PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Juliana Soares Moura Costa Tipologias Culturais e Ciclo de Vida Organizacional: O Caso ENSR AECOM Dissertação de Mestrado Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre pelo Programa de PósGraduação em Administração de Empresas do Departamento de Administração da PUC-Rio. Orientadora: Patrícia Amélia Tomei Rio de Janeiro Fevereiro de 2008 Livros Grátis http://www.livrosgratis.com.br Milhares de livros grátis para download. Juliana Soares Moura Costa Tipologias Culturais e Ciclo de Vida Organizacional: PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA O Caso ENSR AECOM Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre pelo Programa de Pósgraduação em Administração de Empresas do Departamento de Administração da PUC-Rio. Aprovada pela Comissão Examinadora abaixo assinada. Prof. Patrícia Amélia Tomei Orientadora Departamento de Administração-PUC-Rio Prof. José Roberto Gomes Departamento de Administração-PUC-Rio Prof. Jorge Augusto de Sá Brito e Freitas Universidade Estácio de Sá Prof. João Pontes Nogueira Vice-Decano de Pós Graduação do CCS Rio de Janeiro, 19 de fevereiro de 2008 Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial do trabalho sem autorização da universidade, do autor e da orientadora. Juliana Soares Moura Costa Graduou-se em Engenharia Civil Ambiental e Engenharia de Produção Civil na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, PUC-Rio, em 2002. Em 2005 concluiu o curso de Especialização em Análise e Avaliação Ambiental, em nível de Pós-Graduação “Lato Sensu”, na Coordenação Central de Extensão da PUC-Rio. Atualmente é Gerente de Licenciamento da multinacional ENSR, aonde gerencia uma equipe de dezessete profissionais e diversos projetos na área ambiental. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Ficha Catalográfica Costa, Juliana Soares Moura Tipologias culturais e ciclo de vida organizacional : o caso ENSR / AECOM / Juliana Soares Moura Costa ; orientadora: Patrícia Amélia Tomei. – 2008. 119 f. ; 30 cm Dissertação (Mestrado em Administração)– Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008. Inclui bibliografia 1. Administração – Teses. 2. Cultura organizacional. 3. Ciclo de vida das empresas. 4. Gerenciamento cultural. I. Tomei, Patrícia Amélia. II. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Departamento Administração. IV. Título. CDD 658 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Para minha família, em especial sua mais nova integrante, minha princesinha. Agradecimentos Ao meu marido, pelo apoio, paciência, companheirismo e pela linda família que estamos formando. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Aos meus pais, pelo constante e incondicional incentivo, apoio, carinho e atenção. Aos meus irmãos, aos tios Erlane e Christine, aos primos Marcus e Márcia, e a todos os outros familiares que de alguma forma contribuíram para que eu terminasse mais esse projeto. À professora e orientadora Patrícia Tomei, pela dedicação, paciência, aprendizado e confiança que tornaram possível realizar essa obra. À ENSR pelo aprendizado ao longo de cinco anos de convivência profissional. Aos profissionais e amigos que contribuíram de forma direta ou indireta com a elaboração deste trabalho, sem os quais nada teria sido feito. Ao Marco Aurélio de Sá Ribeiro, pelas importantes contribuições a esse trabalho e incentivo. Aos amigos do mestrado acadêmico, cujas trocas dentro e fora da sala de aula serviram como grande aprendizado. Aos professores José Roberto Gomes, Sergio Proença, Marie Agnes Chauvel, Jorge Ferreira, Paulo César Mota e Diana Macedo Soares pela troca e aprendizado em suas disciplinas. A todos os meus amigos, que de uma forma ou de outra me ajudaram a completar mais essa etapa. Resumo C o s t a, J u l i ana S oares M ou ra; To m ei , P at rí ci a Am el i a. T i p ol o gi as Cu l tu rai s e Ci cl o d e Vi d a O rga n i za ci o n a l : O Cas o E NS R AE CO M. R i o d e J anei ro, 20 0 8. 11 9p . Di s s ert ação de M es t rad o - D ep art am en t o d e Adm i ni s t raçã o , P on t i fí ci a Uni v ers i d ad e C at ó l i ca d o R i o de J an ei ro. Esta dissertação analisa o gerenciamento cultural ao longo do ciclo de vida de uma organização. Para tanto, foi feito um estudo de caso da ENSR Brasil – ENSR International Brasil Ltda., empresa do mercado de consultoria ambiental, presente no Brasil desde 1998. Com base em uma análise qualitativa, neste PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA trabalho foi avaliada a evolução da cultura organizacional da ENSR Brasil em seus diferentes estágios evolutivos e, com base em modelos e tipologias culturais identificados na literatura, analisado o processo de mudança cultural instituído na empresa a partir de 2006, depois de instituída influência mais direta e efetiva da matriz americana. O resultado deste estudo reforça a literatura sobre o tema referente à questão da forte correlação entre cultura e ciclo de vida, evidenciando a importância de variáveis como a estrutura de poder e o processo decisório no gerenciamento da mudança organizacional. Palavras-chave Cultura Organizacional; Ciclo de Vida das Empresas; Gerenciamento Cultural. Abstract C o s t a, J u l i ana S oares M ou ra; To m ei , P at rí ci a Am el i a. Cu l tu ra l T yp ol o gi es an d O rg a n i zati on al Li f e Cy cl e: Cas e E NS R AE CO M. R i o de J an ei ro , 2 0 08 . 11 9 p. M S c. Di s s ert at i o n - D ep art am en t o d e Adm i n i s t ração , P o nt i fí c i a Un i vers i d ad e C at ól i ca d o R i o de J an ei ro. This essay analyses the cultural management along the organization life cycle. With this purpose, a case study was developed based on the research of the company ENSR Brasil – ENSR International Brasil Ltda., which was established in Brazil in 1998. Based on a qualitative analysis, this works evaluates the PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA evolution of ENSR Brasil’s organizational cultural in its different evolution stages. Additionally, by applying models and typologies identified in the literature, it analyses the process of cultural change established in the company from 2006 on, after a more direct and effective influence of the American head office was instituted. The result of this study reinforces the literature about the subject related to the strong correlation between culture and life cycle, pointing out the importance of variables such as power structure and the decision process in the management of the organizational change. Ke yw ords Organizational Culture; Organizational Life Cycle; Culture management. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Sumário 1. O Problema 11 1.1. Introdução 11 1.2. Objetivos 12 1.3. Delimitação do Estudo 13 1.4. Relevância do Estudo 13 2. Referencial Teórico 16 2.1. Cultura Organizacional 16 2.1.1. Definições e conceituação 16 2.1.2. Formação e características da cultura organizacional 21 2.1.3. Importância e funções 25 2.2. Manifestações e Níveis Culturais 26 2.2.1. A abordagem de Schein 27 2.2.2. A abordagem de Trice & Beyer 29 2.3. Tipologias Culturais – Decifrando a Cultura Organizacional 32 2.3.1. Modelo de Charles Handy 33 2.3.2. Modelo de Sethia & Von Glinow 35 2.3.3. Modelo de Donnelly 37 2.3.4. Modelo de Deal & Kennedy 37 2.3.5. Modelo de Davis 40 2.3.6. Modelo de Barros e Prates 40 2.4. Ciclo de Vida das Organizações 42 2.5. Gerenciamento Cultural 45 2.5.1. Liderança e gerenciamento cultural 48 2.6. Mudança Cultural 50 2.6.1. Modelo de Pettigrew 51 3. Metodologia 54 3.1. Tipo de Pesquisa 54 3.2. Seleção do Caso e Escolha dos Sujeitos 55 3.3. Descrição das Etapas da Pesquisa 57 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA 3.4. Coleta de Dados 58 3.5. Fundamentação Metodológica 59 3.6. Tratamento dos Dados 59 3.7. Limitações do Método 60 4. Estudo de Caso: ENSR Brasil 62 4.1. Histórico 62 4.1.1. Histórico da ENSR 62 4.1.2. Histórico da AECOM 63 4.1.3. Histórico da ENSR Brasil 63 4.2. Definição do Negócio 65 4.2.1. Serviços, posicionamento, vendas e marketing 67 4.2.2. Missão 69 4.2.3. Visão 69 4.2.4. Valores 69 4.2.5. Localização física e descrição da operação 71 4.3. Estrutura Organizacional e Evolução no Número de 73 Funcionários 4.4. Desenvolvimento Organizacional 79 4.4.1. Política de remuneração e premiações 79 4.4.2. Recrutamento e seleção 81 4.4.3. Processos sucessórios 82 4.4.4. Outras ações de desenvolvimento organizacional 82 4.4.5. Responsabilidade social 84 5. Análise da Cultura Organizacional 86 5.1. Análise do Ciclo de Vida 87 5.2. Análise da Cultura Organizacional no Estágio de Nascimento 91 5.3. Análise da Cultura Organizacional no Estágio de Meia-Vida 93 Organizacional 5.4. Análise da Cultura Organizacional no Estágio de Maturidade Organizacional 97 5.5. Comparação da Cultura Organizacional antes e após a 101 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Reestruturação Organizacional de 2006 5.6. Gerenciamento da Mudança 105 6. Conclusão 112 6.1. Recomendações 113 6.2. Sugestões para Pesquisas Futuras 114 7. Referências Bibliográficas 115 8. Apêndice – Questionários Aplicados 118 11 1 O Problema 1.1 Introdução O cenário organizacional atual vem tornando-se cada vez mais complexo e dinâmico, com mudanças constantes nos ambientes internos e externos das empresas, passando por reestruturações, fusões e aquisições, crescimento repentino, incertezas regulatórias, entre outros. Essa dinâmica faz com que as organizações busquem um entendimento cada vez mais aprofundado de todas as suas forças e fraquezas e seus potenciais diferenciais competitivos, de forma a permitir uma melhor adaptação a esse ambiente extremamente complexo. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Um dos fatores que já vem sendo estudado há algumas décadas, mas cuja relevância ganhou destaque a partir da década de 80, é a cultura organizacional, definida por diversos autores de diferentes formas, mas que representa um sistema de valores compartilhado pelos membros de uma organização que a diferencia das demais (ROBBINS, 2005). Ainda não há consenso na academia sobre a possibilidade de se mudar uma cultura organizacional, ou seja, se a organização é uma cultura ou se a cultura é algo que ela possui. Porém, é unanimidade que o conhecimento da cultura organizacional e suas características é essencial para o gerenciamento de uma organização, representando importante variável para a manutenção ou obtenção do sucesso. Ao longo da vida de uma organização, cada vez mais estruturas e estratégias flexíveis são perseguidas de forma inovadora para se adaptar ao ambiente em constante mudança. No entanto, muitas vezes as empresas esbarram em barreiras à mudança que dificultam a constante adaptação a essas pressões do ambiente. Por isso destaca-se a necessidade de estabelecer valores e crenças organizacionais que permitam que a cultura da organização esteja alinhada com estas estruturas e estratégias. Logo, urge que as empresas trabalhem esses pressupostos culturais de forma a manter o sucesso alcançado ou evoluir através de mudanças estruturais, estratégicas e também culturais. 12 Logo, a pergunta que surge é: qual o impacto da evolução de uma empresa ao longo de seu ciclo de vida na sua cultura organizacional? Esta questão irá nortear este trabalho, buscando relacionar a evolução de uma empresa ao longo de seu ciclo de vida às tipologias culturais e avaliar as possibilidades de gerenciamento da mudança cultural, à luz das teorias de evolução cultural, tipologias culturais e mudança e gerenciamento cultural identificadas na literatura organizacional. 1.2 Objetivos Para definir os objetivos deste estudo, usamos o conceito de Schein (2004) PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA de que a cultura de uma organização é um mundo de valores e pressupostos amplos e sua descrição pode preencher numerosos volumes, logo o administrador deve ter um objetivo gerencial ao analisar uma dada cultura. Portanto, o objetivo final deste estudo é avaliar o impacto da evolução de uma empresa ao longo de seu ciclo de vida em sua cultura organizacional, avaliando as possibilidades de gerenciamento da cultura em processos de mudança. Os objetivos intermediários são: • Caracterizar e delimitar os conceitos relacionados à cultura organizacional e gerenciamento cultural; • Apresentar modelos e tipologias culturais sobre a questão da evolução organizacional e mudança organizacional; • Com base no referencial teórico desenvolvido, descrever o estudo de caso, focando nos seguintes aspectos: - A evolução organizacional da empresa com base no seu ciclo de vida, relacionando com a caracterização de sua cultura organizacional e seu posicionamento nas diferentes tipologias culturais; - O estágio de crescimento em que a organização se encontra e como isto interfere na função de sua cultura hoje; 13 - As mudanças ambientais e culturais encontradas ao longo do processo evolutivo da empresa, em particular o processo de reestruturação organizacional ocorrido, identificando o gerenciamento possível dentro deste contexto. 1.3 Delimitação do Estudo Sob o ponto de vista geográfico, o estudo limita-se à filial do grupo ENSR no Brasil, a ENSR Brasil, abrangendo os escritórios no Rio de Janeiro e em São Paulo, apesar de que a empresa tem forte influência de sua matriz americana sobre os aspectos de sua cultura. O escopo deste estudo, portanto, é limitado à análise de um setor (consultoria ambiental). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Adicionalmente, além da questão da cultura organizacional, outros fatores são importantes no processo de amadurecimento de uma empresa, como a conjuntura econômica, os aspectos regulatórios, a concorrência, marketing e a estratégia adotada. Logo, o estudo não pretende esgotar todos os fatores que possam ser responsáveis pelo amadurecimento da organização. Um fator relevante que não será tratado neste estudo é a relação da evolução da empresa e de sua cultura organizacional com seu desempenho. Trataremos unicamente das questões relacionadas à cultura organizacional e seu papel no contexto de mudança. Em termos temporais, esse estudo compreende o período entre 1998, ano de criação da ENSR Brasil, e 2007, ano de mudança no comando da empresa. 1.4 Relevância do Estudo Segundo Robbins (2005), uma forte cultura organizacional dá direção à empresa e fornece direção aos funcionários, ajudando a formar uma compreensão clara acerca da “maneira como as coisas são feitas aqui”. Adicionalmente, um bom clima organizacional é o que propiciará a empresa reter os seus talentos e, da mesma forma, atrair novos talentos, fundamentais à sua competitividade num 14 cenário de tantos desafios e mudanças como o que estamos enfrentando (TOMEI, 1994). Considerando-se o ambiente externo de constante e dinâmica mudança, o aprofundamento do conhecimento sobre cultura organizacional torna-se relevante para apontar formas de gerenciar essa variável e seu impacto na administração e implementação de estratégias e mudanças estruturais que visem adaptar a organização ao ambiente externo e buscar um modelo de sucesso. O conteúdo das crenças representa o que faz a diferença entre as empresas de alto padrão – as campeãs – e aquelas insignificantes e medíocres (FREITAS, 2007). Quando tratamos de empresas de serviço, o assunto toma importância maior ainda, pelo significado crucial dos funcionários de serviços, uma vez que eles são o serviço, são a organização aos olhos do cliente e são profissionais de mercado PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA (ZEITHAML & BITNER, 2003). Segundo Deal & Kennedy (2000), organizações são instituições humanas, não prédios de pelúcia, fins da linha ou planos estratégicos de cinco anos. Ainda segundo os autores, a real existência de uma companhia está nos corações e cérebros de seus funcionários. Adicionalmente, o setor de serviços no Brasil é a grande promessa de empregabilidade (formal ou não) para um enorme contingente de profissionais que chega ao mercado de trabalho a cada ano. Outra relevância do estudo está relacionada ao ciclo de vida de empresas, em especial as pequenas e médias empresas Brasileiras que lutam contra um ambiente tributário extremamente desfavorável, baixo investimento em infraestrutura e graves problemas de distribuição de renda e educação, que ocasionam dificuldade de contratação de mão de obra qualificada. Estatísticas recentes mostram que de cada 100 empresas familiares fundadas no Brasil e no mundo, apenas 30 sobrevivem à segunda geração, 15 à terceira, e 4 à quarta (SANTOS, 2004). Além disso, de acordo com a “Demografia das empresas 2005/IBGE” (RODRIGUES, 2007), apenas 51,6% da companhias criadas em 1997 conseguiram enfrentar as dificuldades, permanecendo abertas oito anos depois. Essa mortalidade é muitas vezes causada pelo fraco entendimento e consideração do gerenciamento cultural como importante variável ao longo do ciclo de vida das organizações. Compreendendo melhor os pressupostos culturais de uma organização, será possível estabelecer os caminhos corretos para a 15 definição e a implementação de estruturas organizacionais e estratégias de negócios que gerem resultados positivos. Segundo Schein (2004), o fato de uma cultura ser boa ou não, de ser efetivamente funcional ou não, depende não somente da cultura, mas do relacionamento desta com o ambiente onde ela existe. O estudo da cultura de uma organização permite chegar a elementos suficientes para tornar compreensíveis alguns dos fenômenos-chave na empresa (SCHEIN, 2004). Trice & Beyer (1993) ressaltam o caráter contingencial da cultura organizacional como propiciadora do êxito empresarial. Portanto, através de estudos de casos em empresas que passaram por diferentes situações de ruptura, poderemos alcançar algumas conclusões e PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA recomendações mais eficientes para os gestores destas empresas. 16 2 Referencial Teórico 2.1 Cultura Organizacional Segundo Trice & Beyer (1993), a pesquisa em cultura organizacional não é recente, havendo uma linha de pesquisa constante sobre o fenômeno da cultura nas organizações que data desde os anos 30. Ela, porém, ganhou mais notoriedade nos anos 80, quando o número de artigos e pesquisas sobre o assunto se multiplicou consideravelmente e através de artigos precursores como o de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Pettigrew (1979). 2.1.1 Definições e conceituação O termo cultura é um termo com diversas definições, estudado por diversos campos das ciências sociais, como a antropologia, a sociologia, a geografia, etc. Como afirma Freitas (2007), “É preciso, pois, termos clareza de que o conceito de cultura não é universal, tampouco inequívoco”. Neste item, busca-se definir e conceituar os termos cultura e cultura organizacional, mas sabendo que não encontraremos uma definição definitiva ou universal. O conceito de cultura originou-se na Antropologia. “Edward Burnett Tyler é considerado o fundador da antropologia cultural, para ele Cultura ou civilização, no seu sentido etnográfico estrito, é um todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, leis, moral, costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade ou de um grupo” (SÁ RIBEIRO, 2007, p.19). Tylor definiu cultura como “todo comportamento aprendido, independente de transmissão genética” (LARAIA, 2003). Mesmo dentro da antropologia, o conceito de cultura encontra diversas definições, conforme demonstrado no levantamento feito pelos antropólogos Kroeber e Kluckholm em 1952, quando encontraram cerca de 160 diferentes definições para o termo (FREITAS, 2007). 17 Para efeito de ilustração, Freitas (2007, p.11-12) usa a definição de cultura para a antropologia cognitiva, como sendo “o conjunto dos conhecimentos que são compartilhados entre os membros de um grupo ou sociedade”; na antropologia simbólica a ênfase recai sobre os significados compartilhados e não nos conhecimentos; e já a antropologia estrutural, o estudo dos processos psicológicos inconscientes é privilegiado, vendo a “cultura como uma projeção universal da mente”. Com base nos estudos de Smircich (1983), os estudos sobre cultura organizacional a enxergam de duas maneiras distintas: a) como uma metáfora, ou seja, considera a cultura algo que a organização é; b) como uma variável, considerando a cultura como algo que a organização tem. Quando a cultura organizacional é vista como uma metáfora, prioriza-se os PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA aspectos conceituais e políticos da organização, como a questão do poder, do controle social e ideológico ou a importância de construção vínculo e imagem (FREITAS, 2007). No entanto, quando tratamos a cultura organizacional como uma variável, aceitamos que ela seja interpretada como uma variável e, portanto, que seja gerenciável, sendo mais um dos aspectos de uma organização que poderão ser administrados (junto com a estrutura e a estratégia) para atingir os objetivos da empresa. Neste sentido, ela passa a ser tratada dentro do paradigma funcionalista, buscando soluções e respostas pragmáticas para os problemas gerenciais. Dentro dessas diferentes perspectivas, muitas são as definições para o termo cultura organizacional. A mais citada e provavelmente uma das mais ricas foi desenvolvida por Schein (1984). Para o autor, cultura organizacional é: “um padrão de pressupostos básicos compartilhados que foram aprendidos por um grupo conforme ele soluciona seus problemas de adaptação externa e integração interna; e que estes pressupostos tenham funcionado bem o suficiente para serem considerados válidos e, portanto, para serem ensinados a novos membros como a maneira correta de perceber, pensar e sentir em relação a esses problemas” (SCHEIN, 1984, p.17). 18 Segundo Schein, os pressupostos básicos compartilhados de uma organização podem ser vistos como seu DNA. Além disso, segundo o autor: “Cultura é tanto um fenômeno dinâmico que nos cerca todo o tempo, sendo constante mente interpretada e criada por nossas interações com outros e formada pelo comportamento da liderança, como um conjunto de estruturas, rotinas, regras e normas que guiam e reprimem o comportamento” (SCHEIN, 1984, p.1). Segundo Hofstede: “Culturas organizacionais devem ser distinguidas de culturas nacionais. Culturas nacionais diferenciam pessoas, instituições e organizações similares em diferentes PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA países. Culturas organizacionais, da forma como eu uso o termo, fazem distinção entre diferentes organizações no mesmo país ou países. Culturas se manifestam da superfície até profundamente, em símbolos, heróis, rituais e valores. Minha pesquisa mostrou que culturas organizacionais se diferenciam principalmente no nível dos símbolos, heróis e rituais, junto com ‘práticas’ padronizadas; culturas nacionais se diferenciam principalmente no nível profundo, o nível dos valores. Como conseqüência, as cinco dimensões de culturas nacionais identificadas na minha pesquisa, que são baseadas em valores, não são aplicáveis para comparar organizações em um mesmo país. Culturas nacionais pertencem à antropologia; culturas organizacionais à sociologia” (http://www.geert-hofstede.com/ - acesso em 09/12/07). Shrivastava (1985) vê a cultura organizacional como um conjunto de produtos concretos por meio dos quais o sistema é estabilizado e perpetuado. Esses produtos incluem os mitos, as sagas, os sistemas de linguagem, as metáforas, os símbolos, as cerimônias, os rituais, o sistema de valores e as normas de comportamento. Para ele, os produtos culturais são determinados pelos pressupostos que são compartilhados por um grupo e adverte que é o consenso e a homogeneidade em torno desses pressupostos que determinam a força e o caráter único dos processos e produtos culturais nas organizações. 19 Para Tomei (1994), cultura organizacional é definida como valores e crenças divididos por membros das organizações, expressos por jargões, cerimoniais ou rituais, práticas organizacionais, etc. Segundo Trompenaars (1994), cultura é o resultado de uma interação social, que pressupõe formas comuns de processar informações entre as pessoas que interagem. Com isto, a dependência mútua dos atores deve-se ao fato de que juntos, constituem um sistema interligado de significados, uma definição comum de uma situação para um grupo. Já Pettrigrew (1979) trata a cultura organizacional dentro de um viés interpretativo, aonde a cultura organizacional é representada por um sistema de significados que é aceito publica e coletivamente por dado grupo durante certo tempo. Esse sistema de termos, formas, categorias e imagens interpretam para as PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA pessoas as suas próprias experiências e situações. Segundo Trice & Beyer: “As Culturas são um fenômeno coletivo que abrangem as respostas das pessoas às incertezas e ao caos que são inevitáveis na experiência humana. Estas respostas caem em dois tipos principais de categorias, a primeira é a substancia da cultura – os sistemas compartilhados de crenças que chamamos de ideologias. A segunda são as formas culturais – entidades observáveis, incluindo as ações, através das quais os membros de uma cultura expressam, afirmam e comunicam a substancia de sua cultura uns para os outros” (TRICE & BEYER, 1993, p.2). Conforme demonstrado através das diversas definições apresentadas, a cultura organizacional foi e continua sendo foco de muitos estudos, resultando em diferentes formas e enfoques dados pelos autores. Neste estudo, adotaremos a definição de Pettigrew (1996, p.146), que abrange os conceitos de Schein (1985), Barney (1986) e do próprio Pettigrew (1979): “Compreende-se a cultura organizacional como um fenômeno que existe numa variedade de níveis diferentes. No nível mais profundo, a cultura é pensada como um conjunto complexo de valores, crenças e pressupostos que definem os modos pelos quais uma empresa conduz seus negócios. Tal núcleo de crenças e 20 pressupostos básicos são, naturalmente, manifestos nas estruturas, sistemas, símbolos, mitos e padrões de recompensas dentro da organização.” Por fim, é importante diferenciar cultura organizacional de clima organizacional. Clima organizacional é a atmosfera resultante das percepções que os colaboradores de uma organização têm dos diferentes aspectos que influenciam seu bem estar e satisfação (TOMEI, 1994). O clima organizacional tem diversas formas de manifestação, tais como, o envolvimento das pessoas, turnover, absenteísmo, ações sindicais, greves, integração das equipes de trabalho, conflitos, entusiasmo, etc. Um bom clima organizacional é que proporcionará a empresa reter seus talentos e, da mesma forma, atrair novos talentos, fundamentais à sua competitividade num cenário de tantos desafios e mudanças como o atual PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA (TOMEI, 1994). Clima é o reflexo do estado de espírito ou do ânimo das pessoas, predominante em uma determinada organização em um determinado período. É importante destacar o fator tempo neste conceito, uma vez que o clima organizacional é instável, conforme a influência que sofre de algumas variáveis (LUZ, 1996 apud CASTRO, 2004). Algumas variáveis, que, segundo Luz (1996 apud CASTRO, 2004), afetam o clima organizacional são: os conflitos intra-organizacionais, ocorridos entre pessoas (que é considerado normal pelo autor), grupos (o que passa a ser preocupante) pessoas e organização (prejudicial ao clima organizacional), fatores positivos e negativos da organização e fatores externos à organização. Para o autor, o clima é afetado pelos conflitos e pelos fatores positivos e negativos que ocorrem no ambiente de trabalho, bem como por fatores externos que ocorrem no contexto sócio-econômico e político, e na vida particular dos funcionários. O clima da organização pode afetar sua cultura e vice-versa (LUZ, 1996 apud CASTRO, 2004). 