UNIVERSIDADE SALGADO DE OLIVEIRA Curso de História Monografia “MUSEU DE ARTES E OFÍCIOS MATÉRIA E ESPÍRITO: DICOTOMIA DO MUSEU MODERNO” Autora: Renata Carla Diniz Orientador: Prof. Tiago Castelo Branco Lourenço Novembro/2006 UNIVERSIDADE SALGADO DE OLIVEIRA Curso de História Renata Carla Diniz “MUSEU DE ARTES E OFÍCIOS MATÉRIA E ESPÍRITO: DICOTOMIA DO MUSEU MODERNO” Monografia apresentada ao Curso de História da Universidade Salgado de Oliveira Área de Concentração: Museologia Orientador: Prof. Tiago Castelo Branco Lourenço Belo Horizonte Faculdade de História da UNIVERSO 2006 “O museu guarda sonhos fantasias e quimeras. Signos sinais e símbolos. Conhece o que é pelo que foi. O museu aguarda pelo que virá.” (Rui Chamone Jorge) iv Aos meus pais, Ricardo e Aparecida Ao meu marido, Wagner Aos meus irmãos, Rodrigo e Júnior v AGRADECIMENTOS ================================================================ Aos meus amados pais, Ricardo e Aparecida, meus eternos mestres. Ao meu marido, Wagner, pelo carinho, compreensão e amor que nos une. Aos professores; Tiago, em especial, pela orientação, incentivo e amizade dedicados na elaboração deste trabalho. vi SUMÁRIO ================================================================ 1. INTRODUÇÃO 09 2. OBJETIVOS 11 3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 12 3.1 Conceitos de Museus 12 3.2 Possibilidades dos Museus 12 3.2.1 Museu e Memória 12 3.2.2 Museu e Patrimônio Cultural 14 3.2.3 Museu e Identidade Coletiva 16 4. METODOLOGIA 18 4.1 Desenvolvimento das Formulações 18 4.2 Análise Sensorial 18 4.2.1 Museologia – Diagnóstico do Tema 18 4.2.2 Museografia – Determinante do Tema 19 4.3 Análise Descritiva 21 4.3.1 Fluxograma 21 4.4 Produção Científica 23 4.4.1 Diretrizes Pedagógicas 23 4.4.2 Museu de Artes e Ofícios 23 5. RESULTADOS E DISCUSSÃO 25 5.1 Funções Sociais dos Museus no século XX 25 5.1.1 Museu Histórico Nacional e Museu Imperial 25 5.2 Funções Sociais dos Museus no século XXI 29 5.2.1 Propriedades dos Museus: Simbologia, Memória e Identidade 29 6. RELEVÂNCIA DOS RESULTADOS 35 6.1 Museu de Artes e Ofícios 35 vii 6.1.1 Histórico 35 6.1.2 A Influência do Museu de Artes e Ofícios na Construção da Identidade Belo-horizontina 38 7. CONCLUSÕES 43 8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 45 9. BIBLIOGRAFIA 46 viii RESUMO ======================================================= Em “Museu de Artes e Ofícios – Matéria e Espírito: Dicotomia do Museu Moderno” foram realizados estudos sobre a identificação da memória e construção de identidade coletiva. Através do acervo foi analisada a simbologia, entenda aqui o conjunto de significados intrínsecos contidos nos objetos do acervo museológico. Simbologia esta, capaz de apreender o imaginário coletivo e representar a identidade Belo-horizontina. No que diz respeito à Revisão Bibliográfica e discussão teórica acerca dos conceitos de museu, memória, patrimônio e as possibilidades de um museu na formação da identidade coletiva, cumpre salientar que esta abordagem indagou como os símbolos e a memória podem construir o patrimônio cultural através de um museu. No tocante aos Resultados e Discussão o discurso está para as funções sociais dos museus no sentido de historicizar seu papel social no passado e no presente, isto é, fim do século XX e o presente século XXI. Foram percebidas suas ampliações e potencialidades na construção de memória coletiva representada por um acervo. Acerca da Relevância dos Resultados a análise interpreta como o acervo do Museu de Artes e Ofícios influencia a construção da identidade coletiva Belo-horizontina do século XXI. Foi constatado que essa identidade está sempre em construção, visto que, é um processo diligente e dinâmico no imaginário coletivo, o qual, representa a identidade coletiva a partir de influências cruciais da sociedade de informação, de um mundo globalizado de interesses, necessidades, virtualidades e formas diversas de interrogar e construir histórias. 9 1. INTRODUÇÃO ================================================================ Atentos aos desafios dos novos tempos a exigir respostas eficientes nos processos de Educação, que formem competência e humanidade, e, em consonância com os anseios e necessidades de nossa sociedade educativa, o objetivo deste trabalho é o aperfeiçoamento e o enriquecimento do serviço educativo através dos museus. Servi-me desses para confiar a memória e identidade coletiva através dos símbolos que compõem seus acervos. Esses símbolos carregam consigo a magia de, silenciosamente, impactar o visitante de maneira tão especial despertando-lhe familiaridade, memória e identidade. Sob a inspiração dos museus dos tempos modernos e animada pelo “espírito” de decisão do conhecimento, o ideal desse projeto pedagógico-museológico aconteceu expresso na identidade coletiva, objetivo maior deste trabalho, ao atingir todos os níveis internos e externos das personalidades humanas. Há de se abrir o coração, ao visitar um museu, pois esse reserva para si a capacidade de produzir prazer e conhecimento ao mesmo tempo. O prazer é construído através do acervo, este, matéria imbuída de representações familiares, que mais ou menos próximas, possuem o poder de despertar no visitante de um museu um fascínio indescritivelmente espetacular. Da subjetividade contida nos objetos surge o conhecimento e o reconhecimento intrínseco capaz de influenciar o visitante adicionando-lhe ao presente o passado, por vezes não experimentado, mas por ele sentido “espiritualmente” como se fosse um processo de envelhecimento e rejuvenescimento, concomitantemente, acelerado a fim de despertar a memória construindo a identidade. Entretanto, a influência do acervo do Museu de Artes e Ofícios na construção da identidade coletiva Belo-horizontina do século XXI foi a discussão proposta neste trabalho, que tem como plano de ação o exercício da prática pedagógica dos museus, numa reconfiguração da personalidade humana, fruto de intensos e proveitosos encontros com o acervo de museus formadores da identidade coletiva. 10 Contudo, o traçado do discurso que compôs a elaboração deste projeto constituiuse, sobretudo, em uma referência para a construção de um trabalho - nunca perfeito, pronto para ações que aprimorem a diligência do imaginário coletivo representado pelos símbolos que compõem o museu. 11 2. OBJETIVOS ================================================================ Este trabalho tem como meta o estudo da influência do Museu de Artes e Ofícios na construção da identidade coletiva Belo-horizontina do século XXI. Entre a matéria do acervo e o “espírito” do visitante tocado ao perceber os símbolos desse acervo está a dicotomia do museu moderno. Os símbolos suscitam a caracterização do ser humano, pois o que ele vê está além de seus olhos quando alcança a subjetividade da “alma” por lhe revelar algo familiar. Essa subjetividade é a apreensão da vida em seu interior. História dionisíaca, mais que intelectualista, ao reunir elementos materiais e espirituais através dos objetos-símbolos do acervo e suas representações. Os objetivos específicos são: Avaliação de conceitos tais como museu, memória e patrimônio, em termos culturais, estabelecendo entre eles o elo que os unirá na verificação de suas utilidades e influências na formação da identidade coletiva. Estudo das funções do museu no passado, anterior ao presente século XXI, historicizando-as de forma a perpassar seus objetos de acervo, suas simbologias e representações da memória na construção de identidade coletiva. Comparação do acervo e da identidade coletiva através da simbologia dos objetos em sintonia com o imaginário popular. Esse representa, espiritualmente a identidade coletiva. Caracterização da identidade coletiva por meio de associações representadas pelo acervo. 12 3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ================================================================ 3.1 Conceitos de Museus História, memória, documentos, vestígios, evidências – palavras carregadas de significados, categorias utilizadas para lembrar a importância e o lugar das fontes dos vestígios do passado para a história das sociedades. Os museus são, freqüentemente, lembrados como ”locais”, “espaços culturais” que cuidam da preservação da memória dos povos. Os museus constituem importantes espaços de aprendizagens, contribuindo significativamente para o conhecimento, o respeito e a valorização do patrimônio sócio-histórico e cultural dos povos (Fonseca, 2003). Museu é uma instituição permanente, sem finalidade lucrativa, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento. É uma instituição aberta ao público, que adquire, conserva, pesquisa, comunica e exibe evidências materiais do homem e de seu ambiente, para fins de pesquisa, educação e lazer (Bittencourt, 2004). Os museus caracterizam-se por coletar objetos que não pertencem mais à compreensão cotidiana da vida, estranhos ao tempo e à história que envolve. No entanto, essas instituições, além de contar a história do passado por meio de seus fragmentos, são essencialmente história. Possuem dupla personalidade: sua vocação de fazer história e seu pertencer à história. Museu é um local onde se guarda o testemunho do passado, a memória e o patrimônio de um povo (Abreu, 2003). Todavia, o museu é reconhecido por seus ofícios e artes que aliam tradição e inovação através da excelência e raridade de suas competências. 