Trabalho e Subjetividade no Movimento Hip Hop: Uma Tentativa de Compreensão a partir dos Ethos de Bendassoli (2007) Autoria: Danielle de Araújo Bispo, Débora Coutinho Paschoal Dourado, Mariana Fernandes da Cunha Loureiro Amorim Resumo: O Hip Hop surgiu em Nova York, na década de 70 do século XX, e logo se tornou um movimento mundial de resistência política e cultural da juventude da periferia nas grandes cidades. Apesar da proposta crítica do movimento, o Hip Hop tem se realizado para além da reivindicação. Na opinião de alguns de seus membros, está se tornando uma forma de “ganhar a vida”. Essa dimensão econômica agregada ao movimento pelos indivíduos que dele participam foi comentada por Barreto (2004, p.87) quando apresenta o depoimento de um integrante do Movimento, publicado no jornal Estação Hip Hop, de São Paulo: “Os grupos estão se profissionalizando e encarando o hip hop como ele deve ser encarado, ou seja, como música, na parte do talento e como negócio também”. Embora esse depoimento ilustre como a sociedade moderna tem utilizado o modelo empresarial como referência básica, é interessante salientar que para outras realidades de indivíduos, também envolvidos com o Movimento, tem se observado uma resistência que vai de encontro a esta lógica econômica, nomeadamente para alguns membros da Rede de Resistência Solidária (RRS) em Recife – PE. Foi a partir dessa reflexão que se percebeu que o trabalho pode ter sentido fora do âmbito do capitalismo, imerso por uma lógica não econômica. Assim, no intuito de levantar questionamentos sobre outra possibilidade para o trabalho, para além da lógica econômica, esse artigo se propõe a responder à seguinte questão de pesquisa: Na medida em que o movimento Hip Hop possui em seus fundamentos o elemento de crítica e reivindicação, em que dimensão(ões) o trabalho que seus integrantes realizam se fundamenta(m)? Adotou-se a abordagem qualitativa com vistas a aprofundar o conhecimento sobre o assunto. Dentre os vários métodos permitidos por essa abordagem, optou-se pela história oral, um tipo de estudo biográfico. A escolha dos dois indivíduos entrevistados, Galo e Pixote, foi baseada no critério de informantes-chave, ou seja, aqueles indivíduos que por suas características podem ter mais a falar sobre o fenômeno, de forma rica e aprofundada. A análise dos dados se deu através da análise de conteúdo com o objetivo de fazer inferências acerca dos dados coletados. Compararam-se os dados obtidos na história oral com os ethos desenvolvidos por Bendassolli (2007) acerca do sentido do trabalho na sociedade contemporânea. Objetivou-se compreender a narrativa principal como forma de identificar a dimensão que esses indivíduos concedem ao seu trabalho. Para os sujeitos pesquisados o sentido do trabalho não está relacionado à lógica hegemônica, já que não se definem pelos ethos utilizados por indivíduos que estão imersos no mercado de trabalho formal: ethos instrumental, ethos consumista e ethos gerencialista. O ethos moral-disciplinar também não está na base das narrativas dos entrevistados, pois nelas não há separação entre trabalho e prazer. Os trabalhos de Galo e Pixote são vistos antes como algo que se justifica por si mesmo, baseados numa narrativa característica do ethos romântico-expressivo. 1 1. Introdução O Hip Hop surgiu em Nova York, na década de 70 do século XX, e logo se tornou um movimento mundial de resistência política e cultural da juventude da periferia nas grandes cidades. Jovens de origem afro-americana, afro-caribenhos e latinos interpretavam através da arte as condições socioeconômicas da época (MARTINS, 2005). No final da década de 70, o rap, abreviatura da expressão ‘rhythm and poetry’, era o discurso mais proferido do Hip Hop, sendo tocado em festas de vários lugares. O boca a boca e tecnologias como fitas cassete fizeram com que a nova cultura se expandisse para outras comunidades marginalizadas em outras cidades norte-americanas, não se restringindo mais somente a Nova York. Algumas gravadoras de disco começaram a se interessar pelas músicas que vinham da rua. Nos anos 80, o rap tinha lugar reconhecido na cultura popular norteamericana. Porém, foi com o break, com seu apelo visual, que ocorreu a internacionalização dessa cultura através de filmes e clipes de artistas da época. Um exemplo é o lançamento de Thriler, em 1983, de Michel Jackson, que ajudou a popularizar a dança mundialmente (BARRETO, 2004). No Brasil, a cultura Hip Hop chega por volta dos anos 80 através de vídeos. Barreto (2004) ressalta que esta capacidade expansiva evidencia a força mercadológica que vem arraigada junto ao movimento. Pode-se descrever o Hip Hop como uma cultura de rua, desenvolvida através de três modalidades expressivas: a plástica, representada pela pintura em muros realizada pelos grafiteiros; a cênica, representada pela dança de rua e pela mímica dos dançarinos de break, conhecidos como b-boys e b-girls; e a fonética, caracterizada pela poesia vocal dos mestres de cerimônia (MC´s) e pela vertente musical dos DJ´s (QUEIROZ, 2008). É notável a resistência presente nos quatro elementos do Hip Hop contra o sistema hegemônico. O MC utiliza a sua arte no tom de resistência e crítica à sociedade urbana contemporânea nas letras das músicas, que relatam a exclusão social, as experiências vividas pelo negro na cidade e o preconceito racial. É desta forma que tenta desestabilizar o discurso dominante através de uma interpretação contra-hegemônica da crítica. A dança break, por sua vez, é caracterizada por movimentos que tentavam, inicialmente, reproduzir o corpo debilitado dos soldados que voltavam da Guerra do Vietnã. Seus passos simulavam imagens como as hélices dos helicópteros utilizados na guerra e sugerem um corpo desconjunturado, transmitindo através da dança o descontentamento dos jovens. O DJ tem o papel de fazer a correta adaptação da música, procurando a batida certa dos sons para se harmonizar com as letras propostas, o que torna necessário conhecimento das raízes do Hip Hop e da música negra de um modo geral. Já o grafite nasce como uma forma de demarcar o território e reivindicar o espaço público como lugar de expressão de identidades (MARTINS, 2005). Apesar da proposta crítica do movimento, o Hip Hop tem se realizado para além da reivindicação. Na opinião de alguns de seus membros, está se tornando uma forma de “ganhar a vida”. Essa dimensão econômica agregada ao movimento pelos individuos que dele particiam foi comentada por Barreto (2004) quando apresenta o depoimento de um integrante do Movimento, publicado no jornal Estação Hip Hop, de São Paulo (BARRETO, 2004, p.87): Eu estou vendo de uma maneira positiva porque o movimento está crescendo. Os grupos estão se profissionalizando e encarando o hip hop como ele deve ser encarado, ou seja, como música, na parte do talento e como negócio também. Tipo a administração de uma empresa. Não me venha falar que o hip hop é apenas um movimento cultural que não é só isso. É um comércio também. As pessoas compram roupas, discos, shows etc. Então o dinheiro rola também. Alguns grupos estão começando a ter essa visão de empresa e de negócio. [...] 