21 2.1.2 Formação e características da cultura organizacional Segundo Schein (2004), a cultura de uma organização se forma de duas maneiras: através da interação espontânea em um grupo não estruturado que gradualmente leva a padrões e normas de comportamento que se tornam a cultura do grupo; ou em grupos mais formais, quando um indivíduo cria o grupo ou se torna seu líder. Esse indivíduo irá impor suas visões, objetivos, crenças, valores e suposições pessoais sobre como as coisas devem ser feitas. Porém, somente se as ações que resultam desse comportamento levam ao sucesso (no sentido que o grupo completa suas tarefas e se sentem bem sobre suas relações entre eles), as crenças e valores do fundador serão confirmadas, reforçadas e, mais importante, reconhecidas como compartilhadas. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Ainda de acordo com Schein, nesse segundo caso, as culturas começam com líderes que impõem seus próprios valores e suposições a um grupo. Uma vez que esse grupo atinge sucesso e essas suposições são assimiladas, então temos uma cultura que definirá para as gerações futuras que tipo de liderança é aceitável. Neste momento, a cultura passa a definir liderança. Uma vez que o grupo encontre dificuldades adaptativas, conforme seu ambiente muda ao ponto em que algumas suposições não são mais válidas, a liderança deve se mostrar mais uma vez. Liderança é agora a habilidade de sair fora da cultura que criou o líder e dar início a processos de mudança evolucionários que sejam mais adaptativos. Essa habilidade para perceber as limitações de sua própria cultura e desenvolver a cultura de forma adaptativa é a essência e o maior desafio de um líder. Freitas (2007, p.34-35) afirma que: “as correntes que analisam a criação da cultura o fazem a partir de três pontos: a) os fundadores e os líderes trazem consigo um conjunto de pressupostos, valores, perspectivas e artefatos para a organização e o impõe a seus empregados; b) uma cultura emerge com a interação dos membros da organização para resolver problemas relacionados com a integração interna e adaptação externa; c) os membros individuais podem tornar-se criadores da cultura, por meio da solução de problemas individuais de identidade, controle, necessidades de aceitação, passando-as para as gerações seguintes”. 22 A autora apresenta então um modelo de evolução cultural que leve em consideração o processo de resolução de crises na organização e o papel das lideranças, o qual é composto por seis fases que condicionam esse modelo (DYER, 1985 apud FREITAS, 2007). A primeira delas é se a crise percebida questiona as habilidades e práticas da liderança atual. A segunda se a percepção da crise é acompanhada de rupturas nos padrões, símbolos, crenças e estruturas definidos pela liderança atual. Em terceiro, se uma nova liderança emerge com um novo conjunto de pressupostos. Quarto, se existem conflitos entre os proponentes da nova liderança e a antiga. Em quinto, se a crise é resolvida e é dado o crédito à nova liderança, ela estabelece-se como uma nova elite cultural. E por fim, em sexto, se a nova cultura é sustentada pela introdução de novos padrões de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA manutenção (artefatos e valores). Ainda segundo Freitas (2007), as culturas são criadas, apoiadas, sustentadas, transmitidas e mudadas por meio da interação social, via processos de modelagem, imitação, negociação, reprodução de estórias, socialização, informações sobre as normas nos seus aspectos formais e informais, etc. Neste ponto de vista, as organizações são intrinsecamente fenômenos de comunicação e que todos os artefatos culturais estão interligados entre si, exercendo uma influência múltipla no conjunto dos indivíduos e dos grupos integrantes da organização. Uma visão diferente é a publicada por Gordon (1991), quando argumenta que a cultura organizacional é fortemente influenciada pelas características da indústria ou setor em que a organização está inserida. Segundo ele três são os elementos chave que se alterados alterarão a estrutura vigente da cultura organizacional: 1) o ambiente competitivo (ex.: mudança de uma estrutura de monopólio para oligopólio ou entrada de novo player); 2) necessidades dos clientes (mudança na demanda ou na preferência dos consumidores); 3) expectativas da sociedade (pressão por responsabilidade sócio-ambiental, etc.). Com base nessa visão, Gordon defende que uma organização com uma cultura muito forte não se adapta bem às mudanças do ambiente externo, uma vez que em um momento, como os descritos, de necessidade de mudança, a organização terá grande dificuldade de se adaptar. 23 Essa visão de Gordon (1991), justamente vem questionar o estudo de Peters & Waterman (1982 apud FREITAS, 2007), que concluíram ao analisar organizações de maior sucesso, que a maioria delas apresentava uma forte cultura organizacional. Porém, conforme apontado por Gordon (1991), nem sempre uma cultura forte é a mais adequada para a organização, variando conforme o porte da empresa, sua área de atuação ou até com o ambiente externo. Em um mundo com transformações intensas, constantes e rápidas, novos valores são fundamentais quando falamos de cultura organizacional: flexibilidade e inovação (BARNEY, 1986). Voltando aos conceitos de Schein (2004) e de forma a reforçar a visão de Gordon, Tomei e Barney, a cultura, como um conjunto de pressupostos é sempre um processo em formação, visto que a aprendizagem sobre como se relacionar PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA com o ambiente e como administrar as questões internas estará sempre ocorrendo. Segundo o autor, se uma cultura é boa ou não, se é efetivamente funcional ou não, depende não somente da cultura, mas do relacionamento da cultura com o ambiente aonde ela existe. Segundo Trice & Beyer (1993), existe relativo consenso entre autores de que uma cultura possui seis características principais: a) o caráter coletivo – uma cultura representa tudo o que os membros de um dado grupo concordam em termos de visão de mundo; b) emocionalmente carregada, pois ajuda a gerenciar a ansiedade das pessoas diante da incerteza; c) construção histórica, pois é construída através de um processo aonde as pessoas compartilham soluções para lidar com os problemas do grupo; d) simbólica, tanto na comunicação como na expressão cultural; e) dinamismo, evolui e muda constantemente; e f) de difícil discernimento. Similarmente, Hofstede (1990) afirma que a maioria dos autores concorda com as seguintes características: a cultura organizacional é (1) holística, (2) determinada historicamente, (3) relacionada com conceitos de antropologia, (4) construída socialmente, (5) possui certa flexibilidade e (6) difícil de mudar. (CASTRO, 2004) Sathe (1985) analisa dois elementos importantes em uma cultura: o conteúdo e a força. O conteúdo refere-se à inter-relação dos pressupostos básicos para a formação dos padrões de comportamento. A maior congruência entre 24 valores e crenças desenvolve um senso de harmonia que solidifica a atuação da cultura na vida organizacional. A força de uma cultura influencia a intensidade do comportamento, sendo determinada por três características: a) abrangência – quantos pressupostos existem; b) extensão de compartilhamento – qual o grau de compartilhamento dos pressupostos; c) grau de importância – clareza na hierarquização da importância dos pressupostos. Culturas fortes são abrangentes, amplamente disseminadas e claramente ordenadas em importância, influenciando fortemente no comportamento da organização. Outra característica importante da cultura e que ainda não encontrou consenso na academia é a sua unicidade, existindo diferentes correntes que defendem a unicidade ou a multiplicidade. A primeira delas, e a que vigorou durante um tempo considerável sem contraposições, é aquela que defende uma PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA cultura organizacional única na organização, onde todas as pessoas da empresa, em todas as unidades, compartilham da mesma visão, defendem os mesmos valores, dão os mesmos significados aos eventos e mensagens que recebem do ambiente externo. Uma outra corrente defende a diferenciação, ou seja, a existência de várias culturas (ou subculturas) nos lugares de trabalho. Segundo esses pesquisadores, a cultura organizacional seria uma conexão por onde se cruzam influências ambientais, gerando subculturas que se sobrepõem, admitindose a possibilidade de conflitos entre os diferentes agrupamentos organizacionais (FREITAS, 2007). Uma terceira corrente promove uma junção parcial das duas visões anteriores, assumindo a essência da ambigüidade da cultura organizacional. Segundo Freitas (2007, p.46), apesar da existência das três possibilidades de análise, “conclui-se que qualquer cultura organizacional poderá ser vista através de elementos compatíveis com qualquer das perspectivas estudadas, pois sempre poderão ser encontrados nas organizações certos elementos capazes de produzir consenso, e outros que implicam divergências e contradições, assim como contextos e conteúdos ambíguos e escorregadios, cheios de nuanças e fronteiras móveis.” 25 2.1.3 Importância e funções Conforme já descrito antes, segundo Robbins (2005), uma forte cultura organizacional dá direção à empresa e fornece direção aos funcionários, ajudando a formar uma compreensão clara acerca da “maneira como as coisas são feitas aqui” (TOMEI, 1994). Para Deal & Kennedy (1982, p.5) existe uma associação entre histórias de sucesso e a existência de culturas fortes: “Na verdade, uma cultura forte tem sido quase sempre a força motora por trás do sucesso contínuo dos negócios na América”. Os autores embasam essa afirmação, apresentando casos de empresas que através de culturas consistentes com seus produtos e objetivos conseguiram resultados expressivos, pois a cultura influencia significativamente como o PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA funcionário trabalha, sua atitude diante de ameaças e oportunidades, impactando no desempenho final da empresa. Schein (2001) mostra que a cultura organizacional é de suma importância para a gestão das empresas, pois tanto a estratégia e os objetivos, quanto o modo de operação da empresa e o comportamento das pessoas, são influenciados pelos elementos culturais. Segundo o autor, para tornar uma organização mais eficiente e eficaz, deve-se entender o papel da cultura na vida organizacional. Conforme apresentado por Lanz (2004), a idéia central da cultura organizacional como vantagem competitiva é que funcionários comprometidos com os valores e pressupostos da organização são mais satisfeitos, mais produtivos e mais adaptáveis que os demais. Em termos de função, Schein (1984) cita três funções básicas para a cultura organizacional. A primeira delas é dar sentido de permanência aos membros da organização, o que ele denomina como integração interna. A segunda, é dar condições essenciais de adaptabilidade e flexibilidade organizacional às mudanças ambientais, o que ele denomina como adaptação externa. E a terceira, é a de proteger a empresa de possíveis ameaças externas fruto das duas outras funções citadas. Segundo Schein (2004), cultura determina o que é possível, o que se faz no interior de uma organização, mas não necessariamente o que se deve fazer. Ela 26 não é prescritiva, mas inspira várias prescrições. Ela condiciona o conjunto de reações frente às necessidades organizacionais e ao contexto em que a empresa opera, mas como um padrão funcional pode perder a sua validade, caso ocorram grandes mudanças no ambiente. Robbins (2005) coloca outras cinco funções que, direta ou indiretamente, se relacionam com as funções descritas por Schein: a) Papel de definidora de fronteiras, distinguindo uma organização das demais; b) Proporciona um senso de identidade, fazendo com que os membros da organização se identifiquem pessoal e mutuamente; c) Facilita o comprometimento com algo maior do que os interesses individuais; d) Estimula a estabilidade do sistema social; e) Atua como sinalizador de sentido e mecanismo de controle que orienta e dá forma às atitudes e comportamentos dos funcionários. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Segundo Freitas (2007, p.20-21), “uma das principais funções da cultura é a de dar estabilidade ao grupo, construindo um “saber de receita”, regras partilhadas em relação à forma de agir em certas situações, maneiras de perceber e o nível de importância das coisas; tudo isso constitui um verdadeiro esquema de interpretação daquele grupo”. 2.2 Manifestações e Níveis Culturais Segundo Schein (2004), nível cultural é o grau no qual o fenômeno cultural é visível ao observador. A avaliação das manifestações (ou elementos) que constituem a cultura organizacional, a forma como eles funcionam e as mudanças comportamentais que eles provocam são formas de dar um tratamento mais concreto ao assunto, possibilitando o seu reconhecimento mais facilmente (FREITAS, 2007). 27 2.2.1 A abordagem de Schein Para Schein (2004), os níveis culturais variam da mais evidente manifestação tangível que se pode ver e sentir, aos pressupostos básicos profundamente escondidos, inconscientes que são a essência da cultura. Segundo o autor existem três níveis fundamentais em que a cultura se manifesta: os artefatos visíveis, as crenças e valores, e os pressupostos básicos. A determinação destes níveis é função do grau em que o fenômeno cultural é visível para o observador. Os artefatos são as estruturas e processos organizacionais visíveis, como por exemplo, a arquitetura do ambiente físico, a linguagem, a tecnologia e produtos, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA criação artística, estilo (maneiras de se vestir, expressões emocionais, mitos e histórias contadas sobre a organização), sua lista de valores publicados, rituais e cerimônias, entre outros. O “clima” do grupo é um artefato dos níveis culturais mais profundos, já que representa o comportamento visível de seus membros. Artefatos também incluem os processos organizacionais, elementos estruturais como gráficos, mapas, tabelas, descrições formais de como a organização trabalha e a estrutura organizacional. Schein (2004, p.27) destaca que os artefatos são fáceis de observar, mas difíceis de decifrar. “É especialmente perigoso tentar inferir sozinho os pressupostos mais profundos dos artefatos, pois a sua interpretação irá inevitavelmente projetar seus sentimentos e reações.” O segundo nível cultural são as crenças e valores defendidos, apoiados e declarados pela organização, ou seja, as estratégias, objetivos, filosofias, etc., que representam as justificativas declaradas da empresa. Essas crenças e valores são construídos conforme o grupo se forma e são “validados socialmente”, isto é, são confirmados somente pela experiência social compartilhada de um grupo. Eles são mais difíceis de serem percebidos diretamente do que os artefatos, pois muitas vezes não estão explícitos. Schein (2004) destaca que normalmente as listas de crenças e valores são tão abstratas que podem ser mutuamente contraditórias. Portanto, é importante estar atento quando se analisam crenças e valores, pois deve-se fazer distinção 28 cuidadosa entre aqueles que são congruentes com os pressupostos existentes e aqueles que efetivamente são apenas racionalizações ou aspirações para o futuro. O terceiro e último nível, e o mais difícil de ser decifrado, são os pressupostos básicos, que são crenças, percepções, pensamentos e sentimentos inconscientes e que são tomados por certos, representando uma fonte final de valores e ação. São as idéias e premissas que governam as ações e as razões dos atos dos membros da organização. Segundo o autor: “os pressupostos básicos são tão incorporados como certos que encontra-se pouca variação em uma unidade social Esse grau de consenso é o resultado do sucesso repetido em implementar certas crenças e valores” (SCHEIN, 2004, p.31). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Normalmente, os pressupostos básicos lidam com aspectos fundamentais da vida como a natureza do tempo e do espaço, a natureza humana e atividades humanas, a natureza da verdade e como alguém a descobre, a forma correta como o indivíduo e o grupo devem se relacionar, a importância relativa do trabalho, da família e do autodesenvolvimento. O processo de internalização desses pressupostos é longo e resulta do processo de enfrentamento de problemas e da solução adequada dada a estas situações. Este conhecimento é apreendido e divulgado pela organização, atingindo o nível inconsciente dos seus membros. Muitas vezes as pessoas podem nem estar conscientes da posse destes valores e crenças, e só os percebem se eles forem violados ou ameaçados. Eles formam o núcleo (a alma) do conteúdo cultural. Schein (2004). Eles tendem a não ser debatidos e confrontados e são extremamente difíceis de serem mudados. Ainda segundo o autor, qualquer questionamento ou desafio a um pressuposto básico resultará na liberação de ansiedade e reações defensivas, o que faz com que eles sejam definidos como “mecanismos cognitivos psicológicos de defesa tanto no nível individual como do nível do grupo, que permitem que o grupo continue a funcionar” (SCHEIN, 2004, p.32). 29 2.2.2 A abordagem de Trice & Beyer Segundo Trice & Beyer (1984) a cultura tem dois componentes básicos: sua substância e sua forma. A substância é a rede de significados contidos em suas ideologias, normas e valores. Formas culturais são manifestações concretas da cultura e consistem em entidades observáveis através das quais membros da cultura expressam, afirmam e comunicam o conteúdo/significado da cultura para outros. De acordo com os autores, os pesquisadores podem discernir os significados que caracterizam uma dada cultura através da análise de suas formas (manifestações). Com esse objetivo em mente, Trice & Beyer (1984) apresentam um conjunto de definições que podem ser usados como indicadores apropriados para PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA uniformizar e tornar comparáveis e cumulativos os estudos sobre culturas operacionais. Segundo os autores, esses estudos focavam em elementos únicos e isolados da cultura, resultando na necessidade de integração. A tabela a seguir ilustra essas manifestações da cultura organizacional. Tabela 1 – Manifestações da Cultura Organizacional Forma Artefato Definição - Objetos materiais fabricados pelas pessoas para facilitar o desempenho de atividades culturalmente expressivas. Cenário - Aquelas coisas que circundam as pessoas fisicamente, proporcionando-lhes estímulos sensoriais imediatos, enquanto desempenham atividades culturalmente expressivas. Conto Popular - Uma narrativa completamente ficcional. Estória - Narrativa baseada em eventos verdadeiros - freqüentemente uma combinação de verdade e ficção. Gesto - Movimentos de partes do corpo para expressar significados. Lenda - Uma narrativa que chega até nós de algum evento maravilhoso que se fundamenta em dados históricos mas que foi embelezada com detalhes de ficção. Linguagem - Uma forma ou atitude particular através da qual os membros de um outro grupo usam sons e sinais escritos para transmitir significados entre eles. 30 Forma Mito Definição - Uma narrativa dramática de eventos imaginados, comumente usada para explicar as origens ou transformações de algo. Significa, também, uma crença inquestionável relativa aos benefícios práticos de certas técnicas e comportamentos e que não é sustentada por fatos demonstrados. Ritual - Um conjunto padronizado e detalhado de técnicas e comportamentos que gerenciam ansiedade, mas raramente produzem conseqüências técnicas pretendidas que mereçam destaque na prática. Saga - Uma narrativa histórica descrevendo as realizações sem precedentes de um grupo e seus líderes, comumente em termos heróicos. Símbolo - Qualquer objeto, ato, evento, qualidade ou relação que serve como meio para exprimir um significado. Fonte: TRICE, & BEYER, 1984, p.653-669. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Ainda segundo os autores, essas manifestações podem ser agrupadas em quatro categorias principais: símbolos, linguagem, narrativa e práticas. Como exemplos de símbolos eles citam objetos, cenários ou ambientes naturais ou confeccionados, executores, funcionários. Já para linguagem, eles citam jargões, gírias, gestos, sinais, músicas, humor, piadas, fofoca, rumores, metáforas, provérbios, slogans. Narrativas são estórias, lendas, sagas, mitos. E as práticas são rituais, tabus, ritos, cerimônias. (TRICE & BEYER, 1993) Entre as formas ou manifestações listadas na tabela acima, Trice e Beyer sugerem o estudo de ritos e cerimônias, por suas características envolverem um conjunto relativamente elaborado e planejado de atividades, que resultam em múltiplos benefícios sociais. Segundo eles, ritos e cerimônias tipicamente consolidam diversas formas culturais em um evento ou série de eventos. Eles classificam os ritos em ritos de passagem, de degradação, de reforço, de renovação, de redução de conflitos e de integração, conforme ilustrado na tabela abaixo. 31 Tabela 2 – Tipos de Ritos Tipo de Ritos Ritos de Passagem PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Ritos de Degradação Exemplos Efetivação de um estagiário como funcionário. Despedir ou substituir um alto executivo. Conseqüências sociais Evidentes e expressivas Facilitar a transição de uma pessoa para papéis sociais e status que lhe são novos. Dissolver identidades sociais e os poderes que os acompanha. Ritos de Reforço Premiações. Realça identidades sociais e os poderes que as acompanha. Ritos de Renovação Atividades de desenvolvimento organizacional. Renovar as estruturas sociais e melhorar seus estilos de funcionamento. Ritos de Redução de Conflitos Negociação coletiva de sindicatos. Reduzir conflitos e agressões. Festa de natal da empresa. Encorajar e reviver sentimentos em comum que unem as pessoas e as mantém fiel a um sistema social. Ritos de Integração Exemplos de possíveis conseqüências expressivas latentes Minimizar as mudanças na forma com que as pessoas desempenham papéis sociais. Restabelecer o equilíbrio em relações sociais contínuas. Estimular o reconhecimento público quanto à existência de problemas e quanto aos detalhes dos mesmos. Defender os limites do grupo definido quem pertence ou não ao mesmo. Reafirmar a importância social e o papel em questão. Divulgar boas notícias a respeito da organização. Proporcionar o reconhecimento público dos indivíduos por suas realizações e motivar outros a esforços semelhantes. Capacitar a organização a reconhecer as realizações individuais. Enfatizar o valor social do desempenho de papéis sociais. Reafirmar aos membros que alguma coisa está sendo feita a respeito dos problemas. Disfarçar a natureza dos problemas. Focalizar a atenção em alguns problemas e desconsiderar outros. Legitimar e reforçar sistemas de poder e autoridades existentes. Desviar a atenção do exercício de resolver problemas. Restabelecer o equilíbrio em relações sociais conflituosas. Permitir a expansão das emoções e o afrouxamento temporário de diversas normas. Reafirmar, em contraposição a correção moral das normas habituas. Fonte: TRICE & BEYER, 1984, p.653-669. Os três primeiros tipos de ritos (de passagem, degradação e reforço) manifestam-se no nível do indivíduo, enquanto que os três últimos (renovação, redução de conflito e integração) possuem manifestações de grupo, na organização como um todo. 32 2.3 Tipologias Culturais – Decifrando a Cultura Organizacional Segundo Tomei (2004), uma organização que tenha um determinado tipo de cultura pode trabalhar para mudar para outro tipo ou pode, sem perceber, acabar indo parar numa tipologia cultural desfavorecida. O importante é a empresa identificar e traçar metas para alcançar a tipologia desejada. No entanto, no que se refere à identificação da cultura organizacional, Freitas (2007) afirma que ela é diretamente associada ao que o pesquisador considera cultura e, portanto, verifica-se uma grande variedade de pesquisadores que utilizam conceitos, métodos, recomendações e passos abordando diferentes aspectos. Cada corrente reivindica para si a análise mais fiel dos fenômenos PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA culturais e ignoram a contribuição de outros olhares, instalando uma verdadeira luta intelectual do campo (MARTIN & FROST, 2001 apud FREITAS, 2007). No entanto, cabe ressaltar que o uso de tipologias para a identificação da cultura organizacional, não é unanimidade entre os autores. Schein (2004) afirma que tipologias culturais podem ser bastante “desencaminhadoras”, desviando a atenção e o foco do pesquisador para manifestações que talvez não sejam as mais importantes para descrever uma cultura em especial. Para Trice & Beyer (1993, p.16), surgiu pouco consenso sobre como categorizar a cultura, apesar de que há alguma sobreposição de questões nas quais podem ser categorizados. Segundo os autores, “se as culturas organizacionais possuem propriedades universais, elas ainda não foram demonstradas de forma convincente”. Porém, as construções teóricas de alguns autores permitem identificar alguns tipos de culturas organizacionais que, se não correspondem à realidade da organização como um todo, admitem, enquanto recurso metodológico, que se busque a generalização de um objeto, uma vez definida determinada visão ou abordagem. De acordo com Freitas (1991), estas tipologias são modelos que nos ajudam a compreender a cultura organizacional, pois remetem a generalizações de um objeto. 33 Neste trabalho foi escolhido detalhar os autores mais estudados identificados durante a pesquisa bibliográfica e que propõem formas diversas para se decifrar a cultura. Não é objetivo enumerar nem esgotar todas as tipologias já propostas, mas aquelas que apresentam alguma semelhança com os aspectos já levantados nos outros itens deste capítulo. 