Chinelão A história de um dos monumentos mais importantes de Montes Claros Formigão reacende paixão pelo futebol VIDE PÁGINAS 08 e 09 VIDE PÁG. 10 Opinião Rio São Francisco vira escoadouro de esgoto e deixa saudades dos velhos tempos. Jornal laboratório do Curso de Comunicação Social/ Jornalismo do Centro Regional de Estudos em Ciências Humanas VIDE PÁG. 03 ANO V - Nº 33 MON T E S C LA R O S - MI NA S GE R AI S - NOVEMBRO/DEZEMBRO DE 2007 O mercado na pauta do Jornalismo 6ª Semana da Comunicação, organizada pelos alunos do Crecih/Soebras, traz a experiência de profissionais renomados, com atuação em diversas áreas do jornalismo. VIDE PÁGINAS 04 A 07 O repórter Caco Barcellos, da Rede Globo, foi uma das atrações do evento “Jornalista que não lê terá dificuldade pra se estabelecer no mercado, pois ele não perdoa”. Maranhão Viegas “A audiência da Itatiaia é tão grande que surpreende até a gente que trabalha lá, pois tem ouvintes de todas as classes sociais”. Mário Henrique “...a dedicação de cada um que faz a diferença no momento da prova...” Juliano Cangussu “O jornalista precisa se atualizar para acompanhar a evolução do mercado, que está em processo de transição”. Cassio Politi “O jornalista não é o porta-voz de seu entrevistado, que é apenas uma fonte...” Lucas Figueiredo “Jornalista é um trabalhador, precisamos ter um salário digno, temos que defender nossa profissão” Janaína da Mata “É importante tratar desses temas nos noticiários porque a informação é uma forma de pressão social”. Rachel Costa 2 NOVEMBRO/DEZEMBRO - 2007 DIO NE AFO NSO LUIZ CARLOS NUNES DIO NE AFO NSO Vide Verso fecha 2007 com balanço positivo Este é o último Vide Verso de 2007 e não poderíamos encerrar o ano com um resultado melhor. Apesar de terem sido publicadas apenas quatro edições, cada uma delas significou um avanço em relação à qualidade da apuração, do texto e da diagramação. Além disso, o jornal assumiu um novo formato, passando do tablóide para um padrão bem próximo ao Berliner, mais conhecido como “midi”, que surgiu na Europa e vem conquistando a preferência por lá. Neste semestre, conseguimos ainda introduzir nas páginas do jornal o gênero mais nobre do jornalismo, que é a reportagem. Tudo isso é reflexo do empenho dos estagiários em busca de fontes, e do trabalho de edição, já que cada texto passou por várias versões até atingir o que consideramos o ideal em relação à clareza, objetividade, fluência e humanização das matérias. Essa evolução do conteúdo do jornal é, também, fruto do trabalho multidisciplinar promovido em sala de aula, associado à prática. Nesta edição de fim de ano, o Vide Verso traz uma cobertura da 6a Semana da Comunicação – principal evento do curso de Jornalismo do Crecih/ Soebras –, matérias de cultura e esporte, além de um número expressivo de textos opinativos – outro resultado de discussões realizadas em sala de aula, que nos levam a refletir e valorizam qualquer publicação. Esperamos que todos apreciem a leitura e que, no ano que vem, a gente continue nesse caminho de sucesso. Um feliz Natal e um 2008 de muitas realizações! E X PE D I E N TE O VIDE VERSO é o jornal laboratório do Centro Regional de Estudos em Ciências Humanas (CRECIH/ Funorte), da Associação Educativa do Brasil (SOEBRAS), com distribuição gratuita e edição mensal. PRESIDENTE Prof. Ruy Adriano Borges Muniz DIRETORA ADM INISTRATIVA Profª Tânia Raquel Queiroz Muniz DIRETORA DO CENTRO REGIONAL DE ESTUDOS EM CIÊNCIAS HUM ANAS - CRECIH Profª Ana Cristina Couto Amorim COORDENADOR DO CURSO DE JORNALISM O Prof. Elpídio Rocha COLABORADORES Ana Medeiros Dione Afonso (cobertura fotográfica) Érika Pereira Hugo Leonardo (História) Jarbas Oliveira Maria Narciso ESTAGIÁRIOS Camila Guimarães Élida Gonçalves Hayslanne Oliveira Jair Bastos Samuel Fagundes Marina Pereira Thiago Leite COORDENAÇÃO EDITORIAL E REVISÃO Profª Ana Gabriela Ribeiro REG. PROFISSIO NAL MG07113JP Profª Juliana Paiva REG. PROFISSIO NAL MG05985JP EDITORAÇÃO Cléber Caldeira e Jair Bastos Tiragem: 500 exemplares Impressão: Gráfica Uniset CENTRO REGIONAL DE ESTUDOS EM CIÊNCIAS HUM ANAS (CRECIH/SOEBRAS) - CURSO DE JORNALISM O Rua Lírio Brant, 787 - Melo - Montes Claros - MG Correio eletrônico: [email protected] vi deverso @tocadosfocas.com FOTOS : DIONE A FONSO PROFISSÃO: JORNALISTA As lições que ficaram da a 6 Semana da Comunicação Ana Medeiros* 8º período - Jornalismo Não foi fácil, aliás, pensei até em desistir. Um dia cheguei na sala e disse para meu colega Luiz Carlos: “Não vai dar, estou jogando a toalha no chão”. Mas ele não deixou, ainda bem. Agora que tudo passou, e posso dizer sem medo de errar, o resultado da 6ª Semana da Comunicação compensou todo o esforço, faria tudo de novo. Trabalhamos em equipe, assim como deve ser o jornalismo, por isso, o que no começo estava fora do lugar foi se encaixando. Como diria o Mário Henrique, da Itatiaia, “É caixa”, marcamos um gol de letra. Pode haver quem não concorde, e temos de respeitar a opinião das pessoas, outra máxima do jornalismo – mais do que isso, da vida. Uma das lições mais importantes que cada palestrante nos deixou. Não posso fazer a avaliação por todos, mas espero que cada estudante e até mesmo os profissionais que acompanharam tudo possam ter absorvido que realmente escolheram o caminho certo. Que eles tenham a sensibilidade de entender que ser jornalista, muito mais que ter uma profissão glamourosa, ser um rostinho bonito na tv ou um cara metido a intelectual, implica em um compromisso com o outro, com princípios éticos e morais, que ajudam a defender o interesse da maioria. Para ser jornalista é preciso muito mais que dedicação, persistência, acima de tudo, “o mercado é repleto de dificuldades, no mercado só ficam os que querem e acreditam nos seus sonhos”, como declarou a diretora cultural do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, Janaína da Mata. Acreditar no sonho é o começo, mas para que ele se concretize, e não seja uma realidade evasiva, fútil, por mais inteligente que seja, um bom repórter não se faz da noite para o dia. A leitura é a principal ferramenta, “jornalista que não lê vai ter dificuldade de entrar no mercado”, assim disse o editor da TV Senado, Maranhão Viegas. E como vai ter dificuldade! Não só de entrar, mas também de permanecer. O repórter do Estado de Minas, Lucas Figueiredo, autor de “Morcegos Negros”, “Ministério do Silêncio” e, recentemente, “O Operador” – que conta a história do “valerioduto”, a máfia do mensalão –, viajou o mundo, e lê um livro por dia. Não é à toa que já ganhou vários prêmios de jornalismo. Tão fundamental quanto a leitura é ter a certeza de que o jornalismo, como ferramenta de uma imprensa considerada o quarto poder, não se faz para defender interesses particulares, ou não deveria fazer. Mas, sim, para ajudar a diminuir injustiças, estar ao lado dos mais fracos, independentemente da condição social, informar, denunciar, apontar culpados ou inocentes, como nos ensinou Caco Bar- cellos: “Na formulação da pauta, temos que pensar nas maiores injustiças que acontecem, jornalismo deve ter contexto, pois, sem contexto, permite tudo”. E é na rua, como o próprio Caco Barcellos disse, que está a sabedoria e onde encontramos personagens e histórias de todos os tipos, que de uma hora para outra podem virar notícia. “A informação é uma forma de pressão social”, completa o raciocínio a jornalista Rachel Costa, da Rede ANDI Brasil, organização que faz pesquisas sobre o impacto dos meios de comunicação na sociedade, especialmente na formação de educadores, crianças e adolescentes. E que responsabilidade temos! A informação tem de ser levada muito a sério, por isso, quem realmente se interessa pela carreira, muito mais que um manual de redação, segue as regras da integridade e da autenticidade, jornalista de verdade não se vende por preço nenhum. Segundo o professor de Ética Jornalística do Crecih, Juliano Cangussu, o jornalista é um profissional autônomo, deveria ter independência para divulgar tudo que fosse de interesse público, o que nem sempre acontece, por causa da pressão do mercado, dos anunciantes, “Essa autonomia é importante, porque o jornalista vive de seus valores e não de uma máquina de escrever”, afirmou o professor, em sua palestra. Ser jornalista também exige desprendimento; levantar cedo, não ter hora pra chegar em casa. Às vezes, aquele fim de semana planejado tem de esperar, ou se estamos no meio de um churrasco com os amigos, um chamado de última hora, e a picanha fica pra próxima pauta. Agora não pense que dá pra ficar rico, sinto muito em dizer. Bom, mas também não se morre de fome. E se há prazer naquilo que se faz, dá pra ser feliz. Para o ombudsman do site Comunique-se, Cassio Politi, não há dinheiro nenhum que pague a satisfação de fazer o que nos realiza, e ele até sugere uma mudança no significado da palavra trabalho. “Trabalho, em latim, significa sofrimento, dor; trabalhar deveria significar gostar do que se faz”, conclui Politi. O compromisso do jornalista, antes de mais nada, é com a informação, atitude que exige responsabilidade, maturidade, uma aliança com a verdade acima de tudo. Não dá pra ficar em cima do muro, o caminho é um só, aquele que mostra o lado certo e honesto do cidadão consciente; é preciso seriedade com a notícia e com a profissão. É é como diz a Rachel Costa: “O jornalista tem que ter noção de que sua função é mais do que publicar notícias, tem que, acima de tudo, se preocupar com a profissão”. * Ana Medeiros presidiu a comissão organizadora da 6ª Semana da Comunicação do Crecih, realizada de 27 de outubro a 5 de novembro deste ano. Agora que tudo passou, e posso dizer sem medo de errar, o resultado da 6ª Semana da Comunicação compensou todo o esforço, faria tudo de novo... ...Como diria o Mário Henrique, da Itatiaia, ‘É caixa’, marcamos um gol de letra. 