2 Embora o depoimento do integrante do Hip Hop ilustre como a sociedade moderna tem utilizado o modelo empresarial como referência básica, é interessante salientar que para outras realidades de indivíduos, também envolvidos com o Movimento, tem se observado uma resistência que vai de encontro a esta lógica econômica, nomeadamente para alguns membros da Rede de Resistência Solidária (RRS) em Recife – PE. A RRS é formada por vários grupos de diferentes comunidades. Guimarães (2007, p. 109) afirma que “a Rede está unindo forças de pessoas e coletivos já ativos socialmente que pensam outras formas de relações humanas e de trabalho”. Assim, a própria forma como é feito o trabalho e seu significado já podem ser considerados como práticas resistentes ao processo de mercantilização destas atividades. Foi a partir desta reflexão que se percebeu que o trabalho pode ter sentido fora do âmbito do capitalismo, imerso por uma lógica não econômica. Com sua ênfase sempre na racionalidade e eficiência, o sistema capitalista possibilitou que os estudos sobre trabalho estivessem tradicionalmente voltados para essa lógica empresarial. Quanto a isto, Misoczky e Vecchio (2004, p.11) comentam que “vivemos um tempo em que o gerencialismo de mercado é apresentado como uma utopia em realização que não permite pensar em alternativas”. Entretanto, indivíduos de organizações alternativas ao modelo de empresa possuem práticas organizativas diferenciadas e que se refletem na forma como o trabalho é feito e valorizado. Independente da definição que venha a assumir é certo que o trabalho viabiliza a sustentabilidade dos indivíduos e ocupa posição central nas suas vidas. Portanto, o trabalho é considerado como algo que vai além da subsistência: “é também pelo trabalho que os sujeitos se reconhecem como agentes sociais moralmente aceitáveis” (ORGANISTA, 2006, p. 21). Assim, no intuito de levantar questionamentos sobre outra possibilidade para o trabalho, para além da lógica econômica, esse artigo se propõe a responder à seguinte questão de pesquisa: Na medida em que o movimento Hip Hop possui em seus fundamentos o elemento de crítica e reivindicação, em que dimensão(ões) o trabalho que seus integrantes realizam se fundamenta(m)? 2. Histórico e Definição de trabalho As explicações de estudiosos sobre a história do trabalho refletem a importância de estudá-lo em cada contexto histórico, mais precisamente, a partir dos modos de produção (OLIVEIRA, 1991). Isso ocorre devido ao trabalho não ter adotado uma postura única em relação a como foi entendido em épocas diversas, assumindo sentidos diferentes para os indivíduos. É preciso admitir o trabalho, portanto, como uma variável que muda em relação ao tempo e ao espaço, ressaltando que a sua evolução em relação a como foi entendido não ocorreu ao mesmo tempo para os diversos povos na história da humanidade. Alguns conceitos variam no decorrer da história, principalmente quando ligados às relações sociais, e defini-los pode ser arriscado ou mesmo incoerente, inclusive depois de um estudo mais aprofundado. Assim ocorre quando se fala em trabalho. Provavelmente, caso fosse questionado a alguém o que é trabalho nos dias atuais, a resposta seria associada a emprego assalariado. Apesar dessas ressalvas, não se pode negar que algumas definições genéricas em muito colaboram na compreensão do que é o trabalho. Oliveira (2001, p. 5) define trabalho como “atividade desenvolvida pelo homem sob determinadas formas, para produzir a riqueza”. Antunes (2003, p. 167), por sua vez, o considera “como fonte originária, primária, de realização do ser social, protoforma da atividade humana, fundamento ontológico básico da omnilateralidade humana” (grifos do autor). Apesar de a primeira definição ser mais simplista entendendo o trabalho como atividade destinada a produção de riqueza, na segunda definição já se percebe uma conceituação mais completa. Antunes (2003) ver o trabalho como 3 uma categoria fundante do ser social, ou seja, através do trabalho o homem estabelece relações sociais uns com os outros para satisfazer necessidades. Albornoz (2008) inicia seu livro O que é trabalho falando dos vários significados que a palavra trabalho tem na linguagem cotidiana. Afirma que em português a palavra trabalho carrega significações de labor, que estariam mais ligados ao cansaço e ao esforço, e de trabalho, entendido como realização de uma obra. Explica ainda que a palavra trabalho vem do latim tripalium, um instrumento feito de três paus aguçados com o qual os agricultores bateriam o trigo e as espigas de milhos para esfiapá-los. Esse instrumento também era usado como meio de tortura. Por isso a palavra significou por muito tempo, e ainda hoje, para alguns, algo semelhante a cativeiro. Para Albornoz (2008, p. 11) “o trabalho supõe tendência para um fim e esforço”. É possível concluir dessas definições que para satisfazer suas necessidades, o homem realiza o trabalho. “A história do trabalho começa quando o homem buscou os meios de satisfazer suas necessidades – a produção da vida material” (OLIVEIRA, 1991, p. 5). Essas necessidades foram uma das causas para se estabelecer as relações sociais. Para os antigos gregos o trabalho não era associado a nenhum valor ou virtude moral, uma vez que, para eles, brutalizava a mente e tornava o homem inadequado para as práticas superiores, como a política ou filosofia. Entretanto, é importante destacar que o trabalho não era negado pelos gregos. Era antes uma atividade necessária desde que fosse um trabalho em estilo aristocrático, intelectual, contemplativo. O homem não poderia resumir sua vida a trabalho, devendo evitá-lo o máximo possível. (BENDASSOLLI, 2007). No início do cristianismo o trabalho era visto como punição para o pecado. Já no tempo de Agostinho, o trabalho devia ser obrigatório, mas alternado com orações. (ALBORNOZ, 2008). Os teólogos cristãos medievais possuíam a visão que só deve-se trabalhar o necessário, não perdendo de vista os reais valores que levam à graça de Deus. No período renascentista, o trabalho foi visto como oportunidade dos homens revelarem sua essência por meio de suas obras. O homem é visto aqui como um homo faber, realizando obras que refletem sua própria alma. Surge o ideal do ofício do artesão e não há motivo exterior ao trabalho, pois o importante é o produto que está sendo feito e sua criação (BENDASSOLLI, 2007). É interessante notar que tanto para os antigos quanto para os medievos, o trabalho possuía um sentido externo a ele próprio. Para os antigos o que importava era o cultivo das virtudes, para os medievos o louvor a Deus. Já para os renascentistas o que realmente importa é a expectativa e o prazer de realizar um bom trabalho, sendo o dinheiro, a reputação ou a salvação apenas consequências. O protestantismo irá trazer um novo valor para o trabalho, enfatizando a importância do trabalho individual e tornando possível pensar na construção da identidade através do trabalho. Lutero, Calvino e os puritanos consideravam o trabalho como uma forma importante de avaliar o estatuto moral do indivíduo. Portanto, o protestantismo foi responsável por moldar uma legião de trabalhadores que era cada vez mais necessária à industrialização através de incentivos ao trabalho e da punição a ociosidade, tornando o trabalhador mais disciplinado. (BENDASSOLI, 2007). Aqui, já se pode