2.3.1 Modelo de Charles Handy Handy (1978) propôs a existência de quatro variedades de culturas da organização, que ele busca relacionar com determinadas estruturas de organização, ambientes externos e fases do ciclo de vida organizacional. O modelo de Handy desenvolve uma tipologia cultural de considera como os canais PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA de poder são refletidos em determinadas estruturas e sistemas. O primeira tipo é a Cultura do Poder, que é encontrada tipicamente em pequenas empresas, podendo ser representada por uma teia. Estas organizações possuem o poder concentrado em um ponto central, tomando decisões influenciadas por fatores como o equilíbrio de influência e não por avaliações lógicas. Neste tipo de cultura existem poucas regras e procedimentos definidos, mas a empresa tende a ser orgulhosa e forte, com capacidade de reação rápida a ameaças e perigos. Há pouca burocracia e por isso reagem bem às ameaças. Os membros de organizações orientadas pelo poder têm mentalidade política e assumem riscos em prol de mais poder. O problema de sucessão é a chave de seu sucesso continuado, pois como é representado por uma teia, uma “teia sem uma aranha” não tem força alguma. Geralmente, as organizações com esse tipo de cultura também são caracterizadas por serem bem sucedidas, porém o trato com o funcionário pode se tornar rude (HANDY, 1978). O segundo tipo é a Cultura de Papéis, que é frequentemente estereotipada como burocracia, sendo representada por um templo grego com pilares (funções ou especialidades) fortes, coordenados pela alta administração representada por uma estreita faixa. O trabalho dos pilares e a interação entre eles são controlados por procedimentos, como descrições de tarefa, definições de autoridade, regras formais de comunicação e regras formais para solução de conflitos. São 34 organizações de certa forma impessoais, o papel e a descrição do trabalho têm mais importância que o indivíduo que o desempenha. O poder advém do cargo. Estas organizações são bem sucedidas em ambientes estáveis ou quando controlam o ambiente, como nos monopólios ou oligopólios, ou ainda com produtos de longa duração que oferecem segurança e previsibilidade. Não se exige alto desempenho e não é para pessoas ambiciosas que estão mais interessadas no resultado do que no método. Para Handy (1978, p.206), “a organização baseada em papéis será encontrada onde as economias de escala são mais importantes do que a flexibilidade, ou quando a perícia e o grau de especialização forem mais importantes do que a inovação ou o custo do produto”. A Cultura da Tarefa, terceiro tipo apresentado por Handy, é orientada para o trabalho ou o projeto, sendo representada por uma rede, com algumas malhas mais PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA fortes que outras. Ela está totalmente relacionada ao desempenho. A execução do trabalho dentro do prazo previsto recebe toda ênfase, além da rapidez de resposta. O trabalho em equipe é estimulado, os grupos possuem maior influência do que os indivíduos. O controle é mantido pela alocação de recursos e pessoas a projetos, onde os projetos vitais recebem os melhores recursos e os indivíduos mais capazes. Geralmente, as organizações que possuem esta cultura estão mais aptas à mudança, inovação, flexibilidade e sensibilidade em relação ao mercado. É encontrada em mercados competitivos (HANDY, 1978). Por fim, o quarto e último tipo, é a Cultura da Pessoa, que é mais rara e representada por uma galáxia de estrelas individuais, tendo o indivíduo como ponto central e onde a organização existe para servi-lo. “Nessa cultura o indivíduo é o ponto central. Se houver uma estrutura ou uma organização, esta existirá apenas para servir e assistir os indivíduos na mesma” (HANDY, 1978, p.208209). A organização é subordinada aos indivíduos e deles depende para existir. Sua estrutura é bem enxuta e hierarquias ou controle sobre seus membros é quase impossível, a não ser que o grupo todo concorde. São exemplos ordens de advogados, grupos sociais, sociedades de arquitetura, famílias e pequenas firmas de consultoria (HANDY, 1978). 35 2.3.2 Modelo de Sethia & Von Glinow Sethia e Von Glinow (1985) propõem uma classificação cultural associada ao sistema de recompensas e os critérios pelos quais os membros da organização se qualificam a recebê-las. Os autores propõem um modelo no qual a cultura de uma organização influencia o sistema de recompensas diretamente, através da filosofia de Recursos Humanos e o sistema de recompensas influencia a cultura de forma direta ou mediada pela qualidade dos recursos. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Filosofia de Recursos Humanos Cultura Organizacional Sistema de Recompensas Qualidade dos Recursos Humanos Figura 1 – Relacionamento entre cultura e sistema de recompensas Fonte: SETHIA & VON GLINOW, 1985, p. 405. Entre os tipos de recompensas existentes, os autores citam as financeiras (salário, aumentos, bônus, opções de compras de ações, participação em resultados e outros benefícios), o conteúdo do trabalho (desafio, responsabilidade, liberdade, significação, feedback e reconhecimento), a carreira (segurança, programas de treinamento e desenvolvimento, possibilidades de promoções) e o status (facilidades especiais e privilégios, títulos, participação em comitês) (SETHIA & VON GLINOW, 1985). O modelo associa a preocupação com o bem estar e a dignidade das pessoas e a preocupação com o desempenho para gerar quatro tipos de culturas. A relação pessoas x desempenho produz os tipos de cultura, ou seja, dependendo da preocupação da organização com as pessoas ou com o desempenho da empresa, esta se dirigirá para determinado tipo cultural, conforme ilustrado na tabela abaixo. 36 Tabela 3 – Modelo de Sethia & Von Glinow Alta Preocupação com as Pessoas Baixa Cuidadosa (1,9) Integrativa (9,9) Apática Exigente (1,1) (9,1) Baixa Alta Preocupação com a Performance Fonte: SETHIA & VON GLINOW, 1985, p.513. Uma Cultura Cuidadosa combina alta preocupação com as pessoas e baixa preocupação com o desempenho. Existe preocupação com o bem-estar dos funcionários, mas a empresa não impõe altos padrões de desempenho. É característico em órgãos públicos ou monopólios, em que vigora uma cultura PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA paternalista. Uma Cultura Apática tem pouca preocupação com as pessoas e baixa preocupação com o desempenho também. Neste tipo de cultura impera a indiferença e um estado de cinismo e desmoralização generalizado. Sua perspectiva de longo prazo é duvidosa, uma vez que associa baixa motivação a resultados financeiros insatisfatórios, exceto se a organização atua em mercados protegidos ou tiver uma posição dominante. A Cultura Integrativa associa alta preocupação com as pessoas a uma forte expectativa sobre o desempenho. São organizações orientadas para atração e retenção de profissionais talentosos. A ênfase é na equipe ou no sucesso da companhia como um todo e não no sucesso individual. Valoriza as pessoas, tendo recompensas financeiras normalmente acima do padrão do mercado e espera como retorno um alto desempenho. Por fim, a Cultura Exigente é orientada para o desempenho unicamente, com pouca preocupação com as pessoas. São empresas geralmente agressivas e vivem de acordo com um “código de sobrevivência dos mais capazes”. O retorno financeiro para os funcionários é alto, mas a rotatividade também, como ocorre em bancos e fundos de investimento. 37 2.3.3 Modelo de Donnelly Robert Donnelly (1984) relaciona a cultura organizacional com o planejamento e assume que a cultura é fortemente influenciada pela personalidade dos dirigentes (seus valores, suas atitudes, sua ética, estilos de vida e personalidade). Ele define três tipos culturais: Cultura Excelente, Cultura Vaga e Cultura Horrível. A Cultura Excelente é aquela em que existe um planejamento e este é respeitado pela maioria dos membros da organização, permeando o processo decisório. Os planos são comunicados, as pessoas sabem para onde estão se dirigindo e existe um sentido de missão. A formação de equipes é enfatizada. Os procedimentos, padrões operacionais e de desempenho são relacionados ao PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA planejamento, assim como as avaliações. Na Cultura Vaga ou Indistinta, a estagnação ou estabilidade interna decorrente de alta regulamentação empresarial e/ou da fase de maturidade organizacional provoca uma mudança constante na equipe dirigente, provocando indefinição de rumo e falta de motivação para mudar e inovar. A Cultura Horrível é caracterizada por crises constantes (“apagar incêndios”), gerando grandes confusões e em processos decisórios erráticos. O clima usualmente é frustrante, inseguro e desagradável. É mais comum em organizações familiares ou com um dono que acredita saber o que é certo para todos, em todos os momentos. 2.3.4 Modelo de Deal & Kennedy De acordo com os autores, a cultura corporativa personifica o que é necessário para obter sucesso em determinado ambiente. Segundo Freitas (2007), os autores Deal & Kennedy, recomendam dois tipos de análises, com focos interno e externo. A primeira diz respeito aos aspectos culturais que podem ser observados diretamente pelo pesquisador. O ambiente físico é um elemento importante, pois este representa o orgulho que a organização 38 tem de si. Também é importante a leitura dos documentos e pronunciamentos oficiais da empresa sobre a sua própria cultura, incluindo repetições sobre seus valores e crenças, frases emblemáticas, etc. A observação de como a companhia cumprimenta e recebe os estranhos à organização é outra fonte de informação importante, revelando o nível de formalidade e elegância, além de estilos dominantes. Adicionalmente, realizar entrevistas que mostrem a história das pessoas na organização, a que é atribuído o crescimento pessoal e da empresa, quais os requisitos de uma boa liderança, entre outros. O segundo tipo de análise sugerido é o relacionado às questões internas da empresa, que podem ser bons indicadores da cultura, como o sistema de progressão de carreiras e de recompensas, o tempo de permanência em PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA determinados cargos, o conteúdo de discursos e comunicações internas e a anedotas e estórias que circulam na empresa. O resultado final destas análises irá definir a cultura organizacional, permitindo a sua compreensão para futura intervenção. Os autores criticam a complacência dos executivos contemporâneos que deveriam influir de forma mais contundente na formatação cultural da organização (SÁ RIBEIRO, 2007). O modelo de Deal & Kennedy (1982) é um modelo de tribos corporativas. Eles definiram quatro tipos de cultura, com base em dois fatores principais: 1) o grau de risco do ambiente em que a organização está inserida e 2) a velocidade em que a organização e seus membros recebem feedback sobre as suas estratégias e decisões. A Tabela 4 a seguir ilustra o modelo. Tabela 4 – Modelo de tribos corporativas Alto Grau de Risco Baixo Cultura Macho Cultura aposte Sua Companhia (Tough Guy/Macho) (Bet your Company) Cultura Trabalho Duro/Diverte Muito Cultura Processo (Work Hard/Play Hard) (Process) Rápida Lenta Velocidade de Feedback Fonte: DEAL & KENNEDY, 1982. 39 A Cultura Macho (Tough Guy) combina alto grau de risco no negócio com rápida velocidade de feedback, sendo caracterizada por individualistas que assumem altos riscos. É uma cultura que tende a ser jovem, com ênfase na velocidade, precisam de um feedback imediato. É orientada para o curto prazo e há forte competição interna gerando falta de cooperação entre os membros. Os heróis deste tipo de cultura são aqueles que tomam decisões rápidas e assumem altos riscos, por isso têm a característica de ser uma pessoa dura (macho). É característica de empresas que operam em mercados dinâmicos que exigem velocidade de decisões e nos quais o risco é considerado como parte integrante do negócio, principalmente no mercado financeiro, onde é comum em bancos de investimento e fundos de ações com perfil agressivo. A Cultura trabalho duro / diverte muito é a combinação de baixo risco e PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA rápido feedback. O trabalho em equipe tem um estímulo maior, mas não resulta necessariamente em comprometimento com a organização, também é voltada para resultados de curto prazo. Nesta cultura fazer apenas uma venda não é necessariamente o sucesso da companhia, o sucesso vem com a persistência. O feedback é rápido, pois qualquer reclamação do cliente aparece rapidamente. Dá muita ênfase à quantidade de vendas, muitas vezes deixando de lado a qualidade dos serviços. As equipes de vendas, por exemplo, são comprometidas com o ato de vender e não com a companhia. Nem sempre há uma identificação dos membros com a empresa. A Cultura Aposte sua Companhia está presente em organizações que exigem altos investimentos e o retorno financeiro é vagaroso, por isso o feedback é lento. Pessoas que trabalham neste tipo de cultura são orientadas para o longo prazo e têm persistência para conviver com baixo feedback. Existe respeito pela competência técnica e pelo conhecimento compartilhado. Como exemplo pode-se citar a indústria farmacêutica e outras indústrias protegidas por patentes e/ou com dificuldades para a imitação de seus produtos, em que as pesquisas são extensas e caras e o reconhecimento demora a chegar, porém quando se patenteia um produto e inicia o processo de venda, o retorno tem longa duração. A Cultura de Processo corresponde à combinação de lento feedback com baixo risco. Nesta cultura, o impacto de fazer ou deixar de fazer uma transação é virtualmente nenhum, da mesma forma que as pessoas não têm nenhum feedback. 40 Há falta de identificação com o sucesso e por isso não há heróis. Os valores desta cultura são calcados na perfeição técnica, orientada para procedimentos e padrões de trabalho, para os detalhes a fim de proteger a integridade do sistema. Normalmente associada a empresas antigas, e a linhas de produtos e serviços próximas da obsolescência. 2.3.5 Modelo de Davis Davis (1988 apud TOMEI, 1994) propõe dez práticas gerenciais que direta PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA ou indiretamente podem influenciar o nível cultural dos membros da organização: • Tentar mudar os valores organizacionais mais importantes; • Treinar os supervisores; • Melhorar as práticas de pessoal e de trabalho; • Melhorar o serviço aos clientes; • Reestruturar e enriquecer as tarefas; • Estruturar alguns programas gerenciais participativos; • Estabelecer um programa de rotação de trabalho; • Produzir o compartilhamento do trabalho; • Melhorar os benefícios; • Melhorar as condições físicas e as atividades de lazer. 2.3.6 Modelo de Barros e Prates Os autores Barros e Prates (1996) conduziram um estudo sobre um população de empresas e gerentes brasileiros e propuseram a existência de um estilo brasileiro de administrar. O modelo que os autores desenvolveram descreve a existência de quatro subsistemas formando o sistema de ação cultural brasileiro: o subsistema dos líderes, o subsistema institucional, o subsistema pessoal e o subsistema dos liderados. 41 O subsistema dos líderes é suportado pelos pilares de concentração de poder, paternalismo e personalismo, enquanto o subsistema formal está amparado tanto na concentração de poder, como no formalismo e na postura de espectador dos liderados. O subsistema pessoal está baseado no personalismo, na lealdade pessoal e na postura de evitar o conflito. Já o subsistema dos liderados suporta-se, além da postura de evitar o conflito, na flexibilidade e na postura de espectador. Os traços que interagem entre si na formação do sistema de ação cultural brasileiro, segundo Barros e Prates (1996), têm a seguinte inter-relação: a) a concentração de poder está situada na intersecção entre os subsistemas líderes e formal, demonstrando que as próprias estruturas formais favorecem a que os líderes acumulem poder; PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA b) o personalismo, situado na intersecção entre os subsistemas líderes e pessoal, caracteriza os jogos de interesse realizados entre estes subsistemas, isto é, muitas vezes as pessoas preferem que os líderes os tratem de forma diferenciada, personalista, em relação ao grupo; c) o paternalismo, pertencente ao subsistema líderes, é a síntese entre a concentração de poder e o personalismo, isto é, o líder adota a postura de “pai” que tudo sabe, e age de forma supridora para com os “seus”; d) a postura de espectador, situada na intersecção entre os subsistemas formal e liderados, demonstra que os liderados tendem sempre a aguardar as soluções que de cima virão, transferindo a responsabilidade tanto por seus sucessos quanto por seus fracassos, aos seus superiores; e) o formalismo, situado no subsistema formal, advém da soma entre concentração de poder e postura de espectador dos liderados, isto é, quando os líderes formais possuem a totalidade do poder, e os liderados agem como que se estivessem esperando pelas ordens superiores, estes instituem ordens, normas e controles que tendem a perpetuar a situação. Assim, o formalismo garante a convivência entre os subsistemas líderes e liderados; f) a postura de evitar conflitos está presente na intersecção entre os subsistemas de liderados e pessoal. É tradicional da cultura brasileira, que os conflitos sejam mediados por um terceiro que mantenha boas relações com ambas 42 as partes. Percebe-se que este traço está marcadamente presente nos liderados e não nos líderes, que temem menos o conflito com os subordinados; g) a flexibilidade, que faz a ligação entre o subsistema formal e o pessoal, calcada na adaptabilidade e criatividade do povo brasileiro, possibilita a convivência pessoal dentro de um sistema hierarquizado e formal; h) a lealdade pessoal, lado oposto do formalismo, articula os subsistemas líderes e liderados pelo lado das pessoas. Isto é, no Brasil há uma importante lealdade dos subordinados para com a pessoa do líder, baseada na liderança carismática. Assim, o indivíduo valoriza mais as necessidades de seu líder do que as necessidades organizacionais; e, i) a impunidade é característica não marcadamente encontrada em um subsistema específico, mas presente em todos, e pode resultar em uma PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA deterioração da estabilidade do sistema de ação cultural brasileiro. Como os liderados acreditam que as diferenças de direitos sempre existirão, ficando os líderes sempre às margens das punições, e que a realização não vale a pena, tendem a acomodar-se evitando participar de quaisquer movimentos no sentido de evolução cultural. Os autores defendem que o sistema de ação cultural brasileiro impacta de forma significativa a gestão empresarial, especialmente na formulação de estratégias, no processo decisório, no processo de liderança, no processo de coesão organizacional, na estrutura organizacional, na inovação e mudança e no processo de motivação dos membros da organização. 2.4 Ciclo de Vida das Organizações Conforme descrito anteriormente, a cultura é construída ou desenvolvida ou longo do tempo, continuamente, definindo uma relação clara entre cultura e o estágio de desenvolvimento da organização. Para Schein (1985), as organizações possuem um ciclo de vida, com vários estágios e a cultura organizacional assume funções distintas em cada um destes estágios. Para ele, através da análise do estágio em que se encontra uma organização é possível identificar momentos mais 43 propícios e mecanismos mais eficientes para o gerenciamento da cultura organizacional, conforme a tabela a seguir: Tabela 5 – Cultura e ciclo de vida das organizações Estágio de Função da Cultura Crescimento I - Nascimento e primeiros estágios de crescimento: * Controle da família *A cultura é uma demarcação de competência e fonte de identidade *A cultura é a "cola" que mantêm a organização unida *Ênfase em comprometimento através da socialização. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA * Fase de sucessão *A cultura como um campo de batalha para conservadores e liberais. *Os sucessores são julgados como reacionários ou revolucionários. II - Meia-vida Organizacional *Novos produtos *A integração cultural declina à medida que se criam novas subculturas. *Integração vertical *Oportunidade de gerenciar a direção da *Expansão geográfica mudança cultural. *Fusões e aquisições III - Maturidade Organizacional *Maturidade dos *A cultura torna-se restritiva à inovação. mercados *A cultura preserva as glórias do passado e *Estagnação ou portanto é valorizada como uma fonte de autoestabilidade interna estima e defesa. *Acomodação Opção de mudança *A mudança cultural é necessária e inevitável, mas nem todos os elementos da cultura podem ou devem ser mudados. * os elementos essenciais da cultura devem ser identificados e preservados. *A mudança cultural é possível ou pode-se simplesmente permitir que se desenvolva. Opção de destruição *Falência e reorganização *TAKEOVER e reorganização *Fusão e assimilação *A cultura muda em níveis básicos. *A cultura muda através de uma maciça substituição das pessoas chaves. Fonte: SCHEIN, 1985a. Mecanismo de Mudança 1 - Evolução natural. 2 - Evolução autodirigida através da terapia. 3 -Evolução gerencial através de personalidades híbridas. 4 -Revolução gerencial por intermédio de pessoas externas à empresa. 5- Mudança planejada e desenvolvimento organizacional. 6- Sedução tecnológica. 7- Mudança através do escândalo, explosão dos mitos. 8- Incrementalismo. 9-Persuasão coerciva 10- Turnaround 11- Reorganização, destruição e renascimento. 44 Conforme ilustrado na tabela anterior, Schein (2004) relaciona os dois fatores e identifica três principais estágios: O Nascimento, a Diversificação e meia-idade da organização e a Maturidade, com a provável estagnação e declínio. Conforme descrito por Sá Ribeiro (2007), no nascimento de uma organização, ocorre a dominação do fundador ou grupo de fundadores e a cultura funciona como uma “cola” para a organização. Ela também é a fonte de identidade e de competência distinta para a empresa (voltada para a inovação, para o cliente, a eficiência ou a qualidade). Busca-se neste momento a integração através da definição clara da cultura. É dada grande ênfase na seleção e socialização dos funcionários, pois o impacto de uma má adequação social neste estágio da organização pode ser fatal e os sucessores potenciais são julgados com base na sua tendência de preservadores da cultura, que é vista como responsável PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA pelo sucesso do grupo até então. Com o crescimento e diversificação das atividades da empresa, seja no escopo de produtos, geográfico ou da produção, ou ainda através de fusões e aquisições, surgem subculturas (conforme apresentado no item 2.1) relacionadas à localização geográfica (matriz x filiais), especialização na produção (departamentos, especialidades, etc.). A organização começa a ter uma crise de identidade, com o enfraquecimento de objetivos-chave, valores e pressupostos básicos. Neste momento surge a oportunidade para gerenciar a direção da mudança cultural, adaptando os valores e pressupostos a uma nova realidade e estágio mercadológico e tecnológico, chegando muitas vezes em uma situação onde a cultura original passa a ser “desviante”, uma barreira ao crescimento e à sobrevivência da organização. Para esta gestão é necessário discernimento cultural como um requisito para a administração da mesma. (SÁ RIBEIRO, 2007). O estágio de maturidade organizacional é representado pelo crescimento lento ou estagnação da empresa. Neste momento a cultura passa a ser efetivamente um entrave à mudança e uma barreira à inovação. Ela volta-se à glorificação do passado e é fonte de auto-estima e defesa do funcionário. Neste momento a mudança cultural deve ser feita, mas com a compreensão dos elementos a serem preservados da cultura passada e que podem ser ainda importantes para a performance da organização. (SÁ RIBEIRO, 2007). 45 Conforme já mencionado anteriormente, Freitas (2007) apresenta um modelo de evolução cultural que deve levar em consideração o processo de resolução de crises na organização e o papel das lideranças, o qual é composto por seis fases que condicionam esse modelo. A primeira delas é se a crise percebida questiona as habilidades e práticas da liderança atual. A segunda se a percepção da crise é acompanhada de rupturas nos padrões, símbolos, crenças e estruturas definidos pela liderança atual. Em terceiro, se uma nova liderança emerge com um novo conjunto de pressupostos. Quarto, se existem conflitos entre os proponentes da nova liderança e a antiga. Em quinto, se a crise é resolvida e é dado o crédito à nova liderança, ela estabelece-se como uma nova elite cultural. E por fim, em sexto, se a nova cultura é sustentada pela introdução de novos padrões de manutenção (artefatos e valores). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Freitas (2007, p.49) ainda acrescenta: “Em termos de evolução conquamos aceitemos a importância dos fundadores e líderes no arcabouço cultural, não podemos esquecer que toda organização, especialmente as empresas, necessita de constantes reavaliações e redefinições em função das mudanças que ocorrem no ambiente; também os fundadores e líderes envelhecem e os processos sucessórios podem ocorrer com maior ou menor divergência entre o que os seus atores principais consideram o caminho a ser seguido pela organização. Em ambientes mais instáveis, não é comum que a nova liderança ou grupo sucessor efetue uma ruptura com algumas das principais definições do grupo antecessor (...)”. 2.5 Gerenciamento Cultural Quando falamos de gerenciamento cultural, a primeira pergunta que surge é se é possível gerenciar e mudar a cultura organizacional. Conforme descrito no item 2.1, de acordo com Freitas (2007, p.12) e com base nos estudos de Linda Smircich (1983), os “estudos sobre cultura organizacional tendem a enxergá-la de duas formas: a) como uma metáfora, ou seja, considera a cultura algo que a organização é; b) como uma variável, considerando a cultura como algo que a organização tem”. 46 Portanto, as pesquisas sobre o assunto dividem-se em duas vertentes. Na primeira delas, as organizações são culturas e, portanto, a cultura organizacional é muito difícil de mudar. Na segunda delas, em que as organizações produzem ou constroem uma cultura, a cultura é gerenciável, pelo menos num grau mínimo. Pettigrew (1996) assume o posicionamento de que a cultura organizacional é sim gerenciável, porém com grande dificuldade. Ainda segundo o autor, a resposta acadêmica para a pergunta de que se a cultura é gerenciável dependerá o que se entende por cultura organizacional e administração. A vertente que considera a cultura gerenciável, segundo Hilal (1996 apud CASTRO, 2004), pode ser classificada em dois grupos que representam um relacionamento diferente entre cultura e organização: pragmatismo cultural e purismo cultural. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Para o grupo do pragmatismo cultural, a cultura é uma variável organizacional, ou seja, pode ser manipulada para melhor atender às necessidades da organização. O purismo cultural não isola a organização da cultura, considera, desta maneira, que a organização não possui uma cultura, e sim é uma cultura. Portanto, a cultura pode ser diagnosticada, reconhecida e passível de transformação dentro da organização. Segundo Tomei (1994), apesar de diversos trabalhos buscarem encontrar caminhos para o gerenciamento da cultura organizacional e, embora propostas apresentem caminhos totalmente diferentes, é unânime que cada organização é distinta da outra e, portanto, não existem fórmulas prontas que se apliquem a todas elas. É bastante claro de que um aspecto essencial para ser capaz de gerenciar a cultura de uma organização é compreendê-la. O gerenciamento da cultura é baseado em um sofisticado entendimento dos aspectos tácitos e explícitos que compõem a cultura de uma organização. (CASTRO, 2004) Para poder gerenciar a cultura de uma organização é preciso primeiro compreendê-la, identificando com a maior precisão possível os atributos da cultura que se busca manter ou da cultura que se pretende atingir. Existe uma grande concordância entre os autores sobre os componentes da cultura como um constructo genérico. Porém, segundo Willcoxson e Millet (2000 apud CASTRO, 47 2004), por se tratar de um tema complexo, existem discordâncias sobre alguns aspectos: • O que constitui uma cultura organizacional? • A cultura de uma organização pode ser adequadamente descrita? • É realmente eficiente gerenciar uma cultura? • Qual estratégia de gerenciamento será mais bem sucedida? Independente das afirmações de alguns autores, não existem respostas certas ou simples para estas questões e, como indicado anteriormente, abordagens de gerenciamento cultural são dependendes do conceito dos gerentes ou agentes de mudança da cultura organizacional. Apesar de não haver consenso na metodologia para gerenciar a cultura organizacional, Tomei (1994) sugere que existem algumas variáveis que quando PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA colocadas de forma conjugada podem fornecer indicadores para o gerenciamento da cultura organizacional: (1) a identificação do clima organizacional, a partir de diagnósticos e levantamentos períodicos de opiniões e percepções dos membros da organizações; (2) a identificação das manifestações da cultura: - Através de ritos, artefatos, cenários, contos, símbolos, sagas, ideologias; - Através da análise de artefatos visíveis; através de aspectos históricos; - Através de aspectos externos; - Através da análise do processo de comunicação. (3) analisar os processos e estratégias de socialização de novos membros da organização. Pettigrew (1996) explica porque considera possível, porém difícil, administrar a cultura organizacional. Para ele existem sete fatores explicativos, abaixo elencados: 1) O problema dos níveis – é muito mais difícil modificar as crenças básicas e os pressupostos dentro da organização do que modificar algumas manifestações da cultura, como, por exemplo, a estrutura e os sistemas administrativos. 2) O problema da infiltração – A cultura não é apenas profunda, mas é também 48 extensa. Assim, a cultura organizacional não se refere somente às pessoas, seus relacionamentos e crenças, mas também a seus pontos de vista sobre os produtos da empresa, as estruturas, os sistemas, a missão da empresa, formas de recrutamentos, socialização e recompensas. 3) O problema do implícito – é extremamente difícil modificar coisas que são partes implícitas do pensamento e do comportamento das pessoas, e que raramente emergem explicitamente para discussão. 4) O problema do impresso – a história tem grande peso na administração presente e futura da maioria das organizações. 5) O problema do político – certos grupos de poder na organização têm interesse associado às crenças e a pressupostos que são relevantes em qualquer época, para o desenvolvimento da empresa. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA 6) O problema da pluralidade – a maioria das empresas não possui apenas uma única cultura organizacional, porém em qualquer época podem apresentar diferentes conjuntos de crenças e pressupostos, ou seja, uma série de subculturas. 7) O problema da interdependência – a cultura está interconectada não apenas com a política da empresa, mas também com a estrutura, os sistemas, as pessoas e as prioridades da empresa. A mistura destes sete problemas torna a cultura organizacional difícil de ser gerenciada e modificada, mas não impede que estes dois fatos ocorram. 2.5.1 Liderança e gerenciamento cultural A importância da liderança é geralmente unânime entre a maior parte dos estudiosos e praticantes de gestão. Segundo Trice & Beyer (1993) é difícil imaginar que os processos sociais necessários para criar e sustentar culturas pudesse ocorrer sem esforços de líderes culturais. Conforme definido anteriormente, Schein (2004) explicita que no caso de ameaça à sobrevivência do grupo por conta de elementos de sua cultura se tornarem mal adaptados, é finalmente função da liderança em todos os níveis da 49 organização reconhecê-lo e fazer algo sobre essa situação. Nesse sentido, liderança e cultura são conceitualmente interligadas. Schein (2004) se dedica a detalhar como o líder inculca seus valores, crenças e pressupostos em seus funcionários e lista dois tipos de mecanismos: primário e secundário (Figura 2). Mecanismos Primários • O que os liderem prestam atenção, medem e controlam regularmente • Como os líderes reagem a incidentes e a crises organizacionais • Como os líderes alocam recursos • Como eles ensinam e treinam • Como eles alocam premiações e status PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA • Como eles recrutam, selecionam e excluem pessoas da organização. Mecanismos secundários e de reforço • Desenho e estrutura organizacional • Sistemas e procedimentos organizacionais • Ritos e rituais da organização • Desenho do espaço físico, fachadas e prédios • Histórias sobre eventos importantes e pessoas • Documentos formais sobre filosofia, crenças e regulamentos Figura 2 – Como os líderes inculcam suas crenças, valores e pressupostos Fonte: SCHEIN, 2004, p.246. A essência e desafio primordial do líder é perceber as limitações da cultura de seu grupo e desenvolvê-la de forma a adaptar-se a um novo contexto. Neste sentido ele enfrenta dois grupos principais de problemas: o primeiro diz respeito à sobrevivência, crescimento e adaptação em seu ambiente de negócios e o segundo é o da integração interna que permite o funcionamento diário e a habilidade para adaptar-se e aprender (SCHEIN, 2004, p18). Ainda segundo Schein (2004), cabe destacar que diferentes pessoas localizadas em diferentes papéis no mesmo ou em diferentes subgrupos podem assumir papéis de liderança cultural ao mesmo tempo ou em tempos diferentes. 50 Portanto, a consideração ampla da liderança cultural deve apontar para múltiplos líderes culturais. 2.6 Mudança Cultural Conforme visto no item 2.5 acima, há duas vertentes de estudo de cultura organizacional. Na segunda vertente descrita, acredita-se que o processo de intervenção para mudança cultural poderia atuar em variáveis como os valores e crenças, os quais são expressos por jargões, cerimônias ou rituais, práticas organizacionais, etc. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Segundo Freitas (2007, p.49): “assumir que uma organização não pode mudar é lavrar um atestado de óbito para ela, por outro lado uma cultura que muda a todo instante não referencia nada, ou seja, nem pode ser definida como cultura, visto que ela não se presta a realizar a sua tarefa principal: ser um guia e um saber de receita ou esquema de interpretação para as situações mais comuns na dinâmica organizacional”. De acordo com Tomei (1994), os momentos de crise vivenciados pelas organizações muitas vezes atuam como catalisadores das mudanças. Estas crises podem ser provocadas por fatores externos, como mudanças na economia e na política, ou internos, como o surgimento de um novo líder. A mudança é sempre um momento de ruptura, de transformação, de criação, portanto envolve risco, principalmente em relação às transformações na estrutura de poder. Mudança cultural é a definição de um outro rumo, uma nova maneira de fazer as coisas, alicerçada em novos valores, símbolos e rituais (FREITAS, 1991). Freitas cita algumas situações em que a mudança cultural deve ser considerada pela cúpula de uma empresa: 51 • Mudanças fundamentais no ambiente e a companhia tem sido dirigida por valores. • A indústria é altamente competitiva e o ambiente muda rapidamente. • A companhia apresenta resultados medíocres ou vem, acumulando desempenhos cada vez piores. • A companhia está em vias de se tornar uma grande corporação. • A companhia está crescendo rapidamente e uma massa enorme de novos empregados está sendo absorvida. Freitas (2007, p.38-39) nos lembra, porém, que mesmo dentro de uma perspectiva funcionalista, positivista e politicamente neutra, “é possível prever PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA que grandes dificuldades possam advir quando da tentativa de mudança dos pressupostos, crenças e valores que norteiam as principais manifestações culturais. Mesmo quando os grupos admitem que a adaptação externa é necessária, eles podem obstar que a organização não estará preparada caso haja uma profunda ruptura no seu tecido social interno.”. Segundo Tomei (1994), a literatura organizacional identifica quatro situações nas quais os momentos de ruptura da cultura vigente permitem catalisar o processo de mudança. São elas: • Fusões, aquisições, reestruturações, "downsizings", terceirizações e processos de privatização; • Momentos onde é fortíssima a atuação de fatores externos como recessão, oportunidade tecnológicas e de mercado; • Situações de crises internas de gerência e processo de sucessão de comando; • Processo de socialização de novos membros na organização. 2.6.1 Modelo de Pettigrew Pettigrew (1996) aborda a questão da mudança de uma forma mais abrangente. Segundo o autor, para que haja uma mudança na organização é 52 preciso haver uma interação contínua entre idéias a respeito do contexto da mudança, o processo de mudança e o seu conteúdo. Para a formulação do conteúdo de qualquer mudança é preciso controlar o contexto e o processo. O contexto externo refere-se ao ambiente social, econômico, político e competitivo em que a empresa atua. O contexto interno refere-se à estrutura, à cultura organizacional e ao contexto político da empresa, através do qual as idéias de mudança acontecem. O processo de mudança refere-se as ações, reações e interações das várias partes interessadas. Pettigrew (1996) ressalta que uma das fraquezas da literatura existente, especialmente a relacionada à mudança estratégica, é seu enfoque apenas na ligação entre o contexto externo e o conteúdo e, por esta razão, muitos planejadores deparam-se com a falta de aceitação das mudanças propostas. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA De acordo com Pettigrew (1996), estudos introduziram um novo conceito a respeito de processos administrativos de mudança: “(...) a mudança estratégica deve ser vista agora como um processo humano complexo em que todos desempenham sua parte: a percepção diferenciada, as buscas por eficiência e poder, as habilidades de liderança visionária, a duração das mudanças e processos sutis que gradativamente preparam o momento propício de apoio para a mudança e, então, a implementação vigorosa da mudança.” (PETTIGREW, 1996, p.145). O autor identificou aspectos considerados importantes para facilitar mudanças na cultura organizacional (TOMEI, 1994): a) um contexto externo receptivo, juntamente com habilidade em mobilizar este contexto, de modo a criar um clima geral para que ocorra a mudança. b) O comportamento de liderança tanto dos indivíduos recentemente engajados na organização e vindos de fora, como dos indivíduos que algum tempo vêm fazendo pressão por mudança e ocupam postos de poder internamente. A maior parte dos casos de mudança revela clara e consistente pressão da Alta Administração. c) A existência de visões desarticuladas e imprecisas por parte de agentes de mudança na Alta Administração. d) A utilização de ações divergentes por parte de figuras-chave no novo esquema, a fim de elevar o nível de tensão na organização pela mudança. 53 e) A utilização de meios desviantes e não ortodoxos, tanto externa como internamente à organização, a fim de dizer o que não é expressável e pensar o que não é pensável. f) A liberação de caminhos e energias para a mudança, através do deslocamento de pessoas e portfólios. g) A criação de novas reuniões e outras arenas onde os problemas podem ser articulados e compartilhados e as energias centradas em torno da necessidade de mudança. h) A alteração do processo administrativo na Alta Administração. Um aspecto chave disto parece ser a necessidade de mudar os processos administrativos da alta administração, que têm caráter altamente divisionista para uma posição coerente e coesa. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA i) O reforço de quaisquer alterações culturais embrionárias através de mudanças estruturais cuidadosamente casadas, seguidas pelo fortalecimento de tais mudanças culturais e estruturais por meio da utilização pública dos sistemas de premiação da organização. j) A busca e o uso de modelos de desempenho que podem, através de seu comportamento público, apresentar os aspectos-chaves da nova cultura. A identificação das pessoas que podem "transmitir" parece ser um aspecto chave para tornar concreto e publico as mudanças culturais desejadas. Esses modelos de desempenho da nova era ajudam também o reforço continuado da mudança. k) A introdução da mensagem o mais profundamente possível na organização através do uso de estratégias de treinamento e desenvolvimento. l) A transmissão das novas crenças e comportamento na organização, revolucionando os mecanismos de comunicação dos empregados. m) Finalmente, existe uma necessidade, antiquada, mas crítica, de persistência e paciência. 54 3 Metodologia 3.1 Tipo de Pesquisa De acordo com os conceitos propostos por Gil (1991) e Vergara (2000) podemos classificar essa pesquisa segundo dois critérios básicos: Quanto aos fins: Descritiva – pois buscou identificar as características de determinado fenômeno ou população, no caso a cultura e a população da organização ENSR. Não teve compromisso de explicar os fenômenos que descreve, mas pôde servir de base para esta explicação. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Quanto aos meios, a pesquisa utilizou os seguintes meios: Bibliográfico: para a fundamentação teórica do trabalho foi realizada uma investigação sobre cultura organizacional, mudança cultural e gerenciamento da cultura com uso de material acessível ao público em geral, tais como: livros, teses, dissertações e artigos; Documental: uma vez que utilizou como fonte documentos internos da empresa foco de estudo, tais como os resultados das pesquisas de clima e do diagnóstico ambiental; Telematizada: porque foram feitas consultas via internet e intranet para buscar mais dados, como história da organização, missão, visão e valores, entre outros; e Pesquisa de campo: devido à coleta de dados primários, tais como questionários semi-estruturados aplicados aos funcionários da empresa ENSR Brasil e sua matriz e observação participativa (investigação empírica) da autora realizada dentro do ambiente da ENSR Brasil. Foram utilizadas fontes primárias e secundárias na obtenção de dados. Segundo a taxonomia de Yin (2005), a pesquisa envolveu um estudo de caso de uma só organização. Segundo o autor, os estudos de caso representam a estratégia preferida quando se colocam questões do tipo “como” e “por que”, quando o pesquisador tem pouco controle sobre os acontecimentos e quando o 55 foco se encontra em fenômenos menos contemporâneos inseridos em algum contexto da vida real (YIN, 2005). O poder diferenciador do estudo de caso é sua capacidade de lidar com uma ampla variedade de evidências – documentos, artefatos, entrevistas e observações – além do que pode estar disponível no estudo histórico convencional. 3.2 Seleção do Caso e Escolha dos Sujeitos O estudo de caso feito foi o da empresa ENSR Brasil, incluindo seus dois escritórios no Rio de Janeiro (matriz) e em São Paulo (filial), além de questionários aplicados a vice-presidentes da matriz global (EUA). Os principais PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA motivos para a escolha da ENSR Brasil foram: - O fato de tratar-se de uma empresa que passou recentemente por situações de rupturas, tais como reestruturações, aquisição e abertura de mercado, situações de crises internas de gerência, culminando em processo de sucessão de comando e processo de socialização de novos membros na organização. Isso está em linha com o apresentado no item 2.6, quando definimos as situações potenciais para a gerência da cultura organizacional. - A facilidade de coletar dados em virtude da pesquisadora fazer parte do quadro de funcionários próprios da organização. Como dados secundários, foram utilizadas informações coletadas no departamento de RH; em apresentações corporativas disponíveis na rede; na internet e na intranet da empresa; nas pesquisas de clima e engajamento realizadas pela matriz americana em 2001, 2003, 2006 e 2007; além de num diagnóstico ambiental feito em agosto de 2006 por uma consultora de RH recém contratada a época. Adicionalmente foram aplicados questionários semi-estruturados a funcionários e ex-funcionários da ENSR Brasil, além de um vice-presidente da matriz americana (dados primários). A Tabela 6 a seguir resume os instrumentos de coleta de evidência e os sujeitos pesquisados em cada um. 56 Tabela 6 – Instrumentos de Coleta de Evidência e Sujeitos Pesquisados Instrumento de Pesquisa Número de Respondentes Fonte Cargos Pesquisa de Clima e Engajamento 2001 16 funcionários do RJ Secundária Anônima Pesquisa de Clima e Engajamento 2003 35 funcionários do RJ e 21 de SP Secundária Anônima Pesquisa de Clima e Engajamento 2006 39 funcionários do RJ e 32 de SP Secundária Anônima Pesquisa de Clima e Engajamento 2007 37 funcionários do RJ e 38 de SP Secundária Anônima Secundária Desde pessoal administrativo e especialistas técnicos até gerentes de departamento e financeiro Diagnóstico Ambiental (gerente de RH) 11 funcionários do RJ e 13 de SP PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Agosto de 2006 - Chief Operating Officer ENSR – atual Vice presidente de Desenvolvimento Organizacional da AECOM e Vice-Presidente de Marketing da ENSR (matriz) Aplicação de Questionários SemiEstruturados Outubro-Novembro de 2007 18 funcionários e ex-funcionários - Fundador e Diretor Geral da ENSR de 1998 a 2007 Primária - Novo Diretor Geral (ex Gerente Operacional RJ) - Gerente de RH, Gerente Financeira e 1 Gerente de Departamento - 3 Gerentes de Projetos - 4 funcionários técnicos ou administrativos - 6 ex-funcionários 57 3.3 Descrição das Etapas da Pesquisa A seqüência de desenvolvimento da pesquisa seguiu o fluxograma ilustrado a seguir. Pesquisa Bibliográfica Escolha da Metodologia Levantamento de Dados Análise dos Resultados e Conclusões - Pesquisa Documental - Observação Participativa - Entrevistas semi-estruturadas PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Figura 3 – Desenvolvimento da Pesquisa Na etapa de pesquisa bibliográfica foram pesquisados os principais conceitos referentes ao tema estudado, identificando as principais metodologias para o estudo da cultura organizacional. A seguir, foi escolhida a metodologia a ser aplicada no estudo de caso, de acordo com critérios de acessibilidade, tempo necessário para a pesquisa e a confiabilidade do método. Para o levantamento de dados, subseqüente à definição da metodologia, foram coletadas informações sobre a ENSR Brasil através de pesquisa documental, observação informal participativa e aplicação de questionários semiestruturados. A última etapa correspondeu à análise dos dados encontrados e dos resultados das pesquisas, concluindo sobre a questão do impacto da cultura organizacional ao longo do ciclo de vida da ENSR Brasil e dando sugestões para estudos futuros que busquem aprofundar o tema. Em termos temporais, destaca-se que as pesquisas de clima e engajamento dos funcionários foram aplicadas em 2001, 2003, 2006 e 2007. Os questionários semi-estruturados foram aplicados no segundo semestre de 2007. A observação informal participativa da autora remonta aos cinco anos de sua permanência na empresa (de 2002 a 2007), porém o foco de análise para este estudo deu-se principalmente ao longo dos anos de 2006 e 2007. 58 3.4 Coleta de Dados De acordo com Gil (1991), os procedimentos mais usuais para a coleta de dados em um estudo de caso são a observação, a análise de documentos, a entrevista e a história de vida da empresa. Todos esses procedimentos foram aplicados no estudo de caso da empresa ENSR Brasil, com exceção das entrevistas que foram substituídas pela aplicação de questionários. Depois de identificada a metodologia a ser aplicada na análise da empresa, foi possível definir quais manifestações deveriam ser observadas e como identificar suas características através dos procedimentos citados acima. Iniciou-se então a pesquisa de campo que constitui-se de análise de documentos existentes, cujas fontes foram o departamento de RH, a intranet e o PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA site da empresa e documentos que a própria autora detinha, como apresentações, organogramas históricos e outros documentos relacionados à estrutura e estratégia da empresa. Os questionários semi-estruturados foram aplicados pela autora visando melhor identificar as manifestações da cultura organizacional e os pressupostos culturais existentes. A autora optou por não entrevistar os funcionários pessoalmente buscando não influenciar as respostas e se comprometeu a manter sigilo das respostas pessoais. As perguntas dos questionários não foram iguais para todos os respondentes, variando conforme a função ou se o respondente era um ex-funcionário. As perguntas aplicadas são apresentadas nos Anexos. A pesquisa baseia-se também na análise participativa do ambiente de trabalho com a coleta de outros tipos de evidências tais como: condições físicas de trabalho, clima organizacional, layout e arquitetura das instalações, o comportamento dos funcionários, a receptividade a novos funcionários, as regras sociais, a linguagem e vestuário dos funcionários, entre outros. 59 3.5 Fundamentação Metodológica Na revisão bibliográfica apresentada foram aprofundados os principais conceitos referentes aos temas estudados, além de apresentar as metodologias utilizadas para o estudo de cultura organizacional. Em seguida, foi escolhida a metodologia aplicada à empresa foco do estudo de caso, de acordo com critérios como facilidade de acesso aos dados, relevância do caso estudado, tempo disponível e profundidade desejada para a pesquisa e confiabilidade do método versus objetivos da pesquisa. Para se atingir os objetivos (primários e secundários) apresentados no item 1.2, optou-se por analisar qualitativamente os dados coletados de acordo com o PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA apresentado no item 3.4, aplicando-se o referencial teórico apresentado. Desta forma, para o estudo da cultura organizacional da empresa ENSR, será utilizado o conceito de cultura e ciclo de vida da organização apresentado por Schein (item 2.4), definindo os diferentes momentos evolutivos da companhia. Após definidos os diferentes estágios evolutivos e os momentos de ruptura, partiremos para a caracterização da cultura organizacional dentro destes diferentes instantes, aplicando-se os níveis culturais de Trice & Beyer (1984). A comparação da cultura antes e após os momentos de ruptura será feita aplicando-se algumas das tipologias apresentadas, a saber: Handy (1978), Sethia e Von Glinow (1985), Donnelly (1984) e Deal & Kennedy (1982). Como pano de fundo, também será feita a avaliação das práticas administrativas para o gerenciamento da mudança, à luz dos modelos de Pettigrew (1996), Davis (1988) e Barros e Prates (1996). 3.6 Tratamento dos Dados Os dados coletados na pesquisa documental, observação participativa e nos questionários aplicados foram tratados qualitativamente. A pesquisa bibliográfica forneceu os elementos interpretativos e os constructos a serem observados no restante do material. Os documentos da empresa têm um caráter instituinte, pois a 60 organização é relativamente nova, logo forneceram um importante elemento de explicitação da cultura da empresa. Os dados obtidos através dos questionários aplicados, por contemplarem opiniões, reflexões, interpretações e análises subjetivas dos sujeitos da pesquisa, exigiram tratamento através de um método que possibilitasse sua compreensão e tradução, ou seja, tratamento qualitativo, através de análise de conteúdo, a fim de interpretar as colocações dos respondentes. Conforme descrito por Yin (2005), foi feito um emparelhamento de padrões da pesquisa de campo com a teoria. As informações referentes às características culturais da empresa (ritos, mitos, sistemas de avaliação e recompensas, etc.) foram analisadas de forma a auxiliar no entendimento da cultura da empresa analisada, bem como inferir em PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA que estágio evolutivo encontra-se sua cultura. 3.7 Limitações do Método Yin (2005) ressalta a principal diferença entre o método do estudo de caso aqui utilizado e o os estudos que utilizam técnicas estatísticas. O estudo de caso visa ao entendimento de um fenômeno a partir de sua observação em um contexto único, e, portanto, suas conclusões podem levar a generalizações, mas não são generalizáveis no sentido estatístico, onde se acredita que a amostra é representativa da população e através de uma série de técnicas o estudado pode ser extrapolado como característica da população. Uma outra possível limitação do método é o fato do pesquisador ser funcionária da empresa estudada há mais de 5 anos, o que por um lado facilita na coleta de dados e obtenção de informações, mas por outro pode enviesar a análise dos dados coletados. Sathe (1985 apud FREITAS, 2007, p.36) destaca a importância de atentar para as qualificações e status dos investigadores, “pois o que é revelado da cultura pode ser afetado por quem está conduzindo a investigação. Pessoas que têm sido expostas a diferentes culturas organizacionais têm maior oportunidade para desenvolver a habilidade e a sensibilidade de “ler” uma cultura e observar os seus contrastes. O status influencia quanto ao acesso às 61 informações, porque membros antigos têm o benefício da experiência e o ponto de vista nativo; por outro lado, são os recém-chegados que podem notar melhor as manifestações culturais, porém, com a desvantagem do acesso. Ambas as posições têm limitações para acessos e interpretações”. Já os autores Maturana e Varela (1995) consideram o observador como um sistema vivo e a aceitação de que o conhecimento é um fenômeno biológico deve levar à aceitação do papel do observador e do seu papel no ambiente pesquisado. Portanto, apesar de representar uma limitação, este fato não invalida o estudo. A abordagem qualitativa está sujeita às interpretações do pesquisador. Entretanto, a busca do distanciamento do objeto de estudo e isenção de preconceitos, procurou contrabalancear esta limitação. Em termos de coleta de dados, alguma dificuldade foi encontrada em se obter todas as respostas desejadas, apesar de que essa dificuldade só ocorreu na PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA fase de aplicação dos questionários. No entanto, em termos geográficos, a representatividade de respostas do escritório de São Paulo foi muito menor, o que pode prejudicar a generalização para a filial. Em termos geográficos também, a pesquisadora teve pouco acesso à observação direta dos níveis culturais no escritório de São Paulo. O fato de a autora ter optado pela aplicação de questionários à distância (por e-mail) em vez da aplicação de entrevistas semi-estruturadas, para não influenciar nas respostas por ser ela também funcionária e gerente da empresa, representa uma limitação adicional. Por fim, uma ultima limitação é o tempo curto desde a última situação de ruptura (substituição do diretor geral, que ocorreu em Novembro de 2007), o que limitou o tempo de observação após essa mudança estrutural e não permitiu a avaliação definitiva (somente momentânea) dos impactos desta ruptura na cultura organizacional. 