UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE FERNANDA QUEIROZ DA SILVA OLIVEIRA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II DO PLANO URBANO AO PROJETO URBANO São Paulo Março / 2014 2 UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE FERNANDA QUEIROZ DA SILVA OLIVEIRA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II DO PLANO URBANO AO PROJETO URBANO Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo. Orientador: Prof. Dr. Roberto Righi São Paulo Março / 2014 3 O48o Oliveira, Fernanda Queiroz da Silva Operação urbana consorciada Tietê II: do plano urbano ao projeto urbano / Fernanda Queiroz da Silva Oliveira – 2014. 280 f. : il. ; 30cm. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2014. Bibliografia: f. 271-280. 1. Projetos urbanos. 2. Planos urbanos. 3. Políticas públicas. Operação urbana consorciada Tietê II. I. Título. 4. CDD 711.4098161 4 FERNANDA QUEIROZ DA SILVA OLIVEIRA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II DO PLANO URBANO AO PROJETO URBANO Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo. Aprovada em 20/02/2014 BANCA EXAMINADORA Prof.º Dr.º Roberto Righi - Orientador Universidade Presbiteriana Mackenzie Prof.ª Dr.ª Gilda Collet Bruna Universidade Presbiteriana Mackenzie Prof.º Dr.º Bruno Roberto Padovano Universidade de São Paulo 5 Ao meu marido, Fernando, pelo constante incentivo e exemplo de dedicação; ao meu querido filho, Miguel Fernando, pela compreensão ao tempo dedicado a este trabalho; aos meus queridos pais, Geraldo e Terezinha, pela confiança e apoio na realização deste trabalho. 6 AGRADECIMENTOS Primeiramente, ao Prof.º Dr.º Roberto Righi, que pacientemente me orientou no desenvolvimento desta dissertação, compartilhando seus conhecimentos comigo e me guiando brilhantemente para a superação dos entraves inevitáveis que foram surgindo durante o percurso. Ao Prof.º Dr.º Bruno Roberto Padovano, pelo muito que me ensinou com a visão otimista e realista de meu trabalho e pelas sugestões apresentadas no momento do exame da qualificação, criando novos horizontes e perspectivas a esta dissertação. À Prof.ª Dr.ª Gilda Collet Bruna, pelos comentários e sugestões apontadas no decorrer do exame da qualificação, que em muito acresceram ao trabalho, bem como pelo incentivo e apoio na fase inicial deste trabalho, fazendo despertar o interesse pelo tema da gestão dos territórios. Ao Prof.º Luiz Guilherme Rivera de Castro que me incentivou a entrar no mundo acadêmico ainda na época da graduação, por suas pesquisas na área de urbanismo relativas á Operações Urbanas. Aos professores Dr.ª Nadia Somekh e Dr.º Abilio da Silva Guerra Neto, pelos ensinamentos e pelas colaborações e sugestões brilhantes na fase inicial deste trabalho, colaborando para a definição do tema. Ao Prof.º Dr.º José Geraldo Simões Junior pelo apoio e sugestões na fase inicial deste trabalho. Aos demais professores e funcionários da Pós Graduação Mackenzie, pelo incentivo á realização deste trabalho. Ao meu marido, Fernando Baleira Leão de Oliveira Queiroz, que sempre acreditou no meu potencial e me incentivou a iniciar esta jornada, principalmente pela confiança e apoio nas revisões dos textos, a quem dedico este trabalho. Meus especiais agradecimentos aos meus pais, Geraldo Queiroz da Silva e Terezinha Bomfim de Oliveira Silva, que sempre me apoiaram e acreditaram no meu trabalho. Destaco também a contribuição pouco convencional de minha mãe com sua ajuda na procura por fontes primárias, possível a partir de seus conhecimentos e amizades em Osasco, a quem dedico este trabalho. 7 Ao meu querido Miguel Fernando Baleira Leão de Oliveira Queiroz, que sempre me motivou a nunca desistir dos meus sonhos, razão de todas as minhas ações, a quem dedico especialmente este trabalho. E a todos os amigos e familiares que me apoiaram, me incentivaram e me disseram palavras de estímulo. 8 “As sociedades humanas e grupos menores podem tomar decisões desastrosas por uma série de motivos: incapacidade de prever um problema, incapacidade de percebê-lo assim que um problema se manifesta, incapacidade de tentar resolvê-lo após ter sido identificado e incapacidade de ser bemsucedido nas tentativas de solucioná-lo.” (Jared Diamond, 2005, p.523) 9 RESUMO Esta dissertação enfoca projetos urbanos e políticas públicas aplicadas à gestão urbana frente ao projeto da Operação Urbana Consorciada Tietê II, elaborada pelo escritório de Hector Vigliecca. Ele parte do conceito da integração do plano ao projeto urbano, desde sua formulação em 2008. Vigliecca parte do projeto urbano para conceber o plano urbano, diferente da lógica usual do desenvolvimento de projetos urbanos. Eles são normalmente pautados em índices urbanísticos e lógicas do mercado de consumo, como o zoneamento. Na OUCT II se desenvolve um projeto urbano com arquitetura para a região central do município. Esta região é em sua grande parte subutilizada devido à desindustrialização, a partir do projeto, cria-se o plano urbano, expresso no projeto de lei da OUCT II. A gênese da Operação Urbana parte da “hipótese do real” que não se enquadra nem nos princípios modernistas e nem nos defendidos por Ascher (2010). As características modernistas podem ser observadas com mais clareza no seu desenho urbano. O diagnóstico feito por este trabalho é realizado também à luz de experiências consideradas paradigmáticas a nível internacional, como o Plano Urbano da Expo’98, em Lisboa; o Parque Linear Rio Manzanares, em Madri e; Porto Madero, em Buenos Aires; em um método comparativo que busca a instrumentação, as dificuldades e os procedimentos adotados por estas experiências. Palavras Chaves: Projetos Urbanos, Planos Urbanos, Políticas Públicas, Operação Urbana Consorciada Tietê II. 10 ABSTRACT This dissertation focuses on urban projects and public policies applied to the urban management front of the Urban Operation Tietê II project, prepared by the office of Hector Vigliecca. He begins with the concept of the integration of the urban design plan, since its formulation 2008. Vigliecca part of urban design to urban design plan, different from the usual logic of urban development projects. They are usually lined in urban and logical indices of the consumer market, such as zoning. In OUCT II develops an urban design with architecture for the central city. This region is in a large part underutilized due to deindustrialization, from the project, it creates the urban plan expressed in the bill of OUCT II. The genesis of Urban Operation part of a "real possibility" that does not fit or the modernist principles nor defended us by Ascher (2010). Modernist characteristics can be seen more clearly in its urban design. The diagnosis made by this work is also done in the light of experiences considered paradigmatic internationally as the Urban Plan of Expo 98, Lisbon, the Linear Park Manzanares River in Madrid and, Puerto Madero in Buenos Aires , in a comparative method that seeks instrumentation, difficulties and procedures adopted by these experiences. KEYWORDS: Urban Design, Urban Plans, Public Policy, Urban Operation Tietê II. 11 Sumário LISTA DE TABELAS ......................................................................................................................... 17 INTRODUÇÃO ....................................................................................................................................... 18 1. PROJETO URBANO E GESTÃO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS URBANAS ................................................. 24 1.1. O PROJETO URBANO NA CIDADE ORIENTADO PELO CONSUMO ............................................... 24 A DESINDUSTRIALIZAÇÃO E AS MUDANÇAS DE PARADIGMA NO URBANISMO ........................... 31 O INÍCIO DOS PROJETOS URBANOS NA EUROPA .......................................................................... 38 1.2. CONSTRUÍNDO CIDADES POR MEIO DE ÍNDICES ....................................................................... 43 1.3. FRENTES AQUÁTICAS E OS PROJETOS URBANOS....................................................................... 46 1.4. MULTIFUNCIONALIDADE E UNIFUNCIONALIDADE NOS PROJETOS URBANOS .......................... 63 1.5. A PÓS-MODERNIDADE, OS PROJETOS URBANOS E AS ORIGENS DA CIDADE ORIENTADA PELO CONSUMO ........................................................................................................................................ 71 1.6. EXPO’98, LISBOA ....................................................................................................................... 75 AS EXPOSIÇÕES INTERNACIONAIS QUE PRECEDEM A EXPO’98 .................................................... 77 AS DIVERGÊNCIAS NAS PRIMEIRAS FORMULAÇÕES DO PROJETO URBANO DA EXPO’98............. 79 POLÍTICAS PÚBLICAS E GESTÃO DA EXPO’98 – A GRANDE EXPERIÊNCIA PÚBLICO PRIVADA ....... 83 O LEGADO PÓS-EXPO’98 .............................................................................................................. 88 1.7. PORTO MADERO, BUENOS AIRES ............................................................................................. 93 O PAPEL E HISTÓRIA DO PORTO EM BUENOS AIRES .................................................................... 94 O CONCURSO NACIONAL DE IDÉIAS E AS PRIMEIRAS FORMULAÇÕES ......................................... 99 POLÍTICAS PÚBLICAS E GESTÃO – A GRANDE EXPERIÊNCIA PRIVADA ........................................ 101 ANÁLISE DO PLANO DE PORTO MADERO ................................................................................... 102 O LEGADO DE PORTO MADERO E A CONVIVÊNCIA ENTRE O PASSADO E O PRESENTE .............. 104 1.8. PARQUE RIO MANZANARES, MADRI....................................................................................... 108 MADRI E SUA HISTÓRIA COM O RIO MANZANARES ................................................................... 109 CONCURSO INTERNACIONAL DE IDÉIAS E SUAS PRIMEIRAS FORMULAÇÕES ............................. 112 POLÍTICAS PÚBLICAS E GESTÃO – A GRANDE EXPERIÊNCIA PÚBLICA ......................................... 115 12 O PLANO DO PARQUE LINEAR DO RIO MANZANARES ................................................................ 115 O LEGADO DO PARQUE LINEAR DO RIO MANZANARES E A RECUPERAÇÃO DE UM RIO URBANO ................................................................................................................................................... 117 2. INSTRUMENTO URBANÍSTICO: OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II ................................ 118 2.1. A LEI DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA NO DESENVOLVIMENTO URBANO .................. 118 2.2. O CASO DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II ........................................................ 121 ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO MUNICÍPIO DE OSASCO .......................................................... 123 TERRITÓRIO E LIMITES MUNICIPAIS ........................................................................................... 128 A POLÍTICA PÚBLICA METROPOLITANA E O MUNICÍPIO DE OSASCO ......................................... 132 REFLEXÕES SOBRE O PLANO DIRETOR MUNICIPAL E O ZONEAMENTO DE OSASCO .................. 136 POLÍTICAS PÚBLICAS E GESTÃO 2005-2013 ................................................................................ 147 OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ I............................................................................... 155 OPERAÇÕES URBANAS COMO INSTRUMENTO NO MUNICÍPIO DE OSASCO .............................. 160 ANÁLISE ATUAL DA ÁREA DE INTERVENÇÃO DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II .. 161 O ARQUITETO E AS PRIMEIRAS FORMULAÇÕES ......................................................................... 169 3. DO PLANO URBANO AO PROJETO URBANO DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II ....... 183 3.1. DO PROJETO URBANO AO PLANO DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ OSASCO II . 183 CONCEITOS E OBJETIVOS DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II ............................... 183 ANÁLISE FOTOGRÁFICA DA ÁREA DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II ................... 186 PROPOSTAS E DIRETRIZES DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II .............................. 205 DIRETRIZES DE USO E OCUPAÇÃO DO SOLO ............................................................................... 217 ESTRATÉGIAS DA OPERAÇÃO URBANA ....................................................................................... 224 INTERVENÇÃO URBANA ............................................................................................................. 228 PARTICIPAÇÃO PÚBLICA E PRIVADA (PPP) .................................................................................. 230 GESTÃO DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II .......................................................... 232 GÊNESE DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II........................................................... 233 ANÁLISE DO PROJETO URBANO DA OPERAÇÃO CONSORCIADA TIETÊ II .................................... 234 EXPECTATIVAS E DISCUSSÕES .................................................................................................... 262 13 CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................................................... 266 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................................................................... 271 14 LISTA DE ILUSTRAÇÕES FIGURA 1 RECONFIGURAÇÃO DE BILBAO, MUSEU GUGGENHEIM, ÂNCORA DO PROJETO URBANO. ..................27 FIGURA 2 PANORAMA DA EVOLUÇÃO URBANA NO ESTADO DE SÃO PAULO DE 1940 Á 2000. ...........................33 FIGURA 3 ESQUEMA REFERENTE AO PROCESSO DE OCUPAÇÃO DA CIDADE DE SÃO PAULO. .............................37 FIGURA 4 PARTICIPAÇÃO DA INDÚSTRIA NO PIB NACIONAL. .............................................................................38 FIGURA 5 IMAGEM DO CENTRO CULTURAL DE BELÉM.......................................................................................39 FIGURA 6 PROPOSTA DO HIDROANEL EM SÃO PAULO, DE DELIJAICOV. .............................................................51 FIGURA 7 IMAGEM DO PARQUE ANDRÉ-CITROEN, EM PARIS, Á DIREITA; Á ESQUERDA, LINHA VERMELHA DEMARCA O EIXO DA RUA BALARD. ..........................................................................................................53 FIGURA 8 1) IMAGEM DO TRAÇADO DO PARQUE LA VILLETE COM OS PONTOS VERMELHOS REPRESENTANDO AS “FOLIES” OU OS ACONTECIMENTOS; 2) UMA VISTA DO PARQUE. ........................................................54 FIGURA 9 IMAGENS REFERENTES À RECUPERAÇÃO DO CÓRREGO CHEONGGYECHEON: 1. FOTO ATUAL; 2. ESQUEMA QUE MOSTRA A ESTRUTURA ANTES DA REVITALIZAÇÃO; 3. ESQUEMA QUE REVELA AS MODIFICAÇÕES APÓS A REVITALIZAÇÃO; 4. USO DA ÁREA. .......................................................................57 FIGURA 10 RECUPERAÇÃO DO RIO PIRACICABA. ................................................................................................59 FIGURA 11 IMAGENS DO ANTES E DEPOIS DA RECUPERAÇÃO DO CÓRREGO PIRARUNGÁUA, NO JARDIM BOTÂNICO DE SÃO PAULO: A) ANTIGA ALAMEDA FERNANDO COSTA; B) CÓRREGO JÁ RECUPERADO. ......60 FIGURA 12 IMAGENS DO RIO SOROCABA: A) ANTES; B) DEPOIS DA REVITALIZAÇÃO. .........................................60 FIGURA 13 A) VISTA DO TÉRMINO DO CALÇADÃO DA RUA ANTONIO AGÚ COM A ESTAÇÃO OSASCO; B) VISTA DO CALÇADÃO DA RUA ANTONIO AGÚ JÁ REVITALIZADO PELA OPERAÇÃO RENOVA CENTRO. .................67 FIGURA 14 VISTA DO ESPAÇO DA EXPO A PARTIR DO SHOPPING VASCO DA GAMA, ONDE SE PODE OBSERVAR Á ESQUERDA A VIA DE AUTOMÓVEIS QUE POSSUIU UMA SINGELA RELAÇÃO COM OS PEDESTRES..............67 FIGURA 155 ÁREA DA EXPO’98, IMAGEM RETIRADA A PARTIR DO SHOPPING VASCO DA GAMA. ......................76 FIGURA 167 IMAGENS QUE DEMONSTRAM O USO OBSOLETO DA ÁREA DE ANTES DA REQUALIFICAÇÃO. ........79 FIGURA 173 IMAGENS DAS NOVAS EDIFICAÇÕES HABITACIONAIS CRIADAS PARA ABRIGAR AS EQUIPES E A IMPRENSA NA EXPOSIÇÃO INTERNACIONAL QUE FORAM VENDIDAS, AINDA NA ÉPOCA DA IMPLANTAÇÃO, PARA USO POSTERIOR PARA HABITAÇÃO DE CLASSE ALTA. .............................................89 FIGURA 184 IMAGENS DA ARQUITETURA DO ESPETÁCULO UTILIZADA PELAS GRANDES EMPRESAS QUE SE INSTALARAM NA REGIÃO. .........................................................................................................................90 FIGURA 196 DETALHES DO MOBILIÁRIO URBANO E PAVIMENTAÇÃO NAS MAIS DIVERSAS ÁREAS DA EXPO’98: A) SETOR 3, ESPAÇOS DE PERMANÊNCIA EM ÁREA HABITACIONAL; B) SETOR 2, ESPAÇO DE TRANSIÇÃO COM ELEMENTOS EM MADEIRA COM QUEBRA-SOL; C) SETOR 2, MOBILIÁRIO URBANO EM MADEIRA, COM BRISE; D E E) SETOR 2, MOBILIÁRIO URBANO EM CONCRETO E SOMBRA DAS ÁRVORES NA FRENTE AQUÁTICA; F) SETOR 2, ESPAÇO DE EVENTOS; G) SETOR 2, PAISAGEM URBANA QUE VIRA MOBILIÁRIO URBANO....................................................................................................................................................91 FIGURA 2920 IMAGENS DOS ESPAÇOS PÚBLICOS E ESPAÇOS RESIDUAIS. ..........................................................92 FIGURA 210 IMAGEM QUE EVIDENCIA O ESPAÇO CRIADO DA EXPO’98 DO ESPAÇO EXISTENTE, O BAIRRO DE MOSCAVIDE À DIREITA, LOCAL PARA ONDE SE ALOJARAM A MAIORIA DA POPULAÇÃO QUE VIVIA NO PERÍMETRO DA EXPO’98, CORTADOS PELA LINHA FÉRREA, AO FUNDO A GARE DO ORIENTE. ...................93 FIGURA 222 PORTO MADERO E SUAS ANTIGAS ESTRUTURAS DO PORTO CONVIVENDO COM A REVITALIZAÇÃO. .................................................................................................................................................................94 FIGURA 3423 OBRAS NO DIQUE 2 EM 1890. ......................................................................................................95 FIGURA 3724 IMAGEM DA ÁREA DE PORTO MADERO ABANDONADA. ..............................................................97 FIGURA 3925 FOTO AÉREA DA ÁREA DE PORTO MADERO. ................................................................................99 FIGURA 261 IMAGEM DO PERÍODO DE OBRAS.................................................................................................101 15 FIGURA 4627 IMAGENS DO ESPAÇO PÚBLICO GERADO NA MARGEM SUL DOS DIQUES, EVIDENCIANDO AS SUTILEZAS NOS ESPAÇOS DE PEDESTRES, COMO A SEPARAÇÃO DO CAMINHO DE PEDESTRES COM O DOS AUTOMÓVEIS. .........................................................................................................................................106 FIGURA 4828 SEQUENCIA DE IMAGENS QUE DEMONSTRAM A RECONVERSÃO DOS EDIFÍCIOS HISTÓRICOS NA MARGEM SUL DOS DIQUES PARA USOS COMERCIAIS COM RESTAURANTES E GRANDES MARCAS. .........106 FIGURA 291 IMAGEM PANORÂMICA A PARTIR DA PONTE DA MULHER, DE CALATRAVA, PARA AS DUAS MARGENS DOS DIQUES. ..........................................................................................................................107 FIGURA 30 NO DIQUE 4: A) À ESQUERDA IMAGEM DA ENTRADA DO RIO DA PRATA NOS DIQUES ARTIFICIAIS; B) À DIREITA IMAGEM DA MARINA CRIADA.................................................................................................108 FIGURA 313 PARQUE LINEAR DO RIO MANZANARES: A) ANTES DA REVITALIZAÇÃO E; B) DEPOIS DA REVITALIZAÇÃO. ......................................................................................................................................108 FIGURA 325 GRÁFICO COM A EVOLUÇÃO DEMOGRÁFICA DA CIDADE DE MADRI DESDE 1842 Á 2011. ............110 FIGURA 5633 MAPA DA CIDADE DE MADRI, EM 1857, EM AZUL O PERCURSO DO RIO MANZANARES. ............111 FIGURA 5834 IMAGEM DA ÉPOCA DA CONSTRUÇÃO EM 2007. .......................................................................113 FIGURA 350 VISTAS DO PARQUE LINEAR DO RIO MANZANARES NO TRECHO 1, JÁ EXECUTADO, COMO UM PARQUE URBANO, UTILIZAÇÃO DA ESTRUTURA DA PONTE COMO PARQUE. ..........................................113 FIGURA 362 IMAGEM DO SISTEMA UTILIZADO PARA ENTERRAR A M-30, COM O PARQUE EM CIMA. .............116 FIGURA 373 LINHA CRONOLÓGICA DE INSERÇÃO DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II NO CONTEXTO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS. .......................................................................................................................121 FIGURA 6438 ÁREA DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II ANTES DO INÍCIO DAS INTERVENÇÕES. .. 122 FIGURA 391 ESTAÇÃO DE OSASCO: A) NO INÍCIO DE SUAS OPERAÇÕES EM 1934 E; B) EM 1966, RESPECTIVAMENTE. ................................................................................................................................127 FIGURAS 402 A) ESTAÇÃO OSASCO, ANTES DA REQUALIFICAÇÃO PROMOVIDA PELA OPERAÇÃO URBANA EM INTEGRAÇÃO COM PROJETO DE REQUALIFICAÇÃO DO CENTRO E; B) LARGO DE OSASCO, ANTES DA REQUALIFICAÇÃO PROMOVIDA PELA OPERAÇÃO URBANA EM INTEGRAÇÃO COM PROJETO DE REQUALIFICAÇÃO DO CENTRO, RESPECTIVAMENTE. ...............................................................................128 FIGURA 413 MAPA INSERÇÃO DO MUNICÍPIO NA RMSP. .................................................................................129 FIGURA 421 PROJETO DE INTERVENÇÃO DA ÁREA DO BRAÇO MORTO DO RIO TIETÊ, NO JARDIM ROCHDALLE, ZONA NORTE. ..........................................................................................................................................149 FIGURA 433 TRECHO DO MAPA COM IDENTIFICAÇÃO DAS OPERAÇÕES URBANAS CONSORCIADAS MUNICIPAIS EM AMARELO: A) PROJETO PAIVA RAMOS; B) PROJETO TIETÊ; C) PROJETO BONFIM. EM VERMELHO, AS ÁREAS SUJEITAS À REQUALIFICAÇÃO NO MUNICÍPIO, EM ÁREA DO ENTORNO DO RIO TIETÊ. .................151 FIGURA 443 MAPA DO USO DE SOLO DO PERÍMETRO DA OUCT II. .................................................................. 165 FIGURA 9745 MAPA DEFICIÊNCIAS DA ÁREA DA OUCT II..................................................................................168 FIGURA 9846 Á ESQUERDA E FIGURA 99 Á DIREITA. Á ESQUERDA, BANCO CENTRAL DO COMÉRCIO EM JAÚ; Á DIREITA, PROJETO VENCEDOR DO CONCURSO EM SALVADOR. ...............................................................171 FIGURA 471 IMAGENS DO SESC NOVA IGUAÇU, NO RIO DE JANEIRO, PROJETO DE HECTOR VIGLIECCA COM BRUNO PADOVANO. ...............................................................................................................................172 FIGURA 482 IMAGEM PROJETO COLINAS D’OESTE, HABITAÇÃO SOCIAL EM OSASCO, DE VIGLIECCA. ..............173 FIGURA 493 O ARQUITETO EM SEU ESCRITÓRIO EM SÃO PAULO. .................................................................... 180 FIGURA 5006 LEVANTAMENTO FOTOGRÁFICO SETOR 05 DA OUCT II. .............................................................187 FIGURA 5107 LEVANTAMENTO FOTOGRÁFICO SETOR 06 DA OUCT II. .............................................................188 FIGURA 5209 LEVANTAMENTO FOTOGRÁFICO SETOR 06 DA OUCT II. .............................................................190 FIGURA 5318 LEVANTAMENTO FOTOGRÁFICO SETOR 04 DA OUCT II. .............................................................198 FIGURA 5419 LEVANTAMENTO FOTOGRÁFICO SETOR 04 DA OUCT II. .............................................................199 FIGURA 550 LEVANTAMENTO FOTOGRÁFICO SETOR 01 DA OUCT II. ...............................................................199 FIGURA 5621 LEVANTAMENTO FOTOGRÁFICO SETOR 01 DA OUCT II. .............................................................200 FIGURA 5730 SETOR 2 – CASTELO BRANCO: ONDE SERÃO PRIORIZADAS OCUPAÇÕES NÃO RESIDENCIAIS, INSTALANDO UM NOVO POLO DE COMÉRCIO E SERVIÇOS REGIONAL. ....................................................207 16 FIGURA 5832 SETOR 4 – VILA HERVY: ÁREA ONDE SERÁ PRIORIZADA A OCUPAÇÃO ORDENADA DO TERRITÓRIO E A MANUTENÇÃO DA VOLUMETRIA ATUAL. ..........................................................................................210 FIGURA 5933 SETOR 5 – ZEIS: ÁREAS DESTINADAS À IMPLANTAÇÃO DE HIS. ...................................................211 FIGURA 6036 MAPA REALIZADO POR VIGLIECCA & ASSOCIADOS REFERENTE À OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II, EM OSASCO: PERÍMETRO E SETORES DE INTERVENÇÃO..................................... 216 FIGURA 6140 MAPA QUE APONTA AS PRINCIPAIS INTERVENÇÕES EM NEGOCIAÇÃO OU ANDAMENTO NA ÁREA DA OUCT II. .............................................................................................................................................227 FIGURA 621 ESQUEMA DE SITUAÇÃO ATUAL E PROJETO URBANO ESPERADO PARA O GERAL DO SETOR 1. .... 235 FIGURA 6346 PROPOSTA DA OUCT II QUE SEPARA A ÁREA POR SETORES UNIFUNCIONAIS. ............................243 FIGURA 14864 CORTES ESQUEMÁTICOS COM A DISPOSIÇÃO DOS USOS SEGREGADOS E A CRIAÇÃO DE NOVOS PERCURSOS. ............................................................................................................................................246 FIGURA 651 MAPA DA DENSIDADE DEMOGRÁFICA DA ÁREA DA OPERAÇÃO URBANA EM COMPARAÇÃO COM BAIRROS VIZINHOS EM OSASCO. .............................................................................................................251 FIGURA 6652 MAPA QUE EVIDENCIA OS INVESTIMENTOS PÚBLICOS E PRIVADOS NA ÁREA DE BORDA DA OUCT II, COM REPORTAGENS SOBRE OS NOVOS EMPREENDIMENTOS. ............................................................265 17 LISTA DE TABELAS TABELA 1 TAXAS DE APROVEITAMENTO, OCUPAÇÃO E USO DO SOLO PARA O SETOR 1 DA OUCT II TABELA 2 TAXAS DE APROVEITAMENTO, OCUPAÇÃO E USO DO SOLO PARA O SETOR 2 DA OUCT II TABELA 3 TAXAS DE APROVEITAMENTO, OCUPAÇÃO E USO DO SOLO PARA O SETOR 3 DA OUCT II TABELA 4 TAXAS DE APROVEITAMENTO, OCUPAÇÃO E USO DO SOLO PARA O SETOR 4 DA OUCT II TABELA 5 TAXAS DE APROVEITAMENTO, OCUPAÇÃO E USO DO SOLO PARA O SETOR 5 DA OUCT II TABELA 6 TAXAS DE APROVEITAMENTO, OCUPAÇÃO E USO DO SOLO PARA O SETOR 5 DA OUCT II TABELA 7 COEFICIENTE DE APROVEITAMENTO MÁXIMO DOS SETORES INTEGRANTES DA OUCT II TABELA 8 TOTAL DE ESTOQUE REGULADOR DE POTENCIAL ADICIONAL DE CONSTRUÇÃO POR SETOR INTEGRANTE DA OUCTO II TABELA 9 QUADRO ANALÍTICO DA OUCT II BASEADO NO LEED-ND: TABELA 10 QUADRO COMPARATIVO REFERENTE A DADOS GERAIS E CONCEITUAIS 206 208 209 210 212 214 220 221 249 257 TABELA 11 QUADRO COMPARATIVO TEMÁTICO: FRENTES AQUÁTICAS 259 TABELA 12 QUADRO COMPARATIVO TEMÁTICO: PÓS-MODERNIDADE, PROJETOS URBANOS E ORIGEM DA CIDADE ORIENTADA PELO CONSUMO 260 18 INTRODUÇÃO O objeto de pesquisa desta dissertação é a Operação Urbana Consorciada Tietê II, em Osasco, situada em uma região de várzea do rio Tietê, tendo-o como elemento integrador do projeto urbano. A área sofreu com o processo de desindustrialização e se encontra anexa ao centro da cidade, cercada de infraestrutura, bem localizada entre os principais acessos viários intermunicipais e rodoviários, como as marginais do rio Tietê e do rio Pinheiros, a Rodovia Castelo Branco e o Rodoanel Mário Covas. É segregado do restante do município pelas barreiras da linha férrea, na margem sul e pela rodovia Castelo Branco, na margem norte. Seu legado é um território fragmentado, subutilizado, com o meio ambiente degradado, podendo ser caracterizado como um ambiente de desertificação urbana. O objeto de pesquisa é fruto de uma Carta Convite realizado pela Prefeitura do Município de Osasco a alguns escritórios de arquitetura e urbanismo, onde venceu a concorrência o escritório do arquiteto uruguaio Hector Vigliecca. Investiga-se neste trabalho o processo de gênese desta Operação Urbana Consorciada, suas principais características, suas implicações e impactos no município. A Operação Urbana Consorciada Tietê II é um exemplo próximo de utilização do instrumento da Operação Urbana Consorciada na realidade brasileira de modo que o acompanhamento do seu desenvolvimento e aplicação é muito relevante. Tem-se observado nos últimos tempos a proliferação da utilização deste instrumento nos municípios que possuem Plano Diretor, entretanto se observa que o mesmo é utilizado para requalificar áreas degradadas, principalmente centrais, mas não se utiliza de instrumentos apropriados de análise do mercado imobiliário, colocando expectativa sobre áreas que não conseguem obter recursos para se desenvolver. O objeto de estudo sofre com este processo, pois até o momento pouco ou quase nada de concreto foi realizado, apenas algumas sondagens sobre parcerias entre órgãos como o DAEE e a Eletropaulo, sob Contrapartidas. O município não dispõe de recursos para alavancar a Operação Urbana, entretanto aposta na região e pretende transpor para um dos setores criados o novo Paço Municipal também por meio de Contrapartidas, em uma área considerada como âncora do projeto urbano, 19 no principal ponto de ligação da área com o centro do município, pelo edifício ponte da Estação Osasco, já remodelado em parceria com a CPTM. O principal objetivo desta Operação Urbana é recuperar a imensa área degradada e integrar as margens norte e sul do Rio Tietê, melhorar as conexões viárias e se utilizar do rio como um elemento integrador da paisagem urbana, prevendo a recuperação de suas águas, uma grande faixa de preservação na margem norte utilizada como parque linear e tornando-o navegável. O processo de gênese desta dissertação possui características diferentes da lógica usual de desenvolvimento do planejamento urbano que são normalmente pautados por índices urbanísticos e separação por funções, como o zoneamento. O processo tradicional de levantamento, diagnóstico, programa, diretrizes e projeto são invertidos e modificados. De acordo com Vigliecca não se segue um raciocínio linear, parte-se primeiramente de uma hipótese ou de uma realidade observada e uma realidade a qual se deseja chegar, traça-se as diretrizes para alcançar os objetivos elencados, trabalha-se o projeto urbano e em seguida se valida esta hipótese. Não se leva em conta o diagnóstico e o levantamento prévio, desta forma também se esquece do potencial de vocação do solo. Não se discute neste momento a eficácia do projeto urbano e da minuta de lei resultante. O projeto possui características positivas e pontos conflitantes que serão tratados no decorrer deste trabalho. O que se observa é a tentativa ousada do arquiteto de fugir dos princípios do urbanismo moderno que é utilizado até hoje no processo de planejamento urbano brasileiro. Entretanto devem-se analisar suas possibilidades de trabalho que são amarradas pelo cenário político e social, podendo caracterizar como uma adaptação do profissional a uma realidade complexa onde não há políticas urbanas em longo prazo, mudando de acordo com as necessidades, o contexto e as conjunturas. O recorte temporal é o período compreendido desde a formulação desta Operação Urbana em 2008, passando por sua aprovação em 2010, até o período atual. A pesquisa se enquadra no período contemporâneo e pode ser contextualizada a partir de 1985 com o primeiro Plano Diretor da Cidade de São Paulo que dava base para o instrumento das Operações Urbanas, implantadas em 20 1988, com a Operação Urbana Anhangabaú, de autoria de Clementina D’Ambrosis, Roberto Righi e Domingos. O objetivo geral desta dissertação é compreender o processo de implantação de uma Operação Urbana Consorciada em uma realidade periférica na RMSP, compreendendo o seu processo de gênese, implantação e gestão. Busca-se responder a principal questão levantada por esta dissertação: como partir de um plano urbano para um projeto urbano? Ou seja, como partir de um plano pautado em índices e zoneamentos completamente abstratos para um projeto urbano detalhado, em três dimensões. O objetivo específico desta dissertação é analisar a Operação Urbana Consorciada Tietê II, sua gênese, implantação e gestão a partir do processo de planejamento urbano tradicional, pelo instrumento do LEED-ND e por quadros comparativos tecidos à luz de referências internacionais paradigmáticas elencadas. A metodologia aplicada se baseia na utilização de dados primários documentais e estatísticos, referências bibliográficas acerca dos projetos urbanos e políticas públicas, bem como estudos de caso de referencias de projetos urbanos que requalificaram frentes aquáticas de diferentes contextos culturais, econômicos e sociais. Passa pelo levantamento in loco fotográfico e produção de mapas para estudo dos sistemas urbanos atuais do município, bem como a análise de mapas, do projeto urbano e da minuta de lei da OUCT II. Entrevistas com o autor do projeto urbano e com os responsáveis pela aprovação, desenvolvimento e gestão do mesmo no poder público. O trabalho é dividido em três capítulos. O primeiro aborda questões relativas aos projetos urbanos e políticas públicas, principalmente relativas às frentes aquáticas, onde se inserem os estudos de casos, se apoiando na hipótese lançada por Ascher (2010) acerca dos novos princípios do urbanismo relativos aos problemas deixados pelo urbanismo moderno com sua fragmentação do tecido urbano e a gestão de cima para baixo, questionando o papel do Estado, já apontados por Gruen (1973) acerca da utilização de instrumentos tridimensionais e da multifuncionalidade do solo. O segundo se foca no instrumento das Operações Urbanas Consorciadas, especificamente a OUCT II e seus antecedentes, suas políticas públicas e gestão, bem como tece uma análise atual da área de intervenção e aborda as primeiras 21 formulações do arquiteto até chegar ao próximo capítulo onde se aborda e analisa o objeto de estudo. Buscando a melhoria no processo de reflexão e comparação entre os princípios teóricos e as três experiências urbanas escolhidas optou-se por agregar os dois assuntos em um único capítulo, logo no início, apesar dos mesmos terem permanecidos separados até a versão final desta dissertação. No primeiro capítulo Projeto Urbano e Gestão das Políticas Urbanas o leitor encontra o referencial teórico que baseia as análises do objeto de estudo. Primeiramente enfoca-se o papel dos grandes projetos urbanos a nível internacional e no Brasil, buscando responder questões relativas à manutenção dos planos diante de diferentes gestões municipais e ao longo processo de maturação e implantação dos mesmos, bem como o modelo de cidade gerado pelas cidades orientadas pelo consumo, um dos problemas da contemporaneidade da globalização e do capital, assim como a desindustrialização. Trazidos para o contexto da globalização periférica a qual o Brasil se encontra este processo de espetacularização das cidades é abordado. Segue-se com uma abordagem relativa às políticas públicas e o processo de planejamento urbano baseado em índices e parâmetros. Aborda ainda os projetos urbanos voltados para as frentes aquáticas, das quais podem se enquadrar a OUCT II e os três estudos de caso, a Expo’98, o Parque Linear do Rio Manzanares e Porto Madero, que são abordados neste capítulo como exemplos de sucesso já implantados por completo, trazendo suas características dentro de seu contexto, as dificuldades encontradas no desenvolvimento e implantação, suas relações público-privadas e o seu legado, utilizado para tecer um quadro comparativo no capítulo 3. Enfoca ainda as características relativas à unifuncionalidade e à multifuncionalidade dos centros urbanos e as suas implicações nos projetos de requalificação ou renovação urbana. Por fim aborda as características da pós-modernidade, principalmente defendidas por Harvey (2011) no desenvolvimento das cidades que representam a cidade produzida por imagens, mas que tenta resgatar o desenho urbano, suas características históricas e a vida da cidade. No segundo capítulo Instrumento urbanístico: Operação Urbana Consorciada Tietê II enfoca as características e o funcionamento do instrumento da Operação 22 Urbana Consorciada no país, as aplicações do Estatuto da Cidade, o instrumento de Contrapartida, a Outorga Onerosa pelos CEPACs, bem como os problemas decorrentes de sua implantação. Em seguida focam-se a OUCT II com suas principais características, os antecedentes históricos do município de Osasco, as principais políticas metropolitanas que possam influenciar o objeto de estudo. Reflete-se sobre o Plano Diretor Municipal vigente de 2004 e relatam-se as propostas do Plano Diretor Estratégico, ainda não aprovado, observando as condições que propiciaram a implantação da Operação Urbana, já definindo a área para uma requalificação urbana. Aborda-se as políticas públicas da gestão entre 2005 e 2013, período compreendido entre a elaboração do plano, sua aprovação e início da implantação, gestão que se manteve sobre a mesma legenda política, o que assegurou a sua continuidade até o momento. Aborda ainda a Operação Urbana Consorciada Tietê I de 2008, também prevista nas diretrizes do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano vigente, revisada em 2013, que estabelece diretrizes semelhantes à OUCT II, situando-se oeste desta. Descreve-se sobre os efeitos da implantação de uma Operação Urbana no município e se analisa graficamente por meio de mapas que são produzidos a partir de visitas in loco e revelam as principais características de uso de solo, malha viária, infraestrutura e conexões, número de pavimentos, estado de conservação e zoneamento da área de intervenção, assim como as potencialidades e deficiências do território observadas e esquematizadas. Finalizando com as primeiras formulações do arquiteto Vigliecca e os seus ideais e processo de planejamento. O terceiro capítulo Do Plano Urbano ao Projeto Urbano da Operação Urbana Consorciada Tietê II que explica a Operação Urbana como um todo e aborda os principais conceitos e objetivos, identifica o projeto urbano proposto e os seus sete setores, o que caracteriza a unifuncionalidade do território, segregando-o em sete funções distintas, tendo como integração apenas o parque da orla do rio Tietê. Fazse uma análise fotográfica da situação atual das áreas dos sete setores propostos para identificar os caminhos a serem percorridos, que evidencia uma área de potencial, mas completamente degradada. Aborda-se as propostas e diretrizes para a área, os índices propostos, resultantes da minuta de lei da OUCT II, que foram baseados no projeto urbano, tridimensional, que não foi incorporado pela minuta de 23 lei, bem como as diretrizes de uso e ocupação do solo, as estratégias de intervenção e a participação pública e privada. O capítulo enfoca ainda a participação pública e privada e as dificuldades de implantação devido à falta de recursos disponíveis. Com relação à gestão aponta a utilização de uma entidade que faz o acompanhamento e gerenciamento do plano, entretanto como é relatado nesta dissertação, o funcionamento deste grupo de gestão pode ser questionado devido ao baixíssimo número de reuniões que ocorreram até o momento e a falta de disponibilização de informações. Por fim analisa-se a gênese da Operação Urbana, o seu projeto urbano e as principais expectativas e discussões. 24 1. PROJETO URBANO E GESTÃO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS URBANAS 1.1. O PROJETO URBANO NA CIDADE ORIENTADO PELO CONSUMO Aqui se discute os princípios do urbanismo e suas transformações no decorrer do tempo desde os primeiros grandes projetos urbanos, da década de 70, que nortearam os processos de urbanização e formaram as grandes cidades. Levantamse questões que tentarão ser respondidas no desenvolvimento da dissertação: Como os índices urbanísticos e os planos urbanos foram gerados pela cidade orientada pelo consumo? Como o desenvolvimento urbano é instituído em função da sociedade de classes? O tema principal a ser discutido aqui são os projetos urbanos e as intervenções urbanas, com base nos principais conceitos analisados, como a inclusão social, territorial e urbana, operações urbanas. É necessário aqui definir tais conceitos, buscando responder as questões colocadas, citando vários autores que vem abordando esses conceitos, formando o quadro teórico para a análise do caso da Operação Urbana Consorciada Tietê II, no município de Osasco. Na sequência define-se uma metodologia de análise e diagnóstico deste caso urbanístico. As intervenções urbanas são meios de aumentar o grau de competitividade a nível global das cidades, com os processos de renovação comandados pelo capital. Vaz (1999) define que na Europa os projetos de revitalização ou requalificação dos centros são os que criam novos polos de centralidade em terrenos vazios e espaços intersticiais, principalmente antigas zonas industriais, portuárias e ferroviárias. A nível internacional o núcleo central das cidades passa por diferentes intervenções, baseadas em três diferentes modelos básicos: a) o modelo baseado nos princípios de Haussman, em Paris; b) renovação urbana, se apoiando nos princípios modernos e; c) revitalização urbana, mais respeitosa com o meio existente, que recupera os elementos existentes. Nem todos os grandes projetos urbanos obtiveram sucesso em sua implantação, a falta de uso ou de identificação do potencial do terreno pode ocasionar no fracasso 25 destes projetos, como o caso das Docklands, em Londres, as margens do Rio Tamisa, criado e financiado pelo governo local com parcerias privadas para criar zonas empresariais, devido à privatização excessiva que ocorreu pelo fato de no local ter se instalado um centro financeiro mundial (DEL RIO, 2001 e BREEN; RIGBY, 1996), podendo ser definido como “sucesso comercial e um fracasso social e urbanístico” por Compans (2004); ou a Expo de Sevilha, em 1992 que não obteve sucesso devido à falta de multifuncionalidade do uso do solo e a falta de integração com o tecido existente (SCHERER, 1998). Geralmente, os projetos urbanos recentes visam recuperar antigas áreas industriais obsoletas, velhos portos desativados e estações ferroviárias, principalmente grandes áreas de sua orla que necessitam de uma reestruturação de sua função. Para compreender os processos de intervenções urbanas propostos atualmente tem-se que enquadrar a cidade não mais como um aglomerado disperso, mas como uma rede de sistemas complexos e difusos. Os novos projetos urbanos buscam ocupar estes espaços residuais recuperando o tecido urbano e se aproveitando das infraestruturas existentes. Monte-Mór (2006) aborda os discursos contemporâneos a partir da década de 90 acerca da globalização das cidades, passando por autores como Sassen que definiu nos anos 90 Nova York, Londres e Tókio como cidades globais que estavam no centro de comando desta economia, definindo-as também como principais centros de produção e de consumo. As intervenções urbanas, decorrentes dos processos de requalificação urbana, entre outros, resultam da lógica capitalista, da sociedade de consumo que promove o comércio, a industrialização e a consequente migração do homem do campo para a cidade, alterando o meio urbano, valorizando certas áreas, territórios da elite burguesa, menosprezando ou segregando outras. Estas intervenções revelam-se já importantes no século XVII, em Roma 1, com modificações na área central prevendo eixos monumentais e também na revitalização de Paris feita por 1 Plano elaborado pelo Papa Sixto V no final do século XVI que previa transformações urbanas para Roma construindo um grande plano regulador que manteve a cidade medieval e buscou a expansão para a área despovoada da cidade, com redes viárias amplas resgatando também os eixos monumentais (GONSALES, 2005). 26 Haussman em meados do século XIX que se mostraram marcos nas transformações urbanas (GONSALES, 2005). Nas intervenções urbanas de requalificação, muitas vezes, ocorre um processo de gentrificação, como um processo de caráter excludente2, que busca privatizar e aumentar o preço da terra, guiado pelo mercado imobiliário, expulsando os moradores tradicionais, normalmente de classe social mais baixa. Apesar do processo de gentrificação ser inerente a qualquer requalificação urbana e essencial para a manutenção da vida das cidades, ao requalificar uma área, é importante prever, quando possível, instrumentos de garantia de manutenção da população no local, com a previsão de cotas de habitação, assegurando a remoção da população necessária para áreas mais próximas, mitigando os efeitos deste processo. Neil Smith (2007) define o processo de gentrificação como parte integrante do processo de reestruturação do espaço urbano, de modo a identificar a essência da exclusão social, definindo a fronteira urbana como algo a ser conquistado pelo capital e remodelado. Revela que as áreas centrais, principalmente nas sociedades norte americanas, entre os anos 50 e 60, eram decadentes, pois estavam deterioradas, de modo que a população detentora do capital foi se transferindo para a periferia com o passar do tempo. A produção do espaço foi se tornando desigual, tornando a gentrificação e a reestruturação do espaço partes da diferenciação do espaço urbano, em um processo liderado por "pioneiros e proprietários individuais". Entretanto, o processo de gentrificação é identificado como essencial para as mudanças necessárias ao meio urbano e a sociedade, ideia que se vincula pelos veículos de comunicação, como testemunho do resultado do trabalho de uma família ou indivíduo. Identifica-se que, a reestruturação urbana, é produto do desenvolvimento desigual do capitalismo, ou do que Smith (2007) chama de "rent gap", ou do máximo aproveitamento das rendas, ou a diferença entre a renda do solo atual e a renda do solo prevista pelos incorporadores, resultado na desvalorização do capital no ambiente construído. Esta constante reestruturação ou requalificação das cidades pode representar a necessária constante adequação do meio em que vivemos as nossas necessidades, porém, a velocidade e intensidade com que este processo 2 Processo definido por Villaça (2001) que reflete sobre o processo de segregação social. 27 vem se instaurando não é natural, mas podem ser explicados por diversos fatores, entre eles a suburbanização em conjunto com o diferencial de renda, a desindustrialização crescente, a centralização espacial e descentralização do capital e as mudanças demográficas. A expansão periférica é entendida por Smith como um produto da centralização do capital, necessária para a manutenção do capitalismo, impulsionando uma alta taxa de lucro, de modo que, ao termos um movimento de capital que leva o lucro para as periferias, tendo os dois movimentos contraditórios simultâneos, diminuindo o preço de terra nas áreas centrais. Verificam-se a nível internacional alguns pontos importantes nestas experiências, como em Porto Madero, em Buenos Aires, que é estudado com mais afinco no Capítulo 4, promovendo a ativação da memória e a recuperação do patrimônio histórico, a convivência com o novo, e as questões ambientais. No caso de Bilbao, a implantação do museu Guggenheim funciona como arquitetura do espetáculo (Figura 1), uma âncora para atrair novos investimentos e turismo para a região fazendo parte de um projeto mais amplo que retirou o antigo porto e promoveu a recuperação da frente aquática configurando-se como um novo percurso de pedestres com áreas verdes e outros equipamentos implantados (MINGUET, 2010). Outros exemplos acompanham este modelo como a recuperação do Parque Rio Manzanares em Madri e a revitalização promovida pelo Plano de Urbanização da Expo 98, em Lisboa a serem abordadas posteriormente. Figura 1 Reconfiguração de Bilbao, museu Guggenheim, âncora do projeto urbano. FONTE: WWW.WIKIPEDIA.ORG (2013). No contexto europeu, o projeto urbano é entendido como o desenho ou o redesenho da cidade, principalmente após a década de 70, com o objetivo de resolver as novas demandas da cidade contemporânea: a fragmentação urbana das antigas zonas industriais decadentes. De acordo com Mário Lungo (apud. SOMEKH, 2008), o projeto urbano é constituído de obras emblemáticas ou intervenções 28 urbanas, como as operações urbanas, promovendo um impacto no desenvolvimento urbano (SOMEKH, 2008). No contexto brasileiro, os grandes projetos urbanos tomaram maior dimensão na década de 90, como observa Ultramari (2013) ao identificar um grande número de projetos referentes à requalificação de áreas centrais degradadas com potencial histórico e cultural pelo país neste período, valorizando o preço da terra, atraindo o interesse do mercado imobiliário e excluindo a população local para áreas mais periféricas. O conceito de intervenção ou requalificação urbana pode ser entendido também como uma acupuntura urbana (LERNER, 2010), que se baseia no conceito da “metástasis benignas” 3 urbana de Oriol Bohigas, empregado no Plano de Cerdá para Barcelona (ALMEIDA, 2006) que funciona como uma intervenção pontual que onde a revitalização urbana potencializando a revitalização de seu entorno de forma radial e envolve recuperação de uma área doente, degradada ou subutilizada, criando reações em cadeia, como uma mancha de óleo que vai contaminando tudo a seu redor. Segundo Lerner as intervenções vistas desse modo visam “recuperar as feridas que o próprio homem produziu na natureza”, de modo que uma boa acupuntura urbana visa recuperar uma área dos problemas trazidos pela ocupação desordenada. A Operação Urbana Consorciada Tietê I e II, em Osasco é uma paisagem passível de transformação, potencial de mudanças, polo centralizador, buscando amenizar os problemas locais e a exclusão social, física e territorial. Segundo o autor, uma boa acupuntura deve resgatar ou criar uma identidade de uma região ou população, algo com que a sociedade se identifique, de modo que ela mesma possa preservar e cultivar o local projetado, mantendo um sentimento de pertencer ao local, que deve ter a escala do usuário e fazer parte do ambiente natural. O projeto urbano é definido por uma proposta projetual arquitetônica de transformação no espaço da cidade por uma ação intencional. É uma intervenção urbanística que visa reduzir os problemas de um planejamento urbano composto por planos diretores e zoneamentos, leva em conta a identidade e os problemas locais, corrigindo suas falhas criando oportunidades. Diferentemente das políticas 3 Conceito de Oriol Bohigas sobre intervenções pontuais que se irradiam pelo entorno. 29 anteriores definidas pelo Plano Diretor, o Projeto Urbano exige que se projete pensando no capital financeiro e nas reais condições de construção, sendo necessário definir uma estratégia para a construção de um espaço público que se encaixe á necessidade dos problemas (VASCONCELOS, 2006). É importante salientar que o termo requalificação urbana é distinto dos outros: renovação e reabilitação; de modo que se faz necessária a distinção dos mesmos. A renovação urbana se relaciona às ações humanas que não levam em consideração à manutenção do existente, à conservação do patrimônio. Já a revitalização e a requalificação são tidas como intervenções mais respeitosas com relação á cidade, buscando uma compreensão mais ampla do ambiente de intervenção, preservando as características culturais locais, as relações sociais e sua relação com o entorno. A reabilitação se refere ao resgate das características ambientais e econômicas do sítio, normalmente decorrentes do processo de industrialização, devolvendo estas áreas degradadas e obsoletas ao contexto econômico e social da cidade (FIGUEROLA, 2006). As cidades se refazem, possuem uma evolução natural, não estagnam, possuem diferentes estágios de crescimento, são transformadas, adaptadas e revitalizadas, possuindo a capacidade de suprir as novas demandas e as mudanças na sociedade, garantindo a vitalidade da mesma. As intervenções na cidade ocorrem em decorrência dos processos de requalificação, onde não se domina as condições ou consequências, de maneira que, o que se tem observado na prática são intervenções pontuais, gerando contínuas rearticulações, com novos usos e funções, modificando a dinâmica local, que compreendem a cidade como algo que esta em contínuo movimento. Deste modo ao se efetuar uma intervenção se interfere sobre o que já esta em movimento. Foi com o movimento moderno que a renovação urbana começou a negar a cidade existente, construindo um modelo novo de cidade atendendo a um indivíduo idealizado, utópico e abstrato, constituindo a sociedade de massas, não ponderando as características e necessidades individuais da sociedade. Surge na Europa como uma busca de soluções no período pós-guerra, substituindo simplesmente as estruturas existentes e as adaptando as necessidades modernas (VALENTIM, 2007). 30 Discutir o termo exclusão social, que é de origem francesa, onde os excluídos são os indivíduos concebidos como resíduos, assumindo feições de pobreza, cabendo ao Estado à obrigação de ajudar na inclusão dos mesmos. A exclusão se apresenta em aspectos relacionados ao acesso ao emprego, bens e serviços e a falta de segurança, justiça e cidadania (FISCHER, 2001). A cidade tida como “virtual” oculta à “cidade real”, a cidade da maioria, onde a segregação urbana é claramente visualizada com a concentração espacial da pobreza nas periferias (MARICATO, 1996). A cidade pode ser entendida como uma aglomeração de grande população em um espaço limitado criando o mercado e gerando a imagem da cidade como centro de produção e consumo, levando-a uma cidade cenária, propagada pela mídia, que abastece a sociedade de consumo. A transformação da vila medieval em cidade capital reorganiza radicalmente a organização das cidades, tratando a terra como mercadoria e divide a sociedade em classes gerando a segregação urbana que gera diferentes tipologias de lugares, tornando a cidade fragmentada, composta de muitos territórios (ROLNIK, 2004). A periferização das metrópoles, tanto para as classes de renda mais baixas que são marginalizadas, tanto para as classes mais altas que se isolam em condomínios fechados ou simulacros, acabam por revelar a sociedade onde a exclusão social aumenta cada vez mais, bem como as lutas de classes se aprofundam, revelando à cidade do espetáculo, a cidade do consumo, a cidade virtual, onde é seguro apenas o convívio entre iguais (MONTE-MÓR, 2006). A segregação pode ser identificada pela separação de funções na cidade, tornando-se evidente a utilização das ruas e do transporte público, como espaços de fluxo, revelando algumas cidades dormitórios e áreas exclusivamente de comércio e serviços, redefinindo a noção de espaço público e privado, onde para a burguesia, o espaço público deixa de ser a rua passando a ser locais controlados e vigiados, como os centros comerciais ou suas próprias casas, definindo as ruas e os espaços realmente públicos como perigosos, com riscos de contaminação e de desordem. As Operações Urbanas são um instrumento que na maior parte das vezes contribuem para a aceleração do processo de segregação urbana e influenciam o 31 mercado imobiliário, que supervaloriza os resultados espaciais em áreas de seu interesse, consistindo em uma ferramenta de ação no desenvolvimento urbano homogêneo, dotando porções grandes do território que possuem o mesmo zoneamento ou índices urbanísticos. As cidades orientadas pelo consumo vivem em intensa competição e tem sido objetos de constantes requalificações e remodelações para se adaptarem as novas demandas e modos de vida que inserem as cidades na disputa internacional, de modo que a sua estrutura física se torna obsoleta. Exemplos deste processo podem ser vistos nas antigas zonas portuárias ou industriais que envolvem discussões com relação a sua estrutura fundiária (RUBANO, 2013). A DESINDUSTRIALIZAÇÃO E AS MUDANÇAS DE PARADIGMA NO URBANISMO No final do século XIX, na Europa, os problemas territoriais e sociais oriundos do capitalismo originaram preocupações higienistas que foram à base do urbanismo funcional utilizado até hoje em algumas cidades. Trazidos para o contexto brasileiro, as heranças da colonização portuguesa, assim como o processo histórico de urbanização sempre estiveram ligadas ao Estado como produtor do espaço. Com o advento do capitalismo no país, a área urbana começa a inchar devido à produção industrial concentrada nas capitais. Reschilian (2010) argumenta que o avanço do crescimento industrial ocorrido no país em um curto intervalo de tempo, se comparado ao contexto europeu, não permitiu o desenvolvimento urbano planejado, de modo que todas as ações que se seguiram neste período foram corretivas. Nas raízes coloniais se verifica as raízes da desigualdade no Brasil, principalmente devido à estrutura produtiva, mudando da economia agrária para industrial, com o trabalho assalariado. Esse processo manteve a concentração da riqueza nas mãos da elite, minoria, promovendo uma inclusão social insuficiente, gerando segregação espacial. A partir de 1970 o processo de urbanização se acelera no país, indo de 18,8 milhões de habitantes em 1950 ultrapassando os 190 milhões de habitantes em 2010 e estimado em mais de 200 milhões de habitantes em 2013 (IBGE). Blay (1974) percorre o período de 1940 e 1975 reflete as origens do vínculo entre as condições socioeconômicas e as políticas públicas brasileiras, entrando no 32 âmago do problema de causa e efeito gerado pela urbanização, a consequente industrialização e o desenvolvimento social. A autora identifica o meio urbano como agente de transformação dos grupos sociais, alterando o espaço coletivo. Defende que o ponto de superação da fase colonial é identificado pela transformação da economia com a potencialização da urbanização e, consequentemente, o processo de industrialização, que possibilitou a instituição de um mercado nacional, interligando os aglomerados urbanos. No início da década de 60 o processo de urbanização se intensificou, gerando problemas urbanos e sociais, de modo que, surgiram linhas de pensamentos relativos á sociologia urbana. O novo meio urbano torna inapropriado estudos exaustivos de determinada cidade, de modo que os pesquisadores passaram a se ater a estudos de parcelas menores do território. Neste contexto os conflitos na metrópole passaram a se tornar o objeto de estudo, como os problemas decorrentes do inchaço populacional, a migração e as formas de ocupação do território. Ao analisar a expansão da população urbana no Brasil, conforme quadro panorâmico a seguir, Blay (1974) verificou que entre 1940 e 2010 a população urbana passou de 31,24% do total á 84,36% da população total do país. O que ocorreu neste período foi a transição entre o período de 1940 á 1960, passando pelo crescimento demográfico urbano até seu ápice no país, resultante da industrialização, até chegar a desindustrialização dos grandes centros que teve seu início em 1970. De 1940 para 1970 a população urbana cresceu 12%, porém o desenvolvimento urbano com suas infraestruturas e ordenação do território se desenvolveram lentamente. O processo de urbanização que ocorreu no Brasil no período de 1940 á 2010 revela que a população urbana passou respectivamente de 31,24% para 84,36% no período. Pode-se analisar a expansão urbana no Estado de São Paulo de forma gráfica a partir dos mapas do IBGE que mostram a evolução urbana de 1940 á 2000 (Figura 2). Nos mapas a seguir pode-se observar uma pequena mancha que caracteriza o centro urbano do Estado de São Paulo na década de 40, com grau de urbanização de 50 á 75%, que vai crescendo, mas encontra sua explosão a partir da década de 60 e 70, com grau de urbanização de 75,01 á 90%, proveniente principalmente da explosão demográfica. 33 Figura 2 Panorama da evolução urbana no Estado de São Paulo de 1940 á 2000. MONTADA PELA AUTORA A PARTIR DE DADOS COLETADOS EM IBGE (2010). As características da urbanização e o processo de industrialização no país são consequência da posição que o Brasil ocupa no mundo globalizado, situando-se como economia periférica. O estilo de vida da sociedade provoca uma alteração no sistema do consumo devido ao inchaço do meio urbano e da demanda crescente por 34 produtos e serviços, de modo a constituir um grande mercado, iniciando o mercado capitalista. Com a expansão do mercado de consumo começam a surgir os problemas sociais: a falta de emprego formal e o crescimento do informal, principalmente devido à divisão do trabalho gerando a divisão de classes e a afirmação de uma classe em ascensão (BLAY, 1974). Os projetos urbanos na Europa influenciaram os projetos urbanos no país, como o plano para Belo Horizonte de Aarão Reis baseado nos princípios de Haussmann de Paris, que foram seguidas por outras capitais como Manaus, Belém, Rio de Janeiro e São Paulo. A partir do século XX surgem várias influencias no Brasil, passando por aspectos racionais á aspectos sociais revelando que a principal herança do período entre guerras para a urbanização é a instituição do zoneamento que foi inspirado na Carta de Atenas, que rege a maioria das intervenções urbanas no Brasil até os dias de hoje. Em decorrência da lógica higienista de Haussmann, visando o controle dos conflitos sociais promovidos pela justaposição das diferentes classes no mesmo espaço em expansão devido à industrialização e a urbanização crescente, a lógica do zoneamento e da cidade racional foi colocada em exercício em prol da divisão hierárquica da cidade ligada à lógica produtiva industrial segundo seu papel neste processo (MONTE-MÓR, 2006). O processo de urbanização das cidades brasileiras subdesenvolvidas, como São Paulo, teve uma industrialização periférica, bem como a proliferação das ocupações irregulares. De modo que, a partir da década de 60, a expansão do modelo industrial fordista acabou por gerar maior exclusão social no país. A questão urbana regional torna-se o instrumento para o novo ciclo de desenvolvimento no período pós-guerra, de modo que os esforços no país para criar uma instituição burocrática racional, com equipamentos nas grandes cidades para a industrialização ganham força com o apoio das missões americanas promovidas por Kubitschek. Entretanto se verifica no Brasil uma diferenciação entre o planejamento urbano regional e o planejamento das cidades, utilizando-se de grandes projetos como o de Brasília apenas para os grandes projetos públicos, como artigos de luxo. O problema do urbanismo pode ser observado na política social baseada em leis de mercado, concentrando investimentos na região sudeste do país para expandir as condições de produção industrial, permitindo a expansão do consumo dos bens duráveis da industrialização fordista (MONTE-MÓR, 2006). 