III Seminário de Dissertações e Teses do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSCar.
Arte e processos educativos:
um olhar para as práticas sociais em São Carlos
Paulo César Antonini de Souza
Orientador: Prof. Dr. Luiz Gonçalves Junior
Doutorado
Práticas Sociais e Processos Educativos
Resumo
Este texto apresenta compreensões iniciais que intencionam encontrar elementos que
contribuam na construção de um currículo educacional brasileiro considerando, pelo viés da
arte-educação, a pertinência das práticas sociais corporificadas na pintura popular, os
processos educativos desenvolvidos em sua criação ou apreciação e a intenção estética dessas
experiências. Para isso, pretende-se analisar a construção de valores hegemônicos que visam à
orientação estética latino-americana, influenciada pelo mercado estadunidense e por modelos
seculares europeus no que tange à arte. Com esse movimento, pretende-se compreender a
postura popular face ao que se apresenta pela mídia como formas de expressão artística
“autorizada” e suas interfaces no sistema educacional. Direcionada à cidade de São Carlos, a
pesquisa espera contar com a contribuição discente e de populares, em busca de referenciais
estéticos e artísticos, potencializando, a partir de suas compreensões e de referenciais teóricos
disponíveis, o diálogo entre esses saberes. Nessa perspectiva, a fenomenologia pela
modalidade do fenômeno situado, apresenta-se como a metodologia propícia.
Palavras Chaves
Práticas Sociais e Processos Educativos, Arte e Pintura Popular, Estética.
São Carlos 29, 30 de novembro e 01 de dezembro de 2011
III Seminário de Dissertações e Teses do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSCar.
Introdução
No contexto de minha formação e experiência com a arte-educação e, orientado pelas
relações que desenvolvo ao mundo, compreendo nossa presença e interferência neste a partir
de um movimento estético, para o qual cada pessoa direciona um olhar específico,
culturalmente significativo e constituinte em essência. A intencionalidade desse movimento
pode ser percebido na diversidade das práticas sociais humanas, que se estruturam por meio
da alteridade inerente à nossa inserção no mundo, organizadas pelo diálogo 1.
A subjetividade e intersubjetividade do potencial criador humano em face de sua
cultura, na perspectiva de conceber simbolicamente as experiências que se revelam no
relacionamento de homens e mulheres, trazem em suas representações os processos
educativos que permeiam a formação de grupos ou comunidades e é neste contexto que se
realiza o sentido desta busca pela Arte que se dimensiona nas práticas sociais. Nesse sentido,
voltar um olhar à maneira pela qual este diálogo com o mundo e com os outros se realiza por
meio da Arte, além de desvelar o habitar que constitui a corporeidade do ser, também nos
permite uma aproximação assertiva dos sentidos que tais experiências tem estruturalmente
como fonte de conhecimento.
Segundo Pareyson (2001), o modo e o sentido das coisas que se manifestam no
conhecimento originado pela Arte “[...] faz com que um particular fale de modo novo e
inesperado, ensina uma nova maneira de olhar e ver a realidade; e estes olhares são
reveladores sobretudo porque são construtivos, como o olho do pintor, cujo ver já é pintar e
para quem contemplar se prolonga no fazer” (p.24-25). A compreensão dos sentidos desta
simbolização carrega elementos potencialmente capazes de oferecer referenciais teóricos para
o campo educacional, no intento de que as criações humanas só o são porque impregnadas de
valores e ordenadas de maneira a constituir situação, em um sentido apontado por Oliveira e
col. (2009) em texto que dialoga sobre os processos educativos presentes nas práticas sociais:
Produzir conhecimentos na perspectiva da América Latina exige nos libertarmos de
referências dogmáticas, construídas a partir de experiências alheias a nossos valores
e culturas. A sobrevivência de nossas culturas, modos de ser e viver, evidenciam
nossa humanidade, contrariamente ao que apregoaram e apregoam os colonizadores
que nos “inventaram” sem alma, inteligência, valores (p.4).
1
O sentido que atribuo ao diálogo neste contexto considera todos os movimentos e formas de expressão
possíveis ao ser humano realizadas de forma respeitosa na troca de saberes e curiosidades, contemplando desde
as operações da fala, suas manifestações artísticas e, essencialmente, sua motricidade original.
