precisam se programar pra vida, pra tudo, e ela pagou um preço alto porque ela não tava preparada pra aquele momento, então ela vendeu e depois a própria pessoa pra quem ela vendeu foi a patroa que ela arrumou, ela continuou trabalhando ali. Quando eu ouvi aquilo eu não tava acreditando, mas foi realidade, então são tantos outros, mas esse foi o caso que mais me marcou. Hoje ela mora na comunidade, né? Num vilage que ela nem terminou, não deu nem piso ainda e o apartamento dela, então ela vê de longe o que era dela, o sonho, não sei também se ela tá feliz onde ela tá hoje, né? Não sei... A decisão de vender gerou para esta moradora uma série de sanções simbólicas por parte da vizinhança e lhe conferiu o lugar de outsider. Pressupõem-se aqui nesta narrativa uma espécie de disposições, de estilo, que estariam ausentes nesta mulher, que 51 lhe impediriam de responder de modo adequado aos contornos da nova situação, a morada no apartamento. Seu sistema de práticas e o estoque de conhecimentos que trazia a mão, pareciam para Seu Zeuzito, não estarem ajustados com a nova configuração. Outros casos também ativavam o motor da fofoca e eram alvo de censura em Paraíso Azul e Recanto Feliz. Entre os mais relatados estavam o de um homem que vendeu seu apartamento para comprar um carro, que acabou caindo em uma Lagoa, hoje aterrada, e que agora dorme nas lajes dos vizinhos e o que foi narrado por Antonio, 26 anos, membro da igreja Assembleia de Deus, no dia em que Dona Marilda me levou na sua casa: (...) tem uma outra pessoa que vendeu por conta própria, primeiro porque ele era viciado e ... aí acabou vendendo o apartamento e...na época achou que era um dinheirão, né? O pessoal chegou botou o dinheiro assim, ele não aguentou ver aí vendeu. E aí foi morar em outro bairro, mas só que aquele dinheiro ele não...não se aprumou com aquele dinheiro. Acabou pegando o dinheiro e gastando todo assim com negócio de bebida, droga, inclusive comprou até uma moto véa também e aí do meio pro fim entregou tudo pros vício, inclusive até a moto também...acabou vendendo também é... pra pagar é... A dívida que tinha feito. E hoje, às vezes, a gente sempre encontra ele aí na rua parecendo mesmo um mendigo é... A situação que tá bastante... Praticamente entregue, não tem uma moradia mais, não tem ... E voltou pra aquela vida, o dinheiro acabou e aí a gente sempre encontra ele aí pra cima e pra baixo sem ter um bom local pra morar porque o que tinha não soube aproveitar e agora tá nessa situação. Durante as reuniões de quarta-feira estas histórias roubavam a cena, havia sempre alguma versão inédita a ser contada. Os boatos sobre os resultados destas vendas corriam Paraíso Azul e Recanto Feliz de ponta a ponta. Todos pareciam ter opiniões a dar sobre os episódios, e ao descrevê-los o tom era, na maioria das vezes, de censura e acusação. Este tom rendeu minha atenção de tal modo que nas minhas idas ao 52 campo passei a perguntar mais sobre o que havia acontecido com aqueles que venderam os apartamentos na primeira etapa do projeto. O curioso é que as histórias que os moradores narravam eram em grande medida de pessoas que “não se aprumaram com o dinheiro da venda”: Pessoas que estavam morando em bairros como Cajazeiras, São Marcos, São Cristovão, espaços que, segundo os moradores, não gozavam do “prestígio” 22 do Costa Azul, ou pessoas que haviam perdido todo o dinheiro em jogo, drogas, negócios mal sucedidos e, voltaram para Paraíso Azul e Recanto Feliz, como eles costumavam dizer, “com as mãos abanando”. Depois de ouvir tantos casos, perguntei para alguns moradores se eles não conheciam alguém que vendeu o apartamento e tinha conseguido fazer um bom negócio com o dinheiro. O silêncio marcou por instantes aquele diálogo, até que foi rompido por “um sim” pronunciado de modo que se não estivesse ao lado daquele que o emitiu não conseguiria ouvir. Mesmo assim para ter certeza da resposta decidi perguntar de novo, dessa vez ouvi um sim que saiu sem titubeios. Esperei então pela narração do episódio e para minha surpresa não apenas um, mas vários deles foram contados. Havia, por exemplo, a história de um homem que vendeu, voltou para o interior, comprou lotes de terra e alguns animais; a de uma mulher que comprou uma casa mais barata em outro bairro e montou com o resto do dinheiro um negócio, havia ainda o episódio de outra antiga moradora que também comprou uma casa em outra área da cidade e em cima construiu um andar para viver da renda do aluguel. Após ouvir estes casos passei a me questionar por que eles não faziam parte do conteúdo do circuito das fofocas. Assim como nas descrições de Elias (2000) sobre a estrutura do círculo de mexericos da Zona II de Winston Parva, as fofocas em Paraíso Azul e Recanto Feliz eram uma espécie de cimento social, se configuravam em um instrumento de coesão social e mantinha acessa a chama de projetos coletivos, como o da permanência no Costa Azul. Aquilo que ameaçava os laços de solidariedade ficava de fora do seu raio de ação, saia da pauta. 22 Esta relação de hierarquia e classificação dos espaços urbanos também é sinalizada por Velho (1989) em a Utopia Urbana, em que investiga a importância de morar em Copacabana. 53 Além das fofocas com um tom “elogioso, de apoio”, para usar os termos de Elias (2000), que ressaltavam a performance de algum morador considerado um exemplo a ser seguido pelos demais por reafirmar as crenças e normas aceitas coletivamente, o motor da fofoca era aquecido, sobretudo, por eventos que contrariavam as regras e por isso eram objeto de censura e acusação. A discussão acalorada, o frenético ritmo com que estes casos eram contados e o tom usado para tal fazia crescer um sentimento coletivo. Os moradores pareciam se unir em torno de um certo objetivo: rejeitar, mesmo que sutilmente, aqueles que desrespeitavam as regras, os desviantes. Isso mostra que nestas duas porções da cidade de Salvador, assim como para os “aldeões” de Winston Parva: As fofocas de modo algum tinham apenas a função de apoiar as pessoas aprovadas pela opinião dominante e consolidar as relações entre os moradores. Tinham também a função de excluir pessoas e cortar relações. Podiam funcionar como um instrumento de rejeição de extrema eficácia. (Elias, p.125, 2000) As histórias encenadas pelos outsiders, que escapavam as normas e crenças aceitas coletivamente traziam à baila ainda uma outra questão: quando projetos individuais esbarram em projetos coletivos tinha-se a sensação de que os primeiros são menos merecedores de efetuação do que os segundos. Quando se tratava do projeto coletivo de permanência no Costa Azul havia pouco espaço para a individualização, para o esboço de um projeto do morador, que fosse de encontro ao projeto coletivo. Entretanto, não se pode perder de vista, como adverte Velho (2003), que os projetos coletivos não são experienciados de modo homogêneo por aqueles que estão envolvidos pelo seu manto. Sua interpretação é singular, depende de elementos como a trajetória do ator e dos outros projetos com os quais este projeto coletivo interage no campo de possibilidades que se esboça. Esta premissa nos leva a pensar que o palco dos projetos parece ser um cenário de disputa e interação, uma vitrine diversa que a depender do contexto de prática e da biografia do ator, terá eleita uma de suas peças, um projeto roubará a cena. Saindo do universo do apartamento e da análise de suas nuances permitam-me agora discorrer sobre um outro personagem dos projetos dos moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz: o vilage. 54 1.2 “Eu quero é meu vilage” Vilage em Recanto Feliz Em Paraíso Azul e Recanto Feliz o vilage23 aparecia nas narrativas não somente como um lugar de moradia. Era mais do que isso, significava a possibilidade de planejar o futuro da família, de garantir a casa dos filhos, dos netos, permitindo assim uma continuidade. Ao contrário do apartamento, que não podia ser modificado24 devido à estrutura da sua construção, que os moradores chamam de parede sobre parede25, o 23 Durante o tempo em que estive no campo percebi que O próprio nome “vilage” já tem um senso aspiracional também, de se separar da noção de uma simples casa-geminada. 24 A vontade de modificar a moradia transcende uma questão de classe, na medida em que não é um aspecto específico das camadas populares, senão também uma prática dos segmentos mais abastados da sociedade. Estes não só alteram o seu território particular, a sua moradia, mas também o espaço público através da construção de guaritas, muros e áreas sistematicamente gradeadas e cercadas, que ultrapassam o limite do privado e incidem sobre o público, impedindo assim a livre circulação dos transeuntes nas ruas, que agora passam a ter donos, alimentando a formação dos guetos voluntários, como nos lembra Bauman (2003), na busca por uma segurança ameaçada por um inimigo invisível. Ver Bauman (2003) e Teresa Caldeira (2000). 25 A estrutura do imóvel é de alvenaria de blocos de concreto estruturais. A economia, a resistência dos blocos e a possibilidade de um revestimento mais uniforme contribuíram para a adoção deste tipo de 55 vilage podia ser ampliado, no seu perímetro havia espaço para fazer o chamado “puxadinho” e a sua estrutura suportava ainda a construção da laje. O projeto do vilage parecia acompanhar aqui, de certo modo, o ritmo das famílias que vão ocupá-lo, que mudam, ampliam-se com a chegada de novos membros, assumem outras funções e interesses que ficam desenhados nas mudanças que vão sendo efetuadas no lugar de moradia. O potencial de ampliação agregava, para os moradores, mais uma vantagem ao vilage: a possibilidade de se tornar uma nova fonte de renda. Vamos então prosseguir com este ponto. Por vezes, os moradores comentavam que o objetivo de fazer estas ampliações, o puxadinho e a construção de um novo andar para o vilage, era ter espaços para alugar. As casas de aluguel eram vistas como uma fonte de renda segura, já que o Costa Azul seria, de acordo com os moradores, uma região com uma localização privilegiada, perto do mar e assistida por equipamentos públicos tais como escolas ou posto de saúde. Enquanto estava no campo ouvia com frequência relatos sobre moradores que haviam recebido as unidades da primeira etapa e fechado contrato de aluguel por valores que giravam em torno de 250 a 450 reais mensais. A notícia que circulava no moinho das fofocas era que a procura pelos imóveis era intensa, sobretudo pela classe média. Quando perguntava aos moradores se sabiam quem eram estas pessoas que alugavam, eles respondiam que tinha enfermeiras, professores e “até advogados”, como fez questão de pontuar Dona Francisca, 62 anos, vendedora ambulante, uma antiga moradora de Recanto Feliz. O aluguel, ao contrário da hipótese que havia criado a princípio, era avaliado por grande parte dos moradores como um projeto legítimo. Esta nova configuração me instigou a querer compreender o porquê desta avaliação. Antes de prosseguir com a questão, devo mencionar em que se baseava minha hipótese anterior. Inicialmente pensava que as pessoas que alugavam suas unidades, vilages ou apartamentos, saíam de Paraíso Azul e Recanto Feliz, mas o que os moradores me contavam era que muitos alugavam e iam morar com familiares (pais, filhos) que também haviam recebido as unidades, ou, então, alugavam outras construção pelo Governo do Estado. Os blocos estruturais, além de exercerem a função da vedação, também são destinados à execução de paredes que constituirão a estrutura resistente da edificação, podendo substituir pilares e vigas de concreto. É exatamente este fator que impossibilita as modificações, já que elas poderiam comprometer toda a edificação. 56 casas mais baratas nestas áreas. Alugar os imóveis não ia de encontro ao projeto coletivo de permanência, todavia poderia significar uma tática de tomada do futuro ou ainda uma tática de subsistência, como fica assinalado nos trechos destas narrativas de Seu Neto e Dona Marilda, respectivamente: (...) tem pessoas que aluga, pega, tira 150 de 450 para alugar uma casa para morar e sobra 250, né? Então 250 reais você já não morre de fome, pelo menos o feijão com farinha e carne você vai ter, não vai ter é (risos) aquela comida boa, mordomia tal, entendeu? Mas, de fome você não morre e é isso aí. As pessoas aqui alugam porque eles acham melhor alugar porque no aluguel eles acham que eles ganham mais dinheiro, alugam (...) eles alugam o apartamento ou o vilage, e volta, como tem um menino aí em cima, ele alugou o vilage dele e alugou o barraco, alugou o vilage por 200 reais e alugou um barraco por 100 pra morar o lucro é 100 real, eles aluga (...) aí bota aquele dinheiro no banco ou bota um ponto de negócio e fica só na renda todo mês . No jogo de possibilidades que vem contornar o projeto de morar no vilage, além do aluguel, também ganha relevo uma outra prática: o comércio doméstico. Ao descer e subir os sinuosos becos e ruelas de Paraíso Azul e Recanto Feliz é comum encontrar em diferentes formatos e cores o verbo vende-se nas portas e janelas das casas. Geladinho, doces, folhas para chá, fósforo, cachaça, condimento, cigarro, cerveja, rifas, produtos da Avon e da Hermes, são os artigos que aparecem com maior frequência nas vitrines domésticas. Por vezes, ofertas inusitadas, como a de uma piscina, também entram em cena. Esta rede de micro-comércios traz um clima de efervescência, direciona um movimento intenso de idas e vindas, possibilita encontros entre os moradores e impulsiona uma espécie de economia que transita entre a fronteira do formal e do informal. A moradia assume então uma multifuncionalidade, é o lugar em que se trabalha cotidianamente para garantir a sobrevivência. Seus cômodos são adaptados para acomodar esta nova função, quartos viram depósitos, janelas passam a ser vitrines e a sala se transforma em porta de entrada dos pequenos comércios. 57 Entre aqueles que tinham ou desejavam ter um comércio doméstico, o vilage figurava como o cenário mais adequado para acolher esta prática, enquanto que o apartamento parecia comprometê-la. Isso porque as narrativas dos moradores endereçavam-se mais uma vez para a estreita relação entre o morar no apartamento e a proposta de um certo estilo de vida que o acompanhava, no qual parecia não haver espaço para a dinâmica deste tipo de micro-comércios. Frases como as de Dona Carmita, 53 anos, dona de um pequeno comércio doméstico: “Como é que os freguês vão gritar pra chamar a gente no apartamento? Isso incomoda os vizinho, não pode fazer isso no apartamento...” ou as de Dona Zefa, 49 anos, diarista, uma das muitas moradoras que sonhavam em montar o seu comércio: “E se nós não morar no térreo como é que os freguês vai subir? A gente vai ter que ficar subino e desceno, ou então nós vai ter que jogar a chave pela janela toda hora, aí fica difícil botar um negócio no apartamento”, sinalizavam que os moradores viam-se privados no apartamento de operar do modo como faziam em outras moradas, já que este novo lugar exige um outro tipo de conduta, que não é acessada de modo automático. Este descompasso entre o saber-fazer não é só uma questão de hábito, mas significa que os barracos, as casas não requalificadas dizem sobre uma experiência, estão inscritas naqueles que a ocuparam, assim como todas as outras que a precederam. pois como nos lembram de Certeau e Giard ”os nossos habitats sucessivos jamais desaparecem totalmente, nós os deixamos sem deixá-los, pois eles habitam, por sua vez, invisíveis e presentes nas nossas memórias. Eles viajam conosco” (1996, p. 207). A tensão entre o antigo repertório e as exigências de um novo estilo de vida, virava um argumento para aqueles que defendiam os vilages, que parecia não propor um sistema de práticas tão distinto do que até agora manejavam no lugar de moradia. Outra peça que vem completar o mosaico da escolha pelo projeto do vilage era a tendência, pontuada por alguns moradores, de fazer da moradia um refúgio. De Certeau e Giard, assinalam esta tendência em suas investigações sobre o morar, acentuando que “morar à parte, fora dos lugares coletivos, é dispor de um lugar protegido, onde a pressão do corpo social sobre o corpo individual é descartada, onde o plural dos estímulos é filtrado ou, em todo caso, devia sê-lo, teoricamente” (1996, p. 205). Seguindo esta perspectiva a moradia singular seria então o lugar onde é possível manter 58 por vezes um certo distanciamento das disputas simbólicas e das negociações que a morada em lugares coletivos pressupõe. Nele, as decisões, via de regra, estariam a cargo daquele que mora, que poderia expressar os seus interesses individuais sem encontrar, a princípio, muitos entraves. A sensação de poder experimentar uma certa independência, em relação às práticas que se desenrolam na moradia e aos vizinhos, justificava, em um jogo contínuo de preferências e exclusões, a opção pelo vilage, como fica expresso na narrativa de Seu Pedro: Eu dou preferência ao vilage porque eu vou morar independente... E eu sou muito sistemático, eu não gosto de ver lixo na porta da minha casa, eu gosto de ter minhas criação, inclusive tá faltando o gato, o gato mataram ele (risos) e... Eu tenho na mente quando eu receber minha vilage eu vou fazer o murinho fora, não sei se você já viu, lá onde tem vilage você viu o que os cara tão fazendo assim na entrada? Uma areazinha, com balaostre, assim tudo bonitinho, a minha intenção é isso... fazer aquilo pra mim ficar independente e cercar o quintal do fundo, se tiver, pra o meu cachorro e viver minha vida independente...porque eu acho que o apartamento a gente...a postura de convivência dificilmente bater, principalmente na limpeza, no silêncio e eu tendo minha casinha não...eu e ela (esposa) , eu tenho 77 e ela 76, nos vamo ficar fazendo o que dentro de apartamento? Ainda mais se pegar um térreo igual a esse aqui, que toda tarde rola um grupo26 aí de... entende? Nós não podemos pegar um lá em cima pra evitar esse barulho, vai ter que pegar um lá em baixo e... aí na minha opinião não dá certo, eu dou preferência ao vilage. Em nome do que alguns moradores chamavam de independência, projetavam construir muros, colocar grades na tentativa de limitar a travessia entre o espaço público e o espaço privado da moradia. Este movimento de demarcação que entre os moradores que aguardam pela conclusão da segunda etapa é ainda um projeto, já vinha ganhando fôlego entre aqueles que já haviam recebido as unidades habitacionais. A cada mês que caminhava por estas duas áreas me surpreendia com o ritmo das mudanças que se 26 Este morador, Seu Pedro, se refere a um grupo envolvido com atividades ilícitas, ligado ao tráfico de drogas. 