A OCUPAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO DO ESPAÇO PÚBLICO EM AMBIENTE DE TRABALHO: O MOTO-TAXISMO EM UBERLÂNDIA – MG Dener Jesus Freitas de Melo1 RESUMO Atualmente o transporte representa uma das atividades mais importantes do homem no mundo e contribuiu para formação e o crescimento da cidade contemporânea. Mas em diversas localidades o sistema de transporte público não consegue atender toda a população que precisa se locomover para realizar as suas atividades cotidianas. Assim, aliado a outros fatores como desemprego, popularização da motocicleta, ausência de regulamentação específica, mudança na simbologia da motocicleta e na representação social dos motociclistas, surgiu uma alternativa de transporte dentro das cidades: o moto-taxismo. Certamente a formação dessa nova categoria de trabalhadores implicou em experiências sociais e culturais relativamente novas, com sentidos e códigos significativos e bastante diversos. Por isso este trabalho tem por objetivo verificar especificamente a maneira com que os moto-taxistas se apropriaram dos espaços públicos que circundam o Terminal Rodoviário Presidente Castelo Branco e a Praça da Bíblia em Uberlândia – MG, transformando estes equipamentos públicos em seus lócus de trabalho. A ocupação e transformação destes espaços públicos são semelhantes à relatada Frugolli (1995) em estudo sobre a atividade informal dos marreteiros no Largo da Concórdia, em São Paulo. Ainda sobre a análise dos espaços públicos, podemos aproveitar o estudo de Augé (1996), que constrói um instrumental teórico baseado nos conceitos de “lugar” e “não-lugar” para elucidar a temática das sociabilidades contemporâneas. A partir destas discussões, pretende-se demonstrar a maneira como uma categoria de trabalhadores relativamente nova redesenha o social e resignifica a paisagem urbana por meio da realização de sua atividade profissional. Palavras-chave: Espaço público, Apropriação do público. Informalidade. Moto-táxi. Trabalho. INTRODUÇÂO Os crescentes fluxos humanos e de mercadorias, próprios dos processos de urbanização, têm transformado o funcionamento das cidades, assim como os transportes urbanos. A expansão urbana exigiu a modernização do sistema de transporte, que assumiu papel de destaque neste processo de transformação. Atualmente, o “transporte representa uma das atividades mais importantes do homem no mundo. É um componente indispensável da 1 Dener Jesus Freitas de Melo é aluno bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior (CAPES) do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia (PPGCS/UFU). Desenvolve pesquisa sobre trabalho informal sob uma perspectiva antropológica (“Antropologia das Trocas Informais”), tendo como objeto de estudo o moto-taxismo. Email: [email protected]. 1 economia e desempenha um papel importante nas relações espaciais entre os locais” (NASCIMENTO, 2011, p. 3). Mais do que isso: O crescimento dos transportes, da rede viária e dos meios de comunicação, contribuiu para formação e o crescimento da cidade contemporânea. Os transportes permitem a integração funcional de uma metrópole, exemplificando a economia, produção e consumo, mobilidade e acessibilidade, conforto e segurança. (NASCIMENTO, 2011, p. 5) Entretanto, em diversas cidades o sistema de transporte público não dá conta de atender toda a população que precisa transitar pelas cidades para realizar as suas atividades cotidianas, tais como trabalhar, estudar, realizar práticas de lazer, dentre outras. Assim, aliado a outros fatores como desemprego, aumento da frota de motocicletas, ausência de regulamentação específica, mudança na simbologia da motocicleta e na representação social dos motociclistas, surgiu uma alternativa de transporte dentro das cidades: o moto-taxismo. A palavra moto-táxi é um neologismo criado no Brasil por meio da justaposição do prefixo “moto” (redução da palavra “motocicleta”) e da palavra “táxi” (forma abreviada de taxímetro). Segundo Brasileiro (2005), o moto-taxismo se fez notar na Nigéria, ainda na década de 1970. No território brasileiro o serviço começou a ser prestado a partir de meados da década de 1990, na região Nordeste (COELHO, 1997). Desde então, o novo tipo de transporte de passageiros por meio de motocicletas espalhou-se rapidamente para outras regiões do Brasil, transformando a paisagem urbana, principalmente os espaços públicos, que passaram a ser locais de estacionamento para