Revista Homem, Espaço e Tempo
março de 2009
ISSN 1982-3800
UM ESTUDO DOS CIRCUITOS DA ECONOMIA URBANA NA CIDADE DE
CARIRÉ-CE
Antonia Ivone Farias Silva1
Virgínia Célia Cavalcante de Holanda2
Resumo
O presente artigo tem como objetivo principal analisar as caracteristicas do comércio na
cidade Cariré, uma cidade pequena do noroeste cearense. A análise estando amparada
na teoria dos dois circuitos da economia urbana do prof. Milton Santos. A economia
urbana de Cariré centra-se sobretudo na prestação de serviços e atividade comercial
mais tradicional.
Palavras-chave: Circuito inferior. Cidade pequena. Economia Urbana. Feira.
Abstract
The present article has like principal objective to analyzes the characteristics of the
business in the city Cariré, a small city of the northwest of Ceará. The analysis being
supported in the theory of two circuits of the urbane economy of the prof. Milton Santos
The urbane economy of Cariré is centered especially in the services rendered and the
most traditional commercial activity.
key words: Inferior circuit. Small city. Urbane economy. Trade fair.
INTRODUÇÃO
O comércio é uma atividade muito antiga, seu desenvolvimento se deu pela
necessidade do homem de efetivar relações de troca com outras comunidades. Estas
relações inicialmente serviram para estreitar os laços culturais entre as comunidades e,
sobretudo uma forma de valorizar os produtos locais.
Esta atividade pouco a pouco foi crescendo em razão do desenvolvimento de
novas técnicas de produção que propiciaram o fortalecimento da agricultura e todo o
excedente da produção era comercializado nos locais de maior circulação de pessoas,
sendo também o lugar reservado para o lazer e para troca de ideais.
A atividade comercial foi aos poucos dando origem a diversos núcleos urbanos,
sendo crucial para o desenvolvimento das cidades. Produziu transformações e o
progresso econômico de muitas delas, mas, sobretudo produziu mudanças na
1
([email protected])
2
Prof. Dra. do Curso de Geografia da Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Centro de Ciências Humanas-CCH
52
Revista Homem, Espaço e Tempo
março de 2009
ISSN 1982-3800
organização do espaço geográfico no interior das cidades, no chamado espaço intra
urbano. Conforme CLEPS, 2004, p. 123 nos séculos seguintes, com a expansão
comercial as cidades vão abrigando comércio e outros serviços, com a consolidação da
indústria em fins do século XVIII a cidade vai agragando além do comércio, os serviços
e a indústria, mudando enormemente a relação campo-cidade e décadas depois as
relações inter urbanas em seus espaços regionais.
O impacto do comércio no Brasil esta ligada a formação dos primeiros núcleos
urbanos que se deu a partir do processo de ocupação portuguesa no século XVI. Desde
então com a prática da produção agrícola há um aumento da circulação de distribuição
de produtos e a formação de um mercado consumidor interno importante.
No Nordeste os primeiros núcleos urbanos se desenvolveram próximos às
ferrovias e áreas litorâneas. Os pequenos núcleos formados perto das estradas de ferro
tinham a função de escoar a produção do interior para o litoral. Este é o caso particular
da cidade de Cariré-CE, cenário de nossa pesquisa, nascida ainda no século XVIII sua
evolução se deu em razão do desenvolvimento agrícola e conseqüentemente do
comércio promissor até 1950.
O estudo dos aspectos da economia urbana na cidade de Cariré, entendida aqui a
luz da ciência geográfica, assume relevância, pois a geografia é por excelência a ciência
que cuida das transformações no espaço urbano a partir da ação humana em suas
diversas nuances, entendo a cidade de forma multifacetada, mas dentro de uma visão de
totalidade.
Trata-se de uma pesquisa que desperta interesse para q geografia urbana em anos
recentes, ou seja, a compreensão das cidades pequenas, pois em geral os estudos de
geografia buscam dar conta de realidades de cidades de escalas maiores, sendo
emblemáticos os estudos das metrópoles e das cidades médias. As cidades pequenas
estão a passar por transformações que chamam atenção no que consiste a mudança de
hábitos, de tipologia de moradia, tipo de consumo, etc.
Para o desenvolvimento deste estudo, as investigações bibliográficas foram
essenciais para a interpretação da realidade estudada. Foram realizadas pesquisas em
dissertações, revistas, pesquisa documental. Os trabalhos de campo sobre as atividades
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Centro de Ciências Humanas-CCH
53
Revista Homem, Espaço e Tempo
março de 2009
ISSN 1982-3800
economicas, como: o comércio, a feira, os serviços existentes no município. Assim foi
sendo traçada a metodologia que direcionou a pesquisa, desde os estudos bibliográficos
até os trabalhos de campo.
1. O COMÉRCIO E AS TRANSFORMAÇÕES DO ESPAÇO URBANO.
As atividades econômicas sempre tiveram um papel significativo para o
desenvolvimento das sociedades. Ao longo da história da humanidade as trocas de
mercadorias (escambo) realizadas pelos agrupamentos humanos representam a primeira
atividade comercial que se conhece. Esta relação comercial se deu em função da
necessidade do homem na busca de consolidar uma relação de troca com outras
comunidade e culturas.
O lógico é admitir que a prática do comércio existiu desde os agrupamento
primitivos, quando os homens ao se depararem com situações de carência,
buscaram efetivar uma relação de troca (escambo) com outras pessoas,
comunidades etc. para satisfazer suas necessidades mais elementares.
(SANTOS, 2002, p. 13).