35 Os anos 60 foram marcados pela crise do capitalismo no mundo, evidenciando a crise do Estado do Bem Estar Social, restrito aos núcleos urbanos industriais, que se revelaram inviáveis. Nos Estados Unidos a crise do capital foi identificada em 1970 e serviram de base para redefinir o papel do Estado. Os problemas da cidade do capital podem ser identificados como: o inchaço sem planejamento da área urbana, a exclusão social estratégica das classes de trabalhadores, a repressão social com o consumo dirigido gerando uma sociedade virtual que produzia espaços virtuais. O Brasil por sua vez sofreu um processo de urbanização intenso em pouco tempo reestruturando seu espaço urbano e a sociedade em geral, tendo o direito á cidade como questão apreendida nos anos 60 (MONTE-MÓR, 2006). Neil Smith (2007) relata que o enfraquecimento de alguns setores econômicos se associa á desvalorização do capital investido nas áreas centrais, fator que se liga muitas vezes ao processo de desindustrialização em estágio inicial em algumas economias capitalistas avançadas e parcial em algumas economias de países emergentes a partir da década de 60, como o Brasil. A maioria das economias industriais tiveram redução na sua força de trabalho desde este período, bem como modificaram sua base fabril para áreas periféricas ou para regiões metropolitanas ou polos industriais, onde incide um menor imposto. Dessa forma as áreas urbanas passaram por transformações, pois perderam grande parte de seu investimento e ganharam áreas ociosas, bem como outros setores econômicos, como o setor de serviços passou a ter maior importância na economia e na característica das áreas urbanas. A acumulação do capital torna-se uma necessidade social de modo que a expansão do capital revela o processo de descentralização e o desenvolvimento da metrópole se torna produto da centralização espacial. Desta maneira a suburbanização da indústria representa o enfraquecimento da lógica de aglomeração de capital, entretanto o setor de serviços, que vem se acumulando em pontos estratégicos ou polos regionais revelam que a aglomeração e suburbanização podem coexistir (SMITH, 2007). Salgueiro (1994) explora os fenômenos simultâneos da dispersão e concentração das cidades do consumo no contexto Europeu, em específico na realidade portuguesa, onde as mesmas passam por um processo de transformação trazendo 36 um novo interesse imobiliário para as áreas centrais de Lisboa, na mesma medida em que ocorre uma expansão periférica onde todas as transformações na cidade fazem parte do fenômeno da reestruturação urbana. O processo de desindustrialização fez com que os centros abrigassem o setor terciário e de serviços que tomaram força, mas também entrassem na lógica da descentralização, não de capital, mas de desenho da cidade. Desta forma a reestruturação urbana determinou as alterações no mercado e as localizações dos diversos segmentos de acordo com suas necessidades específicas, modificando a sociedade industrial e levando a uma sociedade do consumo, promovendo uma alteração no capitalismo e uma competição entre cidades, que se torna clara na Expo’98, de Lisboa. Essa descentralização das funções, contradizendo o urbanismo moderno de instituição de zonas e usos de solo criou uma nova paisagem urbana e gerou novos polos centralizadores, que não mais, no centro geográfico das cidades, período em que começam a surgir os grandes projetos urbanos (SALGUEIRO, 1994). É comum em muitos países da Europa, como Portugal, verem a revalorização por parte do mercado imobiliário das áreas centrais, promovendo nestas áreas habitação para a classe média alta, garantindo um novo conceito de morar: se aproveitando da infraestrutura existente, conceitos estes que não se observam em São Paulo, onde a região central esta desvalorizada. O processo de urbanização tem apresentado um impacto ambiental, social e territorial extremamente negativo, gerando poluição do ar, dos recursos hídricos, impermeabilização dos solos que deveriam ser preservados, entre outros fatores, acarretando conflitos envolvendo a população de baixa renda. Esse quadro acaba afetando toda a população que, sem alternativas, ocupa áreas inadequadas e de risco (MARTINS, 2006). Na grande São Paulo o processo de ocupação se deu da seguinte forma de acordo com Martins (2006) onde a crise habitacional aliada à falta de políticas habitacionais eficientes levou à ocupação das periferias, possibilitadas pela política de expansão da estrutura viária, que pode ser esquematizada a seguir (Figura 3): 37 Figura 3 Esquema referente ao processo de ocupação da cidade de São Paulo. MONTADA PELA AUTORA A PARTIR DE DADOS COLETADOS NO LIVRO MORADIA E MANANCIAIS TENSÃO E DIÁLOGO NA METRÓPOLE. EDITORA FAPESP, FAUUSP, SÃO PAULO, 2006. M. L. R. MARTINS. A segregação urbana é uma das faces mais importantes da exclusão social, trabalhando como um motor indutor da desigualdade, sendo que a dificuldade de acesso aos serviços e infraestruturas urbanas se somam às menores oportunidades de emprego e profissionalização, maior exposição à violência, discriminação racial, discriminação de gênero e idade e difícil acesso à justiça oficial e ao lazer. É nas áreas desprezadas pelo mercado imobiliário privado e em áreas públicas situadas em regiões desvalorizadas que a população de baixa renda vai se instalar Uma construção ideológica define a imagem da “cidade virtual” que encobre a “cidade real”, cidade da maioria, onde os poderes executivos concentram seus investimentos na cidade legal. As grandes cidades brasileiras apresentam uma conjunção de esforços para a produção de novas centralidades urbanísticas relacionadas a um cenário de distinção alimentando a valorização imobiliária, basta observar o entorno do Rio Pinheiros em São Paulo, que concentrava a maior parte das infraestruturas do município. A desigualdade urbanística é evidenciada pela segregação territorial, de modo que os problemas urbanísticos são ocultados pela “cidade virtual” (MARICATO, 2001). De acordo com dados do IBGE, a participação da Indústria no PIB (Produto Interno Bruto) caiu de 40,9% em 1980 para 27,5% em 2010. Já o setor de serviços aumentou de 49% para 67% no mesmo período. Entretanto é curioso observar que dados do Ministério do Desenvolvimento apontam que não se está passando por um processo de desindustrialização, apenas constatam que o setor terciário aumentou. Na década de 90 o setor secundário sofreu com a abertura econômica e, alguns segmentos, inda não se recuperaram conforme apontado a seguir (Figura 4). 38 Baixa ocasionada pela abertura econômica Figura 4 Participação da indústria no PIB nacional. FONTE: IBGE. EM WWW. PORTAL.MTE.GOV.BR, ACESSADO EM 05/05/2013 ÁS 20HS. A produção dos vazios urbanos foi consequência do modo de expansão da cidade com os loteamentos descontínuos, entretanto a sua manutenção se deve a falta de instrumentos legais que penalizem a retenção ociosa dos terrenos (CASTRO, 2006). Os problemas referentes aos vazios urbanos encontrados nas grandes cidades de acordo com Silva (1999), de modo que a ação do poder público de levar a população de baixa renda para áreas mais periféricas se explica simplesmente pela força do mercado imobiliário, que entende os conjuntos de HIS como agentes que desvalorizam o entorno. Esse quadro acaba contribuindo com a exclusão social e territorial, fazendo com que essa população de baixa renda seja deslocada para áreas de pouca infraestrutura, ao invés de serem remanejadas para os vazios urbanos da cidade ou para áreas subutilizadas, principalmente as regiões centrais, que já são providas de infraestruturas. O INÍCIO DOS PROJETOS URBANOS NA EUROPA Os grandes projetos urbanos ou os megaprojetos tomaram força na Europa a partir de 1970 em um cenário de mudanças políticas, entre eles o declínio da União Soviética, a vitória do capitalismo, o incremento das migrações que resultaram no inchaço urbano e a consequente especulação imobiliária que tomou força. Neste período é fácil se encontrar na Europa projetos como o Centro Cultural de Belém, 39 em Lisboa, de Manuel Salgado (Figura 5), desproporcional á necessidade local como uma arquitetura de grandes dimensões imposta à cidade (GHIRARDO, 2002). Figura 5 Imagem do Centro Cultural de Belém. AUTORIA PRÓPRIA, 2010. Monte-Mór (2006) revela que as grandes intervenções urbanas se iniciaram na Europa no final do século XIX com a crise da metrópole industrial que representava a transformação da sociedade burguesa capitalista trazendo o centro do poder para a classe trabalhadora. Essas intervenções incorporaram as preocupações higienistas da cidade moderna com a requalificação de áreas degradadas. Com a industrialização o problema da habitação na Europa tornou-se objeto central das preocupações das políticas públicas, pois era uma demanda exigida pelos trabalhadores da crescente industrialização, o que gerou as vilas operárias, construídas pelo Estado e pelos empresários. Essa imensa expansão demográfica gerou também sérios problemas sociais, como sanitários e de locomoção, de modo que, os grandes projetos urbanos, para sanar esse déficit habitacional com a habitação popular e seus problemas, tomaram lugar nas políticas públicas urbanas, de modo que se priorizou o transporte público em muitas cidades como Londres e até mesmo na América Latina, como a Argentina, que passa a determinar o fator indutor da expansão urbana. Os casos paradigmáticos consolidaram os princípios urbanos que influenciaram o mundo no início do século XX, como o caso de Barcelona e de Paris. O primeiro caso, projetado por Cerdá, promoveu a extensão da cidade para além de seu limite primário, de suas antigas muralhas com modificações arrojadas na infraestrutura sanitária, no sistema viário e o desenho de quarteirões integrados, liberando o interior da quadra para a utilização de praças internas (MOIX, 2008). O segundo caso, projetado pelo Barão Haussmann, implantou um projeto higienista de 40 tabula rasa executado pelo Estado, considerado o primeiro plano regulador para uma metrópole industrial em expansão, com os princípios da racionalidade urbanística, destruindo áreas tradicionais da cidade (GONSALES, 2005). Os megaprojetos, como o parque temático da Disney expressa o projeto da cidade do consumo gerado pelo capitalismo. O primeiro aborda uma cidade cenário, um local tido contemporaneamente como espaço público, porém destinado à classe média e alta, de maneira que exclui a maior parcela da população, a de baixa renda, designando para ela os territórios marginalizados e segregados da cidade formal (GHIRARDO, 2002). Ao definir a cidade do consumo tem-se que compreender primeiramente o conceito de espaço público. Este conceito está ligado à simbologia do cenário da vida social, é denominado como um espaço que sobra entre os edifícios, um local onde as pessoas se encontram, conversam e expressam suas alegrias e dores coletivas (MACHADO, 1998). É um lugar pertencente ao indivíduo, representação da esfera pública, local de exercício da democracia. Historicamente, estes espaços eram ambientes onde os cidadãos livres podiam exercer sua cidadania, porém eram espaços burgueses, excluindo os indivíduos por classe, sexo e raça, de modo que havia uma seleção dos cidadãos. Desse modo o conceito de espaço público divulgado hoje em dia mascara práticas excludentes, delimitando a noção de espaço público a centros comerciais, shoppings e parques temáticos. Estes espaços públicos foram divididos em duas categorias no final do século XX: espaços de consumo e de segregação, baseados no mundo da Disney, controlados, monitorados e espetaculares, considerados como única atividade pública da cidade contemporânea (RESCHILIAN, 2010). A relação entre os espaços públicos e privados ocorre por uma área de transição, com espaços de convivência, de percurso entre dois pontos, que é instituída pelos transportes coletivos e individuais. Os espaços públicos, com suas estruturas de malhas e tecidos urbanos, são elementos estruturadores do território, organizando o mesmo, estabelecendo hierarquias e ligações. Na sociedade orientada pelo consumo, os novos espaços públicos, como as grandes áreas comerciais, são territórios onde o livre acesso é uma ilusão, onde sua definição revela uma cidade “higienizada” seguindo os princípios de Haussman em 41 Paris, sem mendigos, mais segura, de modo que a posição social ou a simples aparência passa a ser um meio de exclusão (BAPTISTA 2007). Tem-se observado a construção das cidades com o fechamento com grades do espaço público, estipulação de horário para funcionamento, retirando o conceito de público. Esses espaços tidos como públicos revelam a exclusão social, se tornando na realidade espaços elitizados e não civilizados, cenário que revela o espaço subutilizado, que acaba por gerar criminalidade (BAPTISTA 2007). Os espaços públicos devem ser muito bem projetados, garantindo sua multifuncionalidade e uso em todos os períodos, denotando uma função e papel na sociedade. Devem ter as infraestruturas necessárias para dar suporte a grandes áreas verdes, por exemplo, gerando apropriação mais adequada e transmitindo segurança aos usuários. Entretanto o que se vê é o surgimento de espaços de controle social, bem como a funcionalização dos espaços públicos existentes e a proliferação de lugares não socializados. Segundo Baptista (2007) os espaços realmente públicos tem se tornado cada vez mais escassos nas cidades, tomados pela nova realidade corporativa, pela sociedade de consumo e pelos meios de comunicação, fragmentando-se em um novo mundo virtual. A promoção do espaço público é dever do poder público, garantindo e zelando pelo interesse público e pelo bem estar da população. Infelizmente esses espaços não são mais do que a representação dos órgãos públicos, transmitindo a simbologia do poder dos mesmos com relação à população. Também é sintomático que os espaços da cidade sejam produzidos pelo mercado imobiliário e não pelo poder público. Na cidade do consumo a iniciativa privada passa a denotar um papel importante na caracterização dos espaços públicos. O mercado capitalista controla a construção desses espaços ditos públicos, exigindo uma arquitetura do espetáculo, com a contratação de arquitetos renomados internacionalmente, visando atrair propaganda ao local, de modo que os espaços públicos das cidades tornam-se espaços de interesse das corporações de interesses econômicos interiorizando as funções do espaço público tradicional. As cidades passam a competir no mundo globalizado, tornando difícil caracterizar as barreiras entre os espaços públicos e privados (BAPTISTA 2007). 42 O conceito de Solà-Morales (2002) sobre o vazio e suas relações com os espaços públicos e privados revela-os como territórios esquecidos pelo mercado imobiliário, repletos de memória, reduto de resistência à privatização da globalização. Explica o fato de que, na maioria das vezes, um espaço vazio, ocioso, esquecido pelo poder público e pelos incorporadores pode ser visto mais como um local que pertence a uma identidade de determinada população, sendo preservado de maneira melhor do que um espaço criado pelo poder público para essa mesma população que é descaracterizada, pois não preserva a identidade coletiva. O espaço público pode ser entendido como um espaço de manifestação da esfera pública, da vida pública e da realização da cidadania, de modo que um espaço democrático pode requalificar o espaço público. A rua é sua principal protagonista podendo ser de uso exclusivo dos pedestres, utilizada para recreação, resgatando seus valores tradicionais, trazendo de volta a escala humana ás cidades (ABRAHÃO, 2008). Jaime Lerner (2010) explicita a essência do espaço público, na cidade de Curitiba, em sua proposta para a região central, buscando criar sociabilidade, civilidade e comunidade, com a “rua tradicional, linearmente definida, garantidora da continuidade nas cidades, lugar do encontro e da descoberta”, se contrapondo a Carta de Atenas, agrupando todas as funções da cidade gerando uma única função: o encontro entre as pessoas. O plano de Cerdá para Barcelona inova ao mudar a paisagem urbana, entendendo o espaço público não como o espaço público residual, entre a fachada e a rua, nem o vazio público, mas o espaço cidadão que deve ser capaz de organizar o território, dividido em três espaços: urbanístico, como suporte aos usos e funções; cultural, com seus monumentos e símbolos da identidade coletiva e; político, como espaço de expressão coletiva, de visibilidade dos grupos sociais (MACHADO, 1998). O individualismo vê o homem apenas na sua relação consigo mesmo, já o coletivismo não vê o homem, mas a sociedade, a massificação do homem. O coletivismo é uma barreira onde o homem se esconde de si mesmo, gerando uma alienação. Porém é apenas entre pessoas reais que pode haver uma relação real. Um edifício ou espaço público deve fazer com que a comunidade se sinta pessoalmente responsável por ele, diferentemente do que vem ocorrendo na prática 43 com os espaços produzidos pelo governo local, onde o indivíduo se sente reprimido e condicionado a viver de determinada maneira, gerando alienação. É necessário tomar cuidado com a proposição de escalas grandes demais, que possam ser imponentes, pois os espaços devem configurar aos usuários o sentimento de pertencimento, para evitar um deserto urbano (HERTZBERGER, 1999). Já a sociedade brasileira desenvolveu seu processo de urbanização com forte presença do automóvel, exemplificada em São Paulo por Prestes Maia com o Plano de Avenidas, e o desenvolvimento imobiliário, gerando uma urbanização dispersa. Nessa cidade do consumo, o espaço tido como público acaba por se tornar o espaço da minoria, o espaço da cidade virtual, formal, a sociedade da mídia. Dessa forma os planos urbanísticos acabaram sendo comandados e gerados pela sociedade do consumo, que controla o desenvolvimento urbano (ASCHER, 2010). 1.2. CONSTRUÍNDO CIDADES POR MEIO DE ÍNDICES Os princípios urbanísticos necessitam de uma revisão de sua lógica que se estabelece na cidade contemporânea, de modo a fornecer respostas mais adequadas aos problemas urbanos contemporâneos. A cidade hoje implica em formulações complexas, que devem incluir vários fatores, dentre eles políticos econômicos e sociais. Pode-se compreender o conceito de políticas públicas urbanas como diretrizes que norteiam a ação do poder público, tecendo regras para a relação entre poder público e privado, estabelecendo mediações entre os atores. São políticas explicitadas em documentos de leis que orientam as ações públicas e a destinação de seus recursos. De modo que, as políticas públicas, traduzem as formas de exercício do poder político, envolvendo as tomadas de decisões que devem levar em conta os interesses coletivos, visando responder as demandas da sociedade (TEIXEIRA, 2002). Ascher (2010) afirma que o urbanismo moderno propiciou condições para que a sociedade moderna da individualização, racionalização e diferenciação social, que defendia programas de longo prazo, como os planos diretores, destinados a tentar 44 controlar um futuro incerto, baseado em índices urbanísticos, como o zoneamento. Já o neourbanismo, termo elaborado pelo autor para definir as novas formas de intervenção nas cidades que vem sendo adotadas objetivando não o plano urbano em si, mas o seu processo de desenvolvimento que deve contar com todos os agentes envolvidos, inclusive a sociedade civil. Devem-se elaborar vários projetos construindo uma gestão estratégica urbana que visa os objetivos definidos previamente, articulando as mudanças de paradigmas a curto e longo prazo, em todas as escalas, resolvendo os conflitos de interesses, tornando-se estratégico. Para os urbanistas do período moderno o projeto era considerado apenas um desígnio, um desejo representado por um desenho, já para o neourbanismo é, além disso, uma ferramenta de análise e negociação. Desta forma derruba a antiga linearidade cronológica composta por diagnóstico, identificação do problema, definição do programa, projeto, realização e gestão; partindo para uma gestão heurística, com uma aproximação progressiva do problema, operando em avaliações sucessivas e hipóteses provisórias. Não se baseia em ideologias simplificadas, ou em índices urbanísticos, com visões globais, zoneamentos e funções. A visão de repartição dominante no urbanismo moderno se torna confusa com o neourbanismo, definido como o novo urbanismo, pois não se identificam mais os espaços públicos e privados, bem como de quem é a responsabilidade pela produção das cidades, havendo uma nova realidade: as parcerias e concessões, tendo o Estado mais como um agente regulador, fiscalizador e intermediador, do que como agente elaborador de projetos urbanos (ASCHER, 2010). Gruen (1973) apontou em seus estudos os padrões urbanísticos que estavam emergindo na década de 70 devido à falta de espaço urbano, da explosão demográfica e das aglomerações urbanas e alertou para que fossem levados em conta alguns fatores para o desenvolvimento dos projetos urbanos e das políticas públicas, como o aumento da demanda por todos os tipos de espaços urbanos, bem como pelo consumo. Esses fatores levaram ao fenômeno do esvaziamento dos grandes centros urbanos e ao crescimento de novos subúrbios, tendo como consequência o surgimento de megalópoles subdesenvolvidas. Observa ainda a necessidade de desenvolver processos de planejamento com técnicas tridimensionais e com a multifuncionalidade do solo para minimizar a mobilidade urbana. Passados uma década, Zeidler (1985) identifica a necessidade da 45 reestruturação dos princípios do urbanismo, inserindo os edifícios multifuncionais com o intuito de garantir a vitalidade das cidades. Koolhaas (1972) defende em seu projeto teórico “Exodus – os prisioneiros voluntários da arquitetura” uma critica a cidade racional e funcional, ao zoneamento, evidenciando o papel do arquiteto nas intervenções urbanas. O projeto urbano deve conectar a cidade com a arquitetura e depende somente da capacidade do arquiteto em imaginar seu projeto perante a cidade, não se tratando de um plano urbanístico ou de um regulamento, mas pensar em novos instrumentos urbanísticos. Monte-Mòr (2006) revela que, no Brasil, o controle e uso do solo resultantes do zoneamento visam resolver o conflito entre a propriedade privada do solo e as demandas coletivas do espaço urbano, de modo que, são criados órgãos técnicos de planejamento local que, no final, acabam por seguir os interesses e a lógica capitalista burguesa. Nos projetos urbanos é necessária a gestão da identidade que seja responsável pelo projeto de modo a ultrapassar o tempo do governo, garantindo a continuidade da execução (SILVA, 2012). No Brasil, a avaliação de políticas públicas assume contornos conceituais pouco precisos. As políticas públicas urbanas possuem um novo marco estabelecido pelo Estatuto da Cidade, definido pela Lei Federal n.10.257/2001, que definiu novos instrumentos modificando as formas de atuação do poder municipal e dos demais agentes envolvidos (ALVIM, 2010). No Brasil, a discussão em torno das políticas públicas iniciou-se em 1963 com o Fórum de Reforma Urbana que foi promovido pelo IAB, no Rio de Janeiro, paralisado pelo regime militar durante o período de 1964 á 1985. Com a retomada do processo democrático foi estabelecida a Constituição de 1988, só efetivada em 2001 com a Lei Federal 10257/2001, o Estatuto da Cidade. Ele é definindo a função social da cidade, possibilitando a regularização das áreas irregulares e a participação da população no desenvolvimento urbano. Aliados a expansão periférica e a segregação sócio espacial no país, os princípios urbanísticos brasileiros se baseavam na técnica, dos planos, dentro do setor público. Acreditavam que os planos eram a solução para os problemas 46 urbanos, de modo que, o que se observa é a tecnocracia do planejamento urbano, onde as teorias ideológicas não passam de mero discurso (SEGRE, 2005). Da Constituição de 1988 á gestão democrática das cidades muito se tem a percorrer, de modo que as políticas urbanas possam promover a democracia e o exercício da cidadania. A gestão urbanística tem o papel de articulador dos interesses sociais e privados, de modo a assegurar os ideais urbanísticos coletivos. O que se observa, entretanto, é o caráter meramente ideológico dos planos urbanos como instrumentos que manipulam os interesses da classe dominante, bem como os projetos que não saem do papel, mas que se valem das intervenções pré-existentes no local, evidenciando as tendências excludentes do mercado, produzindo a cidade do consumo. De acordo com Somekh e Campos (2012), no Brasil, os modelos urbanos adotados no decorrer do século XX, foram trazidos da Europa juntamente com os preceitos da racionalização do período pós-guerra, que acabaram por contribuir para a hegemonia do capitalismo. 1.3. FRENTES AQUÁTICAS E OS PROJETOS URBANOS Aqui se discute as frentes aquáticas, ou seja, a relação das cidades com as águas, tema amplo e de grande importância cujo objeto de estudo tem como elemento de projeto integrador o Rio Tietê e sua relação com o município de Osasco, aprofundada de três estudos de caso que também tem relação com as águas: o Parque Linear do Rio Manzanares, em Madri; a Expo’98, de Lisboa e Porto Madero, em Buenos Aires. O que estas experiências têm em comum com o objeto de estudo desta dissertação? A busca pela recuperação de frentes aquáticas obsoletas que se encontram nos centros urbanos e que já perderam sua função devido ao processo de desindustrialização ou migração das indústrias para outros locais. O tema das frentes de águas vai além de pré-requisitos de sustentabilidade. Estes projetos escolhidos, assim como o projeto urbano para a Operação Urbana Consorciada Tietê II, aprofundam as questões do território, da paisagem urbana e de 47 sua relação com os cursos d´água, que perderam suas características com o crescimento demográfico e a expansão da urbanização. Apesar do número crescente de propostas internacionais para as cidades e suas frentes aquáticas, a iniciativa é ainda pequena. Nos países europeus e em alguns outros como Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia e Coréia do Sul, tem se observado a busca por soluções inovadoras para enfrentar o tema, revelando a preocupação com a população que vive em áreas de risco e com o ambiente urbano. Nestes países as soluções adotadas visam o retorno dos rios em seu curso natural e sua despoluição e a priorização do espaço público e de pedestres. No Brasil, principalmente em São Paulo, identifica-se outra prioridade: o automóvel, elemento colocado em cena na década de 50. O problema do Rio Tietê em São Paulo é grave, pois além das questões de inundações, da ocupação da área de várzea e da poluição de suas águas, torna-se cada vez mais um obstáculo aos habitantes da cidade. As propostas de canalização e recobrimento de sua calha com mais pistas não param de surgir acompanhadas com a visão do lucro, incentivando ainda mais a indústria automobilística. Em meio a este cenário desmotivador para as frentes aquáticas no país surge à proposta, um tanto quanto utópica, porém com princípios pautados na realidade local e que buscam uma cidade desejável, dentro do possível. Ela traz para o município de Osasco a possibilidade de utilizar este elemento tão indesejável atualmente, que é o Rio Tietê, como a peça chave no desenvolvimento de uma região obsoleta na região central do município, de extremo potencial de renovação. Não esta se afirmando aqui que este é um objetivo fácil de ser alcançado. A questão passa por um processo de conscientização e compreensão do potencial deste elemento, bem como por ações conjuntas com outros órgãos, como o DAEE, e pelo entendimento de que a despoluição do rio não é uma tarefa simples, ela deve passar por um processo de melhoria de infraestruturas básicas, como o saneamento. Na OUCT II há a preocupação em tornar o Rio Tietê navegável e levar a expansão da cidade até a sua margem. Ele é uma linha divisória entre o norte e o sul do município e demarca a segregação territorial e social em Osasco, decorrente da implantação de infraestruturas e superestruturas, como rodovias, a linha férrea e 48 linhas de alta tensão que marcam sua paisagem. Por outro lado, o projeto não adota partidos menos agressivos, como a recuperação da calha natural. O Rio Tietê faz parte da memória da cidade e de seus habitantes, já tendo sido navegável e utilizado como uma via de transporte, porém foi deixado de lado e, até mesmo, indesejado pelos habitantes. O braço morto do Tietê que corta a zona Norte da cidade já foi uma das principais causas de enchentes na região. Sua origem é o traçado original do rio que era navegável e possuía a forma de ferradura. Em 1938 foi assinado um contrato para acabar com a curva do rio retificando seu leito e visando a navegação e a produção de energia, o que nunca se concretizou (PMO, 2012). As cidades com as frentes aquáticas tiveram papel fundamental na fundação e desenvolvimento dos núcleos urbanos, passando por sua total ociosidade e chegando às propostas contemporâneas de revitalização. Tsukio (1984) afirma que a princípio os cursos d´água não foram um fator que interferiu diretamente na localização das comunidades. Estudos revelam que as primeiras comunidades agrícolas viviam próximas aos rios, mas não nas suas frentes aquáticas. A necessidade de se estabelecer próximo aos cursos d´água teve origem com o crescimento dos núcleos urbanos e de sua necessidade de transportar pessoas e mercadorias, utilizando os rios para a locomoção das mesmas. Ele identifica este tipo de assentamento nas civilizações antigas, como ao longo da bacia do Rio Nilo e, nos dias atuais, em cidades globalizadas, como Paris, Londres, Nova York e Tókio. Considera ainda que outros fatores contribuíram para as modificações das frentes aquáticas, como a expansão da indústria e o crescimento demográfico, que utilizaram estas áreas para se estabelecer; seguidas pelas mudanças nas técnicas do transporte, que se tornou, em um primeiro momento, ferroviário no século XIX e, na sequencia, rodoviário no século XX. Também argumenta serem importantes às modificações do sistema industrial e o processo de desindustrialização com a mudança das indústrias para outras regiões, polos logísticos que não dependem mais dos cursos d´água. O novo papel suposto por Tsukio (1984) para as frentes aquáticas, que perderam o seu uso inicial devido ao fato de que suas antigas funções se tornaram obsoletas, era de devolver estas áreas á população substituindo os usos 49 decadentes. Existem três tipos de intervenções nestas áreas; a primeira restaura a área para devolvê-la á população, com melhorias urbanas e remoção das estruturas subutilizadas; a segunda promove o redesenvolvimento, convertendo as instalações importantes para a vida urbana, tendo como objeto algo que gera a expansão de infraestruturas que tiveram suas características ou necessidades programáticas e tecnológicas alteradas e; a terceira promove o desenvolvimento, criando novas frentes aquáticas, por meio do aterramento de áreas, atendendo as necessidades da sociedade contemporânea. Os rios são marcos importante na paisagem rural e urbana, que infelizmente deixam de fazer parte da identidade da população ao serem retificados, aterrados ou canalizados, no decorrer do processo de urbanização, rodeados por indústrias contaminando o solo e perdendo sua relação com a paisagem e com a memória da população. Uma preocupação que acompanha a construção das cidades no decorrer dos tempos é o modo como elas foram construídas e destruídas inúmeras vezes visando atender um sistema rodoviarista. Assiste-se às transformações nas cidades orientadas por aspectos econômicos e interesses das camadas sociais mais elevadas, de modo que os automóveis e os condomínios fechados viraram sinônimo de segurança, relegando as áreas públicas que se tornaram escassas e muradas, de modo que o pedestre é cada vez mais cerceado (LERNER, 2010). A cidade de São Paulo e região perderam paulatinamente suas referências geográficas e territoriais na medida em que seus rios foram canalizados, aterrados ou transformados em marginais, com sua várzea ocupada e impermeabilizada, levando a inundações, perda da memória e identidade da cidade. O mesmo ocorreu na cidade de Osasco, em menores proporções, onde em seu processo de ocupação a cidade voltou às costas para o rio, para sua relação com a população e a vida urbana, o transformado em um problema, um obstáculo indesejável, além de o rio ter se tornado poluído e de difícil navegação. Propostas de recuperação dos cursos d’água com base na limpeza dos córregos são ineficientes. As propostas de implantação devem ser mais condizentes com o seu papel na cidade, restringindo e recuperando as ocupações ilegais em áreas de mananciais e de risco e, principalmente, com a melhoria dos sistemas de coleta e tratamento de esgotos, dando melhor destinação aos resíduos sólidos. 50 Desde o século 19, quando se iniciou o sistema de abastecimento de água e de coleta de esgotos na cidade de São Paulo e região os rios e cursos d’água começaram a receber alta carga poluidora. Por volta da década de 60 esses efeitos começaram a ser observados, com 40% dos imóveis ligados a rede de esgoto, do que somente 10% passavam por tratamento até chegar a seu destino (GORSKI, 2010). Despoluir os rios é possível do ponto de vista técnico, como já foi realizado em diversos países, com o caso do Rio Tejo, na Expo’98, em Lisboa. Entretanto a questão deve ser trabalhada primeiramente para conscientizar a população, o que não consiste em uma tarefa simples. Enquanto a mentalidade da população e principalmente dos gestores públicos não for alterada a situação só tende a piorar. De acordo com Lutti (2013) 4 os equívocos no planejamento urbano e a falta de gestão pública eficaz faz com que se dificulte a despoluição dos rios, somada a falta de saneamento básico em algumas regiões, com a ocupação das margens e a sua utilização para sistemas viários de alta velocidade, apoiados pela falta de sistemas de drenagem urbana e de políticas integradas entre os municípios das regiões metropolitanas e outros órgãos envolvidos. “Nossas cidades são acampamentos improvisados, terríveis, frutos de um capital inconsequente, de uma sociedade de consumo e de um urbanismo mercantilista e rodoviarista.” (DELIJAICOV, 20135). Delijaicov (2013) explica que a relação das cidades com seus cursos d´água começaram a entrar em conflito no período medieval com o crescimento urbano e alta densidade, provocando a poluição de seus rios e trazendo inúmeras doenças a população. Já no período do urbanismo sanitarista, no século XIX, o rio foi recuperado como elemento de identidade, com a criação de bulevares e praças. Entretanto com o crescimento exponencial da industrialização as áreas de várzea nas margens dos rios foram utilizadas para a implantação de ferrovias, de parques industriais e de redes de infraestruturas, que só se agravou com a implantação do urbanismo rodoviarista, intensificando a poluição dos cursos d´água. Este cenário 4 Retirado de entrevista de José Eduardo Lutti, promotor de justiça do meio ambiente da cidade de São Paulo, concedida a Revista AU nº 234, ano 28, de setembro de 2013, página 18, a respeito da despoluição dos rios urbanos. 5 Retirado de entrevista de Alexandre Delijaicov, professor da FAUUSP e criador do conceito de metrópoles fluviais, em 2013, a respeito da infraestrutura hidráulica urbana. 51 gerado pelo urbanismo rodoviarista e mercantilista pode ser visto com clareza na área escolhida para a implantação da Operação Urbana Consorciada Tietê II. Em seu recente estudo para a Prefeitura de São Paulo buscou desenvolver o projeto da Metrópole Fluvial, ou as hidrovias urbanas, que contam com cerca de 170 km de extensão, com uma rede de vias navegáveis, do qual o Rio Tietê faz parte, passando por Osasco no perímetro de intervenção da Operação Urbana, fugindo totalmente das legislações atualmente aplicadas aos cursos d´água e Áreas de Preservação Permanente (APP). É neste âmbito que se faz evidente a necessidade de um trabalho em conjunto com diversos órgãos, principalmente nas regiões metropolitanas. Recentemente houve a criação da Secretaria Desenvolvimento Metropolitano (SDM) 6 , na tentativa de promover uma gestão metropolitana que devem passar necessariamente por mudanças de postura dos governos. A proposta para a Operação Urbana Consorciada Tietê II busca torna o Rio Tietê seu elemento central, resgatando-o para a cidade e para os pedestres. Leva em conta a possibilidade de ter seu leito navegável, uma questão utópica, mas que já vem sido estudada a longa data por Delijaicov com o Hidroanel indicado abaixo (Figura 6). Figura 6 Proposta do Hidroanel em São Paulo, de Delijaicov. FONTE: REVISTA AU, ANO 28, N.º 234 DE SETEMBRO DE 2013, P.73. 6 Recentemente, o atual governador, Geraldo Alkimin, anunciou a extinção da Secretaria de Desenvolvimento Metropolitano (SDM), que havia criado oficialmente as regiões metropolitanas, como a Região Metropolitana de São Paulo, da qual faz parte o município de Osasco, possibilitando que pudessem ser tomadas ações em conjunto, passando suas atribuições a Casa Civil e cortando despesas, ação que ocorreu em virtude das manifestações de 2013. 52 Ao analisar a questão das frentes aquáticas urbanas entende-se que este processo é o principal contribuinte para a fundação de uma cidade e de seu desenvolvimento, transformando-se em seu personagem principal. É notável a quantidade de propostas e projetos de requalificação para estas frentes aquáticas urbanas em todo o mundo. Entretanto, o que deve ser evidenciado é a mudança de atitude no planejamento urbano que, após o período de industrialização e seus diversos males ás cidades, principalmente aos cursos d´água, viram suas áreas de várzea invadidas por indústrias e equipamentos infraestruturais, levam á transformações e a busca pela recuperação dessas paisagens urbanas decorrentes, principalmente, do processo de desindustrialização, em desenvolvimento no Brasil desde a década de 70. Observam-se diversos projetos urbanos de sucesso para o tema e o seu impacto acaba por transformar uma área urbana, seja ela uma nova centralidade criada, como o caso da Expo’98, em Lisboa; ou uma recuperação de borda do centro, como no caso do Rio Manzanares, em Madri; ou a reconversão de uma antiga zona portuária obsoleta, como no caso de Porto Madero, ou até mesmo a requalificação de uma zona central obsoleta e repleta de vazios urbanos, como o caso do objeto de estudo desta dissertação, a Operação Urbana Consorciada Tietê II, no município de Osasco. A reconversão de áreas que eram inteiramente voltadas para a indústria e que se tornaram ultrapassadas é vista amplamente na Europa, principalmente nas cidades mais antigas, como o caso de Paris. Nela o Rio Sena, que era completamente voltado para a indústria e transporte, acabou sofrendo requalificações com diversos parques e áreas públicas, como o Parque AndréCitroen e o Parque La Villette. Apesar dos inúmeros benefícios á cidade o lado ruim destas transformações pode ser visto claramente no processo de gentrificação, indissociável de qualquer requalificação urbana, expulsando os habitantes locais, muitas vezes mais pobres, que são ignorados pelas novas propostas. Cabe aos planejadores urbanos e aos gestores a procura da mitigação destes efeitos. Projetos urbanos como estes de Paris, que se iniciaram com a requalificação do Centro Pompidou em 1977, tiveram impactos nos projetos urbanos de todo o mundo e garantiu a competitividade da cidade, fundamental para a manutenção da 53 mercantilização dos centros urbanos, garantindo a sua vitalidade (COLQUHOUN, 1995). Em Paris as indústrias se localizam a leste da cidade desde o século 19 e os bairros da classe trabalhadora foram localizados perto das grandes indústrias, principalmente devido à mobilidade reduzida na época. A era da indústria pesada passou, entretanto essas áreas estão sendo revitalizadas com novos projetos, como o complexo de novos edifícios renovados do Parque La Villette. O processo de transformação pelo qual passou o leste de cidade e toda a Paris na década de 80 foi possível devido à presença de um grande número de terrenos abandonados. Quase todos os novos projetos foram construídos em áreas antes ocupadas por antigas indústrias, depósitos e linhas férreas. O objetivo anunciado no final da década de 70, pelo então prefeito de Paris, Jacques Chirac, era melhorar a qualidade das áreas abandonadas, com um encorajador programa multifuncional que englobava residências, comércio e serviços públicos (COLQUHOUN, 1995). O Parque André-Citroen, localiza-se ao sudoeste da área interna de Paris, local da antiga fábrica Citroen, que foi reconstruído para formar uma nova centralidade desta parte da cidade. O eixo da Rua Balard, indicado em vermelho na imagem a seguir, define uma fronteira a leste que é rodeada em ambos os lados por novas habitações, escritórios e um hospital. O parque é definido de maneira formal. No centro há uma larga área verde que vai até a estrada de ferro, que separa o parque do Rio Sena. De um dos lados há uma série de pequenos jardins, dispostos de maneiras diferentes, contrastando com a formalidade do espaço principal. Grande parte do parque foi projetada como uma área ecológica com diferentes espécies de plantas (Figura 7). Figura 7 Imagem do Parque André-Citroen, em Paris, á direita; á esquerda, linha vermelha demarca o eixo da Rua Balard. FONTE: 1. http://www.pps.org/great_public_spaces/one?public_place_id=718 (acessado em 13/12/2013 ás 15hs); 2. Base Google Maps. 54 A revalorização dos espaços públicos que se baseiam em ideias facilmente identificáveis nos espaços urbanos como parques, ruas, arborização, bulevares, promenades, praças, frentes ribeirinhas e a complexidade dos Planos para Paris de Haussmann. É um plano que evidencia o valor do desenho urbano, como elemento essencial para a regeneração urbana. O Parque La Villette, é uma referência internacional, resultado de um concurso em 1982, que elegeu o arquiteto suíço Bernard Tschumi como vencedor. Finalizado em 1989, é considerado um dos primeiros exemplos de desconstrução na arquitetura. É exemplo da nova tipologia de parque programático, com uma nova estratégia de urbanização, repleto de eventos. O arquiteto assume que não há arquitetura sem programa (TSCHUMI, 2011). Trata-se de um parque urbano contemporâneo que recuperou uma área degradada na periferia de Paris. É uma proposta em um antigo vazio urbano, na área do antigo matadouro público da cidade, composto de equipamentos que são distribuídos nos percursos, segregados ou desmembrados, que formam um conjunto integrado, com edifícios de estrutura metálica. Ele faz parte de um Master Plan, envolvendo o desenho de 25 edifícios, promenades, passeios, pontes e jardins, baseando-se num sistema de dispersão de pontos, ou as chamadas “folies” que tem funções programáticas diferentes e criam uma nova articulação territorial (Figura 8 a e b). O traçado geométrico de sua planta, marcado por avenidas que interligam os vários pontos de referência, compostos por locais destinados á diversão e lazer. A área do parque determina os usos abertos, de modo que o percurso faz a conexão entre os pontos ou as “folies” e os edifícios maiores, como a estrutura metálica do antigo matadouro, que se transformou em área de exposições. Figura 8 1) imagem do traçado do Parque La Villete com os pontos vermelhos representando as “folies” ou os acontecimentos; 2) uma vista do parque. FONTE: 1. WWW.TSCHUMI.COM (ACESSADO EM 15/12/2013 ÁS 20H20); 2. http://uk.tourisme93.com/document.php?pagendx=10015 (acessado em 15/12/2013 ás 22h40) 55 As requalificações de frentes aquáticas devem ser explicadas também através de fatores econômicos e sociais que retratam as mudanças nas cidades dos padrões de vida da população. Hoje há demanda de mais espaços para o lazer e recreação, motivo pelo qual se produzem tantos projetos voltados para esta finalidade nas frentes aquáticas, especialmente voltadas ao turismo. A descontaminação dos cursos d´água vem crescendo desde a década de 70 devido principalmente as questões de saúde, bem como as questões relacionadas à sustentabilidade e reuso da água. Devido à possibilidade de requalificar estas áreas de extrema potencialidade tem-se observado o fenômeno de atração da população para as proximidades das frentes aquáticas, contrastando com o período em que estas áreas eram tomadas pelas indústrias. Entretanto a simples revitalização destas áreas não é garantia de sucesso, muitos são os casos onde não se desenhou o plano urbano com base em um olhar atento a vocação do solo ou às suas possibilidades econômicas, como o caso das Docklands, em Londres. Os casos de requalificação de frentes aquáticas de sucesso devem refletir as características locais e a identidade da cidade (BREEN; RIGBY, 1996). Segundo Jacobs (2000) as frentes aquáticas são potencialidades das cidades desperdiçadas, pois poderiam ser utilizadas para o lazer da população. A capacidade que essas áreas possuem de agregar valor e atender as demandas urbanas ultrapassa os limites do desenho urbano, sejam elas voltadas para a cidade orientada pelo consumo, atendendo a fórmulas corporacionais que envolvem comer e fazer compras, como afirma Breen e Rigby (1996), com comércio e atividades turísticas, seja voltado para as atividades recreacionais, locais amenos em meio à urbanização, resgatando o sentido de urbanidade. O tradicional comércio de frentes aquáticas tem sido adaptado às novas demandas sociais e econômicas, não devendo se limitar-se apenas a receber intervenções pautadas no comércio e lazer. Como revelam os inúmeros projetos urbanos nessas áreas, como o próprio caso do Parque das Nações, parte da Expo’98, em Lisboa, requalificação urbana e ambiental em uma antiga zona industrial obsoleto. A questão cultural e social é um importante fator na conscientização das populações urbanas para esta questão que, sem o auxílio de um controle efetivo da 56 gestão dos recursos hídricos, de urbanização e de saneamento básico por parte do poder público, torna-se impossível por em prática. As frentes aquáticas são frequentemente ligadas ao passado industrial e ao passado histórico cultural da sociedade a qual pertence, conectadas pela herança aquática. As cidades que recuperam e revitalizam as frentes aquáticas, em especial as históricas, conseguem resgatar o passado à vida contemporânea e a identidade local. Este sentimento de pertencimento a um local, resgatado pela requalificação de uma área, é observado nos estudos de caso tratados mais adiante, especialmente em Porto Madero, em Buenos Aires, onde um antigo porto, com suas características e morfologia que fazem parte da memória da cidade, foi revitalizado e teve suas edificações históricas, relacionadas à função de porto, recuperadas e transformadas em escritórios, centros de lazer e turismo, entre outras funções, garantindo multifuncionalidade ao projeto urbano e vida a nova área. A tendência mundial de revitalização das frentes ribeirinhas é vista em todo o mundo, em projetos de referência em cidades que entraram para o mundo globalizado, como Boston, com o projeto pioneiro e paradigmático de sua frente marítima no final da década de 50; Londres, com o projeto das Docklands, projeto criticado e considerado fracassado pela falta de uso da década de 80 e; Barcelona, com o projeto para as Olimpíadas, tornando-se um dos maiores ícones de revitalização urbana no início da década de 90 (SÁNCHEZ; BERALDINELLI, 2004). Breen e Rigby (1996) em publicação acerca do tema. Revelando que as suas antigas funções de trabalho, como portos, usos industriais e equipamentos de transportes, desde que efetivamente ocupadas, devem ser mantidos e adaptados, ganhando um novo design e preservando estas áreas ambientalmente frágeis. Na Ásia, podemos observar com a recuperação do córrego Cheonggyecheon, em Seul, na Coréia do Sul, concluído em 2008, a recuperação de um rio urbano com 6 km de extensão na região central da cidade possuindo um imenso valor histórico e cultural para a identidade da cidade e de sua população. O rio sofreu com os processos de retificação e ocupação de suas margens por volta de 1910, sendo coberto por vias rápidas em 1948 e recebendo uma via expressa elevada em 1976. As propostas de recuperação do córrego começaram a ser levadas em consideração devido a problemas estruturais das vias, quando se chegou à conclusão em 1990 de 57 que seria melhor recuperar o córrego e trazê-lo de volta a céu aberto. Entretanto, devido à falta de espaço e, apesar de sua calha ter recebido mais área, o córrego continua retificado e separado das redes de esgoto, que são tratadas em outro local. O projeto, que conta com previsões de cheias em diferentes cotas, caminhos de pedestres e passarelas, promoveu a requalificação ambiental desta área e valorizou os imóveis no entorno (ROWE, 2013). O projeto de recuperação do córrego Cheonggyecheon, pelo fato de estar inserido em uma área densamente ocupada no centro urbano de Seul, teve de ser tratada de modo artificial, continuando a retificação de sua calha a quase 90º, mas com um novo tratamento nas bordas, inclusive com a inserção de vegetação e equipamentos públicos (Figura 9 a, b, c e d). Figura 9 Imagens referentes à recuperação do Córrego Cheonggyecheon: 1. Foto atual; 2. Esquema que mostra a estrutura antes da revitalização; 3. Esquema que revela as modificações após a revitalização; 4. Uso da área. FONTE: ROWE , 2013 EM: Revista AU. Edição especial sustentabilidade: a cidade e as águas. Revista AU, nº 234, ano 28, de setembro de 2013. . Na América Latina as frentes aquáticas veem importando modelos urbanísticos de relativo sucesso mundial, principalmente provindas da Europa e América do Norte, que estão fora do contexto dos centros urbanos sul-americanos que se agravam com a adoção de práticas do urbanismo estratégico internacional que prometem a recuperação econômica e cultural dessas áreas através de centros culturais, comércio, lazer e trabalho, promovendo requalificação urbana, arquitetônica e econômica, apoiados na inversão do público e privado que favorece 58 o mercado de consumo, trazendo consigo o processo de gentrificação. (SÁNCHEZ; BERALDINELLI, 2004). Porto Madero, em Buenos Aires, influenciou em muito as propostas brasileiras, como o caso do projeto da Estação das Docas, em Belém do Pará, do ano 2000, que se assemelha em muito com a proposta argentina de recuperação de uma frente ribeirinha de reconversão de antigos galpões para uma apropriação do planejamento urbano estratégico e a promoção de áreas de lazer e um complexo de restaurantes, uma intervenção pontual na região costeira buscando a integração do rio com a cidade, com a participação de atores públicos e privados, sendo a iniciativa tomada pela municipalidade (KRUSE, 2011). Deveriam levar em conta as características locais, culturais e geográficas, fortalecendo as atividades econômicas e sociais, gerando emprego e resgatando a cultura da população local, preservando a manutenção da mesma no local, contribuindo para a mitigação do processo e para a inclusão social desta população aos benefícios providos pela requalificação. No Brasil, as frentes aquáticas vêm recebendo projetos em uma velocidade modesta comparada ao restante do mundo. O problema que aqui se nota, como em quase todos os setores do planejamento urbano, é a falta de continuidade dos projetos por parte do poder público e a falta de recursos. As iniciativas são pequenas, mas já se podem observar algumas referências importantes, como o caso da recuperação do Rio Piracicaba que busca retomar a articulação do rio em seu trecho urbano com a cidade, resgatando seu caráter simbólico e o tecido urbano (Figura 10). Este projeto é considerado um exemplo pioneiro de recuperação de um rio urbano no país e foi iniciado em 2001 em uma das bacias hidrográficas mais críticas do estado de São Paulo devido ao despejo do esgotamento sem tratamento dos municípios vizinhos. Um ponto muito importante do projeto, como cita Gorski (2010), é a efetiva ação do poder público no gerenciamento deste projeto, com a participação popular e a intermediação com os técnicos responsáveis entre os diversos atores, que buscaram a metodologia de planejamento urbana tradicional. 59 Figura 10 Recuperação do Rio Piracicaba. FONTE: GORSKI (2010). A recuperação do córrego Pirarungáua, no Jardim Botânico, de 2008, com apenas 240 metros de extensão, um dos formadores do Rio Ipiranga, trecho pequeno de um curso d´água que passa por um parque em uma área de preservação, é um exemplo de um rio renaturalizado, como um exemplo original de infraestrutura verde, diferentemente dos outros projetos no país que não passam de tentativas acerca do tema, que dependem do desenvolvimento da infraestrutura de saneamento primeiro. A renaturalização do curso d´água transformou a paisagem, onde antes era canalizado e, sobreposto por uma alameda imponente recoberta por mosaicos portugueses logo na entrada do jardim Botânico de São Paulo. A iniciativa foi do Governo do Estado, que decidiu resgatar o córrego e trazê-lo de volta ao convívio do parque, com seu caráter simbólico e procurando criar um microclima, antes sufocado pela ilha de calor criada pelo mosaico português (Figura 11 a e b). O projeto respeita a paisagem natural, evitando os cortes a 45º á 90º normalmente utilizados em recuperações e canalizações de rios e córregos, de modo que foi criado um novo passeio por meio de um deck suspenso, para evitar que se pisoteie o solo recriado (FRANCO, 2013) 7. 7 Retirado de palestra ministrada pela docente Maria Assunção Ribeiro Franco, em 15/10/2013, no 8º Fórum de Pesquisa FAU-Mackenzie, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em mesa de debate intitulada Construção da Paisagem Contemporânea. 60 Figura 11 Imagens do antes e depois da recuperação do córrego Pirarungáua, no Jardim Botânico de São Paulo: a) antiga Alameda Fernando Costa; b) córrego já recuperado. FONTE, Á ESQUERDA: WWW.CONDEPEFI.SP.GOV.BR/NOTICIAS/80_ANOS_BOTANICO, ACESSADO EM 29/11/2013 ÁS 20H45. FONTE, Á DIREITA: HTTP://RIOSERUAS.WORDPRESS.COM/2012/01/29/CORREGO-PIRARUNGAUA-NO-JD-BOTANICO-PEDAL-VERDE, ACESSADO EM 29/11/2013 ÁS 21H. A revitalização do córrego Sorocaba, localizado em município com o mesmo nome, envolve a recuperação das margens degradadas, promovendo um parque com passeios de pedestres, área de ciclovias e conjuntos habitacionais (RIOLI, 2012). O processo envolveu a despoluição do curso d´água (Figura 12 a e b). Figura 12 Imagens do Rio Sorocaba: a) antes; b) depois da revitalização. FONTE: LANGRENEY; RIOLI (2012). Além do fator econômico e social, a questão ambiental por si só é um importante aspecto no processo de recuperação destas. Esquece-se, entretanto, de se tratar o problema em suas raízes, constituídas na falta de infraestrutura urbana, sistemas eficientes de macrodrenagem e saneamento básico que, aliados a política rodoviarista, acaba por transformar nossos cursos d´água em esgoto a céu aberto, levando as áreas próximas ou as frentes aquáticas a se degradarem. Nossa legislação acerca do assunto ainda é ineficiente e controversa, relegando essas áreas á população marginalizada, onde apenas com a Constituição Federal de 1988 é que se começou a ter uma visão global do assunto, entendendo os cursos d´água 61 como parte de uma bacia hidrográfica, de um território, que deve ter propostas integradas. É importante ressaltar aqui as políticas públicas brasileiras acerca do tema, iniciando-se pelo primeiro Código Florestal, em 19348, revisto em 19659 e completamente reformulado em 2012, que instituiu um sistema de proteção as nascentes como Áreas de Proteção Permanente (APPs) determinando um raio não edificado nas nascentes de 50m e modificou a largura a ser mantida nas margens dos rios que passam a variar de acordo com a largura do mesmo: nos rios de até 10m de largura deve haver 30m de mata preservada, de 10 á 50m deve ter 50m de mata e assim por diante. Este pensamento evidenciou a necessidade da criação das Regiões Metropolitanas de modo que o planejamento pudesse ser pensado em escala regional efetivamente e coordenado por grupos de regiões metropolitanas, coordenados pelo governo do estado de São Paulo, ato que só foi concretizado em 201110 após a criação, em 1997, da Política Nacional de Recursos Hídricos11, que criou o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (Singreh) destituindo os municípios do domínio sobre seus cursos d´água, mas estabelecendo o mesmo como o responsável pela gestão de seus recursos. De acordo com Martins (2006), o Estatuto da Cidade12 é responsável pelo estabelecimento de parâmetros e instrumentos de planejamento urbano importantes definindo diretrizes gerais como o direito á cidade sustentável, com saneamento, infraestrutura urbana e moradia e introduz o conceito de gestão democrática, garantindo a participação popular, com uma visão de política de baixo para cima. Franco13 (2013) revela que é possível resgatar um rio que se encontrava canalizado ou poluído, pois as políticas públicas adotadas a respeito do tema 8 Instituído pelo Decreto 23.793, atualizado primeiramente pela Lei Federal em 1965. Instituído pela Lei Federal nº 4.771, atualizado pela sua completa revisão em 2012. 10 A RMSP havia sido instituída em 1973 por Lei Federal, mas não possuía existência legal, pois dependia de aprovação de lei estadual, o que se efetivou com a criação do então governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, em janeiro de 2011 pela Lei Complementar Estadual nº 1.139, de 16 de junho de 2011. 11 Lei Federal nº 9.433 ou a chamada Lei das Águas, forçando os Estados a executarem suas próprias legislações. 12 Lei nº 10.257/01, que institui o Estatuto da Cidade e regulamenta novos instrumentos urbanísticos. 13 Retirado de palestra ministrada pela docente Maria Assunção Ribeiro Franco, em 15/10/2013, no 8º Fórum de Pesquisa FAU-Mackenzie, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em mesa de debate intitulada Construção da Paisagem Contemporânea. 9 62 promovendo infraestruturas que canalizam e retificam os rios vão acabar por destruir a cidade, bastando uma simples chuva para colapsar o meio urbano. O que esta sendo feito atualmente no país são retificações de rios e não resgate de cursos d´água. Isso advém do fato das políticas de planejamento desde o século XIX que resolveram retificar os rios, retirar suas curvas, modificar seu curso natural, como ocorre na área da Operação Urbana Consorciada Tiete I e II, e aterrar as margens para ganhar território. Os rios precisam de espaço nas diferentes épocas do ano, espaço este que já não há nos grandes centros urbanos, o que se vê são projetos de recuperação parcial de suas margens. O Rio Tietê faz parte da principal bacia hidrográfica da cidade de São Paulo, sendo responsável pela descoberta de novos lugares no Estado, principalmente no interior, provendo alimento, lazer e transporte á população até meados do século XX. A partir daí, devido ao crescimento urbano desordenado, houve um aceleramento do processo de degradação de suas margens com a ocupação das mesmas e a modificação de seu traçado natural, com as retificações adotadas pelas medidas sanitaristas que impermeabilizou mais de 80% do solo próximo as margens (LANGRENEY; RIOLI, 2012). De acordo com Santos e Abascal (2012) as preocupações acerca do meio ambiente advêm da Conferência de Estocolmo em 1972, entrando com força no mercado imobiliário a partir de 1992 com a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. É exigida cada vez mais a diminuição do impacto das edificações ao meio ambiente e, com isso, adquiri-se uma vantagem competitiva com relação aos empreendimentos que não se preocupam com o tema, atraindo consumidores que buscam estes ideias e, principalmente, o retorno econômico que uma edificação sustentável pode oferecer. A partir desta necessidade crescente do mercado é que foram desenvolvidas em vários países as certificações verdes que avaliam os edifícios segundo os critérios pré-estabelecidos e permitem avaliar os projetos qualificando-os como redutores de poluição de diferentes níveis. 