3.2 Possibilidades dos Museus 3.2.1 Museu e Memória O museu como memória não é um organismo estático, e sim uma entidade dinâmica 13 que leva o público a conhecer a atividade artística dos mestres e ainda a aprender sem nenhuma preocupação de ordem acadêmica, porém, servindo ao papel educativo aprofundando o conhecimento da classe primária à universitária e/ou todas as classes, estabelecendo pontes de uma cultura a outra, o museu demarca além de sua propriedade natural um domínio subjetivo, porém, familiar (Bittencourt, 2004). O caráter seletivo da memória implica suscetibilidade de eleger, reeleger, subtrair, adicionar, excluir e incluir fragmentos no campo do memorável. Coincide com a memória a identidade operando no sentido de transformar as representações dos museus em marcas expressivas de identidade individual e coletiva. Na memória os museus tornam-se centros de interpretações através dos juízos de valores e instituições de relações sociais que fazem parte do cotidiano das modernas e complexas sociedades a partir de seus vínculos com o espaço urbano. Por intermédio da memória os museus desvendam as lógicas culturais que informam as diferentes experiências humanas e suas relações com o espaço da cidade (Abreu, 2003). A memória possui uma aura de sacralidade e obedece a experiências sociais de difícil e delicada função, mas garante em toda sociedade o domínio, a preservação, a transmissão e a continuidade do significado de todas as coisas. A memória obedece a princípios de reflexões e comparações revelando as propriedades de qualquer fenômeno humano. É como um horizonte abrangente que ordena a vida simbólica da maior parte das culturas. A memória coletiva é a memória da sociedade, da totalidade significativa em que se inscrevem e transcorrem as micromemórias pessoais ou a emergência de uma linguagem mais ampla na leitura dos sinais que constituem nossa cultura e nossos museus. A memória formaliza o pensamento e suscita a consciência crítica e significativa a partir das experiências e evidências de um acervo cultural (Abreu, 2003). As narrativas nacionais ou discursos nacionais sobre o patrimônio cultural constroem uma memória e uma identidade que são atos de uma dimensão dramática e não exclusivamente cognitiva. É como imaginar fenômenos não materiais - como o 14 tempo, por exemplo - como se fossem algo concreto, objetos físicos existentes na memória através da materialização imaginativa de realidades humanas. Esse fenômeno é classificado de “objetificação cultural”. O patrimônio cultural da humanidade é parte de um sistema de objetos que formam identidades, ou seja, a cultura e a tradição, através do presente e do passado caracterizado na memória formando identidades coletivas e nacionais. O alerta está para a questão da perda como presença de uma ausência e distanciamento de objetos no tempo e no espaço, sobretudo, o desejo de resgatá-los. Na medida em que o processo histórico é tomado como um dado, e que o presente é narrado como uma situação de perda progressiva, estruturam-se e legitimam-se as práticas de colecionamento, restauração e preservação de patrimônios culturais representativos de categorias e grupos sociais diversos. Esse patrimônio seria a propriedade herdada ou adquirida da cultura coletiva e nacional com o propósito de mediação simbólica entre linguagem e experiência – como se as palavras também fossem atos - entre o passado e identidade coletiva dos indivíduos que compõem o espaço e a Nação (Gonçalves, 1996). A respeito da identidade a memória individual e coletiva deseja a imortalidade, centrada nas coleções dos museus que impõem uma verdadeira “reentronização” representando a totalidade pela individualidade, e designa a continuidade das identidades coletivas. “Da memória emerge vida, força subjetiva, íntima sobre o imenso solo do acervo de um museu e suas criações passadas a fim de refletir sobre as construções dos passos vindouros” (Musas, nº 1, 2004). 3.2.2 Museu e Patrimônio Cultural O museu como patrimônio é herança que oferece, através de seu acervo, entendimento da vida social e cultural. Os museus apresentam uma singularidade importante que é a presença dos objetos, símbolos capazes de fazer transitar de uma cultura a outra. Neste momento a idéia de patrimônio confunde-se com a de propriedade quando o indivíduo contemplativo, de certo modo, constrói as idéias, valores e sua própria identidade. Neste momento, a história se determina por uma lógica intrínseca capaz de construir um sentimento comum partilhado através dos 15 objetos testemunhos do passado e, como tal, portadores de uma história que antecede aqueles que os resgatam (Abreu, 2003). Sobre patrimônio como apropriação em uma situação de perda com o propósito de construir identidades e construir a nação, estratégia está para a apropriação e preservação para a não destruição. Ou seja, a coletividade ou a nação constrói seu patrimônio cultural por oposição a seu processo de destruição a fim de não perdê-lo (Gonçalves, 1996). Os objetos são símbolos, conjuntos de bens que formam a riqueza material e moral da nação, do Estado, da Cidade e do indivíduo. Eles são tradições e testemunhos da cultura como patrimônio da humanidade, são veículos infalíveis de importantes associações sentimentais que possibilitam a comunicação entre indivíduos e passam a ser considerados grandes preciosidades, fruto de uma valorização do imaginário popular. Neste sentido, o termo patrimônio refere-se a algo que herdamos e que, por conseguinte, deve ser protegido. No fazer popular estão os mais autênticos valores da identidade e de uma nacionalidade. A exposição do pensamento de forma figurada – o símbolo ou objeto – demonstra características da personalidade e em conseqüência caracteriza as identidades individuais, coletivas e nacionais. A identidade é como uma autoridade cultural e política para identificar e representar através dos bens culturais e dos símbolos a cultura nacional (Fischer, 1977 e Abreu, 2003). Esses bens, pelo seu caráter único e por serem vistos como depositários de uma memória apontam para a formação de uma identidade coletiva, portanto precisam ser defendidos e preservados. Igrejas, casas, estátuas, quadros, idiomas, dialetos, tradições orais, costumes, dança, ritos, festivais, artesanato e outros bens materiais e/ou saberes próprios de cada cultura são fontes essenciais de identidades culturais que contribuem para a perpetuação da diversidade cultural caracterizando o multiculturalismo das identidades coletivas. Identidade coletiva é o projeto inovador do museu que através de sua ambiência histórica satisfaz o indivíduo além de sua curiosidade e faz com que este guarde a indelével impressão educativa de sentir 16 suas lembranças e construir sua identidade por meio deste patrimônio “vivo”, e não “museificado” porque é identificado e colocado em valor (Musas, nº 1, 2004). Segundo Gonçalves (1996), o patrimônio histórico é como se fosse o documento de identidade de um povo ou de uma nação autenticada pela existência da identidade cultural. Essa identidade caracterizada pelo patrimônio é algo específico, singular e exótico resultante de um processo universal de evolução, portanto, não coloca uma região, uma coletividade ou uma nação como superior à outra, mas a classifica de forma importantíssima quanto à sua especificidade. Entender essa singularidade é primordial para o reconhecimento do valor de um povo ou de uma nação que assume e defende sua cultura e tradições. 3.2.3 Museu e Identidade Coletiva A importância dos bens culturais, da vida cotidiana da população, da diversidade cultural, das aberturas políticas, sociais e econômicas advindas do processo de democratização e cidadania Brasileira desde 1937, das liberdades adquiridas, apontam para o caráter nacional da formação de identidade cultural da coletividade. É preciso possuir uma consciência nítida de valores culturais. Quem não tem precisa urgentemente adquirir, pois somente esta aquisição poderá trazer autonomia e liberdade para todos os povos na superação de um sentimento pessoal para um sentimento coletivo, moderno e essencial na construção de identidades coletivas. Trata-se do discurso sobre a originalidade de um povo que se autentica através de seus bens culturais ou patrimônio histórico que o torna tão singular quanto importante. A apropriação da cultura nacional, muito além da propriedade particular, revela uma outra, que é a propriedade coletiva constituída por todos os elementos que constituem a cultura de um povo, considerado como o melhor guardião de bens culturais, pois ele mesmo é seu dono. Deste modo, podemos conceber a apropriação do patrimônio cultural como apropriação do passado ou da tradição a fim de ajudar o homem a lembrar-se de si mesmo e educar para preservar, para unir e para permanecer (Gonçalves, 1996). 