“Eu gostei da história e quero muito conhecer o museu”: histórias para aguçar a imaginação na escola GANZER, Adriana Aparecida – UNESC – [email protected] Eixo: Educação e arte/ nº 16 Agência Financiadora: Sem financiamento. Resumo: Trago neste artigo alguns fios entrelaçados de uma pesquisa de mestrado realizada com crianças do 1º. ao 6º. ano do Ensino Fundamental, em visitas a dois museus de arte em Porto Alegre/RS. Aponto minha problemática central: a reflexão sobre a relação dialógica entre o museu de arte e a criança. E assim, pontuo alguns conceitos de arte que as crianças têm, em diálogo com poetas, autores da arte, da infância e da educação numa atividade em que contamos histórias as crianças e eu. A contação de histórias sempre teve o objetivo de tecer relações e buscar criar espaços de narrativa no entorno da visita ao museu de arte, seja na escola, ou no espaço expositivo. Mais do que isso. Esses espaços criados com as crianças suscitaram as aventuras da imaginação! Idéias foram lançadas para deixar emergir a história de cada um, como se a fruição da arte alongasse o fio condutor da imaginação. Palavras-chave: Arte. Infância. Museu de arte. Educação museal. Contação de Histórias. _________________________________________________________________ Era uma história... tudo estava vivo. “Os pássaros cantavam e as pessoas saíam do livro e falavam”. Mas quando a princesa virava a página “pulavam imediatamente de volta, para que não houvesse nenhuma desordem”. Delicada e imprecisa, como tanta coisa... Não são as coisas que saltam das páginas em direção à criança que as vai imaginando – a própria criança penetra nas coisas durante o contemplar, como nuvem que se impregna do esplendor colorido desse mundo pictórico. (...) Ao elaborar histórias, crianças são cenógrafos que não se deixam censurar pelo “sentido”. Pode-se colocar isso facilmente à prova. Walter Benjamin1 1 Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. São Paulo: Duas Cidades/ Ed. 34, 2002, p. 69-70. 2 Apresento aqui um recorte da pesquisa realizada junto a um Programa de Pós-Graduação stricto sensu em Educação – PPGE, Mestrado em Educação, em uma universidade catarinense. Destaco que esta é uma pesquisa realizada com crianças de diferentes classes sociais tidas aqui como sujeitos produtores da cultura. Assinalo suas considerações, suas críticas, suas dúvidas, seus conceitos e suas sugestões ao assumi-las como participantes e como depoentes privilegiadas desta investigação. Neste sentido, cerco-me de perguntas que juntas estabelecem minha problemática central: a reflexão sobre a relação dialógica entre o museu de arte e a criança. Optei por atuar, nessa pesquisa de mestrado, com crianças do 1º. ao 6º. ano do Ensino Fundamental,2 em visita a dois museus de arte em Porto Alegre/RS. A pesquisa de campo constituiu-se em três momentos, ou seja, um primeiro encontro na escola anterior à visita ao museu de arte, um acompanhamento às turmas no espaço expositivo e novamente na escola. O primeiro encontro com as crianças na escola teve o objetivo de saber sobre suas expectativas, se já conheciam um museu de arte, seu conceito de arte, como as crianças imaginavam os espaços expositivos, e uma conversa e leitura das autorizações para uso de seus nomes na pesquisa, bem como uma atividade em que contávamos histórias, as crianças e eu. Deu-se também um segundo encontro, já no espaço expositivo. Durante a visita acompanhei-as com o objetivo de perceber como apreciavam as obras originais, o que diziam do espaço e das formas de mediação; e um terceiro, novamente na escola, para a devolutiva, ou seja, para registrar os processos de produção de conhecimento e autoria através da fala das crianças. O caminho metodológico: os espaços de narrativa Na busca de estabelecer uma relação dialógica com as crianças, intentei criar espaços de narrativa, de forma a promover a aproximação e ouvir suas percepções sobre e a partir do trabalho educativo realizado no museu de arte. Isto é, busquei construir espaços de trocas e descobertas que permitissem expressar seus sentimentos, sensações, idéias e concepções que dizem respeito ao espaço do museu e suas implicações no serviço educativo. Para Leite (2006), esses espaços são Estratégias teórico-metodológicas de investigação – estratégias nas quais as crianças pudessem participar de tal forma que se constituíssem não como objeto de estudo, mas como sujeitos co-participantes destes estudos. A estes encontros pesquisador-criança chamamos espaços de narrativa (p. 3). Desta forma, os espaços de narrativa (...) são espaços de criação de sentidos, espaços de troca e produção de conhecimento. (p. 11, grifos no original) 2 Antiga 1º a 5º séries, como indica o Ministério da Educação a partir de 2007. 