ANAIS ELETRÔNICOS ENILL
Encontro Interdisciplinar de Língua e Literatura | 17 a 19 de novembro de 2010
Itabaiana/SE: Departamento de Letras, Vol.01, ISSN: 2237-9908
MEU TIO O IAUARETÊ: UMA ANÁLISE ESTRUTURAL, LINGUÍSTICA E
LITERÁRIA, A PARTIR DAS DICOTOMIAS APARENTES NO TEXTO
Maria da Conceição Resende Sá Lima1
Iderlânia Costa Souza2
Michelle Alexandre da Silva3
RESUMO
Guimarães Rosa com seus neologismos se caracteriza principalmente por uma tendência
mimética, sendo, entretanto irrealista. Na balança entre o realismo e irrealismo em suas
obras e em especial no conto “Meu tio o Iauaretê”, o autor reflete na estrutura a sua
preocupação com o nível das ideias e da linguagem ou das aparências e da essência.
Tendo em vista este contexto, objetiva-se neste trabalho apresentar uma análise
estrutural linguística e literária do conto “Meu Tio o Iauaretê”, tendo como base as
dicotomias aparentes no texto. Para tanto, foram analisados os fundamentos teóricos de
Bosi (1981), Campos (1970), Calobrezi (2001), Citelli (1998), Covizzi (1978), Fiorin
(1995), Fiorin e Savioli (1991), Filho (1986) e Rogel (1985) que embasam as
afirmações exploradas no texto.
Palavras-chave: Guimarães Rosa; estruturalismo; linguística; discurso literário;
dicotomias.
1. INTRODUÇÃO
Toda narrativa possui uma ligação com outras narrativas, possibilitando uma
estrutura acessível à análise. A narrativa permite ainda uma passagem de um nível
superficial de interpretação a outro mais profundo permitindo com isso, uma unidade
profunda aos elementos superficiais do texto.
A análise de um texto não consiste apenas em encontrar a oposição reguladora
dos sentidos, pois, se somente isso for feito, reduziremos sua riqueza significativa a
quase nada. No entanto, a importância de detectar a estrutura fundamental de um texto
reside no fato de que ela permite dar uma unidade profunda aos elementos superficiais,
1
Graduanda de 8º período do curso de Letras-Português pela UFS. E-mail: [email protected]
2
Graduanda de 8º período do curso de Letras-Português pela UFS. E-mail: [email protected]
3
Graduanda de 8º período do curso de Letras- Português pela UFS. E-mail: [email protected]
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que, à primeira vista, parecem dispersos e caóticos. Segundo Savioli e Fiorin (1991), o
nível profundo de um texto constitui-se de uma oposição. Cada um dos pólos opostos da
estrutura profunda vem investido de uma apreciação valorativa.
Essa apreciação valorativa é analisada pelo estruturalismo literário, que procura
extrair da obra particular as estruturas gerais de um gênero, de um movimento ou de
uma literatura nacional. Sobre a questão Rogel (1985) afirma:
(…) aparecem, sob o rótulo do estruturalismo, pesquisas diversas
sobre a análise do texto literário, todos eles guiados pelo
reconhecimento da obra como uma estrutura, isto é, um sistema de
relações, um todo formado de elementos solidários, tais que cada um
depende dos outros e não pode ser o que é, senão devido à relação que
tem uns com os outros. (ROGEL, 1985, P. 104).
A análise estrutural possibilita uma objetividade e um rigor muito maiores do
que os que podiam ser atingidos com os métodos empíricos da crítica tradicional. Para
Filho (1986, p.7), “é possível perceber a estreita relação entre a dimensão linguística e a
dimensão literária que envolve a significação das palavras quando estas integram o
sistema semiótico de um texto literário”.
O texto literário é ao mesmo tempo, um objeto linguístico e um objeto estético.
Conforme Filho (1986, p. 39), “a multissignificação é, pois, uma das marcas
fundamentais do texto literário como tal. É o traço que permite, entre outras, as
múltiplas leituras existentes na obra de Guimarães Rosa”.
