Amália, Carlos do Carmo
Arquivo de letras de música
28 de Janeiro de 2002
1
Conteúdo
Ai, Mouraria . . . . . . . . . . . . . .
Amêndoa Amarga . . . . . . . . . . .
Balada para uma velhinha . . . . . . .
Barco negro . . . . . . . . . . . . . .
Canoas do Tejo . . . . . . . . . . . .
Com que voz . . . . . . . . . . . . .
Dar de beber à dor . . . . . . . . . . .
Dura Memória . . . . . . . . . . . . .
Estranha forma de vida . . . . . . . .
Fado da pouca sorte . . . . . . . . . .
Fado do Campo Grande . . . . . . . .
Fado do Ciúme . . . . . . . . . . . .
Fado dos azulejos . . . . . . . . . . .
Fado português . . . . . . . . . . . .
Fado varina . . . . . . . . . . . . . .
Fado Xuxu . . . . . . . . . . . . . . .
Gaivota . . . . . . . . . . . . . . . .
Grito . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Há festa na Mouraria . . . . . . . . .
Havemos de ir a Viana . . . . . . . .
Libertação . . . . . . . . . . . . . . .
Madrugada de Alfama . . . . . . . . .
Maria Lisboa . . . . . . . . . . . . .
Medo (Quem dorme à noite comigo?)
Meu amor, meu amor . . . . . . . . .
Namorados da cidade . . . . . . . . .
Não é desgraça ser pobre . . . . . . .
Nova Feira da Ladra . . . . . . . . . .
O amarelo da Carris . . . . . . . . . .
O Cacilheiro . . . . . . . . . . . . . .
O homem das castanhas . . . . . . . .
Povo que lavas no rio . . . . . . . . .
Prece . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Raízes . . . . . . . . . . . . . . . . .
Retalhos da Vida de Um Médico . . .
Rosa da noite . . . . . . . . . . . . .
Uma casa portuguesa . . . . . . . . .
Uma flor de verde pinho . . . . . . .
Um homem na cidade . . . . . . . . .
2
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Um homem na cidade
Ai, Mouraria
Música: José Luís Tinoco
Letra: Ary dos Santos
Intérprete: Carlos do Carmo
Letra e música: Amadeu do Vale; Frederico Valério
Intérprete: Amália Rodrigues
Javier Tamames
Javier Tamames
Agarro a madrugada
como se fosse uma criança,
uma roseira entrelaçada,
uma videira de esperança.
Tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem, por força da vontade,
de trabalhar nunca se cansa.
Vou pela rua desta lua
que no meu Tejo acendo cedo,
vou por Lisboa, maré nua
que desagua no Rossio.
Eu sou o homem da cidade
que manhã cedo acorda e canta,
e, por amar a liberdade,
com a cidade se levanta.
Vou pela estrada deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresce na vela da canoa.
Sou a gaivota que derrota
tudo o mau tempo no mar alto.
Eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.
E quando agarro a madrugada,
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada,
um malmequer azul na cor,
o malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém,
o malmequer desta cidade
que me quer bem, que me quer bem.
Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também,
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem,
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis, que me quer bem.
50
Ai, Mouraria
da velha Rua da Palma,
onde eu um dia
deixei presa a minha alma,
por ter passado
mesmo ao meu lado
certo fadista
de cor morena,
boca pequena
e olhar troçista.
Ai, Mouraria
do homem do meu encanto
que me mentia,
mas que eu adorava tanto.
Amor que o vento,
como um lamento,
levou consigo,
mais que ainda agora
a toda a hora
trago comigo.
Ai, Mouraria
dos rouxinóis nos beirais,
dos vestidos cor-de rosa,
dos pregões tradicionais.
Ai, Mouraria
das procissões a passar,
da Severa em voz saudosa,
da guitarra a soluçar.
3
Amêndoa Amarga
Uma flor de verde pinho
Música: Alain Oulman
Letra: José Carlos Ary dos Santos
Intérprete: Amália Rodrigues
Música: José Niza
Letra: Manuel Alegre
Intérprete: Carlos do Carmo
Versos de Segunda, Carlos Nogueira (vencedora do festival da canção de
1976)
Port ti falo
e ninguém pensa
mas eu digo
minha amêndoa, meu amigo
meu irmão
meu tropel de ternura
minha casa
meu jardim de carência
minha asa.
Eu podia chamar-te pátria minha
dar-te o mais lindo nome português
podia dar-te um nome de rainha
que este amor é de Pedro por Inês.
Mas não há forma não há verso não há leito
para este fogo amor para este rio.
Como dizer um coração fora do peito?
Meu amor transbordou. E eu sem navio.
Por ti vivo
e ninguém pensa
mas eu sigo
um caminho de silvas
e de nardos
uma intensa ternura
que persigo
rodeada de cardos
por tantos lados.