3 Ao tornar a pesquisa mais intervencionista, a criança é também participante, proponente de algo. Alimentar a imaginação da criança ao criar espaços de narrativa é, ao mesmo tempo, promover espaços de trocas e descobertas; é promover sentidos outros para além do que já está estabelecido. É permitir que as crianças mostrem suas capacidades, suas descobertas e igualmente promover a sua autoria. Nessa direção, encontro respaldo em Ioschpe (2005), segundo a qual, “os museus agem como formadores de público – disso eu não tenho dúvida. Minhas dúvidas residem no COMO agimos” (p. 143 – grifo no original). “Cabe ao museu – e esse é um assunto em que ainda estamos engatinhando – conhecer seu público real, suas motivações, suas características, suas necessidades” (idem). Diz também que talvez o mais importante seja “conhecer o seu público potencial para tentar descobrir como chegar a ele” (ibidem). Ainda aponta que como um “mediador entre produção e recepção da obra de arte, o museu cumpre um determinado papel nesta difícil comunicação entre a arte e o público” (p. 142). Ademais, sugere que a pesquisa seja centrada na criança – e é nessa linha que segue minha investigação. Especificidades da pesquisa Pela especificidade metodológica, ao mesmo tempo em que trago algumas reflexões sobre os conceitos de infância, de criança e das relações com o museu de arte, também contemplo questionamentos que dizem respeito à pesquisa realizada com crianças. Demartini (2002) reitera “a importância cada vez maior, em nossos dias, de aprender a ouvir as crianças e os jovens” (p. 2 – grifos no original) e indaga se, ao dialogarmos com as crianças e com os jovens, escutamos suas vozes. Neste sentido, ao entender que as concepções de infância modificam ao longo da história, a criança-sujeito é segundo Jobim e Souza (1994) “autora da sua palavra, que nos mostra os espaços sociais a partir dos quais emerge sua voz, seu desejo” (p. 25). Na interação adulto-criança “constroem uma compreensão mais abrangente do que significa existir socialmente em um contexto marcado por profundas contradições econômicas, sociais e culturais” (idem). Dito isso, ainda vale apontar o recurso de utilizar um gravador de voz para apreender a fala das crianças, essencial ao considerar que elas descobrem coisas enquanto falam, constroem respostas e representações acerca do que vivem, ouvem, desejam e imaginam. Gravar suas falas tem o sentido de garantir fidelidade ao que foi dito por elas, pois ao realizar anotações posso interpretar 4 na minha visão de adulta, o que me leva a destacar na teoria de Bakhtin o conceito de exotopia: Devo entrar em empatia com esse novo indivíduo, ver axiologicamente o mundo de dentro dele tal qual ele o vê, colocar-me no lugar dele e, depois de ter retomado ao meu lugar, completar o horizonte dele com o excedente de visão que desse meu lugar se descortinaria fora dele. (In Silva et al 2005, p. 52) Intencionei assim, entremear as falas das crianças que participaram dessa pesquisa com a teoria estudada para que o leitor possa, numa relação dialógica, descortinar essas concepções, refletir acerca da construção do conhecimento com enfoque para as teorias da arte. Vale destacar esta como uma investigação qualitativa e de cunho intervencionista, portanto as crianças que me autorizaram apareceram nomeadas. Sendo essa uma pesquisa realizada com crianças, uma das especificidades é a autorização da criança e dos seus pais para o uso dos seus nomes. Nessas autorizações, aconteceram diferentes situações. Durante a entrega e leitura, elas sempre assinaram e, depois, levaram para os seus pais. Em algumas o retorno aconteceu e foram as próprias crianças que escreveram os nomes dos pais, ou eles não assinaram, mas segundo elas eles concordaram; ainda há aquelas que perderam o papel e disseram que as autorizações são verbais. As