Virgínia Trigo - Empreendedorismo O QUE É O EMPREENDEDORISMO? Virgínia Trigo, docente do ISCTE O empreendedorismo diz respeito à produção de riqueza e não à produção de ricos. Uma questão com que nos poderemos confrontar no estudo do empreendedorismo será a de sabermos se se trata de uma qualidade inata – que alguns terão e outros não – ou até se algum ser supremo terá andado a espalhar pelo mundo os pózinhos do empreendedorismo deixando cair mais quantidade nuns sítios do que noutros. Embora algumas características pessoais dos indivíduos possam actuar como factores que ‘empurram’ para a actividade empreendedora (ver Trigo, 2003)1, o empreendedorismo não é inato nem é obra do acaso: é antes o resultado das condições da envolvente em que o indivíduo está inserido. Existem por todo o lado evidências de que o seu ensino é uma forma poderosa (embora não suficiente) para o desenvolvimento de sociedades empreendedoras. É evidente que existirão sempre pessoas que não estão interessadas numa actividade empreendedora, enquanto outras o estarão sempre, independentemente das condições. Isso é ‘normal’. O empreendedorismo é, acima de tudo uma atitude, que se traduz num comportamento, pelo que é indispensável que o seu ensino seja abordado dum ponto de vista comportamental e de desenvolvimento pessoal. Etimologicamente, a palavra original francesa, ‘entrepreneur’, que muitas outras línguas adoptaram, é formada por dois radicais: ‘entre’ e ‘preneur’, do verbo ‘prendre’, isto é aquele que toma o que está entre; aquele que agarra o que ainda não foi agarrado; o que leva uma ideia, uma tecnologia ou um produto ao mercado. Se considerarmos que uma nova ideia ou uma tecnologia poderá perder valor e tornar-se inútil se não for rapidamente comercializada, poderemos compreender o papel do empreendedor através da seguinte figura: 1 Trigo, Virgínia, «Entre o Estado e o Mercado: Empreendedorismo e a Condição do Empresário na China», Ad Litteram, 2003 1 Virgínia Trigo - Empreendedorismo Fig. 1 – O Vale da Morte Curva do valor da ideia ou tecnologia ao longo do tempo Curva de comercialização do produto € VALE DA MORTE Tempo Esta conhecida analogia do Vale da Morte ilustra o papel do empreendedor como construtor de pontes, como ‘salvador’ de ideias ou tecnologias, alguém cuja principal preocupação é agarrar uma ideia e transformá-la num produto ou numa solução que corresponda a uma necessidade de mercado, que possa ser comercializada, antes que ela caia no Vale da Morte e se perca para sempre. O Conceito “Quando confrontados com um caminho à nossa frente que nos parece demasiado inclinado, abordemo-lo de um novo ângulo”. Esta frase subtil, colocada assim em jeito de pensamento do dia, fornece-nos uma inspiração para a definição da ideia de empreendedorismo. Nela estão contidas as três dimensões do conceito: (1) a procura de um «novo ângulo» sugere uma orientação para a acção (pro-acção); (2) a abordagem é “nova” (inovação); e (3) o facto de se abordar o caminho de um forma diferente implica riscos: os riscos inerentes à eventualidade de não sermos bem sucedidos. O estudo do empreendedorismo através destas três dimensões – pro-acção, inovação e risco – ajuda-nos a distinguir entre o que é empreendedorismo e o que não é. Para o ser, qualquer evento tem de conter 2 Virgínia Trigo - Empreendedorismo obrigatoriamente, em menor ou maior grau, estas três dimensões: nenhuma delas poderá estar ausente. A seguinte história, verdadeira, retirada da imprensa diária, poderá ajudar-nos a interpretar esta noção: Situação 1 - Os calções salvadores Um investigador japonês apavorado com a ideia de vir a ser engolido por uma tsunami, fenómeno frequente no Japão, concebeu uns calções interiores especiais que, através de um comando adequado, insuflam rapidamente e lhe permitem flutuar. Os calções nunca o abandonam. Estaremos neste caso perante um fenómeno de empreendedorismo? Basta-nos examinar se as três dimensões estão presentes. Existe inovação? Sem dúvida: o investigador transformou uma ideia num produto novo que satisfaz uma necessidade. Existe pro-acção? A pro-acção consiste numa orientação para a acção que, do ponto de vista do empreendedorismo, implica tudo, mas tudo fazer para se levar um determinado produto ou serviço ou mercado. Neste caso o investigador concebeu os calções para si próprio, para satisfazer uma necessidade individual, sem intenção de os levar ao mercado pelo que a pro-acção não existe. Desde logo, porque uma dimensão está ausente, não existe empreendedorismo, mas ainda assim avaliemos o risco. Ao não levar o produto ao mercado, o investigador também não corre o risco de este ser rejeitado pelo que também não existe risco e mais se confirma a não existência de empreendedorismo nesta história. Vejamos uma outra situação: Situação 2 - Sapatos para todas as ocasiões Uma estilista europeia preocupada com o conforto das mulheres trabalhadoras que devem correr para os transportes e ainda assim apresentar-se no escritório em elegantes sapatos de salto alto, decidiu apresentar uma solução: um sapato que, em segundos, e mediante pressão numa mola, se converte de um salto de 7,5 cm para 2,5 cm. O salto dobra-se na base do sapato ao mesmo tempo que um fino cabo de metal o ajuda a manter-se nivelado. “O segredo é podermos beneficiar de um sapato para todas as ocasiões, com confiança e espontaneidade” afirmou a estilista que já registou a patente do seu protótipo e o apresentou a diversos fabricantes potencialmente interessados na sua produção e comercialização. 