62 4 Estudo de Caso: ENSR Brasil 4.1 Histórico 4.1.1 Histórico da ENSR A ENSR foi fundada em 1968 por especialistas do MIT (Massachussets Institute of Technology), naquela época chamada ERT (Environmental Research and Technology). A empresa foi formada para atender às necessidades de qualidade do ar e consultoria ambiental, no momento em que regulamentações PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA marco sobre ar, água e resíduos foram lançadas. Entre 1996 e 1997, a ERT adquiriu a empresa Fugro Environmental, abriu escritórios na América Latina, na Europa e na Ásia. No mesmo período foi fundado o IAPC (International Audit Protocol Consortium – Consórcio Internacional de Protocolo de Auditoria), o mais importante protocolo de auditoria utilizado por diversos grupos como: Alcoa, BP, Bayer, Colgate-Palmolive, Gillette, GlaxoSmithKline, entre outros. Em 1998, o nome do grupo foi alterado para ENSR (Environmental Services), de forma a simbolizar os serviços prestados. Entre 2000 e 2002, a companhia já possuía escritórios em 16 países, criou a ENSR China e adquiriu mais duas empresas: McLaren Hart/Jones e Atlantic Geoscience. Em 2004 a ENSR abre seu escritório na França, além de possuir mais de 25 alianças e parcerias. Em 2005 a ENSR é adquirida pelo grupo AECOM, passando a assumir a identidade de ENSRAECOM. Em 2007 a ENSR adquire mais duas empresas: RETEC (EUA) e HLA (Austrália). Após ser adquirida pela AECOM, a ENSR remodelou seu estilo de negócio para se adaptar ao estilo gerencial do grupo, revisando conceitos como visão, missão e valores. 63 4.1.2 Histórico da AECOM A AECOM foi fundada em 1990 como uma companhia independente. Desde então, ela vem crescendo e diversificando seu negócio através de crescimento orgânico (corporate expansion) e através de intensas atividades de aquisição de empresas. Com isso, a companhia conseguiu aumentar significativamente as suas linhas de serviço e seu alcance global. O grupo é um fornecedor global de serviços profissionais técnicos e suporte de gerenciamento para um grande número de mercados, incluindo transporte, indústrias, meio ambiente e energia. Com mais de 32.000 funcionários em todo o mundo, a AECOM é líder em todos os mercados chave que serve. Ela fornece uma mistura de presença global, conhecimento local, inovação e excelência PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA técnica para prover soluções que melhorem e sustentem os ambientes construídos, naturais e sociais do mundo. Ela está presente em mais de 60 países e teve faturamento de 4.2 bilhões de dólares no ano fiscal de 2007. Em novembro de 2007, o grupo abriu seu capital através de uma oferta pública de ações (IPO) na New York Stock Exchange (ação negociada na NYSE como ACM). 4.1.3 Histórico da ENSR Brasil A ENSR iniciou suas atividades no Brasil em 1997, criando a empresa ENSR International Brasil Ltda. – ENSR Brasil. A vinda da companhia para o Brasil ocorreu a convite da Shell, um cliente mundial, que buscava no Brasil a mesma qualidade de serviços da ENSR mundialmente. Para iniciar e dirigir suas operações no Brasil, a ENSR convidou o Engenheiro químico Eduardo Lopes, indicado pela própria Shell por conta de seu histórico de prestação de serviços ao longo de sete anos. No primeiro ano de operação (de 1997 a 1998), a ENSR funcionou dentro da estrutura da B.R. Lopes – Engenharia Ambiental Ltda., empresa de Eduardo Lopes e de sua esposa, também engenheira química, Simone Thury, que o ajudou 64 na gestão das duas empresas. Nesse período, a ENSR foi administrada em conjunto e funcionou no mesmo escritório com a B.R. Lopes. Em setembro de 1998 a matriz da ENSR Brasil foi estabelecida no Rio de Janeiro e assim tornou-se independente da B.R. Lopes. Nos seus dois primeiros anos de funcionamento, a empresa prestou serviços apenas no setor de ISC – Avaliação de Passivos Ambientais (Investigação e Remediação Ambiental de água subterrânea e solos). Neste período, a Shell representava 90% do faturamento da ENSR Brasil. Em 1999 foi inaugurado o escritório operacional em São Paulo (única filial da ENSR Brasil), por conta de um grande projeto de cunho nacional (NERA). Esta decisão foi motivada pelo fato de a maior parte dos sites da Shell encontrarem-se no estado de São Paulo e nos três estados da região sul do Brasil, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA com o objetivo de otimizar custos de mobilização e facilitar questões logísticas. A partir de 2000, a ENSR Brasil passou a prestar consultoria no mercado de licenciamento ambiental de atividades offshore (exploração e produção de petróleo e gás), mais uma vez a convite da Shell. Este serviço vem sendo prestado exclusivamente pelo escritório do Rio de Janeiro e em sete anos, a ENSR conseguiu penetrar o mercado de licenciamento offshore, trabalhando para praticamente todos os principais players atualmente no Brasil. Também nesta época, em 2002, a ENSR passou a executar serviços de Auditoria Ambiental Fase 1 e Due Diligence. Boa parte dos serviços são repassados pela própria matriz nos EUA, por conta de contratos mundiais com clientes presentes também no Brasil. No final de 2004 a ENSR Brasil ganhou a concorrência para um grande contrato com a Shell para o departamento de ISC (avaliação de passivos ambientais), para atender a todas as demandas de investigação ambiental da Shell na América Latina. Por conta deste contrato a empresa teve que se reestruturar, contratando um profissional responsável por compras e diversos técnicos de campo para executar os serviços, além de outros profissionais de suporte e de gerenciamento de projetos. Esse projeto denomina-se SOPLA e constitui um departamento a parte do escritório de São Paulo. Hoje em dia a ENSR Brasil conta com aproximadamente 100 funcionários distribuídos em dois escritórios recém reformados, um no Rio de Janeiro – um 65 andar na Praia de Botafogo (desde 2003) – e um prédio de três andares em São Paulo, na Chácara Santo Antônio (desde 2007). Ao longo de seus quase dez anos de atividade, a ENSR Brasil passou por situações de rupturas que marcaram o estilo gerencial da companhia. O efeito dessas situações de ruptura na cultura organizacional da ENSR Brasil será discutido no capítulo 5 deste trabalho. Entre elas destaca-se: • Reestruturação do escritório de São Paulo, com demissão do gerente do escritório e outros funcionários em 2005; • Aquisição da ENSR pelo grupo AECOM em julho de 2005; • Processo de reestruturação organizacional e socialização de novos gerentes (gerente de RH e gerente operacional do escritório do Rio de Janeiro) em 2006; PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA • Processo de substituição/sucessão do fundador e diretor geral da ENSR Brasil em Novembro de 2007. É importante destacar que em março de 2006, foi feito um treinamento aplicado pela matriz americana com o diretor geral e os gerentes, aonde foi estabelecido um plano de ação. Dos EUA vieram o recém nomeado Chief Operating Officer (ex Vice-presidente de Desenvolvimento Organizacional da ENSR e atual Vice-presidente de Desenvolvimento Organizacional da AECOM), o Vice-presidente de Vendas e Marketing e o Diretor das Operações da América Latina. Esse plano de ação buscava estruturar a ENSR Brasil, buscando melhorar os resultados operacionais e atingir resultados financeiros positivos. Foi o primeiro indício de intervenção da matriz nas operações da ENSR Brasil e foi o primeiro passo para o processo de reestruturação organizacional da empresa. 4.2 Definição do Negócio Conforme definição da matriz: “Parte da AECOM, a ENSR é um fornecedor global de serviços ambientais e de desenvolvimento energético para a indústria e o governo. Como uma empresa 66 totalmente dedicada aos serviços ambientais, os profissionais a ENSR fornecem aos clientes consultoria, engenharia, remediação e serviços co-relatos em mais de 15 países. Todos os escritórios da ENSR operam dentro de uma filosofia unificada de prover resposta rápida e serviço consistente” (Fonte: Intranet da ENSR). Desde 1968 a ENSR completou mais de cem mil projetos em cem países, em todos os continentes e em mais de 40 idiomas. Atualmente, a companhia conta com 2.500 funcionários, 90 escritórios distribuídos em 15 países e expertise em mais de 60 disciplinas técnicas. Ainda segundo as informações corporativas da companhia, “a ENSR ajuda seus clientes a desenvolver soluções de custo reduzido focadas no negócio, para atingir e manter conformidade ambiental legal e manter operações PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA ambientalmente seguras” (Fonte: Intranet da ENSR). A fórmula de negócio da ENSR é representada pela figura de um bolo de noiva, conforme mostrado abaixo. Figura 4 – Fórmula de Negócio da ENSR (Fonte: Departamento de Desenvolvimento Organizacional da ENSR) Segundo essa analogia, a base do negócio da ENSR são funcionários engajados, motivados e compromissados. Em seguida, e como resultado dessa base, vem o comprometimento total com serviço para o cliente superior. Por fim, embasado por essas duas camadas, chega-se ao crescimento da fatia de mercado em cada cliente, através de contas novas e existentes. 67 4.2.1 Serviços, posicionamento, vendas e marketing Os principais serviços da ENSR no mundo são: Licenciamento Ambiental; Gestão da Qualidade do Ar; Gestão de Recursos Hídricos; ISC (Avaliação de Passivos Ambientais); Consultoria em Gestão de Meio Ambiente, Saúde e Segurança; Engenharia de Processo Ambiental; Conformidade e Licenciamento Ambiental; Auditorias Due Diligence; Estudos de Impacto Socioambientais; Análise de Risco Ecológico e à Saúde Humana; Meio Ambiente Geológico; Meio Ambiente Marinho. O foco da ENSR é em clientes pertencentes a corporações multinacionais industriais, companhias de energia, companhias em processo de fusões e PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA aquisições e entidades regulatórias do governo. A ENSR Brasil presta serviços nas áreas de ISC (Avaliação de Passivos Ambientais), Licenciamento Ambiental e Estudos de Impacto Socioambiental, Auditorias Ambientais e Due Diligence e Sistemas de Gestão de EHS (Meio Ambiente, Saúde e Segurança). O escritório de São Paulo presta serviços de ISC e auditorias, enquanto o do Rio de Janeiro, além desses, presta de licenciamento ambiental e estudos de impacto socioambiental e de sistemas de gestão de EHS. Recentemente, a ENSR Brasil começou a prestar também serviços de GIS (Geographic Information System – Sistema de Informação Geográfica), também a partir do escritório do Rio de Janeiro. O escritório do Rio de Janeiro trabalha predominantemente para clientes do setor de energia, notadamente de petróleo e gás, com algumas exceções de clientes industriais. Já o escritório de São Paulo trabalha tanto para clientes de petróleo (notadamente a Shell) como para clientes industriais. A Shell continua sendo o principal cliente da ENSR Brasil, correspondendo a mais de 50% de seu faturamento anual em 2007. Em termos estratégicos, não existe um posicionamento firme, uma vez que a prática de planejamento estratégico está sendo iniciada após a reformulação organizacional pelo que a empresa passou recentemente. Sabe-se que o foco, assim como o da matriz, é em clientes privados, multinacionais (clientes do grupo internacionalmente) ou grandes empresas brasileiras dos setores industriais e 68 energéticos. Existe uma necessidade de aumento do portfolio de clientes, descentralizando a forte dependência que existe em relação ao principal cliente (Shell). Existe na empresa uma forte cultura de foco no cliente, cultura essa enraizada pela alta gerência, em especial o fundador e ex-diretor geral, Eduardo Lopes, em reforço à cultura já existente na matriz. A ENSR Brasil adotou o modelo americano de “sellers-doers” (vendedores-executores), claramente evidenciado na seguinte declaração do departamento de marketing da matriz americana: “Na ENSR, a construção do relacionamento com o cliente é trabalho de todos. Ter uma cultura de vendas significa que todos estamos conscientes de que estamos vendendo todos os dias com toda ação” (Fonte: Departamento de Sales & Marketing da ENSR). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA O foco na ENSR Brasil sempre foi nas ações de vendas, com poucas ações de marketing que, quando existem, são isoladas e desordenadas, como envio de brindes de natal, palestras isoladas para clientes do departamento de licenciamento ambiental e participação em algumas feiras e/ou congressos. A confecção de material de marketing também é feito de forma desordenada, ocorrendo quando nota-se a necessidade de visita a algum cliente ou distribuição em algum evento. Até novembro de 2007 não existia um responsável por marketing, cargo esse ocupado atualmente pelo antigo diretor geral, Eduardo Lopes, que assumiu a função de gerente de marketing para a América Latina. Em termos de posicionamento, nunca foi contratado estudo de mercado ou de posicionamento, mas existe uma clara sensação na alta gerência de que a ENSR ocupa no Brasil posição de destaque no mercado de consultoria ambiental, o que é refletido em declarações obtidas nos questionários tais como “a ENSR hoje é considerada a melhor empresa de licenciamento de atividades offshore” e “a ENSR é referência em consultoria ambiental no Brasil”. 69 4.2.2 Missão ENSR e ENSR Brasil: Após ser adquirida pela AECOM, a ENSR reformulou sua missão, que passou a ser: “Ser considerada por seus clientes, funcionários e pares a líder global no fornecimento de serviços profissionais técnicos e de consultoria” (Fonte: Intranet da ENSR). AECOM: Como parte do grupo AECOM, a ENSR também segue a missão descrita PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA abaixo, apesar de ter uma específica para seu nicho de serviços. “Os profissionais da AECOM ao redor do mundo estão unidos por um objetivo comum - aperfeiçoar e sustentar os ambientes construídos, naturais e sociais do mundo” (Fonte: Intranet da ENSR). 4.2.3 Visão ENSR e ENSR Brasil: “Continuar a criar valor para seus clientes, acionistas e funcionários, enquanto constrói/aprimora a qualidade de vida para a comunidade global, assim como prover maiores oportunidades profissionais para seus profissionais” (Fonte: Intranet da ENSR). 4.2.4 Valores ENSR e ENSR Brasil: • Respeito Mútuo e Confiança. • Prover aos clientes serviços de qualidade e aos funcionários oportunidades de desenvolvimento. 70 • Aumentar o valor dos acionistas – Modelo Cidadão Corporativo. – Forte performance financeira. – Atender rigorosamente a todas as regulamentações legais e contábeis. – Ações éticas além das exigências legais. (Fonte: Intranet da ENSR) AECOM: Como parte do grupo AECOM, a ENSR também segue os valores descritos a seguir, adicionalmente aos valores já apresentados (Fonte: Intranet da ENSR). Integridade • Somos honestos e éticos em tudo que fazemos. • Mantemos nossos compromissos e tratamos os outros com respeito e PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA confiança mútuos. Funcionários • Nossos funcionários são o recurso mais valioso e mais valorizado da nossa empresa; são eles que tornam possível o nosso sucesso. • Temos o compromisso de criar um ótimo ambiente propício para nossos funcionários trabalharem e prosperarem. • Respeitamos e encorajamos as idéias, a diversidade e a cultura de nossos funcionários. Clientes • Nosso sucesso é medido através do sucesso de nossos clientes. • Estamos comprometidos com nossos clientes e com a criação de padrões de serviços e soluções para a indústria. • Temos grande entusiasmo em solucionar os problemas de nossos clientes e em explorar novas oportunidades com os mesmos. Excelência • Buscamos atingir excelência em todas as áreas de nossos negócios – técnica, operacional e administrativa. • Temos orgulho de obtermos resultados excepcionais em tudo que fazemos. 71 Inovação • Procuramos maneiras criativas, novas ou melhores para disponibilizarmos nossa expertise em todas as dimensões de nossos negócios. • Criatividade, pesquisa e imaginação são a chave da nossa abordagem em nosso trabalho. Agilidade • Abraçamos as mudanças, a flexibilidade e a adaptação em um mundo que evolui rapidamente. • Empenhamo-nos para antecipar mudanças nas tendências do mercado e para trabalhar com os nossos clientes e funcionários na adaptação a estas mudanças. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Crescimento Rentável • O crescimento rentável direciona nosso negócio e nos permite investir e criar oportunidades para nossos funcionários. (Fonte: Intranet da ENSR). 4.2.5 Localização física e descrição da operação Conforme descrito anteriormente, a ENSR possui no Brasil dois escritórios, a matriz no Rio de Janeiro e a filial em São Paulo. Ambos escritórios passaram por processos de mudança física e reforma nos últimos três anos, principalmente por conta do aumento no corpo de funcionários e colaboradores. O escritório do Rio de Janeiro localizava-se inicialmente em Botafogo, em meio andar de um prédio comercial no coração do bairro. A localização do escritório sempre foi priorizada em termos de facilidade de acesso aos funcionários, através de transporte público e vias de acesso. Por conta da abertura da nova frente de serviços de licenciamento ambiental offshore, foi necessário expandir e ocupar o andar inteiro em 2002. Com o sucesso da área de licenciamento, optou-se pela mudança para um escritório maior e também mais moderno e “apresentável” aos clientes. A mudança ocorreu em meados de 2003 para um escritório na praia de Botafogo, ocupando um andar inteiro (400 m2) e com vista para a Baía de 72 Guanabara. O escritório foi todo reformado e as instalações todas novas. Optou-se pelo estilo de escritório aberto, com divisórias baixas entre as mesas, para valorizar a vista. Os únicos escritórios fechados eram do diretor geral, do gerente de ISC, da informática e o departamento financeiro que ficava em sala a parte. Depois, com a reestruturação organizacional e a contratação de um gerente de RH, de um gerente operacional e de um gerente administrativo, foram fechadas mais três salas para acomodá-los. O escritório de São Paulo já passou por três endereços diferentes. O primeiro tornou-se muito apertado por conta do crescimento dos serviços prestados à Shell e outros clientes, quando mudaram-se para uma casa. O mobiliário do novo escritório foi aproveitado do escritório do Rio de Janeiro após a mudança. A casa, originalmente residencial, apresentou problemas operacionais PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA de manutenção e adequação às necessidades de escritório e por isso, decidiu-se por mais uma mudança que ocorreu em 2007. Nesta segunda mudança o novo escritório, um prédio de três andares no bairro Chácara de Santo Antônio (totalizando 500 m2), que foi todo reformado, incorporando uma identidade visual similar à do escritório do Rio de Janeiro, com divisórias baixas, cores azuis, etc. Em termos operacionais, a ENSR Brasil incorpora dois tipos de operações bastante diferentes. A primeira delas e também a original, o serviço de ISC (Avaliação de Passivos Ambientais), demanda uma estrutura operacional robusta de equipamentos e logística para trabalhos de campo, espalhados por todo o território brasileiro. Para tal, existe grande necessidade de uma rede de fornecedores de material diverso e equipamentos e prestadores de serviços de viagem, aluguel de carro, além de espaço físico nos escritórios para estoque desse material e equipamentos (almoxarifados). Adicionalmente, existe a necessidade de locação de galpões para guardar equipamentos de maior porte, como containeres de equipamentos. Por fim, também é necessário ter uma estrutura específica para os técnicos de campo (armários, chuveiro) e também uma estrutura administrativa-financeira específica para administrar as prestações de conta de viagens e aspectos de saúde e segurança dessas atividades. O outro tipo de operação é a tipicamente de consultoria em que os funcionários ficam locados exclusivamente ou na maior parte do tempo no 73 escritório, elaborando relatórios, demandando melhor estrutura de TI e espaço físico nos escritórios. Neste tipo de operação encaixam-se os departamentos de licenciamento ambiental, sistemas de gestão de EHS e o de auditoria. Essas diferenças operacionais existem não só em termos de estrutura física e organizacional, mas também em termos das demandas dos próprios funcionários e em termos de políticas de RH, representando um desafio para a gerência da empresa. 4.3 Estrutura Organizacional e Evolução no Número de Funcionários De forma a situar a estrutura da ENSR Brasil na estrutura da matriz nos PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA EUA, abaixo é ilustrada o organograma atual da ENSR. CEO Performance de EH&S COO Marketing & Vendas Global Desenvolvimento Organizacional Operações na América do Norte Gestão de Risco/ Gestão de Projetos Operações Internacionais Operações na Asia Operações na Europa CFO/CAO Nova Companhia Operações na América Latina ENSR BRASIL Figura 5 – Estrutura Organizacional da ENSR (Fonte: ENSR) Conforme explicitado anteriormente, a ENSR Brasil passou por uma significativa reestruturação organizacional em 2006 que provocou uma grande mudança em seu organograma. Nas figuras 6 e 7 a seguir ilustramos essa mudança através do contraste entre os organogramas até setembro de 2006 e após essa data. 74 Diretor Geral Gerente Administrativo Financeiro Gerente TI Gerente de Licenciamento Ambiental Gerente de ISC Gerente de Auditoria Gerente de Compras Gerente de Marketing Gerente de Saúde e Segurança Gerente de RH Departamento de Pessoal Figura 6 – Organograma da ENSR Brasil de 2005 até setembro de 2006 (Fonte: Departamento de RH da ENSR Brasil) PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Diretor Geral Gerente Financeiro Gerente Administrativo Coordenador de TI Gerente de RH Gerente Operacional RJ Gerente de Licenciamento Ambiental Gerente de ISC Gerente Operacional SP Gerente de Auditoria Gerente de ISC Gerente de Auditoria Gerente Projeto SOPLA (Shell) Coordenador de Saúde e Segurança Figura 7 – Organograma da ENSR Brasil após setembro de 2006 (Fonte: Departamento de RH da ENSR Brasil) Conforme descrito, o novo organograma criado foi resultado de uma reestruturação interna, imposta pela matriz americana e resultou na vinda de dois novos profissionais com visões de negócio e culturas gerenciais diferentes – uma gerente de RH e um gerente operacional para o Rio de Janeiro. O principal objetivo na mudança da estrutura organizacional foi a descentralização da estrutura e maior distribuição de responsabilidades. A evolução no número de funcionários total da empresa e por escritório está representada nas Figuras 8 e 9, respectivamente, a seguir: 75 Número de Funcionários - ENSR Brasil 90 83 85 83 80 70 60 60 54 50 49 41 40 30 30 22 20 10 5 0 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Figura 8 – Evolução do Número Total de Funcionários da ENSR Brasil (Fonte: Departamento de RH da ENSR Brasil) Conforme informações do Departamento de RH, em 2001 e 2003 ocorreram duas grandes levas de demissões. Em 2001 devido ao término de um projeto em Manaus, AM, que empregou 17 técnicos de campo locais ao longo de 2000 e 2001 que foram dispensados ao término do projeto em 2001. Similarmente em 2003 ocorreu o término de um contrato de investigação e remediação de postos de gasolina no Nordeste e Centro-Oeste do país que também empregava em torno de 15 técnicos de campo locais que também foram dispensados ao final do projeto. 76 Número de Funcionários - RJ e SP 90 80 70 60 42 40 45 41 43 40 2005 2006 2007 13 50 18 18 40 13 30 3 10 0 47 3 20 36 27 28 2000 2001 19 5 1998 1999 2002 2003 RJ PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA 31 2004 SP Figura 9 – Evolução do Número de Funcionários da ENSR Brasil por escritório – RJ e SP (Fonte: Departamento de RH da ENSR Brasil) Conforme ilustrado pela Figura 9, o escritório de São Paulo teve crescimento notável crescimento de 2004 para 2005, por conta do projeto SOPLA ganho no final de 2004, conforme descrito no item 4.1.3. Em termos de rotatividade de pessoal, a ENSR Brasil vem apresentando níveis médios em torno de 20 a 25% ao ano desde 2000. Considerando-se o tipo de serviço prestado (consultoria), em que o que se vende é o conhecimento e especialidade do profissional, isso representa um grande problema em termos de estabilidade do negócio e segurança para os clientes. As Figuras 10 e 11 a seguir ilustram a evolução da rotatividade na ENSR Brasil e nos escritórios do RJ e de SP. O gráfico apresentado na Figura 10 apresenta a rotatividade total em termos percentuais, enquanto o gráfico apresentado na Figura 11 apresenta o número absoluto de funcionários que deixaram a empresa, dividido entre os escritórios do RJ e de SP. 77 Rotatividade - ENSR Brasil (%) 40% 37% 35% 33% 30% 25% 25% 25% 23% 22% 20% 22% 19% 15% 10% 8% 5% 0% 0% 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Figura 10 – Evolução da Rotatividade da ENSR Brasil em termos percentuais (Fonte: Departamento de RH da ENSR Brasil) Rotatividade ENSR Brasil (Números de Funcionários que Deixaram a Empresa) 30 27 24 23 25 24 24 20 19 20 16 15 15 13 1010 10 10 10 2 2 0 1998 0 0 1999 2000 11 13 11 9 5 4 5 0 24 3 1 2001 2002 Total 2003 RJ 2004 2005 2006 2007 SP Figura 11 – Evolução da Rotatividade da ENSR Brasil por escritório em números absolutos – RJ e SP (Fonte: Departamento de RH da ENSR Brasil) É importante lembrar que os picos de rotatividade em 2001 e 2003 ocorreram por conta do término de projetos com grandes números de técnicos de campo localizados em outros estados. 