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RAC-Eletrônica, Curitiba, v. 2, n. 2, art. 6,
p. 253-272, Maio/Ago. 2008
Reestruturação Produtiva na Cidade Industrial de Contagem:
Serviços Modernos versus Serviços Tradicionais
Productive Restructuring in Contagem, Minas Gerais: Modern Services versus
Traditional Services
Flávia de Aguiar Lage *
Administradora e Mestre em Ciências Sociais pela PUC Minas, Belo Horizonte/MG, Brasil.
Antonio Carvalho Neto
Doutor em Administração pela UFMG.
Professor do Curso de Mestrado em Administração da PUC Minas/FDC, Belo Horizonte/MG, Brasil.
*Endereço: Flávia de Aguiar Lage
Rua João Antônio Azevedo, 320/302, Belo Horizonte/MG, 30320-610. E-mail: [email protected]
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Flávia de Aguiar Lage, Antonio Carvalho Neto
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RESUMO
Este trabalho situa-se no campo de estudo da sociologia econômica, e tem como objetivo examinar a
reestruturação produtiva da indústria de transformação de Contagem, cidade industrial na Região
Metropolitana de Belo Horizonte/MG, a partir dos anos 1990, e o crescimento do setor terciário local.
Procedeu-se a uma pesquisa quantitativa, com base nos dados secundários da Relação Anual de Informações
Sociais [RAIS]/ Ministério do Trabalho e Emprego [MTE] (1990 e 2003) e a uma pesquisa qualitativa, que
consistiu na realização de entrevistas com dirigentes de vinte grandes e médias empresas industriais da região.
Os resultados demonstram que foram implementadas importantes inovações em função das novas exigências do
mercado. A pesquisa confirmou nossa primeira hipótese de que o avanço do terciário moderno pode ser
explicado, em parte, pelas mudanças implementadas na indústria, embora o processo de terceirização tenha
beneficiado no Município, sobretudo, as atividades de baixa qualificação. De acordo com nossa segunda
hipótese, por outro lado, a análise dos dados quantitativos demonstrou intenso crescimento dos serviços
tradicionais. Ficou evidenciado ainda que o baixo nível de integração entre os atores sociais tem dificultado a
implementação de novas estratégias de desenvolvimento local.
Palavras-chave: reestruturação
desenvolvimento local.
produtiva
industrial;
terceirização;
setor
terciário;
regionalismo;
ABSTRACT
This work belongs in the field of economic sociology and aims to examine the productive restructuring of the
transformation industry in Contagem, a town located in the Metropolitan Area of Belo Horizonte in Minas
Gerais State in Brazil from the 1990s onward and the growth of the local tertiary sector. A qualitative study
was undertaken, consisting of interviews with executives from large and medium-sized industries in Contagem
as well as the analysis of secondary data taken from RAIS (Annual Report on Social Information/Labor
Brazilian Ministry), from 1990 to 2001. Results show that important innovations were implemented in the local
industry during the nineties as a result of new market requirements. The company confirmed our first
hypothesis that the advance of the modern tertiary industry can partly be explained by changes implemented in
the industry, although the town has benefited from outsourcing, especially low-qualification support activities.
According to our second hypothesis, on the other hand, the analysis of quantitative data showed intense growth
in the traditional services. It was also shown that the low level of integration between social actors has
hindered the implementation of new local development strategies.
Key words: productive restructuring in industry; contracting out; tertiary sector; regionalism; local
development.
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Reestruturação Produtiva na Cidade Industrial de Contagem: Serviços Modernos versus Serviços
Tradicionais
255
INTRODUÇÃO
A reestruturação produtiva, decorrente da crise do sistema fordista de regulação, que se deu
especialmente a partir do final dos anos de 1970, se caracterizou nas economias avançadas pela
expressiva reorganização da estrutura industrial vigente, através da substituição de plantas industriais
convencionais pelas de alta tecnologia. O processo de trabalho também sofreu profundas
transformações, com a introdução de modernas técnicas de gestão de pessoas, visando à adequação a
novos parâmetros de produtividade e flexibilidade. Nesse novo contexto, os serviços passaram a ocupar
lugar de destaque na coordenação e controle da produção, devido à crescente complementaridade entre
serviços e bens finais, o que acabou por provocar o rápido crescimento dos serviços produtivos ou
modernos, ou seja, aqueles integrados à indústria (Antunes, 2003; Nabuco, 1989a).
Por outro lado, as mudanças na economia mundial trouxeram novos rumos e possibilidades para a
economia local. Em face do esvaziamento da esfera federal na condução da economia, a cidade-região
vem adquirindo importância crescente na promoção de políticas de desenvolvimento e redefinição da
identidade local, fenômeno conhecido como “novo regionalismo”. As cidades passaram a ser o novo
locus de tomada de decisões e investimentos (Klink, 2001).
No Brasil, os impactos do novo paradigma começaram a ser sentidos com intensidade a partir dos
anos 1990, após as grandes reformas de ordem liberal, introduzidas pelo governo Collor. Desde então,
as empresas têm passado por intensos processos de reestruturação, tendo em vista a integração à
economia mundial.
O município de Contagem, localizado na região metropolitana de Belo Horizonte, RMBH, obteve
intenso crescimento com base na atividade industrial desde a década de 1950, chegando a ocupar o
primeiro lugar na produção industrial do Estado. Desde os anos de 1980, porém, a indústria vem
perdendo participação no Produto Interno Bruto, PIB municipal e no emprego total, enquanto o setor
terciário vem ampliando rapidamente sua contribuição, tanto em termos de valor agregado quanto em
número de pessoal ocupado (Prefeitura Municipal de Contagem/Secretaria de Cultura, 1999, 1999;
Fundação de Ensino de Contagem [FUNEC], 1994).
Este trabalho tem como objetivo, considerando-se o novo contexto mundial, examinar a relação entre
a reestruturação da indústria de transformação de Contagem, a partir dos anos de 1990, e o crescimento
do setor terciário da economia.
As hipóteses que nortearam a pesquisa aqui apresentada são duas. A primeira é que essa expansão
esteja relacionada, em parte, ao processo de reestruturação produtiva da indústria local, em função das
práticas de terceirização e de contratação de serviços de apoio, quando cresce a demanda por serviços
complementares à atividade produtiva, ou seja, serviços produtivos e distributivos. A segunda hipótese é
que o incremento do terciário poderia ser explicado pelo aumento da oferta de trabalho no município
que, não mais encontrando colocação na indústria local, passaria a refugiar-se nas atividades mais
tradicionais do terciário(1).
Para verificação das hipóteses, procedeu-se a uma pesquisa quantitativa, com base na Relação Anual
de Informações Sociais [RAIS] (anos de 1990 e 2003), do Ministério do Trabalho e Emprego [MET]; e
ainda a uma pesquisa qualitativa, que consistiu em levantamento realizado na indústria de Contagem.
