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Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande
Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande
ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015
Edição Especial • Homenageado
A R Y O N D AL L ' I G N A R O D R I G UE S
A LÍNGUA PORTUGUESA NO BRASIL: PERCURSO HISTÓRICOLINGUÍSTICO
Adriana Pereira Santana (UFMS/SEMED)1
[email protected]
Luciene Cristina Paredes Müller (PPGL - UEMS)2
[email protected]
RESUMO: Este trabalho tem como objetivo apresentar aspectos histórico-linguísticos do percurso da
língua portuguesa em território brasileiro. Acreditamos que discorrer sobre a trajetória históricolinguística do português no Brasil é estabelecer uma relação com todo o processo da colonização
portuguesa em educar e instruir sua nova fonte de riquezas. Tal processo de colonização, no que tange à
língua, apresentou-se, em linhas gerais, embasado no poder da igreja católica, por meio do ensino dos
religiosos jesuítas, com o objetivo de evangelizar e dominar, nos mais diversos aspectos o território
“recém-descoberto.” Com o efetivo início da colonização portuguesa em 1532, inicia-se a fase de
transplantação da língua portuguesa para o Brasil. Aqui, há o início de uma relação, pois nesse momento
talvez não seja oportuno falar em contato, propriamente dito, com outras línguas, isto é, as de base
indígena faladas em território brasileiro. O texto está estruturado em cinco partes basilares, quais sejam:
os contatos interétnicos; as características do português brasileiro; a unidade x diversidade do português
do Brasil e léxico e norma, considerando que o léxico é o nível linguístico responsável por nomear e
representar o universo de uma sociedade. Ao léxico estão relacionados a história, a tradição, os feitos e os
costumes de um povo, assumindo assim, uma configuração processual de alteração e expansão, não
podendo ser considerado pronto, acabado, mas como um nível linguístico abrangente e dinâmico. A
pesquisa apresenta dados iniciais que constituem a Dissertação de Mestrado intitulada Um Estudo Dos
Campos Lexicais do Índio e do Negro no Português Colonial, concluída no ano de 2010, na Universidade
Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS.
PALAVRAS-CHAVE: Língua Portuguesa. Colonização. Prestígio Linguístico.
ABSTRACT: This work aims to present historical and linguistic aspects of the Portuguese language
trajectory in Brazil. We believe that discussing the historical and linguistic trajectory of Portuguese
language in Brazil is to establish a relation with the whole process of Portuguese colonization in
educating and instructing his new source of wealth. With regard to the language, in general, this process
of colonization presented itself grounded in the power of the Catholic Church, through the teaching of the
Jesuits, in order to evangelize and dominate the newly «discovered» territory, in several aspects. In 1532,
with the effective beginning of Portuguese colonization, it also begins the transplantation of Portuguese
for Brazil. This is the beginning of a relation, because, at that time, it might not be properly called contact
with other languages, namely, the indigenous languages spoken in Brazil. The text is structured in the
following five main parts: inter-ethnic contacts; the characteristics of the Brazilian Portuguese; unit
versus diversity in Brazilian Portuguese; and lexicon and standards - considering that the lexicon is the
linguistic level responsible for appointing and representing the universe of a society. History, tradition,
1
Professora Mestre em Estudos de Linguagens pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul-UFMS.
Técnica do núcleo de Língua Portuguesa da Secretaria Municipal de Educação de Campo Grande/MSSEMED. E-mail: [email protected]
2
Mestranda em Letras pela UEMS. Especialista em Planejamento Educacional. Professora de Língua
Portuguesa da Rede Estadual de Ensino de MS. E-mail: [email protected]
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deeds and behavior of a people are related to the lexicon, assuming a procedural configuration of change
and expansion, which may not be considered ready, but as a comprehensive and dynamic language level.
The research presents initial data that constitute the Dissertation entitled Um Estudo Dos Campos
Lexicais do Índio e do Negro no Português Colonial, completed in 2010, at the Federal University of
Mato Grosso do Sul (UFMS).
KEYWORDS: Portuguese Language; Colonization; Linguistic Prestige.
1 Introdução
Em estudos sobre a língua portuguesa no Brasil, Guimarães (2005, p. 24-25),
estabelece quatro períodos característicos considerando a relação da língua portuguesa
com as línguas já existentes em 1500.
O primeiro momento parte do início da colonização e estende-se até a saída dos
holandeses (1654), do Brasil; o segundo começa com a saída dos holandeses e vai até a
chegada da família real portuguesa (1808), no Rio de Janeiro. O terceiro período
começa com a vinda da família real e segue até a formulação da questão da língua
nacional do Brasil (1826). O quarto, por sua vez, inicia-se em 1826, estendendo-se até
1930, com o fortalecimento do processo de imigração brasileira.
A ambientação linguística brasileira no início do período colonial era bem
diversificada, formada pela língua portuguesa, pelas línguas indígenas, pelas línguas
gerais e pela língua holandesa3. Esta informação reforça a ideia da heterogeneidade
linguística pela qual passou o nosso país, ao contrário da noção de aparente
homogeneidade apregoada pelos religiosos jesuítas e pelos colonizadores.
Com relação ao fator linguístico em voga no período colonial, Mariani (2004, p.
21), traça o seguinte perfil,
3
“No século XVII houve a tentativa de colonização do país por parte dos holandeses. A importância
desse período deve-se ao incentivo cultural pelo governo holandês estabelecido no Brasil. Como
resultado, temos a criação de uma biblioteca, da imprensa e o testemunho da época retratado em quadros
e escrito em livros de holandeses.” ( BOLOGNINI E PAYER, 2005, p. 43).
2
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Até o século XVIII, a linguagem, enquanto elemento simbólico
constitutivo de qualquer comunidade linguística era um elemento de
diferenciação da colônia brasileira relativamente à metrópole
portuguesa. Porém, devido à cultura de seu próprio tempo, os
colonizadores portugueses não compreendiam dessa forma. Sem
dúvida, a língua portuguesa era a língua da elite administrativa, das
autoridades jurídicas e eclesiásticas, dos donatários das capitanias
hereditárias e, nessa medida, compartilhada com a corte.
Sabe-se que a língua portuguesa não era, nem de longe, exclusividade, no
sentido de uso na colônia, recebendo status de grande importância apenas por influência
dos colonizadores.
2 Os contatos interétnicos
Desde a chegada em terras brasileiras os portugueses encontraram os habitantes
indígenas falando uma diversidade de línguas. Esse fato mostra que, para fins de
evangelização e dominação cultural a doutrinação e o ensino não poderiam ser
desenvolvidos na língua do conquistador – português ou espanhol. Por isso, trataram
logo de usar de seus conhecimentos em Latim para adaptarem uma linguagem que se
constituiria na linguagem geral ao longo dos primeiros séculos de colonização brasileira
(HOUAISS, 1992). Dessa forma, os indígenas mantinham a sua língua para
comunicação interna na comunidade e “aceitavam” a denominada língua geral para a
comunicação com a comunidade externa.