59 iniciavam nos vilages: muros e grades que não estavam previstos na estrutura proposta pela CONDER, se transformaram em elementos fundamentais na sua composição. Não quero com isso dizer que estes elementos estão ausentes nas casas e barracos, mas sinalizar que eles aparecem em uma proporção muito menor neste contexto. Fachada de um conjunto habitacional em Recanto Feliz já demarcada pelo muro. Tirando de cena as vantagens que os moradores encontram no projeto do vilage, encaminharemos agora a análise em outra direção. Nas minhas conversas com os moradores descobri que, para os que queriam o vilage, este último só guardava uma desvantagem com relação aos apartamentos dos conjuntos habitacionais: o valor de venda. Com frequência os apartamentos construídos na primeira etapa eram vendidos por um preço que poderia chegar até 60 mil dependendo da sua localização. Os mais valorizados tinham vista para o mar e ficavam de frente para os condomínios fechados da classe média. Mesmo os moradores que não pensavam em se desfazer do imóvel quando o recebessem na segunda etapa, especulavam sobre quanto poderia valer se, algum dia, decidissem vendê-lo, como fica ilustrado na resposta de Seu Neto, 41 anos, um antigo morador com quem sempre me encontrava nos dias de reunião: 60 Eu penso que eu não vou vender o meu nunca, se um dia o branco, os rico quiser me tirar daqui ele vai ter que me pagar caro pelo valor de mercado (...). Então eu... o branco pra me tirar daqui hoje do Costa Azul, eles tem que me pagar o valor de mercado, que um apartamento desse não vale só 40 mil, porque eu sei que não vale onde hoje nós tamo morando no Costa Azul onde o metro de terra quadrado custa três mil reais, então, eu não vou pegar meu apartamento e dá a eles de mão beijada, pra eles me tirarem eles tem que pagar preço de mercado, né? Os vilages por sua vez são vendidos, geralmente, por cerca de 15, 20 mil reais, um valor inferior ao preço dos apartamentos. Os moradores atribuem esta variação a uma menor procura dos compradores por este tipo de imóvel em Paraíso Azul e Recanto Feliz e ao tamanho dos vilages da primeira etapa, que têm apenas um quarto, uma sala, uma cozinha e um banheiro. Apesar do valor de venda ser um ponto a menos para o vilage no jogo dos projetos, este quesito não lhe tira a sua posição. No mundo dinâmico dos projetos o vilage ainda é o protagonista para a maioria dos moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz. Uma vez analisadas as questões que estão em jogo quando se projeta morar no apartamento ou no vilage, ainda nos resta uma interrogação: Em meio a este trânsito de projetos e de experiências, pode o projeto de habitação popular dar conta deste emaranhado? A racionalidade do planejamento dos projetos de habitação popular, com suas análises totalizantes, parece não acompanhar o frenético pulsar dos lugares vividos e afastam da cena o domínio das práticas, os projetos de vida e a lei anônima que orienta o modo como os atores delineiam seu cotidiano. Neste capítulo ao trazer à baila a noção de projeto, tentei deslocar o eixo das investigações sobre os projetos de habitação do par eficácia e eficiência. Este deslocamento chega na tentativa de responder a seguinte indagação: O que os atores fazem com o que é para eles desenhado pelos projetos de habitação?27 Projetos com conteúdos específicos: projeto de morar no apartamento e a ideia de ascensão social, projeto de morar no vilage, como uma forma de garantir o 27 Esta indagação é o eixo norteador que perpassa toda a construção deste trabalho. 61 futuro da família, de gozar de uma certa liberdade. Esta foi uma das respostas possíveis que pude perceber na medida em que perseguia os atores em suas tramas. As questões relacionadas aos projetos vinculados aos outros tipos de moradia, o barraco e a reforma das atuais casas, que não foram incorporadas neste capítulo. Seus desdobramentos sinalizados no capítulo seguinte, pois estas projeções apareceram no campo associadas a um fenômeno êmico ao qual que quero chamar atenção. O capítulo II “Fiscalizar é tudo, vamos viver em cima desta tecla”: discutindo o papel dos atores sociais no processo de implementação de um projeto de habitação popular também tentará dar conta da indagação sobre a ação dos atores em relação aos projetos de habitação popular. Uma nova resposta passa a fazer eco: a fiscalização. Seguirei então com este ponto tentando compreender os contornos da relação sinuosa que se estabelece entre sociedade civil e Estado. 62 CAPÍTULO II “FISCALIZAR É TUDO, VAMOS VIVER EM CIMA DESSA TECLA”: discutindo o papel dos atores sociais no processo de implementação de um projeto de habitação popular Nós somos fiscais desta obra, nós como morador, como donos da obra praticamente, temos que cobrar, ficar de olho, todo mundo aqui tem experiência desde o barraco que nós construímos, eles são técnicos, mas todo mundo aqui também sabe. Se a empresa tiver fazeno corpo mole, se a areia não for de boa qualidade, se os blocos tiverem tortos e o povo da obra não tiver trabalhando direito é a gente que tá perdeno. E né só fiscalizar a obra não, quando chegar alguém perto da sua casa, você pergunta logo, quem é esse aí? Comprou de quem? Ou alguém que não participa, que tem mais de cem anos que nem vem pra reunião... Você vai deixar passar na sua frente? Esse é um momento novo, a comunidade tem que chegar junto... A fiscalização é de todos os moradores, vamos fiscalizar para evitar os erros do passado. (Zeuzito, 49 anos, morador de Paraíso Azul) Barraco é uma expressão que, a primeira vista, parecia ter significados bem demarcados em Paraíso Azul e Recanto Feliz. Nas rodas de conversas, nos dias de reunião na Associação de Moradores e no circuito das fofocas esta expressão era usada tanto para nomear o lugar por excelência dos excessos, da ausência de regras, onde tudo era permitido, quanto para se referir a mais um lócus onde se trabalhava sobre si para cultivar hábitos e virtudes28. Quase sempre aparecia também como sinônimo de pobreza, enquanto que em outras ocasiões, a palavra barraco se referia ao início do sonho de “ganhar a vida” na capital29. 28 Ver esta discussão no capítulo I “Decalcando projetos: Notas do Cotidiano”, quando é analisada a relação dos evangélicos com seus barracos. 29 Nas narrativas dos moradores sobre sua chegada à região de Paraíso Azul e Recanto Feliz, ganha relevo entre os migrantes, este desejo de “ganhar a vida” na capital que fica expresso, por exemplo, neste trecho da narrativa de Seu Neto, 41 anos, que veio do município de Ribeira do Pombal: (...) quando eu cheguei em Salvador eu tinha.... cerca de 16 anos de idade... Eu vim trabalhar, né? Buscar uma melhoria pra vida... a gente morava na roça, né? E... é aquela coisa, trabalho só gera mais, em tempo de inverno, quando chega época de chuva, que você tem que plantar a roça e não tem trabalho, nem feijão, nem milho, né? E a saída de gente da roça pra vim pra capital é assim ... buscar alguma melhor pra vida da gente... Algum conhecimento mais que a gente aprende, de se desenvolver mais (...). 63 Como os significados se constroem no movimento da vida, no vai e vem das tramas que se desenrolam no cotidiano, ou para usar os termos de Merleau-Ponty, “é na experiência do mundo que todas as nossas operações lógicas de significação devem fundar-se (...)” (2006, p.440), a expressão barraco não permaneceu estática na cena destas duas porções da cidade de Salvador, ganhou uma nova e inusitada acepção: a fiscalização. Este conceito êmico, a fiscalização, será a lente analítica deste capítulo, através da qual pretendo tecer uma análise sobre o papel dos atores sociais no processo de implementação de projetos de habitação, que deixa suas pistas impressas nas práticas e nas narrativas que se articulam no seu cotidiano. As duas seções que compõem este capítulo apresentam de maneira mais aprofundada os pontos de contradição que marcam a prática da fiscalização. Na primeira seção “A silhueta da vigilância: fiscalizando o próximo” a discussão gira em torno da fiscalização que se dá entre os moradores, esboçando um modelo de vigilância, que em algumas situações pode ser verificável e em outras, inverificável, como na prática panóptica apresentado por Foucault. Já na segunda seção: “Na contramão da fiscalização” o que aparece como objeto de atenção são os discursos que contradizem a prática da fiscalização: os que acentuam o risco de fiscalizar o outro. A análise das questões expressas neste capítulo permite compreender de forma mais acurada não somente o que os atores sociais fazem com o que é para eles projetado no desenho de um projeto de habitação, como também os contornos porosos e a mobilidade da relação entre Estado/ sociedade civil. Uma vez apresentados os passos deste itinerário investigativo, iniciarei então, este percurso mostrando como o conceito de fiscalização ganha relevo e sentido na vida ordinária destas duas áreas. Em meados do mês de novembro de 2009, período em que se discutia sobre o início das obras, uma vez que o projeto de requalificação da segunda etapa já havia sido aprovado pela Caixa Econômica Federal, o tema que aquecia as discussões nas ruas e becos era como seria possível abrir frentes de obra sem que os moradores saíssem de Paraíso Azul e Recanto Feliz. A primeira opção negociada com a CONDER, e a mais recorrente desde a realização da primeira etapa de requalificação, era procurar casas para alugar na própria região e, durante o mês seguinte este era o foco da discussão. Todavia, como narrava Seu Pedro, 77 anos, aposentado, que residia em Paraíso Azul 64 com sua esposa e seu filho desde que havia voltado de São Paulo, a tarefa de encontrar uma casa para alugar naquelas paragens, ao contrário do que poderia se pensar, não era simples. Isso porque o inquilino, responsável por pagar o valor do aluguel, não seria Seu Pedro, Dona Chiquinha Pernambucana, Seu Zé ou qualquer outro morador da região, mas a CONDER. Entre os proprietários das casas de aluguel daquelas áreas a CONDER tinha fama de má pagadora. Este julgamento que havia sido atribuído a este órgão do Estado aguçou sobremaneira minha curiosidade. Passei então nas minhas visitas ao campo a indagar como havia sido construído e disseminado este discurso. As narrativas dos moradores se aproximavam quanto ao assunto, mas uma conversa com Seu Pedro, morador que teria sua casa demolida para abrir uma das primeiras frentes de obra, me pareceu esclarecedora. Quando perguntei se a CONDER estava devendo a algum proprietário no período da primeira etapa, Seu Pedro prontamente negou e explicou assim: A Conder pregou para nós uma coisa, para procurar casa de aluguel e quando nós chegou pra procurar foi tudo diferente (...) Tem gente que tá dizeno que não tá encontrando casa, mas não tá encontrando é crédito, tem casa fechada aí e o povo não quer alugar, porque o pessoal que aluga tá dizeno que a CONDER paga, mas demora de pagar e fica difícil encontrar casa para alugar nessas condição, nem lá na Boca do Rio o pessoal tá dizeno que tá achando. Como Seu Pedro afirmava existiam casas vazias, até apartamentos e vilages da primeira etapa. Entretanto, não era permitido a CONDER alugá-los, pois havia o empecilho da Companhia não poder reverter o valor para os seus próprios fundos, uma vez que estes imóveis ainda não haviam sido quitados pelos moradores que receberam as unidades habitacionais na etapa anterior. A falta de “crédito” da CONDER perante os proprietários se configurava então em mais um entrave para o início das obras. Diante desde enredo mal resolvido entre os proprietários das casas de aluguel e a CONDER, a Companhia sugeriu aos moradores a construção de barracões na região, como foram chamadas por grande parte dos moradores, as casas individuais de madeirit constituídas 65 de um vão único e um sanitário, as quais seriam construídas em áreas salteadas para abrigar as famílias até serem concluídas as etapas das obras. Quando a proposta do barracão entrou em cena, uma nova peça fez girar os motores do moinho da fofoca. De um lado existiam moradores como Seu Zeuzito, 49 anos, um dos diretores da Associação de Moradores, que argumentava a favor dos barracões para poder fiscalizar de perto o caminhar das obras e, do outro lado estavam moradores como Dona Zezé, aposentada, 62 anos, que tinha medo de ir para o barracão, pois só em pensar nesta palavra lhe vinha à cabeça recordações que no decorrer da sua vida se esforçara em esquecer. Esquecer-se do barraco que alagava com a chuva, dos móveis molhados que se perdiam: (...) da agonia de ficar tirano aquela água de balde, de bacia, do medo de ver o meu barraco caí, porque não vou dizer que isso não passava pela minha cabeça, passava, e como passou (...) E quando caía aquele toró eu pedia a Deus para deixar meu barraco em pé, porque você sabe, barraco de madeirit é tudo assim frage. (Dona Zezé se emociona e chora neste momento). Quando o tempo de chuva acabava minhas mobília, minhas coisa tava tudo de bolor (...) Todo mundo aqui que tinha barraco viveu tempo difícil e não era só a chuva não, era rato que vinha dos esgoto e entrava na nossa casa, era barata pra cima e pra baixo aí e nos conviveno com isso e tinha que conviver, não tinha jeito a dar, o jeito era seguir em frente e chamar por Deus (...) Se for contar tudo ninguém acredita. É dias e mais dias pra contar todas as histórias que teve aqui nesses barraco. Como dize o povo é ver pra crer, né? Mas, a vida da gente tem tenta coisa, tem umas que é melhor nem falar, é melhor esquecer, mas aí quando fala nesse negócio de barracão, barracão, todo dia agora tem essa história de barracão (...) Barracão, barraco pra mim é tudo a mesma coisa, é tudo barraco e só quem viveu é que sabe como é (...) E por minha vontade eu não vou pra barracão nium, daqui eu não saiu, só pro meu vilage porque eu já esperei demais por isso. São anos e anos de espera, pra ir depois pra barracão, é judiar demais de nós. 66 Não só Dona Zezé como uma grande parte dos moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz tinham um repertório vasto de histórias tristes sobre o barraco, as quais eram contadas, por vezes, em um tom carregado de emoções, como é o caso da narrativa de Antonio, 26 anos, casado, membro da Assembleia de Deus, hoje o único morador do seu conjunto habitacional que é remanescente da região de Paraíso Azul e Recanto Feliz: A minha casa era um barraquinho de madeira, não tinha quarto, e eu morava com meus irmãos, então tinha cinco... comigo era seis... e praticamente era uma área do tamanho dessa sala aqui, pra seis pessoas era totalmente é... uma área assim pequena pra quantidade de pessoas que tinha e... era um... barraco que quando chovia molhava muito, inclusive até de baixo é... fluía água e eu morava próximo a lagoa também, aí pronto quando chovia a água da lagoa ia toda pra minha casa, inclusive tinha uns vizinhos que passava também por essa situação e era aquela coisa quando chovia de noite um acordava o outro pra ajudar a tirar a água de dentro do barraco e hoje... A cama, por exemplo, eu lembro que uma vez meu pai veio passar alguns dias aqui e começou a chover, choveu forte mesmo e aí a água da lagoa começou encher a minha casa... O meu barraco, e meu pai veio do interior achando que os filhos morava em lugar assim mais ou menos, aí ele deitou na cama, embaixo tinha assim um bicama, a força da água era tanta que pegou o bicama e começou a levar, aí meu sobrinho também tava com meu pai e aí começou a dizer : oh meu avô, oh o barco, o barco tá começando, oh a água tá levando o barco, aí meu pai se chateou com ele e queria até bater nele , mas era sofrida mesmo minha situação no barraco, era triste mesmo... Quando eu morava lá embaixo, principalmente em tempo de chuva, era assim um barco mesmo... Meu Deus do Céu era muito sofrimento, era uma briga entre eu e os ratos quem chegava na cama primeiro, meu cobertor praticamente era muriçoca, era um sofrimento só, eu sofri muito. A palavra barracão que agora trazia uma nova conotação, encontrando-se intimamente associada à fiscalização, não conseguia se desprender, para moradores como Antonio e Dona Zezé, de sua antiga teia polissêmica. Foi por esse motivo que a 67 ideia do barracão, segundo Seu Zeuzito, “não vingou”. O descontentamento daqueles que aderiram à proposta do barracão, vencida em votação feita pelos moradores que vieram à Associação no mês de novembro, ganhou eco em uma das falas de efeito de Seu Pedro, que finalizou seu discurso assim: “Vocês não acha que é muita falta de preparo psicológico uma pessoa que morou num barraco, subindo feito morcego, não poder morar num barracão 6, 9 meses? Gente que morou em barraco de tábua...”. Logo depois de enunciada, a pergunta de Seu Pedro foi seguida de uma nova indagação, agora pronunciada por Vinícius, o mais jovem dos diretores da Associação: “Se você for morar em Paripe ou Periperi, como é que vocês vão fiscalizar? Vai ter que aceitar o que vier...”. Fachada da Associação de Moradores Santa Rosa de Lima Tanto os moradores que defendiam a ideia do barracão quanto os técnicos da própria CONDER, depois que lançaram esta proposta, pareciam perceber o peso que a expressão barracão tinha para grande parte dos moradores daquelas áreas. Foram inúmeras às vezes em que o termo era corrigido, sobretudo nas reuniões da Associação de Moradores e do Grupo de Apoio (GA) 30 30 . Logo passou a ser quase automática a O Grupo de Apoio (GA) é uma comissão formada por moradores de Paraíso Azul e Recanto, tirada em reunião. Todos os moradores que manifestaram seu desejo de participar tornaram-se membros desta comissão, que se reunia aos sábados na Associação de Moradores, incialmente foram cadastradas no GA 68 substituição da palavra barracão por “casas individuais de madeira” ou “casas provisórias”. Um dos exemplos mais paradigmáticos desta correção aconteceu no dia 06 de janeiro de 2009 em um encontro do GA. A tônica em pauta era o atraso das obras, e para aqueles moradores que estavam ali reunidos o principal motivo deste atraso era a dificuldade de encontrar casas de aluguel na região. Alguns moradores diziam que a culpa era da CONDER outros falavam que era falta de compreensão dos proprietários das casas de aluguel, o fato é que no final, esta discussão foi desembocar na ideia do barracão. Foi aí então, que Seu Zeuzito concluiu: “Pensando nessa demora, nesse atraso da CONDER houve o projeto das casas de madeirit, do barracão (...) Como é o nome mesmo? Tem outro nome é (...) Casas provisórias, casas individuais de madeira.” Esta mudança rendeu minha atenção e comecei a seguir de perto seus encadeamentos, passei então a me perguntar por que se fazia tão necessária essa troca. Em uma das quartas-feiras em que estive na reunião, Vinícius, me contou que: “Quando fala barracão a gente se assusta, lembra do barraco de tábua, daquelas condições, é por isso que tem que falar em casas individuais, soa melhor para quem ouve”. Barraco aqui não era uma ideia abstrata, estava ligada a uma experiência sensível, ao encontro daquelas pessoas com coisas e lugares, com um tipo de moradia. E neste encontro revestido de cores, cheiros, gestos, sons e emoções os atores estavam no movimento de compreensão, de interpretação da vida, eram tocados por múltiplos apelos, por um certo estilo que as coisas e os lugares propõem. Sobre este ponto, que quero fazer ganhar relevo, da compreensão enquanto uma experiência sensível, Merleau-Ponty (1994) vai nos dizer que compreendemos uma coisa, “como compreendemos um comportamento novo, quer dizer, não por uma operação intelectual de subsunção, mas retomando por nossa conta o modo de existência que os signos observáveis esboçam diante de nós”. Compreender é reconhecer corporalmente, é ser afetado. A compreensão é então uma experiência 55 pessoas. No decorrer do caminhar das obras o número de membros foi sendo reduzido e teve momentos em que o Grupo de Apoio contava com apenas 7 membros efetivos. O objetivo do GA é discutir questões referentes às obras de requalificação e planejar ações que venham a contribuir neste processo. 