Procura-se averiguar, portanto, a partir da pesquisa empírica, se o crescimento dos serviços em
Contagem aponta novas alternativas de desenvolvimento, ou se apenas reproduz formas de subemprego
e de trabalho precário, a exemplo do que vem sendo observado em outras regiões metropolitanas do
País.
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O NOVO REGIME
DE
ACUMULAÇÃO CAPITALISTA
256
E OS
IMPACTOS
NAS
CIDADES-
REGIÃO
O Novo Paradigma de Acumulação
A partir dos anos 1970, o sistema fordista de regulação, implementado no pós-guerra no mundo
ocidental, e caracterizado pelo crescimento econômico e pleno emprego, começou a mostrar sinais de
crise. A desaceleração da economia, devido à saturação do mercado de bens duráveis, aliada à queda de
produtividade nas empresas, provocou o esgotamento do padrão industrial vigente. Ao mesmo tempo, a
crise da economia americana vinha se agravando, em função do forte endividamento interno, do
primeiro choque nos preços do petróleo e do delicado quadro político-militar dos EUA no Vietnã. Esse
cenário adverso, além da intensificação da concorrência por parte de outros países, como Japão e
Alemanha, levou os EUA ao rompimento do acordo de Bretton Woods, causando instabilidade na
economia mundial. O novo contexto induziu o acirramento da competição internacional e a necessidade
de profunda reestruturação do modelo industrial vigente (Carvalho, 2001).
A produção em série e de massa dá lugar à flexibilização da produção e a novos parâmetros de
produtividade, visando à adequação à lógica do mercado. Esse novo modelo, conhecido como regime de
acumulação flexível, baseia-se no toyotismo japonês, e se fundamenta em padrão produtivo avançado,
com a introdução de novas técnicas de gestão de pessoal, como o trabalho em equipe e a terceirização e
de inovação tecnológica no processo produtivo e nos serviços (Antunes, 2003).
Para Harvey (2002), a flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados, dos produtos e dos
padrões de consumo, em confronto com a relativa rigidez do fordismo, determina o paradigma atual.
Surgem setores inteiramente novos, assim como conjuntos industriais baseados em novas formas de
organização e cooperação. O acesso à informação e ao conhecimento técnico e científico torna-se
instrumento essencial na nova lógica de acumulação. A estrutura do mercado de trabalho se altera: cai a
participação do emprego industrial e cresce o dinamismo do setor de serviços.
O capitalismo pós-industrial, conforme descrito por Lash e Urry, resulta no “declínio das indústrias
extrativo-manufatureiras e ascensão das indústrias de serviços e organizacionais”. A busca de
economias de escala por meio da produção em grandes fábricas dá lugar à redução da dimensão das
empresas, em face da dispersão geográfica global e do incremento da subcontratação. Assiste-se ao
declínio das cidades industriais e à desconcentração em direção às periferias dos centros urbanos (como
citado em Harvey, 2002, p. 166).
De acordo com Castells (1999), esse novo espaço industrial se caracteriza, por um lado, pela
separação do processo produtivo em diversas localidades e, por outro, pela reintegração de sua unidade
por meio das telecomunicações e da precisão da microeletrônica. A força de trabalho, por sua vez,
passa a se organizar em estrutura bipolar, compreendendo uma massa de trabalhadores não qualificados
de um lado, dedicados ao trabalho rotineiro, e um grupo altamente qualificado com base científica e
tecnológica, de outro.
Esse movimento, conhecido como a Terceira Revolução Industrial, provocou o avanço do ideário
liberal, induzindo ao abandono da ação pública na normatização das relações econômicas em geral.
Muitos Estados nacionais, em nome da globalização, passaram a incentivar a desregulamentação das
leis trabalhistas e a flexibilização dos contratos de trabalho, como formas de diminuir os custos de
produção (Carvalho, 2001; Mattoso, 1996).
A economia brasileira começou a sentir os impactos da reestruturação produtiva nos anos 1980,
impactos intensificados a partir do processo de abertura comercial implementado no governo Collor
(1990-1992). Em obediência aos parâmetros definidos pelo que viria a tornar-se conhecido como o
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Tradicionais
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Consenso de Washington, grandes reformas foram introduzidas, visando à estabilização de preços,
disciplina fiscal, desregulamentação financeira e liberalização comercial. Essas mudanças provocaram
uma virada na história econômica do país (Baumann, 2000).
Para Mattoso e Pochmann (1998), a década de 1990 veio interromper o longo período de
desenvolvimento industrial no País, com o rompimento das bases de sustentação da produção industrial
(o capital estatal, estrangeiro e nacional). Essa desestruturação produtiva da economia, por sua vez,
provocou um movimento de desassalariamento e regressão do emprego formal, aumento do desemprego
e das ocupações por conta própria.
No caso brasileiro, Coutinho e Ferraz (1994) alertam que a modernização empresarial tem sido
fortemente influenciada pelas mudanças no quadro macroeconômico a partir da década de 1980. Tendo
em vista o cenário de incertezas, as empresas implementaram uma série de estratégias defensivas de
reestruturação produtiva, dentre elas, cortes nos custos fixos e de pessoal, desativação das linhas de
produção e intensificação dos processos de desverticalização e de subcontratação.
O Crescimento do Setor Terciário
De outra parte, a reestruturação implicou na reversão do papel central do setor terciário na economia,
enquanto se observou o crescimento da importância dos serviços na coordenação da produção, tanto que
os serviços cresceram de uma participação de 40% para 70% do PIB mundial, entre 1950 e 1990, tendo
adquirido importância tanto como atividade principal quanto como atividade de apoio à indústria e à
agricultura (Melo, Rocha, Ferraz, Sabbato, & Dweck, 1997).
Kon (1998), por exemplo, relaciona as inovações tecnológicas nos processos organizacionais a uma
série de serviços no campo das telecomunicações, da informática e de consultoria especializada. O
objetivo desses serviços seria facilitar as transações econômicas, por meio de funções de apoio à
produção manufatureira, tanto na origem do processo produtivo quanto na distribuição (integração para
frente e para trás). Essa crescente associação entre produção e serviços torna fundamental o papel do
terciário no processo de desenvolvimento das economias.
Uma tipologia de classificação de serviços universalmente aceita foi proposta por Browning e
Singelman (1978), que divide as atividades do terciário em quatro grupos distintos, de acordo com a
orientação da demanda, conforme descrito abaixo.