O conto “Meu Tio o Iauaretê” de Guimarães Rosa (GR), retrata a trajetória de
um viajante que passa a noite na cabana de um onceiro, o qual lhe conta histórias sobre
onças que vivem na região, responsáveis pelas mortes de várias pessoas. O onceiro tinha
como característica peculiar transformar-se em onça. Ele tenta convencer o visitante a
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pernoitar em sua cabana e beber da cachaça que o mesmo trouxe. Tonico (o onceiro)
toma a cachaça e planeja enganar o hóspede com muitos causos para que o visitante
durma e sirva de presa para ele. E para não se tornar a próxima vítima, o hóspede
mantém a arma engatilhada. Arma com a qual elimina o tigreiro no final do conto,
quando este começa a transformar-se em onça.
Com base no contexto exposto, objetiva-se neste trabalho fazer um apanhado
estrutural linguístico e literário do conto “Meu Tio o Iauaretê” de Guimarães Rosa. Para
tanto, toma-se como base as dicotomias aparentes no texto.
2. UMA ANÁLISE ESTRUTURAL, LIGUÍSTICA E LITERÁRIA A PARTIR DAS
DICOTOMIAS APARENTES NO CONTO
Filho (1986, p. 45) explica que “o conto oferece uma amostra da vida, através
de um episódio, um flagrante ou instantâneo, um movimento singular e representativo.
Constitui-se de uma história curta, simples, com economia de meios, concentração da
ação, do tempo e do espaço”. O conto “Meu Tio o Iauaretê” de GR é classificado, neste
contexto, como um grande discurso direto. É por natureza plurissignificativo,
permitindo com isso a ambiguidade do signo. Tem-se que o discurso literário, que tem o
maior número de criação, é o menos persuasivo e é nesta categoria que se encaixa GR.
Covizzi (1978, p.41), sobre essa afirmação diz: “Então o autor não tenta mais convencer
o leitor torná-lo cúmplice, aliado as suas perplexidades...”.
Citelli (1998) ainda complementa que:
(…) o discurso literário – que se definiria a priori por uma natureza
plurissignificativa, dado que o signo polissêmico e conotativo serve
como importante constituinte da linguagem simbólica – pode terminar
como um exercício que, forçando a monossemia, conduz o leitor pelo
estreito caminho do convencimento de pressupostos que estão antes de
mais nada, em certas crenças do autor. (CITELLI, 1998, P.63).
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2.1 LÍNGUA X FALA
Analisando o objeto de estudo, percebe-se uma primeira dicotomia aparente:
língua x fala. Segundo Filho (1986, p.22), “A língua pode ser entendida ainda como
realização de uma linguagem, um sistema de signos que permite configurar e traduzir a
multiplicidade de vivências caracterizadas do ser de cada um no mundo”. Já a fala é a
realização da linguagem em sua essência. Ela identifica o indivíduo em seu âmbito
social, cultural e geográfico, além de ser dinâmica, não estática, e estar sempre em um
processo de construção e reconstrução. Para Saussure, língua se opõe a fala porque a
língua é coletiva e a fala particular, portanto a língua é um dado social e a fala um dado
individual. Filho (1986) ainda explica que
Em oposição ao pensamento saussuriano, que privilegia a língua em
sua dimensão ideal, Bakhtin concentra suas atenções na fala (ou
discurso), que considera intrinsecamente ligada às condições da
comunicação, por seu turno vinculada às estruturas sociais. (FILHO,
1986, p.70).
GR evidencia essa individualidade da fala através da narrativa, da transgressão,
da configuração e do uso convencional da língua. Ele fragmenta a palavra e suas
relações moldando-as em outra: “- Hum? Eh – eh... É. Nhor sim. A – hã, quer entra,
pode entrar... Hum, hum” (p.25). A presença de onomatopeias e um exagero na
pontuação clarividenciam a intenção do autor em retratar com fidelidade a fala do
caboclo protagonista do conto.