3 NOVEMBRO/DEZEMBRO - 2007 Aniversário de três anos Fezes envenenam o Velho Chico RENATO LOPES Jarbas Oliveira 3o período - Jornalismo Mara Narciso 3o período - Jornalismo Sem festa, sem bolo, sem velas, sem nada. Mas com afeto gestado e amargado na dor mais doída, mais dilacerante, mais desumana. O sofrimento fez-se motivo, e esse se metamorfoseou em carinho. A resposta de gratidão está nele, mesmo nas circunstâncias mais improváveis. O bolo de farinha de trigo, açúcar e manteiga é desnecessário, porque não há boca para comê-lo. Apenas um “buraco” no estômago e uma sonda. Vela de parafina poderá haver sim, de muitas cores, comprimentos e espessuras. Mas não há esperança, não há luz, nem mesmo quando as velas estão acesas. O seu frágil corpo parece encolhido e emaciado, inativo, jogado ao leito, de tão sofrido, esgotado e fatigado pelos rasgões a que foi submetido nos três anos de tosse ininterrupta, com seus rios caudalosos de eternas secreções e assombros de falta de ar. Os olhos opacos, senis e perdidos vêem sem enxergar a vida: meu pai – com seus 76 anos – está na cama há três, e não tem prazer algum. Nunca lhe ouvi sequer um gemido, barulho ou expressão facial de desagrado, nem nas piores horas das cinco cirurgias cerebrais às quais foi submetido. Ao final de cada procedimento, vi as ataduras com o passar dos dias serem substituídas por novos cabelos grisalhos, lisos e teimosos, e pelas seqüelas detestáveis, que a cada episódio o deixam mais deformado e incapaz. A realidade é dura, mas a sua faceta da dependência e invalidez é desoladora. A medicina não pensa em orgulhar-se desses seus resultados que são, na verdade, fracassos retumbantes. Surpreendentemente, meu pai tem a capacidade de demonstrar reconhecimento com um olhar ou um gesto débil, feito com a sua trôpega mão esquerda que busca a minha; faz um arremedo de aperto ou tenta afagar meus cabelos. Enxergá-lo na sua penitência terrena é sabê-lo com vida, porém, não consigo vê-lo viver. O Rio São Francisco, também conhecido como Velho Chico, antes da contaminação pelas "algas azuis" O leitor, com todo o direito, pode até pensar que o título é sensacionalista e apelativo. Eu afirmo que é apelativo, não no sentido pejorativo, mas, sim, de manifesto. Por isso, desde já, peço que me desculpem, mas, às vezes, torna-se necessário utilizarmos palavras agressivas, para despertar os comandantes. Em conversa com o jornalista e colega de sala, Luiz Ribeiro, ele entregou-me uma reportagem que fez em parceria com a jornalista Cristiana Andrade, publicada no Caderno Gerais, do jornal “Estado de Minas”, intitulada “Alga contamina o São Francisco”. Li e reli, até pensei em não acreditar: “Luiz, achei a sua reportagem apavorante. Mas, para nossa desgraça, ela é real”, falei. É a mais pura verdade. O Velho Chico da escritora Glória Mameluque e de todos nós está envenenado. O nome científico do veneno (algas azuis) é “cianobactérias”. A origem: fezes belorizontinas e de outros 240 municípios situados na bacia mineira do Velho Chico. É, Velho Chico, jogaram tantas fezes no seu afluente, Rio das Velhas, que ele se tornou o seu maior poluidor. Então, é ele o culpado? Não, claro que não! O pobre coitado também é vítima, foi igualmente envenenado. Lembra, Velho Chico, aqueles homens, sapecados pelo sol, que vivem canoando em suas águas, em busca dos já escassos surubis e dourados? Eles estão prestes a encerrar su as carreiras. Também, quem vai querer peixe contaminado? E tem mais, Velho Chico! Tem gente que tomou banho em suas barrancas, bebeu das suas águas e comeu dos seus pescados e, agora, está com uma diarréia danada, vomitando, coçando e doente da cabeça. Pobres coitados também! E nem têm como remediar. É, Velho Chico, não faz dez dias, viajávamos com destino a Uberaba e, ao atravessar a ponte sobre você, enchi o peito e, orgulhosamente, gritei para o meu neto, Luca Cauet, de cinco anos: “Olha lá, ‘chico lé!’ [Esse é um dos apelidos carinhosos com que eu, avô, costumo chamar os meus netos.] Tá vendo esse rio bonitão? Ele se chama São Francisco, nasce no nosso estado – Minas Gerais – e é um dos maiores rios do nosso Brasil. Um dia, vou trazer você para passear nele de vapor”. Fiz uma promessa ao meu neto, Velho Chico! Mas não sei se dou conta de cumpri-la, principalmente agora, que fiquei sabendo que estás envenenado. Mas agüenta o tranco aí, Velho Chico. Existe um tal de PAC Federal dizendo que vai investir bilhões e bilhões em você. Querem até tirálo do seu leito maternal. A princípio, sou contra, mas quem sabe assim lhe sobra algum para fazer o seu tratamento. Já o Governo Estadual, Velho Chico, informou que a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (CEDEC) e outros órgãos estão de prontidão para o caso de ocorrências emergenciais que suas águas contaminadas possam causar. Aí, eu pergunto, Velho Chico. Pergunto não, interrogo, gritando em altos brados: “O seu caso, o do Rio das Velhas, do Verde Grande e de tantos outros rios não é emergencial? Não?”. Acordem, comandantes! Acordem! E salvem os nossos rios enquanto ainda é tempo. Aparência MANOEL FREITAS Samuel Fagundes 6o período - Jornalismo http://www.jornalismopossilga.blogspot.com A aparência pode fazer com que interpretemos mal ou até mesmo não gostemos de uma pessoa antes mesmo de conhecê-la. De uma maneira ou de outra, fomos condicionados, desde pequenos, a relacionar certas aparências a tais tipos de pessoas. Seja por meio de desenhos animados, comerciais de televisão, novelas, filmes ou revistas, sempre estão tentando nos impor conceitos baseados na aparência e na estética. E é baseado nesses conceitos que a maioria das pessoas pré-julgam e tacham as outras, sem nem mesmo terem conhecimento sobre um individuo que, muitas vezes, é totalmente o oposto do que sua aparência supostamente demonstra. Muitas pessoas ficam com medo, olham de maneira diferenciada ou até ridicularizam quando vêem alguém que não se enquadra nos padrões “aceitáveis” da nossa sociedade, que, por sinal, tem tradição em humilhar e agredir quem é “diferente”. É o que acontece com aqueles que são cabeludos, tatuados, roqueiros, dentre tantos outros tipos de pessoas que sofrem por pensar, agir e se vestir de forma diferente da maioria. A aparência pode, de certo modo, valer mais até do que o tão cobiçado dinheiro, que move o mundo atual. Uma pessoa com dinheiro e mal vestida é barrada em determinados locais. Já uma pessoa bem vestida, mesmo que não tenha um centavo no bolso, com certeza, irá ser bem recebida em qualquer lugar. Nossa sociedade segue padrões e conceitos que pararam no tempo. Vivemos em um mundo de aparências, onde a verdadeira face jamais é conhecida. A imposição desses padrões leva as pessoas a uma interminável busca por uma falsa beleza e gera preconceitos e discriminações. Uma nova história já começou? Hugo Leonardo 2º período - História Montes Claros, em 3 de julho de 2007, completou 150 anos de elevação à condição de cidade. Com essa data nascem várias controvérsias. Em primeiro lugar, a comemoração do aniversário, para alguns historiadores, deveria ser no dia 13 de outubro, data em que se instala a primeira Câmera Municipal e o arraial é elevado à categoria de vila, com o nome de Formigas. Para outros, a data deveria ser em abril, quando completaria 300 anos de fundação da Fazenda Montes Claros pelo aventureiro Antônio Gonçalves Figueira. A cidade de Montes Claros, que fica localizada na região Norte de Minas Gerais, possui uma história bonita e culturalmente diversificada, contudo, neste ano em que completou 150 anos, o município resolveu escrever uma nova história: o que isso nos leva a pensar? Qual seria essa nova história? O que mudaria nessa nova história em relação à velha? São mistérios como esses que nos levam a refletir sobre o assunto, que é polêmico. Isso quer dizer que será um novo tempo de mudanças para a cidade, melhorias? Na verdade, é isso que todos nós esperamos. Mas começar por onde? Uma frase usada pela campanha publicitária da prefeitura de Montes Claros diz que “uma nova história já começou”. Essa nova história não estaria apagando a memória viva que está presente em becos, casas, casarões e ruas da cidade? Pois há uma história e uma memória que merecem ser preservadas e valorizadas. O que mais me preocupa é que esses slogans podem ser levados ao pé da letra por muitos. Apesar de termos certeza de que a intenção do governo municipal é trazer melhorias para acrescentar à história já existente, não podemos nos esquecer que essa nova história tem que manter a velha, principalmente na conservação do patrimônio histórico, da cultura, da tradição e do folclore. O que podemos fazer para também participar dessa nova história? Devemos participar diretamente como verdadeiros cidadãos, exigindo mudanças e melhorias, reivindicar nossos direitos e não deixar de cumprir devidamente os nossos deveres. Não podemos ficar sentados vendo essa nova história sendo escrita sem a nossa participação. Essa nova história pode ser uma história de mudanças para pior – não podemos esquecer essa possibilidade. Mas isso não seria apenas obra dos órgãos públicos; portanto, nós também temos o dever de trabalhar em prol dessa mudança. 