Gostar de ti é um poema que não digo
que não há taça amor para este vinho
não há guitarra nem cantar de amigo
não há flor não há flor de verde pinho.
Não há barco nem trigo não há trevo
não há palavras para dizer esta canção.
Gostar de ti é um poema que não escrevo.
Que há um rio sem leito. E eu sem coração.
Por ti morro
e ninguém sabe
mas eu espero
o teu corpo que sabe
a madrugada
o teu corpo que sabe
a desespero
ó minha amarga amêndoa
desejada.
ó minha amarga amêndoa
desejada.
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49
Balada para uma velhinha
Música: Martinho de Assunção
Letra: Ary dos Santos
Intérprete: Carlos do Carmo
Javier Tamames (precisa de um jeito na divisão dos versos)
Num banco de jardim uma velhinha
está tão só com a sombrinha
que é o seu pano de fundo.
Num banco de jardim uma velhinha
está sozinha, não há coisa
mais triste neste mundo.
E apenas faz ternura, não faz pena,
não faz dó,
pois tem no rosto um resto de frescura.
Já coseu alpergatas e
bandeiras verdadeiras.
Amargou a pobreza até ao fundo.
Dos ossos fez as mesas e as cadeiras,
as maneiras
que a fazem estar sentada sobre o mundo.
Neste jardim ela
à trepadeira das canseiras
das rugas onde o tempo
é mais profundo.
Num banco de jardim uma velhinha
nunca mais estará sozinha,
o futuro está com ela,
e abrindo ao sol o negro da
sombrinha poidinha,
o sol vem namorá-la da janela.
Se essa velhinha fosse
a mãe que eu quero,
a mãe que eu tinha,
não havia no mundo outra mais bela.
Num banco de jardim uma velhinha
faz desenhos nas pedrinhas
que, afinal, são como eu.
Sabe que as dores que tem também são minhas,
são moinhas do filho a desbravar que Deus lhe deu.
E, em volta do seu banco, os
malmequeres e as andorinhas
provam que a minha mãe nunca morreu.
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5
Barco negro
Uma casa portuguesa
Música: Caco Velho; Piratini
Letra: David Mourão-Ferreira
Intérprete: Amália Rodrigues
Música: V. M. Sequeira; Artur Fonseca
Letra: Reinaldo Ferreira
Intérprete: Amália Rodrigues
Fernando Faria
Javier Tamames
A
E7
A
De manhã, que medo, que me achasses feia!
A7
D
Acordei, tremendo, deitada n’areia
A
A7
D
Mas logo os teus olhos disseram que não,
A7
A
E7
A
E o sol penetrou no meu coração.[Bis]
A7
Vi depois, numa rocha, uma cruz,
E7
D
E o teu barco negro dançava na luz
A
Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas
D
Dizem as velhas da praia, que não voltas:
C
A
São loucas! São loucas!
E7
Eu sei, meu amor,
A
Que nem chegaste a partir,
E7
Pois tudo, em meu redor,
A
Me diz qu’estás sempre comigo.[Bis]
No vento que lança areia nos vidros;
Na água que canta, no fogo mortiço;
No calor do leito, nos bancos vazios;
Dentro do meu peito, estás sempre comigo.
A
Numa casa portuguesa fica bem
pão e vinho sobre a mesa.
Quando à porta humildemente bate alguém,
senta-se à mesa co’a gente.
Fica bem essa fraqueza, fica bem,
que o povo nunca a desmente.
A alegria da pobreza
está nesta grande riqueza
de dar, e ficar contente.
A7
Quatro paredes caiadas,
um cheirinho á alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!
No conforto pobrezinho do meu lar,
há fartura de carinho.
A cortina da janela e o luar,
mais o sol que gosta dela...
Basta pouco, poucochinho p’ra alegrar
uma existéncia singela...
É só amor, pão e vinho
e um caldo verde, verdinho
a fumegar na tijela.
Quatro paredes caiadas,
um cheirinho á alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!
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Canoas do Tejo
Letra e música: Frederico de Brito
Intérprete: Carlos do Carmo
Carlos Coutinho
Canoa de vela erguida,
Que vens do Cais da Ribeira,
Gaivota, que andas perdida,
Sem encontrar companheira
O vento sopra nas fragas,
O Sol parece um morango,
E o Tejo baila com as vagas
A ensaiar um fandango
[refrão:]
Canoa,
Conheces bem
Quando há norte pela proa,
Quantas voltas tem Lisboa,
E as muralhas que ela tem
[1:]
Canoa,
Por onde vais?