Esta prática comercial sedimentou-se também com o desenvolvimento de novas
formas de produção. Estas novas técnicas propiciaram o aumento da produção agrícola
e, todo o excedente desta produção era trocado por produtos produzidos em outros
territórios.
Assim, o aperfeiçoamento efetuado nos meios de produção, gerado pelo
aprimoramento de novas técnicas, aumentou a produção e
conseqüentemente, intensificou a atividade comercial. (CLEPS, 2004,
p.120).
Estas trocas comerciais eram realizadas em locais onde havia grande fluxo de
pessoas. Foi da necessidade do homem determinar um local para suas trocas que
surgiram os mercados que representavam o centro das atividades comerciais. O mercado
também era o local das atividades de lazer, onde havia a intensificação de cerimônia e
eventos, festas e troca de idéias, notícias, etc.
Muitas cidades se desenvolveram, outras surgiram a partir do século XII até o
século XIV, momento de maior efervescência de trocas, promovidos pelo sistema feudal
de produção.
Neste período havia essencialmente duas formas comerciais. Uma localizava-se
próximo aos mosteiros ou castelos, comercializando apenas o excedente produzido
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Centro de Ciências Humanas-CCH
54
Revista Homem, Espaço e Tempo
março de 2009
ISSN 1982-3800
pelos artesãos e servos. Outra forma de comércio desta época é a feira. Nela, os
mercadores realizavam a compra e vendas de mercadorias. Havia uma grande
diversificação de produtos comercializados durante todo o tempo.
Ao analisarmos o desenvolvimento das cidades, depreende-se a importância do
mercado como ponto estratégico onde se realizam as trocas, estas intensificadas pela
circulação de pessoas e mercadorias.
A partir do século XVIII há um significativo crescimento da produtividade e
circulação de mercadorias devido ao desenvolvimento da atividade industrial,
promovendo diversas transformações sócio-espaciais, sobretudo nas cidades. “O fim do
século XVIII e, sobretudo, o século XIX vêem a mecanização do território: o território
se mecaniza”. (SANTOS, 1998, p. 139).
O aumento da produção desencadeou o desenvolvimento dos meios de
transporte e das comunicações. Houve também um processo de expansão urbana,
proporcionado pela migração da população do campo para as cidades.
Surgiu então um mercado consumidor considerável e a necessidade de abastecer
um maior número de pessoas através do comércio varejista de alimentos.
Até as últimas décadas do século XVIII, o comércio varejista tinha como
função social abastecer a população de suas necessidades básicas de
sobrevivência que vão se ampliando em função do excedente de produção.
(CLEPS, 2004, p. 123).
O desenvolvimento do comércio varejista mais organizado surge pelo
aparecimento de lojas, estas se tornando espaço comercial fixo em lugares de maior
circulação de pessoas, promovendo também a expansão de oferta de serviços como
manutenção de objetos. O desenvolvimento da atividade comercial se deu pelo maior
número de mercadorias destinadas à venda em função de um mercado consumidor
crescente, passando assim, a exercer um caráter mais econômico, produzindo
transformações não só nas relações de troca, mas também no seu espaço de ocorrência.
O centro das atividades comerciais (o mercado) perde importância como ponto
semanal de encontros para se tornar centros comerciais ou administrativos e os bairros
mais afastados se transformam em locais residenciais.
No século XVIII, a indústria assume grande importância econômica com o
aperfeiçoamento da linha de produção (sistema fordista de produção) em que a máquina
foi suplantando o trabalho humano, juntamente com revolução tecnológica do século
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Centro de Ciências Humanas-CCH
55
Revista Homem, Espaço e Tempo
março de 2009
ISSN 1982-3800
XX, caracterizada pelas inovações tecnológicas. As mudanças neste século foram
principalmente econômicas. Nos séculos anteriores as mudanças
estavam
mais
relacionadas a questões ideológicas, religiosas e militares.
A partir da década de 1960 e 1970, há relevantes transformações no sistema
produtivo, passa-se do modelo fordista de produção para o chamado modelo de
acumulação flexível, caracterizado pelo desenvolvimento dos meios de comunicação e
transporte. Com o aparecimento de novas técnicas e a estratégia de consolidar uma
melhor localização para a produção industrial, o comércio assume outra vez papel
importante do ponto de vista econômico, em que o espaço físico volta a ser lugar do
lazer, da cultura, da diversão, da circulação, etc.
Os meios de comunicação, o surgimento de novas idéias, a propaganda, passam
a exercer forte influência no que diz respeito às questões socioeconômicas, promovendo
o surgimento da sociedade de consumo.
Após a segunda guerra mundial, com as inovações da informática e a
globalização da economia, o aparecimento de atividade como o turismo se intensifica. A
atividade comercial se consolida como importante elemento de desenvolvimento
econômico e organização do espaço. Se configura a partir de então o período técnicocientífico-informacional, isto é, o momento no qual a construção ou reconstrução do
espaço se dá com um crescente conteúdo de ciência e de técnicas. (SANTOS, 1998, p.
139).
1.1 O nascimento do Comércio em Cariré e suas implicações espaciais.
O comércio e os serviços exercem importante função no processo de
crescimento das cidades. Muitas cidades do Nordeste brasileiro começaram a se
constituir a partir de suas funções comerciais, sendo viabilizado pelo movimento de
pessoas e pela circulação de mercadorias, propiciando a expansão desses espaços.
A cidade de Cariré está localizada na porção Noroeste do Estado do Ceará no
sertão semi-árido, a 42 km da cidade média de Sobral e a 273 km da capital Fortaleza,
com uma população de 18.527. (IBGE, 2007).