69 sensível. Nesta premissa sensibilidade e entendimento não são camadas sobrepostas e distintas da experiência. A significação não se desconecta do sensível, ou seja, a experiência significativa não é independente do seu sentido carnal. Esta experiência compreensiva não articulada reflexivamente é possível porque, como lembra Heidegger (1988), antes que as coisas se tornem objeto da reflexão, o ator já compreende, pois está sempre na compreensão, se movendo neste campo, que se configura em um senso de contexto que orienta seu engajamento prático. Apesar da proposta do barracão não ter encontrado fôlego para ir adiante, a prática da fiscalização achou em Paraíso Azul e Recanto Feliz um terreno fértil. Mas, o que esta prática mobilizava? E como era desenhada neste contexto? Vamos prosseguir então com este ponto. Quem fosse a uma das reuniões do Grupo de Apoio ou da Associação de Moradores logo percebia que fiscalizar, a priori, era estar atento e sensível ao andamento das obras de requalificação. As atividades que alimentavam esta prática eram extensas: iam desde observar o uso e a qualidade do material de construção, a execução do trabalho dos mestres de obra, seus auxiliares e da própria empreiteira OPF, até conferir, quando fosse o momento, se a metragem das portas das unidades habitacionais era compatível com o tamanho de alguns móveis que iam compor a nova casa. Uma das primeiras frentes de obra da segunda etapa. 70 Fiscalizar, como afirmava Vinícius, em uma de nossas longas conversas, funcionava como uma espécie de prevenção, uma tentativa de escapar dos erros cometidos na primeira etapa. Enquanto estive no campo não faltaram exemplos narrados pelos moradores para reforçar este enredo. Eram portas do fundo dos vilages de 60 cm, cujo tamanho não permitia a passagem de uma geladeira, desperdício de material e acabamentos mal feitos. Uma vez em que estive no apartamento de Antônio perguntei se ele ainda se lembrava do primeiro dia que começou a morar ali. A narrativa de Antonio da sua chegada ao apartamento é mais um exemplo, que alimentava os motores do moinho da fofoca sobre os erros cometidos na primeira etapa: (...) Me lembro bem desse dia... até mesmo porque sai do barquinho pra o apartamento, apesar que não tava arrumado (...) A gente logo quando chegou aqui no apartamento não tinha condições de arrumar entrou do jeito que tava é... só na laje mesmo ... tinha parede que não tava pronta ainda... ou melhor não tava ...rebocada ainda, aí a gente entrou aqui no apartamento do jeito que tava, até mesmo para sair do aluguel e pra sair do local que a gente tava. Outra frente de obra da segunda etapa. 71 Todo este histórico parecia mover o discurso de que todas as pessoas de Paraíso Azul e Recanto Feliz precisavam fiscalizar, cada um deveria se sentir responsável pelas obras e principalmente pelo produto final delas. O que se ouvia nas rodas de conversas entre vizinhos, nos encontros casuais nas quitandas, nas ruas, na Associação durante as reunião de quarta-feira, ou nas discussões do GA, era que todos os moradores estavam habilitados para fiscalizar, pois, como repetia Vinícius, ali a maioria das pessoas entendia de construção, “porque nós aqui da comunidade já levantamos nossos barraco uma vez, sem a ajuda de engenheiro ou arquiteto, era só vizinho junto com vizinho, todo mundo aqui, tem experiência, entende dessas coisa de obra e não vai deixar passar nada”. Esta fala de Vinícius, funciona como um esboço da noção de hábito, entendida aqui nos termos de Merleau-Ponty não como uma operação intelectual ou que envolve um certo automatismo, mas como um saber encarnado, que está no corpo, já que neste domínio é “o corpo que “compreende”” (2006, p.200). Pensar o hábito nesta perspectiva nos leva a reorganizar tanto a noção de corpo como a de compreensão, porque o corpo que está expresso neste modelo não é um corpo objeto, mas aparece como fundamento de nossa experiência no mundo, muito menos a compreensão seria um processo de conversão de um dado de sentido a uma ideia que articulamos, como já nos lembrava também Heidegger31 ao discorrer sobre a compreensão (1997), o que assinala um ponto de convergência entre as suas premissas e a de Merleau-Ponty. O ator compreende o mundo com o corpo, responde as suas solicitações, aos seus apelos porque é corpo. Há aqui uma re-descrição da experiência humana, a partir da corporeidade, dimensão encarnada das práticas, da cultura, da história. O hábito não estaria no corpo objeto ou no pensamento, mas no corpo como mediador do mundo, como uma forma de ter o mundo. Então para Merleau-Ponty quando nos habituamos a algo o incorporamos ao nosso ser, ou seja, ele passa a fazer parte da nossa existência. Isso significa que o hábito “exprime o poder que temos de dilatar nosso ser no mundo 31 Heidegger ao discutir o conceito de compreensão vai assinalar que haveria uma espécie de primazia do engajamento prático no mundo, pois compreendemos sem precisar articular, sem recorrer a uma operação intelectual. 72 ou de mudar de existência anexando a nós novos instrumentos” (Merleau-Ponty, 2006 p.199). Além deste saber-fazer, deste senso de familiaridade, apontados por Vinícius e Seu Zeuzito que aproximava os moradores das técnicas de construção, a prática da fiscalização tinha também um outro pilar: a noção de direito. Direito às unidades habitacionais, ao terreno. Se observássemos a forma como o projeto de requalificação era vivido no dia-a-dia era possível perceber como a partir dele eram construídas relações e estabelecidos sistemas de direito e práticas que escapam às fórmulas previstas pelo próprio Estado. Fiscalizar, por exemplo, não era um critério para o recebimento das unidades habitacionais, mas em espaços como a Associação de Moradores ou o GA, ir para as reuniões ou se engajar em práticas como a fiscalização parecia render uma maior legitimidade para o morador e respaldar um certo sentimento de direito. A resposta de Vinícius à pergunta de Dona Carmita, 53 anos, dona de um pequeno comércio doméstico, em uma das reuniões de quarta-feira funcionará aqui como uma apropriada fonte de descrição desta questão que quero agora trazer à baila. A conversa destes dois moradores seguiu assim: - Dona Carmita: E quando começar a obra e o povo de lá da empresa (empreiteira) perguntar o que a gente tá fazendo ali? Nós fala o quê, pra esse povo hein? - Vinícius: A senhora fala que tudo ali é nosso, que vai ser a nossa casa e a gente não vai deixar passar erro, vai contar bloco por bloco se precisar, eles estão trabalhando para nós... Somos nós que tamos pagando, o salário deles é pago com o dinheiro da obra. Eles são nossos funcionários. Quando eles perguntar o que a senhora tá fazendo ali, fala que a senhora tá no seu direito, que a senhora é da comunidade. Olha como fica bonito dizer isso! Quem tá fiscalizando, tá fazendo a sua parte, tá participando. Nós agora somos os fiscais. Fiscalizar é tudo, vamos viver em cima dessa tecla. A ideia de direito agia como uma espécie de liga entre os moradores e o projeto coletivo de permanência, da luta por moradia. Um certo tipo de solidariedade ia sendo então forjado. O objeto da fiscalização ganhava nitidez, parecia ser não apenas o vilage, 73 o apartamento ou a casa reformada do próprio morador, pois como lembrava seu Zeuzito: O que adianta a minha casa tá bonita, a sua, e a do vizinho, ou das outras pessoas daqui da comunidade não estar? Não valoriza o nosso endereço. Eu não vou fazer para mim, nem você só para você, agora que nós vamos ficar no terreno, ser donos desta área, vamos querer tudo direitinho, para valorizar ainda mais nossa conquista, é por isso que a comunidade, nós aqui, temos que ficar de oh, de olho, fiscalizando (...) Moradores, como Seu Zeuzito, qualificavam suas demandas a partir desta ideia de bem comum, de direito. Mobilizando competências diversas para se ajustar à situação, engajavam-se em performances na tentativa de negociar e expor um tipo de justificativa que parecesse conveniente para que a prática da fiscalização ganhasse mais adeptos. Este cenário de disputa e controvérsias, em que os atores se qualificavam para a avaliação reportando-se a engajamentos diferentes, na tentativa de se legitimar, me fez lembrar a teoria de Thévenot cujo objetivo é “poder seguir as mudanças profundas dos engajamentos dos seres humanos no mundo” (2006, apud Mota, p.228). Seguir para ver que tipos de justificativas aparecem, quais repertórios morais são mobilizados e como se processa a atribuição de valor, para saber por que determinadas ações ou coisas são consideradas em certas situações mais legitimas do que outras. A relação entre moral e prática parece funcionar como eixo norteador deste modelo, uma vez que para Thévenot e Boltanski (1999) seria a moral o processo avaliativo que governa o engajamento prático dos atores sociais no mundo. As justificativas, as críticas e as denúncias e o modo como elas são performadas pelos atores passam a ser então, tomadas como objetos de estudo. Este interesse pela competência crítica dos atores sociais, por esse domínio moral, se sustenta na premissa de que os indivíduos não são meros agentes resultantes de violências simbólicas constantes. Como na perspectiva de Garfinkel, a tentativa aqui deste modelo é de reabilitar o ator social, de atentar para o seu raciocínio prático nas situações mundanas de ação, ou seja, admite-se então, que os atores não tem o “juízo dopado” (Garfinkel apud 74 Heritage, 1999, p. 328). A ideia de um agente iludido, “encantado” pela lógica dos jogos sociais que lhe escaparia, contornado pela illusio, que em certa medida sustenta a estrutura de posições do campo e uma espécie de reprodução, como aparece na sociologia crítica de Bourdieu (1996; 2001), cede lugar para defesa de um ator com competências reflexivas neste modelo proposto por Thévenot e Boltanski (1999). Uma vez explicitadas as nuances do movimento analítico do fenômeno em questão, é hora de voltar aos contornos do campo e as facetas da fiscalização, vamos prosseguir então com este ponto. Ao mesmo tempo em que fiscalizar parecia em certa medida fortalecer os laços sociais em torno do projeto coletivo de permanência, existia também nesta prática um ponto de contradição. Fiscalizar, como pude perceber mais tarde, não se restringia apenas a observar e tentar controlar o caminhar das obras. Ser fiscal significava também estar atento e sensível ao outro, ao outro da comunidade. É em torno desta outra face da fiscalização que será versada a seção a seguir. 1.1 A silhueta da vigilância: Fiscalizando o próximo As mudanças nas casas no estágio de congelamento. 75 Quando as obras da primeira etapa foram concluídas, e até o período em que esteve em vigor a negociação da segunda etapa de requalificação, a CONDER decretou que Paraíso Azul e Recanto Feliz permanecessem em uma espécie de estágio de congelamento. Neste estágio não deveriam ser construídos novos barracos, ou iniciada reforma nas casas, exceto casos de ameaça à sua fundação, tais como rachaduras e destelhamentos causados pelas chuvas. Todavia, a orientação da Companhia é que mesmo estas modificações deveriam ser notificadas. No período em que a CONDER retornou a estas áreas, após a aprovação do projeto da segunda etapa, a cena de Paraíso Azul e Recanto Feliz havia ganhado novos personagens e um outro cenário, adaptado às demandas que passaram a emergir como figura. O número de barracos se multiplicou, pessoas chegavam de outros bairros de Salvador na esperança de também poderem receber os vilages e os apartamentos, atraídas pela proposta da segunda etapa, enquanto outras saíam, na medida em que vendiam ou alugavam seus imóveis. As pequenas casas, neste intervalo de tempo, ampliaram-se, para cima, para trás. Lajes e puxadinhos acompanhavam o movimento da vida, o casamentos dos filhos, a chegada dos netos e o decalque acentuado de novos projetos. Este ritmo que embalava o cotidiano destas duas porções da cidade de Salvador seguia, por vezes, na direção contrária do planejamento da CONDER. A chegada do engenheiro da obra acentuou este descompasso e movimentou mais uma vez o circuito da fofoca: O engenheiro quando visitou a área se assustou, porque continuam fazendo barraco a cada dia, ele se assustou com o crescimento da área e a obra vai demorar ainda mais por causa disso...Quando for tirar vai ser um Deus nos acuda, vem logo a comoção social, diz logo que é pai de família. Mas, vai fazer o quê? A obra não pode parar, por isso é que a gente tem que fiscalizar, quem tem terreno tem que ficar de olho e não deixar nem vizinho, nem ninguém construir. Se tiver alguém construindo do lado da casa de vocês e prejudicar o projeto, vocês não deixam (grifo meu). É fácil para uma empreiteira pegar um terreno vazio e construí vários prédios, mas trabalhar em uma área ocupada é difícil, ainda mais uma ocupação 76 igual a essa aqui. Eles perdem dinheiro, eles não se interessam em pegar uma obra que fica rolando assim não. A narrativa acima feita em uma das reuniões de quarta-feira por Sandra, estudante e diretora da Associação de Moradores, sinalizava que fiscalizar funcionava como uma espécie de garantia de que a obra não sairia dos trilhos. Todavia, para além desta questão, a fala de Sandra trazia um diferencial, ela apontava para um outro modo de fiscalizar: de morador para morador, de vizinho para vizinho, como um palco onde todos estavam à vista, encenando seu drama e qualquer um que se envolvesse nesta trama ia ter que se justificar e lidar com a denúncia do outro. Era um cenário de disputa, onde se podia perceber os “momentos críticos”, momentos marcados pelo tom da controvérsia. Durante o estágio de congelamento, vieram à tona muitos casos de pessoas que compraram lajes na região ou adquiriram casas, mas não receberam de seus antigos proprietários o cadastro32, histórias de moradores que faziam os cômodos de sua casa parecerem diferentes moradias com o intuito de receberem mais de uma unidade habitacional para poderem garantir o futuro da família, casos de gente que havia vendido seu apartamento ou seu vilage e comprado uma casa na região que estava prevista para receber a requalificação ou que havia construído seu barraco nestas imediações. A fiscalização era uma via possível para ter acesso a estes casos e também para trazer à tona as justificativas de cada um destes moradores em espaços como a Associação e o GA. Estes mesmos moradores que protagonizavam estas histórias, por sua vez se engajavam nesta disputa na tentativa de legitimar a sua questão e de pleitear o direito às unidades habitacionais. As histórias eram apreciadas uma a uma, e a diferença no modo como eram recebidas acenavam para uma outra diferença, referente à maneira como cada projeto de vida era avaliado. O final de cada uma destas situações de exposição era quase sempre incerto, dependia não apenas dos argumentos, mas da sensibilidade que se despertava, da postura, da emoção, da entonação empregada, da história que cada um tinha construído durante a vida nestas duas áreas. 32 Ver explicação sobre o cadastro na introdução. 77 Esta cena controversa que se esboçava em Paraíso Azul e Recanto Feliz guardava uma certa familiaridade com muitas outras que permeiam o cotidiano dos atores sociais e que ultrapassam o domínio da habitação. A narrativa de Reis (2008) sobre uma situação de disputa entre dois meninos dispostos a “dar um calote” e um cobrador em um ônibus de São Paulo, ilustra bem esta presença dos momentos críticos na vida ordinária. Neste exemplo do ônibus, os atores se envolviam em uma negociação para fazer valer suas demandas. Os meninos de um lado precisam ter um bom papo e uma performance convincente para expor uma razão que parecesse legítima, tentando antecipar a conduta do cobrador. Por outro lado, o cobrador também faria suas avaliações e exporia suas justificativas. Aqui as avaliações momentâneas, as expertises, as competências, os gestos e os usos do corpo compunham a performance, que tinha como objetivo legitimar a ação. Mais uma vez a questão proposta por Thévenot e Boltanski (1999), sobre a competência crítica dos atores ganha vida e sentido nas tramas sociais. Esboçados os contornos e os desdobramentos deste itinerário analítico sobre as situações de disputa e de negociação da realidade, voltemos então à outra face da fiscalização, aquela que ocorria entre moradores. O atento olhar disciplinador, que fiscalizava as práticas e avaliava os projetos que eram pronunciados nas conversas, se pulverizava. Os protagonistas da regulação não eram apenas os técnicos do Estado, pois haviam agora outros olhos treinados para identificar o que saía do controle: os moradores, que trabalhavam pela disciplina. Das lajes, das janelas, pelos transeuntes que passavam pelas ruas e becos de Paraíso Azul e Recanto Feliz, a vigilância anônima era exercida. Sabia-se quem construía novos barracos, quem ampliava ou reformava suas moradias, se os moradores que foram contratados para trabalhar nas obras estavam cumprindo as suas atividades. Em relação a esta última questão, por exemplo, Seu Valdo, 45 anos, um dos membros do GA, que reside em Paraíso Azul desde 1982, comentou em uma das reuniões de quarta-feira a sua versão: Das pessoas que estão trabalhando na obra eu quero falar um negócio aqui... Os funcionários da obra tá trabalhano de manhã e de tarde não. Eles tão trabalhano tudo chapado, trabalhano tudo bêbedo... É... Na hora do almoço eles bebem e depois volta pro trabalho... Se não tiver nosso apoio vai ser 78 uma obra ruim e olhe que, trabalhano mesmo na obra tem muita gente aqui da comunidade (...). A laje, uma modalidade de ampliação e um dos alvos da fiscalização. Assim como o exemplo citado acima havia sempre um episódio para alimentar o moinho das fofocas. Era difícil saber onde o enredo começava, quem havia presenciado a cena, o fato é que os mexericos, na maioria das vezes, desembocavam no mesmo lugar: nas reuniões da Associação de Moradores ou do GA. Os alvos da fiscalização eram nítidos: aquilo que fugia ao controle, ao conjunto de regras formais e informais que definiam os contornos das práticas naquela região. Embora, por vezes, não se soubesse exatamente quem os observava atentamente, se era visto sem ver. Este