17 A apropriação da cultura nacional segue dois caminhos: em um deles o foco está no passado – referência usada no processo de desenvolvimento econômico e cultural em toda a trajetória histórica. O passado é uma garantia de continuidade de um processo cultural a partir de nossas raízes, o que não representa uma aceitação submissa e passiva dos valores do passado, mas a certeza de que estão ali os elementos básicos com que contamos para a conservação de nossa identidade cultural (Gonçalves, 1996). Portanto, o acervo museológico de uma cidade ou determinada região constrói um mundo de espetáculo cuja imagem e sentimentos possibilitam a formação da identidade coletiva a qual é dotada de significados adquiridos nos palcos dos museus. Os objetos dos museus quando constroem a identidade coletiva tornam-se, paradoxalmente, imortais quando só sobrevivem à mutação contínua de significados adquiridos juntos aos homens. Ou seja, as linguagens inscritas nos museus têm leituras diferenciadas e não estão submissas a um modelo funcional fixo. Elas são produto de uma relação contínua entre os homens e seu consentimento. A aceitação de determinados objetos indica a incorporação ou identidade em seu conjunto de idéias e pensamentos que se ligam a sentimentos profundos de conteúdos diversos em diferentes grupos. O acervo de um museu pode ser usado para autenticar de forma real e original os valores de uma cultura, de uma tradição, de uma diversidade cultural e de uma civilização. Trazem as marcas do contexto histórico, intelectual e político em que foi produzido e que nos distancia de um tempo que nos facilita a percepção de limites e sugere que é tempo de não nos satisfazermos com a simples repetição celebratória dos discursos e das políticas de personagens fictícios, e sim construirmos auto-consciência. Mudamos só quando nos conhecemos (Gonçalves, 1996). Daí o fluxo de visitação turística nacional e internacional nos museus. 18 4. METODOLOGIA ================================================================ O estudo que tem por objetivo a influência do Museu de Artes e Ofícios na construção da identidade Belo-horizontina no século XXI apresenta neste capítulo o procedimento metodológico adotado para a realização deste trabalho. Este compreende o desenvolvimento de formulações em dois níveis: Análise Sensorial e Análise Descritiva. A primeira diz respeito à identificação do tema, isto é, o objeto de estudo; e em seguida, à visita in loco ao Museu de Artes e Ofícios, o qual é determinador do tema. A segunda projeta um fluxograma, a fim de nortear toda a posterior produção científica. 4.1 Desenvolvimento das Formulações Todos os ensaios que constituem o presente trabalho foram realizados ao longo de minha graduação em História, iniciada anteriormente na Faculdade de Pará de Minas (Pará de Minas/MG), e posteriormente concluída na Universidade Salgado de Oliveira (Belo Horizonte/MG), em conformidade com a convivência em meio à professores e colegas de classe. 4.2 Análise Sensorial A disciplina História da Arte - com base na grade curricular da Faculdade de Pará de Minas – FAPAM – a vivência acadêmica com professores - desta e da posterior instituição Universidade Salgado de Oliveira – e a adaptação a uma vivência e vocação pessoal serviram-me para detectar o tema. Contudo, esta etapa consistiu em um teste afetivo de aceitabilidade ao tema concentrado na área de Museologia. 4.2.1 Museologia - Diagnóstico do Tema A disciplina “História da Arte”, então estudada em Abril do ano de 2005 na FAPAM, 19 despertou-me o gosto pela Museologia, ciência que estuda os museus e compreende seus objetos no tocante à representação de seus significados. O fator determinante para a área de concentração – Museologia – foi por mim identificado a partir de uma afinidade pessoal com a História da Arte. Penso a Arte como uma poesia indispensável e encantadora dos olhos e da “alma”. Deste modo, sua função transcende o real atingindo o imaginário da coletividade como uma forma de colocar o homem em estado de equilíbrio com o meio circundante, isto é, permanente equilíbrio entre o homem e o mundo em uma relação profunda de sentimentos e significados (Fischer, 1977). Tendo em vista a Arte como o meio indispensável para união do indivíduo como o todo preparei-me para a próxima fase do trabalho. A especificidade da Arte como caminho do indivíduo para a plenitude, para o mundo em geral no sentido de uma identificação com aquilo que o homem é ou gostaria de ser. Ou seja, essa definição deixa de ser demasiado romântica quando em um mundo que tenha significação o indivíduo é integrado pelo “eu curioso” por unir-se à Arte (Fischer, 1977). Ao visitar um Museu o homem identifica-se com seus diversos objetos e obras de Arte. Isto é, a sua limitada personalidade torna-se existência humana coletiva por tornar social a sua individualidade. Todavia, com base nesta paixão pela História da Arte apoderei-me da Museologia para construir meu trabalho de forma consciente e racional. Pois a Arte – mais que um estado de inspiração embriagante – possui a capacidade de ser consciente e racional (Bazin, 1953). 4.2.2 Museografia - Determinante do Tema Com base nos resultados obtidos a partir da identificação da Museologia como área de concentração do trabalho determinei o tema. 20 Inicialmente, ao longo da graduação, foram realizadas diversas visitas in loco preliminares à Museus de categorias, mais ou menos, relacionadas ao curso de História: Museu Municipal Francisco Manoel Franco (Itaúna-MG), Museu Histórico, Documental, Fotográfico e do Som de Pará de Minas (Pará de Minas-MG), Museu de Mineralogia (Congonhas-MG), Museu de Arte Sacra do Carmo (Ouro Preto-MG), Museu do Ouro (Sabará-MG), Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Mariana (Mariana-MG), Museu de Mineralogia Professor Djalma Guimarães (Belo HorizonteMG), Museu Mineiro (Belo Horizonte-MG), Museu Histórico Abílio Barreto (Belo Horizonte-MG), Museu de Arte Sacra (São João Del Rei -MG), Museu Imperial (Petrópolis-Rio de Janeiro), Museu de Artes e Ofícios (Belo Horizonte-MG), dentre outros. Posteriormente, a decisão pelo Museu de Artes e Ofícios, localizado em Belo Horizonte-MG, estava tomada. A afeição pela Museologia atingiu o ápice no momento desta visita. O que vi e senti despertou-me para a especificidade do tema, sobretudo, afirmando-o como objeto de estudo de caso. Portanto, o Museu de Artes e Ofícios lançou novas luzes sobre o meu projeto de produção científica. Através dos objetos que compõem o seu acervo - dedicado integralmente ao tema das artes e dos ofícios e do trabalho no país - percebi a determinação de meu trabalho. A coleção mostra a riqueza da produção popular na era pré-industrial: os fazeres, artes e ofícios que deram origem às profissões contemporâneas. Ao percorrê-la, com o suporte de recursos museográficos e de ações educativas, pude visualizar um amplo painel da história e das relações sociais apreendidas no sentido de perceber a capacidade e a responsabilidade social de um Museu, potencialmente, passível de articular a individualidade com a identidade coletiva. Isto é, os objetos do acervo representam a história humana. O homem tocado pelo significado do objeto, através da memória, identifica-se com o mesmo, o qual, passa a ser parte de sua própria história. 21 4.3 Análise Descritiva Feito a definição e a determinação do tema, o estudo segue para a fase de definição das metas que nortearam o trabalho. Logo, nesta etapa, a análise amplia-se de sensitiva para também ser descritiva. 4.3.1 Fluxograma Para a preparação desta fase segue as palavras-chave que serviram de suporte e direção no desenvolvimento do trabalho: Museu, Memória, Simbologia, Patrimônio e Identidade. A fim de sistematizar as informações que nortearam ações para esta e posterior etapa da produção científica foi utilizado um fluxograma, a saber: 22 Desenvolvimento das Formulações Análise Sensorial Análise Descritiva Vivência Pessoal História da Arte Vivência Acadêmica Diretrizes Vocação Pessoal Projeto Piloto Temática Projeto Museologia Produção Científica Museus Conceitos e Possibilidades Funções Sociais Propriedades Memória, Patrimônio e Identidade Museu Histórico e Museu Imperial Simbologia, Memória e Identidade Museu de Artes e Ofícios Caracterização da Identidade Coletiva 23 4.4 Produção Científica Após o desenvolvimento das formulações - que compreenderam o diagnóstico do tema, a determinação do mesmo através de visitas in loco, o fluxograma, o projeto para a produção científica – segue a avaliação da sistematização das informações que constituem a última etapa do trabalho. 