3 Virgínia Trigo - Empreendedorismo Passará este caso o teste do empreendedorismo? Existe inovação uma vez que a estilista apresenta uma solução nova. Até agora ela está a dar todos os passos para levar o produto ao mercado: já registou a patente e já contactou fabricantes potencialmente interessados. Se prosseguir os seus esforços até atingir o objectivo de colocar o produto no mercado, existirá sem dúvida pro-acção correndo também o risco de os sapatos não serem aceites pelo mercado. Estando reunidas – em maior ou menor grau – as três dimensões, poderemos concluir que a estilista é uma empreendedora. Atribuindo valores às diferentes dimensões analisadas poderemos ainda extrair o seguinte perfil empreendedor: Fig. 2 – Perfil Empreendedor Pro-acção Risco Inovação Sendo útil e válida, a análise do empreendedorismo sob esta perspectiva coloca-nos o problema de considerarmos se actividades não produtivas – rentistas ou até destrutivas – mas reunindo estas três dimensões podem ser consideradas empreendedoras. Actividades como o tráfico de droga ou de pura especulação imobiliária podem ser bastante inovadoras, os seus promotores são pro-activos e correm sem dúvida riscos que podemos considerar empreendedores. Mas é desse empreendedorismo que se trata aqui? 4 Virgínia Trigo - Empreendedorismo Por outro lado, o empreendedorismo precisa de ser aprendido e praticado pelo que precisamos de um conceito que, complementando a noção das três dimensões intrínsecas à actividade empreendedora, nos ajude nessa aprendizagem e nessa prática. De entre todas as definições possíveis e mais ou menos divulgadas, a que se segue corresponde bem a este objectivo: • O empreendedorismo é um processo através do qual indivíduos ou grupos criam valor reunindo para tal conjuntos únicos de recursos para explorar oportunidades existentes na envolvente. Abordado como um processo o empreendedorismo desmistifica-se: pode ser ensinado e aprendido; pode ser aplicado a qualquer contexto organizacional; não é mais uma obra do acaso que apenas os geneticamente favorecidos podem prosseguir, pelo contrário, é uma actividade gerível por qualquer um de nós. Enquanto processo o empreendedorismo pode ser dividido em etapas sequenciais que evoluem de uma forma lógica e que nos permitem reconhecer onde errámos e, desejavelmente, aprender e corrigir esse erro sem necessidade de repetir ou abandonar todo o processo. Criamos um itinerário mental para programar, executar, controlar e validar as nossas acções. Podemos depois auditá-las, racionalizar e tornar mais eficiente a lógica que as liga, melhorar a afectação dos recursos e escolher em cada momento a solução mais adequada. Além disso os processos são autosustentáveis, isto é ocorrem de uma forma contínua e o empreendedorismo torna-se naquilo que realmente deve ser: uma actividade permanente inserida na vida normal de qualquer organização. A segunda ideia contida na definição é a de que o empreendedorismo diz respeito não só a indivíduos mas também, e cada vez mais, a grupos. O conhecimento actual é demasiado complexo, as opções demasiado variadas, o controlo está nas mãos de tão diversos e insuspeitos actores que um indivíduo sózinho dificilmente poderá conduzir com sucesso uma actividade empreendedora. Numa ou noutra etapa do processo ele irá necessitar de quem o ajude; por isso, uma competência crucial que qualquer empreendedor deve desenvolver é a sua capacidade para trabalhar com outros e em grupo. Em terceiro lugar, o conceito enunciado chama a atenção para a criação de valor: o empreendedorismo que nos interessa aprender e praticar cria valor para o empreendedor e para a sociedade. Criar valor para a sociedade é um requisito essencial para a sustentação do empreendedorismo porque quanto mais a maré sobe 5 Virgínia Trigo - Empreendedorismo mais os barcos se levantam. Além disso, ser-se rico num país pobre é uma qualidade amarga. A inovação, enquanto combinação única de recursos é a outra ideia contida na definição de empreendeorismo. Mesmo com idênticos recursos é sempre possível a um empreendedor que está atento à envolvente e ousa desafiar a sua imaginação, combiná-los de uma forma única e encontrar uma vantagem competitiva. Por fim, o empreendedorismo diz respeito à exploração de oportunidades: estas são, como veremos, o princípio e o fim do processo empreendedor. Onde poderemos encontrá-las? Precisamente à nossa volta. Sempre que formos confrontados com um problema que necessita de ser resolvido, com uma necessidade não satisfeita, aí está uma oportunidade. As oportunidades abundam à nossa volta mas só se detêm nas mentes bem preparadas para as receber. É uma procura activa, constante e com propósito que requer uma atenção permanente à envolvente e requer uma mente curiosa: E se isto fosse assim? E se existisse este produto ou serviço? Porque é que isto não poderá ser feito de outra maneira – com menos esforço, menos custos, maior qualidade...? Será que as pessoas gostariam disto (ou daquilo)? Que problemas existem? Como podem ser resolvidos? O Processo de Empreendedorismo A ideia de que o empreendedorismo deve ser encarado como um processo é comum a muitos autores que escrevem sobre o assunto mas nem todos identificam o mesmo número de fases. Nós iremos considerar seis: 6 Virgínia Trigo - Empreendedorismo Fig. 3 – As fases do Processo de Empreendedorismo Identificação da Oportunidade Saída Estratégica Desenvolvimento do Conceito de Negócio Implementação e Gestão Determinação dos Recursos Necessários Aquisição dos Recursos Necessários A primeira ideia a reter na análise deste processo é que ele é contínuo, isto é, tratase de uma actividade normal e constante dos indivíduos e das organizações: um modo de ser. O empreendedor entra num negócio ou num projecto, com uma ideia para entrar e outra para sair. À partida nenhuma ideia nos pode encostar a uma parede ou levar-nos a uma situação da qual não temos saída possível. É nisto que temos de pensar antes de entrarmos num negócio: e depois? Todos nós sabemos que em nenhuma circunstância a nossa ideia irá perdurar no tempo tal como hoje a concebemos e a visão de uma possibilidade concreta de saída, ainda que vá adquirindo formas diferentes no futuro, é indispensável no começo. Cada uma das fases do processo empreendedor exige uma explicação mais detalhada como a seguir descrevemos. 