3A opinião A GAZETA CUIABÁ, SEGUNDA-FEIRA, 16 DE JANEIRO DE 2012 Aparte Poucas & Boas O decreto que o governo publicou na sexta-feira nada mais é do que a instituição do Regime de Caixa, ou seja, para que alguma despesa seja feita será necessário primeiro a reserva dos recursos, segundo, após o sinal verde da Fazenda, o empenho no Planejamento e a publicação do aval do governador, que manda pagar a conta. [email protected] Panos quentes DP x PGE O presidente e o primeirosecretário da Assembleia Legislativa de Mato Grosso foram escalados pelo governador Silval Barbosa (PMDB) para iniciar entendimentos com a Defensoria Pública. O objetivo é acalmar os ânimos e propor uma solução paulatina até 2014 para a implantação de novos cargos e mais servidores. Tudo que o governador Silval Barbosa vetou para a Defensoria Pública na semana que passou já faz parte do dia a dia dos procuradores do Estado, que pelo visto são mais apadrinhados pelo governo. Basta ver o orçamento de um e de outro, é quase o dobro. A diferença é que a PGE defende o Estado contra o povo com o dinheiro da sociedade e a Defensoria Pública defende o povo contra o Estado sem dinheiro. 0800 João Vieira Nos primeiro trimestre Otmar de Oliveira Visita E então José Riva esteve nos últimos dias em São Paulo e foi ao encontro do prefeito Gilberto Kassab para tratar de questões do PSD, o novo partido nasceu gigante, mas corre o risco de se apequenar se não tiver um desempenho satisfatório nas eleições 2012. Dias atrás houve uma grande festa em Chapada dos Guimarães para enaltecer a obra do governo que duplicava a pista entre o município e a Capital. O problema é que a obra parou de tanto apontamento técnico. E ninguém pensa na sociedade. Dá pra imaginar quantas vidas seriam poupadas caso a pista já estivesse duplicada. Vai um alerta: ninguém defende obra malfeita, pra isso existe a fiscalização, mas deixar de fazer é um crime maior. de 2011, já se tinha conhecimento que as finanças de MT sofreriam baques imprevisíveis. Teve secretário de Estado, que em janeiro de 2011, empenhou todo o orçamento previsto para os 12 meses do ano. Depois querem falar que a culpa é da crise econômica na Europa, lembrando que os maiores compradores do Brasil e de Mato Grosso são a China e a Rússia, portanto, longe da Zona do Euro. O ex-ministro José Dirceu, um dos políticos que vive entre o céu e o inferno diariamente, postou em seu blog o exemplo que o Brasil e seus estados deram para o mundo com o agronegócio, que está invertendo a posição do país de subdesenvolvido para potência econômica. Dirceu só esqueceu que no início do governo Lula, quando era o então poderoso ministro da Casa Civil, se negava a atender aos pleitos do então governador Blairo Maggi. Decidido a não ser cobaia da União na questão do Regime Diferenciado de Contratação, o governo do Estado vai limitar o VLT, obra que deve superar R$ 1 bilhão, com o sistema criado para acelerar as licitações, mas que nenhum gestor, nem a própria União utilizou até o momento. Exemplo Mesmo crescendo, sendo a bola da vez, a Receita Federal do Brasil continua uma das piores do mundo. Não se tem informações, se passa raiva na fila de espera e pouco ou quase nada se dá de satisfação aos contribuintes. A justificativa é das mais simples, atrasar impostos no país gera multa de 100%, então, quanto mais atrasar, melhor para os cofres públicos. O povo é apenas um ponto na prosperidade do país. O governador Silval Barbosa mandou adesivar todos os veículos públicos, próprios ou alugados, com o nome do órgão ao qual pertence e com um número 0800 de uma central telefônica para receber denúncias da má utilização dos mesmos. Para se ter uma ideia, em apenas um domingo, um veículo da Secretaria de Meio Ambiente (Sema) teria rodado na Grande Cuiabá mil quilômetros, ou seja, dá quase para chegar a São Paulo. “ Frases Estamos na oitava posição entre os 17 Estados Brasileiros Não se pode gastar mais, e quem gastar mais será punido DO GOVERNADOR SILVAL BARBOSA ANIMADO COM O RESULTADO DAS EXPORTAÇÕES DO DEPUTADO NININHO (PR), PREOCUPADO A SITUAÇÃO DOS MUNICÍPIOS Nova modalidade de empresa o dia 8 de janeiro, entrou em vigor a legislação da Empresa Individual de Responsabilidade Limitada, Eireli. Qualquer pessoa física ENORY LUIZ SPINELLI pode constituir uma Eireli, apesar de somente poder ser titular de uma única. Já as pessoas jurídicas também poderiam constituir tal modalidade de sociedade, posto que inexiste vedação na legislação; todavia, o Departamento Nacional de Registro do Comércio - DNRC, por instrução normativa, proíbe que pessoas jurídicas constituam uma Eireli o que pode, é claro, ser contestado judicialmente. Embora siga as mesmas regras e procedimentos da sociedade limitada, a Eireli necessita apenas de um único sócio. Deve-se redigir o seu ato constitutivo e arquivá-lo na Junta Comercial, e assim por diante. E a Eireli pode ser formada por