As línguas gerais eram línguas de base tupi, em uso por grande parte da
população. As mais importantes foram a Geral Paulista e a Geral Amazônica.
Constituíam a língua do contato entre os indígenas, entre os indígenas e portugueses e
todos que iam se agregando ao novo território. Em termos gerais, era a língua da
informalidade, comum a nativos e não nativos, sendo instrumento básico no processo de
catequização dos povos indígenas. Já o português, era a língua oficial do Estado,
empregada em atos e documentos oficiais relacionados à administração colonial.
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Segundo Couto (1996, p. 96), inicialmente, a língua geral servia como veículo
de comunicação entre portugueses e nativos, tendo o tupi como base. Mas numa
segunda etapa estendeu-se para a Amazônia, resultando na língua geral amazônica,
conhecida como “nheengatu (< nheen = falar, língua, + katu = bom) e existe até hoje,
tanto como língua franca quanto como língua materna de alguns grupos.
Consoante Rodrigues (2006, p.149) grande parte da população indígena da
região que compreendia a Amazônia falava uma língua bem próxima do tupi da
população de São Vicente – o tupinambá. A língua geral amazônica foi levada pelos
exploradores, soldados, colonos e missionários para o interior da Amazônia e aí
prevaleceu até o século XIX, como a língua dos colonizadores e dos brasileiros. Os
indígenas conquistados para o sistema colonial aprendiam forçadamente a LGA,
usando-a como segunda ou como primeira língua.
Para Borges (2001), a expressão língua geral aponta para três acepções: a) diz
respeito às línguas surgidas na América do Sul decorrentes dos contatos entre o grupo
colonizador e o grupo indígena; b) em sentido mais específico, designa as línguas de
base indígena desenvolvidas em São Paulo e na Amazônia; c) também se refere á
gramatização dessas línguas denominadas gerais.
Esta explicação classificatória é importante à medida que expande a descrição do
que vem a ser língua geral, não delimitando tão séria questão a termos isolados e a
conceitos fechados.
Nesse ambiente de diversidade de línguas, grande importância teve, para os
jesuítas e para o sistema colonial em geral, a criança indígena. Segundo Freyre (2004, p.
218),
O culumin, o padre ia arrancá-lo verde à vida selvagem: com dentes
apenas de leite para morder a mão intrusa do civilizador; ainda
indefinido na moral e vago nas tendências. Foi, pode-se dizer o eixo
da atividade missionária: dele o jesuíta fez o homem artificial que
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quis. O processo civilizador dos jesuítas consistiu principalmente
nesta inversão: no filho educar o pai; no menino servir de exemplo ao
homem; na criança trazer o caminho do Senhor e dos europeus à gente
grande.
A declarada influência dos padres junto à criança significava a conservação do
elemento indígena, porém, sem a preservação de sua cultura, seus costumes e crenças
característicos. O objetivo era bem delimitado, como pudemos perceber nas palavras de
Freyre (2004, p. 218), “[...] na criança trazer o caminho do Senhor e dos europeus à
gente grande”. A busca se valia da fé e da cultura como meios de conquista e
dominação.
Já o segundo período linguístico trabalhado por Guimarães (2005) inicia-se com
a saída dos holandeses do Brasil e que se estende até a chegada da família real
portuguesa no Rio de Janeiro caracteriza-se por Portugal pretender acelerar o processo
de colonização tomando medidas que contribuíssem e levassem ao declínio das línguas
gerais.
A população brasileira começa a receber um número cada vez maior de
portugueses e de negros que vinham para o serviço escravo, assim, a relação linguística
até então entre o português e o índio estende-se também para as línguas africanas. Com
o aumento da população portuguesa no Brasil, cresce, evidentemente, o número de
falantes específicos da língua portuguesa, porém, esses portugueses não vinham todos
da mesma região de Portugal, tendo de comunicar-se em um português de dialetos de
diferentes regiões. Essa característica aumenta a configuração plurilinguística da
história da língua portuguesa no Brasil.
Após mais de dois séculos de predomínio, na segunda metade do século XVIII a
língua geral começa a entrar em decadência; entre as razões podemos citar: a descoberta
das minas de ouro e diamantes, que abriu caminhos para a chegada de imigrantes
portugueses, as decisões do diretório criado pelo marquês de Pombal, em 1758,
obrigando, oficialmente, o uso da língua portuguesa, e por fim, a expulsão em 1759 dos
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jesuítas (TEYSSIER, 2007, p. 95).
Alguns estudiosos não acreditam em imposição totalmente negativa por parte
dos portugueses à comunidade colonizada, no que diz respeito à proibição da língua
geral; Biderman, (2002, p.68), por exemplo, defende que “o português não se impôs aos
nativos de modo violento. Impôs-se por causa de seu prestígio e por representar uma
civilização mais avançada que a dos aborígenes. E também porque era a língua da
escola, da administração e da comunicação com o resto do mundo.”
No capítulo intitulado Contato e Interação Linguística no Brasil Colônia Silva
Neto (1976, p. 92) aponta que:
as sociedades assemelham pirâmides em que os grupos sociais estão
dispostos uns acima dos outros. Cada grupo ou camada procura
assimilar as particularidades da camada adjacente superior e evitar as
de camada inferior. O cume da pirâmide é constituído pela classe mais
elevada, ideal a que aspiram, grau por grau, os demais grupos sociais
[...] uma das características da classe social é, precisamente, a
linguagem. Ela até classifica os indivíduos.
Vejamos a seguir o esquema que ilustra o quadro sociolinguístico do Brasil
Colônia segundo Silva Neto (1976):
Oficiais e colonos (portugueses)
Oficiais e colonos (brasileiros)
Mestiços de índios
Mulatos
Mulato-índio; índio-negro
Escravos vermelhos
Escravos negros
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Como vimos, os oficiais e os colonos formavam a casta superior, sendo que os
nascidos em Portugal ganhavam um degrau acima dos que nasciam na colônia; em
seguida vinham os mestiços de índios que não admitiam serem colocados no mesmo
nível dos mulatos, sendo justificados pela ascendência paterna e a proteção dispensada
por Portugal ao promover os casamentos mistos entre europeus e indígenas; na
sequência vinham os mulatos e, depois deles o mulato-índio e o mulato-negro. A base
da pirâmide era constituída por escravos indígenas e, sobretudo, por escravos africanos.