1. – Identificação da oportunidade Oportunidade define-se como um conjunto de circunstâncias favoráveis que criam uma necessidade ou uma abertura para um novo conceito de negócio. Como vimos elas encontram-se à nossa volta, mas resultam sempre de um conjunto de circunstâncias e não apenas de uma única circunstância: quanto mais circunstâncias estiverem reunidas maior será a probabilidade de termos identificado uma boa oportunidade. Não é pelo facto de termos herdado uma casa senhorial de uma tia- 7 Virgínia Trigo - Empreendedorismo avó que, se a transformarmos em turismo de habitação, o êxito estará assegurado. Num clássico de 1985, «Innovation and Entrepreneurship», Peter Drucker identifica sete grandes fontes de oportunidade: (1) o inesperado – por exemplo o insucesso que esteve na origem do extraordinário êxito do ‘post-it’; (2) uma incongruência – uma discrepância entre o que existe e o que toda a gente gostava que existisse embora possa não o saber ainda, como poderá ter acontecido com as filas nas portagens quando se identificou a necessidade de uma ‘Via Verde’; (3) necessidades de processo – uma forma diferente e melhor de fazer as mesmas coisas, quer em termos de indústria quer de serviços; (4) mudanças no sector ou na estrutura de mercado, resultantes ou não de imposições legais; (5) mudanças demográficas como as que ocorrem com a entrada em massa da mulher no mercado de trabalho ou com o prolongamento da idade da reforma; (6) mudanças de percepção, de costumes ou de significados, de que pode ser exemplo uma maior preocupação com a saúde e com a forma física; e, finalmente (7) conhecimento novo – resultante de nova informação, dos avanços tecnológicos ou de novas teorias. Para tentarmos reunir o maior número possível de circunstâncias favoráveis em presença de uma possível oportunidade deveremos certificar-nos de que existe de facto uma necessidade e qual a viabilidade eventual da nossa solução. Peguemos então num papel e verifiquemos se as seguintes condições estão reunidas: o Existe de facto mercado? Devemos certificar-nos se existe um mercado-alvo e, inclusivamente, se nos é possível visualizá-lo. o Esse mercado é suficientemente grande? O que pretendemos saber é se ele nos irá permitir recuperar o investimento e receber uma compensação pelo nosso esforço. o O mercado está suficientemente infeliz com os produtos disponíveis? O empreendedor não pode ignorar a eventual existência de outros produtos ou serviços que os clientes utilizam, se existem ou não custos de mudança e se os clientes estão dispostos a incorrer neles. o Existem distribuidores que possam e queiram levar o nosso produto ou serviço ao mercado? A distribuição é uma variável crítica para o empreendedor, nem sempre convenientemente avaliada. Se não houver forma de levar nas melhores condições o produto, serviço, processo ou solução ao mercado a actividade empreendedora está condenada ao insucesso. 8 Virgínia Trigo - Empreendedorismo o E quanto à tecnologia? Para que a oportunidade detectada seja de facto uma oportunidade convém verificar se existe tecnologia que viabilize a sua exploração ou se, existindo, não se corre o risco dessa tecnologia ficar obsoleta em breve. o A concorrência é outra variável que o empreendedor deve considerar na avaliação da oportunidade: será que os concorrentes não irão introduzir em breve no mercado um produto melhor ou mais barato? o E quanto às condições económicas? O que nos interessa verificar aqui são as perpectivas quanto à economia em geral: o mercado vai poder comprar o nosso produto durante tempo suficiente? o Por fim, um último aspecto a considerar, ele mesmo fonte de oportunidades, diz respeito à legislação. Novas leis podem favorecer, dificultar ou até impedir a solução que o empreendedor pretende implementar. Embora a avaliação da oportunidade deva implicar a análise destes critérios, não é forçoso que todos eles se veriquem mas, nesse caso, o empreendedor que acredita firmemente na sua ideia, tem obrigação de tomar consciência deles e de os abordar de um novo ângulo, ultrapassando-os. A ideia central do que acabámos de enunciar atrás tem a ver com a indissociabilidade da oportunidade ao mercado: só existe oportunidade se existir mercado. Qualquer empreendedor interessado no sucesso da sua ideia deve: a. Especificar exactamente em que é que consiste essa oportunidade; b. Quantificar a sua dimensão e abrangência tanto quanto possível. 2. - Desenvolvimento do conceito de negócio O conceito de negócio é o produto, serviço, processo ou solução que melhor capitaliza a oportunidade identificada pelo empreendedor. Um erro comum de muitos empreendedores é o de confundirem conceito de negócio com oportunidade. Desenvolvem um produto convictos de que ele é em si próprio uma oportunidade sem considerarem a existência ou não de mercado e sem se questionarem depois perante o insucesso. Na realidade uma mesma oportunidade pode ser capitalizada através de muitos conceitos de negócio diferentes. O conceito de negócio responde a uma oportunidade existente e deve satisfazer os seguintes critérios: o Deve ser único: este critério diz respeito ao grau de novidade contido no conceito, ou seja à inovação que toda a actividade empreendedora requer. 9 Virgínia Trigo - Empreendedorismo Quanto mais o conceito se diferenciar dos que já existem maiores serão as probabilidades de sucesso. o Deve ser abrangente: o empreendedor deve ser capaz de olhar para além do seu produto ou solução e considerar outras variáveis estratégicas como o preço, a promoção, a distribuição. O grau de abrangência reflecte essa capacidade. o Deve ter consistência interna: a consistência interna mede a coerência entre as diferentes variáveis estratégicas do conceito, ou seja, quão bem elas estão de acordo umas com as outras. É aquele preço adequado ao produto em causa? E será esta a melhor forma de o distribuir? E de o promover? Se olharmos à nossa volta poderemos constatar inúmeros exemplos de problemas de consistência interna em muitos conceitos de negócio. O seu desaparecimento é uma questão de tempo e de mercado. Em mercados exigentes a falta de consistência interna é menos ou nada tolerada o que obriga ao aperfeiçoamento dos conceitos de negócio em toda a sua abrangência. o Deve ser exequível: o empreendedor deve ser realista e avaliar se o seu conceito pode ser desenvolvido em termos objectivos e em tempo oportuno. o Deve ser sustentável: uma vez implementado, o conceito deve poder existir no mercado por tempo suficiente que garanta o retorno do investimento e o prémio requerido pelo empreendedor. 