1. Serviços Produtivos. São serviços demandados principalmente pelo setor industrial da economia.
O crescimento desse segmento está intimamente relacionado ao processo de terceirização, quando a
empresa resolve contratar externamente certas funções que antes eram realizadas dentro da própria
firma. São considerados serviços produtivos: intermediação financeira, seguros, previdência
complementar, atividades imobiliárias e todo tipo de serviços prestados às empresas, como
informática, pesquisa e desenvolvimento, atividades jurídicas e contábeis, assessoria empresarial,
arquitetura, engenharia, assessoramento técnico, publicidade, vigilância e outros.
2. Serviços Distributivos. Assim como os produtivos, os serviços distributivos são serviços
auxiliares da atividade produtiva, demandados após a produção. São considerados serviços
distributivos o comércio atacadista e as atividades de transporte, armazenagem e comunicações.
3. Serviços Sociais. Apresentam uma demanda coletiva e incluem os serviços sem fins lucrativos e
públicos, como de administração pública, educação, saúde e serviços sociais.
4. Serviços Pessoais. Não têm ligação direta com a dinâmica industrial, assim como os serviços
sociais, atendendo basicamente à demanda individual. São exemplos de serviços pessoais o
comércio varejista, as atividades recreativas, os serviços de reparação, alojamento, alimentação e
os serviços domésticos.
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É recorrente na literatura a separação entre serviços avançados e tradicionais, sendo os critérios mais
utilizados para essa diferenciação relacionados ao nível de escolaridade e rendimento médio do trabalho.
Segundo Nabuco (1989b), os “serviços avançados” (ou modernos), incluem-se na categoria de serviços
produtivos, sendo exemplos a consultoria jurídica e financeira, o desenho, a pesquisa e o
desenvolvimento.
O terciário moderno, portanto, emprega em geral mão-de-obra com alto nível de escolaridade. Já as
ocupações tradicionais se caracterizam pelo baixo nível de instrução e rendimentos próximos ao salário
mínimo, sendo encontradas principalmente nos segmentos de serviços distributivos e pessoais, mas
também nos demais subsetores do terciário.
Tendo em vista o objetivo desta pesquisa, que procurou estabelecer relações entre a reestruturação
industrial e o crescimento dos serviços em Contagem, a classificação segundo a orientação da demanda
é muito adequada e foi utilizada como parâmetro principal.
O Atual Protagonismo das CidadesCidades -região
Diversos autores vêm tratando a questão da reestruturação produtiva como determinante no processo
de redefinição das estratégias de desenvolvimento local.
Segundo Monié e Silva (2003), o processo de reestruturação do aparelho produtivo não pode ser
compreendido sem considerar-se as relações entre produção e território. Isto porque “o reordenamento
do trabalho entre grandes unidades fabris e empresas de menor porte configura um complexo de redes
que valorizam o âmbito territorial” (p. 9).
Para Veltz (2001), as cidades adquirem novo dinamismo, a partir da “congruência entre as forças que
remodelam a atividade econômica, as formas da concorrência, a evolução das maneiras de produzir, de
trocar, de consumir e a organização espacial metropolitana” (p. 145). Assim, o fundamento atual da
competitividade não é mais a produtividade clássica das operações isoladas, mas a qualidade da rede de
relações existente entre essas atividades e entre os atores sociais envolvidos.
O atual protagonismo da cidade-região vem sendo analisado segundo um conjunto de idéias,
conhecido como novo regionalismo. Longe de apresentar um quadro de referência consolidado, os
estudos se dividem em duas vertentes principais, a regionalista e a globalista (Klink, 2001).
Os defensores da via globalista enfatizam a importância da competitividade urbana, como forma de
atrair o capital produtivo-financeiro. Para Charles Tiebout (como citado em Klink, 2001), por exemplo,
que foi o primeiro a traçar um paralelo entre governo e empresa, as preferências do consumidor e do
cidadão se tornam o elo entre o global e o local, sendo que o capital se desloca de acordo com as
melhores condições, o que faz com que as cidades se tornem cada vez mais homogêneas.
Castells e Borja (1996), por exemplo, definem a sociedade global como um complexo de redes de
cidades e regiões conectadas pelos fluxos de informação. Nesse sentido, a cidade contemporânea deve
procurar inserir-se no mercado internacional por meio de ações como o incentivo à instalação de
atividades de alto valor agregado, parques tecnológicos e campanhas de city marketing. E é justamente
com base em centros administrativos avançados que as empresas são capazes de coordenar e
administrar suas atividades.
Já para a vertente regionalista, que se baseia nos estudos de Marshall(2) sobre os distritos industriais
realizados a partir do final do século XIX, o progresso das comunidades depende, sobretudo, das
próprias especificidades do local.
O autêntico distrito industrial, no sentido marshalliano, não é apenas um conjunto de firmas
localizadas numa mesma região geográfica. São grupos de empresas geralmente da mesma cadeia
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produtiva, que se reúnem em rede coletiva, dividindo esforços mediante a especialização e a
subcontratação. Constituem características dos distritos industriais: a difusão de idéias e inovações
técnicas, a colaboração entre firmas, o dinamismo empresarial e a existência de mão-de-obra treinada e
adaptável (Sengenberger & Pike, 1999).
Para Michael Storper (1994), um ambiente inovador, essencial para o desenvolvimento local,
pressupõe a participação conjunta de stakeholders locais no processo de tomada de decisões, como
sindicatos, governos locais e associações de empresas.
Esse tipo de organização territorial também é conhecido como arranjo produtivo local; em geral se
desenvolve em espaço (município ou parte de um município) que possui características semelhantes
(sociais, culturais, econômicas, políticas etc.).
O CASO DO MUNICÍPIO
INDUSTRIAL
DE
CONTAGEM:
O
AVANÇO
DOS
SERVIÇOS
NA
CIDADE
Criação e Trajetória do Parque Industrial
Se até o início do século XX Contagem se limitava a um pequeno arraial com perfil agro-pastoril, a
transferência da capital do Estado para Belo Horizonte determinaria novo destino para a cidade. Isto,
porque, em 1941, foi anunciado pelo então governador de Minas Gerais Benedito Valadares o projeto de
criação da “Cidade Industrial Coronel Juventino Dias”, como a principal estratégia para a recuperação
econômica do Estado, em crise desde a década de 1930. A idéia do governo era explorar a vocação
industrial de Minas, aproveitando os recursos minerais disponíveis, tendo em vista ainda as
oportunidades geradas pelo crescimento do mercado urbano de Belo Horizonte (Diniz, 1981).
Segundo Neves (1994), com a intensificação da implantação de indústrias na década de 1950,
começaria então a tornar-se realidade o sonho, por parte do governo e empresários mineiros, de um
parque industrial diversificado e economicamente significativo, tanto que, em 1960, a Cidade Industrial
de Contagem era já o maior núcleo industrial de Minas, reforçando a especialização mineira na
produção de bens intermediários para a indústria paulista, já que predominavam ramos tradicionais,
como os de minerais não-metálicos, metalurgia e química (Diniz, 1981).
