CERIMÔNIAS DO ESQUECIMENTO/SERTÃO EM DIALOGO COM A MITOLOGIA GREGA Ivete Ferreira Barbosa Corrêa PPGEL – UNEMAT.1 RESUMO Este artigo tem como objetivo fazer um estudo da personagem Isabel, presente nas obras Cerimônias do Sertão (2011) e Cerimônias do Esquecimento(1995), demonstrando a relação metafórica existente na construção dessa personagem e a Deusa Hera, da mitologia grega, levando-se em conta características, principalmente com relação ao olhar: aspecto mais relevante e que foi largamente explorado nestas duas obras em estudo. PALAVRAS-CHAVE: Dicke; Mito; Deusa Hera; Isabel; dialogismo. ABSTRACT This article has as objective to study the character of Isabel, presents in the books Hinterland Ceremonies and Ceremonies of the Forgetfulness, showing the metaphorical relation that exists in the construction of this character and the goddess Hera, finding in the Greek mythology, taking into account their characteristics, particularly with respect to her look: most notable among her features and has been widely explored in these two works in the study. 1 Mestranda do Programa de Pós Graduação em Estudos Literários (PPGEL), linha de pesquisa História, Memória e Cultura, pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) Campus universitário de Tangará da Serra. Orientadora Profª. Drª. Madalena Machado. Email: [email protected]. KEYWORDS: Dicke; Myth, Goddess Hera, Isabel, metaphorical . INTRODUÇÃO A relação metafórica existente nas obras Cerimônias do Sertão (2011) e Cerimônias do Esquecimento (1995) de Ricardo Guilherme Dicke2, será o foco desta pesquisa destacando a relação entre sua personagem Isabel, presente nas duas obras e a deusa Hera, da Mitologia Grega. Utilizaremos, de início, o conceito candidiano de arte e literatura: A arte, e portanto a literatura, é uma transposição do real para o ilusório por meio de uma estilização formal, que propõe um tipo arbitrário de ordem para as coisas, os seres, os sentimentos. Nela se combinam um elemento de vinculação à realidade natural ou social, a um elemento de vinculação técnica, indispensável à sua configuração, e implicando uma atitude de gratuidade. Gratuidade tanto do criador, no momento de conceber e executar, quanto do receptor, no momento de sentir e apreciar. Isto ocorre em qualquer tipo de arte, primitiva ou civilizada. ( CANDIDO, 1973, p. 53). A literatura pode ser considerada, portanto, como esse elo entre o vivido e o sonhado. O vivido, porque ela não se aparta da realidade e, nesse sentido, tem sua função social, se não de interferir, mas, pelo menos, de denunciar mazelas sociais existentes; o sonhado, porque alimenta a alma e nos faz bem. Segundo Candido (1972, p.803), o homem tem uma necessidade de ficção e fantasia, de tal forma, que é impossível viver sem elas. Que elas vêm até nós nas mais variadas formas, mas que, a literatura, como forma sistematizadora da fantasia, é dessas modalidades a mais rica. 2 Ricardo Guilherme Dicke nasceu em 16 de outubro de 1936 no município de Chapada dos Guimarães/MT. Publicou as seguintes obras Caminhos de Sol e Lua (1961); Deus de Caim (Edinova), 4º lugar no Prêmio Walmap (1968); Como Silêncio, 2º lugar no Prêmio Clube do Livro (São Paulo, 1968); Caieira (Francisco Alves, 1978), Prêmio Remington de Prosa (1977); Madona dos Páramos (Edições Antares, 1981), Prêmio Nacional da Fundação Cultural do Distrito Federal 1979; Último Horizonte (Marco Zero, 1988); A Chave do Abismo (Fundação Cultura de Cuiabá, 1986); Cerimônias do Esquecimento (EdUFMT, 1999), Prêmio Orígenes Lessa da UBE 1995; Rio Abaixo dos Vaqueiros e O Salário dos Poetas (Secretaria de Cultura de Mato Grosso, 2001); Conjunctio Oppositirium no Grande Sertão (Secretaria de Cultura de Mato Grosso, 2002); Deus de Caim (Afabrika, 2006); Toada do Esquecido & Sinfonia Equestre (Cathedral/Carlini&Carniato, 2006); Madona dos Páramos (reedição, Cathedral/Carlini&Carniato, 2008); Os Semelhantes, Cerimônias do Sertão, A proximidade do Mar & A Ilha e o Velho Moço e outros contos (coleção, Cathedral/Carlini&Carniato, 2011). Os pensamentos