3. – Determinação dos recursos necessários Definido o conceito de negócio que melhor capitaliza a oportunidade identificada, o empreendedor deve agora preocupar-se em determinar quais os recursos de que necessita para desenvolver com sucesso o seu conceito. Esses recursos dependem, como é evidente, do tipo de negócio em causa e vão variando à medida que este se desenvolve no tempo. De um modo muito geral o empreendedor necessitará: o De recursos humanos: estes recursos poderão ser técnicos, de vendas e marketing, de gestão... o De distribuição: como vimos atrás, o empreendedor deve certificar-se da exixtência e da adequação de formas e canais que levem o seu produto ao mercado. Todos os produtos, serviços, processos ou soluções necessitam de 10 Virgínia Trigo - Empreendedorismo ser levados ao mercado, a quem os ‘compre’ ou utilize, e o empreendedor não pode ignorar esta evidência nas fases iniciais do seu projecto. Pesquisa consistentemente efectuada indica que as razões mais frequentes de insucesso empreendedor estão relacionadas com problemas: (i) de falta de preparação da gestão; (ii) de canais de distribuição inadequados; (iii) de conceitos de negócio desenvolvidos de uma forma inconsistente. o De fontes de abastecimento: a existência, por exemplo, de matéria prima durante o tempo de vigência do projecto deve ser acautelada pelo empreendedor. o Financeiros o De instalações o De patentes, licenciamentos e de outras formas de protecção legal; e o De uma boa rede de relacionamentos. A ideia de se considerar a rede de relacionamentos como um recurso – um input – essencial à actividade empreendedora tem vindo a ganhar cada vez mais importância na literatura sobre empreendedorismo: na arena competitiva somos mais avaliados por quem conhecemos do que por quem somos e a rede de relacionamentos irá tornar-se num capital inestimável para o desenvolvimento do nosso negócio. Qual a importância de uma boa rede relacional? Como criá-la, mantê-la e expandi-la? Por ser um assunto ainda relativamente novo no âmbito do estudo do empreendedorismo, iremos dedicar-lhe a secção que se segue. 3.1. – As redes de relacionamento Um dos mais importantes recursos de que o empreendedor necessita para viabilizar o seu projecto é de uma rede de relacionamentos que deve ser construida e identificada logo nas primeiras etapas do processo de empreendedorismo, e posteriormente desenvolvida e mantida ao longo de todo o projecto. Ao determinar os recursos de que necessita e ao pensar na forma de os adquirir, a rede deve constar da lista de inputs qualquer que seja o negócio. Na realidade ela é não só necessária como indispensável a toda a actividade empresarial. Senão vejamos: O lucro mede o sucesso que qualquer empreendedor deseja para o empreendimento a que se propôs. Mas como se mede o lucro ou melhor, como se mede o lucro do ponto de vista do investimento que o empreendedor disponibilizou no negócio? Lucro = Investimento * ROI (retorno sobre o investimento) 11 Virgínia Trigo - Empreendedorismo Quando o empreendedor inicia o seu negócio ele leva consigo – ele investe – dois tipos de capital: o capital financeiro (poupanças, linhas de crédito, empréstimos obtidos...) e o capital humano (competências, entusiasmo, inteligência, perspicácia, dedicação, mas também outros atributos humanos menos referidos e contudo igualmente importantes como a saúde, o encanto pessoal ou a beleza). Assim: Investimento = f (capital financeiro, capital humano) Sabendo que o tipo e a quantidade de investimento em cada negócio depende daquilo que nos propomos fazer, poderemos dizer que o investimento é uma questão de produção. O investimento (em capital financeiro e humano) necessário para iniciar uma petroquímica é muito diferente do necessário para iniciar uma clínica de beleza. Mas o lucro não se consegue só com investimento: aliás, como a expressão demonstra, qualquer que seja o investimento, se o ROI for zero, o lucro será também zero. O que representa então o ROI? O que é que “esconde”? Suponhamos que, por mera hipótese académica, dois empreendedores fazem o mesmo investimento (em qualidade e quantidade) em capital financeiro e humano, em negócios equivalentes. Será que poderemos garantir o mesmo lucro? Certamente que não: de dois investimentos igualmente bons, só um terá maior sucesso no mercado; de dois livros comparáveis, um será exposto nas prateleiras, terá críticas elogiosas, citações e o outro não. A questão é como. Se a concorrência fosse perfeita poderiamos confiar no sistema para que investimentos idênticos trouxessem idênticos retornos sobre o nosso investimento. Não o sendo apenas podemos confiar na nossa rede de relações. É precisamente quem nós conhecemos que irá determinar maiores taxas de retorno para o nosso investimento. Assim: ROI = f (capital relacional) Se o investimento é uma questão de produção, o ROI é uma questão de oportunidade: é a nossa rede de relações que nos dá a oportunidade de transformarmos o investimento em lucro. Indivíduos com melhores redes de relações terão mais e melhores oportunidades de obter maiores taxas de retorno para os seus investimentos porque terão mais e melhor acesso a informação relevante, a recomendações, e ao controlo dessa mesma informação. O capital relacional tem características muito diferentes dos capitais financeiro e humano e, dada a sua importância na construção do lucro, exige do empreendedor 12 Virgínia Trigo - Empreendedorismo cuidados muito especiais. Quer o capital financeiro