4.4.1 Diretrizes Pedagógicas Na preparação da fase definitiva do trabalho apresentou-se o patrimônio cultural da humanidade - a partir do museu – e qual é o seu papel, senão estabelecer uma articulação entre o patrimônio cultural, através do acervo e seus objetos, o universo cultural do indivíduo visitante, através da personificação da memória, e a simbologia dos objetos representativos da identidade coletiva (Le Goff, 1996). Portanto, foram efetivadas ações que procederam a revisão bibliográfica no sentido de conceituar os museus e suas possibilidades em potencial, a seguir os resultados e a discussão sobre as funções sociais dos museus nos séculos XX e XXI. A partir de exemplos tais como Museu Histórico Nacional e Museu Imperial analisaram-se as propriedades dos museus ao serem dotados de uma simbologia que desperta para a memória e a identidade de uma coletividade (Abreu, 2003). 4.4.2 Museu de Artes e Ofícios Os procedimentos supra citados efetuaram a relevância dos resultados e as conclusões do trabalho. Logo, verificou-se “A Influência do Museu de Artes e Ofícios na construção da Identidade Belorizontina”. Ao final do trabalho percebe-se uma leitura atenta do Museu de Artes e Ofícios como quem convida a todos a colocar em análise aqueles esquemas, os quais foram lançados a partir deste trabalho. Possivelmente todo aquele que se dispuser a visitar um museu de “coração aberto” perceberá as possibilidades do mesmo, isto é, o caráter vibrante e variável do saber humano contidos em um acervo de museu 24 capaz de dialogar com o visitante, talvez, tal qual nenhuma ferramenta da retórica do homem poderá fazê-lo de forma tão eficaz e emocionante como o discurso, paradoxalmente, silencioso e penetrante do museu. 25 5. RESULTADOS E DISCUSSÃO ================================================================ 5.1 Funções Sociais dos Museus no século XX 5.1.1 Museu Histórico Nacional e Museu Imperial Segundo Abreu (2003), em 1922, por iniciativa de Gustavo Barroso, foi criado o primeiro museu de História no país, o Museu Histórico Nacional (MHN), instituição que se voltava para o “culto à saudade” e para reverenciar a tradição. O MHN, inspirado pela tradição romântica e de forte caráter militarista, enaltecia os grandes heróis nacionais e voltava-se para a preservação do patrimônio pertencente às elites do país. O MHN pode ser considerado um marco de transição, no que diz respeito ao perfil institucional dos museus, uma vez que, o século XIX fora responsável basicamente pela criação dos grandes museus de História Natural, marcados pelo ciclo das grandes viagens exploratórias, pela extração das riquezas naturais do país e pelo início do desenvolvimento da Ciência Natural. Gustavo Barroso criou o curso de Museologia, em 1932, instituição que, até os dias de hoje, exerce um papel fundamental na formação dos profissionais que ocupam posições relevantes nos diversos museus espalhados nacionalmente, bem como a Inspetoria dos Monumentos Nacionais, primeiro órgão federal de proteção ao patrimônio nacional. A influência de Barroso não pode ser subestimada, pois ele foi o intelectual de primeira grandeza no cenário nacional, manteve-se na direção do MHN até a sua morte em 1959. A partir da tomada do poder por Vargas, travou-se uma nova batalha no campo da formação cultural do país. Diversos setores da sociedade mobilizaram-se em torno da procura da origem da brasilidade e da consolidação dos elementos que pudessem dar sentido ao povo Brasileiro. Modernistas e conservadores ocuparam cargos importantes em toda a estrutura institucional e imprimiram suas marcas na política cultural desenvolvida pelo Estado. Por um lado, havia os defensores do movimento modernista, que tentavam reelaborar o passado de forma a construir um perfil autônomo, crítico e libertário para a nação possibilitando a inovação. Os 26 conservadores criticavam o conhecimento teórico e livresco dos modernistas e defendiam o culto aos elementos emblemáticos definidos pela emoção de um reconhecimento intuitivo da consciência que os Brasileiros tinham de si próprios. É nesse contexto, em que modernistas e conservadores procuram utilizar a rede institucional do Estado para promover suas políticas públicas. Isto é, em 1937, após o golpe do momento político designado Estado Novo, a perspectiva mais pluralista e ampliada dos modernistas defrontou-se com um dilema, o qual, excluía a representação mais livre da sociedade em favor de uma política de patrimônio vigiada, controlada e regida pelos valores dos setores dominantes que se aglutinavam no poder. As medidas voltadas para a preservação da cultura popular, por exemplo, expressa em vários museus, só foi possível bem mais tarde, e a intervenção da população na definição de qual seria o patrimônio a ser preservado estaria, deste modo, por se constituir em termos de liberdade e ampliação mais tarde conquistados (Abreu, 2003). O Museu Imperial, no Rio de Janeiro, foi criado em 1940, durante o período estadonovista, com o apoio direto de Getúlio Vargas. Segundo relato do ex-diretor do Museu Imperial, Lourenço Lacombe, o presidente Getúlio Vargas costumava veranear sempre em Petrópolis (RJ) e passear pela cidade. Num desses dias, ele entrou no Museu Histórico de Petrópolis e foi recebido pelo diretor, Alcindo Sodré, que o acompanhou na continuação de seu passeio, sugerindo-lhe a idéia da criação do Museu do Império. A idéia foi bem recebida e concretizada, a partir da liderança do próprio Alcindo Sodré, que dirigiu a instituição até 1952. Segundo o decreto-Lei 2.090, de março de 1940 (Lacombe e Cotrim, 1987), que criou o Museu Imperial, este tinha por finalidade: Recolher, ordenar e expor objetos de valor histórico ou artístico referentes a fatos e vultos dos reinados de D. Pedro I e, notadamente, de D. Pedro II: colecionar e expor objetos que constituam documentos expressivos da formação histórica do Estado do rio de Janeiro e, especialmente, da cidade de Petrópolis; realizar pesquisas, conferências e publicações sobre os assuntos da história nacional em geral e de modo especial sobre os acontecimentos e as figuras do período imperial, assim como da história do Estado do Rio de Janeiro e, particularmente, da cidade de Petrópolis. 27 Como pode ser observado, havia a intenção de se criar uma coleção de objetos relacionados a fatos e vultos do Império, como também à formação histórica do Rio de Janeiro, da cidade de Petrópolis e da própria Nação. O Museu Histórico Nacional (MHN) e o Museu Imperial (MI) – o primeiro foi construído durante o governo de Epitácio Pessoa; o segundo, durante o Estado Novo - podem ser compreendidos no contexto de dois estabelecimentos que privilegiaram o culto ao Império e à nobreza, numa perspectiva que valorizava as tradições e o continuísmo com o passado. A vocação autoritária e disciplinadora do primeiro e a vocação populista do segundo compõem o discurso historiográfico do período getulista. Entretanto, desde as primeiras exposições, não se observava uma preocupação com fatos ou eventos, com causas explicativas ou, ainda, com as transformações estruturais. Os novos caminhos tomados pela historiografia Brasileira - que, a partir da década de 1930, passou a criticar a história dos grandes heróis ou dos grandes feitos do passado, em prol de análises que considerassem as transformações econômicas, políticas e sociais - não exerceram grande influência na concepção adotada pelos estabelecimentos. Durante alguns períodos, historiadores com concepções próximas à historiografia estruturalista ou culturista Francesa estiveram presentes no referido museu. O distanciamento entre as tarefas de pesquisa e aquelas voltadas para idealização museográfica foi diagnosticado e criticado por muitos dos historiadores que lá trabalharam (Abreu, 2003). Abreu nos diz ainda que, desde a sua criação, as principais diretrizes encontradas no Museu Imperial estão relacionadas à homenagem a Pedro II e à Monarquia. Alcindo Sodré criticava o acúmulo de peças e antiguidades, as relíquias que Gustavo Barroso tanto idolatrava no Museu Histórico Nacional, e apontava para um desenho institucional mais próximo ao imaginário popular. O museu Imperial voltouse para atender o grande público – ainda ausente em diversos museus Brasileiros – apontando com clareza que a tarefa do museu era, a um só tempo, a de ensinar e seduzir. Segundo ele, O antigo museu, com mostruários reunindo objetos díspares , ao qual se poderia denominar, apropriadamente, “museu-bazar”, está hoje fora de moda. [...] Essa idéia teve de ceder terreno ao critério de que o museu 28 deve responder às necessidades de visitantes e conhecedores, isto é, ser um instrumento não só de acúmulo e preservação de um