professoras também assinaram uma autorização e compreenderam que, dessa forma, autorizam as suas turmas também. Entretanto, por opção ética, nessas situações, identifico como criança, guri ou guria – não trazendo seus nomes. Essa autorização foi também obtida no retorno a escola para devolutiva, que consiste na discussão sobre as transcrições, nas quais as crianças reconheceram suas falas e assumiram a autoria, escrevendo o seu nome ao lado. Elas às vezes faziam pequenas modificações e alguns acréscimos e, no final, todas assinavam – essa era a essência da proposta. A devolutiva permite uma interação maior com as crianças, pois ao procurarem suas falas nas folhas transcritas, elas comentam mais coisas sobre a visita ao museu de arte, bem como suas expectativas, suas dúvidas, suas ansiedades. Essa proposta metodológica indica a autoria da criança ao mesmo tempo em que a respeita, ou seja, é ela quem me autoriza a fazer o uso de suas considerações. Esse respeito, relacionado à ética da pesquisa, me proporciona segurança e me dá subsídios para assim produzirmos juntos o conhecimento, as crianças e eu. Adriana:3 Bom, eu vim aqui conversar com vocês sobre museu de arte. Quem conhece museu de arte? Guria: Só no filme. 3 Diálogo com turma de 2º. ano do Ensino Fundamental de uma escola estadual de POA em 31/05/2007. 5 Guri: Já vi. Fui três vezes... Adriana: E como vocês imaginam que é o museu de arte? O que tem no museu de arte? Guria: Tem um monte de arte! Crianças: Tem quadros! Tem gente pintando. Pessoas desenhando. Tem estátua, tem tudo! Guri: Eles copiam os quadros, copiam as casas... Adriana: E como vocês imaginam que é esse lugar? Crianças: É bonito e grande. E tem um monte de tinta e pincel. Guria: Tem um salão grande e bonito. Um salão cheio de pinturas! Adriana: E o que vocês vão ver lá? Crianças: Quadros. Arte. Desenhos. Estátuas. Coisas enfeitadas. Quadros pintados... Adriana: E o que é arte? Guria: É uma coisa de tinta. Guri: É tipo uma nuvem assim, fazer desenhos das nuvens... Adriana: E vocês olham os desenhos das nuvens? Turma: Sim!! O corpo teórico A fundamentação da pesquisa foi realizada com reflexões a partir de Walter Benjamin, Lev Vigotsky e Mikhail Bakhtin, em diálogo com teóricos da arte e da educação, as crianças e os poetas. Benjamin, pelo modo como compreende a infância, seu caráter transgressor de olhar a história a contrapelo e por suas contribuições a respeito da narrativa; Vigotsky, que entende a criança como produtora de cultura; e Bakhtin, por suas contribuições para a compreensão dos passos de apropriação em arte e sua complementaridade de visões e interações do eu e do outro que propõe uma atitude dialógica. Nesse artigo, o foco de discussão é a imaginação, logo as discussões atinentes a essa temática são privilegiadas, considerando sempre que muitos teóricos (Vigotsky 2006; Girardello 2005; Egan 2005; Cabral 2005; Benjamin 2002), discorreram sobre a imaginação e atribuíram a ela um papel categórico. Como também, segundo Manoel de Barros (2006), “eu não amava que botassem data na minha existência. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior era o quando. (...) A gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio. (...) Nesse tempo a gente era quando crianças” 6 (fragmento XV, grifos no original). Para o poeta, o tempo não anda para trás. Desse modo, ao buscar criar espaços de narrativa no entorno da visita ao museu de arte, seja na escola, seja no espaço expositivo, tecemos juntos relações. Mas não somente isso. Esses espaços criados com as crianças suscitaram as aventuras da imaginação! Idéias foram lançadas para deixar emergir a história de cada um, como se a fruição da arte alongasse o fio condutor da imaginação. A contação de histórias Deixar florescer a imaginação das crianças e propiciar estímulo à narrativa, conforme sugere Girardello (2005), “é uma ponte entre a imaginação e a cultura” (p. 5). A autora aponta que: “Quanto mais histórias estiverem sendo contadas, maiores as possibilidades de recriação, maior a vitalidade narrativa da cultura, e, portanto, maior a sua vitalidade imaginativa” (p. 9). Encontro Cabral (2005) que “respeita a inteligência das crianças e valoriza o espírito crítico e independente da infância (...). No universo da imaginação, o único limite é a impossibilidade