quer o humano são pertença de um indivíduo, que detém sobre eles uma certa liberdade de aquisição e utilização. Porém o capital relacional é pertença conjunta das partes envolvidas na relação: se uma das partes se retirar o capital relacional dissolve-se independentemente da vontade que a outra demonstrar. Assim sendo, a qualidade de uma rede de relações define com frequência o grau de sucesso de um qualquer empreendimento. Dada a sua importância, o empreendedor deve dedicar-se a construir, manter e desenvolver uma estratégia relacional que possa vir a assegurar o êxito do seu investimento. O que é então uma rede de relações ou capital relacional? O termo descreve um conjunto de indivíduos e/ou organizações que se encontram ligados entre si por elos sociais. Formam-se com uma variedade de propósitos, mas no âmbito que aqui nos interessa, formam-se para facilitar uma iniciativa empresarial. Para um empreendedor, uma boa rede de relacionamentos pode trazer um conjunto de benefícios como, por exemplo: Protecção: A rede pode ser utilizada como uma forma de protecção contra o aparecimento de nova concorrência, o desenvolvimento da existente, no abastecimento de matérias primas, no recurso a informação privilegiada, ou perante ameaças que possam surgir. Legitimidade: Legitimidade diz respeito ao direito de existir e de operar numa dada envolvente. Por exemplo, através da rede um empreendedor inexperiente pode obter a legitimidade que, por si só, não teria. Emancipação (‘empowerment’): A rede concede ao empreendedor acesso a informação e a outros recursos de outra forma inacessíveis para ele; através da rede o empreendedor ganha mais poder e pode obter economias de escala. Previsibilidade: Dado que, por natureza, as redes dizem respeito a relações de longo prazo, elas actuam como redutores da incerteza inerente à actividade empresarial. O empreendedor poderá recorrer ao seu capital social como forma de obter ajuda ou de saber aonde ir para obter essa ajuda. Âmbito alargado e maior enfoque: Além de poder facilitar a obtenção de recursos necessários às operações actuais, a rede permite o reconhecimento e a capitalização de oportunidades que, de outro modo, o empreendedor não conheceria. Quatro atributos principais são normalmente utilizados para caracterizar redes sociais. Interessa apreender bem os conceitos de cada atributo pois as fronteiras 13 Virgínia Trigo - Empreendedorismo entre eles são por vezes ténues e a clarificação torna-se necessária para entendermos a complexidade inerente a uma rede de relações. Assim as redes podem ser classificadas de acordo com: (1) A sua diversidade: Uma rede diversa é constituida por um conjunto de indivíduos e pode incluir relações mais próximas ou encontros casuais, colegas de estudo ou de trabalho, pessoas de outras organizações, comunicação social, um portal interactivo na internet... A diversidade é um bem misto: por um lado uma rede diversa proporciona novas e variadas oportunidades ao empreendedor, mas por outro a sua manutenção pode revelar-se difícil e onerosa. A questão aqui é o custo de oportunidade: o que poderia eu fazer diferentemente com o tempo, energia e dinheiro que actualmente dispenso à manutenção de uma rede diversa? E com que resultados? (2) A sua densidade: A densidade diz respeito ao tipo de elos existente entre os diversos membros da rede. Os elos podem estar presentes ou ausentes, ser fracos ou fortes, dependendo da frequência dos contactos. Numa rede densa os membros têm uma percepção perfeita uns dos outros; a informação flui; os recursos são transferidos com rapidez e eficiência. (3) A sua acessibilidade: A acessibilidade refere-se ao caminho a percorrer entre duas pessoas ou organizações. Como se processa o acesso de um determinado membro a outros na rede? De forma directa ou através de intermediários? (4) O seu valor: O valor reflecte a contribuição de um membro para a rede do empreendedor. Quão útil ou crítico é o contacto? O valor de um membro mede-se pelo valor que gera através da protecção que confere, da legitimidade que garante, da informação que fornece, dos recursos a que acede. Existem deteminados membros que em si mesmos não possuem quaisquer recursos, mas cujo valor reside no seu papel de intermediários, permitindo o acesso a recursos. Os intermediários são um componente valioso em qualquer rede de relacionamentos. Os benefícios de uma rede vasta e diversificada serão certamente maiores do que os de uma rede de contactos pequena e homogénea. Contudo uma rede diversa e densa pode tornar-se ineficiente se, para um mesmo custo (em tempo, energia e dinheiro) o empreendedor obtiver menos ou pior informação. O tempo, a energia e o dinheiro são limitados: a ineficiência traduz-se em custos de oportunidade. 14 Virgínia Trigo - Empreendedorismo Se considerarmos uma rede de relações com cinco contactos e a desenharmos como segue: Fig. 4 – Rede de relações A 1 2 3 Nós 5 4 a nossa rede é diversa no sentido em que permite o acesso a cinco membros que não se conhecem entre si. Esta ausência de relacionamento constitui outros tantos “vazios” na estrutura da nossa rede de relações que nos conduzem a igual número de oportunidades. No centro da rede temos acesso a informação de cada um dos membros que podemos utilizar (ou não) relativamente aos outros. Admitamos que temos ainda energia, tempo e dinheiro suficientes para alargarmos a nossa rede de relações e decidimos construir mais quatro novos contactos. A nossa rede é agora assim: 15 Virgínia Trigo - Empreendedorismo Fig. 5 – Rede de relações A’ 2 1 3 9 Nós 8 7 4 5 6 Embora tenhamos aumentado a dimensão da nossa rede em mais quatro contactos – a dimensão total é agora de nove – diminuimos de facto o retorno da rede em termos de oportunidades visto que alguns dos contactos se conhecem entre si e são portanto redundantes: pessoas que se conhecem entre si tendem a ter a mesma informação quase sempre ao mesmo tempo. Para aumentar a eficiência da nossa rede poderemos optimizá-la