4 NOVEMBRO/DEZEMBRO - 2007 Informação e troca de experiências A 6a Semana da Comunicação reuniu profissionais de diversas áreas e trouxe o conhecimento da prática e do mercado para os futuros jornalistas FOTOS : DIONE A FONSO Marina Pereira 3° período - Jornalismo A 6ª Semana da Comunicação, realizada de 27 de outubro a 5 de novembro, pelo curso de Jornalismo do Centro Regional de Ciências Humanas (Crecih) da Soebras, teve como tema “Comunicação e mercado: encarar e vencer desafios” e contou com um público de 148 pessoas, divididas entre acadêmicos dos cursos de Jornalismo, Letras e Publicidade, além de profissionais da imprensa de Montes Claros e de cidades vizinhas. A abertura foi no auditório Cândido Canela, do Centro Cultural Hermes de Paula, onde o coordenador do curso de Jornalismo, Elpídio Rocha, explicou o objetivo e a importância da Semana, como uma forma de atualização dos conhecimentos. Segundo ele, é a informação que faz o diferencial do profissional. A primeira palestra, presidida pelo jornalista Maranhão Viegas, editor-chefe da TV Senado, foi a respeito da TV pública. Ele falou sobre sua experiência recente no setor público e disse que a TV Senado realiza um trabalho rico por lidar com coisas que não estão na pauta dos meios privados, seguindo um regimento interno. Maranhão contou, para a surpresa da platéia, que a TV Senado, apesar de ser a única a ter imagens exclusivas da sessão secreta que julgou a cassação do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDBAL), não pôde exibi-las por causa das normas internas da emissora. Maranhão também falou que o melhor caminho para os jornalistas trabalharem numa TV pública é através de concurso, mas que para isso é preciso estar preparado, e ressaltou a importância da leitura nessas horas: “Jornalista que não lê terá dificuldade pra se estabelecer no mercado, pois ele não perdoa”. A outra palestrante do primeiro dia de evento foi a diretora cultural do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, Janaína Ferreira da Mata, que definiu o perfil do profissional: “Jornalista tem que ser pesquisador, ser capaz de ligar temas e assuntos, ser um contador de histórias, e isso se consegue com muita persistência”. Segundo ela, a profissão foi regulamentada há 40 anos e o mercado está cada dia mais saturado, por isso, só permanecem nele os que querem e acreditam em seus sonhos. Janaína informou que, atualmente, em Minas, há 41 cursos de Jornalismo e, por ano, são “despejados” no mercado cerca de 4.000 profissionais, mas que no Estado apenas 100.000 jornalistas são sindicalizados. A representante do sindicato questionou muito o comodismo de alguns jornalistas que não se mobilizam: “Jornalista é um trabalhador, precisamos ter um salário digno, temos que defender nossa profissão”. Sobre o assunto, o repórter do jornal “Hoje em Dia” em Montes Claros e acadêmico do 3o período, Girleno Alencar, comentou que isso acontece devido a um problema de mentalidade que está presente em todas as profissões. Concursos públicos Nos dias seguintes, as palestras foram realizadas no auditório do Raquel Costa - jornalista da Rede Andi-Brasil e Oficina de Imagens Caco Barcellos - repórter da Rede Globo Juliano Cangussu - professor de Ética e Legislação do Crecih Lucas citou também o processo que responde por danos morais, movido por um juiz de Alagoas, por causa de uma frase de seu livro “Morcegos Negros” - resultado da investigação do jornalista sobre o envolvimento do esquema PC Farias com o crime organizado internacional. A frase diz o seguinte: “O juiz Alberto Jorge, que só reclamava, resolveu tomar uma atitude e solicitou à Secretaria de Segurança que indicasse um novo delegado para o caso”. O repórter disse que trata o assunto com naturalidade e explicou: “O jornalista não é o porta-voz de seu entrevistado, que é apenas uma fonte. E quando você se envolve com coberturas delicadas, as pessoas se sentem ofendidas”. No final da palestra, ele deixou um conselho para os estudantes: “Ler, ler e ler. Essa é a regra para se tornar um bom repórter”. Nas ondas do rádio Cassio Politi - ombusdsman do portal Comunique-se Mário Henrique - locutor esportivo da Rádio Itatiaia Lucas Figueiredo - repórter especial do jornal Estado de Minas Janaína da Mata - diretora cultural do Sindicato dos Jornalistas de MG Centro Regional de Odontologia (CRO). O advogado e professor de Ética e Legislação do curso de Jornalismo, Juliano Cangussu, iniciou o segundo dia da Semana da Comunicação falando sobre um tema que chamou a atenção dos participantes: o concurso público como opção de atuação dos jornalistas. Ele citou vantagens como a estabilidade no emprego, adquirida após três anos de exercício, e a autonomia profissional. Juliano também passou orientações e dicas de como estudar, mas deixou claro que é a dedicação de cada um que faz a diferença no momento da prova, uma vez que a concorrência é muito grande. No concurso do Ministério Público, por exemplo, foram 4.475 inscritos para cadastro de reserva. A estudante Virgínia Miranda, do curso de Publicidade das Faculdades Pitágoras, afirmou que a palestra foi bastante proveitosa, pois ela pretende tentar concurso público e teve a oportunidade de se atualizar. Jornalistas e assessores de imprensa No terceiro dia de palestra, o jornalista Cássio Politi, ombusdsman do portal Comunique-se, falou sobre as perspectivas do mercado de trabalho e sobre as diferenças entre a remuneração dos jornalistas e dos assessores de imprensa. Ele explicou alguns pontos revelados por uma pesquisa feita em 2004 pelo portal, com profissionais de todo o País. Segundo Politi, estados como Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina oferecem os piores salários, já a região Sudeste acompanha a média nacional, e o Distrito Federal é o mercado que melhor paga os jornalistas. Outro dado interessante apresentado por Cássio Politi é que o Maranhão Viegas - editor-chefe da TV Senado assessor de imprensa, em geral, ganha mais do que o jornalista. Ele afirmou que o mercado para assessores em Minas é o 4º maior do Brasil. Também de acordo com a pesquisa, o jornalista é, em geral, um profissional insatisfeito e quer mudar de função. Já o assessor visa o reconhecimento profissional, do mercado: “O assessor busca mudança para ter um salário melhor, pensando mais na carreira. Sua meta pode durar um ano e a meta do jornalista, às vezes, dura um dia, quando ele fecha a matéria para o jornal”. Atento à palestra, o estudante Eurico Santos da Silva, do 6º período de Jornalismo, disse que pretende trabalhar com assessoria de imprensa, e justifica: “Fiz estágio na redação e achei horrível, por isso pretendo atuar como assessor porque o salário é melhor e tem horário fixo”. Ao finalizar, Cássio Politi citou um dado da pesquisa que ele considera alarmante: 88% dos jornalistas não falam uma segunda língua. E fez um alerta: “O jornalista precisa se atualizar para acompanhar a evolução do mercado, que está em processo de transição”. Jornalismo investigativo O repórter especial do jornal Estado de Minas, Lucas Figueiredo, foi o destaque do quarto dia de evento. Ele falou sobre jornal impresso, internet, reportagem, jornalismo investigativo e livro-reportagem. Para ele, o jornal só não vai acabar se fugir do factual, oferecendo aos leitores algo diferente, investindo em grandes reportagens, pois a evolução da internet, que é imbatível, está mudando o modo de se consumir informação. O quinto dia teve a presença de dois profissionais que atuam em Belo Horizonte: o jornalista Mário Henrique, da Rádio Itatiaia; e Raquel Costa, integrante da Oficina de Imagens e da Rede ANDI-Brasil (Agência de Notícias dos Direitos da Infância). Com o tema “A criança e o adolescente na mídia”, Raquel falou do trabalho da ANDI, que tem o objetivo de disseminar metodologias participativas de educação, esclarecer os termos do Estatuto da Criança e do Adolescente, além de orientar os jornalistas a cobrirem pautas relacionadas ao assunto. Raquel apresentou, ainda, dados relacionados à realidade do semi-árido brasileiro, região onde 95% dos municípios têm taxa de mortalidade infantil superior à média nacional. A jornalista afirmou: “É importante tratar desses temas nos noticiários porque a informação é uma forma de pressão social”. Em seguida, Mário Henrique Silva, jornalista e locutor esportivo da Rádio Itatiaia, falou sobre a linguagem radiofônica, que, segundo ele, é interessante por permitir que o profissional use a criatividade. “Não existe escola que ensina a narrar, tudo é prática e persistência”, declarou. Para ele, o rádio ainda é um meio de comunicação muito forte, mesmo diante da TV, pois manteve a tradição: “A audiência da Itatiaia é tão grande que surpreende até a gente que trabalha lá, pois tem ouvintes de todas as classes sociais”. No final da palestra, Mário Henrique atendeu a um pedido do público e narrou vários gols, levando o auditório ao delírio. “Profissão repórter” A Semana da Comunicação encerrou com a presença do repórter da Rede Globo Caco Barcellos, idealizador e responsável pelo programa “Profissão repórter”, exibido como um quadro do Fantástico. Segundo ele, um projeto como esse é um verdadeiro desafio porque é preciso provar à emissora que o programa se sustenta: “De imediato, o desafio foi maior por coordenar dois grupos de jornalistas inexperientes que estão iniciando”. O repórter também falou sobre dois de seus livros mais famosos: “Rota 66” e “Abusado”. Antes de responder às perguntas da platéia, Caco Barcellos exibiu algumas de suas reportagens especiais. 