Água, Agricultura e Insegurança Alimentar
Na terceira reportagem da série especial Água: O Mundo e um Recurso Precioso, a equipe da
Rádio ONU investiga a ligação entre a água, a agricultura e a insegurança alimentar, que ameaça
deixar milhares de pessoas sem ter o que comer.
Daniela Gross e Eleutério Guevane, da Rádio ONU em Nova York *
“N
ós produzíamos muito
nas nossas terras, batatas, mandioca. Mas isso acabou. O clima mudou.”
A frase da boliviana Maruja
expressa as mudanças sentidas por ela na terra, a qual
antigamente, dava o sustento
dela. Com lágrimas nos olhos,
Maruja lembra dos tempos em
que vivia na Illimani, a montanha mais alta na Cordilheira
Real, localizada no oeste da
Bolívia.
“O lugar era lindo, tinha muita
neve antes, mas agora, acabou. Agora, tem pouquíssima
água”, descreve.
A Vida na Capital
A escassez d’água e os efei-
tos na plantação obrigaram
Maruja a mudar para a capital
La Paz, onde a vida com a
falta de água potável provou
ser ainda mais difícil.
“Milha filha morreu. Ela era
pequenininha. Por causa da
falta de água, ela morreu. Ela
ficou doente porque eu tive
que dar banho nela com água
usada”, conta.
As lavouras que secaram, a
falta d’água para beber e a
morte da filha, acabaram com
as esperanças de Maruja em
relação ao futuro.
“O que é que vai acontecer?
Isso vai acontecer com todos
nós. O que nós vamos fazer?
É assim que vai ser. Tudo vai
secar. Não vão mais existir
frutas. Não vão mais existir
vegetais para comer. É assim
que vai ser”, acredita.
Crise Alimentar
O direito humano à água
fresca está diretamente ligado
a um outro direito essencial,
o da alimentação. Segundo
a Convenção da ONU de
Combate à Desertifição, a
agricultura é o setor que mais
utiliza água no mundo.
70% do recurso são consumidos para a produção de
alimentos, fazendo com que
a escassez de água tenha
efeitos diretos na agricultura.
A estimativa é de que 80% da
crise alimentar mundial estão
ligados a questões da água e
secas.
Produção de Alimentos
e estes impactos resultaram
das mudanças dos padrões
do clima. O que nós sabemos é que a porcentagem da
população desnutrida deve
aumentar, a não ser que possamos garantir que a produção
de alimentos acompanhe o
crescimento populacional,
e que também levemos em
consideração as mudanças na
quantidade de água disponível”, alerta.
Para a ONU Água, a escassez do recurso
pode limitar a produção dos alimentos, com
efeitos sobre o preço dos produtos. Um dos
maiores fatores por trás da crescente demanda
da água, está exatamente no aumento da
produção agrícola para satisfazer uma população que até 2050, deve atingir 9 bilhões de
pessoas.
Por dia, uma pessoa precisa entre dois a quatro litros de água para beber. Já para produzir
a comida consumida diariamente para uma
pessoa, são gastos em média entre dois a 5 mil
litros.
Maiores Obstáculos
Mudança nas Dietas
Ao fator populacional, de acordo com a ONU
Água, também se soma a mudança nas dietas,
impulsionada pelo desenvolvimento econômico,
principalmente nos países emergentes. Mais e
mais pessoas agora desenvolvem um paladar
por carnes e derivados do leite, colocando uma
pressão extra nas fontes de água.
Para produzir um quilo de arroz, por exemplo, são necessários de mil a 3 mil litros de
água. Em contrapartida, a produção de um
quilo de carne, de um animal alimentado por
grãos, gasta em média de 13 a 15 mil litros.
Biocombustíveis e Mudanças Climáticas
A recente aceleração da produção de biocombustíveis e as mudanças climáticas também
interferem na questão da água. Como exemplo
dos impactos das mudanças climáticas, a ONU
Água cita a neve e gelo nos Himalaias, que
devem diminuir em 20% até 2030.
Grande parte da água utilizada na agricultura
na Ásia vem justamente desta neve e gelo. A
população local já nota as mudanças, como diz
este senhor que vive em uma pequena vila no
Nepal.
“O lugar todo costumava ser coberto por neve.
Quando eu era criança, era normal ter pelo
menos um metro de neve. Agora, se nós tivermos seis polegadas já consideramos uma nevasca. A água se tornou escassa em todos os
locais. Agora só temos acesso a uma fonte de
água, e mesmo nesta fonte, é difícil conseguir
água”, diz.