promovendo um dos contactos redundantes a contacto primário, com o qual mantemos contactos permanentes e preferenciais, e passando os restantes a contactos secundários. A nossa rede optimizada será assim: 16 Virgínia Trigo - Empreendedorismo Fig. 6 ‘ Rede de relações A’’ 1 2 3 9 Nós 8 7 4 5 6 Com a rede optimizada passámos a ter quatro contactos primários (9, 3, 4 e 7) e cinco secundários, isto é contactos que fazem parte da nossa rede mas que os contactos primários se “encarregarão” de manter. A optimização que efectuámos tem apenas como critério a eficiência da rede, isto é, a preocupação de minimizar inputs (tempo, energia, dinheiro) e de maximizar outputs (informação, oportunidades, novos clientes, novos mercados, novas fontes de matéria prima...) O que é que ganhámos? Com uma perda mínima de informação – os 9 contactos continuam na rede – temos agora apenas quatro contactos primários e tempo, energia e dinheiro para estabelecer cinco contactos completamente novos que nos levarão a novas redes de informação. Mas será que poderemos garantir “perda mínima de informação”? Na realidade iremos perder alguma informação e controlo mas teremos de pesar isso contra os custos de oportunidade em que incorremos ao manter nove contactos alguns deles redundantes. Que critério ou critérios deveremos seguir na escolha de contactos primários? Dentro de uma determinada fileira, quem deveremos “promover” a contacto primário? O principal critério é o da confiança. A confiança é um elemento crítico exactamente porque a concorrência é imperfeita. Como vimos, se a concorrência fosse perfeita poderíamos confiar no sistema para obter um justo retorno para o nosso 17 Virgínia Trigo - Empreendedorismo investimento. Não o sendo só podemos confiar nas nossas relações. E o que significa exactamente confiança? Neste contexto significa a capacidade de um contacto em honrar uma dívida interpessoal: se eu fizer isto por ele, será ele capaz de o fazer por mim? Isto é, fazendo nós primeiro, existirá reciprocidade por parte do contacto e relativamente a nós em particular? Se o contacto for de confiança perder-se-á um mínimo de informação e ganhar-se-á em tempo e esforço na manutenção de contactos redundantes dentro da nossa rede. Uma vez assegurada a confiança, o segundo critério é precisamente o da manutenção: o contacto a escolher como primário deverá ser o de mais fácil manutenção, isto é, deverá ser acessível e trazer valor. A escolha entre contacto primário e secundário é uma questão de eficácia. A eficácia da nossa rede depende de quão bem nós somos capazes de escolher entre contactos primários e contactos secundários, depende da qualidade da nossa decisão no sentido de concentrarmos recursos na manutenção de contactos primários em quem podemos confiar. Uma rede de contactos optimizada é eficiente e eficaz. Em regra os benefícios da optimização de uma rede de relações dependem: (1) – Da probabilidade do contacto primário nos transmitir informação a nós em particular; (2) – Da probabilidade da informação ser transmitida a esse contacto; (3) – Da capacidade do contacto em capturar, entender e filtrar a informação que recebe. Note bem: • As redes familiares e de amizade estão cheias de contactos redundantes, geralmente de fácil manutenção: a eficiência não lida bem com a amizade. • Algumas redes de trabalho são optimizadas pelo critério oposto ao da eficiência: o da saturação. Um gestor deve contactar frequentemente com todos os membros da sua empresa por mais redundante que isso lhe pareça. Agora sabemos que as oportunidades resultam de vazios estruturais (não redundância de contactos) existentes na nossa rede de relações. Saber de uma oportunidade, e até mesmo estar em posição de a capitalizar, é diferente de fazer alguma coisa sobre ela. Podemos escolher aproveitar uma oportunidade ou ignorála: só quem a aproveita, quem faz com que ela aconteça, é um empreendedor. 18 Virgínia Trigo - Empreendedorismo 4. – Aquisição dos recursos necessários Uma vez determinados os recursos de que necessita o empreendedor irá encontrar a melhor forma de os adquirir. Uma regra fundamental para toda a empresa nascente é a de não se comprometer com activos fixos de forma a garantir a flexibilidade que lhe permita liberdade de movimentos, uma condição essencial no início do negócio quando a incerteza irredutível é maior. Pelo contrário o empreededor deverá preocupar-se sobretudo com o fundo de maneio – uma necessidade permanente da empresa e que, como tal, deverá ser coberta por capitais permanentes – e gerir no dia a dia os fluxos de tesouraria. Para uma empresa nascente, as formas de aquisição passam por alugar, pedir emprestado, fazer sublocação financeira, subcontratar, trocar e outros métodos de alavancagem, sem exposição de activos. Não incluem comprar nem garantir emprego permanente. O emprego permanente é uma consequência da vida saudável do negócio: impô-lo ou considerá-lo como tal à partida só por obra do acaso não resultará no insucesso empresarial. O empreendedor de sucesso sabe isto, mas também sabe que o despedimento e a rotação de pessoal acarretam custos elevados, visíveis e invisíveis (conhecimento tácito, capital intelectual, capital relacional...) que ele não estará disposto a suportar. Os recursos financeiros preocupam muitos futuros empreendedores no nosso país e, embora em geral eles não sejam nem os mais escassos nem os mais críticos para o futuro empreendedor, convém saber que: a) Como o demonstrou Amar Bidhe no seu livro «The Origin and Evolution of New Businesses», todas as empresas começam pequenas. É apenas porque olhamos e estudamos os empreendedores quando estes já se encontram em fases adiantadas da sua carreira empresarial que ficamos com uma ideia errada sobre o seu começo. Quer isto dizer que muitos empreendedores começam o seu negócio a partir de poupanças pessoais: a poupança é essencial ao empreendedorismo, seja a nível pessoal ou nacional. Muitos também utilizam o cartão de crédito, remunerações