Visão Trabalhista 1968: Memórias de uma História de Luta A semana de comemorações do aniversário de 40 anos da Greve de Osasco começa com o lançamento do documentário: “1968: Memórias de uma História de Luta”, produzido pelo nosso Sindicato. O documentário traz depoimentos dos protagonistas da greve, que contam os bastidores da mobilização e avaliam o papel do movimento para a história dos trabalhadores do país. Na quarta-feira, 16, ainda haverá a abertura da exposição “Direito à Memória e à Verdade: a Ditadura no Brasil 1964-1985” da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República. Outro destaque é a peça “68+40”, do grupo Boca de Pano, que aborda o movimento e a sua importância para o país. Participe e conheça a história da greve que afrontou a ditadura. Programação Dia 16 - Ato Político pelos 40 anos da Greve de 1968 Abertura da Exposição “Direito à Memória e à Verdade: a Ditadura no Brasil 1964-1985” da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República. Apresentação do documentário “1968: Memórias de uma História de Luta” Local: Centro de Formação dos Professores Horário: 19h Dia 17 – Debate: A participação das mulheres na greve Coordenação: Ana Maria Gomes – (prof. Sociologia da Universidade Federal de Campo Grande) Convidados: Maria Aparecida Baccega (professora livre docente da ESPM), Helena Novais, Sônia Miranda, Albertina Cândido; Maria do Rosário Jiorjan (Zaia) (esposas de metalúrgicos participantes da greve). Horário: 19h Local: Centro de Formação dos Professores Dia 18 - Inauguração do Memorial aos Companheiros Mortos pela ditadura militar: Jose Campos Barreto, João Domingues Da Silva e Dorival Ferreira Presença do ministro Paulo de Tarso Vannuchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República Local: Largo de Osasco Horário: 18h Dia 18 – Debate: O Movimento Estudantil e a greve Coordenação: Jorge Nazareno (presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e Região) Convidados: José Dirceu (ex-ministro da Casa Civil), Roque Aparecido da Silva (coordenador de Relações Internacionais do Município de Osasco) e Antonio Roberto Spinosa (jornalista e professor de Relações Internacionais da FESP-SP) Horário: 19h Local : Centro de Formação dos Professores Dia 19 - Estréia do Espetáculo “68 +40” - Grupo Boca de Pano Local: Teatro Municipal de Osasco Horário: 20h30 - entrada franca (ingressos devem ser retirados no Teatro com 1h de antecedência) Visão Trabalhista Dia 20 - Apresentação do Espetáculo “68 +40” - Grupo Boca de Pano Local: Teatro Municipal de Osasco Horário: 20h30 - entrada franca (ingressos devem ser retirados no Teatro com 1h de antecedência) Dia 21 – Debate: Impactos da Guerra do Vietnã, da Revolução Cubana e de Che Guevara na Conjuntura de 1968 Coordenação: Stanislaw Szermeta (coordenador do Instituto Zequinha Barreto) Convidados: Marco Aurélio Garcia (assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva), Luiz Edgard Andrade (jornalista correspondente da revista Manchete na Guerra do Vietnã) Local : Centro de Formação dos Professores Horário: 19h Dia 22 – Palestra: Martin Luther King e o Movimento Negro nos EUA Palestrante: Maria Aparecida Silva Bento (diretora executiva do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdade) Local : Centro de Formação dos Professores Horário: 19h MEMÓRIAS DE UMA HISTÓRIA DE LUTA Eleição da Chapa Verde para a direção do Sindicato, greve em Contagem (MG), 1º de maio na Praça da Sé. Esses são alguns dos fatos que compunham o cenário no qual a Greve de Osasco foi articulada. Uma greve organizada para cobrar 35% de reajuste e melhorar a situação dos metalúrgicos, mas principalmente, uma greve para afrontar a ditadura, que restringia e oprimia a maioria dos brasileiros. Conheça a história do movimento que completa 40 anos nesta quarta-feira, 