A criação do Centro Industrial de Contagem [CINCO], em 1970, significou mudança do padrão
vigente, quando passaram a se instalar indústrias de bens de capital e bens de consumo duráveis. Desse
modo, o operário requisitado tornou-se mais qualificado, observando-se a criação de um quadro de
funcionários administrativos com altas remunerações, o que viria a ampliar os setores médios da
população, que crescia a taxas elevadas, bem superiores à média da RMBH e do País (Prefeitura
Municipal de Contagem/Secretaria de Cultura, 1999).
No final da década de 1970, Contagem chegou a superar o parque industrial de Belo Horizonte em
termos de produto, assumindo o primeiro lugar no Estado em valor da produção industrial. A partir dos
anos 1980, porém, diante da crise mundial e da emergência das indústrias de alta tecnologia, a Cidade
Industrial iniciou um processo de decadência e obsolescência e de perda de competitividade diante do
mercado internacional. No contexto metropolitano, tanto Belo Horizonte quanto Betim viriam a
ultrapassar a produção industrial de Contagem, ao atrair setores intensivos em tecnologia e geradores de
alto valor agregado (Prefeitura Municipal de Contagem/Secretaria de Cultura, 1999).
Por outro lado, durante as duas últimas décadas, a cidade vem atraindo grande número de
empreendimentos comerciais, além de experimentar uma expansão do setor de serviços, tanto
produtivos/distributivos quanto pessoais. Resta investigar até que ponto esse dinamismo está
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relacionado ao processo de reestruturação industrial, que desloca parte da produção/serviços para fora
da empresa; ou se o crescimento da ocupação nos serviços ocorre via expansão do terciário primitivo,
caracterizado pela precariedade das condições de trabalho.
A Dinâmica Recente da Economia Local
O município de Contagem é atualmente a terceira economia do Estado de Minas, perdendo as
primeiras posições para Belo Horizonte e Betim que, junto com Contagem, formam a microrregião de
BH.
Segundo dados do Censo 2000 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2004), a
população de Contagem é de 538.208 habitantes, sendo dividida em 49% de homens e 51% de
mulheres.
Tabela 1: Distribuição da População de Contagem segundo Faixa Etária e Anos de Estudo
Faixa etária
Nº pessoas Percentual
0 a 17 anos
178.930
18 a 24 anos
81.112
25 a 29 anos
49.512
30 a 39 anos
89.355
40 a 49 anos
67.445
50 a 59 anos
38.277
60 anos e mais 33.577
Total
538.208
Anos de Estudo
Nº pessoas (1) Percentual
33,2
15,1
9,2
16,6
12,5
7,1
6,2
Menos de 1 ano de estudo
1 a 3 anos de estudo
4 a 7 anos de estudo
8 a 10 anos de estudo
11 a 14 anos de estudo
15 anos ou mais de estudo
21.411
57.874
172.304
92.799
81.972
11.113
4,9
13,2
39,4
21,2
18,7
2,5
100
Total
437.473
100
Obs: (1) População com 10 anos ou mais de idade.
Fonte: elaboração própria a partir de dados do Censo 2000, IBGE.
Quanto ao perfil da população por faixa etária, como visualizado pela Tabela 1, os dados não diferem
muito da distribuição brasileira; em Contagem a concentração é maior que a do País na faixa de 15 a 64
anos de idade.
O nível de instrução da população é alto, se comparado à média brasileira. Por outro lado, a
proporção de pessoas de 10 anos ou mais, com mais de 11 anos de estudo é baixa, em comparação a
Belo Horizonte, mas superior ao verificado em Betim: 21% em Contagem, 34% em Belo Horizonte e
14% em Betim.
Em relação à distribuição do PIB por setores da atividade econômica, se em 1990 a indústria de
Contagem era responsável por pouco mais de 60% do PIB municipal, em 2002 o PIB de serviços
alcançou 52% do total, tornando-se a principal atividade em termos de valor agregado.
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Tabela 2: Distribuição do PIB por Setores da Atividade Econômica
Setor
Contagem
Contagem
RMBH
RMBH
1990
2002
1990
2002
Industrial
60,9
47,7
43,2
47,9
Serviços
39,0
52,3
56,3
51,7
Agropecuário
0,1
0,0
0,5
0,5
Total
100,0
100,0
100
100,0
Fonte: elaboração própria a partir de dados da Fundação João Pinheiro, Governo MG, 2004.
As mudanças observadas no mercado de trabalho formal, com base na RAIS, revelam que não se
pode falar em desindustrialização de Contagem, mas de estagnação, já que a perda do emprego na
indústria foi da ordem de 9%, de 1990 a 2003: de 37.078 para 33.721 vagas. Por outro lado, verificouse grande expansão no número de estabelecimentos do terciário e ainda no estoque de pessoal ocupado
no setor, que cresceu em torno de 117%: de 39.985 para 86.737 vagas. Tanto as atividades de serviço
como as de comércio contribuíram para o aumento da participação setorial, como se pode observar pela
Tabela 3.
Tabela 3: Nº de Estabelecimentos e Empregos por Setor de Atividade Econômica –
Contagem 1990 e 2003
1990
2003
Estab.
Empregos % Empregos
Atividade
Estab.
Empregos
% Empregos
Indústria
885
37.078
45,3
1.016
33.721
26,7
Comércio
1.783
14.364
17,5
4.538
32.161
25,5
Serviços
1.254
25.621
31,3
4.079
54.576
43,2
Const. civil
119
4.736
5,8
252
5.051
4,0
Agropecuária
23
118
0,1
64
752
0,6
Total
4.058
81.917
100,0
9.949
126.261
100,0
Fonte: elaboração própria, dados RAIS - MTE. (*) Taxa média geométrica de crescimento anual (% a.a)
Na indústria, a redução de postos de trabalho foi mais intensa nos setores mais tradicionais, como
Metalurgia, Indústria Mecânica e do Material Elétrico; por outro lado, observou-se o incremento em
outros segmentos, como Material de Transporte (veículos e auto-peças) e Alimentos. No período de
1990 a 2003, percebeu-se melhoria significativa na condição de escolaridade dos trabalhadores, o que
parece refletir as alterações na demanda de trabalho pós-reestruturação produtiva, quando a nova
organização fabril exige maiores níveis de qualificação. Assim como se observa no mercado de trabalho
nacional, a renda do trabalhador de Contagem não acompanhou a evolução no nível de escolaridade, no
mesmo período (Gonçalves, Fernandes, & Oliveira, 2004).
