Rádio pública e política: depoimentos sobre a Rádio Difusora de Alagoas 1 Anderson David Gomes dos Santos 2 Naara Lima Normande 3 Resumo A partir da iniciativa de compreender a complexa relação entre comunicação pública e política, Alagoas apresenta-se como um ambiente ideal para tal estudo, devido ao seu histórico de coronelismo político transposto para os meios de comunicação. Pioneira no Estado, a Rádio Difusora de Alagoas (AM 960khz) sempre foi de propriedade “pública” e traz em seus 61 anos fatos políticos marcantes, com personagens importantes para a formação da sociedade local. Este artigo tem como objetivo resgatar parte da história da emissora - desde a sua criação, para difundir os resultados do jogo-do-bicho, até os dias atuais -, através dos depoimentos de radialistas, jornalistas e artistas que fizeram a história do rádio alagoano, de forma a questionar, acima de tudo, o papel social de uma rádio pública. Palavras-chave: rádio pública; política; história; depoimentos; Alagoas. Introdução Da “inauguração” do serviço radiofônico no Brasil, em 7 de setembro de 1922, através de um discurso do presidente Epitácio Pessoa no Rio de Janeiro, transmitido por alto-falantes, à criação da primeira emissora de rádio em Alagoas passaram-se 26 anos. Tempo suficiente para que tal serviço - com transmissões rotineiras desde 1923, quando Roquette Pinto, 1 Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho História da Mídia Sonora, do VII Encontro Nacional de História da Mídia. 2 Graduando em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, da Univ. Federal de Alagoas (Ufal). Integrante dos grupos de pesquisa Comunicação Multimídia (COMULTI – Ufal) e Grupo de Pesquisa sobre Ética e Ensino de Filosofia (Ufal). E-mail: [email protected] 3 Graduanda em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, da Univ. Federal de Alagoas (Ufal). E-mail: [email protected] Henrique Morze e Elba Dias colocaram no ar a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro - se espalhasse pelo Brasil. A Rádio Difusora de Alagoas é uma instituição que tem na participação do Estado um protagonista natural em sua história. Como todos os meios de comunicação, o questionamento sobre o serviço que é prestado à população se faz presente no embate das forças econômicas e políticas, principalmente num Estado em que o capital e os espaços políticos são controlados por uma pequena burguesia construída sobre os pilares do “coronelismo” e da exploração. Intitulada como uma rádio pública – ou diríamos oficial? -, portanto baseada na prestação de um serviço público e dependente do financiamento e administração de um poder que se renova a cada quatro anos, tem em sua trajetória uma confusa relação sobre os interesses de quem a dirige e do que realmente é interesse público. Diante dessa situação, a definição do conceito de interesse público das comunicações se torna imprescindível. A teoria remota ao modelo comunicacional britânico, a partir da Federal Radio Comission, instituição responsável pela emissão das licenças de radiodifusão na Inglaterra. A missão da agência era garantir a igualdade no serviço de radiodifusão, tanto na transmissão quanto na recepção, baseando-se nos conceitos de interesse, conveniência ou necessidade pública. Dessa forma, a lógica desse modelo atribui grande responsabilidade ao Estado, aproximando seu sistema de comunicação ao serviço público (SANTOS & SILVEIRA, 2007). A denominação de determinada atividade como serviço público remete ao plano da escolha política, que pode estar fixada na Constituição do país, na lei, na jurisprudência e nos costumes vigentes em um dado momento. Dessa maneira, não existe um serviço público por natureza (GROTTI apud Santos & Silveira, 2007). Segundo Gallego (2003), o jornalismo não é apenas um serviço público, mas um negócio legítimo como tantos outros, em que ao consumidor é oferecida informação sobre determinados âmbitos da atualidade, criando uma audiência que, por sua vez, é vendida aos anunciantes. No caso dos meios de comunicação públicos, cuja principal receita provém dos Governos, o interesse por essa área surge como uma forma de obtenção de apoio político que, na maioria dos