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Esse olhar diferente/diverso/receptivo pode ser alcançado na percepção do
enquadramento utilizado pelo praticante de mergulho ao fotografar seus companheiros em
ação (SOUZA, 2010), ou na sensibilidade contraditória à intenção do caçador que coleta
galhos secos em formas de animais e pássaros 2, ou ainda na musicalidade das três irmãs cegas
de Campina Grande (LOPES, 2008) e em toda a riqueza de detalhes da pintura naif 3
(COSTA; 2008; GOLDSTEIN, 2008). Entretanto, as tentativas de controle observadas
historicamente
(BARBOSA,
2008;
DUSSEL,
1997;
GOMBRICH,
1988)
na
determinação/ressignificação das manifestações populares com o intuito de gerar novos
valores ou a fim de propagar ideologias, encontra nas linguagens artísticas utilizadas pela
indústria cultural, um caráter significativo.
A corporeidade dessas manifestações da Arte tem em Merleau-Ponty (2006; 2004) um
aporte filosófico no qual a intencionalidade compõe um só corpo entre instrumento, forma e
obra. Segundo este autor, uma operação de expressão bem-sucedida, instala, fazendo existir
em seus criadores e criadoras, uma significação que devora os próprios signos, abrindo novos
campos e dimensões, pautados pelos sentidos dessa expressão que se constrói nas
experiências.
As maneiras pelas quais as manifestações da Arte são apresentadas às pessoas, ao
invés de permitir ao outro uma vontade de existir em “criação estética”, procura estabelecer
critérios para uma vida direcionada ao que se determina ser componente desta criação,
inferindo nas pessoas um estranhamento à sua própria produção artística, à sua condição
cultural e também aos processos educativos que realizam em sua vivência. Encontramos
exemplos dessa desconstrução e construção, midiaticamente cultural, na apropriação efêmera
da cultura indiana; na retomada propagandística de Michael Jackson; no pitoresco de Susan
Boyle e na erotização performática das mulheres-fruta, frequentemente inculcadas pela mídia
no imaginário popular, e assumidas como forma de comunicação ou modelos
comportamentais, principalmente pela juventude.
Nesse contexto, vale retomar a compreensão de Dussel (1997), para quem a
instrumentalização da Arte se verifica quando se atribui a ela o cumprimento de “um
momento central na luta ideológica do sistema (como Arte da dominação, quando reproduz e
2
Essa referência se faz à prática que um morador da cidade de Brotas, SP, desenvolvida quando, em seu lazer,
saía para caçar pássaros na mata e, no tempo de espera, coletava galhos e raízes que o lembrassem algum animal.
Posteriormente, o caçador fixava o objeto em uma base, limpava-o e deixava exposto em uma prateleira na loja
de peças automotivas que dividia com os irmãos e filhos.
3
Segundo Goldstein (2008), “naïf significa “ingênuo” em francês, e o termo sugere uma associação com um
suposto estado de pureza” (p.305).
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afiança o sistema; como Arte de libertação, quando expressa as classes oprimidas e rascunha o
mundo novo e ainda utópico)” (p.158). Os interesses das pessoas que orientam ou definem
quais manifestações humanas tem valor de uso ou troca em momentos determinados pelo
crescimento ou declínio da economia, vela-se em uma falsa democracia de acesso público à
Arte direcionando o olhar e tentando re-significar os gestos e valores do povo.
Nesse sentido, repensar nossa existência ao mundo, compreendendo que nesta
caminham conosco outros homens e mulheres que também desejam existir enquanto
humanos, implica o re-conhecimento e respeito às culturas, às comunidades, aos grupos e às
práticas sociais que desvelam em valores e potencialidades, através de suas poéticas culturais,
os processos educativos que as significam parte de uma totalidade, e que são fundamentais ao
ser, para uma construção pedagógica.
No entendimento do apresentado até então neste texto e, no sentido do estranhamento
que brasileiros tem em relação ao que é criado artisticamente por brasileiros, é possível
compreendermos o cuidado/distanciamento assumido de modo geral quando discussões sobre
a Arte aparecem vinculadas a outros campos do saber, principalmente voltando-se à educação.