Efeitos na Produção de Alimentos
O diretor da ONU Água e também diretor do
Instituto para a Água, Meio Ambiente e Saúde
das Nações Unidas, Zafar Adeel, falou à Rádio
ONU em Toronto, que os efeitos na produção
de alimentos são significantes. “Quando observamos as áreas de agricultura mais intensas,
são estas áreas que também foram impactadas
A estimativa é que o rendimento das plantações de cereais no
mundo sofra uma queda de 5% a cada 2ºC de aumento na temperatura c
Processo de Salinização
deve ser acelerado, e com
Entre os maiores obstáculos
isso,
as
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para o uso na agricultura. Para
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outras que dependem do uso
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com certeza
utilizando menos água”,
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da
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do Sahel, onde as pessoas
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de
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Dificuldade
das mudanças
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Ciclo Hidrológico
crescente para
semi-áridas das
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água.
Américas,
da
Austrália
e
do
sul
A previsão é que a tempera“Nós sempre pegávamos água
da África, regiões que já entura atmosférica aumente 4°C
do poço, mas o poço ficou
frentam problemas com água.
até 2080. O ciclo hidrológico
Países Africanos de Língua Portuguesa
Dados do Atlas da África do Programa das
Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma,
mostram que em Cabo Verde, por exemplo, o
uso do limite das águas dos aquíferos, a maior
parte para atividades agrícolas, resultaram
num processo de salinização, que se tornou
num dos maiores problemas ambientais do
país. Em Moçambique, eventos climáticos
extremos criam sérios desafios ligados à segurança alimentar e à água no país.
As secas que atingiram Moçambique, no
início de 2010, destruíram mais de 30% das
plantações do país. Mas além das secas, as
enchentes também afetam as lavouras, como
conta esta mulher, que planta às margens do
rio Limpopo.
“Nós preparamos a terra e plantamos milho. As
enchentes vêm e destroem tudo”, descreve.
Estratégias de Adaptação
Na África, até 2025, entre 75 e 250 milhões de pessoas devem passar a sofrer com um aumento na
escassez da água, e plantações dependentes da chuva poderão registrar uma queda em até 50%.
cheio de areia. Agora, nós
temos que cavar buracos na
areia para tentar conseguir
água. No tempo dos nossos
antepassados tinha bastante
chuva, mas agora, tudo mudou, e quase nunca chove”,
lembra.
Áreas Mais Vulneráveis
Na Ámerica do Sul, os
maiores problemas identificados pelo relatório são a
possibilidade de declínio da
produtividade das plantações e
das atividades pecuárias, além
da perda da biodiversidade
em locais como os Andes e a
Amazônia. De acordo com o
estudo da FAO, 80% das plantações no planeta dependem
da água da chuva, e são estas
áreas as mais vulneráveis às
mudanças climáticas, princi-
palmente nas regiões áridas e
semi-áridas.
Segundo o especialista em
recursos hídricos da Agência Nacional de Águas, ANA,
Alexandre Lima, o nordeste
do Brasil é uma área onde os
efeitos dos padrões das chuvas são visíveis.
Nordeste do Brasil
“A região nordeste sofre muito
com o regime de chuvas que
ocorre na região e devido ao
solo que tem muita dificuldade
para armazenar água para a
captação subterrânea, principalmente na região do semiárido. Além disso, existe uma
alta taxa de evaporação, e isso
compromete a garantia de disponibilidade hídrica”, explica.
África
De acordo com o relatório
da FAO, países desenvolvidos como a Austrália já estão
sentindo os efeitos das mudanças climáticas na agricultura, mas serão os países mais
pobres que sofrerão mais.
Setores de subsistência estão
ameaçados, principalmente na
África, onde até 2080, cerca
de 75% da população correm
risco de viver em situação de
fome.
No continente, até 2025, entre
75 e 250 milhões de pessoas
devem passar a sofrer com um
aumento na escassez da água,
e plantações dependentes da
chuva poderão registrar uma
queda em até 50%. Como diz
este agricultor do Senegal, viver da terra está cada vez mais
dificil. “As chuvas se tornaram
inconstantes nos últimos anos.
Nossas colheitas foram muito
ruins”, conta.
Neste cenário de mudanças climáticas, estratégias de adaptação serão essenciais, explica
Cristina Amaral, da FAO. “Tem que se caminhar para uma maior eficiência dos sistemas,
e também a nível das bacias hidrológicas, e
adaptar os tipos de culturas onde a água se
torna mais escassa ou onde as inundações
serão mais frequentes”, alerta.
No Nepal, estes agricultores desistiram de
plantar o tradicional arroz, e agora, colhem
lucros com as plantações de bananas. “Todos
os anos, nós plantávamos novas sementes
e trabalhávamos duro nas plantações, mas
a comida só dava para três meses. Nós não
tivemos nenhuma outra opção, a não ser tentar
alguma coisa diferente”, explica.
Padrões de Eficiência
Para o antropólogo, sociólogo e professor da
Unicamp, Maurício Waldman, que conversou
com à Rádio ONU de São Paulo, o investimento em padrões de eficiência na agricultura é
essencial. Ele cita como exemplo, o nordeste.