casos, resulta num conteúdo parcial a fim de ser refletido em avaliações governamentais ou até mesmo nas eleições. Numa sociedade como a de Alagoas, em que os proprietários dos meios de comunicação também se propõem a “representar” o povo politicamente, uma TV, um rádio, um site de notícias ou um jornal servem para divulgar suas ideias. A Rádio Difusora, enquanto rádio pública, muda de “mãos” a cada quatro (ou oito) anos e reflete (e sofre com) as diferentes maneiras de cada nova apropriação deste Serviço Público. Como veremos a seguir, desde o seu início. O fim da “zona de silêncio” A Rádio Difusora de Alagoas foi a primeira no Estado a ter uma estrutura técnica e artística organizada e autorizada a funcionar, porém, antes de sua criação, houve tentativas de outras estações locais. Cláudio Alencar (1991) cita as seguintes: Rádio Clube de Alagoas (1925), Estação Experimental (1933), Centro Regional de Anúncios Falados – C.R.A.F. (1935-1937) e Rádio Esforço de Guerra (do Exército, que funcionou durante a Segunda Guerra Mundial). [...] dizia Mário Marroquim [um dos fundadores da Rádio Clube de Alagoas e primeiro Diretor Geral da Rádio Difusora] que, na época, ‘ninguém em Alagoas acreditava em rádio. Ninguém queria empregar dinheiro num empreendimento que se afigurava aleatório e deficitário. Já então, como ainda agora, os capitalistas de Alagoas só acreditavam em usina de açúcar e fábrica de tecidos. (op. cit., p.31). O C.R.A.F. teve programação e técnica semelhantes ao que possuía uma emissora de pequeno porte, apesar de funcionar clandestinamente. Segundo Alencar (op. cit., p. 33), “pode-se afirmar com convicção – e que o digam os que o conheceram – esse projeto de emissora foi a grande experiência piloto para aqueles que, em 1948, viriam a fazer funcionar a Rádio Difusora de Alagoas”. O centro radiofônico foi interrompido após ser ouvido no interior de Pernambuco por um empresário local, cuja denúncia ao Departamento de Correios e Telégrafos resultou em seu fechamento. Só uma década depois Alagoas colocaria em funcionamento uma estação de rádio. Em 1948, com dificuldades políticas, e orientado por amigos, o governador Silvestre Péricles “não tendo apoio da Assembleia Legislativa, resolveu utilizar recursos oriundos do ‘jogo do bicho’, controlado pelo Governo, para a compra do [...] equipamento” (op. cit., p.31) que permitiria a criação da Rádio Difusora. A emissora só veio a ter existência legal cinco anos depois, quando foi oficializada como autarquia estadual através da Lei nº 1708/53, no governo Arnon de Mello4. O motivo é que Péricles, além de não ter maioria na Câmara, não tinha como justificar a origem da verba a ser utilizada. “Já que a grana era fria mesmo, Silvestre falou: ‘botem a estação na marra, eu quero ver quem vai fechar.’ E assim foi feito. O dinheiro para a compra e instalação da emissora veio do jogo do bicho” (ALENCAR, 1991, p.39). Dessa forma, no dia 16 de setembro de 1948, 121º aniversário da emancipação política do Estado, veio a ser inaugurada a Rádio Difusora de Alagoas (ZY0-4). Com transmissor de 10 Kw de potência, na sintonia de 960 khz, o seu funcionamento inicial se deu num auditório provisório, no Jardim Infantil “Ismar de Góes Monteiro”, da Secretaria de Educação, localizado na Rua Pedro Monteiro, no centro de Maceió. Alagoas saía da “zona de silêncio” através da criação de uma rádio pública, algo incomum em outros estados do país, sendo também a pioneira em rádios públicas no Nordeste5. 4 Foi na década de 50 que o então governador Arnon de Mello adquiriu o jornal Gazeta de Alagoas, um dos seus maiores críticos, e iniciou a formação do maior conglomerado comunicacional de Alagoas, as Organizações Arnon de Mello, com uma TV, uma rádios AM e três FM, um jornal e um site de notícias. 