Essa base tendia sempre, inclusive na linguagem, a imitar a camada superior; já a classe
localizada no topo, nada tendo acima de si, evitava tudo o que era característico nas
outras camadas.
3 O prestígio linguístico
A obrigatoriedade do uso da língua portuguesa gerou uma grande mudança no
modo de vida das populações indígenas, interferindo diretamente no aspecto cultural.
Sobre esse processo Isquerdo (2006, p.5) salienta
O ensino do português aos índios pelos jesuítas, por exemplo,
desencadeou o processo de aculturação das populações nativas que
culminou na substituição das línguas faladas pelas diferentes etnias
pelo português. Isso em conseqüência, não só do contato entre línguas
na comunicação cotidiana e do processo de catequização, mas também
de decisões políticas do governo imperial quanto à obrigatoriedade do
uso do português e à conseqüente proibição da comunicação por meio
da língua materna das diferentes etnias.
Embora oficialmente houvesse o decreto de instituição da língua portuguesa, a
prática em uso continuava mostrando uma crescente variedade de línguas nas mais
variadas situações comunicativas. Noll (2004, p.13), faz menção a oito tipos de
variedades relativas à língua portuguesa no Brasil, desde o século XVI, os quais foram:
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o português europeu escrito/impresso; as variedades dos colonos
oriundos das diferentes regiões de; o Português dos índios integrados
em contato permanente com os portugueses; o português dos
mamelucos nascidos da união de brancos e índios; o português dos
negros boçais chegados da África; o português dos negros crioulos e
mulatos; o português falado no complexo da casa-grande e da senzala
e o português das populações citadinas.
A classificação mediante os grupos populacionais mencionados esclarece o
caráter generalizado que se costuma ter com relação à história da língua. Fica claro que
não existiu só um tipo de língua indígena, ou só um tipo de língua africana, e,
principalmente, não só um tipo de português atuando no processo linguístico desde o
início do Brasil Colônia.
A redução da população indígena desde o primeiro século de ocupação europeia,
em virtude do trabalho forçado muito além das possibilidades físicas ou por motivo das
epidemias trazidas pelo homem branco, contra as quais os índios não tinham defesas,
resultou no fenômeno da redução das línguas, como afirmou Houaiss (1992, p. 57), “
com o etnocídio ocorria o glotocídio, pois línguas são fatos culturais que demandam
homens e culturas.” Com relação à perda da diversidade linguístico-cultural pela qual
passou/passa o Brasil, Rodrigues (2005, p.36), analisa,
A redução de 1200 para 180 línguas indígenas nos últimos 500 anos
foi o efeito de um processo colonizador extremamente violento e
continuado, o qual ainda perdura, não tendo sido interrompido nem
com a independência política do país no início do século XIX, nem
com a instauração do regime republicano no final do mesmo século,
nem ainda com a promulgação da “Constituição Cidadã” de 1988.
Esta análise sobre a perda da diversidade linguística nos mostra, por meio do
retrospecto histórico, o caminho percorrido, sendo o resultado nada mais que fortes
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consequências de um processo colonizador que não propiciou uma integração e
interação entre as línguas envolvidas; desembocando na crescente e permanente redução
das línguas indígenas em todo o território brasileiro.
Do ponto de vista cronológico pode-se falar em índios, portugueses e africanos,
em termos de presença em terras brasileiras, embora o espaço de tempo entre
portugueses e africanos seja extremamente pequeno; em contrapartida, no que se refere
à mão-de-obra, sobre a população africana recaiu o principal peso de produção das mais
diversas riquezas da colônia. O tráfico de escravos exigia pouco investimento e como
resultado altos lucros, constituindo, portanto, um excelente negócio para os
colonizadores.
Com relação ao processo de transações envolvendo os negros africanos, efetuado
ao longo de três séculos, Houaiss (1992, p.75-76) descreve que:
a necessidade da mão-de-obra para as lavouras de exportação e –
mesmo – de consumo interno, para os trabalhos domésticos, as
atividades mesteirais e serviços urbanos trouxe – ante a rebeldia e
inadequação dos indígenas – o elemento africano, a que os
portugueses havia já um século estavam afeitos. Um alvará de 1549
facilitava a trazida de negros de São Tomé e da Guiné, como estímulo
à cultura e economia canavieiras: cada engenho podia importar até
120 peças.
Entre “as peças” importadas para o Brasil havia os negros ladinos que
pronunciavam o português em um nível elementar, os boçais, que ignoravam totalmente
o idioma e, por isso eram orientados pelos ladinos na comunicação cotidiana
(HOUAISS, 1992).
Assim como ocorrido com as línguas indígenas as línguas africanas também
padeceram de drástica redução desde o início do período colonial. O enfraquecimento
linguístico já começava nos portos de embarcação estendendo-se à chegada ao Brasil
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onde eram separados, a fim de que não fossem reunidos por família, por localidade e,
principalmente, pela língua; tal seleção auxiliava no impedimento de atos de rebeldia
praticados pela nova população.
A comunicação entre índios, portugueses e negros, cada um com sua parcela de
contribuição e influência, fez com que o Brasil apresentasse, já no início do século XIX,
uma língua falada comum com diferenças dialetais que não prejudicassem o processo de
comunicação entre os habitantes do país.
E foi justamente essa contribuição e influência vocabulares que propiciaram a
ampliação do léxico brasileiro. O contato entre as populações autóctone, branca e
africana, dado por diversos motivos, no que tange ao aspecto linguístico resultou no
processo natural de renovação lexical.
A comunicação com o resto do mundo fez toda a diferença no contexto de início
de história social da população brasileira. Na verdade, as populações autóctones e
africanas podiam exercer pouca influência nas cidades, pois a elas faltavam-lhes dois
tipos de prestígio: o literário, pois a linguagem em uso não fornecia subsídios para a
escrita e o social, por motivos já bem conhecidos como: cor, origem, poder aquisitivo
que os remetia diretamente às classes menos favorecidas.
Silvio Elia (1994), também compactua da padronização da língua portuguesa
focando a questão do prestígio:
A [língua] de maior prestígio era, sem contraste, a portuguesa. [...]. O
português quinhentista conhecera o progresso da disciplina gramatical
e, enobrecera-se nos versos lapidares de Luís de Camões. Fizera-se
uma língua poderosa de uma nação poderosa. Nos contatos com a
loquela inumerável de indígenas e africanos a sua hegemonia seria
fatal. ELIA, (1994, p. 572), apud MATTOS E SILVA (2006, 226).
Estudos posteriores mostraram e mostram que a hegemonia e a homogeneidade
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da língua portuguesa cedem lugar a uma heterogeneidade, com caráter plural e
polarizado ao se considerar a amplitude do português brasileiro embasando-se numa
compreensão histórica, que analise de forma equilibrada as línguas que mantiveram
contato com a portuguesa no período colonial. Assim, o propagado prestígio da língua
portuguesa começa a ser analisado por meio de uma visão mais ampla.