5 NOVEMBRO/DEZEMBRO - 2007 FOT O: D IONE AFONSO FOT O: AR QUIVO PESS OAL FOTO: MARINA PEREIRA “A semana foi bem organizada, mas faltou divulgação. As palestras foram produtivas porque tivemos grandes profissionais da área”. “A semana foi muito organizada e o conteúdo das palestras enriqueceu nossos conhecimentos, mas houve uma falha nossa com relação às perguntas feitas aos palestrantes. Deveríamos ter explorado mais.” Deise Oliveira Dione Afonso dos Anjos 6° período de Jornalismo 4° período de Jornalismo Os bastidores do sucesso FOTO: MARINA PEREIRA Alunos de todos os períodos se envolveram com as atividades da Semana da Comunicação Élida Gonçalves 3º período – Jornalismo Quem vê o resultado final da 6ª Semana da Comunicação pode não saber quanto trabalho rendeu tudo isso, mas foi um trabalho que valeu a pena. A organização, que ficou a cargo do 8º período do curso de Jornalismo – como acontece desde a quarta edição do evento, em 2005 –, procurou reunir professores e acadêmicos para que houvesse uma troca de experiências entre os mesmos. À frente de todo esse trabalho, esteve a aluna Ana Medeiros. Acadêmicos do 7º período foram incumbidos de fazer o cerimonial do evento, como avaliação exigida pela professora Sílvia Ramos para a disciplina ministrada por ela. As equipes foram divididas para que o trabalho fosse feito com cautela e nenhum detalhe fosse esquecido. A professora Maria Eugênia Brasil foi a responsável por coordenar a produção dos informativos, material que trazia um resumo das palestras e informava sobre os palestrantes – uma atividade que fez parte do evento pela primeira vez. Os trabalhos realizados pelos alunos dentro e fora da faculdade foram apresentados ao público e serviram como forma de incentivo para os outros acadêmicos. Foram exibidas videorreportagens e apresentado o projeto do UHU! Fanzine, uma publicação independente dos alunos Emanuela Almeida, Carolina Marinho, Hayslanne Araújo, Pablo Diassi e Maíra Almeida. Outra atração da semana foi a performance teatral apresentada pelos acadêmicos Pablo Caires, Onilda Santos, Janaína Gonçalves, Renata Martins e Diego Silva. Apesar de alunos dos diversos períodos terem se envolvido com atividades da Semana da Comunicação, o acadêmico Josimar Santa Rosa, do 7°, considera que o trabalho ainda fica muito centralizado na turma que está concluindo o curso. Ele acha importante que os estudantes dos períodos iniciais participem mais ativamente do evento para conhecerem bem seu funcionamento e não ficarem assustados com tanto trabalho quando chegar a sua vez de assumirem a organização. Desafios Organizar eventos pode ser também uma aula de improviso. E, nesse caso, foi. O maior dos desafios que a coordenação enfrentou foi a notícia inesperada do cancelamento da palestra do repórter Caco Barcellos, da Rede Globo, que participaria do segundo dia do evento. A notícia foi recebida por e-mail, apenas três dias antes. O impacto foi grande: como explicar para os congressistas que a palestra mais esperada por eles fora cancelada? Havia inscrições de pessoas de vários cursos de graduação de Montes Claros e outros interessados, inclusive alunos de outras faculdades, muitos com o único intuito de prestigiar a palestra do renomado repórter. A primeira providência foi entrar em contato com ele, já que uma mensagem enviada por e-mail pode ser vista como fonte inverídica de informações. O contato foi feito, e a situação confirmada. Caco Barcellos gravou um pedido de desculpas que foi exibido aos congressistas. A coordenação agiu rápido, remarcou a palestra para o dia 5 de novembro, estendendo o prazo previsto para o evento. Era preciso um substituto para o jornalista, pois a palestra cancelada era justamente no segundo dia do evento, que não poderia passar em branco. Juliano Cangussu, advogado e professor de Ética e Legislação do curso de Jornalismo do Crecih, foi o escolhido para falar sobre “Os desafio dos concursos públicos para jornalistas”. Prévia do mercado O coordenador do curso de Jornalismo, Elpídio Rocha, afirma que a Semana da Comunicação atualiza os conhecimentos dos acadêmicos, dos palestrantes e da comunidade em geral. Além disso, mostra até que ponto os alunos são capazes de chegar e permite que eles sintam que podem fazer algo concreto, aplicando o que aprendem na faculdade. Toda a programação foi executada pelos acadêmicos, antecipando situações que certamente irão vivenciar no exercício da profissão, o que os motiva para vencer as dificuldades do ensino superior e aprimorar seus conhecimentos, tornando-os mais preparados para o mercado de trabalho. “A semana mostrou a realidade da profissão e acredito que quem tinha alguma dúvida a respeito do curso conseguiu sanála. Com relação à palestra de Caco Barcellos, a minha expectativa não foi correspondida. Acho que todos esperavam mais dele e houve uma certa frustração. Mas vale registrar que os acadêmicos levam um pouco de culpa, uma vez que a palestra é o momento para tirar ‘proveito’ do profissional, e isso não aconteceu porque perguntas que deveriam ser feitas para enriquecer nosso conhecimento foram substituídas por questões vagas.” Adailza Rodrigues 3° período de Jornalismo FOTO: MARINA PEREIRA FOTO: MARINA PEREIRA “A 6ª Semana da Comunicação trouxe aos acadêmicos, professores e visitantes debates sobre temas atuais, despertando a importância da comunicação na vida das pessoas.” “Foi de extrema importância e pode ajudar aquelas pessoas que ainda estavam indecisas sobre se é realmente esse o caminho que desejam seguir. Para mim, acrescentou muito, mas no que se refere à conscientização dos desafios da profissão, apenas confirmou o que já presencio há algum tempo.” Ludmila Guimarães 2° período de Jornalismo Aparecida Santana 3° período de Jornalismo 6 NOVEMBRO/DEZEMBRO - 2007 Será o fim do jornalismo impresso? Discussão sobre o futuro da mídia impressa movimenta alunos e profissionais e aponta saídas, como o gênero investigativo DIO NE AFO NSO Hayslanne Oliveira 4º período - Jornalismo O possível fim do jornal impresso é uma questão que há muito se discute entre os profissionais da comunicação. Alguns fatos reforçam essa idéia e ajudam a antecipar o futuro de muitos jornais, como é o caso da internet, que nos últimos anos vem crescendo cada vez mais, apresentando a notícia em tempo real, e a migração da publicidade para outros meios que não sejam a televisão e a mídia impressa. “A internet veio para ficar e está mudando o modo de transmitir informação, o jornal impresso vai acabar. A internet é imbatível como suporte de informação”, diz o premiado repórter do jornal Estado de Minas, Lucas Figueiredo, um dos palestrantes da 6a Semana da Comunicação. “As outras mídias não podem concorrer com a internet porque vão perder. O jornal tem que fugir do factual, oferecer para o leitor algo diferente, investindo em grandes reportagens”, continua Lucas. A opinião do repórter é compartilhada pela jornalista Raquel Costa, da Rede Andi-Brasil (Agência de Notícias dos Direitos da Infância). Ela também acredita que o fim do jornal impresso está próximo: “Eu acho que ele corre risco, porque as vendas caíram muito. Ele é o veículo mais ameaçado pela internet”, comenta. Muitos culpam a internet pelo “empobrecimento” dos jornais impressos, mas de acordo com o jornalista Washington Novais, autor do livro “A quem pertence a informação?”, o problema não é o que está vinculado à imprensa nem à instantaneidade da internet, mas sim, ao que ela omite. Ele afirma que o comprometimento editorial e o ritmo compulsivo das redações são as principais causas dessas deficiências: “Muitos acontecimentos são tratados de forma parcial, por meio de uma angulação pré-estabelecida do assunto. Não é novidade, por exemplo, a posição contrária da grande imprensa em relação aos movimen tos sociais, como o MST”, diz o jornalista. Sobre essa deficiência, ainda em 1986, quando a internet ainda não era popularizada, o jornalista Cláudio Abramo (1923-1987) disse: “Tão perecível quanto o leite, assim é o jornal”, remetendo ao caráter instantâneo