5 Segundo etapa inicial de pesquisa realizada pela Associação das Rádios Públicas do Brasil (Arpub), que congrega 60 rádios públicas. In: http://www.arpub.org/ documentos/pesquisa_nacional_arpub.pdf Transformando relatos em registros da memória Com 61 anos de história, a Rádio Difusora foi a casa e a escola de grandes nomes do rádio alagoano, como Edécio Lopes, Cláudio Alencar, Floracy Cavalcante, Ademar Barros, José Lins Tavares, Odete Pacheco, entre outros. Apesar de tanto tempo no ar, a memória da Difusora está registrada apenas nas recordações desses profissionais, já que ainda são poucos os trabalhos e livros sobre o rádio em Alagoas. Para preservar essa história, convidamos profissionais que fizeram parte do dia-a-dia da Difusora em diferentes funções: um técnico com quatro décadas de trabalho, uma apresentadora-locutora aposentada pela emissora e um ex-diretor que coordenou a instituição por três vezes. Com mais de 44 anos de trabalho na Difusora, o agora diretor-técnico José Lins Tavares vem dedicando sua vida a essa emissora. Despertou o amor pelo rádio quando ainda acompanhava as atividades do irmão Abelardo Lins, que na época era operador de áudio. “Eu ficava lá rodando o vinil, na época era só o vinil. Ficava um espaçozinho à noite, que era mais calma a programação, porque durante a manhã não podiam colocar um aprendiz lá”, afirma. Após a morte do irmão, José Lins foi chamado para ocupar a vaga que, segundo ele, foi como um reconhecimento por todo o trabalho que fazia, mesmo não sendo funcionário. Hoje em dia, quando questionado sobre o porquê desse amor radiofônico, ele diz com um belo sorriso: “você se contamina”. Aposentada pela emissora após trabalhar por 30 anos, Floracy Cavalcante foi de tudo um pouco: rádio-atriz, locutora-apresentadora, diretora artística e diretora-geral. Uma das primeiras vozes femininas do rádio alagoano, ela foi uma das poucas mulheres que sobreviveram ao rádio AM, enquanto as outras só apareceram na época da FM. Para Floracy, nada a fez desistir do rádio: “Olha, eu fui adolescente, namorei, casei, tive três filhas, tudo no rádio. E nada me afastou do rádio. Quer dizer, é uma coisa muito minha, muito da minha raiz. Eu nasci para isso e gosto”. Apesar de estar aposentada pela Difusora, Floracy continua no “ar”, agora com um programa semanal numa emissora privada, que segundo ela “é só para não ficar afastada”. Única pessoa que publicou livros sobre o rádio alagoano, Cassimiro de Farias Cardoso, o “Cláudio Alencar”, exerceu vários cargos na “pioneira” ao longo de mais de 40 anos de carreira, muitos dos quais na emissora. Devido a problemas para marcar uma entrevista com ele, utilizaremos trechos de um de seus livros, Contando histórias (1991), para ilustrar casos de apropriação do Serviço Público para questões políticas. Porém, antes de entrar nesse assunto, é necessário tecer alguns comentários sobre o que deveria ser uma rádio pública, tema sobre o qual os nossos entrevistados também opinam. Como deveria ser uma rádio pública O conceito de rádio pública surge, muitas vezes, a partir da diferenciação com uma rádio privada e na confusão com o oficialismo de várias emissoras que utilizam “público” como sinônimo de “governo”. Considerando o papel do Jornalismo e sua inserção no rádio, sua função maior é levar a informação de interesse público, a mais completa possível, aos diversos segmentos sociais. Para José Lins, que trabalhou apenas na Difusora em toda sua vida, o conceito de rádio pública é bem claro: “Uma rádio pública, a gente já tá dizendo, está a serviço da população, ou seja, do público. Uma rádio pública, não uma rádio atrelada, presa ao governo, para falar o que é bom para o Governo, o que convém ao Governo”. Apesar de acreditar na autonomia de uma rádio pública, José Lins também reconhece a dificuldade na manutenção da emissora e afirma que é preciso anúncios publicitários para sustentar todo o aparato técnico e pessoal como, por exemplo, para transmitir uma partida de futebol. O rádio gasta muito, você sabe, começar pelo telefone, computador, aí vem impressora, papel... Você tem que usar isso daí. Mas a rádio tem que ter uma ajuda publicitária. Aí no rádio AM você trabalha com um grupo, trabalha com equipe. Domingo nós temos jogo em Caruaru, vai viajar motorista, técnico, repórter e um narrador né? Quatro, às vezes viajam cinco. Aqui fica um operador e um plantonista, na gravadora ficam mais dois. Isso só no final de semana, num domingo. Continuando sua avaliação, José Lins relembra outras épocas da Difusora e afirma que antes a emissora era uma empresa mista, que ela sobrevivia também de