estes trabalhadores descansarem ou aguardarem novos clientes. Transformou também a dinâmica da cidade e a vida de muitas pessoas, principalmente pessoas de baixa renda, que agora podem se locomover para os mais diversos lugares a preço razoavelmente baixo. Além disso, o moto-táxi criou um novo grupo de atores sociais, a saber, os moto-taxistas, trabalhadores que viram no serviço de transporte de passageiros e pequenas cargas por meio de motocicletas uma alternativa para adquirir meios que garantam a sua sobrevivência e a sobrevivência da sua família. Por fim, o moto-taxismo, apesar de informal em alguns municípios, como em Uberlândia – MG, configura-se como uma atividade dotada de regras e normas tácitas, que são compartilhadas por todos aqueles que exercem a atividade pelas ruas da cidade. Certamente a formação dessa nova categoria de trabalhadores implicou em experiências sociais e culturais relativamente novas, com sentidos e códigos significativos e bastante diversos. Por isso este trabalho tem por objetivo verificar especificamente a maneira com que os moto-taxistas se apropriam dos espaços públicos que circundam o Terminal Rodoviário Presidente Castelo Branco e a Praça da Bíblia em Uberlândia – MG, 2 transformando estes espaços em seus ambientes de trabalho. Apesar desse recorte empírico limitado, pretende-se, também, contribuir em termos teóricos e empíricos para os estudos que também tratam do tema. O ESPAÇO PÚBLICO: TERMINAL RODOVIÁRIO PRESIDENTE CASTELO BRANCO E PRAÇA DA BÍBLIA EM UBERLÂNDIA – MG O Terminal Rodoviário Presidente Castelo Branco foi inaugurado na cidade de Uberlândia – MG em 21 de maio de 1976, na Praça da Bíblia s/n, Bairro Martins, ao lado da BR-365, em substituição ao terminal que se localizava na Praça Cícero Macedo, situada no centro da cidade. Desde a sua criação, a rodoviária de Uberlândia tem sido elemento fundamental para observar o crescimento da cidade. A cidade ocupa uma posição geográfica privilegiada, no centro do país, fazendo com que seja uma rota quase obrigatória para o fluxo de pessoas e mercadorias que se deslocam para as mais variadas direções, independente das combinações possíveis de direções entre diferentes pontos cardeais. Além de sua importância geográfica na malha viária intermunicipal e interestadual, historicamente Uberlândia também se constituiu como centro comercial, industrial e de serviços de reconhecida importância regional, assim como tem se tornado um importante pólo educacional do país, com várias universidades. Estes fatores fazem com que a quantidade de usuários que utilizam o terminal rodoviário aumente a cada dia. Segundo dados da empresa privada que administra o terminal rodoviário, TRICON (Triângulo Concessões Ltda.), a média mensal de embarques de passageiros chega a 90.000 (noventa mil) passageiros/mês. O seu espaço físico ocupa uma área total de aproximadamente 40.000 m² (quarenta mil metros quadrados), sendo 5.780 m² (cinco mil setecentos e oitenta metros quadrados) de área construída. As suas instalações contam com 35 (trinta e cinco) lojas comerciais; 31 (trinta e um) guichês de vendas de passagens por empresas de transporte rodoviário de pessoas; terminais de caixas eletrônicos dos principais bancos; 2 (dois) estacionamentos fechados, com aproximadamente 180 (cento e oitenta) vagas para carros e motos, sendo um privado e outro público; 2 (dois) sanitários, sendo um privado e outro público; serviço de guarda-volume privado; 16 (dezesseis) plataformas de acostamento para ônibus, sendo 10 (dez) para embarque e 6 (seis) para desembarque; serviço de informação por meio de som 24 horas/dia; serviços de informações gerais e pessoal; posto de atendimento ao migrante; posto telefônico; 3 salão de espera com 200 (duzentas) cadeiras e 4 (quatro) televisões; ponto de serviços de táxis; ponto de ônibus urbano2. FIGURA 01 – Vista aérea do Terminal Rodoviário Presidente Castelo Branco Fonte: Google Maps. Disponível em: http://maps.google.com.br/; Acesso em: 16 de março, 2012. (Org.) Dener Jesus Freitas de Melo. É importante lembrar que o serviço de moto-táxi não aparece na lista de instalações e serviços oficiais disponibilizadas pela concessionária que administra o terminal rodoviário (TRICON), porque o moto-táxi não é uma atividade legalizada em Uberlândia. Dessa forma, os moto-taxistas não podem realizar as suas atividades no espaço do Terminal Rodoviário Presidente Castelo Branco. No