das edições diárias. Sobre a parcialidade editorial, ele afirmou: “Em jornal impresso muitos acontecimentos são relatados, outros tantos, ignorados”. Vilã ou não, o certo é que a internet tornou-se o maior obstáculo para o jornalismo impresso, que agora tem que buscar caminhos para driblar esse fenômeno, que a cada dia ganha mais adeptos. Uma saída apontada pelos profissionais da área para a permanência e a credibilidade do impresso seria o investimento em grandes reportagens, e no chamado jornalismo investigativo. Jornalismo investigativo: uma saída para o impresso De acordo com site Wikipédia, jornalismo investigativo é “o ter- O repórter Lucas Figueiredo, que acaba de receber o Prêmio Esso de Reportagem pelo trabalho investigativo "O livro secreto do Exército", publicado no jornal Estado de Minas mo que se dá àquela reportagem em que o repórter tenta desvendar mistérios e fatos que não chegam ao conhecimento do público”. Para muitos jornalistas e pesquisadores da área, é uma modalidade especializada de jornalismo, calçada em características específicas, e diferencia-se da rotina habitual das redações por exigir uma investigação minuciosa dos fatos, busca por personagens, de possíveis ângulos e pontos de vista. Na concepção do repórter Lucas Figueiredo, no entanto, o jornalismo investigativo nada mais é do que o jornal, aqui tratado como empresa, resolver investir tempo e dinheiro em uma reportagem. Para ele, todo jornalismo é, por natureza, investigativo: “Não existe jornalismo investigativo, o que existe é o investimento das empresas e a estrutura do repórter. Esse termo ‘jornalismo investigativo’ é uma jogada de marketing”, diz. Mas Lucas prevê que essa é uma saída e, mais do que isso, um diferencial que o jornalismo impresso tem para sobreviver ao crescimento da internet. Já para o jornalista Aziz Filho, editor da sucursal do Rio da Revista Istoé e apresentador do programa “Movimento Urbano”, do canal GNT (GLOBOSAT), é injusto falar que não existe jornalismo investigativo. Segundo ele, jornalista investigativo é sim aquele que se preocupa em desvendar os mistérios por trás dos fatos. “Alguns vêem como arrogância ou preconceito um jornalista se credenciar como investigativo. Outros dizem que jornalismo investigativo é expressão redundante. Mas é apenas semântica. O bom senso indica diferenças óbvias entre o jornalista que investiga e desvenda e os que estão em outras funções – não menos nobres, mas notadamente diferentes. É claro que um profissional pode transitar por todos esses papéis ao longo da carreira, mas é investigativo quando se dedica a abrir informações desconh ecidas, ocultas, perigosas ou fundamentais”, argumenta Aziz. O certo é que o jornalismo investigativo é uma das soluções que pode garantir a continuidade do jornal impresso. A grande reportagem – aquela bem tratada, que desperta interesse nos leitores - hoje pode ser o diferencial da mídia impressa para driblar a concorrência, muitas vez es desleal, da in ternet. E mesmo sendo a salvação do jornal impresso, o jornalismo investigativo vem encontrando dificuldades econômicas, éticas e até, por incrível que pareça, em relação à censura, que segundo Aziz Filho, “voltou a dar as caras – não por parte da empresa e, sim, por parte dos próprios jornalistas”. O repórter Lucas Figueiredo concorda com a afirmação de Aziz e completa: “A principal dificuldade é a falta de autonomia da notícia diante do jogo de influência que seduz proprietários e dirigentes dos veículos de comunicação. Isso é muito mais comum do que poderia se esperar em um país com uma impren- sa desenvolvida. Muitas vezes, o jornalismo investigativo sucumbe aos interesses que corrompem a imprensa”. Ainda, segundo Lucas: “O tesão que os governos têm pelo obscurantismo ou pela língua burocrática, que afasta o cidadão do espaço público, também prejudica um bocado o trabalho desses profissionais”. Livros-reportagens: mais autonomia para os jornalistas Por causa do comprometimento editorial de vários jornais, muitos fatos são tratados de forma superficial. Mesmo as reportagens mais aprofundadas do jornal diário também apresentam essas deficiências. O livroreportagem, por ser uma obra do autor, tornou-se uma opção para os jornalistas por poder escapar desse comprometimento editorial, porque o livro baseia-se numa visão pessoal do autor, que sempre busca uma maior aproximação com o leitor. O jornalista Lucas Figueiredo, que após o término da sua reportagem sobre a morte de PC Farias resolveu fazer um livro contando todos os detalhes sobre a história, afirma que o livroreportagem é o grande suporte para o jornalista. “O livro é muito importante porque você faz o mais gostoso do jornalismo que é contar histórias”, diz. Para o jorn alista da R ede Globo Caco Barcellos, a reportagem é um gênero do jornalismo que vai além das entrevistas e quase nunca do direito de opinião: “A reportagem tem muitas forças. Dependendo do seu critério de apuração, você sempre é surpreendido com novidades”. Reportagens de prateleira Confira alguns títulos de livros-reportagens disponíveis na biblioteca do campus São Luís/Soebras Morcegos Negros Lucas Figueiredo Editora: Record Ano: 2000 Edição: 1 Número de páginas: 420 Lucas Figueiredo investiga a fundo o poder no período Collor, mostrando como a máfia italiana teve livre acesso a todos os seus meandros. Um livro atual e instigante, que procura a resposta para uma pergunta que até hoje perdura: para onde foi o dinheiro do Esquema PC? Hiroshima John Hersey Editora: Companhia das Letras Ano: 2002 Edição: 1 Número de páginas: 176 Grande reportagem sobre as conseqüências da bomba atômica que devastou Hiroshima, a partir da história de seis sobreviventes. O livro foi escrito um ano após a explosão e quarenta anos mais tarde, quando o repórter volta à cidade para reencontrar seus personagens. Hiroshima é considerado um dos livros- reportagens mais importantes do século XX. Chico Mendes - Crime e Castigo Zuenir Ventura Editora: Companhia das Letras Ano: 2003 Edição: 1 Número de páginas: 248 No começo de 1989, o jornalista Zuenir Ventura foi enviado ao Acre para uma série de reportagens sobre a morte do seringueiro Chico Mendes, assassinado em dezembro de 1988. Os textos deram ao repórter o prêmio Esso de Jornalismo. Zuenir voltou à região dois anos mais tarde e, em outubro de 2003, completou a série de matérias sobre o líder que chamou a atenção do mundo todo para a luta contra a devastação da Amazônia. Rota 66, a História da Polícia que Mata Caco Barcellos Editora: Globo Ano: 2001 Edição: 35 Número de páginas: 274 O jornalista Caco Barcellos investigou durante cinco anos o esquadrão da morte que age na cidade de São Paulo. Ele mostra como é o sistema de extermínio e seus métodos de atuação e como o sistema incentiva esse tipo de ação. 7 NOVEMBRO/DEZEMBRO - 2007 Experiência profissional de Caco Barcellos foi destaque no encerramento da Semana da Comunicação FOTOS : DIONE A FONSO Caco Barcellos mostra aos congressistas um jornal com dados assustadores da v iolência de policiais contra jovens das favelas do Rio de Janeiro Idealismo, medo e liberdade em pauta Após sua palestra na Semana da Comunicação, Caco Barcellos pôs-se à disposição para esclarecer dúvidas dos congressistas. Separamos aquelas questões que julgamos mais interessantes e relevantes para os leitores do Vide Verso. Congressista: Como você descreveria o jornalista profissional, como você descreveria o jornalista Caco Barcellos? Caco Barcellos: Eu não sou exatamente jornalista, eu sou um repórter radical, eu acho que hoje a profissão tem um desenho heterogêneo, tem muitos tipos de perfis diferentes. Há inclusive quem pratique política com o microfone, com a câmera, com a caneta, com o computador, então acho difícil sintetizar uma profissão que está tão diferente. Antes as pessoas usavam o jornalismo como instrumento para contar histórias, independente de sua ideologia. Meu perfil é esse, de um repórter radical, que todos os dias quer conhecer pessoas n ov as, contar histórias diferentes e para o maior número de pessoas possível. C.: Se você tinha a intenção de mudar o mundo, até que ponto acha que conseguiu contribuir para isso? C.B.: É difícil avaliar o nosso trabalho, é claro que se tem algum valor esse valor é subjetivo. Não se percebe no cotidiano, salvo raríssimas exceções, o poder de transformação do nosso trabalho. Eu acredito que a gente tem um papel social a cumprir, estou sempre preocupado e pergunto a mim mesmo se estou fazendo algum tipo de contribuição social. Gostaria de ter essa resposta que é muito complicada. Com relação aos meus livros, eu tinha uma esperança através deles, como o “Abusado”, que as pessoas tentassem se informar mais sobre a realidade que está em volta desses traficantes de drogas, e eu percebo que cada vez mais as pessoas formadoras de opinião se afastam mais dessa realidade. Eu trabalho há 33 anos e nunca encontrei um juiz nas favelas do Rio de Janeiro, nunca encontrei um p ro mo to r Jornalismo na prática: alunos fazem entrev ista coletiva com o repórter Caco Barcellos público, ou um investigador de polícia, enfim, uma camada de profissionais que tem obrigação de freqüentar esses lugares. É muito raro encontrar alguém trabalhando, ou tentando melhorar a qualidade de vida nas favelas. C.: Qual é o peso do medo para o repórter Caco Barcellos? C.B.: É fortíssimo! Eu acho importante termos consciência de que não estamos livres de violência, visto que moramos em um país extremamente violento.