de Antonio Candido, em estudo, sintetizam a impressão que temos quando lemos as duas obras de Dicke, aqui estudadas. Por meio de uma narrativa que mistura várias vozes, com um entrecruzar de histórias, com personagens heterogêneas, mostrando as várias facetas do humano, num “realismo mágico”, buscando reflexões para problemas sociais atuais através de metáforas filosóficas, de forma a verificar que origem e fim se fundem, formando um círculo, percebemos o papel humanizador da literatura; percebemos o quão é possível fazer pensar no fruir. O desejo de estudarmos este tema – a relação metafórica com a Mitologia Grega – nas duas obras de Dicke, nasceu da observação que fazemos do esmero com que o autor cria a caracterização de suas personagens, de forma a construir, implicitamente, as relações similares, dando ao leitor a faculdade de desvelar essas relações. Dentro de um universo grande de possibilidades de estudo, optamos pela personagem Isabel, numa relação metafórica bem construída pelo autor com a Deusa Hera. Para elucidar, e tomando por base o traço mais peculiar da Deusa, os olhos imensos, vejamos como Dicke reelabora esteticamente nos dois romances, baseando em que a característica mais forte da Deusa eram os olhos imensos, vejamos Dicke (CS3, 2011, p. 93) “ Que sabe essa mulher de balouçantes olhos imensos?”, ou ainda: Isabel fita com seus olhos de grandeza as luminárias noturnas que afloram sobre as trípodes aruspiciais das pitonisas incógnitas, a seus olhos parecem olhar um amanhecer em alto mar, quando o barco vai trêmulo sobre os abismos mais inumeráveis e mais inomináveis. (CS, p. 149, 150). Ou, então: Isabel: aqueles olhos que te engolem com os olhos, como o boitatá: imensos, que vou te engolindo para te comer melhor, mastigando, apalpando, misturando carnes. Sob a lâmpada febrenta e esverdeada, Isabel parece que vai adivinhando o que está pensando Catrumano. (CS, p. 404). Em toda a história da literatura vemos, independente de época e estilo, o uso do olhar como recurso estilístico e expressivo. Em Dicke, este uso se faz de forma muito marcante, como o caso da personagem Isabel, citada nos trechos acima. A construção dessa personagem, no tocante aos traços físicos, foi caracterizada de forma destacada o 3 A partir desta página, usaremos as abreviaturas CS e CE para identificarmos os títulos Cerimônias do Sertão e Cerimônias do Esquecimento, respectivamente. olhar, e de tal forma feito, que conseguimos, através dessa caracterização, visualizá-la no todo. Alfredo Bosi, em Machado de Assis: O Enigma do Olhar (2007), descreve, que: Olhar tem a vantagem de ser móvel, o que não é o caso, por exemplo, de ponto de vista. O olhar é ora abrangente, ora incisivo; o olhar é ora cognitivo e, no limite, definidor, ora é emotivo ou passional. O olho que perscruta e quer saber objetivamente das coisas pode ser também o olho que ri e chora, ama ou detesta, admira ou despreza. Quem diz olhar diz, implicitamente, tanto inteligência quanto sentimento. (BOSI, 2007, p. 10). Todas essas características e possibilidades são largamente exploradas na construção do olho/olhar das personagens presentes em Cerimônias do Sertão e Cerimônias do Esquecimento. Como o objeto deste estudo é a relação metafórica de Isabel e a Deusa Hera, e entendendo serem os olhos a característica mais marcante da Deusa, ativemos mais às relações ligadas ao olhar de Isabel, numa possível relação simbólica com a Deusa Hera, da Mitologia Grega. A redação desse trabalho dividiu-se em quatro partes, sendo a primeira, a Introdução, destinada a indicar o objeto da pesquisa, o porquê desse interesse e a forma como foi feito esse estudo. Na sequência, como desenvolvimento, temos dois títulos, com o primeiro para situar o autor e as obras estudadas e, no segundo, falamos sobre as convergências entre a Deusa e a personagem estudada, que demonstram o diálogo entre esta e o mito relacionado. Para isso, traçamos um paralelo entre os dois romances em estudo e as características da deusa em questão. Como fecho para este trabalho, nas