notar a centralidade que o trabalho passa a ter na definição do sujeito. Albornoz (2008) afirma que vivemos a época das organizações multinacionais e que cada vez mais o trabalho autônomo é abandonado em busca de um emprego nessas organizações ou ainda pelo desemprego. O trabalho nas cidades modernas traz como característica peculiar a separação entre lugar de trabalho e lugar de moradia. Além disso, no trabalho atual cada trabalhador entende uma parte do processo. Assim “o trabalho é alienado do trabalhador porque o produtor não detém, não possui nem domina os meios da produção” (ALBORNOZ, 2008, p. 34). Neste sistema, ocorre a separação do trabalhador dos meios de 4 produção, o qual é obrigado a vender sua força de trabalho como uma mercadoria para sobreviver (OLIVEIRA, 1991). Para alguns autores as várias mudanças ocorridas na forças produtivas e nas relações de produção levaram ou estão levando ao fim da centralidade do trabalho. Para estes, cada vez mais é evidente o crescimento do desemprego e a fragmentação do mercado, pois as pessoas objetivam construir suas vidas dentro do mercado formal e acabam não encontrando espaço (ORGANISTA, 2006). A formação profissional, muitas vezes, não está ligada ao domínio de um saber, de uma técnica, alcance ou satisfação de uma capacidade e sim para se conseguir um emprego. Paul Singer (apud ALBORNOZ, 2008) fala que o emprego não é entendido primeiramente como uma atividade peculiar, no sentido técnico de trabalho ou produção, mas como um recurso de acesso a uma parte da renda e ao consumo. As pessoas trabalham antes para consumir do que para produzir algo. Apesar da precarização do trabalho, este continua a ocupar uma posição central na vida dos indivíduos, seja como maneira de construir a identidade seja como meio de subsistência. A seguir serão vistas algumas discussões sobre o trabalho e a construção da subjetividade dos indivíduos na sociedade atual. 3. O trabalho e a construção da subjetividade na sociedade contemporânea: Os Ethos de Bendassoli No livro Trabalho e identidade em tempos sombrios, Bendassolli (2007) se propõe a explorar a situação do trabalho na atualidade, reconhecendo seu enfraquecimento na definição da identidade, mas insistindo que o trabalho não desapareceu por completo. O que há de característico na pós-modernidade, para o autor, é sua ambigüidade devido à pluralidade de sentidos que o trabalho adquiriu, tornando difícil estabelecer uma relação direta entre ele e a construção da identidade. Assim, a identidade dos indivíduos não é definida unicamente através do trabalho: “é como se o trabalho deixasse de ser a única objetivação possível para o ser, sua única – ou mais privilegiada – forma de revelação”(BENDASSOLLI, 2007, p.22). O autor se coloca, ao mesmo tempo, a favor e contra os adeptos da teoria da morte do trabalho. Coloca-se na posição de adepto justificando as mudanças no campo das instituições e suas consequências para o trabalho. Coloca-se contra a morte do trabalho ao afirmar que ele nunca deixou de ser importante quer seja como fonte para obtenção de renda e via de acesso ao consumo, quer seja em relação à construção da subjetividade dos indivíduos. O enfraquecimento do trabalho é explicado por dois aspectos: o enfraquecimento institucional e o enfraquecimento subjetivo. Em relação ao primeiro, o autor fala das consequências da sociedade pós-industrial: substituição do trabalho humano pelo trabalho realizado pelas máquinas, falência progressiva do Estado subsidiário, deslocando aos indivíduos a tarefa de cuidar da própria empregabilidade, entre outros. A natureza fraca do trabalho seria, portanto, consequência desses e de outros aspectos desinstitucionalizantes que ele sofreu na segunda metade do século XX. Quanto ao segundo aspecto, o enfraquecimento subjetivo, o autor explica que o elo que ligava o trabalho ao sentido que o indivíduo dava a sua existência na modernidade também é enfraquecido. Assim o trabalho é fraco porque é sensível às forças desestruturantes da pós-modernidade (BENDASSOLLI, 2007). Bendassolli (2007) afirma que para melhor entender o enfraquecimento da relação trabalho-identidade, torna-se necessário uma discussão acerca do significado de identidade no contexto pós-moderno. É interessante ressaltar que, para o autor, a identidade é definida como uma narrativa que o indivíduo constrói ao longo da vida tendo por finalidade fornecer uma linguagem coerente a partir da qual ele possa construir e organizar o sentido de sua existência no tempo-espaço. 5 A noção de identidade foi desenvolvida mais intensamente pela psicologia e sociologia. Essas ciências construíram o conceito baseando-se nos princípios do sujeito moderno, como continuidade e permanência, mostrando a necessidade de basear a identidade em referenciais sólidos. Assim, na Modernidade o sentido do trabalho era apresentado por meio de uma metanarrativa social fazendo com que as narrativas dos indivíduos dependessem fortemente daquela. Essa metanarrativa encontrava apoio na sociedade industrial, que salientava para os jovens como era importante o trabalho e pregava a centralidade econômica, moral, filosófica, ideológica e contratual do trabalho. Dessa forma, o autor explica que: Em um dado momento da história do ocidente o trabalho foi escolhido como sujeito. Nessa posição ele oferecia uma metanarrativa social sobre seu valor e sentido, seja para os indivíduos quanto para as instituições. Como sujeito, nesse sentido filosófico, o trabalho era a instância pela qual os indivíduos se tornavam quem eles eram (BENDASSOLLI, 2007, p. 226, grifos do autor). Na segunda metade do século XX, esse sujeito, o trabalho, vai sendo pouco a pouco desmontado. Para analisar seu enfraquecimento pós-moderno como sujeito, Bendassolli (2007) afirma que essa desmontagem acontece em duas dimensões: objetiva, quando os modelos de trabalho instituídos são revistos; e subjetiva, quando ocorre a crítica à filosofia do sujeito e ao seu modelo de subjetividade. A consequência dessa desmontagem é que a identidade torna-se plural, ou seja, não existe apenas uma identidade ligada a um único sujeito dominante. “A crença de que a época das certezas chegou ao fim com a transição para a pósmodernidade refere-se, pois, a uma constatação filosófica: a crença no enfraquecimento da metafísica do sujeito” (BENDASSOLLI, 2007, p. 226). Bendassolli (2007) apresenta cinco narrativas públicas que chama de ethos, sobre o sentido e o valor do trabalho para os indivíduos na atualidade. Os ethos tratam-se de narrativas identitárias, ou seja, os indivíduos tendem a explicar e construir suas identidades tomando como base uma dessas narrativas ou mesmo mais de uma. A Figura 1 resume as características principais de cada ethos: Tipo de Ethos Moral-Disciplinar Romântico-Expressivo Instrumental Consumista Gerencialista Características do Trabalho Trabalho como dever Trabalho como um fim em si mesmo Trabalho como emprego. Trabalho como meio de obter prazer. Trabalho como projeto pessoal. Figura 1 – Tipos de Narrativas sobre o Sentido do Trabalho Fonte: Baseado em BENDASSOLLI, Pedro Fernando. Trabalho e identidade em tempos sombrios: insegurança ontológica na experiência atual com o trabalho. Aparecida: Idéias & Letras, 2007. Em relação