da auto-contradição. Na dimensão da imaginação, o absurdo é algo que não existe” (p. 6-7). Assim sendo, observar as imagens contidas nos livros é provocar a imaginação para as imagens que poderão ser vistas no museu de arte, com as quais as crianças elaboram seus próprios conceitos. Na turma do 2º. ano de uma escola publica estadual, no dia 31 de maio de 2007, conversamos na escola antes da vista e também observamos um livro, a turma apontou suas considerações: Adriana: Ah! Eu trouxe um livro4 que tem uma história o que será que vai acontecer na história? O nome dessa menina é Kate. Guria: A roupa dela é da moranguinha. Guri: E a avó dela? Onde elas estão? Guria: Na casa delas. Adriana: Então a Kate convidou a avó dela para ir ao museu. Turma: É!!!! Crianças: Nós nunca vimos assim. Ela entra dentro do quadro!! E a roupa dela muda! Adriana: Será que dá pra entrar no quadro? 4 MAYHEW, James. Katie and the Bathers. London: Orchard Books, 2005. 7 Guria: Dá sim. Adriana: Será que vocês vão entrar dentro dos quadros? Guri: Não! É só numa história. Crianças: Tem desenhos. Ela vai tomar banho lá. Adriana: E o que tem aqui? Guri: Um cara com cachorrinho, um tomando banho, um pescando... Adriana: A Kate então foi dar um mergulho... Crianças: E a água saiu, vai inundar o museu e cair tudo! Adriana: E vocês o que vão fazer? Turma: Nada! Tem barquinho... Chove lá dentro. Guri: Não só na rua. Adriana: E aqui? Ela convidou o menino para sair do quadro. As coisas saem dos quadros? Daniel: Não só numa história, num desenho... Adriana: E não acontece com as crianças que vão lá? Turma: Não! Adriana: E tem água no museu? Crianças: Não tem. Quando a gente foi lá tinha um barco em cima de um vidro, sem água. Matheus: A gente pensou que ia despencar o vidro, mas era só na minha cabeça. Adriana: E a Kate, danada, começou a entrar nos quadros... Guria: Tu trabalha lá? Adriana: Não eu não trabalho lá, e esse cara aqui? Crianças: Ele é artista, ele quer pintar. Ele cata as pessoas e devolve pros quadros... Ela tá que nem na capa! Ela vai embora, deu um abraço na avó e fim. Guria: Eu gostei da parte que ela ajudou a sair dos quadros. Matheus: Quando tu disser que eu posso ir lá eu vou. [no museu] A personagem Kate entrava e saía dos quadros, e como seria a história dessa turma no espaço museal? Segundo Benjamin (2002), a criança habita as imagens, “assim como descreve essas imagens com palavras, a crianças as descreve de fato” (p. 65). “A criança penetra nessas imagens com palavras criativas. E assim ocorre que ela as ‘descreve’ no outro sentido do termo, ligado aos sentidos. A criança desperta no reino das gravuras” (p. 66). Aos poucos elas participavam da contação da história. Nos grupos, eu estimulava que elas criassem uma nova história a partir das imagens do livro, pois a maioria deles estava escrito em inglês. Isso significa que, ao conversarmos, entendíamos que o mais interessante seria inventarmos a história a partir do que a turma via nas imagens, decorrente das suas vivências, experiências, fantasia e imaginação. Nessa perspectiva, Egan (2005) aponta a lógica da imaginação, o que “parece corresponder mais adequadamente à da metáfora do que com qualquer outro esquema de racionalidade que possamos explicitar” (p. 3). 8 Os livros que utilizei contavam histórias de diferentes personagens que visitavam o museu de arte e de fatos inusitados que podiam ocorrer, como, por exemplo, uma história na qual os gatos visitaram o museu e, em assembléia, concordaram que faltavam gatos nas obras, então, uma gata resolveu pintar gatos nos quadros, dentre eles, pintou um gato no colo da Monalisa. Na turma do 3º. ano de outra escola estadual, no dia 10 de maio de 2007, aconteceu esta história antes da visita ao museu: Adriana: Então agora eu trouxe aqui para vocês um livro5 para gente ver a história. O que tem aqui na capa? Wesley: Uma mulher com um gato. Criança: Ela é uma santa. Ela tá no quadro. Adriana: Será que é um quadro? Cairu: É um quadro, isso daí. É uma pintura. Franciele: Eu também acho. Adriana: A gente vê um monte de gatos reunidos, para que será que eles se reuniram? Marco Antonio e Cairu: Pra fazer uma reunião. Pra fazer um filho. Everton e Cairu: Pra conversar. Pra pintar. Pra pintar a mulher e o gato. Adriana: É, cada um pode escolher os seus