comerciais. Segundo ele, o Governo dava uma ajuda, e vez ou outra comprava um equipamento, mas no resto a Rádio é que dava o jeito de pagar as contas através da publicidade. Para ele, a Rádio Difusora é uma rádio aberta que sempre foi pública, mas ela também não deixa de ter uma forma ou outra, que varia de acordo com quem está no governo. E finaliza dizendo que a rádio pública é um instrumento legal, ela é do Estado e pertence a ele. Mulher sobrevivente no rádio alagoano, Floracy avalia que a Rádio Difusora é um caso sui generes justamente pelo fato de ser uma emissora estatal, que depende da vontade do governador da época. Avaliando o passado, Floracy acredita que a emissora oferecia muito mais vantagens para o ouvinte, porque tinha programas de auditório, rádio-teatro e jornalismo, e que recebiam o retorno do público. Ela relembra do programa que apresentava para mulheres, e diz que a audiência era muito grande, já que trazia para discussão os assuntos que interessavam as mulheres daquela época. O programa tinha de tudo, tinha culinária, ensinava a fazer bolo, fazer pratos, dava orientação sentimental. Nós tínhamos um quadro que foi o “Caso de amor”, que as jovens escreviam dizendo o problema que tinham, e a gente, imagina, ia dando conselhos. Mas era uma maravilha, uma audiência estúpida! Tínhamos curiosidade, tínhamos horóscopo. Ciente do potencial de uma emissora de rádio, Floracy não deixa de fazer críticas sobre a estrutura atual da Difusora. Para ela, a qualidade do transmissor é muito precária, e afirma que deveria ser trocado imediatamente para que a rádio seja ouvida com qualidade. Além disso, Floracy também questiona a qualificação dos profissionais que trabalham na empresa. Agora mesmo viajei no fim de semana e tentei ouvir a Rádio Difusora. Quem apresenta os programas são os operadores. Os “caras” nunca foram locutores, quer dizer, não há mais uma valorização profissional, não há mais, porque o trabalho dele é um, ele não é locutorapresentador; primeiro que ele não foi preparado para isso. E os locutores estão aonde? Não sei. Como é órgão público, aí o locutor: “Não, estou a disposição de Fulano de Tal”, “Não, estou não sei aonde”. Aí dá uma tristeza. Cláudio Alencar (1991) nos fala que, principalmente em seu início, os funcionários da Rádio trabalhavam por prazer ao que faziam, já que a maioria tinha outro emprego para garantir a renda. Devido ao caráter público, a emissora, também na questão de conteúdo, dependia de uma boa relação com o governante da época: A Rádio Difusora de Alagoas, primeira emissora de rádio no Estado, sempre passou por altos e baixos na preferência popular, desde a inauguração, exatamente por ser oficial, ou seja, dependente do poder público e, em conseqüência, a mercê dos Governadores do Estado desde a sua fundação, em 1948, e, também, da desenvoltura e do livre trânsito político dos que a têm dirigido (op. cit., p.119). Para ele, mesmo depois da criação da TV, a saída para o rádio continua sendo a informação rápida, o contato imediato com o público; uma transmissão com informações de utilidade pública e prestação de serviços à população. Se a comunicação em rádio já não exerce sua função plena, no caso de uma rádio pública, por maior contradição que pareça, a influência política consegue ser maior. Como veremos a seguir, a Rádio Difusora passou poucos momentos sob o ideal para uma rádio: “informar com pluralidade, ética, proporcionando o debate do contraditório. Porque somente desta forma, produzirá informação de interesse público, ao qual deve estar sujeita a comunicação” (ZUCULOTO, 2005, p.3). Influência política na Rádio Difusora de Alagoas Ao longo desses mais de 60 anos da Rádio Difusora, dois conjuntos de problemas oriundos da participação governamental na emissora pública aparecem: de origem técnica, por falta de recursos para a aquisição de novos materiais; e os propriamente políticos, com a influência direta do mandatário local no que se diz - ou no caso mais específico do período da Ditadura Militar. No quesito técnico sempre pesou a falta de preocupação de alguns governos em manter a emissora de rádio em condições de ir ao ar. Como nos diz Floracy Cavalcanti, “cada governador