Segundo moradores mais antigos de Cariré, no passado denominado “Lagoa do
Mato”, foi em meados de 1700 que alguns portugueses aí desembarcaram vindos de
outras partes do Brasil e também de Portugal para a região norte do Estado do Ceará
constituírem as primeiras fazendas de criação de gado.
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Centro de Ciências Humanas-CCH
56
Revista Homem, Espaço e Tempo
março de 2009
ISSN 1982-3800
Por volta de 1700 chegaram em nossa região os colonizadores portugueses
que vinham em embarcações de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba
e também diretamente de Portugal e que trouxeram com eles as primeiras
cabeças de bovinos e caprinos para se fixarem nas terras da região norte e
assim formarem as fazendas criadoras. (CARVALHO JUNIOR, 2003, p.
27).
Os portugueses se expandiram por todo o sertão do Nordeste, formando fazendas
e, paralelamente exerciam a pratica da agricultura.
Por meio da doação de terras pelos portugueses conhecida como Sesmarias se
originaram alguns povoados e vilas, entre eles Cariré, pelo registro no livro número 328
das Sesmarias.
Data e sesmaria de Bento Coelho de Moraes e seus companheiros de nove
léguas de terras de Cariré no rio Acaraú, conhecida pelo capitão-mor Gabriel
da Silva do Lago em 23 de outubro de 1708. (POMPEU SOBRINHO, 1979
apud CARVALHO JUNIOR, 2003. p.28).
O desenvolvimento dos transportes, sobretudo o trem a partir do século XIX,
favoreceu as primeiras negociações comerciais entre os pequenos povoados e os
principais portos na região litorânea do Estado.
Muitas cidades consideradas entrepostos comerciais tiveram a aquisição e
venda de mercadorias atreladas ao desenvolvimento dos meios de transporte,
especialmente o trem, no século XIX, que tinha a função de escoar a
produção do interior para os grandes portos do litoral do país. (ASSIS &
GOMES, 2005).
A partir da inauguração da estrada de ferro da Rede de Viação Cearense (RVC)
em 1891, surgem na região denominada de Lagoa do Mato as primeiras relações
comercias com Sobral, viabilizadas, sobretudo, pela estrada de ferro.
Era para Sobral que convergia todo o movimento de compra e venda, bem
como era para lá que iam os comboios que por vez ou outra passavam por
aqui, sabe-se que as terras carireenses eram pertencentes ao município de
Sobral do qual era distrito. (MEDEIROS, 2000, p. 53).
De acordo com Carvalho Junior 2003, p.34, município de Cariré foi criado em
1929. Porém em 1931 volta a ser distrito de Sobral e somente a partir de 1938 é elevado
novamente à categoria de município.
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Centro de Ciências Humanas-CCH
57
Revista Homem, Espaço e Tempo
março de 2009
ISSN 1982-3800
A inauguração da estrada de ferro, a emancipação do município e a
proximidade com o rio Acaraú, que pela fertilidade de suas terras beneficiava a
produção agrícola, constituíam o tripé para a intensificação das relações comerciais e a
formação da identidade cultural dos carireenses.
Através das relações que Cariré estabelecia com a cidade de Sobral, este último
sendo o principal centro de coleta da produção regional, sua economia crescia
lentamente por meio da produção da carne e do couro, juntamente com o comércio do
algodão, este último aparecendo com grande destaque.
A partir de então, com a cultura do algodão, Cariré começa a sentir os
primeiros efeitos do progresso, juntamente com a cera de carnaúba, a
oiticica e cereais como o arroz e o milho que complementavam a produção.
(ASSIS & GOMES, 2005).
Neste período havia duas unidades fabris de beneficiamento de algodão, em que
o caroço servia de ração para o gado e o algodão era transportado de trem para Sobral e
Fortaleza de onde era exportado para o exterior.
Amparado pelos anseios da Revolução Industrial e durante os períodos de
guerras americanas, o algodão cearense atinge seu auge, porém não
impossibilitou a existência da pecuária extensiva, ao contrário, fornecia
condições para que esta melhor se desenvolvesse. (MEDEIROS, 2000, p.
18).
O reflexo desta produção foi enorme sobre o comércio local, a cidade viu sua
praça comercial bem desenvolvida em função do cultivo agrícola, na produção de
algodão, cera de carnaúba, oiticica, castanha de caju e mamona, junto com as bodegas
mercearias, padarias e lojas de tecidos.
Durante décadas do século XX, o desenvolvimento de pequenos núcleos urbanos
foi favorecido pela atividade agrícola. Esses núcleos atraiam grande quantidade de
pessoas para trabalhar na produção algodoeira, propiciando segundo dados do IBGE o
aumento da população de Cariré que em 1950 chega a 21.020 habitantes, 91, 28%
residente na zona rural e 8, 71% na zona urbana da cidade conforme veremos no
capítulo seguinte.
Durante o período de maior produção do algodão, foram abertas indústrias de
beneficiamento do produto, junto com o arroz e o milho, a indústria de objetos
artesanais, principalmente o chapéu de palha, com quinze indústrias instaladas em todo
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Centro de Ciências Humanas-CCH
58
Revista Homem, Espaço e Tempo
março de 2009
ISSN 1982-3800
o município.