16. FOTOS: AGÊNCIA ESTADO E EDUARDO METROVICHE Greve de 1968 dos metalúrgicos de Osasco: um marco na história da organização dos trabalhadores no Brasil Visão Trabalhista DIRETORIA DO SINDICATO DOS METALÚRGICOS DE OSASCO E REGIÃO O ano de 1968 foi de grande efervescência política no mundo todo. No Brasil, o momento político era extremamente duro para os trabalhadores, que sofriam com o arrocho salarial, a falta de liberdade política e a constante vigilância tanto nos locais de trabalho quanto nas suas entidades de representação. Desde o Golpe Militar de 1964, o movimento sindical enfrentava grandes dificuldades em se organizar: a repressão, o fechamento dos sindicatos, as intervenções nas entidades, as prisões, as cassações, a Lei de Greve, o fim das negociações salariais entre sindicatos e o patronato, o fim da estabilidade e a censura prévia eram obstáculos que levavam à desmobilização e ao esvaziamento das atividades sindicais. Entretanto, os trabalhadores de maneira discreta procuravam se reorganizar e resistir. A luta contra o arrocho salarial era a principal bandeira. A constituição do MIA (Movimento Intersindical Anti-Arrocho), em 1967, foi uma tentativa de organização conjunta de várias categorias contra a compressão salarial. Como sempre ocorre em momentos de grandes tensões políticas e econômicas, foi intensa a disputa entre as diferentes propostas para o futuro de nosso País e, conseqüentemente, do movimento sindical. De um lado, uma corrente defendia que a campanha AntiArrocho deveria ser conduzida pelos sindicatos e outra corrente, encabeçada pelos metalúrgicos de Osasco e região, defendia a criação de comissões de fábrica para fortalecer o movimento. Naquele ano, as eleições sindicais foram marcadas pelo surgimento de uma chapa de oposição encabeçada pelo então presidente da Comissão de Fábrica da Cobrasma, o companheiro José Ibrahin, que foi eleito presidente do Sindicato. A insatisfação com a ditadura militar não se restringia às manifestações do movimento estudantil e da intelectualidade nas ruas das principais cidades brasileiras. Em abril de 1968, os companheiros da Belgo Mineira, em Contagem (MG), paralisaram suas atividades contra o arrocho salarial. A greve logo se estendeu pela Mannesmann, SBE, Acessita e várias outras empresas atingindo cerca de 16 mil trabalhadores. Os companheiros reivindicavam 25% de reajuste salarial e melhoria das condições de trabalho. Depois de ocupar a Cidade Industrial com um aparato militar de 1.500 homens, o governo concedeu reajuste de 10% a todos os trabalhadores brasileiros. Em Osasco, os metalúrgicos da Barreto Keller se mobilizaram por equiparações e reajuste salarial e equiparações durante todo o mês de maio, que levaram a uma aceitação parcial de suas reivindicações salariais. No início do junho, a empresa não pagou o acordado. Com o apoio do Sindicato, os trabalhadores cruzaram os braços e conseguiram 15% de reajuste e o reconhecimento da Comissão de Empresa. O clima de insatisfação crescia dentro das fábricas. Em julho de 1968, poucos dias antes do Sindicato completar cinco anos de fundação, os companheiros da Cobrasma cruzaram os braços. Quando a sirene da fábrica tocou, logo depois das oito horas da manhã, era o sinal para a paralisação interna que marcou a história do sindicalismo brasileiro, com a permanência dos trabalhadores parados dentro da empresa. No final da manhã, também os companheiros da Lonaflex, Granada e Barreto Keller paralisaram suas atividades. Naquele mesmo dia a greve foi declarada ilegal pela Delegacia Regional do Trabalho, enquanto o Conselho de Segurança Nacional se reunia para estudar a possibilidade de decretar estado de sítio. Na tarde do dia 16, as forças militares transformaram Presidente Altino num palco de guerra. À noite, a fábrica foi invadida pelo aparato