Campos (1970, p.49) explica a introdução do conto com as onomatopeias,
afirmando que “os resmungos onomatopaicos interpolam-se desde o começo de sua fala
e se confundem com monossílabos tupis incorporados ao discurso, portando significado
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dentro dele se interpretados lexicograficamente”.
2.2 HUMANO X ANIMAL
Predomina no decorrer de toda a história a dicotomia humano x animal, em que
o protagonista parece fazer um caminho oposto. É homem, porém apresenta traços e
características animalescas. Em certos momentos da narrativa sente-se transmudado em
onça, pois mata pessoas e animais e a seguir retorna ao estado de normalidade, ou seja,
à sua humanidade.
“... Eu sou onça, não falei?! Axi. Não falei – eu viro onça? Onça grande,
tubixaba” (p.56). A sua própria argumentação é a prova cabal de sua humanidade e a
animalidade pelos gestos, sons e ações característicos dos animais.
Ocorre ainda, a gradativa perda das referências humanas do onceiro, o qual se
identifica com detalhes físicos e comportamentais de sua nova espécie. Um dos traços
dessa metamorfose é que Tonico rejeita o cozido e é seduzido pelo vermelho-sangue do
cru, ou melhor, comida de onça. “... chego lá, corto pedaço de carne pra mim. Agora eu
já sei: onça é que caça pra mim, quando ela pode. Onça é meu parente.” (p.27). Nota-se
um embate do onceiro contra si mesmo, pois renega sua humanidade por meio da fala,
sendo que, a fala é o único traço que caracteriza o humano, como explica Calobrezi
(2001):
O único elemento que mantém o tigreiro ligado à instância humana é a
fala, por meio da qual transmite as informações necessárias para que o
visitante aja cautelosamente e o mate, já que a crise do homem-onça
diz respeito à posição insustentável na qual foi colocado pelas ações
do outro, e da qual não pode sair nem permanecer. Já não quer ser um
homem; no entanto conserva traços de sua humanidade,
particularmente a fala, que mantém no convívio com o visitante.
(CALOBREZI, 2001, P.75).
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2.3 MONÓLOGO X DIÁLOGO
O conto é revestido de uma estrutura dialógica, visto que, aparece uma voz
denotando um monólogo, entretanto, infere-se um interlocutor invisível através das
respostas dadas pelo narrador. “(…) Cê tem medo? Mecê, então, não pode ser onça... cê
não pode entender onça, Cê pode? Fala? Eu aguento calor, guento frio” (p.27).
Essa relação dialógica denota a humanidade de ambos os personagens, pois
segundo Filho (1986, p.25), “A linguagem é uma atividade humana universal, que se
realiza individualmente, mas sempre segundo técnicas historicamente determinadas”.
Porém a desarticulação da fala composta somente de significante do protagonista no
final do conto evidencia a aderência do humano ao mundo animal, ou à condição de
animal. “Hé… Aarr-rrâ... Aaâh... Cê me arr hoôu... Remuaci... Rêiucàanacê... Araaã...
Uhn... Ui... Ui... Uh... êeêê... êê... ê. ê". (p.57). Sobre a transformação do homem em
animal, Covizzi (1978, p.52) diz: "salta aos olhos a presença do sobrenatural, do
irracional, em oposição ao racionalismo extremado”. Embasando o que afirma Covizzi,
Campos (1970), afirma:
(…) A transformação se dá isomorficamente, no momento em que a
linguagem se desarticula, se quebra em resíduos fônicos, que soam
como um rugido e como um estertor (pois nesse exato instante se
percebe que o interlocutor virtual também toma consciência da
metamorfose e, para escapar de virar pasto de onça, está disparando
contra o homem iauaretê o revolver que sua suspicácia mantivera
engatilhado durante toda a conversa.(CAMPOS, 1970, p.50).