considerações finais, retomamos o nosso objeto de estudo, apontando as confluências entre obra/personagem/deusa. AS CERIMÔNIAS DE DICKE Cerimônias do Sertão O livro é uma narrativa, de início, regional. Depois, percebemos que há uma universalidade nessa obra, pois os problemas apontados nela, as denúncias sociais apresentadas, não se aplicam apenas na região onde está caracterizada a obra, mas sim, serve para qualquer lugar e época. Tem como espaço a região da Guia, em Mato Grosso. O autor cria, como protagonista, uma personagem que é professor de Filosofia – Frutuoso Celidônio - no momento desempregado, com a saúde abalada e que toma remédios. Não se sabe ao certo qual é a doença dele (suspeita-se que seja esquizofrenia – o que justificaria os seus devaneios). A construção dessa personagem nos remete ao pensamento de Vítor Manuel de Aguiar Silva, em Teoria da Literatura: Subjacente a esta crise da personagem romanesca, encontra-se a crise da própria noção filosófica de pessoa. Sob a influência da psicologia de Ribot, do intuicionismo de Bergson e das teorias de Freud, o romancista descobre que a verdade do homem não pode ser apreendida e comunicada pelo retrato do tipo balzaquiano, inteiriço, sólido nos seus contornos e fundamentos. Não é possível definir o indivíduo como uma globalidade ético-psicológica coerente, expressa por um “eu” racionalmente configurado: o “eu” social é uma máscara e uma ficção, sob as quais se agitam forças inominadas e se revelam múltiplos “eus” profundos, vários e conflitantes.(AGUIAR e SILVA, 2007, p. 708). A personagem de Frutuoso Celidônio vive em conflito. Afastado, contra a vontade dos seus labores habituais, ilhado em um local do qual não consegue sair, mas ao mesmo tempo sem querer sair, pois o lugar propicia que estude, pesquise sobre a tese da beleza. Usa o tempo forçosamente disponível para observar – e vale notar, mais uma vez, o valor dado ao olhar presente nas obras dickeanas aqui estudadas - o grupo do qual, casualmente, viu-se fazendo parte. Aproveita para aprofundar seu estudo sobre a beleza e, para isto, conta com a personagem Leonora – personificação do belo. Mas o conflito continua, pois a definição da beleza sofre uma crise, na comparação do exterior e interior da moça. O enredo é feito de forma meio complexa, pois aparece mais de uma voz narrativa. O desenvolvimento se dá como se fossem histórias diferentes, mas ao mesmo tempo se entrecruzam. O livro é como se fosse uma rapsódia (lembra um pouco Macunaíma, de Mário de Andrade), pois trabalha com uma mistura de personagens, mitos e expressões próprias da Grécia Antiga, ao mesmo tempo que introduz práticas indígenas, ciganas e bíblicas. O uso dos mitos na obra de Dicke, nesta em especial, é muito forte. Vemos em todo o transcorrer do texto, e em todas as histórias dentro da história, as metáforas criadas com os deuses do Panteão Grego. Esse uso vai ao encontro da ideia de que a Mitologia Grega é o sustentáculo para o pensamento ocidental e, portanto, detentora do comando para o entendimento de nosso mundo, no tocante à religiosidade e à racionalidade. Vemos que existe nela, de forma inerente, um “inconsciente coletivo”: explicação dada por Jung (2000), quando comparou a Mitologia Grega a várias outras mitologias, mostrando, com isso, que existe uma ligação – feita através dos mitos – dos planos materialistas, psíquicos e espirituais. [...] Porque a vi. E o que vejo permanece. Ela existe. E eu lhe dei um nome: Afrodite. Não Leonora, como a heroína de Beethoven, como se chama na realidade, cujo nome lhe deram seus pais, mas Afrodite. Porque quem não a viu com seus olhos que verão a morte e as últimas terras e o último chão não poderá nunca imaginar que existe no mundo tal beleza incomparável. (DICKE, 2011, p.78) As referências a diversos deuses e mitos permeiam toda a história, comprovando esse veio sócio-filosófico que é característico no livro, com o desiderato de trazer para reflexão problemas atuais, mas ao mesmo tempo atemporais, eternos, numa forma de desvelar relações cíclicas