diversas formas e razões: exclusão de sócio, concentração de A Eireli funciona como todas as quotas de uma sociedade nas mãos de uma verdadeira um único sócio, etc. sociedade (e é, a rigor, O grande uma sociedade limitada benefício da Eireli e a razão da sua com um único sócio) introdução no ordenamento jurídico pátrio é que permite a exploração da atividade empresária por um único sujeito. Mas, diferentemente do empresário individual, a nova modalidade viabiliza a exploração da atividade econômica com limitação da responsabilidade, ou seja, o patrimônio pessoal do titular da Eireli não responde pelos débitos decorrentes da atividade empresária. O mesmo não ocorre com o Empresário Individual, que responde pelas dívidas com todo o seu patrimônio. De qualquer forma, é importante ressaltar que a limitação da responsabilidade é teórica, posto que dificilmente a Justiça do Trabalho, por exemplo, a respeitará, como já hoje não respeita a limitação da responsabilidade nas sociedades limitadas por meio do emprego indiscriminado da teoria da desconsideração da personalidade jurídica. Outra relevante característica que diferencia a Eireli do Empresário N “ Dejamil Otmar de Oliveira Individual é que o nome social deverá ser formado pela inclusão da expressão ‘Eireli‘ após a firma ou a denominação social da empresa. No caso do Empresário Individual, sabe-se que ele explora a atividade econômica em nome próprio. No mais, a Eireli funciona como uma verdadeira sociedade (e é, a rigor, uma sociedade limitada com um único sócio), podendo ter filiais, além do administrador não precisar ser o titular da Eireli, etc. Cumpre, todavia, salientar que existe a necessidade de capital social mínimo de 100 salários mínimos, os quais devem ser integralizados. Entre outros motivos para tal piso, está o de evitar fraudes, mas questiona-se qual a razão para não se impor tal limite para a formação do capital social de uma sociedade limitada. Ainda, se o objetivo da Eireli é o de incentivar o exercício da atividade econômica por meio da limitação da responsabilidade de quem a explora, o limite de 100 salários mínimos é extremamente alto, uma vez que, na maioria dos casos, quem efetivamente utilizará a Eireli são pequenos empreendedores, que não possuem tais recursos. Assim, o que tende a ocorrer é a constituição de sociedades limitadas, que não possuem limite para a formação do capital social, com o mínimo de dois sócios apenas para cumprimento da lei ou o aporte de recursos será meramente fictício. Vale lembrar que, atualmente, está em tramitação no Congresso Nacional projeto de lei com o objetivo de reduzir o capital social mínimo para 50 salários mínimos. Teoricamente, a possibilidade de constituir uma Eireli facilitará a vida do empresariado. Mas a limitação da responsabilidade não suplanta as suas enormes deficiências e a alteração legislativa ainda é pouco para beneficiar de modo relevante. Vale ressaltar que a redução da informalidade, além da forma jurídica pela qual deve ser explorada uma atividade, seja por meio de Sociedade Limitada, Anônima, Eireli, passa pela redução da burocracia e da carga tributária. ENORY LUIZ SPINELLI É CONTADOR E VICE-PRESIDENTE DE DESENVOLVIMENTO OPERACIONAL DO CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE (CFC). “ Alice no País das Maravilhas dultos e crianças se deixam fascinar há 150 anos pela história da menina que mergulha num mundo de fantasias quando cai num buraco e chega a um país de muitas maravilhas ou quando atravessa para o outro lado de um espelho e lá encontra uma realidade mágica. SILIO BOCCANERA Alice rendeu grande literatura, desde o primeiro livro com o relato de suas histórias, em 1865. Além das letras, também inspirou arte - do desenho à pintura, do cinema à instalação ou a escultura —, conforme se vê numa exposição da galeria Tate, filial de Liverpool, norte da Inglaterra. Amostra tomou emprestadas obras sobre Alice ou inspiradas por ela, espalhadas por vários cantos do mundo e trazidas para esta galeria à beira do rio Mersey, irmã das duas Tates mais famosas em Londres. No mundo das maravilhas e além do espelho, as regras do solo acima ou do lado de cá do vidro não contam; só vale a fantasia da personagem Alice e de quem vive naquela terra mágica, onde ganhou vida a imaginação de uma menina carne e osso, Alice Liddell, com histórias descritas por um vizinho professor de matemática que iria se consagrar como escritor com fama mundial até hoje. Nesta dimensão de sonho aonde se aventura Alice, opera a imaginação do autor Lewis Carroll, pseudônimo do Charles Dodgson, professor de matemática da Universidade de Oxford, que costumava contar histórias para as três filhas do viceVirginia Woolf observou diretor da instituição. Amais nas invencionices dele que os livros sobre Alice interessada era Alice, a quem Dodgson então não eram para crianças dedicou os livros que acabou escrevendo após