Quanto ao setor terciário, pela Tabela 4, é possível verificar que o emprego formal teve crescimento
em todos os segmentos, destacando-se os serviços de transporte, comércio varejista e atacadista,
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serviços de saúde e ensino, além de serviços técnico-profissionais. É interessante observar a
representatividade de pessoal ocupado nas atividades de comércio atacadista, armazenagem e
distribuição (33% do total de pessoal ocupado no terciário), provavelmente devido à posição estratégica
da cidade na RMBH.
Merece também atenção o aumento, tanto em termos absolutos quanto relativos, da ocupação nos
serviços sociais, o que parece ser uma resposta à intensificação da demanda por serviços de saúde e
educação, em função do forte crescimento populacional experimentado nas últimas décadas. Até a
década de 1980, esses serviços ficavam praticamente restritos à cidade de Belo Horizonte.
Como os dados da RAIS não incluem o setor informal (cerca de 45% dos ocupados na RMBH), é
bem provável que o incremento dos serviços pessoais, setor que apresenta maior índice de
informalidade, tenha ficado subestimado.
Por outro lado, a variação na distribuição dos trabalhadores, quanto ao nível de escolaridade nos
serviços, demonstra que houve um avanço expressivo de 1990 a 2003. No entanto, quando se compara
a média de escolaridade das pessoas que trabalham em Contagem com aquelas ocupadas no setor em
Belo Horizonte e Betim, nota-se nítida diferença, em especial quanto à proporção de pessoal com nível
superior, que é bem menor no município estudado. Essa comparação nos permite concluir que, apesar
da evidente expansão dos serviços relacionados ao setor produtivo, continua sendo representativo no
município o terciário menos avançado, ou com predomínio de funções entre baixa e média
complexidade. Isto confirma a posição central de Belo Horizonte na oferta de serviços avançados dentro
da zona metropolitana, apesar de perceber-se ligeiro processo de desconcentração do terciário na região.
Nessa dinâmica, outras cidades, como Nova Lima, têm-se beneficiado mais que Contagem na atração
de serviços modernos (Universidade Federal de Minas Gerais, 2004).
Tabela 4: Distribuição do Estoque de Pessoal por Subsetor de Serviços de Contagem e
Participação no Total de Ocupados
Subsetor
1990
% Total
2003
% Total
Var. anual
Transportes e Comunicações
Comércio Atacadista
7.586
5.835
19,0
14,6
15.634
13.127
18,0
15,1
Serviços Distributivos
13.421
33,6
28.761
33,2
Instituições de Crédito, Seguros e Capitalização
Administração e Técnico Profissional
1.322
5.296
3,3
13,2
1.201
13.183
1,4
15,2
Serviços Produtivos
6.618
16,6
14.384
16,6
Comércio Varejista
Alojamento, Alimentação e Outros Serv. Pessoais
8.529
5.649
21,3
14,1
19.034
5.358
21,9
6,2
Serviços Pessoais
14.178
35,5
24.392
28,1
Serviços Médicos, Odontológicos e Veterinários
1.280
3,2
4.644
5,4
Ensino
Administração Pública Direta e Autárquica
213
4.275
0,5
10,7
2.730
11.826
3,1
13,6
Serviços Sociais
5.768
14,4
19.200
22,1
9,69
Total
39.985
100,0
86.737
100,0
6,14
6,04
6,15
4,26
Fonte: elaboração própria, a partir dos dados da RAIS.
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Reestruturação Produtiva na Cidade Industrial de Contagem: Serviços Modernos versus Serviços
Tradicionais
263
A REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA
EMPRESAS DE CONTAGEM
AS
NUMA
CIDADE INDUSTRIAL: PESQUISANDO
Considerações Metodológicas
A pesquisa qualitativa consistiu na realização de entrevistas com diretores e executivos de vinte
indústrias do município (uma entrevista por empresa), tendo sido utilizado o questionário previamente
estruturado como técnica de coleta de dados. O objetivo central da pesquisa, realizada nos meses de
julho e agosto de 2004, foi verificar o nível de implementação de estratégias de inovação organizacional
e avaliar a integração da indústria com o espaço local, tendo em vista a direção das subcontratações de
serviços, além de outras variáveis.
A amostra de vinte empresas foi selecionada entre as oitenta maiores indústrias de Contagem, com
base na declaração do Valor Adicionado Fiscal [VAF] de 2003, tendo em vista os seguintes critérios:
1.
a representatividade da indústria local, por segmento da empresa, entre os sete setores mais
significativos, segundo a classificação do Código Nacional de Atividade Econômica [CNAE];
2.
a localização da indústria, incluindo empresas localizadas em diversas áreas industriais do
município, como a Cidade Industrial Cel. Juventino Dias, o CINCO, e o Distrito Industrial do
Jardim Riacho;
3.
o ano de instalação da empresa em Contagem, sendo selecionadas tanto empresas de tradição no
parque industrial, quanto algumas mais recentes no município.
O total do PIB das empresas selecionadas alcançou 38% do PIB industrial de Contagem; elas
empregavam em torno de 10.000 funcionários na data da pesquisa, o que representava 30% do total de
pessoal ocupado na indústria local. Apesar do caráter qualitativo da pesquisa, em função da
representatividade da amostra em termos de PIB e de pessoal ocupado, foi possível estabelecer
estimativas, tendo em vista os objetivos propostos. As características da amostra podem ser
visualizadas pela Tabela 5.
Tabela 5: Perfil das Empresas Entrevistadas (em Nº. de Empresas)
Porte da empresa
Condição
Controle do capital
Setor
Grande
Médio
Matriz
Filial
Nacional
Estrangeiro
Metalurgia
3
3
3
3
3
3
Material elétrico
0
3
2
1
2
1
Ind. Mecânica
2
1
2
1
1
2
Alimentos
2
1
1
2
2
1
Material de transporte
Minerais não
metálicos
1
2
2
1
2
1
1
0
1
0
1
0
Química
1
0
1
0
0
1
Total
10
10
12
8
11
9
Fonte: elaboração própria, pesquisa “Reestruturação Produtiva em Contagem”.
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264
Resultados da Pesquisa de Campo
A análise dos dados foi dividida em seis partes, conforme os propósitos da pesquisa: perfil dos
funcionários; importância dos fatores locacionais; localização dos fornecedores e clientes; estratégias de
reestruturação adotadas; o processo de terceirização.
Perfil dos Funcionários
Procurou-se avaliar o perfil dos funcionários, tendo em vista os seguintes aspectos: local de residência
e critérios de contratação.
No ano de 2003, a indústria de Contagem concentrava em torno de 27% do emprego formal da cidade,
absorvendo 33.721 trabalhadores, originários de vários pontos da RMBH.
Quando se compara o local de residência segundo o pessoal da produção/administração, a Figura 1
em seguida permite constatar que, enquanto os trabalhadores da produção residem em sua maioria no
município de Contagem (51%), grande parte dos funcionários administrativos reside em Belo Horizonte
(39%). É significativa ainda a parcela de empregados que residem em outros municípios da região
metropolitana, principalmente nas atividades diretamente ligadas à produção.