existentes no mundo “de sempre”. Para entendermos a construção desta obra dickeana, esse dialogismo entre a história contada e os mitos nossos conhecidos, buscamos, como argumento de autoridade, respaldo em Northrop Frye, em sua obra Anatomia da Crítica (1957): O mito, portanto, é um extremo da invenção literária; o naturalismo é o outro, e no meio estende-se toda a área da estória romanesca, usando-se esse termo para significar, não o modo histórico do primeiro ensaio, de deslocar o mito numa direção humana, e todavia, em contraste com o “realismo”, de convencionalizar o conteúdo numa direção idealizada. O princípio fundamental da deslocação é este: o que pode ser identificado metaforicamente num mito pode apenas ser vinculado, na estória romanesca, por alguma forma símile: analogia, associação significativa, imagem incidental agregada, e semelhantes. (FRYE, 1957, p.138-139) Vemos, na obra Cerimônias do Sertão, o uso constante desta deslocação, geralmente de forma metafórica, relacionando ou usando os mitos na construção de seu enredo, ou de forma declarada, fazendo alusões à Filosofia, Sociologia ou Literatura, como podemos perceber em: [...] Tirésias ... Ah, isso de Tirésias são coisas da Grécia, e nós não estamos na Grécia e sim nas divisórias entre sertão e cidade desta perdida civilização, que antes de morrer, vai morrendo, se entornando para a morte e para o fim, pobres de nós, sem Antiguidade nem Idade Média, fazendo dos inícios os meados e dos fins os começos ... Onde está Leonora, onde está a dama dos Unicórnios? (DICKE, 2011, 181) Outro fato marcante, no romance, é a formação de um grupo em um bar – “Portal do Céu”. Ali encontram-se o protagonista, Frutuoso Celidônio- professor de Filosofia; Rosaura do Espírito Santo – prostituta; Isabel – esposa do vendeiro; João Ferragem – Andarilho que veio do sertão; João Bergantin – fugitivo do Hospital Psiquiátrico; João Valadar – o ferreiro; João Quatruz – o vendeiro; os dois cegos cantadores – os Manuéis; o príncipe – Karl Gustav von Hohen und Lowen e João Cerração – o catrumano misterioso. Estas pessoas estão reunidas, em uma noite – Noite da Predestinação – esperando o momento em que haverá a revelação. Eles não sabem o que vai acontecer, mas sabem que vai acontecer. O grupo heterogêneo serve para dar voz às reflexões que o autor incita em nós, pois o tempo todo trabalha muito com isso: a reflexão sobre vários pontos da vida em sociedade; sobre seus valores. No caso da personagem principal, Frutuoso Celidônio, na angústia de entender, conceituar o que era a beleza suprema e encontra a personificação desta beleza na personagem Leonora. Mas, ao ter contato com ela, a beleza se desfaz, pois a moça não sabia nem sequer o que era “Filosofia”. Então, Celidônio teve que reelaborar a sua ideia inicial do que era a beleza suprema. Há uma mistura com o texto bíblico – o rei Saul – e seu eterno dilema: ser substituído no trono por Davi – pessoa a quem ama e odeia ao mesmo tempo. Dois cegos cantadores adivinhos, numa associação direta com Tirézias – mais uma vez aqui, vemos o valor do olhar nesta obra. Na questão dos cegos – e vale observar que ficaram cegos por causa do contato com o branco - percebemos uma denúncia reflexiva. Assim como Tirézias, eles têm o poder da adivinhação e associam a perda da visão a ações sobrenaturais, apesar de pontuarem bem o momento e o porquê dessa perda. A presença constante da coruja, cantando, gritando, sorrindo, dá-nos uma ideia das várias representações que este significante traz, como a distância, local longíquo; o símbolo da sabedoria; ou, ainda, a ideia do tudo ver. Todas possíveis. O livro é intrigante de tal forma que lê-lo é um exercício que não pode ser feito de uma única vez, e para fundamentar essa ideia vamos nos apoiar em Gaston Bachelard, em A Poética do Espaço: [...] Que nos aconselha a atitude fenomenológica? Pede para instituir em nós um orgulho de leitura que nos dará a ilusão de participar do próprio trabalho do escritor. Tal atitude não pode ser tomada facilmente na primeira leitura. A