efeito induzia no morador observado a sensação de uma permanente visibilidade, o saber-se vigiado automatizava o poder. A princípio, todos os moradores poderiam e eram incitados a fiscalizar. Era difícil então, perceber quem exercia o controle e quando, o fato é que sempre poderia sê-lo, já que a vigilância era inverificável. O poder se desinvidualizava e guardava uma dimensão positiva, tal qual argumentava Foucault (1995), já que o objetivo não seria impedir o indivíduo de agir, pois a ação parece se configurar em uma condição sine qua non para este processo, mas conduzir os cursos desta ação. A relação de poder não é a princípio uma relação que se dá entre indivíduos, em que um age diretamente sobre o 79 outro, mas de ações sobre ações. A tentativa é demarcar o campo de possibilidades de ação do outro, que é apresentado como um sujeito ativo. Então o poder é um conjunto de ações sobre ações possíveis; ele opera sobre o campo de possibilidade onde se inscreve o comportamento dos sujeitos ativos; ele incita, induz, desvia, facilita ou torna mais difícil, amplia ou limita, torna mais ou menos provável; no limite ele coage absolutamente, mas é sempre uma maneira de agir sobre um ou vários sujeitos ativos, e o quanto eles agem ou são suscetíveis de agir (Foucault, 1995, p. 243). Nesta analítica que passa a gravitar, o poder para Foucault, mais precisamente nas suas análises em “Microfísica do poder” (1992) aparece não como uma força destrutiva que recalca e reprime, é seu lado positivo, produtivo e estratégico que é assinalado como um modo mais sutil de seu exercício. O reconhecimento desta faceta propõe necessariamente um repensar das suas especificidades e do seu delineamento e sinaliza ainda que o poder não se resume a lógica da repressão, da coerção. A força do poder, como assinala Foucault (1992) estaria na produção de efeitos positivos no nível do desejo bem como no nível do saber, pois o olhar de vigilância gera também conhecimento. Poderia dizer, apressadamente, que Paraíso Azul e Recanto Feliz viraram um grande panóptico, pela presença de um olhar alerta a toda parte, mas ao contrário da prática panóptica, discutido por Foucault, o tipo de poder que se exercia aqui não era apenas inverificável, mas também verificável. O princípio é invertido, ou antes, o primeiro elemento dá lugar ao seu par oposto. O panóptico como nos acena Foucault “é uma máquina de dissociar o par ver-ser visto” (1999, p. 225). Essa dissoação garante o seu principal efeito: a automatização e a desinvidualização do poder. A sujeição se dá a partir de uma relação fictícia, como explana Foucault (1999), em que não é possível verificar a vigilância, ou quem exatamente a executa, mas sabe-se que ela está lá, latente, na sua onipresença. Entretanto, nestas duas porções da cidade de Salvador nem sempre ignorava-se quem exercia a vigilância, por vezes ela era anunciada, nomeada, feita face a face, por isso verificável. A luta não era sempre travada contra um inimigo à distância, por vezes se situava no campo da proximidade. As visitas dos membros do GA às casas ilustram este modelo de vigilância verificável. A visita funcionava como uma espécie de levantamento das áreas, as casas eram medidas por fora, pela lateral, perguntava-se também o número e o nome que 80 constava no cadastro, assim era possível saber se o cadastro havia sido vendido e quantos dele cada família possuía. Os membros do GA quando narravam nas reuniões suas visitas insistiam em sinalizar que toda a avaliação dos imóveis era feita desde a entrada da casa. Recusavam-se a entrar nas casas das pessoas porque esta conduta parecia dar um tom mais íntimo à visita. A casa era reduzida aos seus dados mais técnicos. O objetivo que fundamentava esta prática do GA e outas atividades que vinham compor o fenômeno da fiscalização era, segundo Vinícius: Conseguir acelerar as obras, a CONDER vem com o projeto, constrói as unidades, mas não fiscaliza, aí é a nossa vez, a gente fiscaliza... A gente faz o trabalho da CONDER... Porque são as nossas casas, né? Mas a gente não fiscaliza só a obra, a gente fiscaliza tudo... A obra, a OPF, a CONDER, o negócio é ficar de olho, senão a coisa não anda e não sai do jeito que a gente quer. A relação que se esboçava na cena de Paraíso Azul e Recanto Feliz, entre a prática dos moradores que se engajam na fiscalização e a CONDER, se configura em uma apropriada fonte de descrição da porosidade e da mobilidade da fronteira entre Estado e sociedade civil. Em seu artigo sobre a discussão em torno das abordagens do Estado, Mitchell (1991) argumenta que este último não deve ser tratado como um ator político autônomo, dotado de uma coerência e definido anteriormente como um aparato separado e independente da sociedade. Nem deve ser tomado como uma abstração em relação à concretude do resto do mundo social. Ao invés de naturalizar a distinção entre Estado e sociedade civil, Mitchell (1991) argumenta, através de um instrumental foucaultiano, que faz-se mister entender os mecanismos de poder que produzem esta fronteira, resultado de práticas sociais que se desenrolam no tempo e no espaço, compondo processos históricos. É essa dimensão do cotidiano, dos processos sociais mundanos que Mitchell quer recuperar na sua analítica. Vale aqui então reter a conclusão do autor de pensar o Estado através das práticas e não como uma entidade subjetiva dotada de intenções. Assim como Mitchell (1991), Julieta Quirós (2009) em sua investigação sobre o fenômeno piqueteiro em 81 Florencio Varela, município sul de Buenos Aires sinaliza uma desconfiança em relação a uma oposição rígida entre Estado e sociedade. Em seu trabalho etnográfico Quirós (2009) identifica não apenas o poder de cooptação das políticas estatais em relação aos movimentos sociais e aos demais destinatários destas políticas, mas também o seu poder de criação, no que diz respeito à gestação da mobilização e do engajamento político, assim como a criação de um sistema de critérios, direitos e valores sui generis que assumem um caráter “político”. Um exemplo disso seriam as diferentes maneiras de distribuir os benefícios, que apontam para uma distinta forma de “merecer e fazer merecer- a luta, a necessidade, o favor — e são, ademais, sistemas diferenciados de obrigações e direitos entre os que, conforme a ocasião, recebem e dão” (Quirós, 2009, p.141). Este conjunto de critérios e valores que são decalcados, apropriados, resignificados nas experiências que se desenrolam no contexto de uma política pública funcionam como pontos cardeais que movimentam o cotidiano dos atores que compõem à cena. A relação entre Estado e sociedade aqui é porosa, uma série de práticas, de códigos e de relações, que vem conformar um horizonte de possibilidades, como mostra Quirós (2009), são gestados a partir de uma política estatal, que não aparece como algo acabado, ela se faz e se refaz no movimento da vida, no campo das experiências. Mas – Voltando a Paraíso Azul e Recanto Feliz e aos contornos da fiscalização – não apenas os aspectos relacionados à moradia eram observados e viravam alvo da fiscalização, a conduta dos moradores também se configura em objeto de atenção. Fiscaliza-se quem participava das reuniões da Associação de Moradores e do GA, identifica-se os moradores mais assíduos e no final todas estas informações, todo este conhecimento que se produzia sobre o outro funcionavam como uma espécie de critério para definir aqueles que seriam considerados os mais merecedores e os menos merecedores do recebimento das novas unidades habitacionais. Este tipo de julgamento ganha vida na fala de Seu Zeuzito, que durantes as reuniões de quarta-feira costumava lembrar que: Quem tá o tempo todo aqui na Associação lutando não merece mais não? Quem ficou até agora com a sua moradia do mesmo jeito sem mexer porque 82 respeitou que a área está congelada (...). Tem pessoas que tem anos que não participa nem das reuniões nem agora do Grupo de Apoio. A obrigação de cada morador é participar, quem não tem tempo para resolver os problemas, que não quer largar a novela, quer ter direito a casa? Não quero mais chororó, ou a comunidade participa ou as pessoas que estão vão decidir. Vocês que estão aqui estão fazendo pelos que estão vendo a novela em casa e pela aqueles que ficam só pelas portas. Tá chegando a hora de partir o bolo e como é que vai comer se não tá aqui, tem que participar, tá na hora da comunidade acordar. A fabricação de regras “formais”, que chegavam com o estágio de congelamento e a informação de um novo sistema de práticas a ser adotado pelos moradores, e de regras “informais”, estas por sua vez forjadas pelos próprios habitantes da área, que assumiam o papel de empreendedores morais, conformavam um interessante cenário de possibilidades de negociação e disputa entre os atores sociais, que ao criarem certas regras criam também outsiders. Nestas duas porções da cidade de Salvador a heterogenia e difusa categoria dos outsiders agregava tanto aqueles que burlavam o estágio de congelamento e os novos moradores que construíam seus barracos na região quanto aqueles que não participavam das reuniões da Associação de Moradores e do GA. Para colocar a questão nos termos de Elias (2000) os estabelecidos, expressão que no contexto de Paraíso Azul e Recanto Feliz era sinônimo de merecedores, eram aqueles moradores que seguiam as regras formais e informais, as quais marcavam os contornos que a ordem adquiria nestas áreas. A esta altura, já é possível dizer que a prática da fiscalização não gozava de uma unanimidade entre os moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz. No tempo em que estive no campo pude perceber que havia os discursos que vinham na contramão desta prática: aqueles que assinalavam o risco de fiscalizar. Este ponto será o eixo norteador da seção a seguir. 83 1.2 Na contramão da fiscalização Estávamos no segundo sábado do mês de outubro, dia escolhido para mais um encontro do Grupo de Apoio no prédio da Associação. Antes do início da reunião um certo clima de euforia ia sendo desenhado, os comentários brotavam de toda parte e, deixavam escapar o movimento de preparação das pessoas para a chegada das obras e, sobretudo, da CONDER. Enquanto Vinícius, um dos diretores da Associação e também membro do GA não abria a reunião, entre uma conversa e outra ouvia-se frases como estas: “Vocês acha que ele deve receber a casa?” ou “E quando a CONDER chegar vamos dizer o que desse caso aí?”. Era em torno destas indagações que a vida ordinária nestas duas áreas passou a se organizar durante o caminhar das obras. A preocupação de grande parte dos moradores agora não era mais aquela que marcou o estágio de congelamento: Quando o projeto sairia do papel? Porque as obras já davam “sinais de vida” com a chegada dos caminhões com os materiais, que já começavam a passar pelas ruas de Paraíso Azul e Recanto Feliz e também com o recrutamento de moradores que tinham experiência no campo da construção civil para trabalhar nos canteiros que iam sendo formados. O tempo de espera33 parecia ter ficado para trás, e a pergunta que fazia eco neste momento era: Como esta obra chegaria? E talvez o ponto que estivesse nela embutido fosse: Para quem ela chegaria? Uma das respostas encontradas por alguns moradores destas duas porções da cidade de Salvador para tais questões práticas era a fiscalização, cujas nuances venho apresentando ao longo deste capítulo. Porém, nem sempre esta resposta era bem acolhida entre os habitantes destas áreas. Volto então para a cena do encontro do GA com que iniciei esta seção para circunscrever de modo mais aprofundado o que venho a chamar de discursos divergentes em relação à prática fiscalização. O início do encontro foi marcado pela seguinte frase de Vinícius: “a comunidade precisa se preparar para receber as obras e a equipe da CONDER, vamos 33 Uma discussão mais aprofundada sobre o tempo de espera aparece no Capítulo III “Em construção: experiências de tempo-espaço em áreas de intervenção” 84 começar a criar situações para quando a CONDER chegar a gente ter o que falar, vamos mostrar como nós estamos organizados e como nos estamos querendo...”, foi a partir deste eixo que a reunião foi conduzida. Ao contrário do que previa Vinícius, as situações não precisaram ser criadas, a cada momento uma nova história roubava a cena, por vezes, várias delas se misturavam e eram contadas a um só tempo. Tinha episódio de morador que, como narrava Dona Carmita “não ia aceitar derrubar o seu castelo, uma casa de dois, três andar, para ganhar um apartamento ou um vilage só, a pessoa não vai aceitar perder”; Já Dona Marilda trouxe o caso de moradores como Seu Valdo, que chegou a receber um apartamento na primeira etapa, mas preferiu por conta da vizinhança, que ele não pode escolher e do seu desejo de morar em casa que pudesse ampliar e ter um quintal, voltar para seu barraco de madeirit e esperar por um vilage que só viria na segunda etapa do projeto. Outro caso narrado por Dona Marilda foi o de uma pessoa que tinha uma casa alugada na região, mas que não residia há muito tempo ali em Paraíso Azul. Ao terminar a história logo surgiu a pergunta: “Vocês que são morador e grupo de apoio acha que esta pessoa aí tem direito?” Esta questão invariavelmente aparecia ao final da enunciação de cada caso. Logo que estas interrogações eram lançadas os membros do GA se esforçavam em dar conta da situação, de trazer uma posição. Quanto a última história do homem que tinha casa de aluguel, mas que já havia deixado Paraíso Azul fazia tempo, as respostas à pergunta se ele tinha direito de receber as unidades foram as seguintes: “Depende da situação dele quando saiu daqui, se ele deixou porque tem uma mansão em outro lugar, aí não”; Se ele aluga como meio de ganhar a vida, de dar sustento a sua família então ele tem”. A noção de direito estava intimamente associada a de projeto, já que a avaliação se dava a partir deste último. Era o conteúdo do projeto o eixo para a definição do direito, da legitimidade. Depois que as primeiras respostas foram dados, um posicionamento seguinte fugiu a regra e foi um divisor de águas neste encontro. Refiro-me aqui ao pronunciamento de Dona Celeste, antiga moradora de Paraíso Azul: Nossa obrigação não é dizer quem tem direito ou quem não tem... Porque eu não vou arriscar minha vida, nem a vida de minha família não, eu não vou ficar entrando na casa de ninguém, nem fiscalizando quem tá fazendo isso 85 ou aquilo (...). A gente sabe que aqui na comunidade tem gente envolvida nessas coisa errada, gente que tá no tráfico e não sou eu quem vai dizer quem vai ter direito ao quê.” Assim como o termo barraco, que foi alvo da nossa discussão anteriormente, a expressão risco não era também uma ideia abstrata, uma vez que estava ligada à experiência destes moradores com certos acontecimentos que vinham ganhando intensidade durante o período do caminhar das obras. Entre os meses de outubro e novembro uma onda de disputas relacionadas ao tráfico tingiu com fortes cores o cotidiano de Paraíso Azul e Recanto Feliz. Havia sempre várias versões sobre o caso, mas a questão podia ser resumida da seguinte forma: existia uma disputa pelo ponto de tráfico. Para alguns moradores esta peleia era protagonizada por dois irmãos um que morava na parte de cima da comunidade e outro que tem sua boca na parte de baixo. Como disse uma vez Dona Rita, uma baiana de acarajé que tinha 25 anos na região, essa briga entre irmãos “não é para surpreender não, porque a bíblia já dizia isso, é Caim e Abel". Como narrava Dona Rita a disputa, além de oferecer um risco para os moradores de Paraíso Azul e Recanto, também comprometia sua mobilidade, já que “quem é de cima não pode descer e quem é de baixo não pode subir". Os integrantes do tráfico de cada boca estavam impedindo a passagem dos moradores que eram abordados; só passava quem tinha permissão. Por isso, os moradores tinham que encontrar caminhos alternativos para conseguir ir ao trabalho, para escola e etc., porque não podiam atravessar as fronteiras. Moradores como Seu Valdo afirmavam que, este povo do tráfico, como foi nomeado por ele as pessoas que participavam do tráfico, “eram garotos”, meninos que carregou no colo, que viu crescer e conta ainda que, uma vez quando foi barrado lhe disseram assim: “respeito muito você coroa, mas agora você não pode descer”. Ao narrar este episódio Seu Valdo não conseguiu esconder a sua expressão de tristeza e prosseguiu dizendo que achava um absurdo está agora "tendo que obedecer a esses moleque". 86 Em uma das quartas-feiras do mês de novembro em que estive na Associação, a baiana de acarajé, Dona Rita, quis falar sobre sua experiência em relação a estes episódios da disputa: Eu e minha filha a gente não pode parar de trabalhar porque a gente tem dívida e precisa pagar, mas que no sábado quando deu 7 horas da noite eu disse a minha filha vambora, arruma o tabuleiro aí, arruma tudo, dá os acarajé que sobraram aí na rua e vamo pra casa, quem vai arriscar a vida? (...) Você tá vendo, tá tudo fechado, as casas com as portas e as janelas tudo trancada e os comércio fechado mais cedo? Enquanto conversávamos, eu e Dona Rita, uma moradora ainda muito jovem nos interrompeu e disse: “ali, olha ali, quer ver ali as casas estão tudo fechada? De pronto Dona Rita lhe advertiu (em um tom mais baixo, quase um sussurro) : "Você é maluca menina vai fazer o que ali, não tá vendo as coisas como estão aqui e você quer ficar andano pra cima e pra baixo". O cenário de Paraíso Azul e Recanto Feliz parecia ter agora uma nova dinâmica: ruas vazias, casas fechadas, algumas até com as luzes apagadas e os moradores que geralmente ficavam sentados na entrada da Associação esperando a reunião começar estavam todos no interior do prédio, mais calados, e de vez em quando um vinha ver, pelo portão fechado, o carro da polícia subir e descer. Esta mudança passou então a interferir sobremaneira no ritmo das atividades na Associação. A sala onde aconteciam as reuniões esvaziou-se, rompendo um certo movimento que vinha ocorrendo após a notícia do começo da obra. As reuniões, por sua vez, passaram a ser mais curtas, as discussões mais breves e menos acaloradas, os informes que ocupavam uma boa parte do tempo quase nem compunham a pauta, chegava-se logo às notícias sobre as obras. Esta disputa pela liderança do tráfico não apenas modificou a vida dos moradores desta região, mas também ameaçou a minha permanência no campo e logo o andamento da pesquisa, porque reuniões foram desmarcadas, como aconteceu no dia 28 de outubro por conta de um episódio de assassinato, e entrevistas foram canceladas. Uma outra face de Paraíso Azul e Recanto Feliz era delineada e este esboço eu ainda não conhecia. Aqui mais uma vez me senti 87 afetada, por algo que também afetava aqueles moradores, e experimentava esta experiência por minha própria conta. Não era só a angústia do outro que ouvia, mas a minha angústia de permanecer, que se misturava ao meu desejo de permanecer. As emoções eram quase sempre ambíguas para mim e para aquelas pessoas. Embora a prática da fiscalização fosse ganhando o estatuto de projeto para uma parte dos moradores destas duas áreas, como por exemplo, Seu Pedro, encontrava-se agora empecilhos. Desejava-se fiscalizar, acredita-se que era preciso fiscalizar, via-se a possibilidade de concretização deste projeto, porém compreendia-se que aquele não era o momento mais propício para tal. Fiscalizar significava arriscar a vida e esta, para muitos moradores, tinha um valor que parecia estar acima do projeto do vilage ou do projeto do apartamento. A prática da fiscalização neste período passou a depender da oscilação dos episódios relacionados ao tráfico. Quando a disputa se apaziguava a fiscalização ganhava terreno, mas a qualquer sinal de uma nova disputa ela passava a ser praticada muito timidamente. Uma vez analisadas as questões que estão em jogo na prática da fiscalização, é preciso retomar os pontos que compuseram este capítulo. A fiscalização aqui aparece como uma das possibilidades de ação dos atores frente ao desenho de um projeto que lhes é destinado. Uma possibilidade que não é homogênea e que ao mesmo tempo em que fortalece os laços sociais também os afrouxa, já que a prática da fiscalização, por vezes, aprece como um sinônimo de uma vigilância sobre o outro, o outro de Paraíso Azul e Recanto. Quando se fiscaliza avalia-se os projetos dos atores e tenta-se conduzir seus cursos de ação. Mas, no cotidiano destas duas porções da cidade de Salvador a fiscalização tinha também os seus ruídos, as suas divergências, como por exemplo, a noção de risco, que ganha sentido no tempo e no espaço, nas experiências dos moradores. Todavia, a fiscalização como já havia mencionado anteriormente é apenas uma das respostas possíveis para a indagação central deste estudo: O que os atores fazem com o que é para eles previsto no desenho institucional de um projeto de habitação popular? Abre-se espaço então para trazer à cena um outro vetor neste horizonte de possibilidades: A construção e reconstruções das noções de tempo e espaço. O capítulo 88 III “Em construção: experiências de tempo-espaço em áreas de intervenção” versará sobre como estas noções são decalcadas em Paraíso Azul e Recanto Feliz com a chegada da proposta da segunda etapa do projeto de intervenção. Seguiremos agora com este ponto. 