Figura 1: Local de Residência dos Empregados das Indústrias de Grande e Médio Porte de
Contagem
60
Percentual
50
40
30
20
10
0
Produção
Contagem
Belo Horizonte
Administração
Outros RMBH
Total
Outros estados
Fonte: elaboração própria, pesquisa “Reestruturação Produtiva em Contagem”.
Um dado curioso, revelado pela pesquisa, é que em 19 das 20 empresas pesquisadas, os diretores
moravam fora de Contagem; a maioria dos dirigentes reside em Belo Horizonte (69% do total).
Esses dados reforçam em parte o perfil de cidade operária, atribuído a Contagem no início da
industrialização, apesar de uma posterior diversificação das classes sociais. Essa diversificação, porém,
parece não atingir os estratos mais favorecidos da população metropolitana, que optam pela cidade
como local de trabalho, mas não de residência.
Com relação aos critérios de recrutamento, foram identificados dois critérios principais: o local de
moradia e a qualificação. Cerca de 65% das empresas afirmaram ter preferência quanto ao local de
moradia dos empregados, levando vantagem aqueles que residem próximo à empresa, devido ao custo
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Reestruturação Produtiva na Cidade Industrial de Contagem: Serviços Modernos versus Serviços
Tradicionais
265
de transporte. Dessas, 25% admitiram contratar apenas pessoal de Contagem, o que representa
incentivo à contratação de mão-de-obra local. O nível de qualificação também é critério importante para
contratação de pessoal, já que em 90% das empresas é exigido pelo menos o fundamental completo;
algumas requerem o ensino médio, mesmo para o pessoal da produção. Segundo o presidente de uma
indústria de auto-peças, “é notável a diferença de desempenho entre um empregado com ensino médio e
outro apenas com o fundamental, mesmo no chão de fábrica”. Para ele, quanto mais instruído, mais
autonomia e entusiasmo o funcionário demonstra na realização das suas atividades. Nesse sentido, 70%
das empresas dão cursos de complementação escolar, do nível médio à pós-graduação, e muitas mantêm
convênios com cursos profissionais e supletivos.
Os Fatores Locacionais
Quanto aos fatores locacionais, a pesquisa buscou identificar as vantagens e desvantagens decorrentes
da localização da empresa em Contagem.
A partir das entrevistas, concluiu-se que as estratégias de localização dos estabelecimentos industriais
em Contagem diferem basicamente segundo a época de instalação das empresas. Para aquelas que se
instalaram nas primeiras décadas de ocupação do parque industrial, entre os anos 1940 e 1970,
prevaleciam os fatores clássicos de localização: incentivos fiscais, baixo custo de mão-de-obra,
facilidade de financiamentos e proximidade de insumos, haja vista que predominavam os ramos de
metalurgia e cimento. Nesse período, a presença do Estado foi fundamental, tanto na implementação da
Cidade Industrial Cel. Juventino Dias, quando a iniciativa e os incentivos partiram do governo estadual,
quanto na criação do CINCO, idealizado pela Prefeitura Municipal na década de 1970.
Na atualidade, as principais vantagens destacadas pelos gestores foram fatores relacionados
principalmente às economias externas, tendo sido selecionados em ordem de importância: a infraestrutura urbana, a qualidade de vida e a localização de clientes. Um dos entrevistados ressaltou a
localização privilegiada de Contagem, que “se situa no meio do entroncamento das malhas rodoviária e
ferroviária da região sudeste”, o que possibilita a integração com os mercados e com os principais
portos do País, tanto que, nas últimas décadas, Contagem se vem destacando dentro da RMBH, na
oferta de serviços de transportes e de armazenamento de cargas.
O custo de mão-de-obra na indústria, que já foi relativamente baixo em Contagem, hoje não faz mais
diferença em relação a Belo Horizonte ou a cidades próximas, em função, segundo alguns executivos
entrevistados, da unificação dos sindicatos dos metalúrgicos, que se fortaleceram na região.
Quanto aos fatores negativos, a falta de incentivos fiscais, em especial por parte do governo estadual,
foi a principal desvantagem apontada, citada praticamente em 90% das empresas. “Outros Estados,
como o Espírito Santo e a Bahia, oferecem muito mais atrativos que Minas”, ressaltou um dos gestores.
Na fala do superintendente de uma indústria mecânica, percebe-se a insatisfação, também com relação
ao município: “Caso não tivéssemos estrutura própria aqui em Contagem, certamente já teríamos ido
para outro município, com mais atrativos fiscais, aqui em Minas mesmo”. Com relação à localização de
fornecedores, a segunda variável mais citada, a proximidade de insumos é muito positiva para a
Indústria Metalúrgica, mas desfavorável para os segmentos mais avançados da Indústria Química, de
Material-Elétrico e de Alimentos. Outro aspecto levantado foi a escassez de centros tecnológicos de
apoio no município. No que diz respeito à integração com instituições de ensino e pesquisa, alguns
executivos apontaram com pesar a existência de certo distanciamento entre a universidade e o setor
empresarial. “É uma pena, pois isso resulta em perdas para ambos os lados”, ressaltou um deles.
Localização de Fornecedores e Clientes
Se a proximidade dos insumos e do mercado consumidor era um dos principais fatores de atração na
época da implementação da Cidade Industrial, atualmente a maior parte dos fornecedores está
localizada fora do Estado, como se pode observar pela Tabela 6.
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Tabela 6: Localização dos Fornecedores de Insumos das Indústrias de Grande e Médio Porte de
Contagem, dentre Setores Selecionados (em % do Valor Total Adquirido)
Setor industrial
Contagem
BH
Outros
MG
Outros
Estados
Exterior
Total
Metalurgia
4,0
1,4
69,9
20,9
3,7
100
Material Elétrico
19,2
17,0
6,6
46,4
10,3
100
Mecânica
0,3
12,6
1,4
39,3
46,4
100
Alimentos
6,9
25,8
0,0
67,3
0,0
100
Material de Transporte
6,3
0,0
93,7
0,0
0,0
100
Fonte: elaboração própria. Pesquisa “Reestruturação Produtiva em Contagem”.
A Indústria Metalúrgica e de Material de Transporte têm seus fornecedores concentrados em Minas
Gerais, já que dentre seus principais insumos estão o aço e o alumínio. Já as empresas de alimentos
pesquisadas compram a maior parte da sua matéria-prima, como trigo e carne bovina, na região sul. O
segmento de Material Elétrico e a Indústria Mecânica adquirem grande parte da sua matéria-prima em
outros Estados, em especial na região sudeste e no exterior, pois são usuários de setores de avançada
tecnologia, principalmente após as mudanças de ordem tecnológica que atingiram esses setores, com o
advento da microeletrônica.