incentivo de e sim capazes de nos amigos e colegas que ouviram as transformar em crianças histórias. Nasciam clássicos da Literatura, inspiração para muitas artes. ATate nos mostra fotos da família Liddell, inclusive da própria Alice, quase todas tiradas pelo próprio Dogson ou Carroll, um entusiasta da então nascente arte fotográfica. Agaleria exibe também o manuscrito original de Alice no País das Maravilhas, ilustrado por John Tenniel, início de uma fascinação para desenhistas e artistas de especialidades diversas frentes ao desafio de representar as fantasias surreais do mundo de Alice. Texto e ilustrações logo correram mundo, traduzidos em vários idiomas, inclusive português no Brasil. Embora apresentadas como livros infantis, as histórias de Alice - tanto ‘... no País das Maravilhas‘ quanto a posterior ‘...do Outro Lado do Espelho‘ revelam a atração de Carroll/ Dodgson por linguagem, significados, números. As histórias são repletas de charadas filosóficas, linguísticas e lógicas. Um crítico britânico que visitava a mostra no mesmo dia em que lá fomos, comentou com admiração: ‘Alice foi o Harry Potter de sua época‘. Curiosamente, o salão que aparece nos filmes de Harry Potter como a escola dele, Hogwarts, foi tomado emprestado pelos produtores de cinema ao Christ Church College, em Oxford - justamente onde o autor de Alice dava aulas de matemática. Tão doido é o mundo de Alice, que estimulou desde os surrealistas nos anos 30 aos hippies embebidos em ácido lisérgico nos anos 60, chegando ao realismo mágico latino-americano e à arte contemporânea de vídeos e instalações. De Salvador Dali a Max Ernst, os surrealistas reconheceram em Carroll um antecessor das ideias antirracionalistas que animaram A “ esse movimento estético, onde as leis naturais desaparecem, cedem lugar à rebelião, ao deboche e à brincadeira, mostrando um lado além do real. Anos depois, as trips de LSD, com a deturpação da percepção mental por meios químicos, conviveram bem com os sonhos de Alice, também pouco afeitos à realidade, e a Tate mostra obras psicodélicas do americano Adrian Piper. O cinema, claro, não podia resistir ao delírio visual nas aventuras de Alice e fez o primeiro filme sobre ela em 1903 — oito minutos adaptados por Cecil Hepworth e Percy Stow. Vinte anos depois, Walt Disney daria sua versão para Alice, abrindo caminho para outras interpretações na tela grande ou na tevê. Em 2010, chegamos à fantasia mais recente do cinema, produção sofisticada do diretor britânico Tim Burton, com a jovem Mia Wasikowska no papel de Alice, Helena Bonham-Carter como a Rainha Vermelha, Johnny Depp de Chapeleiro Louco e Ann Hathaway fazendo a Rainha Branca. O mundo de Alice, surreal e além da razão, na invenção de Carroll, afetou sobretudo a criação literária. Jorge Luiz Borges reconheceu a influência em sua obra, a partir do momento em que leu Alice em inglês, quando jovem em Buenos Aires. O argentino escreveu sobre Alice e seu autor e criou ele mesmo um labirinto de nonsense em muitas de suas histórias. Como as do homem que cria outro homem em sonho e logo descobre que ele mesmo é sonho de um terceiro homem. Pura Alice. Estudiosos acham que a obra de Carroll teve influência provável também em Kafka, que dez anos após a publicação do livro original sobre Alice criou Metamorfose, sua história de fantasia e horror em que o personagem acorda de um sonho perturbador e se vê transformado em inseto. Aescritora americana Virginia Woolf observou que os livros sobre Alice não eram ‘para crianças‘ e sim capazes de ‘nos transformar em crianças‘. As histórias de Alice se apropriam da noção de tempo sob forma especial, com um relativismo que dá ao termo o significado que lhe convém. ‘Juntamos dias e noites, dois ou três a cada vez‘- a Rainha Vermelha diz a Alice. ‘E às vezes no inverno colocamos cinco noites juntas, para nos esquentar‘. O Chapeleiro Louco brigou com o tempo e acabou congelado na hora do chá, seis da tarde. Reclama que agora falta tempo para lavar a louça, pois não escapa da hora do chá. Do tempo à lógica, a realidade no país das maravilhas e além do espelho é peculiar. ‘No meu mundo‘, diz Alice, ‘quem corre chega rápido a algum lugar‘. ‘Mundo lento, o seu‘ - responde a Rainha. ‘Aqui, é preciso correr muito para ficar no mesmo lugar. Se você quiser chegar a outro lugar, tem de correr duas vezes mais rápido que isso‘. Para entrar no mundo de maravilhas e delírios de imaginação de Carroll e Alice, melhor é seguir o conselho na conversa do Coelho Branco com o rei. O coelho veste os óculos e pergunta: ‘Por onde começo, Majestade?‘ O rei: ‘Comece pelo começo, siga até chegar ao fim e pare‘. Ou então nem pare, porque aí começa a hora de soltar a imaginação. E como sabe Alice e milhões de admiradores das histórias de Carroll, imaginação não tem fim. SILIO BOCCANERA É JORNALISTA EM LONDRES E ESCREVE ÀS SEGUNDAS-FEIRAS EM A GAZETA E-MAIL: [email protected]