Se algum barco te abalroa,
Nunca mais voltas ao cais,
Nunca, nunca, nunca mais
Canoa de vela panda,
Que vens da boca da barra,
E trazes na aragem branda
Gemidos de uma guitarra
Teu arrais prendeu a vela,
E se adormeceu, deixa-lo
Agora muita cautela,
Não vá o mar acordá-lo
[refrão]
[Guitarra]
[1]
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7
Com que voz
Rosa da noite
Música: Alain Oulman
Letra: Camões(?)
Intérprete: Amália Rodrigues
Música: Joaquim Luís Gomes
Letra: Ary dos Santos
Intérprete: Carlos do Carmo
Javier Tamames
Javier Tamames
Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou.
Que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado.
Vou pelas ruas da noite
com basalto de tristeza,
sem passeio que me acoite.
Rosa negra à portuguesa.
Mas chorar não estima neste estado
aonde suspirar nunca aproveitou.
Triste quero viver, poi se mudou
em tisteza a alegria do passado.
É por dentro do meu peito, triste,
que o silêncio se insinua, agreste.
Noite, noite que despiste
na ternura que me deste.
Assim a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé que a sofre e sente.
Um cão abandonado,
uma mulher sozinha.
Num caixote entornado
a mágoa que é só minha.
De tanto mal, a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dele aventuro.
Levo aos ombros as esquinas,
trago varandas no peito,
e as pedras pequeninas
são a cama onde me deito.
És azul claro de dia,
e azul escuro de noite,
Lisboa sem alegria,
cada estrela é um açoite.
A queixa duma gata,
o grito duma porta.
No Tejo uma fragata
que me parece morta.
Morro aos bocados por ti,
cidade do meu tormento.
Nasci e cresci aqui,
sou amigo do teu vento.
Por isso digo: Lisboa, amiga,
cada rua é uma veia tensa,
por onde corre a cantiga
da minha voz que é imensa.
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45
Dar de beber à dor
[refrão]
Letra e música: Alberto Janes
Intérprete: Amália Rodrigues
Javier Tamames
Foi no Domingo passado que passei
à casa onde vivia a Mariquinhas,
mas ’stá tudo tão mudado
que não vi em menhum lado
as tais janelas que tinham tabuinhas.
Do rés-do-chão ao telhado
não vi nada, nada, nada
que pudesse recordar-me a Mariquinhas,
e há um vidro pregado e azulado
onde havia as tabuinhas.
Entrei e onde era a sala agora está
à secretária um sujeito que é lingrinhas,
mas não vi colchas com barra
nem viola, nem guitarra,
nem espreitadelas furtivas das vizinhas.
O tempo cravou a garra
na alma daquela casa
onde as vezes petiscavamos sardinhas
quando em noites de guitarra e de farra
estava alegre a Mariquinhas.
As janelas tão garridas que ficavam
com cortinados de chita às pintinhas
perderam de todo a graça
porque é hoje uma vidraça
com cercadura de lata às voltinhas.
E lá p’ra dentro quem passa
hoje é p’ra ir aos penhores
entregar ao usurário umas coisinhas,
pois chega a esta desgraça toda a graça
da casa da Mariquinhas.
P’ra terem feito da casa o que fizeram
melhor fora que a mandassem p’rás alminhas,
pois ser casa de penhores
o que foi viveiro d’amores
é ideia que não cabe cá nas minhas
recordações do calor
e das saudades. O gosto
que eu vou procurar esquecer
numas ginginhas,
pois dar de beber à dor é o melhor,
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9
Retalhos da Vida de Um Médico
já dizia a Mariquinhas.
Música: Tozé Brito
Letra: Ary dos Santos
Intérprete: Carlos do Carmo
Carlos Coutinho (Tema da série televisiva ’Retalhos da Vida de Um Médico’)
Serras, veredas, atalhos,
Estradas e fragas de vento,
Onde se encontram retalhos
De vidas em sofrimento
Retalhos fundos nos rostos,
Mãos duras e retalhadas
Pelo suor do desgosto,
Retalha as caras fechadas
O caminho que seguiste,
Entre gente pobre e rude,
Muitas vezes tu abriste
Uma rosa de saúde
[refrão]
Cada história é um retalho
Cortado no coração
De um homem que no trabalho
Reparte a vida e o pão
As vidas que defendeste,
E o pão que repartiste,
São lágrimas que tu bebeste
Dos olhos de um povo triste
E depois de tanto mundo,
Retalhado de verdade,
Também tu chegaste ao fundo
Da doença da cidade
Da que não vem na sebenta,
Daquela que não se ensina,
Da pobreza que afugenta
Os barões da medicina
Tu sabes quanto fizeste,
A miséria não segura,
Nem mesmo quando lhe deste
A receita da ternura
[refrão]
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43
Raízes
Dura Memória
Música: Henrique Lourenço
Letra: Sidónio Muralha
Intérprete: Amália Rodrigues
Música: Alain Oulman
Letra: Luís de Camões
Intérprete: Amália Rodrigues
’São canta Amália Rodrigues’
’São canta Amália Rodrigues’
Velhas pedras que pisei
saiam da vossa mudez
venham dizer o que sei
venham falar português
sejam duras como a lei
e puras como a nudez.