78 Os motivos para a alta rotatividade são os mais diversos, variando de término de projetos grandes, mercado de trabalho altamente aquecido no setor de petróleo do Rio de Janeiro, problemas no processo de contratação e insatisfação com a coordenação direta ou gerência da companhia. No entanto, a prática de entrevistas de desligamento não foi instituída ainda na empresa de forma a permitir melhor análise desses motivos de desligamento. Durante a aplicação dos questionários para este trabalho, seis exfuncionários responderam às perguntas, incluindo a questão “Por que você decidiu sair da ENSR Brasil?”. Apesar de não serem representativos em termos estatísticos, alguns depoimentos estão transcritos a seguir: “Fui “saído” pela Petrobras, caso contrário estaria até hoje na ENSR”. “Achei que tinha uma oportunidade imperdível, em termos de conhecimento, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA principalmente para voltar a trabalhar com consultoria no futuro. A questão financeira também foi um balizador importante, mas não o principal. Ainda sim, sinto muita falta do trabalho na ENSR, que para mim era extremamente prazeroso”. “Um dos maiores motivos foi a preferência e valorização de funcionário que trabalhava muito bem seu marketing pessoal e que era colocado em outro patamar. Em compensação até coordenadores às vezes eram tratados e colocados ao mesmo nível de profissionais recém contratados, mesmo com maiores responsabilidades e história de dedicação à empresa. Também enxerguei perspectivas e oportunidades na empresa atual, tenho certeza de que minha aposta foi acertada e que não me arrependo de ter tomado esta decisão, apesar de ter sido dolorosa, afinal eu gostava muito de trabalhar na ENSR.”. “Para cuidar dos filhos, seguir vida acadêmica”. “Pois apesar de adorar trabalhar na ENSR, sempre tive uma meta de conseguir trabalhar na Petrobras”. “Falta de perspectiva profissional (quando na área de investigação nunca pegava nada de desafiador para fazer). Quando surgiu um projeto melhor só fui fazê-lo porque não houve maiores interessados, o que me levou a decidir sair de lá assim que voltei do trabalho de campo (da viagem). Também existiram questões pessoais que na época tiveram um grande peso na minha decisão de sair, logo tudo ocorreu junto. A completa falta de treinamento e investimento dado aos profissionais e por último meu salário que era bem abaixo do mercado”. 79 Essas respostas ilustram um grande vínculo emocional dos funcionários com a empresa, principalmente nas inúmeras declarações de que estes funcionários apesar de terem saído gostavam muito de trabalhar na ENSR Brasil. No entanto, algumas delas já ilustram o início de conflito com a gestão organizacional na empresa. 4.4 Desenvolvimento Organizacional Conforme descrito, em 2006 foi instituída a gerência de RH da ENSR Brasil, antes mesmo da reestruturação do organograma. Antes disso, a ENSR contava com um Departamento de Pessoal, subordinado à gerência administrativo-financeira. No entanto, algumas ações de desenvolvimento PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA organizacional já vinham sendo desenvolvidas, enquanto novas foram trazidas com o surgimento do novo departamento. Dentre as diversas ações estabelecidas no plano de ação que resultou do treinamento de março de 2006 (vide item 4.1.3 para histórico) constavam a contratação de um gerente de RH e diversas ações de desenvolvimento organizacional, tais como, o estabelecimento de descrições de cargos, estabelecimento de um plano de cargos e salários, estabelecimento do processo de avaliação de desempenho dos funcionários, entre outros. Todas essas ações seriam executadas nos moldes do que já era feito na matriz americana, conforme descrito a seguir. 4.4.1 Política de remuneração e premiações Até 2006, a política de remuneração da ENSR Brasil não era estruturada. Houve uma tentativa de estabelecimento de um plano de cargos e salários em 2002, pelo então departamento de pessoal que contratou uma empresa que presta esse tipo de serviço, mas este plano não resultou em uma política de remuneração com regras estabelecidas, somente em novos nomes para cargos que eram usados 80 somente nos registros nas carteiras de trabalho. Na época, o plano gerou bastante questionamento entre os funcionários e foi de certa forma abandonado aos poucos. Desta forma, qualquer revisão salarial ocorria ou na época do dissídio anual ou quando o diretor geral resolvia reconhecer algum profissional, ou quando algum funcionário procurava o diretor geral para pedir um aumento e esse consentia. Toda revisão salarial era aprovada pelo diretor geral, os gerentes de departamentos não tinham autonomia para tomar essa decisão sem consultá-lo. Os salários não eram atribuídos a funções, mas a indivíduos e levava em consideração a percepção subjetiva de desempenho do funcionário e em alguns casos o tempo de casa. No entanto, era freqüente que na necessidade de contratação de um funcionário para ocupar uma vaga aberta pela saída de um funcionário mais antigo (muitas vezes porque tentou negociar um aumento de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA salário e não teve sucesso), o novo funcionário conseguisse negociar um salário mais alto do que o pago ao antigo ocupante da vaga. Em 2006 foi estabelecido pela gerência de RH um plano de cargos e salários espelho do que é utilizado na matriz americana. Esse plano definiu faixas salariais por função e buscou nivelar os salários dentro das funções e com base nas avaliações de desempenho que também passaram a ser feitas em 2006 de forma estruturada. Em relação a bonificações, até 2006 estas ocorriam quando a empresa apresentava resultado positivo e eram distribuídas de acordo com critério estabelecido pelo diretor geral que consultava os gerentes de departamento em alguns momentos. Normalmente a distribuição de bônus era feita de forma que todos o recebessem, independente do seu desempenho, por conta de sua contribuição individual para o resultado coletivo. Os valores podiam variar subjetivamente ou todos recebiam sob o mesmo critério (ex.: 14º salário). A partir de 2006, por conta do estabelecimento do plano de cargos e salários e do programa de avaliação de desempenho, a bonificação passou a ser atrelada ao desempenho medido dos funcionários e a critérios como importância para a empresa. Esta mudança gerou algum desconforto na organização que não estava madura para migrar para um processo atrelado ao resultado individual. Em termos de premiações, conforme observações da autora, respostas aos questionários e o diagnóstico pela consultora de RH, essas não são freqüentes nem 81 estruturadas na empresa. Mais recentemente, também a partir de 2006, alguns prêmios foram distribuídos a funcionários pela matriz americana por conta de programas corporativos, nos quais os gerentes podem inscrever seus funcionários para premiações relacionadas a desempenho de saúde e segurança, inovação ou conquista de projetos significativos. Entre 2006 e 2007, três prêmios americanos foram entregues a grupos de funcionários brasileiros, um de saúde e segurança (a dois funcionários do departamento de licenciamento ambiental), um por conta do bom resultada na pesquisa de satisfação de um cliente específico (para cinco gerentes do departamento de licenciamento ambiental) e outro pela conquista de um importante projeto de licenciamento offshore (para todos os envolvidos no processo da concorrência). Apesar de recente, essa premiações refletem a inserção PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA da filial brasileira em alguns programas corporativos da ENSR. 4.4.2 Recrutamento e seleção O processo de recrutamento e seleção também não era estruturado até a criação do departamento de RH, conforme evidenciado nas observações da autora, nas respostas aos questionários e no diagnóstico pela consultora de RH. O candidato passava por uma entrevista conduzida normalmente pelo diretor geral e, em alguns casos, pelos gerentes. Aspectos puramente técnicos eram avaliados, sem considerar aspectos psicológicos, de aptidão gerencial e de plano de carreira. Sempre foi comum a contratação de profissionais por indicação de funcionários da empresa. Após a criação do departamento de RH, o processo passou a ser mais estruturado, mas ainda sofre com necessidades de fugir ao processo padrão por conta de urgências, muitas vezes inerentes ao próprio negócio de consultoria, e de falta de planejamento de equipe. Atualmente, o RH pré-seleciona candidatos com base em entrevistas e redações, avalia psicologicamente os candidatos e encaminha para os futuros supervisores diretos e gerentes para entrevistas técnicas. Em termos de integração, não existe também um processo padrão. Normalmente a pessoa é apresentada à empresa pelo seu supervisor direto e 82 recebe diversas informações de forma desestruturada, como regras de informática, horário de trabalho, procedimentos administrativos, etc. A empresa está implementando atualmente um programa de integração de novos funcionários com apresentações sobre a companhia e os diferentes serviços prestados, além de entrega de procedimentos e instruções para início do trabalho. 4.4.3 Processos sucessórios Os processos sucessórios sempre foram inexistentes na ENSR Brasil. Não há planos de sucessão para nenhum cargo, nem mesmo os principais, como os de coordenação, gerência e diretoria. Quando um coordenador ou gerente sai da empresa, essa saída gera estresse na companhia, que se vê obrigada a encontrar PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA um substituto em pouco tempo. Normalmente opta-se por promover algum funcionário interno, com pouca preocupação em avaliar se este está interessado e apto a assumir as novas funções, tanto tecnicamente, como em termos de maturidade. O processo de handover também é normalmente fraco ou inexistente. Essa realidade tende a mudar com a estruturação e consolidação do departamento de RH e das ações de desenvolvimento organizacional sendo estabelecidas a partir de 2006, em particular o plano de cargos e salários, o estabelecimento do processo de evolução da carreira e a avaliação de desempenho dos funcionários. 4.4.4 Outras ações de desenvolvimento organizacional Avaliação de Engajamento dos Funcionários A ENSR possui um processo corporativo de avaliação do engajamento de seus funcionários que corresponde a uma pesquisa anônima, gerenciada por uma entidade externa contratada para tal. Essa pesquisa foi estendida aos brasileiros a partir de 2001, quando a ENSR Brasil passou a responder ao questionário. No entanto, os resultados da pesquisa sempre foram enviados ao diretor geral e pouca atenção era dada às estatísticas produzidas. Muitas vezes os funcionários nem 83 tomavam conhecimento dos resultados. As pesquisas atualmente são anuais e a última foi conduzida no primeiro semestre de 2007. Em 2006 foi o primeiro ano que os funcionários tiveram conhecimento dos resultados, através de uma apresentação exigida pela matriz americana conduzida pelo diretor geral e uma consultora de RH que trabalhou temporariamente na empresa. A apresentação foi feita de forma desestruturada e confusa, pois se optou por fazer um conference call com todos os funcionários dos escritórios do RJ e de SP e com a matriz americana, contando com tradução simultânea para quem não entendesse as explicações dadas. Em seguida à apresentação não foi dada continuidade à análise dos resultados e estabelecimento de ações com base nas estatísticas. Em 2007 começou a se estruturar um programa de avaliação dos resultados PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA da pesquisa que deverá resultar em um plano de ação para melhoria dos indicadores ruins e manutenção dos bons. Desta forma, a pesquisa de engajamento passará a servir efetivamente como ferramenta de gestão organizacional e não somente como algo para constar. Cabe ressaltar que a elaboração do questionário é feita exclusivamente pela matriz americana, o que em certos casos gera alguma confusão em termos de tradução e em termos de diferenças culturais em alguns aspectos. Plano de Desenvolvimento do Funcionário Uma outra ação que passou a ser implementada a partir de 2006 foi o Employee Development Plan – o Plano de Desenvolvimento do Funcionário. Este plano é a avaliação do desenvolvimento do funcionário ao longo do ano, incluindo avaliação 360º, auto-avaliação do funcionário e reunião com o supervisor direto para preenchimento do plano com a avaliação do ano e com as metas para o ano seguinte. O programa também prevê uma revisão semestral do plano. Essa é uma outra ferramenta da matriz americana que foi traduzida e implementada na empresa brasileira após a criação do departamento de RH. Ela tem o objetivo principal de desenvolver os funcionários, identificando aptidões, pontos de melhoria e desejos e possibilidades de rumo de carreira para o profissional no longo prazo, além de estabelecer metas para o ano seguinte. O programa foi bem recebido pelos funcionários, mas já há um certo descrédito da 84 ferramenta, principalmente entre os gerentes operacionais, já que muitas das metas estabelecidas ainda não são mensuráveis. Atividades de Integração dos Funcionários A empresa não possui um programa ou calendário de atividades de integração dos funcionários. Ao longo de sua existência, os próprios funcionários estabeleceram e organizaram algumas atividades ou celebrações muitas vezes sem a participação da gerência ou diretoria diretamente, como almoços de aniversariantes do mês, confraternizações nas sextas feiras e festas juninas. Destaca-se aqui a festa junina que ocorre em ambos os escritórios e que começou com uma iniciativa de alguns funcionários que organizaram uma lista em que cada um traria uma comida típica e fariam uma pequena festa no próprio escritório. Essa prática já ocorre há três anos e já ganhou maiores dimensões, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA incluindo para fora do escritório. O mesmo ocorreu com a confraternização mensal de aniversariantes do mês do escritório de São Paulo, quando cada funcionário doa no início do mês um ticket refeição para transformar o bolo dado pela empresa em uma festinha com salgadinhos e cerveja, ao término do expediente. 4.4.5 Responsabilidade social A empresa não possui um programa estruturado de responsabilidade social. Algumas ações são tomadas de forma isolada e não estruturada (na maioria das vezes por iniciativa dos próprios funcionários), como a distribuição de donativos no natal para alguma instituição de caridade, o uso de papel reciclado nos relatórios, a proibição do uso de copos descartáveis, entre outros. Em termos éticos, a ENSR Brasil sempre se orgulhou de sua forma ética de tratar seus funcionários, principalmente no que diz respeito ao atendimento a todas as leis trabalhistas. Isso ficou sempre muito claro e explícito nos discursos do diretor geral que relatavam o grande sacrifício que era estar em conformidade com todos os tributos trabalhistas e demais tributos e impostos da realidade brasileira e que ressaltavam que todos os funcionários deviam “agradecer por ter uma carteira de trabalho assinada”. De fato, a ENSR Brasil sempre fez questão de 85 honrar seus compromissos fiscais e tributários e de atender às exigências legais brasileiras, o que sempre resultou em uma alta percepção dos funcionários em PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA geral de que a empresa é uma empresa ética. 86 5 Análise da Cultura Organizacional Conforme citado no ítem 1.1, a literatura organizacional identifica situações de ruptura na cultura vigente e que permitem acelerar o processo de mudança (TOMEI, 1994), como fusões, aquisições, reestruturações, atuação de fatores externos como forte recessão ou grande mudança tecnológica, crises internas de gerência, processos de sucessão ou processos de socialização de novos membros. Essas novas situações provocam mudanças, voluntárias ou não, nos valores e crenças da organização, por conta do surgimento de novos atores e sistemas de controle e informação. O histórico da ENSR Brasil, apresentado no item 4.1.3, mostra que a PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA empresa passou por situações de ruptura, desde sua criação até os dias atuais, sendo elas: • Reestruturação do escritório de São Paulo, com demissão do gerente do escritório e outros funcionários em 2005; • Aquisição da ENSR pelo grupo AECOM em julho de 2006; • Processo de reestruturação organizacional e socialização de novos gerentes (gerente de RH e gerente operacional do escritório do Rio de Janeiro) em 2006; • Processo de substituição/sucessão do fundador e diretor geral da ENSR Brasil em Novembro de 2007. Desta forma, para analisar a cultura organizacional da ENSR Brasil, faremos inicialmente uma análise da evolução do ciclo de vida da empresa, de acordo com a proposta de Schein (2004) apresentada no item 2.4 e resumida na Tabela 5. Em seguida, passaremos à análise da cultura organizacional neste estudo de caso de acordo com a proposta de Trice & Beyer (1984), analisando os dois componentes básicos da cultura, substância e forma – dentro dos estágios de evolução do ciclo de vida da empresa. Por fim, através da comparação dos níveis culturais antes e após a reestruturação de 2006, passaremos à aplicação das tipologias culturais de Handy (1978), Sethia e Von Glinow (1985), Donnelly (1984) e Deal & Kennedy (1982). 87 Como pano de fundo, também será feita a avaliação das práticas administrativas para o gerenciamento da mudança, à luz dos modelos de Pettigrew (1996), Davis (1988) e Barros e Prates (1996). 5.1 Análise do Ciclo de Vida Conforme apresentado no item 2.4, Schein (2004) identifica três principais estágios de desenvolvimento de uma organização: o nascimento, a diversificação e meia-idade da organização e a maturidade, com provável estagnação e declínio. O histórico apresentado da ENSR Brasil e também a evolução no seu número de funcionários e rotatividade mostrada nas Figuras 8 a 11 são PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA informações que propiciaram, juntamente com as obtidas nos questionários e nas observações da pesquisadora, analisar a evolução do ciclo de vida da ENSR Brasil. Entre 1998 e 2001 encontram-se claros traços do estágio de nascimento e o dito “controle da família”. A figura do fundador-diretor representava uma figura de poder e liderança. Ele era responsável pelas contratações, ele centralizava qualquer comunicação com a matriz, todos os coordenadores e gerentes se reportavam a ele. A cultura era fonte de identidade e muitas vezes fontes de competência distinta para a empresa, principalmente no que dizia respeito ao atendimento ao cliente e a aceitar desafios de novos projetos, como se pode identificar num dos trechos das respostas aos questionários de um funcionário do corpo técnico transcrito a seguir: “Uma das pessoas que considero como tendo especial significado para esta organização é o Eduardo Lopes (fundador e ex-diretor geral) que encarou o desafio de trazer a ENSR e aceitar projetos que não tínhamos capacidade técnica e de equipe”. A empresa possuía traços típicos do estágio de nascimento, em especial a ênfase em comprometimento através da socialização. Outros depoimentos, como o de um dos gerentes abaixo, refletem claramente essas características: “No escritório do Rio a cultura era muito paternalista por parte da diretoria, e respingava também no relacionamento com os gerentes seniores de São Paulo. 88 Isso tornava a organização com um viés familiar, pouco profissionalizado. A cultura cordial tem alta sociabilidade e baixa solidariedade. Trazia a possibilidade de redes informais nos bastidores. Era uma cultura de papéis, onde o formalismo e a hierarquia eram muito valorizados. A maior parte das decisões não eram tomadas baseadas em fatos e necessidades do negócio, mas sim em relacionamentos e necessidades pessoais. A empresa pregava o coleguismo, o protecionismo, que não chegava a fazer a produtividade cair, talvez pelo ritmo de consultoria ser muito puxado, mas tornava as pessoas muito sensíveis à cobrança e a mudanças”. A partir de 2001/2002, notam-se características da meia-vida organizacional. A empresa começa a crescer mais acentuadamente, consolidando a linha de serviço de licenciamento ambiental (denominado informalmente grupo de “estudos”) e incorporando a nova linha de serviço de auditorias. O escritório de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA São Paulo também se consolida a partir de 2001, assumindo um crescimento constante a partir de então e mudando para um novo escritório em 2002. Até 2006 o escritório de São Paulo cresce, assumindo proporções equivalentes ao escritório do Rio de Janeiro. Criam-se subculturas, tanto relacionadas com localização geográficas (matriz x filial ou RJ x SP), como pela especialização na produção (billable profissionais que executam tarefas técnicas faturáveis x unbillable – profissionais de suporte ou overhead; investigação e remediação x “estudos”). A declaração da nova gerente de RH abaixo explicita bem essa realidade: “A empresa era dividida em pequenos clãs, que não se misturavam em profundidade uns com os outros, e os dois escritórios tinham uma rivalidade muito grande, que chegava a atrapalhar o negócio. Havia dificuldade das pessoas dentro do próprio departamento se criticarem. Pela baixa capacidade dos grupos pensarem em interesses mútuos, bons para o grupo maior, a resposta competitiva ficava lenta. A diretoria não conseguia ter uma visão clara do desempenho de cada um e fazer valer a meritocracia”. Neste momento, a integração cultural começa a declinar. Alguns conflitos sucessórios ocorreram e aqueles que estavam em consonância com o perfil da diretoria permaneceram na empresa. Foi o que ocorreu na saída de um dos coordenadores técnicos do Rio de Janeiro em 2004 (do departamento de licenciamento ambiental) e em São Paulo, com a substituição da gerência do 89 escritório em 2005. Eles não se alinharam às necessidades gerenciais definidas pela diretoria e por isso foram substituídos ou decidiram sair. Em paralelo, por motivos profissionais (transferência para o exterior), o coordenador de ISC do Rio de Janeiro também se desligou em meados de 2005, o que resultou na completa troca das coordenações técnicas da empresa entre 2004 e 2005. Esses coordenadores, além de profissionais técnicos, desempenharam importantes papéis de liderança e formação de suas equipes de trabalho, na construção das linhas de serviço, estabelecimento de aspectos operacionais importantes e vigentes até hoje e na construção de uma cultura de atendimento ao cliente, serviços de qualidade e companheirismo dentro das equipes. Logo, a partir do final de 2005 e até 2006 a empresa passa para um momento de maturidade organizacional, onde há falta de motivação para mudar e PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA a cultura torna-se restritiva à inovação. Também eram constantes as manifestações a favor das glórias do passado, passando a cultura a ser usada como fonte de autoestima e defesa, conforme ilustrado nas declarações de técnicos, gerentes e novo diretor geral a seguir. “Na empresa toda não havia muito espaço para inovação, e os funcionários estavam todos cansados de propor coisas novas e sem esperança de mudanças em relação à alta gerência”. “De um modo geral acho que a maior dificuldade foi a reatividade das pessoas com relação às mudanças. Isso me causou mais surpresa pelo fato de que sendo uma equipe formada por pessoas jovens esperava uma melhor aceitação e maior flexibilidade. (...) Quando comecei a introduzir uma nova visão na maneira de executar e gerenciar os projetos, as pessoas se sentindo despreparadas tiveram dificuldade em aceitar as mudanças”. “Como as pessoas resistiam muito às novidades no Rio e em SP a gerência não era muito amigável a pessoas diferentes, tive dificuldade de implantar certas rotinas e processos”. “Talvez pela descrença em mudanças e desconfiança do novo, as pessoas no Rio não estavam abertas a ouvir sugestões, críticas, a receber coach. Os pensamentos eram muito fechados e a zona de conforto imperava”. “Antigamente era mais legal, tinha chopinho toda sexta feira, as pessoas eram mais amigas. A gente trabalhava muito mais, virava a noite, mas era mais divertido”. 90 “Até hoje os funcionários que eram dele sentem essa ausência, pela motivação, por vestir a camisa da empresa” (referindo-se ao antigo coordenador de ISC do Rio de Janeiro). “Preferia que a ENSR ficasse pequena, sem crescer muito, para não ter tanta cobrança, tanto estresse não relacionado ao trabalho técnico”. Até 2006, atrelado ao declínio da integração cultural, ainda ocorria grande centralização do poder na figura do diretor (conforme ilustrado na Figura 6). Em 2006 começa a reestruturação organizacional da ENSR Brasil. Com a compra da ENSR pela AECOM, o envolvimento da matriz americana nessa estruturação tornou-se realidade, conforme evidenciado na resposta ao questionário do Chief Operating Officer (COO) da matriz americana: “Tried to work with Brazil to mirror the Brazilian business to the US model (e.g. Employee Engagement, Key Account Program, Sector Leads, etc.). Also, the recent PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA change with Eduardo Lopes in corporate sales and marketing was meant to further link Brazil with the “mother ship”. The promotion of Paulo (new director) is really part of the Company’s overall succession planning goals.” (“Tentamos trabalhar o Brasil de forma a espelhar o negócio brasileiro no modelo americano (ex.: Engajamento dos Funcionários, Programa de Contas Chave, Lideranças de Setores, etc.). Adicionalmente, a mudança recente na direção da empresa no Brasil foi feita com o objetivo de conectar mais ainda o Brasil à “nave mãe”. A promoção do novo diretor é parte dos objetivos gerais da companhia de planejamento sucessório.”). Era claro nesse momento que a mudança cultural era necessária e inevitável. Algumas declarações de novos funcionários, com visões externas, que entraram na empresa em 2006/2007, refletem isso claramente: “Nota-se que ao longo da vida da empresa pouca atenção foi dada ao desenvolvimento de recursos, ao mesmo tempo em que se exigia um alto padrão de performance em áreas muito específicas de atuação, levando a uma super especialização.” “A cultura de negócio desenvolvida na ENSR Brasil super valoriza as relações com o cliente em detrimento de uma cultura onde há a preocupação com o cliente, mas também com a qualidade do negócio para a empresa.” “A alta gerência não conseguia motivar seus funcionários e os discursos eram destruidores de auto-estima e motivação.” 