motivos. E olhem para onde eles estão indo? Lucas: Numa exposição. Eles vão ao museu! Everton: É no museu de arte! Adriana: Então os gatos chegaram no museu, será que são esses quadros que a gente vai ver? Lucas: Eles foram olhar os quadros. Turma: Não, mais diferentes! Adriana: Esta é a gata Felícima e ela tá olhando todos os quadros. Marco: Ela foi pintar. Olha tem tinta! Ela foi lá no museu pra copiar o quadro. Cairu: É ela pintou um gato. É uma invasão de gatos. Wesley e Cairu: Tava muito sem graça sem gato. Ficou bem melhor a mulher com o gato. Adriana: Gente, essa é a história dos gatos, e como será que vai ser a história da segunda série que visita o museu? Cairu: Eu gostei da parte dos quadros. 5HOOPER, Meredith. Celebrity Cat. London: Frances Lincoln Children´s Books, 2006. 9 Ao retornar na escola para fazer a devolutiva, o Wesley veio me contar que tinha encontrado a imagem da Monalisa numa revista, mas que estava sem o gato. Segundo ele, “Eu encontrei na revista uma foto da mulher do gato, fica muito melhor com o gato no colo!”. Pedi que ele escrevesse na folha das transcrições e, com a ajuda da professora, ele escreveu, depois veio todo contente me entregar. Então, combinamos que, depois da leitura da transcrição na qual eles escreveriam seu nome ao lado das falas que reconhecessem ser suas, iriam assinar. E eles pediram mais uma história. Já na turma do 5º. ano de uma escola municipal, o que aconteceu no dia 11 de maio de 2007 foi diferente da narrativa anterior, pois nesta as crianças já conheciam algumas obras de arte, dentre as quais, já haviam estudado a Monalisa e o livro então foi escolhido por elas (o mesmo livro supra citado). O que determinou a escolha foi a capa, pois aguçou a curiosidade de todos. A imagem da Monalisa com um gato no colo seria possível? E assim, essa foi uma história contada após a visita ao museu: Guri: Uma gata! Ela pintou um gato no colo da Monalisa... Guri: A gente estudou com a professora que muitos artistas tentam copiar a Monalisa, esses aí copiaram o gato no colo dela, cada um faz do seu jeito. Guria: A gata viu que essa obra era muito famosa e daí ela botou um gato, ela se autoretratou com a Monalisa, ela é famosa porque fez o quadro da Monalisa e ninguém conhecia e depois ela ficou famosa. Guria: Ali tem um monte de gatos olhando alguma coisa, esse é o mistério... Guri: Tão vendo a gata pintar a Monalisa. Guri: Eu também acho. Adriana: E aqui? Crianças: Ai, não sei! Renato: É lá na França. Guri: Estão observando a paisagem. Adriana: E agora, onde eles foram? Turma: Foram no museu! Adriana: Eles também conhecem museu, era assim o MARGS? Guri: Não, era diferente. Era menor. Guri: Não tinha gatos. Guri: Eles entraram escondidos... Guri: Lá tinha um espantalho. Adriana: Como era o espantalho? Guri: Eu nem lembro... Guria: Eu sei, era feito de pano, tinha madeira... 10 Fernanda: Eu tô bem com a folha escrita aqui6 [folha das transcrições]! Tá escrito: passarinho no museu!? Adriana: Quem disse que tinha passarinho no museu? Renato: Ah eu falei por causa do espantalho. Fernanda: Então escreve o teu nome aqui do lado pra Adriana saber. Renato: Eu disse quase tudo! E, eles foram lá pra depois copiar. [os gatos no museu] Adriana: E o que tem aqui? Fernanda: A gata tá olhando, ela vai querer ser pintora. Guri: É o quarto de alguém, pode ser da gata... Paulo: É o quarto de um artista. Guri: Eu acho que é de uma mulher. Guri: Ela vai pintar a Monalisa! Felipe: Tem um lugar ali, as pessoas se deitam e ela fica pintando. Guri: Vendo a obra. Tem uma cortina, vai puxar a corda! Turma: Ela botou no museu! Os gatos se acharam! Adriana: por isso que eu perguntei antes o que vocês mudariam lá no museu, viram os gatos mudaram as pinturas. (...) Turma: Eles são celebridades! Os gatos organizados do beco sem saída. Ela [a gata] ta se achando. Ta ficando poderosa. Guri: Ela queria mostrar as obras para os amigos dela e aí eles iam querer que ela pintasse... Guria: Imagine se eles não gostassem da gata ali no quadro! Guria: Ah, ficou bem com o gato no colo da Monalisa, eu achei. Fernanda: A gente olha os desenhos das nuvens, tem gatos, tem bichinhos, mas nunca a Monalisa, eu gostei. Crianças: A gata pode desenhar ela mesma. Ela e o namorado dela. Adriana: Então gente é mais uma história pra aguçar a imaginação