tem um pensamento: uns se interessam por rádio um pouquinho mais, outros menos, outros quase nada. Aí a Rádio Difusora oscilou a vida inteira”. Situação mais difícil ainda nos primeiros anos da Rádio Difusora, em que os salários eram irrisórios e ainda chegavam com atraso. Para os equipamentos, importados, chegarem à emissora era necessário que um órgão oficial o adquirisse, ou que comprasse um que já tivesse sido utilizado em outras emissoras do Rio de Janeiro. Segundo José Lins, na época da ditadura isso ficou ainda pior, já que havia a repulsa por produtos estrangeiros por parte do Governo militar. Tanto Cláudio Alencar (1991) quanto Floracy Cavalcanti destacam o fato de a emissora ter passado por outras três sedes antes de chegar à atual, localizada no complexo do Centro de Estudo e Pesquisas Aplicadas (Cepa). Algo que só ocorreu com a inauguração há oito anos do Instituo Zumbi dos Palmares, ao qual também fazem parte a Rádio Educativa FM e a TV Educativa. Quanto à questão política, todos os três têm histórias para contar sobre fatos de influência de um superior na programação ou na formação da própria equipe artística. Enquanto técnico, José Lins não lembra ao longo desses anos na Rádio Difusora de ver um entrevistado tirado do ar por motivos políticos, mesmo quando era alguém “despreparado”, que ligava para falar mal do presidente ou do governador e os xingava ao vivo. Para ele, a maior forma de intervenção, e a mais rotineira, é a de contratar pessoas para trabalhar sem qualificação profissional “e que não tinham nada a ver com a rádio”, muitas vezes por questão de amizade com alguém com boa relação com o Governador ou diretor da época. Sobre intervenção de conteúdo, José Lins destaca o período da Ditadura, que acompanhou profissionalmente desde o seu início (1964). O controle era externo e, caso alguma “irregularidade” passasse, as pessoas eram chamadas para depor. A discoteca fazia um roteiro musical. No caso, você tinha que até na ocasião, no momento, que mandar uma cópia desse roteiro musical para cortarem alguma música de protesto. Tanto é que na época de sessenta e pouco para cá era muita música italiana aqui que dominava. Música italiana francesa, música americana. Ele confirma que algumas pessoas não podiam dar entrevistas e que, inclusive, jornalistas locais foram presos, caso de Paulo Nilton. Sequer nomes de governos poderiam ser citados, “você fica receoso de fazer, de falar, de expressar, de fazer uma programação ou um roteiro musical. Só podia falar o que eles determinassem, sabe?”. Já Floracy Cavalcanti traz como o pior momento não um fato ocorrido na Rádio Difusora, a qual já estava aposentada, mas quando prestava serviços à outra rádio do IZP, a Educativa FM. Quando da última alteração de governo, mudou-se a direção do complexo de comunicação, que optou por demitir as pessoas sob serviço prestado. Só que ele não entendia da historia do rádio alagoano. E afastou a todos nós, eu, Edécio Lopes [um dos maiores radialistas alagoanos, que faleceu no ano passado] e outros nomes. E foi uma tristeza muito grande, eu até nem esperava isso. Eu fui realmente excluída, expulsa do ambiente de uma forma muito indigna, sem uma satisfação decente, sem uma conversa, absolutamente nada. Sobre a sua experiência em cargo de direção, tanto a geral quanto a artística (atual direção de produção), Floracy diz que era complicado dar uma bronca em alguém, pois também era radialista. Para ela, “dirigir é muito difícil. É complicado quando você é radialista também, você coloca a razão, mas eu procurei me policiar pra não ser tão áspera, mas sempre que era preciso eu tinha que chamar atenção”. Em Contando Histórias (1991), Cláudio Alencar traz dois momentos de intervenção de algum integrante do Governo estadual. O primeiro ocorria de forma indireta, pela preocupação em não fazer humor com o governador Silvestre Péricles, criador da Rádio, que tinha fama de ser violento. Já o segundo caso, ocorrido em 1963, tirou um programa do ar e causou o pedido de demissão das pessoas envolvidas nele: Havia uma divergência entre a opinião do Secretário de Educação e Cultura, para quem a emissora deveria ser inteiramente educativa, e a nossa, notadamente