A evolução do eleitorado brasileiro e da representação feminina
na Câmara dos Deputados
José Eustáquio Diniz Alves1
Introdução
A composição do eleitorado brasileiro mostra que as mulheres já são maioria dos
votantes em todas as faixas etárias. Contudo, o maior peso eleitoral feminino não tem se
refletido na redução do déficit democrático de gênero. As mulheres continuam subrepresentadas na política e parece que este quadro não vai mudar com as eleições de 2006.
Evolução do eleitorado total e feminino
A democracia brasileira, enquanto um fenômeno social de massa, tem se
consolidado nas últimas décadas. Ao longo de todo o período da República Velha (18891930) até a Segunda Guerra Mundial, o percentual de eleitores no conjunto da população
não ultrapassou a casa dos 5%. Conforme mostrado no gráfico 1, em 1945, com o processo
de redemocratização o eleitorado brasileiro chegou a 7,5 milhões de eleitores,
representando 16,2% de uma população de 46 milhões de habitantes. Estes números
cresceram continuamente e o eleitorado brasileiro chegou a quase 50 milhões de eleitores
em 1980, representando um percentual de 41% de uma população de 120 milhões de
habitantes.
Gráfico 1: Evolução percentual do eleitorado brasileiro entre 1933 e 2006
70
% do eleitorado
60
50
40
30
20
10
0
1933 1945
1950 1960
1970 1974
1980 1990
1998 2006
Anos eleitorais selecionados
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral - TSE, (www.tse.gov.br), Visitado em julho de 2006
1
Professor do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da ENCE/IBGE
1
Com o processo de redemocratização ocorrido após o fim da ditadura militar e a
ampliação induzida pela nova legislação decorrente da Constituição “cidadã” de 1988,
houve um salto no número absoluto e relativo de votantes, sendo que, pela primeira vez, as
pessoas aptas a votar, ultrapassaram 50% da população. Em 1998, data da última eleição
geral do século XX, o eleitorado brasileiro ultrapassou a cifra de 100 milhões de pessoas,
representando 64% de uma população de 165 milhões de habitantes. No ano de 2006, a
população brasileira atingiu os 186 milhões de habitantes e o eleitorado ultrapassou a casa
dos 125 milhões de pessoas. Como a população brasileira tem assistido a redução da
parcela de crianças e tem passado por um processo de envelhecimento de sua estrutura
etária, o eleitorado já atingiu 67,5% da população do país. Podemos dizer então que, em
termos quantitativos, a democracia brasileira apresentou uma evolução extraordinária desde
o fim da República Velha.
Um dos fatores que mais contribuiu para o crescimento quantitativo da democracia
brasileira foi o crescimento do eleitorado feminino. As mulheres conseguiram o direito de
voto em 1932, mas a percentagem daquelas aptas a votar era muito pequena, porém cresceu
continuamente. O gráfico 2 mostra que em 1974 havia 12 milhões de mulheres com títulos
de eleitor, o que representava 35% dos votantes em potencial. Em 1998 o eleitorado
brasileiro quase atingiu a paridade de gênero, sendo que as mulheres chegaram a 52,8
milhões de eleitoras, representando 49,8% do eleitorado. Já em 2006, o número de
mulheres com título de eleitor chegou a 65 milhões, superando o eleitorado masculino e
atingindo 51,5% do total de pessoas inscritas para o pleito de outubro. Portanto, na virada
do milênio houve uma reversão da composição do eleitorado por sexo no Brasil.
Gráfico 2: Evolução do eleitorado brasileiro por sexo: 1974-2006
Milhões de eleitores
70
60
50
40
30
20
10
0
1974
1980
1990
1998
2004
2006
Anos selecionados
Homens
Mulheres
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral - TSE, (www.tse.gov.br), Visitado em julho de 2006
O gráfico 3 mostra com mais detalhe a evolução do percentual do eleitorado
feminino entre 1988 e 2006. Nota-se que nas ultimas eleições do século XX as mulheres
foram chegando perto da paridade do eleitorado e, a partir do ano 2000, foram ampliando
sua presença e aumentando o percentual em relação ao sexo masculino.
2
Gráfico 3: Evolução do eleitorado brasileiro por sexo: 1988-2006
52
51,23
51,53
50,85
%
50,48
50
49,01 49,01
49,2
49,57
49,38
49,76
48
1988
1990
1992
1994
1996
1998
2000
2002
2004
2006
Anos eleitorais
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral - TSE, (www.tse.gov.br), Visitado em julho de 2006
O gráfico 4 mostra a evolução do percentual do eleitorado por sexo e grupos de
idade. Nota-se que em 1992 as mulheres representavam menos de 50% do eleitorado em
todos os grupos etários considerados. Já em 2006, ocorria o contrário, pois as mulheres
passaram, pela primeira vez, a ser maioria em todos os grupos etários. Chama atenção os
grupos etários mais velhos em que as mulheres mais cresceram sua representação. Estes
dados apontam para um crescimento ainda maior da percentagem do eleitorado feminino na
medida em que avança o processo de envelhecimento da população brasileira.
Gráfico 4:
Evolução do percentual do eleitorado brasileiro por sexo e grupos de idade: 1992 e 2006
%
55
50
45
16
17
18-24 25-34 45-59 60-69 70-+
1992
48,4
47,3
48,5
49,6
49,7
49,3
45,4
2006
51,3
50,2
50,3
51,1
52,2
53,1
53,1
Faixas etárias
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral - TSE, (www.tse.gov.br), Visitado em julho de 2006
3
O gráfico 5 mostra o aumento da percentagem de mulheres eleitas para a Câmara
Federal. Nas eleições de 1945 nenhuma mulher foi eleita. Na eleição seguinte foi eleita uma
mulher, mas a representação feminina na Câmara Federal ficou abaixo de 2% até 1982. Na
eleição para a Assembléia Constituinte, foram eleitas 26 mulheres, representando 5,3% do
total de deputados. Este número ficou praticamente estável até 1998 e chegou a 42
mulheres eleitas no ano de 2002, quando o percentual atingiu 8,2%. Observa-se que a
despeito do grande avanço ocorrido nos últimos 20 anos, a participação feminina na
Câmara Federal ainda é muito baixa.
Gráfico 5: Percentagem de mulheres eleitas para a Câmara dos deputados: 1945-2002
9
8
7
%
6
5
4
3
2
1
2002
1998
1994
1990
1986
1982
1978
1974
1970
1966
1962
1958
1954
1950
1945
0
Anos de eleições gerais
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral - TSE, (www.tse.gov.br), Visitado em julho de 2006
Como mostramos em artigo anterior, a percentagem de mulheres no parlamento
brasileiro está muito abaixo da média mundial e abaixo de todos os países da América do
Sul. No próximo artigo, vamos analisar o percentual de mulheres candidatas no estado de
São Paulo e mostrar que o quadro continua bastante desfavorável às mulheres.
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