Memória do meu bem cortado em flores
por ordem de meus tristes e maús fados
deixai-me descançar com meus cuidados
nesta inquietação dos meus amores.
Basta-me o mal presente e os temores
dos sucessos que espero infortunados
sem que venham de novo bens passados
à afrontar meu repouso com suas dores.
Minha lágrima salgada
caíu no lenço da vida
foi lembrança naufragada
e para sempre perdida
foi vaga despedaçada
contra o cais da despedida.
Perdi e mora tudo quanto em termos
tão vagarosos e largos alcancei
deixai-me com as lembranças desta glória
deixai-me lembranças desta glória.
Visitei tantos países
conheci tanto luar
nos olhos dos infelizes
e porque me hei-de gastar?
vou ao fundo das raízes
e hei-de gastar-me a cantar.
Cumpre-se e acaba a vida nestes zêlos
porque neles com meu baile a acabarei
porque neles com meu baile acabarei
mil vidas não, uma só dura memória.
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11
Estranha forma de vida
Prece
Letra e música: Alfredo Duarte; Amália Rodrigues
Intérprete: Amália Rodrigues
Música: Alain Oulman
Letra: Pedro Homem de Mello
Intérprete: Amália Rodrigues
Javier Tamames
’São canta Amália Rodrigues’
Foi por vontade de Deus
que eu vivo nesta ansiedade.
Que todos os ais são meus,
Que é toda a minha saudade.
Foi por vontade de Deus.
Talvez que eu morra na práia
cercada e perfido no banho
por toda a espuma da práia
como um pastor que desmaia
no meio do seu rebanho.
Que estranha forma de vida
tem este meu coração:
vive de forma perdida;
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida.
Talvez que eu morra na rua
e dê por mim derrepente
em noite fria e sem luar
e mando as pedras da rua
pisadas por toda a gente.
Coração independente,
coração que não comando:
vive perdido entre a gente,
teimosamente sangrando,
coração independente.
Talvez que eu morra entre grades
no meio de uma prisão
porque o mundo além das grades
venha esquecer as saudades
que roiem meu coração.
Eu não te acompanho mais:
para, deixa de bater.
Se não sabes aonde vais,
porque teimas em correr,
eu não te acompanho mais.
Talvez que eu morra de noite
onde a morte é natural
as mãos em cruz sobre o peito
das mãos de Deus tudo aceito
mas que eu morra em Portugal
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41
Povo que lavas no rio
Fado da pouca sorte
Música: Fado Victoria
Letra: Pedro Homem de Melo
Intérprete: Amália Rodrigues
Música: Fernando Tordo
Letra: Ary dos Santos
Intérprete: Carlos do Carmo
Versos de Segunda (jeito de jj)
Javier Tamames
Povo que lavas no rio
E talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não.
Fui ter à mesa redonda
Bebi em malga que me esconde
O beijo de mão em mão.
Era o vinho que me deste
A água pura, puro agreste
Mas a tua vida não.
Aromas de luz e de lama
Dormi com eles na cama
Tive a mesma condição.
Povo, povo, eu te pertenço
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida não.
Povo que lavas no rio
E talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não.
De manhã a vender na Avenida,
ou à tarde nas ruas da Baixa
está o cauteleiro
a gritar que há horas na vida
à carteira de que não tem
pão porque não tem dinheiro.
Tantos contos que são a taluda,
tantas notas sonhadas só ele
as atira p’ra o ar.
Já que a sorte da gente não muda,
que tristeza termos de pensar
isto vai a jogar.
Quinze mil quatrocentos e tres.
Nove mil trezentos e dez.
Mas o mal que o dinheiro nos fez
durante a vida toda...
Amanhã não anda a roda!
Um bilhete que sabe a desgraça,
uma vida passada à espera da terminação.
Mas o cauteleiro é que passa,
a má sorte jogada no duro da aproximação.
A voz lenta apregoa a cautela,
esperança louca de quem nunca teve
uma nota na mão.
Mas a sorte também tem com ela
a miséria de quem fez do jogo
o seu ganha-pão.
Quinze mil quatrocentos e tres.
Nove mil trezentos e dez.
Mas o mal que o dinheiro
nos fez durante a vida toda...
Amanhã não anda a roda!