89 CAPÍTULO III EM CONSTRUÇÃO: Experiências de tempo-espaço em áreas de intervenção Caminhante, as tuas pegadas São o caminho e nada mais; Caminhante não há caminho, O caminho faz-se ao andar. Ao andar se faz o caminho (...). 34 (Antonio Machado) Não houve tempo nenhum em que não fizésseis alguma coisa, pois fazíeis o próprio tempo. (Santo Agostinho. Confissões. p.278) Era a terceira quarta-feira do mês de dezembro de 2009, dia da apresentação da CONDER do projeto da segunda etapa. Uma das datas mais esperados para uma grande parte dos moradores destas duas porções da cidade de Salvador. Era o dia de ver a futura casa, saber como iam ficar as ruas e becos, vasos comunicantes onde circula a vida, dia de mirar o que estava previsto para sair e o que haveria de permanecer, de identificar o que seria construído em cada área e, sobretudo, onde estariam localizados os conjuntos habitacionais e os vilages. Era o dia de ver o futuro, com ares de presente no cotidiano daqueles moradores. Ao contrário das outras quartas-feiras do ano, a reunião não estava marcada para acontecer na Associação de Moradores, mas em uma escola que ficava na região. O caminho entre a Associação de Moradores e a Escola Municipal Padre Confá parecia curto, mas a ansiedade que atravessava todos aqueles que comigo se lançavam neste percurso fazia com que ele se alongasse, se tornasse distante. Distância. Este é o sentido que usamos para precisar os contornos de um caminho, para percebê-lo no tempo. Mais do que uma medida, que a princípio, parece gozar de um certo teor de exatidão, a distância também se relativiza, é sentida, no singular pelo caminhante, que a decalca pelo seu engajamento corporal, pelas suas emoções. A distância depende então de quem 34 Versos retirados do poema Proverbios y cantares XXIX em Campos de Castilla, escrito pelo poeta espanhol Antonio Machado. 90 a percebe, de quem a nomeia como tal. É sempre distância de alguma coisa ou para alguém, o que garante uma intencionalidade nesta relação. Intencionalidade que se combina com as possibilidades, já que um caminho parece não ser percorrido do mesmo jeito, cada vez que o trilhamos uma possibilidade se abre, o sentimos de um modo, um dia mais curto, outro um pouco mais longo, a percepção muda porque a situação e seus traçados mudam, porque nós, envolvidos pelo movimento da vida, em certa medida também mudamos e o que antes aparecia como figura da gestalt, passa a ser seu fundo. Não somente o caminhante se afina às configurações do caminho, do mundo, pelos usos do seu corpo ele também o transforma, na medida em que neste engajamento atualiza com seus passos as suas direções, improvisando, inventando atalhos, fazendo eclodir novas formas de apropriação, novas maneiras de fazer e trilhar caminhos. Os passos dados até a escola Padre Confá eram sentidos um a um, em uma marcha firme e, na chegada, a sensação compartilhada era de que o tempo havia passado. Nas conversas que ali se desenrolavam logo pude perceber que não era apenas o tempo daquele percurso que estava em jogo. As pessoas que se encontram ali no pátio da Escola se remetiam a outras noções de temporalidade: o tempo de espera, o tempo de moradia, o tempo do projeto de habitação: “Depois de tanta espera acho que agora a casa sai, com fé em Deus, eu não hei de passar mais tantos anos sem meu vilage, sem minha casinha”; “Eu mesmo moro aqui desde quando aqui tudo era mato, só mato pra cima e pra baixo, tinha poucos barracos aqui quando eu cheguei... Faz muito mais de 20 ano que eu tô aqui e vou receber minha casa só agora na segunda etapa, ou, “A CONDER congelou aqui tudo, congelou que é para nós não mexer, fotografou para nós não construir e ficar esperando pelo projeto... O dia do projeto sair”. Todos esses tempos culminavam ali, envolvia visceralmente os moradores, eles eram a matériaprima em torno da qual se organizava o cotidiano, o eixo que fazia a vida ganhar ritmo. Somado a todas as noções de temporalidade que se faziam sentir em Paraíso Azul e Recanto Feliz, não poderia esquecer que, antes de ser um trabalho sobre tempo e espaço este era um trabalho em um tempo e em um espaço. Um trabalho em construção, assim como o tempo e o espaço em que ele acontecia. 91 Este capítulo se centra então na compreensão destas noções de temporalidade e também de espacialidade que são desenhadas em Paraíso Azul e Recanto Feliz com as propostas da segunda etapa do projeto de intervenção. O primeiro eixo a ser abordado se refere aos diferentes modos de apropriação do espaço empreendidos pelo desenho do projeto de habitação e pelos moradores. De que modo estas áreas são descritas? Como os moradores decalcam o seu caminho de vida? Estes são alguns dos questionamentos que norteiam esta seção. As ideias de Ingold e Slavin, sobre as experiências de construção do lugar pelos atores sociais e as considerações de de Certeau sobre as distintas formas de mirar o espaço, empreendidas pelo caminhante e pelo voyeur, funcionam aqui como apropriadas fontes de descrição e análise do fenômeno em questão. O próximo eixo de análise que compõe este capítulo gira em torno das três lógicas temporais que se atravessam nestas duas porções da cidade: o tempo do projeto de habitação, o tempo de moradia e o tempo de espera. O intuito então é caracterizá-las e identificar em que ponto elas se tocam e em quais se afastam, a partir da experiência etnográfica e das narrativas dos moradores. Mas, uma vez marcados os contornos do movimento analítico que irá dar seguimento ao capítulo, é hora de voltar aos contornos do campo. O tempo havia passado... O tempo de espera, da aprovação da segunda etapa para aqueles que não tinham recebido os vilages e os apartamentos na etapa anterior. Para estes que não foram contemplados inicialmente porque tinham casas de alvenaria35, consideradas pelos técnicos da CONDER como menos insalubres do que os barracos de madeirit, a espera parecia ainda não ter perdido seu espaço, adquiria uma nova configuração. A espera agora era pelo “dia da contemplação”, o dia de receber a casa. Todavia, entre aqueles que aguardavam ansiosos por esta data, existia um entendimento de que este era um passo mais largo. Como haviam aprendido na experiência da 35 No projeto de requalificação da primeira etapa o critério utilizado para definir o recebimento das unidades habitacionais eram condições estruturais da moradia, as famílias que moravam em barracos de madeirit e aquelas que moravam em casas muito pequenas, com sem iluminação ou ventilação foram contempladas logo na primeira etapa da intervenção. Já as famílias que tinham casas de alvenaria, construídas com blocos tiveram que esperar pela segunda etapa. 92 primeira etapa, na gramática de um projeto de habitação a contemplação era um estágio posterior ao da apresentação do projeto. Grande parte dos moradores que estavam reunidos na Escola Padre Confá haviam esperado três anos, contados a partir da conclusão das obras da etapa anterior, para ver como seria a segunda etapa. Afinal como lembrava Dona Marilda em nossas conversas compridas: “Só tem agora mesmo a segunda etapa, porque não vai ter mais nem terceira e nem a quarta, é só essa mesmo e pronto, nossa oportunidade é essa aí”. Durante o tempo em que estive no campo um ponto que se repetia entre aqueles que tinham traçado tanto o projeto do vilage quanto o do apartamento, era a crença de que a segunda etapa seria melhor do que a primeira. Deterei minha atenção nesta questão, para depois dar prosseguimento ao evento da apresentação do projeto da segunda etapa e sua relação com a espacialidade, tema que será abordado na próxima seção. Porque antes de compreender as apropriações do espaço feitas tanto pela CONDER como pelos moradores, faz-se mister atentar para o sentido da segunda etapa no imaginário dos habitantes de Paraíso Azul e Recanto Feliz. Voltemos então às nuances que marcam o desenho desta crença “do melhor da segunda etapa”. Aos poucos fui percebendo que o decalque desta crença parecia ser um dos elementos que sustentava o tempo de espera, que lhe dava sentido. Todavia, quando ouvia nas rodas de conversas esta noção de melhor, algumas perguntas ainda pareciam ficar sem respostas, faltavam peças neste quebra-cabeça: Melhor em quê? O que lhe garantia esta avaliação? Neste dia da apresentação do projeto Dona Marilda, sempre às voltas com os assuntos da segunda etapa, em um tom eufórico, me disse: Nessa segunda etapa vai ter vilage, tão dizeno que vai ter de dois quarto, e na primeira era quarto e sala... E os probrema que teve aí na primeira etapa porque o povo não fiscalizou36, deixou tudo à vontade, agora não vai ter não... Agora vai ser tudo 100%, a gente vai também dizer se quer apartamento ou vilage, agora vai ser do nosso jeito... Vou ter meu vilage do 36 Ver esta discussão sobre a fiscalização e os erros da primeira etapa no capítulo II “Fiscalizar é tudo, vamos viver em cima dessa tecla”: discutindo o papel dos atores sociais no processo de implementação de um projeto de habitação popular. 93 jeito que eu sonho, maior com dois quarto pra meu filho, pra ele tem o quarto dele também. Era dessa crença que também falava Seu Valdo, que estava naquela reunião para ver como seria o vilage nesta fase do projeto. Crença que parece ter sustentado a sua decisão de ter recusado o apartamento que recebeu na primeira etapa. Abro agora um parêntese para trazer à cena os contornos desta decisão. A história de Seu Valdo, 45 anos, casado, pai de duas filhas, era conhecida entre os moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz, sobretudo, porque ele fez o caminho inverso ao que uma parte das pessoas destas duas áreas projetava fazer: ele saiu de um apartamento em um conjunto habitacional para o seu antigo barraco de madeirit, de três cômodos, com quarto, sala, cozinha e com uma pequena área no fundo. Seu Valdo chegou à região, na época que ainda era chamada de Inferninho, há 23 anos, vindo do interior, um migrante, como muitos moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz: Eu tô aqui há 23 anos, aqui no Costa Azul e daqui não consegui sair, estou aqui esperando minha moradia que é muito importante, entendeu? Aqui no Costa Azul, não tem um bairro melhor de que o Costa Azul, não existe, só o Costa Azul mesmo, pra mim, né?... Não os zoto, as outras pessoa, mas pra mim... Pra mim é ótimo o Costa Azul e pra mim eu só saiu daqui morto, só debaixo do chão mesmo... O Costa Azul... Eu vim praqui em 82, dar um passeio na casa do meu irmão, passar um fim de semana... Aí não passei oito dias, no sábado que eu estava viajando, tava saindo pra ir embora aí achei um... Um pessoal pediu pra eu fazer uma faxina num condômino... Aí eu desisti de viajar e fui fazer a faxina pra eles, aí fiz a faxina de manhã até meio dia... De meio dia pra tarde, ele perguntou: você quer trabalhar comigo? Aí eu falei: quem diz é o senhor não é eu, eu to aqui pra trabalhar. –Mas você não tava indo embora? – Tava indo embora não, vim a passeio ver meu irmão, mas meu destino é trabalhar, se você gostar do meu trabalho prefiro ficar com você. – Ele disse: É tudo bem vá lá segunda-feira. Segunda-feira eu fui no condômino, cheguei a trabalhar, trabalhei três anos no condômino, através desse condômino aqui do Costa Azul, ele disse: Oh vou dispensar, vou levar você pra outro local, aí fui, trabalhei no Polo três 94 anos, aí depois do Polo retornei e contínuo no Costa Azul até hoje... Nesta casa eu cheguei aqui em 89, é isso mesmo 89... Eu comprei aqui quando ainda era... Foi mil conto, chamava conto nessa época, é mil reais na realidade, comprei através do meu irmão, meu irmão morava aqui, aí eu mesmo comprei e passei a morar aqui, vim com minha mulher e minha filha, já tinha uma menina, aí vim com ela e tô aqui até hoje esperando minha moradia. Quando soube da notícia que havia sido contemplado com o apartamento Seu Valdo chegou a ir até a CONDER pegar a chave da nova casa e também teve o seu nome indicado para ser o sindico do condomínio, mas o apartamento não fazia parte do seu projeto vida e por isso, como narra, logo se sentiu incomodado na nova moradia. O seu projeto era mais próximo do vilage, já que desejava ter uma casa com um quintal para receber os amigos, poder ampliá-la para garantir a moradia de suas filhas, pois inclusive uma delas estava às vésperas de seu casamento, cuja festa estava marcada para acontecer na Associação de Moradores. Seu Valdo desejava também, sobretudo, gozar de uma certa autonomia e privacidade que, segundo ele pontua, o apartamento parecia não lhe oferecer. Além disso, quando um morador se mudava para um apartamento em um conjunto habitacional não era possível escolher os vizinhos, e este foi um ponto que pesou na decisão de Seu Valdo: (...) o pessoal que ficou no condômino, meus vizinho, a maioria dos vizinho que foi pra lá, não era suficiente como os meus aqui37... Eu achava que não dava pra morar lá com eles, aí eu peguei e desisti, aí eu perguntei lá na CONDER : Vê aqui, minha área que eu tô saindo de lá, faz o quê? Aí eles 37 Sobre a vizinhança Seu Valdo concluiu dizendo que: “(...) a vizinhança tem um porém, você veve na sua casa, você não vai na casa de pessoa nenhuma, eu moro aqui, tem a casa, essa casa pegada aqui é de minha cunhada, eu sou fui lá na casa de lá, se fui dez vezes foi muito e é parede e meia, então eu penso que é cada qual em seu lugar , então eu vivia muito incomodado, eu sou dessa maneira eu ...na minha casa entra conversa tudo bem, mas eu não entro na casa de pessoa nenhuma... O que me incomodava lá porque eu chegava do trabalho cansado queria descansar não podia descansar por causa da zuada dos vizinhos, tanto que chegou um vizinho que eu passei a discutir com ele um dia porque eu dentro de casa ouvia a mulher, a mãe mandar o menino vim pra minha casa pra ele poder descansar... e eu tinha que ficar com o filho dele adulto, então eu peguei fiquei chateado com isso aí”. 95 disseram: Olha tem um projeto de fazer um vilage, aí eu falei: então eu prefiro ficar na minha área até vocês me dá minha casa, meu vilage. Eles disse assim: só na segunda etapa. Aí eu disse: pode passar mil ano, dez ano eu quero minha casa , meu local. Aí eu peguei a chave devolvi e fiquei no meu barraco aguardando a segunda etapa e eu espero que a segunda etapa... Eu acho que vai ser mais ótima, mais melhor que a primeira etapa, vai ser melhor ainda e eu tô aqui esperando isso, esperando minha moradia, meu vilage pra eu viver com minha família. Os vizinhos seriam reforçadores deste sentimento de pertença, de apego a moradia atual se configurando, inclusive, em uma justificativa para a resistência em relação ao imóvel recebido. Percebe-se então que a moradia não é avaliada apenas pela sua estrutura física, mas também pelo seu entorno, pelas pessoas que dela fazem parte e que vão definindo seus papéis na trama do espaço ao longo do tempo. Mais do que uma sociabilidade obrigatória à relação de vizinhança pode pressupor também um convívio eleito entre aqueles que a compõem. Um vilage ampliado em Recanto Feliz. Uma vez enunciada os elementos que marcam o sentido da segunda etapa na cena de Paraíso Azul e Recanto Feliz, voltemos então a uma exposição mais detalhada do evento da apresentação do projeto da segunda etapa aos moradores destas duas porções de Salvador. Na seção a seguir o eixo analítico que vai nortear este percurso gira em torno das noções de espacialidade que aparecem entre alguns moradores e o desenho do projeto de habitação. Prosseguirei então com este ponto. 