patrimônio espiritual, mas também o instrumento de ciência, deleite e educação do grande público (Sodré, 1950, p.18). De acordo com Abreu (2003), as imagens de realeza, de nobreza e de monarquia exerceram, e o fazem ainda hoje, um fascínio muito grande sobre o público. Entre os antropólogos, a preocupação em compreender a natureza humana e resgatar a dimensão simbólica da realidade, com lógica própria, mesmo quando considerados os referenciais políticos e sociais leva a um tratamento cuidadoso em relação aos objetos, por serem eles quase sempre portadores de uma função eminentemente simbólica. Malinowski (1976) é citado como exemplo em um de seus mais importantes trabalhos sobre os nativos das ilhas Trobriands, onde o mesmo propõe uma interessante analogia entre os objetos que descreviam o kularing (circuito de trocas) e os objetos – referem-se às jóias da Coroa Britânica – expostos em museus, ambos com uma função essencialmente simbólica. Para os nativos, os objetos representavam o selo de uma aliança entre dois indivíduos; para o Ocidente, as jóias também possibilitavam a comunicação entre indivíduos. [...] as jóias da Coroa Britânica, como quaisquer objetos tradicionais demasiado valiosos e incômodos para serem realmente usados, representam o mesmo que os vaygu’a’: pois são possuídos pela posse em si. É a posse, aliada à glória e ao renome que ela propicia que constitui a principal fonte de valor desses objetos. Tanto os objetos tradicionais ou relíquias históricas dos Europeus quanto os vaygu’a’ são apreciados pelo valor histórico que encerram. Podem ser feios, inúteis e, segundo os padrões correntes, possuir muito pouco valor intrínseco; porém, só pelo fato de terem figurado em acontecimentos históricos e passados pelas mãos de personagens antigos constituem um veículo infalível de importante associação sentimental e passam a ser considerados grandes preciosidades (Malinowski, 1976, p. 80). Todavia, além do Museu Imperial (Abreu, 2003) outros museus encaixam-se neste projeto do símbolo onde a impressão é mais forte do que a reflexão. Pois, o fascínio advindo das obras de arte, dos objetos e de todo o acervo de um museu provoca no indivíduo o privilégio de estar localizado em um tempo e um espaço que lhe confere um poder evocativo muito forte. O museu prioriza e dá destaque à recriação de um ambiente, formado por um conjunto de objetos que se encontram envolvidos por um forte conteúdo simbólico. A boa receptividade pelo público, certamente, fortalece a ação dos museólogos e demais líderes à frente dos museus. 29 5.2 Funções Sociais dos Museus no século XXI 5.2.1 Propriedades dos Museus: Simbologia, Memória e Identidade A partir da segunda metade do século XX, mais especificamente a partir da década de 1970, a instituição museu vem se transformando no sentido de desenvolver uma relação mais estreita com a sociedade. Esse movimento fez com que o museu buscasse dialogar com diferentes públicos e ampliar a participação e representação social e cultural em seu espaço. O museu tem por princípio servir à sociedade (estatutos do ICOM) e, nesse sentido, é essencial que a dimensão educativa perpasse todas as suas áreas. Destaca-se aqui a concepção de educação no alcance de comprometimento com a transformação social. O caráter educativo do museu deve ser compreendido a partir de uma visão ampla, e não somente como ensino-aprendizagem, como é freqüentemente associado (Musas, nº 1, 2004). Ao realizar-se uma reflexão sobre o processo histórico de surgimento dos museus, do ponto de vista do desenvolvimento da ciência museológica e dos encontros organizados pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM), percebe-se que vêm se estabelecendo análises críticas e amplos debates sobre as funções e tudo o que compõe a estrutura organizacional do museu. Os debates do ICOM indicam que os museus vêm trabalhando sob conceitos que levam em consideração a interação com o contexto social e com o patrimônio cultural reconhecidos e eleitos pelas suas comunidades. Os museus, ao reconhecerem que, além das funções de preservar, conservar, expor e pesquisar, são fundamentalmente instituições a serviço da sociedade, que buscam por meio de ações educativas tornaram-se elementos vivos dentro da dinâmica cultural das cidades (Musas, nº 1, 2004). O grande desafio do museu está em conjugar educação e lazer (Musas, nº 1, 2004); pois eles são criados para atender às diversas demandas e particularidades de públicos específicos – pessoas de todas as idades, formações, habilidades, classes sociais e etnias – a partir das políticas de comunicação e educação do museu. 30 A educação é uma das funções do museu. Este se caracteriza por ser um espaço de educação não formal, que tem por objeto de trabalho o bem cultural. O objetivo da educação em museus, assim como da educação em um sentido amplo, é oferecer possibilidades para a comunicação, a informação, o aprendizado, a relação dialética e dialógica educando/educador, a construção da cidadania, e o entendimento do que seja identidade, que permita a formação de um sujeito histórico-social que analisa criticamente, recria e constrói a partir de um referencial que se situa no seu patrimônio cultural tangível e intangível como fonte primária de conhecimento e enriquecimento individual e coletivo. Atividades estas que consideram o museu espaço ideal de articulação do afetivo, do sensorial e do cognitivo, do abstrato e do conhecimento inteligível, bem como da produção do conhecimento (Musas, nº 1, 2004). Neste sentido, no acervo de um museu está presente a simbologia que preserva mais a “imagem” – através dos objetos – que o “retrato”. Isto é, o imaginário popular dos visitantes considera os objetos do acervo – matéria fruto da valorização também de imaginários anteriores – numa ambiência relacionada mais do que pela obra de arte, interessando-se pela “vida dos homens do passado de quem eles são a própria emanação” (Abreu, 2003). Trata-se da humanização do museu, portanto, os objetos ganham vida, cada vez que são vistos pelo olhar de um homem para quem a simbologia do objeto abrange o significado inovador da vida que pulsa na “alma” e na espiritualidade de todo ser humano. Como diria Sodré sobre o Museu Imperial: [...] o Brasileiro, ao penetrar os umbrais dessa casa, não vai satisfazer uma simples curiosidade de ver como era um palácio imperial, mas receber e guardar a indelével impressão educativa de se sentir contemplado por um passado que soube cumprir bem alto a sua missão no serviço da pátria (Sodré, 1950, p.36). Em 1992, realizou-se em Caracas, Venezuela, por iniciativa da UNESCO, o seminário “A missão do museu na América Latina hoje: novos desafios”, reunindo representantes de dez países latino-americanos para refletir sobre a missão do museu como um dos principais agentes do desenvolvimento integral na região. A essência da Declaração de Caracas, segundo Horta (1995), foi conceber “o museu como um ‘meio’ de comunicação - reconhecendo-se sua ‘linguagem’ própria - entre 31 os elementos desse triângulo - território-patrimônio-sociedade- servindo de instrumento de diálogo, de interação das diferentes forças sociais - sem ignorar nenhuma delas, inclusive as forças econômicas e políticas; um instrumento que possa ser útil, em sua especificidade e função, ao ‘homem indivíduo’ e ‘homem social’ para enfrentar os desafios que vêm do presente e do futuro”. Segundo Abreu (2003), o museu consegue engenhosamente entrelaçar a “história oficial” de uma época com a história de nossos avós, em que o tempo perde singularidade e a memória une passado e presente, despertando o “espírito” de um tempo, por meio de testemunhos vivos do passado. Ou seja, na tentativa de aproximar presente e passado, pela memória, é interessante observar, por exemplo, como pequenos costumes são preservados por diversas pessoas até os dias atuais. A memória cristaliza-se quando seu objeto já não existe mais. É sempre uma recriação deste objeto e, como tal, guarda continuidades e diferenças em relação ao passado vivenciado a que se reporta. Os “suportes da memória”, designação dada por Pierre Nora a tudo aquilo que ainda tem algum vínculo com rito e com o sagrado numa sociedade que dessacraliza, são objetos, ou mesmo sentimentos, os quais se procura dotar de uma espécie de imortalidade, mas que, paradoxalmente, só sobrevivem graças à mutação contínua de significados que vão adquirindo junto aos homens. O acervo museológico é sempre produto da atividade humana, da História, das relações de poder. Nesse mundo de espetáculo, cuja base é a imagem, é fundamental compreender, no entanto, que as linguagens inscritas nos museus têm leituras diferenciadas e não devem ser vistas como detentoras de uma lógica própria, nem submissas a um modelo funcional fixo. Elas são produto de uma relação contínua entre os homens em que a dominação caminha junto ao consentimento. A aceitação indiscriminada da sacralização de determinados objetos indica a incorporação, pela sociedade, de um conjunto de idéias e pensamentos. Essas representações ligam-se a sentimentos profundos e generalizados, que são disputados por diferentes grupos, os quais lutam para associar a eles idéias e crenças de conteúdos diversos (Abreu, 2003). 