(...) Eu levo muito a sério o medo, de maneira até subjetiva. Mas tento me informar muito, para contar a história sem passar por riscos. C.: As empresas de comunicação, hoje em dia, se preo cupam muito com a geração de lucros. Isso leva à censura de algumas matérias, em função da influência da área comercial sobre a jornalística. É possível pensar em uma imprensa livre, em que o jornalista não seja refém do interesse econômico da empresa para a qual trabalha? C.B.: Sim e não. Eu venho do tempo da ditadura militar, onde eram implantados censores dentro das redações. Hoje a censura é maior, pois está ligada ao fator econômico. A censura não se limita ao patrão, mas ao colega que se deixa levar pela situação e prefere estar bem com as outras pessoas. É possível, sim, trabalhar com independência, mas é preciso sentir o gostinho de brigar por ela, que, na nossa sociedade, está cada vez mais em falta. Liberdade é do dono, independência a gente tem que ter, se não tivermos, a gente morre enquanto profissional. Reportagem séria dá lucro indireto e as pessoas se identificam, isso gera audiência, que gera lucro, que gera dinheiro para a empresa. É possível ganhar dinheiro sendo sério e gostando do país. Camila Guimarães 2° período – Jornalismo Thiago Leite 4° período – Jornalismo É possível uma pessoa sair dos bancos da faculdade de Jornalismo diretamente para um dos horários mais nobres da programação da maior emissora de TV do Brasil? A experiência do programa “Profissão repórter” prova que sim. E foi principalmente para falar a esse respeito que o jornalista da Rede Globo, Caco Barcellos, veio a Montes Claros, no último dia da 6ª Semana da Comunicação. “Embora acredite que a experiência é fundamental, e respeite os profissionais que tiveram uma longa trajetória, como eu, para chegar numa emissora tão importante, o caminho inverso também é possível. É preciso ter coragem e firmeza para vencer desafios!”, diz o jornalista. O quadro surgiu em 2006, como um projeto-piloto do “Globo Repórter”. Um mês depois, passou a ser apresentado aos domingos durante o “Fantástico”; agora, é exibido mensalmente neste que é um dos programas de maior audiência da emissora. No “Profissão repórter”, Caco Barcellos comanda uma equipe de jovens jornalistas que vai às ruas para mostrar diferentes ângulos do mesmo fato, da mesma notícia. De acordo com Caco, é um programa que visa fazer com que o profissional passe por todas as fases: sugestão de pauta, produção, reportagem de rua e edição das matérias. A equipe de rua é composta por seis repórteres, dois câmeras e o apresentador e repórter Caco Barcellos. Além de esclarecer dúvidas a respeito do funcionamento do programa, o jornalista abordou, durante a palestra, muitos outros temas e passou aos participantes do evento sua experiência de 20 anos de atuação na TV Globo, passando pelo “Globo Repórter” e “Jornal Nacional”. U ma das presenç as mais aguardadas durante a 6ª Semana da Comunicação, Caco Barcellos foi prestigiado por uma diversificada platéia. Eram acadêmicos dos cursos de Jornalismo do Crecih/Soebras, Letras e Pedagogia da Unimontes, Publicidade do Pitágoras, jornalistas, professores e autoridades, que lotaram o auditório do Conselho Regional de Odontologia, na noite de 5 de novembro. Para os acadêmicos de Jornalismo, no entanto, o encontro com Caco Barcellos começou mais cedo: à tarde, eles tiveram um bate-papo com o repórter no campus São Luís da Soebras. Ele falou a respeito de suas grandes reportagens sobre injustiça social e violência e dos polêmicos livros de sua autoria: “Rota 66, a História da Polícia que Mata”, obra ganhadora de oito prêmios de direitos humanos e do prêmio Jabuti de Literatura, e “Abusado, o Dono do Morro Dona Marta”, também vencedor do prêmio Jabuti de Literatura, como melhor obra de não-ficção do ano de 2004. 8 NOVEMBRO/DEZEMBRO - 2007 DIO NE AFO NSO STÉFANNIE LOPES De volta ao estádio, a torcida apoiou o Funorte E. C. em todas as partidas disputadas em Montes Claros STÉFANNIE LOPES Ditinho foi um dos destaques do "Formigão" na temporada 2007 Thiago Leite 4o período - Jornalismo Vermelho, azul e branco, estas são as cores do Funorte Esporte Clube, time que chegou colorindo Montes Claros, os torcedores, invadindo as conversas nas rodas de amigos e resgatando as tradições do futebol da cidade. Há seis anos, Montes Claros ficou sem um representante profissional. Mas houve um tempo em que os torcedores já vibraram com vários times, hoje extintos, como o Cassimiro de Abreu, o União São Pedro, o Ateneu e o Montes Claros Futebol Clube. O Ateneu foi campeão mineiro da Terceira Divisão por duas vezes (1996 e 1999); o Montes Claros Futebol Clube foi vice-campeão mineiro da Segunda Divisão (1996), vicecampeão mineiro da Terceira Divisão (1995), e chegou a disputar duas partidas pelas quartas-de-final do Campeonato Mineiro de 1997 com o Cruzeiro, mas perdeu ambas. Uma por 2x1, no Estádio José Maria Melo, em Montes Claros, e a segunda por 2x0, no Mineirão. O time, também conhecido como “Bicho”, foi o último a representar a cidade. Desde então, criou-se um tabu quanto à dificuldade de se manter uma equipe profissional em atividade. Devido à falta de estrutura financeira, um campo para treinar, planejamento e patrocinadores, e a uma série de outros fatores, esses times foram desativados e deixaram apenas lembranças. Mas em 04 de maio de 2007, os apaixonados por futebol tiveram uma boa notícia: o lançamento de uma equipe profissional – o Funorte Esporte Clube (FEC), apelidado pelos torcedores de “Formigão”. Finalmente, a cidade voltou a ter um time de futebol na Segunda Divisão do Campeonato Mineiro, disputando com outros 21 times de Minas Gerais. Destes, três foram eliminados pelo Departamento de Futebol da Federação Mineira de Futebol (FMF), por irregularidades: o Minas Esporte Clube (Boa Esperança), o Clube Esportivo de Futebol (Passos) Bandeirão da jovem torcida organizada do Formigão Montes Claros de chuteiras A estréia do Funorte Futebol Clube na Segunda Divisão do Mineiro reacende a paixão dos torcedores que ficaram seis anos sem um representante nos gramados e o Betim Futebol Clube (Betim). Suporte técnico e financeiro A estréia do Funorte F. C. também trouxe novidades em relação à estrutura de um time profissional de futebol. O clube nasceu de um projeto acadêmico e tem o apoio empresarial da Soebras/Funorte. Segundo o presidente de honra da instituição, Ruy Muniz, o Funorte contará com um Centro de Treinamento completo, com arquibancadas, iluminação, vestiários, que dentro de um ano deve estar pronto para ser usado. Enquanto isso, os treinos do Formigão acontecem em locais diferentes, como os campos do Cassimiro, da Unimontes, do Pentáurea e do Campus JK da Funorte. Ruy Muniz fala ainda sobre a parceria do Funorte com times de Portugal, que prevê a venda e a compra de jogadores entre os países. “Será um intercâmbio. Nós vamos receber atletas europeus para jogar aqui e os nossos atletas que se destacarem vão jogar no campeonato português (Segunda Divisão). Os talentos serão comercializados e os lucros e resultados divididos em partes iguais para Portugal e Brasil”, explica. Essa nova proposta de trabalho permitiu que o Funorte nascesse com uma verdadeira estrutura de um time de futebol profissional, como comissão técnica, gerência de futebol, administração e um técnico experiente – Paulo César Alencar. O treinador passou por vários times como Montes Claros Futebol Clube, Ateneu, Cassimiro, Alfenense (Alfenas) e Social (Coronel Fabriciano). Segundo ele, sua experiência ajuda no treinamento e também a aconselhar no gerenciamento administrativo do time. De acordo com Paulo César, 60% dos jogadores foram indicados por ele e os outros 40% são jovens de Montes Claros mesmo, escolhidos para jogar no time da categoria de base do Funorte, mas que treinam junto com a equipe principal. “Hoje eles estão no profissional porque a categoria de juniores não tem competição nenhuma esse ano, então, pra eles não ficarem parados, eles estão trabalhando também no profissional”, diz P.C Alencar. O técnico acredita na fusão da juventude dos jogadores com os mais experientes para formar uma equipe competitiva, e frisa a importância do jogador de base para manter o time sempre bem financeiramente, além de poder utilizar esse jogador futuramente no time. “O time profissional tem que fazer o jogador, botar o jogador na vitrine e, logicamente, tem que vender o jogador pra fazer o caixa e manter a equipe no profissional”, afirma. Para o torcedor Diego Félix Guimarães, de 20 anos, os jogadores de fora, contratados pelo time, atuaram bem nas partidas. Ele cita como exemplos o atacante Ditinho, o lateral direito Tiaguinho, o meia Nando e o goleiro Everaldo. “Esses jogadores entraram bem nas partidas, mostraram muita técnica e raça para jogar no Funorte. O Ditinho com suas finalizações, Nando com jogadas inteligentes pelo meio do campo e o Tiaguinho com habilidade e marcação forte, além de Everaldo, que fechou o gol do time. Esses jogadores estão de parabéns!”, analisa. Torcida tricolor: a força jovem que vem das arquibancadas O primeiro encontro do Funorte com a torcida foi no dia 15 de setembro, no estádio José Maria Melo (Cassimiro). O time montesclarense venceu o Arsenal de Santa Luzia por 3x0. A partir daí, o “Formigão” gerou expectativa nos torcedores e, no segundo jogo em casa, contra o Monlevade (João Monlevade), levou um público de mais de dois mil pagantes ao campo do Cassimiro, que tem capacidade para cinco mil pessoas, com toda a festa e a euforia da torcida organizada – Torcida Jovem Tricolor (TJT). E para animar ainda mais, o “Formigão” contou também com o apoio da charanga. Foram dois meses em que os torcedores tiveram a oportunidade de conhecer o time e até de arriscar palpites na escalação. “A torcida estava nota 10, tinha até torcida organizada, com uniformes personalizados do Funorte. Eles ficavam atrás do gol, animando os jogadores e os outros torcedores que lotaram o estádio do Cassimiro”, conta Diego Félix. 