As principais fontes de riqueza do município de Cariré, descorreram da
agricultura em comum com a extração de cera de carnaúba, oiticica, como
também o cultivo do milho, feijão e algodão, daí então o comércio de Cariré
passou a se desenvolver após a construção da Estrada de Ferro de Sobral,
mesmo sabendo que antes existia esse comércio, mas com uma pequena
intensidade, na verdade que por volta de 1916 foi que passou a funcionar a
fábrica de tecido de Cariré, eram muitos trabalhadores rurais que traziam
seus produtos para então serem vendidos para outras cidades, como Sobral,
Camocim até mesmo Europa. (CARVALHO JUNIOR, 2003, p. 35).
Junto com a indústria de tecido surgiu também a indústria de chapéus, couro e
outros que promoveram o desenvolvimento comercial e industrial do município.
Foi neste momento que Cariré apresentou um desenvolvimento promissor de seu
comércio, juntamente com o pouco desenvolvimento do sistema de transporte, pois
havia mais dificuldade de deslocamento, e a população não precisava se deslocar para
os centros maiores, pois o comércio local abastecia a população de tudo que
necessitava.
Foi a partir da década de 1970, que os pequenos núcleos urbanos do Estado do
Ceará, sobretudo Cariré, que tinham sua economia baseada na produção agrícola, viram
sua economia entrar em recessão devido às transformações que ocorriam na economia
nordestina. O processo de modernização do campo gerou diversos problemas, com
reflexos sobre a situação de vida do pequeno agricultor.
Foi a seca de 1979-1983 e o aparecimento da praga do bicudo em 1986 que
vieram desnudar a crise em que estava envolvido o sistema
produtivo/gado/algodão/culturas alimentares. E não foi somente a seca e o
bicudo. Não! Foi também a retomada das mobilizações e das lutas pelo
movimento social de trabalhadores rurais no final dos anos 70. (JOCA,
1993, p. 53).
Os pequenos agricultores mostravam sua insatisfação com as políticas
preconizadas pelo Estado que dava aos grandes proprietários as condições necessárias
para efetivação das mudanças nas relações de trabalho do sertão cearense. A introdução
de técnicas mais modernas, o uso de inseticidas, tratores, a utilização de técnicas de
proteção e melhoramento do solo, exigiam do agricultor domínio para o seu manuseio.
Estes pequenos núcleos urbanos afetados pela queda do sistema agrícola reagem
de acordo com suas especificidades e manifestam em sua organização marcas desta
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Centro de Ciências Humanas-CCH
59
Revista Homem, Espaço e Tempo
março de 2009
ISSN 1982-3800
crise. No caso da cidade de Cariré, a população é “expulsa” do campo para a sede,
estabelecendo-se em áreas periféricas em busca de melhores condições de vida.
No caso de Cariré destaca-se o bairro do Campo de Aviação. Este tem tido
um crescimento muito acelerado sendo até 1980, um espaço praticamente
vazio destinado ao pouso de pequenos aviões, e a partir de então tem tido
um grande crescimento populacional, tornando-se tão populoso quanto aos
bairros bem mais antigos como Paraíso e Japão. (MEDEIROS, 2000, p. 72).
De acordo com MEDEIROS, 2000, p. 72, podemos ver que em Cariré grande
número de pessoas que moravam na área rural migrou não só para a sede do município,
mas também para Sobral e para outros Estados do país como Rio e São Paulo,
provocando a redução do número de habitantes no município.
Devido ao pouco dinamismo da economia em Cariré após a queda do algodão,
muitos dos estabelecimentos comerciais fecharam as portas, lojas de tecidos, a fábrica
de beneficiamento do algodão, a partir de 1980, o fechamento de instituições como
Coletoria, REFESA, da agência do Banco do Brasil.
Atualmente pela falta de políticas públicas, o setor econômico da cidade de
Cariré apresenta características muito modestas, com atividades econômicas praticadas
basicamente pelos serviços públicos administrativos, pela agropecuária e pelo pequeno
comércio.
1.2 A Feira
As sociedades ao longo da história foram desenvolvendo formas comerciais
influenciadas por aspectos socioeconômicos, culturais e políticos. Estas atividades
comerciais foram se constituindo de diferentes formas e em diferentes ambientes, pois a
atividade comercial não é concretizada por sua vez, de forma homogênea.
As formas ou ambientes criados para realização das atividades comerciais
não foram, contudo, homogêneas. Ao contrário, elas foram influenciadas
pela conjuntura sócio-cultural, econômica e política dos mais diferentes
tipos de organização. (SANTOS, 2002, p. 27, 28).
As primeiras atividades comerciais foram realizadas através das feiras livres e do
mercado público. Estas são consideradas as primeiras formas comerciais na história da
humanidade.
A feira é um espaço fecundo para análise e estudo de conhecimentos para a área
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Centro de Ciências Humanas-CCH
60
Revista Homem, Espaço e Tempo
março de 2009
ISSN 1982-3800
social e econômica, dada sua importância nas cidades nordestinas, pois esta atividade
assumiu grande influência para o aumento de sua população, pela ajuda na construção
da identidade cultural da região e por ser para muitos indivíduos meio de sobrevivência.
De acordo com VIERA (2004), a feira tem origem na Europa, a partir das
relações de produção do regime feudal. Todo excedente da produção agrícola nesta
época era comercializado através de trocas. Com crescimento do comércio, das cidades,
as trocas de mercadorias passaram a ser realizadas a partir do pagamento em dinheiro.
Este processo de monetarização propiciou a expansão do comércio em nível mundial.
Foi a partir daí, que se deu gradativamente a mudança do sistema feudal de produção
para o regime capitalista.