2.4 NARRADOR X PERSONAGEM
Segundo Filho (1986, p.50-51), “A tendência estruturalista é centrar a
classificação na participação dos personagens em suas inter-relações. Os personagens
dão condição de existência ao enredo e “vivem” nele como participantes da história. No
referido conto de GR existem apenas dois personagens: um é o narrador, Tonico (o
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onceiro) - sobrinho do Iauaretê, e o segundo é seu interlocutor, que não é nomeado no
conto, sua voz é suprimida em todo o diálogo, porém infere-se que ele exista, primeiro
porque o narrador está sempre respondendo a alguma pergunta feita por esse
interlocutor. “Aqui eu durmo. Hum. Nhem? Mecê é que tá falando. Nhor não... Cê vai
indo ou vem vindo?”(p.25). E segundo, quando no final do conto mata o protagonista
“Ui, Ui, mecê é bom, faz isso comigo não, me mata não... Eu-cacuncozo... Faz isso não,
faz não... Nhenhenhém... Heeé!...”(p.57).
No decorrer da narrativa, viajante e onceiro travam uma conversa cujo objetivo
é, para o interlocutor, a elucidação da morte de várias pessoas na região e, para o
sobrinho do Iauaretê, a eliminação física de alguém que ousa invadir um território que o
mesmo alega ser seu. Edna Tarabori Calobrezi explica a ausência da voz do viajante da
seguinte forma:
O viajante, aparentemente silenciado ao longo de todo o conto, é na
realidade atuante inquiridor e perspicaz, pois claramente percebemos a
partir de sua fala implícita que as respostas e reações do falante
demonstram que as observações e perguntas inaudíveis são
fundamentais para o desenvolvimento do “monólogo” e muitas vezes,
motivam a fala do onceiro. (CALOBREZI, 2001,69).
Nesse conto como em outras obras de GR, a multissignificação é uma das
marcas fundamentais. É o traço que permite, entre outras, as múltiplas leituras
existentes. No conto “Meu Tio O Iauaretê”, o foco narrativo é mais envolvido, expressa
dialogicamente através da ação o esclarecimento e o desfecho da história. "Desvira esse
revólver! Mecê branca não, vira o revólver pra outra banda... mexo não tou quieto,
quieto... Ói: cê quer me matar, eu? Tira, tira revolver pra lá mecê tá doente, mecê tá
variando... Veio me prender?" (p.56).
O protagonista (Tonico) não se apaixona por uma mulher como é comum na
maioria das obras literárias e sim, por uma onça denominada Maria-Maria: “Antes, de
primeiro, eu gostava de gente. Agora eu gosto é só de onça. Eu apreceio o bafo delas...
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Maria-Maria- onça bonita, congussu, boa-bonita.” (p.33). Possivelmente, com essa ação
do onceiro GR denuncia o incesto devido ao relacionamento que o protagonista mantém
com Maria-Maria, cujo nome confunde-se com a da sua mãe (Mar'Iara-Maria),
denotando o desejo do mesmo em relacionar-se intimamente com a progenitora.
Essa narrativa é composta de uma íntima fusão entre o ser e o não ser, o
próprio narrador é o protagonista dessa dualidade homem x animal. GR nesse conto
trabalha uma linguagem recheada de tupinismo (aproximando o seu onceiro das
tradições tupis) e de mecanismo tupi de construção de palavras e de sintaxe,
evidenciando ainda mais a dualidade vivenciada por Tonico.
2.5 CULTURA EUROPEIA X CULTURA INDÍGENA
Segundo Filho (1986, p.34) “a literatura se vale da língua e revela dimensões
culturais. Cultura, língua e literatura estão, portanto, estreitamente vinculadas.” No
conto estudado, GR retrata duas culturas distintas, a cultura europeia com um foco
voltado para a ótica do colonizador e a cultura indígena na visão daquele que sofreu a
ação do colonizador.