Vale ressaltar que, ao longo dos séculos de colonização o fenômeno mais
importante foi o contato linguístico e a consequente interação que daí resultou.
Consciente ou inconscientemente, aceitando ou resistindo, os indivíduos aprendiam
novas línguas e modificavam as suas à medida que integravam o processo de
comunicação cotidiana.
A importação de escravos africanos ao longo do período colonial resultou não
somente na entrada de força física em território brasileiro, mas também numa
entrada/permanência/convivência de novas línguas, costumes e culturas que
influenciaram numa sociedade em período de construção. A influência dos idiomas
africanos, por exemplo, sobre o português brasileiro foi expressiva, com destaque para
os africanismos no campo do vocabulário.
No que diz respeito à formação do português brasileiro Silva Neto (1986, p.
595), explica, empregando a imagem de Eduard Sapir, que desde o início do período
colonial há a existência de duas derivas, no que tange à língua: “a) uma deriva bastante
conservadora, que se desenvolve lentamente e b) uma deriva a que condições sociais
próprias imprimem velocidade inesperada.” No mesmo tópico o autor explica que
no primeiro caso temos o falar de uma população proveniente de
vários pontos de Portugal que, postas em contacto num meio tão
diverso, elaborou um denominador comum que não participava das
mudanças operadas na metrópole e que, por isso mesmo, era muito
conservador. No segundo, pelo contrário, temos o falar de grandes
massas que tiveram de aprender a língua dos senhores de modo
imperfeito e muito rapidamente. (SILVA NETO, 1986, p. 595).
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Esta análise justifica o sentido de deriva da língua dado pelo próprio autor,
embasado na imagem de Sapir: “determinada direção, que já encerra uma série de
possibilidades. A rapidez ou lentidão com que se caminha por essa estrada depende de
condições histórico-sociais.” (SILVA NETO, 1986, p. 594).
4 As características do português brasileiro
Somente no século XVIII surgem os primeiros documentos com características
marcantes do português em uso no Brasil. Em A História da Língua Portuguesa,
Teyssier (2007), assinala as principais características do português do Brasil; vejamos
alguns exemplos retirados de sua obra. Primeiro aspecto: diversidade geográfica e
diversidade cultural: este ponto está diretamente relacionado aos esforços dos linguistas
de se estudar as áreas dialetais brasileiras, cuja complexidade é expressa nas palavras de
Teyssier (2007),
A realidade, porém, é que as divisões “dialetais” no Brasil são menos
geográficas que socioculturais. As diferenças na maneira de falar são
maiores, num determinado lugar, entre um homem culto e o vizinho
analfabeto que entre dois brasileiros do mesmo nível cultural
originários de duas regiões distantes uma da outra. (TEYSSIER, 2007,
p. 98).
Mediante a essas considerações, o nivelamento linguístico assume espaços
diferentes tais como: a linguagem da população culta/instruída, a linguagem da
população menos instruída escolarmente e a linguagem peculiar a cada região.
A segunda característica relaciona-se aos aspectos fonético e fonológico de
nossa língua. Com relação à pronúncia de -s e do -z implosivos existem duas formas em
uso: “a pronúncia sibilante, largamente majoritária, e a pronúncia chiante, característica
principalmente do Rio de janeiro.” (TEYSSIER, 2007, p. 100). Vale ressaltar que a
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pronúncia usual no Rio de Janeiro é permeada por uma aceitação de cunho sociocultural
em virtude da importância política deste estado no final do período colonial. O uso do -s
implosivo como chiante aparece na fala de Portugal em palavras como 'descer' e
'piscina'; no português brasileiro estas mesmas palavras são pronunciadas como 'decer' e
'picina'. O uso de -s e de -z em final de palavras resulta muitas vezes, no Brasil, no
“aparecimento de um iode; ex.: atrás, luz, pés, pronunciados como [atrays], [luys] e
[peys].” (TEYSSIER, 2007, p. 103).
Ilari e Basso (2006, p. 46-47) elencam algumas caracteríticas fonéticas e
fonológicas do português, distribuídas entre os séculos XVI e XIX. O quadro a seguir
ilustra essas características:
Século XVI
Século XVII
Século XVIII
Século XIX
o português contava
com quatro sibilantes: as
africadas /ts/ e /dz/ e as
fricativas /s/e /z/. Esse
sistema
de
quatro
sibilantes dava conta de
distinguir na pronúncia
palavras como :
/ts/ - /dz/ aceite – azeite
/s/ - /dz/ assar – azar
/ts/ - /s/ cela – sela
/s/ - /z/ cassa – casa
/ts/ - /z/ caça – casa
/dz/ - /z/ cozer – coser
- O ditongo /ow/ que aparece em
palavras como cousa e louco,
louvar e na terminação de
perfeitos do indicativo como
achou e louvou sofreu um
processo de monotongação,
passando a /o/. Em reação a esse
processo, algumas palavras
desenvolveram outro ditongo,
/oj/,
daí
a
alternância
cousa/coisa, louro/loiro, que é
possível até hoje para algumas
palavras.
- Desapareceu da língua a
africada [tʃ], que se simplificou
em [ʃ]. Essa mudança atingiu
palavras como macho, chave,
concha e Sancho, em que o
dígrafo <ch> representava o
mesmo som que aparece nas
palavras espanholas macho e
(buena) dicha.
a realização
do /s/ e do /z/
em finais de
sílaba e de
palavras
passou
a
“chiante”, daí
pronúncias
como [maiʃ] e
[aƷnƲ] para
as
grafias
<mais>
e
<asno>.
“redução” das vogais átonas
– em posição final, /u/ e /o/
átonos confundiram-se na
realização intermediária [Ʋ]
que vigora, até hoje, dos dois
lados
do
Atlântico.
Paralelamente, /e/ e /i/
passam a receber uma
realização intermediária /I/,
que prevalece até hoje no
Brasil. Como exemplos:
<esse> e <perde>. Em
Portugal , esse /I/ evoluiu
para /ə/, uma vogal fechada e
breve que é desconhecida dos
brasileiros.
Em
posição
pretônica, /e/ também evoluiu
para
/ə/
(<pessoa>
pronunciado [pə'soa]) e /o/
evoluiu para /u/ (criando uma
pronúncia idêntica para as
grafias
<morada>
e
<murada>.
Segundo Ilari e Basso (2006), dos fenômenos apresentados, apenas os elencados
nos séculos XVI e XVII são compartilhados por todas as variedades do português
brasileiro. A pronúncia chiante do /s/ e do /z/ é um fenômeno com característica
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realização no Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia e regiões Norte e nordeste; sua
difusão é creditada ao Rio de Janeiro depois da instalação da corte de D. João VI.