32 Nos museus, sobretudo os históricos, estão em pauta a preservação, o uso e a transmissão de uma determinada herança cultural, composta de fragmentos a que se atribui o papel de representação narrada sob determinada ótica. Essa herança, à medida que se articula com fatos, acontecimentos, processos e conjunturas políticas, é convertida em memória. Trata-se da “construção de um novo olhar lançado sobre o perfume das flores da memória” (Fischer, 1977) habitante do imaginário social composto de seres humanos artistas produtores privilegiados do processo memorial que reconstitui o acontecimento histórico com o seu próprio estilo, servindo-se para tanto, da memória. “Entre o público visitante e o acontecimento, há uma dupla mediação”. Ou seja, indica o papel do visitante artista e do museu como mediadores de emoções, pensamentos, intuições e sensações, entre o público e fatos, fenômenos e acontecimentos. A interpretação dos fatos e acontecimentos históricos, a partir de uma visita ao museu, significa a lembrança e o pronunciamento de um visível teor ideológico (Abreu, 2003). Na arena da memória, a intervenção dos juízos de valor é notável. O sujeito não se contenta em narrar como testemunha histórica neutra (Bosi, 2003). Ele quer também julgar, marcando bem o lado em que estava naquela altura da história, e reafirmando sua posição política. A memória política, ao ser invocada, não reconstitui o tempo passado, mas faz dele uma leitura, banhada nas experiências objetivas e subjetivas daquele que lembra. É como se a memória dos acontecimentos políticos suscitasse uma palavra presa à situação concreta do sujeito. Por mais natural que possa parecer, essa memória é construção que se atualiza no presente e projeta-se para o futuro. Para atualizar-se e projetar-se de um tempo em outro, a memória lança mão de diversas fontes. Estudando o processo de construção e perpetuação da memória política, social e histórica do Trabalhismo, por exemplo, João Trajano Sento-Sé (1999) observa que os meios de transmissão da memória não passam apenas pela oralidade, mas também por histórias, relatos e documentos. Essa memória, experiência social de difícil e delicada função, é a garantia profunda de domínio, preservação, transmissão e continuidade de significados de todas as coisas em toda sociedade. É como se ela fosse a musa da mitologia Grega com função “sagrada”. A evocação dessa aura de sacralidade da função da memória obedece a um princípio inarredável da reflexão de um 33 antropólogo. Trata-se da comparação entre as culturas, como mecanismo de revelação das propriedades de qualquer fenômeno humano. Todavia, Bittencourt (2004), afirma que a questão colocada – as funções sociais dos museus – diz respeito à contribuição do museu para o processo de construção do conhecimento em nossa realidade. Trata-se de os museus serem valorizados como mais um espaço de veiculação, produção e divulgação de conhecimentos, onde a convivência com o objeto – realidade natural e cultural – aponte para outros referenciais no desvendar do mundo. Este norte é a construção da memória através dos conhecimentos e referenciais adquiridos pela potencialidade educativa dos museus. Verifica-se o reconhecimento cada vez maior que vem sendo dado ao potencial educativo destas instituições nas duas últimas décadas, evidenciado pela quantidade de teses, artigos, experiências e simpósios sobre o tema. Nesta perspectiva, a memória é entendida como objeto de conhecimento e que, no caso de um museu histórico, uma de suas principais funções é a de contribuir para o entendimento de sua construção e de sua representação na identidade coletiva. O ponto crucial da memória ordena a vida simbólica da maior parte das culturas. A memória coletiva é a memória da sociedade, da totalidade significativa em que se inscrevem e transcorrem as micromemórias pessoais, elos de uma cadeia maior. É esse caráter da memória coletiva que reveste de sacralidade as rememorações míticas e as reencenações rituais freqüentemente associadas à identidade coletiva de uma classe de idade ou de fraternidade, por exemplo. A memória autonomiza a função reflexiva do pensamento permitindo a racionalização e a formalização do mesmo. Isto é, uma autonomização da consciência e crítica às condições de sua produção, uma disposição em distinguir e sopesar as implicações diferenciadas do sentido prático das normas sociais constituintes de uma ética que vem a ser ou confundir com algo existente no âmago do ser social - o homem e a identidade coletiva. As coletividades políticas passam a se constituir através do tesouro acumulado ao longo do tempo nas práticas de uma população, construindo uma identidade esmerilhada com curiosos acervos museológicos. Acervos originários dos arquivos, bibliotecas, gabinetes, coleções, museus, jardins botânicos, cidades, 34 monumentos e sítios preservados cada vez mais fazem parte da consciência humana possibilitando ao homem a crítica reflexiva da memória que organiza a identidade cultural de uma sociedade (Abreu, 2003). Contudo, os museus são espaços que vão ao encontro da necessidade das pessoas com relação à identidade cultural, ao enraizamento, ao autoconhecimento, ao conhecer-se diante da alteridade. Conscientizemo-nos, para além do entretenimento, da responsabilidade dos museus no sentido da valorização das identidades locais (Musas, nº 1, 2004). 35 6. RELEVÂNCIA DOS RESULTADOS ================================================================ 6.1 Museu de Artes e Ofícios 6.1.1 Histórico O Museu de Artes e Ofícios, inaugurado em 14 de dezembro de 2005, em Belo Horizonte, é o primeiro empreendimento museológico Brasileiro dedicado integralmente ao tema das artes e dos ofícios e do trabalho no país. Com 9.000 m² de área, o museu ocupa os prédios históricos da Estação Central, local onde funciona, ainda hoje, uma estação de metrô e um ramal ferroviário, no centro da capital do estado de Minas Gerais (www.mao.org.br). O museu é uma iniciativa do Instituto Cultural Flávio Gutierrez – ICFG - e foi desenvolvido a partir da doação ao patrimônio público de uma coleção de mais de 2.147 peças, dos séculos XVIII ao XX, pela empreendedora cultural Ângela Gutierrez. A coleção mostra a riqueza da produção popular na era pré-industrial: os fazeres, artes e ofícios que deram origem às profissões contemporâneas. Ao percorrê-la, com o suporte de recursos museográficos e de ações educativas, o visitante poderá ver um amplo painel da história e das relações sociais do trabalho no Brasil, nos últimos três séculos. O Instituto Cultural Flávio Gutierrez – ICFG - fundado e presidido por Ângela Gutierrez, tem por objetivo a preservação, difusão e valorização do patrimônio 36 cultural brasileiro. Criado em 1998, o ICFG é uma entidade do terceiro setor, sem fins lucrativos, que atua especialmente no desenvolvimento de projetos museológicos e museográficos, tais como o Museu do Oratório e o Museu de Artes e Ofícios. Além disso, o ICFG coordena projetos editoriais focados na área de patrimônio e desenvolve projetos educacionais e culturais. O nome do Instituto é uma homenagem ao empresário Flávio Gutierrez e revela o compromisso de Ângela Gutierrez com a continuidade do trabalho desenvolvido por seu pai como colecionador e incentivador das artes e da cultura brasileira. Sediado em Belo Horizonte, Minas Gerais - Estado que abriga o maior conjunto de bens tombados do patrimônio histórico brasileiro -, o Instituto tem a chancela da UNESCO e, pela seriedade do trabalho desenvolvido desde a sua criação, recebeu em 2003 o Prêmio Reina Sofia - concedido pelo governo espanhol a instituições e projetos que valorizam e preservam o patrimônio artístico e cultural na Península Ibérica e nos países americanos de origem latina. Em outubro de 2000, ao comemorar dois anos de existência, o Instituto Cultural Flávio Gutierrez anunciou a decisão de implantar o Museu de Artes e Ofícios, com o apoio do Ministério da Cultura e da CBTU - Companhia Brasileira de Trens Urbanos. O museu foi planejado para receber a coleção organizada, ao longo da vida, por Ângela Gutierrez - presidente do ICFG – coleção esta que assumiu a dimensão de um acervo bastante representativo da história do trabalho pré-industrial no país. O local escolhido foi a Estação Central, no centro de Belo Horizonte. As obras tiveram início em 2001 e já em 12 de dezembro do ano seguinte foi concluída a primeira etapa do projeto, envolvendo, a assinatura do Termo de Compromisso para a doação do acervo do Museu de Artes e Ofícios; a entrega da