“Alá é Grande. Louvado seja.
Faz já muitos anos, quando eu era jovem e minhas pernas me levavam durante longas jornadas sobre a areia e a
pedra sem sentir cansaço, e aconteceu quando me disseram
que meu irmão mais moço adoecera. Embora três dias de caminhos separassem minha jaima* da sua, pôde mais o amor
que por ele sentia que a preguiça, e empreendi a marcha sem
temor, pois, como disse, era jovem e forte e nada espantava
meu ânimo.
Tinha chegado o anoitecer do segundo dia quando encontrei um campo de muito elevadas dunas, a meia jornada de
marcha do túmulo do Santón** Omar lbrahím, e subi a uma
delas tentando avistar um lugar habitado no qual pedir hospitalidade. Aconteceu, porém, que não distingui nenhum, e decidi,
portanto, deter-me ali e passar a noite resguardado do vento.
Muito alta deveria ter estado a lua – se, para minha
desgraça, não houvesse querido Alá fosse aquela noite sem
ela –, quando me despertou um grito tão inumano que me deixou sem ânimo, e fez com que me agachasse presa do pânico.
Assim estava quando de novo chegou o tão espantoso berro, e a este seguiram-se queixas e lamentações em tal
número que pensei que uma alma que sofria no inferno conseguia atravessar a terra com seus uivos.
* Jaima: Designa a tenda, a habitação por excelência dos beduínos.
(N. do T.: todas as notas tiveram a colaboração da jornalista Sukaima
Al Haj.)
** Santón: O grande santo, embora não exista, entre os muçulmanos, o
conceito de santo como no cristianismo. Costuma ser atribuído aos
muçulmanos que se destacam por sua fé e religiosidade. (N. do T.)
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Mas eis aí que, de improviso, senti que escavavam na
areia e em seguida aquele ruído cessou para aparecer mais
adiante, e desta forma eu o percebi sucessivamente em cinco
ou seis lugares diversos, enquanto os dilacerantes lamentos
continuavam, e a mim o medo mantinha encolhido e trêmulo.
Não acabaram aí minhas atribulações, porque num instante escutei uma respiração fatigada, atiraram punhados de
areia em minha cara, e que meus antepassados me perdoem
se confesso que experimentei um medo tão atroz que dei um
pulo e saí correndo como se o próprio Saitan, o demônio
expulso, me perseguisse. E foi assim que minhas pernas não
se detiveram até que o sol me iluminou, e não restava às
minhas costas o menor sinal das grandes dunas.
Cheguei, então, à casa de meu irmão, e quis Alá que o
encontrasse muito melhor, de tal forma que pôde escutar a
história de minha noite de terror, e, ao contá-la ao amor do
fogo, tal como agora a estou contando, um vizinho explicoume o que me havia acontecido, e contou o que seu pai lhe
havia contado.
E disse assim:
‘Alá é grande. Louvado seja.
Aconteceu, e isto há muitos anos, que duas poderosas
famílias, os Zayeds e os Atmans, odiavam-se de tal modo que
o sangue de uns e de outros tinha sido vertido em tantas
ocasiões que suas vestes e inclusive seu gado poderiam ter-se
tingido de vermelho perpetuamente. E sucedeu que, havendo sido um jovem Atman o último caído, estavam estes ansiosos por vingança.
Ocorria também que entre as dunas onde você dormiu,
não distante do túmulo do Santón Omar Ibrahím, acampava
uma jaima dos Zayeds, mas nela tinham morrido já todos os
homens e apenas se encontrava habitada por uma mãe e seu
filho, que viviam tranqüilos, uma vez que, inclusive para aquelas famílias que tanto se odiavam, atacar uma mulher continuava sendo algo indigno.
Mas ocorreu que uma noite apareceram seus inimigos,
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e, depois de manietarem a pobre mãe que gemia e chorava,
levaram o pequeno com o propósito de enterrá-lo vivo em
uma das dunas.
Fortes eram as amarras, mas sabido é que nada é mais
forte que o amor de mãe, e a mulher logrou rompê-las; quando
saiu ao exterior, já todos se haviam ido, e ela não distinguiu
senão um infinito número de altas dunas, pelo que se lançou
de uma a outra, escavando aqui e ali, gemendo e chamando,
sabendo que o filho se asfixiava com o passar do tempo e só
ela era a única que podia salvá-lo.