ao ethos moral-disciplinar, este seria composto pelos resíduos da antiga ética protestante e por doutrinas moralistas tradicionais que defendem o dever de trabalhar. O trabalho tem haver, neste caso, com responsabilidade e com a realização de tarefas, independentemente de trazerem ou não prazer. Já o ethos romântico-expressivo possui como característica principal o trabalho como um fim em si mesmo, ou seja, o trabalho é reconhecido pela forma como foi realizado, pelo produto final e não pelo salário ou prestígio. [...] nesse ethos o trabalho é importante para a definição da identidade na medida em que ele é, por assim dizer, a identidade-em-construção, em plena atividade. O problema é que, na atualidade, isso pode ser dificultado, 6 primeiro, pela dificuldade de alguém dedicar-se a um “dom”, a um talento e a uma perícia (é preciso, hoje, fazer tudo ao mesmo tempo); segundo, pela voracidade consumista que atinge em cheio o núcleo deste ethos, redescrevendo o sentido e o valor do prazer e da satisfação dele decorrentes com a finalidade de pôr a roda do consumo e da economia de mercado em pleno funcionamento (BENDASSOLLI, 2007, p. 237). No ethos intrumental, por sua vez, o trabalho é visto em sua dimensão liberal, ou seja, como emprego, como troca, submetido à lógica do sistema capitalista. Possui três características: (i) a dimensão meritocrática do trabalho, sendo a meritocracia um sistema no qual a justiça advém do mérito, das qualidades dos indivíduos; (ii) o trabalho como obtenção de renda, ou seja, deposita-se no trabalho uma centralidade capaz de proporcionar o consumo; (iii) o trabalho como status, sendo o valor do indivíduo determinado por quanto ele ganha e pelo cargo que ocupa. Nesse ethos, o indivíduo não escolhe seu trabalho movido pela autorealização, mas sim pelo desejo de status (Bendassolli, 2007). Em relação ao ethos consumista, o trabalho é visto como meio para obtenção de satisfação: [...] nesse ethos o prazer está em realizar alguma coisa por si mesmo, e não para o outro: alguém trabalha por si mesmo e por seus ideais, e não por uma ética coletiva ou ideal coletivo. No extremo, a preocupação é com o nível de renda e poder aquisitivo para permitir o acesso ao mercado de bens de consumo – ou então ao mercado de sensações. Quer dizer, o trabalho, neste ethos, é apenas um meio para a obtenção de prazer e da satisfação que ele traz (BENDASSOLLI, 2007, p. 246-247). Por fim, o ethos gerencialista está ligado aos discursos do management ou gestão empresarial difundidos pelos empreendedores e gurus da administração. Uma crença disseminada por esse ethos é a de que os indivíduos não devem mais buscar empregos, pois o trabalho não existe mais da forma como era antes, ou seja, com estabilidade. O conceito de emprego é substituído pelo de projeto. Trabalhar é ter um projeto pessoal. Indivíduo Você S.a. é outra crença desse ethos e afirma que “o trabalho, a carreira, o sucesso bem como o fracasso, tudo depende do próprio indivíduo, que tem de se ver como uma empresa, como um empreendedor de si mesmo” (BENDASSOLLI, 2007, p. 252-253). Portanto, esses cinco ethos são vocabulários nos quais as narrativas identitárias podem se basear. Bendassolli (2007) também afirma que nenhum dos ethos precisa ou seria capaz de dizer a verdade última sobre os indivíduos. Eles apenas funcionam como narrativas, oferecendo uma rede de crenças e desejos mais ou menos coerentes com a imagem que o indivíduo faz de si mesmo. Também é importante ressaltar que os indivíduos, na construção da identidade no trabalho, circulam em mais de um desses ethos ou são a eles expostos. Essa situação de exposição a vários ethos pode levar o indivíduo a um estado de insegurança ontológica. Insegurança ontológica para o autor “é uma situação em que o indivíduo não consegue justificar suas ações; não sabe porque as faz, e, mesmo quando sabe, não consegue reconhecer nisso um sentido, uma coerência” (BENDASSOLLI, 2007, p. 265). Uma das causas para insegurança ontológica está relacionada à divisão do trabalho, pois esta pode levar a um trabalho desprovido de significado. Fromm (apud BENDASSOLLI, 2007) afirma que a vida perde o sentido e o resultado é uma sociedade insana. O principal conceito que Fromm obtém do marxismo é o de alienação: sempre que o indivíduo sinta que algo não está acontecendo como deveria. Sendo assim, pode-se inferir que as patologias relacionadas ao trabalho na sociedade atual são produtos da construção ideológica que o elegeu como referência de subjetividade. As pessoas tendem a querer construir suas 7 identidades tomando como referência o trabalho tal como existia na modernidade. Quando não conseguem, o não-trabalho pode ser associado a desequilíbrios psíquicos, como por exemplo, a depressão (BENDASSOLLI, 2007). As idéias de Bendassoli (2007) apresentadas nesta parte do referencial serviram como categorias teóricas que viabilizaram o olhar sobre o fenômeno trabalho para integrantes do movimento Hip Hop e inspiraram sua discussão. Os procedimentos de campo, levantamento, análise e intepretação dos dados são explicados na seção que segue. 4. Procedimentos metodológicos Adotou-se a abordagem qualitativa com vistas a aprofundar o conhecimento sobre o assunto, obtendo informações detalhadas. Dentre os vários métodos permitidos por essa abordagem, optou-se pela história oral, um tipo de estudo biográfico. O método biográfico parte da premissa que a compreensão da individualidade de uma vida é uma forma de observar sua realidade social. Para Goldenberg (2000, p. 36), “cada indivíduo é uma síntese individualizada e ativa de uma sociedade”. A história oral como método de pesquisa pode ser considerada um tipo de história de vida. “Difere-se desta última em função da maior objetividade adotada pelo pesquisador e pelo falante. O pesquisador vai apresentar um fato, ou uma questão específica, e vai colher o depoimento de várias pessoas para buscar o entendimento do problema” (DOURADO, HOLANDA, SILVA, & BISPO, 2009, p. 10). Investigaram-se através desse método, dois indivíduos da Rede de Resistência Solidária: Galo, integrante do Coletivo Êxito de Rua; e Pixote, integrante do Coletivo Nova Geração. A análise dos dados se deu através da análise de conteúdo com o objetivo de fazer inferências acerca dos dados coletados. A produção de inferências em análise de conteúdo “tem um significado bastante explícito e pressupõe a comparação dos dados, obtidos mediante discursos e símbolos, com os pressupostos teóricos de diferentes concepções de mundo, de indivíduo e de sociedade” (FRANCO, 2007, p. 31). Assim, a análise de conteúdo se destina a inferir de maneira lógica informações que vão além do que foi manifestado na mensagem pelo seu produtor. Compararam-se os dados obtidos na história oral com os ethos desenvolvidos por Bendassolli (2007) sobre o sentido do trabalho na sociedade contemporânea. Objetivou-se compreender a narrativa principal, como forma a identificar a dimensão que estes individuos concedem ao seu trabalho. A escolha dos dois indivíduos foi baseada no critério de informantes-chave, ou seja, aqueles indivíduos que por suas características podem ter mais a falar sobre o fenômeno, de forma rica e aprofundada. Assim, ambos são sujeitos que trabalham com o Hip Hop, desempenham papéis de liderança na comunidade em que estão inseridos e também em outras e, principalmente, parecem estar comprometidos com o ideário reinvindicatório do Movimento. Comparou-se cada ethos desenvolvido por Bendassolli com a narrativa apresentada por cada indivíduo. Posteriormente foi realizada uma avaliação a fim de saber se ambos utilizam o mesmo ethos, a mesma narrativa, para dar sentido ao seu trabalho. 