primeira leitura é feita com excessiva passividade. O leitor é ainda um pouco criança, uma criança que a leitura distrai. Mas todo bom livro, assim que terminado, deve ser relido imediatamente. Após o esboço que é a primeira leitura, vem a obra de leitura. É preciso, então, conhecer o problema do autor. A segunda leitura, a terceira, etc., vão nos ensinando pouco a pouco a solução desse problema. Insensivelmente, temos a ilusão de que o problema e a solução são nossos. (BACHELARD, 2000, p. 39). Como na explicação de Bachelard, vemos em Cerimônias do Sertão a construção de um enredo no qual o leitor é instigado a buscar sentidos, fazendo ligações diversas, ora no campo bíblico, ora no campo filosófico, mitológico, sociológico; enfim, participando, de forma (in)consciente no desvelar dos significados possíveis. Nesta obra de Dicke, em todas as vezes que o texto refere-se a Frutuoso Celidônio, começa com uma notícia, via rádio. Elas são de todas as partes do mundo. Então, é um sertão que não é tão sertão. Que pode estar ilhado fisicamente do resto do mundo, mas, ao mesmo tempo, tem acesso a informações de locais muito distantes. É o resultado da globalização e do mundo midiatizado, forma recorrente nas obras deste autor no intuito de universalizar os temas levantados na narrativa. A marca da filosofia é muito forte no livro, há muitas referências a vários pensadores, desde os pré-socráticos, como em (DICKE, 2011, p.212-213 “[...] Veio-lhe uma imagem dos tempos de estudante, que se formulou assim: nosso elemento não é o fogo, nem a água, nem a terra. Anaxímenes – é o ar -, porque a Terra flutua no espaço, realiza seus âmbitos no âmbito aéreo de uma atmosfera possível.”; ou como póssocráticos (DICKE, 2011, P.78) “a beleza real dá alegria, porque, segundo Platão, o fim da beleza é o Bem, a Verdade, como transcendental do ser que é.”, ou, até mesmo, os atuais, como vemos em (DICKE, 2011, p.95) “[...] Vênus Afrodite morreu há quinze séculos atrás, assim como agora Nietzshe descobriu que quem a matou está morrendo também. O que virá depois?”; ou ainda (DICKE, 2011, p.133) “’Há algo como um muito poderoso e astuto enganador que usa de todas as manhas para ter-me constantemente enganado’, diz Descartes”. De forma metafórica, há um passeio no texto de Ilíada, de Homero, quando associa os cegos cantadores a Tirézias; referências à Deusa Hera, Deusa Palas Atena e Apolo, entre outros. Em todo o livro vemos, de forma muito expressiva, a simbologia do olhar como em (DICKE, 2011, p.20) “Tu, taciturno, titubeante, mas comovido, ias escutando. E a luz morta aureolada de moscas daquele bar quase em ruínas, onde, de vez em quando, somente aparecia a cara de olhos enormes daquela mulher que, silenciosamente, ia te servindo.” A maioria das personagens do livro, quando caracterizadas, ganha destaque a caracterização do olhar, como vemos em; Mas quem te conta essa história? É o homem dos olhos nublosos ou o escudeiro de dom Saul? Mestre Cipriano do Pau dos Machados, talvez? Talvez o príncipe Von Hohen und Lowen. Ou o Catrumano. O Catrumano não pode ser. Deve ser o Ferreiro ou o então o pai da noiva, o homem de olhos de bruma, cataractantes. João valadar ou João Ferragem? Talvez o próprio dom Saul. ( DICKE, 2011, p.31) O livro traz um caráter de denúncia, que não é o tema de nosso estudo, mas é necessário citar para justificar o uso tão intenso da caracterização do olhar, não só em Isabel, personagem do nosso trabalho, mas em todos os outros. Cerimônias do Esquecimento Este livro de Dicke, apesar de publicado em 1995, é posterior ao Cerimônias do Sertão( 2011), pois percebemos que há uma continuidade ao relato deste. Como os dois livros tratam do mesmo assunto, com as mesmas personagens, espaço e tempo, temos a impressão que seja uma continuação. Algumas personagens ganham mais destaque nesta obra, como é o caso da prostituta Rosaura do Espírito Santo, em detrimento de outras, como Leonora, mais explorada em Cerimônias do Sertão (2011) e apenas citada de forma superficial em Cerimônias do Esquecimento ( 1995). A