96 1.1 Os caminhos de vida, os mapas e as plantas... Os passos de um caminhante. Sala cheia, algumas pessoas em pé, na porta, mapas, projetores, moradores que não costumavam acompanhar rotineiramente as reuniões da Associação de Moradores, marcavam a noite daquela quarta-feira. A reunião começou com a apresentação da equipe técnica da CONDER. Durante a exposição do projeto um certo silêncio se fazia sentir entre os presentes, mas logo o silêncio foi substituído pelos comentários que vinham das conversas paralelas que logo se pulverizavam de ponta a ponta, pipocando aqui e ali. A medida que os mapas, projeções e plantas eram mostrados, um a um com suas nomenclaturas e descrições: área comercial, via de lazer, área de oferta habitacional, áreas 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, o murmurinho aumentava: “Onde é isso que eles tão mostano aí? É perto da casa de quem? De Seu Pedro?”; “Ah deve ser ali no lava jato?”; “Você tá entendeno este negócio aí que tá nas plantas, esses ponto, parece uns ponto, né?; “Eu não tô nem exergano direito, tô vendo ali uma parte laranja, acho que eles tão dizendo que ali vai ser os vilage da gente, desse ser isso mesmo”;“Essa área aí que tá mostrano, eu penso né, que é ali atrás do GeraPão onde Vânia morava, mas só perguntando a eles aí da CONDER pra ter certeza”. Era difícil se localizar em meio àquelas coordenadas inscritas naquelas projeções. Mesmo estando diante da planta ou do mapa que correspondiam especificamente à rua que habitavam, muitos moradores não conseguiam se situar, porque os 97 personagens de Paraíso Azul e Recanto Feliz, as histórias experienciadas, os rastros de vida eram apagadas para dar lugar a legendas e linhas, um código distinto daquele que grande parte das pessoas destas áreas compartilhava em seu dia-a-dia. Diante das dúvidas que roubavam a cena na apresentação, alguns diretores da Associação de Moradores eram convocados, juntamente com a CDM a ocupar a posição de tradutores, convertiam as informações contidas nas projeções em referências mais próximas aos moradores. Diziam nomes, narravam episódios, traziam cores ao que parecia ser, a princípio, monocromático. As plantas e mapas do projeto que eram apresentados e a própria linguagem técnica utilizada pela equipe responsável pela parte física, arquitetônica e urbanística do projeto, pareciam se remeter a lugares distantes, que não faziam parte do itinerário de caminhante destes moradores. Qualquer traço de familiaridade se perdia naquelas superfícies planas. Isso porque no domínio das práticas que são tecidas nas tramas do cotidiano os atores, como argumenta Ingold (2005) não fazem cálculos, nem mensuram milimetricamente distâncias e posições, e mais do que isso não utilizam mapas ou plantas, mesmo estes sendo artefatos tão presentes nos modelos teóricos de orientação no espaço, que se sucederam ao longo da história. É a compreensão ordinária que está ancorada no corpo, que parece tornar possível a vida cotidiana, que permite que o caminhante em uma trilha familiar saiba onde está, sem empreender um raciocínio cartográfico, com suas coordenadas e traçados. Retrato do cotidiano, o espaço praticado. 98 O corpo caminhante (walking body,), expressão de Slavin (2003) que aparece em sua investigação sobre a experiência da longa caminhada à Santiago de Compostela, está disposto ao mundo, compreende de forma prática as suas configurações e ajusta-se, quando reconhece o ritmo que embala os passos, o qual traz em seu bojo um caráter dual, na medida em que parece partir não apenas de dentro, já que ao mesmo tempo cede ao externo, afinando-se aos giros e contornos do mundo. Nesta relação de inerência que se instaura, o corpo explora o mundo e responde as suas solicitações mediante a dinâmica do movimento, como acrescenta Slavin (2003). Indo mais além neste ponto que quero fazer ganhar relevo de Certeau (1994) vai dizer que na caminhada o ator: (...) seleciona e fragmenta o espaço percorrido; ele salta ligações e partes inteiras que omite. Deste ponto de vista, toda caminhada continua saltando, saltitando, como a criança “num pé só”. Pratica a elipse de lugares conjuntivos. (Certeau, 1994, p. 181) A compreensão corporal que se esboça neste domínio, no curso da caminhada, como é aqui apresentada com base nas premissas de Merleau-Ponty (1999), é aquela que opera no nível pré-reflexivo, que vigora no campo das práticas e que não está na ordem da intelecção, da decisão racional. Embora não lancem mão do recurso cartográfico em seu caminho de vida, os atores não estão desorientados no mundo, perdidos em universo caótico. Ao contrário, são guiados por um senso de familiaridade, que permite que saibam onde estão e como chegar a um próximo destino em um percurso que já lhes seja conhecido. Era exatamente para esta compreensão que as dúvidas e questões levantadas pelos moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz pareciam apontar. É este mesmo senso de familiaridade que de certo modo possibilita o desenrolar da vida ordinária, como vem pontuar Ingold (2005), pois como seria a vida se a cada percurso recorrêssemos a um mapa ou mirássemos um lugar por uma planta diferente? Na tentativa de esboçar, de modo mais claro, as nuances deste senso prático que orienta o descobrir-caminho, Ingold (2005) traça uma diferenciação entre a prática de caminhar e a lógica que opera na navegação, sinalizando que: Quando nos movemos, normalmente não pensamos que, estamos pilotando nossos corpos de um lado para outro da superfície da terra, do modo pelo qual o navegador pilota seu navio pelo oceano. Nem temos que pensar dessa 99 maneira para saber, em qualquer momento, onde estamos. (Ingold, 2005, p.100). São os cheiros, os sons, a experiência tátil e o próprio treino do corpo caminhante (walking body) aos traços e às demais características do caminho que o orientam em seu percurso. Os atores não são navegadores em seu cotidiano, não deslocam a todo instante racionalmente seus corpos. Os conteúdos, as recordações dos itinerários traçados não se dissolvem, se sedimentam em um matriz de movimento, que articula passado, presente e futuro. O seu desenrolar é também o encadeamento de histórias, a criação de narrativas, que guardam em si lembranças de chegadas e partidas de jornadas já efetuadas. Mulheres percorrendo Recanto Feliz. No dia em que estive na casa de Dona Chiquinha Pernambucana, uma mulher de 68 anos vinda de Pernambuco, que havia chegado à região há mais de 20 anos e que muito se ressentia por não ter aprendido a ler e escrever apesar de suas tentativas, saímos a alguns passos na frente da casa e enquanto caminhávamos, ela me contava e recontava, em sentidas recordações de outros tempos, como era o lugar em que atualmente vivia logo quando decidiu construir ali a sua moradia. Era uma história detalhada, minuciosa, de lembranças imperecíveis, que deslizavam em direção ao presente: 100 Eu morei primeiro, antes de vir pra aqui, naquela invasão da Pituba, eu morei lá na invasão da Pituba uns seis anos, aí depois meu marido vendeu lá porque ele tinha que viajar.... O pai dele morreu mandou ele tomar conta lá do negócio dele, ele foi, mas quando chegou lá não deu certo, não deu certo, não tinha trabalho pra ele, ele terminou voltando de novo e quando ele voltou foi quando ele invadiu aqui, a gente invadiu... E ficamos aqui até hoje... Quando eu cheguei aqui era só chão, era cheio de mato, era tudo mato não tinha casa ainda, a gente limpou aí fizemo a casa primeiro de tábua depois a gente passou a carregar os material pra fazer, porque não tinha como fazer de bloco, aí fizemos de tábua, depois passamo tempo, passamo tempo e fizemo ela de bloco, Deus ajudou e a gente fez, fomo assim construíno, aí tinha umas pessoas já que moravam aqui do lado, mas tavam fazendo ainda, que no início tinham poucas casa aqui, não tinha tanta casa como hoje. Dona Chiquinha Pernambucana conhecia como ela mesma dizia, “cada palmo” daquele lugar, subia, descia, entrava em um beco saia em outro, orientada pelas suas histórias, pelas pessoas que com ela convivia há tantos anos, sabia sem titubear qual casa era de tal morador. Estas eram então, as suas bússolas, os seus pontos cardeais. O seu corpo a guiava sem esforço pelos lugares estreitos, pelos terrenos íngremes, de modo que me avisava antecipadamente quando tinha algum buraco, um pedaço mais escorregadio que começava a ser coberto pelo verde escuro do limo ou quando aparecia outros tipos de empecilhos no nosso trajeto. Havia, por exemplo, uma rampa que ficava próxima à casa de Seu Valdo e que era um ponto de passagem quase obrigatório para quem queria saí das imediações da casa de Dona Carmita, Dona Maria, Seu Valdo e Dona Chiquinha Pernambucana para chegar até a Associação de Moradores. Lembro-me que as vezes que tentava subir ou descer esta rampa, envolvia uma série de recursos para não escorregar, tirava a sandália, descia descalça ou alguém me ajudava a subir até conseguir me equilibrar. No entanto tanto Dona Chiquinha Pernambucana, como as crianças e essas outras moradoras cujos nomes citei acima, subiam e desciam sem dificuldade mesmo em dia de chuva e isso só 101 parecia possível porque tudo ali era para eles tão familiar, afinal diariamente faziam percursos similares. O que estava em jogo nessa experiência de Dona Chiquinha Pernambucana de construir caminhos de vida não parecia ser nem uma resposta automática a estímulos, nem a interpretação lógica de uma consciência, mas o esboço de um modo de se relacionar, de ser tocado e de atentar corporalmente para uma situação, para o mundo. Novas casas apareciam, novos atalhos, trilhas, Paraíso Azul e Recanto Feliz não permaneciam as mesmas, de tempos em tempos surgiam novas invasões, novos personagem chegavam, as casas e suas fachadas iam mudando, ganhavam novas tonalidades, pequenos comércios domésticos tão comuns nestas áreas se ampliavam e movimentavam os becos, que iam se estreitando com as novas construções. Com a conclusão das obras da primeira etapa, vinham também os vilages e os conjuntos habitacionais que se espalhavam por Recanto Feliz, que passou a ter muitas das suas ruelas e becos substituídas por ruas mais largas, urbanizadas, movimentadas, mas Dona Chiquinha Pernambucana logo conhecia e compreendia o caminho percorrendo-o no seu cotidiano, incorporando-o. O olhar que Dona Chiquinha Pernambucana tinha do lugar era um olhar de caminhante, do qual fala de Certeau (1994), atento e sensível aos contornos do caminho, ao domínio das práticas que se sucediam, é um olhar que se encontra possuído pela lei anônima do lugar, distinto daquele lançado pelos técnicos da CONDER e suas projeções que articulavam pontos a distâncias, como um olhar de voyeur, destacado, descolado do embalo das artes do fazer, do som da vida. Um olhar de voyeur, panorâmico, que se distância para mirar os traçados, que sobrevoa como Ícaro, e que perde de vista os contornos microbianos do cotidiano. Caminhar em um contexto familiar como era Paraíso Azul e Recanto Feliz para Dona Chiquinha Pernambucana, pode ser semelhante, tal qual nos acena como Slavin (2003), a andar de bicicleta ou a aprender um instrumento musical, já que o resultado, assim como nestas práticas, é a produção de uma espécie de compreensão corporal que custará para ser olvidada. Basta sentar em uma bicicleta, após algum tempo sem praticar, para perceber que o corpo, após algumas tentativas, ainda guarda o 102 encadeamento dos movimentos, o ritmo das pedaladas, a postura propícia para o equilíbrio ou, sentir novamente as cordas do violão serem dedilhadas para os dedos encontrarem a posição, o justo afinamento que vem com o toque das notas de uma música, as quais parecem estar guardadas nas pontas dos dedos. Trata-se, de fato, de um saber que está no corpo que não se traduz por uma designação objetiva, este nada mais é do que um saber de familiaridade e não uma relação de automatismo. Em um exemplo mais exato, basta então experimentar caminhar por um contexto, onde cada ponto do percurso lhe pareça familiar para, após alguns anos, retornar e perceber como é possível retraçar seus passos de modo semelhante a como havia feito anteriormente. Os pés ainda reconhecem a natureza íngreme do terreno, as suas sinuosidades e retas, que ao fazerem girar o corpo, como em um processo de ajustamento, tendem a gerar um certo ritmo para os passos que seguem encadeados, ora mais lentos ora mais rápidos sempre em uma dinâmica aberta, flexível, com o ambiente. Pode-se dizer que o corpo compreendeu o percurso, a partir do seu engajamento. Isso se dá porque o caminho é de fato incorporado pelo andarilho, como nos mostra o exemplo de Dona Chiquinha Pernambucana, e o lugar, por sua vez, é construído na confluência de trilhas de movimentos que deslizam no tempo, fazendo aqui uma breve referência ao conceito de lugar proposto por Casey (1996)38 . A experiência de incorporação do caminho, como explana Ingold (2005), não se processa porque o caminhante constrói uma representação do mundo, copiando seus aspectos estruturais em uma espécie de mapa mental de estrutura análoga, formado por imagens interpretadas logicamente por uma consciência, como quer fazer crer o discurso cognitivo. Neste discurso, como nos acena Ingold (2005) este mapa ao ser acessado emite informações sobre a posição que as coisas ocupam no mundo e sobre as 38 Para o filósofo Edward Casey a reflexão sobre o lugar, é central na filosofia e no pensamento contemporâneo. A discussão que trava em torno desta temática tem suas raízes nas premissas de Heidegger para quem o lugar é algo que o ocorre no ‘tempo’. Para uma discussão mais aprofundada do conceito de lugar, ver CASEY, 1996. 103 relações que estabelecem. Apenas quando a estrutura do mundo muda, este mapa seria atualizado. O ator, então, neste modelo seria um mero receptáculo, um lócus de armazenamento para estas cópias, não agiria sobre mundo, pois não é percebido como parte dele, o que assinala uma operação escrita nos termos da rígida dicotomia sujeitoobjeto. O caminhar na ótica cognitivista então, como argumenta Ingold (2005) não se configuraria em uma experiência de construção do mundo pelo movimento, porque as categorias que o definem e organizam a sua percepção estariam dadas a priori, independentes do estabelecimento de uma relação de inerência. Dentro desta lógica a relação do ator com o mundo seria, ao contrário do que defende Merleau-Ponty (1999), mediada por representações. Esta concepção, como nos lembra Ingold (2005), também está na base dos princípios de orientação formulados pela cartografia moderna, que tem o mapa como seu principal artefato, para quem o mundo parece ser inanimado, incolor, indolor, sem texturas, formado apenas por uma ligação mecânica de pontos, uma vez que se encontra dissociado da vida cotidiana, “como um palco de teatro, do qual todos os atores misteriosamente desaparecem, o mundo - como é representado no mapa – é deserto, destituído de vida”. (Ingold, 2005, p. 96). O traço consegue, em um golpe certeiro, substituir o reino das práticas pelos das coordenadas, da topografia, dos traçados geográficos. Os rastros, as narrativas, os personagens são apagados de sua superfície de tal forma, como no evento da apresentação do projeto da segunda etapa, que é possível que um caminhante tão familiar a um determinado caminho não o identifique; isso se dá porque as inscrições do mapa e das plantas do modo como são feitas parecem não lhe fazer sentido algum. A explicação para este esvaziamento do sentido pode ser encontrada nas ideias de Merleau-Ponty (1999) que argumenta que sentido é direção, ele nos aponta para uma sequência. Na perspectiva merleau-pontyana o sentido está então presente no movimento, não é da ordem da intelecção, da representação, a experiência de sentido é corporal. Contrariando estas noções cognitivas de representação, por demais intelectualistas, Tim Ingold (2005) concentra-se então, em resgatar um sentido 104 fenomenológico para a experiência de incorporação do caminho pelo andarilho, acentuando que é o corpo que localiza, que compreende, na medida em que é tocado pelo ambiente. O corpo caminhante (walking body) é treinado então, para assumir certas disposições, maneiras de lidar com desafios e problemas que são colocados pelas situações. O corpo no seu movimento desenvolve um certo estilo para responder aos apelos do mundo. Ao falar da relação entre o caminhar e o treino do corpo nos remetemos à ideia de técnica corporal, para tanto faz-se mister fazer duas ressalvas. A primeira encontra suas raízes nas premissas de Mauss (2003), que pontua que nenhuma técnica corporal é essencialmente natural, já que deriva também de um processo de aprendizagem, de modulação. Tem-se aqui a antiga polarização entre natureza e cultura39. A segunda ressalva, entretanto, é feita por Ingold em resposta a esta assertiva de Mauss na tentativa de dissolver esta dicotomia. Para Ingold (2005), nenhuma técnica é mais natural do que a outra quando se supera esta dicotomia e, se reconhece que toda a técnica é natural e cultural. Cultura e natureza aqui se tocam, porque nesta acepção a cultura não é vista como um sistema de representação, mas como uma história de engajamento com o ambiente. E esta mediação entre elas é feita pelo corpo, pelo deslizar do movimento, em uma sinergia entre organismo e ambiente. O corpo que se move na caminhada traz uma dimensão de virtualidade estando polarizada por projetos motores, o caminho que incorpora ao seu mundo desdobra-se ao longo do tempo, que não só é passado, nem só presente ou futuro. Estas dimensões de temporalidade escorregam uma em direção a outra, como explana Ingold (2005). Do passado fica a memória corporal das jornadas anteriores, do presente o ir e vir de cada passo que vai aos poucos se firmando em um engajamento contínuo que não cessa e que se ritmiza, e do futuro, o que fica é a expectativa de chegar ao destino, de saber sobre o porvir. No percurso estas dimensões se misturam e se retroalimentam, de modo tão intenso que para viver o presente da caminhada é preciso pensar o passado de itinerários anteriores a partir de uma percepção multisensorial e isso é feito via corpo, por outro 39 Que não será objeto de atenção neste estudo. 105 lado é necessário também perceber que um dos sentidos do passado reside nesta possibilidade de criação, de atualização feita pelo corpo caminhante no presente. Já não se pode mais separar estes domínios temporais porque eles escapam as tentativas, deslizam no movimento que continuamente se esboça. Mirando os contornos do percurso de Dona Chiquinha Pernambucana foi possível perceber esta dimensão de criação na recriação, a atualização, porque como ela mesma dizia: “A gente não pisa do mesmo jeito, assim né igual, toda vez que a gente anda”. Com esta expressão Dona Chiquinha Pernambucana acenava para o fato de que em uma caminhada há sempre uma dimensão de criatividade que efetuamos com nossos passos. Por isso pode-se dizer tal qual o poeta Antonio Machado que: “o caminho faz ao andar, ao andar faz-se o caminho”. Tempo, corpo, ritmo, sentido, compreensão estas parecem ser as palavras-chave para empreender uma analítica do caminhar, das construções do lugar, que dê conta de sua poética, das particularidades que esta experiência de engajamento prático com mundo, suscita. É hora de descer o ator social, que desde longa data fora colocada em suspensão em uma atitude de destacamento do mundo, assumindo em relação a ele apenas uma posição contemplativa, que tem como uma de suas raízes a dúvida cartesiana, que aponta que apenas o pensamento não seria passível de dúvida, na medida em que não seria corrompido pelos sentidos, pelo mundo. De novo no chão, o ator é novamente “possuído” pelo mundo, é hora de perceber que a condição do ser é ser com o mundo, compreendê-lo em cheiros, gostos, formas, sons, tonalidades. E a partir de um olhar via corpo se afinar aos contornos dos caminhos. É a defesa desta percepção aterrada, mundanizada, o ponto de intersecção das trilhas percorridas por Ingold, Slavin e Certeau, ora apresentadas nesta seção, é este olhar/ sentir de caminhante que traz de novo o sentido, ou seja, a partir dos passos do caminhante são tecidos caminhos de vida. Para o caminhante de de Certeau e Ingold, assim como para o andarilho de Santiago Compostela de Slavin e os moradores de Recanto Feliz e Paraíso Azul o espaço é um lugar praticado, onde a vida cotidiana acontece e se desenrola em suas tramas. Que se faz nas chegadas e partidas dos seus personagens, neste movimento que 106 não cessa e que parece guardar um “que” de novidade, mas que ao mesmo tempo sedimenta também lembranças imperecíveis. Como nos acrescenta Merleau- Ponty (2006) não estamos no espaço somos espaço, não precisamos representá-lo a nós mesmo porque o temos. Este é o ponto que marca com traçados sólidos a diferença entre este modo de construir e perceber o espaço e a forma como ele aparece no desenho deste projeto de habitação: estático, sem histórias, silencioso, irreconhecível. Forma esta, que se materializa nas projeções, mapas e plantas da segunda etapa. Esboçados os contornos das diferentes apropriações do espaço feitas pelos moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz e pelo projeto de habitação, a esta altura já é hora de trazer à cena um outro elemento que também adquiriu novas dinâmicas com as propostas da segunda etapa: O tempo. 