A sacralização (BARBOSA, 2008) do que se compreende ser arte, cujos conceitos europeus
em sua origem e estadunidenses na determinação de valor de uso de suas manifestações,
projetam sombras de insegurança à apreciação sensível que desenvolvemos no contato com as
linguagens visuais, corporais, musicais ou teatrais, estruturando posicionamentos que,
sensivelmente construídos ao longo da vida de cada um de nós, torna “prazeroso” o contato
com ritmos indianos, que são cantarolados, ou cujas expressões são repetidas, mas promovem
um olhar discriminatório, associado ao “mau gosto”, à música caipira, à linguagem coloquial
regional, e principalmente, à produção artística visual de populares.
A caracterização e compreensão da sensibilidade estética das pessoas, que no contexto
da cidade de São Carlos, localizada a 244 km da capital do estado de São Paulo e detentora de
uma das maiores rendas per capita no país (SÃO CARLOS, 2009), cujas esferas acadêmicas,
tecnológicas e industriais apresentam significações distintas para seus habitantes, revela-se
potencialmente propícia para este estudo, partindo da curiosidade intensificada por meu
contato profissional com a Escola Estadual Dr. Álvaro Guião, localizada na região central da
cidade e considerada por populares como modelo pedagógico, apresentando em seu quadro
discente um público diversificado, constituído por jovens moradores de bairros próximos e
distantes do centro.
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Objetivo
Contribuir com elementos que orientem a construção de um currículo educacional brasileiro
considerando, pelo viés da arte-educação, a pertinência cultural/social/política das práticas
sociais corporificadas nas artes visuais populares, os processos educativos desenvolvidos em
sua criação ou apreciação e a intenção estética que se revela nessas experiências.
Metodologia e trajetória
No sentido dessa proposta, a pesquisa qualitativa, pautada na fenomenologia
(MERLEAU-PONTY, 2006) com a modalidade do fenômeno situado (MARTINS; BICUDO,
2005) constitui-se meio importante para a compreensão das operações de expressão que
potencializam a condição cultural dos processos educativos em práticas sociais. No que
concerne à pesquisa direcionada ao campo da arte, sua apropriação se dá porque esta
modalidade, especificamente:
[...] está fundada na compreensão orientada pelo sentimento que o ser humano sente
na presença das coisas. A imaginação é a realização da inteligibilidade pré-reflexiva,
onde o homem [e a mulher] enfrenta um mundo que solicita um pensar, um sentir,
um falar entendidos como categorias separadas da experiência (MARTINS;
BICUDO, 2005, p.79).
Martins e Bicudo (2005), ainda compreendem que:
Cada momento da experiência do objeto e do mundo está fundamentado nos
resultados dos momentos passados e aponta para possibilidades futuras. [...] A
imaginação estética faz com que aquilo que pode ser apenas uma aparência de algo
destaque-se do fundo, tornando-se a sua aparência real. [...] Assim como a obra de
arte, as outras pessoas são compreendidas quando se olham para dentro delas, para a
necessidade existencial e interna nelas presentes, necessidade essa imbuída de suas
liberdades pessoais e não definida a partir de carências externas (p.83-84).
Em relação aos procedimentos, parte desta tese receberá a colaboração discente em
busca de compreensões a respeito da estética vigente. Esse levantamento, obtido por meio de
uma intervenção pedagógica buscará a compreensão sobre os valores que direcionam o olhar
para noções de “beleza” e “feiúra”. Também, o contato com artistas populares da cidade de
São Carlos, a fim de dialogar a respeito de suas percepções e o movimento criador que
desenvolvem, oferecerão dados significativos. Paralelamente, estudos teóricos envolvendo
Arte popular e estética, tanto por meio de produções direcionadas às escolas quanto propostas
filosóficas e acadêmicas do tema, contribuirão para a construção da pesquisa.
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O diálogo entre esses saberes – o divulgado pelos materiais publicados e o desvelado
na produção artística popular dos moradores de São Carlos – partiria de entrevistas realizadas
com os criadores e criadoras das manifestações artísticas visuais populares encontradas na
cidade, buscando suas compreensões sobre as próprias criações, à procura do significado
estético desse conhecimento, no intento de delinear uma proposta local e também geral – no
contexto paulista, brasileiro e latino-americano, porque pautada em valores humanos, para a
educação.
Resultados esperados:
Oferecer propostas que aproximem as dinâmicas do campo da educação com aquelas
desenvolvidas no campo da Arte considerando a experiência estética de homens e mulheres
das camadas populares, por meio dos processos educativos que realizam em sua diversidade.
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