A política de expansão colonial praticada pelos portugueses e espanhóis a partir
de 1500 deu início à exploração de produtos como o pau-brasil e posteriormente canade-açúcar para comercialização, sobretudo na Metrópole (Portugal). Isto também deu
impulso à criação e ao fortalecimento de atividades comerciais no Brasil, com o intuito
de estabelecer trocas e vendas do excedente oriundo das fazendas da colônia e de
produtos vindos da metrópole. O local onde se realizavam estas trocas era o espaço
público através da feira, que a partir de então se tornou uma das atividades populares
mais importantes no país.
Hoje as feiras são fenômenos muito comuns nas cidades brasileiras, e exercem
papel fundamental no processo de comercialização e trocas de produtos.
No Nordeste as primeiras feiras se desenvolveram próximas aos locais onde
havia maior fluxo de pessoas. As estações rodoviárias eram ponto de grande circulação
de migrantes que chegavam em caminhões chamados “paus-de-arara” trazendo
mercadorias produzidas no interior para as cidades maiores, principalmente as capitais
dos estados.
Além de sua importância econômica, a feira tem forte significado social e
cultural. Assume mais importância principalmente em pequenas cidades do interior do
Nordeste, servido-lhe não só como local usado para fazer compras, mas também como
lugar de referência para determinar relações sociais e culturais.
Os traços de sociabilidade consolidados no espaço da feira são significativos
para o homem do sertão, para ele, ir à feira é quase um ritual, lá ele se encontra com o
vizinho, os amigos, o feirante, não só para comprar, mas para observar os preços,
comentar sobre inverno, lavoura, o gado, contar as novidades. Há um maior movimento
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Centro de Ciências Humanas-CCH
61
Revista Homem, Espaço e Tempo
março de 2009
ISSN 1982-3800
de carros, pessoas andando para lá e para cá, carros de som fazendo propagandas. É
dia de vestir uma roupa melhor, principalmente para os moradores das áreas rurais, os
homens vão ao barbeiro, as mulheres às bancas de ervas, a mãe que leva o filho para
uma consulta médica.
Na feira percebemos a pluralidade de sujeitos com hábitos de cidade de
interior que vão à feira não apenas para comprar e/ou trocar produtos, mas
também aproveitam para encontrar amigos, parentes, fazer novas amizades...
lugar tomado para uns como trabalho e para outros como lazer. (FORTE,
2007, p. 14).
Mesmo não tendo aquela importância que tinha em outrora, principalmente para
cidades maiores onde há uma maior expansão do comércio atacadista e varejista
organizado, a feira ainda continua sendo uma importante instituição comercial e um dos
principais meios de sobrevivência das populações dos pequenos centros urbanos no
Nordeste do Brasil.
A feira exprime grande importância econômica e social para os centros menores,
quanto menor é o lugar mais importância terá essa atividade para os agricultores, os
artesãos que são acolhidos neste espaço para venderem seus produtos.
Nas pequenas cidades do Nordeste brasileiro são comercializados produtos
manufaturados, tecidos, confecções, artesanato e principalmente gêneros alimentícios
como farinha, frutas, verduras, legumes, etc.
Muitos destes feirantes são pequenos comerciantes ou ambulantes que se
deslocam de feira em feira por várias cidades para venderem seus produtos levando
consigo algumas pessoas para ajudá-lo a expor suas mercadorias, quando não são
parentes, são indivíduos que não foram absorvidos pelo mercado de trabalho dispostos a
alguma ocupação mesmo que seja eventual. Essas mercadorias quando não são
produzidos por eles mesmos compram-os de atacadistas, na maioria das vezes em
cidades maiores.
A feira se resume na presença de umas poucas barracas que oferecem
farinha, rapadura, carne, algum artesanato e considerável quantidade de
manufaturas, confecções e outra mercadoria de produção industrial.
(ISSLER, 1967, p. 38).
Na pequena cidade de Cariré, há predominância de atividades comerciais mais
tradicionais como as feiras por exemplo. A feira na cidade é realizada às terças-feiras
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Centro de Ciências Humanas-CCH
62
Revista Homem, Espaço e Tempo
março de 2009
ISSN 1982-3800
com seus feirantes homens, mulheres vindos de várias cidades da região Norte do
Estado, montando suas barracas ainda pela madrugada e expondo suas mercadorias
trazidas nos caminhões, ônibus, D-20 e carros particulares. As negociações começam
por volta de 6:00 hs da manhã estendendo-se até o meio dia.
A característica mais marcante das feiras nordestinas é a intinerância dos
feirantes e que, indo de um mercado, feira, a outro criam um anel de
mercado bastante movimentado viabilizando, desta forma, sua atividade
visto que, a baixa renda da população não possibilita que a mesma se
desloque para centros relativamente distantes da localidade. (VIEIRA, 2004,
p. 42).
É bem marcante o fato de os feirantes por trabalharem a certo tempo na feira de
Cariré, já conhecerem os hábitos e os gostos do consumidor da cidade. Isto lhes garante
a conquista do freguês para na próxima terça-feira voltar a sua banca e comprar
novamente.
Galpão de Feirantes próximo ao
mercado, local onde se rea
A feira na cidade de Cariré se realiza ao redor do mercado público, ao lado das
pequenas mercearias, bodegas, farmácias, da prefeitura. Neste dia há na cidade não só
uma maior circulação de mercadorias, mas também de pessoas, trabalhadores que
aproveitam para comprar o que necessitam por preços mais baixos, pois os produtos em
maior quantidade, gêneros alimentícios, geralmente são comercializados pelos próprios
agricultores, que vêm para a feira vendê-los e com o dinheiro da venda compram outros
produtos de que necessitam.
A feira exerce forte influência no comércio local. Os estabelecimentos
comerciais localizados próximos à feira vendem mais e assim os comerciantes vêem os
dias de terça-feira como uma oportunidade para vender um pouco mais.