personagem principal, Frutuoso Celidônio, permanece presa em seus devaneios, ouvindo uma história sem fim, sobre o rei Saul, contado por Anelinho Abbas, o pai da noiva. O espaço, agora, é estritamente o bar “Portal do Céu” e lá se encontra o mesmo grupo heterogênico de Cerimônias do Sertão. Ainda o objetivo é o mesmo, a noite da revelação – Noite da Predestinação – acontecimento que se dará na casa do ferreiro – João Valadar, nas proximidades do bar. Acontecimentos inusitados vão se sucedendo, que ora se explicam pelo excesso de álcool consumido por todos, ora pela relação mítica. Mais informações são acrescentadas à caracterização das personagens, como, por exemplo, o Catrumano. A história do rei Saul, contada pelo pai da noiva, toma corpo com a chegada do próprio rei Saul ao local da revelação, assegurando, assim, um entrecruzar dessas histórias. As denúncias sociais continuam sendo expostas no livro, conforme atestam as várias passagens metafóricas da morte de cães e gatos, causada pelos caminhões jamantas e automóveis, que dizem trazer o progresso junto com a velocidade. A personagem Isabel, mulher do vendeiro João Quatruz, é descrita como de olhos imensos, bovinos, numa alusão à Deusa Hera. Esta personagem também ganha mais destaque nesta obra do que na anterior. Também temos a figura constante da coruja, com seu olhar arguto, numa associação possível à Deusa Palas Atena. Outros personagens continuam presentes como João Ferragem e João Bergantin. A história, apesar de construída como num “realismo mágico”, está cheia de questionamentos sócio-filosóficos. RELAÇÃO METAFÓRICA NAS OBRAS Nas duas obras estudadas vemos o dialogismo com a Filosofia, principalmente com os deuses gregos. Através de uma forma metafórica, Dicke chama à reflexão todos nós, leitores, mostrando o poder do mito como forma de códigos de linguagem. Apesar das relações metafóricas serem várias, ater-nos-emos às que implicam a personagem Isabel, por razões claras como as já referenciadas. Ao longo dos romances, vemos, claramente, o “passeio” que o autor faz na mitologia grega, de forma específica com a deusa objeto deste trabalho. Os dois livros estudados são ricos em passagens nas quais isso acontece, apresentados a nós, conforme já nos foi explicado por Frye, acima citado. A MITOLOGIA GREGA - A DEUSA HERA Um mito utilizado nas obras em estudo é o da Deusa Hera, que conforme Bulfinch (2006), era irmã e mulher de Zeus, dona de grande beleza, ao ver que Zeus estava apaixonado por ela, exigiu casamento. Zeus casou porque não viu outra saída. Hera era muito ciumenta e Zeus, constantemente, dava motivos para isso. A ira de Hera, como não podia voltar-se para Zeus, era dirigida às suas várias amantes e seus filhos. A mitologia é pródiga nessas histórias. A Deusa tinha, como característica física marcante, os olhos, que eram descritos como imensos, muito abertos e que Homero, em Ilíada, canta-a com o epíteto de olhos bovinos. Nas Cerimônias do Sertão / Esquecimento, vemos Isabel descrita de tal forma que ratifica plenamente a associação. Vejamos: Isabel, a dos olhos obumbrados e bovinos, celestes, imensos, que parece extasiada pelas fontes inesgotáveis da noite onde brotam todos os mistérios, traz as bandejas repletas de copos e garrafas e todos bebem abundantemente. (CS, 199 e CE, p. 136) Ou ainda: Isabel: aqueles olhos que te engolem com os olhos, como o boitatá: imensos, que vou te engolindo para te comer melhor, mastigando, apalpando, misturando carnes. Sob a lâmpada febrenta e esverdeada, Isabel parece que vai adivinhando o que está pensando, Catrumano. (CS, p. 404) E mais: [...] Isabel, sua mulher, de olhos imensos, segue o silencioso elipse dos mundos e das esferas que giram perpetuamente no ilimitado céu da noite das profundidades, atenta ao galope sonâmbulo das coisas que acontecem nas sombras atrás do perfil dos reinos soterrados. (CE, p. 83) A Deusa Hera, por ter se casado com Zeus, é tida como protetora da vida e da mulher. Na mitologia romana, é denominada de Juno, sendo, lá, o mês de junho o mês das