40
13
Fado do Campo Grande
O homem das castanhas
Música: António Vitorino de Almeida
Letra: Ary dos Santos
Intérprete: Carlos do Carmo
Música: Paulo de Carvalho
Letra: Ary dos Santos
Intérprete: Carlos do Carmo
Javier Tamames
Javier Tamames
A minha velha casa,
por mais que eu sofra e ande,
é sempre um golpe de asa,
varrendo um Campo Grande.
Aqui no meu pais,
por mais que a minha ausência doa,
é que eu sei que a raiz de mim
está em Lisboa.
A minha velha casa
resiste no meu corpo,
e arde como brasa
dum corpo nunca morto.
À minha velha casa
eu regresso à procura
das origens da ternura,
onde o meu ser perdura.
Na Praça da Figueira,
ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ele arde.
Ao canto do Outono,à esquina do Inverno,
o homem das castanhas é eterno.
Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.
Amiga amante, amor distante.
Lisboa é perto, e não bastante.
Amor calado, amor avante,
que faz do tempo apenas um instante.
Amor dorido, amor magoado
e que me doí no fado.
Amor magoado, amor sentido,
mas jamais cansado.
Amor vivido é o amor amado.
Um braço é a tristeza,
o outro é a saudade,
e as minhas mãos abertas
são chão da liberdade.
A casa a que eu pertenço,
viagem para à minha infância,
é o espaço em que eu venço
e o tempo da distância.
E volto à minha casa,
porque a esperança resiste
a tudo quanto arrasa
um homem que for triste.
Lisboa não se cala,
e quando fala
é minha chama,
14
É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.
Um carro que se empurra,
um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.
Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.
Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor p’ra casa.
A mágoa que transporta a miséria ambulante,
passeia na cidade o dia inteiro.
É como se empurrasse o Outono diante;
é como se empurrasse o nevoeiro.
Quem sabe a desventura do seu fado?
Quem olha para o homem das castanhas?
Nunca ninguém pensou que ali ao lado
ardem no fogareiro dores tamanhas.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p’ra casa.
39
por uma criança.
meu castelo, minha Alfama,
minha pátria, minha cama.
Se um dia o Cacilheiro for embora,
fica mais triste o coração da água,
e o povo de Lisboa dirá, como quem chora,
pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.
Amiga amante, amor distante.
Lisboa é perto, e não bastante.
Amor calado, amor avante,
que faz do tempo apenas um instante.
Amor dorido, amor magoado
e que me doí no fado.
Amor magoado, amor sentido,
mas jamais cansado.
Amor vivido é o amor amado.
Ai, Lisboa, como eu quero,
é por ti que eu desespero.
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15
Fado do Ciúme
O Cacilheiro
Música: Frederico Valério
Letra: Amadeu do Vale
Intérprete: Amália Rodrigues
Música: Paulo de Carvalho
Letra: Ary dos Santos
Intérprete: Carlos do Carmo
Javier Tamames
Lá vai no Mar da Palha o Cacilheiro,
comboio de Lisboa sobre a água:
Cacilhas e Seixal, Montijo mais Barreiro.
Pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.
Se não esqueceste
o amor que me dedicaste
e o que escreveste
nas cartas que me mandaste
esquece o passado
e volta para meu lado
porque já estás perdoado
de tudo o que me chamaste.
Na Ponte passam carros e turistas
iguais a todos que há no mundo inteiro,
mas, embora mais caras, a Ponte não tem vistas
como as dos peitoris do Cacilheiro.
Volta meu querido
mas volta como disseste
arrependido
de tudo o que me fizeste,
haja o que houver
já basta p’ra teu castigo
essa mulher
que andava agora contigo.
Leva namorados, marujos,
soldados e trabalhadores,
e parte dum cais
que cheira a jornais,
morangos e flores.
Regressa contente,
levou muita gente
e nunca se cansa.
Parece um barquinho
lançado no Tejo
por uma criança.
Se é contrafeito
não voltes toma cautela
porque eu aceito
que vivas antes com ela
pois podes crer
que antes prefiro morrer
do que contigo viver
sabendo que gostas dela.
Num carreirinho aberto pela espuma,
la vai o Cacilheiro, Tejo à solta,
e as ruas de Lisboa, sem ter pressa nenhuma,
tiraram um bilhete de ida e volta.
Alfama, Madragoa, Bairro Alto,
tu cá-tu lá num barco de brincar.
Metade de Lisboa à espera do asfalto,
e já meia saudade a navegar.
Só o que eu peço
é uma recordação
se é que mereço
um pouco de compaixão,
deixa ficar
o teu retrato comigo
p’ra eu julgar
que ainda vivo contigo.
Leva namorados, marujos,
soldados e trabalhadores,
e parte dum cais
que cheira a jornais,
morangos e flores.
Regressa contente,
levou muita gente
e nunca se cansa.