Na feira são vendidos produtos como arroz, feijão, milho, banana, rapadura,
farinha, queijo, peixe, frutas, legumes, produtos artesanais, calçados, CDs, DVDs,
relógios, roupas, tecidos, etc.
Para a venda de produtos como queijo, peixe, por exemplo, é utilizada a velha
balança, cujo preço é determinado pelo quilo. Para a venda da farinha o feirante faz o
uso da “medida”, uma pequena caixa de madeira, em que o valor equivale a 10 litros.
Há na feira bancas de comidas típicas como panelada, baião de dois, pelo preço
de R$ 3,50 cada, e a freguesia da dona da banca é garantida: os feirantes que chegam
muito cedo à feira e fazem ali mesmo sua refeição.
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Centro de Ciências Humanas-CCH
63
Revista Homem, Espaço e Tempo
março de 2009
ISSN 1982-3800
No entanto, observa-se que não há por parte do poder público uma fiscalização
no sentido de garantir boas condições de higiene dos produtos ofertados, no intuito de
oferecer aos consumidores um ambiente limpo e seguro para seu consumo.
Os consumidores da feira chegam à pé, de bicicleta, moto-taxi, de pau-de-arara e
encontram produtos desde vestuário até a alimentação com os mais variados preços e
marcas.
A feira de Cariré então se transforma em um emaranhado de relações,
experiências e vivências em que o espaço urbano é usado como lugar de trabalho dando
à cidade uma dinâmica muito peculiar realizada nos dias de terça, onde se congregam
comércio e serviços em um único espaço.
1.3 O circuito “legal” as especificidades
Sabe-se que as atividades comerciais, os serviços, a indústria exercem forte
influência na organização dos espaços urbanos. Ao analisar os circuitos da economia
urbana na cidade de Cariré, observa-se que há um predomínio das atividades que
apresentam características mais tradicionais como foi ao longo de toda a sua história.
O desenvolvimento dos meios de transporte no século XIX, principalmente o
trem, foi importante para introduzir Cariré nos circuitos do comércio. O algodão
produzido no solo carireense era levado para o porto de Camocim e de lá exportado para
o exterior.
De um histórico de desenvolvimento do seu comércio ligado à produção agrícola
e à pecuária, responsáveis também pelo processo de ocupação do território carireense a
estagnação econômica após queda do algodão, que como vimos anteriormente, produto
que sustentou a base de sua economia até 1950, Cariré atualmente apresenta um
comércio muito modesto e pouco dinâmico, repercutindo fortemente na organização do
seu espaço.
A configuração do comércio de Cariré guarda forte ligação com a atividade
agrícola. Atualmente é praticada no município basicamente a agricultura de
subsistência. O pequeno agricultor por sua vez negocia algum excedente de sua
produção, principalmente o milho e com o dinheiro compra no comércio mercadorias de
que necessita.
As dinâmicas do circuito superior marginal e residual são voltadas pelo
comércio e serviços menos especializados do ponto de vista tecnológico e
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Centro de Ciências Humanas-CCH
64
Revista Homem, Espaço e Tempo
março de 2009
ISSN 1982-3800
organizacional.
A atividade comercial em Cariré se constitui por pequenos estabelecimentos, são
instituições familiares que seguem a tradição comercial legada de seus parentes
pretéritos, e quando não são, conseguem algum dinheiro para tocar o pequeno negócio.
A relação entre o comerciante e o freguês se dá de forma amistosa, pois nas
cidades pequenas é comum no dia-a-dia a convivência com as mesmas pessoas e o
sistema de pagamento (caderneta) é realizado pelas manifestações de confiança entre o
dono da bodega e os fregueses, estes em geral são indivíduos desprovidos de melhores
condições financeiras.
O peso de uma população em crescimento e de baixo nível de vida
representa uma possibilidade de manutenção das formas menos modernas.
(SANTOS, 1979, p. 81).
Os indivíduos com melhor poder aquisitivo realizam suas compras seja
alimentação ou outros serviços mais especializados no comércio da cidade média de
Sobral, fato favorecido pelo forte fluxo de transportes, vans, topiques, ônibus, que se
dirigem para a cidade diariamente.
O pequeno comerciante de Cariré, vez ou outra, em dias melhores para as
vendas, geralmente no dia de feira, recebe ajuda, na maioria das vezes de adolescentes
ou pais de família vítimas da escassez de emprego, que aproveitam a oportunidade para
ganhar algum dinheiro, comumente o pagamento é muito baixo.
A venda no comércio é realizada no varejo, o produto é vendido diretamente ao
consumidor. O comércio atacadista se resume em alguns depósitos de bebidas (cervejas
e refrigerantes), comercializados em uma mercearia do centro e uma no bairro do Açude
Novo.
Na área central da cidade há estabelecimentos comerciais mais tradicionais
como bodegas e mercearias, que resistem às modernizações com a venda de produtos
alimentícios, agropecuários e agrícolas.
Os estabelecimentos melhor equipados são representados pelos mercadinhos,
bares, padarias, farmácias, lojas de móveis, de confecções, lanchonetes, papelarias,
sorveterias, depósito de material de construção.
A presença de bodegas e mercearias nos bairros fora do centro também é
marcante, atendendo aos fregueses em qualquer necessidade, a mercadoria pode ser
vendida no “retalho” por meio da compra no fiado anotado na caderneta.