noivas, em clara deferência à Deusa Hera / Juno. Vemos estas informações em situações similares nas obras em questão, quando observamos que: [...] de vez em quando, franze o grande bigode canoso e coça o nariz quadrado. Quando se cansa, chama a mulher lá no fundo da venda, uma moça envelhecida, encanecida, com ares de cansada, de grandes olhos assustados, que surge numa névoa de volumes misturados com escuridões, devagar, como uma gata fatigada. Mas, agora, ela está do outro lado das paredes, preparando, talvez, o jantar tardio. Gatas entre as sombras pardas, gata entre as cinzas, gata parda no pardo borralho da noite. No balcão, o vendeiro, seus ombros quadrados (...) (CS, p. 85 e CE, p. 40) Como mais um exemplo, podemos usar a passagem abaixo: [...] O vendeiro faz um aceno à mulher, esta vem com uma garrafa, hierática, de imensos olhos abertos, como sonâmbula, sonambulismo cujos ecos se propagam, abre-a e deixa-a ao lado de um copo na frente do homem de nuca inclinada, em silêncio. (CS, p. 100 e CE, p. 48) No trecho abaixo, verificamos o uso do tratamento “Dona” antecedendo o nome de Isabel. A nós, fica claro a intenção do autor de transmitir a ideia da respeitabilidade, adquirida por Isabel com a condição de casada. São mais características que se somam às já citadas, no sentido de comprovar a relação entre a personagem e a Deusa Hera. [...] Silêncio. Dona Isabel aparece com uma bandeja com xícaras de café, com seus olhos imensos, enormes como as bolas do circo onde as moças fazem piruetas, olheirosos e tristes, onde retumba a noite e, na hora em que ela vai deixando cada xícara de café ao lado de cada um, a coruja canta agudamente, como se estivesse atrás de cada um, especialmente atrás dela em particular, e se prolongasse uma sombra imensa atrás de cada um, longa como a noite. Ela, ao ouvir o pio prolongado daquele vivente habitante das noites, parece-lhe que abre ainda mais os olhos já grandes. Neles, no fundo das meninas, uma sombra densa de corujas imensamente velhas em plumas e plumagens se desenha, como se ela tivesse secretas comabida perdida unicações com o mundo das corujas que cantam da meia-noite para as madrugadas. E, no fundo, do eco, das corujas que ainda ressoa nos ouvidos, se ouvem risos femininos na noite: aparecem mulheres, como mariposas noturnas, vêm rindo e deixando atrás de si um rastro de ecos agudos como cristais retinindo, passam e a risada delas se apaga, desaparecem na noite como rastilhos de fogo-fátuos ou fogos de artifícios se incrustando na escuridão. (CS, p. 124-125 e CE, p. 64 e 65) Do excerto acima, num estudo mais voltado à Semiótica, poderíamos fazer uso de outros elementos mais para justificar a nossa defesa de que há uma relação metafórica entre a personagem Isabel, das duas obras de Dicke aqui estudadas e o mito da Deusa Hera. Vejamos: o ciúme que Hera sentia de Zeus e suas constantes traições justificaria a relação com a tristeza descrita acima; como as traições eram sempre reincidentes, podemos associar aí o cansaço de Isabel, numa luta já sabida perdida; o trecho que se refere às mulheres como mariposas noturnas – aí aparece a ideia da relação sexual implícita no sentido da palavra “noturnas” /noites ; e que deixam “um rastro de ecos agudos como cristais retinindo” – a ira de Hera; mas que passam e desaparecem – por que as amantes se sucedem. Também vimos, em Bulfinch (2006), que outra característica da Deusa Hera era o gosto por dar festas, receber pessoas em sua casa. A esse aspecto da deusa estudada, podemos associar, nas obras de Dicke, a: [...] Tu taciturno, titubeante, mas comovido, ias escutando. E a luz morna aureolada de moscas daquele bar quase em ruínas, onde, de vez em quando, somente aparecia a cara de olhos enormes daquela mulher que, silenciosamente, ia te servindo. Era mesmo o pai da noiva quem contava aquela história? (CS, p. 20) Ou, ainda, em: [...] O vendeiro faz um aceno à mulher, esta vem com uma garrafa, hierática, de imensos olhos abertos, como sonâmbula, sonambulismo cujos ecos se propagam, abre-a e deixa-a ao lado