Parece um barquinho
lançado no Tejo
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E quando a malta fica à espera,
é que percebe como é:
passa à pendura
um pendura que não paga
e não quer andar a pé.
Fado dos azulejos
Música: Martinho de Assunção
Letra: Ary dos Santos
Intérprete: Carlos do Carmo
Javier Tamames
Entram magalas, costureiras;
descem senhoras petulantes.
Entre a verdade,
os peliscos e as peneiras,
fica tudo como dantes.
Quero um de quinze p’ra a Pampuia.
Já é mais caro este transporte.
E qualquer dia,
mudo a agulha porque a vida
está pela hora da morte.
Azulejos da cidade,
numa parede ou num banco,
são ladrilhas da saudade
vestida de azul e branco.
Bocados da minha vida,
todos vidrados de mágoa,
azulejos, despedida
dos meus olhos, rasos de água.
À flor dum azulejo, uma menina;
do outro, um cão que ladra e um pastor.
Ai, moldura pequenina,
que és a banda desenhada
nas paredes do amor.
Azulejos desbotados
por quanto viram chorar.
Azulejos tão cansados
por quantos vira m passar.
Podem dizer-vos que não,
podem querer-vos maltratar:
de dentro do coração
ninguém vos pode arrancar.
À flor dum azulejo, um passarinho,
um cravo e um cavalo de brincar;
um coração com um espinho,
uma flor de azevinho
e uma cor azul luar.
À flor do azulejo, a cor do Tejo
e um barco antigo, ainda por largar.
Distância que já não vejo,
e enche Lisboa de infância,
e enche Lisboa de mar.
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Fado português
O amarelo da Carris
Música: Alain Oulman
Letra: José Régio
Intérprete: Amália Rodrigues
Música: José Luís Tinoco
Letra: Ary dos Santos
Intérprete: Carlos do Carmo
Javier Tamames
Javier Tamames
O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
O amarelo da Carris
vai da Alfama à Mouraria,
quem diria.
Vai da Baixa ao Bairro Alto,
trepa à Graça em sobressalto,
sem saber geografia.
Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.
O amarelo da Carris
já teve um avô outrora,
que era o xora???.
Teve um pai americano,
foi inglês por muito ano,
só é português agora.
Entram magalas, costureiras;
descem senhoras petulantes.
Entre a verdade, os peliscos e as peneiras,
fica tudo como dantes.
Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.
Quero um de quinze p’ra a Pampuia.
Já é mais caro este transporte.
E qualquer dia,
mudo a agulha porque a vida
está pela hora da morte.
Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.
Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro velero
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
O amarelo da Carris
tem misérias à socapa
que ele tapa.
Tinha bancos de palhinha,
hoje tem cabelos brancos,
e os bancos são de napa.
No amarelo da Carris
já não há ’pode seguir’
para se ouvir.
Hoje o pó que o faz andar
é o pó (???)
com que ele se foi cobrir.
Quando um rapaz empurra um velho,
ou se machuca uma criança,
então a gente vê ao espelho o atropelo
e a ganância que nos cansa.
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Nova Feira da Ladra
Fado varina
Música: Frederico de Brito
Letra: Ary dos Santos
Intérprete: Carlos do Carmo
Música: Mário Moniz Pereira
Letra: Ary dos Santos
Intérprete: Carlos do Carmo
Javier Tamames
Javier Tamames
É na Feira da Ladra que eu relembro
uma toalha velha, toda em linho,
que já serviu uma noite de Dezembro,
e agora cheira a Setembro,
como o Outono sabe a vinho.
Não valem muito mais que dois pintores
os quadros das paisagens
que eu já sei,
mas valem, pelos frutos, pelas flores
que em São Vicente das Dores,
fora de mim, eu pintei.
De mão na anca,
descompõem à freguesa.
Atrás da banca,
chamam-lhe cosma(?) e burguesa.
O que é que eu vou roubar à Feira?
Um beijo de mulher trigueira.
Aqui um coração, ali uma gravura.
É a Feira da Ladra ternura.
O que é que eu vou trazer da Feira?
Um corpo de mulher braseira.
Aqui está um lençol, bordado como dantes.
Esta Feira da Ladra é dos amantes.
E na Feira da Ladra nos vingamos
dum pouco desse tempo que morreu.
Em cada botão velho que compramos
há sempre uma corja de amos
que em Abril, Abril venceu.
Agora não compramos velharias,
tudo passado é lastro do futuro.
Nascemos para o sol todos os dias,
na nossa Feira da Ladra
já não há ladrões no escuro.
O que é que eu vou roubar à Feira?
Um beijo de mulher trigueira.
Aqui um coração, ali uma gravura.
É a Feira da Ladra ternura.
O que é que eu vou trazer da Feira?
Um corpo de mulher braseira.