militar, que obrigou os trabalhadores a deixar o local e prendeu os companheiros mais expressivos. Logo depois, o Sindicato foi invadido pela polícia, que prendeu o então vice-presidente Otaviano Pereira dos Santos e lacrou a nossa sede, mesmo antes da portaria de intervenção. A repressão impediu que o movimento grevista continuasse. O Sindicato estava fechado, sua diretoria destituída, a sede ocupada e inúmeras prisões haviam sido feitas. As lideranças dos trabalhadores da Cobrasma foram demitidas pela empresa, incluindo o então presidente do Sindicato. Após 40 anos, relembrar o movimento dos companheiros metalúrgicos que entrou para a história social deste País como “a Greve de Osasco”, exemplo de manifestação dos trabalhadores contra as regras impostas pela ditadura militar, significa reassumir nosso compromisso com a organização dos trabalhadores no local de trabalho, com a luta permanente por melhores condições de trabalho e por uma vida mais digna para os metalúrgicos de Osasco e região. Al di lá e a Greve de 68 Antonio Roberto aEspinosa - Jornalista Por distração ou vingança, sei lá, as cidades às vezes se esquecem de algumas de suas personagens. Solicitado a analisar o noticiário da greve de 68, vou mudar de assunto e falar de uma pessoa morta há uns quinze anos. De resto, na época a mídia era diferente, o mundo ainda não estava globalizado e basta reproduzir em fac-símiles as não mais de uma dúzia de reportagens dos jornais O Estado de S.Paulo, Jornal da Tarde e Notícias Populares (NP). Em duas pinceladas – uma pessoal e a outra pública – vou tentar traçar um perfil do Martins, que antes da greve era gerente do Cine Estoril e, depois dela, tornou-se conhecido também como correspondente do NP. Primeira pincelada: o beijo abortado na matinê. Era 1963 e o Estoril exibia Candelabro Italiano, com Angie Dikinson, Troy Donahue e Suzane Pleshette, num tour apaixonado de lambreta, ao som de “Arrivederci Roma”, de Lanza Mario. Era a primeira vez que saía com uma garota e a primeira das Ritas que passariam pela minha vida. Ao som de “Al di la”, por Pepino di Capri, de mãos dadas, rostos já colados, fomos surpreendidos pelo farolete e um comando metálico: “Não pode beijar aqui não. Seu pai vai saber”. Fazendo as vezes de lanterninha, o próprio gerente do cinema. Foi brutal para ela, filha de um suboficial do GCan 90. Tremeu e chorou o resto da tarde... Segunda pincelada: a falácia da “capital da violência”. “Bode preto estupra moça loira em Osasco”, título se não me engano de 1982. Toda segunda-feira, o dia de maior circulação, a manchete principal do NP deveria conter a palavra Osasco. Era a regra da casa e o Martins fornecia a matéria-prima. Assim ganhamos a fama de periferia violenta. Por aqui passeou o impagável Bebê Diabo e nos bailes do Cobraseixos fazia sucesso uma loira fatal com o orifício das orelhas tapado por algodão. Uma das matérias dizia que o então (e hoje novamente) vereador Bognar chegou a dançar com ela... Os “fatos” noticiados nem sempre haviam acontecido em Osasco, mas eram convocados a construir sua imagem. Na maioria dos casos, sequer haviam ocorrido (nunca houve relação entre as notícias dos jornais sensacionalistas e a verdade das estatísticas oficiais da Polícia). É que a ênfase da mídia era uma das três frentes de combate à greve: a primeira, as prisões e a lista negra das lideranças; a segunda, a construção de muros para impedir a circulação de operários nas empresas; a terceira, as “notícias” para caracterizar a cidade como esconderijo de homicidas e tarados. Afinal, somente celerados ousariam uma greve por salários ou contra a democracia da ditadura. Ainda hoje me indago por que, com a carreira já feita, voltei a Osasco, trocando um dos cargos mais cobiçados da imprensa pelas incertezas de aqui montar um jornal. Penso