diferidas e outras formas criativas de obtenção de fundos. b) No início do negócio o excesso de fundos pode ser prejudicial ao seu desenvolvimento – como se aplicássemos musculação a uma criança de poucos meses – e, tanto o montante do investimento como a sua origem vão variando de 19 Virgínia Trigo - Empreendedorismo acordo com o ciclo de financiamento da empresa. A figura que se segue ilustra este ciclo: OPV/Mercado Capit. Capitais Desenvolv. Capitais de risco ‘Business Angels’ Os 3 F’s Necessidades de Investimento Fig. 7 – O ciclo de investimento 5 4 1 2 3 Tempo No início da sua actividade é frequente os empreendedores recorrerem a um conjunto de entidades que se convencionou chamar os 3 F’s: Family (família), Friends (amigos) e Fools (loucos). Qualquer destes elementos fornece normalmente fundos de curto prazo, em quantidade variável mas em geral nunca suficiente para as necessidades futuras do empreendedor. Este tudo fará para, através de ganhos de produtividade, encontrar capacidade de auto-financiamento e, eventualmente, caso isso lhe interesse, aliciar ‘business angels’ para que participem no seu negócio. Os ‘business angels’, que já existem por toda a Europa e também em Portugal, podem actuar de forma independente ou em associações e são investidores interessados em participar na expansão inicial de um negócio que em geral conhecem bem e no qual querem intervir. As suas contribuições aumentam o capital próprio da empresa e o que atrai um ‘business angel’ não são os lucros, mas sobretudo as mais valias que consegue à saída, no fim do período contratual (em geral nunca inferior a cinco anos). A entrada de um ‘business angel’ deve ser encarada com cuidado pelo empreendedor: por um lado ele traz capital fresco, de longo prazo e, eventualmente, competências de gestão que poderão ajudar ao 20 Virgínia Trigo - Empreendedorismo desenvolvimento do negócio; por outro, o empreendedor vai perder poder de decisão. Tal como num casamento existem vantagens e desvantagens e, de facto, a relação com o ‘business angel’ é um casamento com divórcio marcado pelo que uma condição essencial para o êxito da relação é que exista empatia – e confiança – entre as partes. A figura do ‘business angel’ é de enorme interesse para o desenvolvimento de uma sociedade empreendedora e como tal deve ser acarinhada e promovida. Trata-se de desviar fundos (e competências) de aplicações financeiras, para a economia real, produtiva, com os benefícios que isso tem para o nosso desenvolvimento futuro. O capital de risco é uma figura em tudo semelhante à do ‘business angel’ porém mais profissionalizada. Contrariamente ao entendimento comum, só se interessa por empresas com elevado potencial, em estádios mais desenvolvidos do ciclo de vida empresarial, isto é, por empresas que já deram provas. Também entra com capitais próprios, a (longo) prazo e intervém na gestão embora em geral não de uma forma tão directa, tão ‘mãos na massa’, como o ‘business angel’ o faz. Os capitais que se seguem nas fases 4 e 5 correspondem normalmente a saídas de capitais de risco do negócio e envolvem grandes quantias que bancos de investimento (fase 4) ou os mercados de capitais (fase 5) estão preparados para fornecer. É evidente que, paralelamente a esta oferta financeira, continuam a existir formas convencionais de financiamento como sejam os empréstimos bancários. A diferença que existe é que, em geral, estes exigem garantias reais que empresas nascentes ou em fases iniciais da sua actividade não estão em condições de prestar, enquanto os ‘business angels’ ou as empresas de capital de risco apostam na promessa contida no conceito de negócio e na capacidade implícita (qualidade subjectiva) na equipa de gestão. De notar que, em qualquer caso, o financiamento – ou qualquer outro recurso – não é dado ao plano de negócios, mas sim à equipa, ou à pessoa que tem o plano de negócios. Os investidores sabem que, numa envolvente altamente incerta, nada se vai passar como está previsto no plano e querem ter a certeza de que, perante as alterações que irão acontecer, aquela equipa ou aquela pessoa vão ser capazes de tudo fazer para encarar as situações de um novo ângulo e de tornar o projecto bem sucedido. A tensão existente entre o que uma empresa contém de promessa e de provas dadas (desempenho) perante a incerteza irredutível que tem de enfrentar ao longo do tempo pode ser ilustrada na seguinte figura: 21 Virgínia Trigo - Empreendedorismo Fig. 8 – Ciclo de vida empresarial: Promessa vs. desempenho Desempenho Promessa Incerteza irredutível Tempo No início o empreendedor tem muito mais promessa para oferecer do que desempenho e enfrenta também um elevado grau de incerteza irredutível. Por isso não será uma boa ideia aplicar fundos em activos fixos – imóveis por definição – nem hipotecar garantias reais que de resto provavelmente não tem. 5. – Implementação e Gestão Adquiridos os recursos necessários o empreendedor irá agora implementar o projecto. Antes de tudo convém que faça uma avaliação objectiva do seu negócio no panorama competitivo. Uma análise das combinações possíveis entre as variáveis ‘vantagem técnica’, isto é o grau de diferenciação intrínseca do conceito em relação a outras soluções disponíveis, e ‘capacidade de protecção’, isto é a capacidade que o empreendedor tem de proteger essa vantagem técnica, poderá ajudar nesta avaliação conforme se apresenta na seguinte figura: 22 Virgínia Trigo - Empreendedorismo Capacidade de Protecção Fig. 9 – Posicionamento da empresa no panorama competitivo Situação Protegida Situação Inovadora II III Situação Exposta Situação Pioneira I IV Vantagem técnica É importante que o empreendedor seja o mais objectivo possível. Seria um grave erro se ele se posicionasse numa situação inovadora quando na realidade a sua posição é exposta: para cada situação existem estratégias diferentes que o empreendedor deverá prosseguir. Se, a uma situação exposta, ele aplicar estratégias adequadas à situação