1.2 Em tempos de intervenção... O fim do mês de dezembro de 2009 se aproximava e com ele vinha a incerteza de quando as obras definitivamente caminhariam a passos largos. Este clima de insegurança se asseverava porque para aquelas pessoas que experienciavam as ações de um projeto de habitação, dezembro, assim como também os períodos de festas ou feriados, significava o anúncio do prolongamento do tempo de espera pelo “dia da contemplação”. Como Seu Pedro me dizia: Todo mundo sabe que se entrar Natal, a obra não anda, aí vai entrar Ano Novo, Carnaval, São João e nós o que é que faz? Espera mais...”. Os sonhos de Dona Marilda e Dona Chiquinha Pernambucana de receberem suas casas no Natal mais uma vez não se cumpriam e ficavam para o ano seguinte. Apesar de haver uma previsão feita pela CONDER de que as obras começariam em janeiro de 2010, este discurso não apaziguava os ânimos dos moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz que tinham como projeto o vilage e o apartamento. Por diversas vezes em que voltava ao campo ouvia, nas rodas de conversas entre vizinhos ou no pequeno pátio que ficava na frente do prédio da Associação Moradores antes das reuniões, frases assim: “Quem é que vai acreditar nisso? Que vai começar em janeiro, 107 eu tenho é muito tempo aqui esperando, uns diz que janeiro, acredita, mas eu nem sei mais viu, fica difícil até para nós pensar...”; ou, “Isso é data que eles da CONDER bota pra calar a boca do povo, todo dia diz que vai começar, que é hoje, que é amanhã, que é na semana que vem e a gente fica nessa, espera e fica tudo a mesma, igual a todo dia, não muda nada”. O tom das falas era quase sempre de desconfiança; percebi então que o descredito da CONDER não se restringia apenas ao tema do aluguel40, ganhava outros desdobramentos durante a espera pelo “dia da contemplação”. Descredito que assinalava para o modo como alguns moradores daquela região se relacionavam com esta instituição pública. E até durante as reuniões da Associação de Moradores, certa feita escutei de Seu Pedro o seguinte comentário: “A CONDER não trabalha com data porque as data que eles marca não dá certo”. Estas ideias, que pareciam estar bem alicerçadas entre alguns moradores destas duas áreas, tinham suas raízes não só na experiência da primeira etapa, mas também no vai e vem que marcou a etapa que vivenciavam hoje, a segunda. Inúmeras foram as vezes em que o início da obra ou a aprovação do projeto foram anunciados, algumas pessoas criavam expectativas e desenhavam novos projetos, enquanto outras se preparavam cheias de tristezas para sair das suas casas e para vê-las sendo derrubadas pelos tratores. As emoções sentidas em relação ao projeto de intervenção da segunda etapa não eram as mesmas, como já mencionei em um dos capítulos anteriores41, mas independente destas diferenças esboçava-se ali uma preparação. Mas, logo que os moradores iniciavam qualquer processo de elaboração vinha a notícia de que teriam que esperar mais; este era então o tempo do projeto de habitação. Aos poucos muitos moradores foram resistindo a estas informações e um deles, Seu Silvano, um morador que era conhecido por polemizar as reuniões em seus dias de bebedeiras, me disse que estava igual a São Tomé, “só eu vendo pra crê, só 40 Ver capítulo II “Fiscalizar é tudo, vamos viver em cima dessa tecla”: discutindo o papel dos atores sociais no processo de implementação de um projeto de habitação popular. 41 Ver esta discussão mais aprofundada sobre este ponto no capítulo I “Decalcando projetos de vida: notas do cotidiano”. 108 quando eu vê aquela poeirada, os trator passano aí pra cima e pra baixo, broco, areia é que eu acredito”. O tempo de espera era uma face da mesma moeda do tempo do projeto de habitação, um não existia sem o outro. Esperava-se pelo projeto, pela sua aprovação, pelo início das obras, esperava-se em certa medida pelos contornos do projeto, por suas etapas, por sua burocracia. Mas, o tempo de espera em Paraíso Azul e Recanto Feliz, como mostrei em um dos capítulos anteriores, não era um tempo estéril; nele os moradores teciam seus projetos, criavam práticas, regras, decalcavam e organizavam uma vida, movimentavam seu cotidiano. Os atores sociais não estavam passivos, pois nestas duas áreas da cidade de Salvador as informações da CONDER chegavam cheias de ruídos, eram modificadas, apropriadas e re-significadas. O tempo do projeto de habitação não era um tempo exterior, mas um tempo vivido, sentido, que se fazia e se refazia tanto pelo lado da CONDER quanto pelos moradores. Um exemplo deste ponto que quero fazer ganhar relevo são as invasões e as pessoas que não tinham como projeto ir morar no apartamento ou nos vilages da segunda etapa. Com as novas invasões, que iam modificando a paisagem de Paraíso Azul e Recanto Feliz e a “resistências” destes moradores que não queriam abandonar o seu barraco, o início das obras e seu desenrolar foram sendo atrasados. Os imprevistos que surgiam e que apontavam para a dinâmica destas duas áreas faziam com que não só as pessoas tivessem que se ajustar ao projeto, como também o projeto ao movimento de vida daquelas pessoas. O projeto se construía de ambos os lados. Isso demostra que o tempo do projeto de habitação não estava apenas associado à CONDER, mas também aos moradores, assim como o tempo de espera não era experienciado somente pelos moradores, como também pela CONDER. Não quero com isso dizer que o tempo do projeto de habitação também não contornava a vida dos moradores desta região com certos limites, não exigia deles a adoção de certas práticas, pois muitos deles deixaram de mudar a sua casa, de construir novos cômodos, de tornar sua moradia mais próxima das novas configurações que cada família assumia no decorrer dos anos. Ainda me lembro de Dona Marilda que me 109 contou, em um dos dias em que percorremos Paraíso Azul até depois chegarmos à casa de Dona Carmita, que se não houvesse o projeto da segunda etapa ela teria: Batido a laje, porque eu deixei um ponto de laje, bater a laje, aumentar, ampliar, eu ia fazer em cima os quarto, e... Rebocar, dar o piso, e a casa era pequena demais, pequena... Aí foi pedido, que na área que eu tava vai passar uma pista, para não fazer nada aí foi isso... Porque a CONDER, a CONDER suspendeu as reforma pra ninguém num fazer... Pra gente fazer, pode até fazer, mas no risco de vim o trator quando entrar a urbanização e derrubar e você perder seu dinheiro porque a área é congelada, tá congelada pra ninguém meter a mão, tá congelada, é uma área congelada. E quando a área foi congelada você não pode construir, se você construir e tiver na área de risco que vai sair a casa dos vizinho, tá sem ventilação e você tá com 4,5 janela, aí vai derrubar a minha casa pra... Dar melhoria pros vizinhos, aí eu posso perder o que eu gastei e eles não tem retorno. Se gastar já sabe que vai perder. Dona Marilda queria modificar seu barraco porque tinha um sonho de poder receber seus parentes e amigos, hospedá-los caso se fizesse necessário, convidá-los para almoçar, tomar um café sem se sentir “acanhada”. Desde que a conheci este era o seu desejo, poder receber, sobretudo, seus “irmãos da igreja”, sendo que uma boa parte deles já haviam recebido seus apartamentos ou vilages na primeira etapa do projeto de intervenção. Dona Marilda morava em uma casa de alvenaria com seu marido e seu único filho, a moradia era constituída de um quarto e uma sala colada com a cozinha, a divisão entre os poucos cômodos era feita por uma cortina. E no final da nossa conversa Dona Marilda concluiu assim: (...) hoje eu não tenho como receber uma pessoa, porque eu moro num barraco, não tem nem cômodo direito e não tem como receber ninguém, a gente recebe porque os irmão ama a gente e a gente ama, eles todo mundo sabe que a gente não tem, ai não vai desprezar a gente por que, né? (...) mas naquele barraco a gente fica ate acanhado, é que eles vão almoçam mesmo, quando tem almoçam eles não olham pra isso não, mas a gente quer uma 110 coisa melhor, né? Quem sabe uma coisa, tipo assim, uma mesa, receber as pessoa bem né? Como não tem hoje até mesmo no caso que você foi lá você viu, que não tem nem como botar uma cadeira pra você sentar. A história de Dona Marilda não era um fato isolado, durante o tempo em que estive no campo descobri um amplo repertório de casos similares, ou seja, de pessoas que tinham projetos para sua casa, anteriores à intervenção da segunda etapa. Seu Valdo, morador cuja história foi narrada na seção anterior, por exemplo, também havia me dito que se não tivesse esta intervenção tinha: Um prano de construir, eu mesmo construir por minha conta própria, mas só que quando eu ia construir, ia tentar construir foi quando veio a primeira etapa, aí na primeira etapa não pode fazer mais nada tá tudo congelado, tem que aguardar, terminar a primeira etapa ou a segunda, aí veio a segunda... E com a segunda ficou ruim de novo para construir. Aí eu não construí, não botei nada e tô aqui aguardano... Se tá congelada vamo aguardar um dia vai chegar. O decalque dos projetos era então não apenas anterior à chegada da segunda como à primeira etapa, ao tempo do projeto de habitação. Porém, com suas propostas eles ganharam novas direções e conteúdos. Mas, apesar de reconhecer estes limites que o tempo do projeto de habitação marcava, devo também assinalar a forma criativa com que os moradores se apropriavam deles. A vida ordinária não parava porque as obras ou o projeto estacionava. Os informes que todas as quartas-feiras abriam as reuniões na Associação de Moradores funcionam aqui como um dos exemplos deste dinamismo que se fazia sentir no cotidiano. Os informes se referiam aos eventos da Escola Padre Confá, data da matrícula, passeio dos alunos, períodos festivos, regras da biblioteca; do Posto de Saúde Zumira Barros, quando os aparelhos quebravam, informações sobre as consultas; notícias sobre os cursos que eram anunciados na Associação de Moradores, como os de informática, de construção civil e de idiomas; episódios que mobilizavam os moradores da região como aqueles que tangenciavam o tema da violência e a educação de jovens e crianças. A cada reunião uma temática diversa era incorporada aos informes, que não perdiam o 111 seu teor de novidade. Isso demonstra que a vida dos moradores de Recanto Feliz e Paraíso Azul não se resumia a experiência do projeto de habitação popular, este era apenas um aspecto que movimentava as tramas sociais. Posto de Saúde Zumira Barros. Fachada da Escola Municipal Padre Confá. 112 Entrelaçados com o tempo do projeto de habitação e o tempo de espera apareciam também outras noções temporalidades que, enquanto estive no campo, roubaram a cena nestas duas porções da cidade de Salvador. Um deles foi o tempo de moradia, o tempo de Paraíso Azul e Recanto Feliz. Este tempo não era apenas uma passagem cronológica, já que se referia aquilo que as pessoas viveram nestas duas áreas, ao transcorrer tornava-se parte dos indivíduos, envolvia-os visceralmente. O tempo de Paraíso Azul e Recanto Feliz não foi um critério decisivo para o recebimento das unidades habitacionais na primeira etapa, como era, por exemplo, o “Tempo de Brasília” em Recantos das Emas tal qual mostra Antonádia Borges (2005) em sua investigação sobre os programas de habitação destinados à população de baixa renda na região do Distrito Federal. Em Recanto das Emas para receber o benefício do lote pelo governo as pessoas precisavam dedicar esforço e tempo para reunir provas matérias que comprovassem que viveram durante mais de cinco anos na capital federal. Este intervalo de tempo aparecia como uma medida criada pelo governo para mensurar uma espécie de mérito por parte do morador que seria beneficiado. Já em Paraíso Azul e Recanto Feliz, o que era objeto de mensuração não era o tempo, mas as condições de habitabilidade da casa. Avaliava-se, sobretudo, os seus aspectos físicos: ventilação, iluminação, tamanho, estrutura e material usado para construção, ou seja, o grau de insalubridade. Mas, apesar de não se configurar em uma condição sine qua non, em um requisito básico para receber os vilages e os apartamentos, o tempo de moradia garantia ganhos de outra natureza, ganhos simbólicos, como por exemplo, o prestígio social e o merecimento. Seguiremos então agora com este ponto. Ser morador antigo significava, para algumas pessoas de Paraíso Azul e Recanto Feliz, ter não somente um amplo leque de informações sobre o lugar, como também sobre os demais moradores, era assim com Dona Marilda, Dona Carmita, Dona Chiquinha Pernambucana entre outros. E se este tempo de moradia estivesse associado ao tempo de participação, ou seja, ao tempo dedicado à participação nas reuniões da Associação de Moradores, do GA, a luta em torno de um projeto coletivo de permanência, ele se convertia em sinônimo de mérito para o recebimento das unidades habitacionais da segunda etapa. 113 Como já havia mencionado anteriormente, o critério utilizado pela CONDER para fazer a distribuição dos vilages e dos apartamentos não era nem o prestígio, nem o merecimento, já que todos os moradores que tinham o cadastro feito pela CONDER em 2004 teriam direito as unidades. Porém, durante as reuniões da Associação e do GA era frequente ouvir comentários deste tipo: “Tem gente aqui que faça chuva ou faça sol tá aqui participando da nossa luta, pode tá caindo um pé da água, mas vem pras reuniões e quando chegar a hora de partir o bolo ela vai tá aqui pra comer, porque ela merece, não merece não?”;” As pessoas que não vem pra reuniões como é que quer ser lembrada, pra ser lembrada tem que tá presente, fazer como muitas pessoas aqui faz, dedicar um tempo pra luta, deixar a novela e vim saber sobre a sua casa, sobre a comunidade”; “Quem é morador antigo aqui e participa sabe da nossa luta, de como era nossa comunidade e como ela está agora, e quando for receber seu vilage, seu apartamento vai valorizar muito mais, vai valorizar porque lutou com a gente e quem sabe como é” A etnografia de Julieta Quirós (2009) sobre o fenômeno piqueteiro em Florencio Varela em Bueno Aires, funciona aqui como uma apropriada fonte de descrição desta questão do tempo dedicado à participação em um projeto coletivo. Assim como em Paraíso Azul e Recanto Feliz, em Florencio Varela o tempo de participação era quantificado pelo número de vezes que as pessoas comparecem as mobilizações e as reuniões, estabelecia-se então, um sistema de relações e obrigações. Só que a relação entre estes contextos, Florencio Varela e Paraíso Azul e Recanto Feliz, guardava uma diferença fundamental. No primeiro caso, participar era uma condição para se ter direito aos planos sociais para desempregados ou planos de emprego traçados pelo governo. Ingressar no movimento piqueteiro era uma das vias de acesso possíveis ao plano, assim como através de um político, ou inscrevendo-se nos esquemas de registro da prefeitura. Em Florencio Varela, como enfatiza Quirós (2009) o plano não era apenas um eixo que movimentava a vida como também revelava-se como uma linguagem: esperar o plano, recebê-lo, perdê-lo. Em um dos momentos da sua etnografia Quirós (2009) descreve que a contabilização do número de vezes que o indivíduo participação das mobilizações, da luta dos piqueteiros influenciava não somente no acesso ao plano, mas também a outros 114 benefícios, como a cesta básica. Havia dois tipos de cestas: grandes e pequenas; as primeiras eram distribuídas para aqueles que compareciam mais vezes as manifestações e as segundas, para aqueles que tinham um número menor de presença quantificada, como mostra Quirós (2009) neste trecho da sua etnografia: Certa vez, no centro do pátio de uma das sedes do MTR42, deparei-me com três listas de nomes e sobrenomes sobre um quadro, encimadas por um cartaz que anunciava: "Manifestações pelas cestas: 16/11 - 23/11 - 10/12 - 14/12 20/12". Verifiquei que eram aproximadamente 90 pessoas no total: 50 para a "cesta grande", 40 para a "cesta pequena". Num primeiro momento, os números me pareceram enigmáticos, mas depois saberia que as datas se referiam às manifestações computadas para a cesta do mês: Quem vai a todas as manifestações - explicou-me um companheiro do movimento - recebe a cesta grande; de cinco manifestações, quem falta a duas ou mais recebe a pequena. O tamanho da caixa indica então diferenças no tempo e no esforço dedicados por cada companheiro à organização. Mais ainda: indica o que cada um merece em consequência do que deu. (Quirós, 2009, p.138) Em Paraíso Azul e Recanto Feliz a mensuração da participação era feita por outras vias. Havia um livro de presença, que ficava na porta da entrada da sala onde aconteciam as reuniões ou era passado por um dos diretores da Associação de Moradores para os moradores assinarem. Todavia, nem todos aqueles que estavam presentes assinam, sempre tinha alguém que chegava depois ou que não se atentava em pôr sua assinatura no livro. Talvez porque aquelas assinaturas não lhes garantissem o acesso a outros benefícios como ocorria no caso de Florencio Varela. Ter seu nome no livro não assegurava a casa; a certeza desta última estava no cadastro de 2004, feito pela CONDER. Como já vimos o livro de assinaturas não era, como pensei a princípio, o método mais central de quantificar a participação dos moradores. Durantes as minhas idas às reuniões da Associação e do GA fui aos poucos percebendo que em Paraíso Azul e Recanto Feliz a mensuração se dava no face a face. Grande parte das pessoas se conhecia por nomes, e ficava mais fácil saber então quem estava ou não presente. Tanto assim, que quando um morador que não costumava frequentar a reunião aparecia, uma vez ou outra na quarta-feira, logo virava alvo do circuito de fofocas entre o público 42 MovimentoTeresa Rodríguez (MTR), uma das organizações piqueteras mais importantes De Florencio Varela. 