que estava indignado e acreditava ter a força de trabalho para buscar uma maior correspondência entre as notícias e os fatos. Mas também imagino que talvez tenha sido atraído pela busca de uma aventura impossível, o gosto do beijo que não houve ao som de uma canção italiana dos anos 60... Visão Trabalhista EDIÇÃO ESPECIAL DE COMEMORAÇÃO DOS 40 ANOS DA GREVE DE 1968 • 9 4 • EDIÇÃO ESPECIAL DE COMEMORAÇÃO DOS 40 ANOS DA GREVE DE 1968 direção do Sindicato. Daí que a organização da greve foi muito mais fácil, porque ela foi estudada no Sindicato. Quais eram as condições de trabalho, como estava o trabalhador na época? As condições de trabalho na Cobrasma, com a presença da comissão de fábrica, eram relativamente boas. As nossas reivindicações eram atendidas. [Mas] havia um arrocho salarial terrível e a pessoa não tinha como reivindicar aumento de salário. Tudo aquilo ajudou um pouco a deflagrar a greve. [A gente] achou que uma das reivindicações era os 35% de aumento já. Esse era um motivo. Mas é evidente que tinha um questionamento ao sistema. “Faria tudo de novo”, diz José Groff O que aconteceu com o senhor após a chegada da repressão na Cobrasma? Fui preso, fiquei oito dias no Dops [Departamento de Ordem Política e Social], lá houve uma tortura psicológica, não física. Depois fui para a Polícia Federal, na Av. Liberdade [em São Paulo]. Apanhei. Depois fui para a r. Piauí [no bairro de Higienópolis]. Fiquei 40 dias preso. É difícil esquecer a tortura moral. Mas, se fosse preciso fazer, faria tudo de novo. Não estou arrependido. Presidente da comissão de fábrica da Cobrasma, José Groff, conta na entrevista a seguir a importância que o trabalho conjunto entre a comissão e o Sindicato teve para a realização da greve. Groff fala também da repressão e do orgulho de ter participado da greve. “Faria tudo de novo”, afirma. fábrica, mas com a vitória da Chapa Verde, essa união entre Sindicato e comissão foi muito melhor, com a chegada do José Ibrahin à direção. Ele foi presidente da comissão. Não era só ele, o João Cândido foi da comissão, o João Joaquim, todos foram eleitos para a Mesmo assim, depois de liberado, o senhor não parou de militar? Continuei mais forte ainda. Se eles queriam matar “a erva daninha”, foi o contrário, colocaram adubo. Cheguei em casa e descansei. No dia seguinte, fui numa reunião de apoio aos grevistas, no Km 18. Pensávamos em organizá-las para levarem apoio moral, alimento, cobertor e as crianças para que vissem os pais. Porém, não prevíamos a invasão policial. Fui para a Maternidade São Paulo na madrugada de 17 de julho, minha filha nasceu ao meio dia. O pai dela me internou lá, depois voltou para a Braseixos. Os companheiros o interpelavam: “Do outro lado da rua, a Cobrasma está parada. E nós, não vamos parar?”. Não estava prevista a paralisação, mas como eram muitos os que perguntavam, ele disse: “Tudo bem, vamos parar também”. Depois disso ele foi preso com mais uns trinta. Encontramo-nos quase uma semana depois, quando ele conheceu, enfim, a filha a quem demos o nome de Denise Liberdade por sugestão do Pe. Pierre Vautier que foi expulso do Brasil, alguns dias depois. ENTREVIS TA ENTREVISTA Visão Trabalhista - Qual foi o papel da comissão de fábrica da Cobrasma na greve? José Groff – A comissão de fábrica sempre esteve junto com o Sindicato. As direções sindicais antes não tinham nenhum compromisso com a comissão de As mulheres na greve. Um breve relato Visão Trabalhista Sônia Maria Bulhões Miranda – aposentada. Era esposa de Joaquim Miranda, diretor do Sindicato na época da greve. Trabalhei na Cobrasma de novembro de 1964 a dezembro de 1966, quando me casei e fui despedida pelo grande “crime” que à época era o casamento. Fui obrigada a fazer um acordo, perdendo parte dos direitos. Uma violência. Quando conheci o meu