Aqui está um lençol, bordado como dantes.
Eis a Feira da Ladra dos amantes.
Mas nessa voz,
como insulto à portuguesa,
há o sal de todos nós,
há ternura e há beleza.
Do alto mar
chega o pregão que se alastra:
têm ondas no andar
quando embalam a canastra.
Minha varina,
chinelas por Lisboa.
Em cada esquina
é o mar que se apregoa.
Nas escadinhas
dás mais cor aos azulejos
quando apregoas sardinhas
que me sabem como beijos.
Os teus pregões
são iguais à claridade:
caldeirada de canções
que se entorna na cidade.
Cordões ao peito,
numa luta que é honrada.
A sogra a jeito
na cabeça levantada.
De perna nua,
com provocante altivez,
descobrindo o mar da rua
que esse, sim, é português.
São as varinas
dos poemas do Cesário
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Não é desgraça ser pobre
a vender a ferramenta
de que o mar é o operário.
Letra e música: Norberto Araújo
Intérprete: Amália Rodrigues
Minha varina,
chinelas por Lisboa.
Em cada esquina
é o mar que se apregoa.
Javier Tamames (Fado menor do Porto)
Não é desgraça ser pobre,
não é desgraça ser louca:
desgraça é trazer o fado
no coração e na boca.
Nas escadinhas
dás mais cor aos azulejos
quando apregoas sardinhas
que me sabem como beijos.
Nesta vida desvairada,
ser feliz é coisa pouca.
Se as loucas não sentem nada,
não é desgraça ser louca.
Os teus pregões
nunca mais ganham idade:
versos frescos de Camões
com salada de saudade.
Ao nascer trouxe uma estrela;
nela o destino traçado.
Não foi desgraça trazé-la:
desgraça é trazer o fado.
Desgraça é andar a gente
de tanto cantar, já rouca,
e o fado, teimosamente,
no coração e na boca.
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Namorados da cidade
Fado Xuxu
Música: Fernando Tordo
Letra: Ary dos Santos
Intérprete: Carlos do Carmo
Música: Frederico Valério
Letra: Amadeu do Vale
Intérprete: Amália Rodrigues
Javier Tamames
Namorados de Lisboa,
à beira Tejo assentados,
a dormir na Madragoa.
Namorados de Lisboa,
num mirante deslumbrados,
à beira verde acordados.
Namorados de Lisboa,
ao Domingo uma cerveja,
uma pevide salgada,
uma boca que se beija
e que nos sabe a cereja,
a miséria adocicada,
à beira parque plantada.
Namorados de Lisboa,
sempre, sempre apaixonados,
mesmo que a tristeza doa,
namorados de Lisboa.
Namorados de Lisboa,
na cadeira dum cinema,
onde as mãos andam à toa,
à procura de um poema,
namorados de Lisboa,
que o mistério não desvenda
até que o escuro se acenda.
Namorados de Lisboa,
a apretar num vão de escada
o prazer que nos magoa
e depois não sabe a nada.
Namorados de Lisboa,
a morar num vão de escada.
Namorados de Lisboa,
sempre, sempre apaixonados,
mesmo que a tristeza doa,
namorados de Lisboa.
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O fado, canção bizarra
pôs a samarra
todo trecheiro
e lá foi com a guitarra
até ao Rio de Janeiro.
Fez-se um fadista atrevido
tão destemido
e de tal marca
que até já é conhedico
p’lo fadistão da Fuzarca.
Com sambinhas
e modinhas
abacate
vitamate
Guaraná
maracujá
e caruru
Com cocada
batucada
para ti
abacaxi
e goiabada
o fado é bom p’ra xuxu.
Um portuguesinho de raça
bebe cachaça
come pipoca
e no catete até passa
por cidadão carioca.
Às vezes vai à favela
calça chinela
todo se bamba...
e o fado canção singela
agora é todo do samba.
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Gaivota
Meu amor, meu amor
Música: Alain Oulman
Letra: Alexandre O’Neill
Intérprete: Amália Rodrigues
Música: Alain Oulman
Letra: Ary dos Santos
Intérprete: Amália Rodrigues
In: ’Com que Voz’, 1968
Javier Tamames
’UNL - Literatura’
Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.
Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.
Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.
Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento
este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
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Medo (Quem dorme à noite comigo?)
Grito
Música: Alain Oulman
Letra: Reinaldo Ferreira
Intérprete: Amália Rodrigues
In: ’Segredos’,1997
Música: C. Gonçalves
Letra: Amália Rodrigues
Intérprete: Amália Rodrigues
Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem, desdigo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!
E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.
Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,
Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado,
Lázaro e frio?
Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.
Silêncio!
do silêncio fasso um grito
corpo todo me dói
deixai-me chorar um pouco.