8 5. Análise dos dados 5.1 Os sujeitos pesquisados 5.1.1 – A vida de Galo, do Coletivo Êxito de Rua Galo começou a pichar com oito anos de idade e alguns anos mais tarde se dedicou ao grafite. Hoje tem trinta e um anos. De origem humilde, enfrentou desde cedo as dificuldades de uma família pobre e os preconceitos com o estilo de vida que escolheu. Eu cresci num lugar extremamente pobre de dinheiro, mas ao mesmo tempo eu não tinha essa pobreza que era se sentir pobre. Eu acho que eu era rico porque eu não sentia essa pobreza [...]. Tem um filho. Estudou somente até o primeiro ano do ensino médio. Freqüentou bailes funk, conheceu gangues e entrou em vários grupos envolvidos com Hip Hop antes de criar o Coletivo Êxito de Rua. Trabalhou como entregador de remédios, vendedor de jornal, de picolé. Nunca teve carteira assinada. O ano de 1997 é o ano que ele considera sua independência: “Eu comecei a viver do que eu fazia: vender camisas, pintar camisas pra loja de skate, camisa de rock, camisa de banda e comecei a tirar uns trocados com isso”. Ministrou oficinas de grafite em várias ONGs durante anos. Posteriormente deixou de dar oficinas, pois, na sua concepção, “tava virando só um professor, tava deixando de tá na rua pintando também, tava deixando de me dedicar a muitas coisas e estava preso as ONGs também.” Afirma que através do Hip Hop conseguiu encontrar seu lugar no mundo: Essa coisa do rap, essa coisa do hip hop que eu comecei a entender foi deixar um lugar assim no mundo pra mim também. Não que eu não tivesse um lugar, não que eu não pudesse continuar pichando, só que eu precisava de alguma coisa que eu não precisasse ficar escondido, que eu pudesse crescer com isso. E...o grafite me impulsionou isso, o rap me impulsionou a isso. Seu primeiro trabalho com o grafite foi pintando muro para um vereador. Hoje o Coletivo tem um estúdio caseiro, que é umas das fontes de renda de Galo. Mas seu trabalho, de onde ele tira seu sustento, é o grafite. Já viajou para o exterior e pelo Brasil levando sua arte. 5.1.2 – Agora, Pixote do Coletivo Nova Geração Pixote nasceu e vive na comunidade da Várzea, bairro da periferia do Recife. Tem vinte e nove anos e conheceu a pichação aos doze. Por volta dos dezesseis anos teve contato com a pichação de rua e com outros pichadores. Parou de pichar quando conheceu sua atual esposa. Casou-se e seu primeiro filho nasceu quando tinha dezessete anos. Tem dois filhos. Foi evangélico por influência de sua esposa durante algum tempo. Só conheceu o grafite depois de casado, através de Galo e Bonny, grafiteiros da comunidade da Várzea na época. Trabalha e se mantém com a arte há 10 anos, desde 1999. Na sua adolescência se envolveu com crimes e depredou escolas com sua pichação. Sua vida mudou quando o diretor da escola perguntou como ele gostaria de pintar a escola. 9 Eu pichava a escola, eu sujava, quebrava a banca. [...] Aí o diretor, não sei se ele quis se render ou se ele quis me ajudar. [...] ele queria realmente me ajudar a sair daquela história. [...] Porque ele chegou perto de mim e perguntou como eu queria pintar a escola. Aí eu disse que queria fazer grafite, mas não sabia nem desenhar. Na verdade nessa época eu não sabia nem desenhar meu nome, pode parecer mentira. [...] Por causa dessa atitude do diretor, desse diretor, eu convidei esses meus amigos que faziam grafite pra vir pintar comigo, mas na verdade eles vinham pintar e eu ia prestar atenção. Fez grafite por hobby nos anos seguintes, de 99 até 2002. Paralelo a isso, ingressou no mercado de trabalho formal, exercendo a função de zelador e funcionário em uma empresa de confecções onde pintava camisas. Como autônomo, trabalhou em casa pintando camisas graças a um curso de serigrafia que havia feito antes de conhecer o grafite e ao aprendizado que havia adquirido na empresa. Em 2002, uma professora perguntou se ele já havia trabalhado ministrando aulas de grafite. E aí ela me iniciou [...] e aí eu passei a trabalhar com aquilo. Foi quando eu botei na minha cabeça, foi quando, na verdade, eu vi que era possível trabalhar com o que gosta. Porque lá eu era um estagiário, mas eu estava sendo pago para trabalhar com o grafite, pra ensinar o grafite aos meninos. [...] E aí eu vi que era possível você se auto-sustentar com o que gostava. E eu ainda estava sendo pago. Encontrou na arte-educação uma forma de garantir sua sustentabilidade: “eu gostei da idéia arte-educação porque poderia trazer a minha auto-sustentabilidade e era uma coisa que eu gostava, eu sentia prazer [...]”. Conheceu a Rede de Resistência Solidária em Abril de 2005. “Conforme eu fui andando com a Rede [...] eu fui entendendo qual era o propósito, o que cada coletivo tinha pra fazer mesmo dentro da comunidade, entender o que era possível de fazer.” Em 2007, nasceu o Coletivo Nova Geração. Sua sustentabilidade vem do estúdio do Coletivo e das atividades com arte-educação. 5.2 O trabalho e o seu sentido para Galo Atualmente o trabalho de Galo se resume ao grafite e ao Coletivo Êxito de Rua, mas outras ações caminham em paralelo: oficinas, shows e mutirões organizados pela Rede. O Coletivo Êxito de Rua nasceu em 2000 e encontrou no rap uma forma de se expressar. Galo também foi o idealizador da Rede de Resistência Solidária. A Rede nasceu em Janeiro de 2005 através do Mutirão de Grafite, ação onde vários grupos saem pra pintar a cidade. Com o grande número de grupos e comunidades do Recife (mais de sessenta) que começaram a participar da Rede foi necessária uma maior formalização das atividades. A consequente perda da espontaneidade foi um dos motivos que levou a Rede a diminuir a frequência de algumas atividades mais burocráticas, como reuniões e encontros de planejamento. Mas o mutirão continua acontecendo uma vez por mês em várias localidades do Recife. A princípio, a intenção da Rede era, segundo o entrevistado, criar um “diálogo revolucionário dentro das comunidades”. Mesmo com essas dificuldades, Galo afirma que a Rede continua existindo: “A rede não é só as organizações e não é só as pessoas, a Rede é uma pessoa só que se organiza em rede, conhece muita gente, se comunica em rede”. Sobre seu trabalho, Galo afirma que é algo para a vida toda: “Não é uma coisa que eu vou fazer e daqui a um ano subir no pódio assim. É a minha vida que eu tou fazendo.” Há, 10 portanto, uma certa indistinção entre trabalho e vida. Aliás, para Galo seu trabalho é parte central de sua vida. Pode-se ver nessa passagem que o trabalho é algo que se confunde e se constrói concomitantemente com a vida do entrevistado. Não há mudanças, nem adoção de valores como ocorre com trabalhadores de organizações formais. É notável que Galo não tem pressa em desenvolver seu trabalho, pois não tem por objetivo conquistar uma posição no mercado formal. A sua experiência com o trabalho, como se pôde