marido, Joaquim Miranda, ele já fazia parte do Sindicato dos Metalúrgicos. Ele participava de reuniões na sede e eu o acompanhava. Muitas vezes, era a única mulher no meio da companheirada. A gente se casou no final de dezembro de 1966 e nos integramos à Ação Católica Operária, cujo coordenador era o ainda diácono Pierre Vautier. Ele trabalhava na ferramentaria da Braseixos, era colega de trabalho do Joaquim. Na época do 1º de maio de 1968, já fazia parte de uma comissão das mulheres dos sindicalistas. Eram as seguintes mulheres: Albertina Cândido, Maria do Rosário Jiorjan (Zaia), Maria, Mara, Maria Siboto, Jandira, Berenice, Santina. A Santina trabalhava no restaurante da Cobrasma, e quando deflagaram o movimento, as mulheres foram liberadas para sair, se quisessem. Ela chamou as colegas e pediu que ficassem para fazer a comida dos companheiros porque todas elas tinham parentes operários e julgavam a greve justa. Todas atenderam esse apelo. Isso foi de grande importância. Quando a comissão de fábrica decidiu que haveria greve, essas mulheres, sob a orientação da Albertina Cândido, começaram a discutir a forma de dar um suporte logístico aos companheiros. Isso porque, a mulheres em geral tinham receio de que os maridos ficassem desempregados; por isso, geralmente, eram contra a greve. ENTREVIS TA ENTREVISTA “O princípio estratégico do Sindicato era chegar ao confronto com a ditadura”, diz Ibranhin Um sindicato com compromisso de luta faz toda a diferença para a categoria e para o País. Essa é uma das lições que se tira do depoimento do presidente do Sindicato que liderou a greve: José Ibrahin. O Sindicato, comandado pela Chapa Verde, fazia do trabalho de base a estratégia contra a opressão da ditadura militar. “Nós queríamos recolocar o nosso Sindicato numa posição de luta em defesa dos direitos dos trabalhadores, que passava fundamentalmente pelas liberdades democráticas, pelos direitos sindicais”, diz Ibrahin na entrevista a seguir. A conseqüência desse trabalho foi a greve que tornou nosso Sindicato referência nacional e internacional. Visão Trabalhista - Qual foi o papel do Sindicato na organização da greve e no pós-greve? Ibrahin - Tínhamos sofrido o golpe de 1964, nosso sindicato era bastante jovem. Tivemos uma primeira diretoria que foi a do companheiro Conrado Del Papa e, logo em seguida, veio a intervenção. Assumimos anos depois da intervenção [em 1967]. Tínhamos uma visão de esquerda de que o Sindicato tinha que jogar um papel de vanguarda na mobilização dos trabalhadores, na resistência contra a ditadura, pelas liberdades democráticas, contra o arrocho salarial, pelo emprego, pelo direito de greve, enfim, pelas liberdades sindicais. Era a plataforma da Chapa Verde. Foi isso que fizemos: organizamos as comissões de fábrica, já tínhamos na Cobrasma e fizemos em outras fábricas, mobilizamos os trabalhadores e nos confrontamos com a legislação restritiva e arbitrária da ditadura. Tanto é que não esquentamos a cadeira. Ficamos exatamente um ano, foi o período que nos bastou para ir para o confronto com a ditadura. A semente da greve nasceu na comissão de greve da Cobrasma? A comissão também é reivindicada por outros grupos. Sônia (esq.) e as mulheres da comissão apoiaria a ocupação da Cobrasma. À direita, Denise Liberdade Aos 20 anos (esq.), Ibrahin foi o líder da greve, que analisa como um acerto A comissão de fábrica nasceu antes, aliás, foi o start para a gente ganhar o Sindicato. Os grupos que reivindicam têm toda razão, mas ali não foi trabalho de duas mãos nem de quatro mãos, foi de várias mãos. Tinha a Frente Nacional do Trabalho, o pessoal do antigo Partido Comunista, tínhamos nós, que nos intitulávamos Grupo de Esquerda de Osasco, os grupos trotskistas, várias influências. Mas quem começou mesmo a organização da Comissão de Fábrica da