E assim a surpreendeu o amanhecer.
E assim continuou o dia, e outro, e outro, porque a
misericórdia de Alá lhe havia concedido o bem da loucura,
para que deste modo sofresse menos ao não compreender
quanta maldade existe nos homens.
E nunca mais voltou a se saber daquela infortunada
mulher, e contam que de noite seu espírito vaga pelas dunas
não distante do túmulo do Santón Omar Ibrahím, e ainda continua com sua busca e suas lamentações, e certo deve ser, já
que você, que ali dormiu sem sabê-lo, se encontrou com ela.
Louvado seja Alá, o Misericordioso, que permitiu a você
sair com vida e continuar sua viagem, e agora esteja aqui,
conosco, ao amor do fogo’.
Louvado seja.”
Ao concluir seu relato, o ancião suspirou profundamente, e, se dirigindo aos mais jovens, àqueles que escutavam pela primeira vez a antiga história, disse:
– Vejam como o ódio e as lutas entre famílias a nada
conduzem, senão ao medo, à loucura e à morte, e certo é que
nos muitos anos que combati junto aos meus contra nossos
eternos inimigos do norte, os Ibn-Azíz, jamais vi nada bom
que o justificasse, porque os saques de uns com os saques
de outros se pagam, e os mortos de cada lado não têm preço,
e como uma corrente vão arrastando a novas mortes, e as
jaimas ficam vazias de braços fortes, e os filhos crescem sem
a voz do pai.
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Durante uns minutos ninguém falou, pois se fazia necessário meditar sobre os ensinamentos da história que o ancião
Suílem acabava de contar, e não teria sido correto esquecêlos num instante, pois para isso não valia a pena molestar um
homem tão venerável, que perdia horas de sono e se cansava
por eles.
Por fim, Gacel, que havia escutado já dezenas de vezes
aquele velho relato, indicou com um gesto das mãos que era
hora de todos se retirarem para dormir, e se afastou só, como
todas as noites, para verificar se o gado havia sido recolhido,
os escravos haviam cumprido suas obrigações, sua família
descansava em paz e reinava a ordem em seu pequeno “império”, constituído por quatro tendas de pele de camelo, meia
dúzia de sheribas* de junco entremeado, um poço, nove palmeiras e um punhado de cabras e camelos.
Logo, também, como todas as noites, subiu devagar
até a alta e dura duna que protegia seu acampamento dos
ventos do este, e contemplou, à luz da lua, o território desse
império: uma infinita extensão de deserto, dias e dias de marcha através de areias, rochas, montanhas e pedregais, nos
quais ele, Gacel Sayah, reinava com domínio absoluto, pois
era o único inmouchar** ali estabelecido, e era também dono
do único poço conhecido.
Agradava-lhe sentar-se sobre aquele cume, para dar
graças a Alá pelas mil bênçãos que, freqüentemente, jogava
sobre sua cabeça: a bela família que lhe havia proporcionado,
a saúde de seus escravos, o bom estado dos animais, os
frutos de suas palmeiras, e o supremo bem de tê-lo feito nas* Sheribas: Designa uma estaca de bambu grosso que sustenta as tendas. Aplica-se também a um tripé do mesmo bambu, que costuma ser
instalado à borda dos poços, para facilitar a subida e a descida dos
recipientes para pegar água. (N. do T.)
** Inmouchar: Textualmente, designa um tipo de faca. No texto, uma
categoria social mais elevada entre os tuareg. A analogia pode ser
atribuída ao fato de que, entre os beduínos, as qualidades guerreiras,
ou seja, o “afiamento” dos homens das tribos, sempre foram de
relevância. (N. do T.)
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cer nobre entre os nobres do poderoso povo do Kel-Talgimus,
o “Povo do Véu”, os indomáveis imohag*, a quem o resto
dos mortais conheciam pelo apelativo de tuareg.