A redução das vogais átonas em face das vogais tônicas deu ao português
europeu uma prosódia diferente e uma pronúncia em que se destacam as consoantes,
fenômeno esse registrado no século XIX, constituindo o que o Brasil menos
acompanhou. Assim, justificam-se, em partes, as impressões do “falar arrastado” do
brasileiro e da “fala ligeira” dos portugueses.
A terceira característica diz respeito à morfologia e à sintaxe. O uso de 'me
parece que”, “me diga uma coisa”, representa uma inovação do português do Brasil.
Outro caso também é a ligação do pronome como complemento “ de um infinitivo, de
um gerúndio ou de um particípio: Pode me dizer? E não pode-me dizer?; Ia pouco a
pouco se afastando e não ia-se pouco a pouco se afastando” (TEYSSIER, 2007,p. 106).
A quarta característica versa sobre o tratamento. No cotidiano há duas formas de
tratamento em uso: o informal você e o mais formal o senhor e a senhora. O uso do tu
restringiu-se a uma parte do sul do Brasil e o vós praticamente desapareceu.
(TEYSSIER, 2007,p. 107).
Ilari e Basso (2006, p. 108), ao tratarem sobre algumas características do
português brasileiro no aspecto morfológico apontam que o estudo das classes de
palavras “nasce da constatação de que há em toda língua conjuntos numerosos de
palavras que possuem as mesmas propriedades morfológicas e sintáticas e, portanto,
podem ser descritas da mesma maneira.” Mas fato é que de posse dessa constatação,
houve, por parte de grande número de gramáticos, uma simplificação das descrições da
língua, resultando em rasas classificações das classes de palavras.
Vejamos no quadro a seguir, as principais características morfológicas
trabalhadas por Ilari e Basso (2006) relacionadas a cinco classes de palavras:
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SUBSTANTIVO
1. Considerações variável em gênero, número e grau.
gerais
2. Acréscimos
Essas variações não foram feitas, especificamente, para indicar sexo, quantidade ou
tamanho.
3. Exemplo
o médico que diz: “a criança precisa fazer exercícios diariamente por meia horinha”
pode estar falando de um menino, que fará um único exercício, por não menos que
trinta minutos.
ADJETIVO
1. Considerações variável em gênero e número e forma o feminino e o plural usando as mesmas
flexões que o substantivo.
gerais
2. Acréscimos
a flexão de gênero e número não ajuda a distinguir adjetivo de substantivo. Um
caminho alternativo consiste em observar a flexão de grau, sobretudo o superlativo.
3. Exemplo
é possível falar, no superlativo, de “uma roupa muito chique”/ “uma pessoa muito
bacana”; isso leva a reconhecer chique e bacana como adjetivos.
Também são aceitáveis: “uma pessoa muito cheia de nós pelas costas” ou “uma
pessoa muito entrada em anos” como mais dois adjetivos ou, mais precisamente,
como locuções adjetivas.
Obs: os antigos não separavam os substantivos e os adjetivos em duas classes;
preferiram tratá-los genericamente de nomes e falaram dos nomes como palavras que
podem ter função substantiva ou adjetiva.
VERBO
1. Considerações Verbo = verbum = palavra. Ao chamar os verbos de palavras os romanos quiseram
dizer que o verbo era a palavra por excelência, a mais rica, a de morfologia mais
gerais
farta.
2. Acréscimos
Essa riqueza morfológica apresenta contrariedade semântica, ou seja, faz com que,
em qualquer sentença, seja reservada ao verbo a tarefa de prestar uma série de
informações preciosas.
3. Exemplo
Essas informações dizem respeito:
à localização no tempo: o fato descrito pela sentença é apresentado como simultâneo,
anterior ou posterior ao momento da fala, ou a algum momento que pode ser
estabelecido a partir de informações presentes no contexto (assim, uma frase como
“Quando eu cheguei ele já tinha saído” nos informa que a chegada é anterior ao
momento da fala e que a saída é anterior à própria chegada);
ao grau de comprometimento que o falante assume quanto à verdade da informação
prestada: quando o jornal, depois de anunciar a prisão de alguém, acrescenta “ele
estaria envolvido com o crime organizado,” é de novo pelo verbo que ficamos
sabendo que o envolvimento do preso com o crime é apenas uma hipótese plausível,
não uma verdade com a qual o jornalista se compromete em caráter pessoal;
à possibilidade de representar os fatos como acabados ou em desenvolvimento: se
alguém pronunciasse uma frase como “veio para São Paulo de carro, mas morreu
num desastre durante o caminho,” essa frase soaria estranha: a razão disso é que veio
apresenta a ação descrita na primeira sentença como acabada, e isso conflita com o
que diz a segunda. O problema desaparece se substituirmos veio por vinha ou estava
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vindo.
PRONOME
1. Considerações a classe dos pronomes é uma das mais heterogêneas. Nela são reunidas palavras que
exercem funções muito diferentes.
gerais
2. Acréscimos
Com relação aos pronomes pessoais é sempre bom lembrar que as verdadeiras
“pessoas do discurso” são, de fato, apenas a 1ª e a 2ª porque no diálogo, apenas os
papéis de locutor e interlocutor alternam entre si.
Sobre os indefinidos: o estudo desses já foi muito prejudicado pela denominação
que acabou passando a ideia de que eles têm uma função pouco clara. Na realidade,
eles exprimem relações que têm, às vezes, precisão matemática. Muitos deles são, de
fato, quantificadores.
3. Exemplo
Dizer que “alguns brasileiros são nordestinos” equivale a dizer que o conjunto dos
indivíduos que são brasileiros e o conjunto dos indivíduos que são nordestinos
coincidem em parte, ou seja, que a intersecção entre esses dois conjuntos não é vazia.
ADVÉRBIO
1. Considerações A etimologia da palavra advérbio, por ser paralela à da palavra adjetivo, também
sugere que o advérbio se aplica ao verbo como o adjetivo se aplica ao substantivo:
gerais
assim como se pode dizer que “a corrida foi veloz,” pode-se dizer que “o atleta correu
velozmente.” Esse modo de encarar os advérbios leva naturalmente a tratá-los como
“predicados de segunda ordem”: do atleta, eu predico que correu, da corrida eu
predico que foi veloz.