63 1.4. MULTIFUNCIONALIDADE E UNIFUNCIONALIDADE NOS PROJETOS URBANOS As diferenças entre multifuncionalidade e unifuncionalidade urbana com base nos princípios defendidos por Victor Gruen (1973), conceitos atuais até os dias de hoje, que orientam os projetos urbanos, criticando os centros unifuncionais que estão sendo materializados pelo mercado de consumo capitalista. Utiliza-se da multifuncionalidade para dar vida aos centros urbanos. Observam-se os problemas relativos à unifuncionalidade dos projetos urbanos e se identifica um novo padrão de urbanismo emergente que pode ser explicitada abaixo: “Embora quase todas as aglomerações urbanas do mundo estão crescendo de forma dinâmica em tamanho e número de habitantes, a sua qualidade de urbanidade está diminuindo simultaneamente e na mesma velocidade.” “Though nearly all urban agglomeration throughout the world are growing dynamically in size and number of inhabitants, their quality of ‘urbanity’ is diminishing simultaneously and t the same speed.” (GRUEN, 1973, p. 85) Este sentido de urbanidade é desejável nos grandes projetos urbanos e deve proporcionar a interação entre os diferentes grupos sociais, promovendo espaços coletivos, com a possibilidade de escolhas entre público e privado. O centro unifuncional o núcleo urbano que possui apenas uma função decorrente a um uso específico do espaço construído ou do uso, mesmo que com mais funções, de um local destinado a uma parcela restrita da sociedade. Esses espaços que se proliferaram pelos grandes centros urbanos, na maioria das vezes, dispersos pelo território dispendem de tempo e recursos financeiros exorbitantes para manter seu funcionamento por um curto período de tempo, não garantindo a vitalidade dos centros urbanos e, em consequência, produzindo o que chamamos de “anti-cidade” (GRUEN, 1973). As ruas, os primeiros espaços públicos criados, se transformaram em locais de fluxo e passagem, que atendem as exigências de locomoção entre os centros urbanos e as regiões periféricas ou cidades dormitórios, onde podemos enquadrar o 64 município de Osasco, por causa da dispersão urbana e da necessidade criada de deslocamento dos indivíduos. Entretanto a mobilidade urbana deveria ser discutida em termos de possibilitar o individuo a transitar livremente pela cidade não de forma impositiva, mas de maneira sustentável. Este fenômeno poderia ser solucionado com a implantação de centros multifuncionais, inclusive nas regiões periféricas, fornecendo a possibilidade de escolha de se deslocar ou não para a população que reside nestas áreas. Os centros multifuncionais são locais verdadeiramente urbanos, evitando desperdício de recursos públicos com o transporte público e infraestruturas, paralelamente, enquanto os centros unifuncionais desperdiçam uma imensa quantidade de recursos e infraestruturas que funcionam em horários restritos. O processo de evolução das cidades se baseia nas políticas públicas voltadas para o uso do automóvel particular, que é compreendido pela maioria dos governos como a única maneira possível de deslocamento nas porções do território subdesenvolvido, que não possuem oferta de trabalho ou lazer, para as áreas desenvolvidas, geralmente alocadas de acordo com a expansão urbana de maneira fragmentada. A condição a qual o automóvel foi colocado levou a políticas rodoviaristas em prol da indústria automobilística, que o poder público municipal da cidade de São Paulo, adotou com muita força a partir de 1920, com o Plano de Avenidas de Prestes Maia, que propunha um projeto de irradiação e expansão do centro prevendo seu crescimento exponencial e permanente, época em que também se imaginava a ocupação das várzeas do Rio Tietê para espaços de lazer e plantas industriais, propondo o crescimento horizontal e vertical (SOMEKH; CAMPOS, 2012). Entretanto, a ideia de solução universal para os problemas urbanos relacionados á explosão demográfica tomada por Prestes Maia pautadas em referencias urbanísticas norte americanas, completamente fora de nosso contexto cultural, social e econômico, trouxe para São Paulo uma herança desastrosa que resultou em um caos urbano apoiado na desigualdade e na fragmentação territorial (SOMEKH; CAMPOS, 2012). 65 Os centros unifuncionais ou conjuntos que não agregam mais de uma função urbana causam efeitos comuns como a mobilidade forçada, a conformidade e os encargos financeiros. São conjuntos que segregam o uso do solo urbano, dividindoo por funções ou zonas específicas. O grande problema de sua implantação no tecido urbano é o seu efeito comum de desertificar uma região que só tem um uso efetivo em determinados horários do dia e da semana, tornando-se espaços perigosos nos horários ociosos, sem vida ou relação entre espaço público e privado, economicamente inviáveis devido ao tempo e recursos gastos para a sua manutenção (GRUEN, 1973). Tem-se assistido nos noticiários do país as novas obras das linhas de metro na RMSP, como a linha amarela recentemente inaugurada e, já no primeiro dia de inauguração, considerada obsoleta. Bem como o caso do Elevado Costa e Silva, o famoso “minhocão” em São Paulo, que, no dia de sua inauguração viu-se parado pelo transito caótico da cidade, transformando-se em uma estrutura obsoleta e segregando o tecido urbano devido a seu impacto no mesmo (ARTIGAS; MELLO; CASTRO 2008); caso muito semelhante ao já estudado neste capítulo, da reconversão do córrego Cheonggyecheon, em Seul, onde a estrutura viária suspensa de alto fluxo que tampava o curso d´água foi removida para dar espaço a um parque linear voltado aos pedestres, não causando nenhum tipo de impacto ao trânsito local. O fato é que, como já apontava Gruen (1973), a origem e destino apresentada nas pesquisas é tamanha e tão diversa que se torna praticamente impossível ser assertivo com as políticas de mobilidade urbana enquanto existirem os centros unifuncionais e as cidades dormitórios e enquanto houver a divisão do solo por zoneamentos. O conceito de multifuncionalidade não é um tema novo e pode ser observada desde as primeiras civilizações com inúmeros benefícios á história da urbanização. Sua aplicação é vista em muitos centros urbanos de cidades antigas ou em pequenos trechos das mesmas, combinando o estilo de vida da sociedade desejado com o estilo de vida da sociedade contemporânea. Entretanto, devido ao fenômeno do esvaziamento dos centros urbanos, essas áreas estão se tornando degradadas e perdendo a sua utilidade e seu papel na cidade. 66 A cidade multifuncional vai contra os princípios definidos na Carta de Atenas, produzida pelo CIAM com a liderança de Le Corbusier em 1933, e o movimento moderno, responsáveis pela inserção do instrumento do zoneamento separando por funções o tecido urbano. A multifuncionalidade aqui defendida deve ser pautada na combinação do maior número de funções possíveis em uma área urbana, indo no sentido contrário das políticas públicas adotadas de segregação e fragmentação urbana. Não se trata da disseminação indiscriminada de centros multifuncionais pela cidade, mas da seleção das áreas mais adequadas para tal, não se tratando, porém, de um novo zoneamento (GRUEN, 1973). Em algumas cidades optou-se pela restrição do uso dos veículos em algumas ruas e em períodos de tempos. Como no caso da cidade de Lisboa, que possui um plano de mobilidade urbana que efetivou o uso prioritário do transporte público de maneira integrada, garantindo acessibilidade14 (SILVA, 2012). Em São Paulo o rodízio municipal de veículos que, em quase nada, auxilia na redução de seu trânsito caótico, apenas contribui como uma ação paliativa. Temos observado várias cidades criando ruas ou zonas de pedestres de modo permanente ou temporário, entretanto este tipo de solução é ainda raro nas grandes cidades. Podemos observar ruas de pedestres em muitas partes da região central de Curitiba, de Jaime Lerner. O mesmo tipo de solução pode ser vista no município de Osasco, onde a 2ª maior rua de comércio a céu aberto, Rua Antônio Agú, possui um grande trecho restrito aos pedestres, trecho que vai até a Estação Osasco e, após a conclusão das intervenções criadas pela Operação Urbana, irá até o Novo Paço Municipal, que faz parte de seu perímetro e terá uma grande área de pedestres, denominada Praça Cívica (Figuras 13 a e b). Um exemplo de grande zona de pedestres são os espaços da Expo’98 de Lisboa, completamente voltados para os pedestres, bem como sua via de acesso que, apesar de ser utilizada por veículos, possui um transito local que prioriza o pedestre (Figura 14). 14 De acordo com o secretário de Mobilidade Urbana de Lisboa Fernando Nunes da Silva em palestra realizada na PUC em 16/04/2012 com o tema “Mobilidade à escala metropolitana: da linha à rede intermodal”. 67 Figura 13 a) vista do término do Calçadão da Rua Antonio Agú com a Estação Osasco; b) vista do Calçadão da Rua Antonio Agú já revitalizado pela Operação Renova Centro. FONTE: Á ESQUERDA, ACERVOS PESSOAIS DA AUTORA (2013); Á DIREITA, REVISTA OSASCO PLAZA SHOPPING EM: HTTP://WWW.EDITORAEXPEDICOES.COM.BR/REVISTAOSASCOPLAZASHOPPING/?P=167 ACESSADO EM 16/11/2012 ÁS 8H37. Figura 14 Vista do espaço da Expo a partir do Shopping Vasco da Gama, onde se pode observar á esquerda a via de automóveis que possuiu uma singela relação com os pedestres. FONTE: ACERVOS PESSOAIS DA AUTORA (2010). A multifuncionalidade urbana pode ser vista claramente nas cidades que mantém seus centros urbanos tradicionais, principalmente nos núcleos urbanos que refletem o modo de viver tradicional em sociedade, mantendo as relações sociais. De acordo com Zeidler (1985) as cidades mais atraentes são aquelas que possuem uma ampla rede de funções, entretanto necessitam de manutenção e renovação constante de acordo com as modificações da sociedade alterando as infraestruturas, redes, sistemas e equipamentos obsoletos. Os edifícios multifuncionais fazem parte do tecido urbano e das cidades tradicionais desde muito tempo. Sua origem remonta as antigas civilizações, como as cidades gregas, no espaço da Ágora, onde se observa as diversas funções no mesmo espaço, entretanto muito se modificou da sociedade grega para a sociedade atual, como a função do trabalho na vida urbana. Os gregos priorizavam a vida em sociedade, a vida pública e os espaços públicos; diferentemente do que ocorre em sociedades que priorizam o comércio ou qualquer outro fator. As vilas medievais são 68 importantes exemplos de territórios multifuncionais por sua essência, de modo que, na mesma edificação coexistia o trabalho e a moradia. O espaço das ruas era o lugar do comércio. Entretanto, devido a seu crescimento para fora dos limites das muralhas acaba-se por segregar as funções naturalmente, o que se pode considerar a origem das cidades dormitórios atuais (Zeidler, 1985). A partir da década de 50 se instaura na Europa o Urbanismo Moderno, após a 2ª Guerra Mundial, devido ao cenário de destruição e a falta de habitações surgiu à necessidade de promover a rápida reconstrução de grandes trechos das cidades atingidas, principalmente no que diz respeito á questão habitacional, buscando reduzir custos e racionalizar a construção. No início deu-se o choque entre os ideais do urbanismo convencional mais inovado e os ideais conceituais do urbanismo moderno, que se mostraram agressivos. Devido à urgência para atender a demanda pouco se discutiu a respeito dos dois ideais. O que se observou, no entanto, foi à utilização em massa do urbanismo moderno devido a sua facilidade construtiva, racionalidade e economia, promovendo a então chamada construção em massa (LAMAS, 2011). A Revolução Industrial fez com que muitas edificações fossem sobrepostas a um único local de trabalho, os edifícios multifuncionais unificaram visualmente as fachadas, promoveram arcadas, passeios cobertos, galerias e bulevares. Trouxe consigo um acúmulo de diferentes funções que não se adaptavam facilmente ao tecido existente. Os núcleos industriais criados, principalmente localizados nos centros das cidades e em áreas de várzea eram abastecidos com trabalhadores pelas ferrovias, aumentando o efetivo de população urbana e, consequentemente, o número de habitações precárias. Devido ao quadro instalado muitas foram às propostas de modelos ideais e utópicos de cidades. Zeidler (1985) identifica o capitalismo como o agente responsável pela deterioração das cidades e seus núcleos urbanos. Personalidades como Robert Owen e Charles Fourier fizeram propostas para formar sociedades novas e formularam as bases para os princípios modernistas defendidos pelo CIAM15 (Congresso Internacional de Arquitetura Moderna), fazendo com que os princípios urbanísticos de multifuncionalidade da 15 Congresso Internacional de Arquitetura Moderna em 1933, onde a Carta de Atenas foi produzida com muita influencia de Le Corbusier. 69 cidade tradicional fossem substituídos por novas legislações e funções, doutrina que visava reduzir os conflitos sociais. Os ideais do CIAM se justificam pela necessidade de recuperar as cidades abaladas pela guerra objetivando a racionalidade da construção com baixos custos, tendo a habitação no papel central da requalificação urbana e influenciaram as transformações no tecido urbano fortemente entre 1945 e 1960 (LAMAS, 2011). Com base em uma análise de uma seleção de trinta e três exemplares de cidades o CIAM produziu a Carta de Atenas, uma espécie de carta de princípios que considerava as edificações multifamiliares como a única saída para o caos urbano. A aplicação destes princípios se deu de uma maneira dispersa e em prol de determinadas zonas da cidade, propondo a dispersão e segregação de todos os componentes urbanos revelando-se como base para o urbanismo moderno e dividindo o território em espaços de lazer, de moraria e trabalho, restando à circulação entre estes elementos (ZEIDLER, 1985). A transformação da malha urbana em funções definindo três grandes funções urbanas separadas por zonas acabou por relegar ás ruas, os primeiros espaços públicos e coletivos, como espaços de transição, intermediários. Os conceitos expostos pelo CIAM foram criticados pelos arquitetos do Team 10 no ultimo congresso em 1956 abordando as questões de recuperação dos centros urbanos, com base em análises do tecido urbano e das relações sociais reais nas cidades, promovendo modelos urbanísticos baseados na realidade e respeitando os velhos modelos (LAMAS, 2011). De acordo com Lamas (2010) não se pode afirmar que os problemas das cidades contemporâneas advêm exclusivamente dos princípios definidos pela Carta de Atenas, entretanto admitem-se algumas relações entre seus ideais e alguns problemas urbanos atuais: a racionalidade gerou inúmeros conjuntos habitacionais sem vida, a delimitação de usos e funções no solo influenciou no fenômeno de desertificação dos centros urbanos, bem como o aumento do trafego de veículos e da mobilização forçada. Os principais alvos da reestruturação urbana definida pelos princípios modernistas eram relativos à questão fundiária, modificando a questão da rua e da quadra, modificando o sistema de loteamento e de divisão entre espaços públicos e privados, tendo o desenho urbano como instrumento de planejamento. Do 70 movimento moderno advêm as primeiras práticas de requalificação urbana, como uma espécie de “tabula rasa” destruindo as partes insalubres. Há muitos governantes que planejam suas cidades de modo “esquizofrênico”, planejando um mundo imaginário. Constroem instalações e infraestruturas que competem umas com as outras, como o caso de Paris, na França, onde se gastou a mesma quantia para expandir e modernizar as redes de metro e, ao mesmo tempo, para a construção de vias rápidas, passagem subterrâneas, viadutos e estacionamentos públicos, de modo que um cancela o efeito do outro (GRUEN, 1973). Deve-se optar por uma escolha entre transporte público ou transporte individual para buscar uma qualidade urbana melhor, a chamada urbanidade. O Brasil de modo geral optou pela indústria automobilística desde a era Prestes Maia com seu Plano de Avenidas, em São Paulo. As discussões sobre mobilidade urbana se pautam nos automóveis e na melhoria e criação de novas vias. Apenas a multifuncionalidade do território é que pode garantir a vitalidade dos espaços urbanos garantindo a existência das funções primordiais para o funcionamento das cidades, aliadas ao papel do projeto urbano, juntamente com as políticas públicas e sua gestão é então fundamental para efetivação da urbanidade e da garantia do direito á cidade. As políticas públicas de gestão devem ser de baixo para cima, garantindo a participação popular e mediando as forças e vontades de todas as parcelas da sociedade. Segundo Hehl (2011) a mudança mais importante que o planejamento urbano sofreu foi na modificação de práticas adotadas de cima para baixo para práticas de baixo para cima, com o apoio mútuo entre os macro e micro atores do processo de planejamento que possuem a mesma capacidade de intervir no território, visando o acesso à vida urbana e reconhecendo os processos informais existentes. No município de Osasco é possível identificar resquícios do planejamento urbano de baixo para cima, com a criação de grupos de discussão, como o Grupo de Gestão da OUCT II. 71 1.5. A PÓS-MODERNIDADE, OS PROJETOS URBANOS E AS ORIGENS DA CIDADE ORIENTADA PELO CONSUMO A pós-modernidade, estudada de maneira aprofundada por David Harvey (2011), é aqui discutida, revelando uma cidade produzida por signos e imagens que representavam o individualismo. O pós-modernismo é identificado não apenas pela mudança de tendência ou estilos arquitetônicos, mas por diversos fatores que acarretaram em mudanças na vida urbana a partir da década de 70. O pósmodernismo vai contra os grandes planos urbanos de larga escala do período moderno sustentados por uma arquitetura funcional e despojada identificando a cidade da maneira como ela é: fragmentada. Observam a cidade por seus fragmentos realizando projetos urbanos indo no âmago da questão que aqui se tenta provar: vão do plano, do planejamento modernista, ao projeto urbano, dos ideais pós-modernos, criando uma modificação no processo de planejamento. Os grandes projetos urbanos da era pós-moderna fazem uma clara oposição aos planos diretores, com seus modelos de planejamento integrado, utilizados de maneira hegemônica no urbanismo moderno. As primeiras discussões teóricas a respeito do urbanismo moderno se deram a partir da década de 60, identificando os problemas propostos por planos de massa e planos diretores gerando o início da crise do urbanismo moderno, culminando no início de seu fim na década de 70 (LAMAS, 2011). É importante observar as diferenças entre o modernismo e o pós-modernismo no âmbito urbano, tendo o primeiro com propósitos sociais e o segundo com propósitos estéticos (HARVEY, 2011). Os legados do urbanismo moderno para as configurações atuais de nossas cidades são muito de seus conceitos amplamente aceitos e difundidos, como a separação urbana por funções distribuídas em zonas acabando com a multifuncionalidade. A tentativa de dar a cidade uma organização extremamente racional, trouxe sérias consequências para a mobilidade urbana: aumentou a densidade de suas periferias e manteve as atividades do setor terciário em polos centrais ou esparsos e, com eles, dispersou as fontes de renda e possibilitou o surgimento de cidades dormitórios. Os interesses imobiliários que se estabeleceram 72 desde a década de 30 se transformaram em um “instrumento de poder” para as classes dominantes, de maneira que o mercado imobiliário controla o uso do solo, a distribuição de funções no mesmo e até mesmo as políticas públicas (BENEVOLO, 2005). O movimento moderno contemplou os núcleos urbanos como recipientes para as mais diversas funções, entretanto, estas funções se encontram isoladas das demais formando os centros unifuncionais. Os modelos urbanos utópicos criados pelo urbanismo moderno se revelaram como fracassos pelas requalificações urbanas, devido ao planejamento urbano que ignora a interdependência das funções urbanas e, mais do que isso, humanas (ZEIDLER, 1985). O principal instrumento do planejamento urbano é o plano de massas que parte de uma ferramenta de apresentação e composição gráfica dos grandes planos urbanos para se tornar parte da metodologia da composição urbana, promovendo a disposição aleatória de volumes em um sítio. Este instrumento teve de ser adotado devido à extensão das áreas que precisavam ser reconfiguradas no pós-guerra. A partir deste momento traçam-se os caminhos para a separação entre a arquitetura e o planejamento urbano, principal causa dos problemas urbanos atuais, onde as questões sociais, econômicas e demográficas começam, juntamente com a questão dos programas e funções, a serem mais importantes do que o desenho urbano, tendo o urbanismo como um plano, muitas vezes teórico e não experimentado, extinguindo-se o projeto urbano neste período (LAMAS, 2011). Jacobs (2000) identifica as propostas de reconstrução das cidades do pósguerra como propostas de devastação das cidades, reconhece-se aqui a importância e o papel essencial do movimento moderno na reconstrução das cidades no pósguerra. As exceções que fazem parte das tentativas modernas de responder as críticas ao racionalismo funcional com a criação de modelos com composições mais complexas, com a adoção do funcionalismo humanizado e a tentativa de integração dos edifícios na paisagem. Um dos principais problemas da solução adotada é a preocupação com o desenho dos edifícios, esquecendo-se do desenho da cidade. Por se tratar de um plano flexível, os planos propostos pelo urbanismo moderno suportam o sistema burocrático de planejamento dando respaldo para que as 73 políticas públicas não sejam mantidas, permitindo modificações permanentes tendo como parâmetros apenas números e dados (LAMAS, 2011). Harvey (2011) assume que as diferenças encontradas no período pós-moderno para o período moderno são as evoluções tecnológicas e as inovações na comunicação, possibilitando oportunidades mais amplas do que as que se iniciaram no período do pós-guerra. Entretanto as soluções adotadas não refletem a sociedade como um todo, mas apenas a parcela da cidade real: “(...) o pós-modernismo na arquitetura e no projeto urbano tende a ser desavergonhadamente orientado para o mercado por ser esta a linguagem primária de comunicação da nossa sociedade.” (HARVEY, 2011, p. 78) Verifica-se a essência do processo de gentrificação gerados a partir da substituição do zoneamento do planejamento e dos mecanismos de planejamento por um zoneamento e mecanismos de mercado. Este livre mercado do populismo gerou as cidades que vemos atualmente, com espaços ditos públicos fechados e murados, como os shoppings centers, e relega a camada mais pobre da população os espaços que não interessam ao mercado, áreas ambientalmente frágeis originando condições não dignas de moradia, bem como evidencia o caráter de acumulação de capital. Serve como instrumento para ocultar os reais problemas da sociedade gerida pela globalização e o capital, definida pelo consumo, tendo como resultado fragmentação proposital do território (HARVEY, 2010). O pós-modernismo busca resgatar a continuidade histórica e a memória da população, busca resgatar a identidade coletiva, entendendo a memória como o cerne da estrutura da cidade de maneira que “a união entre passado e futuro está na própria ideia da cidade” (ROSSI, 2001, p. 200). Pode-se identificar este pensamento no projeto urbano realizado para a Operação Urbana Consorciada Tietê II (OUCT II), tendo o Rio Tietê como elemento integrador capaz de resgatar a memória e identidade da população. Harvey (2010) tece um quadro comparativo entre o modernismo e o pósmodernismo: enfatiza as particularidades como oposições que podem ser traçadas dentro da lógica do capital não havendo uma distinção extrema, mas uma análise 74 das relações possíveis. Os paralelos e antagonismos traçados são muitos e podem ser analisados de diversas maneiras, situando a modernidade como um sintoma (provavelmente proveniente da devastação causada pelo pós-guerra) e a pósmodernidade como um desejo - neste momento deve-se fazer uma pausa e buscar entender os dois períodos dentro de seu contexto onde ambos buscam requalificar o ambiente urbano, tendo o pós-modernismo respaldos técnicos maiores e mais evoluídos, porém com a consciência da consequência de seus atos, principalmente no que diz respeito ao processo de gentrificação – a paranoia moderna e a esquizofrenia pós-moderna; a produção de habitação em massa versus a produção de habitação para as classes selecionadas gerando desabrigados; o projeto universal versus o acaso localizado; o papel do Estado versus o papel do mercado; o estado do bem estar social versus o neoconservadorismo; os princípios éticos (utilizados erroneamente) versus os princípios estéticos; a produção original de vanguarda versus a reprodução do ecletismo e do comercialismo; o urbanismo operacional versus o urbanismo estratégico; o foco na industrialização versus o foco na comercialização com a desindustrialização; a renovação versus a revitalização urbana e; principalmente a produção em massa voltada para todas as classes sociais visando à coletividade versus a produção em pequenas escalas baseadas no capital simbólico. Os ideais pós-modernos tiveram uma ampla aceitação e utilização fora de seu contexto, havendo uma banalização das primeiras ideias se convertendo em fórmulas prontas de desenho urbano, perdendo seu sentido inicial, com heranças positivas para as cidades atuais, como a mudança extrema de atitude com relação á cidade, principalmente com relação aos programas das edificações e sua inserção urbana que ressalta as preexistências e as relações morfológicas com a cidade tradicional (LAMAS, 2011). Jacobs (2000) responsável por dar os primeiros passos na crítica contra as cidades modernas afirmava que a necessidade das grandes cidades era a mistura de funções. Afirma que muitos erros eram cometidos na procura pela antecipação do modo de vida imposto a sociedade, de modo que busca recuperar as formas da cidade tradicional e o método de urbanismo tradicional. 75 O pós-moderno fornece aos espaços públicos a condição de espaço de marketing e comercialização, a imagem é o ponto principal a ser buscado. O pósmoderno entra no contexto das cidades globalizadas como uma espécie de receita estratégica que homogeniza o espetáculo, produzindo espaços públicos cenográficos padronizados em todas as cidades que pretendem entrar para o mercado de consumo, relegando estes espaços a vigilância e controle, invertendo seus valores, negando o caráter social e político das cidades (JACQUES, 2011). O urbanismo pós-moderno torna evidente o retorno á cidade aproximando os edifícios uns dos outros, aumentando as densidades, dando funções e usos aos espaços intersticiais e retornando aos planos regulares, promovendo a junção dos elementos morfológicos das cidades que haviam sido separados pelo zoneamento funcional moderno (LAMAS, 2011). Burdett (2011) defende que a mudança no cenário do capitalismo mundial cria uma geração de gestores urbanos públicos que estão promovendo intervenções urbanas visando à inserção de suas cidades na competição por uma economia global. A produção da minuta da lei de uma Operação Urbana baseada no produto final, não se baseia apenas em um plano urbano, com diretrizes de uso do solo e gabaritos a serem respeitados, mas se baseia no desenho urbano como uma hipótese que pode ser formada e que compõem diretrizes e programas a partir dela. Esta suposta inversão do processo de planejamento tradicional será estudada com mais afinco, entretanto deve-se aqui salientar a importância desta metodologia para garantir o modelo de cidade que se deseja, de maneira que não deveria permitir a administração pública ou ao mercado imobiliário modificar os programas. 1.6. EXPO’98, LISBOA A Expo’98 de Lisboa é uma intervenção de requalificação urbana em uma antiga área industrial, que promove a recuperação do tecido urbano e gera novos usos, criando uma nova relação de identidade com o território e com o rio. Envolve uma antiga área industrial a beira do Rio Tejo, localizada na periferia da cidade que 76 foi remodelada para receber a Exposição Internacional de 1998, para a qual foram criados diversos equipamentos e redes infraestruturais (Figura 15). Figura 155 Área da Expo’98, imagem retirada a partir do Shopping Vasco da Gama. FONTE: ACERVO PESSOAL (2010). Os modelos de urbanização no mundo moderno preocuparam-se em tapar seus rios e nascentes, escondendo as águas, principalmente porque elas transformaram-se em problemas devidos a sua poluição crescente. Desse modo as grandes cidades iniciaram a canalização de seus rios, que posteriormente e tornaram-se problemas sociais recorrentes, com grandes inundações e a perda de referências geográficas e identidade local (GORSKI, 2010). Todavia no período contemporâneo se fez necessário olhar para seus rios trazendo-os novamente á ativa, mostrando sua beleza natural como fonte turística. Política que o governo português fez como parte da reabilitação do Tejo, ao criar uma área de preservação ecológica no período marcado pela Exposição Internacional de 1998. Pode-se tecer um paralelo entre essas ações e no Estado de São Paulo, onde este processo toma corpo, ao se propor a transformação do Rio Tiete em navegável, onde o próprio projeto da Operação Urbana Consorciada Tiete I e II pretende devolver a identidade do rio a sua população local. Muito se tem que avançar, mas o primeiro passo a contemporaneidade já foi dado. Será abordada nesta dissertação a discussão da elaboração dos instrumentos urbanísticos, mas trabalhar com eles, para que de certa medida se possa demonstrar e entender, se as escolhas feitas para a urbanização da Expo’98 foram as mais acertadas ou se deveriam ser diferentes, sempre tendo em vista a realidade local. 77 A Expo’98 de Lisboa possui um instrumento urbanístico diferenciado que pode ser utilizado como base da gestão urbana: o Plano de Pormenor, bem como a criação da agência de controle de gerenciamento do plano denominada Parque Expo, sendo pautada por mudanças urbanísticas paradigmáticas ocorridas no país desde 1990, que modificaram o papel do Estado no planejamento urbano e basearam-se nos princípios da experiência de Barcelona. AS EXPOSIÇÕES INTERNACIONAIS QUE PRECEDEM A EXPO’98 Atualmente as exposições internacionais sofreram um processo de crise de identidade pelo fato de ter se tornado extremamente complexo conceber, planificar, construir e gerenciar uma cidade efêmera que será o polo de atração durante um curto espaço de tempo e, depois, reabilitar essa área para um uso diferente. As prioridades de um projeto de uma exposição internacional são os aspectos exteriores, pois são estes que atendem as necessidades dos visitantes em termos de: transporte, mobilidade e alojamento. A exposição torna-se o motor para a execução de um plano de ação, uma razão para requalificar uma área, de preferência desprovida de infraestruturas. Por se tratar de um evento ocasional com repercussão no espaço urbano, as exposições internacionais deixaram de ocorrer em áreas já consolidadas para se dirigirem ás áreas urbanas estratégicas de expansão e modificação, criando um conjunto de equipamentos, infraestruturas e espaços públicos duráveis, que reabilitam uma região; alvo fácil para a especulação imobiliária, consequência que tem sido alvo das discussões no cenário acadêmico atual. Foi a partir dos anos 30 que as exposições internacionais começaram a produzir projetos mais longos, buscando novas regiões e não mais os centros urbanos, preservando e melhorando as condições de vida, tratando os espaços públicos e a natureza, com o objetivo de fazer do local um polo de crescimento (GALOPIN, 1997). É importante ressaltar que os eventos efêmeros podem provocar grandes transformações na relação da população com o seu meio. As exposições universais refletem estas transformações nas cidades com novas formas de urbanizar que 78 veem de várias cidades do mundo, transformando-se em fortes reflexos de um tempo (SCHERER, 2003). A cidade de Lisboa teve duas exposições internacionais ao longo do tempo, distintas, em áreas de recuperação de frentes ribeirinhas que estruturaram o espaço público. Elas foram a Exposição do Mundo Português de 1940 e a Exposição Internacional de Lisboa de 1998, que possuem várias correlações urbanísticas, com teorias e práticas urbanas aplicadas em um evento efêmero, mas com grandes possibilidades de repercussões posteriores. A Expo’98 teve como tema “Os oceanos”, com o objetivo de indicar soluções e iniciativas e respeito da consciência ecológica aos visitantes do evento, reafirmando a tradição marítima portuguesa, melhorando a imagem do país, atraindo novos fluxos turísticos e estimulando a economia. Foi feito em Lisboa, para a Expo’98, com a melhoria e expansão de estradas e rodovias, bem com a reconstrução da rede viária urbana. Foram feitas também como complemento: drenagens, aterros e barragens, bem como a expansão e modernização das redes de água, esgoto, eletricidade, gás e telefonia. Nessa lógica a escolha do local foi crucial, apostando-se no futuro crescimento do polo urbano obsoleto e pouco estruturado, que se tratava de uma zona periférica isolada, pressupondo-se a expansão da área habitacional. O projeto se baseou na reconversão ribeirinha de Barcelona, que estruturou o espaço público conectando-o com territórios pré-existentes, bem como na Expo de Sevilha de 1992 pelo caráter inovador e experimental do mobiliário urbano, da utilização da água como elemento principal que contribuiu para a apropriação adequada do espaço público, apesar das controvérsias acerca de seu sucesso. O principal problema anterior da região era o abandono das áreas industriais na zona ribeirinha, claramente segregada do restante da cidade, com ausência de equipamentos culturais e de lazer. Na década de 40 ocorreu na região uma forte industrialização, modificando o uso do solo e a paisagem, agregando também núcleos habitacionais degradados. A partir da década de 70, com a crise do modelo fordista, ocorreu a degradação da paisagem com a desativação das infraestruturas. 79 O projeto se insere na cidade de Lisboa, em Portugal, na região oriental (Figuras 16 a e b e Figuras 17 a á f). Figura 16 a) imagem da aérea da área antes da requalificação; b) imagem da área entes das intervenções. FONTE: www.parquexpo.pt (ACESSADO EM 05/10/2012 ÁS 17HS) Figura 167 Imagens que demonstram o uso obsoleto da área de antes da requalificação. FONTE: www.parquexpo.pt (ACESSADO EM 05/10/2012 ÁS 17HS) AS DIVERGÊNCIAS NAS PRIMEIRAS FORMULAÇÕES DO PROJETO URBANO DA EXPO’98 A intervenção feita pela Expo’1998 em Lisboa requalificou uma extensa área industrial ribeirinha degradada e excluída da cidade formal, constituída de 340 hectares, com 5 km de frente ribeirinha, dos quais 25 hectares foram destinados a Expo’98, garantindo infraestrutura, espaços públicos de qualidade, acessibilidade e gerando um novo polo. Essa denominação também se deve ao fato de ser um projeto que resistiu às mudanças de uso e espaço público urbano totalmente integrado com a cidade, formando um tecido homogêneo, com espaços públicos e de exposições que promovem uma nova ligação com o habitat, com o rio, a cidade e o pedestre. 80 Cabe aqui destacar a história do processo do projeto urbano em torno da Expo’98 onde se encontra semelhanças com o processo que vem ocorrendo no município de Osasco. O Estudo Preliminar do Plano Diretor da Expo’98 foi realizado em 1991 por encomenda do Comissário Técnico da Exposição na época da qual fez parte integrante da candidatura de Lisboa para sediar a Exposição Internacional de 1998, razão pela qual Lamas (2011), um dos idealizadores do plano, juntamente com Carlos Duarte, acredita ter sido um dos principais motivos para a eleição da cidade. O projeto original que era constituído por um Plano Diretor, uma implantação, que revela o tecido morfológico e a disposição das edificações e os desenhos indicando a volumetria e as características principais que forneciam integridade ao projeto foram abandonados para dar lugar ao novo projeto, em grande parte baseado no projeto anterior, de arquitetos contratados para tal feito, sob a coordenação do arquiteto Vassalo Rosa. O estudo preliminar contava com a ideia de promover uma terceira janela da cidade para o Rio Tejo, além do Terreiro do Paço e a Praça do Império integrando o rio á cidade e preservando a memória da população. Entretanto a área que foi destinada a o que o autor do projeto considera como um “grande gesto” de urbanidade, com uma abertura destinada ao espaço público de 250m de largura foi ocupada em uma boa porção pelo Pavilhão Atlântico, retirando também o enquadramento necessário para destacar a obra de Álvaro Siza, o Pavilhão de Portugal (Figura 18). De acordo com Lamas (2011) o objetivo do projeto era evidenciar a disciplina e a geometria dos espaços, desenvolvendo as ideias da Rua da Gastronomia junto ao rio, os percursos de pedestres, a Doca dos Olivais, os pavilhões temáticos. Previa também os usos pré e pós-ocupação, com usos de estacionamento nas áreas mais afastadas do recinto, posteriormente utilizadas para provisão habitacional, equipamentos e serviços, bem como o enfoque no transporte ferroviário e fluvial. Verificou também que a ideia de integrar a cidade com o rio sofreu uma desconfiguração devido à intensidade e o descontrole das implantações de edifícios na área, evidenciando o forte processo de especulação imobiliária que a área sofreu. 81 a b Figura 18 Mapas evidenciando as diferenças entre o projeto preliminar e o projeto que foi executado: a) Projeto de Lamas e Duarte de 1991, com destaque para a grande praça criada; b) Projeto executivo do Plano de Urbanização executado de Rosa e Trindade, com destaque para o Pavilhão dos Oceanos ocupando o lugar da praça. FONTE: 1. LAMAS, 2011. 2. CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA. O que se sucedeu após a decisão por Lisboa pela Comissão da Exposição Internacional foi à falta de diálogo com os autores do Estudo Preliminar do Plano de Urbanização da Zona da Expo, onde se contratou outra equipe. Lamas (2011), um dos autores define que: “os arquitectos só se conseguem manter em trabalhos públicos de grande envergadura se interligados e/ou apadrinhados por forças políticas ou outros interesses inconfessáveis” 16 (LAMAS, 2011). O projeto baseia-se em edifícios âncora de arquitetos famosos como Álvaro Siza Vieira, Carrilho da Graça e outros, que se distinguem, com expressões plásticas e estruturas distintas, porém interligados pela malha do espaço público, em um ambiente econômico e sócio cultural renovado, criando uma identidade visual. Uma característica do projeto é a premissa de ser um espaço onde, após a exposição, já com os novos usos, preservasse-se a memória. Os espaços públicos foram projetados para a permanência de 80 mil pessoas durante a exposição. Para o pósExpo, uma nova função de utilização é prevista com o compartilhamento de pedestres e automóveis (MACHADO, 1998). O projeto dispõe de dois eixos 16 Lamas, um dos autores do Estudo Preliminar do Plano de Urbanização da Zona da Expo, sobre o processo de implantação do projeto urbano da Expo’98 e sua gestão. 82 estruturantes: a Alameda dos Oceanos, a frente ribeirinha e o jardim Garcia de Horta entre eles, como pode ser observado (Figura 19) abaixo. Alameda dos Oceanos Frente Ribeirinha Jardim Garcia da Horta Figura 19 Localização dos elementos no Parque das Nações, Planta de Urbanização e Planos Pormenor da zona da Expo’98. FONTE: MACHADO (1998). Os espaços criam uma identidade visual, com o espaço público e os pavilhões modulados (Figuras 20 a á c). Figura 20 Imagens da época da exposição revelando a apropriação dos espaços públicos como áreas lúdicas, Jardins Garcia Horta. FONTE: MACHADO (1998). O espaço público da Expo’98 é bem estruturado em seus diversos elementos, com a prévia demarcação dos setores com tipologias próprias. Ocorreu a apropriação dos pontos de água, que eram a referência simbólica da exposição projetada para amenizar o clima, mas utilizados como ambientes de lazer e recreação. Isto acabou gerando a expressão individual com um grande relacionamento social e coletivo, de modo a ter o usuário como ator em um cenário origina (MACHADO, 1998). Com a intenção de produzir no usuário a sensação de ser o protagonista do espaço urbano, um ator num grande cenário, garantindo a sociabilidade em um espaço coletivo que possui diversos usos. 83 POLÍTICAS PÚBLICAS E GESTÃO DA EXPO’98 – A GRANDE EXPERIÊNCIA PÚBLICO PRIVADA Em Portugal esse desenvolvimento industrial teve menos significado do que no restante da Europa. Dessa forma os problemas provenientes desta revolução tiveram menos impacto no país. O país também estava afastado do conflito da Segunda Guerra Mundial, o que levou o restante da Europa a investir na reurbanização em massa. Esse fenômeno urbano só veio a ser explorado em Portugal em 1970, por motivos políticos, do Salazarismo, com a recuperação do patrimônio e sua valorização, desenvolvendo a ideia de expansão do tecido urbano conectado com o tecido existente. Na década de 1970 é instituída a Lei dos Solos, pelo Decreto-Lei nº574/70 de 24 Novembro, que diminui os custos dos terrenos para a construção, solucionando os problemas de falta de habitação urbana, tornando-se um importante instrumento de intervenção em áreas degradadas ao delimitá-las como carentes de infraestruturas. Ao delimitar essas áreas críticas foi possível expropriar qualquer imóvel para a recuperação da área, com a posse pela administração pública de imóveis sempre que necessário, ampliando o poder do município para agir na reabilitação de áreas degradadas e preservação dos edifícios habitacionais e zonas de interesse histórico. Em 1973 foi incumbido ao Fundo de Fomento de Habitação e as Câmaras Municipais a elaboração e execução de planos de urbanização de pormenor para renovar setores muito adensados, áreas de risco ou insalubres. A partir da década de 1980 priorizou-se a questão do patrimônio arquitetônico e urbano, a começar pela Lei-Quadro do Patrimônio Cultural Português, nº13/85 de 6 de Julho, previa a classificação dos bens imóveis e móveis baseados nos seus valores patrimoniais, prevendo planos de salvaguarda e tratando de maneira especial o patrimônio cultural. Esta lei não foi regulamentada, havendo em 2001 a publicação da Lei de Bases da Política e do Regime de Proteção e Valorização do Patrimônio Cultural, nº107/2001 de 8 de Setembro, que revogou a lei anterior, prevendo um plano pormenor de salvaguarda, ou seja, de proteção para todos os monumentos, sítios e conjuntos de patrimônios. Esses planos de pormenor também não foram regulamentados, de forma que os planos elaborados para os centros históricos e áreas de reabilitação tornaram-se instrumentos de planejamento 84 legalmente previstos. Em 2004 foi criado um regime jurídico para a reabilitação urbana de áreas históricas e que necessitavam de requalificação ou reconversão urbana, com o Decreto de Lei nº104/2004 de 7 de Maio que lei possibilitou a criação de uma empresa municipal de reabilitação urbana, com o objetivo de definir as intervenções com operações urbanas em grande escala, onde para cada quarteirão era definido um plano estratégico. Dessa forma as competências municipais foram transferidas a essa sociedade civil, simplificando os procedimentos e encurtando os prazos legais. No período analisado foram criados também alguns instrumentos de apoio financeiro, como o Programa Especial para a Reparação de Fogos (habitações) (PRID) em 1976, que fornecia empréstimos e subsídios para obras de reparação e conservação. Em 1985 foi criado o Programa de Reabilitação Urbana (PRU), que dava apoio financeiro e técnico a reabilitação urbana promovida pelas Câmaras Municipais, através do Gabinete Técnico Local. Em 1988 foi criado o Programa de Recuperação de Áreas Urbanas Degradadas (PRAUD), que abrangia a reconversão de bairros clandestinos e degradados. Esses programas possibilitaram a reabilitação integrada e fizeram da reabilitação urbana um objetivo nacional, se transformando em um instrumento fundamental da gestão urbanística. Em 2000 foi instituído o Programa de Requalificação Urbana e Valorização Ambiental das Cidades (POLIS), Resolução do Conselho de Ministros nº26/2000 em 15 de Maio, com o objetivo melhorar a qualidade de vida das cidades com intervenções urbanísticas, melhorando a competitividade entre as cidades aplicável aos centros urbanos estabelecidos no Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território (PNPOT), identificando os problemas relacionados à degradação, abandono e desvitalização econômica e propondo planos de ações que incentivassem as centralidades intra-urbanas. Apesar das potencialidades apresentadas, principalmente devido ao instrumento do Plano de Pormenor (PP) utilizado no país, Lamas (2011) acredita que o urbanismo moderno e a falta de conexão entre os departamentos e propostas trouxe o agravamento da burocracia operacional. O Plano de Urbanização da Expo’98 de Lisboa contava com instrumentos urbanísticos, como o Plano de Pormenor abordado anteriormente, de modo que a 85 elaboração do Plano de Urbanização da Zona da Expo foi iniciada em novembro de 1993, com a coordenação do arquiteto Vassalo Rosa, baseando-se na valorização da frente ribeirinha, no aproveitamento da centralidade, sendo elaborado Planos de Pormenor dividindo a área em seis zonas: 1. Central, com o desenvolvimento de morfologias ambientais; 2.Recinto, onde foi feito o desenvolvimento da articulação entre arquitetura efêmera e definitiva; 3. Sul, com a revalorização das singularidades morfológicas locais e modelos de referencias urbanísticas já enraizadas; 4. Norte, com a área residencial e revalorização do espaço público; 5.Sacavém, promovendo a valorização da área; e 6.Parque Tejo, com uma área média de 80 hectares, marcando a paisagem e a estética da frente ribeirinha (Figura 21) (FERREIRA, 2008). 3 5 1 2 4 6 Figura 21 Mapa do Plano de Urbanização da Zona da Expo com identificação dos Planos de Pormenor. FONTE: CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA. EM: WWW.CM-LISBOA.PT/VIVER/URBANISMO/PLANEAMENTO-URBANO/PLANOS-EFICAZES (ACESSADO EM 20/10/2012 ÁS 9H30). Baseando-se na hipótese defendida por Jared Diamond de que as sociedades e seus líderes é quem escolhem o fracasso ou a derrota, essas decisões podem ser resultantes de falta de previsão, de percepção, de incorporação de valores errados ou pertencentes à outra sociedade e de soluções ruins, podemos identificar as dificuldades das sociedades em solucionar conflitos de interesses, definindo o problema como uma incapacidade de tomar decisões coletivas. Um dos grandes problemas desses conflitos é que os interesses da elite, que toma as decisões, não corresponde aos interesses do restante da sociedade, visando apenas os benefícios imediatos, excluindo a população de baixa renda e as questões ambientais (DIAMOND, 2012). 86 Neste âmbito, o Plano de Urbanização da Expo’98 de Lisboa, apesar de ter requalificado uma grande área e, como todo projeto de grande porte, ter valorizado o preço da terra e excluído a população local para outras áreas, gerou uma atenuação de impactos, de maneira calculada e planejada, prevendo outras áreas para alocar esta população. Houve também uma preocupação ambiental em descontaminar a antiga área industrial, as margens do Rio Tejo e recuperar a paisagem e a qualidade ambiental dessa área, bem como produzindo meios para ser autossustentável. Os grandes projetos urbanos e transformações urbanas possuem um grande lapso no tempo, pois seu período de implantação é de 15 anos em média, envolvendo muitos atores e agentes que possuem conflitos de interesses, bem como grandes investimentos em infraestruturas urbanas e saneamento ambiental (SILVA, 2012). Um dos grandes problemas da gestão de projetos urbanos de médio prazo é que, ao mudar a gestão, o governo, o plano e as prioridades também são modificados, havendo uma descontinuidade. Os projetos urbanos necessitam de uma parceria público/privada que deve ser muito bem elaborada, de modo que a gestão deve ser partilhada entre esses atores. No caso da Expo’98, a gestão do território se deu em um primeiro momento pela empresa responsável pela exposição internacional até pouco tempo depois do término da mesma, passando aos poucos a gestão para o poder público municipal, o que acarretou alguns problemas de manutenção, pois os usos propostos para a área no pós Expo tornam ela área ociosa em alguns períodos de tempo. O fenômeno da gentrificação pode ser identificado em intervenções que alteram a paisagem, com transformações de forte apelo visual, adequando-se ao mercado imobiliário e a globalização, voltando-se para a reintegração dessas áreas pelas classes médias e altas, resultando em segregação socioespacial. As políticas públicas e os instrumentos urbanísticos devem contribuir para minimizar os impactos dos grandes projetos urbanos de requalificação urbana, de maneira que o acesso à cidade seja de toda a sociedade, minimizando os impactos da gentrificação (LEITE, 2010). O Plano de Urbanização da Expo 98 tem uma particularidade que é a junção de dois municípios onde a área se insere, Lisboa e Sacavem, envolvendo uma gestão compartilhada e a tomada de decisões coletivas. Pode-se verificar que a 87 gestão do Plano de Urbanização da Expo’98 de Lisboa pela linha cronológica disposta abaixo (Figura 22). A partir de 1970, com a grave crise econômica na Europa os projetos urbanos começaram a ser utilizados para redesenhar a cidade. O Plano em questão foi formulado em 1985, em seguida, em 1992 foi elaborado o Plano Estratégico de Lisboa até chegar em 1993 com o Plano de Urbanização da zona de intervenção da Expo’98. Em 1994 pelo Plano Diretor Municipal de Lisboa e em 1997 pelos Planos de Urbanização ou Planos de Pormenor, que são feitos os detalhamentos projetuais dos planos. Figura 22 Linha cronológica das gestões urbanas de Lisboa. MONTADA PELA AUTORA A PARTIR DE DADOS COLETADOS EM MAGALHÃES. Para compreender-se o instrumento urbanístico utilizado na Expo’98 é necessário verificar a articulação entre os planos municipais de gestão territorial, tendo-os como instrumentos de política de ordenamento do território, que variam de acordo com a área de intervenção ou escala. Eles são definidos como: 1. Plano Diretor Municipal (PDM): composto por um instrumento de planejamento de ocupação, uso e transformação do território municipal, bem como de programação dos investimentos municipais, levando em conta os diferentes componentes sociais envolvidos; 2. Plano de Urbanização (PU): define a organização espacial de determinada área do município que exige uma intervenção integrada de planejamento com a infraestrutura existente; 88 3. Plano de Pormenor (PP): abrange áreas do PDM ou dos PU. Desenvolve e concretiza as propostas da organização espacial de qualquer área específica do município, definindo com pormenor a forma de ocupação e serve de base para os projetos infraestruturais, dos edifícios, levando em conta as prioridades do PDM e do PU. Estabelece ações de perequação compensatória. O LEGADO PÓS-EXPO’98 Por tratar-se de um estudo de caso já implantado restando à gestão do espaço urbano, a Expo’98 pode ser analisada em características referentes aos impactos positivos e negativos em seu meio e aos usuários e a sociedade em geral. A exclusão social ou desigualdade, tido como o processo de gentrificação, revela-se primeiramente na organização dos países na exposição, denotando áreas menos privilegiadas a países tidos como periféricos. Numa segunda fase, pode-se analisar a desigualdade pelo uso ou as áreas que se tornaram ociosas ou depredadas, principalmente na Alameda dos Oceanos, por conta das sedes de grandes empresas (MACHADO, 1998). No período pós-expo os pressupostos principais de consolidação da imagem como espaço lúdico e pedagógico, reformulando o sistema de acesso e circulação, foram mantidos. Para tal foram feitas leis para proibir modificações nos espaços públicos e o super adensamento. Já a manutenção do espaço, que até 2012 não era de encargo do governo, mas da organização Parque Expo, demonstra-se insustentável, por conta das áreas obsoletas. Este é um problema recorrente das grandes intervenções urbanas que visam os eventos efêmeros, como se pode observar neste momento no Brasil com as grandes intervenções de infraestruturas e equipamentos para a Copa do Mundo de 2014. Com o tempo houve a integração da área na malha urbana envolvente com a Alameda dos Oceanos sendo aberto para o tráfego de automóveis, o que modificou a paisagem e a maneira como os usuários utilizavam o espaço público, pois lhes foi tirado um espaço importante para pedestres. O Centro Vasco da Gama trouxe novos 89 usuários e novas vivências, como os novos edifícios sede da Sony ou da Vodafone que configuraram a alteração do sentido urbano e arquitetônico, principalmente a noção de relação entre espaço público x privado. A Doca dos Olivais como um espaço de uso coletivo permanente tornou-se pouco utilizado, principalmente por conta da pouca utilização do Pavilhão de Portugal. A fraca apropriação, principalmente no período noturno, provocava a sensação de insegurança pelos usuários, principalmente pelo fato dos restaurantes e bares se concentrarem nas extremidades. As novas habitações criadas de alto padrão possuem as mais variadas tipologias e se encontram no extremo oeste, possuindo o controle singelo do tráfego de veículos que prioriza o pedestre e cria espaços públicos, no Plano de Pormenor 3. A área sofre pressões do mercado imobiliário que busca por vazios para promover novos empreendimentos, como sedes de grandes empresas. Os edifícios corporativos representam a cidade cenográfica, com a arquitetura do espetáculo e edificações sem nenhuma preocupação com o seu contexto, apenas com a rentabilidade do solo (LAMAS, 2011) (Figuras 23 a á d e Figuras 24 a á e). Figura 173 Imagens das novas edificações habitacionais criadas para abrigar as equipes e a imprensa na Exposição Internacional que foram vendidas, ainda na época da implantação, para uso posterior para habitação de classe alta. FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2010). 90 Figura 184 Imagens da arquitetura do espetáculo utilizada pelas grandes empresas que se instalaram na região. FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2010). As edificações da área da exposição foram pensadas de acordo com seus Planos de Pormenor e com a implantação de edifícios âncoras, espécie de ícones da arquitetura assinados por arquitetos renomados: a) o Aquário de Lisboa, primeiro a receber a certificação ISSO 9001 e 14000, de Pedro Campos Costa; b) a Gare do Oriente; c) o Pavilhão Atlântico, de autoria do SOM – Skidmore, Owings & Merril e Regino Cruz; d) o Pavilhão de Portugal, de Álvaro Siza e; e) o Centro Comercial Vasco da Gama, de Santiago Calatrava (Figuras 25 a á e). d a b c e Figura 25 Arquitetura do espetáculo na área da Exposição Internacional. FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2010). Os espaços públicos e mobiliários urbanos foram pensados em cada detalhe e mantendo uma unidade visual no uso dos materiais, evidenciando particularidades de cada uma das seis zonas, como pode ser identificado a seguir (Figura 26 a á g). Foram instalados no decorrer dos espaços públicos, que segundo Lamas (2011) não são generosos como um projeto desta envergadura deveria prever, peças de sombreamento, como guarda-sóis, brises e pergolados, entre outros elementos, bem como elementos paisagísticos que fornecem abrigo aos pedestres nas alamedas 91 criadas. Os espaços públicos possuem um uso efetivo que se materializa em determinados períodos e dias da semana e, principalmente, até o período da tarde, devido à iluminação fraca implantada nos passeios, possivelmente como uma maneira de controlar o uso e evidenciá-los nas proximidades dos grandes equipamentos, como a Vila Gastronômica (Figuras 27 e 28). Apesar da falta de um espaço público de grandes dimensões como já relatado, a área é composta por vários espaços, praças ou alamedas que denotam a riqueza de variedade de possibilidades. c a d d f 2 b e g h Figura 196 Detalhes do mobiliário urbano e pavimentação nas mais diversas áreas da Expo’98: a) Setor 3, espaços de permanência em área habitacional; b) Setor 2, espaço de transição com elementos em madeira com quebra-sol; c) Setor 2, mobiliário urbano em madeira, com brise; d e e) Setor 2, mobiliário urbano em concreto e sombra das árvores na frente aquática; f) Setor 2, Espaço de Eventos; g) Setor 2, paisagem urbana que vira mobiliário urbano. FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2010) Figura 27 Imagens de alguns dos possíveis percursos no perímetro da Expo’98. FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2010). 92 Figura 28 Imagens que demonstram a característica do uso dos espaços públicos. FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2010). Nas imagens a seguir pode-se observar a diferença entre os grandes espaços públicos, inexistente no projeto executado, e os espaços residuais que, apesar da qualidade urbanística, não conseguem configurar um conjunto (Figura 29 a á f). Temos: a) a Gare do Oriente, uma estação intermodal; b) o Rossio dos Olivais, uma explanada que faz uma ligação com o Rio Tejo, apesar de muito menor do que o primeiro projeto apresentado; c) o Pavilhão de Portugal que teve sua implantação escondida pela implantação do Pavilhão Atlântico; d) a Alameda dos Oceanos a partir da Gare do Oriente com a segregação singela entre os espaços de pedestre e de veículos; e) o jardim entre a Alameda dos Oceanos e; f) o cais dos Argonautas e a Doca dos Olivais. a b c d e f Figura 2920 Imagens dos espaços públicos e espaços residuais. FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2010). Tomando como base o eixo da linha férrea, vê-se abaixo a clara divisão entre o novo território criado pela Expo’98 á esquerda e o antigo tecido urbano de Moscavide á direita. A gentrificação é visível neste setor e inerente ao processo de requalificação urbana (Figura 30). Na área da Expo’98 se observa os espaços 93 públicos que, em sua grande maioria, são utilizados como apoio aos edifícios voltados para o comércio e turismo. Os edifícios corporativos, principalmente os situados às margens da área do recinto da Expo’98, não se baseiam nos princípios de multifuncionalidade urbana, possuindo usos em horários restritos. Observa-se que não houve preocupação em garantir a diversidade de usos e funções, pois se separou a área em zonas, tornando a área do recinto da Expo um deserto urbano em alguns horários. A iluminação pontual e focada no paisagismo ajuda a contribuir para a paisagem de deserto urbano no período noturno, com exceção das proximidades das edificações comerciais (Figura 31 a á e). Figura 210 Imagem que evidencia o espaço criado da Expo’98 do espaço existente, o bairro de Moscavide à direita, local para onde se alojaram a maioria da população que vivia no perímetro da Expo’98, cortados pela linha férrea, ao fundo a Gare do Oriente. FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2010). Figura 31 Imagens da separação entre espaço de veículos e espaço de pedestres e iluminação paisagística que é fraca e contribui para a desertificação no período noturno. FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2010). 