a minha, como Diretor Artístico, que deveríamos popularizar a cultura, através de uma programação que não fosse maçante, principalmente porque dependíamos de faturamento, de patrocínio comercial de nossa programação e, com audiência baixa ninguém iria anunciar e o Governo não tinha condições de cobrir as nossas despesas, permitindo-se desprezar o lado comercial. Tentamos manter a programação, no nosso estilo, mas, infelizmente, o Secretário não se convenceu, chegando ao ponto de, certo dia, num domingo, ao meio dia, ter ido pessoalmente à emissora e lá determinar ao sonotécnico e ao locutor do horário que retirassem do ar uma gravação que estava sendo exibida – um show de bossa nova, gravado ao vivo no Carnegie Hall, de Nova Iorque, com João Gilberto, Agostinho dos Santos, Carlos Lyra e outros. (op. cit., p.120). Em busca de uma nova Difusora Diante dos problemas apresentados, a proposição de alternativas a essa realidade surge como a luz no fim do túnel para aqueles que ainda sonham com uma boa qualidade técnica e profissional da Rádio Difusora de Alagoas. Os obstáculos políticos e econômicos ainda são muito fortes na emissora, e reforçados ainda mais quando contextualizados em Alagoas, um dos Estados com os maiores índices de analfabetismo, mortalidade infantil e violência do país. À procura de respostas para melhorar a Difusora, José Lins não parece estar muito otimista, e acredita que o problema está presente em todos os locais onde há poder: “Tudo, em tudo isso acontece. Quando você vai trabalhar num escritório ou como office-boy é uma história. Outra coisa é você aparecer no rádio ou na televisão, usar um microfone, usar uma câmera. É diferente tudo nessa área”. Questionado sobre algumas mudanças administrativas, José Lins afirma que o concurso público do Instituto Zumbi dos Palmares, onde a Rádio Difusora de Alagoas está inserida, trouxe mudanças, renovações na emissora. Ele diz que no início pensou que ia ser muito diferente, mas logo encontrou várias pessoas que passaram a somar na RDA, e que trabalham numa sintonia como se convivessem há vários anos. Com uma visão política de quem fez e quem sofre as conseqüências da administração pública, Floracy Cavalcante acredita que a Difusora “precisa de uma balançada muito maior, de um interesse maior. Mas não é interesse do Governo, ou de dizer ‘eu quero uma rádio boa’. É um interesse do Governo de procurar as pessoas que entendam e queiram fazer uma rádio boa. Esse é o problema”. Para ela, o desafio é que o chefe maior compreenda o que é uma rádio e enverede por esse caminho. Refletindo sobre a qualificação profissional da rádio, Floracy critica a forma como foi realizado o último concurso, que para ela não avaliou o lado técnico dos profissionais. Acrescenta também que não basta apenas utilizar o microfone, o locutor deve também cativar o público, convencê-lo, e isso “é um trabalho que depende de vontade”. Pessimista em relação ao futuro não só da Difusora como de outras emissoras AM, Floracy desabafa: “Eu vejo muito desânimo com relação ao rádio AM. Temos algumas emissoras aqui que só se limitam a colocar o carro na rua e a entrevista no estúdio. Pronto, acabou o programa”. Para Cláudio Alencar (op. cit, p.100), “em regra, [...] o rádio-jornalismo é indispensável, pois um dos objetivos de uma estação de rádio é a prestação de serviços à comunidade e a informação, nesse particular, é um excelente serviço”. Com o surgimento de novas tecnologias no próprio meio radiofônico, casos da rádio FM e do desenvolvimento da digitalização desse meio de comunicação, a Rádio AM é cada vez menos estudada. E nesse ínterim, vemos com preocupação os poucos estudos realizados em torno do tema “rádio pública”, o qual esperamos ter dado uma pequena contribuição. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALENCAR, Cláudio. Contando Histórias. Maceió: Sergasa, 1991. BRECHT, Bertold. O rádio como aparato de comunicação: Discurso sobre a função do rádio. Revista Estudos Avançados 21. Ed. 60. São Paulo: 2007, pp. 227-232. GALLEGO, Angélica H. Santini Montes. O jornalismo não é apenas um serviço público, mas um negócio legítimo. 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