Cobrasma foram a Frente Nacional do Trabalho e nós, do Grupo de Esquerda de Osasco. Como foi o processo de articulação da greve? Havia as reivindicações específicas porque para organizar as comissões de fábrica, nas várias fábricas que nós organizamos, a partir da experiência da Cobrasma, tínhamos que ter reivindicações específicas. Nossa tática era começar pelas reivindicações específicas de cada empresa para sensibilizar o pessoal e, a partir daí, subir no patamar, até chegar às questões políticas. O princípio estratégico do Sindicato era chegar ao confronto com a ditadura, mesmo porque todos nós estávamos vinculados a organizações políticas que tinham o objetivo da luta contra a ditadura. Como vocês decidiram fazer a greve? Tem alguns que falam que a melhor data era novembro, mas que se adiantou. Todo o nosso trabalho e a minha visão pessoal é que o momento certo seria novembro porque era época de mobilização para renovação dos acordos salariais. Só que a conjuntura não segue muitas regras. Teve o 1º de maio, começaram várias dispensas, perseguições de lideranças de fábrica, a partir da comissão de fábrica da Cobrasma. Tinha um acordo desde 1965 de que o eleito na comissão de fábrica tinha imunidade. Eles começaram a mandar embora, perseguiram. Teve o 1º de maio da Praça da Sé, que foi a pauleira, nós ocupamos o palanque, o [governador Abreu] Sodré levou pedrada, queimamos o palanque, saímos em passeata. A maioria das 20 mil pessoas que estava lá era de Osasco, que o Sindicato mobilizou. Como eu era orador para falar e eu me recusei a subir naquele palanque, dizendo que aquele palanque era da ditadura, lógico que nós fomos cupabilizados pelos incidentes da Praça da Sé. A primeira coisa que o delegado regional do trabalho, a mando do [ministro do Trabalho na época] Jarbas Passarinho, fez foi pedir meu afastamento do Sindicato. Fui afastado da presidência, em maio. A proposta do Ministério era que a diretoria votasse meu afastamento definitivo e ai ficava tudo bem. Lógico que a diretoria não aceitou. O MIA [Movimento Intersindical Anti-Arrocho] foi solidário também. Teve essa pressão que aumentou o clima. Comecei a avaliar que a gente não agüentaria até novembro. Eles já estavam infiltrando muita gente nas fábricas. Depois, a pressão nas fábricas era a seguinte: vocês falam em greve e agora? Os caras dizem que não vão dar aumento, só vão discutir no ano que vem. Fizemos alguns contatos. Achava que a gente podia ser o detonador de um processo que podia ser amplo, que ia obrigar o governo a fazer concessão. Entre o período de maio e junho, fui para o Rio de Janeiro, Minas Gerais (Contagem), Baixada Santista, para o ABC conversei com quem eu pude, dizendo: vamos fazer. Vocês vão junto? Se fosse em novembro, seria diferente, mas >> tudo pressionou. Visão Trabalhista EDIÇÃO ESPECIAL DE COMEMORAÇÃO DOS 40 ANOS DA GREVE DE 1968 • 5 8 • EDIÇÃO ESPECIAL DE COMEMORAÇÃO DOS 40 ANOS DA GREVE DE 1968 6 • EDIÇÃO ESPECIAL DE COMEMORAÇÃO DOS 40 ANOS DA GREVE DE 1968 Visão Trabalhista Você tinha 20 anos naquela época. Para você, o que foi ver milhares de trabalhadores parar? Era um objetivo e ao mesmo tempo era um sonho. No dia da greve, da ocupação, entrei na Cobrasma para fazer um discurso com a fábrica já ocupada. Era um mar de gente, uma emoção muito grande. Mas eu também pensava em outras coisas, queria saber se no dia seguinte a Brown Boveri, a Braseixos iam parar, se ia dar certo. O que podia acontecer? Logicamente, nessa noite eu não dormi. Se em função da repressão na Cobrasma, no primeiro dia, os outros recuassem, ia ser uma derrota. No dia seguinte, com a Cobrasma ocupada, os jornais diziam: “A greve acabou”, “600 pessoas presas dentro da Cobrasma”, “Sindicato sob intervenção”. [Mesmo assim] pararam a Brown Boveri, Braseixos e a Cimaf se mobilizou para