115 cativo da Associação, aquecendo o clima da reunião. E para aqueles que conheciam a dinâmica das reuniões, já era de se esperar que em algum momento frases como estas fossem então enunciadas: “Tem gente aqui hoje que é a primeira vez que tá vindo vem pra uma reunião” ou “Tô vendo gente que tem mais de não sei quantos anos que não vem na Associação”. Tempo de espera, tempo do projeto de habitação, tempo de moradia, tempo de participação. Todas estas noções de temporalidades se atravessavam, se tocavam na vida ordinária dos moradores de Recanto Feliz e Paraíso Azul. Como descrever este movimento? O caminho entre tantos outros possíveis, traçado nesta pesquisa aponta para uma questão: O que os atores sociais fazem com aquilo que é para eles desenhado em um projeto de habitação popular: novas formas de experienciar, de sentir o tempo, pois a temporalidade é a nossa condição de ser-no-mundo, na medida em que somos seres temporais, como já nos fazia pensar Heidegger (1997). Porque existir é estar no tempo. Este último então aparece como uma matriz de sentido, ou para traduzir a questão nos termos de Merleau-Ponty43 (2006), o tempo estaria no coração da experiência, na relação de entrelaçamento entre sujeito e mundo. Quando discorremos sobre as noções de temporalidade que tocam os moradores Paraíso Azul e Recanto Feliz, estamos apontando para o tempo como um ambiente de vida, das práticas, como horizonte possível de interpretação e compreensão do ser e não como um dimensão exterior, restando para o ator apenas a submissão e a passividade. Este capítulo versou então sobre as diferentes noções não só de temporalidade, mas também de espacialidade que foram tecidas na cena de Paraíso Azul e Recanto Feliz, que apontam para distintos modos de responder e atentas às solicitações do 43 Uma diferença marcante entre as premissas de Heidegger e Merlaeu-Ponty em relação à noção de temporalidade é que para este último o corpo, enquanto corpo vivido, tem uma importância central nesta discussão. Porque para Merleua-Ponty o corpo é o cerne da constituição do mundo, do ser e da temporalidade. Já Heidegger em “Ser e Tempo” pouco enuncia sobre o corpo. Este tema só vem ser discutido com mais profundidade por ele nos Seminários de Zollikon. Todavia, apesar desta diferença no traçado do caminho analítico a questão com que Heidegger se depara em “Ser e Tempo” e Merleau-Ponty em “Fenomenologia da Percepção” é a tentativa de superação da velha antinomia entre idealismorealismo. Tanto para um quanto para outro o esboço desta tentativa de superação aparece com a noção de ser-no-mundo e as implicações ontológicas que ela aponta. 116 mundo vivido. Pensar o tempo e o espaço é pensar então a relação de inerência entre ser e mundo. 117 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao estudar os contornos de um projeto de intervenção, vemo-nos diante de um amplo leque de problemas. A questão é saber se todos figuram como igualmente centrais para compreender o que atribui à intervenção, que ganha terreno em Paraíso Azul e Recanto Feliz, um caráter específico e um traço de generalidade. Antes de esboçar uma resposta mais precisa faz-se mister efetuar um espécie de retrospectiva, retomando alguns pontos que foram mencionados anteriormente nesta investigação sobre estas duas porções da cidade de Salvador. Por ora vale ressaltar que estas considerações não pretendem ser apenas uma recapitulação das discussões desenvolvidas. Serão também, mas espera-se que não sejam somente isso, mas que nos ofereçam subsídios para pensar uma posição analítica possível em relação aos projetos de habitação popular. Paraíso Azul e Recanto Feliz são áreas habitadas por camadas populares, que estão encravadas no Costa Azul, um bairro de classe média da capital baiana. É exatamente este aspecto que marca especificamente este trabalho: estudar as tramas sociais que se desenrolam na implementação de um projeto de habitação popular em uma bairro de classe média multifacetado, que expressa o paradoxo da proximidade física e do distanciamento social. Apesar de Paraíso Azul e Recanto Feliz estarem apenas a alguns passos das zonas de classe média do Costa Azul, isso não diminui a sensação de dissonância que é experimentada. Conjuntos habitacionais padronizados, enfileirados, que se diferenciavam pelas tonalidades; vilages salteados pelo caminho; barracos novos, antigos; pequenas casas de alvenaria e outras de tamanho maior, que cresciam com as lajes e puxadinhos; condomínios fechados que se estendem até o limite das ruas; imponentes edifícios, que no decorrer destes dois anos apareceram cada vez mais, dividem a mesma cena urbana, esboçando uma configuração complexa. Enquanto estive no campo alguns moradores chegaram a comparar Paraíso Azul e Recanto Feliz com uma ilha, pelo fato de estarem cercadas por estas moradias da classe média. Em alguns trechos desta região a rua é a ponte de ligação, já que nela passam tanto os moradores de Recanto Feliz e Paraíso Azul quantos os dos condomínios fechados e edifícios de classe média . Mas neste 118 cenário a rua também é o limite, porque ao cortar o terreno, em cada uma de suas margens, nos situamos em um destes dois polos que ficam frente a frente, para alguns uma convivência quase que obrigatória, para outros uma permanência53 escolhida. A localização de Recanto Feliz e Paraíso Azul, marcada pelo que poderíamos chamar de um capital simbólico elevado, é um aspecto que parece influenciar, sobremaneira, o desenho tanto do projeto da primeira quanto da segunda etapa de requalificação. Comparada com diferentes intervenções que atravessam Salvador, sobretudo aquelas que se desenvolveram em bairros populares, é possível identificar que nestas duas áreas em questão há uma preocupação estética, com uma certa adequação ao entorno. A moradia aqui é feita também para ser vista. Ao cruzar as ruas de Recanto Feliz, por exemplo, não vamos apenas encontrar conjuntos habitacionais, modalidade habitacional que está presente, por exemplo, em regiões periféricas da cidade, como fica assinalado na investigação desenvolvida por Soares (2007) sobre o Subúrbio Ferroviário de Salvador. Em Recanto Feliz, um outro tipo de habitação vem compor a cena: os vilages. Conjugar estes dois modelos de moradia não é um fato que possa ser estendido a grande parte dos projetos de habitação popular que tiveram Salvador como palco. Pode-se perceber então, que a depender da região aonde o projeto vai se desenrolar os seus traçados mudam assim como as suas propostas. Esta preocupação com o ajustamento ao entorno não operava em uma via de mão única em Paraíso Azul e Recanto Feliz, já que ela aparece tanto na arquitetura das unidades habitacionais que compõem o projeto, quanto nas práticas dos moradores. Analisei esta questão no capítulo I 54 em que discuto o exercício de formar disposições, adotar disciplinas e gostos, por parte daqueles que tinham o projeto de morar no apartamento, práticas que contribuiriam para a formação de um certo tipo de pessoa, treinada para habitar este tipo de moradia. A similaridade dos nomes dados aos 53 Vale ressalta mais uma vez que o projeto de permanência não era compartilhado por todos aqueles que moravam em Paraíso Azul e Recanto Feliz, já que alguns projetos de vida iam exatamente na contramão deste desejo de permanecer. 54 Ver uma discussão mais aprofundada sobre este tema no capítulo I “Decalcando projetos: Notas do Cotidiano”. 119 conjuntos habitacionais em relação aos condomínios fechados do entorno também se configura em mais um exemplo que parece ratificar essa tentativa de aproximação, que aponta para as trocas contínuas, para um certo trânsito que se efetuava entre estes cenários sociais. Isso demonstra que os moradores de Paraíso Azul e Recanto Feliz estavam então atentos e sensíveis às práticas de uma classe média que circundava estas duas áreas. A diferença arquitetônica das unidades habitacionais, também engendrava um movimento de atração de uma classe média interessada no baixo preço de venda e do aluguel dos vilages e apartamentos, mas, sobretudo, destes últimos. Entretanto, este tipo de atração não parecia ter como sustentáculo apenas o valor dos imóveis. Os candidatos à compra se interessam pelo local em que estas unidades estavam construídas. O endereço agregava valor, se configura em uma vantagem nos processos de negociações que eram estabelecidos. Como também foi mencionado anteriormente no capítulo I, uma grande parte dos apartamentos recebidos na primeira etapa tinham sido vendidos. Alguns, inclusive, só contavam com um morador oriundo da região de Recanto Feliz e Paraíso Azul, como era o caso de Antonio, cuja história já foi contada neste trabalho. Antonio recebeu várias propostas de venda desde que recebeu seu apartamento, como narra neste trecho: “Na época... oh me ofereceram até 60 mil, já achei até 60 mil aqui... E ...na época logo quando recebeu aqui o valor que pessoal tava vendendo era 15 mil, 18 mil (..) aí praticamente aqui, aqui só tem mesmo os barão, comprou todo”. Como pude perceber durante o período em que estive no campo, as vendas se davam não só por uma dificuldade que alguns moradores tinham de manter novas despesas como água, luz, condomínio, já uma parte deles faziam uso do gato de energia, mas porque as pessoas que moravam em Paraiso Azul e Recanto Feliz tinham projetos de vida diferentes. Projetos individuais que por vezes não se afinavam com o projeto coletivo de permanecer na região, em torno do qual se forjava uma espécie de laço social, uma solidariedade. Voltar para o interior, comprar um carro, comprar uma casa menor em outro bairro e com o resto do dinheiro montar um comércio, eram alguns 120 deles. Projetos que, por vezes, eram avaliados nas rodas de conversas e nos dias de quartas-feiras. Assim como tinha aqueles que queriam vender, existiam outros que não pensavam em sair do Costa Azul, seja pelas oportunidades de trabalho ou pela sua localização, pessoas que queriam seus apartamentos, seus vilages ou seus barracos. E cada vez que se falava sobre moradia as pessoas diziam também de si, porque, como nos acena de Certeau (1996), morar é narrativizar. O território privado em que a pessoa habita conta histórias contextualizadas em tempos e espaços que se sucedem como manifestação da dinamicidade da vida. Este lugar revelaria então, segundo de Certeau (1996), desde a personalidade de seus ocupantes, as condições sociais e até a representação do espaço urbano em que está localizado. O morar supõe costumes e revela, em um jogo contínuo, as preferências e exclusões efetuadas. O tamanho, o mobiliário, a divisão dos cômodos, tudo nele fala e significa dentro de uma lógica e de um sistema de práticas particularmente construídos por aquele que mora. Por ser uma confissão sobre uma maneira íntima de viver, como explana de Certeau (1996), que não pede permissão para ser dita, a moradia é alvo de categorizações e diferenciações que enobrecem e estigmatizam, sendo estes atributos transferidos deste bem para os seus ocupantes. Quando se discorria então sobre a moradia, cada um argumentava em favor dos seus projetos e neste contexto de múltiplas possibilidades, era possível perceber o movimento de vida, as interpretações que os atores teciam sobre o mundo, seus engajamentos práticos. Foi a partir então deste movimento, deste pulsar do cotidiano, que foi desenhada a pergunta central, que atravessa de ponta a ponta esta investigação: O que os atores fazem como o que é para eles projetado no desenho de um projeto de habitação popular? Em um horizonte de possíveis tantos outros caminhos analíticos poderiam ter sido traçados, mas seguir este percurso, aqui delineado, significou deslocar o eixo das discussões sobre os projetos de habitação popular, para uma outra direção, diferente daquelas em que costumam se situar entre o par eficácia e eficiência. Mas por que efetuar tal deslocamento? A resposta desta questão reside no fato de que antes de 121 questionar se um projeto de habitação é eficiente/eficaz faz-se mister elaborar perguntas anteriores: eficiente/eficaz para quem? Quem são os atores sociais para os quais estes projetos são construídos? E como eles se apropriam, reproduzem e resignificam o que está para eles previsto nestes projetos? Pensar este movimento significa perceber o ator como ativo nestes processos que o circundam. No caso de Paraíso Azul e Recanto Feliz a partir destas indagações iniciais uma nova teia de questões foi se configurando enquanto estive no campo: Quais projetos são esboçados pelos moradores a partir da proposta de requalificação da moradia? Como estes atores sociais se apropriam dos discursos e práticas que chegam com este projeto de habitação? Quais repertórios morais são acessados e como os atores os mobilizam para construção da ordem social nestas áreas de intervenção? Como se configuram as noções de temporalidade e espacialidade em Paraíso Azul e Recanto Feliz com a chegada das propostas da requalificação referentes à segunda etapa do projeto de intervenção? Foram estas perguntas então, que me ajudar a tecer um recorte mais acentuado nesta investigação, mas elas só se tornaram figura na medida em que me permitir ouvir aquilo que o campo fazia ecoar, ou seja, quando me permitir surpreender pelos seus contornos. Pensar que estes atores, para os quais os projetos de habitação estão previstos, são ativos, que eles estão no movimento de interpretação da vida, significa, em última instância, perceber que um projeto de habitação não está dado exatamente a priori, mas que ela se faz e se refaz no tempo, existe uma margem relativa de manobra, de inciativa, fissuras latentes em seu desenho. No exemplo de Paraíso Azul e Recanto Feliz foi possível identificar que há um ajustamento mútuo entre as partes que estão envolvidas pelo enredo de um projeto de habitação. Tantos os moradores se ajustaram, se apropriaram e recriaram suas propostas, quanto a CONDER experimentou este ajustamento, que aponta para a dinamicidade do mundo vivido. O projeto de habitação era um elemento da vida nestas duas áreas, a tônica de muitas pautas que moviam o cotidiano, fazendo, por vezes giras as peças da maquinaria da fofoca, aquecendo o clima nas ruas, nos becos, nas reuniões da Associação de Moradores ou do Grupo de Apoio. Todavia, aqueles atores sociais estavam também 122 imersos em outras teias que tocavam, por sua vez, outros aspectos do mundo social: econômicos, históricos, familiares, redes de vizinhança, subjetividades. Como um emaranhado estes elementos, por vezes, se cruzaram, ganhavam novos conteúdos, somava-se a eles novas experiências no desenrolar da intervenção em Paraíso Azul e Recanto Feliz. Com o tempo em que estive no campo foi possível perceber que não dava para recortar a vida, o tempo, o espaço, para focar apenas no projeto porque este se inseria em um contexto de significado mais amplo: o cotidiano, que como nos diz de Certeau é: [...] aquilo que nos é dado cada dia (ou que nos cabe em partilha), nos pressiona dia após dia, nos oprime, pois existe uma opressão do presente. Todo dia, pela manhã, aquilo que assumimos, ao despertar, é o peso da vida, a dificuldade de viver, ou de viver nesta ou noutra condição, com esta fadiga, com este desejo. O cotidiano é aquilo que nos prende intimamente, a partir do interior. É uma história a meio-caminho de nós mesmos, quase em retirada, às vezes, velada [...] (de Certeau, 1996, p.31). As tramas do cotidiano guardam então um certo teor de imprevisibilidade, ou dito de outro modo, guardam um ralo de possíveis, próprio daquilo que não está no campo da inércia. Prova disso, é que em Paraíso Azul e Recanto Feliz muitos eventos não previstos no desenho do projeto de habitação ganharam relevo durante o período desta pesquisa. A prática da fiscalização dos moradores em relação às obras da OPF e ao trabalho realizado pela CONDER55 se configurou em um exemplo paradigmático deste ponto que quero aqui chamar atenção, assim como as novas invasões e a “resistência” de alguns moradores que tinham projetos que iam na contramão da segunda etapa de intervenção, porque não queriam sair dos seus barracos para que as obras pudessem ser efetuadas sem mais atrasos. E foi preciso se haver com estas modificações, tentar traçar novos caminhos, incluir demandas que iam aparecendo no percurso. Estar diante de um projeto de habitação não é então, estar frente a alternativas fechadas. No curso deste processo novas situações ganham cores, há sempre um quê de novidade que escapa, um potencial para transformação. Reconhecer este pulsar da vida 55 Ver os desdobramentos desta discussão sobre a fiscalização no capítulo II “Fiscalizar é tudo, vamos viver em cima dessa tecla”: discutindo o papel dos atores sociais no processo de implementação de um projeto de habitação popular. 123 ordinária, que se atualiza com os fazeres dos atores sociais, abre espaço para se pensar em uma dimensão de criatividade, de mudança e na multiplicidade de projetos de vida, de práticas e de noções de temporalidade e espacialidade que podem estar em jogo quando surge uma proposta de intervenção. Este trabalho é então, uma contribuição ao esforço de construção de um posicionamento analítico sobre os projetos de habitação popular. Posição esta que não perca de vista este movimento dos atores sociais, este pulsar da vida ordinária, indo na contramão de perspectivas homogeneizantes, que assumem de antemão que o público para o qual estes projetos estatais são desenhados tem os mesmo interesses, os mesmos projetos de vida, as mesmas avaliações, perdendo assim qualquer traço de diferenciação que possa parecer. É em direção a este lugar de movimento, de fazeres, que os estudos sobre as políticas e projetos habitacionais podem caminhar. ... Não queria colocar um ponto final nesta discussão, afinal ainda existem muitas páginas em branco a serem escritas. Por ora ficamos com as reticências, com o desejo de que outros, que tenham algo a dizer sobre a seara em que esta investigação se arvora, venham preencher novas linhas e que nos convidem a ingressar outras vezes neste universo. 124 REFERÊNCIAS BAUMANN, Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. BEGUIN, François. As maquinarias inglesas do conforto. Espaço & Debates. São Paulo: Núcleos de Estudos Regionais e Urbanos, 1991, n. 34, p. 39-54. BORGES, Antonádia. Sobre pessoas e variáveis: etnografia de uma crença política. Mana. 2005, vol.11, n.1, pp. 67-93. BOLTANSKI, Lüc; THÉVENOT, Laurent. The sociology of critical capacity. European Journal of Social Theory, 1999, v. 2, n. 3. BOURDIEU, Pierre. Meditações pascalianas. Trad. Sergio Miceli. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001 (Pós-escrito 1: Confissões impessoais). ______. O desencantamento do mundo. São Paulo: Perspectiva, 1979. ______. Razões práticas: sobre a teoria da ação. 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