A partir do título, GR evidencia toda a temática trabalhada no decorrer do
conto. A escolha lexical das palavras que compõem o título, já denota a aparente
dicotomia que discorrerá durante todo o texto. A palavra “Tio” que tem origem no
português europeu e “Iauaretê” que vem da tradição tupi e significa onça verdadeira.
O caboclo (Tonico) é o resultado da miscigenação dessas duas etnias, trazendo
consigo conflitos identitários resultantes dessa união. Tonico trazia em sua genética
traços do pai português. “(...) Pai meu me levou pra o missionário. Batizou, batizou.
Nome de Tonico; bonito, será? Antonho de Eiesus...” (p.42). E da mãe indígena: (…) “A
pois, minha mãe era, ela era muito boa. Coraó não, Péua, minha mãe, gentio Tacuma
péua, muito longe daqui...” (p.42). Filho de branco e de índia, ele não se sabe nem
branco nem índio. Segundo Colobrezi (2001, p.54) “desde criança, fora rejeitado por
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todos; talvez por não conseguir adaptar-se ao modo de viver ou às atividades do
branco”.
Metamorfoseando-se em onça, Tonico desejava abolir o branco, iniciando sua
matança pelo próprio cavalo, animal que simboliza o conquistador. As onças são os
únicos elementos ainda vivos que o ligam à cultura indígena, visto que, toda a sua tribo
foi dizimada. Através da matança do homem civilizado (pretos e brancos), Tonico
deseja implantar um processo de descolonização da região, ou seja, retomar o território
antes pertencente aos índios, devolvendo-o as onças.
Em relação à personagem Maria Quirineia, o onceiro demonstra certa repulsa
quando a mesma o convida a deitar-se com ela, evidenciando com isso, traços fortes da
cultura ocidental, visto que Maria Quirineia era casada e bigamia para a cultura europeia
é crime prescrito em lei. Porém para a cultura indígena, a bigamia é natural, ou seja,
amplamente difundida em todas as tribos.
Essa tendência do onceiro para a cultura do branco revolta-o, tendo como
desfecho a morte de muitas pessoas na região, pessoas com as quais o mesmo
“identificava-se” em certos aspectos como nos sete pecados capitais, evidente nessa
passagem que retrata a gula: “Fiquei com raiva daquilo, raiva, raiva danada... Axe, axi!
Preto Bijibo gostando tando de comer, comendo de tudo bom, arado e pobre da onça
vinha vindo com fome, querendo comer preto Bijibo..." (p.50); aspectos como o gosto
pela cachaça: “Essa sua cachaça de mecê é muito boa. Queria uma medida-de-litro
dela...” (p.25); o vestir-se: “Gente pobre! Nem não têm roupa mais para vestir, não... Eh,
uns ficam nu de todo. Ixe... Eu tenho roupa, meus panos, calumbé.” (p.33); na questão
relativa a certos valores materiais. “Cê quer dar pra mim esse relógio? Ah, não pode,
não quer, tá bom... Tá bom, dei´stá! Quero relógio nenhum não. Dei´stá. Pensei que
mecê queria ser meu amigo...” (p.28); no traquejo com as armas de fogo: “Matei a tiro,
tava trepado em árvore. Sentada num galho de árvore. Ela tava lá sem pescoço.” (p. 29);
na articulação da fala. “Quando vim pra aqui, vim ficar sozinho. Sozinho é ruim, agente
fica muito judiado.” (p.32); na questão referente à moradia: “Ixe, quando eu mudar
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embora daqui, toco fogo em rancho: pra ninguém mais poder não morar. Ninguém mora
em riba do meu cheiro...” (p.27); e no preparo dos alimentos: “Mecê quer de comer?
Tem carne, tem mandioca. Eh, oh paçoca. Muita pimenta. Sal, tenho não. Tem mais
não.” (p.26).