parar também. Ganhamos. O pessoal não recuou. Qual foi o papel dos outros grupos: Frente Nacional do Trabalho, católicos, estudantes, grupos que defendiam a luta armada? Dentro do Sindicato a correlação de forças era eu e o pessoal da Frente Nacional. Tinha a vantagem que ao longo do período de 1964 a 68, construímos um grupo político em Osasco que extravasava a questão do Sindicato, que entrava em várias áreas, no movimento estudantil, em Diretoria do Sindicato em 1968: Presidente - José Ibrahin Diretores Octaviano Pereira dos Santos João Batista Cândido João Joaquim da Silva José Eduardo Freitas de Almeida José Ferreira Batista Osvaldo Leal de Oliveira Odim Jiorjon Joaquim Miranda Sobrinho Valdomiro Ruiz Mansilha Benedito Vieira Maurício Barca Pedro Tintino da Silva Clóvis Ferreira Batista Adalto Ferreira Antonio Leme Mourão Cícero Ferreira Inácio Pereira Gurgel Rubens Lins de Azevedo Carlos Heubel Sobrinho José Pedro de Araújo Vardely Ferreira Ramos José Pereira dos Santos José Agustinho Apolinário José de Mello Sobrinho Eram trabalhadores das empresas: Cobrasma, Mecânica Sampson, Brown Boveri, Osram do Brasil, Braseixos Rockwell, Cimaf e Lonaflex movimentos culturais. Eu estava dentro do Sindicato, mas tinha articulação com várias pessoas. Isso me dava uma vantagem porque conseguia ter uma visão muito mais avançada do que os outros companheiros que estavam só no movimento sindical, só dentro da fábrica. Tinha uma articulação política maior e um respaldo. A maioria da diretoria era moderada, pensava que era melhor ganhar tempo e esperar um pouco mais. Acho que, primeiro, eu era mais atirado mesmo, mas eu é que estava certo porque se demorasse mais a gente ia cair sem ter feito o que fizemos. Qual foi o legado da greve? Se não houvesse Osasco de 1968, não haveria o ABC de 78. Sinalizamos um caminho que o movimento sindical tinha que brigar pela resistência contra a ditadura, pela democracia. Esse foi o grande legado. Tanto é que durante todo o período da resistência a grande referência era a greve de Osasco e acho que hoje, para muita gente dentro do movimento sindical, a greve de Osasco é o grande marco. Osasco 1968: Lutas Operárias e Estudantis Roque Aparecido da Silva coordenador de Relações Internacionais da Prefeitura de Osasco Nos anos 60 em Osasco não tinha muito como separar as lutas dos estudantes e dos operários. Foi forte a presença do “operário-estudante”, particularmente entre as principais lideranças dos movimentos. Pessoas que trabalhavam nas fábricas durante o dia e estudavam à noite. Basta dizer que em 1965, quando os estudantes secundaristas fundaram o Círculo Estudantil Osasquense (CEO), que congregava os grêmios dos ginásios e colégios do município, foi eleito Presidente o Companheiro José Campos Barreto, então trabalhador da Lonaflex, cursando o colegial à noite. Eu, Roque Aparecido da Silva, que cursava o ginásio à noite e trabalhava na Cobrasma durante o dia, fui eleito vice-presidente. Em 1967 José Ibrahim, que foi eleito Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, também cursava o colegial à noite. Ao mesmo tempo, integravam o “Grupo de Esquerda”, que a partir de 1966 conquistou ampla hegemonia, não só no movimento estudantil, como também no movimento operário e sindical. O Movimento Estudantil de Osasco sempre teve um forte envolvimento com os acontecimentos políticos e sociais da cidade. Já nos anos 1950 teve significativa participação nas lutas pela emancipação, finalmente conquistada em 1962. Nessas lutas, que tiveram a participação de empresários, comerciantes, profissionais liberais, sindicatos, associações de bairros, consolidou-se uma forte identidade coletiva com a cidade, que marcou muito as lutas dos anos 60. O movimento estudantil, além das lutas especificas em cada escola e da organização de atividades