de um copo na frente do homem de nuca inclinada, em silêncio. (CS, p. 100 e CE, p. 48) Também podemos usar, como defesa à teoria do nosso estudo - dialogismo entre a personagem Isabel e a Deusa Hera - relação dos tempos longíquos/antiguidade com o nosso momento atual, ou seja, com o momento/tempo no qual se passam as ações da obra estudada. Isso pode ser comprovado com: [...] O outro fala alguma coisa enevoada à mulher através da cortina encardida e brumosa que separa os cômodos lá dentro, e sai a mulher envolta como que em sombras, com penumbras nos olhos, nas olheiras e em volta do rosto macilento, como que imensamente cansada, como quem viu prodígios. Vem em silêncio, com a boca fechada, rugas precoces em volta, em sombras a cara, como um pergaminho em garranchos selado pelo destino, abre a garrafa na frente de homem João Ferragem e, com o abridor, abre-a e a põe na mesa, ao lado de um copo. Seus olhos passeiam imensos pela varanda, vão até lá longe, atrás de cujos matagais, na noite, se vão os carros. Até entontecem seus olhos de tão grandes, órbitas dos astros, volutas dos cometas, giros das estrelas. (CS, p. 87 e CE, p. 41, 42)) Ainda, com uma possibilidade leitura aproximada, temos: [...] Isabel, olhos de girassóis, como que entontecida com o peso de tantos olhos que se lhe saem da cara, como flores que vêm das sementes, entorpecida, tonta, olhos de borracha com o poder das meninas pesadas de tanta velhice do Tempo interior, bêbada do grave transmigrar da noite, profundo e sinuoso, tem olhos imensos, debruçados do negror que se derrama lá fora, anônima e infinita, parece abarcar mistérios que borbulham e borboleteiam, que vem com a brisa que sobe em murmúrios e sussurros de águas [...]. (CE, p. 134) Esta Deusa também teve muita participação nos assuntos humanos, conforme se verifica em sua predileção pelos aqueus na Guerra de Tróia. Esta característica é explorada de forma implícita por Dicke, e isto é facilmente percebido pelo destaque que ela tem na obra. Izabel se ocupa dos assuntos humanos justamente pela observação, a mesma que Dicke quer fazer o leitor enxergar. É uma personagem que está sempre quieta, aquela que “serve” os demais, mas que traz em si um manancial de reflexão – os olhos imensos – está sempre por perto, espreita, avalia, recebe todos os demais personagens. CONSIDERAÇÕES FINAIS A proposta deste artigo era demonstrar, através da exposição do nosso estudo, o dialogismo existente entre as obras Cerimônias do Sertão (2011) e Cerimônias do Esquecimento (1995), de Dicke e a Mitologia Grega. Nas duas obras estudadas vemos esse diálogo constante com a Filosofia, principalmente com os deuses gregos. Através de uma forma metafórica, Dicke chama à reflexão todos nós, leitores, mostrando o poder do mito como forma de códigos de linguagem. As relações metafóricas são várias, permeando os dois livros, mas delimitamos nosso trabalho a estudar a relação metafórica de apenas uma personagem, Isabel, mostrando sua relação similar com a Deusa Hera. Essa afirmação foi devidamente apresentada no título dois, deste trabalho, nos recortes destacados dos livros, o “entrecruzar” de Isabel e a Deusa Hera. A cada recorte apresentado, fizemos observações com o intuito de comprovar a ligação existente entre a personagem Isabel e a Deusa Hera. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CANDIDO, Antonio. A literatura e a formação do homem. São Paulo : Nacional, 1972. _____ Literatura e Sociedade. 3.ed. ver.. São Paulo : Nacional, 1973. BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. São Paulo : Martins Fontes, 2006. BOSI, Alfredo. Machado de Assis : o enigma do olhar. 4ª Ed.- São Paulo : WMF Martins Fontes, 2007. BULFINCH, Thomas. O livro de oura da mitologia: história de deuses e heróis. –Rio de Janeiro : Ediouro, 2006. DICKE, Ricardo Guilherme. Cerimônias do Sertão. Cuiabá, MT : Carlini & Caniato, 2011. _____ Cerimônias do Esquecimento. Cuiabá, MT : editora da UFMT, 1995. SILVA, Vitor Manuel Aguiar e. Teoria da Literatura. Coimbra, Portugal : Edições Almedina SA, 2007.