entanto, devido a um série de características, surgiu em frente a Praça da Bíblia umas das primeiras centrais de moto-táxi de Uberlândia. De acordo com relatos colhidos entre os próprios moto-taxistas, a central foi fundada por um empreendedor que visualizou na atividade uma forma de obter renda com a criação de contratos atípicos3 com motociclistas interessados em realizar a atividade no local. Ele cobrava uma taxa de utilização de cada um deles. Em troca disponibilizava a infra-estrutura necessária para a realização da atividade 2 As informações sobre o Terminal Rodoviário Presidente Castelo Branco foram encontradas no portal da rodoviária, no endereço eletrônico: http://www.rodoviariauberlandia.com.br. 3 Noronha (2003) prefere o termo “contrato atípico”, em detrimento dos termos “informalidade” ou “trabalho informal”. 4 (estacionamento, área de descanso, café, água, banheiro)4. Posteriormente, o dono da central decidiu vender a central e propôs aos 43 (quarenta e três) moto-taxistas vinculados que se associassem e comprassem o seu estabelecimento. A partir de então, a central tornou-se uma sociedade por quotas, em que cada um dos moto-taxistas associados possui uma parcela (quota) da sociedade. Os gastos para manter a infra-estrutura da central são divididos entre os associados ao final de cada mês (taxa de manutenção)5. Os fatores que favoreceram o surgimento desta central na Praça da Bíblia foram: 1) localizar-se em frente à central a que estão vinculados, proporcionando estacionamento próprio para as motos, telefone, café, local para descanso; 2) encontrar-se na saída do terminal rodoviário, onde os moto-taxistas aproveitam o movimento gerado pelos constantes desembarques na rodoviária para conseguir clientes; 3) a praça está sempre cheia de pessoas, pois se encontra ali o ponto de ônibus coletivo. É importante destacar que mesmo com saídas de ônibus coletivo da praça de 15 (quinze) em 15 (quinze) minutos, com passagem a R$ 2,85/pessoa (dois reais e oitenta e cinco centavos por pessoa), os recém-chegados a Uberlândia tornam-se passageiros em potencial para os moto-taxistas. Muitos não dispõem de tempo para esperar a saída do ônibus coletivo ou mesmo não conhecem o sistema de transporte urbano da cidade de Uberlândia, preferindo contratar o serviço de um moto-taxista que o deixará na porta do seu destino final. Pelos fatores acima mencionados, a praça em frente ao terminal rodoviário é um espaço público estratégico para os moto-taxistas. Apesar de não estarem legalmente liberados para utilizar o espaço físico do terminal rodoviário para vender os seus serviços de transportes de passageiros e de pequenas cargas por meio de motocicletas6, já que ainda não há regulamentação para atividade no municipio, nada impede que os moto-taxistas desfrutem, como cidadãos uberlandenses, dos serviços e equipamentos presentes na rodoviária, tais como banheiros, bebedouros, lanchonetes, dentre outros. A rodoviária também é responsável pelo funcionamento de uma série de estabelecimentos ao seu entorno, dentre os quais podem ser destacados os diversos restaurantes a preços populares, utilizados pelos moto-taxistas que 4 Motocicletas e capacetes são itens considerados de uso pessoal, portanto não são disponibilizados pelos donos de centrais. 5 De maneira geral, nas sociedades por quotas, o moto-taxista escolhido para “cuidar” dos gastos da central fica isento da taxa de manutenção. 6 Se por um lado a falta de regulamentação gera insegurança para estes trabalhadores, pois não possuem direitos e garantias trabalhistas previstas em lei, por outro esta ausência “permite” que eles continuem executando as suas atividades profissionais. De acordo com o relato dos próprios moto-taxistas: “o moto-taxismo não é uma atividade regulamentada em Uberlândia, mas é liberada”. De qualquer forma o fato é que órgãos públicos, tais como a Polícia Militar ou a SETTRAN, não “criam problemas” para os moto-taxistas de Uberlândia, no desenvolvimento de suas atividades. 