2. Acréscimos
Os exemplos em que essa explicação falha são numerosos e podem ser enquadrados
em casos diferentes. Citaremos dois, a seguir:
3. Exemplo
o advérbio não se aplica no nível do predicado, mas num outro nível qualquer. Por
exemplo, o advérbio infelizmente costuma ser usado para qualificar todo um
enunciado, e o mesmo pode acontecer com advérbios como sinceramente,
resumidamente, (Sinceramente, não concordo; Resumidamente, esta reunião não
serviu para nada; Infelizmente, vai haver mais reuniões); o advérbio muito aplica-se
não só a verbos, mas também a adjetivos e advérbios (Sofreu muito; Está muito
desiludida; A questão foi tratada muito reservadamente);
o advérbio realiza uma função diferente da de predicar. Entre aqueles que não têm
uma função predicativa, estão: a) os anguladores (que definem o tipo de discurso a
que a sentença deve ser referida para ser verdadeira: Tecnicamente, a baleia não é um
peixe, em termos de senso comum, sim); b) os advérbios de afirmação e negação (As
taxas de inscrição não serão devolvidas em hipótese alguma); c) os advérbios de
inclusão e exclusão (Reformou inclusive a instalação elétrica; Ele só falou com o
secretário pelo telefone).
Adaptado de Ilari e Basso (2006)
O quinto traço característico do português brasileiro diz respeito ao vocabulário,
que, em algumas áreas diferencia-se muito do vocabulário usual em Portugal. Vejamos
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alguns exemplos: comboio (Port.), trem (Bra.); eléctrico (Port.), bonde (Bra.);
hospedeira (Port.), aeromoça (Bra.); fato (Port.), terno (Bra.); (TEYSSIER, 2007,
p.108).
No que tange ao vocabulário, o que chama a atenção no português do Brasil é a
contribuição fornecida pelas línguas dos indígenas e as dos escravos negros ainda no
início do período colonial.
Vejamos alguns exemplos de palavras de origem tupi: capim, cupim, guri,
caatinga, mingau, curumim, cunhã, abacaxi, buriti, carnaúba, mandioca, jacarandá,
araticum, ipê, cipó, pitanga, maracujá, jaboticaba, caju, capivara, quati, sucuri, urubu,
sabiá. ( TEYSSIER, 2007, p.110).
Com relação ao vocabulário africano, o mesmo suscita algumas questões quanto
à origem, pois, algumas palavras chegaram a Portugal, vindas da África, chegando ao
Brasil pelos portugueses. Como vocabulário relativo à cozinha afro-brasileira, temos:
vatapá, abará, acará, acarajé; à cerimônias do candomblé: orixá; o quimbundo legou ao
Brasil um vocabulário mais geral, quase sempre integrado à língua geral: caçula, cafuné,
molambo, moleque. (TEYSSIER, 2007, p. 110).
5 A unidade x diversidade linguística do português do Brasil
Ao explanar sobre o conceito de unidade linguística brasileira Melo (1975, p.
28) deixa esclarecido, desde o início do capítulo, que as línguas são fatos humanos e,
portanto, participam da variedade e da instabilidades naturais do homem e das
sociedades. Isso porque desde que uma língua começa a ser falada sofre influências de
diversos fatores, decorrentes da própria fala que propiciam, na análise geral do
processo, um resultado não uno, mas diverso linguisticamente.
Silva Neto (1976, p. 18) também destaca a língua como um produto social e
como atividade do espírito humano, não se sujeitando a leis determinadas, mas seguindo
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o destino dos que a empregam.
Tratando especificamente do Brasil, Mattos e Silva (2004, p. 132) explicita que
somente a partir da segunda metade do século XVIII é que o Brasil começou a ser, de
fato, um país de língua predominantemente portuguesa, reconhecimento advindo da
política linguística do Marquês de Pombal, política essa que proibia o uso de línguas
indígenas. Mas há que se ressaltar que os séculos XVI, XVII e a primeira metade do
XVIII foram palco de variadas situações de contato linguístico que ainda, em pleno
século XXI carecem de estudos lingüísticos, tendo como pano de fundo a sócio-história
do Brasil Colônia. Essa sócio-história envolve o contato linguístico entre falantes da
língua portuguesa, falantes de centenas de línguas autóctones e múltiplas línguas
africanas; o que resultou no início do processo de diversidade linguística brasileira.
Ao se fazer menção a falantes de línguas autóctones, a falantes da língua
portuguesa e a falantes de línguas africanas, deve-se considerar o fator demográfico que
envolve esses três grupos, pois, “sabe-se que a demografia fornece pistas interessantes
sobre o destino histórico das línguas” (MATTOS E SILVA, 2004, p. 133). Entre os
séculos XVI ao XVIII há o predomínio de indígenas e de africanos em relação a
portugueses; do século XVIII em diante há o decréscimo gradativo desses grupos
cedendo lugar ao crescimento de grupos mestiços e de brancos nascidos no Brasil. Mas
“é óbvio que, nesse contexto demográfico-linguístico, o português europeu, embora
minoritário, era a língua de prestígio e por isso já trazia traçado o seu destino como
língua hegemônica, que ficou reforçado pela política de Pombal” (MATTOS E SILVA,
2004, p. 133). Diante desse quadro infere-se que, as várias faces do contato linguístico,
ainda no princípio da colonização, resultou em um português tipicamente brasileiro e
heterogêneo, se tomados como ponto de partida os aspectos geográfico e, sobretudo,
social.
Com relação à heterogeneidade do português do Brasil Silva Neto (1976, p. 19)
trabalha com a hipótese de, pelo menos três tipos de “linguagens brasileiras” - a
linguagem corrente falada - considerada a correta, utilizada entre pessoas da classe
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média e detentoras de considerável instrução; - a linguagem popular – segundo o autor é
a linguagem praticada por pessoas humildes, das classes mais modestas, com um grande
percentual de analfabetos; - e a linguagem dialetal – a que tomando como referência
uma linguagem padrão é considerada de reduzido prestígio social. Seu uso é mais
restrito, regional. Essa classificação permite analisar o português brasileiro sob os
pontos de vista social e cultural, e não somente linguístico.
O português do Brasil que é aceito pela Sociolinguística atual como heterogêneo
e polarizado foi adquirido pela população brasileira ainda no período colonial por meio
da oralidade, como língua estrangeira e sem organização escolar. Há de se compreender,
por um lado, aspectos de distinção entre o português europeu e entre o português
brasileiro e por outro lado, aspectos de intersecção, como “o padrão escrito formal e,
sistemicamente, características morfológicas e lexicais comuns que permitem a
intercompreensão, desde que haja boa vontade, tanto do lado de cá como do lado de lá
do Atlântico.” (MATTOS E SILVA, 2006, p. 235).
A polarização e heterogeneidade do português brasileiro podem ser interpretadas
mediante a compreensão de fatores de natureza histórica. Mattos e Silva (2008, p. 394395) elege quatro fatores considerados significativos sobre a questão: “- o
multilinguismo característico do Brasil colonial e pós-colonial; - a demografia histórica;
- a escolarização ou sua ausência; - a mobilidade dos escravos africanos ou
afrodescendentes e suas consequências na conformação do português brasileiro”.