de vocês. Renato: Ai minha imaginação ficou pulando! Vale apontar que no decurso da história emergem diálogos e situações relacionadas ao museu de arte, a arte e ao cotidiano das crianças. Relembramos a exposição vista ao mesmo tempo em que falamos sobre os conceitos da turma após conhecer as obras originais e o espaço expositivo. Nesse diálogo aparece uma sugestão para a colocação de bancos no museu, uma menina sugere que tenha mais bancos “daí a gente senta e olha”. Elas comentam sobre cópia das obras, criação, imaginação... Cito uma fala, agora do menino Renato “Dá pra gente transformar, a gente ia ganhar dinheiro e dava pra escola. Daí a escola ia ficar mais moderna, construíam até a 8º serie...”,7 ou seja, a partir da história intensificamos a importância da visita ao museu de arte, ainda destaco a 6 Destaco em negrito para intensificar o exercício da devolutiva. 7 Esta é uma escola de ensino fundamental incompleto. 11 menina Fernanda atenta à folha das transcrições e apontando a autoria da fala do colega. Essas conversas se estendem para além do livro e propiciam mais histórias, como no primeiro encontro com a turma do 2º. ano de outra escola municipal:8 Adriana: E eu posso ir lá encontrar vocês? [no museu] Então eu trouxe aqui um livro pra gente conversar um pouco. Quem conhece o livro?9 Crianças: Eu, eu! Adriana: Então quem conhece me ajuda, e vamos todos criar uma história que tal? Tem uma história aqui, mas vamos ver o que tem na capa? Guri: Elefante. Guri: Elefante babaca! Babaca!! Adriana: Elefante babaca! Será? Vamos descobrir? Está escrito em inglês, quem sabe inglês? Não precisa saber agora, pois nós vamos criar uma história juntos pode ser? Babar é o rei dos elefantes. E sobre o que será esta história? Guria: De elefante. Do rei dos elefantes! Adriana: Isso, uma história de elefante, e o que mais? Aqui tá escrito museu de arte. E que arte é essa aqui na capa? Guri: Desenho. Eu também sei fazer esse desenho. Adriana: Ótimo, e o que vocês vêem aqui? Turma: Arte. Dara: Tem flor, elefante... Thauany: Tem crianças, tem elefante grande e elefante criança. Yasmin: Tem um elefante pintando. Thauany: Tem crianças elefante pintando Guri: Babar, que não é babaca! Ah! Eduardo: Um castelo. Uma igreja. Luiza: Uma casa de arte. Thauany: É o Santander! Adriana: Será que o Santander é assim? Crianças: Uma casa cheia de arte. Tem gente ali dentro. É um colégio, um castelo. Uma casa. É um hotel. Adriana: Olhem o que tem na frente. Crianças: Elefantes. Lago. Carros. Adriana: E o que isso tem a ver com museu de arte? Thauany: O rei e a rainha tão passeando no balão. 8 No dia 29 de maio de 2007. 9 BRUNHOFF, Laurent. Babar´s – Museum of art. New York: Abrams, 2003. 12 Crianças: Tem mar. Barcos. Tem um elefante dentro da água. Guria: Não tinha visto. Carlos: Numa tá aberta e depois fechada. Adriana: As portas, sim, legal Carlos, mas porque será? Guri: Pras pessoas entrarem ou não. Adriana: vamos ver um pouco o que diz a história? Então o rei e a [rainha] estavam olhando... Guri: Do balão. Adriana: Isso, olhando que os elefantes estavam saindo da cidade. Guri: De carro! Adriana: Essa construção era uma estação de trem, quem já andou de trem? Turma: Eu, eu! Adriana: Eu hoje vim lá de Porto Alegre de trem, mas aqui ninguém andava mais de trem e eles pensaram o que poderiam fazer naquela estação do trem. O que eles vão fazer? Guri: Construir. Adriana: Construir o que? Guri: Uma casa. Adriana: E o que mais poderia ser? Será que eles poderiam mudar? Transformar em que? Yasmin: Museu de arte! Guri: Quadro na parede! Adriana: E aí abriu para todos verem como o Carlos falou que estava aberto. E o que tem? Crianças: Pinturas de elefante. E tem elefantes visitando a exposição. Guria: E é amanhã o passeio? Adriana: Depois de amanhã. Observem que tem gente olhando, será que vocês vão ver quadros assim lá? Crianças: Sim! Tem que levar lanche? Eh! Thauany: O rei e a rainha olhando. Tem elefantinhos, gaiola, gato. Guri: Cara de cansado... Adriana: E como é que vai estar a cara de vocês lá no museu, assim? Vocês vão lá pra dormir? Turma: Não!! Thauany: A gente vai lá pra pintar, tem cachorrinho e tem criança ali. Adriana: E será que a gente vai encontrar isso lá? Crianças: Outras artes... Tem que ser bonito. Ai que lindo. Eu queria morar ali. Num apartamento bem grande! Thauany: Tem um elefante pintando... Adriana: Será que vai ter alguém pintando lá no museu? Guri: Nós ora! Adriana: Vocês? Quem sabe. Guri: Elefante desenhado. 