5 optam por fazer as suas refeições em locais próximos ao seu ambiente de trabalho a um preço acessível. Além disso, o posto policial instalado nas dependências do Terminal Rodoviário Presidente Castelo Branco para atender as demandas locais também propicia um ambiente de trabalho relativamente seguro para os moto-taxistas que trabalham nas suas proximidades. A seguir, temos a figura com a localização de cada um dos transportes públicos disponíveis no terminal rodoviário, desconsiderando os meios de transporte particulares (carros e motos) que ficam estacionados nos dois estacionamentos do terminal rodoviário, sendo um público e um privado: FIGURA 02: Transportes disponíveis no Terminal Rodoviário Presidente Castelo Branco Fonte: Google Maps. Disponível em: http://maps.google.com.br/; Acesso em: 16 de março, 2012. (Org.) Dener Jesus Freitas de Melo. Como pode ser verificado na Figura 02, a central de moto-táxi está localizada bem em frente ao ponto de ônibus coletivo. Portanto ela não se encontra no circuito percorrido pelas pessoas que saem do terminal rodoviário em direção àquele ponto. Dessa maneira, apesar de haver uma central, é no espaço da Praça da Bíblia, próximo ao ponto de ônibus coletivo, que os moto-taxistas realmente atuam. Assim, pode ser dito que os moto-taxistas vinculados ao Moto-Táxi Rodoviária fazem uso privado do espaço público da Praça da Bíblia, pois apesar do prédio da central ficar do outro lado da rua, os moto-taxistas estabeleceram a praça como seu “escritório”. Conforme verificado na pesquisa de campo, a central serve como 6 estacionamento, local de descanso e local do telefone, pelo qual são solicitadas algumas viagens. No entanto, são poucos os passageiros que solicitam o serviço pelo telefone, pois o melhor lugar para conseguir clientes é entre as pessoas que transitam pela praça. A OCUPAÇÃO E TRANSFOMAÇÃO DO ESPAÇO PÚBLICO EM AMBIENTE DE TRABALHO: ALGUMAS REFELEXÕES ACERCA DO MOTO-TAXISMO EM UBERLÂNDIA – MG A ocupação do espaço público do Terminal Rodoviário Presidente Castelo Branco e da Praça da Bíblia em Uberlândia – MG pelos moto-taxistas é bastante semelhante ao modo relatado por Frugolli (1995) em seu estudo sobre a atividade informal dos marreteiros no Largo da Concórdia, em São Paulo, que se viram desempregados pela recessão econômica da década de 1970, sendo obrigados a realizar atividades informais para sobreviver. Eles passaram a utilizar o espaço da praça para realizar as suas práticas e relações de trabalho informal, readequando o espaço planejado da rua para a sobrevivência, através de regras próprias. Da mesma forma, entre os moto-taxistas da Praça da Bíblia em Uberlândia, a atividade surgiu em um período de retração econômica em que algumas pessoas viram no transporte remunerado de passageiros em motocicletas uma oportunidade de se reinserir no mercado de trabalho e garantir a sua sobrevivência. De maneira bastante semelhante a prática da marretagem relatada no trabalho de Frugolli Júnior, o moto-táxi também é uma atividade informal na cidade de Uberlândia. Além disso, há outras semelhanças entre as duas atividades. Os moto-taxistas da Praça da Bíblia, apesar de estarem associados a uma central que se localiza a poucos metros da praça, realizam as suas práticas profissionais, como a abordagem aos clientes, no interior da própria praça. Isto é, eles também fazem a readequação do espaço planejado da praça, criando regras próprias para a boa realização de sua prática profissional – regras tácitas (MELO, 2012)7. Neste momento, é importante relatar apenas que os moto-taxistas utilizam o espaço público da praça com fins privados, ou seja, conseguir clientes que por ali transitam a fim de garantir a sua sobrevivência. Dessa forma, apesar de totalmente ligado ao espaço do terminal rodoviário, o lócus de trabalho dos moto-taxistas é, por excelência, a Praça da Bíblia. 7 Algumas regras tácitas desenvolvidas entre os moto-taxistas uberlandenses durante a realização cotidiana da sua profissão são: “solidariedade”, “monopólio do ponto”, 7 Ainda sobre a análise dos espaços públicos em que se desenrolam as atividades cotidianas dos moto-taxistas da rodoviária, podemos aproveitar o estudo de Marc Augé (1994), que propõe uma atualização da antropologia, já que cada vez mais os estudos etnográficos convergem para o estudo do próximo. Segundo ele, os avanços tecnológicos constituíram aquilo que chamou de “supermodernidade”, caracterizada principalmente pelas figuras de excessos. A supermodernidade transformou categorias como o tempo (aceleramento da História através do excesso do fluxo de informações) e o espaço (encolhimento do mundo com o desenvolvimento dos setores de comunicações e transportes). Assim, “para atacar a temática das sociabilidades contemporâneas, Augé constrói um instrumental conceitual preciso, diferenciando entre categorias como ‘lugar’ e ‘espaço’” (FREHSE, 1996, p. 88). Os lugares antropológicos são, desde Marcel Mauss, tradicionalmente fundados na idéia de totalidade. Eles representam mais do que os espaços de encontro entre pesquisador e nativo, o lugar representa a segunda natureza deste último, isto é, o espaço em que o nativo se reproduz e produz a sua existência (reside, trabalha, realiza seus ritos, protege dos outros, etc.). O lugar representa o espaço físico e simbólico de todos aqueles que criam qualquer tipo de afetividade com aquele espaço, dando a ele um sentido. Assim, a principal característica do lugar é a identidade que os homens criam com ele. Além disso, é no lugar onde as relações sociais acontecem de forma solidária, criando os valores sociais, tais como a cultura, a economia e o direito. Neste sentido, os lugares aparecem como manifestações de valores. Em suma, o lugar antropológico se define como: identitário, por compor as identidades individuais dos que ali se encontram; relacional, pois as suas referências criam fronteiras e marcam a relação com os indivíduos de outros lugares; e histórico, por tratar-se de um construto histórico. Em oposição à noção sociológica de lugar, os não-lugares não se definem como identitários, relacionais ou históricos. O termo “não-lugar” deriva da palavra “utopia”, que une os elementos gregos óu (não) e tópus (lugar), assumindo o sentido de criação imaginária, fantasiosa. Porém, “o não-lugar é o contrário da utopia: ele existe e não abriga nenhuma sociedade orgânica” (AUGÉ, 1994, p. 102). A supermodernidade é, essencialmente produtora de não-lugares, isto é, de espaços que não carregam em si as características dos espaços antropológicos. Os não-lugares descortinam um mundo provisório em que “predomina o trânsito, a passagem, a efemeridade, o momento presente, que permite a coexistência de diversos tempos e experiências” (FREHSE, 1996, p. 90). Nos não-lugares todas as pessoas são anônimas e não possuem relações orgânicas entre si. Dessa forma, o homem torna-se 8 solitário e incapaz de criar laços identitários com o não-lugar, pois ele não é um ser único, mas apenas mais um indivíduo que circula por aquele espaço. Após explicitar os instrumentos conceituais de Augé, pode-se dizer que a Praça da Bíblia configura-se, em princípio, como um não-lugar, mas não para todos os sujeitos ali presentes. A praça é um local de passagem para os recém-chegados na cidade de UberlândiaMG, pois ali se localiza o ponto de ônibus que muitos utilizam para terminar de chegar aos seus destinos na cidade. Estes transeuntes estão ali apenas de passagem, não criam identidade com aquele espaço e não criam laços com os outros indivíduos ali presentes, são apenas mais alguns em meio a tantos outros imersos na multidão que por ali transita todos os dias. A praça é apenas um espaço percorrido pelas pessoas e não vivenciado por elas. Nesta situação o nãolugar pode até ser medido em unidade de tempo, pois se permanece na praça no máximo por 15 (quinze) minutos, tempo máximo que o ônibus leva para partir dali. Além disso, enquanto aguardam a partida do ônibus coletivo rumo ao Terminal Central, as pessoas não se relacionam. Os seus comportamentos são condicionados não pela comunicação verbal entre elas, mas pela atitude do motorista se dirigir até o ônibus e ligar o motor do veículo. Apenas quando todos vêem o movimento do motorista em direção ao ônibus e escutam o barulho de funcionamento do seu motor, é que sabem, sem nenhum contato entre eles, que é hora de entrar no ônibus para partir. Em suma, em nenhum momento aquelas pessoas se reconhecem como pertencentes àquele espaço, no máximo elas se identificam como passageiros e trocam algumas poucas palavras, geralmente acerca de horários e itinerários dos ônibus do sistema de transporte público coletivo de Uberlândia. Todos estes elementos permitem caracterizar a praça como um “não-lugar”, nos termos colocados por Augé (1994). No entanto, como a principal característica do lugar é a identidade que os indivíduos criam com ele, podemos definir aquele pequeno espaço onde os moto-taxistas se concentram na Praça da Bíblia como o seu “lugar”, pois foi aquele espaço público que os quotistas do Moto-Táxi Rodoviária instituíram como o seu local de trabalho, se identificando e criando afetividade com ele. É possível constatar isso quando se observa que eles zelam por aquele espaço, não estragando seus bancos e lixeiras, nem