O multilinguismo compreende o contato do português europeu com as centenas
de línguas indígenas autóctones no âmbito do território brasileiro. O multilinguismo foi
posto no centro da questão em meados do século XVIII com as intervenções e
legislações do Marquês de pombal. Esse fator relaciona-se diretamente com o segundo,
exposto pela autora, - a demografia histórica – isso porque “a população escravizada
perfez entre 1538 e 1850 cerca de 70% da população brasileira, enquanto a etnia branca
– portugueses e luso-descendentes – apenas 30% da população” (MATTOS E SILVA,
2008, p. 395). Com as intensas ondas migratórias de europeus e asiáticos, já no século
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XIX, a aquisição da língua portuguesa como língua dominante politicamente tornou-se
impossível; tanto para os indígenas, como para os africanos e imigrantes que acabavam
por acrescentar à língua oficial traços de suas próprias línguas.
No que tange à escolarização, dado significativo é que “até o final do século
XVIII, não ultrapassariam 0.5% dos letrados. Esse percentual dá um grande salto
somente entre o final do século XVIII E 1920, quando os escolarizados atingem o
patamar de 20 a 30%” (MATTOS E SILVA, 2008, p. 395). Esses dados dão mostras da
relação entre baixa escolarização e caracterização do português brasileiro.
Quanto ao último ponto elencado – mobilidade dos escravos africanos – esses
acompanhavam seus senhores para onde a mão-de-obra escrava fosse necessária, assim,
partiam das plantações de açúcar e fumo da Bahia e Rio de Janeiro para a mineração de
ouro e de diamantes nas Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás.
6 Léxico e Norma
Há um reconhecimento crescente por parte dos linguistas que a língua seja um
norte cada vez mais aceitável no estudo científico de determinada cultura. Os elementos
que compõem o patrimônio cultural de uma civilização estão presentes e sinalizados na
língua expressada por essa civilização.
Para Sapir (1961, p. 20), a linguagem constitui um direcionamento para a
realidade social. O ser humano é dependente da língua que se tornou o meio de
expressão de seu grupo social. É ilusório aceitar que haja um encaixe à realidade sem o
intermédio da língua. Na realidade, o mundo se constrói, de forma inconsciente, em
grande parte, pelos princípios linguísticos do grupo.
O léxico é o nível linguístico responsável por nomear e representar o universo de
uma sociedade. Ao léxico estão relacionados a história, a tradição, os feitos e os
costumes de um povo, assumindo assim, uma configuração processual de alteração e
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expansão, não podendo ser considerado pronto, acabado, mas como um nível linguístico
abrangente e dinâmico.
Na visão de Sapir (1961, p. 45), “O léxico da língua é que mais nitidamente
reflete o ambiente físico e social dos falantes. O léxico completo de uma língua pode se
considerar, na verdade, como o complexo inventário de todas as ideias, interesses e
ocupações que açambarcam a atenção da comunidade.”
Ao se referir a 'complexo inventário de todas as ideias', Sapir atribui ao léxico
uma carga de criação, assimilação e repasse de novos conhecimentos, e não somente um
meio pelo qual o homem possa se expressar e se comunicar.
Estas afirmações ultrapassam, e muito, a visão primária de se enxergar o léxico
como um conjunto de palavras que compõem um dicionário, ao qual se recorre para
sanar dúvidas ortográficas ou semânticas. O léxico, dado o seu nível de abrangência,
também associa-se a diferentes níveis da linguagens: fonético, fonológico, morfológico,
sintático e semântico. É possível pensar numa relação de intermediação entre o léxico e
os níveis da linguagem.
No que tange à norma é objeto de estudo da linguística a preocupação por que os
falantes de um grupo social falam habitualmente de um mesmo modo e por que mantêm
esse comportamento através de gerações como se existisse uma lei que lhes indique a
melhor forma de comunicação dentro de seu grupo nos âmbitos social e geográfico. A
esse fenômeno dá-se o nome de estudo da norma linguística.
O linguista Eugenio Coseriu formula a tríade sistema, norma e fala, enfatizando
importantes aspectos não trabalhados por Saussure em seu sistema dicotômico língua e
fala. Para Coseriu, podem-se distinguir na língua três características segundo o grau de
abstração, as quais sejam: a fala – que corresponde às características concretas e
variadas manifestas individualmente; a norma – correspondente ás características
normais, comuns e até certo ponto constantes e o sistema – relacionado às
características funcionais e/ou indispensáveis.
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Vejamos a seguir o esquema proposto por Coseriu, bem como as suas
interpretações: (COSERIU, 1979, p. 72)
O quadrado maior corresponde à fala, ao conjunto dos atos linguísticos
realizados pelos falantes de um idioma. O segundo, já corresponde à norma, que pode
ser entendida como o primeiro nível de abstração na análise dos fatos linguísticos e
também como costumes e tradições manifestos na fala e na escrita de determinado
grupo de falantes. E por fim, o terceiro quadrado representando o sistema. Como o
segundo nível de abstração, trata da estrutura da língua e representa um código para a
sociedade. O sistema elimina da norma tudo o que é hábito, tradição.
“A norma é, com efeito, um sistema de realizações obrigatórias, de imposições
culturais e sociais, e varia segundo a comunidade” (BIDERMAN, 2001, p. 20). Sendo
obrigatória, ela se impõe ao indivíduo, podendo limitar sua liberdade de expressão
diante das possibilidades oferecidas pelo sistema.
Além da norma geral existem também as normas parciais ou regionais. Ressaltese que o estudo de um léxico regional requer algumas considerações e observações de
ordem espacial e de ordem temporal. Com relação ao estudo desses dois eixos, Isquerdo
(2003, p. 166), esclarece-nos
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Examinar um léxico regional significa necessariamente considerar o
eixo regional e o eixo do tempo. O primeiro, ligado às especificidades
regionais e à conseqüente mobilidade dessas especificidades de um
espaço geográfico para outro, em decorrência de processos
migratórios; o segundo, relacionado à tendência conservadora da
língua, que normalmente se manifesta de forma mais acentuada em
regiões menos susceptíveis a influências dos meios de comunicação
de massas.
Portanto, tanto os regionalismos como os arcaísmos manifestos acentuadamente
pela fala contribuem no processo de ampliação dos repertórios lexicais, e, a partir do
momento que entra em cena o fator uso, fazem parte da composição da norma regional.