perceber no seu discurso, começou desde muito jovem. Quando criança ele vendeu jornal por conta própria. Na passagem abaixo, ele faz uma breve descrição dos lugares por onde passou antes de viver do Hip Hop: Minha experiência de trabalho foi assim: eu nunca trabalhei numa empresa. Trabalhei numa época...passei uns três meses trabalhando numa oficina de refrigeração. O meu primeiro trabalho que eu tive, trabalho mesmo, foi numa farmácia entregando remédio. Eu entregava remédio de bicicleta. Eu comecei a trabalhar lá panfletando e aí depois um cara da farmácia entrou de férias e eu entrei no lugar dele pra entregar de bicicleta. Pra mim foi a melhor coisa do mundo. Adorava entregar remédio. A farmácia era lá em Jardim Piedade. Eu achava legal, saía de bicicleta, entregava o remédio, voltava. Era criança, era meu trabalho. Meu primeiro trabalho, antes disso, foi vender jornal. Mas eu vendia jornal pra mim mesmo, não vendia pra ninguém. De alguma forma, ele reconhece que o trabalho formal não é o que ele deseja, porque possui traços que ele não quer para si. Contudo, fala da dificuldade de acesso ao mesmo. Assim, a sua opção pela atividade, principalmente de grafitagem, ora aparece como propósito de vida, ora como resignação a sua dificuldade de mobilidade social, conforme mostra seu depoimento a seguir: Muita gente procura trabalho, não existe trabalho. Muitas poucas vagas de trabalho, o mercado é muito pequeno, o mercado é muito fechado, muito competitivo, muito desleal, injusto, um monte de coisa que quase todo mundo sabe assim. Em outros trechos, é possível perceber que o entrevistado não se imagina fazendo parte do mercado formal. Afirma que não se imagina levando um currículo para procurar um emprego. Mesmo quando ele coloca como hipótese futura a necessidade de um outro trabalho, afirma que faria, mas colocando o filho como justificativa para o sacrifício pessoal. Se eu precisar, se chegar uma ocasião muito necessária assim, eu vou pintar muro de político, vou fazer qualquer coisa, vou vender picolé na praia. Se for pra meu filho, eu vou fazer qualquer coisa. Agora graças a Deus, não preciso. Eu sempre fui um vagabundo promissor. Auto-entitula-se como um “vagabundo promissor”, e esta condição diz ser a alternativa que ele encontra para enfrentar a necessidade. A expressão também mostra resistência à procura do mercado formal de trabalho. Pode-se inferir que mesmo que ele precisasse de outro trabalho para se manter, não se afastaria da sua arte, assim como não buscaria o mercado de trabalho formal, mas apenas pintaria para quem pudesse pagá-lo melhor por isso. É possível perceber a realização de seu trabalho sem se preocupar com o resultado, com o desempenho, quando o entrevistado conta que, em geral, escreve coisas sem pensar no que está escrevendo, mas que um sentido naquilo que foi escrito surge depois. Este fato 11 lembra características do período renascentista, onde o homem realizava um trabalho que refletia sua alma: Eu fiz um grafite, acho que em 98, aí eu escrevi lá nesse grafite uma frase [...] mais ou menos assim: não vou morrer sufocado por um sistema capitalista, me libertarei. Escrevi isso lá...essa frase aí. Na hora que vc escreve, que eu escrevi, eu não pensei tanto pra escrever. [...] Mas tem coisas, eu vejo assim, que faz sentido.[...]Eu precisava me libertar, mas do que o povo, mas do que as outras pessoas. Eu precisava pintar. Eu precisava fazer o que eu queria fazer. Sobre o dinheiro, foi possível perceber que é algo exterior ao seu trabalho, uma consequência e não a causa primeira, o inverso do que se percebe hoje em dia. Sua fala, a seguir, expressa esta condição: [...] Isso não tem dinheiro que pague. Se eu morrer hoje, eu acho que a minha missão ta feita. Tou fazendo o que eu preciso fazer. Tem pessoas que precisam ser pagar pra fazer alguma coisa. Eu preciso fazer o que eu preciso fazer. Se eu não fazer o que eu preciso fazer, eu acho que pra mim é mais problema do que eu fazer alguma coisa que alguém pagou pra fazer. Galo afirma que gosta de trabalhar fazendo a sua arte e quando alguém consegue gostar do seu trabalho é que ele consegue trabalhar. Afirma não faltar oportunidades de trabalho, pois conhece muitas pessoas. No seu discurso se nota certa reflexão: Eu ainda fico...não sei ainda o que vou fazer da minha vida. Pelo menos eu sou um pintor, né? Isso é a única coisa que eu tenho. [...] Eu escrevo, tô fazendo um livro, tenho vários projetos de disco [...]. Essas coisas não dá dinheiro. Não é por dinheiro também.” No seu discurso, não se percebe características de insegurança ontológica apontadas por Bendassolli (2007): depressão, falta de continuidade. Trata-se muito mais de uma reflexão. Galo já trabalhou para algumas empresas, o que ele chama de "trabalho comercial". Ele não parece ter o mesmo orgulho desses trabalhos como tem dos que são realizados na rua, sem receber dinheiro: “já fiz trabalho pra várias empresas, mas eu não tenho nada desses trabalhos [...] eu não guardo esse material. Eu nunca me interessei em guardar”. Porém não é da rua que galo tira seu sustento. Na rua eu não ganho dinheiro nenhum. Eu ganho dinheiro quando eu faço trabalho. Por exemplo: eu vou pintar em algum lugar, aí eu cobro pra pintar quando alguém quer que eu pinte. Mas tem pessoas que me chama e não tem dinheiro, aí eu faço de graça. Tem vezes que eu faço o trabalho e digo assim: você me pagaria quanto? Aí a pessoa diz. Eu faço. A maioria das pessoas vive com um salário mínimo, com dois salários mínimos. Se eu consigo mil reais por mês, eu já tou satisfeito. Sobre seu sustento afirma que ter dinheiro é necessário, mas que ele tenta não se preocupar com isso: “tenho tanta coisa pra fazer que eu prefiro esperar um dia após o outro do que me aterrorizar com o que vai vir muito lá na frente.” Sobre o horário de trabalho, afirma que, algumas vezes, quando está preocupado, não consegue pintar, principalmente trabalho comercial. Mas não é sempre que se sente assim. 12 Perguntou-se no final da entrevista qual o significado do trabalho dele e como ele definia seu trabalho. A resposta foi: Na real mesmo, às vezes eu sei o que é, às vezes eu não sei. Eu queria fazer um trabalho pra ajudar. Eu queria fazer um trabalho pra mudar. Eu não quero fazer um trabalho só por fazer um trabalho. Não me interesso em pintar só pra ganhar um trocado. Não me interesso em ocupar um espaço só pra sobreviver assim. Eu quero fazer uma coisa que mude [...] que possa fazer alguma diferença. Eu quero que meu trabalho faça alguma diferença. Talvez Galo tenha entendido a pergunta tomando como referência o trabalho no sentido de emprego. Assim, a expressão “às vezes eu sei o que é” indica um trabalho que ele percebe enquanto trabalho porque está recebendo pela atividade. Já a expressão “às vezes eu não sei o que é” aponta que há uma confusão na sua forma de entender o trabalho, pois que ele realiza uma mesma atividade ora sendo remunerada, ora não sendo, como no caso de uma pintura em um muro da cidade. Percebe-se que o entrevistado não consegue definir claramente seu trabalho, pois apesar deste ser uma forma alternativa ao trabalho realizado no mercado formal, não consegue “ser livre” da relação com este mesmo mercado, uma vez que ele precisa ganhar