91 “As pessoas tinham muitas críticas que remoíam, e isso prejudicava muito a organização, pois acredito que não eram faladas formalmente.” Desta forma, a partir de 2006 iniciou-se a reestruturação organizacional, buscando uma opção de transformação. Neste momento um novo organograma foi criado e novas posições gerenciais foram criadas, conforme ilustrado na Figura 7. O impacto desta reestruturação e das ações voltadas para a mudança serão avaliadas no item 5.5. A Tabela 7 a seguir resume, em termos de linha do tempo, a evolução organizacional da ENSR Brasil dentro do conceito de ciclo de vida organizacional estabelecido por Schein (2004). Tabela 7 – Evolução Organizacional da ENSR Brasil Estágio de Crescimento PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA (Schein, 2004) Período Nascimento e Primeiros Estágios de Crescimento Meia-vida Organizacional Maturidade Organizacional 1998-2001 2002-2005 2006 até hoje 5.2 Análise da Cultura Organizacional no Estágio de Nascimento O período até a reestruturação que ocorreu em 2006, foi compreendido por duas fases ou dois estágios de crescimento, o nascimento (1998 a 2001) e a meiavida organizacional (2002 a 2005). A primeira fase corresponde à fase de formação da empresa. Segundo as informações obtidas nas respostas aos questionários aplicados e nas pesquisas de satisfação dos funcionários consultadas, é reconhecida como uma fase heróica, de superação, quando a empresa foi construída com base no suor e no sangue do seu líder e dos primeiros funcionários. Segundo Schein (1990), esta é a fase da formação da cultura organizacional, quando a filosofia dos líderes é sedimentada e a socialização de novos membros se dá de forma a transmitir a cultura da empresa. Esta é a fase de disseminação da cultura da ENSR Brasil, buscando mantê-la coesa. O laço estabelecido com a empresa era muito forte, conforme refletido nos resultados da pesquisa de satisfação dos funcionários de 2001 (pesquisa foi respondida por 16 funcionários do Rio de Janeiro): 100% dos funcionários 92 respondentes recomendariam a ENSR como um bom lugar para se trabalhar. Adicionalmente, 94% sentiam orgulho de estar associado à ENSR. Por outro lado, era claro que a empresa ainda estava se estruturando, quando analisamos que 56% dos funcionários consideravam que tinham as ferramentas adequadas para executar seus trabalhos. Também era claro que a carga de trabalho era alto para atender aos novos desafios, o que é refletido no item Equilíbrio Trabalho/Vida Pessoal que teve somente 45% de respostas positivas. Somente 13% consideraram que havia pessoal suficiente em seu departamento para lidar com a carga de trabalho. No entanto, a sensação de trabalho em grupo era positiva e 100% dos respondentes consideraram que havia boa cooperação entre os grupos de trabalho. A importância da figura do líder, o sócio-diretor, é evidente. Ele empregou PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA suas características gerenciais para conduzir o negócio desde o início e selecionou pessoalmente quem tocaria essa fase inicial com ele. Logo, ele imprimiu sua impressão digital no estilo gerencial, seus valores e crenças na empresa, conforme descrito no item 5.1. Nessa fase, o controle era totalmente centralizado, todas as contratações, decisões salariais ou relacionadas a bônus e todas as decisões financeiras e operacionais passavam pelo diretor e todos os contatos com a matriz eram feitos quase que exclusivamente por ele. Havia uma cultura paternalista e não havia uma cultura de avaliação de desempenho e feedback aos funcionários. Dos respondentes, 50% afirmaram que a empresa era conivente com aqueles que não tinham bom desempenho. Nesta época, a “construção” da ENSR Brasil era uma estória narrada principalmente pelo diretor geral em seus discursos e reuniões, em que ele próprio botou a mão na massa durante a obra do escritório e glorificando o suor e sangue dos principais colaboradores para a formação da empresa. Também eram enfatizadas as sagas de alguns projetos técnicos que significaram superação de seus executores como o NERA ou como a ida de dois geólogos e um coordenador para a Ásia para ajudar em um projeto internacional, passando por furacões e terremotos, sendo que um deles teve que adiar sua lua de mel para ir. Outras sagas eram narradas para reforçar a cultura da liderança de comprometimento com o trabalho, como um dos membros da alta gerência que ficou trabalhando até o último minuto no hospital até a hora do parto do filho. 93 O cenário em geral, era exclusivamente técnico. Qualquer espaço livre era ocupado com uma nova estação de trabalho ou arquivo de projetos técnicos. As funções de suporte ficam apertadas em salas menores e a copa apertada era o único ambiente neutro e de alguma descompressão no escritório. Em relação aos ritos instituídos na empresa, havia poucos ritos de integração, como os eventos de fim de ano, na maior parte das vezes no próprio escritório, com o discurso do diretor geral que normalmente girava em torno de frases como “sobrevivemos a mais um ano”, “agradeçam pela oportunidade de ter uma carteira de trabalho assinada nos dias de hoje”. Poucos ritos de renovação ocorriam, sempre atrelados à visita de algum executivo da filial americana ao escritório do Rio de Janeiro. Um bom exemplo de rito de renovação foi o treinamento de motivação e trabalho em grupo ministrado em 2001 pela matriz PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA americana. Exemplos de ritos de reforço eram as bonificações, que eram esporádicas e normalmente concedidas pela matriz americana ou por um cliente que negociou bonificação para funcionários de determinado departamento no caso de superação do prazo de entrega do serviço. 5.3 Análise da Cultura Organizacional Organizacional no Estágio de Meia-Vida Passando à segunda fase do período pré-reestruturação, conforme descrito no item anterior, entre 2002 e 2005 a companhia evoluiu para o estágio de meiavida organizacional. Nesta época a empresa tem crescimento acentuado, consolidando novas linhas de serviço como a de licenciamento ambiental (estudos) e a de auditoria. O escritório de São Paulo se consolida e começa a crescer, mudando-se para uma casa mais espaçosa. O escritório do Rio de Janeiro se muda para um escritório novo, todo reformado, com vista deslumbrante para a Baía de Guanabara. A pesquisa de engajamento dos funcionários de 2003 (que reflete as impressões ao longo do ano de 2002 principalmente) aponta que o comprometimento com a empresa continua alta no início dessa fase, com 91% dos funcionários do Rio de Janeiro e 88% de São Paulo afirmando que recomendariam a ENSR como um bom local para se trabalhar. Adicionalmente, 85% dos 94 funcionários do Rio de Janeiro e 94% de São Paulo declararam-se orgulhosos de trabalhar na ENSR. Porém alguns índices começam a demonstrar mudanças internas, como o índice que avaliou se a gerência da companhia entendia os problemas encarados na execução dos trabalhos. Esse índice caiu de 63% em 2001 para 46% em 2003 no escritório do Rio de Janeiro, o que demonstra o início de alguns conflitos sucessórios que resultaram, até o final do período (entre meados de 2004 e meados de 2005), na troca dos três principais coordenadores técnicos da empresa (um em São Paulo e dois no Rio de Janeiro). Nesta época também foi instituído o maior símbolo do controle da empresa, reflexo da visão gerencial do diretor geral e do departamento de pessoal, o controle de ponto que foi rapidamente denominado “dedômetro” ou simplesmente PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA “o dedo”. Mais do que um controle de ponto, ele tinha o significado de controle total sobre o tempo em que o funcionário estava dentro da empresa. Em diversos discursos da diretoria, o controle do tempo era reforçado, realçando que os funcionários não deveriam perder tempo na copa ou nos banheiros, que deveriam vir de casa com café da manhã tomado e suas necessidades básicas atendidas. O nível de fofoca intensificou-se bastante nesse período, com especulações das mais diversas circulando os escritórios. As reuniões gerenciais também assumiram alto nível de conflito e argumentação. Por conta do crescimento, a empresa passou a manter praticamente tudo trancado, após indícios de sumiço de alguns materiais, os armários da cozinha, os armários com material de escritório, as salas de reunião, as salas dos gerentes quando estes se encontravam ausentes temporariamente ou por mais tempo. Também foram instaladas câmeras de vigilância nos escritórios. Conforme já descrito anteriormente, nesta fase se estabelecem subculturas geográficas e pela especialização na produção. A saga dos profissionais billable (profissionais técnicos que têm suas horas alocadas em projetos e pagas pelos clientes) era realçada, já que eram eles que carregavam o piano, enquanto os demais sentavam em cima (non-billable ou overhead), sendo um fardo para a empresa. No Rio de Janeiro, foi construída a subcultura de estudos (departamento de licenciamento), reconhecido como serviço nobre que por isso deveria ocupar o 95 espaço mais nobre do escritório, com vista para a Baía de Guanabara. O serviço sujo do departamento de ISC deveria ficar restrito aos fundos do novo escritório e a um almoxarifado apertado. Adicionalmente, a inauguração do novo escritório carioca, com a presença de muitos clientes, foi restrita aos gerentes e coordenadores e alguns funcionários do departamento de licenciamento, excluindo técnicos de campo e funcionários administrativos (overhead). A inauguração do escritório contou com a presença do CEO do grupo ENSR, que veio pela primeira vez conhecer as operações do Brasil. Em São Paulo, havia a síndrome da filial que não recebia atenção suficiente da gerência corporativa, mas não ocorria uma divisão clara em subculturas, principalmente porque o escritório era composto basicamente por um único departamento técnico. O escritório de São Paulo herdou o mobiliário do antigo PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA escritório do Rio de Janeiro, reforçando a síndrome de filial sofrida pelos funcionários paulistas. Esta síndrome, no entanto, unia os profissionais paulistas que confraternizavam e saíam após o expediente, com muita freqüência. O nível de envolvimento pessoal era muito mais alto do que no escritório do Rio de Janeiro. O escritório de São Paulo passou por importante momento de ruptura quando a gerência local foi substituída no início de 2005. A nova gerência impôs um estilo gerencial diferente, que causou grande mudança no escritório, inclusive com a saída de profissionais que não se adequaram ao estilo gerencial. As mudanças trouxeram mais organização e profissionalismo ao escritório, trazendo também maior competitividade. “As idéias ficam, desta forma, muito unilaterais, fazendo com que as pessoas não imponham muito as suas verdadeiras ideologias e maneiras de agir. Isso faz com que o trabalho seja mais burocrático, dinâmico e, muitas vezes, até mais organizado do que o próprio escritório do RJ” – Nova gerente de RH. “O ambiente de trabalho em SP é competitivo. Não há hostilidade, mas o ruído é muito grande, rádio tamanco. Mas são super anfitriões com as pessoas que chegam ao escritório, encontram-se várias vezes por semana. São muito alegres, vivem com mais liberdade, talvez por não estar em contato com a diretoria e gerência corporativa, podendo colocar suas insatisfações com a empresa, desde que não seja contra a gerência local de SP” – Funcionário técnico. 96 Os cenários dos escritórios foram refinados e organizados com as mudanças. Os escritórios foram divididos em diferentes ambientes. Ambientes abertos e integrados para os profissionais técnicos, com baias baixas e visão geral pelos coordenadores. O diretor e alguns gerentes receberam salas individuais, envidraçadas para visualizar o todo. A sala do diretor ainda possuía a única varanda do escritório e decoração chique, com cadeiras de decoração renomadas e caras. Novos ritos foram institucionalizados nesse estágio de meia-vida. Ritos de passagem foram instituídos à medida que a organização crescia, normalmente promovendo profissionais técnicos para funções de coordenação de projetos ou gerência de departamentos (na época da saída dos três gerentes), sem avaliar cuidadosamente as habilidades gerenciais/de coordenação desses profissionais. As PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA decisões ainda eram centralizadas na figura do diretor geral. Os gerentes desconheciam conceitos básicos de gestão dos projetos e conceitos financeiros para gerenciar os seus departamentos e projetos. Os ritos de degradação se iniciaram, principalmente em 2005 com a substituição do gerente de São Paulo e demissão de parte do quadro funcional daquele escritório. Em termos de ritos de reforço, destaca-se o brinde com guaraná “champagne” que o diretor promovia quando algum projeto importante era ganho. Os ritos de renovação e intensificação continuavam a ocorrer, principalmente, na vinda dos executivos da matriz americana ou nos e-mails corporativos americanos que passaram a circular para a ENSR Brasil em 2005. Os ritos de integração foram reforçados, agora não se restringindo somente às festas de fim de ano e ao bolo de aniversariantes do mês, mas aos almoços promovidos no dia do aniversário dos funcionários e nos chopes de sexta-feira, praticamente obrigatórios até 2004. No final do período (2005) foram criadas as festas juninas, organizadas pelos próprios funcionários, contribuindo cada um com um prato típico e confraternizam juntos. No final de 2004, com a vinda do grande projeto SOPLA (ver item 4.1.3), a empresa teve grandes dificuldades para atender a demanda de serviços e conseqüentes necessidades de investimento e contratação, na época excessiva para seu porte e estrutura organizacional. O estresse interno na organização foi muito grande e o diretor geral e alguns gerentes precisaram envolver-se pessoalmente na 97 operacionalização do projeto, negligenciando diversos aspectos de gestão da companhia. Os resultados da pesquisa de engajamento de 2006 (conduzida no início de 2006) refletem claramente qual era a sensação em relação à gerência no final de 2005, com destaque para o escritório do Rio de Janeiro, cuja proximidade física facilitou o surgimento da descrença na gerência como um todo. Alguns exemplos são: “A empresa fornece um senso de direção claro”: RJ 46% e SP 65%; “Eu acredito que a gerência possui uma visão clara do futuro”: RJ 52% e SP 78%; “Eu considero que recebo as informações importantes que afetam meu trabalho”: RJ 26% e SP 56%; “Eu com freqüência não acredito no que a gerência diz”: RJ 76% e SP 78%. De acordo com o diagnóstico ambiental conduzido pela consultora de RH PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA que ocupou o cargo de gerente de RH no início de 2006, havia na empresa no final do período uma grande demanda por organização e melhoria de processos, além de por uma política de valorização dos funcionários. Dos 24 respondentes praticamente todos demandaram melhor organização interna, melhoria ou criação de processos e sistemas de controle, além de maior reconhecimento dos funcionários (em especial dos técnicos). 5.4 Análise da Cultura Organizacional no Estágio de Maturidade Organizacional A partir de final de 2005 e ao longo de 2006, a empresa evolui para o estágio de maturidade organizacional. Esta fase prolonga-se até os dias atuais e representou o momento de reestruturação da empresa e interferência direta da matriz americana, culminando com a substituição do diretor geral e sóciofundador no final de 2007. A necessidade de reestruturação era clara no final de 2005, principalmente após o estresse organizacional vivido pela empresa por conta do projeto SOPLA. Adicionalmente, o grupo ENSR havia sido comprado pela AECOM em 2005 e o próprio grupo estava se reestruturando para atender às novas demandas da empresa mãe. Já no início de 2006 três executivos americanos vieram ao Brasil 98 para iniciar uma fase de mudanças, instituindo para tal um plano de ação com a gerência da ENSR Brasil. Nesta fase foi instituído o departamento de RH e a gerência operacional do Rio de Janeiro, com a entrada de dois novos gerentes externos à companhia. Estes gerentes foram escolhidos juntamente com a matriz americana e trouxeram à empresa visões gerenciais novas e diferentes da instituída pelo diretor geral desde a fundação da empresa. Nesta fase também a matriz americana determinou a reestruturação do organograma da empresa, descentralizando os processos decisórios e distribuindo responsabilidades. A ENSR Brasil passou a seguir e participar de diversos programas ou iniciativas corporativas, devendo adaptar-se ao estilo gerencial e até mesmo cultural da matriz. Alguns exemplos foram: a adequação ao plano de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA desenvolvimento de carreiras da ENSR; a instituição de descrição de funções nos moldes americanos; a meritocracia americana, com o estabelecimento de metas individuais para cada funcionário, atreladas às revisões salariais e distribuição de bonificações; a necessidade de aprovação da matriz na elaboração de propostas com valores acima de determinado patamar; a necessidade de aprovação da matriz para contratação de profissionais gerenciais ou mais seniores e de maiores salários, entre outros. O nível de controle e exigência de reporte aumentou consideravelmente. Diversos novos processos, procedimentos e sistemas foram instituídos (ex.: sistema de pedido e aprovação de compras e pagamentos, sistema de acompanhamento de projetos, sistema de alocação de horas a projetos). Juntamente às mudanças instituídas pela matriz e reforçadas pelos novos gerentes, houve mudança significativa no clima organizacional e grande resistência às novas práticas gerenciais, em especial do escritório do Rio de Janeiro que estava mais próximo à diretoria e gerência corporativa e que também criou mais resistências ao processo de mudança, conforme relatos a seguir. “As pessoas do escritório do Rio eram mais fechadas de modo geral, mais resistentes ao novo(...) As pessoas resistiam muito a novidades no Rio e em SP a gerência não era muito amigável a pessoas diferentes”. 99 “Talvez pela descrença em mudanças e desconfiança do novo, as pessoas no Rio não estavam abertas a ouvir sugestões, críticas, a receber coach. Os pensamentos eram muito fechados e a zona de conforto imperava”. “De um modo geral acho que a maior dificuldade foi a reatividade das pessoas com relação a mudanças.(...) Quando uma nova visão na maneira de executar e gerenciar os projetos foi introduzida, as pessoas se sentindo despreparadas tiveram dificuldades em aceitar as mudanças”. Essa mudança no clima organizacional pôde ser identificada através da análise dos resultados da pesquisa de engajamento dos funcionários de 2007. Os resultados, analisados conjuntamente, refletem uma sensação geral de insegurança e incerteza, típica de processos de mudança e que resulta em piora no clima organizacional em geral. Alguns percentuais significativos estão listados a seguir: - “No meu julgamento, a minha operação local é bem gerenciada.”: RJ 47% PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA e SP 73%; - “No meu julgamento, a empresa como um todo é bem gerenciada.”: RJ 36% e SP 50%; - “Meu supervisor desenvolve as habilidades das pessoas.”: RJ 41% e SP 63%; - “Esforço suficiente é feito para obter as opiniões e pensamentos dos funcionários na companhia.”: RJ 35% e SP 65%; - “Minha empresa tem uma cultura organizacional que promove a colaboração entre times/departamentos.”: RJ 32% e SP 45%; - “A moral no meu time/departamento é geralmente alta.”: RJ 38% e SP 63%; - “O estilo gerencial na minha empresa encoraja os funcionários a darem mais de si.”: RJ 35% e SP 50%; - “Eu acredito que o time gerencial da empresa tem uma visão clara do futuro.”: RJ 32% e SP 58%; - “Eu acho que a minha empresa está fazendo um bom trabalho de retenção de seu pessoal mais talentoso.”: RJ 27% e SP 53%; - “Eu precisaria de muito para procurar por outro empregador.”: RJ 35% e SP 47%; 100 - “Atualmente você está considerando seriamente deixar sua empresa?”: RJ 43% e SP 53%; - “Em relação a salários, você acredita que sua empresa está fazendo um bom trabalho em associar o salário ao desempenho?”: RJ 14% e SP 29%; - “A minha empresa estabeleceu um clima aonde os funcionários podem desafiar a maneira tradicional de se fazer as coisas.”: RJ 30% e SP 45%. A linguagem na empresa também se modificou, incorporou diversos jargões e termos americanos novos para a maior parte dos funcionários, inclusive alguns gerentes. O nível de fofoca continuou alto, conforme a seguinte declaração: “A comunicação oficial é falha e a “rádio peão” se diverte com isso”. Por outro lado, o símbolo do “dedômetro” foi eliminado, substituído por um ponto de papel somente para os profissionais técnicos. Foi instituído um jornal PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA interno de notícias para ambos os escritórios, que incorporou aspectos de RH (aniversariantes do mês, novas contratações), financeiros, de saúde e segurança e operacionais (novos projetos). Os funcionários gostam de receber o jornal e cobram no início do mês quando ele demora a sair, mas não participam dando sugestões ou contribuições. O cenário do Rio de Janeiro permaneceu com a mesma configuração. Em São Paulo houve a mudança para um novo escritório (prédio), desta vez todo reformado e nos moldes do escritório do Rio de Janeiro. O número de reuniões aumentou consideravelmente, o que também foi motivo de resistência por boa parte dos gerentes. No entanto, a participação dos gerentes em diversos processos aumentou e a sensação de compreensão dos planos da empresa também. Os gerentes passaram a participar da gerência financeira da empresa, o que antes era negligenciado, conforme a declaração: “Na cultura da empresa as pessoas em cargos de supervisão muitas vezes não se viam como responsáveis por todos os aspectos de suas áreas o que cria situações desfavoráveis para o negócio”. Os ritos de passagem foram intensificados. Os profissionais que recebem algum aumento ou promoção recebem uma carta formal do seu superior, preparada pelo RH. Os ritos de degradação seguiram o mesmo caminho. Todo desligamento de funcionário da empresa (voluntário ou involuntário) é comunicado através de um e-mail a todos os funcionários. Mais ritos de reforço e 101 intensificação também foram instituídos, principalmente através das reuniões semanais e quinzenais com a equipe gerencial e de premiações vindas da matriz após a inserção da ENSR Brasil nos programas de premiação americanos. Esses prêmios são normalmente comunicados via e-mail e/ou em reuniões/apresentações. Os comunicados do diretor geral acabaram a partir de 2007, estruturando-se o processo de comunicação em comunicados do RH, do financeiro, corporativos preparados previamente e de acordo com plano de comunicação interna. O ano de 2007 foi o primeiro sem pronunciamento da diretoria nas festas de fim de ano ou no escritório, o que claramente indica a mudança de perfil no novo diretor geral. Os ritos de renovação começaram a ser planejados, mas não foram implementados. Destaca-se a criação de um grupo de trabalho, aberto a qualquer PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA funcionário que queira participar, para avaliar os resultados da pesquisa de engajamento de 2007, com o objetivo de montar um plano de ação que permita implementar atividades para melhorar os resultados atingidos e o clima organizacional. Também foi criado um grupo de redução de overhead, nos mesmos moldes, visando trazer os funcionários para dentro da nova cultura de redução de custos fixos e busca de resultados. Reuniões e conversas com os diferentes grupos foram instituídas como ritos de redução de conflitos, buscando minimizar os impactos das mudanças instituídas. Os ritos de integração continuaram os mesmos: festa de fim de ano, festa junina, bolo de aniversariantes do mês. O processo de integração formal dos funcionários ainda não foi implementado pelo departamento de RH. No escritório do Rio de Janeiro, os almoços nos aniversários dos funcionários deixaram de ocorrer, assim como os chopes após o expediente, o que pode representar uma baixa motivação e integração entre os funcionários. 5.5 Comparação da Cultura Organizacional Reestruturação Organizacional de 2006 antes e após a Nos últimos itens apresentados foi possível identificar a evolução organizacional da ENSR Brasil que, por conta das situações de ruptura que passou 102 na sua história recente, encontra-se em um processo de mudança cultural profunda. Com base nas informações levantadas nas respostas aos questionários, na pesquisa em material secundário (pesquisas de satisfação, publicações, intranet, apresentações, etc.) e na observação da pesquisadora, é possível comparar a cultura organizacional da ENSR Brasil antes e após a reestruturação organizacional de 2006, situação importante de ruptura e propícia à mudança cultural conforme o conceito de Tomei (1994) apresentado anteriormente. Em termos de evolução do clima e do engajamento dos funcionários, a Tabela 8 a seguir apresenta a evolução dos resultados entre a pesquisa de 2006 e 2007. Foram selecionados os itens com variação estatística significativa, tanto positiva como negativamente para os escritórios do RJ e SP. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA O clima organizacional no Rio de Janeiro sofreu um baque com as mudanças, conforme apontado pela piora nos índices da pesquisa feita no início de 2007. Em São Paulo, houve uma pequena piora nos índices, mas não tão acentuada. Dois índices específicos devem ser destacados: o que indica que houve aumento significativo no percentual de funcionários considerando deixar a companhia, o que pode significar insegurança ou insatisfação com a mudança; e o que aponta significativo aumento na percepção de que a operação local é comprometida com alto desempenho, reflexo imediato do novo estilo gerencial implantado na empresa. Tabela 8 – Comparação dos Resultados das Pesquisas de Engajamento de 2006 e 2007 Pergunta da pesquisa A moral no meu departamento é geralmente alta. Eu precisaria de muito para procurar outro empregador. Atualmente, você está seriamente considerando deixar a companhia? Escritório Percentual de respostas favoráveis Variação estatística em relação à pesquisa de 2006 RJ 38% -39% SP 63% Não significativa RJ 35% -32% SP 47% Não significativa RJ 43% +23% SP 53% +25% RJ 32% -27% Eu acredito que o time gerencial executivo tem uma visão clara do futuro. SP Minha empresa estabeleceu um clima RJ Não significativa 30% -26% 103 Pergunta da pesquisa Escritório Percentual de respostas favoráveis aonde os funcionários podem desafiar as maneiras tradicionais de fazer as coisas. SP 45% Não significativa RJ 41% -26% SP 66% Não significativa RJ 41% -24% SP 63% Não significativa RJ 65% -22% SP 87% Não significativa RJ 92% +30% SP 97% +23% RJ 81% +27% SP 79% Não significativa RJ 59% Não significativa SP 66% +35% RJ 59% +26% SP 58% Não significativa RJ 54% Não significativa SP 66% +35% RJ 86% Não significativa SP 79% +32% RJ 24% Não significativa SP 42% +30% RJ 64% Não significativa SP 76% +29% RJ 51% Não significativa SP 61% +29% RJ 78% Não significativa SP 79% +26% Funcionários na minha empresa são encorajados a trazer soluções inovativas para os problemas relacionados ao trabalho. Meu supervisor desenvolve as habilidades das pessoas. Eu recomendaria essa empresa como um bom local para se trabalhar. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Minha operação local é comprometida com alto desempenho. Os valores da minha empresa (integridade, respeito, comunicação aberta, flexibilidade, equilíbrio, inovação, diversidade) estão claros. Eu sou suficientemente informado sobre os valores da minha empresa. Meu cronograma de trabalho permite flexibilidade suficiente para eu satisfazer minhas necessidades pessoais/familiares. Eu sou suficientemente informado sobre os planos da minha empresa. Minha empresa opera com integridade em suas negociações externas com clientes, fornecedores, vendedores, etc. Minha empresa faz uso adequado de reconhecimento, premiações, que não dinheiro, para encorajar o bom desempenho. Na maioria das vezes é seguro falar, emitir opinião na minha empresa. Eu compreendo as possibilidades de evolução na carreira na minha empresa. Minha empresa opera com integridade em suas negociações internas com funcionários. Variação estatística em relação à pesquisa de 2006 Fonte: ENSR - Pesquisas de Engajamento dos Funcionários de 2006 e 2007 A comparação da cultura organizacional antes (estágio de nascimento e meia-vida organizacional) e após a reestruturação de 2006 (estágio de maturidade 104 organizacional) foi feita com base na análise conduzida nos itens anteriores, aplicando-se as tipologias culturais de Handy (1978), Sethia e Von Glinow (1985), Donnelly (1984) e Deal & Kennedy (1982), descritas no item 2.2 deste trabalho. A Tabela 9 a seguir apresenta essa comparação. Tabela 9 – Tipologias Culturais na ENSR Brasil Modelos Antes da reestruturação organizacional Após a reestruturação organizacional 1998-2005 2006 aos dias atuais Cultura do Poder PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Handy (1978) O Poder é concentrado no ponto central. Decisões influenciadas por fatores como o equilíbrio de influência e não por avaliações lógicas. Pouca burocracia, poucas regras e procedimentos. Trato com funcionário sensível, podendo ser rude em alguns momentos. Cultura da Tarefa Orientada para o trabalho ou projeto. Totalmente relacionada ao desempenho. Grupos possuem mais influência do que indivíduos. Valorização de prazos e rapidez de resposta. Controle mantido pela alocação de recursos e pessoas a projetos. Encontrada em mercados competitivos. Exigente Orientada para performance com pouca preocupação com as pessoas. Alta rotatividade. Sethia e Von Glinow (1985) No final da meia vidaorganizacional assume características de Apática Pouca preocupação com pessoas e baixa preocupação com a performance. Impera a indiferença e estado de cinismo de desmoralização generalizado. Integrativa Associa alta preocupação com as pessoas e forte expectativa de desempenho. Ênfase na equipe ou no sucesso da companhia como um todo e não no sucesso individual. Cultura Excelente Cultura Vaga Donnelly (1984) Indefinição de rumo. Mudança constante na equipe gerencial e falta de motivação para mudar e inovar. Planejamento respeitado pela maioria dos membros da organização, permeando o processo decisório. A formação de equipes é enfatizadas e procedimentos, padrões operacionais e de desempenho são relacionados ao planejamento, assim como as avaliações. 105 Modelos Deal & Kennedy (1982) Antes da reestruturação organizacional Após a reestruturação organizacional 1998-2005 2006 aos dias atuais Cultura Macho Cultura Trabalho Duro/Diverte Muito Individualistas assumem altos riscos. Cultura que tende a ser jovem, com ênfase na velocidade. Orientada para o curto prazo. Heróis são aqueles que tomam decisões rápidas e assumem altos riscos. Característica de empresas que operam em mercados dinâmicos. Trabalho em equipe tem estímulo maior, mas não resulta necessariamente em comprometimento com a organização. Voltada para resultados de curto prazo. Qualquer reclamação do cliente aparece rápido, provocando rápido feedback. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA 5.6 Gerenciamento da Mudança O processo de mudança na ENSR Brasil foi claramente intencional, segundo exposto na resposta, já transcrita anteriormente, de um alto executivo da matriz americana quando demandado que descrevesse o nível de envolvimento da matriz na definição da estrutura organizacional no Brasil: “Tried to work Brazil to mirror the Brazilian business to the US model (e.g. Employee Engagement, Key Account Program, Sector Leads, etc.). Also, the recent change in the direction of the company in Brazil was meant to further link Brazil with the “mother ship”. The promotion of the new director is part of the Company’s overall succession planning goals”. (“Tentamos trabalhar o Brasil de forma a espelhar o negócio brasileiro no modelo americano (ex.: Engajamento dos Funcionários, Programa de Contas Chave, Lideranças de Setores, etc.). Adicionalmente, a mudança recente na direção da empresa no Brasil foi feita com o objetivo de conectar mais ainda o Brasil à “nave mãe”. A promoção do novo diretor é parte dos objetivos gerais da companhia de planejamento sucessório.”). Portanto, adotou-se uma perspectiva funcionalista, na qual a cultura pode ser manipulada, seguindo a vertente que defende que a cultura é gerenciável. Adicionalmente, segundo a análise da cultura desenvolvida, também era claro que 106 os funcionários admitiam que a mudança era necessária, inclusive pedindo melhorias de processos internos e reestruturações. Conforme apresentado no item 2.6.1, o modelo de Pettigrew (1996) identifica quais aspectos são importantes para facilitar mudanças na cultura organizacional de uma empresa. Muitos destes aspectos foram identificados no caso da ENSR Brasil. Se considerarmos a matriz americana como contexto externo, este não só era receptivo como conduziu o processo de mudança. Em relação aos demais componentes do contexto externo (clientes, fornecedores, demais stakeholders, etc.), estes eram receptivos (indiretamente e inadvertidamente) ao processo de mudança, desde que o gerenciamento da empresa melhorasse. No entanto, a criação de um clima geral que levasse a mudança não foi atingida facilmente, encontrando grande resistência interna, o PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA que de certa forma era esperado. A pressão da Alta Administração foi clara e consistente, concordando com o modelo de Pettigrew, mas a questão da liderança no processo de mudança não foi estruturada de imediato, sendo aos poucos assumida pelos novos gerentes incorporados ao quadro da empresa. A mudança foi nitidamente impulsionada pela desarticulação e imprecisão entre as visões da Alta Administração da filial brasileira e da matriz americana. Foi criada uma nova estrutura para liderar a mudança, buscando “a liberação de caminhos e energias para a mudança” (Pettigrew, 1996), além de instituídas inúmeras novas reuniões aonde os problemas encontrados eram discutidos, buscando focar as energias no processo de mudança. Os processos administrativos foram alterados, através da descentralização da responsabilidade da diretoria, assumindo o que Pettigrew chamou de “caráter altamente divisionista para uma posição coerente e coesa”. Também foram instituídos na ENSR Brasil novos modelos de avaliação desempenho e de reforço através de premiações, buscando apresentar os aspectoschaves da nova cultura. O número de treinamentos e processos de desenvolvimento foi intensificado de forma a buscar introduzir mais profundamente a mensagem da nova cultura. Adicionalmente, a comunicação foi acentuada para transmitir mais intensamente as novas crenças e comportamento na organização, processo esse que ainda deve ser melhorado. 107 A mesma análise pode ser feita aplicando-se o modelo de Davis (1988), apresentado no item 2.3.5, o qual propõe um conjunto de dez práticas gerenciais que podem influenciar o nível cultural dos membros da organização. Faremos a seguir uma análise das práticas gerenciais adotadas dentro do contexto do estudo de caso da ENSR Brasil. A primeira prática gerencial apontada por Davis (1988) é a tentativa de mudar os valores organizacionais mais importantes. A ENSR Brasil continuou adotando os valores organizacionais da matriz americana, comunicados aos funcionários brasileiros através de uma apresentação interna e disponível na intranet do grupo. Apesar dos valores não serem enraizados nos funcionários, os gestores da mudança trabalharam para focar em dois conceitos principais que antes da reestruturação não eram enfatizados: prover aos funcionários PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA oportunidades de desenvolvimento e aumentar o valor dos acionistas, principalmente através da busca de forte performance financeira. A segunda prática gerencial, a de treinar os supervisores, foi aplicada principalmente no sentido de capacitar os gerentes e coordenadores nos conceitos de negócio da ENSR, principalmente os conceitos financeiros e de gerência de projetos. A matriz enviou dois funcionários ligados à gerenciamento de projetos para prover um treinamento de quatro dias nos conceitos corporativos e no software MS Project. O executivo responsável pelas operações internacionais também promoveu a palestra “How we make money” (Como fazemos dinheiro) para todos os funcionários, com o objetivo de reforçar o negócio da ENSR e como o retorno financeiro é atingido. A gerente financeira da ENSR Brasil também promoveu treinamentos internos para todos os funcionários e treinamentos específicos para os gerentes para explicar diversos conceitos usados na gestão financeira da empresa. Em termos de gestão de pessoas, foram dados treinamentos curtos e otimizados da ENSR University (treinamentos corporativos da matriz via conferência telefônica e intranet), que trataram de temas tais como: como fornecer feedback efetivo, estabelecendo metas de desempenho, como delegar trabalhos, entre outros. Para atuar na terceira prática gerencial, a de melhorar as práticas de pessoal e de trabalho, a principal ação foi o estabelecimento do departamento de RH e de diversos novos processos, a maior parte deles refletidos no modelo americano. As 108 ações de RH e de desenvolvimento organizacional ainda estão se estruturando e evoluindo, uma vez que nessa fase inicial do departamento foi necessário agir em estruturas básicas antes inexistentes, como a estruturação dos benefícios, descrição de funções, o plano de desenvolvimento do funcionário, entre outros. Os gestores passaram a assumir responsabilidades de desenvolvimento do funcionário através de um processo de avaliação formal de desempenho e desenvolvimento, processo esse que vem amadurecendo aos poucos. Em termos de melhorar o serviço aos clientes, pouco foi alterado, uma vez que esse não era o foco da mudança. Os clientes, em sua maioria, sempre demonstraram grande satisfação com os serviços prestados, satisfação essa medida através de pesquisas de satisfação dos clientes, feedbacks diretos fornecidos pelos clientes aos gerentes de projeto e pela recontratação de serviços. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Para reestruturar e enriquecer as tarefas (quinta prática gerencial), os gestores fizeram reuniões com todos os gerentes (de 1º e 2º níveis) para discutir possíveis melhorias dentro das diferentes áreas da companhia (administrativa e suporte geral e de TI, financeira, saúde e segurança, RH e operacional). Foi elaborado um plano de ação para buscar implementar melhorias que facilitem a execução dos serviços e a otimização de recursos. Além disso, está definido para 2008 o início da implementação do sistema de gestão integrado e futura certificação no começo de 2009. Também foram implementados alguns sistemas de informática para facilitar o trabalho, como o software de alocação de horas em projetos (timesheet) e o software de controle de compras e pagamentos. Foram estruturados alguns programas gerenciais participativos (sexta prática gerencial), conforme descrito anteriormente, com a formação de dois grupos de trabalho, um de engajamento de funcionários para discussão dos resultados da pesquisa de engajamento feita em 2007 e outro de redução de overhead, que busca discutir quais ações podem ser tomadas para otimizar e reduzir os custos fixos da empresa. Ambos os grupos são abertos a participação de qualquer funcionário que deseje se inscrever. Em relação a estabelecer um programa de rotação de trabalho e produzir o compartilhamento do trabalho, ações localizadas começaram a ser tomadas. Entre os departamentos existe boa colaboração para ceder funcionários temporariamente, mas nada instituído como um programa. O departamento de RH 109 iniciou a criação de um banco de competências da empresa (ainda em construção), estruturado na intranet, para que outros escritórios do grupo no mundo inteiro possam acessar e visualizar os profissionais que compõem a equipe brasileira e suas qualificações. Também foi identificada a necessidade de solicitar à matriz a possibilidade de pequenos intercâmbios aos escritórios internacionais, de forma a promover troca de know-how e também como forma de motivação dos funcionários. Porém essa iniciativa ainda está sendo discutida e não foi transformada em um programa formal. Em termos de melhoria de benefícios (nona prática gerencial), o departamento de RH fez um trabalho de estruturação dos benefícios diretos existentes, instituiu alguns novos como o plano dental e aperfeiçoou o auxílio a curso de inglês. Algumas iniciativas foram controversas e geraram certa PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA desconfiança entre os funcionários, quando da tentativa de redução de valetransporte ou troca do ticket refeição, mas foram contornadas. A empresa também instituiu maior flexibilidade em relação ao horário de trabalho e incorporou situações de funcionários em home office. Por fim, ações para melhorar as condições físicas e atividades de lazer não foram efetivamente implantadas, apenas houve a continuidade das comemorações padrão da empresa. O “aniversariantes do mês” foi incrementado com decoração e salgados além do bolo, mas não representa uma atividade de lazer em si. A proposta de Barros e Prates (1996) apresentada no item 2.3.8, sugere a existência de um estilo brasileiro de se administrar que apresenta algumas características específicas. Algumas delas foram claramente evidenciadas na ENSR Brasil ao longo de seus estágios de evolução e o processo de mudança atuou especificamente na maior parte delas, visando adaptar a cultura organizacional da ENSR Brasil às expectativas da matriz americana. A Tabela 10 a seguir apresenta a interferência feita nesses traços típicos do estilo brasileiro de administrar e quais ações foram tomadas para tentar adequá-lo às novas expectativas da matriz. 110 Tabela 10 – Gerenciamento da Mudança através da Atuação em Aspectos PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA Específicos de acordo com o Modelo de Barros e Prates Traços que Interagem na Formação do Sistema de Ação Cultural Brasileiro Antes da reestruturação organizacional 1998-2005 Concentração do poder – as próprias estruturas formais favorecem a que líderes acumulem poder. Alta concentração de poder na figura do diretor geral e sóciofundador (características similares a de empresa familiar). Personalismo – muitas vezes as pessoas preferem que os líderes os tratem de forma diferenciada, personalista, em relação ao grupo. Diferenciação subjetiva no tratamento dos funcionários, com base principalmente na subjetividade do diretor geral e de alguns gerentes. Tratamento dos funcionários igualitário, com base em avaliação estruturada de desempenho. Diretor geral envolve-se em todos os aspectos operacionais, assume posição socialista, como por exemplo na distribuição de bônus (todos devem receber pelo menos uma parte por sua contribuição). Nova gerência abole a postura paternalista e assume postura de cobrança de resultados e reconhecimento por mérito. Diretor geral era procurado para solucionar todo tipo de problema (operacional, de pessoal, financeiro). Gerentes não se sentiam responsáveis por resultados financeiros dos projetos e da empresa por diversas justificativas. Descentralização das decisões ocorre aos poucos. Formação de grupos de trabalho (ex.: engajamento dos funcionários e de redução de overhead) para trazer os funcionários para a busca de soluções. A aprovação e decisão do diretor geral eram essenciais para qualquer alteração de processo, com exceção de processos operacionais localizados. Ainda há dependência do diretor geral e da alta gerência para algumas decisões. Instituído certo nível de independência nos departamentos. Conflitos normalmente mediados por superior imediato, gerentes ou diretor. Sem mudanças. Conflitos normalmente mediados por superior imediato, gerentes ou diretor. Paternalismo – líder assume a postura de “pai” que tudo sabe, e age de forma supridora para com os “seus”. Postura de espectador – liderados tendem a aguardar as soluções que de cima virão, transferindo a responsabilidade tanto por seus sucessos quanto por seus fracassos aos seus superiores. Formalismo – garante a convivência entre os subsistemas líderes e liderados (somatório do paternalismo com a postura de espectador). Postura de evitar conflitos – mediação de conflitos por terceiro que matenha boas relações com ambas as partes. Após a reestruturação organizacional 2006 aos dias atuais Mudança da estrutura de poder, através de distribuição de responsabilidades e novo organograma. Novo diretor tenta descentralizar o processo decisório, tornando-o participativo (reuniões gerenciais, grupos de trabalho). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA 111 Traços que Interagem na Formação do Sistema de Ação Cultural Brasileiro Antes da reestruturação organizacional 1998-2005 Flexibilidade – possibilita convivência pessoal dentro de um sistema hierarquizado e formal. Alta convivência pessoal entre os funcionários dentro e fora do ambiente de trabalho. Lealdade pessoal – lealdade dos subordinados para com a pessoa do líder, baseada na liderança carismática. Impunidade – líderes às margens das punições e liderados acreditam que as diferenças de direitos sempre existirão, evitando participar de movimentos no sentido de evolução cultural. Forte identificação com a liderança exercida pelo diretor geral e sócio-fundador. O baixo desempenho é tolerado, até pela falta de avaliação de performance. Não existe a sensação de impunidade, talvez de favoritismo. Após a reestruturação organizacional 2006 aos dias atuais Boa convivência pessoal dentro do ambiente de trabalho. Convivência fora do ambiente de trabalho: boa em SP, mas no RJ decréscimo. Falta de uma nova liderança. Ainda existe forte identificação e lealdade ao ex-diretor geral (“Para mim ele vai ser eternamente nosso chefe”). A tolerância com o baixo desempenho é anulada, mas persiste a sensação de favoritismo, o que gera alguma resistência ao processo de mudança. 112 6 Conclusão O objetivo final deste estudo, o de avaliar o impacto da evolução de uma empresa ao longo de seu ciclo de vida em sua cultura organizacional, avaliando as possibilidades de gerenciamento da cultura em processos de mudança, foi alcançado através das análises conduzidas e da avaliação do gerenciamento da mudança conduzido pela empresa durante sua reestruturação organizacional. O caso da ENSR Brasil representou um exemplo rico a ser estudado de uma organização que obteve rápida expansão, com uma evolução constante através dos diferentes estágios do ciclo de vida organizacional identificados e que passou por diversas situações de ruptura em sua história. Os importantes momentos de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA ruptura existentes representaram marcos na evolução da empresa e permitiram analisar a história da ENSR Brasil e seu ciclo de vida, associando seus diferentes estágios evolutivos à caracterização de sua cultura organizacional. A possibilidade de interferência na cultura organizacional é defendida por uma vertente de pesquisadores, mas todos concordam que essa mudança é difícil e duradoura, o que reforça mais ainda os aspectos encontrados nos resultados analisados. Isso foi nitidamente observado nas respostas aos questionários aplicados, principalmente com a nova gerência, que apontaram resistência às mudanças implantadas por grande parte de funcionários. Conforme apresentado, o clima organizacional sofreu forte influência negativa do processo de mudança, uma vez que esse processo gera insegurança e instabilidade na organização e nos indivíduos. A influência da matriz americana representou aspecto fundamental para o gerenciamento da mudança conduzida pelo novo corpo gestor. É interessante ressaltar a forte interferência no estilo brasileiro de se administrar, visando a adequação da cultura organizacional da ENSR Brasil às expectativas da matriz. As ações de gerenciamento da mudança foram intensas desde o início da reestruturação da companhia em 2006, muitas delas ainda sendo incorporadas ao longo de 2007, logo alguns reflexos somente serão notados ainda mais no futuro. A própria substituição do diretor geral, ocorrida no final de 2007, gerará reações que ainda não estão refletidas nos resultados e nas informações obtidas por essa 113 pesquisa, uma vez que este ainda assume papel de liderança junto a muitos dos funcionários – principalmente os mais antigos. Portanto, através desta pesquisa foi possível identificar as variáveis culturais que sofreram mudanças mais significativas, através da intervenção direta em diversos aspectos de desenvolvimento organizacional, em ritos da empresa e em diversas características do jeito brasileiro de se administrar, e as possibilidades de gerenciamento da mudança de forma a garantir o alinhamento com as novas orientações estratégicas. Do ponto de vista acadêmico, este trabalho contribui como referencial teórico para o reforço da importância da gerência da cultura organizacional ao longo do ciclo de vida das organizações. Para as organizações, o estudo pretende indicar possíveis caminhos para o gerenciamento cultural, identificando potenciais PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA barreiras à implementação de novas estratégias. 6.1 Recomendações O grande desafio da ENSR Brasil será o de sustentar o seu processo de mudança cultural, dando continuidade às práticas gerenciais já iniciadas, em especial aquelas que possam produzir um resultado positivo no clima organizacional, evitando uma alta rotatividade. Ressalta-se a necessidade de continuação dos treinamentos gerenciais, de formação nos conceitos de performance esperados, destacando-se os de gerenciamento de projetos e financeiros. A continuidade da implementação da mudança deverá seguir o último aspecto identificado por Pettigrew (1996) como importante e crítico para facilitar o processo de mudança, a necessidade de persistência e paciência. Um outro aspecto importante é a atenção que deve ser dada à liderança na empresa, principalmente após a substituição do diretor geral, que assumia um papel de líder paternalista, o diretor sócio-fundador. A liderança é um dos fatores que influenciam fortemente a evolução organizacional de uma empresa. Segundo Trice & Beyer (1993), é difícil imaginar que os processos sociais necessários para criar e sustentar culturas pudesse ocorrer sem esforços de líderes culturais. 114 Por fim, a ENSR Brasil deve manter consistência entre suas práticas e discursos gerenciais, trazendo todos os gerentes e coordenadores para dentro de uma mesma visão estratégica e cultural. 6.2 Sugestões para Pesquisas Futuras A primeira extensão sugerida para essa pesquisa é a importância da liderança no processo de mudança cultural. Conforme destacado, o papel do líder na evolução da empresa e da construção da cultura organizacional da ENSR Brasil foi importante, mas não foi avaliado em detalhe, principalmente no que diz respeito ao impacto da substituição de liderança no processo de reestruturação PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA organizacional. Uma segunda possibilidade de pesquisa futura seria a de comparação entre as percepções das subculturas geográficas (escritório do Rio de Janeiro e escritório de São Paulo), analisando que fatores provocam as diferenças notadas nos climas locais e na percepção em relação à alta gerência. Adicionalmente, outros escritórios do grupo ENSR no mundo passaram por reestruturações similares, como o da Itália. Portanto, uma outra abordagem poderia ser a de se comparar as percepções relativas aos processos de mudança cultural liderados pela matriz americana por diferentes culturas nacionais. Por fim, um outro estudo poderia analisar uma empresa atuando em outro setor de atuação (que não de serviços ou de consultoria), avaliando o comportamento da cultura organizacional durante processo de reestruturação e buscando compreender se a própria estrutura do setor ou o tipo de serviço fornecido força ou não a empresa a seguir um padrão de mudança cultural. 115 7 Referências Bibliográficas BARNEY, J. B. Organizational culture: can it be a source of sustained competitive advantage? Academy of management review. 11(3):665-65, 1986. _____. Gaining and sustaining competitive advantage. 2 ed. Addison-Wesley Publishing Company, 2001. BARROS, B.T. de; PRATES, M.A.S. O estilo brasileiro de administrar. São Paulo: Atlas, 1996. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA CASTRO, D. P. V. de. Tipologias culturais e ciclo de vida organizacionais. Dissertação de Mestrado em Administração. Departamento de Administração, PUC-Rio, 2004. DEAL, T. E.; KENNEDY, AA. 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Questionário aplicado aos novos gerentes que entraram na empresa durante a reestruração de 2006 - Descrever impressões sobre a cultura, valores da ENSR; - Descrever dificuldades encontradas quando entrou na ENSR; - Descrever dificuldades de mudança encontradas; - Descrever impressões a cerca do relacionamento dos funcionários, dos eventos que ocorrem, etc. Questionário aplicado aos executivos americanos - Your current position at ENSR; - How many years you've been with ENSR and your positions that made you deal directly with ENSR Brazil; 119 - Describe the history of ENSR Brazil (why and when ENSR decided to open an office in Brazil, how did you chose Eduardo to be director, how was the beggining and the development of the offices); - Describe the greatest difficulties the corporate office has found in dealing with ENSR Brazil (any resistance, any cultural change); - Describe what level of involvement ENSR US has had in the definition of the organizational structure in Brazil. Questionário aplicado aos ex-funcionários da ENSR Brasil - Qual era a sua função na ENSR Brasil? PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0612014/CA - Quantos anos você trabalhou na ENSR Brasil? - Você conhece a história da ENSR Brasil? Se sim, por favor, descreva. - Que tipos de pessoas você acha que tinham mais possibilidades de avançar na carreira? - Que pessoas você considera como tendo especial significado para esta organização? - Que tipo de coisas as pessoas gostam de ver acontecer na ENSR Brasil? - Que tipo de problemas de trabalho te tirava o sono? - Por que você decidiu sair? - O que a ENSR tinha de melhor e de pior? - Como você acha que a ENSR poderia melhorar para reter mais seus funcionários? 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