Quanto à localização dos clientes (Tabela 7), com exceção da indústria de Alimentos, que está voltada
para o mercado mineiro, é possível verificar a forte ligação com outros Estados, principalmente na
região sudeste. Essa constatação confirma a tese de Diniz (1981), segundo a qual a indústria de
Contagem se especializou, desde o início, na produção de bens intermediários para a indústria paulista.
Como se pode perceber, entre os segmentos pesquisados, somente dois (metalurgia e material de
transporte), apresentam características de arranjo produtivo local que, por sua vez, ultrapassa os
limites da própria área metropolitana de Belo Horizonte, distribuindo-se pela região mineira, conhecida
como Quadrilátero Ferrífero.
Por outro lado, alguns gestores apontaram a fragilidade dos vínculos de cooperação entre as firmas da
região. Mais de 70% das empresas pesquisadas são associadas ao Centro Industrial e Empresarial de
Minas Gerais [CIEMG], órgão de representação estadual, mas poucas têm vínculos mais estreitos com
associações empresariais locais.
Tabela 7: Localização dos Clientes das Indústrias de Grande e Médio Porte de Contagem, dentre
Setores Selecionados (em % do Faturamento)
Setor industrial
Contagem
BH
Outros
Estados
69,4
Exterior
Total
4,5
Outros
MG
11,3
Metalurgia
3,8
11,0
100
Material elétrico
0,7
15,1
11,2
49,8
23,2
100
Ind. Mecânica
3,9
5,8
1,5
87,0
1,8
100
Alimentos
4,9
15,2
60,8
19,0
0,0
100
Material de transporte
4,6
2,4
9,6
83,3
0,1
100
Fonte: elaboração própria, pesquisa “Reestruturação Produtiva em Contagem”.
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Reestruturação Produtiva na Cidade Industrial de Contagem: Serviços Modernos versus Serviços
Tradicionais
267
Estratégias de Reestruturação Produtiva
De acordo com os dirigentes da indústria de Contagem, foram adotadas diversas estratégias de
reestruturação produtiva, a partir dos anos 1990, como demonstra a Tabela 8.
Tabela 8: Estratégias de Reestruturação Produtiva Adotadas nas Indústrias de Grande e Médio
Porte de Contagem, na Década de 1990 (em Número e Percentual de Empresas em que Foram
Implementadas)
Estratégia
Nº empresas
% empresas
Técnicas de Qualidade Total
20
100
Treinamento de pessoal
17
85
Ampliação da Automação
16
80
Investimentos em P&D
13
65
Terceirização
13
65
Grupos de melhoria
12
60
Redução de níveis hierárquicos
11
55
Técnicas de Just in time
10
50
Técnicas de mini-fábricas
4
20
Fonte: elaboração própria, pesquisa “Reestruturação Produtiva em Contagem”.
Todas as empresas adotaram técnicas de Qualidade Total no processo produtivo, sendo que 80%
delas expandiram o grau de automação, e a grande maioria investiu em treinamento de pessoal, o que
certamente pode explicar em parte a elevação no nível de qualificação dos operários.
Como aponta a pesquisa, os investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento ficaram praticamente
restritos às grandes empresas. No caso das filiais, que consistem em unidades de produção, as
atividades de P&D concentram-se sobretudo nas sedes, em geral situadas em centros mais avançados ou
no exterior. Quanto às inovações tecnológicas, 85% das empresas possuem certificados de qualificação
dos tipos ISO 9001 e ISO-9000:2000; sendo 10% possuidoras do certificado de qualificação de sistema
ambiental, ISO 14001.
Técnicas mais modernas, como just in time, grupos de melhoria e minifábricas, tiveram uma
utilização variada entre os setores e mesmo intra-setorialmente. O just in time, método que visa reduzir
o tempo de espera entre as operações e diminuir os níveis de estoque, foi encontrado em todos os
setores, mas é mais freqüente na Indústria de Material de Transporte, um dos setores mais afetados pela
reestruturação.
Os grupos de melhoria, que visam a avanços contínuos no processo de produção, foram
implementados em 60% das empresas, especificamente nos setores de Alimentos, Material de
Transporte, Indústria Mecânica e de Material Elétrico.
Conforme as respostas, as atividades da própria indústria também sofreram diversificação, 70% delas
tendo ampliado a contratação de serviços de controle e coordenação da produção. Por outro lado, 50%
delas passaram a exercer atividades de prestação de serviços vinculados à produção, dentro das
instalações dos clientes, como montagem e manutenção.
Os dados indicam que a reestruturação foi praticada, sobretudo, tendo em vista os novos padrões de
produtividade e de competitividade em nível global. Em alguns casos, todavia, as mudanças vieram em
decorrência de processos de aquisições, fusões, ou joint ventures, ocorridas no início da década de
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268
1990. É o que se pode perceber pelas palavras do diretor de Recursos Humanos de uma grande
indústria de alimentos, recém-adquirida por um grupo estrangeiro: “A empresa era familiar, com estilo
de direção paternalista; portanto tivemos de fazer intensas reformas. Diante disso, não tivemos outra
solução senão demitir grande parte do pessoal, sobretudo em função da baixa qualificação”. Em alguns
setores, como metalurgia e minerais-não-metálicos, houve redução no número de pessoal em um
primeiro momento, mas a tendência mais adiante foi voltar a contratar, embora em ritmo mais lento.
O Processo de Terceirização
Uma das perspectivas que se vislumbram, a partir da terceirização, é a possibilidade de dinamização
de outros setores não básicos, ou seja, da economia doméstica e dos setores intermediários. A fim de
identificar as possibilidades do efeito multiplicador das subcontratações no território de Contagem,
procurou-se investigar a intensidade e a direção do processo de terceirização da indústria no período de
1990-2003.
A estratégia de terceirizar foi encontrada em grande parte das empresas, mas a intensidade desse
processo variou muito entre os setores pesquisados, como revela a Tabela 9.
Tabela 9: Setores que foram Terceirizados pelas Indústrias de Grande e Médio Porte de
Contagem de 1990 a 2003
Setor
Nº empresas
% empresas
Desenvolvimento de novos produtos
2
10
Projetos de engenharia
2
10
Manufatura
3
15
Apoio administrativo
3
15
Organização logística
5
25
Informática
8
40
Manutenção de máquinas
9
45
Portaria ou vigilância
15
75
Limpeza
15
75
Restaurante
18
90
Fonte: elaboração própria, pesquisa “Reestruturação Produtiva em Contagem”.