Segundo Isquerdo (2006), com relação ao surgimento da norma na variante
brasileira do português “não se pode esquivar de um olhar para o passado histórico da
formação dessa norma, o que implica considerar que ela começou a ser construída e
definida no século XVI com os primeiros contatos do colonizador com as populações
autóctones”. Nesse processo de construção não somente a participação dos indígenas foi
de grande importância para o léxico brasileiro, mas também dos escravos africanos, por
meio da comunicação diária, inclusive no interior das casas-grandes.
A ampliação e a transmissão do repertório lexical acontecem atreladas a fatores
de natureza histórica, geográfica e cultural. No aspecto geográfico tem-se a variação
espacial, que compreende os regionalismos/brasileirismos.
Em estudo sobre a norma regional Isquerdo, (2006) afirma:
só a construção de vários corpora que reunissem amostras
representativas de diferentes gêneros de textos e modalidades de uso
da língua poderiam fornecer fontes seguras para a identificação dos
regionalismos atualizados em diferentes momentos da história da
língua, em diversos tipos de textos e em áreas geográficas distintas do
País. Enfim, a organização de uma grande base textual informatizada
reunindo: obras da literatura, sobretudo, regional produzidas em todas
as regiões brasileiras, estudos monográficos sobre vocabulários
regionais,[...], dados da língua oral, coletados também nas diversas
regiões do Brasil, com destaque para os atlas lingüísticos [..], Bases de
dados dessa natureza poderão fornecer informações seguras para a
identificação e a classificação dos regionalismos na língua portuguesa
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do Brasil, configurando-se, assim, como fontes confiáveis para os
lexicógrafos, para fins de inserção de marcas dialetais em dicionários
de língua.
Especificamente no caso do português do Brasil, Biderman (2001, p.136), faz
uma adaptação da definição de regionalismo apresentada por Boulanger (1985), apud
Isquerdo (2006) resultando no seguinte critério:
É qualquer fato lingüístico (palavra, expressão ou seu sentido)
peculiar a uma ou outra variedade regional do português falado no
Brasil, com excetuando a variedade empregada no eixo lingüístico
Rio/São Paulo, considerada a variedade de referência, ou seja, o
português brasileiro padrão, e excluindo também as variedades
usadas em outros territórios lusófonos.
Vale registrar a diversidade de normas existentes em uma comunidade
linguística. A título de exemplo podemos citar as normas relativas a: classes sociais,
faixa etária, a modalidade (oral ou escrita), ao espaço geográfico, ao sexo, etc.
Preti (1974) registra que são três os principais agentes que atuam sobre a língua
de uma comunidade, influenciando na sua unidade: a escola, a literatura e os meios de
comunicação de massa.
Para o autor a escola busca uma uniformização linguística assumindo como
referência os níveis mais elevados da linguagem; ou seja, a escola trabalha estritamente
com a norma culta objetivando, sobretudo a uma eficiente escrita. A literatura como
segundo agente citado ainda segue a escola, no sentido de visar à unificação e
nivelamento da linguagem, porém, este quadro começa gradativamente a modificar-se,
pois:
pode-se dizer que as grandes conquistas modernas no plano literário
têm procurado aproximar a língua literária da língua falada, no sentido
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de descobrir-lhe valores expressivos e originais. Essa atitude encontra
em geral boa receptividade do leitor moderno. E, de certa maneira, foi
uma preocupação de alguns prosadores, praticamente em todos os
tempos, no plano do diálogo escrito (PRETI, 1974, p. 50).
Já os meios de comunicação de massa constituem o terceiro e o mais importante
fator determinante que atua sobre a norma. Em geral os meios de comunicação de massa
agem por um lado divulgando a língua comum, contribuindo para a fixação das
estruturas e do léxico, e por outro lado, o que configura não muito positivo, age sobre o
próprio falante, “no sentido de restringir-lhe as maneiras de dizer, diminuir-lhe as
possibilidades criativas na linguagem, fazendo-o pensar, falar e, consequentemente, agir
dentro de padrões predeterminados” (PRETI, 1974, p. 51).
Diante dessas considerações/exposições, vimos que é preciso ter, não somente
cuidado, mas critérios definidos quanto à classificação dos termos que envolvem a
norma lexical do português do Brasil, haja vista a complexidade deste conceito e a
dificuldade de delimitação das fronteiras geográficas, culturais e linguísticas.
Considerações Finais
Como já assinalado na Introdução, este trabalho teve como principal objetivo
apresentar uma pequena parte da trajetória histórico-linguístico da língua portuguesa em
território brasileiro.
Objetivou, ainda, contribuir para a implementação dos estudos sobre o léxico do
português veiculado no período colonial, haja vista que um paralelo entre a história do
país e a formação da variante brasileira da língua portuguesa demonstra que o período
intitulado Brasil Colônia (séculos XVI, XVII e XVIII) foi de fundamental importância
no processo de formação da língua portuguesa do Brasil.
Isso porque do intenso contato estabelecido nesse período entre as três etnias
formadoras do povo brasileiro – o branco europeu, o indígena e o africano – resultou a
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sociedade brasileira e, por extensão, a variante brasileira do português.
Ao se falar em trajetória da língua portuguesa, cabe ressaltar que, ao longo do
século XX surgiram autores como Houaiss (1992), que discorre sobre o estatuto
indígena do português do Brasil; Melo (1975), que trata da influência tupi, além do
maior expoente da pesquisa em línguas indígenas no Brasil – o linguista Aryon
Dall’igna Rodrigues, estudioso comprometido com a pesquisa, desde a década de 1940
até o ano de 2014, considerado um dos mais renomados pesquisadores de línguas
indígenas no Brasil
No que diz respeito à influência africana, Raimundo Nina Rodrigues é
considerado o precursor dos estudos africanistas no Brasil, com destaque para o livro Os
africanos no Brasil (1932); Margarida Petter, linguista atuante na área de Linguística
Africana e contatos de português com línguas africanas, uma das organizadoras da obra
África no Brasil (2008); Yeda Pessoa de Castro, com pesquisas de cunho linguístico e
etnológico que analisam a contribuição africana no português do Brasil, dando ênfase à
presença de línguas africanas na Bahia. Um dos trabalhos mais representativos dessa
autora é a segunda edição da obra Falares africanos na Bahia: um vocabulário afrobrasileiro (2005). Mais recentemente, O português afro-brasileiro (2008), organizado
por Dante Lucchesi, veio a somar os estudos sobre a influência africana no português do
Brasil.
Esses autores, cada um na sua proporção, tentaram delinear o processo de
formação da norma brasileira configurado por níveis de influência, tanto das línguas
indígenas, quanto das línguas africanas.
REFERÊNCIAS
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Recebido Para Publicação em 28 de fevereiro de 2015.
Aprovado Para Publicação em 30 de abril de 2015.
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