O reflexo dessas duas culturas GR aborda ainda na cerimônia de batismo do
protagonista, tanto na tradição indígena quanto na tradição europeia, evidenciando
assim, as tradições e os costumes de ambas. Sendo que a cerimônia cristã é bem
conhecida dos ocidentais, já a indígena é pouco difundida e divulgada, sendo a última a
que o autor dá maior ênfase.
Na tradição indígena o protagonista foi nomeado por sua genitora com três
nomes: “Bacuriquirepa. Breó, Beró..." (p. 42). E pelo pai português, foi levado a um
templo católico e submetido ao ritual de batismo cristão: "Pai meu me levou pra o
missionário. Batizou, batizou. Nome de Tonico; bonito, será? Antonho de Eiesus..."
(p.42). Porém, como já foi citado acima, o maior enfoque no conto é dado pelo autor
quando o protagonista em uma luta corporal com a onça Pinima é "batizado" pela
mesma com sua baba. "Munhuaça de onça! Tinha babado em minha cabeça, cabelo meu
fedendo aquela catinga, muitos dias..." (p.36). A descrição feita pelo narrador da luta
entre os onceiros e a onça Pinima remete às batalhas entre os índios e os colonizadores,
revelando o espírito guerreiro dos índios e a desigualdade bélica existente entre ambos,
que levou ao extermínio o seu povo.
A partir do ritual de "batismo selvagem", Tonico inicia um processo de perda
de referencial humano aderindo a características animalescas, e com isso, retomando
alguns costumes indígenas, como: canibalismo, sons e gestos próximos aos utilizados
pelos animais e um estilo de moradia semelhante ao dos nômades.
2.6 VEROSSIMILHANÇA X INVEROSSIMILHANÇA
A verossimilhança presente no conto "Meu Tio o Iauaretê", fica explicita desde
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a sua classificação como sendo um grande discurso direto. Segundo Fiorin (1995, p.18),
"O discurso direto cria um efeito de sentido de 'verdade', pois o narrador parece repetir
palavra por palavra o discurso do outro. É como se a própria personagem estivesse
falando". O referido conto contém elementos que identificam o real concreto que leva à
verossimilhança, como por exemplo, a transcrição mais fidedigna possível da
manifestação oral: "- Hum? Eh - eh... É. Nhor sim, Ã - hã, quer entrar, pode entrar...
Hum, hum." (p. 25).
A linguagem subjetiva e a dialógica de GR podem contaminar a
realidade, ou seja, a verossimilhança e aproximar a obra de sua ideologia. Covizzi
(1978, p. 146) afirma que:
(...) sofisticadamente sem sentido, também provoca o assombro, mas,
o assombro que suspende os sentidos comuns, dando-nos, mais que
novo entendimento dos fenômenos, mais, novos e melhores olhos,
ouvidos, bocas, narizes, tato, enfim, uma nova sensibilidade, para
maior aproximação compreensivo-sensitiva do mundo que nos rodeia.
(COVIZZI, 1978, p. 146).
Percebe-se que o conto "Meu Tio o Iauaretê" é a expressão do indizível, do
imperceptível, do intuitivo, da inapreensão, e ainda assim, busca uma realidade que vai
além do que é expresso pelo significante e o significado. Para Filho (1986):
(...) a obra de arte literária matéria ficcional, claro está que a realidade
nela revelada não se confunde com a realidade socialmente dada. A
linguagem literária lembra Lefebve, abre-se sobre o mundo e coloca
diante dele 'uma questão que não é daquelas que podem ser
respondidas pela ciência, pela moral ou pela sociologia [...] Ela
interroga o mundo sobre sua realidade e a linguagem sobre sua
obsessão de uma adequação perfeita ao ser do mundo. Não é uma
solução, uma fuga pra fora da linguagem e do humano: ela encarna
uma nostalgia. (FILHO, 1986, p.35).
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Em contraposição à verossimilhança no referido conto, a inverossimilhança
aproxima estória da essência e do ineditismo. E ainda, constata-se que o discurso
literário com maior inovação no léxico é o que tem o menor poder de persuasão e de
convencimento como é o caso de Meu Tio o Iauaretê.