jogando lixo no chão, dando-lhe algum sentido doméstico. É um lugar específico para a realização da sua profissão, o lugar de “ganhar o pão”, “garantir o leite das crianças”. O próprio nome da central em que os mototaxistas trabalham e são quotistas recebeu o nome do lugar em que se encontra: “Moto-Táxi Rodoviária”. Além disso, ali, as relações sociais acontecem de forma solidária entre os mototaxistas, como a formação de rodas de conversas para o tempo passar mais rápido, a ajuda em 9 eventualidades (acidentes, problemas mecânicos, etc.), dentre outras. Essa solidariedade se estende entre moto-taxistas e alguns recém-chegados, que não conhecem o itinerário para chegar a seu destino na cidade e se “atrevem” a pedir informação, muito embora esta relação sempre esteja voltada para o interesse da venda do serviço de moto-táxi. Dessa maneira, podem ser identificadas na atividade dos moto-taxistas na Praça da Bíblia as três características básicas do lugar: identitário, por compor as identidades individuais e de grupo dos moto-taxistas; relacional, pois as suas referências criam fronteiras e marcam a relação com os moto-taxistas de outras centrais ou pontos (ali só eles podem trabalhar) e com os clientes em potencial; e histórico, por tratar-se de uma atividade oriunda de uma conjuntura histórica especifica (desemprego) e que desenvolveu ali algumas peculiaridades (sistema de sociedade em quotas). Por fim, podemos dizer que a presença do “Moto-Táxi Rodoviária” na Praça da Bíblia criou valores e normas sociais que permitem classificar aquele espaço em que os mototaxistas realizam as suas práticas de conquista de clientes como um lugar antropológico, que “é simultaneamente principio de sentido para aqueles que o habitam e principio de inteligibilidade para quem o observa” (AUGÉ, 1994, p. 51). CONSIDERAÇÕES FINAIS Durante o trabalho foi possível perceber a importância de um sistema de transportes que funcione de maneira satisfatória e como os problemas de mobilidade urbana possibilitaram o advento de uma nova categoria de trabalhadores: moto-taxistas. Verificou-se também as circunstâncias históricas (desemprego, crise nos transportes, resignificação da motocicleta) e as características locais (fluxo intenso de pessoas, variedade de serviços, etc.) que possibilitaram o surgimento de uma das centrais de moto-táxi mais tradicionais da cidade de Uberlândia, nas proximidades do Terminal Rodoviário Presidente Castelo Branco e da Prã da Bíblia: Moto Táxi Rodoviária. A partir destas discussões, lançando mão de pesquisa de campo e estudos como o de Frugulli (1995) e Augé (1994), tornou-se possível perceber a maneira como uma categoria de trabalhadores relativamente nova redesenha o social e resignifica a paisagem urbana por meio da realização de sua atividade profissional. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 10 AUGÉ, Marc. Não-lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas: Papirus, 1994. BRASILEIRO, Luzenira Alves. Um estudo de caso do transporte por moto-táxi. Anais 15º Congresso Brasileiro de Transporte e Trânsito. Goiânia, 8 ago a 11 ago, 2005. COELHO, Modesto Siebra. A nova onda no transporte urbano: mototáxi, Sobral: Edições UVA, 1997. FREHSE, F. Onde estamos? Entendendo os “não-lugares” da “supermodernidade” de Marc Augé. In: LASC. (Org.). Sociabilidades. São Paulo: Bartira Gráfica e Editora, 1996, p. 87-91. FRÚGOLI JR, Heitor. São Paulo: espaços públicos e interação social. São Paulo: Marco Zero, 1995. GOOGLE MAPS. Disponível em: http://maps.google.com.br. Último acesso em: 21 de Setembro, 2014. NASCIMENTO, Márcio Silveira. Dimensão Sócio-Espacial do Transporte Informal em Manaus, o Caso do Mototáxi. In: II Conferência do Desenvolvimento. Anais I Circuito de Desenvolvimento Acadêmico. Distrito Federal: Ipea, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 2011. NORONHA, Eduardo Garuti. “Informal”, Ilegal, Injusto: percepções do mercado de trabalho no Brasil. Revista brasileira de ciências sociais, Vol.18, n.53, p.11-179, out, 2003. MELO, Dener Jesus Freitas de. “Moto-Táxi Rodoviária”: Um estudo sobre o cotidiano dos moto-taxistas de Uberlândia-MG. 159 p. Monografia de Conclusão de Curso em Licenciatura e Bacharelado em Ciências Sociais. Universidade Federal de Uberlândia. Uberlândia, 27 de jun, 2012. TERMINAL RODOVIÁRIO DE UBERLÂNDIA. Disponível em: <http://www.rodoviariauberlandia.com.br>; Último acesso em: 21 de Setembro, 2014 11