“O geógrafo Manoel Corrêa de Andrade, um
grande geógrafo pernambucano, fez um estudo
de pluviometria no nordeste e verificou que
o município de Cabeceiras é o mais seco do
Brasil. Ele comparou os dados de pluviometria
Em Moçambique, eventos climáticos extremos criam sérios
desafios ligados à segurança alimentar e à água no país.
de Cabeceiras com os dados da pluviometria
de Israel, que é um país líder na questão de
ecoficiência, e descobriu que em Cabeceira,
que é o município mais seco do Brasil, chove
em média 10 vezes mais do que em Israel”, diz.
Sistema de Irrigação Brasileiro
Para Maurício, no Brasil, por exemplo, o sistema de irrigação de muitas áreas está defasado,
e é preciso investir em sistemas computadorizados, onde se possa diminuir as perdas. Por
outro lado, para ele, existe um limite nas possibilidades de adaptação.
“Se pensarmos em termos de adequação,
você tem que lembrar que existem limites
biológicos, da própria vida que se impõem.
Então, temos que pensar numa política mais
ampla”, acredita.
Conflitos Futuros
Para a especialista em infraestrutura da sede
do Banco Mundial no Brasil, Juliana Garrido,
que falou com à Rádio ONU
de Brasília, o investimento na
área é fundamental para que
se diminua possíveis conflitos
futuros.
“Se não tomarmos cuidado e
não trabalharmos em cima dos
recursos hídricos a tendência
é que a escassez aumente,
que a poluição aumente e que
os conflitos pelo uso da água
fiquem mais exarcebados do
que antes. Por exemplo, entre a indústria, a população e
irrigação, e este conflito pode
ser realmente uma questão
complicada de se resolver num
médio e longo prazos”, diz.
Investimentos Estrangeiros
Em Moçambique, por exemplo, de acordo com o economista da Universidade Politécnica, João Mosca, que falou à
Radio ONU do país africano
de língua portuguesa, grandes
investimentos estrangeiros já
estão gerando disputas relacionadas à agua, terra, e populações locais do país. Para
ele, estas não são tensões
que possam levar o país de
volta a uma guerra civil, mas
são questões que devem ser
observadas com seriedade.
“Por ser um recurso escasso
em Moçambique, porque há
muita água mas pouca infraestrutura do aproveitamento
do recurso, como barragens,
naturalmente que aparecendo
um grande consumidor de
água também ocorrerá novos
critérios de distribuição do
recurso, e, consequentemente,
os antigos utilizadores sofrerão
com isso. Já existem situações
deste tipo, especialmente nas
plantações de cana-de-açúcar,
em que os pequenos e médios
produtores já sofrem as con-
sequências no aproveitamento
da água”, alerta.
Moçambique
Como esta moçambicana diz,
a disponibilidade da água nem
sempre é garantia do recurso.
“Temos muita água, mas
temos barreiras também dos
grandes empresários”, diz.
A questão da compra de terra
por investidores estrangeiros
foi lembrada pelo ex-secretário-geral das Nações Unidas
e atual diretor da Aliança por
Uma Revolução Verde na
África, Kofi Annan.
“É muito pertubador que um
relatório recente indicou que
terras agrícolas que juntas
equivalem ao tamanho da
França tenham sido compradas na África somente em
2009, através de fundos hedge
e outros especuladores. Não
é justo e nem sustentável que
terras sejam retiradas das
comunidade desta forma”,
defende.
Assunto Delicado
Annan ao mesmo tempo disse
acreditar que grandes empreendimentos agrícolas possam ter um papel importante
na integração dos pequenos
agricultores e dos mercados
internacionais. O mesmo
acredita Cristina Amaral, da
FAO. Para ela, o investimento
privado é essencial para suprir
o aumento na demanda por
alimentos. Ao mesmo tempo,
fala que o assunto é delicado.
“Ter um setor privado que
investe na agricultura é um
fator positivo, porque é isso
que realmente criará um aumento de produtividade. Mas o
investimento no setor privado
pode ser feito com políticas de
governo que não excluam os
pequenos produtores, que não
marginalizem a mão-se-obra
rural no processo de desenvolvimento. E que portanto,
eles possam se beneficiar diretamente destes investimentos”,
acredita.
A Terra é Vida
Secas, enchentes, o futuro
incerto. Como diz a FAO, as
mudanças climáticas já são
“largamente aceitas como
reais, os principais argumentos
agora, são relacionados ao
grau das mudanças, aos impactos e as melhores formas
de adaptação.”
Independente disso, para
mulheres como esta moçambicana, a terra continua sendo
a vida.
“Não existe nenhuma coisa
mais rica que a terra. Mesmo
vendo os prédios, as fabricas,
os carros, tudo sai da terra. A
terra é de quem trabalha nela”,
Edição: Mônica Villela Grayley
Assistência de Produção: Leda
Letra e Luisa Leme
Na próxima parte: a água –
fonte de influência em conflitos, mas também de
cooperação
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