1.7. PORTO MADERO, BUENOS AIRES A intervenção realizada em Porto Madero, nas margens do Rio da Prata, configurou um novo bairro na cidade de Buenos Aires, localizado ao leste da cidade, em frente ao centro histórico, em uma importante área turística requalificando a área 94 e resgatando a identidade de maneira a propor uma nova relação com o rio. Este projeto de requalificação urbano é tido na América Latina como uma referência por sua intervenção de sucesso em sua gestão e implantação. Seu principal objetivo é recuperar e revitalizar a frente ribeirinha que possui tamanha importância na história e na vida dos habitantes (Figura 32). Figura 222 Porto Madero e suas antigas estruturas do porto convivendo com a revitalização. FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2013). O PAPEL E HISTÓRIA DO PORTO EM BUENOS AIRES A ideia da construção de um grande porto na cidade de Buenos Aires se deu de modo a garantir a abertura do país a nível internacional. Esta ideia é datada de 1580, desde a fundação da cidade por Juan de Garay, que observou na época muitos problemas devido às condições geográficas e territoriais do local que era composto por habitantes hostis e, principalmente, as condições da bacia do Rio da Prata, que possuía um nível muito baixo de água e tinha muita lama, bem como obstáculos que tornavam o trajeto muito perigoso. Desta forma, as mercadorias tinham de desembarcar no mar e ser levadas á terra por embarcações de passageiros pequenas. Neste período a população urbana era extremamente pobre a as trocas de mercadorias eram escassas, principalmente pela falta de um produto de exportação, o que se alterou com a descoberta do potencial do couro. As mudanças de governo e o crescimento da importância da cidade para a nação não foram suficientes para que o porto fosse remodelado. Ao se separar do restante da Confederação, Buenos Aires optou por realizar intervenções que refletissem um modelo de prosperidade e iniciaram com a execução de um píer para passageiros 95 em 1855 e edificações de suporte, projeto que foi demolido com o início das obras de Porto Madero (Figura 33). Estas edificações não atendiam as necessidades de carga e descarga de mercadorias e passageiros. Apenas com a unificação do governo em caráter nacional, após a batalha de Pavón em 1861, que se iniciou a preocupação com o porto. A partir deste momento foram feitos vários projetos na tentativa de solucionar o problema, principalmente no período entre 1870 e 1880, mas nenhum deles foi executado (LUNA, 1999). Abaixo o Plano da Cidade de 1782, onde se pode localizar a região central da cidade e a área onde foi realizado o projeto de Porto Madero, que possuía as características fluviais necessárias para tal feito (Figura 34). Figura 33 Mapa de Buenos Aires de 1782 com a área onde hoje se localiza Porto Madero. FONTE: LUNA (1999). Figura 3423 Obras no Dique 2 em 1890. FONTE: LUNA (1999). Em 1880 já se falava sobre a construção de um porto de grandes proporções na cidade, pelo projeto do engenheiro Luis Huergo, onde se propôs a construção de baias protegidas pelo cais, porém o projeto não foi aceito pelo idealizador. O argentino Luis Huergo se formou em engenharia em 1870, em seguida se tornou 96 deputado e senador e se empenhou em projetar o porto de Buenos Aires. Seu projeto é rebatido pelo projeto de Eduardo Madero, em 1884, argentino detentor de uma empresa de importação e exportação, que dá nome a área, onde após muitas discussões é aprovado e concluído em 1905, porém já em 1910 se encontra saturado e obsoleto devido ao crescimento demográfico da cidade, perdendo espaço para um porto construído em outro local. Verifica-se a seguir o processo que levou a degradação do novo porto criado, desde a sua construção, passando pelo seu uso e pela nova abertura da cidade acompanhada das modificações na paisagem da cidade e, finalmente a saturação de sua estrutura que não contemplou a explosão demográfica em 1912 (Figura 35 a á c e Figura 36). Figura 35 a) Muelle de passageiros em 1855; b) Porto Madero finalizado; c) porto já saturado em 1912. FONTE: LUNA (1999). No final do século XIX foi decidido pelo governo oferecer à cidade uma infraestrutura adequada de portos, se aproveitando de suas características geográficas. Neste período os dois projetos citados acima foram debatidos, onde o projeto de Eduardo Madero foi o vencedor. Devem-se observar as diferenças de ideais entre os dois projetos: a proposta de Huergo contava com a canalização da enseada para a passagem de navios de grande porte com um caráter regionalista. Já a proposta de Madero propunha a construção de docas, um dique e um canal por onde as grandes embarcações poderiam navegar em frente à Praça de Maio, onde se situava a Casa Rosada, com uma proposta inovadora, monumental e moderna. Neste período foram construídas docas para estocagem de grãos em tijolos vermelhos tendo seus projetos e estruturas em concreto armado executados na Inglaterra e armados in loco, revitalizados para o projeto que pode ser identificado hoje em Porto Madero e modificando seus usos, passando a ser utilizados como restaurantes e lojas. O projeto monumental de Madero foi finalizado apesar das dificuldades econômicas que o país passou no período e se manteve mesmo com as mudanças na gestão pública, tendo a primeira doca inaugurada em 1889, da qual foi dado o nome de Puerto Madero, que se manteve até hoje, tendo sua implantação 97 completa em 1897, com o custo de 36 milhões de pesos, muito além do que o estipulado (LUNA, 1999). DIQUES (1 á 4) CASA ROSADA Figura 36 Projeto de Eduardo Madero, com a criação dos quatros diques. FONTE: WWW.PUERTOMADERO.COM/ANTIGUO_ESP.PHP (ACESSADO EM 19/06/2013 ÁS 22HS) A falta de uso da área se revelou pela saturação de sua infraestrutura que não previu o crescimento exacerbado de comércio e população e pela qual se iniciou o processo de deterioração. Pelo fato de se localizar estrategicamente ao lado da região central da cidade e de ocupar uma grande área de sua frente aquática acabou recebendo muitas propostas de revitalização, de modo que se decidiu pela sua revitalização na década de 1980. Sua localização central contribuía para aumentar o tráfego e inviabilizar o processo. Um dos grandes problemas que o projeto de Madero causou para a malha viária de Buenos Aires foi à separação dos habitantes com o Rio Prata, pois se transformou em um obstáculo físico e visual para o Rio da Prata, retirando um importante elemento cultural que recebeu uma tentativa de recuperação da memória com o projeto atual para Porto Madero (Figura 37 e 38). Figura 3724 Imagem da área de Porto Madero abandonada. FONTE: WWW.PUERTOMADERO.COM (ACESSADO EM 14/06/2013 ÁS 16 HS) 98 Figura 38 Área de Porto Madero, sem uso, em vermelho, demarcação do obstáculo de visão do Rio da Prata. FONTE: LUNA (1999). Há de se considerar as mudanças políticas e econômicas que se sucederam no país no período do governo de Menem que assumiu em meio ao caos econômico, sendo o responsável pela Lei da Reforma em 1989 17 onde foi colocada em pauta a necessidade de privatização das empresas estatais e criaram-se mecanismos para tal (VIANINI, 2012). A partir desta nova legislação foi possível desenvolver projetos de revitalização da área central da cidade. Foi observada a partir daí a necessidade de um modelo dinâmico de gestão urbana, que originou a “Corporación Antiguo Puerto Madero”, sociedade autônoma onde participava o Município e o Estado, que se encarregou de revitalizar a área de Porto Madero (LARIVIÈRE, 1999). Até 1989, a área de cerca de 170 hectares, de propriedade do Estado, sob jurisdição da Administração dos Portos, era marginalizada e segregada do restante da cidade, separada da mesma por grades, de modo que esta associação se revelou importante na gestão da implantação do projeto urbano, facilitando a supervisão da mesma. Essa gestão definiu a disposição dos usos das diversas áreas, de modo que os antigos galpões, hoje os charmosos restaurantes a áreas comerciais, foram negociados nos concursos públicos, de modo que a participação do mercado imobiliário e dos investidores aumentou o preço da terra (ABASCAL; STUERMER; BRUNA; VIEIRA, 2008). Porto Madero se insere em uma região de fácil acessibilidade, próximo do aeroporto e estações rodoviárias. Consiste em um dos centros mais modernos da capital, com uma área de 2,1 hectares. O projeto urbano se situa as margens do Rio 17 Lei 23.696 de agosto de 1989 onde se garante ao poder executivo qualquer instituição com uma parcela de capital público. 99 Prata, na cidade de Buenos Aires, com a Avenida Córdoba y Brasil de leste a oeste, entre o Rio Prata e a Avenida Madero-Huergo, entre os bairros do Retira e La Boca, possuindo grande potencial de intervenção em seus 170 hectares (Figura 39). Figura 3925 Foto aérea da área de Porto Madero. FONTE: WWW.PUERTOMADERO.COM/PROYECTO_POR.PHP (ACESSADO EM 19/06/2013 ÁS 20HS). O CONCURSO NACIONAL DE IDÉIAS E AS PRIMEIRAS FORMULAÇÕES Em 1989 a Lei de Reforma do Estado18 discutiu as iniciativas referentes à requalificação da área central, que possibilitou a transferência do terreno para uma sociedade formada pelo Estado Nacional e pelo Município. Tudo se iniciou com a formação de um convênio entre o poder municipal de Buenos Aires e de Barcelona, de modo que uma equipe com técnicos dos dois municípios realizaram um Plano Estratégico. Em seguida foi lançado o Concurso Nacional de Ideias para Porto Madero, realizado pela “Sociedad Central de Arquitectos”, para a formulação do Plano Diretor referente às intervenções nesta área devido às pressões populares e à busca de um plano de caráter regional. O edital do concurso exigiu e pensou uma série de aspectos para o Plano Diretor e o projeto urbano em questão: acessibilidade, articulação de fluxos, parcerias público privadas, recuperação histórica e ambiental, expansão e consolidação como polo, todos eles considerando a vasta gama de propostas que foram feitas para a área no decorrer do século. Entre as ideias para o projeto destacava-se a necessidade da região adquirir uma multifuncionalidade e funcionar como polo atrativo. Buscava-se o aquecimento da economia na região, bem como a 18 Lei da Reforma nº. 23.696 de agosto de 1989, proposta no governo de Menin. 100 requalificação social e ambiental, com a criação de novas tramas urbanísticas. O projeto previa a gestão da participação público e privada, prevendo a descentralização (ABASCAL; STUERMER; BRUNA; VIEIRA, 2008). Em 1991 foi aprovada a norma de proteção patrimonial que possibilitou a preservação dos 16 edifícios de Porto Madero, com o intuito de proteger o conjunto dos diques e seu entorno, além de todas as estruturas referentes ao antigo uso, como as torres de andaimes. O concurso originou o Master Plan ou o Plano Urbano em 1994, integrando centenas de propostas de projetos urbanos, integrados nos princípios do plano geral. O plano consiste em requalificar a área subutilizada definindo uma ocupação máxima de 1,5 milhões de metros quadrados, considerada uma densidade baixa, expandindo a região central e incorporando o setor terciário e residências. De acordo com o site oficial de Porto Madero 19, em 1992 o júri se decidiu por dar o primeiro prêmio a três equipes, de modo que representantes de cada uma delas elaboraram um novo plano realizado por Juan Manuel Borthagaray, Carlos Marre, Romulo Pereira, Antonio Eugenio Tufazo e Xaus (Figura 40 a e b). Figuras 40 Imagem do Concurso Nacional de Ideias realizado. FONTE: WWW.PUERTOMADERO.COM/CONCURSO.POR.PHP (ACESSADO EM 18/06/2013 ÁS 19HS). As obras deram início em 1993, sob a gestão da “Corporacion Antiguo Puerto Madero S.A.”, criada em 1989, modificando aos poucos o cenário da região central e atraindo os investidores privados. A proposta de requalificação urbana buscava promover a recuperação da interação entre o rio e a cidade, preservando os edifícios históricos existentes, requalificando suas funções com a reconversão dos antigos galpões (Figura 41). 19 Retirado do site oficial da Corporacion Antiguo Puerto Madero. 101 Figura 261 Imagem do período de obras. FONTE: WWW.PUERTOMADERO.COM/CONCURSO.POR.PHP (ACESSADO EM 18/06/2013 ÁS 20HS). Em 1994 o Plano Diretor entra em vigor e em 1995 inicia-se a venda dos antigos armazéns que sofreram retrofit em sua grande maioria, utilizados para áreas administrativas e comerciais. O projeto urbano foi executado em etapas, iniciando-se pela reconversão do rio, promovendo uma recuperação ambiental e, pela requalificação dos depósitos. Em 2001 ocorreu uma grave crise econômica no país, mas este aspecto não impediu o prosseguimento da implantação do projeto. A revitalização desta área incorpora a restauração e a adoção de novos usos às edificações mantendo as características do porto, dando um caráter contemporâneo e inovador, bem como melhorando a rede de infraestruturas obsoletas da área. POLÍTICAS PÚBLICAS E GESTÃO – A GRANDE EXPERIÊNCIA PRIVADA A criação de uma entidade normativa e reguladora foi um diferencial de gestão do projeto e sua aplicação, a “Corporacion Antiguo Puerto Madero S.A.”, responsável que assumiu investir o lucro obtido com as vendas para a execução da rede de infraestrutura urbana, garantiu-se a recuperação do sistema viário e os sistemas de espaços públicos. Apesar da crise econômica enfrentada pelo país no período da construção, o projeto foi implantado em sua totalidade. Os recursos gerados para o desenvolvimento das transformações necessárias nas infraestruturas foram obtidos através das vendas e dos aluguéis das áreas. A intervenção teve de ser feita em partes, primeiro pela reconversão dos 16 edifícios das docas em tijolos vermelhos na margem sul, que passaram por licitação pública onde solicitou a apresentação de planos e funções novas, seguidos 102 pela remodelação dos diques e infraestruturas. A gestão destas duas fases é encaminhada de maneira paralela e se relacionam em decorrência do projeto vencedor do Concurso Nacional de Ideias, que garantiu uma unidade as propostas. Este tipo de venda ao investidor possibilitou a agilidade do processo e o seu sucesso no mercado imobiliário (LARIVIÈRE, 1999). Porto Madero manteve o projeto dos idealizadores originais na execução das propostas, mantendo suas características e assegurando a essência do projeto. ANÁLISE DO PLANO DE PORTO MADERO O projeto urbano consiste em quatro diques que dividem Porto Madero conforme pode ser observado em projeto urbano a seguir (Figura 164). Um dos grandes potenciais do projeto é a recuperação do potencial paisagístico e urbano da área, a recuperação do rio e a preservação de sua identidade, bem como a criação de espaços públicos de lazer: misturando a cidade cenário, sede das grandes multinacionais, com a área voltada ao turismo e comércio, composto por lojas e restaurantes, típica forma utilizada em frentes aquáticas segundo Gruen (1973). O projeto busca redefinir o tecido urbano, promover novos usos e reabilitar o meio urbano, ambiental e social da região, bem como trazer o rio a vida coletiva urbana. Foram construídas novas ligações entre as margens do rio, com seis novas pontes, bem como a criação de infraestruturas, implantação de áreas públicas e integração com os sistemas viários e de transporte público. Os objetivos foram recuperar os galpões e outros elementos históricos que preservam a memória, evidenciar o caráter público de parque ao se integrarem com o Passeio da Costanera Sul e a Reserva Ecológica, priorizar o pedestre, excluir o tráfego pesado, criar novos postos de trabalho e residências na região central, provida de infraestrutura (LARIVIÈRE, 1999). Na imagem abaixo (Figura 42 a e b) observa-se a diferença na paisagem nas margens norte e sul. Na primeira, foram revitalizados 16 edifícios antigos, observando-se a manutenção do gabarito nos novos edifícios atrás, que não fazem parte de Porto Madero. Na segunda, observam-se os novos edifícios espetaculares 103 do bairro. Entre o plano de massas proposto pelos idealizadores e o que está construído atualmente manteve-se a concepção, mas a ocupação dos edifícios, sua implantação, se alterou um pouco. Na margem norte ao invés do princípio de quadras abertas, espaços genuinamente públicos da qual constavam o projeto, o que vemos são edifícios isolados, respeitando seu local de implantação, mas fechados em seus terrenos, respeitando apenas a fachada para frente aquática. NORTE SUL Figura 42 Imagens que revelam o contraste: a) margem norte, revitalizada (acima); b) margem sul, com novas edificações, enfoque para as sedes das grandes empresas e para o uso de arquitetura tecnológica (abaixo). FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2013). Figura 43 Mapa atual com a ocupação das quadras do bairro de Porto Madero. FONTE: WWW.PUERTOMADERO.COM/CONCURSO.POR.PHP (ACESSADO EM 18/06/2013 ÁS 20H20). O novo bairro criado na região central que pode ser observado acima (Figura 43), frente marítima de Buenos Aires, é um exemplo de reconversão de um uso obsoleto recuperando e preservando o patrimônio edificado existente, composto de dezesseis galpões de armazenamento de mercadorias do antigo porto, englobando até mesmo as suas infraestruturas, como os guindastes e outras estruturas que foram incorporadas ao tecido urbano com a mistura de edifícios altamente tecnológicos, orientados pelo amplo passeio nas duas margens dos diques e áreas verdes que incorporaram o projeto culminando na reserva ecológica ao norte, itens 104 que contribuem para a qualidade ambiental e urbana do conjunto (LARIVIÈRE, 1999). A área recebeu o incremento de mais de mil novos habitantes, bem como os edifícios de escritórios e as grandes sedes de companhias internacionais promovem a rentabilidade e o aumento do preço da terra, bem como oferecem muitas vagas de emprego que aliadas ao potencial turístico e de lazer da região, conseguem efetivar o uso do novo bairro criado. Do ponto de vista do tipo de plano urbano onde se insere Porto Madero, segundo os preceitos de Tsukio (1984), podemos agrupá-lo ao tipo de intervenção de redesenvolvimento, pelo fato de se tratar da forma típica de desenvolvimento, ou da receita universal de planejamento estratégico, onde os antigos galpões são reconvertidos e trazidos de volta ao uso por meio de novas funções, como complexos culturais e comerciais, adequando a área as necessidades da sociedade globalizada atual, voltada para o mercado de consumo. Os espaços públicos que somam mais da metade de sua superfície buscam resgatar o papel da frente aquática na memória da população, garantindo áreas recreativas e esportivas misturadas ao novo centro gastronômico e econômico criado (LARIVIÈRE, 1999). O LEGADO DE PORTO MADERO E A CONVIVÊNCIA ENTRE O PASSADO E O PRESENTE Com o projeto urbano a cidade ganhou uma área central globalizada e inserida no mercado de consumo e na disputa entre as cidades, um espaço público na escala necessária para atender a metrópole. Deve-se considerar o caráter excludente que o projeto urbano resultou de modo que alguns setores foram privilegiados aquém de outros desfavorecidos (LIERNUR, 2004). Pode-se caracterizar um sucesso o projeto ao promover a valorização imobiliária da área e seu entorno com o incremento de condomínios residenciais voltados para a classe alta, centros de negócios e centros comerciais, promovendo a 105 requalificação urbana e econômica, tornando-se um paradigma na América Latina (SÁNCHEZ; BERALDINELLI, 2004). As estruturas do antigo porto foram reconvertidas aos mais diversos usos, como escritórios, universidade, galerias de arte, cinemas, restaurantes e lofts respeitando o novo modo de viver da sociedade, sobretudo das cidades inseridas no mundo globalizado, altamente competitivo. Este projeto, apesar possuir um Plano Diretor que orientou as intervenções na malha urbana e de ter revitalizado e resgatado o tecido urbano, a relação com o Rio da Prata e com a memória da população não estabelecem relação com o entorno, pois os seus edifícios novos poderiam estar inseridos em qualquer lugar (Figura 44). Estas são características típicas da cidade do espetáculo, do urbanismo pós-moderno, podendo identificar também algumas características do urbanismo moderno, devido às quadras abertas na margem norte dos diques. Figura 44 Imagem panorâmica a partir da passagem entre os diques mostrando as diferenças entre as duas margens. FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2013). Na margem sul dos diques se encontra a grande maioria dos edifícios que sofreram retrofit e foram reconvertidos para outros usos, como lofts e até um campus universitário conforme imagem a seguir (Figura 45). As características dos antigos galpões de tijolos vermelhos foram evidenciadas e os novos espaços convivem em harmonia com os antigos elementos foram revitalizados e incorporam elementos que os diferenciam, como o aço e o vidro. Os espaços públicos contam com detalhes de mobiliário urbano, desenho de pisos e criação de percursos, as singelezas do gesto projetual são observadas em cada detalhe, como o caminho que separa o caminho do pedestre do de veículos, colocando o primeiro no foco do tecido urbano (Figura 46 a á c e Figura 47 a e b). Pode-se observar também a utilização destas edificações que foram reconvertidas para espaços voltados ao comércio, serviços e turismo. 106 Figura 45 Á esquerda, UCA Pontifícia Universidade Católica Argentina, que faz parte do novo campus universitário em um dos edifícios que sofreram retrofit em Porto Madero no Dique 3 e; à direita o Loft de Madero no Dique 2. FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2013). Figura 4627 Imagens do espaço público gerado na margem sul dos diques, evidenciando as sutilezas nos espaços de pedestres, como a separação do caminho de pedestres com o dos automóveis. FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2013). Figura 47 Imagens que evidenciam a separação do espaço do pedestre com o espaço dos automóveis, á esquerda para a Av. Alicia Moreau de Justo e a direita para os diques e o passeio. FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2013). Encontra-se na paisagem urbana elementos relativos à época do funcionamento do porto como pode ser observado na imagem a seguir (Figura 48 a á d). Vê-se também nas vitrines das humildes lojas destinadas aos consumidores de alto padrão que o espaço, apesar de público, é controlado e segregador. Figura 4828 Sequencia de imagens que demonstram a reconversão dos edifícios históricos na margem sul dos diques para usos comerciais com restaurantes e grandes marcas. FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2013). Na margem sul pode-se observar a continuidade dos elementos da paisagem urbana no que diz respeito ao mobiliário que seguem a linguagem industrial, 107 interagindo com as estruturas do antigo porto, aos espaços de convivência criados no decorrer do percurso, bem como na separação do espaço dos veículos e de pedestres. Entretanto já é possível identificar as características das novas edificações produzidas pelo mercado imobiliário, apoiadas no aumento do preço da terra e na valorização da área (Figura 49 a á f e Figura 50 a á d). Figura 49 Imagens que demonstram a separação do espaço de veículos e de pedestres na margem sul dos diques, com o mobiliário urbano e os percursos criados. FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2013). Figura 50 Imagens que revelam as novas edificações, centros de negócios, cultura e comércio na margem norte dos diques. FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2013). É possível identificar edifícios de arquitetura espetacular, típicos da cidade cenográfica, como edifícios âncora, projetos de referencia feitos por escritórios de arquitetura renomados que buscam inserir um ícone ou um marco na paisagem no Dique 3, como o caso da Ponte da Mulher, do espanhol Santiago Calatrava, que forma um marco que segue o alinhamento do Palácio do Governo (Figura 51). Figura 291 Imagem panorâmica a partir da Ponte da Mulher, de Calatrava, para as duas margens dos diques. FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2013). 108 Para remeter ao passado do antigo porto existente e utilizar a infraestrutura disponível foi criada uma marina no Dique 4 e as estruturas de apoio que possibilitam a navegação fluvial na região central da cidade (Figura 52 a e b). Figura 30 No Dique 4: a) à esquerda imagem da entrada do Rio da Prata nos diques artificiais; b) à direita imagem da marina criada. FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2013). O processo de urbanização da área contou com a reintegração da malha ao tecido urbano, transpondo as barreiras existentes, como a linha férrea que segregava a área do restante da cidade e foi removida, bem como a utilização de quase metade de sua área para espaços públicos. 1.8. PARQUE RIO MANZANARES, MADRI O projeto do Parque Linear do Rio Manzanares, em Madri, requalifica uma extensa frente ribeirinha, área degradada pela ocupação urbana e transformada em parque linear com qualidade urbanística e paisagística, bem como com a criação de áreas de convívio e lazer (Figura 53 a e b). Figura 313 Parque Linear do Rio Manzanares: a) antes da revitalização e; b) depois da revitalização. FONTE: 1. HTTP://INSTITUTOCIDADEJARDIM.WORDPRESS.COM/2011/12/03/AO-INVES-DE-ENTERRAR-UM-RIO-ENTERREM-ASRODOVIAS (ACESSADO EM 14/12/2013 ÀS 14H20); 2. SIQUEIRA (2011). Revela uma solução inovadora para problemas do mundo globalizado e da cidade do consumo, como a perda da identidade coletiva, das características geográficas e resgata o elemento do rio de barreira física para elemento de 109 integração, mobilidade e fluxos. Trata as estruturas obsoletas como torres de alta tensão e vias rápidas em uma área extensa, promovendo a unidade e continuidade da paisagem, da mobilidade urbana e dos espaços públicos, estabelecendo um novo vínculo com o território e modifica sua relação com o usuário. O objetivo do projeto urbano é melhorar a qualidade urbana, ambiental e a mobilidade urbana, de modo que foram feitas revitalizações ao longo de 43 km de rodovia. MADRI E SUA HISTÓRIA COM O RIO MANZANARES O Rio Manzanares percorre a região central da Espanha e possui uma extensão de aproximadamente 92 km, seccionando Madri e desembocando no Rio Tejo, um dos principais da Europa. É extremamente importante para Madri ao cruzar pontes e monumentos que revelam o passado histórico e sua relação com a cidade. Como todos os rios existentes em grandes metrópoles, o Rio Manzanares sofreu grandes perdas por conta do processo de ocupação de seu território envolvente, que resultou na degradação ambiental e paisagística. Madri sempre teve uma relação discreta com o Rio Manzanares, se situando a apenas 1 km da Plaza Mayor, no coração da cidade, de modo que a cidade teve sua origem em decorrência de sua localização, com os árabes, que se aproveitaram das condições geográficas, como a área do platô, o fácil abastecimento, a segurança e a mobilidade. De modo que, durante séculos a região permaneceu como um ambiente rural, modificando-se apenas com a expansão urbana da cidade, que assim como na maioria das grandes cidades, voltou às costas para os cursos d´água. Em 1960 são instalados os anéis rodoviários interligando as rodovias (Figura 54), se utilizando da área de várzea para a implantação de infraestruturas e construindo as vias rápidas, delimitada em azul claro no mapa abaixo. Na década de 1970 é executada a rodovia M-30, peça importante na junção dos anéis, porém, com a demora na construção a mancha urbana foi crescendo e avançando para o perímetro da várzea do rio, indicada no azul pontilhado abaixo deixando de ser uma região periférica para se tornar um divisor entre a região central e os novos bairros 110 (SIQUEIRA, 2011). A consequência da urbanização e do desenvolvimento lento da construção da M-30 foi à implantação da barreira física das vias rápidas aliadas à barreira do rio existente. Figura 54 Mapa da cidade de Madri com as principais vias com destaque para a M-30 e o rio Manzanares que secciona a cidade. FONTE: WWW.SOFTDOC.ES (ACESSADO EM 13/06/2013). A seguir (Figura 55) se verifica a evolução demográfica da cidade, de modo que, a partir de 1950 a taxa de crescimento teve uma alta significativa, relacionada ao o crescimento da urbanização apontado anteriormente, tendo em 1960 a implantação dos anéis rodoviários. Figura 325 Gráfico com a evolução demográfica da cidade de Madri desde 1842 á 2011. FONTE: ES.WIKIPEDIA.ORG/WIKI/MADRID (ACESSADO EM 14/06/2013). As soluções apresentadas pelo projeto são inovadoras e muito se pode aprender com a lição. A implantação das vias rápidas acabou por fragmentar a cidade de Madri em duas partes, desaparecendo deste modo à ligação com o rio e 111 suas características geográficas, de modo que a população perdeu sua identidade ao canalizar o rio, tornando-se um obstáculo às dinâmicas da cidade, que não conseguia incorporá-lo em seu meio urbano, sendo solucionado pelas novas ligações criadas. Desde meados da década de 90 projetos para requalificar a área foram discutidos e motivados pelas revitalizações feitas em Barcelona em decorrência das Olimpíadas de 1992. Revela a preocupação com a recuperação de uma área de preservação histórica e ambiental de interesse nacional, onde ocorreu no passado à ocupação e a construção de avenidas de intenso tráfego nas margens do rio, com a implantação indevida de serviços de infraestruturas públicas. O projeto tem como objetivo devolver o rio à cidade e seus habitantes, revertendo os processos anteriores. O uso da região com a implantação de infraestrutura pesada acarretou na degradação dos cursos d’água, criando uma barreira física e transformando suas margens em áreas contaminadas por resíduos urbanos. Dessa maneira o parque linear criado minimiza as enchentes e promove benefícios culturais, sociais, ambientais e econômicos. A área de estudo se localiza na região do centro da Espanha e está inserida no perímetro urbano da cidade de Madri. Nos mapas a seguir podemos verificar a área de Madri em 1857, de maneira que se nota que o rio Manzanares se situava na zona periférica da cidade, ainda não expandida (Figura 56). Figura 5633 Mapa da cidade de Madri, em 1857, em azul o percurso do Rio Manzanares. TRABALHADO PELA AUTORA A PARTIR DE DADOS. BASE: URBANCIDADES.WORDPRESS.COM/2010/10/14/ENSANCHE-DE-MADRI/ (ACESSADO EM 14/06/2013). 112 CONCURSO INTERNACIONAL DE IDÉIAS E SUAS PRIMEIRAS FORMULAÇÕES O projeto do Parque Linear do Rio Manzanares é fruto de um concurso internacional realizado em 2005 de título: “O que fazer com este vazio no centro da cidade, que abraça mais de cinco quilômetros do rio Manzanares?”. A equipe vencedora era composta pelos escritórios Mrío Arquitectos, da Espanha e West 8 Urban Design and Landscape Architecture, da Holanda. A premissa adotada identidade do rio, identificar a solução no problema: a barreira física do rio e os seus espaços obsoletos eram potenciais, se transformando na essência do projeto com as novas conexões e integração de espaços públicos e equipamentos na cidade (SIQUEIRA, 2011). O projeto se mistura a paisagem que é composta por pontes e áreas históricas. Foi projetada então uma nova praia urbana na margem do rio, bem como vários projetos de equipamentos inusitados, como a Caixa Mágica de Dominique Perrault. Ocultou vias que já passavam pela região, resgatando o espaço do pedestre, de modo a tornar possível a criação do extenso parque linear, fazendo ligação entre as regiões norte e sul do parque, passando pelo maior parque público da cidade, a Casa de Campo. O projeto recuperou as bordas e despoluiu o rio, além de revitalizar seu entorno, renovando as fachadas dos edifícios, criando vagas de estacionamento e reformando as áreas de pedestres. Buscou valorizar as margens do rio, com a inserção de parques, jardins e espaços de convivência e lazer, procurando integrar a população das margens, de modo que os carros que passavam nas margens do rio agora atravessam por um túnel sob o parque linear, transformando também uma ponte que servia de alça viária em passarela arborizada (Figura 57). Figura 57 Foto aérea com os diferentes trechos do parque linear. BASE: (WWW.RICARDOBOFILL.COM/.../MANZANARES-PARK.HTM ACESSADO EM 05/04/2011 ÁS 11H). 113 Os sistemas de infraestruturas como as redes elétricas e o sistema viário foram enterrados, o que permitiu a criação do parque, com mais de 200 mil metros quadrados de espaços públicos, áreas verdes e equipamentos de esporte. Foram projetados também novos acessos, com onze novas passarelas de pedestres e ciclistas ao longo dos 10 km do parque, somadas às cinco pontes já existentes, conectando as duas margens do rio. A paisagem da cidade se beneficia de muitas mudanças com esse projeto, resgatando o rio à paisagem. Serão no total 8,2 milhões de metros quadrados de áreas revitalizadas, 42 km de ciclovias 4303 novas vagas de estacionamento (Figura 58, Figura 59 a e b e Figura 60 a e b). Figura 5834 Imagem da época da construção em 2007. (WWW.MC30.ES ACESSADO EM 05/04/2011 ÁS 9H) Figura 59 Imagens do projeto do Parque Linear do Rio Manzanares, vê-se as novas ligações de passarelas e a via encoberta pelo parque linear, bem como as áreas públicas criadas devolvendo o rio à cidade. (HTTP://ISSUU.COM/CONTEMPORANEU/DOCS/CONTEMPORANEU03 ACESSADO EM 05/04/2011 ÁS 9H) Figura 350 Vistas do parque linear do Rio Manzanares no Trecho 1, já executado, como um parque urbano, utilização da estrutura da ponte como parque. (HTTP://ISSUU.COM/CONTEMPORANEU/DOCS/CONTEMPORANEU03 ACESSADO EM 05/04/2011 ÁS 9H) Apesar de todas as vantagens apontadas, o projeto sofreu críticas por parte da população por conta de alguns pontos que são bem específicos para as Olimpíadas de 2016 que foram pleiteadas pela cidade de Madri: o canal do remo 114 que traria um alto impacto a região, por conta da mudança do curso d’água e o impacto decorrente disso, chamado como insustentável; o alto impacto no parque e seus valores históricos e ecológicos; a falta de integração as questões sociais e a falta de previsões de usos futuros. O Tramo um consiste em um parque urbano, onde foi executada a Caixa Mágica de Dominique Perrault que previa as Olimpíadas de 2016. Já o Tramo dois subdivide-se em setores temáticos: parque urbano, com jardins, passeios, vegetação, áreas desportivas na margem direita que é tida como uma área mais habitada; área florestal, com hortas para uso da comunidade na margem esquerda, entre o rio e a atual via rápida; parque fluvial, com a recuperação das margens do rio e eliminação das infraestruturas pesadas; criação de um observatório de aves e; o Real Canal de Manzanares, valorizando o rio e seu entorno e recuperando totalmente sua estrutura antiga. Também é relevante considerar que o desenvolvimento urbano acarretou na implantação de torres de alta tensão, esgoto a céu aberto, linhas de trem de alta velocidade (LAV) que segmentam o território, contaminando o solo, deteriorando suas condições biológicas e ambientais. Essas estruturas de serviço que hoje seguem desordenadamente pelo território foram soterradas passando corredores embaixo das avenidas (Figura 61). Figura 61 Imagens do Tramo 1. (HTTP://ISSUU.COM/CONTEMPORANEU/DOCS/CONTEMPORANEU03 ACESSADO EM 05/04/2011 ÁS 9H) por 115 POLÍTICAS PÚBLICAS E GESTÃO – A GRANDE EXPERIÊNCIA PÚBLICA A execução do projeto se deu na gestão do então prefeito Alberto RuizGallardón, no período de 2003 á 2007, onde se decidiu modernizar a área, em específico a M-30, considerado obsoleto desde a sua construção. Este aspecto nos leva a pensar na dificuldade relativa à longa duração dos projetos urbanos, até mesmo os infraestruturais, principalmente quando projetados para atender a necessidades em curto prazo. O resultado que se obtém é que estes projetos urbanos, principalmente referentes a obras infraestruturais e estruturas viárias, se tornam obsoletos na já na fase de construção. Em 2008, durante o período de execução do projeto, estourou a crise financeira na Europa que abalou fortemente a Espanha, de modo que, se discutiu muito a respeito da continuidade ou não da obra, optando-se pela continuidade do mesmo, entregue no prazo. O orçamento da obra girou em torno de 420 milhões de euros na urbanização de 120 hectares. O PLANO DO PARQUE LINEAR DO RIO MANZANARES As intervenções realizadas no desenho urbano devolvem o espaço do pedestre, essência do espaço público. Ao colocar a rodovia M-30 em um túnel que se encontrava com o rio Manzanares na região central em 6 km de vias, devolveu-se o espaço do convívio social e resgatou-se a identidade local. O plano urbano foi desenvolvido em conjunto com o desenho urbano com detalhes arquitetônicos e infraestruturais. Recuperou a dinâmica da cidade, renovou as passarelas existentes, criou novas travessias, como a Ponte Cáscara e ligações singelas de madeira converteram as barragens históricas em novas passagens e configurou praças. Utilizou-se de pontes que integravam o sistema viário para transforma-las em área de pedestres integradas ao sistema do parque, com o incremento de vegetação e mobiliário urbano. Foram utilizados elementos naturais, dispondo a vegetação ao longo de toda a extensão e granitos utilizados no mobiliário urbano, utilizando peças que seriam 116 descartadas da pedreira. O maior desafio encontrado na composição da paisagem foi o diálogo entre os elementos infraestruturais de suporte a M-30, enterrada, e o projeto paisagístico do parque. A solução foi dispor os respiradouros e saídas de emergência de maneira a se integrar ao projeto paisagístico ao ar dos túneis dos carros filtrando-o antes de chegar ao ambiente externo. Baseou-se em três elementos que visam recriar a história e paisagem ribeirinha da cidade, com projetos específicos: Salim de Pinos, Cena Monumental e Leito do Rio. O primeiro define a espinha dorsal do projeto urbano e consiste de um parque linear com 30m de largura e 6 km de comprimento, vegetação típica do norte da cidade, composto por uma abóbada verde que faz sombra ao passeio de pedestres e ciclistas, unindo as duas margens do rio e áreas que se espraiam no encontro com as pontes históricas de Seguia e de Toledo. O terceiro se encontra ao sul, onde há a maior superfície do projeto a ser trabalhada, onde se insere o Parque da Arganzuela, área da antiga várzea inundável do leito do rio, onde os antigos equipamentos foram revitalizados, como o antigo matadouro e convertidos em complexo cultural. O projeto faz parte de um plano urbano mais amplo, o Madrid Calle 30, realizado entre 2004 e 2007, integrado com o projeto Madri-Río, possibilitando a integração dos bairros, a reabilitação do rio Manzanares e do seu entorno. A ação de enterrar a rodovia M-30 exigiu muitos esforços técnicos. O sistema para a construção dos túneis foi tradicional, com paredes diafragma de concreto, lajes construídas com vigas protendidas e concreto armado, onde o método construtivo das lajes variou em decorrência das pistas e da presença de obstáculos como as linhas de metro e as fundações de estruturas próximas, desafio á engenharia, mas que acabou por revelar equipamentos históricos (Figura 62). Figura 362 Imagem do sistema utilizado para enterrar a M-30, com o parque em cima. (WWW.INFRAESTRUTURAURBANA.COM.BR ACESSADO EM 15/06/2011 ÁS 18H) 117 Possibilitou a recuperação das águas do rio, com a reforma do sistema do esgoto e drenagem ao longo do mesmo que esgoto anteriormente passava embaixo da rodovia e era levado para as estações de tratamento, nas épocas de chuva todo o sistema de drenagem e de esgoto era escoado para o rio. Desta maneira um novo sistema foi criado visando diminuir a contaminação do leito do rio (BARROS, 2012). O LEGADO DO PARQUE LINEAR DO RIO MANZANARES E A RECUPERAÇÃO DE UM RIO URBANO O uso efetivo da área de requalificação pode ser observado nas escalas territorial e metropolitana. Na primeira vê-se a conexão das paisagens naturais nas duas margens do rio. Já na segunda vê-se a conexão de espaços públicos e áreas verdes que, devido ao crescimento da cidade, estavam desconexos. O projeto recuperou 150 hectares que eram destinados à rodovia e três mil hectares de zonas obsoletas, áreas verdes e edifícios dispersos, incorporados à rede metropolitana. 118 2. INSTRUMENTO URBANÍSTICO: OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II 2.1. A LEI DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA NO DESENVOLVIMENTO URBANO No Brasil as Operações Urbanas surgiram na década de 80, mais precisamente no Plano Diretor da Cidade de São Paulo de 1985, não aprovado, porém muito relevante tecnicamente (SOMEKH; CAMPOS, 2012). As Operações Urbanas possuem o papel de auxiliar as mudanças urbanísticas propostas pelo mesmo. A primeira intervenção urbana aplicada em São Paulo foi a Anhangabaú, em 1983, da qual participou o professor Roberto Righi, na concepção e coordenação de Clementino D’Ambrosis e Domingos (Duca). O conceito de solo criado, onde é determinado um coeficiente de aproveitamento único, eliminando as restrições do zoneamento, de modo que a flexibilidade de ordenação do solo possibilitando a requalificação do tecido urbano, regulamentado pelo Estatuto da Cidade 20. Assim, as operações urbanas foram concebidas em São Paulo no Plano Diretor de 1985, e depois aplicadas na modificação da área central da cidade e a captação de recursos orçamentários particulares. Finalmente foi consolidada pelo Estatuto da Cidade uma área de exceção, onde deveria haver um projeto urbano, tendo como principal objetivo a transformação estrutural do tecido urbano visando promover melhorias sociais e ambientais, podendo reverter à tendência de esvaziamento de áreas centrais, bem como consolidar o desenvolvimento de polos produtivos e de serviços. O Plano Diretor de 2002-201221 se baseou no Estatuto da Cidade e reafirmou as operações urbanas anteriores, bem como propôs algumas novas. O Certificado de Potencial Adicional de Construção (CEPAC) previsto pelo Estatuto da Cidade é um instrumento de venda de contrapartida de outorga onerosa 20 21 Instituído pela Lei Federal nº 10.257/2001. Instituído pela Lei Municipal nº 13.430/2002. 119 do direito de construir, de modo que agilizou o processo de revitalização ou requalificação de uma área. A operação urbana consorciada prevê a utilização dos recursos orçamentários dentro do perímetro da mesma, porém a maneira como é aplicado demonstra um pensamento rentista e não aquele definido em seu conceito. Transforma-se em um dos grandes problemas das operações urbanas devido ao distanciamento entre o plano e a realidade, pois deveria promover melhorias sociais e ambientais. Na prática é a utilização de seus recursos extra-orçamentários que deveriam ser destinados à finalidade das intervenções urbanas, para outra que beneficia o mercado imobiliário que utiliza como uma prática excludente. Esse problema aumentou em 2003, quando os CEPACs foram transformados em títulos mobiliários, negociáveis em leilão, destinando os recursos a obras de infraestruturas no perímetro das operações urbanas. Deve-se também levar em conta a arbitrariedade e falta de estudos técnicos dos perímetros das operações urbanas em suportar os empreendimentos propostos, adequação ambiental e social e outros. É importante salientar que elas consistem em instrumento urbanístico que depende de parcerias público-privadas, bem como participação popular, definindo áreas de exceção na cidade, que não correspondem às leis de zoneamento vigentes, podendo altera-los de acordo com os objetivos preestabelecidos (SAVELLI, 2009). As operações urbanas se conduzidas inadequadamente podem agravar os efeitos da exclusão territorial e social, intensificando o processo de gentrificação. Deve haver uma visão articulada entre o processo de planejamento urbano e a articulação com o processo de gestão urbana, que envolve os atores públicos e privados. Deve implicar em um projeto urbano que se submeta simultaneamente aos interesses de mercado e aos objetivos públicos físicos, ambientais, econômicos e sociais, transformando trechos do município e combatendo a exclusão e desigualdade (ALVIM; ABASCAL; MORAES, 2011). As políticas urbanas são o conjunto de ações e políticas públicas nos processos urbanos que possibilitam conduzir metas, diretrizes, objetivos e procedimentos que orientam as ações do poder público nas áreas urbanas. São intervenções no território, com responsabilidade do Estado, onde o município com autonomia necessita da parceria com agentes privados e da participação popular, 120 inserido no contexto de desigualdade e envolvimento do setor privado na produção dos espaços públicos. Um grande problema da instituição das operações urbanas é a descontinuidade das gestões, vista claramente no município de São Paulo nas últimas décadas, onde os planos da gestão anterior foram abandonados pela seguinte, como no caso da Operação Urbana Faria Lima ou ainda mais remota, da Avenida Paulista. A descontinuidade política provocou a fragmentação das propostas, não havendo controle ou conclusão das operações urbanas devido aos entraves internos e políticas públicas. A articulação das políticas urbanas na escala local depende das forças sociais, políticas e econômicas do município, de sua gestão e prática social, de seu desenvolvimento, demandas e relação com o poder público (ALVIM; CASTRO, 2010). Como se observa na linha cronológica a seguir (Figura 63), foi a partir de 1970 que o país começou a pensar em projetos urbanos, com a industrialização acelerada (GADENS; HARDT; FREY, 2012). No Município de Osasco, com a desindustrialização. Em 2008 foi elaborada e implantada a operação urbana no município de Osasco. A partir daí algumas obras iniciaram-se, como o alargamento da Rua da Estação, a remodelação da Estação de Osasco e a demolição dos edifícios do Conjunto Nova Grécia. 121 Figura 373 Linha cronológica de inserção da Operação Urbana Consorciada Tietê II no contexto das políticas públicas. FONTE: ORGANIZADO, INTERPRETADO E REPRESENTADO PELA AUTORA, RETIRADO DE DADOS DA PREFEITURA MUNICIPAL DE OSASCO E DE LEGISLAÇÕES ESTADUAIS E FEDERAIS. 2.2. O CASO DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II Nesta dissertação aborda-se como objeto de estudo a Operação Urbana Consorciada Tietê II (Figura 64), situada no município de Osasco, que possui uma grande barreira definida pela ferrovia, que corta toda a cidade, possuindo uma orla ferroviária muitas vezes subutilizada e degradada. Faltava ao município de Osasco uma política habitacional consistente que realmente solucione os problemas de déficit de moradia. Agora, com as novas políticas municipais, esta sendo feita em Osasco uma revisão da política habitacional, com propostas e diretrizes que caminham para uma solução, como a Operação Urbana Consorciada Tietê II, com o projeto de revitalização do vale central da cidade. 122 Figura 6438 Área da Operação Urbana Consorciada Tietê II antes do início das intervenções. FONTE: PMO (2012). O quadro geral é que torna a cidade e o entorno da orla ferroviária passível de transformação, revitalização e renovação, bem como de qualificação para os vazios urbanos, de modo que propor uma intervenção linear, conexões entre o norte e sul da cidade, promovendo a diminuição da segregação e desigualdade social, territorial e urbana. É o principal fator que acarreta nesse quadro é a característica geral da cultura brasileira: ilegalidade e marginalidade (MARTINS, 2006). A segregação espacial formada, num primeiro momento, pela barreira física do Rio Tietê, pela linha férrea e pela Rodovia Castelo Branco, trouxe uma série de consequências negativas para o Município: ao norte dessas barreiras se situa a maioria da população de baixa renda e importantes indústrias, ao sul situam-se a maioria de classe média alta e importantes empresas para o setor terciário. O objeto de estudo levanta questões da ordem da importância da revitalização urbana para a cidade: Como garantir a continuidade das propostas? Como partir do plano ao projeto urbano? Qual o papel do arquiteto urbanista neste processo? 123 ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO MUNICÍPIO DE OSASCO O município se desenvolveu lentamente, mesmo com a construção da Estrada de Ferro, em 1875, até a década de 50, quando foi dada a origem a emancipação da cidade, que ocorreu em meados de 1950, até então Osasco era parte da periferia do Município de São Paulo. Osasco teve seu primeiro núcleo de povoamento no período colonial de 1634 no bairro de Quitaúna, que pertencia ao bandeirante Antonio Raposo Tavares, onde funcionava como ponto de partida em direção ao interior. No século seguinte o bairro continuou em evidência por conta dos tropeiros que se dirigiam a Sorocaba e Minas Gerais, funcionando como parada para os bois engordarem. No final do século XIX a cidade era configurada como local de passagem, entre Santos e o interior do Estado, servindo de acesso a região cafeeira. Ela se desenvolveu lentamente a partir da ferrovia, pois antes mesmo de ser um vilarejo já estava na rota dos bandeirantes (PMO, 2012). Nessa mesma época o imigrante italiano Antonio Giuseppe Agú, que emigrou para o Brasil em 1872 trabalhou na construção do Engenho Central de Capivari, interior do Estado. Ele adquiriu algumas glebas de terra na região e com forte empreendedorismo, construiu uma olaria com uma pequena produção de tijolos, iniciando o progresso na região, que fazia parte do município de São Paulo, construindo casas nos arredores para abrigar os operários, trazendo as primeiras famílias de trabalhadores, principalmente imigrantes, que se instalaram as margens da estrada de ferro. A primeira estação de trem da região concluída em 1895 foi feita por Antonio Agú que doou a empresa ferroviária, recebendo o nome de Estação Osasco, como homenagem de Agú a sua cidade natal na Itália. Para resolver os problemas de drenagem das terras próximas à estação que eram constantemente alagadas foram plantados eucaliptos e os trechos mais secos foram loteados, favorecendo a ocupação urbana do centro. A vila era caracterizada como um local essencialmente operário, integrada principalmente nas atividades econômicas desenvolvidas por Antônio Agú. Na formação da cidade fizeram parte descendentes de: armênios, russos, alemães, turcos, poloneses, italianos, árabes, espanhóis e japoneses (PMO, 2012). 124 Na primeira década do século XX, Antônio Agú diversificou as atividades, arrendando a olaria ao barão Evaristhe Sensaud de Lavaud, que se associou aos franceses Joseph Levy, Hermann Levy e Artur Kalm, criando a fábrica de tubos e cerâmica Sensaud de Lavaud & Cia. Ao mesmo tempo fez sociedade também com Henrique Dell’Acqua (Figura 65 a e b). Em 1922 implantou uma indústria de cartonagem em sociedade com Narciso Sturlini, que se associa com Nicolau Matarazzo criando a Sturlini & Matarazzo, a primeira fábrica de papelão da América Latina (PMO, 2012). Figura 65 Mapa da cidade de Osasco mostrando sua evolução: a) 1900 e; b) 1912. (WWW.CAMARAOSASCO.SP.GOV.BR/OSASCO/MAPAS ACESSADO EM 17/06/2011 ÁS 20H) Desse período em diante Osasco não parou mais de crescer, com a instalação de diversas indústrias e comércio de grande porte. Em 1915 foi implantada a Continental Products Company, que deu origem ao bairro do Presidente Altino, denominado Frigorífico Wilson. Em 1918 a vila de Osasco foi elevada a condição de distrito de São Paulo. Em 1922 ganhou serviço de balsa para a travessia do rio Tietê, mesma época em que o exército se instalou na região, no antigo sítio de Antônio Raposo Tavares, promovendo a expansão do bairro de Quitaúna (PMO, 2012). Em 1923 com a chegada da luz elétrica a economia ganhou novo impulso. Em 1929 deu-se a instalação da Fábrica de Fósforos Granada e a oficina da Soma. Em 1930 a Hervy passou a produzir louça sanitária, tornando-se pioneira na fabricação deste material na América Latina (Figura 66). 125 Figura 66 Instalação da Indústria Cerâmica Hervy na década de 1920. (WWW.CAMARAOSASCO.SP.GOV.BR/OSASCO/FOTOS ACESSADO EM 17/06/2011 ÁS 20H) Em 1934 Osasco tinha 12.091 habitantes e possuía três estações ferroviárias denominadas: Presidente Altino, Osasco e Quitaúna, com a atual Avenida dos Autonomistas ocupada por moradias. Nas décadas de 40 (Figura 67) e 50 marcaram a instalação de grandes empresas em Osasco, um novo ciclo de industrialização, principalmente metalúrgicas. Em 1940 instalou-se a Eternit, onde hoje é o Wal Mart; em 1944 a Cobrasma; a CIMAF em 1950; o Moinho Santista em 1951, onde hoje é o Carrefour, entre outros exemplos (PMO, 2012). Figura 67 Largo de Osasco na década de 1940. (WWW.CAMARAOSASCO.SP.GOV.BR/OSASCO/FOTOS ACESSADO EM 17/06/2011 ÁS 20H) Em 1944 Osasco passou a ser subdistrito de São Paulo, porém a falta de serviços básicos e infraestruturas começaram a ser criticadas pela população que almejava a emancipação de Osasco. Desse modo surgiu o grupo Sado (Sociedade Amigos do Distrito de Osasco), que reivindicava melhores condições para o bairro, pois de acordo com eles o mesmo estava em segundo plano, contribuindo apenas em questões econômicas ao município de São Paulo. O movimento emancipacionista tornou-se mais atuante em 1952, onde após muita luta e protestos, em 1958 a campanha da emancipação conseguiu o sim no plebiscito (Figuras 68 a 126 e b). Houve vários entraves judiciais, tendo o caso sido julgado pelo Supremo Tribunal duas vezes, tendo seu desfecho, após muita pressão, com as eleições onde Hirant Sanazar foi eleito o primeiro prefeito em 4 de fevereiro de 1963, ocorrendo em 19 de fevereiro à emancipação. Figura 68 Movimento de emancipação em Osasco e primeira passeata pós-emancipação, respectivamente. (WWW.CAMARAOSASCO.SP.GOV.BR/OSASCO/FOTOS ACESSADO EM 17/06/2011 ÁS 20H) Nas décadas de 50 e 60 o crescimento econômico foi impulsionado com a instalação de várias indústrias, consolidando a expansão urbana, de modo desorganizado. Já a década de 70 (Figuras 69 a e b) foi marcada pela mudança na economia, com aumento do polo expressivo de atividades de comércio e serviços, atraindo mão de obra, acentuado na década de 90 (PMO, 2012). Figuras 69 Trechos ao longo da Avenida dos Autonomistas na década de 1970, próximos a Rua Primitiva Vianco. (WWW.CAMARAOSASCO.SP.GOV.BR/OSASCO/FOTOS ACESSADO EM 17/06/2011 ÁS 20H) Da emancipação até a década de 70 o município era forte polo de atração de mão de obra (Figura 70, Figura 71 a e b e Figura 72 a e b). Já os anos 80 foram caracterizados por crises econômicas, diminuição do ritmo industrial e saída de empresas de grande porte. Nos anos 90 ocorreu a mudança do perfil socioeconômico com a chegada de empresas grandes do setor de serviços, como os shoppings e as redes de varejo. Porém observa-se em 2000 um novo ciclo de industrialização, com a reabertura do edifício da Cobrasma com o grupo AmstedMaxion. Na cidade estão instaladas grandes empresas como a sede do Banco 127 Bradesco, na Cidade de Deus, as emissoras SBT e Rede TV. Então também a sede dos Centros de Distribuição da Coca-Cola, McDonalds, Avon, Pão de Açúcar e Carrefour, dentre outras empresas. Pode ser considerada capital regional da zona oeste da região (PMO, 2012). Figura 70 Largo de Osasco na década de 1970. (WWW.CAMARAOSASCO.SP.GOV.BR/OSASCO/FOTOS ACESSADO EM 17/06/2011 ÁS 20H) O centro de Osasco possui o principal polo comercial da cidade, sendo o 2º maior comércio de rua do país, com o calçadão da Rua Antônio Agú perdendo apenas para a Rua Vinte e Cinco de Março, com um movimento de 100 mil consumidores por dia que vem de cidades vizinhas, atendendo regionalmente 15 municípios. Pode ser considerada capital regional da zona oeste da região. O município também fez parte do início do movimento contra a ditadura, com a Greve da Cobrasma em 1968, que desafiou o autoritarismo e paralisou as principais atividades de outras grandes empresas da cidade, com a organização de sindicatos, estudantes e grupos contra a ditadura militar (PMO, 2012). Figura 391 Estação de Osasco: a) no início de suas operações em 1934 e; b) em 1966, respectivamente. FONTE: WWW.NOSSOSAOPAULO.COM.BR (ACESSADO EM 14/05/2011 ÁS 10H30) 128 Figuras 402 a) Estação Osasco, antes da requalificação promovida pela Operação Urbana em integração com projeto de Requalificação do Centro e; b) Largo de Osasco, antes da requalificação promovida pela Operação Urbana em integração com projeto de Requalificação do Centro, respectivamente. FONTE: WWW.NOSSOSAOPAULO.COM.BR (ACESSADO EM 14/05/2011 ÁS 10H30) TERRITÓRIO E LIMITES MUNICIPAIS O município se situa a sudoeste do Estado de São Paulo, se estendendo ao longo do vale do Rio Tietê, iniciando-se próximo a confluência deste com o Rio Pinheiros. Possui uma localização privilegiada com relação á capital, além de diversos acessos importantes como a Rodovia Anhanguera, a Rodovia Castelo Branco, a Rodovia Raposo Tavares, o Rodoanel Mário Covas, a Estrada de Ferro da CPTM e o Rio Tietê que corta a cidade no sentido leste/oeste e a proximidade com a Rodovia Raposo Tavares, Rodovia Anhanguera e Rodovia Bandeirantes, a Serra e Cotia ao sul e Carapicuíba e Barueri ao oeste. A bacia hidrográfica é composta pelo Rio Tietê, onde se encontra parcialmente retificado. Seu traçado antigo contorna o bairro do Rochdalle, denominado Braço Morto do Tietê. Todos os córregos são afluentes diretos ou indiretos do Rio Tietê. A cidade é cortada no sentido leste/oeste pelo Rio Tietê, tendo suas maiores dimensões no sentido norte/sul, tendo como relevo um grande vale, onde se situa a região central da cidade. A linha férrea e a área central tem altitude mínima de 718m acima do nível do mar; e regiões com maior altitude nos extremos, do município chegando a 1009m acima do nível do mar. De acordo com os dados da Prefeitura Municipal de Osasco, na região sul 18% da área total apresenta declividades entre 0 e 5%, já nos 82% restantes ela varia entre 5 e 30%. Na região norte 12% da área apresenta declividades entre 0 e 5%, 75% entre 5 e 30% e os 13% restantes com inclinações superiores a 30%, o que foi determinante para o desenvolvimento urbano do município, bem como para a evolução de sua mancha urbana (SEHDU). 129 Faz parte da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), situando-se na sub-região oeste (Figura 73) e caracterizado pelo setor terciário, que se reforçou nos últimos anos, principalmente o setor de serviços, reduzindo a participação da indústria. Figura 413 Mapa inserção do município na RMSP. (LEI 2223/90 E SISTEMATIZAÇÃO SEHDU / DESENVOLVIMENTO URBANO DCG) Segundo a Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (EMPLASA), o município de Osasco é o 6º mais populoso do Estado de São Paulo (2009) e o 5º da RMSP, com o total de 666.740 (censo IBGE 2010) habitantes e densidade populacional de 98,64 hab./ha e uma área de 6.616 hectares, segundo a Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (FIBGE). Situando-se em 12º lugar no Produto Interno Bruto (PIB) no país, em 4º lugar no estado de São Paulo e o 3º da RMSP, estando a sua frente os municípios de São Paulo, Guarulhos e Campinas. Entretanto o seu PIB per capita ocupa a 31ª posição no estado, evidenciando a queda e a desigualdade econômica e social no município (PMO, 2012). No período de 2000 á 2010 (Figura 74) houve a diminuição constante da participação da indústria no PIB municipal, onde no início representava 17% do total e em 2009 passou para 10,4%, comparado a média do Estado, que equivale ao total de 23,4%, identifica fortemente o processo de desindustrialização na região. Já o setor de serviços deu uma guinada no mesmo período, passando de 75,4% do total do PIB para 83,6% (DIEESE, 2012). 130 Figura 74 Gráfico referente ao valor adicionado bruto no município de Osasco, no período de 2000 á 2009. FONTE: DIEESE, 2012. A taxa de crescimento anual média municipal é de 0,2% no período de 2000 á 2010, crescendo menos em relação à taxa estadual, que equivale a 1,2%. Sua população é composta principalmente por uma população jovem, na faixa etária entre 10 e 39 anos. A evolução das taxas apontou para o aumento da população na faixa etária até 29 anos e o aumento da população de 39 á 59 anos (PMO, 2012). A população municipal vive em áreas urbanas. Osasco participa do desenvolvimento leste/oeste do estado de São Paulo, onde concentra seus principais acessos regionais e a linha férrea, com uma área de 68 km². O município representa 1,3% dos empregos formais do estado de São Paulo e 24,9% da RMSP, se encontrando em 11º do estado, ficando atrás dos municípios de São Paulo, Campinas, Guarulhos, São Bernardo do Campo, Barueri, São José dos Campos, Ribeirão Preto, Santo André, Sorocaba e Santos. O setor de serviços representa 39% do total de estoques formais, já o comércio representa 25% em 2010. O setor industrial, mesmo em declínio, ainda representa cerca de 19% do total de empregos formais (DIEESE, 2012). Com relação ao abastecimento de infraestrutura urbana, cerca de 99,1% das unidades habitacionais do município em 2010 contava com o abastecimento de por rede de água, a rede de esgoto contava com 83,8%, já a coleta de lixo correspondia a 93,1% dos domicílios. Com relação à RMSP estes valores se mostram inferiores na questão da rede de esgoto e superiores na questão da rede de abastecimento de água (DIEESE, 2012). 131 O município possui um grande número de habitações subnormais, carentes de infraestrutura e equipamentos públicos, sendo carentes de regularização fundiária ou fora dos padrões urbanísticos e das normas edilícias, equivalente a 2,9% do total do Estado de São Paulo, sendo que o município possui cerca de 1,6% do total das habitações do Estado, indicando a intensidade destas condições no município (DIEESE, 2012). O rendimento médio per capita no município aumentou no período de 2000 á 2010 no total de 29,6%, equivalendo a uma média anual de 2,6%. Apesar do aumento e da variação anual ser superior se comparado a RMSP e ao Estado de São Paulo, o valor real do rendimento é menor em Osasco, equivalente a média de R$ 1.114,82 em 2010, já na RMSP este valor passa para R$ 1.462,01 no mesmo período (Figura 75). Estes são indicadores da desigualdade social no município e da grande quantidade de famílias em situação de pobreza extrema, de modo que 7,4% da população do município se encontram nesta situação, com uma renda per capita de R$70,00. No mesmo período foram verificados cerca de 3,1% do total dos domicílios em condições de pobreza, com rendimento de até R$ 140,00 por pessoa (IBGE, 2010). Figura 75 Gráfico da evolução da renda por domicilio per capita relacionando o município de Osasco com a RMSP e o estado de São Paulo. FONTE: DIEESE, 2012. 132 A POLÍTICA PÚBLICA METROPOLITANA E O MUNICÍPIO DE OSASCO O município de Osasco faz parte da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) 22 de modo que, desde a criação da Secretaria de Desenvolvimento Metropolitano (SDM) 23 em 2011, onde foram realizadas cinco Conferências Estaduais das cidades participantes com o objetivo de discutir questões da política pública urbana, como habitação, saneamento básico e mobilidade urbana, fazer estudos e publicações referentes a estes temas e elaborar políticas públicas para as regiões metropolitanas do Estado de São Paulo juntamente com os municípios, distribuídas em cinco aglomerados urbanos (Figura 76): 1. Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), 2. Região Metropolitana da Baixada Santista (RMBS), 3.Região Metropolitana de Campinas (RMC), 4.Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte (RMVPLN), 5.Região Metropolitana de Piracicaba (RMP) e 6.Aglomerado Urbano de Jundiaí (AUJ), bem como fomentar as parcerias entre as esferas do Governo, principalmente Municipal e Estadual, controlando ações que possam ter reflexo na escala metropolitana. A Macrometrópole do Estado de São Paulo é configurada por 153 cidades que concentram apenas 16% do território estadual, mas 72% da população e 80% do PIB do Estado 24. A SDM é composta por órgãos Municipais e Estaduais, que desde a sua criação passaram a ter papel importante no planejamento urbano e no desenvolvimento das políticas públicas, como a Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (EMPLASA), a Agência Metropolitana da Baixada Santista (AGEM), a Agência Metropolitana de Campinas (AGEMCAMP) e o Fundo Metropolitano de Financiamento e Investimento (FUMEFI). Os primeiros trabalhos se ativeram a criação em lei específica das aglomerações e regiões metropolitanas, em seguida foi realizada a organização dos Conselhos Regionais. Por enquanto foi criado o Conselho Consultivo da RMSP, 22 A RMSP havia sido instituída em 1973 por Lei Federal, mas não possuía existência legal, pois dependia de aprovação de lei estadual, o que se efetivou com a criação do então governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, em janeiro de 2011 pela Lei Complementar Estadual nº 1.139, de 16 de junho de 2011. 23 Criação da Câmara de Desenvolvimento Metropolitano por meio de Decreto nº 56.887, de março de 2011, como parte integrante do Sistema Estadual de Desenvolvimento Metropolitano. 24 Dados retirados do Governo do Estado de São Paulo, em notícias, 2012. 133 promovendo a organização e a aprovação do regimento interno. Com cinco conferências já realizadas foram discutidas várias temáticas, como a criação da Câmara Temática de Logística e Transportes de Cargas, que acabou por instituir a restrição de transito de caminhões no município de Osasco 25. As Câmaras Temáticas abordam diferentes aspectos do planejamento urbano e tem como objetivo deliberar sobre planos, projetos e obras que afetem a RMSP com recursos do Fundo de Desenvolvimento da Região Metropolitana de São Paulo vinculado a SDM. Outra ação colocada em prática foi em relação à mobilidade urbana, com a criação do Bilhete Metropolitano que vislumbra integrar os transportes (SDM, 2013). 5 3 4 6 1 2 Figura 76 Mapa da Macrometrópole com as seis aglomerações urbanas do Estado de São Paulo. FONTE: SECRETARIA DE DESENVOLVIMENTO METROPOLITANO. EM: WWW.SDMETROPOLITANO.SP.GOV.BR (ACESSADO EM 15/10/2013 ÁS 10HS) O município de Osasco é um dos 39 municípios que compõe a RMSP e representa 0,82% da área total da RMSP e uma Taxa Geométrica de Crescimento Anual de 0,22 de acordo com dados do IBGE e o PIB no total de 5,25% do total da RMSP, situando-se na sub-região Oeste. A RMSP têm apresentado em média taxas de crescimento populacional inferior às taxas Estaduais, dados que se devem principalmente a saturação do território em relação a sua ocupação, principalmente na sub-região Sudeste e Oeste, possuindo as taxas de PIB acima da média da RMSP. Já as sub-regiões Sudoeste e Norte vêm apresentando altas taxas de crescimento, entretanto detém o menor PIB per capita na RMSP, o que pode ser 25 Decreto nº 10.676, de 07 de março de 2012, que restringe o transito de caminhões em Osasco. 134 compreendido pela grande parcela de seu território sob proteção aos mananciais 26 (SDM, 2012). A Agenda Metropolitana vislumbra vários temas como saúde, habitação e saneamento básico, contendo propostas em parcerias com agentes públicoprivados, como a drenagem urbana e a limpeza e desassoreamento dos rios e córregos junto ao DAEE e a CETESB, bem como outras propostas. Ocorreram até o presente momento cinco conferências da Agenda Metropolitana. A Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) tem como objetivo desenvolver o planejamento regional e melhorar a qualidade de vida, buscando a cooperação nos diferentes níveis do governo, a utilização racional do território, a redução das desigualdades regionais e o aproveitamento dos recursos 27. A Conferência Nacional das Cidades, promovida pela SDM, tem como objetivo promover a gestão democrática por meio da interlocução entre gestores públicos, estabelecer planos de ações para enfrentar os problemas contemporâneos das cidades e propiciar a participação popular. A SMD trabalha com o Governo do Estado que possui três instrumentos de planejamento urbano: Plano Plurianual 2012-2015 (PPA) 28 , Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e Lei do Orçamento Anual (LOA). Ela busca estabelecer convênios para atender as demandas municipais que interferem na RMSP, olhando para o Estado de São Paulo e planejando seu futuro de modo estratégico. Seu primeiro trabalho foi à criação da Câmara de Desenvolvimento Metropolitano, com colegiado formado por todos os prefeitos ou representantes indicados pelos mesmos e os representantes do Estado que apontam as prioridades e os investimentos da aglomeração urbana em questão, estabelecendo políticas do governo estadual para as regiões metropolitanas e aglomerações. Tem como principal objetivo agilizar a solução de problemas comuns aos municípios formados por uma região ou aglomerado. 26 Dados retirados do estudo realizado pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo a pedido da Secretaria de Desenvolvimento Metropolitano do Estado de São Paulo em 2012. 27 Estabelecidos pela Lei Complementar Estadual nº 1.139, de 16 de junho de 2011. 28 Estabelecido pelo Decreto 56.679, de 20 de janeiro de 2011 que dá suporte ao LDO e LOA. 135 As prioridades da Secretaria são: a mobilidade urbana, o abastecimento de água, o combate às enchentes, a redução da poluição, a ampliação do saneamento básico e a questão da destinação dos resíduos. Devido aos grandes protestos ocorridos por todo o país, em especial em no Estado de São Paulo, foram promovidas medidas pelo Governo do Estado de São Paulo que buscam reduzir custos. Desta forma o criador da Secretaria de Desenvolvimento Metropolitano (SDM), o governador do Estado Geraldo Alckmin, anunciou a extinção da Secretaria em junho de 2013, porém evidenciou que a mesma seria incorporada a Casa Civil sem prejuízos aos trabalhos, havendo apenas um corte de despesas com funcionários e aluguel de imóveis 29. Entretanto, passados alguns meses, a Secretaria ainda esta contratando novos funcionários e mantendo as pautas de sua agenda normalmente. Ao ser questionado sobre a questão o governador previu o envio do projeto de lei que extinguirá a mesma á Assembleia Legislativa30. A área de inserção da Operação Urbana Consorciada Tietê II pertence à Unidade de Informação Territorializadas (UIT) 6, denominada Presidente Altino / Piratininga, delimitada pela SDM com a metodologia da EMPLASA, definidas a partir de unidades censitárias e zoneamentos. A área esta situada na região central do município (Figura 77), no eixo leste-oeste, ao norte pela Rodovia Castelo Branco, ao sul pela linha férrea, ao oeste pela divisa com os municípios de Carapicuíba e Barueri e ao leste com a divisão com o município de São Paulo. Conta com 25.426 habitantes, equivalente a 3,9% da população municipal, 7.668 domicílios, equivalente a 4,1% do total do município, possuindo uma densidade de 4.046 habitantes/km², de acordo com dados do Censo do IBGE em 2000. Podemos verificar com estes dados que, apesar de se tratar da região central do município, a área encontra-se subutilizada e pouco adensada. Concentra cerca de 8% dos estabelecimentos comerciais, de serviço e industriais do município, com uma distribuição na área destes setores quase igualitária com 25% de estabelecimentos industriais, 37% comerciais e 38% de serviços, bem como 11% dos empregos do município (EMPLASA, 2011). 29 30 Informações retiradas do Portal do Governo do Estado de São Paulo, em notícia de 28/06/2013. Informações retiradas do jornal Folha de São Paulo, notícia de 15/09/2013. 136 O uso de solo explicitado em mapa a seguir demonstra o grande número de áreas industriais, algumas obsoletas, na região central do município, bem como áreas vazias, habitações precárias e favelas. O mapa revela o potencial não explorado da região, passível de intervenções urbanas, principalmente devido a seus potenciais como a sua localização no município e com relação às principais vias de acesso. a b Figura 77 Área UIT 6 - Piratininga/Presidente Altino onde se localiza o objeto de estudo desta dissertação: a) foto aérea; b) uso e ocupação do solo. FONTE: MONTADO PELA AUTORA A PARTIR DE DADOS DA EMPLASA. BASE: EMPLASA, 2011. A elaboração e criação destas regiões metropolitanas, apoiadas pelo Governo do Estado, se configuram como um importante instrumento de políticas públicas, promovendo velocidade e recursos ao planejamento metropolitano. REFLEXÕES SOBRE O PLANO DIRETOR MUNICIPAL E O ZONEAMENTO DE OSASCO Os instrumentos do Plano Diretor e do Zoneamento são responsáveis por estabelecer diretrizes para o uso e ocupação do solo. O Plano Diretor de 137 Desenvolvimento Urbano (PDDU) foi instituído em 200431 e contém as exigências de ordenamento do território para o controle de seu uso e ocupação. É o instrumento essencial de todas as cidades com mais de 20 mil habitantes, possibilitando a expansão urbana, formulado no período da gestão anterior a da criação da Operação Urbana Consorciada Tietê II, em 2004. O Plano Diretor Estratégico do Município de Osasco (PDEO) esta sendo revisado e conta com a participação popular desde 2012, seu conteúdo preliminar se encontra disponível ao público pela internet. Já o zoneamento (1978) 32 é responsável por dividir o território em funções, controlando densidades e usos no município. O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Osasco (PDDUO) (2004) é apoiado pela Constituição Federal, Estadual e pelo Estatuto da Cidade, define a função social da propriedade, os objetivos de desenvolvimento urbano, as políticas públicas, os planos, leis e processos de planejamento. Orienta-se pelos princípios de justiça social, redução das desigualdades sociais, inclusão social, direito à cidade e à moradia, garantia da função social da cidade, participação popular, preservação do meio ambiente e priorização do transporte coletivo. A preservação da função social garante a distribuição do uso do solo de maneira equilibrada com as ofertas disponíveis, evitando a sobrecarga ou ociosidade da infraestrutura existente, adequar as características da ocupação ao território, recuperar áreas degradadas e regularizar o uso do solo, entre outros. As principais diretrizes do PDDUO (2004) são: garantir a qualidade de vida; mitigar os efeitos da exclusão social; reduzir o índice de crescimento populacional, contendo o crescimento demográfico, destinar as áreas vazias para atividades econômicas e adotar a Outorga Onerosa do Direito de Construir; incentivar a instalação de atividades econômicas; promover o ordenamento e uso do solo de modo regrado, orientar o desenvolvimento, destinar os espaços públicos ao uso coletivo e as áreas privadas para atividades econômicas, principalmente locais privilegiados próximos às rodovias, sendo base para a implantação da intervenção da OUCT II no Setor 2 – Castelo Branco, que prevê a instituição de um novo polo de serviços requalificando a área; promover a distribuição das infraestruturas de forma 31 Lei Complementar nº 125, de 03 de agosto de 2004, que institui o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Osasco. 32 Lei nº 1.485, de 12 de outubro de 1978, que estabelece diretrizes para o uso e ocupação do solo em Osasco. 138 justa; promover investimentos na área da habitação, identificando e controlando as habitações subnormais; promover a integração da malha viária com os transportes coletivos; preservar o meio ambiente natural; fortalecer a identidade e o sentimento de pertença dos moradores, base da OUCT II que identifica o Rio Tietê como potencial agente na requalificação da área; modernizar as práticas de gestão e as políticas públicas e; ampliar a participação popular. São adotadas pelo PDDUO (2004) políticas públicas para a promoção do desenvolvimento social, econômico, ambiental e institucional. Cabe ao Plano Diretor instituir políticas urbanas definidas pelo Estatuto da Cidade por meio da Outorga Onerosa do Direito de Construir, a Transferência do Direito de Construir e as Operações Urbanas Consorciadas, de maneira que este PDDUO prevê instrumentos para a viabilização das três Operações Urbanas em curso no Município: Operação Urbana Consorciada Tietê I (OUCT I), Operação Urbana Consorciada Tietê II (OUCT II) e Operação Urbana Consorciada Paiva Ramos (OUCPV), mas não as identifica no Município. As principais ações previstas pelo PDDUO que tem aplicação direta nas Operações Urbanas municipais são: a) elaborar um programa de revitalização urbana e incentivo às atividades econômicas na região das antigas indústrias localizadas nas margens da linha férrea e nas margens das rodovias: base para as propostas da OUCT I e II, que identifica seus perímetros como potenciais para a requalificação urbana; b) preservar os espaços públicos disponíveis para uso coletivo, qualificando os espaços: aproveita-se dos vazios urbanos disponíveis na área da OUCT I e II; c) destinar os vazios urbanos existentes para a instalação de atividades econômicas e sociais: base para a identificação do perímetro da OUCT I como um vazio urbano potencial passível de qualificação urbana e recuperação ambiental; d) identificar e controlar a expansão dos assentamentos precários e sua ocupação das áreas de risco e de preservação, indicando inclusive a Fazenda Paiva Ramos para recuperação: base para a implantação da OUCPR, no 139 extremo norte do município, que sofre com a ocupação irregular e possui uma APP; e) priorizar a destinação dos recursos públicos as áreas ou grupos sociais menos privilegiados, desprovidos de infraestrutura urbana: base para OUCPR, no extremo norte municipal; f) mitigar os efeitos da exclusão social: pode-se observar a tentativa de manutenção da população no local, exceto em condições de risco, nas políticas de regularização fundiária e nas Operações Urbanas municipais; g) promover medidas de atrativo ao investimento privado e público, promovendo a ocupação correta do território: pode-se observar este aspecto pela OUCT II na busca de investidores público-privados e nas tentativas de negociação de contrapartidas em seu perímetro; h) regulamentar de Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) buscando a sua recuperação urbanística, regularização fundiária e promoção de HIS e HMP: medidas que foram utilizadas no perímetro da OUCT II; i) orientar o desenvolvimento urbano de modo a corrigir os problemas da ocupação desordenada do território, promovendo a regulamentação e o controle do uso do solo, principalmente em áreas de risco, fundos de vale e áreas a serem preservadas, adotando políticas de despoluição do Rio Tietê e de seus córregos, bem como criar um plano de macrodrenagem urbana: diretrizes que se encontram nas Operações Urbanas em curso no Município. Uma das ações propostas pelo Plano Diretor vigente, aprovado em 2004, é a priorização do transporte de cargas e, consequentemente, a manutenção do desenvolvimento industrial e de logística, criando um Plano de Estruturação Viária do Município, indo contra os princípios definidos pela OUCT I e II, que defendem a proibição deste setor, promovendo o setor terciário. Outra proposta deste Plano Diretor, modificada pela OUCT I na revisão de 2013, é a alteração do curso da via a ser implantado como complemento ao trecho marginal sul do Rio Tietê interligando-se com o Complexo do Rodoanel Mário 140 Covas, de modo a não mais ocupar as margens do rio, mas a passar junto à linha férrea. Verifica-se, na época da instituição deste PDDUO, uma gestão em parceria com o Governo do Estado, bem como com a Prefeitura Municipal de São Paulo (PMSP), prevendo ações conjuntas no sistema de transportes e no sistema hídrico municipal, como a criação do Plano de Tráfego e Transporte Urbano do Município e o Plano de Drenagem Urbana municipal. Estes planos previam vários projetos que constam nas diretrizes e nos planos de ação das Operações Urbanas Consorciadas Tietê I e II: como as adequações nas estações da CPTM; a realocação do Terminal Rodoviário para a criação de uma estação intermodal ao lado da Estação Miguel Costa; a implantação de um terminal rodoviário urbano junto a Estação Comandante Sampaio e outras ações que não fazem parte dos planos como o estudo para a implantação do sistema de transportes tipo Veículo Leve sobre Trilhos (VLT); bem como a implantação do sistema de hidrovia interligado por meio de uma estação intermodal com o Rodoanel Mário Covas. Entretanto, verifica-se após o início da gestão de Emídio de Souza, em 2005, o gradual abandono a estas políticas públicas, bem como as parcerias com o Governo Federal em outros projetos. O que tem sido relatado pelo poder público é a falta de participação do Governo Estadual em parcerias e incentivos no município 33 (PMO, 2013). Foram identificadas neste Plano Diretor as áreas recomendadas para requalificação no Programa de Revitalização Urbana e Incentivo às Atividades Econômicas, promovendo o controle do uso do solo e preservando a identidade: a) região do jardim Rochdale (ver item 1 da Figura 78); b) região do Bonfim, atual área do perímetro da OUCT II (ver item 2 da Figura 48); c) região do atual perímetro da OUCT I (ver item 3 da Figura 78); 33 Questões apontadas enfatizadamente pela Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano, em publicação Realizações e Perspectivas 2. SEHDU 2009-2012. 141 d) área das antigas indústrias Cobrasma e Braseixos, em perímetro definido pela Av. João Batista, Av. Marechal Rondom, Rua da Estação e Rua Ester Rombenso, na região central do Município (ver item 4 da Figura 78); e) áreas remanescentes do Industrial Autonomistas, na região central (ver item 5 da Figura 78); f) região do Industrial Remédios, na divisa com a marginal do Rio Tietê (ver item 6 da Figura 78); g) região do Industrial Altino, na divisa com a Rodovia Castelo Branco (ver item 7 da Figura 78); h) no bairro do Piratininga, na margem norte do Rio Tietê, em área pertencente ao perímetro da OUCT II (ver item 8 da Figura 78); i) no bairro do Presidente Altino, na região central entre o Rio Tietê e a linha férrea da CPTM (ver item 9 da Figura 78). Deve-se observar que não houve a instituição de nenhuma Operação Urbana no período, apenas as bases para as mesmas foram lançadas. Figura 78 Mapa com as áreas identificadas pelo PDDUO recomendadas para requalificação. FONTE: AUTORIA PRÓPRIA, COM BASE NOS DADOS FORNECIDOS PELO PPDUO. BASE: GOOGLE MAPS. Todas estas áreas demonstradas anteriormente se encontram no eixo lesteoeste do município, onde se deu sua ocupação e desenvolvimento industrial, nas 142 margens dos principais obstáculos físicos e territoriais: a linha férrea da CPTM, o Rio Tietê e as Rodovias Presidente Castelo Branco, Rodoanel Mário Covas e Marginais Tietê e Pinheiros. São, predominantemente, áreas com histórico de ocupação industrial, atualmente em decadência. A área 1 situa-se na margem norte do município e esta assentada nas margens do braço morto do rio Tietê, sendo alvo de enchentes constantes e repleta de moradias subnormais. As áreas 2 e 3 situam-se nas margens do Rio Tietê e são alvos das Operações Urbanas II e I, respectivamente, estando à área 2 subutilizada e composta por antigos galpões industriais e casas operárias; já a área 3 conformada por um grande vazio urbano em uma área de várzea entre a linha férrea da CPTM e o Rio Tietê. A área 4, onde hoje se encontra a indústria de manufatura de equipamentos Arvin Meritor, ocupa uma área extensa na região central. As áreas 5, 7 e 9 são remanescentes de centros industriais na margem sul do Rio Tietê. A área 6 se encontra na margem norte do Rio Tietê com antigas ocupações industriais, na divisa com o município de São Paulo. A área 8 situa-se na margem norte do Rio Tietê entre a Rodovia Presidente Castelo Branco, o Rodoanel Mário Covas, o Rio Tietê e o Viaduto Presidente Tancredo Neves, com habitações, algumas aglomerações de moradias subnormais, galpões de logística e algumas indústrias. O PDDUO (2004) adota o instrumento do Índice de Aproveitamento Único (2001) 34 que equivale a uma vez a área do lote. Cria as ZEIS, definindo-as como: ZEIS-1, composta por terrenos vazios ou subutilizados de propriedade privada ou pública onde se promove HIS e se admite HMP; ZEIS-2 com moradias subnormais em propriedades públicas e; ZEIS-3 com loteamentos carentes de regularização fundiária, loteamentos irregulares, sem infraestrutura urbana que tenham sido ocupados até a definição do Estatuto da Cidade (2001). As Zonas Especiais de Interesse Social35 são destinadas a recuperação urbanística e a regularização fundiária com a promoção de HIS e HMP com objetivo de garantir condições dignas de moradia, a inclusão social e a função social do solo. As ZEIS foram estipuladas para áreas onde já se encontravam áreas de favelas, loteamentos irregulares e clandestinos, visando à manutenção da população no local 34 Definido pela Lei Federal nº 10.275, de 10 de julho de 2001, que institui o Estatuto da Cidade. Regulamentadas pela Lei Complementar 152, de 09 de outubro de 2006, sobre as ZEIS dispondo de normas específicas para a produção de HIS e HMP. 35 143 (Figura 79). Na área da OUCT II verifica-se a provisão de ZEIS-2 e 3, na margem norte do Rio Tietê e de ZEIS-1 na margem sul, propostas consideradas no Setor 5 – ZEIS proposto pela Operação Urbana. Figura 79 Trecho do mapa de delimitação das ZEIS, área da OUCTO II em vermelho, em laranja ZEIS-1 e em roxo ZEIS-2 e 3. FONTE: AUTORIA PRÓPRIA. BASE: PDEO, AINDA NÃO APROVADO, DISPONIBILIZADO NA INTERNET. A regularização fundiária das ZEIS busca respeitar as características existentes no lote, mantendo-as sempre que possível, garantindo a participação popular e recuperando as áreas ambientalmente frágeis. Os planos de regularização destas áreas devem conter a descrição das famílias a serem atendidas, a delimitação de áreas, todos os dados físicos, urbanísticos e ambientais da área, a identificação da situação fundiária e dos equipamentos existentes, o custo da implantação de novas moradias, o projeto de urbanização e das habitações, a definição dos parâmetros de parcelamento, uso e ocupação, o plano de ação social e a busca por condições para o remembramento dos lotes. As áreas a serem implantadas as ZEIS deverão ser providas do mínimo de infraestrutura urbana. As HIS devem ser produzidas pelo poder público ou instituições privadas destinadas a famílias com renda mensal menor ou igual a seis salários mínimos e/ou removidas de assentamentos precários, sendo permitida a construção, reforma ou parcelamento do solo. As HMP devem ser produzidas pela iniciativa privada ou por cooperativas para famílias com renda mensal de até dezesseis salários mínimos. As habitações devem ser unifamiliares ou multifamiliares verticais ou horizontais, sendo viabilizadas pela ZEIS-1. 144 O Plano Diretor Estratégico de Osasco (PDEO) ainda não aprovado a ser implantado no município revisa as diretrizes do PDDUO (2004) e pretende consolidar o município como polo regional da RMSP, garantindo a justiça e a inclusão social, o direito á cidade e a moradia digna, pretende restringir a especulação imobiliária assegurando a função social do solo e incentivando o investimento privado. Conta ainda com a participação efetiva da população no processo de gestão democrática da política urbana, por meio de audiências públicas e do Conselho Municipal de Política Urbana e Habitacional. O PDEO definiu uma rede estrutural de centralidades de bairros de forma consolidada, onde já existe a aglomeração de comércio e serviços, bem como grande fluxo de veículos e pedestres e concentração grande de habitações; ou com potencial de centralidade, onde a implantação de um empreendimento possa vir a adensar a área, com a implantação de infraestrutura e equipamentos. Deve-se, entretanto adequar à infraestrutura e o sistema viário existente para a implantação de uma nova centralidade (Figura 80). A rede é definida por polos ou por eixos lineares de centralidade, onde em vermelho identificam-se as áreas consolidadas, em amarelo as centralidades potenciais e em azul as áreas potenciais com previsão de propostas de requalificação. Observa-se a Avenida dos Autonomistas como um eixo consolidado, fazendo a ligação leste-oeste do município. É instituída pelo Plano Diretor a reconversão do esvaziamento populacional em áreas consolidadas ou com potencial de consolidação, bem como o controle do adensamento em áreas consolidadas (PMO, 2013). Ele busca desenvolver projetos urbanos de requalificação que preservem o verde existente e o patrimônio público viabilizando sua implantação por instrumentos urbanísticos, como as Operações Urbanas Consorciadas. Esta é tida como uma parceria público-privada que deve reestruturar o perímetro da área elencada de acordo com diretrizes previstas em legislação específica que altera os índices urbanísticos e possibilita a construção acima da TO e do CA básico mediante o pagamento de contrapartidas (PMO, 2013). 145 Figura 80 Trecho do mapa com centralidades polares e lineares do município, o item 6 é demarcado como centralidade potencial prevista, área da implantação da OUCT II. FONTE: AUTORIA PRÓPRIA. BASE: PDEO, MAPA DE REDE ESTRUTURAL DE EIXOS E POLOS DE CENTRALIDADE. São criadas pelo PDEO três macrozonas dividindo porções do território de acordo com características semelhantes, sendo elas a Macrozona de Interesse Ambiental (MZIA), a Macrozona de Desenvolvimento Econômico (MZDE) e a Macrozona de Urbanização e Consolidação (MZUC). A primeira busca conter a expansão urbana existente em seu perímetro, bem como preservar as áreas verdes, implantados usos compatíveis com a preservação. A segunda busca incentivar a permanência de atividades econômicas, qualificando os eixos e polos de centralidade36: já a terceira busca consolidar o desenvolvimento urbano em áreas com infraestrutura urbana de modo a permitir a regularização fundiária, com a implantação de HIS e HMP. O Plano Diretor Estratégico dispõe de instrumentos urbanísticos: como o direito de preempção para a regularização fundiária, projetos de HIS, direcionamento da expansão urbana, a implantação de equipamentos urbanos; a desapropriação; a concessão urbanística; a outorga onerosa do direito de construir em lotes com o CA máximo para áreas do perímetro das Operações Urbanas; as Operações Urbanas 36 Área do macrozoneamento onde se inserem as Operações Urbanas Consorciadas Tietê I e II. 146 Consorciadas; a transferência do direito de construir desde que para implantação de equipamentos urbanos, preservação do patrimônio histórico; o Fundo Municipal de Desenvolvimento Urbano; entre outros. O Uso do Solo nos municípios é instituído pela necessidade do município de possuir regras simples e acessíveis aos cidadãos que possam garantir a dinâmica urbana dentro dos diversos padrões urbanísticos, delimitando as zonas segundo suas características. Este processo deve englobar a participação democrática na gestão do uso do solo (SAVELI, 2009). A Lei de Uso e Ocupação do solo37 define a divisão do território com quadras menores, pensando no pedestre, dividindo as quadras a cada cem metros para passagem de veículos e pedestres. Define as áreas computadas e não computadas, bem como recuos e o uso do subsolo de acordo com as especificidades do loteamento e as situações diversas de implantação do edifício no lote. Define as Zonas de Uso em Eixos de Comércio e Serviços Central (ZCS) e as Zonas de Área Verde (ZAV). Já o Plano Diretor e o Zoneamento são instrumentos do planejamento urbano concebidos como um processo contínuo de desenvolvimento de ações em prol do ordenamento do território buscando a harmonia nos espaços coletivos públicos e privados, devendo ser pautada na justiça social e não na especulação imobiliária ou no poder, devendo levar em conta a participação popular (SAVELLI, 2009). O planejamento urbano não deve se pautar em interesses particulares, mas nas aspirações coletivas, buscando recuperar a qualidade de urbanística e social das cidades. Desta forma a participação democrática na busca dos interesses coletivos é essencial, onde o papel do técnico do poder público é informar, orientar e discutir com a população as melhores soluções para a inclusão social e territorial. Analisados de acordo com as questões levantadas pelo Estatuto da Cidade 38 que estabelece que “a propriedade urbana cumpre sua função social quando atende as exigências fundamentais de ordenação expressas no Plano Diretor”. A Operação Urbana Consorciada Tietê II (OUCTII), atende aos requisitos de seu plano diretor, 37 Instituído pela Lei Complementar nº 267, de 18 de julho de 2013, alterando a Lei nº 1.485, de 12 de outubro de 1978. 38 Lei Federal nº 10.257/01, Estatuto da Cidade. 147 que define a área como potencial de requalificação urbana e prevê uma operação urbana para o perímetro, ao utilizar o Rio Tietê como elemento integrador do projeto urbano e propor a despoluição de suas águas. POLÍTICAS PÚBLICAS E GESTÃO 2005-2013 O Município de Osasco se encontra em sua terceira gestão municipal desde a criação e aprovação da Lei Complementar 20339. A primeira (2005-2008) e segunda gestão (2009-2012) foram do Prefeito Emídio de Souza, já a terceira gestão (início em 2013) do Prefeito Jorge Lapas, ambos do Partido dos Trabalhadores (PT), onde a continuidade dos projetos se deu de maneira automática. De qualquer forma, nestes últimos oito anos, foram criados mecanismos e instrumentos que garantem a manutenção e continuação das propostas e projetos. De acordo com a PMO, no período da primeira gestão foram implantadas diversas ações de políticas públicas, entre elas: a) unificação dos departamentos de Planejamento Urbano, Uso do Solo e Habitação, com a criação da Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano (SEHDU), visando garantir a participação popular; b) criação de Conselho Municipal de Política Habitacional e Desenvolvimento Urbano40, promovendo a participação popular com seminários e fóruns, funcionando como um instrumento de diálogo entre a sociedade civil e o município; c) modernização e revisão da legislação vigente, utilizando instrumentos do Estatuto da Cidade41; d) proposição de política municipal de habitação e desenvolvimento urbano, implantação do Programa de Provisão Habitacional; 39 Lei Complementar nº 203 que institui a Operação Urbana Consorciada Tietê II, de 22 de dezembro de 2010. Instituído pela Lei 4011, de 16 de março de 2006. 41 Lei 10.257, de 10 de julho de 2001, que institui o Estatuto da Cidade. 40 148 e) implantação do Programa Bolsa Aluguel, Programa de Regularização Fundiária e Plano Municipal de Habitação de Interesse Social, a serem implantados em áreas consolidadas isentas de problemas ambientais; f) obras pertencentes ao Programa de Urbanização Gradual em favelas, principalmente na zona norte do município; g) início de algumas obras de urbanização de favelas na área norte da cidade e provisão habitacional, tendo parceria com o Governo Federal, pelo Ministério das Cidades e Caixa Econômica Federal; h) consolidação do Programa Bairro Novo em parceria com o Ministério das Cidades, voltado para a urbanização de favelas, provisão habitacional e regularização fundiária; i) aprovação da Operação Urbana Consorciada Tietê I (2013)42. A primeira gestão foi marcada pela mudança de filosofia de gestão no governo, rompendo com a tradição assistencialista até então adotada, buscando integrar as políticas de habitação e desenvolvimento urbano atraindo investimentos privados para o município. Já no período da segunda gestão foi dada continuidade a gestão anterior e implantadas diversas ações de políticas públicas, tais como: a) atendimento das famílias removidas de áreas de risco pelo Programa Bolsa Aluguel; b) elaboração do Plano Municipal de Habitação de Interesse Social 43 para subsidiar as provisões habitacionais; c) ações no desenvolvimento urbano e uso do solo: com a reurbanização das áreas marginais do Rio Tietê e requalificação de parte do território municipal; d) firmação de contrato com o Governo Federal, Programa de Aceleração do Crescimento II (PAC II), para aplicação em obras de infraestrutura urbana, visando eliminar o problema das inundações e ocupações irregulares ao 42 Lei Complementar 170/08, que instituiu a Operação Urbana Consorciada Tietê I. Lei Complementar 152, de 09 de outubro de 2006, que regulamenta a Lei Complementar nº 125, de 03 de agosto de 2004, que institui o Plano Diretor, com relação às ZEIS e normas para a produção de HIS e HMP. 43 149 longo do braço morte do Rio Tietê, no bairro do Rochdale, promovendo habitações, equipamentos públicos e áreas verdes; e) investimento de cerca de R$200 milhões em obras de urbanização e habitações, pelo Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV); f) criação de parcerias com instituições, como OAB e universidades internacionais (Figura 81); g) obras pertencentes ao Programa de Urbanização Gradual em favelas, atendendo assentamentos na zona norte e, alguns, na zona sul (Figura 82). Figura 421 Projeto de intervenção da área do braço morto do Rio Tietê, no Jardim Rochdalle, zona norte. FONTE: REALIZAÇÕES E PERSPECTIVAS 2. SEHDU 2009-2012. Figura 82 Obras do Programa de Urbanização Gradual no Jardim Fazendinha, na zona sul do município. FONTE: REALIZAÇÕES E PERSPECTIVAS 2. SEHDU 2009-2012. A principal meta na atual gestão é ampliar a parceria com o Governo Estadual, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Metropolitano (SDM) 44 Decreto 56.639, de 01 de janeiro de 2011, que organiza a secretaria e dá outras providencias. 44 , 150 fomentando o desenvolvimento urbano e a habitação. Neste âmbito ocorreu, em 11 de maio de 2013, a 5ª Conferência Municipal das Cidades em Osasco, que propiciou a participação da população com propostas para a reforma urbana, visando construir um Sistema Nacional de Desenvolvimento Urbano (PMO) 45. Com a regulamentação do Plano Diretor (2004) Outorga Onerosa (2008) 47 46 e a aplicação da Lei da foi possível promover intervenções ligadas à redução da demanda por moradia. Deste modo foram criados instrumentos para a realização de projetos urbanos de grande porte, com parcerias público-privadas, como as três operações urbanas ativas no momento (Figura 83): Operação Urbana Consorciada Tietê I (2008) 48 , Operação Urbana Consorciada Tietê Osasco II (2010) 49 e 50 Operação Urbana Paiva Ramos , denominadas pelo poder público de Projeto Tietê, Projeto Bonfim e Projeto Paiva Ramos, respectivamente. As duas primeiras buscam recuperar a área central da cidade e a faixa lindeira ao Rio Tietê. Já a terceira busca promover a ordenação da ocupação do território no extremo norte do município, recuperando uma área de extensa cobertura vegetal, parcialmente ocupada por moradias irregulares. Foram criadas condições para que investidores privados gerassem recursos, administrados pelo Fundo Municipal de Desenvolvimento Urbano e Habitacional. Uma diretriz apontada é a constante avaliação e acompanhamento das intervenções e políticas públicas para que possam ser feitas atualizações (SEHDU, 2013). A postura desta gestão de identificar as áreas ambientalmente frágeis e ocupadas irregularmente, bem como as áreas passíveis de Regularização Fundiária, evidencia os problemas do antigo zoneamento vigente, restritivo, não permitindo uma ocupação viável economicamente, levando a população às áreas marginalizadas, ambientalmente frágeis e desprovidas de infraestrutura (SEHDU, 2013). 45 Retirado das notícias do Portal de Prefeitura Municipal. Lei Complementar nº 125, de 03 de agosto de 2004, que institui o Plano Diretor. 47 Lei Complementar nº 171, de 16 de janeiro de 2008, que institui a Outorga Onerosa do Direito de Construir. 48 Lei Complementar 170/08, que instituiu a Operação Urbana Consorciada Tietê I. 49 Lei Complementar 203, de 22 de dezembro de 2010, que institui a Operação Urbana Consorciada Tietê II. 50 Lei Complementar 222, de 26 de dezembro de 2011, que institui a Operação Urbana Consorciada Paiva Ramos. 46 151 a b c Figura 433 Trecho do mapa com identificação das Operações Urbanas Consorciadas Municipais em amarelo: a) Projeto Paiva Ramos; b) Projeto Tietê; c) Projeto Bonfim. Em vermelho, as áreas sujeitas à requalificação no município, em área do entorno do Rio Tietê. FONTE: WWW.CONSULTAPUBLICA.OSASCO.SP.GOV.BR (ACESSADO EM 08/10/2013 ÁS 21H25) As políticas de Regularização Fundiária possibilitaram o início da regularização de construções irregulares no município. No caso da Operação Urbana Consorciada Paiva Ramos (OUCPR) propõe-se uma intervenção com participação público-privada, com o objetivo de acabar com o aumento da ocupação desordenada deste território, ambientalmente frágil, destinando 70% da área para a criação de um parque municipal, preservando o restante, com a criação de um centro cultural, um jardim botânico, um horto florestal, bem como a promoção de novas ligações na malha viária. Permite-se o uso residencial e comercial apenas para cerca de 30% da área, onde deverá ser respeitada a taxa de permeabilidade prevista. Foram realizadas desde o início da gestão Emídio de Souza várias ações do Programa de Regularização Fundiária para diminuir o déficit de moradias, como a construção de novas unidades habitacionais, bem como regularização de alguns loteamentos emitindo títulos de propriedade (Figura 84). 152 Figura 84 Obras de urbanização e provisão habitacional, no Jardim Vicentina. FONTE: REALIZAÇÕES E PERSPECTIVAS 2. SEHDU 2009-2012. Foram aplicados na habitação, no período de 2005 á 2013, de R$15 á R$135 milhões em recursos, sendo de 2009 e 2011 o período de maior aplicação e de 2008 á 2013 uma média de R$65 milhões, sendo que em média 60% dos recursos têm origem do Governo Federal, 15% dos recursos municipais e quase todo o restante em recursos próprios (SEHDU, 2013). Esses dados revelam a fraca participação do Governo Estadual nas políticas públicas municipais. A participação popular na constituição de políticas públicas do município se faz por meio de Fóruns de Regularização Fundiária e Pós Ocupação, garantindo a participação e o esclarecimento dos moradores; produção de diagnóstico com informações demográficas e socioeconômicas, mapeando as relações sociais e políticas existentes, que instrumenta a gestão para a elaboração de propostas que garantam o direito à participação e; em um primeiro momento, por meio de abertura de canais de diálogo, em um segundo momento a informação dos moradores locais no desenvolvimento do trabalho, possibilitando a participação da população em processos de urbanização, de provisão habitacional ou regularização fundiária. Como exemplo desta participação efetiva, descrita pela SEHDU, pode-se citar os processos de reurbanização de favelas, como o Projeto de Urbanização das Colinas-Morro do Socó, onde os moradores participaram e discutiram juntamente com os técnicos municipais os critérios para o retorno as moradias definitivas, a nova forma de uso e convivência dos espaços públicos do projeto de Habitação de Interesse Social (HIS). Aspectos buscados por esta gestão é a criação de instrumentos de aperfeiçoamento da gestão: como a organização, criação e unificação dos bancos 153 de dados do município e informação sobre os beneficiários dos programas e projetos municipais, superando a fragmentação das gestões anteriores, possibilitando a execução de planos de ação inter-relacionados, bem como a criação do Índice de Prioridade Habitacional (IPAH) desenvolvido para auxiliar no desenvolvimento de critérios para o Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV), de modo que o poder público recebeu 50.000 inscrições no programa na faixa de renda de 0 á 3 salários mínimos, impondo novas alternativas que identifiquem as diferentes vulnerabilidades socioeconômicas, reconhecendo as diferenças e desigualdades sociais, beneficiando também outras faixas de renda (Figura 85). Devido à ocupação desordenada o município ele possui uma fração de seu território em situação de ocupação irregular, de ilegalidade, de modo que a “cidade real” acaba por se sobrepor a “cidade legal” 51 , evidenciando a exclusão social e territorial. A busca pela integração da população com a cidade formal é colocada como peça fundamental para o aprimoramento da gestão pública, criando novos instrumentos de aprimoramento de gestão, como o Programa Bolsa Aluguel (2005) 52 e o Apoio Habitacional, resgatando a identidade e a identidade dos moradores. O Programa de Regularização Fundiária (2012) tem como objetivo a melhoria nas condições de habitabilidade por meio de projetos de urbanização, a inclusão social e a criação de leis que garantam a permanência da população no local, reconhecendo o direito á posse da terra e legalizando as populações que se encontram irregulares, promovendo obras infraestruturais e integrando os lotes a malha urbana, á cidade legal. Este programa se apoia na lei que institui as ZEIS 53, demarcando porções do território que deverão sofrer intervenções, como favelas, loteamentos irregulares ou loteamentos implantados pelo poder público. Os instrumentos jurídicos, apoiados pelo Estatuto da Cidade, que possibilitaram a utilização de instrumentos de garantia à posse de terra como a Concessão de Uso Especial para Fins de Moradia e a Concessão do Direito Real de Uso por meio de contratos entre os moradores e a Prefeitura. 51 52 53 Conceitos de Martins (2006). Lei 3932, de 02 de março de 2005, que institui o Programa de Bolsa Aluguel. Lei Complementar nº 152, de 09 de outubro de 2006, referente às ZEIS. 154 Figura 85 Trecho do mapa das intervenções promovidas pela Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano (SEHDU) FONTE: REALIZAÇÕES E PERSPECTIVAS 2. SEHDU 2009-2012. Na primeira fase do Programa de Regularização Fundiária (2012) objetivou-se a regularização de loteamentos irregulares que não necessitavam de obras, apenas de legalizações de âmbito administrativo e de registro em cartório54, envolvendo diversos atores como a Prefeitura, a Câmara dos Vereadores, o Poder Judiciário, o Cartório de Registro de Imóveis, representantes de associações dos moradores e a OAB que propicia a assistência jurídica a estes moradores na entrada de ações de usucapião. O resgate dos moradores a cidade formal, por meio da Concessão de Uso da Regularização Fundiária e pela instituição do Endereço Social (2005) 55 , garantem o direito fundamental à moradia digna e à inclusão social, mas coloca o poder público como gestor destes títulos. Porém, com a transferência da propriedade acaba expondo esta população a especulação imobiliária e, consequentemente, ao processo de gentrificação. Estes programas se vinculam ao Programa de Urbanização Gradual, que é utilizado como instrumento essencial para obter a Regularização Fundiária, onde são feitas intervenções pontuais em área marginalizadas visando aproximar a população com os técnicos da prefeitura e com 54 Possibilitado pelo Provimento nº 18/2012 da Corregedoria Geral do Estado de São Paulo, que trata da Regularização Fundiária. 55 Decreto 9.513, de 15 de dezembro de 2005, regulamenta a lei nº 3.924, de 29 de dezembro de 2004, que dispõe sobre o Endereço Social, projeto em parceria com a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT). 155 a cidade formal, dotando-as de alguma infraestrutura urbana e promovendo um atendimento de caráter emergencial. Os dados divulgados pela Prefeitura Municipal contrariam os dados do Censo do IBGE, pois se observa o aumento da densidade demográfica, devido ao aumento em áreas precárias e da verticalização crescente na cidade formal. A alta taxa de densidade demográfica, 10.411,70 habitantes/km² (PMO, 2013) se deve a topografia acidentada do município que, juntamente com a implantação da ferrovia e a ocupação desordenada no período de sua conformação, ocupou quase todos os vazios urbanos disponíveis, inclusive as áreas de risco. Essa situação de ocupação no território exigiu do poder público a criação de estratégias de reordenamento do território, que identificou as áreas ocupadas por meio do georreferenciamento e promoveu intervenções visando o mínimo possível de realocações da população. A gestão pública municipal recebeu prêmios, como pelo Programa de Regularização Fundiária da Prefeitura Municipal de Osasco com o prêmio “Selo cidade cidadã” em 2007 pela Comissão de Desenvolvimento Urbano da Câmara dos Deputados e o prêmio “Melhores Práticas da CAIXA” em 2009 e 2010 pela Caixa Econômica Federal devido a Regularização de Áreas Públicas Ocupadas para fins Habitacionais. OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ I A Operação Urbana Consorciada Tietê I segue as diretrizes da Operação Urbana Consorciada Tietê I, de modo que se faz aqui a elucidação de suas diretrizes, objetivos e propostas, bem como a identificação de sua influência para o objeto de estudo. A Operação Urbana Consorciada Tietê I (2013) 56 é composta por uma área de propriedade particular de aproximadamente 500 mil m² e é delimitado a oeste 56 Lei Complementar nº 268, de 18 de julho de 2013, que altera a Lei Complementar nº 170, de 16 de janeiro de 2008, que institui a Operação Urbana Consorciada Tietê I. 156 pelo Quartel de Quitaúna, a leste pelo Complexo Viário Tancredo Neves, tendo como limite a Operação Urbana Consorciada Tietê II, ao norte pelo Rio Tietê e ao sul pela linha férrea. O projeto da OUCT I é caracterizado pela implantação de um bairro e toda a infraestrutura necessária a ser instalada em um vazio urbano (Figura 86) que sempre sofreu pressões para ocupações irregulares, com comércio, serviços e provisão habitacional. A Operação Urbana modificou a proposta de implantação de via marginal ao Rio Tietê, promovendo uma ligação com o Rodoanel Mário Covas e deslocando este sistema viário para a faixa lindeira a linha férrea, liberando a margem do rio para a implantação de um parque linear. A OUCT I possui as mesmas diretrizes da OUCT II com relação ao resgate da identidade. Nesta Operação Urbana foi previsto o sistema de contrapartidas, sendo serão executadas melhorias no sistema viário local, bem como a integração do novo empreendimento a Estação Quitaúna e as duas margens da linha férrea da CPTM, implantação do parque linear, do sistema viário e da passarela que irá interligar a área à Avenida dos Autonomistas. Estas propostas passaram por processos de aprovação desde 2008 em órgãos ambientais estaduais e já tem previsão de início de obras (PMO, 2012). Figura 86 Imagem da área de implantação da Operação Urbana Consorciada Tietê I, um grande vazio urbano no município. FONTE: AUTORIA PRÓPRIA. BASE: REALIZAÇÕES E PERSPECTIVAS 2. SEHDU 2009-2012. A OUCT I busca revitalizar a área vazia promovendo seu uso e ocupação, sendo coordenadas pela SEHDU com participação de proprietários e investidores privados, reduzindo ao máximo os investimentos públicos, com o objetivo de promover o desenvolvimento urbano, garantir qualidade de vida e moradia digna aos 157 futuros moradores e recuperar o entorno, promovendo uma requalificação ambiental e urbana (Figuras 59, 60 e 61). A OUCT I tem como objetivos principais promover a revitalização urbana da área; criar incentivos para a implantação de usos diversos com a criação de índices e parâmetros compatíveis com as potencialidades da região; estimular investimentos privados; valorizar a paisagem urbana, a melhoria da infraestrutura e a qualidade ambiental; promover melhorias viárias; criar espaços públicos seguros; implantar espaços públicos, áreas verdes e equipamentos coletivos; incentivar a ocupação ordenada dos vazios urbanos; adensar a área, estabelecer novos padrões de uso e ocupação do solo, priorizar o controle industrial; produzir Habitação de Interesse Social (HIS) para manutenção da população favelada existente no local e; promover a melhoria do sistema de drenagem da área e seu entorno (PMO, 2013). As principais diretrizes urbanas da OUCT I são promover as intervenções no sistema viário, evitando o agravamento das condições urbanas locais; promover a ligação entre a avenida marginal e o projeto de HIS denominado Miguel Costa, de autoria do escritório Vigliecca & Associados, projeto de 2007, com 145 mil m², 97.757m² de área construída (Figura 87 á Figura 90); executar passagens em desnível nas Ruas Nossa Senhora Conceição Aparecida e General Florêncio, conectando-as com a HIS; implantação de infraestrutura e novo sistema viário; implantação do parque linear na margem sul do Rio Tietê em área da Operação Urbana; arborização com espécies da Mata Atlântica na margem norte; elaborar diagnóstico atualizado de um programa de revisão dos sistemas de drenagem; construir e financiar HIS; ampliar e conectar os espaços de uso público; incentivar o uso habitacional e atividades culturais e de lazer; melhorar as condições de acessibilidade no eixo leste-oeste municipal; promover a abertura de praças e passagens para pedestres no interior das quadras; estimular o remembramento dos lotes, principalmente na área do Piratininga; incentivar a manutenção do solo permeável e a arborização; criar condição para a implantação de ruas comerciais que possam funcionar 24 horas, promovendo seu uso e garantindo a segurança; proibir e desestimular a instalação de novas indústrias ou galpões de logística na área e; canalizar os córregos e melhorar o sistema de drenagem. 158 A taxa de ocupação máxima não poderá exceder 0,7 para empreendimentos residenciais e 0,9 para empreendimentos comerciais, de serviço e de uso institucional. O Coeficiente de Aproveitamento máximo não poderá exceder a quatro vezes a área do lote, mediante a aquisição de outorga onerosa e no mínimo 15% de área permeável. Foi constituído um Comitê Gestor composto por três representantes da SEHDU, sendo um representante da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, um representante da Secretaria de Obras e Transportes (SOT), um representante do SESM e três representantes da sociedade civil. Prevê-se pelo poder executivo a convocação dos interessados a apresentar propostas para a OUCT I. O cálculo de Outorga Onerosa não poderá ser inferior a 70% da mais valia. As receitas deste fundo podem ser constituídas por valores em dinheiro ou bens imóveis correspondentes à contrapartida, rendas provenientes de aplicação de seus próprios recursos, outros recursos ou rendas que lhe forem destinados e os mesmos devem ser aplicados exclusivamente em investimentos na área da Operação Urbana (PMO, 2013). ÁREA DA OUCT II OUCT I ZEIS Figura 87 Maquete da área do entorno da OUCT I FONTE: LEVANTAMENTO REALIZADO E INTERPRETADO PELA AUTORA A PARTIR DO LEVANTAMENTO TOPOGRÁFICO, DADOS DO LOCAL RETIRADOS DA PREFEITURA MUNICIPAL DE OSASCO E LEVANTAMENTOS DA ÁREA. MAQUETE PRODUZIDA PELA AUTORA PARA O TFG EM ARQUITETURA E URBANISMO, QUE TINHA COMO ÁREA DE ESTUDO A OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ I. 159 OUCT I Figura 88 Foto aérea com a área de inserção da OUCT I e mapa com usos de solo propostos pela Operação Urbana Consorciada Tietê Osasco I. FONTE FOTO AÉREA: AUTORIA PRÓPRIA. BASE: GOOGLE MAPS. FONTE MAPA OUCT I: LEI COMPLEMENTAR Nº 268, DE 18 DE JULHO DE 2013. Figura 89 Planta de estudo funcional e das vias de ligação propostas pela OUCT I. FONTE: LEI COMPLEMENTAR Nº 268, DE 18 DE JULHO DE 2013. 160 Figura 90 Á esquerda, área onde será implantado a HIS ocupada com ocupação irregular. Á direita, proposta projetual de HIS, denominada Miguel Costa. FONTE: WWW.VIGLIECCA.COM.BR (ACESSADO EM 10/10/2013 ÁS 19HS) OPERAÇÕES URBANAS COMO INSTRUMENTO NO MUNICÍPIO DE OSASCO Para a Prefeitura Municipal o caminho das Operações Urbanas e das parcerias público-privadas é o mais assertivo para a captação de recursos que promovam investimentos grandes no município 57. O poder público municipal entende as intervenções deste tipo como indutoras do desenvolvimento urbano, de modo que aprovou três Operações Urbanas que estão em curso no município atualmente. A regulamentação para a aplicação do instrumento da Operação Urbana, ou o chamado “milagre do CEPAC” 58 depende da criação de legislação específica, de modo que muitos municípios acabaram por prever o instrumento em seus Planos Diretores Municipais, em torno de 80% dos municípios em quase todos os Estados. As intervenções prevê a utilização de recursos do Cepac como forma de antecipar os recursos e viabilizar as obras públicas na área da Operação Urbana. Entretanto alguns municípios, como o caso de Osasco, não possuem uma dinâmica imobiliária que possa dar suporte ao porte destas intervenções, demonstrando a inocente implantação de um instrumento sem que tenha havido uma análise efetiva econômica de sua implantação (BONDUKI, 2010?). Desta maneira torna-se impossível no momento a avaliação dos resultados da Operação Urbana Consorciada Tietê II, não havendo parâmetros para compará-la ou analisá-la. Resta apenas a perspectiva de casos internacionais que foram concluídos e possuem 57 58 Informações retiradas da SEHDU, na publicação Realizações e Perspectivas 2. SEHDU 2009-2012. Termo cunhado por Fix (2001). 161 características em seus projetos urbanos e gestão pública que podem ser utilizados como referência para o objeto de estudo. As Operações Urbanas devem ser implantadas com base em estudo de viabilidade econômica e de mercado, de preferência em áreas onde já existe o interesse por parte do mercado imobiliário, ampliando a concentração de investimentos privados nestas áreas. Esta prática, entretanto deve observar e garantir mecanismos que possam mitigar os efeitos da exclusão social e da gentrificação. Uma potencialidade apontada para a Operação Urbana Consorciada Tietê II é o fato de a mesma possuir um projeto urbano que orienta as obras e intervenções propostas em seu perímetro, com base nas diretrizes estabelecidas pelo Plano Diretor Municipal, e não apenas na lei da Operação Urbana. Este fator, independentemente dos prós e contras do projeto urbano que será analisado posteriormente, faz com que se busque por uma melhora efetiva do espaço urbano, minimizando os efeitos da simples especulação imobiliária. ANÁLISE ATUAL DA ÁREA DE INTERVENÇÃO DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II A área da Operação Urbana Consorciada Tietê II (OUCT II), objeto de estudo desta dissertação, será aqui analisada de acordo com suas principais características, dando base para a compreensão do projeto urbano proposto para o seu perímetro de intervenção. A metodologia de análise passará pelo sistema usual de planejamento urbano identificando vários aspectos existentes por quadra encontrados atualmente em levantamento de campo realizado, passando pela delimitação da área de intervenção, o zoneamento vigente, o sistema viário, o uso de solo, o número de pavimentos, o estado de conservação, a análise das deficiências e potencialidades existentes no território, entre outros aspectos. 162 O zoneamento vigente, proposto em 201359 identifica a área do perímetro da OUCT II como LC-203/10 Operação Urbana Tietê II, configurada por uma grande mancha, conforme pode ser observado a seguir, porém não a divide em setores como faz a Operação Urbana (Figura 91). Entretanto define a área da OUCT I como área de Zona Industrial (ZI) e a área de ZEIS como Zona de Uso Exclusivamente Institucional (ZE), criando alguns conflitos, de modo que, a Operação Urbana altera o uso do solo proposto pelo zoneamento vigente. Vê se no mapa de zoneamento uma faixa verde que engloba as margens do Rio Tietê reservadas como Zonas de Área Verde (ZAVS). Figura 91 Na parte superior mapa do perímetro de intervenção da OUCT II, na parte inferior trecho do zoneamento municipal onde se insere a Operação Urbana. FONTE: ORGANIZADO E INTERPRETADO PELA AUTORA. BASE MAPA SUPERIOR: GOOGLE MAPS. BASE MAPA INFERIOR: TRECHO DO MAPA DE ZONEAMENTO, RETIRADO DE DADOS DA PREFEITURA MUNICIPAL DE OSASCO. A malha viária é deficiente em decorrência da dimensão das quadras na margem sul do Rio Tietê, de modo que não há muitas conexões, sequer pavimentação em trecho na parte esquerda. No trecho da direita na margem sul a malha viária é estreita e, exceto a Rua Aran Seferian, as ruas são sem saída, gerando uma área enclausurada em meio aos edifícios do Conjunto Nova Grécia e a Indústria Hervy. Na margem norte do Rio Tietê a principal ligação com o bairro do Jardim Rochdale foi removida para a construção de mais pistas na Rodovia Castelo 59 Retirado do mapa de zoneamento municipal atualizado em 12/04/2013 da PMO. 163 Branco, o que levou a construção de uma nova ponte deslocada para a direita, o que modificou o fluxo na região (Figura 92). As vias coletoras passam pela extremidade, as margens do Rio Tietê. As principais ligações entre os lados norte e sul do município são os viadutos que se encontram nas bordas do perímetro da Operação Urbana apontadas em vermelho no mapa a seguir. A linha férrea passa em nível cortando o município no eixo leste oeste. O perímetro da Operação Urbana esta em uma localização privilegiada, de fácil acesso, próximo as principais vias de ligação com a RMSP, como a Rodovia Castelo Branco, as Marginais do Rio Tietê e Pinheiros e o Rodoanel Mário Covas. A área é servida por uma rede intermodal de transporte público em um ponto na margem sul á direita, composto por duas linhas de trem da CPTM, terminal rodoviário e terminal de ônibus metropolitano e municipal. A grande questão é o acesso a este ponto, que se torna caótico, principalmente para a população que vive na margem norte do Rio Tietê, dependendo de apenas dois acessos por meio de transporte público ou individual, já saturados nos horário de pico e contando ainda com muitos pedestres e ciclistas que completam seu percurso até o trabalho com o trem. Figura 92 Mapa malha viária atual na área da OUCT II. FONTE: LEVANTAMENTO REALIZADO, ORGANIZADO E REPRESENTADO PELA AUTORA. BASE MAPA: GOOGLE MAPS. 164 O uso de solo (Figura 93), juntamente com a análise do número de pavimentos (Figura 94) e com a análise do estado de conservação (Figura 95) revela as principais características de ocupação da região, levando a identificação de seus problemas e seu potencial de transformação. Na margem norte pode-se identificar habitações subnormais ao lado esquerdo, sendo curiosamente as edificações que possuem o maior número de pavimentos desta margem. Bem como a grande quantidade de edificações em estado ruim ou regular, o que pode ter ocorrido devido às modificações na malha viária, alterando a dinâmica econômica da região. Há nesta margem alguns pontos onde o uso do solo é industrial e misto, com algumas áreas comerciais, principalmente nas quadras as margens do Rio Tietê. Na margem sul pode-se observar muitos resquícios de áreas industriais, bem como os antigos bairros operários, como a Vila Hervy, atrás das Indústrias Hervy, ao lado direito. Há muitas áreas vazias, principalmente os vazios urbanos criados pela antiga área industrial e áreas de estacionamentos e postos de gasolina, os chamados “terrenos de engorda”. O edifício ponte da Estação Osasco, parte integrante da Operação Urbana, já revitalizado, é uma das poucas ligações de pedestres com a área de intervenção. Nesta margem se encontram os dois edifícios do Conjunto Nova Grécia que ainda não foram demolidos, desocupados desde sua construção a mais de 40 anos, com 11 pavimentos, sendo os mais altos de todo o perímetro. O estado de conservação da área da Vila Leonor, á esquerda da margem, é péssimo. Na maioria restante desta margem a situação da conservação é regular, com exceção de algumas áreas habitacionais e industriais na parte central da margem e na Vila Hervy, que se encontra em bom estado de conservação. A grande maioria das edificações é composta por dois pavimentos, fora algumas exceções, como á área da favela composta por três pavimentos e os Conjuntos da Nova Grécia. Algumas edificações de 3 á 5 pavimentos se encontram na margem norte. Há também algumas edificações térreas, principalmente na margem sul, na área delimitada pelas ZEIS e na Vila Leonor. Os vazios urbanos são expressivos considerando o total do uso do solo, demarcados em branco nos mapas, são resquícios da ocupação industrial, pátio de 165 manobras, estacionamentos, postos de gasolina, entre outros, configurando-se como potenciais indutores da transformação urbana. Figura 443 Mapa do uso de solo do perímetro da OUCT II. FONTE: LEVANTAMENTO REALIZADO, ORGANIZADO E REPRESENTADO PELA AUTORA. BASE MAPA: GOOGLE MAPS. 166 Figura 94 Mapa do número de pavimentos no perímetro da OUCT II. FONTE: LEVANTAMENTO REALIZADO, ORGANIZADO E REPRESENTADO PELA AUTORA. BASE MAPA: GOOGLE MAPS. Figura 95 Mapa estado de conservação do perímetro da OUCT II. FONTE: LEVANTAMENTO REALIZADO, ORGANIZADO E REPRESENTADO PELA AUTORA. BASE MAPA: GOOGLE MAPS. 167 A área do perímetro da Operação Urbana Consorciada Tietê II (OUCT II) possui potencialidades e deficiências que devem ser observadas para a compreensão e análise das propostas lançadas pelo projeto urbano em curso no município. As potencialidades da área podem ser identificadas primeiramente pela sua localização na região central do município, próxima aos principais acessos à RMSP e de linhas de transporte público (ônibus municipal, intermunicipal e trens da CPTM). Em seguida pelo fato de possuir muitos vazios urbanos que podem ser identificados no mapa a seguir (Figura 96), demonstrando os resquícios do processo de desocupação industrial, bem como as áreas de ZEIS criadas em áreas já ocupadas por favelas, priorizando a regularização fundiária e a manutenção da população no local, promovendo os recursos para mitigar o processo de gentrificação. Os principais obstáculos do território no perímetro da intervenção como: a linha férrea e o Rio Tietê, podem ser encarados como potencialidades se aproveitados e resgatados no seu caráter e identidade. As principais deficiências do território (Figura 97) podem ser identificadas pela falta de ligações entre as margens cruzando o Rio Tietê e com a área de borda cruzando a linha férrea e a Rodovia Castelo Branco. A distância percorrida pelos pedestres, principalmente provenientes da margem norte que necessitam do transporte promovido pelo Terminal Intermodal, é muito longa e o trajeto não possui segurança devido ao uso do solo existente no mesmo, configurado por cortiços e galpões industriais. Outro aspecto negativo são as superquadras encontradas principalmente na margem sul, que dificultam as conexões e a criação de novos percursos, pois não possuem a escala do pedestre. Apesar da excelente localização e da infraestrutura urbana abundante nas proximidades o território onde se insere a OUCT II acaba por se tornar uma ilha entre as barreiras físicas naturais e impostas pela ocupação demográfica, na área de várzea do Rio Tietê, de modo que, por enquanto, não tem sido um atrativo ao mercado imobiliário, que vem crescendo no município, principalmente na região circundante a margem sul da Operação Urbana. A Operação Urbana visa recuperar esta área e resgatá-la em seu potencial imobiliário, paisagístico, ambiental e urbano. 