primeira etapa das obras do museu, com a restauração do prédio principal e a abertura da exposição "Trilhos da Memória", que apresentou aspectos históricos da Praça da Estação. Após mais três anos de trabalho foram concluídas as obras essenciais de implantação, envolvendo, adaptação das plataformas para abrigar galerias expositivas; restauração do prédio da Estação da Oeste de Minas; trabalhos de pesquisa e organização da exposição permanente e o desenvolvimento de um 37 programa permanente de conservação de acervo. O Museu de Artes e Ofícios foi aberto ao público no dia 10 de janeiro de 2006. A criação da Praça da Estação coincide com a fundação de Belo Horizonte no final do século XIX. Antes mesmo da inauguração da capital, a região nas proximidades da Estação já apresentava quarteirões em formação, com restaurantes e edificações novas atraindo ao local um movimento regular de transeuntes. A Estação Central era, desde os tempos inaugurais da nova capital, uma importante referência urbana. Constituía-se o pórtico da cidade, o lugar de recepção e despedida das pessoas que vinham conhecer as inovadoras obras arquitetônicas e urbanísticas que estavam sendo construídas no interior do país. Com a implantação do Museu de Artes e Ofícios, a Praça da Estação avança no sentido de sua complementação, contribuindo para o processo de revitalização de toda a região central da cidade, já consolidada como um pólo cultural. O projeto do arquiteto e museógrafo francês Pierre Catel estabeleceu a ocupação dos dois prédios da Estação Central, o aproveitamento das áreas externas próximas ao embarque e desembarque de passageiros. Também foi criado um jardim-museu, além de espaços para restaurante, área de eventos, loja e áreas de convivência. O túnel de ligação entre os prédios é um projeto do cenógrafo Paulo Pederneiras e será executado futuramente. No total, são 9.000 m2 de área ocupada. A estação de metrô continua atendendo diariamente cerca de 20 mil usuários, assim como a estação ferroviária continua operando normalmente. A proposta museológica realiza-se através de uma linguagem expositiva inovadora, que se utiliza da mediação de recursos tecnológicos e multimeios. A partir de um acervo de caráter histórico – tecnológico que abrange dos séculos XVIII a XX - o museu faz sua inserção na contemporaneidade e se projeta para o futuro, refletindo sobre as relações sociais do trabalho. 38 O museu funciona também como um centro difusor de conhecimento na área museológica, atuando na formação e na capacitação profissional, através de seminários articulados pelo ICFG. A proposta museológica se completa com projetos editoriais próprios e uma área de extensão cultural, além do programa educativo, com atendimento especial para estudantes e atividades para públicos específicos. O Museu de Artes e Ofícios é administrado pelo Instituto Cultural Flávio Gutierrez, entidade do terceiro setor, sem fins lucrativos, que atua especialmente no desenvolvimento de atividades museológicas e museográficas. A diretoria do ICFG responde, portanto, pela gestão institucional do MAO. A Direção Geral é de Ângela Gutierrez – ICFG; o Planejamento Estratégico e Gestão Executiva são de Duo Informação e Cultura; a Museologia é de AT & AT MUSEUM; a Concepção Arquitetônica e Museografia são de Panoptès Muséographie; a Arquitetura é de AFT Associados; as Obras Civis são de Total Engenharia; a Restauração e Documentação são de Grupo Oficina de Restauro; o Programa Educativo é de Helena Mourão Loureiro; a Gestão Financeira é de CTC- Contcultural; a Comunicação Interna é de Fátima Andrade Dias; a Comunicação e Assessoria de Imprensa é de Conceito Comunicação Estratégica; a Assessoria Jurídica é de Drummond & Neumayr Advocacia; a Identidade Visual é de New Comunicação; a Fotografia é de Miguel Aun; a Documentação Vídeográfica é de Emvideo e a Internet é de Mondoweb - Margaret Marinho (www.mao.org.br). 6.1.2 A Influência do Museu de Artes e Ofícios na Construção da Identidade Belorizontina Outrossim, o Museu de Artes e Ofícios possui a proposta de preservar a memória do Belo-horizontino em tempos que intelectuais, órgãos políticos e cidadãos em geral procuram traçar ou retraçar a noção de identidade cultural coletiva e a brasilidade. Desde a criação do museu, o nível de visitação é alto. Inegavelmente, é um dos museus mais aceitos pelos Belo-horizontinos como sendo uma de suas mais fortes referências culturais. Quem nunca foi ao museu mostra intenção de visitá-lo e quem já o visitou guarda boas lembranças. O que ele nos proporciona, que valores representa? 39 Mitos e memórias coletivas proporcionam uma coerência interna à nova entidade que está sendo forjada satisfazendo uma necessidade de sentido presente entre os que dela participam (Abreu, 2003). A forma pela qual os Belo-horizontinos têm se compreendido como tal apresenta continuidades e rupturas ao longo do tempo, onde a tradição orientada para o futuro dá forma à identidade dos membros de Belo Horizonte para que pensem em si mesmos como partes de uma cidade e de uma Nação. Os objetos do acervo museológico dispõem-se de maneira a constituir um discurso. Colecionados ao longo do tempo, esses objetos possuem a capacidade de produzir conhecimentos; a partir deles verifica-se o reconhecimento ao seu potencial educativo evidenciado pela identidade através da memória. A exposição do acervo do museu possui o potencial de transmitir mensagens aos visitantes podendo aumentar a capacidade de compreensão destes em relação aos significados de sua personalidade. A exposição geralmente apresenta objetos, textos, desenhos, figuras, fotografias, vídeos, obras de artes formando um discurso complexo, tanto quanto, familiar aos visitantes e, desta maneira, estabelecendo uma mediação entre a exposição e o público do museu, facilitando a recepção e compreensão das mensagens propostas pela exposição e possibilitando que o visitante construa suas significações. A história está dentro de nós, e não fora. Por isso o acervo museológico possui a capacidade de ampliar o significado do tempo e do espaço passados num tempo e espaço presentes no momento da visitação do indivíduo ao museu. Isto é, o museu relaciona presente e passado em tempos, lugares e cidadãos diferentes para além do que se pode ver, logo, alcança o ser em seu estado mais íntimo – o âmago da personalidade humana – construindo e reconstruindo a identidade coletiva como quem interpreta ou reinterpreta a pessoa humana em sua complexidade, não obstante, em sua completude. Neste sentido a memória, Le Goff (1996), está a serviço do homem visitante no museu. O potencial de despertar no ser a busca de sua memória está contido no museu e permeia o visitante em todos os momentos da visitação, inclusive naqueles indivíduos que não estão, num primeiro momento, dispostos à esta busca. 40 Entretanto, é como se o museu compreendesse o esquecimento como um dos crimes maiores contra a humanidade. Todavia, seu objetivo é alcançar a subjetividade, é apreender a vida em seu interior. O papel do museu, assim concebido, é história dionisíaca e não simplesmente intelectualista. Deste modo ele reúne elementos – “Matéria” e “Espírito” – a primeira vista, inconciliáveis através dos objetos-símbolos do acervo numa representação da personalidade humana e sua identidade coletiva. A partir do Museu de Artes e Ofícios percebe-se a matéria para além de sua propriedade natural, esta por sua vez, estende-se ao “espírito” como quem busca e encontra o domínio subjetivo, sobretudo, familiar. Esta é a dicotomia do museu moderno. Isto é, o museu como formação da identidade. O imaginário coletivo mistura-se à realidade e ganha expressão social, esta constrói ou reconstrói a representação da identidade coletiva. Usualmente, o museu influencia a formação de identidade coletiva ao fornecer, intrinsecamente, ao visitante um sentimento de pertencimento (Gonçalves, 1996) a uma história que lhe é familiar. Desta maneira desperta no indivíduo peculiaridades de uma fase vivida a tempos e ali reconstruída através do discurso mudo do museu, porém, profundo em representações que suscitam no visitante o processo de enraizamento. Neste momento a dimensão íntima do visitante é alcançada por meio da influência do acervo do museu. Por conseguinte, a intimidade com o acervo introduz o indivíduo no complexo mundo das significações. O visitante diante do acervo é, naturalmente, confrontado pela reflexão íntima: o paradoxal processo de enraizamento em detrimento do desenraizamento (Bosi, 1992). Isto é, as experiências sociais tendem a perder-se no tempo. À memória resta captá-las ao máximo, a fim de que a identidade cultural do ser humano seja preservada de geração em geração. Mas, na exclusividade de sua dependência surge o sentimento de perda (Gonçalves, 1996), afinal, ela não suporta apreender o mundo em toda a sua plenitude. Porém, as raízes culturais estão sempre preservadas por ela, ainda que, de forma inconsciente, o qual, em contato com o acervo do museu desperta-se para a construção da identidade. Nisto reside e eficácia do museu, isto é, a formação da identidade. 