inovadora, o insucesso está garantido. De resto, a maior parte das empresas na economia está numa situação exposta. Sobrevivem e crescem através de estratégias úteis adequadas às variáveis críticas do seu conceito: preço, qualidade do produto, distribuição, localização, comunicação, custos... Nos dois quadrantes superiores temos empresas que gozam de elevada capacidade de protecção, mas por razões diferentes. No quadrante II a protecção advém de razões extrínsecas ao conceito: a empresa está protegida por barreiras à entrada que podem ser do tipo legal propiciadoras de uma situação de monopólio, de cartel ou quaisquer outras formas de associativismo mais ou menos legítimas, de patentes – algumas já de longa data, do nível de investimento necessário para aquele negócio em particular, etc.. Neste caso as empresas não têm o mesmo tipo de preocupações das que se encontram numa situação exposta e desenvolvem estratégias que lhes permitam a manutenção da protecção de que gozam e que são sobretudo de ‘lobbying’ político. As empresas verdadeiramente inovadoras estão protegidas pelo grau de vantagem técnica do seu conceito: um conceito é tanto mais inovador quanto mais difícil for de 23 Virgínia Trigo - Empreendedorismo entender ou de imitar pela concorrência. Como os produtos são cada vez mais facilmente e mais depressa copiáveis, para aumentar a sua vantagem competitiva, o empreendedor deverá juntar ao conceito variáveis intangíveis – mais ligadas ao serviço – que os outros tenham dificuldade em entender e portanto em imitar. É neste quadrante que se encontram empresas como o Cirque du Soleil que ‘nada’ sózinho no oceano azul do seu sector, como o descreveram W. Chan Kim e Renée Mauborgne no seu livro ‘Blue Ocean Strategy’2 e, até certo ponto, a Walmart, a maior empresa do mundo, uma empresa de distribuição que é mais do que um clássico supermercado beneficiando de uma situação entre exposta e inovadora. Finalmente, uma empresa pioneira (quadrante III) sabe que a vantagem técnica que detém é facilmente imitável pelo que a rapidez e a oportunidade da sua chegada ao mercado são cruciais. Terá de dar especial atenção à reputação do líder do mercado, à necessidade de activos complemetares e de proteger o seu segredo tanto quanto possível. A gestão do negócio é um factor crítico e nunca é demais afirmar que o sucesso do empreendedorismo tem três segredos: o primeiro é boa gestão, o segundo é boa gestão e o terceiro é boa gestão. Passados os momentos iniciais de implementação do negócio em que é fácil motivar pessoas em redor de um projecto comum – todos nos sentimos entusiasmados por participar num projecto que nasce – o empreendedor deve agora concentrar-se na gestão do dia a dia e em fazer a sua empresa crescer. O seu sucesso não estará completo antes disso. Se não crescer, uma negócio morre, porque tudo à nossa volta muda. É, mais uma vez, uma questão de tempo e de mercado. Quanto menos dinâmico for o mercado maiores são as hipóteses de a empresa sobreviver vegetando, o que, em economias abertas, se torna cada vez mais difícil. Então como é que uma empresa cresce? Apenas os ganhos de produtividade permitem o crescimento e estes são uma responsabilidade exclusiva da gestão. É importante que se desmistifique de uma vez por todas o ónus da ‘falta’ de produtividade indevidamente atribuída à força de trabalho. A produtividade depende do modo como a empresa é organizada, de como e que recursos são adquiridos, de como e que tecnologia é utilizada: tudo factores sob o controlo da gestão. 2 Kim, W. Chan e Mauborgne, Renée, ‘Blue Ocean Strategy: How to Create Uncontested Market Space and Make Competition Irrelevant’, 2005, Harvard Business School Press 24 Virgínia Trigo - Empreendedorismo Qualquer empreendedor tem um ganho de produtividade se conseguir produzir um produto de qualidade superior em relação aos concorrentes, com recursos comparáveis. Se o fizer com menos recursos, maior será o ganho de produtividade. É do interesse do empreendedor estabelecer desde logo uma organização empreendedora: orientada para as oportunidades, inovadora, disposta a correr riscos calculados e pro-activa. O que é necessário para que isso aconteça não cabe no âmbito destas folhas, mas vale a pena recomendar que o empreendedor esteja atento ao desenvolvimento da cultura organizacional e que a encare como a mais importante missão pessoal que a si próprio cabe. Todas as organizações têm uma cultura, quer o empreendedor queira quer não e é do seu maior interesse que ela seja saudável e empreendedora: a cultura que estamos agora a criar na nossa empresa é aquela que vamos ter no futuro e então será muito difícil mudá-la. 6. – Saída Estratégica Chegámos à última etapa do processo de empreendedorismo que não é mais do que o recomeçar do ciclo, isto é, a identificação de uma nova oportunidade. Começámos por dizer que o empreendedor entra no negócio com uma ideia para entrar e outra para sair. Perante novas circunstâncias a saída que ele agora encontra pode ser bem diferente da que identificou no início, mas o que importa é que ele sempre soube que havia uma saída possível. Sair não significa fechar a empresa – embora essa seja uma possibilidade -, mas antes encontrar o momento oportuno para aplicar o autofinanciamento entretanto acumulado e: expandir ou diversificar, quer em termos de mercado quer de produto; ou, pelo contrário, recentrar no negócio-chave; estabelecer uma franquia; licenciar os direitos de utilização; vender no todo ou em parte; transmitir o negócio a possíveis herdeiros; e muitas outras saídas estrategicamente possíveis. Um verdadeiro empreendedor não descapitaliza a sua empresa, antes utiliza o capital acumulado com os ganhos de produtividade para continuamente a revitalizar, perante ciclos de vida de produtos e serviços cada vez mais curtos, procurando continuamente, com tenacidade e firmeza, as oportunidades que pode e deve perseguir. ------------- FIM ------------- 25 Virgínia Trigo - Empreendedorismo 26