algum dinheiro para realizá-lo às vezes, a título de sustento. Entretanto querer que seu trabalho faça a diferença e contribua de alguma forma com a comunidade, colocando este objetivo acima do próprio retorno financeiro, faz de Galo um sujeito que coloca seu trabalho como sua missão de vida. Assim, pode-se perceber que seu trabalho é cheio de sentido, pois que se confunde com sua própria vida. 5.3 O trabalho e o seu sentido para Pixote Pixote trabalha com oficinas de arte-educação, com pintura e no estúdio do Coletivo Nova Geração. O estúdio, chamado Barraco Estúdio, desenvolve atividades de produção de áudio e vídeos. Sobre suas atividades no estúdio afirma: “a gente faz cobertura de eventos, a gente faz cobertura de aniversários. Esse tipo de trabalho é a nossa sustentabilidade.” O seu primeiro emprego com carteira assinada foi de zelador de um condomínio, durante mais de um ano. Saiu do emprego porque disse que eram muitos patrões: “cada um que mande uma coisa diferente e aí pra mim foi complicado”. Posteriormente trabalhou numa empresa de confecções, graças a um curso de serigrafia que havia feito antes, mas “por um mal entendido, na verdade, rescindiram meu contrato lá.” Pixote continuou em busca de outros empregos formais: “Quando eu saí dessa empresa, eu comecei a procurar outras empresas e vi que não era assim tão fácil.” Sobre suas experiências de trabalho anteriores, as considera um trabalho forçado, feito para se manter, para manter sua família. Nota-se que há o “dever de trabalhar”, mesmo que este seja movido por uma necessidade. Esse “dever” pode ser caracterizado como herança da antiga ética protestante, sendo que esta pregava o dever de trabalhar como forma do indivíduo conseguir a salvação. Eu mesmo já fui forçado a trabalhar em outras coisas. Eu terminei só o ensino médio, não fiz faculdade. Mas aí eu já trabalhei de zelador, de estampador de camisa. Já trabalhei como vendedor, várias coisas assim. Agora esses outros trabalhos, sinceramente, pra mim, era trabalho forçado porque era um trabalho que eu estava trabalhando simplesmente pra me manter. Mas não era o que eu gostava de fazer. 13 Na época que Pixote estava desempregado, já conhecia o grafite e a serigrafia. Decidiu então que ia trabalhar por conta própria, pintando suas camisas. Com ajuda da sogra, que lhe cedeu um quarto na sua casa, ele iniciou seu próprio trabalho. Passei a trabalhar nesse quarto e com o tempo eu tomei conta da casa toda. As demandas de trabalho foi muita, de camisa e tal. Agora tinha um lado negativo também. Eu tava me sentido um pouco realizado porque não tava dependendo de ninguém. Eu dependia de mim, da minha correria, do meu trabalho. Mas tinha um lado negativo pra mim, eu trabalhava, eu acordava pra pintar e dormia pra pintar. Eu passava o dia todo pintando e ficava até de madrugada. Eu só parava mesmo quando não agüentava. Percebe-se que mesmo realizando um trabalho através da sua arte e recebendo por isso, Pixote não estava satisfeito. A lógica de produção em massa, com o objetivo de produzir sempre mais, sugava suas forças, mesmo ele sendo seu próprio patrão e trabalhando com algo que gostava. Abandonou esse trabalho assim que percebeu que daria pra se manter com as oficinas que ministrava nas ONGs. Junto com a Rede realizou trabalho em diversas comunidades e também teve a idéia de criar o Coletivo Nova Geração, já em 2007: “o Nova Geração foi pensado para ser um estúdio de grafiteiros, mas depois a gente conheceu a música caseira através do Coletivo Êxito de Rua, o formato de música que o Êxito de Rua produzia”. O estúdio foi montado em uma parte da casa que o pai de Pixote deixou de herança para ele e seus irmãos. Pixote acabou se afastando das ações da Rede pra se dedicar à própria comunidade. Afirma que “a gente ainda é a Rede, mas é porque a demanda fica tão grande que cada um também tem que fazer a sua própria correria”. Considera que o dinheiro que recebe pelos seus trabalhos é um dinheiro fácil: “Todo trabalho que é prazeroso, que é porque você gosta, ele se torna um dinheiro fácil porque você não sente que está trabalhando ali”. Também fala dos planejamentos em relação ao dinheiro, pois nem sempre é garantia que ele irá ter o dinheiro do próximo mês: “Quando a gente tem uma grana legal, a gente tem que pensar em dois ou três meses.” Uma alternativa pra esses meses difíceis é o que ele chama, assim como Galo, de "trabalho comercial": “Aparece uma escola, aí eu vou lá e pinto a escola”. Essas situações deixam Pixote angustiado, mas mesmo com essa dificuldade, mostra-se satisfeito com o seu trabalho. Eu vi que a melhor coisa não é a correria pelo dinheiro, mas sim por aquilo que você ama fazer [...] O dinheiro facilita muita coisa, ajuda muito, mas não é tudo. O dinheiro não pode comprar felicidade, não pode comprar um amor de um amigo, de um ente querido. E por que eu vou ta me matando pelo dinheiro. Com certeza, eu vou ta correndo atrás dele porque ele á única maneira de sobreviver. Se existisse realmente de fato uma coisa concreta que pudesse nos sustentar que não fosse o dinheiro, com certeza eu ia correr pra esse lado. Mas hoje, não existe. Eu trabalho pelo dinheiro, mas não que ele seja o meu objetivo. O meu objetivo é realmente atingir, digamos que a minha felicidade e a minha felicidade é tentar pelo menos transformar a juventude, tentar trazer novas possibilidades. Pixote acredita que “a melhor maneira de você ganhar o dinheiro da sua sobrevivência é tentar trabalhar com aquilo que gosta”. Ele realiza o seu trabalho com o objetivo de torná-lo acessível a outras pessoas. Durante a entrevista, afirma que muitas pessoas têm preconceito com o rap, sem mesmo saber do que se trata. Quando os CDs são vendidos a um preço de R$ 10,00 ou R$ 15,00, as pessoas não vão querer comprar, segundo o entrevistado. Mas ele acredita que a 14 produção de CDs a um preço acessível, como os que ele produz, permite que as pessoas tenham acesso à comunicação e a cultura. Assim, infelizmente não temos como fugir do capitalismo, precisamos de dinheiro pra sobreviver. A gente não pensa em ser rico, não pensamos em esbanjar o dinheiro, mas a gente quer o necessário pra poder sobreviver, pelo menos, com dignidade. Por isso que a gente tenta trabalhar nessa linha independente também, porque a gente trabalha com o que gosta e não pelo que é forçado. A entrevista termina com o seguinte comentário de Pixote sobre o mercado de trabalho formal: “O que é um grande escravizador? Escravizador é o empresário que ganha muito em cima de trabalho escravo dos outros”. Para o entrevistado seu trabalho é “o caminho da livre escolha, se chama ser livre [...] você poder escolher de onde você vai tirar o seu dia-a-dia, você escolher o que você quer fazer, você escolher pra onde você quer ir”. 