41 Neste sentido, o museu contém dois mundos: o que lhe é próprio e o que lhe é peculiar. A peculiaridade do museu é a capacidade de expandir a memória do visitante para além de suas limitações. O acervo do museu desperta no visitante a categoria mais íntima do ser, ou seja, o folclórico e exótico - a personalidade humana é um mundo pessoal complexo de lembranças, alegrias, tristezas, saudades, dúvidas, certezas, perturbações, tradições, diferenças - contido no ser humano, e que constitui sua identidade. Esta é representada pela ampliação dos sentidos através do contato do visitante com o acervo do museu. Num panorama mais amplo pode-se perceber no acervo do museu a capacidade que este possui de explicar, intrinsecamente, o contexto histórico de cada personalidade oferecendo-a a identidade. Portanto, o acervo do museu fala imediatamente à personalidade do visitante comunicando-lhe algo familiar através da peculiar sincronia estabelecida, neste momento, entre o visitante e o objeto, o qual, passa a ter um significado social, político e cultural. O visitante surpreendido pelo olhar do objeto – capaz de permeabilizar o olhar - torna-se leitor e interpretador do mesmo como quem dá a volta ao mundo, ao longo do tempo, através da complexidade dos objetos do acervo. Desta maneira, o museu possui o fenômeno de formar identidade, por meio da reapropriação do visitante pelo objeto do museu. A idéia do museu conquista o ser humano pela complexidade da história que faz girar as transformações e conquistas da personalidade. Esta dinâmica constitui a sublimação do museu na formação de identidade através do diálogo invisível entre o mundo do objeto e a problemática da pessoa humana em termos de enriquecimento pessoal pela reflexão na elasticidade da comunicação entre ambos. Todavia, a responsabilidade social do museu o expõe a um público geral, e não somente acadêmico. Neste sentido, a exposição dos objetos não é simplória, posto que, comunica-se com o complexo mundo da personalidade e diferenças humanas, contudo, não é confusa, visto que alcança o “espírito” do homem presente em todo ser humano. O sentido político e o desafio do museu moderno - capaz de transformar a mudez de seus objetos materiais em palavras íntimas que alteram, 42 transformam, multiplicam, instigam, definem, integram a personalidade ou o “espírito” humano - é a formação da identidade. 43 7. CONCLUSÕES ======================================================= Os museus são alvos estratégicos para promoção da cidadania, da educação, do conhecimento, do reconhecimento e, por conseguinte, do despertar da memória e construção de identidade coletiva. Portanto, é preciso abrir o coração ao visitá-los, usufruindo assim da experiência inigualável no reconhecimento de si através dos objetos que compõem seu acervo. Esses símbolos carregam consigo a magia de, silenciosamente, impactar o visitante de maneira tão especial despertando-lhe a memória, a familiaridade e a identidade. Neste sentido, o museu moderno é potencialmente dialético, ao reservar para si a capacidade de produzir prazer e conhecimento ao mesmo tempo. O prazer constróise através do acervo, este, matéria imbuída de representações familiares, que mais ou menos próximas, possuem o poder de despertar no visitante um fascínio indescritivelmente espetacular. Da subjetividade contida nos objetos surge o conhecimento e o reconhecimento intrínseco capazes de influenciar o visitante adicionando-lhe ao presente o passado, por vezes não experimentado, mas por ele sentido “espiritualmente” como se fosse um processo de envelhecimento e rejuvenescimento, concomitantemente, acelerado a fim de despertar a memória construindo a identidade. No Museu de Artes e Ofícios caracterizou-se o processo da formação de identidade coletiva através da memória capaz de identificar a simbologia contida nos objetos de um acervo. A influência do museu na formação de identidade ocorre através do imaginário coletivo que envolve cada indivíduo apreendendo-o por meio de um tempo e um espaço bem definido no museu. Deste modo, o museu transforma-se em objeto, paradoxalmente, rejuvenescedor capaz de proporcionar ao ser humano maior apreensão de seu acervo. Ao entrar em contato com a “alma humana” os objetos despertam-lhe a “espiritualidade” contida em sua base variando-se entre material e espiritual numa cinética subjetivamente íntima e familiar. Trata-se, então, do conhecimento maior, o qual insere o homem na 44 subjetividade. Esta, porém, não se trata de algo desligado do cotidiano, e sim intrínseco, íntimo o bastante para qualificar o homem de maneira surpreendentemente especial na forma do descobrir-se a si mesmo através das representações do museu para a construção de identidade. Todavia, o Museu de Artes e Ofícios encontra-se classificado como estrutura complementar – tal qual a escola que valoriza a experimentação, o interesse, a criatividade – da personalidade humana somada às sensações experimentadas na visita e ao privilégio vivenciado, estabelecendo importante proposta na formação da identidade. 45 8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ================================================================ ABREU, Regina; CHAGAS, Mário. (Org.). Memória e Patrimônio: ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. BITTENCOURT, Circe. In. (Org.). O Saber Histórico na Sala de Aula. 9 ed. São Paulo: Contexto, 2004. FISCHER, Ernst. KONDER, Leandro. (Trad.). A Necessidade da Arte. 6 ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977. FONSECA, Selva Guimarães. Didática e Prática de Ensino de História: Experiências, reflexões e aprendizados. São Paulo: Papirus, 2003. GONÇALVES, José Reginaldo Santos. A Retórica da Perda: os discursos do patrimônio cultural no Brasil. Rio de Janeiro: UFRJ; IPHAN, 1996. JORGE, Rui Chamone. Museu Didático de Imagens Livres. Belo Horizonte: Ges.to, l997. LE GOFF, Jacques. LEITÃO, Bernardo. (Trad.). [et. Al.]. História e Memória. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1996. PAULA, João Antônio de. Raízes da Modernidade em Minas Gerais. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. SANTOS, Fausto Henrique; FERNANDES, Neusa. Bibliografia Museológica. 2 ed. Rio de Janeiro: Nara Abud Tauile, l994. SEMINÁRIO Área Central: Um Olhar a partir do Patrimônio Cultural. Belo Horizonte: Casa do Baile e FMC/PBH, 2006. SODRÉ, A. de A. Museu Imperial. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional, 1950. STUDART, Denise Coelho. Educação em museus: produto ou processo? MUSAS -Revista Brasileira de Museus e Museologia, Rio de Janeiro, V.1, n.1, p.35-38, IPHAN, 2004. STUDART, Denise Coelho. Conceitos que transformam o museu, suas ações e relações. MUSAS -Revista Brasileira de Museus e Museologia, Rio de Janeiro, V.1, n.1, p.43, IPHAN, 2004. Disponível em < htpp: www.mao.org.br > acesso em 31 de Agosto de 2006. 46 9. BIBLIOGRAFIA ================================================================ ANDRADE, M. O Movimento Modernista. In: Aspectos da Literatura Brasileira. São Paulo: Martins, 1974. BAZIN, Germain. PERNES, Fernando. (Trad.). História da Arte. Lisboa: Livraria Bertrand, 1953. BOSI, Ecléa. Cultura e Desenraizamento. 2 ed. São Paulo: Ática, 1992. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. 14 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas: o imaginário da República no Brasil. 15 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. CARVALHO, José Murilo de. Teatro das Sombras. A Política Imperial. São Paulo: Vértice, 1988 FRENANDES, Edésio. RUGANI, Jurema Marteleto. (Org.). Cidade, memória e legislação: a preservação do patrimônio na perspectiva do direito urbanístico. Belo Horizonte: IAB-MG, 2002. FERNÁNDES, Luis Alonso. Museología y Museografía. Buenos Aires: Ediciones Del Serbal, 1999. GEERTZ, Clifford. RIBEIRO, Vera Ribeiro. (Trad.). Nova Luz sobre a Antropologia. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. LAMBERT, Rosemary. CABRAL, Álvaro. (Trad.). Janeiro: Zahar Editores, 1984. A Arte do Século XX. Rio de LÉVI-STRAUSS, C. O Pensamento Selvagem. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1973. MALINOWSKI, Bronislaw. Uma Teoria Científica da Cultura. 3 ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975. MELLO, Luiz Gonzaga de. Antropologia Cultural: Iniciação, Teoria e Temas. 4 ed. Petrópolis: Vozes, 1987. RAMOS, Arthur. Introdução à Antropologia Brasileira. 2 ed. Rio de Janeiro: Coleção de Estudos Brasileiros – CEB, 1947. 47 SCHIAVO, Cléia. ZETTEL, Jayme. (Org.). Memória, Cidade e Cultura. Rio de Janeiro: Eduerj, 1997. ZANINI, Walter. História Geral da Arte no Brasil. 2 ed. São Paulo: Instituto Walther Moreira Salles, 1983.