168 Figura 96 Mapa potencialidades da área da OUCT II FONTE: LEVANTAMENTO REALIZADO, ORGANIZADO E REPRESENTADO PELA AUTORA. BASE MAPA: GOOGLE MAPS. Figura 9745 Mapa deficiências da área da OUCT II FONTE: LEVANTAMENTO REALIZADO, ORGANIZADO E REPRESENTADO PELA AUTORA. BASE MAPA: GOOGLE MAPS. 169 O ARQUITETO E AS PRIMEIRAS FORMULAÇÕES A Operação Urbana Consorciada Tietê II (OUCT II) teve sua gênese por meio de uma Carta Convite realizada no ano de 2007 a pedido da Prefeitura Municipal de Osasco (PMO) que convidou alguns escritórios, elegendo como vencedor o escritório do arquiteto uruguaio, com descendência italiana e húngara, no Brasil a mais de quarenta anos, Hector Vigliecca, o Vigliecca & Associados. A elucidação do processo de gênese e conformação das propostas do projeto urbano e da Operação Urbana passa pela compreensão do partido, das diretrizes e do processo de criação do projeto urbano. O arquiteto assume que partiu do desenho urbano para então descriminar as diretrizes da Operação Urbana, indo no sentido contrário ao processo de planejamento urbano tradicional, processo que é verificado e desmontado nesta dissertação. Em sua publicação recente “Hipóteses do Real” (2013) 60 Vigliecca revela uma análise de sua prática profissional restrita à participação de concursos em seu escritório, onde são expressas as principais ideias do arquiteto, geradas a partir de sua principal prática profissional desde sua formação: os concursos de arquitetura, vencendo 17% dos quais participou61. Desde 1970, em mais de 40 anos de profissão, Hector participou de 84 concursos nacionais e internacionais, sendo que destes recebeu 46 premiações, computando quase todos os concursos de que teve conhecimento, revelando sua vontade de expor e debater suas ideias publicamente. Os concursos marcaram o início da inserção de sua vida profissional, escolhendo esta prática por opção, o que gerou um grande amadurecimento profissional (RUBANO, 2012). Sua participação em concursos demonstra a preocupação com o tema público, sendo uma das únicas maneiras de se trabalhar o projeto urbano, de modo que seu escritório é completamente voltado para esta temática. 60 Livro recentemente lançado pelo escritório Vigliecca & Associados, referente à sua experiência na participação de concursos de arquitetura e urbanismo, revelando a extensa participação do escritório na área. 61 Dados retirados da publicação da Revista Monolito de edição nº. 16 Héctor Vigliecca, de setembro de 2013, texto de Fernando Serapião. 170 Graduou-se em arquitetura no Uruguai no único curso do país na época, onde a crítica e o debate pós-modernista estava disseminado. Conheceu o Brasil no 3º ano de faculdade em uma viagem de estudos e veio de vez para o país fugindo da ditadura no Uruguai em 1975, que vetava os projetos públicos aos arquitetos e os perseguia. Ao chegar, por volta dos 33 anos de idade, trabalhou primeiramente com o arquiteto Joaquim Guedes por três anos, onde desenvolveu o projeto do Novotel no Morumbi. Em seguida, aos 36 anos de idade, trabalhou por dez anos na Camargo Correa, no Núcleo do Consórcio Nacional de Engenheiros Construtores (CNEC), onde se tornou chefe do departamento de arquitetura e desenvolveu o Banco Geral do Comércio em Jaú (Figura 98), adaptando um antigo casarão eclético com um anexo em uma linguagem nova, com vidro e aço, causando uma revolução ao valorizar o patrimônio histórico, antecedendo a lei de preservação do patrimônio que viria em seguida, levando a polêmicas discussões de um assunto que não era comumente levado em conta pelos arquitetos e pelo mercado imobiliário brasileiro: o respeito ao existente. Logo que chegou sentiu falta das teorias que eram discutidas em seu país, como uma espécie de atualização em relação às teorias europeias, que chegavam em forma de cadernos temáticos, como os da revista Summa, como os pensamentos do Archigram, do Team X, entre outros que se opunham a Carta de Atenas, acreditando no papel do espaço público, da rua como elemento público e integrador, na estrutura contínua, na multifuncionalidade e no controle da densidade demográfica (SERAPIÃO, 2013). O arquiteto vinha de uma prática de concursos que não era comum no Brasil, de modo que logo que chegou chamou Guedes para participar de um concurso para o centro de convenções da Bahia (Figura 99). Porém já no desenvolvimento do mesmo, Guedes desistiu de continuar e, Hector, com o seu consentimento continuou no concurso em parceria com duas arquitetas recém-formadas pelo Mackenzie. Sua proposta baseada no Archigram venceu o concurso, mas o governo local acabou contratando o segundo colocado, possivelmente devido ao fato de um arquiteto estrangeiro, que não havia validado seu diploma, e duas recém-formadas terem vencido. Na espera pela oportunidade de acompanhar uma obra com um grande contrato, o arquiteto não convidou Guedes para participar da equipe, fato pelo qual se desculpou anos depois (SERAPIÃO; GRUNOW, 2009). 171 Figura 9846 á esquerda e Figura 99 á direita. Á esquerda, banco Central do Comércio em Jaú; á direita, projeto vencedor do concurso em Salvador. FONTE: SERAPIÃO (2013). Foi desta maneira que o arquiteto se inseriu no contexto brasileiro e, ainda na década de 1980, participou de 18 concursos com projetos de interesse social, como o Mercado Popular na favela de Cosmos, no Rio de Janeiro, e Habitação de baixo custo no Brás, em São Paulo. Paralelamente sempre manteve seu ateliê independente até 1986, quando se associou a Bruno Roberto Padovano, onze anos mais novo do que ele, que conheceu por intermédio de Carlos Arcos, uruguaio que fazia parte do escritório de Rino Levi. A parceria que unia a vontade dos dois arquitetos de participarem de concursos de arquitetura, juntamente com a visão de Padovano sobre arquitetura contemporânea adquirida em Harvard e a formação de Vigliecca nas bases do Archigram, durou até 1993, onde participaram de vários concursos e venceram apenas um: o Sesc Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. Desenvolveram alguns projetos para clientes particulares, como o Centro Universitário Unifieo, em Osasco, em uma das divisas do município com a capital com uma implantação ímpar, que respeita a necessidade de silêncio para um centro educacional, afastando-o da avenida principal (Figura 100 a e b), criando um bloco horizontal executado em 1989 em concreto armado com alvenaria de blocos cerâmicos, liberando o térreo por meio de pilotis; o Conjunto de Habitação Social Rio das Pedras, em 1991, para a Prefeitura Municipal de São Paulo, onde se vê o sistema de mutirão do governo Erundina e o desenvolvimento do projeto e implantação do SESC Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, (Figura 101 a e b) projeto de referência que impunha um grande pavilhão implantado contra as curvas de nível, composto por quatro blocos com estrutura mista de concreto, madeira e alvenaria, 172 com blocos de tijolo cerâmico, tendo com forma das coberturas como galpões industriais62 (SERAPIÃO, 2013). Figura 100 Centro Universitário FIEO, em Osasco, projeto em conjunto com Bruno Padovano. FONTE: SERAPIÃO (2013). Figura 471 Imagens do SESC Nova Iguaçu, no Rio de janeiro, projeto de Hector Vigliecca com Bruno Padovano. FONTE: SERAPIÃO (2013). Na década de 90 participou de 20 concursos, onde obteve o primeiro lugar em três. Em 1990, aos 54 anos, associou-se a Luciene Quel, criando o Vigliecca & Associados, que hoje conta com uma equipe de 21 arquitetos. De acordo com Serapião (2013), Luciene Quel, antiga estagiária da época de sua sociedade com Padovano, esta a cerca de 20 anos na estrada com o arquiteto e, após vencerem o Concurso para a sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), já ganharam cerca de dez concursos de arquitetura, o que a transformou na peça chave do escritório. No momento atual seu escritório entrou em uma nova fase, onde após executar todo o processo de regularização e providenciar toda a documentação necessária começou a concorrer em grandes licitações públicas de projetos, para realizar os projetos urbanos e gerenciá-los, diferenciando-os do restante dos 62 Projeto vencedor do 1º prêmio do Concurso Nacional em 1985 que o arquiteto venceu aos 45 anos de idade e resolveu deixar o CNEC. 173 escritórios de arquitetura do país. Pode se observar a conquista da licitação no setor como a Operação Urbana Vila Carioca, em São Paulo, ou a Área de Portais e Colinas D’Oeste, ambas em Osasco, de 2006, promovida por recursos do PAC, onde se propõe infraestrutura básica, equipamentos urbanos e habitações com estrutura pré-fabricadas e modulares, que atendem às condições de moradia dignas (Figura 102 a e b). Figura 482 Imagem projeto Colinas D’Oeste, habitação social em Osasco, de Vigliecca. FONTE: SERAPIÃO (2013). De acordo com Rubano (2012), Hector promove um debate sobre arquitetura e a cidade, onde a principal característica de seu processo de criação é a exposição pública, com projetos que exploram a condição urbana e possibilidade de criar a cidade. Para Hector a cidade é um local de trocas e convivência, onde a arquitetura deve ser entendida como um processo criativo e não um ato isolado. Possui habilidade na leitura dos lugares e apreensão da dinâmica do local, identificando a tradição popular de estruturação do espaço urbano. Revela sua maneira de pensar a prática profissional, que se focam no debate das ideias e na crítica, essenciais para uma boa síntese no projeto. A prática profissional de concursos gerou seu modo de projetar onde encontra a essência da prática profissional, onde o arquiteto busca responder aos problemas da cidade e os dispostos nos editais, de acordo com questões contemporâneas e com as potencialidades e deficiências da área do projeto: “Como cada arquiteto responde aos desafios de seu momento histórico segundo condições que a sociedade lhe ofereceu”. Uma questão interessante apontada em sua publicação é a falta de um cliente nos concursos, não havendo outra parte e suas opiniões divergentes e limitações ao projeto, diminuindo o desgaste desta relação. Há apenas a exposição pública de ideias e a avaliação da mesma. Identifica que o mais interessante dos concursos são os editais mais abertos, não tão restritivos. Cabe aqui questionar a questão da 174 participação popular e do próprio poder público em seus projetos urbanos, em especial com relação à Operação Urbana Consorciada Tiete II, de modo que “Cabe ao arquiteto especular as possibilidades e não apenas se limitar ao que pode ou o que não pode.” 63 O arquiteto define que suas apresentações ou sínteses evidenciam o processo de criação, revelando os argumentos do projeto e as alternativas rejeitadas, esclarecendo os conceitos e questões suscitadas pelo projeto, tendo como principal instrumento o desenho. Entretanto não se observa as hipóteses para o objeto desta dissertação, apenas a hipótese de cidade desejada adotada (RUBANO, 2012). Hector se graduou de 1964-68 na UDELAR, no Uruguai, tendo como principal base referencial a vitalidade urbana do Team X, as pré-existências de Nathan Rogers, a cidade como base para a arquitetura de Aldo Rossi, Robert Venturi que reconhece os fenômenos sociais tais como são, as intervenções pontuais de Bernardo Secchi, Archigram, Jane Jacobs e James Stirling, período onde ocorriam mudanças no trato dos problemas urbanos. Estes autores em questão tecem críticas ao urbanismo funcionalista e a Carta de Atenas, ao modelo de produção em massa de habitação e racionalização, buscando introduzir novos princípios ao planejamento urbano, estabelecendo relações entre o espaço público e privado e valorizando a multifuncionalidade. O trabalho do arquiteto, para Hector, consiste em trabalhar uma sociedade específica, não mais abstrata, valorizando o espaço de pedestres e a recuperação da rua como espaço público, como defendido por Jacobs (2000). Hector se baseia em todos estes autores para captar a essência humanista de cada um e criar sua própria versão, estando aberto ao debate arquitetônico (RUBANO, 2012). Antes de se mudar para o Brasil, Vigliecca fez parte de um escritório modelo, o Estúdio 18, que baseavam seus projetos na crítica ligados as renovações do pensamento arquitetônico promovido pelo Team X, pensamento este que permeia suas obras até os dias de hoje. Executou o Complexo Bulevar Artigas, em 1971, 63 Pensamentos do arquiteto com relação à prática profissional. Em: Hipóteses do Real. Concursos de arquitetura e urbanismo. Lizete Maria Rubano (org. e coord.). Marcela Alonso Ferreira (coord.). Vigliecca & Associados. 1ª edição. São Paulo, 2012. 175 Montevidéu, no Uruguai, composto por um conjunto de habitação social com base nas técnicas de cooperativas com o intuito de diminuir os custos das unidades multifamiliares que possui características que podem ser observadas até hoje nas obras do arquiteto, como a estratégia de implantar os blocos nas extremidades, próximo às ruas, liberando o interior da quadra para os moradores e usuários, liberando este espaço para o uso público e variando a tipologia das unidades com uma implantação que respeita a topografia (SERAPIÃO, 2013). Seus projetos se utilizam da dimensão urbana para trazer a tona para o processo de projeto aspectos públicos e coletivos, buscando garantir a função social da arquitetura e enfatizar os espaços públicos de permanência. Faz uma leitura do território e reconhece o que é lido pela população, mesmo com as características da ilegalidade e marginalidade, identificando os potenciais e a identidade de uma comunidade ou sociedade, busca a cidade ideal que, na sua ideia de cidade, é a cidade desejada pelos seus habitantes a partir das condições possíveis em todas as escalas de projetos. É neste contexto que deveria fugir aos princípios modernistas de urbanismo e sua monumentalidade e abstração do real, apoiando-se num meio urbano com características próprias arraigadas com o tempo que evidenciam a identidade local e o convívio social a partir de suas próprias realidades (RUBANO, 2013). A característica projetual muito observada na Operação Urbana em Osasco é utilizar os espaços residuais das áreas consolidadas potencializando as edificações, utilizando os vazios urbanos. Rubano (2012) aponta que aparentemente a forma de seus projetos não é o objetivo principal, mas é decorrente de seu processo de criação, que tem um compromisso com a cidade. Seu processo criativo tem como prioridade a incorporação da dinâmica urbana no âmbito da arquitetura dos edifícios, buscando a dialética entre a arquitetura e a cidade, suas tensões, utilizando as barreiras como potenciais e não como pontos de equilíbrio. Em seus projetos urbanos aproveita o potencial identificado, não substitui por uma paisagem idealizada que não condiz com o contexto, valoriza a forma de viver da comunidade, não impõe uma nova forma de viver na cidade. Deste modo, em seus projetos urbanos o arquiteto busca criar a continuidade espacial, com áreas livres, de convívio social. Suas propostas 176 de projeto partem de realidades específicas, onde nenhuma possibilidade é descartada. Sua arquitetura participa da “reinvenção da cidade”, de modo, seu trabalho não é regra, é exceção, não se apegando a meras questões tecnológicas, indo a fundo na essência dos problemas urbanos. Seu foco é a situação específica, sem ignorar o passado, trazendo à tona a condição da cidade e das situações urbanas. O arquiteto verifica novas possibilidades, com propostas ousadas que partem da leitura da situação existente, sem teorias, não se limitando a repertórios formais, onde a forma é resultado de um processo, de questões inerentes a cada situação específica. De acordo com o arquiteto, o processo de desenvolvimento dos projetos passa pela construção do território com a cidade, identificando criticamente e montando novas cartografias. Este processo vai além dos dados fornecidos pelo poder público com registros objetivos e mapeamentos de uso de solo, sistema viário e estado de conservação; sendo mais investigativos e expressando melhor a essência de um território. Para ele a cidade é um lugar de experiência coletiva que deixa marcas no território. Entende o projeto como um questionamento de dados, como uma interpretação possível de um problema e não uma resposta assertiva para o mesmo, denotando sentido em uma ação no território. Segundo Serapião (2013) existem algumas estratégias projetuais que podem ser identificadas em seu trabalho, como a leitura real do espaço existente e seu entorno, além do cuidado com os espaços residuais que geralmente sobram no terreno. O arquiteto já recebeu várias premiações como: a “Homenagem aos arquitetos e urbanistas latino-americanos que muito contribuíram para a construção da cidade de São Paulo” em 2011; o Destaque na Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo em 1993 e 2003; além de ter sido indicado ao “Mies van der Rohe Awards for Latin American Architecture” em 1998. Na área acadêmica lecionou na UDELAR, no Uruguai, na década de 1970; na UNIP e no Mackenzie a partir de 1992. Atualmente ministra palestras e atua como professor convidado, quando solicitado. Com relação ao projeto Arena Castelão, foi adotado pelo escritório uma metodologia original. Foi realizada uma pesquisa de casos com uma viagem de três 177 meses na Europa analisando estádios na Copa da Alemanha. Disto foi produzido um volume de 300 páginas de estudo, tornando o seu escritório um dos únicos especializados no tema no Brasil. Seus projetos com programas esportivos se iniciaram com o concurso para o Ginásio do Ibirapuera em São Paulo, desenvolvido de modo intuitivo e obteve o 1º lugar, revelando à necessidade de preservar o existente e adaptar as novas necessidades conectando o equipamento à cidade novamente. De acordo com Serapião e Grunow (2009), Hector Vigliecca acabou por se tornar peça chave na arquitetura paulista, de modo que sua participação em concursos suscitou importantes debates sobre contemporaneidade em São Paulo. O arquiteto se contrapõe a escola paulista, com a visão da estrutura em primeiro plano, de objeto, pois não produz objetos. Os elementos típicos de sua arquitetura remetem a retomada do movimento moderno brasileiro, o que pode ser visto em seus painéis de elementos vazados nos Conjuntos para a Gleba H, em Heliópolis, 2009 (SERAPIÃO, 2013). Por dedicar boa parte de sua carreira a concursos, cerca de 90% de sua obra, não saiu do papel. Por trabalhar na escala urbana acaba por se vincular ao poder público, dependendo de seus recursos. Produziu o projeto de algumas Operações Urbanas, como a Operação Urbana Tietê Osasco II, em Osasco, aprovada e em fase de implantação; a Operação Urbana Vila Sônia e; a Operação Urbana Mooca Vila Carioca, na região do ABC a pedido da PMSP por meio de licitação pública onde ganhou o 1º lugar, aprovada e em andamento. Não se sabe quando será possível ver os resultados destas Operações Urbanas, pois elas dependem de recursos públicos e investimentos privados. Foi realizada recentemente uma homenagem à obra de Vigliecca com a publicação da síntese de sua trajetória, revelando que o arquiteto faz o que acredita. Seu exercício profissional não se caracteriza como um exercício de resposta a problemas, mas como um exercício que lança hipóteses para o enfrentamento do mundo frente à sua realidade, revelando um olhar sensível à realidade para o exercício da invenção64. 64 Referente ao discurso de apresentação por Lizete Maria Rubano no lançamento da Revista Monolito em homenagem á Vigliecca, em 15/10/2013 no auditório do Centro Universitário Maria Antônia USP. 178 O arquiteto não escreve sobre arquitetura e acredita que esta prática executada por arquitetos é perigosa. Aprendeu a estabelecer procedimentos de raciocínio, refletindo sobre a realidade existente. Não busca a arquitetura de hoje e critica as revoluções na arquitetura que as gerações vêm buscando, não acredita em estilos vigentes. O que ele faz aprendeu com a música, onde vários compositores ainda estão vigentes, não a obra em questão, mas a interpretação. Faz-se o mesmo do que já foi feita em toda a cultura arquitetônica que se encontra a disposição, não copiando o que já foi feito, mas propondo uma releitura do mesmo, observando a realidade e captando o que pode ser utilizado aplicado hoje. Não se preocupa com qual arquitetura se esta fazendo hoje, mas com a interpretação de uma realidade carregada com toda a cultura arquitetônica, desde o Renascimento, utilizando o que nos convém65. Com relação a seu processo projetual, no que diz respeito à Operação Urbana Consorciada Tietê II, o elemento integrador do projeto é o Rio Tietê, fazendo uma alusão a principal característica projetual do arquiteto: que é a da leitura precisa do território e da observação de suas potencialidades e da cidade sonhada pelos seus habitantes, utilizando o rio como um elemento de criação de identidade, tornando-o navegável66. Pode-se considerar esta proposta uma ideia utópica de cidade que não terá efeitos se nada for feito a respeito da poluição de suas águas e, principalmente, do saneamento básico municipal. Apesar do conceito projetual utilizado que parte das características do território para então propor um novo desenho urbano e uma nova legislação, aparentemente, este desenho urbano se baseia nas antigas características de zoneamento e, principalmente, de ocupação irregular do território promovida pela industrialização, crescimento demográfico e urbano não direcionado. Desta maneira o resultado, apesar de identificar as características locais, mantém a segregação do território e o divide em zonas distintas, ou como é definido pelo projeto em sete setores, que não formam uma unidade a não ser por um elemento em comum que é o Rio Tietê. 65 Discurso do arquiteto Hector Vigliecca, no lançamento da Revista Monolito em homenagem á sua obra, em 15/10/2013, no auditório do Centro Universitário Maria Antônia USP. 66 Críticas retiradas da publicação da Revista Monolito de edição nº. 16 Héctor Vigliecca, de setembro de 2013, texto de Lizete Maria Rubano. 179 Por enquanto, devido à restrita falta de informações do poder público e do escritório responsável pelo projeto67, pouco se pode dizer a respeito das primeiras formulações da OUCT II, pois o seu processo de gênese não é divulgado. Cabe nesta dissertação então o lançamento de hipóteses a respeito do que pode ter sido este processo. Em seu discurso a respeito do processo de planejamento adotado, Vigliecca se baseia nos princípios desenvolvidos pela pós-modernidade, como os ideais defendidos por Jane Jacobs, que critica as intervenções urbanísticas executadas nas cidades americanas que visavam os ideais modernistas de separação da cidade por funções e defende as cidades multifuncionais que garantam a vitalidade do tecido urbano; ou ainda pelos ideais defendidos pelo Team X, que culminou no fim do CIAM em 1956. Esses conceitos fazem parte da vida do arquiteto desde os tempos de faculdade, em Montevidéu, quando as teorias eram debatidas por meio de grupos de estudo. Os ideais pós-modernistas se fazem presentes na defesa do processo de projeto, fugindo dos planos urbanos genéricos e pautados em índices e indo em direção aos projetos urbanos, onde primeiro se projeta a cidade que se quer para depois se planejar a mesma68. Uma observação mais atenta do projeto urbano resultante revela que seu projeto urbano defende os ideais modernistas no que se refere ao princípio de separar a área em setores ou funções, bem como em promover a ocupação das quadras de forma livre e com volumetrias em lâminas dispostas sobre o solo, como se pode observar claramente nas provisões habitacionais. Em entrevista realizada com arquiteto pode-se confirmar alguns aspectos relativos ao processo de desenvolvimento do trabalho no que diz respeito às tomadas de decisão acerca do projeto urbano, entretanto nada se fala a respeito do processo de gênese deste projeto (Figura 103). 67 Muitas foram às tentativas em vão de se obter as informações a respeito dos primeiros planos e da busca pelos documentos e pela lei da licitação pública que, entretanto, não se encontra disponível ao público, bem como os outros projetos que concorreram na licitação. Pouco se tem informações sobre a relação entre a PMO e o escritório do arquiteto no processo de desenvolvimento da Operação Urbana. O que se conseguiu levantar de informações, disponibilizadas em janeiro de 2014 pela PMO, se refere ao processo de criação de Lei da OUCT II com as audiências públicas e o material apresentado na mesma por Vigliecca. 68 De acordo com os conceitos referentes à pós-modernidade definidos por Harvey (2011). 180 Figura 493 O arquiteto em seu escritório em São Paulo. FONTE: ACERVO PESSOAL DA AUTORA (2013). A relação inicial do arquiteto com o projeto urbano para a área da Operação Urbana se deu por meio de uma carta convite, onde o seu escritório foi o vencedor, entretanto nada se tem a respeito deste processo, apenas define-se que houve um trabalho em conjunto com os técnicos da prefeitura, bem como reuniões com os secretários interessados e com o prefeito da época: “Então, por exemplo, a prefeitura chamou para fazer uma reestruturação urbana da área do Bonfim, só. Nós entendíamos quando olhamos a situação que a lógica era incluir o Rochdalle, pois esta foi uma parte de uma unidade urbana que deveria ter sido vista de uma maneira única, do ponto de vista da mobilidade. Porque aqui (na área da OUCTII) a grande barreira não é o Rio Tietê e sim a Castelo Branco.69” A solicitação da prefeitura para a Operação Urbana abarcava somente a área do bairro do Bonfim e que, partiu da sua proposta, a inclusão da área que hoje constitui o perímetro. O objetivo principal do projeto era conectar as duas margens, principalmente a margem norte, que era separada do restante pela rodovia Castelo Branco, buscando recuperar a borda fluvial para a nova centralidade urbana projetada, retirando a via expressa existente e levando a cidade até a borda do rio. A mobilidade urbana foi reestruturada pelas modificações na malha existente criando novos eixos e percursos, se aproveitando da infraestrutura existente. A estação da CPTM existente é utilizada para, a partir dela, criar um novo polo de centralidade, onde resolveu implantar o novo Paço Municipal e a Praça Cívica, considero como um grande gesto na criação de espaço público. 69 Referente ao processo de gênese do projeto urbano em entrevista realizada pela autora com Hector Vigliecca em seu escritório em 25/11/2013. 181 A visão que o arquiteto tem do lugar o leva a promover uma transformação total do bairro do Bonfim, onde vê a área como um lugar de extremo potencial, mas desconexo do restante. Prevê a utilização do Rio Tietê como elemento de integração. Com relação a grande área verde gerada pelo parque linear nas margens do Rio Tietê vê a possibilidade da instalação de equipamentos nesta área, conectados com o novo centro de comércio e serviços criado na área da Rodovia Castelo Branco. Com relação ao trabalho com a prefeitura municipal o arquiteto ressalta que a estrutura existente é pequena, bem como as informações que existiam na época do desenvolvimento do projeto e que foi feito um levantamento do entorno, do potencial, da m² que poderia ser oferecida, bem como uma conta com relação aos lucros deste processo, mas infelizmente estes dados não foram disponibilizados ao público. A respeito das discussões acerca do que esta sendo executada na área do OUCT II a prefeitura e a CPTM acerca do que foi executado no Setor 1 – Complexo Metropolitano, indo contra a sua proposta original acabando por retirar um pouco da essência do espaço público, cívico e social criado. Ao ser chamado para olhar um novo projeto para a área, feito pela CPTM já pronto, o arquiteto verificou que foi considerando a sua proposta ou o seu projeto para a área, que previa a conexão do centro velho com o novo, com muitos detalhes que se perderam na execução. A largura e a dimensão da praça foram alteradas, que diminuiu até se tornar uma pequena passarela, assim como o projeto para o novo Paço Municipal que foi completamente remodelado: “Se você não entende que isto aqui é uma transferência brutal de todos os pontos de vista. Do ponto de vista de um elemento de referência. Um elemento de referência tem um tamanho maior que uma passagem, então se você não entende isso você não consegue defender. A gente fica no meio de uma situação que no fim, nós não temos poder de decisão nenhum. Então nós ficamos fora deste projeto, ficamos fora do Paço70.” Cabe aqui ressaltar que não foi solicitado ao arquiteto o desenho urbano da porção da cidade, mas a minuta de Lei da OUCT II. Pode-se identificar o desperdício do dinheiro público gasto com o projeto urbano que não foi levado para frente, pois o poder público deixou de lado as propostas executadas pelo pode público para 70 Referente às modificações realizadas em seu projeto na ocasião da implantação dos mesmos em entrevista realizada pela autora com Hector Vigliecca em seu escritório em 25/11/2013. 182 contratar outros técnicos e agentes do mercado imobiliário por meio de contrapartidas e pela outorga onerosa. Nota-se aqui que cabe ao poder público municipal impor as condições e os pré-requisitos para a execução dos projetos em sua cidade, que deve ser de acordo com as propostas aprovadas em Câmara. O projeto urbano foi entregue a prefeitura com volumetria e minuta da lei, entretanto foi aprovado somente com desenhos bidimensionais e a minuta da lei onde as definições e características foram passadas á iniciativa imobiliária, mas não foi cobrada da mesma a manutenção das propostas. Não se devem impor as ideias projetuais ao setor imobiliário, mas o processo de mudança deve ocorrer em forma de diálogo entre o arquiteto e os investidores e o poder público local. Apesar de ter finalizado a proposta com volumetrias e o projeto de lei não foi passado ao arquiteto quaisquer informações a respeito da aprovação ou de quaisquer modificações em seu projeto (VIGLIECCA, 2013). Acerca do referencial teórico utilizado para a realização do projeto, a respeito da questão da inversão da lógica usual do processo de planejamento urbano, partiu do desenho urbano para fazer o plano urbano o arquiteto define: “Não é o desenho, digamos a gente sempre partiu de uma hipótese primeiro. Por exemplo, o raciocínio não é linear. Você não começa pelo levantamento, depois para o diagnóstico e o diagnóstico é que lhe diz o que você tem que fazer. Isto não é verdade, você pode ter uma leitura prévia, uma hipótese de trabalho e depois ter um diagnóstico que valida àquela hipótese de trabalho. Porque o diagnóstico pode ser infinito, você pode chegar a limites que você não precisa chegar. Então é só isso, a gente parte sempre de uma hipótese, de qual cidade queremos: compacta, multiuso, quantidade de verde, ou seja, há alguns parâmetros, alguma coisa, alguma imagem, alguma ideia de cidade que você pode estabelecer olhando a condição real que esta a sua volta. Não existe uma teoria que diz: não a cidade agora deve ser toda em pilotis. Já passamos por isso (movimento moderno). A gente parte de uma realidade, vamos dizer, nós fizemos uma proposta a partir de uma condição dada no projeto, dada na realidade (...) 71”. O projeto final de Vigliecca possuía detalhes arquitetônicos, considerando o seu projeto como uma hipótese que chama de hipótese do real e não como um projeto com desenho urbano. 71 Referente à base teórica do autor para a realização dos planos para a OUCT II, em entrevista realizada pela autora com Hector Vigliecca em seu escritório em 25/11/2013. 183 3. DO PLANO URBANO AO PROJETO URBANO DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II 3.1. DO PROJETO URBANO AO PLANO DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ OSASCO II CONCEITOS E OBJETIVOS DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II A área da Operação Urbana Consorciada Tietê II (2010) 72 , com área de aproximadamente 60 hectares, localiza-se entre o Viaduto Presidente Tancredo de Almeida Neves e Viaduto Fuad Auada, tendo como limite ao norte a Rodovia Presidente Castelo Branco e limite ao sul à linha férrea da CPTM, englobando os bairros do Bonfim ao sul e Rochdalle ao norte. Abarca a região central, de grande potencial, entre duas barreiras físicas, a linha férrea e a Rodovia, dividida ao meio pelo Rio Tietê. Foi inicialmente ocupada pelas indústrias, bairros operários, comércios e habitações unifamiliares, na sua maioria, desativados pela crise de 1970, sofrendo um processo de esvaziamento econômico, contribuindo para a subutilização e degradação do local, principalmente relativo à legislação urbana restritiva. Estabelece diretrizes urbanísticas para a área central do município, diretamente influenciada pelo Rio Tietê e o coloca como ponto focal do projeto urbano, criando incentivos para a indução do desenvolvimento urbano. Os principais objetivos estabelecidos pelo projeto de lei da OUCT II 73 são: a) estabelecer tratamentos diferenciados a cada uma das partes integrantes da área abrangida pela Operação Urbana; b) resgatar a área central, histórica, como um novo polo econômico por meio de incentivos urbanísticos da contrapartida; 72 Lei Complementar nº 203 que institui a Operação Urbana Consorciada Tietê Osasco II, de 22 de dezembro de 2010. 73 Lei Complementar nº 203 que institui a Operação Urbana Consorciada Tietê Osasco II, de 22 de dezembro de 2010. 184 c) alcançar as transformações urbanísticas, melhorias sociais e ambientais; d) promover uma centralidade regional na área abrangida pela Operação Urbana por meio da transformação e consolidação do território; e) promover uma requalificação urbanística; f) readequar a infraestrutura urbana existente adequada aos novos usos e setores, por meio de modificações no sistema viário e de implantação de áreas verdes e institucionais; g) melhorar as características de acessibilidade regional e local, com a criação de novas conexões na área da Operação Urbana e sua relação com o entorno, articulando com as redes de transporte público existente (CPTM, ônibus municipal e intermunicipal); h) utilizar-se das barreiras físicas e visuais do Rio Tietê e da linha férrea e recupera-las como identidade da população; i) estabelecer referências urbanas no espaço público que possam identificar as ações do poder público; j) incentivar a implantação de equipamentos de serviços, cultura e lazer potencializando o caráter como polo da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP); k) incentivar a implantação de atividades não residenciais na faixa ao longo da Rodovia Presidente Castelo Branco, buscando implantar um novo polo de comércio e serviços no município, pertencente à sub-região oeste da RMSP; l) promover uma política de Habitação de Interesse Social (HIS) e reurbanização em conjunto com todas as esferas (municipais, estaduais e federais), atendendo a população pertencente à área da Operação Urbana que se encontra em submoradias; m) buscar parcerias com investidores publico e privados na área compreendida pela Operação Urbana. 185 O método de trabalho utilizado para análise da área compreendida pela Operação Urbana passa pela identificação dos setores por meio de mapas, análise in loco, levantamento fotográfico e análise dos índices propostos que será aplicado de acordo com os setores de intervenção descriminados pelo projeto urbano (Figura 104), sendo eles: a) Setor 01: denominado Complexo Metropolitano: compreendido ao norte e oeste pela Rua Rafael Aragoni, ao sul pela Rua Erasmo Braga e ao leste pela Av. Fuad Auada; b) Setor 02: denominado Castelo Branco: compreendido ao norte pela Rua Pernambuco, ao sul pela Rua João Kalfmann, ao leste pelo Complexo Viário Maria Campos e ao oeste pelo braço do Rio Tietê; c) Setor 03: denominado Bonfim: compreendido entre a Av. das Nações Unidas ao norte, à linha férrea ao sul, a Vila Leonor á oeste e a Rua Rafael Aragoni e Vila Hervy ao leste; d) Setor 04: denominado Vila Hervy: compreendido entre a Rua Rafael Aragoni ao sul, a Praça Laurindo de Camargo ao norte, a Av. Fuad Auada á oeste e Passagem João Cobo ao leste; e) Setor 05: denominado ZEIS: o primeiro que se inicia na confluência da Av. Getúlio Vargas á oeste, com a Rodovia Castelo Branco ao norte, com o braço do rio Tietê á leste e Av. Presidente Kennedy ao sul; já o segundo se inicia no encontro da Av. Nações Unidas ao norte com o Viaduto Presidente Tancredo de Almeida Neves á oeste, a Vila Leonor ao leste e a linha férrea da CPTM ao sul; f) Setor 06: denominado Vila Leonor: compreendido entre a Av. das Nações Unidas ao norte, à linha férrea da CPTM ao sul e a Rua André Rovai á oeste; g) Setor 07: denominado Parque da Orla do Tietê: composto pelo perímetro compreendido entre o Viaduto Tancredo Neves á oeste, o Complexo Viário Maria Campos ao leste, a Av. Nações Unidas ao sul e a Rua João Kaufmann ao norte. 186 ANÁLISE FOTOGRÁFICA DA ÁREA DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II Figura 104 Área compreendida pela Operação Urbana Consorciada Tietê II. Fonte: Autoria própria. Base: Google Maps Com o objetivo de identificar os pontos levantados e analisados nos mapas de análise do local e de fundamentar as intervenções propostas pelo projeto da Operação Urbana é essencial buscar neste momento o levantamento fotográfico da área registrando as principais características da região de acordo a partir da divisão de setores criada pela OUCT II: No levantamento abaixo (Figura 105) foca-se o Setor 05 – ZEIS que se encontra na área esquerda da Operação Urbana, nas margens norte e sul do Rio Tietê em área já identificada como ZEIS pelo zoneamento. A Figura “a” revela um vazio urbano na margem sul do Rio Tietê, á esquerda vê-se a Avenida das Nações Unidas, ao fundo vê-se a favela e a ocupação da área da Vila Leonor. No Setor 6 as Figuras “b” e “c” são as vistas de cima da passarela de ligação norte, á esquerda, e sul, á direita. Observa-se nestas imagens a subestação de distribuição da Eletropaulo á direita, a favela á esquerda nas margens da Rodovia Castelo Branco. Na Figura “c” vê-se o Viaduto Presidente Tancredo Neves á esquerda, no perímetro da Operação Urbana. Identifica-se a área de várzea do Rio Tietê que apesar de sua calha retificada mantém as bordas com vegetação. 187 Figura 105 Levantamento fotográfico Setor 05 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). Figura 5006 Levantamento fotográfico Setor 05 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). 188 No levantamento acima (Figura 106) continua-se a observação do Setor 05 – ZEIS, onde se pode ver na Figura “a” a face norte do setor com a Rodovia Castelo Branco ao fundo, configurando-se como uma barreira física que torna o perímetro da Operação Urbana uma ilha. Á esquerda vê-se a favela, adensada, com um dos maiores números de pavimentos da Operação Urbana, entre o braço morto do Rio Tietê e o Viaduto Tancredo Neves. No restante veem-se os galpões de indústria e logística do Setor 2 – Castelo Branco, as margens da Rodovia que passa em nível superior ao restante. Na Figura “b” obtêm a vista de cima da passarela para o Setor 5 - ZEIS, Setor 3 – Bonfim e Setor 7 – Parque Orla do Rio Tietê, onde se pode observar o tráfego intenso sentido as Marginais Tietê e Pinheiros. Ao fundo veem-se os dois edifícios existentes do Conjunto Nova Grécia, marcando a paisagem a mais de 40 anos em seu estado de abandono. A Figura “c” mostra o limite sul da área com a linha férrea ao fundo. A Figura “d” mostra a favela na margem norte do Rio Tietê. A Figura “e” revela a ocupação irregular existente. Pode-se concluir que este Setor 5-ZEIS foi apropriado pelo projeto urbano de maneira a manter a população no local, utilizando-se do zoneamento existente, baseado no Plano Diretor vigente (2004). Figura 5107 Levantamento fotográfico Setor 06 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). 189 Acima (Figura 107) faz-se a observação do Setor 06 – Vila Leonor, na margem sul do Rio Tietê, onde se pode verificar nas Figuras “a” e “b” a Rua André Rovai, que se torna paralela à linha férrea na Figura “c”. Notam-se as condições precárias de urbanização desta região, desprovidas de calçamento e pavimentação na via. A Figura “d” demonstra a configuração da Vila Leonor, de propriedade da CPTM, atualmente ocupada como cortiço. Na Figura “e” observa-se a via interna da Vila Leonor com vista para a Avenida das Nações Unidas á esquerda. Figura 108 Levantamento fotográfico Setor 06 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). No levantamento acima (Figura 108) vê-se o Setor 06 – Vila Leonor com um levantamento mais preciso das edificações existentes, onde se pretende na OUCT II transforma-lo em Complexo Cultural. Das Figuras “a” á “d” observa-se as fachadas do lado esquerdo da via local, onde se pode identificar a inclusão de elementos de vedação que não pertencem originalmente ao conjunto, bem como a falta de pavimentação e calçamento. Das figuras “e” á “h” observa-se as fachadas do lado direito da via local com as mesmas configurações, onde se pode identificar a configuração de vila, com rua comunitária. Na Figura “i” mostra-se a face interior da quadra da Vila Leonor, local também de fluxo de pedestres pertencentes a esta região e a seu entorno circundante, bem como a utilização do local para a instalação de redes de infraestrutura, como torres de alta tensão. A Figura “j” mostra a fachada 190 deste setor para o Rio Tietê, como um local isolado. Este setor se revela como um local não acolhedor e propicio aos pedestres, não possui o uso necessário para promover segurança aos usuários. No levantamento abaixo (Figura 109) vê-se o Setor 06 – Vila Leonor e sua fronteira com a linha férrea. Na Figura “a” observa-se da passarela de pedestres que conecta a área com a Rua da Estação a rede de infraestruturas pesadas e impactantes para a área com as torres de alta tensão á esquerda e ao centro. A direita observa-se o conjunto da Vila Leonor. A Figura “b” torna-se a partir da passarela existente revela a situação atual da linha férrea e sua relação de obstáculo físico e visual no território. Onde a direita observa-se o centro industrial do município e a esquerda observa-se subocupações, como o ferro velho e os galpões industriais. Nas Figuras “c” á “e” pode-se observar a divisa entre o Setor 06 – Vila Leonor e o Setor 03 – Bonfim com a péssima manutenção da infraestrutura urbana. Figura 5209 Levantamento fotográfico Setor 06 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). 191 Figura 110 Levantamento fotográfico Setor 06 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). No levantamento acima (Figura 110) continua-se a observação do Setor 06 – Vila Leonor face ao Setor 03 – Bonfim. Na Figura “a” observa-se a subestação de distribuição elétrica onde se observa que a escolha do local para a implantação da mesma, bem como para a implantação de torres de alta tensão se deu por sua localização geográfica, em área de várzea, como pode ser observado na Figura “b”. Nas Figuras “c” e “e” observa-se a fachada voltada para o Rio Tietê da Vila Leonor, revelando o uso incompatível com a via rápida á direita. A Figura “d” revela a paisagem agredida pelas infraestruturas que assolam a área. Pode-se concluir que, o Setor 06-Vila Leonor encontra-se atualmente degradado, com condições infraestruturais péssimas, desenvolvimento. mas possui condicionantes importantes para o 192 Figura 111 Levantamento fotográfico Setor 03 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). No levantamento acima (Figura 111) faz-se a observação de parte do Setor 3 – Bonfim. Nas Figuras “a” á “d” verifica-se na Rua André Rovai quadras grandes e o uso de comércio, indústrias e galpões de logística, fazendo do uso do espaço público das ruas intenso durante o horário comercial e um deserto urbano a noite e nos finais de semana, tornando-se um espaço hostil para os pedestres. Na Figura “e” vê-se a Avenida das Nações Unidas e a situação precária das calçadas, que são inexistentes na margem do Rio Tietê. Na Figura “f” vê-se a Praça Profª Nair Bellacosa Warze onde se avista a passarela de pedestres que se liga com a Praça Presidente Kennedy na margem norte do Rio Tietê, a direita vê-se um grande galpão industrial. 193 Figura 112 Levantamento fotográfico Setor 03 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). No levantamento acima (Figura 112) continua-se a observação do trecho sequente do Setor 3 – Bonfim. Na Figura “a” pode-se observar a partir da passarela na Praça Profª Nair Bellacosa Warze a grande área industrial as margens da linha férrea ocupando a maior quadra da área da OUCTII, na margem esquerda vê-se uma área subutilizada onde se encontra o posto de gasolina. Na Figura “b” e “c” observam-se a partir da passarela as duas margens do Rio Tietê, ao fundo vê-se o Conjunto Nova Grécia. Na Figura “d” observa-se a margem sul do Rio Tietê com vegetação preservada. Na Figura “e” observa-se a esquina da Rua André Rovai com a Avenida das nações Unidas, ao fundo sobressaem às torres de alta tensão. No levantamento abaixo (Figura 113) continua-se o percurso de observação do Setor 3 – Bonfim. Na Figura “a” tem-se a vista panorâmica a partir da passarela sobre o Rio Tietê das duas margens do rio, a primeira observação é referente às condições da passarela, sem cobertura, com piso metálico sem acabamento antiderrapante, em seguida observa-se a caracterização da calha retificada, praticamente a 45º, mas com vegetação. Nas Figuras “b” e “c” observa-se a Avenida das Nações Unidas com muitas áreas subutilizadas e mal conservadas. Na Figura “d” observa-se a Rua Valter Manzolli em trecho sem calçamento ou pavimentação, a 194 direita vê-se um terreno vazio. Nas Figuras “f” e “h” observa-se a Rua Valter Manzolli em trecho já pavimentado e com calçamento, com uso residencial á direita e industrial á esquerda. Na Figura “e” observa-se a Rua Amélia Manzolli, residencial com um bom estado de conservação. Na Figura “g” observa-se a Rua Francisco de Carlo, que conecta a Rua Valter Manzolli com a Praça Linda Kamalakian. Figura 113 Levantamento fotográfico Setor 03 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). No levantamento abaixo (Figura 114) continua-se o percurso de observação do Setor 3 – Bonfim. Na Figura “a” vê-se a Rua Valter Manzolli em trecho com predomínio de habitações de dois pavimentos, ao fundo observa-se a ETEC na Rua Manoel Rodrigues, Figura “b”. Na Figura “c” tem-se uma vista panorâmica da esquina da Rua Manoel Rodrigues com a Rua Valter Manzolli, onde se encontra o terreno da DAEE, abandonado, que ocupa todo o quarteirão e faz fronteira com o Rio Tietê. Na Figura “e” observa-se a Rua Acácio João Magalhães, uma viela ao lado de um galpão industrial. Nas Figuras “f” e “g” vê-se a Rua Manoel Rodrigues sentido Rio Tietê, com o muro da área do DAEE á esquerda e residências á direita. 195 Figura 114 Levantamento fotográfico Setor 03 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). Figura 115 Levantamento fotográfico Setor 03 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). No levantamento acima (Figura 115) continua-se a observação do último trecho do setor, onde se encontra o Conjunto Nova Grécia, focalizado nas Figuras 196 “e” e “f”, com 11 pavimentos fazendo fronteira com a Vila Hervy, com até dois pavimentos no máximo. Na Figura “a” verifica-se a Praça Linda Kamalakian. Na Figura “b” observa-se a Rua Manoel Rodrigues. Na Figura “c” observa-se a Rua Acácio João Magalhães, com predominância de residências de dois pavimentos. Na Figura “d” observa-se a Praça Linda Kamalakian, evidenciando um dos únicos espaços públicos da área da Operação Urbana cercada de grades. Pode-se concluir que este setor possui potencial de transformação que vai se modificando da esquerda para a direita a partir do limite com o Setor 6 – Vila Leonor até se encontrar com o Setor 1 – Complexo Metropolitano, onde ficará o projeto âncora. Figura 116 Levantamento fotográfico Setor 04 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). No levantamento acima (Figura 116) faz-se a observação do Setor 4 – Vila Hervy, antiga vila industrial pertencente às Indústrias Hervy. Na Figura “a” tem-se a vista da Praça Linda Kamalakian a partir da Rua Nichan Sasounian, configurando-se como uma agradável área residencial, com vias mais estreitas, uma densidade alta comparada ao restante da área da Operação Urbana. Na Figura “b” observa-se a mesma praça a partir da Rua Aran Seferian com vista para o Conjunto Nova Grécia 197 ao fundo, que destoa completamente do conjunto. Na Figura “c” observa-se a característica das edificações habitacionais existentes no setor e o Conjunto Nova Grécia ao fundo. Na Figura “d” tem-se uma vista panorâmica da praça e sua ocupação circundante, com habitações de dois pavimentos. Com exceção da Rua Aran Seferian, todas as outras vias que partem desta para o Conjunto Nova Grécia ou para a antiga Indústria Hervy são sem saída, funcionando como vias locais na Vila Hervy. Na Figura “e” vê-se a vista panorâmica da esquina da Passagem João Cobo com a Rua Aran Seferian com residências unifamiliares de dois pavimentos e térreas. Na Figura “f” vê-se a Passagem Maria Conceição da Silva com predominância de habitações unifamiliares térreas. Figura 117 Levantamento fotográfico Setor 04 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). No levantamento acima (Figura 117) faz-se a observação do Setor 4 – Vila Hervy. Na Figura “a” observa-se a passagem Eudócia Domingos de Soledade com habitações unifamiliares com predominância de dois pavimentos. Na Figura “b” observa-se a Passagem Nelson Ferreira Pires com habitações unifamiliares predominantemente térreas com a Indústria Hervy ao fundo. Na Figura “c” observase a Passagem João Batista de Araújo e na Figura “f” observa-se a Passagem Moises Rodrigues, ambas com habitações unifamiliares com predominância de dois 198 pavimentos. Na Figura “e” vê-se a Rua Mahmaud Ibraim com vista para o Conjunto Nova Grécia. Figura 5318 Levantamento fotográfico Setor 04 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). No levantamento acima (Figura 118) faz-se a observação do Setor 4 – Vila Hervy. Na Figura “a” observa-se a Passagem Moisés Rodrigues com enfoque no galpão da antiga Indústria Hervy ao fundo, revelando a importância da era da indústria na região e seu impacto e influencia na Vila Hervy, bem como as dificuldades para a região com a desindustrialização e as infraestruturas obsoletas. No levantamento abaixo (Figura 119) termina-se a observação do Setor 4 – Vila Hervy. Na Figura “a” vêm-se residências unifamiliares na Rua Antonio Alves de Sousa. Na Figura “b” vê-se a Rua Aran Seferian com vista ao fundo para a Avenida Fuad Auada. Na Figura “c” vê-se a Passagem Olídio Rocatto com vista ao fundo para o muro da Rua Rafael Aragoni. Na Figura “d” tem-se a vista panorâmica da Rua Moises Rodrigues. Nas Figuras “e” e “f” vê-se a Avenida Fuad Auada, limite do perímetro da Operação Urbana ao leste. Pode-se concluir que este setor possui características importantes, sendo o mais denso do perímetro da Operação Urbana. 199 Figura 5419 Levantamento fotográfico Setor 04 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). Figura 550 Levantamento fotográfico Setor 01 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). No levantamento acima (Figura 120) observa-se o Setor 1 – Complexo Metropolitano, no perímetro da Operação Urbana, onde atualmente se encontra os galpões das Indústrias Hervy abandonados. Na Figura “a” vê-se o terreno das indústrias Hervy com o grande galpão á direita. Na Figura ”b” observa-se o galpão 200 da indústria, onde no pátio localiza-se a produção da antiga fábrica de louças, há muito tempo estocada a céu aberto. Figura 5621 Levantamento fotográfico Setor 01 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). No levantamento acima (Figura 121) observa-se a continuação do Setor 1 – Complexo Metropolitano. Na Figura “a” vê-se o terreno das indústrias Hervy com o grande galpão abandonado. Na Figura ”b” observa-se o galpão da indústria. Na Figura “c” observa-se á área da antiga entrada das Indústrias Hervy. Na Figura “d” vê-se a Rua André Rovai, paralela a linha férrea e canteiro de obras á esquerda. N Figura “e” vê se o gradil, já revitalizado conforme minuta da lei da OUCT II, da linha férrea e a Estação Osasco ao fundo. Na Figura “f” observam-se as edificações da Rua André Rovai. Pode-se concluir que esta área possui uma localização privilegiada, com o sistema integrado de transportes, bem como parte do patrimônio histórico municipal. 201 Figura 122 Levantamento fotográfico Setor 03 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). No levantamento acima (Figura 122) vê-se a continuação do Setor 3 – Bonfim. Na Figura “a” vê-se a Rua André Rovai, com usos de solo para galpões de logística, materiais pesados, sucatas, entre outros. Na Figura “b” vê-se a demolição de uma área para dar lugar a novos empreendimentos. Na Figura “c” observa-se um novo empreendimento lançado na Rua André Rovai. Figura 123 Levantamento fotográfico Setor 07 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). No levantamento anterior (Figura 123) vê-se a continuação do Setor 7 – Parque Linear. Na Figura “a” observa-se a área da Av. Presidente Kennedy, via rápida onde se faz a saída da Rodovia Presidente Castelo Branco para o município de Osasco. Na Figura “b” revela o estacionamento embaixo da ponte que une os dois lados do Rio Tietê, no Complexo Maria Campos. Na Figura “c”, “d” e “e” observa-se a 202 passarela de pedestres existente, a Av. Presidente Kennedy. Na Figura “f” e “g” observa-se a Praça Kennedy, antiga conexão com a margem norte da Rodovia, quebrada pelo aumento das pistas da mesma e pela modificação de seu eixo. Podese concluir que este é o setor mais importante da área, tratando-se do elemento integrador do plano, onde se encontra muitas casas vazias, bem como a área lindeira ao Rio Tietê, utilizada como via rápida, colocando o rio como obstáculo. Figura 124 Levantamento fotográfico Setor 02 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). No levantamento acima (Figura 124) vê-se o Setor 2 – Castelo Branco. Na Figura “a” vê-se a Rua João Kaufman, á direita uma das principais ligações regionais com o centro da cidade e com as marginais. Na Figura “b” vê-se a Rua João Kaufman. Na Figura “c” observa-se a passarela de pedestres que conecta as duas margens do rio a partir da Praça Kennedy, que ficou desarticulada devido às modificações viárias. Na Figura “d” vê-se a continuação da praça em sua antiga ligação com o bairro de Rochdalle. No levantamento abaixo (Figura 125) vê-se a continuação do Setor 2 – Castelo Branco onde se observa a fronteira em desnível que o mesmo faz com a Rodovia Castelo Branco. A rodovia cortou a região e criou dois taludes em suas bordas agredindo o território e formando uma ilha. Já a relação do Setor 2 – Castelo Branco com a rodovia é caótico, pois esta muito próxima às habitações e passa em um nível mais baixo. 203 Figura 125 Levantamento fotográfico Setor 02 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). Figura 126 Levantamento fotográfico Setor 02 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). No levantamento acima (Figura 126) observa-se o Setor 2 – Castelo Branco. Na Figura “a” vê-se a nova ponte criada depois da modificação do sistema viário. Na Figura “b” observa-se a Praça Kennedy que perdeu sua função e vitalidade. Na Figura “c” e “d” pode-se observar a Rua Pernambuco. Pode-se concluir que este setor se encontra completamente desconexo do restante da malha urbana, principalmente devido a forte presença da rodovia e da alteração do eixo de circulação. 204 Figura 127 Levantamento fotográfico Setor 02 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). No levantamento acima (Figura 127) observa-se o Setor 2 – Castelo Branco. Na Figura “a” veem-se os galpões na Av. Getúlio Vargas. Na figura “b” vê-se a passarela de pedestres, a terceira ligação com a margem sul do Rio Tietê. Na Figura “c” e “d” a Av. Getúlio Vargas com o posto de gasolina. Nas Figuras “e”, “f” e “g” observa-se a habitação irregular existente, são as edificações com maior número de pavimentos do perímetro da Operação Urbana, de 3 á 4 pavimentos, com exceção dos edifícios do Conjunto Nova Grécia, de 5 á 12 pavimentos no Setor 3 – Bonfim. Figura 128 Levantamento fotográfico Setor 02 da OUCT II. Fonte: Acervo próprio (2013). No levantamento acima (Figura 128) continua-se a observar a favela existente no o Setor 5 - ZEIS. 205 PROPOSTAS E DIRETRIZES DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II A seguir será realizada uma explanação acerca dos parâmetros e índices, bem como as propostas definidas para cada setor acerca da situação atual. O Setor 1 – Complexo Metropolitano: Consiste no projeto âncora desta Operação Urbana e será implantado na atual gleba das Indústrias Hervy, pretendendo consolidar esta área como polo institucional e de serviços. O principal ponto deste projeto será a implantação do novo Paço Municipal, a ser instalado no trecho C deste setor (Figura 129) composto pelo edifício da Prefeitura, Câmara Municipal, Praça Cívica e Estacionamento, devendo se conectar por meio de passarelas instaladas no edifício ponte da Estação de Osasco á área central do município, com o calçadão da Rua Antonio Agú, bem como ligação subterrânea entre a Estação de Osasco e o Estacionamento do Paço Municipal. Figura 129 Setor 1 – Complexo Metropolitano: onde será instalado o projeto âncora do novo Paço Municipal no trecho B e C, em área pertencente à Gleba Hervy. Fonte: Autoria própria. Base: Google Maps O projeto urbano consiste no reparcelamento da Gleba da Hervy, que terá seu lote desmembrado em três lotes, promovendo abertura de novas vias locais com leito carroçável de 7m de largura e calçadas de 5m de largura. As readequações viárias se darão pela readequação da Rua Rafael Aragoni, aumentando seu leito carroçável para 10m de largura, com calçada mínima de 5m de largura para a Gleba Hervy e 3m nas demais calçadas; da Rua Erasmo Braga, 206 com aumento do leito carroçável para 11m de largura e calçada de no mínimo 5m de largura para a Gleba Hervy, bem como arborização na divisa com a linha férrea. Haverá também a abertura de novas vias de ligação, como entre a Rua Rafael Aragoni e a Rua Manoel Rodrigues, com leito carroçável de 10m de largura e calçada de 3m de largura; abertura de via local de ligação da Rua Rafael Aragoni com a Rua Erasmo Braga, com leito carroçável de 7m de largura e calçada de 5m de largura; abertura de via de acesso local no Complexo Metropolitano, com leito carroçável de 7m de largura e calçada de 5m de largura. O trecho A deste setor será destinado ao comércio e serviços, voltados à linha férrea e a habitação de alta densidade, prevendo 240 habitantes por hectare, para a Rua Rafael Aragoni. As diretrizes de uso e ocupação de solo para este setor podem ser identificadas em Tabela 2 abaixo: Tabela 1 Taxas de aproveitamento, ocupação e uso do solo para o Setor 1 da OUCT II FONTE: AUTORIA PRÓPRIA, BASEADO EM DADOS DA LEI COMPLEMENTAR N 203, REFERENTE Á OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II. Será realizada a requalificação ao longo de toda a orla ferroviária, compreendendo trechos dos setores 1, 3, 5 e 6, com tratamento paisagístico e drenagem local, bem como a substituição dos muros da CPTM por gradis metálicos. O Setor 2 – Castelo Branco: As propostas para este setor pretendem promover uma ocupação diferenciada para a área de borda da Rodovia Presidente Castelo Branco, que deve contar com projetos que visam à implantação de um novo polo de comércio e serviços da subregião servida por Osasco, retirando as atividades residenciais existentes 207 atualmente no setor, prejudiciais à saúde e bem estar da população, devido á sua localização ao lado de uma rodovia de tráfego intenso (Figura 130). A primeira modificação que se pode identificar neste setor é o reparcelamento do lote único em três partes, contando com a implantação de novas vias. A ampliação da largura das calçadas é um ponto importante que modifica as características do território e fornece espaço para os pedestres. Em locais onde sequer havia calçamento prevê-se o mínimo de 3m de largura nas calçadas, podendo chegar a 5m de largura na área circundante ao Complexo Metropolitano. Figura 5730 Setor 2 – Castelo Branco: onde serão priorizadas ocupações não residenciais, instalando um novo polo de comércio e serviços regional. Fonte: Autoria própria. Base: Google Maps As modificações viárias se darão por aberturas de vias entre as Avenidas Getúlio Vargas e Brasil, dos setores 2 ao 5, com leito carroçável de 10m de largura; abertura de via de ligação entre a Avenida Presidente Kennedy e a Rua João Kaufman, substituindo a Rua Anhembi, com leito carroçável de 11m de largura e calçada de 3m de largura; abertura de via de ligação entre a Rua João Kaufman e a Avenida Presidente Kennedy, com leito carroçável de 11m de largura e calçada de 3m de largura; abertura de nova alça de acesso da Avenida Presidente Kennedy ao Complexo Viário Maria Campos. Serão realizadas também readequações de vias, como a Rua Pernambuco, a Avenida Getúlio Vargas e Brasil, aumentando seu leito carroçável para 10m de largura; a Rua Ceará, aumentando seu leito carroçável para 12m de largura. Bem como a supressão de vias, como a Rua Anhembi, Rua Minas Gerais; de trechos da Rua João Kaufman e Rua Pernambuco. Será realizada a requalificação da orla rodoviária, da Rodovia Presidente Castelo Branco, englobando as bordas dos setores 2 e 5, com a implantação de tratamento paisagístico dos taludes. 