9 NOVEMBRO/DEZEMBRO - 2007 O presidente da Torcida Jovem Tricolor, Peterson Diego Lopes Nery, de 23 anos, conhecido como Pyter, diz que a TJF surgiu com a paixão e a força de torcidas veteranas. “A camisa nós conseguimos com o apoio de Cristiano Junior, que é diretor financeiro do Funorte. Agora, nós temos uma faixa de 25 metros, onde está escrito Jovem Tricolor, que não teve patrocínio nenhum, a gente tirou do próprio bolso. Já para o ano que vem, nós estamos querendo fazer uma faixa de 50 metros escrito: Torcida Jovem Tricolor”, conta com empolgação. Pyter e os cinco diretores da torcida acompanharam todos os jogos do “Formigão” no estádio do Cassimiro e ainda viajaram para assistir a outros jogos fora de casa: “Aqui dentro fomos a todos os jogos, fazendo chuva ou sol, e viajei com alguns companheiros da diretoria acompanhar a partida entre Funorte e Ideal, sempre com o apoio da Força Jovem do Formiga (torcida organizada do Formiga Esporte Clube, da cidade de Formiga-MG), da Pantera Cor de Raça (do Democrata E.C, de Governador Valadares-MG) e da Guaracolo, (do Guarani E.C, de Divinópolis-MG), que são torcidas que se uniram à nossa, e vieram em alguns jogos apoiar o Funorte junto com a TJT “. Campanha marcada por altos e baixos A primeira campanha do Funorte no futebol profissional começou bem. O time chegou a ser o líder da competição, mas foi perdendo posições: foram duas vitórias, cinco empates e uma derrota – resultados que deixaram a equipe de Montes Claros em sexto lugar, com 11 pontos, e fora da semifinal (já que apenas os cinco primeiros de cada grupo se classificam). Na segunda fase, as equipes jogam novamente entre si em turno único, mantida a regionalização vigente na primeira fase. Classificam-se os três primeiros colocados de cada grupo para o Módulo II de 2008, e os campeões de cada grupo fazem a final do campeonato em jogo único na casa da equipe de melhor campanha Na opinião do radialista esportivo, Nairlan Clayton, da Rádio Expressão FM, a equipe não conseguiu a classificação devido a algumas falhas: “O time não teve resposta na frente, embora tivemos aqui um excepcional jogador, que foi o Ditinho, mas que estava jogando sozinho no ataque, e isso dificultou, porque vários jogadores que tinham a oportunidade de fazer os gols não fizeram. O Funorte empatou demais, não venceu as partidas que deveria vencer e, em algumas situações, foi apático, não correspondeu àquilo que o técnico esperava deles. Se reparar bem, o time não tomou um número expressivo de gols, tinha uma boa defesa, um meio de campo que trabalhava a bola, mas um ataque incompleto”. Para Nairlan, faltou ao “Formigão” jogadores decisivos: “O Funorte é um ótimo time em nível de Campeonato Mineiro da Segunda Divisão. É um bom time, TIC YANA FONS ECA se analisarmos as questões de salário e de estrutura, mas na questão de nível dos jogadores, a gente percebe que são de nível médio, mas que podem vir a se aprimorar”. O torcedor Diego Félix também lamenta a desclassificação: “Não achei bom. Apesar do time ser novo, tinha cinco vagas para a classificação, e um time que representa Montes Claros, uma cidade deste porte, tem que pensar grande e não se contentar com um sexto lugar na Segunda Divisão do Mineiro”. Destaques de 2007 e preparação para 2008 Para a estréia na Segunda Divisão do Mineiro de 2007, a diretoria do Funorte contratou jogadores experientes, como o meia Rafael Rincón – atleta que passou pelas categorias de base do Cruzeiro, também defendeu o Santos sob o comando do técnico Wanderley Luxemburgo, passou pelo XV de Piracicaba, Paysandu, América/MG, Vila Nova de Goiás, Náutico e, por último, pelo Anapolina/GO. A equipe conta ainda com o goleiro montesclarense Everaldo, um dos mais experientes do time, que já defendeu as cores do Ateneu e do Montes Claros F.C. Outro jogador que caiu nas graças da torcida foi o atacante Ditinho, que nasceu em São José dos Campos-SP, e jogou na URT de Patos de Minas. Ele mostrou muita determinação nas partidas, com dribles desconcertantes, muita raça e, ainda, foi o artilheiro do time, com sete gols (três a menos que o artilheiro da competição, o jogador Renato, do Tupynambás F.C, de Juiz de Fora). Em oito jogos, Ditinho fez uma média de 0,83 gol por jogo, quase um por partida. Na avali ação de Nairlan Clayton, além do atacante Ditinho (quase uma unanimidade entre torcedores e especialistas), o time teve como destaques o meiocampista Robert Fernandes (chamado de “Guerreiro”), o zagueiro Silmar, o lateral direito Tiaguinho e o atacante Thiago “Pitbul”. Segundo o radialista, para 2008, o Funorte precisa contratar mais jogadores eficientes, sem que seja necessário investir caro naqueles de renome. Para ele, o time deve investir em atletas de qualidade, que resolvam o problema. “Se é jogador famoso ou não, se é jogador que vai ser feito na base, se é jogador aqui do Norte de Minas não interessa, o importante é ter jogadores com presença de área para fazer os gols que o time precisa”, afirma Nairlan. Sobre a próxima temporada, Pyter, presidente da Torcida Jovem Tricolor, manda um recado para os montesclarenses: “Ano que vem a torcida vai estar com várias novidades, assim como o time também, com novos reforços. Então, espero que o pessoal compareça no campo pra incentivar o time do Funorte e não ficar sentado, porque a gente não tá indo pra teatro. Em 2008, com toda certeza, o Funorte vai subir e a torcida vai estar presente fazendo a parte dela”. Alunos de Jornalismo conheceram os estúdios do MGTV, na Globo Minas... Estudantes de Jornalismo fazem visita técnica a veículos de comunicação em BH Acadêmicos do curso também participaram do Intercom – principal congresso de ciências da comunicação do Brasil – e do encontro de jornalistas de assessorias de comunicação Élida Gonçalves 3º período – Jornalismo Sempre nos programas de rádio ou TV são anunciadas pessoas conhecidas e importantes. Foi assim que os acadêmicos do curso de Comunicação Social - Jornalismo do Crecih/Soebras se sentiram ao serem anunciados, ao vivo, em dois programas de uma das maiores redes de rádio do Brasil, a Rede Itatiaia, em Belo Horizonte. Participar dos programas das rádios Itatiaia e Extra, bem como conhecer os estúdios e toda a estrutura das emissoras, foi motivo de muita emoção para os 15 estudantes que estiveram em visita técnica a órgãos de comunicação de Belo Horizonte, no final de setembro último. A visita foi coordenada pelas professoras Tatiana Murta e Nádia Carla. Além da Rede Itatiaia, os alunos visitaram a Rede Globo Minas, o Sistema Estadual de Meio Ambiente (Sisema), as Faculdades Promove e o Museu das Telecomunicações. Segundo a acadêmica Ticyana Fonseca, do 6º período, conhecer o funcionamento da assessoria de comunicação do Sisema foi um dos pontos mais produtivos da viagem. Trata-se de um sistema que engloba quatro órgãos ambientais – Secretaria do Estado de Meio Ambiente, Instituto Estadual de Florestas, Fundação Estadual de Meio Ambiente e Instituto Mineiro de Gestão das Águas –, cuja assessoria conta com 11 jornalistas, quatro relações públicas e dois TIC YANA FONS ECA ...em Belo Horizonte, eles também v isitaram a Assembléia Legislativa. publicitários. Eles são responsáveis pelas áreas de comunicação interna, atendimento à imprensa, publicidade e eventos. Intercom 2007 Outra viagem feita pelos alunos do curso de Jornalismo do Crecih foi com destino a Santos (SP), onde eles participaram do 30º Congresso Brasil de Ciências da Comunicação (Intercom), entre 29 de agosto e 2 de setembro. Onze acadêmicos e o coordenador do curso, Elpídio Rocha, estiveram no evento, que teve como tema “Mercado e Comunicação na Sociedade Digital”. A proposta do Intercom 2007 era desafiar a comunidade acadêmica a pensar e pesquisar o que vem a ser o impacto das indústrias digitais nos processos de mediação simbólica. Um evento feito para os acadêmicos e profissionais, que moveu pessoas de todo o Brasil, oferecendo muita informação e interatividade. Segundo a aluna Emanuela Almeida, do 4º período de Jornalismo, entre as discussões, a que chamou mais sua atenção foi a respeito da utilização da Internet nas faculdades, onde, geralmente, os sites de relacionamento e blogs são bloqueados, sob a alegação de não terem conteúdo para pesquisa. A aluna rebate esse argumento, dizendo que para produzir o fanzine “UHU!” – que ela edita com colegas da faculdade – recorre aos blogs como a melhor fonte de pesquisa. Encontro em Diamantina Acadêmicos e professoras no estúdio da TV Assembléia. Ao centro, a apresentadora Ana Paula Ceribelli. Acadêmicos de Jornalismo, acompanhados pelo coordenador do curso, Elpídio Rocha, também participaram, de 5 a 7 de outubro, do Encontro Estadual dos Jornalistas em Assessorias de Comunicação, o Enjac Minas 2007. O evento, realizado pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, aconteceu em Diamantina, e discutiu os “Desafios da Comunicação para a Cidadania”. 