13 Thauany: É uma obra de arte. O rei e a rainha e as crianças. Guria: A rainha e aqui parece que é a avó do elefante. Guri: O elefante tá apavorado! [“O grito” Munch] Guria: Tá na blusa... Adriana: Será que a gente pode andar com obra de arte por aí? Turma: Não! Guria: Pode sim. Adriana: Porque que pode? Guri: Não pode. Adriana: Pois é aqui o quadro tá na camiseta, alguém pintou na camiseta? Thauany: Os que foram fazer a camiseta. E aí é o museu de arte. Adriana: Será que dentro do Santander é assim? Thauany: Uma festa e eles tão tomando champagne. Adriana: Vai ter uma festa lá? Thauany: Criança não toma champagne. Dara: Toma refri. Adriana: É olhem as crianças tomando refri ou suco. Então aconteceu uma festa. Uns adultos tomaram champagne e as crianças refri. Thauany: Acho difícil ter festa... Vale apontar que essa turma muito animada para conhecer o museu de arte teve a oportunidade de ouvir a gravação. Então após nossa conversa na sala de aula fomos com a professora até a sala de informática. O fato de utilizar um gravador digital com recursos de ser também um pen drive possibilita ouvir as falas no computador. Realmente foi uma experiência bacana, as crianças ainda não eram familiarizadas com o computador e ao se ouvirem ficaram encantadas! Respondiam para o computador e reconheciam as suas vozes. Essa experiência ainda no primeiro encontro teve um sabor de devolutiva. Ou seja, todas ficaram bem próximas do computador para a experiência que ali acontecia, e ao se ouvirem elas apontavam a autoria de suas falas, reconheciam a si e aos colegas, percebiam-se como depoentes da pesquisa. Nesse momento a turma do 2º. ano era composta de meninos e meninas tidos como potenciais criadores desta pesquisa. Esta mesma história, agora num encontro que aconteceu na turma do 5º. ano de uma escola estadual, no dia 01 de outubro de 2007, após a visita ao espaço expositivo, teve comentários diferentes. A observação do livro suscitou a leitura e um debate na turma, pois esse livro conta a história de elefantes colecionadores de arte que fizeram de uma antiga estação de trem o seu museu e depois de a estação estar apropriada para os padrões de um museu de arte, os elefantes recepcionaram a todos no dia da inauguração. As crianças-elefante nunca tinham ido a um museu 14 antes e se perguntavam se seria como na escola... Guria: Outro livro de história! Babar`s! Vanessa: Ih! Olha só! Botaram o Leonardo Da Vinci com cara de elefante! Guri: Em todos os quadros tem elefante. Que é isso, esse elefante, a 2º guerra mundial? Guria: Essa velhinha é que cuidou do elefante rei. Guria: Eu já vi um quadro quase um pouquinho parecido com esse, só que sem o elefante, num filme... Adriana: Vocês vêem filmes? Turma: Ahã. Adriana: Que legal, e então aparecem quadros. Vanessa: É mesmo, alguns têm... não sei se nos de terror, vou olhar... Guri: Na imaginação de quem fez esse livro, todos os quadros têm elefante. Guria: Dá pra ler? Adriana: Quer ler? Guria: Sim! Aqui ó, o elefante faz uma pergunta, eu vou ler: ...tudo tem que significar alguma coisa?10 Turma: Não! Não! Guria: Continuo: ... não deveriam fazer sentido? Crianças: Também não, eles fizeram o que imaginaram! O que é isso!? Anderson: Cada um vê o que vê. Carla: Vê o que imagina. Vanessa: Eu posso olhar e desenhar um quadro. Adriana: Isso, eu posso ver o quadro de uma maneira... Guri: E o outro de outra! Adriana: Isso que ela leu aqui, vocês concordam? Crianças: É. Alguns acham que sim e outros que não. Pior! Dá pra ver ou não ver. Dá pra sonhar... Pode ler mais? Adriana: Claro! Vanessa: Não tem que ser velho pra estar no museu? Tem que ser bonito? Não precisa ser querer dizer nada, disse Babar. Não há regras que nos digam o que é arte... E ele é o rei. Bah! Adriana: Ta! E agora? O que é arte então? Vanessa: Arte vem de dentro! Guri: Uau! Guria: Eu já vi estátuas na redenção. [Parque da Redenção] Guri: Tem do Duque de Caxias. Adriana: Tem muitas obras pela cidade mesmo. 10 Vale dizer que este livro, apesar do livro em inglês, tem um texto colado traduzido para o português. 