208 As diretrizes de uso e ocupação de solo para este setor podem ser identificadas em Tabela 3 abaixo: Tabela 2 Taxas de aproveitamento, ocupação e uso do solo para o Setor 2 da OUCT II FONTE: AUTORIA PRÓPRIA, BASEADO EM DADOS DA LEI COMPLEMENTAR N 203, REFERENTE Á OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II. As principais modificações se darão no âmbito da estrutura viária, promovendo a readequação das vias principais, como a Rua Pernambuco, removendo vias de ligação como o Complexo Viário Maria Campos e promovendo novas ligações. O Setor 3 – Bonfim: As propostas para este setor abordam melhorias sociais e urbanas para a área, promovendo a ocupação ordenada do território e garantindo a mobilidade urbana entre os dois lados da linha férrea, bem como com as duas margens do Rio Tietê. O setor possui a maior área da Operação Urbana, situado entre as duas barreiras físicas do município: o Rio Tietê e a linha férrea da CPTM (Figura 131). Figura 131 Setor 3 – Bonfim: onde será priorizada a ocupação ordenada do território. Fonte: Autoria própria. Base: Google Maps As readequações viárias constam de aberturas de novas vias, como a via de ligação entre a Avenida das Nações Unidas e a nova via a ser criada em paralelo com a linha férrea, abrangendo os setores 3, 5 e 6, com leito carroçável de 10m de largura e calçada de 3m de largura. Bem como readequação da Rua André Rovai, 209 aumentando seu leito carroçável para 10m de largura; aumento do leito carroçável para 10m de largura e calçada de 3m de largura da Rua Manoel Rodrigues, entre a Avenida das Nações Unidas e a nova via paralela à linha férrea. Foram propostas implantação de conexões de pedestres e automóveis entre o setor e a Rua da Estação, bem como com a margem norte do Rio Tietê, como a passagem subterrânea para automóveis entre a Avenida das Nações Unidas e a nova via paralela à linha férrea, conectando-se a Rua Ester Rombenso, com 7m de largura de leito carroçável. Será realizada a requalificação da orla ferroviária nas margens deste setor, com tratamento paisagístico, onde as principais modificações a serem identificadas são as readequações viárias, principalmente na Rua André Rovai e no entorno do Setor 1, bem como a abertura de novas vias, principalmente paralela à Rua da Estação e a linha férrea. As diretrizes de uso e ocupação de solo para este setor podem ser identificadas em Tabela 4 abaixo: Tabela 3 Taxas de aproveitamento, ocupação e uso do solo para o Setor 3 da OUCT II FONTE: AUTORIA PRÓPRIA, BASEADO EM DADOS DA LEI COMPLEMENTAR N 203, REFERENTE Á OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II. O Setor 4 – Vila Hervy: Este setor conta com propostas para a antiga vila industrial pertencente às Indústrias Hervy. As propostas para este setor visam à melhoria das condições de habitabilidade, preservando a volumetria existente atualmente na área, bem como o incentivo a implantação de usos institucionais, de comércio e serviços de caráter 210 regional, nas proximidades da Estação Osasco, buscando reforçar o caráter central da área (Figura 132). Figura 5832 Setor 4 – Vila Hervy: área onde será priorizada a ocupação ordenada do território e a manutenção da volumetria atual. Fonte: Autoria própria. Base: Google Maps As propostas de modificações viárias consistem em readequações na Rua Rafael Aragoni, entre a Avenida Fuad Auada e a nova via a ser criada em paralelo à linha férrea, aumentando seu leito carroçável para 10m de largura e calçadas de no mínimo 5m de largura. As diretrizes de uso e ocupação de solo para este setor podem ser identificadas em Tabela 5 abaixo: Tabela 4 Taxas de aproveitamento, ocupação e uso do solo para o Setor 4 da OUCT II FONTE: AUTORIA PRÓPRIA, BASEADO EM DADOS DA LEI COMPLEMENTAR N 203, REFERENTE Á OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II. As propostas para este setor buscam manter as características da vila, entretanto criam melhores condições de mobilidade urbana promovendo aberturas nas travessas até então sem saída que dão para a Rua Rafael Aragoni. Outra modificação importante é liberar o uso do solo priorizando áreas comerciais de apoio ao Setor 1 – Complexo Metropolitano. 211 O Setor 5 – ZEIS: Este setor conta com duas áreas, a primeira situada à margem norte do Rio Tietê e a segunda situada à margem sul do mesmo, ambas fazendo divisa ao oeste com o Viaduto Presidente Tancredo Neves. Para este setor será realizada a reurbanização da área74 sendo o único setor onde será permitida a implantação de HIS. Atualmente a primeira área esta parcialmente ocupada com loteamentos irregulares, às margens do braço do rio Tietê. A segunda área consiste em ocupações irregulares em área subutilizada entre o viaduto, a linha férrea, a Vila Leonor e o Rio Tietê (Figura 133). Figura 5933 Setor 5 – ZEIS: áreas destinadas à implantação de HIS. Fonte: Autoria própria. Base: Google Maps A proposta conta com readequações na malha viária, como a Rua Erasmo Braga, utilizada como continuação da nova via paralela à linha férrea, aumentando seu leito carroçável para 11m de largura, com calçada mínima de 5m de largura e arborização ao longo da linha férrea; a abertura de via de ligação entre a alça de acesso ao Viaduto Tancredo Neves e a Rua Andre Rovai, com leito carroçável de 11m de largura e calçada mínima de 3m de largura com arborização ao lado da linha férrea; a via de ligação entre a Avenida das Nações Unidas e a nova via a ser criada em paralelo com a linha férrea, com leito carroçável de 10m de largura e calçada de 3m de largura; abertura de vias de ligação entre a Avenida Nações Unidas e a nova via a ser instalada em paralelo a linha férrea, com leito carroçável de 10m de largura e calçada de 3m de largura; abertura de ligação entre a Rua Andre Rovai e nova via 74 Constantes do Anexo Único da Lei Complementar nº 152, de 09 de outubro de 2006. 212 paralela à linha férrea. Será realizada também a supressão das vielas que se inserem no perímetro deste setor. Para este setor devem ainda ser observadas as diretrizes definidas pelo Plano de Reurbanização e Regularização Fundiária a ser elaborado pelo poder executivo Municipal, bem como as legislações da Lei Complementar nº 152, de 09 de outubro de 200675. As diretrizes de uso e ocupação de solo para este setor podem ser identificadas em Tabela 6 abaixo: Tabela 5 Taxas de aproveitamento, ocupação e uso do solo para o Setor 5 da OUCT II FONTE: AUTORIA PRÓPRIA, BASEADO EM DADOS DA LEI COMPLEMENTAR N 203, REFERENTE Á OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II. Os índices relativos à HIS e HMP definidos para a área de ZEIS são os previstos em Lei Complementar 125/2004, onde se prevê a manutenção da população no local. O Setor 6 – Vila Leonor: Figura 134 Setor 6 – Vila Leonor: área identificada como potencial de preservação do patrimônio e restauro pertencente á CPTM. Fonte: Autoria própria. Base: Google Maps 75 Lei que regulamenta a Lei Complementar nº 125, de 03 de agosto de 2004, que institui o Plano Diretor, com relação às zonas especiais de interesse social e dispõe sobre normas específicas para a produção de Habitação de Interesse Social (HIS) e Habitação de Mercado Popular (HMP). 213 A proposta urbanística para este setor se dará por meio da implantação de um Complexo Cultural na área denominada Vila Leonor, atualmente de propriedade da CPTM, onde se revitalizará os conjuntos dos edifícios. Pretende-se recuperar e preservar as edificações que possuem valor histórico e cultural, incorporando novas edificações sem prejuízo as características do conjunto (Figura 134). As readequações na malha viária se darão com a abertura de vias de ligação entre a Avenida das Nações Unidas e a nova via paralela à linha férrea; implantação de passagem subterrânea para pedestres com 25m de largura, de modo a serem instalados quiosques, comércio e serviços, entre a nova praça a ser criada, entre a Rua André Rovai e a linha férrea, e a nova praça a ser localizada na confluência das Ruas Ester Rombenso e a Rua da Estação. Até o presente momento não é possível identificar as diretrizes de uso e ocupação de solo para este setor que dependem de diretrizes específicas que devem ser definidas pelo poder Executivo Municipal e definidas em Decreto específico para a implantação do Complexo Cultural. O que se prevê é a preservação do patrimônio existente, as pré-existências. O Setor 7 – Parque da Orla do Tietê: Este setor é extremamente importante para a implantação da essência do projeto urbano, que é a recuperação do rio como elemento da paisagem e da identidade cultural (Figura 135). Figura 135 Setor 7 – Parque da Orla do Tietê: composta pelas margens norte e sul do Rio Tietê. Fonte: Autoria própria. Base: Google Maps As readequações na malha viária se dão pela implantação de uma passarela de pedestres sobre o Rio Tietê, próximo ao Setor 6 - Vila Leonor; implantação de duas pontes para automóveis sobre o Rio Tietê, nas duas extremidades do perímetro desta Operação Urbana. Serão implantadas também ciclovias ao longo do parque, nas margens do Rio Tietê, inclusive na ponte sobre a Rodovia Presidente Castelo Branco, ponte sobre o 214 Rio Tietê e na nova via criada paralela à via férrea. Além de um sistema de áreas verdes no parque de modo a valorizar a frente fluvial e promover o resgate do rio á cidade, bem como a implantação de ancoradouros para barcos nas duas margens do Rio Tietê visando sua limpeza e recuperação como eixo fluvial. Neste setor poderá ser implantadas edificações sob a forma de concessão urbanística para os primeiro sete empreendimentos que utilizarem o incentivo urbanístico que define, para as glebas do Setor 2 com área igual ou maior a 4.000m² com frente para o Setor 7 que atingirem o coeficiente de aproveitamento máximo, a concessão gratuita para a construção e utilização da área mediante ao pagamento de outorga onerosa, a concessão gratuita do espaço aéreo para a ligação com a edificação inserida no parque, desde que destinadas às atividades de cultura, lazer e alimentação atendendo a diretrizes específicas como a projeção máxima de 145m²; a área construída total máxima de 300m²; o gabarito de altura máximo das edificações igual a 9m; o acesso direto a edificação construída neste setor, não podendo ser delimitada por muros ou gradis em todo seu perímetro e; a proibição de atividades de estacionamento neste setor. Algumas diretrizes de uso e ocupação do solo podem ser definidas em Tabela 7 abaixo, as restantes devem ser definidas pelo projeto do parque a ser aprovado pelo poder Executivo Municipal: Tabela 6 Taxas de aproveitamento, ocupação e uso do solo para o Setor 5 da OUCT II FONTE: AUTORIA PRÓPRIA, BASEADO EM DADOS DA LEI COMPLEMENTAR N 203, REFERENTE Á OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II. De modo geral as ações no território da OUCT II previstas são (Figura 136): a) readequação de todas as calçadas que se inserem na área da Operação Urbana, que deverão ter largura mínima de 3m, com exceção do Setor 1, 215 na área do Complexo Metropolitano, onde as calçadas deverão ter largura mínima de 5m; b) requalificação das praças, canteiros e ilhas viárias existentes; c) implantação de novas praças, canteiros e áreas verdes; d) desapropriações para a realização das obras necessárias nas diretrizes da Operação Urbana; e) implantação de programas públicos de atendimento econômico e social para a população de baixa renda que será diretamente afetada pela Operação Urbana, como modo de mitigar os efeitos da gentrificação; f) execução de obras de drenagem local; g) identificação, sinalização e padronização de todas as vias; h) tratamento paisagístico, calçamento e iluminação padronizada em todas as ruas, ilhas de avenidas e área de equipamentos públicos, com exceção da área do Complexo Metropolitano que contará com projeto especial; i) instalação de mobiliário urbano padronizado; j) instalação e estabelecimento de padrões para os calçamentos, como aclividade e largura das calçadas, garantindo a acessibilidade; k) regulamentação do espaço aéreo e controle da poluição visual com o estabelecimento de padrões. Um passo importante para a gestão e manutenção desta Operação Urbana é o constante equilíbrio entre as parcerias público-privadas, tendo o poder público, com a participação da população, como agente de incentivo e controle dos processos e investimentos na área (Figura 136 á Figura 138). 216 Figura 6036 Mapa realizado por Vigliecca & Associados referente à Operação Urbana Consorciada Tietê II, em Osasco: perímetro e setores de intervenção. FONTE: PMO Figura 137 Mapa realizado por Vigliecca & Associados referente ao programa de intervenções da Operação Urbana Consorciada Tietê Osasco. FONTE: PMO 217 Figura 138 Mapa realizado por Vigliecca & Associados referente às modificações propostas para o sistema viário na Operação Urbana Consorciada Tietê II. FONTE: PMO DIRETRIZES DE USO E OCUPAÇÃO DO SOLO A Operação Urbana Consorciada Tietê II, por se tratar de uma operação consorciada, oferece mecanismos de incentivo como a outorga onerosa por meio de contrapartida, em exceção a legislação vigente, com o objetivo de induzir o desenvolvimento urbano de uma área central, muito bem localizada entre os principais eixos viários, com a Rodovia Presidente Castelo Branco, próximo as Marginais Pinheiros e Tietê, o Rodoanel Mário Covas e a Rodovia Raposo Tavares, para a realização de empreendimentos em todo o seu perímetro, por meio de modificações de índices e características urbanísticas de uso e ocupação do solo e modificação de normas edilícias. Desta a maneira a contrapartida poderá ser financeira, paga em espécie ou em terrenos e obras, integrada ao mecanismo de estoque regulador de potencial adicional de construção, com sua Conta Específica. O Poder Executivo pode autorizar o potencial adicional de construção à área construída passível de acréscimo a área resultante do aproveitamento básico, 218 mediante o pagamento de contrapartidas que deverá ser de acordo com o Programa de Intervenções e seu valor deverá ser equivalente ao da contrapartida mediante laudo emitido por órgão técnico municipal. Este potencial poderá ser utilizado após pagamento da contrapartida referente à outorga onerosa, de modo que o potencial de construção vincula-se ao lote ou gleba que o adquiriu, podendo ser alienado ou transferido mediante escritura pública para casos de implantação de melhorias viárias previstas, implantação do Parque da Orla do Tietê, implantação do Complexo Cultural ou servir a programas de regularização fundiária para o Setor 5 - ZEIS. O valor do m² de potencial adicional de construção foi definido como R$230,00 sendo reajustável pela SEHDU, com a aprovação do Grupo de Gestão da OUCT II, no período de vigência da Operação Urbana. A Operação Urbana Consorciada Tietê II contará com todos os investimentos necessários à implantação de seu Programa de Intervenções, definidos nos setores de 1 a 7, por meio do pagamento das desapropriações das obras, inclusive o pagamento dos trabalhos técnicos de elaboração de projetos específicos de suas obras, devendo ser oriundos de recursos auferidos pela Operação Urbana, por meio de operações de contrapartida, bem como verbas orçamentárias, financiamentos e investimentos privados. Estes recursos serão geridos pelo poder Municipal, por uma equipe colegiada de natureza deliberativa denominada Grupo de Gestão da OU Tietê II, parte integrante da Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano (SEHDU), que tem como finalidade gerir e implantar o Programa de Intervenções da Operação Urbana, bem como acompanhar, avaliar sua execução e gerir o fundo das contrapartidas das intervenções. De acordo com a OUCT II76 as principais diretrizes gerais são: a) promover a ocupação ordenada da região, priorizando a valorização dos espaços públicos de vivência; b) estabelecer regras de uso de solo compatíveis com as características específicas de cada setor, ressaltando as potencialidades do território, especialmente para as áreas do Rio Tietê e a linha férrea; 76 Lei Complementar nº 203/10 que institui a Operação Urbana Consorciada Tietê II, em Osasco. 219 c) estimular a multifuncionalidade, essencial para a vitalidade da cidade, com a diversificação funcional e tipológica, aproveitando-se das infraestruturas existentes; d) aproveitar-se do sistema de transportes públicos existentes diversificados, bem como da localização privilegiada da área, de modo a reduzir a necessidade de deslocamentos; e) estimular o remebramento de lotes e a criação de área de circulação e de uso público e coletivo; f) incentivar a implantação de Habitação de Mercado Popular (HMP) 77 para famílias na faixa de renda entre seis e dezesseis salários mínimos no perímetro da Operação Urbana. O coeficiente de aproveitamento básico só poderá ser ultrapassado até o limite de aproveitamento máximo por meio de pagamento de contrapartida. Sendo que nos setores 2 e 3 a taxa de ocupação máxima poderá chegar a 75% (setenta e cinco por cento) no caso de uso de comércio, serviços, estacionamento e áreas comuns de condomínio, com gabarito de até 9m de altura. Os empreendimentos destinados a fins não residenciais devem dispor de pelo menos uma vaga de estacionamento a cada 50m² de área construída computável, alocados dentro do perímetro de seu próprio lote ou gleba. Estabelece-se a área mínima de 30m² para área de carga e descarga a cada 1.000m² de área construída em lotes não residenciais. As categorias de uso residencial permitidas na área da Operação Urbana são: a) residencial unifamiliar (R1), correspondendo a uma única família no lote; b) conjunto residencial em condomínio horizontal (R2), correspondendo a duas ou mais unidades habitacionais de no máximo três pavimentos em um lote, com área máxima de terreno de 5.000m² e quota mínima de terreno por unidade de 80m², podendo ser casas isoladas ou geminadas ou superpostas; 77 Este tipo de intervenção somente será permitido nos setores 1- Complexo Metropolitano, 3- Bonfim, 4- Vila Hervy e 5- ZEIS. 220 c) conjunto residencial em condomínio vertical (R3), correspondendo a um ou mais blocos de unidades habitacionais agrupadas verticalmente, com área máxima de terreno de 5.000m². Os empreendimentos destinados a HIS ou HMP terão de ser compostos pela categoria de uso R3 descrita acima, com exceção do setor 5- ZEIS, onde poderão ser implantadas as tipologias horizontais junto as verticais. Os conjuntos não residenciais integrantes no perímetro da Operação Urbana são descritos na Lei Complementar nº 26778, de 18 de julho de 2013. Para cada setor específico integrante da Operação Urbana há um objetivo no uso e ocupação do solo. De maneira geral, o objetivo básico da Operação Urbana é intensificar o uso e ocupação de um território central e subutilizado, privilegiando funções urbanas que se relacionam a distribuição da população, das atividades econômicas e da oferta de serviços urbanos e infraestruturas. O estoque regulador de potencial adicional de construção possui um limite estabelecido para cada setor da Operação Urbana, possui coeficiente de aproveitamento máximo definido para cada área (Tabelas 8 e 9) como pode ser observado abaixo: Tabela 7 Coeficiente de Aproveitamento máximo dos setores integrantes da OUCT II Setor de CA máximo intervenção A 6 depende de projeto B Setor 1 específico depende de projeto C específico Setor 2 6 Setor 3 5 Setor 4 2,5 Setor 5 4 depende de projeto Setor 6 específico depende de projeto Setor 7 específico FONTE: AUTORIA PRÓPRIA, BASEADO EM DADOS DA LEI COMPLEMENTAR N 203, REFERENTE Á OUCT II. Os itens de CA máximo relativos aos setores 1B e 1C, 6 e 7 dependem de projetos específicos a serem executados e aprovados na Câmara. Este estoque 78 Lei que altera a Lei nº 1.485, de 12 de outubro de 1978, estabelecendo diretrizes para o uso e ocupação de solo no município de Osasco. 221 deve se limitar a 1.300.000m² (um milhão e trezentos mil metros quadrados) na área delimitada pela Operação Urbana distribuídos da seguinte maneira: Tabela 8 Total de Estoque Regulador de Potencial Adicional de Construção por setor integrante da OUCTO II Setor 1 Setor 2 Setor 3 Setor 4 Setor 5 Setor 6 Setor 7 Estoque (m²) 300.000 300.000 400.000 50.000 250.000 Total de Estoque 1.300.000 (m²) FONTE: AUTORIA PRÓPRIA, BASEADO EM DADOS DA LEI COMPLEMENTAR N 203, REFERENTE À OUCT II. Estes estoques poderão ser reajustados ou remanejados entre os setores no decorrer da implantação desta Operação Urbana desde que aprovados pelo Grupo de Gestão. Para os setores 6- Vila Leonor e 7- Parque da Orla do Tietê o estoque regulador de potencial adicional de construção não foi definido, por se tratar, no primeiro caso de área de preservação do patrimônio destinado a um Complexo Cultural e, no segundo caso de área de preservação ambiental destinada a recuperação paisagística do Rio Tietê. O estoque dos setores de intervenção deverá observar o percentual de mescla de usos permitidos equivalente ao mínimo de 60% de uso não residencial e 40% de uso residencial nos setores 1 e 2 e mínimo de 70% de uso residencial e máximo de 30% de uso não residencial nos setores 3, 4 e 5. Para as edificações de HIS79 será admitido no máximo 30% do total da área do imóvel a implantação de HMP e outros usos não incômodos, definidos no Estudo de Impacto de Vizinhança (PMO, 2013). Os incentivos e limitações urbanísticos dos imóveis inseridos no perímetro da Operação Urbana poderão ser acumulados e terão validade até 2020 (PMO, 2013): a) aos lotes pertencentes ao Setor 2 que resultarem no remembramento de outros lotes com área inferior a 1.000m² e que ultrapassarem este limite: será concedida gratuitamente a área adicional de construção equivalente a 20% da área do lote resultante do remembramento, respeitando o coeficiente de aproveitamento máximo do setor; b) aos proprietários dos terrenos necessários a abertura das novas vias pertencentes ao projeto urbano: ao doarem as áreas necessárias 79 De acordo com a Lei Complementar nº 152, de 09 de outubro de 2006, que institui o Plano Diretor, referente às ZEIS e dispõe de normas específicas para a produção de HIS e HMP. 222 receberão bônus equivalente ao dobro do potencial construtivo básico da área doada, podendo utilizar a área original do terreno para o cálculo do CA e TO, dispensando-se com cumprimento da taxa permeável, podendo ainda transferir estes incentivos para outra área da OUCTO II; c) em lotes dos Setores 2, 3 e 5 não será exigida a taxa permeável se a mesma for incorporada à calçada em toda a extensão do alinhamento do lote em faixa mínima arborizada de 1m de largura; d) aos lotes dos Setores 2 e 3 com área maior ou igual a 2.000m² que destinarem ao menos 5% do terreno para praças públicas: será concedido bônus igual ao dobro do potencial construtivo básico da área destinada à praça, podendo utilizara a área do terreno original para o cálculo de CA e TO, dispensado de cumprir a taxa permeável, podendo transferir o incentivo para outra área da OUCTO II; e) aos empreendimentos de HIS e HMP multifamiliares são dispensados de destinar o espaço de uso comum e coberto para uso comunitário; f) em HIS é permitida a utilização do CA máximo sem o pagamento de contrapartida, já em HMP de famílias com renda maior de 6 á 10 salários mínimos haverá desconto de 40% no pagamento de contrapartida, já para famílias com renda superior a 10 salários mínimos haverá desconto de 20%; g) no Setor 2 as categorias de uso não residencial comercial e de serviços: desconto de 25% no pagamento da contrapartida até 2015; h) em imóveis no Conjunto Nova Grécia onde as edificações existentes forem completamente demolidas: poderão atingir o CA de 2,5 sem pagamento de contrapartida. É cabível ao Executivo exigir do proprietário do solo urbano não edificado ou subutilizado o adequado aproveitamento sob pena de parcelamento, edificação ou utilização compulsória, IPTU Progressivo no Tempo e desapropriação com 223 pagamento por meio da dívida pública80. Com relação ao imóveis sujeitos a incidência de Direito de Preempção (Figura 139) a Prefeitura Municipal de Osasco pode exercer este direito para a aquisição de imóveis urbanos que sejam objetos de alienação onerosa entre particulares, necessários para a execução das obras de implantação do Complexo Metropolitano; criação de espaços públicos de lazer e áreas verdes; execução de programas de requalificação urbanísticas, especialmente para os Setores 2 e 4; requalificação de áreas de interesse histórico, especialmente a Vila Leonor; regularização fundiária, obras infraestruturais e execução de HIS. Até 2015, podendo ter prazo renovado, estes imóveis deverão ser oferecidos primeiramente ao Poder Público Municipal, que terá preferência em sua aquisição. Estas mesmas áreas estão sujeitas a desapropriações em função de obras previstas no Programa de Intervenções da Operação Urbana. Após a desapropriação a Prefeitura Municipal deve realizar a alienação das áreas que receberão as obras. Entretanto, segundo o Plano Diretor Municipal, a desocupação dos imóveis deve garantir o direito à permanência dos moradores na região, mitigando o processo de gentrificação. Para incentivar os investimentos privados no perímetro da Operação Urbana buscando a requalificação urbana e o desenvolvimento econômico da região é oferecido aos mesmos incentivos fiscais 81, como a isenção de 50% do IPTU, 50% do ITBI, 50% do ISSQN. 80 Conforme previsto nos termos do artigo 182 da Constituição Federal e dos artigos 5º e 6º da Lei Federal nº 10.257, de 10 de julho de 2001, denominada Estatuto da Cidade. 81 Incentivos fazem parte do Programa de Incentivo à Revitalização de Áreas Urbanas Degradadas (PRO-URBE), instituído pelo Decreto Estadual nº 152.161, de 14 de setembro de 2007. 224 Figura 139 Mapa realizado por Vigliecca & Associados referente ao estudo de direito á preempção na Operação Urbana Consorciada Tietê II. FONTE: PMO ESTRATÉGIAS DA OPERAÇÃO URBANA As negociações, projetos e obras necessárias para as intervenções urbanas previstas na Operação Urbana estão em andamento com parcerias público-privadas. A implantação do Programa de Intervenções segue as prioridades definidas pelo Grupo de Gestão da OUCT II, de acordo com os sete setores definidos em projeto. Este grupo, citado acima, se encontra em funcionamento desde a aprovação da minuta de lei, porém ainda não há um fundo de estoques ou de recursos a serem geridos de modo que houve apenas algumas reuniões, sendo que, uma delas, acabou por alterar a lei da OUCT II. Este grupo é encarregado de fazer a avaliação e monitoramento da Operação Urbana82. Não há participação popular na fase atual da Operação Urbana, de modo que os projetos executivos são analisados pelos técnicos da prefeitura e da iniciativa privada. Não há mais nenhuma ligação com o arquiteto Hector Vigliecca, seu projeto urbano já esta finalizado, são discutidos projetos apenas com os respectivos proprietários e investidores de terrenos situados no perímetro de intervenção. Cabe 82 Informações fornecidas pela Diretora do departamento de Planejamento Urbano e Uso do Solo (DUS), Simone Beralda Tavares, em 25 de setembro de 2013. 225 aqui analisar a relação do arquiteto na fase de implantação das propostas. O que foi solicitado ao mesmo pela prefeitura já foi atendido, que era a Minuta de Lei da operação Urbana, daí para frente cabe ao poder público e a iniciativa privada desenvolverem os projetos levando em consideração as diretrizes e parâmetros definidos. Estão sendo negociadas várias concessões urbanísticas com investidores privados na área pertencente à OUCT II no momento·: a) o projeto arquitetônico do Complexo Metropolitano já se encontra aprovado pela SEHDU, mas seu projeto executivo, apesar de pronto, esta aguardando liberação de matrículas no cartório (ver item 1, Figura 140); b) a Uniarq é a responsável pelo projeto do Complexo Metropolitano, já a execução fica por conta da detentora do terreno, a GBX, sendo a empreendedora do projeto âncora que depende apenas de questões de regularização fundiária, já em andamento; c) esta em andamento a demolição dos Conjuntos Nova Grécia, considerado símbolo do atraso urbanístico pelo Poder Municipal (ver item 2, Figura 140); d) foram negociadas ações de contrapartida com a CPTM no Setor 1Complexo Metropolitano, onde os projetos e obras já foram executados: revitalização da Estação Osasco como edifício ponte, interligando a região central do Município com o Setor 1, bem como melhorias viárias e reforma realizada no Largo de Osasco, conformando um Complexo Intermodal de Transporte Público (ver item 3, Figura 140); e) esta prevista a construção de passarelas, pela CPTM, interligando a Estação Osasco com a Praça Cívica do Complexo Metropolitano a ser construído (ver item 4, Figura 140); f) está sendo negociadas ações de contrapartida com a CPTM proprietária do Setor 6- Vila Leonor, que cederá a área de modo que possa ser recuperado seu patrimônio histórico e cultural (ver item 5, Figura 140); 226 g) negociação em andamento, juntamente ao Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), onde está sendo notificados os imóveis que ocupam a faixa lindeira na margem sul do Rio Tietê (ver item 6, Figura 140); h) negociação em andamento, juntamente á Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (SABESP), dos imóveis lindeiros ao Rio Tietê na margem sul (ver item 7, Figura 140); i) esta sendo negociada a permuta da área ocupada atualmente pelo Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), nas bordas do perímetro da Operação Urbana, que irá desocupar o local e receber outra área para a implantação no local de HIS direcionada a população que ocupa áreas irregulares no Setor 2- Castelo Branco (ver item 8, Figura 140); j) negociação no terreno pertencente à Eletropaulo (ver item 9, Figura 140). Muitas ações estão sendo geridas e negociadas com investidores, porém há o impasse da falta de recursos públicos para a execução de um projeto urbano de dimensão extensa e complexa, bem como a aparente falta de interesse do mercado imobiliário que esta investindo em outras áreas ao redor da OUCT II. Outros Planos Urbanos estão sendo propostos e geridos pelo Poder Público Municipal e se relacionam diretamente com esta Operação Urbana, como o Programa Renova Centro, que entre suas ações irá revitalizar a área do Calçadão da Rua Antônia Agú, bem como a Operação Urbana Consorciada Tietê Osasco I, localizada á oeste da OUCT II, entre outros programas de intervenções. Algumas das medidas já realizadas por estes planos são a duplicação da Rua da Estação, que faz divisa com o limite sul do perímetro da Operação Urbana, obra importante para a integração da malha viária com a área da Operação Urbana, bem como a revitalização do Largo de Osasco, promovida pela CPTM, como objeto de contrapartida, ainda pode-se observar a criação da Super Avenida, que conecta a Rua da Estação com a área da Vila Yara, desafogando parte do tráfego da Avenida dos Autonomistas (ver item 10, Figura 140). O Direito de Preempção está sendo estipulado para a área do Piratininga, Setores 2 e 7, de modo que estão havendo negociações com os proprietários e com 227 os detentores da posse do lote, que estão dando entrada em pedidos de Usucapião para terem direito de vender seus imóveis no futuro, para a desapropriação e venda dos loteamentos ao Poder público e a investidores privados (ver item 11, Figura 140). Os imóveis ainda não passaram por este processo, pois o Poder Público Municipal aguarda deter toda a área e ter investidores para o local antes de remover a população do local. Na sequência segue mapa definindo as estratégias e ações, tomadas pela Operação Urbana até o momento: Áreas com intervenções implantadas Áreas em negociação de desapropriação Áreas em andamento das obras e/ou projetos Áreas em negociação com investidores privados Figura 6140 Mapa que aponta as principais intervenções em negociação ou andamento na área da OUCT II. FONTE: AUTORIA PRÓPRIA. BASE: LEI COMPLEMENTAR Nº 203, DE 22 DE DEZEMBRO DE 2010, QUE INSTITUI A OUCT II. As condições de ocupação e adensamento para os setores da Operação Urbana têm sido limitadas pela insuficiência de recursos públicos e pela escassez de investimentos privados, limitados pela insuficiência do sistema viário da região, já saturado. As intervenções a serem propostas nos diferentes setores, seguindo as diretrizes da Operação Urbana, devem levar em conta o potencial gerador de Impacto na Vizinhança de acordo com o tipo de atividade e do porte a ser 228 implantado, de modo a não causar impacto no sistema viário, no meio ambiente ou sobrecarga na infraestrutura existente. As implantações passiveis de potencial gerador de impacto na vizinhança deverão passar por um processo de análise do empreendimento, realizado por técnicos do Poder Público Municipal, para que possam ser determinadas as contrapartidas necessárias para a mitigação destes impactos. Pode-se afirmar que a área da Operação Urbana, constituída por setores que possuem diferentes territórios, potenciais e necessidades, deve receber investimentos com usos para lazer, comércio, serviços e moradia, garantindo o seu uso efetivo e a melhor otimização da ocupação do território, modernizando a região central do Município e atraindo novos investidores, se aproveitando dos equipamentos urbanos e infraestrutura, principalmente em transportes coletivos, já existente na região e seu entorno. INTERVENÇÃO URBANA A Operação Urbana Consorciada Tietê Osasco II foi instituída pela Lei Complementar nº203 de 22 de dezembro de 2010 e conta com uma área de 66 hectares e busca focar a transferência do Paço Municipal e da Câmara Municipal para a área da Operação Urbana, em um Complexo Metropolitano, formado pela Praça Cívica, bem como a valorização da orla do rio Tietê com a implantação de um parque linear nas suas margens e a recuperação do potencial fluvial do mesmo. O seu objetivo é conectar as regiões norte e sul do município, mitigando as diferenças sociais e infraestruturais entre as duas margens, propondo três novas ligações por meio de pontes e passarelas, sendo uma para veículos (retrátil) de maneira que possibilite a passagem de barcos e outras duas de pedestres, beneficiando os moradores locais e os usuários da rede de transportes públicos. Adensa a área de acordo com os novos parâmetros de uso e ocupação de solo visando o controle industrial e a ampliação da oferta de empregos no comércio e serviços, bem como a produção de habitações de interesse social, com intervenções na região circundante, expandindo suas ações para além da área delimitada. 229 Busca ampliar a oferta de empregos na área de comércio e serviços, pretende assentar a população que vive em condições indignas de habitação em HIS no mesmo local. Deve viabilizar a melhoria do sistema de drenagem da região e seu entorno, bem como promover intervenções no sistema viário. A implantação do Parque Linear nas duas margens do Rio Tietê se configura como uma área de proteção da várzea e um local de lazer e de equipamentos para a população, recuperando espécies da Mata Atlântica e a identidade do Rio Tietê. A Operação Urbana segue as diretrizes do Plano Diretor de Osasco 83 e os estudos do PITU 202584, que insere o município na área metropolitana de maior densidade. Ela busca promover aberturas no interior das quadras para os pedestres e incentivar o uso habitacional e atividades de cultura e lazer, bem como modificar os índices urbanísticos, o uso e ocupação do solo. O partido geral da proposta utiliza o Rio Tietê como elemento integrador, para criar um polo regional, ressaltando as potencialidades do rio e da ferrovia, que deixam de serem divisores do território e passam a serem integradores de espaços, numa cidade multifuncional. Incentiva a implantação de usos de comércio e serviços ao longo da Rodovia Castelo Branco. Pretendem transpor o rio e promover a ligação entre as duas regiões da cidade, criando um espaço contínuo. Requalifica o vale central do município que sofre com o esvaziamento em função de processos de mudanças de uso, com áreas subutilizadas. O desenho urbano proposto revela a estratégia projetual como a inserção de novos conjuntos em formas de lâminas edificadas buscando adensar ao máximo e libera o solo para o uso público com a multifuncionalidade defendida por Gruen (1973) com modelos de cidades ideais ainda atuais em nosso contexto, articulados a partir do edifício ponte da Estação Osasco, conformando um novo núcleo institucional onde será inserido o Paço Municipal. O projeto Urbano foca em um Complexo Metropolitano que será feito por meio de diversas iniciativas. As mais destacadas são: a) implantação do novo Paço Municipal, da Praça Cívica; b) readequação do galpão das Indústrias Hervy para atividades de lazer, cultura e esportes; c) implantação de um Parque Linear em uma 83 84 Lei Complementar nº 125, de 03 de agosto de 2004, que institui o Plano Diretor Municipal. Plano de Integrado de Transportes Urbanos, de dezembro de 2006. 230 faixa de 50m; d) edificação de edifício ponte sobre a ferrovia com uso de comércios e serviços; e) implantação de estacionamento sob a Praça Cívica; f) realocação do Terminal Rodoviário, integração dos setores norte e sul da cidade por meio da Estação de Osasco. Prevê ainda a Valorização da frente fluvial do Rio Tietê, por meio da implantação do Parque Orla do Tietê, com estacionamento subterrâneo (TO máx 30%), gestão conjunta com o DAEE para a recuperação do rio e a recuperação da orla ferroviária, juntamente com a CPTM, com a modernização dos trilhos, trens e estações, bem como a implantação de áreas arborizadas para contribuir com a drenagem local e tratamento paisagístico: “a ausência de onde ir dentro da cidade para se divertir e conviver, aliada à dificuldade de ligação entre um lado e outro da malha urbana, empurrava o morador de Osasco a ir para São Paulo. Com isso, o morador de Osasco não desenvolvia o importante sentido de pertencer à cidade” 85 O plano elaborado pela Operação Urbana define uma nova região, centralidade, ultrapassando a barreira da linha férrea e do Rio Tietê, onde será localizada a nova sede da Prefeitura Municipal. Prevendo para o futuro uma área servida de infraestrutura, próxima da estação da CPTM, mais valorizada86. O projeto urbano que se utiliza de estratégias tridimensionais, como o plano de massas, foi enviado à Câmara para aprovação, juntamente com as diretrizes o partido e os parâmetros e índices propostos. Entretanto, a Minuta de Lei aprovada inclui apenas desenhos bidimensionais baseados no zoneamento e em modificações na malha viária. PARTICIPAÇÃO PÚBLICA E PRIVADA (PPP) Esta Operação Urbana coordenada pela Prefeitura Municipal de Osasco, por meio da SEHDU, busca incentivar a participação privada, captando recursos de investidores e promovendo parcerias por meio de operações de contrapartida. A principal medida é a coordenação e participação dos diversos atores, proprietários, moradores, usuários, a população afetada diretamente pela Operação Urbana e os 85 De acordo com a Minuta de Lei da Operação Urbana Consorciada Tietê II enviada a Câmara para aprovação. De acordo com o prefeito da antiga gestão, Emídio de Souza, em evento realizado em 21 de maio de 2012, na associação Comercial Empresarial de Osasco. 86 231 investidores, em prol do objetivo de realizar as transformações urbanísticas descriminadas nas diretrizes da mesma. As ações previstas e/ou realizadas pela Operação Urbana contam com ações de parceria de gestão com diversos investidores: a) projeto e obras concluídas de gestão conjunta com a CPTM para realização de projeto de acesso á Estação Osasco ao bairro do Bonfim, fazendo a conexão entre o Paço Municipal e a área central do calçadão da Rua Antonio Agú; b) gestão conjunta com a CPTM para a implantação de passagem subterrânea para pedestres conectando a Estação Osasco ao estacionamento do Novo Paço; c) gestão conjunta com DAEE promovendo a limpeza e recuperação do Rio Tietê; d) gestão conjunta com a CPTM para a implantação do Complexo Cultural da Vila Leonor, atualmente de propriedade da CPTM; e) projeto gerido em conjunto com a GBX87, investidor privado, para a construção do edifício do Novo Paço Municipal. A participação dos investidores privados e empreendedores de economia mista se realizam na medida em que haja vantagens econômicas para os empreendimentos. Desta forma o Grupo de Gestão busca captar recursos destes investidores na forma de outorga onerosa, divulgando a Operação Urbana á grandes investidores. A Administração Municipal vêm concentrando esforços para captar os recursos necessários à implantação da Operação Urbana, com objetivo de redimensionar a ocupação urbana promovendo a requalificação da área. Exemplo destas ações tem a transferência do Paço Municipal para a área do Setor 1 Complexo Metropolitano, demonstrando a credibilidade do poder público no projeto. 87 Empresa GBX, proprietária de parte da gleba do Setor 1 e responsável pela construção do Paço Municipal como forma de contrapartida. Informação fornecida pela Diretora do departamento de Planejamento Urbano e Uso do Solo (DUS), Simone Beralda Tavares, em 25 de setembro de 2013. 232 GESTÃO DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II A Operação Urbana é gerida pelo Grupo de Gestão da Operação Urbana Consorciada Tietê II que é responsável por avaliar a execução e acompanhar as intervenções, bem como estabelecer outras intervenções que não tenham sido contempladas pele Lei Complementar nº 203/2010, que instituiu esta Operação Urbana. Este grupo colegiado é composto por três representantes da SEHDU, responsáveis pela coordenação; um representante da Secretaria do Meio Ambiente (SEMA); um representante da Secretaria de Obras e Transportes (SOT); um representante da Secretaria de Serviços Municipais (SESM) e; três representantes da sociedade civil que são integrantes do Conselho Municipal de Política Urbana e Habitacional, garantindo desta forma a participação popular. A coordenadora do grupo, a SEHDU, é responsável pela implantação do Programa de Intervenções e o programa de obras necessárias para a realização da Operação Urbana, gerir a conta específica da Operação Urbana, regulamentar os mecanismos de estoque reguladores de potencial adicional de construção, até o limite que foi estabelecido para cada setor de acordo com a Tabela 9, coordenar o Grupo de Gestão, dar suporte administrativo e providenciar os meios necessários para execução do trabalho do grupo. Deve acompanhar e avaliar a implantação da Operação Urbana, recomendando as providências necessárias para a execução dos objetivos; acompanhar os planos e projetos urbanísticos do Plano de Intervenções, definindo inclusive a ordem de prioridades; controlar a Operação Urbana; acompanhar, monitorar e reajustar o estoque de potencial adicional de construção e o percentual de mescla de usos do solo; criar indicadores que estabeleçam critérios de monitoramento da Operação Urbana; minimizar as dúvidas e omissões da Lei que instituiu a Operação Urbana; disponibilizar publicamente todas as informações de modo atualizado para garantir o monitoramento e fiscalização da Operação Urbana; propor a revisão da Lei da OUCT II sempre que necessário estabelecer outras obras de intervenção ou redefinir as prioridades. O grupo recebe recursos orçamentários do orçamento da SEHDU e pode requisitar acessória técnica de outros órgãos e 233 secretarias municipais, de modo que sua função é relevante, porém não remunerada. Os recursos a serem obtidos com a outorga onerosa de potencial adicional de construção e destinados á Conta Específica da OUCT II serão aplicados na implantação do Programa de Intervenções estabelecidos pela Operação Urbana, podendo ser utilizados para a execução de Estudo Prévio de Impacto de Vizinhança ou até mesmo no pagamento de desapropriações necessárias a implantação do Programa de Intervenções, bem como para divulgação da Operação Urbana. Enquanto ainda não são efetivamente utilizados, estes recursos devem ser aplicados em operações financeiras, buscando manter seu valor real. É importante destacar o papel da entidade autônoma que ultrapassa os limites do tempo do governo como pode ser observado com os exemplos anteriores: “Parque Expo” em Lisboa e a “Corporacion Antiguo Puerto Madero” em Buenos Aires. GÊNESE DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II A Operação Urbana Consorciada Tietê II tem sua gênese com a Carta Convite realizada onde ganhou o escritório de arquitetura e urbanismo Vigliecca & Associados, no comando do arquiteto uruguaio Hector Vigliecca. A minuta do projeto de lei foi enviada pela Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano (SEHDU) para análise e votação na Câmara Municipal, sendo aprovada em 22 de dezembro de 2010. Na análise do projeto em questão e minuta de lei para votação na Câmara houve primeiramente um esclarecimento por parte do autor e do SEHDU, seguido por votações sobre os artigos, algumas propostas de mudanças e aprovação da mesma. A Câmara anteriormente sugeriu88, devido à intrínseca relação que possui com o projeto, em especial o Setor 1- Complexo Multifuncional, onde será abrigado 88 Informações obtidas em entrevista com o atual presidente da Câmara, que na época da votação era membro da mesma, Antonio Aparecido Toniolo, na Presidência da Câmara Municipal em 25 de setembro de 2013. 234 o novo paço municipal, a participação de representantes da mesma no Grupo de Gestão da OUCT II, entretanto a sugestão não foi acatada. O projeto básico para este projeto já foi realizado e o projeto executivo esta sendo finalizado para apresentação à Câmara. A mesma absorve o projeto com muito entusiasmo e o entende como essencial para o desenvolvimento da região, em sua complexidade e potencial de requalificação urbana. A área do Setor 1 conta com o sistema de compensação, pois a gleba das indústrias Hervy é alvo de desapropriação, porém pelo fato de dever impostos à prefeitura, o que ocorreu foi um acerto. Por se tratar de uma cooperação públicoprivada, a construtora GBX que irá realizar o empreendimento do Paço Municipal o fará por ação compensatória. Todas as ações de requalificação que estão ocorrendo ou já ocorreram na área central do município, como a remodelação do Largo de Osasco e da Estação Osasco, o calçadão da Rua Antonio Agú, a reforma das calçadas, entre várias outras medidas adotadas, se relacionam com as diretrizes da Operação Urbana Consorciada Tietê II. Na época houve algumas audiências públicas, antes da votação, onde interpelaram os autores do projeto e o SEHDU sobre o projeto, para elucidá-lo e discuti-lo, de modo que, havia público representando a sociedade, havendo de fato participação popular na discussão e votação do mesmo na Câmara. Não se pode afirmar, entretanto que as considerações da sociedade civil tenham sido levadas em conta, conforme o processo de nº 24001/2009 que diz respeito à Minuta de Lei que iria subsidiar a OUCT II. ANÁLISE DO PROJETO URBANO DA OPERAÇÃO CONSORCIADA TIETÊ II A Operação Urbana Consorciada Tietê II será analisada, primeiramente, por setores e, em seguida, pelo conjunto de seu projeto urbano. A análise se dará por meio de mapas, fotos aéreas, fotos atuais extraídas do local e imagens do projeto, produzidas pelo escritório Vigliecca Associados e apresentadas no projeto urbano. A metodologia utilizada será apresentar a situação atual, a situação pretendida e 235 identificar o caminho a ser percorrido para alcançar os objetivos definidos pela Operação Urbana. Setor 1- Complexo Metropolitano: LOCALIZAÇÃO SITUAÇÃO ATUAL SITUAÇÃO PRETENDIDA Figura 621 Esquema de situação atual e Projeto Urbano esperado para o geral do Setor 1. FONTE 1: AUTORIA PRÓPRIA. BASE: GOOGLE MAPS. FONTE 2: FOTOS DE AUTORIA PRÓPRIA. FONTE 3: IMAGENS PROJETO URBANO, RETIRADO DO SITE WWW.VIGLIECCA.COM.BR (ACESSADO EM 08/10/2013 ÁS 20H50). O esquema anterior (Figura 141) revela a situação atual geral do setor, onde se observa as revitalizações realizadas na Estação Osasco, no Largo de Osasco e na malha viária, projeto e execução da CPTM como forma de contrapartida de terreno público, antiga via lateral à linha férrea, cedida para execução de uma nova plataforma. A maquete e o croqui do projeto urbano revela a intenção do arquiteto de conectar o território e priorizar o pedestre, a ideia de quadra híbrida, bem como a volumetria pensada para a área. Observa-se a revitalização do galpão da Indústria Hervy reconvertido para espaço de lazer e esportes, o edifício ponte da Estação Osasco interligando as duas 236 margens da linha férrea da CPTM, onde haverá passarelas e rampas conectando o edifício com a Praça Cívica, integrante do projeto do Complexo Metropolitano. O estacionamento no subsolo da Praça Cívica, interligado por passagem subterrânea com a Estação Osasco. Para se obter os resultados esperados pelas diretrizes urbanas propostas faltam, primeiramente, a aprovação e execução do novo Paço Municipal, a execução prevista das passarelas de acesso da Estação Osasco com a Praça Cívica, bem como a passagem subterrânea mencionada acima. Ainda neste setor, falta a execução dos projetos residenciais que farão frente com a Vila Hervy e os projetos comerciais na divisa com a Rua Erasmo Braga. A seguir (Figura 142) imagem de maquete apresentada em solenidade de lançamento do novo Paço Municipal, revela a volumetria proposta que abrigará os programas da Prefeitura Municipal, da Câmara Municipal, do Estacionamento, do Arquivo Municipal, do Portal do Trabalhador e de todos os serviços destinados à população. Possui o formato triangular com projeto de 25.000m² de área construída e 16.000m² de área de terreno, sendo 21.000m² destinados á Prefeitura e 4.000m² á Câmara. Atenta-se aqui para revelar o projeto realizado que deixa de lado as proposta para o Setor 1- Complexo Metropolitano, de maneira que o espaço público foi suprimido e a passagem pelo edifício ponte da Estação Osasco acaba por chegar à margem norte em forma de uma humilde passarela. 237 b a c Figura 142 a) maquete eletrônica do projeto do escritório Uniarq para o novo Paço Municipal diferente do projeto de Hector para a área; b) projeto urbano de Vigliecca para a área; c) Estação Osasco já remodelada, suprimindo a grande praça pública proposta. FONTE: A) 1.REALIZAÇÕES E PERSPECTIVAS 2. SEHDU 2009-2012; B).BASE: MINUTA DA LEI DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II; C).ACERVO PESSOAL (2013). Para se chegar a esses resultados deve-se, primeiramente, resolver as pendências legais de regularização fundiária, em seguida promover a apresentação do projeto á Câmara e realizar sua aprovação para, em seguida, executá-lo. Existem hoje vários sistemas de avaliação de qualidade ambiental produzidos pelo mercado, que basicamente atribuem parâmetros comuns e níveis diferentes de pontuação relativos a diversos temas e produzem uma espécie de check list, onde se pode pontuar e avaliar segundo determinadas características contidas no projeto, sua execução e seu uso, acompanhando todo o processo e culminando em um parecer. Enfoca-se o certificado mais comum no Brasil, especificamente voltado para o urbanismo, o LEED-ND Neighborhood (2011), utilizado para analisar os conceitos de sustentabilidade aplicados ao entorno do empreendimento. Verifica-se uma tentativa de analisar o ambiente como um todo, integrando o ambiente construindo, valorizando a criação de áreas verdes, a mistura de usos e funções no tecido urbano, o uso do transporte coletivo e espaços públicos de qualidade. Barbosa (2013) elabora um esquema com base em critérios de avaliação estudados que podem ser aplicados no projeto urbano contemplando equipamentos, 238 estrutura viária, transportes coletivos urbanos, ocupação do espaço urbano, meios hídricos, infraestrutura e habitação. Analisa que se deve considerar em cada projeto urbano as suas particularidades regionais e locais e, juntamente com Costa Lobo, definem que o projeto urbano deve ser adequado ao território e suas características morfológicas, mantendo uma gestão que potencialize os recursos naturais. O LEED-ND para Desenvolvimento de Bairros 89 analisa cinco grandes características: 1. localização inteligente e conexões; 2. desenho do bairro; 3.infraestrutura verde e edificações; 4.inovação e processo de projeto; 5.créditos regionais; onde apenas os três primeiros itens possuem subitens obrigatórios a serem pontuados para a obtenção da certificação. Para efeito desta dissertação será analisado aqui os pontos obrigatórios e os créditos do LEED 90 que podem ser aplicados em uma analise posterior do projeto urbano da Operação Urbana Consorciada Tietê II, em Osasco: 1. Localização inteligente e conexões - a) localização inteligente; b) conservação de várzea e corpos d´água; c) afastamento da cota de inundação: analisando o local quanto à proximidade de comunidades e suas conexões com a nova área, a proximidade com o transporte público, a possibilidade do uso de ciclovias, o abastecimento de água e infraestruturas, a preservação e manutenção das áreas de várzea e dos cursos d´água, a reurbanização de áreas contaminadas, a redução da necessidade do transporte particular, a multifuncionalidade do solo, a proteção de áreas de risco, a gestão preservação dos cursos d´água e identifica as características do desenho urbano buscando a qualidade ambiental. 2. Desenho do bairro - a) vias para pedestres; b) desenvolvimento compacto; c) diversidade de usos em centro de bairros: analisando o tecido urbano quanto ao transporte público eficiente multimodal, a criação de percursos de pedestres e a redução das distâncias promovidas pela multifuncionalidade, o desenvolvimento urbano compacto para preservar o solo e reduzir o tempo dos deslocamentos, desenvolver as comunidades existentes e propor soluções pertinentes às mesmas, redução das áreas de estacionamentos, redes viárias e sistemas de transportes, 89 Certificação desenvolvida pelo LEED – United States Green Building Consul. A Planilha de Pontuação do Projeto do LEED 2009 para Desenvolvimento de Bairros se encontra em anexo a esta dissertação. 90 239 acesso a espaços públicos e áreas de lazer, acessibilidade, arborização e escolas próximas. 3. Infraestrutura verde e edificações - a) edifícios certificados; b) eficiência energética mínima nas edificações; c) prevenção da poluição na atividade da construção: a análise busca encorajar o uso de técnicas de edifícios verdes, paisagismo com uso mínimo de água, utilização de edifícios existentes e preservar o patrimônio histórico, gestão das águas pluviais, redução das ilhas de calor, sistemas urbanos de aquecimento e resfriamento (o restante dos itens é relativo á certificação de edifícios, não se aplicando nesta abordagem ao projeto urbano). No município de Osasco as dificuldades de recuperação são muito maiores, pois a poluição do curso de água do Rio Tietê, que cruza o município no sentido leste oeste, advém não apenas da falta de saneamento do município, mas das cidades vizinhas, aliados á falta de espaço territorial para promover uma verdadeira recuperação de sua margem, põem á prova o Setor 7 – Parque Linear proposto pelo projeto de Vigliecca, que prevê a remoção de edificações subutilizadas e depredadas de parte da margem norte para a implantação de um parque linear. Entretanto este parque não define áreas para as cheias do rio ou propõe modificações em seu curso, apenas integra parcialmente o rio a paisagem, levando o pedestre até a sua margem, promovendo uma aproximação como ocorre no Parque Linear do Rio Manzanares, em Madri, que formula espaços de pedestres, mas mantém sua relação com o curso d´água de maneira artificial. Pode-se tecer uma análise do projeto urbano proposto que se difere um pouco da proposta aprovada pelo poder público juntamente com a minuta de lei da Operação Urbana, utilizando-se dos parâmetros do LEED-ND. Podemos analisar o projeto tomando como base os três principais itens relativos a questões urbanas obrigatórias para a obtenção do LEED-ND: 1. Localização Inteligente; 2. Desenho do Bairro; 3. Infraestrutura verde (e edificações): 1. Localização Inteligente: A escolha do local pode ser observada de acordo com os mapas a seguir (Figura 143 e Figura 144), que mostram o entorno do bairro a ser revitalizado, de modo a aproveitar-se da infraestrutura existente: a rede de abastecimento de água, 240 esgoto e energia elétrica, a malha viária existente, bem como a Estação Osasco que, juntamente com o Largo de Osasco, configura um terminal intermodal, composto por ônibus municipal, intermunicipal, duas linhas da CPTM, a linha 8 Diamante que vai da Estação Amador Bueno em Itapevi até a Estação Júlio Prestes na região central de São Paulo e a linha 9 Esmeralda que vai da Estação Osasco até a Estação Grajaú. Estes quesitos, aliados a criação de ciclovias reduzem a necessidade do transporte particular que, antes mesmo da implantação das propostas, já possui uma rede saturada. Com relação à conservação da várzea pode-se observar uma tentativa generosa de resgate e preservação da mesma e seu curso d´água, visando resgatar um grande trecho da margem norte do Rio Tietê e criar um parque linear composto por vegetação de várzea e vegetação nativa eliminando a via rápida existente, deslocando-a para a via intermediária existente e desapropriando os terrenos existentes na frente aquática, em sua maioria subutilizada. Já na Margem sul se propõe uma prolongação do parque, mas de maneira mais modesta, mantendo a via rápida existente, principal ligação municipal com as marginais do rio Tietê e Pinheiros. A recuperação do curso d´água é proposta por meio da Operação Urbana que prevê ações, juntamente com o Governo do Estado e com o DAEE, para resgatar o seu caráter morfológico e torná-lo navegável novamente. Com base nestas propostas, foi feito no projeto urbano proposto um cais na margem norte, inserido no parque e uma ponte retrátil para permitir a passagem de embarcações. A cota de inundação não foi alterada, pois apesar da proposta considerar um extenso parque linear nas duas margens do rio, não se alterou a sua calha já retificada. Algumas propostas foram deixadas em segundo plano pelo poder público no desenho urbano, o que pode ser identificado nas plantas resultantes. O local da ponte central se manteve, mas a mesma não possui mais a função retrátil, apenas serve de passagem para veículos e ciclistas e o cais mudou de posição nas propostas, apesar de no corpo da minuta da lei se manter a questão da integração da cidade com o rio e de recuperá-lo, bem como a implantação de dois cais, um de cada lado das margens, mais em outro ponto de localização. Assume-se também a pareceria com o DAEE para a recuperação do curso dá água. 241 Foram propostas conexões viárias novas interligando a margem norte ao bairro do Rochdalle, transpondo a principal barreira que segrega o município: a Rodovia Castelo Branco. Bem como novas ligações de pedestres conectando as duas margens do Rio Tietê em pontos estratégicos e a eliminação das passarelas existentes, inóspitas e pouco utilizadas, entretanto mantidas pela proposta aprovada pelo poder público. A criação de ciclovia é possível devido ao parque linear criado que conectam as duas margens do rio, proposta mantida pelo pode público. A modificação do uso do solo nas duas margens, especialmente nas quadras obsoletas ou subutilizadas por indústrias e pelo setor de logística, contribui para a reurbanização das áreas contaminadas que possuem um grande potencial de renovação devido a sua localização privilegiada. Figura 143 Localização das macroestruturas existentes no entorno da área da Operação Urbana. FONTE: ANÁLISE COM BASE EM LEVANTAMENTO REALIZADO NAS PROPOSTAS DE VIGLIECCA E NA LEI APROVADA PARA A OUCT II, ORGANIZADO E REPRESENTADO PELA AUTORA. BASE MAPA: GOOGLE MAPS. Ainda sobre o item 1. Localização inteligente, com relação à multifuncionalidade do solo, destacado no LEED-ND para a otimização da infraestrutura existente pode-se observar, apesar da tentativa observada de produzir a multifuncionalidade do solo e, das críticas do autor do projeto urbano com relação ao urbanismo moderno, organizado por zoneamento e funções, a proposta acaba seguindo as divisões por funções, modificando a função, mas separando a área em sete setores distintos. 