Nada havia ao sul, ao este, ao norte, ou ao oeste: nada
que pusesse limite à influência de Gacel, o Caçador, que fora
se afastando, pouco a pouco, dos centros habitados, para se
estabelecer no mais distante confim dos desertos, lá onde
podia se sentir inteiramente a sós com seus animais selvagens, adaxes fugitivos, que espreitavam durante dias na planície; muflões das altas montanhas isoladas entre grandes
mares de areia; asnos selvagens, javalis, gazelas e infinitos
bandos de aves migradoras.
Gacel havia fugido do avanço da civilização, da influência dos invasores e do extermínio indiscriminado dos animais
das areias, e sabida era, em toda a extensão do Saara, que a
hospitalidade de Gacel Sayah não tinha igual, de Tombuctu
às margens do Nilo, embora sua fúria costumasse se abater
sobre as caravanas de escravos e os “caçadores loucos” que
ousavam se internar em seu território.
– Meu pai me ensinou – dizia – a não matar mais que
uma gazela, ainda que a manada fuja, e depois custe três dias
para alcançá-la. Eu me refaço depois de três dias de marcha,
mas nada devolve a vida a uma gazela morta inutilmente.
Gacel testemunhou como os “franceses” extinguiram os
antílopes do norte, os muflões da maior parte do Atlas e os
belos adaxes da hamada**, do outro lado da grande sekia***,
que fora milhares de anos atrás rio caudaloso e, por isso,
havia escolhido aquele canto de planícies pedregosas, areias
* Imohag: Textualmente, “grupo sentado ao redor do fogo celebrando
uma aliança”. É de crer-se, portanto, que no texto esteja designando
o nascimento de uma aliança, aliás, coisa que muitas vezes ocorre
entre tribos que se unem contra um inimigo comum. (N. do T.)
** Hamada: Designa tanto os terrenos rochosos como a rocha em si,
comum nos trechos mais inóspitos dos desertos. (N. do T.)
*** Sekia: Designa tanto as terras irrigadas artificialmente como um
conjunto de canais de irrigação. (N. do T.)
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infinitas e montanhas pontiagudas, a catorze dias de marcha
de El-Akab, porque ninguém mais que ele ambicionava a mais
inóspita das terras do mais inóspito dos desertos.
Tinham ficado definitivamente para trás os tempos gloriosos em que os tuareg assaltavam caravanas ou atacavam, uivando, os militares franceses; e tinham passado igualmente os
tempos de rapina, luta e morte, correndo como o vento pela
planície, orgulhosos do apelido de “bandoleiros do deserto”
e “senhores” das areias do Saara do sul do Atlas às margens
do Chade. Esqueceram-se, também, das guerras fratricidas e
das algazarras, das quais os anciões guardavam tão grata e
distante memória, pois aqueles eram anos do ocaso da raça
imohag. Alguns de seus mais valentes guerreiros dirigiam caminhões para um patrão “francês”, serviam no exército regular ou
vendiam tecidos e sandálias a turistas de berrantes camisas.
No dia em que seu primo Suleimán abandonou o deserto para viver na cidade, decidido a transportar tijolos dia e
noite, sujo de cimento e cal, em troca de dinheiro, Gacel compreendeu que precisava fugir e se converter no último dos
tuareg solitários.
E ali estava, e com ele sua família, e graças dava a Alá
mil e uma vezes, pois em todos aqueles anos – tantos que já
havia inclusive perdido a conta – nem uma só noite, lá, sozinho
no alto de sua duna, ele se arrependera da decisão tomada.
O mundo havia vivido nesse tempo estranhos acontecimentos, dos quais lhe chegavam rumores muito confusos,
através de esporádicos viajantes, e Gacel ficou alegre por
não tê-los visto de perto, pois as velhas notícias falavam de
morte e guerra; de ódio e fome; de grandes mudanças cada
vez mais aceleradas; mudanças com as quais ninguém parecia se sentir satisfeito e que não auguravam nada de bom
também para ninguém do povo.
Uma noite, sentado ali mesmo, ele descobriu uma nova
estrela, fulgurante e veloz, que sulcava o céu, decidida e constante, diferente do vôo desatinado e fugaz das estrelas cadentes, que mergulhavam subitamente no nada. Seu sangue se
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