10 NOVEMBRO/DEZEMBRO - 2007 A história por trás do Chinelão O monumento criado pelo artista Konstantin Christoff é um símbolo da cultura norte-mineira e guarda um passado ainda desconhecido pela população de Montes Claros FOTOS: ÉRIKA PEREIRA Érika Pereira 6o período - Jornalismo Montes Claros, também conhecida como Princesinha do Norte, é uma cidade cheia de encantos, que conserva um ar interiorano, e nos remete ao passado. Porém, não é só esse ar que nos traz lembranças, a cidade possui monumentos que conseguem representar fielmente o povo de outrora, como é o caso do Chinelão – escultura localizada na praça próxima ao aeroporto, na avenida Magalhães Pinto, no bairro Jaraguá. O primeiro Chinelão foi feito na década de 1960, pelo artista plástico Konstantin Christoff, em homenagem aos tropeiros que passavam e que moravam na região. Tropeiros eram aqueles homens que conduziam comitivas de cavalos entre os pólos consumidores e as localidades de produção. Em Montes Claros, a tradição de tropeiros era tão intensa que se fez necessária a construção do Mercado Municipal, logo eleito como o ponto de encontro desses viajantes. O prédio foi feito em Konstantin Christoff: autor da escultura, que mescla simplicidade e ousadia Segunda versão do Chinelão: homenagem aos tropeiros, que chama a atenção de quem passa pela praça próxima ao aeroporto 3 de setembro de 1899 e era localizado onde hoje funciona o Shopping Popular. Os tropeiros vinham das mais distintas regiões de Minas Gerais e, apesar disso, possuíam uma característica em comum: usavam precatas, chinelos de couro bastante simples. Pensando nisso, Konstantin planejou a obra do Chinelão, que representaria, de forma plena, o ho- mem sertanejo, como afirma Igor Cristoff, filho do artista plástico: “Em 1960 a cidade tinha muitas características rurais e a tradição dos tropeiros. Então, meu pai viu na precata uma forma de homenagear a população de Montes Claros, por isso resolveu fazer tal obra”. E acrescenta: “Ele foi muito bem feito, ficava suspenso por três pedras”. Samuel Fagundes Na medicina, “vômer” é o nome dado a um dos ossos ímpares do crânio. Já em Montes Claros, Vomer significa som muito pesado e de ótima qualidade. Com mais de dez anos de estrada e várias formações, o Vomer vem conquistando cada vez mais fãs do trash metal do Norte de Minas e também do Brasil. Aproveitando essa crescente do rock na cidade, a banda lança seu primeiro cd, “Lord of Hell”. O show de lançamento, realizado em 14 de novembro último, levou cerca de 350 pessoas ao ginásio Darcy Ribeiro (Praça de Esportes), em Montes Claros, onde ouviram dez músicas próprias do grupo e quatro de bandas conhecidas. O evento foi promovido pelo Coletivo Retomada, organização formada por músicos e artistas independentes, com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura, e chamou a atenção pela organização. Além de profissionais contratados, a guarda municipal também ajudou na segurança do show, que não teve qualquer tumulto ou briga. Tudo prosseguiu com tranqüilidade, se é que se pode ter tranqüilidade num show de trash metal. “O show estava seguro e bem organizado, o som da banda está cada vez melhor”, comenta a estudante Sara Pinheiro. Segundo os integrantes do Vomer, parte do dinheiro para a gravação e realização do O segundo Chinelão Em 1994, um outro monumento foi construído, projetado e executado no mesmo local, também por Konstantin Christoff, com a ajuda de outros profissionais. Antônio Carlos Maia, engenheiro civil, foi um dos que ajudou na construção da nova escultura. Orgulhoso, ele fala um pouco des- Rock PESADO Show da banda Vomer prova que Montes Claros tem público para o estilo 6o período - Jornalismo Com o passar do tempo, a escultura ficou desgastada, foi alvo de vândalos. Do primeiro Chinelão, foram arrancadas as correias e, com elas, uma parte da história. Mais de 300 pessoas foram à Praça de Esportes assistir ao lançamento do primeiro cd do grupo FÁBIO & FARLEY O trash metal do Vomer “estremece” as estruturas da Praça de Esportes e agrada os fãs O Coletivo Retomada é uma organização formada por produtores, artistas, músicos independentes, empresas e instituições voluntárias, que visam ao desenvolvimento da produção cultural independente de Montes Claros e região. Num primeiro momento, os trabalhos desenvolvidos pelo Coletivo Retomada atingem atividades ligadas à música, como a prestação de serviço em shows e espetáculos. Mas o projeto pretende abranger outros setores da produção cultural como as artes plásticas, teatro e cinema. Outras informações sobre a organização, você encontra no site: www.coletivoretomada.blogspot.com show de lançamento do cd veio de outros shows realizados nos últimos dois anos e outra parte saiu do próprio bolso deles. Persistência recompensada A banda mantém a mesma for- sa experiência: “Foi um prazer imenso trabalhar com o Cristoff na escultura, principalmente porque ela representa o povo sertanejo, isso é importante”. O engenheiro conta um fato interessante que presenciou ao término da obra: “Quando o Chinelão ficou pronto, o Konstantin veio com a enxada e fez um pequeno estrago no monumento. Perguntei a ele o porquê daquela ação, aí ele me explicou que sertanejo não pisa certo na sandália, sempre fica um lado mais desgastado que o outro”. Esse segundo Chinelão, estrutura que permanece até hoje, é de concreto e tem cerca de oito metros de comprimento por três metros de largura. A escultura encanta quem cruza a praça ou mora no Jaraguá, como é o caso da dona de casa Ivani de Almeida, que, apesar de ser moradora do bairro há 14 anos, desconhecia a história do Chinelão. “Não sei o que essa obra de arte representa, mas ela é muito bonita, é uma pena que muitas pessoas destroem a área, isso não podia acontecer, o Chinelão deve ser preservado.” Embora não tenha seu significado conhecido por todos, é de extrema importância a existência do monumento, uma vez que ele representa, de forma singular, a cultura norte-mineira, que possui em sua construção fortes vestígios da tradição dos tropeiros. mação há quase três anos e, atualmente, conta com Clayton no vocal, Airton no baixo, Léo na bateria, Daniel Carrapato e João Bernardo nas guitarras. “Das várias formações, com certeza, a atual é a mais sólida”, diz Eurico Rodriguez, universitário, que acompanha a trajetória do grupo há alguns anos. O baixista Ayrton, em entrevista ao Vide Verso, falou que falta incentivo para bandas de rock pesado em Montes Claros, mas que, mesmo assim, elas estão fazendo seu som na garra e na vontade. Ele disse, ainda, que os fãs estão reconhecendo e aprovando essa atitude das bandas e têm comparecido em massa aos shows. O baixista ressaltou a quantidade de pessoas que compareceu ao lançamento do cd, ocasião em que, ao contrário de outros eventos, havia apenas uma banda tocando: “Era um público para cinco bandas”. Para se ter uma idéia, o Metal Moc Rock Fest – maior evento de rock da cidade, realizado este ano – contou com a partici- pação de quatro bandas e teve um público de aproximadamente 600 pessoas. O Vomer tenta agora marcar mais shows não só em Montes Claros, mas em todo o País. A banda tem enviado o cd para todas as partes do Brasil e já recebeu respostas. Ayrton conta que eles receberam u ma c arta falando muito bem do cd: “A galera da banda ficou surpresa, na era digital em que vivemos, com e-ma ils, messenger e coisas do tipo, uma pessoa se deu ao trabalho de escrever uma carta. Isso significa muito pra gente”, comemora o baixista. A afirmação de bandas já conhecidas regionalmente, como o Vomer, estimu la o surgimento de novos grupos em Montes Claros e região, o que é muito bom para o cenário do rock no Norte de Minas. Uma renovação muito grande está acontecendo, tanto das bandas, qu an to dos fãs, que são cada vez mais jovens. Grupos tradicionais como o Vomer têm que melhorar cada vez mais para poderem competir e ganhar mais espaç o n o mercado. Quem ganha com tudo isso são os amantes do bom e velho rock n’ roll. Para entrar em contato com a banda Vômer é só enviar um e-mail para o seguinte endereço eletrônico: [email protected] ou acessar o site www.bandavomer.blospot.com