Sobre a elaboração e seleção da palavra GR, Covizzi (1978, p. 91) expõe:
(...) a receita de GR para significado aparente e significado latente na
criação é a seguinte: inverossimilhança + ineditismo + 'causo' (mesmo
que seja refinadamente expresso e tenha significado profundo), de
cuja mistura e preparo adequados surgirão a cristalização, a
solidificação de ideias, sensações. Até aqui ficção em geral. Mas, vai
mais longe, justificando a própria; tudo isso também é valido se feito
por um aletrado e hermeneuta, isto é, expressando intencionalmente
aquela verdade geral (a da significação sotoposta em todo a criação
artística), o que a própria essência da ficção de Guimarães Rosa.
(COVIZZI, 1978, p.91).
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A linguagem de GR no conto Meu Tio o Iauaretê é baseada na transgressão, na
configuração e no uso convencional da Língua. E permite ainda ao leitor uma explosão
de significados que possibilita moldar uma palavra em outra. Ele, na elaboração do
conto acabou submetendo a palavra a uma ginástica integrativa um tanto quanto forçada
do que resulta claro o malabarismo que a gerou.
Em todo o conto a relação humano x animal está presente e retrata a crise de
identidade e de valores em que se encontra o narrador: em ser branco, índio ou onça.
Como branco não aceitava os valores da cultura ocidental ou europeia, a título de
exemplo os sete pecados capitais, em que, cada uma de suas vitimas apresentavam um
pecado em evidência, ele, porém, tinha os sete. Vivia entre a ambivalência do ser/não
ser; ter/não ter, como branco trazia em si valores capitalistas, que no decorrer do conto
tornaram-se evidente. Como índio não trazia em sua gênese características tais como:
noção de partilha, simplicidade, desconhecimento de valores materiais e outros. Já
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metamorfoseado em onça apresentava, segundo a narrativa, traços característicos de sua
nova espécie, sinal de que, identificava-se muito mais com o mundo animal do que com
o mundo humano.
A narrativa flui aparentando um monólogo, mas a pontuação e a fala do onceiro
narrador denotam tratar-se de um diálogo, mesmo que seu interlocutor tenha a fala
suprimida no decorrer de todo o conto.
A verossimilhança é trabalhada por GR, a partir da ideia de que toda narrativa é
classificada como um grande discurso direto, que denota ao leitor a veracidade das
ações e dos fatos narrados. Porém, como toda obra literária é ficcional, a
inverossimilhança está presente no decorrer de todo o conto, na aproximação da estória,
da essência e do ineditismo. Sobre o assunto, Covizzi (1978) conclui:
Em síntese a ficção de Guimarães Rosa é aquela que busca
paralelamente a chave do 'espetáculo do mundo' e da ficção, pela
ficção. A busca do personagem narrador relata os enigmas na tentativa
de solucioná-los - expressá-los - através da narrativa, buscando assim,
também a solução do enigma da narrativa. (COVIZZI, 1978, p.87).
REFERÊNCIAS
BOSI, Alfredo. O Conto Brasileiro Contemporâneo. 4ªed. São Paulo: Cultrix, 1981;
CAMPOS. Haroldo de. Metalinguagem. 2ªed. Petrópolis: Vozes, 1970;
CALOBREZI. Edna Taraboli. Morte e alteridade em Estas estórias. São Paulo: Ática,
1978;
CITELLI, Adilson. Linguagem e Persuasão. 12ªed. São Paulo: Ática, 1998;
COVIZZI, Lenira Marques. O Insólito em Guimarães Rosa e Borges. São Paulo:
Ática, 1978;
FILHO, Domício Proença. A Linguagem Literária. São Paulo: Ática, 1986;
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ANAIS ELETRÔNICOS ENILL
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MEU TIO O IAUARETÊ: UMA ANÁLISE ESTRUTURAL