15 Guri: Bah! Guria: E ali tem aquela obra na camiseta! [imagem do livro] Guri: Eu tenho uma camiseta que tem o Guaíba desenhado! Guri: Eu tenho com uma águia, é desenho, é obra! O delinear de novas perspectivas Com muita animação, as turmas se entregavam às novas descobertas, seja na história contada antes da visita ou mesmo depois, aproveitávamos para retomar conceitos e percebíamos juntos a multiplicidade de possibilidades que passaram a existir em relação a arte, ao museu de arte e a importância de atividades para além do espaço escolar. Nesse sentido, contar histórias ou criar histórias com as crianças teve o intuito de aguçar a sua imaginação; provocar a curiosidade para a visita ao museu de arte, as obras e o espaço museal. Contada antes da visita ou depois, essa estratégia não foi neutra. Aliás, nenhuma estratégia é neutra e vai sempre influenciar a relação das crianças com o museu, mesmo que antes da visita e antes de iniciarmos a contação da história já tivéssemos conversado sobre seus conceitos e sua imaginação atinente aos museus e a arte, como também aos serviços educativos e os prédios dos museus. Durante a criação/ contação das histórias retomávamos essas falas e considerações no sentido mesmo de fazer emergir, através da história, discussões que dizem respeito ao museu de arte. Sempre após a visita, na escola, através da história, conversávamos sobre o que aconteceu no museu: o que foi bom, o que faltou e o que poderia ter acontecido na visão delas e que ficaria como sugestão para uma outra oportunidade. Nas histórias, os personagens, ora animais, ora crianças, vivem situações diferenciadas no museu, entram e saem dos quadros, mostram uma maneira outra de olhar as obras – o que nas turmas despertava o desejo de querer mais histórias e também de criar suas próprias histórias. E me pergunto, como ficou o olhar diante das obras no espaço expositivo? Contar histórias teve um sabor de conversa, de diálogo. Muitas vezes fui eu quem escolheu os livros para levar, em outros momentos levei mais de um e as turmas escolhiam qual seria. No espaço e no tempo das nossas conversas, estabelecemos afinidades, cumplicidades; assim como teve votação para a escolha do livro, ou sugestões para mudar o nome da personagem principal. Segundo o poeta Manoel de Barros (2006) “quisera uma linguagem que obedecesse a desordem das falas infantis do que as ordens gramaticais. Desfazer o normal há de ser sua norma” (fragmento X). Sem regras, viajamos na história retomando páginas já vistas, do fim voltamos para o início, recriamos, 16 reinventamos e, em alguns momentos, toda a história se passou somente observando uma só imagem. Seja no primeiro encontro na escola, ou depois quando acontecia o momento da devolutiva, as histórias foram marcadas pela imaginação, pela fantasia e pelo deleite ou desencanto, visto que remetíamo-nos ao espaço museal e às expectativas de cada um, bem como ao cotidiano e ao devaneio. Assim como eu fui recebida e todos concordaram em me auxiliar nessa pesquisa, levar histórias para as turmas também teve o propósito de troca, ou seja, de levar algo para as crianças, para as turmas, para as escolas, no sentido de que como pesquisadora eu não somente colhesse informações, mas tivesse mais comunhão com elas, em encontros que valorizaram o papel do outro na formação do sujeito. E nesse dinamismo de atividades e relações propusemos uma outra forma de pensar esses tantos conceitos aqui narrados, entramos um pouco no lugar um do outro e desvelamos nossas impressões, seja do personagem da história, seja da turma na escola, seja do pessoal do museu, em reciprocidade às nossas contradições. Porque segundo o poeta, “a ciência não tem lógica. Porque viver não tem lógica. (...) Que era só despraticar as normas. Achei certo” (idem, fragmento XII). Alan:11 Eu sei o teu nome! Adriana: Nossa que legal! Faz um tempão que eu vim aqui. Alan: É Adriana. Tu trouxe outro livro de história? Adriana: Trouxe. Alan: Que tri! [...] 11Turma do 2º. ano de escola municipal, no dia 5 de setembro de 2007. 17 Referências BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1992. BARROS, Manoel de. Memórias inventadas. A segunda infância. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2006. BENJAMIN, Walter. Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. 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