Conforme a pesquisa, os setores mais terceirizados em Contagem foram aqueles de apoio de menor
qualificação, como vigilância, limpeza e restaurante (de 75 a 90% das firmas consultadas). Em seguida,
aparecem os serviços de manutenção de equipamentos e peças, terceirizados em 45% das empresas e de
informática, em 40%. Quanto aos serviços de apoio administrativo, como consultoria e assessoria
jurídica, o nível de terceirizações foi baixo, porque essas funções já eram contratadas fora da empresa,
na maioria dos casos. As atividades diretamente ligadas à produção, como desenvolvimento de novos
produtos, elaboração de projetos de engenharia e fabricação de peças, apresentaram baixos níveis de
terceirização.
Como principais vantagens da subcontratação foi apontado, em primeiro lugar, o foco na atividadefim; em segundo lugar, a redução de custos e, por último, a melhoria da qualidade.
Alguns gestores, porém, confidenciaram que algumas terceirizações não foram bem sucedidas: “Após
terceirizarmos as funções de contabilidade e informática, notamos falta de comprometimento por parte
do pessoal, o que nos levou a retornar com esses setores para dentro da empresa”, revelou uma gerente
de Recursos Humanos.
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Reestruturação Produtiva na Cidade Industrial de Contagem: Serviços Modernos versus Serviços
Tradicionais
269
Com relação à localização das contratações de serviços (Tabela 10), é interessante constatar a
diferença no padrão de localização em decorrência da atividade contratada. Serviços avançados, como
informática e consultoria, estão sendo contratados principalmente fora do município, sobretudo em Belo
Horizonte e no Estado de São Paulo.
Tabela 10: Localização dos Subcontratados das Indústrias de Grande e Médio Porte de Contagem
(em Percentual dos Valores Contratados)
Contagem
BH
Outros
RMBH
Outros
MG
Outros
Estados
Total
Informática
Assessoria/Consultoria
Reparação/Manutenção
Transporte
18,7
1,6
40,9
78,0
28,5
42,4
26,2
9,2
17,6
0,9
26,4
11,7
0,0
19,1
2,0
0,0
35,2
36,0
4,5
1,1
100,0
100,0
100,0
100,0
Vigilância
Conservação e limpeza
Restaurante
Manufatura
11,4
41,2
57,0
84,0
78,8
43,8
33,0
0,0
9,8
15,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
10,0
16,0
100,0
100,0
100,0
100,0
Fonte: elaboração própria, pesquisa “Reestruturação Produtiva em Contagem”.
A maior participação de Contagem se dá nos serviços de transporte, reparação e restaurante, que são
atividades que tendem a empregar mão-de-obra com menores níveis de escolaridade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conforme a literatura aponta, a reestruturação produtiva nos países centrais caracterizou-se, entre
outros aspectos, pelo surgimento de novo modelo de organização do trabalho, baseado na flexibilidade e
no acesso ao conhecimento tecnológico. Na nova lógica de acumulação, os serviços avançados têm
assumido papel primordial na coordenação e controle da produção.
No caso de Contagem, a partir dos anos 1990, as empresas de grande e médio porte implementaram
importantes mudanças no sistema produtivo, como a utilização de modernas técnicas gerenciais, em
função das novas exigências do mercado, mais competitivo e internacionalizado. Por outro lado, as
inovações não foram suficientes para alterar, de forma significativa, a distribuição do sistema produtivo
no território. Provavelmente em função dos ramos industriais predominantes, que requerem processos
mais próximos ao modelo mecânico(3), as grandes empresas continuam concentrando a produção
industrial. A prática de terceirizar foi observada, sobretudo, em relação aos serviços auxiliares da
produção; para Contagem se direcionaram as subcontratações de atividades tradicionais, absorvedores
de mão-de-obra de baixa escolaridade.
A análise dos dados secundários reforça as conclusões da pesquisa qualitativa, ao ficar demonstrado
que grande parte da expansão do terciário produtivo/distributivo está relacionada ao aumento das
terceirizações e da contratação de serviços de apoio à produção. Por outro lado, o perfil da ocupação no
terciário local vem reforçar a segunda hipótese apontada pelo estudo, ou seja, que o crescimento dos
serviços está intimamente relacionado ao aumento da oferta de trabalho, em função do excedente
estrutural de mão-de-obra pós-reestruturação.
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270
Com relação aos novos parâmetros de desenvolvimento local, percebe-se, por parte das indústrias de
Contagem, importantes iniciativas de inserção no sistema econômico mundial de fluxos de bens e
serviços. Nesse movimento, porém, tem predominado a visão globalista do “novo regionalismo”, já que
grande óbice à ação mais proativa das empresas reside nos baixos níveis de integração com os outros
atores sociais. Essa articulação fica dificultada, em primeiro lugar, pelo fato de que os principais
stakeholders das grandes e médias empresas que operam em Contagem estão localizados fora do
município; em segundo lugar, pelos frágeis vínculos dos dirigentes e de grande parte do pessoal
administrativo com a comunidade, em função de que eles residem preferentemente em Belo Horizonte.
Estudos recentes sobre a economia de Contagem têm corroborado esta realidade, ao constatarem a
inexistência de políticas públicas específicas de desenvolvimento local e a ausência de relações em rede,
ou em forma de cadeias produtivas, entre os diversos agentes econômicos (Bernardes, Cardoso, &
Werneck, 2004).
Acreditamos que a construção de um novo modelo de desenvolvimento, inspirado tanto na visão
marshalliana dos distritos industriais quanto nas recentes teorias baseadas nos arranjos produtivos
locais, é condição essencial para a criação de um ambiente inovador e cooperativo na cidade. A partir
da atuação reguladora do poder público, algumas alternativas seriam interessantes nesse sentido, como
as seguintes: o fortalecimento das associações empresariais e comunitárias locais; a aproximação entre
empresa e universidade; a instalação de parques tecnológicos e centros de pesquisa; o estabelecimento
de políticas específicas de incentivo para o setor terciário; a capacitação tecnológica e gerencial de
micro e pequenas empresas.
É necessário sobretudo explorar a vocação industrial de Contagem em benefício da cidade, de forma a
vincular o contínuo processo de modernização, verificado na indústria local, com o espaço econômico e
social ao seu redor.
Artigo recebido em 05.10.2005. Aprovado em 23.04.2006.
NOTAS
¹ De acordo com a “escola cepalina”, nos países de industrialização tardia, como o Brasil, o inchaço do terciário é atribuído
principalmente à absorção de mão-de-obra desqualificada, excluída do mercado de trabalho formal.
² Marshall, A. (1920). Principles of economics (8th ed.). London: Macmillan. (Obra original publicada em 1890),
introduziu o conceito de “distrito industrial”.
³ Conforme definição de Burns, T., & Stalker, G. M. (1961). The management of innovation. Londres: Tavistock Public, a
organização mecanística é aquela que opera em condições ambientais mais estáveis, e se caracteriza pela produção em série
ou mecanizada.
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