Só à sombra
como o sol vou rebolindo
de sombra assombrada
já lhe perdi o sentido.
Ó céu!
aqui me falta a luz
aqui me falta uma estrela
chora-se mais
quando se vive atrás dela.
E eu,
a quem o sol esqueceu
só dou ao mundo perdão
só choro agora
porque quem morre já não chora.
Solidão!
que lembras-me a santeira
ao céu da companheira
minha profunda amargura.
Ai, solidão
a quem foste confiante
Ai! solidão
e se morderam a cabeça.
Meu Deus
que ao fim do além da vida
do que já fui tenho sede
sou sombra triste
encostada a uma parrede.
Adeus,
vida que ranto duras
da morte que tanto gabas
ai, que me dês
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Maria Lisboa
a solidão quase loucura.
Música: Alain Oulman
Letra: David Mourão-Ferreira
Intérprete: Amália Rodrigues
Javier Tamames
É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata;
na canastra, a caravela,
no coração, a fragata.
Em vez de corvos no chaile,
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile com o mar.
É de conchas o vestido,
tem algas na cabeleira,
e nas velas o latido
do motor duma traineira.
Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio: Maria;
seu apelido: Lisboa.
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Madrugada de Alfama
Há festa na Mouraria
Música: Alain Oulman
Letra: David Mourão-Ferreira
Intérprete: Amália Rodrigues
Letra e música: A. Amargo; A. Duarte
Intérprete: Amália Rodrigues
Javier Tamames
Javier Tamames
Há festa na Mouraria,
é dia da procissão
da senhora da saúde.
Até a Rosa Maria
da rua do Capelão
parece que tem virtude.
Mora num beco de Alfama
e chamam-lhe a madrugada,
mas ela, de tão estouvada
nem sabe como se chama.
Mora numa água-furtada
que é a mais alta de Alfama
e que o sol primeiro inflama
quando acorda à madrugada.
Mora numa água-furtada
que é a mais alta de Alfama.
Naquele bairro fadista
calaram-se as guitarradas:
não se canta nesse dia,
velha tradição bairrista,
vibram no ar badaladas,
há festa na Mouraria.
Nem mesmo na Madragoa
ninguém compete com ela,
que do alto da janela
tão cedo beija Lisboa.
E a sua colcha amarela
faz inveja à Madragoa:
Madragoa não perdoa
que madruguem mais do que ela.
E a sua colcha amarela
faz inveja à Madragoa.
Mora num beco de Alfama
e chamam-lhe a madrugada;
são mastros de luz doirada
os ferros da sua cama.
Colchas ricas nas janelas,
pétalas soltas no chão.
Almas crentes, povo rude
anda a fé pelas vielas:
é dia da procissão
da senhora da saúde.
Após um curto rumor
profundo siléncio pesa:
por sobre o largo da guia
passa a Virgem no andor.
Tudo se ajoelha e reza,
até a Rosa Maria.
Como que petrificada,
em fervorosa oração,
é tal a sua atitude,
que a rosa já desfolhada
da rua do Capelão
parece que tem virtude.
E a sua colcha amarela
a brilhar sobre Lisboa,
é como a estatua de proa
que anuncia a caravela,
a sua colcha amarela
a brilhar sobre Lisboa.
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Havemos de ir a Viana
Libertação
Música: Alain Oulman
Letra: Pedro Homen de Mello
Intérprete: Amália Rodrigues
Música: Santos Moreira
Letra: David Mourão-Ferreira
Intérprete: Amália Rodrigues
’São canta Amália Rodriguez’
Javier Tamames
Entre sombras misteriosas
em rompendo ao longe estrelas
trocaremos nossas rosas
para depois esquecê-las.
Fui à praia, e vi nos limos
a nossa vida enredada:
ó meu amor, se fugimos,
ninguém saberá de nada.
Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.
Na esquina de cada rua,
uma sombra nos espreita,
e nos olhares se insinua,
de repente uma suspeita.
Partamos de flor ao peito
que o amor é como o vento
quem pára perde-lhe o jeito
e morre a todo o momento.
Fui ao campo, e vi os ramos
decepados e torcidos:
ó meu amor, se ficamos,
pobres dos nossos sentidos.
Hão-de transformar o mar
deste amor numa lagoa:
e de lodo hão-de a cercar,
porque o mundo não perdoa.
Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.
Ciganos, verdes ciganos
deixai-me com esta crença
os pecados têm vinte anos
os remorços têm oitenta.
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Em tudo vejo fronteiras,
fronteiras ao nosso amor.
Longe daquí,onde queiras,
a vida será maior.
Nem as esp’ranças do céu
me conseguem demover
Este amor é teu e meu:
só na terra o queremos ter.
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Amália, Carlos do Carmo