242 Figura 144 Análise do projeto urbano da OUCT II em duas etapas: o que foi aprovado pela Câmara e a proposta do escritório de Vigliecca. FONTE: ANÁLISE COM BASE EM LEVANTAMENTO REALIZADO NAS PROPOSTAS DE VIGLIECCA E NA LEI APROVADA PARA A OUCT II, ORGANIZADO E REPRESENTADO PELA AUTORA. BASE MAPA SUPERIOR: MINUTA DA LEI DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II. BASE MAPA INFERIOR: GOOGLE MAPS. Os sete setores propostos descritos revelam que, apesar da área da Operação Urbana ter várias funções e evidenciar a multifuncionalidade do solo, pelo fato do território ter sido dividido em sete setores com funções e usos do solo distintos conforme Tabelas 2 á 7 abordadas anteriormente, acabou-se por criar seis centros unifuncionais91 em uma área de grande potencial. Apesar de o plano ter sido baseado na realidade local, esta realidade se baseia em uma distribuição do solo 91 Termo definido por Victor Gruen (1973) acerca dos centros urbanos e a necessidade da multifuncionalidade do solo. 243 pelo zoneamento, segregação de funções, de forma que o projeto resultante separa a área da Operação Urbana em setores, tendo o Setor 7 – Parque da Orla do Tietê um dos agentes responsáveis pela integração dos outros setores, se utilizando do Rio Tietê como elemento integrador. Entretanto a forma pela qual as funções estão dispostas gerando centros unifuncionais não garante o uso efetivo dos espaços propostos, pois asseguram seu uso em horários restritos (Figura 145 á Figura 147). Figura 6346 Proposta da OUCT II que separa a área por setores unifuncionais. FONTE: ANÁLISE COM BASE EM LEVANTAMENTO REALIZADO NAS PROPOSTAS DE VIGLIECCA E NA LEI APROVADA PARA A OUCT II, ORGANIZADO E REPRESENTADO PELA AUTORA. BASE MAPA: MINUTA DA LEI DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II. 244 Figura 147 Análise da multifuncionalidade do solo na área da OUCT II. FONTE: ANÁLISE COM BASE EM LEVANTAMENTO REALIZADO NAS PROPOSTAS DE VIGLIECCA E NA LEI APROVADA PARA A OUCT II, ORGANIZADO E REPRESENTADO PELA AUTORA. BASE MAPA: MINUTA DA LEI DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II. 245 2. Desenho do bairro: O desenho urbano proposto para o bairro revitalizado pela Operação Urbana foge do desenvolvimento compacto, ressaltado como ponto positivo pelo LEED-ND, pois apesar do município necessitar de áreas para a provisão habitacional, apenas parte da população que vive em habitações precárias, como favelas e cortiços localizados no Setor 5 – ZEIS são mantidas no mesmo local, para a outra parcela é prevista a transferência para áreas próximas. A área, apesar de extremamente bem posicionada no município possui uma das menores taxas de ocupação e de densidade demográfica. O projeto proposto busca implantar o aumento desta densidade com a criação de zonas habitacionais, nos Setores 5 - ZEIS e 3 – Bonfim, bem como a manutenção das habitações do Setor 4 – Vila Hervy. Entretanto ao implantar seus edifícios por meio de lâminas alocadas em quadras abertas, princípios do urbanismo moderno acabam por liberar muitos m² no solo que poderiam ser utilizados de outra maneira, e se aproveitarem melhor das infraestruturas existentes. A diversidade de usos apesar de ser observada no geral, é segregada pelos setores propostos (Figura 148 e Figura 149). O pedestre é colocado em evidência neste projeto, de maneira que as vias de pedestres são priorizadas em função da malha viária, trazendo o rio á cidade por meio do parque linear urbano criado. É proposta uma reestruturação da malha viária, bem como a ampliação do passeio de pedestres, principalmente nas divisas com a linha férrea, com o parque linear proposto, com o Setor 1 – Complexo Metropolitano e a criação de passeios de pedestres no parque. Entretanto, cabe aqui questionar a eficiência destas áreas e caminhos de pedestres quanto à segurança que poderia ser promovida pela multifuncionalidade dos usos. A Estação Osasco é o principal elemento de conexão do projeto, funcionando como uma espécie de cluster de transporte público que tem o objetivo de agregar cultura, comércio e lazer em seu polo regional à escala metropolitana proposta. Acompanhado da ampla praça cívica proposta, a Estação Osasco reformulada teria o objetivo de, além de conectar as duas margens da linha férrea, promover um espaço coletivo para o acesso ao Paço Municipal, que será transferido para a área. Apesar da intenção do arquiteto, o que foi executado no local pela CPTM, como espécie de outorga onerosa pela utilização da mesma de espaço público e o que 246 será executado pela empresa responsável pelo Paço não é o que vemos nas propostas iniciais, fugindo das principais características do projeto. A criação de novos percursos e ligações viárias reduz as distâncias a serem percorridas. Entretanto, se o uso do solo fosse efetivamente multifuncional a distância seria reduzida. Com relação às redes de transportes o local esta bem servido, conforme analisado sobre a área existente anteriormente. A área possui uma escola técnica próxima a Estação Osasco, entretanto não dispõe de escola fundamental, ensino médio ou colégio, questões que a proposta também não contempla. Com relação aos espaços públicos e áreas de lazer o Setor 7 – Parque Linear se encarrega de promover espaços verdes e áreas públicas, bem como promover a qualidade ambiental na região, juntamente com a recuperação do Rio Tietê proposta. A redução de áreas de estacionamento ocorre pelo aumento das conexões, pela criação do estacionamento subterrâneo embaixo da Praça Cívica, concentrando os veículos próximos ao terminal intermodal, e pelos novos percursos de pedestre propostos. Figura 14864 Cortes esquemáticos com a disposição dos usos segregados e a criação de novos percursos. FONTE: DESCRIÇÃO COM BASE EM LEVANTAMENTO REALIZADO NAS PROPOSTAS DE VIGLIECCA, ORGANIZADO E REPRESENTADO PELA AUTORA. BASE CORTE ESQUEMÁTICOS: VIGLIECCA, EM SERAPIÃO (2013). 247 Figura 149 Análise do tecido urbano quanto ao transporte público eficiente, a redução de distâncias e os percursos de deslocamentos. FONTE: ANÁLISE COM BASE EM LEVANTAMENTO REALIZADO NAS PROPOSTAS DE VIGLIECCA E NA LEI APROVADA PARA A OUCT II, ORGANIZADO E REPRESENTADO PELA AUTORA. BASE MAPA: MINUTA DA LEI DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II. 3. Infraestrutura Verde (e Edificações): A questão relativa às edificações neste item do LEED-ND não se aplica nesta análise, apenas as questões relativas às infraestruturas verdes serão levadas em consideração no desenho urbano. Podemos analisar aqui a preocupação com a preservação de edifícios existentes, sobretudo edifícios históricos. A área da Operação Urbana faz parte da história da ocupação industrial do município que acabou por segregar a área da região central. No projeto estudado são preservadas dois grandes conjuntos deste passado: a) a Vila Leonor, de propriedade da CPTM, fazendo parte do sistema férreo, funcionando a princípio como o local das habitações dos operários da CPTM e, atualmente, invadidas e deterioradas, conjunto que perdeu mais ainda a sua 248 unidade após a passagem de infraestrutura pesada pela área, como as torres de alta tensão; b) a Vila Hervy acompanhada da edificação da antiga Indústria Hervy, a primeira mantida em seu conjunto, a segunda com a proposta de passar por retrofit e servir de área de lazer e esporte para a comunidade e como um centro regional (Figura 150). Há de se discutir que, com relação à manutenção da edificação remanescente da Indústria Hervy, o que tem sido feito efetivamente pelo poder público e pelos agentes imobiliários92 que estão discutindo e fazendo projetos novos para esta área é a remoção da edificação para dar lugar a novas edificações de comércio e serviços e a um conjunto habitacional. A gestão das águas pluviais e dos recursos hídricos é proposta para a área a recuperação do Rio Tietê, juntamente com o DAEE, e de sua área de várzea, suas bordas com a implantação de vegetação nativa o que contribuiria para a redução da ilha de calor neste trecho urbano, promovendo desta forma a qualidade ambiental. Figura 150 Análise do tecido urbano quanto às infraestruturas verdes, a preocupação com o patrimônio e a recuperação do Rio Tietê e a área de várzea na proposta inicial. FONTE: ANÁLISE COM BASE EM LEVANTAMENTO REALIZADO NAS PROPOSTAS DE VIGLIECCA E NA LEI APROVADA PARA A OUCT II, ORGANIZADO E REPRESENTADO PELA AUTORA. BASE MAPA: MINUTA DA LEI DA OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA TIETÊ II. 92 Informações referente às propostas e negociações que vem sendo travadas acerca das intervenções na área da Operação Urbana, fornecidas por Simone Beralda Tavares, Diretora do DUS, em 25 de setembro de 2013. 249 Tabela 9 Quadro analítico da OUCT II baseado no LEED-ND: Com relação à análise do LEED-ND93 pode-se considerar parcialmente a pontuação que o projeto urbano poderia adquirir da seguinte maneira: distinguindo as diferenças entre o projeto proposto por Vigliecca, o projeto aprovado e os projetos executados pelos investidores privados e empresas de capital misto. 93 Referente a análise com base no LEED-ND 2009 for Neighborhood Development Rating System, 2011. 250 Pode-se observar também que os critérios de articulação de condicionantes ambientais e de uso e ocupação do solo não se restringem a área da Operação Urbana, são de grande influência para o entorno, principalmente referente á acessibilidade e fluxo de pedestres e veículos, também pelo fato da área se configurar como um grande polo regional. O suposto zoneamento proposto ou a divisão por setores poderia ser utilizado de modo a auxiliar à criação desta divisão por funções, buscando uma melhor gestão ambiental. Finalmente há neste processo de planejamento um processo em curso, que se espera que se complete, onde hoje ainda é possível distinguir quatro estágios diferentes de concepção e de concretização de ideias: o primeiro diz respeito às formulações do autor nos ideais expressos por seu discurso; o segundo diz respeito á evolução dos projetos e o projeto final desenvolvido pelo escritório Vigliecca & Associados; o terceiro é o projeto finalmente aprovado pela Câmara que acabou por reduzir e simplificar os detalhes da proposta, bem como algumas características essenciais; o quarto e último é o estágio que remonta a o que esta sendo efetivado pelo poder público e o mercado imobiliário na área. A tendência observada entre estes quatro estágios é uma progressiva primazia das iniciativas do setor privado e misto. Podem-se analisar as intervenções propostas de acordo com o processo de urbanismo convencional e pelas práticas de desenho urbano, definido claramente por Wall e Waterman (2010). Para os autores o desenho urbano tem se estabelecido como a nova prática no planejamento urbano, regido na maioria das vezes por razões econômicas, deixando de lado questões sociais. Desta forma, podemos compreender que o desenho urbano é utilizado como um instrumento da cidade do consumo. A partir da definição do conceito de desenho urbano podemos analisar o objeto de estudo de acordo com seus contextos: 1. Contexto geográfico – importante para compreender o impacto do projeto no território e em como a cidade poderia ser projetada para se adaptar as suas características: a OUCT II se insere em uma área de várzea e é uma das áreas do município de menor densidade demográfica, com menos de 9 mil habitantes (Figura 151). 251 Figura 651 Mapa da densidade demográfica da área da Operação Urbana em comparação com bairros vizinhos em Osasco. FONTE: PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE OSASCO, 2009. 2. Contexto econômico – responsável pelas mudanças nas cidades com relação ao uso do solo e das edificações, é responsável pela definição dos usos do solo, do zoneamento, é dos principais fatores que levam a globalização das cidades e a sua competição no cenário mundial: o município de Osasco tem passado por um processo de transformação em sua economia desde a década de 70, passando pela desindustrialização, apesar do setor ainda ser forte na economia, mas já ter sido ultrapassado pelo setor terciário. 3. Contexto político – deve ser compreendido em decorrência da gestão municipal e tem sido utilizado com o objetivo de destacar as cidades em um contexto nacional ou global, apesar de já ter sido evidenciado que projetos em escala local beneficiam muito mais a população: a gestão municipal atual de Osasco tem se mantido desde a instituição da Minuta da Lei da Operação Urbana Consorciada Tietê II94 (2008) e procura manter a sua gestão para a efetivação da implantação e, apesar do Grupo de Gestão da OUCT II ter sido criado em decorrência da Operação Urbana e ter havido apenas três reuniões 94 Lei Complementar 170/08, que instituiu a Operação Urbana Consorciada Tietê I. 252 desde então95, acaba-se delegando aos investidores privados a tarefa de projetar as áreas públicas, sedes do governo e áreas privadas. 4. Intervenções – assegura que as intervenções urbanas são um dos principais motivos para a mudança na estrutura das cidades: a intervenção urbana a ser realizada pela Operação Urbana busca resgatar a área que possui potencial, infraestrutura e boa localização e promover uma integração de um tecido urbano que se encontra fragmentado e subutilizado com a área central a as margens norte e sul do Rio Tietê, utilizando o rio como um elemento de integração. 5. Sistemas e componentes – consiste dos sistemas independentes de redes de transportes e serviços que configuram a malha urbana: o sistema de redes infraestruturais existentes é um dos principais pontos que justificam uma intervenção na área servida por duas linhas de trem e redes de ônibus municipais e intermunicipais, bem como sistema de esgoto e abastecimento de água e energia elétrica. 6. Contexto do bairro – consiste das características locais da quadra e dos espaços urbanos, da vida urbana, do coletivo, verifica se o projeto estabelece uma relação com o seu entorno e com a cultura: na análise de sua relação com o entorno verifica-se que o projeto estabelece conexões internas e com as áreas de borda extremamente importantes para o sistema viário em escala municipal, bem como identifica as características locais e procura potencializar o território, entretanto, como explicado anteriormente, o faz de maneira a separar a área em setores. 7. Contexto da rua – o primeiro espaço público na sua essência define a conexão com o espaço urbano, a definição de sua estrutura é responsável pela conexão das estruturas da cidade: a rua neste projeto possui um fator importante com relação às novas vias de pedestres e os espaços públicos criados, como a Praça Cívica, que procura estimular o convívio social e que acabaram por perder a consistência com as propostas que estão sendo efetivadas pelo poder público em parceria com investidores, a implantação do 95 Informações retiradas de entrevista realizada com a Diretora do departamento de Planejamento Urbano e Uso do Solo (DUS), Simone Beralda Tavares, em 25 de setembro de 2013. 253 Complexo Metropolitano no Setor 1 revela a Estação Osasco como uma espécie de âncora que conecta o novo espaço criado e o velho centro da cidade; deve-se analisar também a restrita separação entre o fluxo de pedestres e de veículos, que pode gerar a segregação de fluxos e pessoas. Podem-se tecer quadros teóricos e técnicos comparativos referentes ao objeto de estudo, a Operação Urbana Consorciada Tietê II, em Osasco, e os três estudos de caso elencados: Expo’98, Parque Linear Rio Manzanares e Porto Madero, pertencentes a realidades e contextos distintos, mas com características em comum. O objetivo é produzir quadros, baseados na metodologia empírica, onde ao se identificar os processos análogos, pode-se classificá-los. O crescimento de Osasco sempre esteve ligado à expansão da cidade de São Paulo que, ao saturar seu espaço urbano, contribuiu para a ocupação das áreas periféricas. A cidade liga-se também à expansão industrial, que se inicia por volta de 1890. Simultaneamente, houve a migração, trazendo para a cidade: italianos, espanhóis, franceses, russos, poloneses e armênios. Na sequência ocorreu um processo acelerado de expansão urbana a partir da década de 50, acentuado na década de 60 quando a população duplicou. Na década de 70, apesar do crescimento elevado, ele arrefeceu, entretanto exerce até hoje uma liderança em relação aos municípios vizinhos, mesmo com a desordenada expansão demográfica e urbana, responsável pela degradação dos recursos naturais e déficits nos serviços sociais e infraestruturas. A RMSP passou por transformações significativas nas últimas décadas, com a construção de um parque industrial e de uma sofisticada estrutura de comércio e prestação de serviços, seguida da crise e transformação de toda essa estrutura. No momento atual há a evasão industrial, a terceirização da produção industrial, a expansão do setor de prestação de serviços e a crise da administração pública. Esse quadro faz com que a RMSP deixe de ser o polo de atração de migração, havendo uma consequente desaceleração do crescimento populacional. Os municípios da região, como Osasco, estão conurbados, não se distinguindo mais as áreas urbanas de cada um. O crescimento rápido e desordenado das cidades impossibilitou um acompanhamento adequado em termos de infraestrutura urbana, provocando a perda da qualidade de vida urbana. 254 A estrutura viária do município teve origem nas barreiras naturais do Rio Tietê e do sistema ferroviário. Na década de 60 com a industrialização e a macroestrutura viária do país, iniciou-se forte processo migratório do Nordeste do Brasil e a constituição de ocupações irregulares que comprometeram a urbanização da região. Apresenta então uma acessibilidade regional estruturada, em oposição a uma acessibilidade interna fraca e centrada em uma estrutura radio - concêntrica. Deste modo com base no posicionamento e no estudo a respeito da Operação Urbana Consorciada Tietê II em seu contexto urbano, social, econômico e territorial buscou-se outros exemplos, referências internacionais paradigmáticas que, em conjunto com as teorias urbanas atuais e suas relações com os projetos possibilitam criar quadros comparativos para identificarem-se as dificuldades enfrentadas no processo de planejamento urbano e na implantação desta Operação Urbana que se insere em um contexto de globalização periférica. Iniciam-se estes estudos comparativos pelas características principais das intervenções urbanas elencadas analisadas no quadro a seguir (Tabela 10), onde se pode observar o contexto a qual se inserem. O objeto de estudo é a OUCT II, em Osasco, na RMSP, Brasil. Frente ao caso de Porto Madero, na zona central de Buenos Aires, Argentina. Ambos em um contexto cultural de globalização periférica e capitalismo tardio. Pode-se comparar com o Rio Manzanares, na extremidade da região central de Madri, Espanha e com a Expo’98, uma área obsoleta, periférica entre dois municípios, Lisboa e Sacavem, Portugal; ambos no contexto cultural europeu de globalização, desindustrialização e capitalismo. Verifica-se a gestão destas intervenções, tendo a Expo’98 como a grande experiência do poder público e privado, mais privados do que públicos, onde o governo local, juntamente com a organização da Exposição Internacional, tomou a iniciativa de lançar a candidatura para sediar a Exposição Internacional em 1991. No caso de Porto Madero como a grande experiência privada, onde a Sociedade Central de Arquitetos em conjunto com a “Corporación Antiguo Puerto Madero” tomou a iniciativa de promover um Concurso Nacional de Ideias em 1992. No Parque Linear do Rio Manzanares verifica-se a grande experiência pública que tomou a iniciativa da requalificação promovendo um Concurso Internacional de Ideias em 2005. Na OUCT II tem-se a experiência pública que tomou a iniciativa de solicitar um projeto de requalificação 255 urbana por meio da Operação Urbana do bairro do Bonfim com uma Carta Convite em 2007. Podem-se estabelecer muitas relações entre estes projetos, como o fato de que em muito se assemelham na relação entre o que é projetado e o que de fato se executa em termos de projetos urbanos. A proposta preliminar para o Plano Diretor da Expo’98 apresentada como proposta preliminar em 1991, em decorrência da concorrência de Lisboa como a cidade sede da Exposição Internacional em muito se difere do Plano Diretor da Expo’98 apresentado como proposta definitiva em 1996, onde os autores iniciais sequer foram consultados sendo feita a contratação de outro grupo de arquitetos e urbanistas 96. Esta lógica de engavetar planos urbanos que pode ser observada em Lisboa, Portugal, parece estar enraizada no Brasil, sendo que o objeto de estudo desta dissertação não se difere neste aspecto. Ao observar as propostas iniciais que venceram a licitação pública em 2007 em comparação ao pouco que tem sido executado no perímetro da Operação Urbana atual, veem-se divergências cruciais que alteram o sentido de urbanidade desejado pelo projeto preliminar como é explicitado anteriormente, como à modificação do conceito e escala do espaço público na Praça Cívica, no Setor 1 – Complexo Metropolitano. Considerando-se que todas as obras relativas aos estudos de caso já foram concluídas e que no município de Osasco, a Operação Urbana, apesar de aprovada desde 2009 ainda se encontra em estágio inicial de negociação com investidores privados e empresas de capital misto, muito se tem a observar sobre o processo de projeto e de implantação dessas propostas. Analisam-se as dificuldades enfrentadas pelas experiências internacionais e como foram solucionados seus problemas, principalmente devido ao longo período de implantação, e verificam-se os mecanismos utilizados pelos mesmos para garantir a efetiva conclusão dos planos e os instrumentos utilizados na tentativa de mitigar os efeitos da gentrificação, essenciais na busca de soluções e de processos coerentes que possam ser adaptados à nossa cultura. Com base nesta hipótese lançada podem-se observar no quadro as características de gestão do processo de implantação destes projetos, sua relação 96 Estas constatações foram fornecidas por um dos autores da proposta preliminar para o Plano Diretor da Expo 98, José Lamas que, em conjunto com Carlos Duarte, fez a proposta que levou a candidatura e eleição de Lisboa como cidade sede (LAMAS, 2011). 256 com as políticas públicas municipais e as características que os diferem dos demais casos internacionais, como por exemplo, a característica de gestão descentralizada de todos os casos, com exceção do Parque Linear do Rio Manzanares, o único que não possuiu uma entidade autônoma, ou seja, um órgão que não pertença ao governo, que acompanha o processo de implantação ultrapassando os períodos de gestão do governo. Entretanto é um dos projetos urbanos que mais causou impacto na economia local foi cidade de Madri, pois devido à crise que assolou toda a Europa durante o período de implantação, e a insistência em finalizar as obras, mesmo tendo perdido as eleições para sediar as Olimpíadas de 2016, acabaram por agravar a crise econômica em um projeto que, apesar de ter todos os seus méritos de discurso de tentativa de devolver a cidade aos pedestres, não reduz os problemas sociais. 257 258 O quadro apresentado estabelece uma comparação entre os quatro casos com relação às frentes aquáticas baseado nos princípios defendidos por Tsukio (1984) e as principais características deste tipo de intervenção distinguindo entre restauração, desenvolvimento e redesenvolvimento (Tabela 11). O primeiro item se refere às características inerentes às frentes aquáticas. Podem-se distinguir os tipos de intervenções de acordo com princípios de restauração, desenvolvimento e redesenvolvimento, classificando a OUCT II e o Parque Linear do Rio Manzanares como restauração onde promove melhorias urbanas e remove as estruturas subutilizadas. Porto Madero é de redesenvolvimento, onde resgata as instalações históricas e; a Expo’98 como um misto de restauração e desenvolvimento, que por sua vez cria novas áreas de acordo com a necessidade. São caracterizados os diferentes tipos de frentes aquáticas tendo em comum os quatro casos de frentes ribeirinhas em áreas industriais obsoletas em regiões centrais, com exceção da Expo’98 que se localiza em uma região periférica. Observam-se também as características específicas da situação anterior destas frentes aquáticas como tecido urbano: em sua maioria com o uso de solo marcado pela industrialização, situação dos recursos hídricos e solo, utilização das margens, relação da frente aquática com a população, entre outros aspectos. Observam-se as características projetuais das frentes aquáticas de cada projeto, tendo como característica comum à recuperação da frente ribeirinha e do rio como um elemento essencial na paisagem urbana e na formação da memória da comunidade. Com exceção de Osasco, em todos os casos ocorre à descontaminação dos solos e do curso d´água. Esta é uma característica esperada também pelo projeto urbano da OUCT II que identifica o Rio Tietê como elemento integrador no desenho urbano, devendo deixar de ser um obstáculo. Os projetos buscam recuperar os espaços públicos e devolver o solo aos pedestres e à cidade, bem como resgatar o caráter da urbanidade. Não se elimina aqui as questões relativas aos problemas encontrados por estes casos na implantação de seus projetos urbanos. 259 260 261 No terceiro quadro comparativo faz-se uma abordagem com relação às características de modernidade e pós-modernidade dos projetos urbanos entendendo estas duas maneiras de projetar a cidade dentro do contexto do capitalismo, anteriormente definido por Harvey (2011) presente no Capítulo 2 desta dissertação, relacionado aos projetos urbanos e a cidade orientada pelo consumo (Tabela 12). Tornam-se necessário fazer a divisão do objeto de estudo analisando-o por três vertentes: a primeira de acordo com o discurso dos idealizadores do projeto urbano; a segunda de acordo com as análises dos projetos feitas pela autora e; a terceira de acordo com o que esta sendo executado na área da Operação Urbana. Isto se deve ao fato de que, assim como ocorreu na experiência de Lisboa, muito do que foi planejado e proposto para a área por meio de um desenho urbano foi executado com base em projetos de outros grupos de arquitetos e sem a consulta aos idealizadores do plano. Soma-se a isso o fato de que o discurso apresentado pelos idealizadores do projeto não são fieis as propostas do projeto, principalmente no que diz respeito às realizações do poder público. Utiliza os aspectos da tabela criada por Harvey (2011), que separa os dois períodos de desenvolvimento urbano por diversos tópicos antagônicos aqui discutidos nos projetos urbanos dos estudos de caso e da OUCT II. Os estudos de caso e o objeto de estudo podem ser considerados inerentes ao processo de desindustrialização, vistos como processos de revitalização urbana, com exceção da Expo’98, que pode ser considerada uma renovação urbana, principalmente pelo fato de passar uma “tabula rasa” no território, não respeitando as pré-existências, fato que foi considerado nos outros exemplos. Identifica o papel da gestão com sintoma ou desejo, tendo o primeiro como uma característica da modernidade que evidencia a necessidade de reconstrução do pós-guerra e; o segundo como a vontade de ir contra o modernismo, bem como identifica os instrumentos utilizados para mitigar o processo de gentrificação. É interessante a distinção dos projetos em termos da “paranoia” pertencente ao urbanismo moderno, que se preocupavam em produzir modelos de cidades ideais de acordo com os princípios definidos pelo CIAM com relação à “esquizofrenia” do urbanismo pós-moderno, que levou para debaixo do tapete as questões relativas ao contexto social e o direito à cidade. Nestes termos pode-se definir Porto Madero e o Parque Linear do Rio Manzanares como uma 262 “esquizofrenia”, pois se fala uma coisa e faz-se outra, e a Expo’98 como um misto entre esquizofrenia e paranoia, onde se modifica o discurso e se propõe uma cidade ideal. Já a OUCT II é identificada pela autora como paranoia de acordo com o discurso dos autores acerca do projeto e com as intervenções já realizadas, bem como na análise das propostas se identifica um misto de esquizofrenia e paranoia, devido ao processo desenvolvimento do projeto urbano ter sido iniciado pelo desenho urbano, o que levou a hipótese do que se queria para a cidade com base na realidade existente, bem como na esquizofrenia que não busca modificar alguns problemas sociais e territoriais existentes na área. Todos os estudos se baseiam em intervenções em pontos localizados da cidade e não em planos mais amplos e regionais. Na sua maioria são projetos focados na realidade com relação à urbanização, mas em pontos determinados, principalmente na arquitetura internacional, como no caso dos projetos da Expo’98 e de algumas áreas projetadas para a OUCT II. EXPECTATIVAS E DISCUSSÕES Apesar das diretrizes e conceitos sobre os projetos urbanos o instrumento das operações urbanas tem se mostrado ineficiente no que diz respeito ao seu objetivo que é a melhoria da qualidade ambiental e social. Porém a Operação Urbana Consorciada Tietê II, ainda não foi concluída, restando então à expectativa de que sua gestão não seja fragmentada para que então possa ser feita uma análise de sua implantação e dos processos relativos à gentrificação, bem como de seu impacto ambiental e social. Até agora, ao que tudo indica, não estão sendo tomados os cuidados com os impactos desses empreendimentos no município. A demolição dos edifícios do Conjunto Nova Grécia é um exemplo definido pelo atual prefeito como símbolo de impasse e atraso para a cidade, para a construção de novos edifícios residenciais de alto padrão, porém sem propor alterações para mitigar os impactos na rede viária, já carregada na região. Apesar de deficiências o plano foi elaborado de um modo diferenciado: elaborando a Operação Urbana a partir do projeto arquitetônico para a área, pois a 263 prática é elaborar o projeto de lei para depois efetuar os projetos. O plano busca atender ao mercado imobiliário, porém preocupa-se, ao menos em teoria e desenho arquitetônico, com a inserção social e a melhoria da qualidade ambiental. Verifica-se entusiasmo e foco na gestão desta operação urbana, pois até mesmo a sede da Prefeitura será transferida para a nova área, na região central. O Poder Público Municipal da gestão anterior97 acreditava que os impactos das obras gerados pela Operação Urbana na região, eram bons para a cidade, mas que a população não deveria pensar nas deficiências e sim nas potencialidades do plano. A OUCT II se integra aos demais planos municipais, como a Revitalização do Centro, bem como é atenta ao mercado imobiliário, pois a região do entorno da mesma tem passado por transformações urbanísticas importantes no que diz respeito ao investimento privado, com novos empreendimentos em fase de implantação e estudo de viabilidade econômica. O município tem sido alvo de um crescimento do investimento imobiliário constante, como demonstra reportagens em cadernos do ramo imobiliário (Figura 152), com empreendimentos de grande porte voltados para a habitação e serviços, evidenciando Osasco e seu caráter regional. Todas as intervenções do setor público privado ocorrem atualmente na região central e seu entorno, na margem sul do município, evidenciadas pela utilização de grandes vazios urbanos e áreas subutilizadas, como os antigos galpões fabris, onde se pode verificar: a) investimentos com parcerias público-privadas, como as obras de extensão da linha 9 da CPTM (Figura 152, item a); b) investimento público com a duplicação da Rua da Estação, que faz divisa com a linha férrea, perímetro integrante da OUCT II (Figura 152, item b); c) investimentos do capital privado em extensa área entre a Super Avenida criada na margem sul da linha férrea e a Avenida dos Autonomistas, principal via do município conformando uma super quadra de comércio, serviços e habitação na região, muito bem localizada em área a oeste do perímetro da 97 De acordo com o prefeito da antiga gestão, Emídio de Souza, em evento realizado em 21 de maio de 2012, na associação Comercial Empresarial de Osasco. 264 OUCT II; na mesma reportagem veem-se indicações de preço por m² comparativo na região (Figura 152, item c); d) reforma da Estação Osasco, parceria entre CPTM e PMO, parte integrante da OUCT II que faz ligação com o projeto Revitalização do Centro (Figura 152, item d); e) reportagem que indica o crescimento imobiliário da região do Presidente Altino, a oeste da OUCT II, também na margem sul do Rio Tietê (Figura 152, item e); f) investimentos privados na área da super quadra de negócios, comércio, serviços e habitação do município em área subutilizada as margens da linha férrea, a oeste da OUCT II, compreende um bairro planejado com toda a infraestrutura e cercado de equipamentos e dos grandes centros comerciais, contando com uma grande praça particular que terá conexão com a área de negócios e a habitacional, entretanto não se preocupou com o impacto que causará na estrutura viária da região, prevendo apenas uma única saída do conjunto composto por quatro torres com oito apartamentos por andar e mais de trinta pavimentos, para a Super Avenida que se conecta com o largo de Osasco, a Avenida dos Autonomistas, já saturada, e com a Av. Maria Campos e seu complexo viário, principal ligação com a parte norte do município (Figura 152, item f); g) vista aérea deste novo complexo citado no item f, com a região circundante (ver Figura 152, item g). 265 Figura 6652 Mapa que evidencia os investimentos públicos e privados na área de borda da OUCT II, com reportagens sobre os novos empreendimentos. FONTE MAPA: AUTORIA PRÓPRIA. BASE: GOOGLE MAPS. FONTE A, C, E, F, G: JORNAIS LOCAIS DE DIVULGAÇÃO. FONTE B, D: PMO. REVISTA BALANÇO 2005-2011. 266 CONSIDERAÇÕES FINAIS A Operação Urbana Consorciada Tietê II é um exemplo da utilização do instrumento da Operação Urbana ainda em fase de implantação que merece acompanhamento. Seu projeto de lei e projeto urbano de autoria de Vigliecca possui características diferenciadas no processo de desenvolvimento urbano. Estas características demonstram a inversão ou a modificação da lógica do processo de planejamento urbano tradicional, onde o arquiteto não segue uma linearidade e parte diretamente para uma hipótese da cidade desejada e representada em seu projeto urbano, deixando de lado o levantamento, o diagnóstico, as diretrizes e o programa. Pode-se chegar a diversas observações de acordo com o desenvolvimento do trabalho, iniciando-se pelo problema gerado por projetos decorrentes das cidades orientadas pelo consumo e os problemas decorrentes da desindustrialização. Devido à intensa competição entre as cidades globalizadas e sua busca por captar público em prol do consumismo, as cidades tem se tornado muito semelhantes umas com as outras, se utilizam de um cenário criado, uma fórmula pronta que retira sua identidade. A requalificação urbana tem trabalhado neste aspecto, principalmente para recuperar os grandes centros que se tornaram obsoletos e trabalhar com as modificações do modo de viver das sociedades. As frentes aquáticas também veem recebendo tratamento diferenciado, voltando a serem locais valorizados e passíveis de transformação, removendo toda a estrutura obsoleta que a industrialização havia imposto nestes locais. Para resolver a questão que faz parte do título desta dissertação referente à como partir do plano urbano, pautado em características modernistas do zoneamento funcional, para o projeto urbano, pautado no desenho urbano, nos detalhes arquitetônicos e na gestão de baixo para cima, focando não apenas o plano gerado, mas o seu processo de desenvolvimento, conforme é definido por Ascher (2010), envolvendo todos os atores. A manutenção e garantia do desenvolvimento do plano deve ser observada de acordo com as características de seu projeto urbano, que deve conter o máximo de informações possíveis. A partir deste ponto podem-se criticar as Operações Urbanas que vem sendo elaboradas, contendo apenas índices e parâmetros urbanísticos, não revalando as estratégias ou um 267 desenho global, um conceito. Neste aspecto, a OUCT II se diferencia ao incluir plantas ou projetos urbanos de diretrizes. O projeto entregue à Câmara por Vigliecca continha inclusive o partido do projeto, as perspectivas e desenhos tridimensionais. Apesar de não terem sido incorporados à minuta de lei da OUCT II estes projetos serviram de base para a sua elaboração. Deve-se ressaltar aqui o fato de não ter sido solicitado à Vigliecca os projetos tridimensionais ou ainda estudos preliminares de parcelas da área, como o projeto apresentado para o novo Paço Municipal, utilizado pelo arquiteto como âncora no projeto urbano. Sua participação e leitura do território, englobando inclusive áreas que não haviam sido solicitadas pela Prefeitura Municipal de Osasco, como a margem norte do rio Tietê, revela a necessidade e o esforço para integrar uma área extensa e de grande potencial de transformação, buscando melhorar as conexões no município. Esta característica, de analisar além do que é solicitado e olhar de uma maneira mais abrangente para o território, é um ponto comum nas obras do autor, principalmente devido a sua vasta participação em concursos de arquitetura e urbanismo. Cabe aqui ressaltar a importância que o pós-modernismo possui no papel do resgate do tecido urbano, no retorno à cidade tradicional e à multifuncionalidade do solo. Ao analisar o projeto urbano gerado pela OUCT II pode-se verificar que o arquiteto, apesar de possuir um discurso pós-moderno, produziu resquícios de uma cidade moderna, pois acabou por criar sete setores distintos, com funções, índices e parâmetros diferentes, possuindo como único elemento integrador o rio Tietê e o seu parque linear proposto. O projeto acabou por não modificar muito a lógica do tecido urbano existente, mas criou diversas conexões de pedestres e viárias, melhorando a circulação interna. Não se esta aqui retirando os méritos do projeto urbano, que pretende recuperar as condições ambientais e se aproveitar ao máximo das infraestruturas existentes em seu entorno. O que se pode identificar é o esforço do projeto em criar uma cidade desejável em uma área onde as possibilidades de intervenção são escassas. Verifica-se o esforço do arquiteto em procurar soluções para uma cidade gerida por uma política urbana de curto prazo, adotada a nível nacional, que não 268 possui mecanismos para garantir sua manutenção ou evolução ao decorrer do tempo das gestões. Outro aspecto importante a ser destacado é a utilização dos princípios do Plano Diretor Municipal que deveriam ser repensados, pois propõem a manutenção da população que vive em condições subnormais de moradia no local, promovendo a reurbanização. Apesar de importante e garantir mitigação do processo de gentrificação, este processo deveria levar em conta a situação a qual se encontra essa população. No caso da OUCT II, há duas áreas previstas no zoneamento de ZEIS, onde se prevê a produção de HIS e HMP, caracterizados como Setor 5 – ZEIS na área da Operação Urbana. Na margem sul não há muitos problemas para esta política, entretanto na margem norte esta área se encontra colada a Rodovia Castelo Branco, sofrendo com o fluxo pesado de veículos. Entende-se aqui que o profissional não possui muita força para modificar este cenário, mas não se pode deixar de reforçar o seu papel para a sociedade. É possível a identificação de quatro projetos urbanos para o local da OUCT II. O primeiro pode ser observado no discurso do arquiteto, pós-modernista em contraposição com o segundo, que é observado na minuta do projeto de lei e no projeto urbano entregue para a Câmara Municipal, discutidos anteriormente, onde o seu discurso revela uma cidade multifuncional, o que realmente ocorre no projeto apresentado, mas de maneira segregada, com a multifuncionalidade geral gerando centros unifuncionais. O terceiro diz respeito à minuta de lei aprovada. O quarto é relativo ao que esta sendo de fato executado na área da Operação Urbana. O projeto apresentado contém características que não foram mantidas pelo projeto aprovado, como a proposta do cais urbano que se situava na margem norte, próximo as ZEIS, transferido para as duas margens em área próxima ao Setor 1. Ou ainda a indústria Hervy que sofreria retrofit e teria seu uso modificado para um espaço de lazer e esportes, acabou por ser excluída das novas propostas, prevendo outras edificações em seu lugar. Entre o projeto aprovado e o que esta sendo executado, a primeira diferença pode ser observada no Setor 1 – Complexo Metropolitano, onde a Praça Cívica, que era generosa, como uma ágora grega, transformou-se em uma singela passarela de ligação entre a Estação Osasco e o acesso do edifício do novo Paço. 269 Os estudos de caso servem de parâmetro para a análise da Operação Urbana e podem contribuir para tecer comparações. Tomando como primeiro exemplo a Expo’98 podemos compara-la com a OUCT II onde a primeira teve como motor a exposição internacional, já na segunda não se pode observar um mote, apenas a utilização de um instrumento em uma área passível de transformação. Podemos estabelecer semelhanças entre os Planos de Pormenor para a Expo’98 baseados no Plano de Urbanização com o Plano de Massas de Vigliecca. A diferença encontrada é a não continuidade do desenvolvimento em conjunto com os autores na fase de execução das propostas para a área, onde no caso internacional têm-se a coordenação do arquiteto Vassalo Rosa. Outro fator que contribuiu para a manutenção do plano é a criação de uma agência reguladora, ultrapassando os limites da gestão governamental, primeiramente pelo Parque Expo, em Lisboa, seguida pelo Grupo de Gestão da OUCT II, composto pelos técnicos da prefeitura e membros da sociedade civil. A principal diferença entre a gestão dos dois planos é a diferença no modo de analisar a área, onde a Expo’98 é analisada a longo prazo. Já á principal semelhança é caracterizada pelo “engavetamento” de projetos solicitados. No primeiro caso, temos o projeto preliminar de Lamas e Duarte que é abandonado após a conquista da candidatura para sediar as exposições internacionais, e se contrata outro grupo de arquitetos sobre a coordenação de Vassalo Rosa. No segundo caso, temos o projeto de Vigliecca que é abandonado em partes por projetos pontuais de empresas de arquitetura e construtoras contratadas, como a Uniarq para o Paço Municipal. Outro caso comparado é o de Porto Madero, onde se tem o mesmo motor indutor da OUCT II que é a vontade do poder público de requalificar a área, mas no primeiro caso é a Corporación Antiguo Puerto Madero que gere e financia o processo de requalificação, já no segundo caso é o Grupo de Gestão da OUCT II que gere o projeto urbano, mas não o financia, apenas administra os recursos gerados a partir de investimentos públicos e privados. A pressão da sociedade civil no primeiro caso foi levada em conta e orientou o plano para um caráter mais regional. Diferentemente da OUCT II e da Expo’98 o projeto urbano é fruto de um Concurso Nacional de Ideias para o Plano Diretor da área dando o prêmio para as três primeiras equipes, que juntaram suas ideias e fizeram um único projeto. Para 270 assegurar a manutenção das propostas foram feitas licitações públicas para quem quisesse reformular os edifícios históricos onde já receberiam o projeto a ser realizado, não modificando as características, que diferentemente das vendas aos investidores, como ocorre em Osasco, garante o sucesso da proposta e a sua unidade. O último estudo de caso a ser comprado é o Parque Linear do Rio Manzanares, considerado o maior exemplo de requalificação urbana do início do século na Europa, onde teve como motor as Olimpíadas de 2016 que, lamentavelmente acabou perdendo a sua candidatura para o Brasil, revelando o desperdício com os recursos públicos. A iniciativa se deu por parte da prefeitura, assim como na OUCT II, entretanto os recursos foram exclusivamente públicos, o que complicou a situação do município em tempos de crise financeira. Foi realizado um Concurso Internacional de Ideias onde venceu o Consórcio Mrio Arquitetos Associados. Todos os estudos de caso e a OUCT II possuem como elemento integrador o resgate de um rio urbano que perdeu sua identidade, retirando o seu caráter de barreira urbana e colocando-o no centro, valorizando a questão das frentes aquáticas. Requalificam antigas áreas industriais degradadas e recuperam o tecido urbano, até então fragmentado. 271 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABASCAL, Eunice Helena Sguizzardi; STUERMER, Monica Machado; BRUNA, Gilda Collet; VIEIRA, Maria Elena Merege. Globalização e reconfiguração espacial: São Paulo e Buenos Aires, uma perspectiva comparada. Em: Exacta, vol. 6, n.º 2, julio-diciembre, 2008, pp. 273-281. ABRAHÃO, S. L. Espaço público do urbano ao político. Editora FAPESP, São Paulo, 2008. ALMEIDA, Renata H. de. Conservação e urbanização – dois termos de uma construção: a cidade histórica como monumento. Núcleo de Estudos de Arquitetura e Urbanismo – NAU, Centro de Artes, Universidade Federal do Espírito Santo, IX Seminário de História da Cidade e do Urbanismo, São Paulo, 2006. ALVIM, Angélica T. B.; ABASCAL, Eunice H. S.; MORAES, Luís G. S. Projeto urbano e operação urbana consorciada em São Paulo: limites, desafios e perspectivas. In: Cad. Metrop., São Paulo, v.13, nº25, p. 213-233, jan/jun 2011. ALVIM, Angélica T. B.; CASTRO, Luiz G. R. de (orgs.). Avaliação de políticas urbanas: contexto e perspectivas. Universidade Presbiteriana Mackenzie, Mackesquisa e Romano Guerra Editora, São Paulo, 2010. ASCHER, François. Os novos princípios do urbanismo. Tradução e apresentação Nadia Somekh. Editora Romano Guerra, São Paulo, 2010. ARGENTINA. Lei 23.696, de 18 de agosto de 1989. Dispõe sobre a Reforma do Estado. Em: http://www.infoleg.gob.ar/infolegInternet/verNorma.do?id=98 acessado em 11/12/2013 ás 22h00. ARTIGAS, Rosa; MELLO, Joana; CASTRO, Ana Claudia (org.). Caminhos do elevado: memória e projetos. Secretaria Municipal de Planejamento – Sempla, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo, 2008. BAPTISTA, Luís Santiago. Vazios urbanos – Trienal de Arquitectura de Lisboa. Em reportagem da Revista Arq./a, nº 47/48, julho/agosto 2007. 272 BARBOSA, Adriana Silva. O papel da qualidade ambiental nos empreendimentos turísticos: os casos de Vila Moura, Algarve, Portugal e Riviera de São Lourenço, Bertioga, São Paulo, Brasil. (Tese de Doutorado). Faculdade de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Mackenzie, São Paulo, 2013. BARROS, Eliane. Marginal vira túnel na Espanha. Em: Revista Infraestrutura urbana. Ed. 14 maio 2012. BENEVOLO, Leonardo. História da cidade. Editora Perspectiva. 4ª edição. São Paulo, 2005. BLAY, Eva Alterman. Tendências atuais da sociedade urbana no Brasil. Em: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, v.15, p. 61-77, 1974. BONDUKI, Nabil. Estudo 28: Gestão, organização e financiamento do solo urbano. Apresentado em Perspectivas dos investimentos sociais no Brasil (PIS). BREEN, Ann; RIGBY, Dick. The new waterfront: a worldwide urban sucess story. Editora McGraw-Hill, Londres, 1996. BURDETT, Rick. Pensar a cidade para construir a cidade. Em: ROSA, Marcos L. Planejamento: práticas urbanas criativas. Editora Cultura. São Paulo, 2011. Câmara Municipal de Lisboa. Plano de Urbanização da Zona da Expo. 2009. CASTRO, Luiz Guilherme Rivera de Castro. Operações urbanas em São Paulo: interesse público ou construção especulativa do lugar. (Tese de Doutorado). Faculdade de Arquitetura e Urbanismo na Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006. COLQUHOUN, Ian. Urban regeneration. B.T. Batsford Ltd, London, 1995. COMPANS, Rose. Intervenções de recuperação em zonas urbanas centrais: experiências nacionais e internacionais. Emurb, Cebrap e CEM, (Orgs.), Caminhos para o Centro. Estratégias de desenvolvimento para a região central de São Paulo, 2004. DEL RIO, Vicente. Voltando às origens: a revitalização de áreas portuárias nos centros urbanos. Arquitextos, 015.06, ano 02, agosto de 2001. Em: 273 www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp091 (acessado em 15/11/2013, ás 18h40). DIAMOND, Jared M. Colapso. Tradução Alexandre Raposo, 8ª ed., Rio de Janeiro, Record, 2012. FERREIRA, M. Guia oficial Expo’98. 2008 FISCHER, Izaura R; MARQUES, Fernanda. Gênero e exclusão social. Instituto de Pesquisas Sociais, Fundação Joaquim Nabuco, 2001. Folha de São Paulo. Extinta há 79 dias, pasta de SP ainda existe. Em: www1.folha.uol.com.br/poder/2013/09/1342237-extinta-há-79-dias-pasta-de-spainda-existe.shtml, acessado em 16/10/2013 ás 8h20. GADENS, Letícia Nerone; HARDT, Letícia Peret Antunes; FREY, Klaus. Das práticas de gestão de grandes projetos urbanos. Em: Saúde Soc. São Paulo, v.21, supl. 3, p.21-32, 2012. GHIRARDO, Diane Y. Arquitetura contemporânea: uma história concisa. Trad. Maria Beatriz de Medina, Editora Martins Fontes, São Paulo, 2002. GORSKI, Maria C. B. Rios e cidades ruptura e reconciliação. Editora SENAC, São Paulo, 2010. GONSALES, Célia H. C. Cidade moderna sobre cidade tradicional; movimento e expansão, parte 2. Arquitextos, nº 059.04, ano 05, abril de 2005. Em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/05.059/473 (acessado em 11/12/2013 ás 20h42). Governo do Estado de São Paulo. Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Regional. Em: www.planejamento.sp.gov.br, acessado em 15/10/2013 ás 8h30. Governo do Estado de São Paulo. 5ª Conferência Estadual das Cidades. Manual de Orientação da 5ª Conferência Municipal da Cidade. Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Regional. EMPLASA. São Paulo, 2013. 274 Governo do Estado de São Paulo. Lei Complementar Estadual nº 1.139, de 16 de junho de 2011. Governo do Estado de São Paulo. Agenda Metropolitana. Contribuição ao Conselho Consultivo da Sub-Região Sudoeste da Região Metropolitana de São Paulo. Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Regional. EMPLASA. São Paulo, 2012. Governo do Estado de São Paulo. Sumário dos Estudos sobre Economia Regional. Estudo realizado para a Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Regional pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. São Paulo, 2012. Governo do Estado de São Paulo. Secretaria de Desenvolvimento Metropolitano. Em: www.sdmetropolitano.sp.gov.br, acessado em 15/10/2013 ás 9h30. Governo do Estado de São Paulo. Secretaria de Desenvolvimento Metropolitano apresenta balanço das ações em seu primeiro ano. Em: www.saopaulo.sp.gov.br, acessado em 16/10/2013 ás 7hs. Governo do Estado de São Paulo. Alckmim extingue secretaria e decreta redução de custos. www.saopaulo.sp.gov.br/spnoticias/lenoticia.php?id=230264 Em: (acessado em 16/10/2013 ás 8h15). GRUEN, Victor. Centers for the urban environment. Ed. Van Nostrand Reinhold Company Regional Offices. Los Angeles, 1973. GHIRARDO, Diane Yvonne. Arquitetura contemporânea: uma história concisa. Tradução Maria Beatriz de Medina. Editora Martins Fontes, São Paulo, 2002. HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. 21ª edição. Edições Loyola, São Paulo, 2011. HEHL, Rainer. A convergência de micro e macroatores rumo a redes multiescalares para intervenções urbanas. Em: ROSA, Marcos L. Planejamento: práticas urbanas criativas. Editora Cultura. São Paulo, 2011. 275 JACOBS, Jane. Morte e vida das grandes cidades. Editora Martins Fontes, São Paulo, 2000. JACQUES, Paola Berenstein. Microrresistências urbanas: por um urbanismo incorporado. Em: ROSA, Marcos L. Planejamento: práticas urbanas criativas. Editora Cultura. São Paulo, 2011. KOOLHAAS, Rem. Exodus, or the voluntary prisoners of architecture. Perfect acts of architecture, 1972. KRUSE, Fabiana. Intervenções em centros urbanos: o caso da antiga área portuária de Porto Alegre. 2011. LANGRENEY, Brigitte; RIOLI, Regina Q. B. Recuperação de córregos urbanos da Barra Funda como contribuição para a mobilidade sustentável. Artigo nº 6. Em: Revista LABVERDE / Universidade de São Paulo. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Departamento de Projeto. LABVERDE – Laboratório Verde – volume 1, nº 5, São Paulo, FAUUSP, 2012. LAMAS, J. M. R. G. Morfologia urbana e desenho da cidade. Editora Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação para a Ciência e a Tecnologia e Ministério da Ciência e da Tecnologia, 2ª edição, Lisboa, 2000. Corporacion Antiguo Puerto Madero S.A. Em: http://www.puertomadero.com/index.php?idioma=3 (acessado em 15/05/2012 ás 10h20). LEED-ND 2009 for Neighborhood Development Rating System, 2011. LERNER, Jaime. Acupuntura urbana. Editora Record, 4ª edição, Rio de Janeiro, 2010. LUNA, Félix. Puerto Madero. Su historia. Em: Corporación Antiguo Puerto Madero. Puerto Madero. Ediciones Larivière, Buenos Aires, 1999, p.17-54. MACHADO, Aquilino. Os espaços públicos da exposição do mundo português e da EXPO’98 – vol.01. Editora Parque Expo, Lisboa, 1998. 276 MAGALHÃES, Andréia. Reabilitação urbana, experiências precursoras em Lisboa – vol.05 Editora Parque Expo. MARICATO, Ermínia. A bomba relógio das cidades brasileiras. Revista Democracia Viva, Rio de Janeiro: IBASE, vol. 11, pág. 3 á 7, 2001. MARICATO, Ermínia. Metrópole na periferia do capitalismo: ilegalidade desigualdade e violência. HUCITEC, São Paulo, 1996. MARTINS, M. L. R. Moradia e mananciais: tensão e diálogo na metrópole, Editora FAPESP FAUUSP, São Paulo, 2006. MINGUET, Josep M. Urban Eco Parks. Instituto Monsa de Ediciones. Barcelona, 2010. MOIX, Llàtzer. Barcelona: a cidade de Gaudí. Editora Triangle Postals SL., Menorca, 2008. MONTE-MÓR, Roberto Luís. As teorias urbanas e o planejamento urbano no Brasil. In: www.ufpa.br/epdir/images/docs/paper35.pdf, 2006. O GLOBO. 55 cidades concentravam 50% do PIB do Brasil em 2011, diz IBGE. Em: http://g1.globo.com/economia/noticia/2013/12/55-cidades-concentravam-50-dopib-do-brasil-em-2011-diz-ibge.html (acessado em 10/06/2013 ás 16h). Prefeitura do Município de Osasco. Pesquisa Inovadora sobre o Mercado de Trabalho do Município de Osasco. Caracterização econômica do município de Osasco: uma análise dos principais aspectos da economia municipal dos anos 2000. Estudo realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE). Osasco, 2012. Prefeitura do Município de Osasco. Realizações e Perspectivas 2. SEHDU 20092012. RESCHILIAN, Paulo Romano. Gestão Democrática da metrópole na periferia do capitalismo. Em Cadernos Metrópoles, São Paulo, v. 12, n.23, PP. 277-290, jan/jun 2010. 277 Revista AU. Edição especial sustentabilidade: a cidade e as águas. Revista AU, nº 234, ano 28, de setembro de 2013. RIGHI, Roberto. Desenho urbano e planejamento de centros urbanos – uma reflexão sobre o caso de São Paulo. Dynamis (Blumenal, SC), v.2, n.33, out/dez 2000, p.29-35. RIGHI, Roberto; CASTRO, Luiz Guilherme Rivera de. A edificação como produto imobiliário no desenvolvimento da arquitetura contemporânea em São Paulo. Em: DUARTE, Cristiane Rose et ali. O lugar do projeto: no Ensino e na Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo. Rio de Janeiro, 2007. RIGHI, Roberto; DINIS, Henrique. O automóvel e o desenvolvimento regional metropolitano de São Paulo, Brasil. Em: BALEIRAS, Rui Nuno. Casos de desenvolvimento regional. Cascais, Principia, 2011. RIGHI, Roberto; BRUNA, Gilda. A ocupação periférica, o transporte individual e a crise da sustentabilidade urbana. Em: Cadernos de pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo, vol. 9, p. 1 e 2. ROLNIK, Raquel. O que é a cidade? Editora Brasiliense. Colação primeiros passos. São Paulo, 2004. ROSSI, Aldo. A arquitetura da cidade. Tradução Eduardo Brandão. 2ª edição. Editora Martins Fontes, São Paulo, 2001. RUBANO, Lizete Maria (org.). RUBANO, Lizete Maria; FERREIRA, Marcela Alonso (coord.). Hipóteses do real. Concursos de arquitetura e urbanismo. Vigliecca & Associados. 1ª edição. São Paulo, 2012. RUBANO, Lizete Maria. Quando a metrópole eclipsou a arquitetura... In: Revista Monolito. Edição nº. 16: Héctor Vigliecca, de agosto/setembro de 2013. Editora Monolito. São Paulo, 2013. SALGUEIRO, Teresa Barata. Novos produtos imobiliários e reestruturação urbana. In: Finisterra, XXIX, 57, pp. 79-101, Lisboa, 1994. SANTOS, Mariana Feres dos; ABASCAL, Eunice H. S. Certificação LEED e arquitetura sustentável: Edifício Eldorado Business Tower. Arquitextos, São 278 Paulo, ano 12, nº 140.03, Vitruvius, jan. http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/12.140/4126 2012. Em: (acessado em 02/12/2013 ás 21hs). SAVELLI, Alfredo Mario. Estratégia para o aperfeiçoamento dos mecanismos extra-tributários voltados à melhoria urbanística no município de São Paulo. Tese de doutorado em arquitetura e urbanismo no Mackenzie. São Paulo, 2009. SEGRE, Roberto. Espaço público e democracia: experiências recentes nas cidades da América Hispânica. Arquitextos, nº 060.04, ano 05, maio de 2005. Em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/05.060/461 (acessado em 14/10/2012 ás 22h40). SCHERER, Fabiano Vargas – Aspectos Urbanísticos da EXPO’98 Lisboa. 2003. Em: http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq097/arq097 00.asp (acessado em 06/04/2011 as 17h). SECRETARIA DO DESENVOLVIMENTO METROPOLITANO. http://www.sdmetropolitano.sp.gov.br/portalsdm/legislacao.jsp Em: (acessado em 10/11/2013 ás 19hs) SERAPIÃO, Fernando; GRUNOW, Evelise. “Nesta entrevista, o arquiteto e urbanista fala sobre sua trajetória e os prós e contras de projetar na escala urbana”. Entrevista com Hector Vigliecca em 25 de maio de 2009, publicado originalmente em ProjetoDesign, edição 349, de março de 2009. Retirado de www.arcoweb.com.br/entrevista/hector-vigliecca-nesta-entrevista-25-05-2009.html (acessado em 21/09/2013 ás 9h30). SERAPIÃO, Fernando. O maratonista. In: Revista Monolito. Edição nº. 16: Héctor Vigliecca, de agosto/setembro de 2013. Editora Monolito. São Paulo, 2013. SIQUEIRA, Mariana. O resgate de um rio urbano. Em: Revista AU, ano 26, nº 212, novembro 2011. SIQUEIRA, Mariana. Entrevista com Alexandre Delijaicov. Infraestrutura das mentalidades. Em: Revista AU, nº 234, ano 28, de setembro de 2013, página 72. 279 SILVA, Fernando Nunes. “Mobilidade à escala metropolitana: da linha à rede intermodal” Em: retirado de palestra realizada na PUC em 16/04/2012 com o arquiteto e Secretário de Mobilidade de Lisboa. SILVA, H. M. B., CASTRO, C. M. P. Vazios urbanos – requalificando o problema na Grande São Paulo. Seminário Internacional sobre Vazios Urbanos: Novos Desafios na Grande São Paulo, Rio de janeiro, 1999. SMITH, Neil. Tradução: Daniel de Mello Sanfelici. Gentrificação, a fronteira e a reestruturação do espaço urbano. In: GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, nº 21, pp. 15-31, 2007. SOLÀ-MORALES, Ignasi. Territórios. Editora Gustavo Gili, Barcelona, 2002. SOMEKH, Nadia; CAMPOS, Candido Malta (org.). A cidade que não pode parar: planos urbanísticos de São Paulo no século XX. Editora Mackenzie, Mackpesquisa 2012 (1ª edição), 2008 (1ª reimpressão), São Paulo, 2002. SOMEKH, Nadia. Projetos urbanos e Estatuto da Cidade: limites e possibilidades. Em: Arquitextos, ano 9, jun 2008. TEIXEIRA, Celso. O papel das políticas públicas no desenvolvimento local e na transformação da realidade. Retirado do site www.dhnet.org.br/dados em 10/04/2012 as 20hs. Universidade Federal da Bahia, 2002. TSUKIO, Yoshio. O significado do desenvolvimento das frentes aquáticas contemporâneas. Revista Process: Architecture - Waterfront, nº52, Tokyo, Japão, 1984. ULTRAMARI, Clóvis; REZENDE, Denis Alcide. Grandes projetos urbanos: conceitos e referenciais. Ambiente construído, 2008. VAZ, Lilian Fessler; SILVEIRA, Beatriz Silveira. Áreas centrais, projetos urbanísticos e vazios urbanos. Em: Revista Território, Rio de Janeiro, ano IV, n. 7, p. 51-66, julho á dezembro, 1999. VIANINI, Fernando. A trajetória econômica da Argentina: 1989-2007. (Dissertação de Mestrado). Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2012. 280 VILLAÇA, Flávio. Espaço intra-urbano no Brasil. Editora Studio Nobel, FAPESP, Lincoln Institute, São Paulo 2001. WALL, Edd; WATERMAN, Tim. Urban design. Basics Landscape Architecture. Vol.01, Editora Ava Academia, 2010. ZEIDLER, Ederhard H. Arquitectura plurifuncional em El contexto urbano. Editora Gustavo Gili, Barcelona, 1985. www.ccdrc.pt (acessado em 29/10/2012 ás 15h) www.mc30.es (acessado em 14/06/2013 ás 17h20) www.puertomadero.com (acessado em 10/05/2013 ás 20h40) www.tschumi.com (acessado em 15/12/2013 ás 20h20).