5.4 Os ethos utilizados pelos sujeitos Como discutido na fundamentação teórica, na modernidade o sentido do trabalho e o valor que ele tinha na sociedade eram apresentados por meio de uma metanarrativa social que permitia ao indivíduo formar sua identidade e atribuir sentido ao seu trabalho. Entretanto, a pós-modernidade e suas várias incoerências teriam enfraquecido a metanarrativa. A consequência foi a procura pelos indivíduos de outras narrativas a fim de construir a identidade e dar sentido ao trabalho. Bendassolli (2007) elaborou cinco narrativas públicas, os ethos, que os indivíduos usam para atribuir sentido ao trabalho na atualidade. O cruzamento dos vários ethos com os dados obtidos na pesquisa permitiu encontrar em que dimensão, mais precisamente, qual narrativa, os trabalhos realizados por Galo e Pixote se fundamentam. Percebe-se que ambos resistem às narrativas dos ethos instrumental, consumista e gerencialista. Tais narrativas são mais utilizadas pelos indivíduos atualmente, como reflexo do sistema hegemônico e da lógica do mainstream. Apesar de encararem o trabalho com responsabilidade, ambos o associam ao prazer. Nas suas narrativas não há separação entre trabalho e prazer. Com isso, pode-se perceber que o ethos moral-disciplinar também não está na base de suas narrativas. Tipos de Ethos Pressupostos Galo Pixote ethos moraldisciplinar O trabalho é visto com responsabilidade, independente de trazer prazer ou não. O indivíduo que o realiza aparece aos olhos dos demais como uma boa pessoa que está fazendo apenas sua obrigação. A identidade íntima não está associada ao trabalho, ficando a cargo de outras áreas da vida. O trabalho é visto como um fim em si mesmo, sendo importante para a definição da identidade, pois é a “identidade-em-construção” O indivíduo dedica-se a um dom. O trabalho é associado ao prazer. Galo não se imagina realizando um trabalho que não seja com sua arte. Sua identidade, sua maneira de se vestir, seus contatos, sua vida é definida pelo trabalho. Dedica-se a sua arte e seu dom, vistos como uma maneira de se realizar. Não coloca o dinheiro como causa primeira. Trabalha com o que ama fazer. “É a minha vida que eu tou fazendo.” Trabalhar sem exercer sua arte é visto por Pixote como trabalho forçado. Considera o prazer necessário para que desempenhe suas atividades, pois é preciso ter amor para trabalhar com arte. O trabalho com a arte é visto como causa primeira e necessária para atingir a felicidade, mas reconhece a importância do dinheiro para sobreviver. “O meu objetivo é realmente atingir [...] a minha felicidade.”. ethos românticoexpressivo 15 Tipos de Ethos ethos instrumental ethos consumista Pressupostos Galo Pixote O trabalho não é uma certeza e sim um vínculo instável, visto como emprego. Não há associação com a identidade, “a menos que essa associação redunde em geração de valor econômico, como quando um vendedor ‘empresta’ sua personalidade para seduzir o cliente, se necessário for, quanto à qualidade do produto em questão” (BENDASSOLLI, 2007, p. 238). O trabalho é apenas um meio para obter prazer. A identidade é pensada num contexto de consumo e depende de quanto ela agrega de visibilidade e de coerência com os ideais de consumo do sujeito. A preocupação é com o poder aquisitivo para permitir o acesso ao mercado de bens de consumo. Nunca trabalhou de carteira assinada e não se ver procurando emprego para ter que dar sentido ao seu trabalho. O trabalho que realiza para organizações formais é antes por necessidade de obter dinheiro. Teve vários empregos com carteira assinada, mesmo quando trabalhou em ONGs. Não trabalhar com arte é visto como trabalhar forçado. O objetivo do seu Apesar de considerar o trabalho não é primeiro dinheiro importante, obter acesso ao afirma “se existisse (...) consumo. “Sempre uma coisa concreta que andei sujo de tinta e pudesse nos sustentar maltrapilho.” Viu que não fosse o vários amigos morrer dinheiro, com certeza por causa de roupas e eu ia correr pra esse tênis da moda, mas lado.” Não demonstra o nunca se motivou por perfil do consumista desse ethos. consumi-los. ethos O trabalho não é estável. O Não apresentam nas suas narrativa os discursos gerencialista conceito de emprego é substituído difundidos pelo management, nem a preocupação por projeto. O indivíduo deve se com um projeto profissional de construir carreira considerar uma empresa de si como se vê no mundo dos negócios. São mesmo, não dependendo de “empreendedores de si mesmo”, mas porque instituições. sabem que o trabalho depende deles, da arte que desenvolvem. Figura 2 –Pressupostos Teóricos x Sentido do trabalho nas vidas de Galo e Pixote Fonte: Baseado em BENDASSOLLI, Pedro Fernando. Trabalho e identidade em tempos sombrios: insegurança ontológica na experiência atual com o trabalho. Aparecida: Idéias & Letras, 2007. Neste sentido, os indivíduos estudados baseiam sua narrativa no ethos românticoexpressivo. Para Galo o trabalho é algo que se constrói com sua própria vida, que tem por objetivo mais mudar o mundo do que receber apenas gratificações. Já para Pixote, o trabalho que realiza é independente, ou seja, não é o trabalho forçado, realizado somente para se manter. Ele, assim como Galo, tem objetivos maiores, que são: alcançar a própria felicidade e contribuir com a comunidade. 6. Considerações finais O interesse em estudar qual a dimensão do trabalho para indivíduos de um movimento social surgiu como forma de contestar e explorar outras possibilidades de dar sentido ao trabalho além da difundida pela lógica do mainstream. As pesquisas que têm norteado os estudos sobre trabalho se baseiam na atual concepção de trabalho, visto como emprego. Outras atividades, além do mercado de trabalho formal, que são responsáveis pelo sustento de indivíduos como Galo e Pixote e representam resistência ao processo de mercantilização, são consideradas, aqui, como necessárias ao estudo do trabalho. Para os sujeitos pesquisados, o sentido do trabalho não está relacionado à lógica hegemônica, o que fica evidente quando não se definem através dos ethos mais utilizados por indivíduos que estão imersos no mercado de trabalho formal: ethos instrumental, ethos consumista e ethos gerencialista. O trabalho de Galo e Pixote é visto antes como algo que se justifica por si mesmo, baseado numa narrativa romântico-expressiva. É um trabalho que quer mudar o mundo e a 16 comunidade, que busca primeiro a felicidade, que é independente, que se constrói com a vida e que se mistura a ela. Não se pretende generalizar os resultados aqui obtidos, ou seja, não necessariamente outros indivíduos envolvidos com o Hip Hop ou outros movimentos sociais fundamentam seu trabalho na dimensão romântico-expressiva. Mas pretende-se aqui instigar que outras pesquisas sejam realizadas com indivíduos em cujas organizações realizem trabalhos fundamentados em lógicas diversas às das empresas, visando o anunciar de outras possibilidades de trabalho e vida. 7. Referências ALBORNOZ, Suzana. O que é trabalho. São Paulo: Brasiliense, 2008. ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 6ª reimp. São Paulo-SP: Boitempo editorial, 2003. BARRETO, Silvia Gonçalves Paes. Hip-Hop na região metropolitana do Recife: identificação, expressão cultural e visibilidade. 2004. 188f. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Universidade Federal de Pernambuco. Recife: O Autor, 2004. BENDASSOLLI, Pedro Fernando. Trabalho e identidade em tempos sombrios: insegurança ontológica na experiência atual com o trabalho. Aparecida: Idéias & Letras, 2007. DOURADO, D. C. P. ; HOLANDA, L. A. ; SILVA, M. M. M. ; BISPO, D. A. Sobre o sentido do trabalho fora do enclave de mercado. 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