culturais e esportivas envolvendo os estudantes, manteve uma atitude de permanente vigilância sobre os poderes públicos e as autoridades locais, que acabavam de se constituir. Nas eleições de 1966, mesmo com o chamamento da esquerda revolucionária para o voto nulo, o “Grupo de Esquerda” assumiu posição diferenciada nas esferas federal, estadual e municipal. Depois de muitas discussões, resolveu apoiar o voto nulo nas eleições federal e estadual. Porém, participou das eleições municipais, inclusive com candidatos próprios para vereador. O candidato a prefeito pelo MDB era Guaçu Piteri, que aceitou negociar com as lideranças o apoio do movimento estudantil e da “oposição sindical”. Dentre outros compromissos, caso fosse eleito, nomearia em seu gabinete um representante dos estudantes e um dos trabalhadores para fiscalizar a administração por dentro. Com tal acordo, houve uma participação ativa de trabalhadores e estudantes no processo eleitoral local, elegendo dois vereadores e contribuindo para a eleição do prefeito, que respeitou os compromissos até abril de 1968, quando o Coronel Lepiani, comandante do 4º Regimento de Infantaria, em Osasco, exigiu minha exoneração do representante dos estudantes, acusando-me de subversivo. Com a exoneração, houve a ruptura do movimento estudantil com o prefeito. Fatos e versões sobre a Greve de Osasco Protagonistas da Greve de Osasco foram convidados pelo Sindicato a contarem os bastidores e as razões da greve para o documentário “1968: Memórias de uma História MAPA DA GREVE: Ilustração publicada no Jornal da Tarde, em 17 de julho de 1968, mostrava o número e a localização de fábricas mobilizadas na cidade de Osasco. Mobilização parou algumas das principais empresas da cidade. de Lutas”, que será lançado em breve pelo Sindicato. Os protagonistas foram entrevistados pelos jornalistas Renato Rovai, Sergio Gomes, Roberto Espinosa, Cristiane Alves e João Franzin. A intervenção do Coronel Lepiani ocorreu após manifestações de rua realizadas pelos estudantes secundaristas, organizados pelo CEO. Logo após o assassinato do estudante Edson Luiz, em 28 de março, no Rio de Janeiro, o CEO organizou uma primeira passeata estudantil em Osasco, mobilizando aproximadamente 3 mil estudantes. Nessa oportunidade houve um primeiro telefonema do coronel ao prefeito, exigindo a minha exoneração. Dez dias depois houve outra manifestação,organizada pelo CEO, em conjunto com a UNE e União Estadual dos Estudantes (UEE), na época presidida por José Dirceu, e com apoio das oposições sindicais. Foi uma grande manifestação, que mobilizou mais de 8 mil pessoas. Para se ter uma idéia do clima no protesto, basta dizer que ao mesmo tempo em que se denunciava a repressão, exigindo liberdades democráticas, denunciava-se também o imperialismo, em solidariedade com o povo do Vietnã. Na cabeça da passeata estava a bandeira da Frente de Libertação Nacional (FLN), do Vietnã. Este foi o pingo d’água para o coronel exigir a minha exoneração. Estas mobilizações estudantis contribuíram muito para criar o clima favorável à greve operária de julho. Visão Trabalhista Qual foi o seu papel e o papel do Sindicato durante a greve? O meu papel era, primeiro, que eu e alguns companheiros tínhamos que evitar a prisão de imediato. Sabíamos que a repressão viria. Era uma decisão que quando invadisse o Sindicato, se eu pudesse estar fora, era melhor não me prender. Era importante que tivesse povo no Sindicato, por isso que [os metalúrgicos da] Barreto Keller e Granada ficaram no Sindicato, com vários diretores. Tínhamos um esquema de continuar nossa mobilização depois da repressão, no Sindicato e nas fábricas. Foi o que aconteceu. Tivemos várias reuniões nas Igrejas, nos bairros. Mas o Sindicato, mesmo sob intervenção, continuou sendo a referência dos trabalhadores.