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Centro de Ciências Humanas-CCH
65
Revista Homem, Espaço e Tempo
março de 2009
ISSN 1982-3800
O crescimento do circuito superior marginal residual se dá pela incapacidade
de modernizar-se no ritmo imposto pela época. (SILVEIRA, 2004).
Há em Cariré estabelecimentos comerciais como mercadinhos e padarias
também localizados fora da área central. Uma padaria no chamado bairro do Fórum e
outras duas no bairro do Campo de Aviação. Este último bairro apresenta uma densa
população, fator de atração para a atividade comercial que disputa mais e mais mercado
consumidor com o comércio de outros bairros.
A descentralização está também associada ao crescimento da cidade, tanto
em termos demográficos como espaciais ampliando as distâncias entre a
Área central e as novas áreas residenciais: a competição pelo mercado
consumidor, por exemplo, leva as firmas comerciais a descentralizarem seus
pontos de venda através da criação de filiais nos bairros. (CORRÊA, 2002,
p. 46).
Próximo à CE 183, no Bairro Açude Novo encontra-se um posto de gasolina
com área para comercialização de produtos automotivos, uma lanchonete, e a oferta de
serviços como lava-jato e hospedagem.
No mesmo bairro há concertos de motocicletas e outro serviço de lava-jato. Ao
lado, numa área ligada ao Posto Martins Petróleo (este não estando em funcionamento),
há comercialização de produtos voltados à agropecuária.
No setor de serviços partimos da área de sua maior incidência, o centro, onde se
encontra uma casa lotérica, estúdios fotográficos e gravações, serviços de reparo de
motocicletas, comercialização de botijões com dois estabelecimentos no centro, duas
funerárias, um curso de informática básica, uma assistência técnica de computadores,
três cyber café, consertos de aparelhos eletrodomésticos, serviço financeiro com uma
agência do Banco Bradesco, agência dos Correios, Coelce, serviços de saúde como o
Hospital Ana Celestina Rodrigues, um escritório de contabilidade, laboratórios de
prótese dentária e oftalmológico, uma ótica, cartórios, serviço de empréstimos (Pronaf)
voltado aos agricultores e pequenos empreendedores, câmara municipal, sede da
Administração pública.
Não há em Cariré serviços e atividades comerciais com características mais
modernas pertencentes ao circuito superior da economia urbana, caracterizado,
sobretudo, pelo intenso capital, pela introdução de novas tecnologias e pelo crédito
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Centro de Ciências Humanas-CCH
66
Revista Homem, Espaço e Tempo
março de 2009
ISSN 1982-3800
bancário. A distribuição dos serviços e do comércio em Cariré serve à população para
abastecê-la em suas necessidades básicas.
Poderíamos então definir a cidade local como aglomeração capaz de
responder às necessidades vitais mínimas, reais ou criadas, de toda uma
população, função esta que implica uma vida de relações. (SANTOS, 1982,
p. 71).
Ao lado do circuito superior marginal existente na cidade de Cariré, há a
presença de um circuito inferior, marcado por comerciantes (vendedores ambulantes) e
prestadores de serviços tradicionais como costureiras, vendedor de espetinho,
chapeleiras, carroceiros, etc. que encontram no circuito inferior a única forma de
sobrevivência e buscam uma oportunidade de ganhar algum dinheiro e melhorar suas
condições de vida.
Nas cidades do interior do Nordeste brasileiro, contrariando as expectativas
do próprio poder público, a força do pobre renasce hoje mais do que no
passado, nas atividades ligadas ao circuito inferior. (HOLANDA, 2007,
p.50).
As relações de trabalho no circuito inferior são marcadas pelo intenso trabalho e
pouco capital. A precariedade das condições de trabalho é flagrante, com a utilização de
técnicas muito rudimentares, em função da falta de recursos financeiros.
A dinâmica do comércio na cidade de Cariré está relacionada à renda e
conseqüentemente ao consumo da população. As atividades são caracterizadas pela
pouca utilização de técnicas modernas e pelo baixo nível organizacional.
2. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Através deste estudo podemos concluir que as atividades comerciais na cidade
de Cariré estão intrinsecamente ligadas à economia e as formas tradicionais de viver de
sua população, expressando em sua forma uma relação forte com seu passado em que
por muito tempo as atividades econômicas estiveram apoiadas na agricultura.
Conclui-se também que as modernizações sobre o espaço ocorrem de forma
seletiva, não se consolidando de forma homogênea. Assim concorda-se com Holanda
(2007) quando menciona que as “modernizações se caracterizam como incompletas,
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Centro de Ciências Humanas-CCH
67
Revista Homem, Espaço e Tempo
março de 2009
ISSN 1982-3800
pois, mais uma vez apenas frações do território são utilizadas como arranjos dos novos
objetos técnicos”. É nesta perspectiva que o comércio na cidade de Cariré se configura
como uma rugosidade em meio às inovações do setor terciário da economia do mundo
contemporâneo, pois as atividades aí existentes associadas à criatividade da população
pobre, são capazes de absorver aqueles que estão margem do processo de globalização.
Os serviços e o pequeno comércio, a exemplo da feira representam enorme
relevância para os moradores da cidade. Para alguns comerciantes significam o único
meio de sobrevivência, para outros significa uma forma de complementar a renda, e para
os consumidores são vistos como instituições capazes de fornecer o que necessitam, pois
na atual conjuntura de uma deficiente distribuição de renda não só no município.
Acreditamos que esse trabalho seja apenas introdutório acerca de uma realidade
que se altera em meio às mudanças que vem de longe, nesta perspectiva, alguns assuntos
relevantes sobre a economia urbana devem ser discutidos e reforçados em outros
estudos.
3. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
ASSIS, Lenilton Francisco de. GOMES, Maria ferreira. A Organização e a dinâmica
espacial do comércio da pequena cidade de Cariré. 2005.
CABRAL, Luciana Francisca. O Comércio e a Dinâmica Populacional na Área Central
do
Rio
de
Janeiro.
Disponível
em:
wwww.abep.nepo.unicamp.br/docs/anais/outros/4EncNacSobreMigracao/SCII-10.pdf.
Acesso em 10 de novembro de 2008.
CARLOS, Ana Fani Alessandri. Espaço e Indústria. São Paulo: Contexto, 1988.
CARLOS, Ana Fani Alessandri. A Cidade. 6. ed. – São Paulo: Contexto, 2001.
CARVALHO JUNIOR, José. Processo Histórico de Cariré a partir da Estrada de
Ferro a sua Emancipação. 51 f. Monografia (Licenciatura em História) Centro de
Ciências Humanas, Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA. 2003.
CLEPS, Geisa Daise Gumiero. O Comércio e a Cidade: Novas territorialidades Urbanas.
Revista Sociedade & Natureza. V. 16, n 30, p.117-132, jun/2004. Uberlândia: 2004.
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Centro de Ciências Humanas-CCH
68
Revista Homem, Espaço e Tempo
março de 2009
ISSN 1982-3800
COELHO, Siebra M. De Sobral ao Global: Um percurso pela questão urbana.
Sobral: Edições UVA, 2000.
CORRÊA, Roberto Lobato. O Espaço Urbano. 4ª ed. Ática: São Paulo, 2002.
FORTE, Francisco Tarcílio Teles. A feria livre em Irauçuba e o projeto de
revitalização de 2005. 71 f. Monografia (Licenciatura em História) Centro de Ciências
Humanas, Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA. 2007.
HOLANDA, Virginia C. C de. Modernizações e espaços seletivos no Nordeste
Brasileiro. Sobral: Conexão ligar/mundo. Tese (Doutorado em Geografia Humana).
Departamento de Geografia da FFLCH da USP. São Paulo. 2007.
IPECE.
Mapa
de
Cariré.
Disponível
www.ipece.ce.gov.br/cartografia_1/Mapas%20Municipais/C_pdf/Carire.pdf.
em:
Acesso
em: 20 nov. 2008.
ISSLER, Bernardo. As feiras do Nordeste e sua função regional. Revista Orientação.
Instituto de geografia da Universidade de São Paulo. Março. 1967.
JOCA, Tereza Helena de Paula. Diagnóstico Sócio-ambiental do Estado do Ceará: o
olhar da sociedade civil. Fortaleza: 1993. 200p. II.
MEDEIROS, Maria Auxiliadora de. A quebra do sistema produtivo do Semi-árido: o
caso de Cariré. 120 f. Monografia (Licenciatura em Geografia) Centro de Ciências
Humanas, Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA. 2000.
PARENTE, Josênio. Organização e Expressão Política da Burguesia: os industriais
do Ceará. Fortaleza: Edições UFC, 1989.
______. O Ceará dos Coronéis (1945-1986). In: SOUZA, S. Uma Nova História do
Ceará. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 2000.
______. Uma política de sucesso: O Banco do Nordeste e a modernidade. In: Revista
Políticas Públicas e Sociedade. Ano 1, Nº 1, jan/jun. Fortaleza: UECE, 2001.
SANTOS, Milton. O Espaço Dividido: os dois circuitos da economia urbana dos
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Centro de Ciências Humanas-CCH
69
Revista Homem, Espaço e Tempo
março de 2009
ISSN 1982-3800
países subdesenvolvidos. Livraria Francisco Alves: Rio de Janeiro: 1979.
______. Espaço e Sociedade (Ensaios). 2ª ed. Vozes: Petrópolis. 1982.
_______.A Natureza do Espaço. Técnica e tempo. Razão e emoção. São Paulo:
Editora Hucitec, 1996
_______. O retorno do território. In SILVEIRA, Maria Laura. de et al. (orgs.)
TERRITÓRIO globalização e fragmentação. São Paulo: Editora Hucitec, 3ª
edição.1996.
_______. Técnica, Espaço, Tempo – Globalização e Meio Técnico-CientíficoInformacional. 4ª ed. Hucitec: São Paulo, 1998
SANTOS, Milton & SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil. Território e sociedade no
início do século XXI. Rio de Janeiro: Editora Record, 2001.
SANTOS, Edinilza Barbosa dos. Os pequenos centros comerciais e a (re)
organização do espaço urbano: o caso do bairro Manaíra, em João Pessoa-PB. 123
folhas. Dissertação de Mestrado – Universidade Federal de Pernambuco, 2002.
SILVEIRA, Maria Laura. Globalização e circuitos da economia urbana em cidades
brasileiras. Cuadernos Del Cendes. Caracas-Venezuela. Ano 21. Terceira época.
Setembro-dezembro, 2004.
SILVA, José Borzacchiello da. CAVALCANTE, Tércia Correia. DANTAS, Eustógio
Wanderley Correa. SOUSA, Maria Salete de. [et al]. Demócrito Rocha: Fortaleza, 2005.
480 p.
VIEIRA, Rute. A feira livre de Taperoá – PB. 105 f. Monografia (graduação)
(UFPB/CCEN) – Departamento de Geociências, 2004.
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Centro de Ciências Humanas-CCH
70
Revista Homem, Espaço e Tempo
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
março de 2009
ISSN 1982-3800
Centro de Ciências Humanas-CCH
71
Download

Um estudo dos circuitos da economia urbana na cidade de